terça-feira, junho 04, 2024

Por que nossos jovens não têm o hábito da leitura?

 



            Uma reclamação constante dos pais é: meus filhos não lêem. Quanto mais se aproxima o vestibular, mais comum é a reclamação quanto a esse item. No entanto, o que fazem os pais para incentivar seus pais a lerem?
A verdade é que, por trás dessa aparente preocupação há muita hipocrisia. A maioria das pessoas que reclama é gente que não lê e não dá valor aos livros. O discurso do faça o que eu digo, não o que eu faço dificilmente funciona quanto o assunto é hábito de leitura. Só aprende a gostar de ler quem vive rodeado de textos. É na interação com os livros e com os adultos que as crianças aprendem a dar significado à leitura.
Claro, muitos argumentam que não têm tempo para ler, mas será que isso é verdade? Tenho o costume de reservar um livro para filas. Sempre que entro em uma fila, já vou com meu livrinho embaixo do braço. Consigo ler pelo menos um livro de fila por mês, sem grande dificuldade.
Pais que passam o final de semana inteiro assistindo televisão e não pegam um livro, uma revista semanal para pelo menos passar os olhos estão dando a seus filhos a lição de que é possível reservar tempo para tudo, menos para ler.
Apesar de tudo, há algumas crianças, que, mesmo sem maior estímulo começam a ler. Uma amiga minha, diretora de uma escola, diz que as crianças até os seis/sete anos são freqüentadoras assíduas da biblioteca escolar. A partir dessa idade elas vão diminuindo suas visitas até desaparecerem por completo.
O que acontece nesse meio tempo? O que faz com que crianças que eram muito interessadas em leituras percam o interesse?
Por incrível que pareça, a culpa é justamente das duas figuras que mais reclamam da falta de leitura dos jovens: os pais e a escola.
A escola trata o texto não pelo prazer de tirar dele seus vários significados, mas como desculpa para encontrar ditongos, hiatos e verbos e dificilmente tem programas sérios de incentivo à leitura.
Há algum tempo a editora Mithos, em convênio com a italiana Bonelli, resolveu incentivar a leitura distribuindo gibis de personagens como Tex, Zagor, Dylan Dog e outros para alunos da sexta-série e ensino médio. A idéia era fazer isso em escolas públicas e privadas. Na escola pública escolhida, depois de nove dias de espera, os editores ouviram da coordenadora pedagógica que os gibis eram inadequados para seus alunos. Provavelmente essa mesma coordenadora é uma das que reclamam diariamente da falta de leitura dos estudantes...
Essa postura revela uma moral preconceituosa: existem leituras adequadas e leituras inadequadas. Leitura adequada é leitura só de livro. Leitura formal, intelectual e poucas vezes relacionada com a vida do aluno. A leitura divertida, para essa visão antiga, é quase sempre inadequada.  Postura muito distante dos paradigmas atuais, que falam de leitura de mundo. Um bom leitor não é só leitor de livros. Ele lê tudo, de livros a propagandas, passando por gibis e livros de ficção-científica. Tudo pode ser passível de leituras, até os gestos das pessoas. Desse ponto de vista, a leitura de uma história em quadrinhos é tão saudável quanto a de um livro.

Watchmen

 



Watchmen surgiu de um pedido que Dick Giordano, editor da D.C., Comics fez a Alan Moore. A editora do Super-homem adquirira os direitos sobre os heróis da extinta Charlton Comics e a idéia era fazer uma minissérie em 12 partes com eles. Mas a proposta apresentada pelo roteirista era tão revolucionária que Giordano resolveu dissociá-la dos heróis da Charlton. Assim, o Capitão Atómo tornou-se o Dr. Manhattan, o Pacificador tornou-se o Comediante e o Besouro Azul contentou-se com o título de Nite Owl.
 O enfoque básico de Watchmen partia de uma idéia que Moore já havia experimentado em Miracleman: o que aconteceria se os super-heróis realmente existissem?
Moore havia pensado nessa possiblidade quando ainda era criança e lia as paródias de Harvey Kurtzman na revista Mad, que mostrava, por exemplo, o Super-homem fazendo compras num supermercado. Mas Kurtzman usava o recurso para causar um efeito cômico e Moore pretendia, girando o parafuso, alcançar um efeito dramático.
Assim, Moore faz a pergunta: como seria um mundo sobre o qual os super-heróis realmente caminhassem? Como eles se relacionariam com os seres humanos normais, quais seriam suas angústias, que consequências isso teria?
Para responder a essas perguntas, Moore lançou mão de um dos princípios da teoria do caos: o efeito borboleta. Esse conceito foi elaborado a partir da grande dependência das condições iniciais apresentadas pelos fractais. A mudança de um único número pode transformar completamente o formato de um desenho fractal.  A mesma regra vale para alguns eventos não lineares. Assim, o bater de asas de uma borboleta em Pequim pode modificar o sistema de chuvas em Nova York.
                Moore transpôs o conceito para os quadrinhos. Se o bater de asas de uma borboleta pode ter consequências tão imprevistas, imagine-se o surgimento de super-heróis... Para Moore, o mundo jamais seria o mesmo.
                Até então, os avanços tecnológicos conseguidos pelos super-heróis não afetavam em absoluto o mundo em que viviam. Um exemplo disso são as histórias do Quarteto Fantástico, no qual apareciam foguetes estelares e computadores capazes de criar realidade virtual, mas isso não mudava em nada a vida das pessoas comuns.
 O mundo de Watchmen que, até a década de 60 era semelhante ao nosso, transforma-se com o surgimento do primeiro herói com superpoderes de verdade, o Dr. Manhathan, um ser tão poderoso que um cientista teria dito sobre ele: “Deus existe, e é americano!”.
Assim, no mundo de Watchmen, carros elétricos são realidade, assim como perus com quatro coxas. Os EUA ganharam a guerra do Vietnã e Nixon permaneceu no poder, se reelegendo vezes seguidas. Tudo mudou, do micro ao macro.
Isso tudo é contado de forma realista, com heróis que morrem porque a capa enganchou na porta giratória do banco ou vilões que fogem porque o herói precisou parar a perseguição para ir ao banheiro.
Outra inovação foi a forma narrativa: Watchmen é repleto de flash-backs que vão destrinchando os personagens, suas motivações e os acontecimentos que, como um efeito borboleta, mudaram tudo. Moore inovou também ao colocar anexos às HQs, que ajudam a contar a história: prontuários médicos, trechos de livros, artigos científicos. Tudo isso forma um quebra-cabeça que precisa ser montado pelo leitor.
Watchmen é tão complexo que foi alvo de diversos estudos acadêmicos, que destrincham seus aspectos filosóficos, científicos, sociológicos. Ou seja: uma obra com múltiplas leituras.

A corrida das vacinas

 


Dividido em cinco partes, A corrida das vacinas é um documentário da Globo Play disponível inclusive para não-assinantes. É uma obra fundamental para entender os tempos nos quais estamos vivendo.

A narrativa é focada em mostrar como ocorreu o processo de elaboração das vacinas contra covid, como cada uma funciona, e como foi possível fazer vacinas seguras em tão pouco tempo – e como esse incremento de tecnologia vai ajudar no futuro a desenvolver vacinas para outras doenças com um tempo muito menor do que antigamente.

A equipe do documentário acompanha uma enfermeira que participou dos testes da coronavac, uma senhora de 95 que ficou isolada todo o tempo antes de se vacinar, vai até a Rússia, a Inglaterra e a Índia, visitando laboratórios onde são produzidas as vacinas que estão sendo aplicadas no Brasil ou que estão sendo compradas para aplicação.

Há também entrevistas com especialistas que explicam, de maneira muito didática, a doença e a ação das vacinas.

E, como não poderia deixar de ser, mostra também todo o ambiente que permeou a pandemia. Entre os momentos mais bizarros, um protesto em São Paulo, em dezembro do ano passado, contra as vacinas, o uso de máscaras e tentando convecer os idosos a participarem de comemorações de Natal.

A corrida das vacinas é um documentário dinâmico e didático, que explora bem os temas sem cair na chatice de outros documentários. Obrigatório para entender o momento atual.

Gerações, de John Byrne

 


Entre os vários trabalhos de John Byrne para a DC, um dos mais interessantes foi Gerações, publicado em 1999.
Gerações mostrava a evolução dos personagens Batman e Superman, os dois primeiros da DC com uma novidade: Byrne fazia os personagens envelhecerem (um ano para cada ano do mundo real). Além disso, ele mostrava os personagens como eles eram retratados naquele período – o que levou a críticas de aficionados por cronologias, mas é justamente um dos aspectos mais divertidos dessa minissérie.
Na primeira história, em 1939, o Superman é desenhado ao estilo de Joe Shuster, seu emblema é triangular e ele não voa, apenas pula. E Batman era chamado de Bat-man, tinha orelhas muito pontudas e uma capa que simulava as asas de um morcego. A razão disso é que era assim que esses personagens eram retratados nesse período.
A HQ mostra versões alternativas dos heróis da DC. 


Quando a história pula para 1959, Byrne simula o estilo amalucado da era de prata. Batman usa uma máscara praticamente sem orelhas de morcego, usa um girocóptero e enfrenta um galpão que ganhou vida, pés, mãos e rosto – e o vence cavalgando-o. Enquanto isso, Superman se transforma num monstro gigante e é salvo por Jimmy Olsen com um capacete mental. O capítulo é uma divertida homenagem à era de prata e aos enredos surreais do período.
Aliás, divertido é um ótimo adjetivo para essa mini. Mesmo depois, quando a história pula para 1999, uma época em que os quadrinhos se tornaram sombrios, o que vemos são sempre heróis sorridentes, sem muitos dramas de consciência ou dilemas. São heróis e ponto – algo que talvez falte ao gênero nos últimos tempos.
O sucesso foi tão grande que estimulou Byrne a fazer uma segunda série, Gerações 2, cobrindo alguns vácuos na história e introduzindo outros heróis da DC. A história de abertura, com Gavião Negro, Falcões Negros e outros heróis enfrentando nazistas é eletrizante. Além disso, é empolgante ver John Byrne desenhando diversos heróis da DC – embora aqui ele faça lápis e arte-final, o que deixa seu desenho menos detalhado.
Novamente o sucesso fez com que ele pensasse em uma continuação. Geração 3, no entanto, não foi uma boa ideia. Byrne já tinha usado todos os seus truques e preenchido todas as lacunas. Ele então resolveu fazer uma história grande – ao contrário das histórias curtas das séries anteriores – de invasão alienígena. Essa última não tinha o charme das outras e o roteiro era confuso.
Os filhos dos protagonistas também se tornam heróis. 


Essa série sofreu nas edições brasileiras. Gerações 1 e 2 foram publicados pela Opera Graphica. Embora a impressão fosse boa, havia problemas de balonamento (em alguns momentos parecia que uma criança estava escrevendo o texto dos balões). Já Gerações 3 foi publicado pela Mythos, que botou um papel de qualidade ruim, uma impressão que deixava tudo muito escuro (o texto introdutório de Byrne é um bom exemplo desses problemas de impressão, sendo praticamente impossível de ler).

Privatizar a educação?

 



Eu trabalhei durante 12 anos em faculdades particulares.
Nesse período encontrei algumas poucas faculdades sérias. Sérias no sentido de ensino, de serem boas escolas de terceiro grau. Em nenhuma delas, nem mesmo nas mais sérias, havia programa de incentivo à pesquisa ou extensão. Quando alguém realizava pesquisa, era por conta própria.  Tive colegas de trabalho, professores universitários há anos, que nunca publicaram uma única linha e nunca participaram de um único congresso.
Mas nesses 12 anos encontrei também muitas faculdades pilantras. Faculdades que não tinham sequer biblioteca ou laboratório. Faculdades que alugavam currículos quando chegava uma comissão do MEC. Faculdades que contratavam professores doutores e mestres quando chegava comissão do MEC – e os demitia assim que a comissão do MEC pegava o avião.
Para terem uma ideia, certo professor levou os alunos para a própria produtora para que eles tivessem algum contato com a prática – já que na faculdade não tinham laboratório. Como resultado foi demitido porque os alunos não estavam na faculdade na hora da aula. Ou seja: não havia compromisso nenhum com o aprendizado dos alunos.  O importante era o dinheiro das mensalidades.
Foram tantas histórias que acumulei nesses 12 anos que dava não um texto, mas um livro.
Aí eu vejo gente comemorando a diminuição das verbas das universidades públicas e propondo o fim dessas universidades. “Privatiza tudo”, dizem.
A maioria nunca pisou numa instituição de ensino superior, a julgar por comentários como: “As universidades hoje em dia têm servido de paucos para idielogia que em nada muda a minha vida.” (SIC).
Ou se formaram em faculdades particulares cuja mensalidade era de 5 mil reais.

Galeão - um mistério para desvendar

 

Cássia Lima

Existem vários tipos de leituras, umas nos decepcionam no final. Outras são bem previsíveis. Ainda há aquelas que nos surpreendem. E é nesse ultimo estado que termino de ler O Galeão - Gian Danton
Depois de uma noite terrível de tempestade, o dia amanhece em um Galeão no meio do oceano atlântico. Um assassinato inicia a narrativa de maneira provocativa e instigante. Os tripulantes descobrem que estão perdidos no oceano. Passado, presente e futuro se misturam no romance. Flashbacks nos fazem conhecer o passado de personagens mais temer o seu futuro. A comida começa a ser racionada, alguém está cometendo assassinatos e parece que o destino de todos já está traçado. O Tesouro do capitão pode ser o motivo de tudo...
À medida que Gian Danton revela o passado dos personagens, ele nos provoca e instiga a atenção para as próximas páginas. Cada detalhe tem seu valor, lembranças podem ser fantasias e sonhos tornam-se realidade. A narrativa em flashbacks, além de aguçar a curiosidade nos prepara para o próximo acontecimento.
Cada revelação nos deixa extasiado, cada capítulo nos faz ver a história diante de nossos olhos, o suspense chega a ser doloroso para o leitor. A partir do capítulo 14 as palavras de Gian Danton não permitem que fechemos o livro.
O primeiro romance desse autor além de provocar a leitura, mexe com a nossa percepção de detalhes, nos deixa pensativos sobre o que cada pessoa preserva do seu passado, a riqueza da descrição nos deixa atônito, a mistura de tantas personalidades nos impressiona, e o casal...Bom, vocês só irão saber se lerem, não vou dar spoilers aqui.
Tolkien, criador do O Senhor dos Anéis escreveu sobre Um anel “Um Anel para a todos governar. Um anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los”.
Parafraseando Tolkien, a minha definição do Galeão é:
“Um passado para revelar, Um mistério para desvendar e Um tesouro para trazer e na escuridão aprisionar”.
Que reviravolta! Fim surpreendente.

segunda-feira, junho 03, 2024

Radioactive – filme conta a vida de Marie Curie

 


Marie Curie é uma das mulheres mais importantes da ciência. Ganhadora de dois prêmios Nobel por suas pesquisas sobre radiação, foi a pessoa que abriu caminho para que as mulheres pudessem ingressar na vida científica, até então um meio dominado praticamente só por homens.

É a vida dessa heroína da ciência que é contada no filme Radioactive. A diretora do longa lançado pelo Netflix é a iraniana Marjane Satrapi, mais conhecida no Brasil pela história em quadrinhos Persépolis. Por sua vez, Satrapi adapta a história em quadrinhos Radioactive: Marie & Pierre Curie: A Tale of Love and Fallout, de Lauren Redniss.

O filme conta a história da cientista desde quando ela conhece seu futuro marido, Pierre Curie. Este não só se apaixona por ela, como consegue perceber que tratava com uma pessoa genial – e geniosa. O casal se envenou com radiação quando fazia suas experiências. Pierre, que adoeceu antes, foi atropelado por uma charrete e morreu. Marie morreu muito tempo depois. Sua trajetória inclui as dificuldades de uma mulher cientista sociedade conservadora e xenófoba e a falta de verbas para pesquisa.

A grande questão por trás da pesquisa de Pierre e Marie é que a descoberta feita por eles representou esperança e saúde, como a radioterapia para câncera e o raio x, que salvou diversas vidas, mas também provocou milhares, talvez milhões de mortes, a exemplo das bombas atômicas sobre o Japão. O filme explora muito bem esse aspecto ao introduzir insertes com cenas futuras, flash fowards, que explicam ao expectar os aspectos nocivos e benéficos da radiação. Mais do que uma biografia, o filme se torna também um comentário sobre como descobertas importantes podem ser apropriadas para o bem e para o mal.

Além da direção segura e realmente competente de Satrapi, o filme conta com a atuação inspirada de Rosamund Pike no papel principal. Difícil pensar em Marie Curie sem lembrar da atuação dessa atriz. Anya TaylorJoy, que faz a filha da cientista, aparece apenas na segunda parte, mas rouba a cena.

Em outras palavras: é um filme em que mulheres, apropriadamente, brilham.

Leitura e escola

 

A preocupação com a leitura parece cada vez mais urgente num país como o Brasil. Há tempos não se consegue formar uma geração de leitores, mas a situação parece ter piorado. A escola, que deveria ser a grande incentivadora da leitura, está provocando dois fenômenos preocupantes: o analfabetismo funcional e a fobia de livros. 

Os analfabetos funcionais são aqueles que frequentaram a escola mas, por falta de contato com a leitura e a escrita, foram perdendo a capacidade de compreensão do mundo das palavras. Luzia de Maria, no livro Leitura e colheita, conta que realizava uma oficina de leitura quando disse que um analfabeto funcional era aquele que não conseguia entender revistas como Veja, Isto e Época, e três professoras da plateia disseram: "eu". 
A fobia de livros é perfeitamente percebida quando se ouve alguém dizer que tem dor de cabeça quando começa a ler. É como se o organismo reagisse patologicamente a uma experiência traumática. 

Certa vez, eu lecionava um curso de histórias em quadrinhos para crianças da periferia de Belém e perguntei a elas qual era a diferença entre um gibi e um livro. Eu esperava que elas apontassem a ilustração como diferença, pois é possível publicar um livro sem desenhos, mas não é possível o mesmo com uma HQ. A resposta, dada por uma menina, surpreendeu-me: "O livro é chato; história em quadrinho é divertida". 

Na cabeça dela, o livro era algo lido por obrigação puramente escolar, sem nenhum prazer ou contato com a vida.

A grande pergunta que surge é: onde a escola errou? Por que, ao invés de despertar os alunos para a magia da leitura, ela os afastou dessa mesma magia? 

Esse desvio no caminho tem sua origem na noção de leitura que acompanha a maior parte da vida escolar. Nas escolas ainda predomina a visão do livro como objeto sagrado, típica da Idade Média. Nessa época, os escritos eram encadernados em couro, com ornamentação de metais preciosos. As Bíblias que existiam nas igrejas ficavam presas por correntes. O livro era um objeto caro, raro e distante.



Com a invenção da imprensa, surge aquilo que Marshall McLuhanchamou de "Galáxia Gutenberg". É inaugurado o pensamento linear e a visão cartesiana de mundo. 

É também a época das gramáticas normativas. Esses gramáticos viam na palavra escrita o lugar de acerto, de uma linguagem correta, a linguagem dos bons doutos. A linguagem oral, ao contrário, era o lugar do erro, do caos, da inconstância. Orientados pelo pensamento cartesiano, esses gramáticos se interessaram apenas pela ordem expressa da palavra escrita. 

Na escola, essa visão separou a fala e a escrita como ações contrárias, e os textos perderam contato com a vida real. Sua utilização na sala de aula privilegiava não o entendimento, não a atribuição de significado, mas a capacidade de decodificar os signos e de identificar classes gramaticais ou sintáticas. 

Assim, alfabetizado era aquele capaz de ler um texto em voz alta, ou tirar dele os substantivos, os verbos ou identificar as construções sintáticas. Pouco interessava se a pessoa estava conseguindo atribuir significado ao que lia.

Isso não faz parte de um passado remoto. Dia desses, meu filho trouxe um dever de caso que era a "interpretação" de um texto. A tal interpretação consistia apenas em descobrir encontros vocálicos no texto. Ou seja, a narrativa era apenas uma espécie refinada de tortura, com pouquíssima utilidade prática e sem nenhum significado. 

Rubem Alves diz que tem calafrios quando sabe que um de seus textos está sendo utilizado para isso. Enquanto escreve, nenhum escritor pensa em verbos, substantivos, ditongos, hiatos ou algo do gênero. 

Certa vez utilizaram um texto meu, sobre McLuhan, em um vestibular. Fui resolver as questões relacionadas ao meu texto e errei algumas. No texto eu explicava a teoria do filósofo canadense segundo a qual o homem inventou extensões de seu próprio corpo para melhorar seu desempenho. Uma das questões perguntava o que não era extensão do corpo humano. A resposta, segundo os elaboradores da prova, era roupa, porque eu não citava o vestuário em meu texto. Entretanto, uma compreensão correta do artigo levaria a identificar que o conceito era ampliável também para as roupas, afinal, elas são uma extensão da pele. O exemplo mostra que até a interpretação de um texto pode ser transformada em um ato mecânico, de retirar informações de um conjunto de palavras, sem a necessidade de entender seus conceitos. 

A falta de sentido desses exercícios é exemplificada num fato simples: gramática nenhuma jamais transformou alguém em escritor. Escrever é um ato criativo e pensar em hiatos e ditongos enquanto se escreve é provavelmente a melhor forma de se ter um bloqueio. 


Tenho um livro infantil, Os Gatos, publicado por uma editora de Curitiba. Na época a editora estava iniciando na área de literatura infantil e chamou um gramático para revisar os originais. A revisão tornou o texto totalmente incompreensível para uma criança e a editora foi obrigada a chamar uma professora de literatura infantil para refazer a revisão. Para o gramático, era mais importante que o livro fosse escrito nos moldes renascentistas da gramática normativa. Se haveria compreensão por parte da criança, pouco importava. 

Só existe uma maneira de tomar gosto pela leitura: lendo. Só existe uma forma de aprender a escrever bem: escrevendo. Nunca conheci um grande autor que não fosse um leitor voraz e um escritor compulsivo. 

Enquanto o texto for encarado apenas pelos seus aspectos gramaticais, enquanto a interpretação for a simples decodificação, sem a possibilidade de variedade de leituras ou de interpretação, a escola será sempre a criadora de analfabetos funcionais e de pessoas que têm dor de cabeça à simples visão de um livro.

Hulk – Matéria estranha

 


Peter David e Dale Keown formaram uma das duplas mais célebres a trabalharem no título do Hulk.

Um dos primeiros trabalhos dessa parceria foi a história “Matéria Estranha”, publicada em The Incredible Hulk 370 e 371.

A história reúne novamente Os Defensores, o disfuncional grupo de heróis da Marvel: Doutor Estranho, Namor e Hulk.

Na história, o Hulk cinza desce em Nova York pouco antes de se transformar em Bruce Banner (nessa época eles alternavam: Hulk Cinza de noite, Banner de dia), quando vê luzes surgindo de um apartamento e resolve investigar. Ele encontra a forma astral do Dr. Estranho lutando contra uma criatura espectral que depois se descobrirá ser o mago supremo de outra dimensão, um mago que se tornara maligno.

O trio enfrenta uma ameaça de outra dimensão. 


O trio de heróis terá que salvar a nossa dimensão desse perigo, que se torna ainda maior quando o vilão se apossa do corpo do Hulk cinza.

O interessante aí é como Peter David, aproveitando uma ideia criada por Bill Mantlo (há quem afirme que a ideia foi roubada de Barry Smith), parte do princípio de que Banner tem múltipla personalidade. Então, o mundo mental de Banner é mostrado como um cenário a la Steve Ditko em que ele conversa com o Hulk cinza e onde o Hulk verde está aprisionado. É interessante perceber também como cada um deles (Banner, Hulk cinza, Hulk verde) tem personalidades muito diferenciadas e demarcadas.

Peter David também aproveita várias oportunidades para trazer humor para a série, algo que Keown consegue ilustrar bem.

Esse Hulk portanto, se traz uma mistura de humor, psicologia e ação na medida certa. Não por acaso, é uma das fases mais queridas do personagem.

A fantástica queda do Lanterna Verde

  

No número 5 da coleção Os clássicos da década a editora Ebal publicou uma história no mínimo inusitada com os personagens da DC. A trama começa com Clark Kent e Mirian Lane (essa era a forma como Lois Lane era chamada na Ebal) recebendo um prêmio por sua atuação como jornalistas quando o local é invadido por alguém em queda. Trata-se do herói Lanterna Verde. Antes de desmaiar, ele entrega seu anel a Clark Kent, o que gera uma situação inusitada em que o Super Homem passa a ter também os poderes do Lanterna.

A razão de toda essa confusão é uma vilã chamada Safira, que é também Carol Ferris, interesse romântico de Hall Jordan.

Safira tem umas noções meio estranhas de amor. 


Safira quer o amor do herói, mesmo que para isso precise dar-lhe uma surra.

Escrita por Paul levitz e desenhada por Curt Swan essa história, publicada em DC Comics Presents 6, é na verdade uma preparação para a verdadeira trama, de invasão espacial, publicada no número 7, ainda com roteiro de levitz e desenhos de Dick dillin. 

Na história, extraterrestres querem invadir e dominar a Terra com um raio paralisante. Uma única pessoa não é vítima do tal raio: o Tornado Vermelho. 

A segunda história é sobre uma trama alienígena. 


A trama tanto da parte um quanto da parte dois chega a ser infantil e ingênua. Os extraterrestres, por exemplo, vivem numa dimensão em que cultuam o mau e são governado por leis malignas. 

Numa época em que a Marvel apresentava vilões com motivações muito mais complexas, essa trama parece anacrônica e ganha destaque principalmente graças aos desenhistas.

Dick Dillin era um ótimo desenhista, hoje pouco conhecido. 


Curt Swan é o desenhista definitivo do Super na era de prata e consegue dar um charme a uma trama de briga de casal. 

Hoje pouco conhecido, Dillin era um ótimo desenhista e seu traço encaixava bem numa trama de invasão alienígena. 

Nenhum dos dois, entretanto, tinha a grandiosidade de um Neal admas, um Garcia López ou um George Perez. Até mesmo a diagramação dos mesmos parece muito convencional e contida mesmo para a época em que a história foi publicada.

domingo, junho 02, 2024

Artigo sobre Jornalismo em quadrinhos na revista Domínios da Imagem



Para quem não é da área acadêmica, uma informação interessante é que as revistas são avaliadas por um fator chamado Qualis, que pode ser A, B ou C (cada um tem sua subcategoria numérica, como A1, A2, A3). As revistas qualis A, obviamente, são as mais rigorosas em suas avaliações, de modo que é muito mas difícil publicar nelas. Minha primeira publicação em uma revista A aconteceu na Domínios da Imagem, com o artigo Histórias em quadrinhos não ficcionais e jornalismo como território do imaginário. 

O artigo foi escrito em parceria com Marcos Dickson, um velho amigo e parceiro da época da faculdade. Todos os trabalhos em grupo nós fazíamos juntos, pois nossa dinâmica, desde aquela época era muito boa. Geralmente dividíamos os capítulos, ficando metade para cada. Depois nos reuniamos para um ler o capítulo do outro e fazer a revisão. Nessa mesma reunião escrevíamos a introdução e a conclusão, um método que sempre funcionou muito bem e garantiu ótimas notas. 



Com o surgimento do Google Docs esse método pôde se tornar mais elaborado, com cada um contribuindo um pouco com cada parte. 

Confira o resumo: 

O presente artigo tem o intuito de explorar os processos híbridos da linguagem jornalística com as histórias em quadrinhos baseadas em fatos reais, não ficcionais, que passaram a ser chamadas de jornalismo em quadrinhos, nas quais vemos a apropriação de técnicas jornalísticas, principalmente dos recursos extraídos do new journalism, para construir seu discurso, indo além da fronteira do real e do ficcional abrindo espaços para novas experiências do consumo da informação jornalística. Propormos analisar esses espaços narrativos não ficcionais instrumentalizando os conceitos de jornalismo de subjetividade (MORAES, 2022), estratégias do sensível (SODRÉ, 2006) e Tecnologias do Imaginário (DURAND, 1988, SILVA, 2006).

Para ler o artigo, clique aqui

 

 

Ratos de cemitério, de Robert E. Howard

 


Robert E. Howard é mais conhecido por ter praticamente criado sozinho o gênero espada e magia e por sua maior criação, o bárbaro Conan. Mas Howard ganhava dinheiro escrevendo para pulp fictions, o que fez com que ele se aventurasse nos mais variados gêneros. Entre eles, o policial, como podemos conferir no livro Rato de cemitério, da editora AVEC.

Para o gênero ele criou o detetive Steve Harrison, sobre o qual escreveu nove histórias. Dessas, só conseguiu vender cinco, mas só quatro foram publicadas porque a revista que havia comprado um dos contos acabou antes de publicá-lo. A edição da AVEC reúne esses quatro publicados.

Todas as histórias se inserem dentro do subgênero weird menace, muito popular na época, com histórias repletas de seitas secretas, ocultistas assassinos e um clima sobrenatural que no final se revelava como algo que poderia ser explicado de maneira racional.

O primeiro conto “Os nomes do livro negro” mostra Harrison envolvido com um vilão que provavelmente apareceu numa das histórias perdidas, o mongol Erlik Khan. Aparentemente morto na história anterior, o senhor da morte resolve se vingar daqueles que considera responsáveis por sua queda, o detetive e sua parceira, Joan La Tour.

Embora a história se passe nos EUA dos anos 30, a descrição dos personagens parece ter saído de alguma história da era hiboriana. Joan por exemplo é descrita como uma mulher bonita de um jeito exótico: “Uma figura suave e morena com as cores suntuosas das noites púrpuras e auroras carmins orientais com seus cabelos negros e lábios vermelhos”.

Já Harrison tem “Olhos azuis frios e os músculos salientes mesmo sob o casaco. Seus ombros eram fortes como de um touro”. Ou seja, um Conan de sobretudo.

Aliás, até mesmo a filosofia de que a civilização representa a decadência dos homens, o que pode ser observado em vários trechos, como “Criado até a fase adulta na parte bárbara e cruel do mundo, onde a sobrevivência dependia da habilidade pessoal, seus sentidos eram mais aguçados do que o possível para homens civilizados”.

Na história, Harrison e um gigante afegão, Khoda Khan, resgatam a garota das mãos do vilão.

“Os nomes no livro negro” é, portanto, uma história de espada e magia sem espada e magia. 

“Presas de ouro” chamava-se originalmente “O povo da serpente”, um nome muito mais adequado. Ao mudar o título, o editor não levou em consideração a trama.

Na história, o detetive Steve Harrison entra no pântano em busca de um chinês que assassinou um comerciante e roubou seu dinheiro, deixando uma órfã na miséria. É mais um conto tipo espada e magia, com revólveres no lugar da espada. No pântano vive um povo vindo do Haiti, adeptos do vodu e o detetive se vê no meio de uma trama que envolve vingança e ritos pagãos.

O melhor conto do livro é “Ratos de cemitério”, merecidamente a história que dá título ao volume. Nessa, Howard consegue unir todas as referências anteriores numa trama de mistério intrigante e repleta de reviravoltas.

Na história, Steve Harrison é contratado por um fazendeiro para aprisionar o assassino do irmão.

A sequência inicial é arrebatadora. Um dos irmãos do morto está dormindo quando começa a ouvir som de ratos. Quando finalmente se levanta, ele encontra a cabeça do irmão morto em cima da lareira e um rato de cemitério tentando a todo custo subir para devorá-la, numa sequencia de intenso terror.

A narração dessa sequência é um ótimo exemplo de como Howard sabia criar o clima adequado de tensão e horror (algo no qual ele se saiu ainda melhor que seu mestre HP Lovecraft):

“Os únicos sons eram os dos barulhos selvagens de seu coração, o tique-taque barulhento de um relógio antigo em cima da lareira – o tamborilar enlouquecedor do rato oculto. Saul cerrou os dentes ante o grito de seus nervos torturados. Mesmo em meio a um terror crescente, ele encontrou tempo de se peguntar o porquê daquele rato estar correndo para baixo e para cima na frente da lareira”.

O quarto conto é “O segredo da tumba”. Na história, dois milionários norte-americanos são mortos e suas mandíbulas roubadas. O detetive criado por Howard se ocupa de proteger o terceiro milionário ao mesmo tempo em que tenta descobrir o que está acontecendo. É uma narrativa que se aproxima do policial com elementos de terror, embora com menos eficiência do que em “Rato de cemitério”. Quando esse texto foi publicado, o editor mudou o nome do detive para Brock Rollins e a AVEC optou por manter esse segundo nome, o que deixa o texto confuso para o leitor, já que a descrição e o comportamento do personagem são os mesmos Steve Harrison, mas o nome é outro. Uma opção seria reverter para o nome original usado pelo escritor.

Howard não gostava do gênero policial e escreveu histórias desse tipo apenas pela possibilidade de ganhar uns trocados a mais, como revelou numa carta a um amigo “Já hei abandonado de forma quase definitiva o campo dasestórias de detetives, no qual até agora não consegui publicar nada, e que representa um tipo de estória que, na realidade,detesto. Resulta-me difícil, inclusive, ler os contos desse gênero, e também digo, escrevê-los”. Isso talvez explique o fato de que seus contos geralmente acabavam descambando para algo próximo da aventura e até mesmo da espada e magia.

Seu estilo, no entanto, era tão poderoso e envolvente, que até mesmo essas histórias nas quais ele botava pouca fé acabam se revelando tesouros secretos.

A edição da AVEC é bem cuidada, em papel pólem, embora careça de mais textos que contextualizassem o livro.

Enfim, Ratos de cemitério é um livro obrigatório para os fãs de Robert E. Howard.

A terrível vida real de Tom Strong

A terrível vida real de Tom Strong é o primeiro volume da série lançada pela Panini escrita e desenhada exclusivamente por convidados. Escritores e artistas receberam uma tarefa inglória: igualar a fase de Alan Moore, explorando aspectos ainda não explorados na série. 
O resultado é irregular. 
No geral, as histórias seguem uma média. Mas dois se destacam, por motivos diversos. 

Ed Brubaker imagina uma realidade na qual Tom Strong não é um herói. 


Steve Aylett e Shawn McManus fazem a pior história da revista. Mal-ajambrada, muitas vezes sem sentido e distantes da proposta do personagem. Personagens irreais surgem do nada e não há preocupação em se criar verossimilhança para eles. Parece alguém tentando imitar Grant Morrison na Patrulha do Destino, mas com o personagem errado.
O melhor exemplo é a história que dá título ao volume, escrita por Ed Brubaker e com desenhos Ducan Fegredo. Nela, usando um artefato maia, um vilão consegue criar uma realidade em que Tom Strong não existe - e o herói se torna um simples operário em um mundo decadente, sujo, repleto de políticos corruptos. É o tipo de história que se encaixa no personagem e a sacada irônica do final é realmente genial.

Logan - a despedida de Wolverine

 

O Wolverine foi o símbolo máximo de uma das piores épocas dos quadrinhos de super-heróis. Na década de 1990, a maioria dos heróis se tornaram clones do carcaju: violentos, rasos, cabeça-quente.
Depois de uma fase inicial interessante, nas mãos de Chris Claremont e John Byrne, o personagem se tornou apenas isso: um cara violento, cabeça-quente, que resolve tudo na porrada. E, isso, claro, se refletiu nos filmes do personagem (vale lembrar a introdução do primeiro filme, em que ocorre uma briga imensa por uma pedra que um empresário usava como peso de papel e que ele entregaria tranquilamente se alguém pedisse).
Assim, Logan é uma agradável surpresa por fugir completamente do padrão estabelecido para o personagem e mostrar uma profundidade inesperada.
(ATENÇÃO: SPOILER!)
Nesse novo filme, o Wolverine, muito a contragosto, tem que salvar uma garota que foi clonada a partir de suas células, sendo, de certa forma, sua filha. Agentes governamentais, envolvidos no projeto que criou a menina, farão qualquer coisa para tê-la de volta. Esse plot lembra muito o ótimo A incendiária, um livro pouco conhecido de Stephen King. 
A película é um road movie: à medida em que fogem, a relação entre os dois vai se estabelecendo até culminar na cena de crédito, com a ótima música de Johny Cash. O professor Xavier completa o trio, com alguns dos melhores momentos do filme.
A história tem tudo na medida certa: violência, efeitos especiais (que você mal percebe) e até humor, sempre  resvala no humor ácido.