sexta-feira, fevereiro 02, 2024

Fundo do baú - Capitão Planeta

 


Capitão Planeta (Captain Planet And The Planeteers, no original) surgiu em 1990 com o objetivo de trazer uma consciência ecológica às crianças e jovens. Criado pelo produtor  Ted Turner, o desenho mostrava cinco jovens, cada um de uma etnia diferente, e cada um dos quais dotado de um anel que lhe dava um poder. Assim, tínhamos Kwame, originário da África, que dominava os poderes da terra; o norte-americano Joey Wheeler, que dominava o poder do fogo; Linka, da União Soviética, que dominava o vento; Gi , da Ásia, que dominava a água e o índio caiapó Ma-Ti, dono do anel do coração (cujo poder incluía, por exemplo, tornar as pessoas mais bondosas).

As crianças haviam recebido seus anéis de Gaia, um espírito da Terra e protetora do planeta. Gaia estava preocupada com a devastação da floresta, a poluição e tudo que pudesse causar estragos naturais.

Ao juntarem seus anéis as crianças podiam invocar um super-herói, o Capitão Planeta, que geralmente aparecia nos momentos mais decisivos. A cena em que eles evocavam o herói era antológica, com os garotos erguendo os punhos e gritando: “Terra, fogo, vento, água, coração... pela união dos seus poderes, eu sou o capitão planeta!”.

O grupo chamado de Protetores enfrentava inimigos que representavam os perigos enfretados pela natureza, como o Porco Greedly, que adora consumir recursos essenciais, Drª. Blight, que criava novos meios de poluir o meio ambiente ou Dr. Duke Nukem, um homem revestido com pedras que usava roupas de turista havaiano e se alimentava de radiação.

Embora tivesse objetivo educativo, o desenho muitas vezes mostrava situações pouco verossímeis cientificamente falando, o que muitas vezes gerava humor involuntário. 

O episódio 14, O acidente da Usina nuclear é um bom exemplo do clima dos episódios. A história inicia numa usina nuclear e um cientista lidando com um vazamento de radiação. Ao invés de fugir do local ou tentar consertar o vazamento, ele simplesmente desliga dos alarmes porque tem que receber uma repórter e não quer que ela desconfie do problema (pouco depois ele conserta um vazamento com fita adesiva!). Mas o Duke Nukem percebe a situação e vai ao local se alimentar de radiação, o que pode provocar a explosão da usina.

Gaia chama os Protetores e pede que eles resolvam o problema. Os diálogos são usados para explicar os perigos envolvendo as usinas nucleares: “A radiação causa doenças horríveis, como por exemplo o câncer”; “O problema com a radioatividade é que você não pode vê-la ou senti-la até ser tarde demais”.

O ajudante do vilão, Roupa-de-chumbo, chega a dizer que tem medo de escuro ao ser preso dentro de uma sala escura pelos protetores e depois ainda derruba o chefe quando ele está correndo atrás dos heróis. “Não me prenda!”, grita o vilão à certa altura.  

Mistura de super-herói, humor involuntário e mensagem ambiental, Capitão Planeta agradou. Foram produzidas 6 temporadas, com 113 episódios.

Matinta Perera

 


O estudioso Câmara Cascudo diz que o mito da Matinta Pereira se confunde com o do Saci. Seu nome na língua indígena era Matin-taperê, mas com o tempo foi aportuguesado para Matinta Pereira. Trata-se de uma mulher que se transforma em pássaro com um canto de mau agouro: “Aparece de noite nas vilas, cidades, povoados, atravessando o espaço com seu grito arrepiante. Os amazonenses e paraenses de hoje apontam velhas como possuindo o condão de mudar-se em Matintas. Ouvindo seu grito, os moradores prometem, em voz alta, fumo. Pela manhã uma velha mendiga aparece esmolando. É a Matinta, que vem cobrar a promessa”.
A Matinta foi a primeira lenda do norte com a qual tive contanto, logo que me mudei para Belém. Quando uma coruja piava, dizia-se que era a Matinta anunciando a morte de alguém.
A Matinta Pereira aparece no meu romance Cabanagem desenhada pelo talentoso paraense Andrei Miralha. O desenho é impressionante, mostrando-a como uma velha bruxa, em meio à floresta e à lua, seus cabelos e seu vestido esfarrapado confundindo-se com as folhas das árvores. 

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O terror, o terror!

 


O terror é uma das emoções humanas mais básicas e fundamentais. Somos todos assombrados por algum tipo de fantasma. Talvez o medo seja a primeira emoção experimentada pelo ser humano, o medo de um mundo desconhecido que se encontra do lado de fora da barriga da mãe.
E o terror nos acompanha por toda a vida: ele está em filmes, seriados e quadrinhos, causando fascínio e repulsa.
Eu tive boa parte de minha carreira ligada ao terror. Quando comecei a escrever quadrinhos, esse era o único gênero – além do erótico – em que um brasileiro podia fazer quadrinhos. Meu grande parceiro na época era o compadre Bené Nascimento (Joe Bennett) e lembro que nos divertíamos muito imaginando as formas mais bizarras de matar ou dar um destino pior aos protagonistas. Também fazíamos piadas internas, em que cada um de nós era submetido a situações de terror. Em uma das HQs, um personagem com meu rosto sofria de medo de multidões e via seu corpo transformado em milhares de bocas em eterno falatório.
Como disse, era uma piada interna, mas hoje penso que, por trás do riso havia algo mais, como essa fosse uma forma de lidar com algo difícil. Quantas pessoas não riem diante de uma situação embaraçosa ou até mesmo perigosa? “Hahaha! Poxa vida! Esse carro quase leva o meu braço!”.
A verdade é que todos nós precisamos do terror por algum tipo de necessidade psicológica. Talvez o medo verdadeiro seja algo tão insuportável que precisamos de um treino para lidar com ele. É como as pessoas que se borram toda apenas em pensar em locais altos e são levadas por psicólogos para edifícios e incentivadas a enfrentarem seus medos de forma controlada.
Da mesma forma, você pega essa revista e exorciza seus fantasmas. Se a situação ficar realmente difícil, se a mão fria da morte parecer estar tocando sua fronte, basta fechar a revista e os demônios estarão ali, presos nas páginas fechadas, sob controle. Mas eles estarão lá acenando para você e, uma hora ou outra, você voltará a abrir as páginas e ler como o menino que morreu de medo na montanha russa, mas mesmo assim voltou para a fila.
Talvez a grande lição do terror é que nós podemos vencer nossos demônios.
A casa do terror é uma revista para aqueles que sabem que o medo pode ser um dos grandes segredos da vida, tão essencial quanto o amor e o oxigênio.
(editorial que escrevi para o primeiro número de A casa do terror) 

A curiosidade científica


Quando eu era criança, muitas pessoas me chamavam de cientista.


Não acredito que elas pretendessem me ver de jaleco, fazendo experiências científicas.

Ser cientistas para elas representava uma espécie de curiosidade intelectual exemplificada no querer saber como as coisas funcionam. O “como” é importantíssimo na ciência. Como funciona o sistema solar? Como o arroz deixa o sal mais soltinho? Como funciona a gravidade? Como as características do pai são passadas para os filhos? Esse é o tipo de pergunta que move a ciência. Alguém já disse que perguntas desse tipo ocorrem mais às crianças que aos adultos, o que não deixa de ser verdade. A maioria dos adultos se esqueceu de se maravilhar como o mundo ou de procurar respostas.

Modéstia à parte, eu de fato partilhava dessa curiosidade, tanto que cheguei a cogitar ficar de recuperação nas aulas de ciências, apenas para ter mais respostas para minhas dúvidas que iam do sistema solar ao que aconteceria se uma cobra cruzasse com um sapo. Muitas dessas dúvidas foram respondidas com o tempo e eu acabei descobrindo que, por razões fisiológicas e genéticas, tal cruzamento era impossível e, na verdade, era mais fácil a cobra comer o sapo. No sentido literal, bem entendido.

Assim, quando ingressei em um curso superior, fiquei curioso ao saber que teria uma disciplina intitulada Metodologia Científica. Tão bom quanto saber as respostas da ciência era saber como ela funcionava. Mas foi uma grande decepção. O professor passava a aula inteira sentado em uma cadeira lendo, de forma monótona e hermética, algumas fichas. Um dia tive a curiosidade de tentar entender o que ele estava dizendo e peguei, na biblioteca, um livro sobre o assunto. Ao iniciar a aula, ele anunciou o assunto e eu procurei no índice. A idéia era acompanhar enquanto ele falava.
Mas, curiosamente, a fala dele parecia muito familiar... ele tinha simplesmente copiado o livro nas fichas!
Só fui me apaixonar pela metodologia científica e pela filosofia da ciência na época do mestrado. Lá tínhamos acesso ao que de mais moderno se discutia sobre o assunto e a metodologia não era aprendida como uma série de regras rígidas que devem ser aprendidas e seguidas, mas debatida.
Ainda hoje, quando ouço professores de metodologia científica dizerem aos seus alunos que eles não estão entendendo porque metodologia científica é difícil mesmo, lembro de uma frase de Monteiro Lobato, segundo o qual, quem não sabe explicar é porque não entende o bastante do assunto.
A metodologia científica não só é fácil, como é apaixonante. Seria ótimo se as pessoas começassem a perceber que ela, a metodologia científica é também útil para o nosso dia-a-dia e voltassem a ter aquela curiosidade científica que tiveram quando eram crianças.

Vingadores – A invasão dos homens-lava

 


O quinto número da revista dos Vingadores mostrava uma trama reciclada à exaustão. Seres das profundezas que ameaçavam a humanidade já tinha aparecido no Quarteto Fantástico, Hulk e Thor.

Na história, uma montanha esverdeada surge no sudoeste dos Estados Unidos. A mesma provoca sons terríveis, verdadeiras bombas sonoras, capazes de provocar grande destruição.

Os homens-lava já tinham aparecido antes numa história do Thor. 


 Ao investigar, os Vingadores descobrem que a ameaça é obra dos homens-lava, que, ao ver a montanha surgir em seus domínios, resolveram expulsá-la para a superfície. Ocorre, no entanto, que o artefato é tão poderoso que poderá partir o planeta ao meio, acabando com toda forma de vida. E não é possível destruí-la: toda vez que é atingida, a formação natural emite um de seus sons destruidores.

Rick Jones torna-se parceiro do Capitão América. 


Ou seja, é uma trama eletrizante, que aproveita muito bem a premissa inicial e o grupo de heróis. É a primeira vez, por exemplo, que temos uma trama paralela, que aliás, é usada como elemento de suspense: o Gigante descobre o ponto fraco da montanha, mas só Thor seria capaz de atingi-lo com seu martelo. Mas thor está preso em outro lugar, transformado novamente em Donald Blake. Para piorar, o Hulk surge ali e começa a atacar os vingadores restantes. Como sobreviver ao golias esmeralda e, ao mesmo tempo, destruir a rocha verde?

Bragança do Pará

 


 


Bragança é uma das mais antigas cidades do Pará. Inicialmente habitada pelos tupinambás, ela foi colonizada pelos franceses e depois pelos portugueses, que trouxeram os negros como escravos. O resultado disso foi um local com rica herança arquitetônica e cultural. E de belezas naturais incomparáveis.

O próprio centro histórico já é uma atração, com belas casas do período colonial (infelizmente nem todas bem conservadas). Nele, destaca-se a Igreja de São Benedito, construída pelos escravos.

Também vale a pena visitar a praça da cidade na qual há várias barracas de comidas típicas.

Vale também a pena subir o mirante para visitar a estátua de Sâo Benedito e ter uma visão panorâmica da cidade. 

A economia do município gira em torno principalmente da pesca para exportação (o local é um dos maiores fornecedores de lagosta para o nordeste brasileiro).

Em termos de belezas naturais, destaca-se a praia de Ajuruteua, de água salgada.

É possível ir de Belém para Bragança de ônibus. Sai do terminal rodoviário de Belém e a viagem dura quatro horas. Por carro são 3 horas e meia de viagem via BR 316 e depois PA 010.


As casas do período colonial são uma das atraçoes. 

A marujada é a principal manifestação cultural da cidade.


A igreja de S. Benedito é uma das atrações da cidade. 







O calçadão da beira-rio remonta à época colonial. 



Coreto da praça. 

Livraria e loja de artesanato da cidade. 

No centro histórico se destacam construções da época colonial. 

Na praça da cidade é possível apreciar as comidas típicas paraenses.

A cidade exporta pescado principalmente para o nordeste. 

São Benedito, o padroeiro da cidade, foi homenageado com uma estátua no mirante.


No mirante é possível ter uma visão panorâmica da cidade. 

A praia de Ajuruteua é a principal atração natural da cidade. 


Jornada nas Estrelas - As mulheres de Mudd

 


Um dos vilões mais carismáticos da série clássica de Jornadas nas Estrelas é Harry Mudd. Ele surgiu em um episódio da primeira temporada na qual a Enterprise resgata os tripulantes de uma nave que entrou em um cinturão de asteróides. 

O resgate acaba custando os cristais de lítio da nave, de modo que Kirk precisa urgentemente de novos cristais, ou até mesmo o sistema de suporte de vida poderá falhar. Isso garante o perigo principal do episódio e o McGuffin (aquilo que os personagens buscam). 

Em paralelo a isso, temos a trama ficada nos tripulantes resgatados. O piloto é um pilantra falastrão chamado Harry Mudd e sua carga são três mulheres que estão sendo levadas para casar com colonos em planetas distantes. Teoricamente seria uma atividade honrada e legal de agência de encontros, mas Mudd incrementa seu negócio com uma droga chamada pílulas de vênus, que deixa as mulheres bonitas e irresistivelmente atraentes. 

Gene Roddenberg criou a história como uma metáfora para o problema das drogas, com a mensagem de que as pessoas não precisam delas. 

Mas Há uma série de problemas de verissilhanca no recurso, especialmente quando Kirk usa pílulas falsas como modo de provar sua tese e uma das garotas volta a ser jovem e bonita. Em um take ela está velha, descabelada e cabisbaixa. Na outra está alinhada, cabelos penteados, bonita. A ilusão da droga poderia até mudar sua postura, mas não sei aspecto físico e muito menos seu penteado. 

Apesar desses problemas, o episódio fez sucesso, provavelmente por conta da atuação carismática de Roger C. Carmel, como Mudd. Tanto que o personagem voltaria em mais outro episódio, “Eu Mudd”.

quinta-feira, fevereiro 01, 2024

Dylan Dog

 

Em 1986, a Itália viu surgir um personagem de quadrinhos que viraria uma verdadeira febre, chegando a vender um milhão de exemplares mensais e sendo republicado duas vezes, ao mesmo tempo que a edição normal. Era Dylan Dog, o detetive do pesadelo.
Dylan foi criação de Tiziano Sclavi, um jornalista e escritor italiano, fã de terror. Sclavi dotou sua série de uma bem elaborada mitologia que conquistou os fãs. Assim,  Dylan é um ex-agente da Scotland Yard, ex-alcoólatra, que vive de solucionar casos misteriosos envolvendo vampiros, lobisomens, múmias e mais todo tipo de monstros e pesadelos. Ele usa sempre calça jeans, camisa vermelha e blazer preto, mora em uma casa que tem uma campainha que grita, toca clarinete quando precisa refletir sobre algum caso e faz muito sucesso com as mulheres.
Dylan tem como assistente o piadista Grouxo, baseado no comediante Grouxo Marx, que dá o alívio cômico para a série. Mesmo nos piores momentos, Grouxo tem uma piada na manga. Algumas delas:
“Ontem salvei uma mulher que estava para ser violentada. Bastou eu me controlar.”
“As mulheres são loucas por mim! Ontem à noite uma garota ficou batendo na minha porta durante horas, mas eu não a deixei sair”.
“Sei ficar em silêncio em quinze idiomas”.
“Este papagaio é estraordinário, senhora! Bota ovos quadrados. E sabe falar? Bem, sabe dizer ai”.
Quando o desenhista perguntou a Sclavi como deveriam ser as feições do personagem, este respondeu: “Como Rupert Everett”. Fazer personagens como feições de gente famosa não é novidade nos comics italianos. Ken Parker, por exemplo, é a cara de Robert Redford. Esse expediente parece aumentar ainda mais a aura pop dos personagens.
Sclavi juntou tudo num mesmo caldeirão: referências pop, romantismo, humor, terror e até surrealismo. Sim, alguns das melhores histórias do personagem são aquelas em que se perde a referência do real e parece que o leitor entrou num mundo onírico em que qualquer coisa pode acontecer.
O sucesso extraordinário de detetive do pesadelo fez com que a editora Sérgio Bonelli, que publica o personagem, criasse o Dylan Dog Horror Festival, uma exibição de filmes à qual comparecem milhares de pessoas vestidas de monstros ou como personagens da série. Além do festival, Dylan serviu de inspiração para agendas, adesivos, embalagens, jogos, vide-games, campanhas contra as drogas, simpósios e teses acadêmicas. Nas palavras do jornalista Sidney Gusman, Sclavi conseguiu criar uma história em quadrinhos de autor que, ao mesmo tempo, é imensamente popular.
No Brasil, Dylan Dog foi publicado primeiramente pela Record, no início dos anos 1990. Mas o personagem que sobrevivera a tantos monstros não conseguiu resistir à crise e acabou sendo cancelado depois de poucos números. Em 2001, a editora Conrad resolveu publicar o fumetti numa série de 6 números com um formato mais alongado, papel de melhor qualidade e capas de Mike Mignola. As vendas não foram as esperadas, e o personagem acabou passando para a Mythos, que já publicava diversos outros quadrinhos da Bonelli, como Tex, Zagor, Ken Parker e Júlia, durando até o número 40. 

Efeito Dunning-Kruger: o idiota que se acha genial

 


Em 1999 dois psicólogos da universidade de Michigan realizaram uma pesquisa sobre níveis de cognição. Foi ministrada uma aula e depois aplicada uma prova sobre o assunto ensinado. Quando saíam da sala, os participantes deveriam responder um questionário sobre como havia sido sua atuação no teste. O resultado foi surpreendente: as pessoas que diziam ter se saído melhor foram exatamente as que tiraram as piores notas e as pessoas que haviam se saído melhor no teste acreditavam que estavam na média.

Esse fonômeno ganhou o nome dos dois pesquisadores: efeito Dunning-Kruger. Significa que uma pessoa totalmente ignorante sobre um assunto será incapaz de perceber que não entende daquele assunto e se considerará mais capacidada do que os verdadeiros especialistas (e, na contramão, aqueles que de fato têm conhecimento sobre o assunto serão caracterizados pela humildade).

Os incompetentes não só falham em reconhecer sua própria incapacidade e ignorância, mas falham também em reconhecer as habilidades genuínas de outras pessoas.

Esse é um fenômeno que temos visto em profusão nas redes sociais: pessoas que não entendem nada de astronomia ou geografia contrapondo cientistas e afirmando que a terra é plana. Pessoas de movimentos anti-vacina dizendo saber mais sobre vírus do que infectologistas. Pessoas que nunca saíram de suas pequenas cidades no interior do Brasil afirmando saber mais sobre a eleição norte-americana do que jornalistas internacionais. Pessoas que abandonaram a escola na quarta série dizendo saber mais sobre educação do que doutores em educação.

Na década de 90 eu tive uma namorada psicóloga. Isso foi muito antes dos celulares ou mesmo da popularização dos telefones. Certa vez cheguei em casa e a encontrei lá, me esperando. Assim que cheguei, ela comentou: “Nunca mais venho aqui!”. O que tinha acontecido é que meu padastro, sabendo que ela era psicóloga, resolveu “ensinar” psicologia para ela. E lá se foram duas horas de aulas de psicológias lecionadas por alguém que nunca leu Freud ou Jung, que achava que Pavolv era um militante comunista e que Skinner era nome de salgadinho.

Outra vez eu o encontrei “ensinando” química para um doutor em química. Em outra, ele ensinava medicina para uma estudante de medicina. Segundo ele, o câncer se formava porque as células mortas andavam pelo organismo e, onde paravam, surgia a doença.

Essa incapacidade de perceber a própria incompetência se estende até mesmo às habilidades físicas.

Recentemente visitei um sítio onde encontramos uma pessoa que se dizia “especialista” em pesca. Essa pessoa estava montando um espinhel (uma linha grossa deixada no fundo do rio com diversos anzóis) e usava com iscas todos peixes pescados pelos outros. Eram 60 anzóis. Segundo ele, seria um bom negócio: pois pegaria 60 peixes grandes. No final, gastou todos os peixes pescados e não pecou sequer um camarão. Quando voltávamos, a voadeira deu um bug e tivemos que parar em um porto e procurar um mecânico. Enquanto o mecânico suava para tentar consertar, ele afirmava: “Vou fazer curso disso semana que vem! Se o dono tivesse um cabo, eu consertava rapidinho”.

E é impossível ensinar o que quer que seja ao incompetente. Sua incapacidade de perceber sua ignorância faz com que ele se torne refratário a qualquer aprendizado - para aprender o que quer que seja, a pessoa precisa reconhecer sua ignorância naquele assunto. Todo professor já teve alunos que não haviam entendido nada da matéria, mas mesmo assim consideravam que tinham direito à nota máxima.

Mesmo que tenha contato com grandes professores, eles serão incapazes de aprender. Podemos ver isso, por exemplo, nas pessoas que leram Cosmos, de Carl Sagan e concluíram que a terra é plana. Ou pessoas que leram o Macaco nu, de Desmond Morris, e concluíram que vacinas alteram o DNA.

Curiosamente, todas as pessoa que conheci acometidas pelo efeito Dunning-Kruger eram bolsopatas.

Duas músicas cantadas por Roberto Carlos

 



 A música de hoje são, na verdade, duas, mas que falam do mesmo tema e ambas cantadas por Roberto Carlos. A primeira tem letra de Roberto e Erasmo, a segunda tem letra de Isolda. Interessante notar como são semelhantes. Além de falarem sobre um amor que acabou, mas deixou boas lembranças, há toda uma semelhança formal. As duas, por exemplo, começam com a frase “você foi”. Além disso, há outras frases quase idênticas. Nas duas músicas há sempre a contraposição de coisas boas e ruins. Outra vez é uma das prediletas das fãs, mas pessoalmente gosto mais de Você em minha vida. Ela tem momentos de poesia incomparáveis. “Você foi o meu sorriso de chegada e a minha lágrima de adeus” é uma metáfora belíssima. Além disso, a palavra adeus pontuando o texto dá um toque triste à composição.  Roberto, na década de 1970, tinha essa capacidade de criar imagens poéticas duradouras.  

  

Você em minha Vida

você foi a melhor coisa que eu tive
mas o pior também em minha vida
você foi o amanhecer cheio de luz e de calor
em compensação o anoitecer, a tempestade a dor
você foi o meu sorriso de chegada e a minha lágrima
de adeus
aquele grande amor que nós tivemos
e todas as loucuras que fizemos
foi o sonho mais bonito que um dia alguém sonhou
e a realidade triste quando tudo se acabou
você foi o meu sorriso de chegada tudo e nada
e adeus
você me mostrou o amanhecer de um lindo dia
me fez feliz, me fez viver
num mundo cheio de amor e de alegria
e me deixou o anoitecer
e agora todas as coisas do passado
não passam de recordações presentes
de momentos que por muito tempo ainda vão estar
na alegria ou na tristeza toda vez que eu me lembrar
que você foi meu sorriso de chegada e a minha lágrima
de adeus

 

Outra Vez

Você foi o maior dos meus casos de todos os abraços, o que eu nunca esqueci
Você foi, dos amores que eu tive, o mais complicado e o mais simples prá mim
Você foi o melhor dos meus erros
A mais estranha história que alguém já escreveu
E é por essas e outras que a minha saudade faz lembrar de tudo outra vez
Você foi a mentira sincera, brincadeira mais séria que me aconteceu
Você foi o caso mais antigo, o amor mais amigo que me apareceu
Das lembranças que eu trago na vida você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim outra vez
Esqueci de tentar te esquecer, resolvi te querer por querer
Decidi te lembrar quantas vezes eu tenho a vontade sem nada a perder, ah!
Você foi toda a felicidade, você foi a maldade que só me fez bem
Você foi o melhor dos meus planos e o maior dos enganos que eu pude fazer
Das lembranças que eu trago na vida você é a saudade que eu gosto de ter
Só assim sinto você bem perto de mim outra vez

O grande segredo, de Fritz Lang

 


O grande segredo é  filme de Fritz Lang, de 1945. Lang é um mestre do suspense e usa todos os seus recursos narrativos nesse triller de espionagem em que um cientista americano tem que levar um físico italiano para os EUA como forma de evitar que os alemães construam a bomba atômica.
Lang usou um argumento super atual na época com maestria. O roteiro é muito bem construído e vai numa espiral em que um fato puxa outro, que puxa outro, que puxa outro. Quando parece que as coisas vão acalmar é exatamente quando elas complicam.
Destaque para a composição das cenas, com uso sempre inteligente de espelhos e da profundidade de campo, como na cena em que os dois cientistas estão conversando e o retrato de Mussolini na parede parece olhar para eles, criando um clima de angústia no expectador. Lang sabia usar como ninguém o cenário como elemento narrativo e as inovações trazidas por Orson Welles em Cidadão Kane cairam como uma luva para esse filme.
Também vale destacar que a película não se limita ao aventuresco. A personagem Gina, de Lili Palmer, por exemplo, acaba ganhando grande profundidade, em oposição ao herói, que pelos padrões da época precisava ser alguém infalível.
Um clássico, sem dúvida.

Nick Raider – Uma fita explosiva

 


Nem todas as histórias policiais giram em torno de um crime (geralmente um assassinato) com o policial investigando para descobrir quem é o criminoso. Há um tipo de histórias, geralmente associadas ao gênero noir, em que o leitor sabe tudo que está acontecendo e o suspense surge da expectativa sobre como a situação vai se resolver.

Exemplo disso é a história Uma fita explosiva, publicada no Brasil no número 11 de Nick Raider. Na história, escrita por Cláudio Nizzi e desenhada por Fiorentini e Sgatoni, um juiz está com uma doença grave e se suicida. O problema é que ele deixa uma fita, na qual admite que ao julgar um mafioso, ele e o promotor fizeram de tudo para inocentá-lo em troca de uma ascenção em suas carreiras.

Um juiz se suicida... 


Uma de suas assessoras tenta entregar a fita para Nick Raider e é morta, o que faz com que ele entre de cabeça no caso, que passa a ter um clima noir em que a maioria dos personagens parece ser mal caráter ou simplesme aproveitador.

Nizzi trabalha muito bem esses elementos, criando uma tensão contínua (Raider será morto?). Parece uma situação em que a lei não conseguirá prevalecer.

... e deixa uma pista que compromete um mafioso. 


Se o roteiro se desenvolve muito bem, o mesmo não pode ser dito da ilustração. Fiorentini e Sgatoni oscilam muito. Em alguns momentos o traço é fenomenal, em outros chega próximo do tosco. Algumas opções visuais também não ajudam. Num ângulo de baixo, por exemplo, Raider parece outra pessoa.

Ainda assim é uma boa história.