domingo, novembro 01, 2026

Supremo - Imagine Isso...

 


Uma das características mais marcantes da revista Justice League of America sob a edição de Julius Schwartz eram as capas chamativas e, por vezes, surreais. Frequentemente, essas capas eram concebidas antes mesmo do roteiro, desafiando os escritores a criarem tramas que justificassem aquelas imagens absurdas. Alan Moore explora com maestria essa metalinguagem em Supremo #48.

Na trama moldura, Supremo reúne o grupo anteriormente conhecido como Aliados para resgatar as almas do Professor Meia-Noite e de sua ajudante, Sombria. Enquanto os heróis viajam, eles relembram aventuras passadas, o que serve de pretexto para a introdução de capas fictícias de "edições antigas", enquanto o diálogo de fundo sintetiza a história.

A capas reproduziam a estética da Liga da Justiça clássica. 


A primeira capa apresenta o embate contra Florax, o Dominador, uma planta senciente que colonizou cidades com seu perfume hipnotizante. O vilão foi neutralizado pelo Caçador Espacial, cuja fisiologia única o tornava imune ao aroma, permitindo que o destruísse com um herbicida. A arte de Rick Veitch (que emulava com perfeição o traço da Era de Prata) reproduz todos os maneirismos da época: o título em moldura, as fontes clássicas e o rodapé listando os heróis presentes — uma tática de marketing de Schwartz para fisgar os leitores nas bancas.

Glory reclama de ser presa: ecos da origem bondagista da Mulher Maravilha. 


A capa mais intrínseca à trama principal mostra os heróis em grilões, puxando uma carroça de pedra sob o chicote do Escravizador de Almas. Aqui, Moore insere uma referência jocosa e ácida à origem "bondagista" da Mulher-Maravilha (criada por William Moulton Marston). A personagem Glory comenta com ironia: “Eu não gostava desse negócio de escravidão, sabe? Parece que entre os anos 40 e 60 eu acabava amarrada mês sim, mês não”.

Crítica aos encontros dos Aliados: o que era novidade virou fórmula. 


Moore também utiliza esses diálogos para criticar o esgotamento de fórmulas editoriais, como os encontros anuais entre grupos de épocas ou dimensões diferentes:

“Na primeira vez foi legal, mas depois nos encontrávamos todos os anos... ou eram duplicatas malignas, ou aliados de mundos paralelos. No fim, só sabíamos quem era quem por pequenas diferenças nos uniformes!”

O desenhista Mark Pajarillo evita desenhar cenários, essenciais para a HQ. 


Se as inserções de Rick Veitch são um deleite de saudosismo e sátira, a arte da trama principal é decepcionante. Enquanto o roteiro de Moore mergulha em conceitos densos do subconsciente — elementos que ele refinaria anos depois em Promethea —, o trabalho de Mark Pajarillo é visualmente pífio.

Seguindo os vícios do estúdio de Rob Liefeld, Pajarillo negligencia os cenários (essenciais para entender a história), substituindo-os por fundos confusos e hachuras excessivas que desorientam a leitura. É o paradoxo máximo da fase Image de Moore: um roteiro de um gênio da literatura gráfica preso em uma estética que priorizava músculos e poses em detrimento da narrativa visual e da profundidade de campo.

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