Uma das características mais marcantes da revista Justice
League of America sob a edição de Julius Schwartz eram as capas
chamativas e, por vezes, surreais. Frequentemente, essas capas eram concebidas
antes mesmo do roteiro, desafiando os escritores a criarem tramas que
justificassem aquelas imagens absurdas. Alan Moore explora com maestria essa
metalinguagem em Supremo #48.
Na trama moldura, Supremo reúne o grupo anteriormente
conhecido como Aliados para resgatar as almas do Professor Meia-Noite e
de sua ajudante, Sombria. Enquanto os heróis viajam, eles relembram
aventuras passadas, o que serve de pretexto para a introdução de capas
fictícias de "edições antigas", enquanto o diálogo de fundo sintetiza
a história.
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| A capas reproduziam a estética da Liga da Justiça clássica. |
A primeira capa apresenta o embate contra Florax, o
Dominador, uma planta senciente que colonizou cidades com seu perfume
hipnotizante. O vilão foi neutralizado pelo Caçador Espacial, cuja fisiologia
única o tornava imune ao aroma, permitindo que o destruísse com um herbicida. A
arte de Rick Veitch (que emulava com perfeição o traço da Era de Prata)
reproduz todos os maneirismos da época: o título em moldura, as fontes
clássicas e o rodapé listando os heróis presentes — uma tática de marketing de
Schwartz para fisgar os leitores nas bancas.
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| Glory reclama de ser presa: ecos da origem bondagista da Mulher Maravilha. |
A capa mais intrínseca à trama principal mostra os heróis em
grilões, puxando uma carroça de pedra sob o chicote do Escravizador de Almas.
Aqui, Moore insere uma referência jocosa e ácida à origem
"bondagista" da Mulher-Maravilha (criada por William Moulton
Marston). A personagem Glory comenta com ironia: “Eu não gostava desse
negócio de escravidão, sabe? Parece que entre os anos 40 e 60 eu acabava
amarrada mês sim, mês não”.
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| Crítica aos encontros dos Aliados: o que era novidade virou fórmula. |
Moore também utiliza esses diálogos para criticar o
esgotamento de fórmulas editoriais, como os encontros anuais entre grupos de
épocas ou dimensões diferentes:
“Na primeira vez foi legal, mas depois nos encontrávamos
todos os anos... ou eram duplicatas malignas, ou aliados de mundos paralelos.
No fim, só sabíamos quem era quem por pequenas diferenças nos uniformes!”
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| O desenhista Mark Pajarillo evita desenhar cenários, essenciais para a HQ. |
Se as inserções de Rick Veitch são um deleite de saudosismo
e sátira, a arte da trama principal é decepcionante. Enquanto o roteiro de
Moore mergulha em conceitos densos do subconsciente — elementos que ele
refinaria anos depois em Promethea —, o trabalho de Mark Pajarillo
é visualmente pífio.
Seguindo os vícios do estúdio de Rob Liefeld, Pajarillo
negligencia os cenários (essenciais para entender a história), substituindo-os
por fundos confusos e hachuras excessivas que desorientam a leitura. É o
paradoxo máximo da fase Image de Moore: um roteiro de um gênio da literatura
gráfica preso em uma estética que priorizava músculos e poses em detrimento da
narrativa visual e da profundidade de campo.





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