segunda-feira, janeiro 29, 2024

Homem-animal – Aves de rapina

 
No número 6 da revista do Homem-animal, Grant Morrisson foi obrigado a encaixar o título na mega-saga do ano, Invasão. Afinal, Crise tinha sido um sucesso absoluto, catapultando as vendas da DC, então todo ano a editora precisava ter uma mega saga envolvendo todos os seus títulos.

Morrisson resolveu a situação colocando o herói em rota de colisão com os thanagarianos, mas fez isso de uma forma que só Grant Morrison faria.


A trama é baseada na geometria fractal. O conjunto Mandelbrot inclusive aparece na história.


Na trama, um artista thanagariano vai fazer uma performance que incluirá um poema sísmico sobre uma falha geológica do planeta, provocando terremotos e inundações. E transformará isso numa obra de arte fractal: “Uma imagem fractal é aquela que revela mais detalhes, mais informação, à media que se examina mais de perto. Pode ser ampliada indefinidamente e revelar complexidade inesgotável. Ocorreu-me que a própria vida poderia ser vista como uma forma fractal. Uma noção interessante, concorda? E assim fiz a bomba”, explica ele para um atônito Homem-animal.

A teoria do caos tinha surgido há pouco tempo e com certeza essa foi a primeira vez que muitos leitores ouviram falar da geometria fractal, o que por si só demonstra a vanguarda de Morrison. E ele consegue construir uma narrativa em que o assunto se encaixa de forma natural e, apesar de vários diálogos um pouco mais complexos, a trama é facilmente compreensível e até divertida, incluindo a agonia do herói ao tentar desarmar a bomba.

O Homem-animal precisa impedir que a bomba fractal exploda.


Nas três primeiras páginas vemos o artista em Thanagar se preparando para inciar a obra. É desse trecho que saiu a frase emblemática que a Panini colocou como epígrafe do capítulo: “Sou o pássaro da morte, feito de pedra e cuja pulsação mede o tempo geológico. Sinto-me invencível, capaz de qualquer coisa. E no fim só uma coisa importa: a performance”.

domingo, janeiro 28, 2024

Fanzine Crash

 

Crash foi o primeiro fanzine de quadrinhos do Pará (antes havia alguns fazines que tinham quadrinhos, mas Crash foi o primeiro totalmente dedicado a publicar HQs).
Ele surgiu quando fui entrevistar Bené Nascimento para um trabalho de faculdade. O que era para ser uma entrevista virou uma conversa de horas e, ao final, Bené me convidou a produzir com ele um zine.
O número zero saiu em 1989 e publicou uma história do Bené com o Batman – o tipo de história que naquela época só poderia sair em um fanzine. Curioso que nesse primeiro número eu ainda estava definindo o pseudônimo , que em alguns momentos aparecia como Jean Danton e outros Gian Danton.
Foi em um número deste fanzine que publiquei pela primeira vez um texto sobre Watchmen, com desenhos de Bené com todos os personagens da série.
Crash teve quatro número (se contarmos o número zero) e marcou época nos quadrinhos paraenses.

Rodrigo José | "Desapareça" [Vídeo Clipe Oficial]

Os Vingadores vs Hulk e Namor

 


Enquanto na DC os mocinhos eram mocinhos e os vilões eram vilões, inclusive muito bem caracterizados em termos visuais (os mocinhos eram bonitos, os vilões feios), na Marvel as coisas eram muito mais nebulosas. Quem era herói numa história poderia se transformar em vilão em outra. Quem era vilão numa história, poderia ser herói da edição seguinte.

A terceira edição do título dos vingadores mostra isso. O Hulk havia feito parte da equipe na primeira e na segunda revista, mas na terceira se torna o vilão.

Hulk é o vilão dessa edição. 


Na edição anterior, ele havia se separado do grupo e a história começa com os vingadores tentando descobrir onde ele está – afinal, um Hulk à solta é encrenca na certa.

Nesse meio tempo, Namor encontra o gigante esmeralda e resolve fazer com que ele se torne seu aliado. Afinal, ambos odeiam a humanidade. E o plano é começar a vingança contra a humanidade derrotando o grupo de heróis.

A especialidade da Marvel era mostrar quebra-pau entre heróis. 


E lá temos um tremendo quebra-pau entre personagens Marvel, uma história feita praticamente só de ação (com sequências impressionantes desenhadas pelo mestre Jack Kirby) com direito à Vespa dando em cima de Thor e levando uma dura do Gigante: “Será que você nunca vai amadurecer, Vespa? Não pensa em outra coisa?”. O conteúdo sexual implícito ali era tão óbvio que fica difícil entender como o pessoal do Comics Code não implicou com a sequência.

Uma curiosidade é o texto final da história, em que stan lee exercita toda a auto-promoção que caracterizou a era Marvel: “Se há uma coisa que vocês podem esperar desse grupo é... o inesperado! E nós prometemos que a próxima história dos vingadores apresentará personagens e surpresas bem além dos seus sonhos mais insanos!”. 

Jornada nas estrelas – sementes do espaço

 


Em qualquer relação de vilões de Jornada nas Estrelas, certamente entraria Khan, protagonista do episódio Sementes do espaço, da primeira temporada da série clássica.
Na história, a Enterprise encontra uma nave humana antiga à deriva no espaço. Ao adentrar o local, descobrem que há vários humanos em estado de animação suspensa. O primeiro deles a acordar parece ser o líder do grupo, Khan, um ser de saúde fenomenal, que tira suspiros da historiadora a bordo.
Khan na verdade faz parte de uma raça de seres criados artificialmente que dominaram o planeta Terra durante um breve período conhecido como “guerras eugênicas”.
O que faz de Khan um vilão tão interessante não é tanto sua força física, mas principalmente suas habilidades intelectuais e estratégicas. Sozinho ele consegue dominar a Enterprise. Aliás, sua derrota parece vir muito mais de um deus ex machina (nunca vi uma alavanca de computador se transformar em uma arma) do que realmente de habilidades superiores por parte de Kirk e sua equipe.
Há também um outro fator, destacado pelo roteiro: ele é um vilão, mas também é uma figura interessante, cheia de nuances, que causa em Kirk tanto repulsa quanto admiração.
O vilão, aliás, era tão interessante que virou estrela do segundo filme de Jornada, apropriadamente denominado A ira de Khan.

O planeta dos macacos e os furos de roteiro

 

Na década de 1970 os filmes da série Planeta dos macacos faziam um sucesso tão grande que alguém teve a ideia de fazer uma animação com o tema. Lançado em 1975, era resultado de uma associação dos estúdios DePatie-Freleng Enterprises com a 20th Century Fox Television e teve 13 episódios. 
O desenho é uma verdadeira decepção, inclusive para aqueles que são fãs dos filmes. A animação é fraca, com muitas repetições de cena, embora isso necessariamente não seja um defeito grave. O desenho de Jornada nas Estrelas tem animação ruim, mas roteiro bom e o resultado final acaba sendo ótimo. Por outro lado, o filme Selvagem, da Disney, tem ótima animação, mas roteiro chato. Resultado: foi um fiasco de bilheteria.
O grande problema na animação dos macacos está no roteiro, com tantos furos que parece uma peneira.
Esse roteiro é tão ruim que estou tendo infarto! 

Senão vejamos. O DVD que tenho mostra a história aparentemente no segundo capítulo. A cronologia dos filmes é totalmente esquecida e é como se pela primeira vez uma nave fosse parar no planeta dos macacos. Um dos astronautas está sendo levado pelos gorilas, outro foi salvo por uma mulher selvagem. Uma vez na cidade, o astronauta foge. Todos, absolutamente todos os soldados macacos vão atrás dele, mas mesmo assim ele foge com facilidade impressionante e ainda encontra tempo para libertar todos os humanos presos pelos gorilas, pois encontra a prisão sem guarda. Aparentemente os macacos não aprenderam nada de segurança depois de tanto tempo...
Mas continuemos. Em uma seqüência posterior, os dois astronautas estão vistoriando uma região de montanhas quando vêm um grupo de militares simiescos se aproximando. A cena mostra o humano loiro encostado numa pedra, olhando displicentemente para a frente: “Parece que os macacos estão nos procurado”. E outro: “Se nos virem aqui, estamos ferrado!”. Qualquer um sairia correndo para se esconder, mas eles ficam lá parados, olhando o tempo. “É, parece que eles nos viram”. “Poxa vida, isso é horrível”, dizem eles, sem sair do lugar. 
Proatividade parece ser uma palavra desconhecida para esses dois homens. Fiquei imaginando a continuação do diálogo: “Eles estão a um quilômetro!” “Nossa, logo eles não vão nos alcançar se não corrermos”, “Agora eles já estão a cem metros!”, “Vamos fazer um lanche?”.
Vamos continuar procurando a lógica dessa história! 

Mas os nossos heróis são salvos por uma montanha que se eleva na frente deles, escondendo-os, um artifício que os bons roteiristas chamam de Deus ex machina. Essa expressão significa algo exterior à história, que surge para salvar a situação. É chamada assim porque os dramaturgos gregos ruins constumavam baixar um deus no final da peça para costurar as pontas soltas ou para explicar situações não muito lógicas. Um Deus ex machina é quando o roteirista arranja uma saída totalmente desconhecida do leitor para salvar os heróis ou para resolver uma situação. É erro gravíssimo.  
Depois dessa tremenda forçada de barra, os heróis ainda encontram uma porta secreta, por onde chegam ao mundo dos humanos subterrâneos. Nisso eles descobrem que estão na terra. O desenho foi feito no final da década de 1970, uma época em que todo mundo já sabia disso, mas mesmo assim o desenho faz um suspense desnecessário sobre isso.
Os expectadores nunca vão desconfiar que estamos na Terra. Vamos tomar um café? 

No mundo dos subterrâneos eles encontram a terceira astronauta e fogem com ela num carrinho que corre por um trilho. Os subterrâneos têm duas formas de defesa: uma são ilusões, outra são raios emitidos pelos olhos. Então eles primeiro fazem aparecer uma parede de mentira e os heróis acham que vão bater, mas passam direto por ela. Depois acham que vão cair num buraco, mas, mais uma vez descobrem que é uma ilusão. Então eles se deparam com uma parede de fogo. Qualquer pessoa que tivesse passado pelas experiências anteriores aprenderia o bastante para saber que a parede é também uma ilusão, mas os nossos astronautas são burros como uma porta e morrem de medo do fogo. Quando passam por ele e descobrem que estão vivos, comentam entre si: “Quem diria, é uma ilusão!”. Será que eles aceitam pessoa com QI 0,1 na NASA?
O teste de QI mostra que os astronautas da NASA são mais burros que nós! 

Enquanto isso, os subterrâneos atiram neles com seus raios... e não acertam nada, nem os trilhos, nem os humanos, nem o carrinho. São quase cinco minutos de tentativa e nada. Uma impossibilidade matemática! Isso nos faz pensar que os subterrâneos aprenderam a atirar com um cego paralítico e epiléptico. Não acertar em absolutamente nada durante cinco minutos de tiroteio é mais difícil que ganhar na loteria, mas eles conseguem e os astronautas saem de lá sem um único arranhão.
O pior de tudo é que o episódio foi escrito por dois roteiristas. Será que nenhum deles percebeu os buracos no roteiro?

Fundo do baú - O sítio do pica-pau amarelo

 


A obra infantil de Monteiro Lobato teve várias adaptações para TV. A Tupi apresentou as histórias do sítio entre 1952 e 1962, num programa ao vivo. Em 1964 foi a vez da TV Cultura. Em 1967, a Bandeirantes.

Mas foi na década de 70 que surgiu a mais célebre versão do Sítio do pica-pau amarelo. Dirigida por Geraldo Casé, essa versão contava com roteiros de grandes autores, como Benedito Rui Barbosa e Marcos Rey. Um dos destaques dessa nova versão era a trilha sonora, composta por grandes mestres da MPB da época. A música de abertura, de autoria de Gilberto Gil, tornou-se extremamente famosa ao sintetizar perfeitamente um programa no qual tudo podia acontecer: “Marmelada de banana/bananada de goiaba/goiabada de marmelo/sítio do pica-pau amarelo”.

A série foi gravada no bairro O bairro da Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro. O sítio, a casa, o quintal e o curral foram construídos ali. Já algumas cenas internas eram gravadas no estúdio da Cinédia.

Embora alguns personagens, como as crianças Pedrinho, Narizinho e a boneca Emília tenham tido vários atores que passaram pelos papéis, Zilka Sallaberry e Jacyra Sampaio se tornaram, respectivamente as eternas Dona Benta e Tia Nastácia.

Talvez um dos maiores diferenciais dessa versão tenha sido a pegada de aventura, fruto principalmente do desenvolvimento dos efeitos especiais, que permitia levar os personagens aos mais variados locais ou trazer os mais diversos personagens para o sítio. Entre os mais memoráveis está o episódio do Minotauro, que chegava a provocar medo em algumas crianças.

O programa fez tanto sucesso que durou nove anos, indo de 1977 a 1986.

Os X-men e o fim da infância


Mitos sobre o fim da infância existem há muito tempo e descrevem o processo pelo qual passa um garoto do início da puberdade até a idade adulta. Eles, de certa forma, indicam o caminho para que esse processo ocorra de maneira normal e sem grandes choques.


Vejam, por exemplo, o mito do cavaleiro. Todos nós já ouvimos histórias sobre um cavaleiro andante que, tendo nascido de maneira obscura e humilde, abandona o lar em busca de aventura. Ele enfrenta perigos, mata dragões e, finalmente, é recompensado por sua bravura com um trono e uma bela princesa.
A explicação do mito é dada por Anthony Stoor, no livro As idéias de Jung:

"Todos nós começamos a vida como crianças impotentes. Todos temos de nos emancipar dos pais e outros adultos, e enfrentar independentemente a vida e seus desafios. Se não conseguirmos, nunca atingiremos uma posição no mundo (trono) nem alcançaremos suficiente maturidade sexual para conquistar uma companheira (a bela princesa). Pelo contrário, seremos destruídos pelo dragão; e todos conhecemos, uma família pelo menos, em que o filho foi destruído pela mãe-dragão, de quem não conseguiu emancipar-se". (embora a maioria das análises desse mito seja sobre meninos, é possível que ele possa ser usado também para explicar o processo de amadurecimento das meninas).



Da mesma forma, os mitos modernos encontrados nos quadrinhos e nos desenhos animados falam sobre o mesmo processo psicológico.

Um dos meus mitos prediletos é o dos X-men. A equipe é toda formada de jovens (e quando os membros da primeira geração ficaram adultos, os roteiristas providenciaram uma nova geração, chamada de Os Novos X-men).
Todos eles abandonam suas famílias para fazerem parte dos X-men. Isso fica muito visível no caso da Kity Pride. Quem leu a saga da Fênix percebeu o quanto o processo de separação dos pais foi traumático para a menina. Mas ela sobreviveu e tornou-se uma heroina.

Nenhum herói vira herói debaixo da barra da saia da mãe.

Mas, claro, muitos ficam na dúvida. A vida de criança é cheia de alegrias e livre de responsabilidades e perigos.

O Homem-aranha mostra bem esse conflito. Se dependesse da Tia May, ele nem mesmo sairia na chuva. O herói vive esse dilema: uma parte dele quer obedecer a Tia May e continuar criança para sempre. A outra quer enfrentar os problemas do mundo e tornar-se adulto. Um ícone perfeito desse dilema é o famoso desenho do Steve Ditko, mostrando o rosto do personagem dividido entre Peter Parker e o Homem-aranha.
Mas eu disse que gosto mais do mito dos X-men. E isso acontece porque ele nos ensina que não precisamos enfrentar o dragão sozinhos. Podemos unir nossas forças em torno de um grupo com um objetivo comum. O grupo nessa fase é essencial. Ele permite que as pessoas possam usar suas habilidades de forma complementar, tornando-se mais fortes. O Cíclope e o Wolverine podem parecer completamente opostos, mas os dois formam contropontos importantes para o equilíbrio do grupo. Wolverine é impetuoso e agressivo. Cíclope é calculista e racional. Um grupo formado só de Wolverines se mataria no primeiro dia. Um grupo formado só de Cíclopes seria uma chatice só. O grupo é também uma forma de ensinar que as diferenças são positivas e devem ser não só toleradas, como também aproveitadas para o bem comum.


Na saga da Fênix Negra vemos o processo de amadurecimento de Kitty Pride. 


Como já foi dito, o adolescente precisa quebrar o vínculo com pais para tornar-se adulto. Por isso o grupo X-men é formado apenas de adolescentes. O único adulto é o professor Xavier. Ele faz o papel do ídolo, do guia, mentor, do pai substituto.

Quando a criança "sai da casa paterna" (metaforicamente falando), cria-se um vácuo. Antes os pais eram o modelo de comportamento. Eram o guia, que dizia o que era certo e o que era errado, o que valia e o que não valia. Na sua ausência, são substituídos pelos ídolos.

Todo adolescente tem um ídolo. As meninas costumam tomar como ídolos cantores ou atores famosos. Os garotos podem ter como ídolo um rapaz mais velho, ou um personagem de quadrinhos, ou até um cientista famoso. O importante é que ele pareça sábio e confiável e apresente um padrão de comportamento a ser imitado. O ídolo se torna um novo guia, em substituição à figura dos pais (depois da adolescência os ídolos deixam de ter tanta importância e costumam ser abandonados).

Seguir um falso ídolo pode ser perigoso. Há garotos que tomam como ídolos marginais famosos e isso faz com que seus padrões de comportamento sejam completamente distorcidos. Isso é facilmente perceptível no filme Cidade de Deus, em que os traficantes se tornam o padrão a ser seguido pelas crianças.

Nos X-mem o falso ídolo é representado pelo Magneto. Ele reúne em torno de si jovens que não tiveram discernimento o bastante para perceber a diferença entre o certo e o errado.

O professor Xavier é, portanto, a figura que substitui a presença dos pais, orientando os jovens heróis.

Não quero que pensem que essa interpretação pode ser feita apenas a partir de histórias de super-heróis. A cultura pop está repleta de mitos sobre o fim da infância. O desenho animado A Caverna do Dragão é um ótimo exemplo. Ali as figuras arquétipicas são tão palpáveis que podemos reconhecê-las facilmente. Temos a separação dos pais (a ida para um outro mundo), os perigos, o grupo e o guia (o mestre dos magos). Eles precisam enfrentar as provas que se apresentam e sua volta à terra é condicionada ao enfrentamento desse perigos.

Até os seriados japoneses apresentam essa textura. Digimon, por exemplo, é muito semelhante à Caverna do Dragão.

Esses mitos, facilmente encontráveis nos meios de comunicação de massa, são verdadeiros manuais, que ajudam a criança nesse processo que culminará na vida adulta. Depois de algum tempo, eles são substituídos por mitos mais adultos, como é o caso das histórias em quadrinhos Sadman e Monstro do Pântano.

Os templários, de Pier Paul Read

 

Os templários protagonizaram um dos momentos mais interessantes da Idade Média. Criada no período das Cruzadas, a ordem dos templários formou um poder religioso, militar e econômico. Depois foram perseguidos pelos próprios cristãos que pretendiam representar. Perseguidos pelo rei Francês Filipe IV, os templários confessaram, sob tortura, blasfêmia, heresia e sodomia. Em 1312 o papa ClementeV extinguiu a ordem.
            De lá para cá, os templários passaram a fazer parte da imaginação do ocidente. Wagner mostrou-os com valorosos defensores do Santo Graal na ópera Parsifal. Walter Scott fez deles os vilões do romance Ivanhoé. Há quem acredite que os Templários ainda existem e engendram um plano para dominar o mundo. Esse é um dos pontos fundamentais da trama de O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco.
            Píer Paul Read pretende, em Os Templários, separar o mito da realidade e mostrar a verdadeira face dessa poderosa ordem medieval. Formado em história pela prestigiada universidade de Cambridge, Read volta ao tempos bíblicos e reconstitui a história, passando por todos os personagens e eventos que, de alguma forma, tiveram importância para as cruzadas.
            A obra inicia com a história de Jerusalém. Todos os mapas da Idade Média mostravam essa cidade como o centro do mundo. Não é para menos. Ela era a cidade sagrada para três religiões: o cristianismo, o judaísmo e o islamismo.
            No século XI, Jerusalém era o principal destino dos peregrinos cristãos. Para muitos, a peregrinação era uma espécie de martírio, que assegurava a salvação a quem fizesse o caminho para  a Terra Santa. Às vezes ela era imposta a algumas pessoas como penitência por pecados graves.
            A Igreja estimulava a peregrinação, vista como o clímax da vida espiritual do homem cristão.
            Mas a viagem era um empreendimento caro e perigoso. A forma mais rápida de chegar à cidade santa era ir pelo mar, de navio, mas havia o perigo dos piratas e dos naufrágios. Por terra, assim que o viajante chegasse penetrasse na Síria islâmica,  corria o risco de ser molestado e de ser obrigado a pagar onerosos pedágios.
            Os problemas enfrentados pelos peregrinos foram o principal motor da Primeira Cruzada. Mas o Papa Urbano II, ao fazer o apelo aos cristãos para que libertassem Jerusalém da influência dos mouros, tinha na mente outro objetivo: dar vazão ao excesso de energia da classe guerreira francesa.
            Na França do século XI a maioria das contendas era resolvida na espada. Eram comuns os ataques às colheitas e aos animais vizinhos.
            Ora, pensou o Papa, já que os Francos brigam tanto entre si, por que não coloca-los para pelejar contra um inimigo comum?
            A comunicação do Papa ao mundo cristão era a verdadeira convocação de uma guerra santa. Ele prometeu que aqueles que se empenhassem na causa com espírito de penitência teriam seus pecados perdoados e obteriam total remissão das penitências terrenas impostas pela igreja.
            O comunicado teve influência avassaladora. O homem da Idade Média vivia com medo real dos tormentos do inferno. Se o Papa oferecia a oportunidade de fugir do inferno matando islâmicos, isso era uma chance para não se perder.
            O resultado imediato foi completamente diferente do esperado pelo vaticano.
            Não foram os cavaleiros que primeiro atenderam ao pedido do Papa, e sim o populacho. Vários pregadores populares inflamaram os pobres e formaram um exército mal armado e sem disciplina que, sem mais nem menos, partiu para subjugar os sarracenos e libertar Jerusalém.
            Piers Paul Read conta que muitas esposas trancavam seus homens para que eles não fossem à cruzada, mas assim que eles ouviam o que estava sendo oferecidos, pulavam pela janela e tomavam a cruz.
            O resultado foi catastrófico. Sem saber exatamente o que faziam, os cruzados iam atacando comunidades judaicas que encontravam pela frente, embora os judeus não tivessem qualquer relação com os acontecimentos de Jerusalém. Pode parecer irracional, mas é um comportamento muito semelhante ao do americano que pega uma caminhonete e se choca contra uma mesquita acreditando que todo islâmico é responsável pelos ataques ao Word Trade Center.
            A cruzada de Pedro o Eremita teve fim em 21 de outubro de 1096 quando, sob ataque dos turcos, os cruzados foram derrotados e os sobreviventes transformados em escravos.
            Melhor sorte teve a cruzada seguinte, que tomou Jerusalém, mas ainda assim a vida dos peregrinos não era fácil. As estradas eram tomadas de salteadores. Para protege-los surgiu a ordem dos Pobres Soldados de Cristo, que mais tarde seria chamada de Os Templários.
            É a partir desse ponto que Read se estende mais. Ele conta a história da ordem, dos seus dias de glória à época da perseguição oficial.
            Em tempos de guerra santa e luta do ocidente contra o Islã, o livro “Os Templários” é essencial. Um livro para se ler e refletir como o homem não evoluiu. Mudam-se as armas, mas as guerras continuam igualmente irracionais.

sábado, janeiro 27, 2024

Conan – O momento do grifo

 

Esse número marca também a primeira capa de autoria de Buscema no título. 


Se há uma dupla que definiu o gibi do Conan foi John Buscema e Ernie Chan.

A dupla estreou em Conan The barbarian 26, numa história chamada O momento do grifo.

Era a parte final da saga que começara do Cerco de Makalet.

A HQ começa com uma splash page mostrando o feiticeiro Karam-Akkad morto pela espada do cimério. Em seus momentos finais ele puxara a cortina que cobria seu espelho mágico e revelara a imagem de conan matando-o circundada por um leão, uma águia e uma serpente.

Ao publicar a história, a Abril juntou a splash page inicial com a sequência do número anterior. 


Já nessa primeira página percebemos o quanto a dupla arrasava. Buscema faz uma imagem de grande impacto, e Chan enche essa imagem de detalhes, como os vitrais, o tecido, as paredes. E, aliado a isso, uma percepção de Conan como um verdadeiro bárbaro. Embora o desenho de Barry Smith fosse extraordinário, sua concepção de Conan não trazia a crueza que o personagem pedia – e só foi alcançar com Buscema e Chan.

Uma das partes mais interessantes dessa história é a revelação a respeito de quem é o deus vivo, razão pela qual a guerra é travada e o destino irônico que o roteiro lhe reservou. Um final surpreendentemente crítico para um conflito que levou à morte de milhares de pessoas.

O final revelava uma forte crítica social. 


O célebre roteirista e editor Archie Goodwin, ao ler essa história, teria dito a Roy Thomas que a HQ “era um legítimo manifesto a respeito de como as guerras e religiões podem manipular a humanidade”.

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 14.

Uma curiosidade: Buscema odiava a arte-final de Chan, mas não sabia que a orientação para detalhar mais os desenhos na arte-final vinha do editor-chefe Roy Thomas, como forma de agradar os leitores saudosistas do grande Barry Smith.

A arte estupenda de Barry Windsor Smith

 

O primeiro trabalho de destaque de Barry Windsor Smith foi a adaptação de Conan para quadrinhos para a Marvel, no início da década de 1970. Foi um início difícil, em que ele não entendia perfeitamente o personagem e copiava o estilo de Jack Kirby. Em pouco tempo, no entanto, seu traço evoluiu de forma impressionante. Em pouco tempo ele era um dos melhores ilustradores do mercado de quadrinhos americanos em especial de fantasia com sua arte detalhista e seu domínio perfeito da anatomia humana. Confira algumas imagens desse mestre. 














Bastardos inglórios

 


Bastardos Inglórios é um filme de Quentim Tarantino, de 2009. Tarantino parece ter chegado à maturidade narrativa num filme que junta o que tem de melhor em toda a cinematografia e ainda acrescenta um fundo histórico interessante. Para quem não sabe, a história é sobre um grupo de soldados judeus-americanos (os bastardos do título), que entra na França ocupada pelos alemães com o objetivo de matar o máximo de nazistas possível. Em uma trama paralela, temos uma garota judia cuja família foi morta, que agora tem uma identidade francesa e administra um cinema que acaba sendo escolhido para o lançamento de um filme alemão ao qual irá comparecer toda a elite nazista. As duas tramas paralelas, claro, irão se juntar no final, quando a garota, por um lado, e os bastardos por outro, irão tentar matar os oficiais.

Tarantino faz flash back em cima de flash back, mas a sequência mais memorável do filme é a primeira, em que uma calma conversa de um fazendeiro francês com um oficial nazista termina em um banho de sangue. Nessa cena, duas coisas se destaca: a ótima direção de Tarantino (quando a câmera começa a se movimentar em círculo ao redor dos dois homens, sabemos que algo vai acontecer) e o talento do ator Christoph Waltz, que faz o Coronel da SS Hans Landa. O charme desse personagem é um dos atrativos do filme. Onde Hans Landa aparece, ele rouba a cena.

Já nos créditos percebemos que o filme é uma farsa, quando começa a tocar a música de Ennio Morricone, famoso pelos filmes de faroeste de Sérgio Leone. Muitos cineastas trabalharam muito bem com a trilha sonora, mas Tarantino a transformou em elemento narrativo.

Entre as várias cenas memoráveis está aquela em que Brad Pitt, com forte sotaque americano, tenta convencer Landa de que é um italiano. O cinema todo gargalhou.

Liga da Justiça contra Tornado Vermelho



Quando começou a publicar as histórias da Liga da Justiça da fase George Pérez - Gerry Conway, na revista Superamigos, a Abril começou da edição 192, pulando nada menos que três histórias.

Hoje em dia, olhando um restrospecto e lendo a sequência no álbum da Panini, percebe-se que foi uma decisão acertada. A primeira saga desenhada por Pérez, embora fosse boa, ele pegou na metade. Logo depois houve uma edição fraquíssima com um vilão chamado Peludo. Essas três edições puladas também tinha a arte-final de Frank McLaughlin, totalmente jogada, que não valorizava o detalhismo de Perez.


A história começa com o Tornado Vermelho atacando a Liga. 

A fase do desenhista no personagem poderia de fato, começar na grandiosa história que ocupou os números 192 e 193.

A trama é focada no Tornado Vermelho e começa com o robô entrando no satélite da Liga e atacando os heróis, um ataque que deixa Batman e Flash na enfermaria. Depois descobre-se que o robô e depois outro que tenta também o ataque, são criações do Futuro, o cientista que criou o primeiro Tornado com o objetivo de destruir a Liga (um computador roubado do futuro tinha lhe dito que se não matasse a Liga, ele seria morto).

A edição é cheia de reviravoltas e referências a histórias anteriores.


Embora seja uma HQ do principal grupo da DC, essa é uma trama totalmente Marvel, com reviravoltas e mais reviravoltas, referências e mais referências a histórias anteriores e origens de personagens recontadas de uma forma totalmente diferente daquela que se convencionou (quem acompanhou a saga do Visão sabe do que estou falando).

Nessa edição, o desenho de George Pérez passa a contar com a arte-final de John Beatty, muito mais apropriada que o naquim grosseiro de Frank McLaughlin.