sexta-feira, abril 29, 2022

Fundo do baú - Os herculóides

 


Os herculóides é uma série criada pelo desenhista Alex Toth para a Hanna-Barbera e exibida pela primeira vez nos EUA no ano de 1967 num total de 36 episódios. Cada episódio tinham duração de 9 minutos.
O seriado fazia parte de uma iniciativa da Hanna Barbera de investir em desenhos de aventura e ficção-científica e foram provavelmente o primeiro contato de muitas crianças com esses temas.
Os personagens eram o casal Zandor, Tara e o filho Dorno. A equipe ainda incluía alguns seres não humanos, como Zok, o dragão alado, Igoo, um gorila de pedra, Tundro, uma mistura de rinoceronte com um triceratops de dez patas e Gloop e Gleep, duas criaturas de um material elástico capazes de assumir todas as formas imagináveis.

Perry Rhodan – Duelo de mutantes

 


Clark Darlton era conhecido entre os autores da série Perry Rhodan por humanizar seus relatos. E é exatamente isso que ele faz no número 26 da série.

Na trama, Perry Rhodan encontra um adversário à altura: um super-mutante apelidado de supercrânio, que usando suas capacidades hipnóticas, formara seu próprio exército de mutantes e, com eles, pretendia conquistar o poder mundial através de assassinatos, greves, guerras e atentados. O volume trata do ponto em que dois exércitos de mutantes entram em rota de colisão.

A história inicia no espaço, com um dos destróiers roubados pelo Supercrânio atacando uma nave-escola da terceira potência. O texto de Darlton foca em um dos recrutas: “Julian Tifflor, que seus amigos e colegas chamavam apenas de Tiff, enganava os que o cervavam. Atrás daqueles olhos sonhadores escondia-se a energia de uma pequena bomba atômica. Apesar de seus vinte anos, Tiff era um gênio matemático e um exemplar de coragem e resolução”.

Mais à frente, quando o Supercrânio usa uma unidade do exército da terceira potência para atacar a própria terceira potência, a narrativa é toda focada em um dos soldados, o sargento Harras, que vai do cansaço e do desejo era tirar o uniforme suado e dar um salto na piscina à necessidade irracional de guerrear.

O volume é um pouco decepcionante para quem se deixa levar pelo título. Não há de fato um duelo entre mutantes uma vez que assim que os mutantes do exército do supercrânio são tirados de sua influência hipnótica, eles aderem à terceira potência. Além disso, o mais poderoso dos mutantes, Gucky, acaba não participando do duelo, embora tenha uma atuação importante em outro momento da trama.

Ao contrário da capa americana, a capa alemã mostra uma cena que existe no livro. 


No volume há algumas frase que parecem estranhas. Quando é tirado da influência do Supercranio, é dito que um dos mutantes mudou de dono. Sobre outro é dito que mudou de mestre, o que vai na contramão da ideia de que Rhodan representa uma visão não-autoritária.

Ainda assim, com todos os volumes escritos por Darlton, esse é uma leitura deliciosa.

Em tempo: a capa da Ediouro, baseada na edição americanda, não tem mínima relação com a trama. Aparentemente o desenhista Gray Morrow sequer lia o volume, ou recebia um resumo. Assim, seguia o padrão de desenhar uma imagem de um homem com “roupa futurista” e uma mulher loura em apuros.

quinta-feira, abril 28, 2022

A arte maravilhosa dos irmãos Hildebrant

 


Greg e Tim Hildebrandt são dois  irmãos gêmeos norte-americanos mundialmente conhecidos pelos cartazes dos filmes de Guerra nas Estrelas e pelos calendários de Senhor dos Anéis.

Fortemente influenciados por desenhos clássicos Disney, como A bela adormecida, além de pintores como Norman Rockwell, eles começaram sua carreira em 1959 produzindo ilustrações comerciais.

Em 1977 eles foram abordados pela 20th Century Fox para refazer o cartaz do filme Star Wars feito por Tom Jung, que eles consideram muito sombrio. Eles tinham apenas 36 horas, mas produziram uma das imagens mais famosas de todos os tempos.

Juntos ou individualmente eles pintaram diversas capas de livros, cartazes de filmes, capas de histórias em quadrinhos, cards e imagens para calendários.  Embora o trabalho dos dois tenha ido dos super-heróis às pin-ups, eles ficaram conhecidos pelos fãs principalmente por seu trabalho com fantasia e ficção-científica.

Tim Hildebrandt faleceu em 2006. Seu irmão Greg ainda é vivo e continua produzindo imagens apreciadas por fãs no mundo inteiro.















Valerian e Laureline

 

Em 1967 surgia nas páginas da revista Pilote uma série que iria mudar para sempre a ficção científica nos quadrinhos. Chamava-se Valerian – agente espácio-temporal e era produzida por dois novatos, o roteirista Christin e o desenhista Mézières.
Em sua primeira história, que daria origem ao álbum “Maus sonhos”, o desenho ainda parecia simplista e os roteiros ingênuos. Mas já era possível perceber  que havia algo ali, especialmente quando o agente Valerian, em viagem temporal para a Idade Média encontra uma moça, Laureline, que conquista os leitores e se torna personagem fixa da série.
Os artistas eram dois jovens franceses que havia se mudado para os EUA na infância e se reencontraram na adolescência. Com o dinheiro do primeiro álbum eles comprariam sua passagem de volta para o país natal, onde iriam revolucionar os quadrinhos.
O segundo álbum “A cidade das águas movediças” já trazia um traço mais seguro e um roteiro mais bem amarrado, além de referências que mostravam o quanto a obra dialogava com o pós-modernismo. O mafioso Sun Rae foi inspirado no músico de jazz Sun Ra. O cientista Schroeder, além da referência óbvia ao personagem pianista da tira Peanuts, tinha as feições de Jerry Lewis no filme O professor Aloprado.
Mas seria no terceiro álbum, “O império dos mil planetas” que a dupla acertaria a mão, definindo o estilo que os diferenciaria de tudo que havia sido feito até então em termos de ficção científica. Foi nesse álbum que a vocação de Mézières para criar cenários exuberantes se revelou. Também foi nessa história que Christin mostrou sua capacidade de criar civilizações extraterrestres e seus hábitos culturais.
A sequência inicial, mostrando a feira do planeta-império, é primorosa.
Nela descobrimos que mercadores comercializam schalmis, espécie de conchas gigantes, onde as pessoas se recolhem em busca de esquecimento. Conhecemos as pedras vivas de Arphal, que se fixam à pele como as mais belas jóias. Ou os raríssimos spiglics de bluxte, que vivem sobre a cabeça de seus donos, transmitindo a eles perene felicidade através de telepatia.
A série fez tanto sucesso na Europa que Valerian e Laureline, dois nomes que não existiam, tornaram-se populares a ponto de muitos pais batizarem seus filhos com eles.
Outra consequência é mais polêmica. Desde que saiu o primeiro filme de Star Wars, o desenhista percebeu várias coincidências entre o filme e suas imagens publicadas no álbum.
O visual de escrava da princesa Lea no filme “O retorno de Jedi”, por exemplo, é muito parecido com o de Laureline em “O país sem estrelas”. A nave usada pelos personagens é semelhante à Millennium Falcon, além de várias outras semelhanças.
Além disso, a personalidade independente da princesa Lea está muito mais para a Laureline do que para as princesas das histórias clássicas de ficção científica, que ficava paralisadas diante do perigo, esperando serem salvas pelos heróis.

O Mundo de metrópolis

 



A entrada de John Byrne no título do Super-homem e sua consequente reformulação marcou o fim definitivo de qualquer vestígio que o personagem pudesse ter da era de prata. Entretanto, Byrne foi responsável por uma série que ecoa (talvez como homenagem) diretamente a era de prata. Chamada World of Metropolis (O mundo de Metrópolis), ela tirava o foco das grandes tramas e dos super-vilões para o mundo dos personagens secundários da série. Cada número era focada em um desses personagens (curiosamente, Clark Kent era um desses, o que mostrava bem a ideia que Byrne tinha sobre o título): o primeiro em Perry White, o segundo em Lois Lane, o terceiro em Clark Kent e o último em Jimmy Olsen.

O traço de Mortimer deu um ar saudosista à série.


Embora o roteiro e as capas fosse de Byrne, a arte ficou por conta de Win Mortimer, um desenhista canadense, veterano da DC, o que dava à série um visual retrô.

Há uma estrutura fixa nas histórias: elas sempre começam no presente, e depois há vários flash backs contando alguma história sobre o personagem. Perry White, por exemplo, disputava a esposa com Lex Luthor, o que mostra a razão pela os dois se odeiam tanto. Lois Lane estrela uma história na qual é mostrado como ela, com apenas 15 anos, conseguiu um furo de reportagem e assim foi contratada pelo Planeta Diário. A história de Jimmy Olsen mostra como ele inventou o relógio com o qual chama o Super-homem.



Uma das histórias mais interessantes – e que mais reverberam a era de prata, é “Um estranho na cidade”, focado em Clark Kent.

Na história é mostrado como Kent chegou em Metrópolis, como se tornou repórter e a relação que teve com uma relação com uma garota, Ruby.

Ainda um novato na cidade grande, o jornalista não usava um uniforme quando agia como herói (uma estratégia usada por Byrne para diferenciar Kent do Super que conhecemos).



Assim, ainda novato, ele se depara com um grupo de malfeitores com armamento pesado atirando contra a polícia. A sequência, hilária, é típica da era de prata: os terroristas usam uma arma para atirar uma bomba na polícia, mas Kent, usando super-velocidade, apodera-se da bomba. Eles tentam de novo, e de novo a bomba parece desaparecer. Quando eles começam a atirar com uma metralhadora, a visão de calor faz com que as balas evaporem.



Essa série mostra bem que, embora John Byrne tenha contribuído para colocar um ponto final na era de prata da DC, ele no fundo era um fã dessa fase.

 No Brasil essas histórias foram publicadas pela Abril em Super-homem especial 2.

A destruição da educação pública

 


Há algum tempo um aluno vindo de uma faculdade particular através do Vestibulinho me confessou que pensou muito antes de passar para uma universidade pública.
Descendente de alemães, super disciplinado e interessado em aprender, ele achava que teria uma educação da pior qualidade na pública. Para seu espanto, descobriu que o nível na federal era muito melhor que na privada: os professores eram mais qualificados, mais engajados. Ele até tinha mais aulas.
Recentemente as faculdades particulares demitiram a maioria dos professores mestres e doutores, deixando apenas professores especialistas horistas, que apenas fazem “bicos” no ensino. Dessa forma, era muito comum que os alunos ficassem sem aula (o profissional não iria faltar a uma reunião de seu trabalho fixo para ir fazer bico, não é mesmo? ).
Claro, ele admitia que havia problemas de falta de estrutura. Mas isso também o havia espantado, ao perceber que professores tiravam do próprio bolso para compensar o que faltava – exemplo disso era o professor que havia montado os laboratórios do curso usando dinheiro do próprio salário.
E, há claro, toda uma propaganda negativa das universidades, feitas por determinados grupos, que falam as maiores barbaridades sobre as universidades.
Então, o que ele encontrou, para sua surpresa, foi algo completamente diferente do que esperava. 
A pergunta que me faço é porque há todo um movimento disposto a pintar a universidade pública de forma tão negativa. Uma resposta óbvia é que quanto menos educação tem um povo, mais fácil é manipulá-lo.
Mas há um outro fator: há toda uma ideologia segundo a qual o Estado deixa de ser responsável pela educação do indivíduo – mesmo que o cidadão esteja, na verdade, pagando com seus impostos por aquele benefício. Isso, claro, é algo negativo. Mas como vender algo negativo como algo postivo?  Como convencer alguém que eliminar um benefício é algo bom? Simples: demonizando aquilo. É o que estão fazendo com a educação superior no Brasil. Assim manipulado, o pobre, que poderia estar usando esse recurso pelo qual paga impostos, passa a defender o fim desse serviço. 

Ps: Antes que digam que quem frequenta as universidades são os mais ricos, é bom lembrar que dois terços dos alunos de universidades federais são provenientes de famílias com renda de um salário mínimo e meio. Os alunos com mais renda são dos cursos como Medicina e Veterinária, exatamente aqueles cursos nos quais o MEC quer colocar mais dinheiro. Para a grande maioria dos estudantes de federais, o diploma é a única forma de melhorar de vida. 

Um jardim de paz



Centro budista oferece atividades como meditação e yoga

 

A correria do dia-a-dia provoca males que vão da depressão ao stress, passando pela ansiedade. Oportunizar um local que em que a pessoa possa encontrar sua paz interior e sua felicidade é o objetivo do Centro Budista Jardim de Lubini. Localizado no bairro do Laguinho, o local apresenta atividades como yoga, Qi Gong, meditação e estudos budistas.

O Centro Budista Jardim de Lumbini surgiu em 05 de Outubro de 2017. “Sua criação foi fruto do profundo desejo de praticantes budistas, de compreender e levar a todos a mensagem original do Buda, dentre os diferentes ensinamentos e práticas encontradas nas diferentes escolas Mahayanas e Theravadas”, explica Jorge Sergóvia, diretor do centro. “Com o budismo brotando como uma linda flor de Lótus no bairro do Laguinho em Macapá, optou-se por denominar o Centro Budista de Jardim de Lumbini, em homenagem ao local onde nasceu Sidharta Gautama, o Buda (iluminado)”.

Uma das atividades oferecidas pelo centro é a meditação zazen, que acontece às terças-feiras, de 18 às 19:30. “O zazen vem do zen-budismo e é a junção de duas palavras, Za (sentado) e zen (meditação). Ou seja, é meditação sentado”, explica Ivan Carlo, responsável pela prática. “O objetivo do zazen é fazer a pessoa focar no momento presente. Boa parte do sofrimento surge exatamente porque nunca estamos no momento presente: ou estamos no passado ou no futuro. Esse foco no passado gera depressão e o foco no futuro gera ansiedade. Na maioria das vezes não conseguimos usufruir o momento por estarmos preocupados com algo que já passou ou ainda não aconteceu.  O zazen estimula esse foco no presente”.

Zazen é uma técnica de meditação que privilegia o foco no aqui-agora. 


Na quinta-feira, o centro oferece yoga. “O yoga é um conhecimento milenar com origem na Índia, que busca a união entre corpo, mente e o todo que nos cerca", afirma Leila, responsável pela prática. “A tomada de consciência de que não estamos separados de nada e que é possível alcançar um estado de plenitude através dos código de conduta(princípios éticos), prática dos asanas, respiração consciente, o foco no aqui e agora, a meditação levam a um estado de plenitude, de auto-realização que  chamamos samadhi, ou nirvana,  iluminação como se diz no budismo”.

A Yoga busca unão entre corpo e mente. 


No sábado são oferecidos estudos budistas e meditação. Também é oferecido Qigong . Qigong ou Chi Kung se refere ao conjunto de exercícios físicos e de respiração, que tem a finalidade de estimular e promover uma boa circulação do fluxo de energia vital (Chi) dentro de nosso corpo, buscando melhorar o controle das trocas de energia entre corpo e mente.

É importante destacar que não é necessário ser budista para participar das atividades do centro. Pessoas das mais variadas vertentes religiosas participam de práticas como yoga e meditação.

Ao contrário do que muitos imaginam, Buda não é um deus. Ele é alguém que alcançou a iluminação, transcendendo o ciclo de sofrimento. Buda significa aquele que despertou.  Conta a história que Sidarta Gautama era um príncipe que vivia cercado das mais belas coisas da vida. Na primeira vez que saiu do palácio, viu um homem doente e ficou aterrorizado ao descobrir que também ele ficaria doente. Na segunda vez, viu um homem velho e seu terror foi maior ainda ao descobrir que também ele envelheceria. Na terceira vez, viu um enterro e descobriu que também morreria, assim como todas as pessoas que amava. Atormentado, ele deixou o castelo e iniciou uma jornada que o fez descobrir como lidar com o sofrimento do mundo.

 

Serviço

CENTRO BUDISTA JARDIM DE LUBINI

Terça-feira: Meditação Zazen, de 18:30 às 19:30 h

Quinta-feira: Yoga, de 18:30 às 20 h.

Sábado: Estudo de Darma, aula de Qigong  e meditação Meta Bhavana

Todas as atividades são gratuitas. 

O templo fica na Rua José Serafim 669, entre Av Jose Tupinambas (Nações Unidas) e Av General Osörio. Bairro Laguinho, Macapá. Contato: 981010602 Whatsapp

A Vida e a História de Madam C.J. Walker

 

Imagine nos EUA do início do século XX, uma época em que negros ainda eram enforcados sem qualquer julgamento, uma mulher negra, filha de escravos, se tornar não só uma das pessoas mais ricas dos EUA, mas a primeira mulher norte-americana milionária. Essa é a história contada em A Vida e a
História de Madam C.J. Walker, minissérie em quatro capítulos da Netflix. A trama acompanha a protagonista (brilhantemente interpretada por Octavia Spencer) desde o seu início miserável, quando seu trabalho como lavadeira e a relação abusiva com o marido fez com que seus cabelos caíssem. É quando bate na sua porta Addie (Carmen Ejogo), que, ao tratar de seu cabelo, restaura sua auto-estima, salvando sua vida. O sonho dela então, é se tornar revendendora do produto milagroso vendido por Addie, que recusa terminantemente, pois ela não teria o ideal de beleza para vender um produto para cabelos. É quando Sarah decidei copiar a receita da amiga, melhorá-la e vender seu próprio ungueto para cabelos. Daí para se tornar a mulher mais rica dos Estados Unidos é um longo caminho, com os mais diversos obstáculos. A minissérie é dividida em quatro partes (aparentemente cada uma dirigida por uma pessoa diferente – não consegui informações sobre a direção). A mais inovadora (e também mais complicada é a primeira). No afã de deixar claro a rivalidade entre Sarah e Addie, a série mostra as duas num ringue de box, literalmente trocando sopapos. Parece exagero – e é, até porque, pela história, as duas, embora tenham sido concorrentes, não parece ter sido mais que isso. Mas o exagero fica por conta também do excesso de músicas contemporâneas numa trama de época. Entretanto, vale a pena persistir. A partir do segundo capítulo os exageros são deixados de lado e a produção se preocupa mais em contar as dificuldades encontradas pela protagonista não só por negra, mas também por ser mulher e destacar seu pioneirismo. Madame C J Walker não só apresentava produtos para cabelos de mulheres negras, como se recusava a estabelecer um padrão de beleza, fazendo questão de mostrar que seu produto era para todas as mulheres – algo que outras grandes empresas, como a Dove, só viriam a fazer muito recentemente. No final, vale muito a pena. É uma das boas revelações da Netflix neste ano e uma boa dica para assistir durante esse período de isolamento.

quarta-feira, abril 27, 2022

Bem-vindos a Alflolol


Uma das características que fazem de Valerian algo totalmente diferente de outras séries de ficção científica é a humanidade, filosofia e poesia das histórias. Como diz o roteirista Christin, “Mesmo que a aventura renda sempre uma leitura agradável, o verdadeiro tema é a reflexão, antes da ação”. Exemplo perfeito disso é o álbum Bem-vindos a Alflolol.
Na história, os dois aventureiros espaciais, Valerian e Laureline, estão visitando um planeta repleto de recursos naturais que estão sendo explorados pelos terrestres. É quando se deparam com uma nave ancestral. Na nave estão os habitantes originais do planeta, seres tão longevos que vivem milhares de anos. E que têm o costume de fazer passeios de turismo pela galáxia de tempos em tempos, em embarcações movidas por seus poderes mentais. E eles estão voltando para casa depois de uma breve viagem... que durou quatro mil anos terrestres!
Isso gera uma crise: os executivos são obrigados a aceitar os alfaloloseses , mas temem que os habitantes originais possam atrapalhar a produção (a todo momento temos algum executivo dizendo algo como “A produção não pode parar!”, “A economia não pode parar!”).
Para evitar prejuízos à empresa, os habitantes originais do planeta são confinados em uma reserva.
A HQ nitidamente é uma metáfora da situação dos índios norte-americanos, habitantes originais das terras americanas, mas aprisionados em reservas.
A dupla de criadores, Christin e Méziéres, no entato, dá à história, que poderia ser um dramalhão, um tom leve e irônico, constantemente humorístico.   E transformam a coisa toda numa grande aventura, deliciosa de se ler.
Bem-vindos a Alflolol faz parte do segundo volume da série de álbuns dos personagens lançada pela editora SESI de São Paulo.

Vereadores do Escola sem partido denunciam projeto com quadrinhos em sala de aula

 

Vereadores de Curitiba, ligados às igrejas evangélicas e capitaneados pelo vereador Thiago Ferro se revoltaram e acionaram o projeto Escola sem partido contra uma escola da cidade que fazia um movimento a favor da aceitação de crianças com deficiência. O projeto tinha imagens autorizadas por Maurício de Sousa. Entre outras atividades, as crianças cantariam a seguinte letra: 

Negro, branco, pardo ou amarelo
Alto, baixo, gordo ou magricelo
Moreno, loiro, careca ou cabeludo
Deficiente, cego, surdo ou mudo (…)
A gente é o que é
A gente é demais
A lista é imensa
Viva a diferença! 

Os vereadores denunciaram o caso à secretaria de educação de Curitiba. 
Para além do discurso contra a diversidade e aceitação das diferenças, o caso eco o preconceito contra os quadrinhos. O vereador Thiago Ferro teria tido tal reação se o projeto não envolvesse quadrinhos? 
Estaríamos diante de uma nova cruzada contra os quadrinhos como a que se viu nas décadas de 1950 e 1960 - época em que a leitura de quadrinhos era caso de polícia? 
Matéria do Diário do Paraná de 30 de junho de 1960. Estaríamos vivendo uma nova cruzada contra os quadrinhos? 

Fumetti – o melhor do quadrinho italiano

 


Em 1993 a editora Globo publicou o álbum Fumetti – o melhor do quadrinho italiano. O álbum de 114 páginas reunia histórias curtas dos principais personagens da Bonelli: Tex, Mister No, Martin Mistery, Dylan Dog, Nathan Never e Nick Raider. Como dizia o título, era o melhor da editora italiana e uma boa introdução a esses personagens.
As revistas Bonelli são calhamaços de aproximadamente 100 páginas e estamos acostumados a ver seus personagens assim, em histórias longas. Assim, deve ter sido um desafio interessante para os roteiristas produzir em poucas páginas HQs que sintetizassem a essência desses heróis. Na maioria das vezes os roteiristas se saem muito bem.
A história que abre o volume é a de Tex, com roteiro de Guido Molitta (pseudônimo de Sérgio Bonelli) e desenhos de Giovanni Ticci. Na HQ, um bandoleiro está refugiado num bar no meio do deserto esperando por seu irmão e cavalos roubados. De repente chega Tex e o bandido, achando que ele está à sua procura, decide que o único jeito de escapar é matá-lo. É a melhor história de um volume com boas histórias. Bonelli e Ticci conseguem caracterizar muito bem os personagens e o final guarda uma bela ironia.
Sérgio Bonelli escreve a segunda melhor história do volume, “Amazônia mon amour”, protagonizada por Mister No. Bonelli, que criou Mister No a partir de suas viagens à Amazônia, brinca com o fascínio que a região exerce sobre turistas numa HQ em que o herói ciceroneia um americano pelo meio da selva. O gringo logo percebe que nem tudo é beleza, a começar pelos carapanãs (erroneamente traduzidos como pernilongos). Mais uma história que termina com uma bela ironia do destino.
“O mistério de Leonardo”, aventura de Martin Mystère mostra a busca por um tesouro escondido por Leonardo Da Vinci, escrita por Alfredo Catelli e desenhada por Giancarlo Alessandrini. A HQ tem uma virada no final que parece forçada, talvez pelo fato do roteirista precisar de mais páginas para estruturar os personagens. Ainda assim, o final, no qual se descobre o que é o segredo de Leonardo, é inspirado e nada previsível.
Segue-se uma história de Dylan Dog, em que se ele se vê às voltas com um fantasma, uma HQ em que Nick Raider investiga um assassinato e uma de Natha Never na qual ele tenta impedir um grupo de empreender uma fuga na prisão lunar.
Dessas, curiosamente, a melhor é a de Nick Raider, com uma história que envolve chantagem e síndrome de Estocolmo. Destaque para o traço de Bruno Ramella, que consegue equilibrar a história entre o erotismo e a sensibilidade.
Algo a se destacar no álbum é que os traços das seis histórias são muito diferentes, demonstrando a variedade de estilos da Bonelli.
Fumetti – o melhor do quadrinho italiano é uma daquelas pérolas obrigatórias na coleção de qualquer colecionador.   

A arte espiritual de El Grego

 


El grego com um pintor maneirista apelidado assim em decorrência de seu país de origem (seu nome verdadeiro era Doménikos Theotokópoulos). Ele se destacou principalmente por conta das imagens com temas religiosos e figuras alongadas, com uma anatomia distorcida, que refletiam o conteúdo espiritual do quadro. Em oposição ao renascimento, ele tirava a atenção do receptor do centro do quadro, deixando o mais importante nas laterais. 





The Toys – os brinquedos da nossa infância

 


Um dos verdadeiros tesouros escondidos na Netflix é a série de documentários The Toys. E isso tanto pelo tema quanto pelo conteúdo.
A abertura já dá o tom dos documentários: vemos crianças correndo para uma loja de brinquedos enquanto uma música, cantada ao estilo dos desenhos animados dos anos 1980 fala sobre a importância desses brinquedos: “Eles são baixos, mas nos fizeram sonhar alto. Vamos voltar no tempo e conhecer os bastidores. São os brinquedos que marcaram época”.
Ao contrário da maioria dos documentários, que costuma ser sérios, esse é pura diversão e repleto de piadas. No episódio sobre Jornada nas Estrelas, por exemplo, o locutor o tempo todo faz chistes comparando os erros nos bonecos da série com o sucesso de Star Wars.
E não pensem que o tema são apenas os brinquedos. Essa indústria está diretamente ligada às séries de TV, filmes e, principalmente, quadrinhos. Um exemplo: a história por trás dos Transformers e até o nome dos personagens surgiu nos quadrinhos da Marvel. Antes eram apenas robôs japoneses que se transformavam em coisas.
Aliás, tudo está entranhado: os japoneses licenciaram o Falcon, mas perceberam que vender soldados americanos para os japoneses não era uma boa ideia, então o transformaram em robôs. Com a crise do petróleo, o valor do plástico se tornou proibitivo, então foi necessário fazer bonecos menores e, assim, surgiram os microman, que nos EUA ficaram conhecidos como micronautas... que se transformaram em quadrinhos da Marvel. Vê? Tudo está entranhado.
The Toys tem três temporadas, cada uma com quatro episódios. Todos são interessantes, mas alguns merecem destaque: Star Wars, He-man, GI-Joe, Jornada nas Estrelas, Transformers e Tartarugas Ninjas. Esses últimos, inclusive surgiram em quadrinhos autorais e, surpreendentemente, se tornaram alguns dos bonecos mais vendidos de todos os tempos.
Como diz a abertura: “Plástico em criações que duram gerações e ainda não nos esquecemos”. 

Solomon Kane

 


Robert E. Howard é muito conhecido pelo bárbaro Conan, mas poucos dos que acompanhavam as aventuras do cimério nos quadrinhos sabem que seu primeiro personagem de sucesso foi outro, o puritano Solomon Kane. Aliás, os contos originais eram praticamente inéditos no Brasil até 2015, quando a editora Generale publicou um livro com todos os contos do personagem.
O primeiro conto do puritano foi publicado em agosto de 1928, na revista Weird Tales. Howard havia sumetido o texto anteriormente para a revista Argosy, que pediu várias alterações e ofereceu a módica quantia de 80 dólares. Já o editor da Weird Tales gostou tanto do personagem que ofereceu um bom pagamento e a capa daquele número. O personagem fez enrome sucesso entre os leitores, abrindo caminho para Conan.
O volume mostra que Howard era um escritor muito acima dos autores de pulps. Ele depurou o estilo pomposo de Lovecraft criando algo que influenciaria muita gente, inclusive George Martin, de Guerra dos Tronos.
O texto era repleto de adjetivos. As névoas eram prateadas, as brisas eram fracas, o odor era mortiço, a mesa era rústica. Isso normalmente é visto como um defeito na literatura, mas Howard sabia manejar esses adjetivos para criar uma prosa poderosa e impactante. Um exemplo: “Restou a impressão de ter cambaleado por séculos histéricos em meio a estreitas e sinuosas ruas, nas quais demônios gritavam, lutavam e morriam, enquanto a terra se desprendia e tremia sob sues pés vacilantes, entre paredes titânicas e colunas negras que se sacudiam contra o céu e arrebentavam em volta de Kane, em um trovejar que preenchia o mundo”.
Acrescente a essa narrativa poderosa, um personagem interessante. Segundo Alexandre Callari (que traduz o volume e escreve a apresentação), “O puritano é, possivelmente, o personagem mais complexo de Howard, superando ate´mesmo o bárbaro Conan”. De fato, as dubiedades de Solomon são parte do seu charme: é puritano, mas usa magia negra, é racista, mas se alia a um feiticeiro africano, é frio e calculista na esgrima, mas também é uma fera irrefreada.
Os nove contos desse volume essencial são uma ótima amostra de como Robert E. Howard era um grande escritor.