quarta-feira, maio 29, 2024

A geração do imediatismo

 

O surgimento dos celulares fez com que a comunicação se tornasse extremamente intrusiva. Com celular você podia ser encontrado em qualquer hora, em qualquer local e as pessoas passaram a achar que você deveria estar disponível para conversar a qualquer momento. Quando comprei meu primeiro celular logo aprendi que tinha que desligá-lo à noite, pois muitos alunos me ligavam uma, duas horas da madrugada. Também descobri que tinha que desligá-lo quando entrava em sala de aula: muita gente simplesmente não compreendia que um professor não pode falar ao celular quando está em aula.

Parecia impossível, mas a internet no celular conseguiu deixar a comunicação ainda mais intrusiva. O surgimento dos smarthphones está criando uma geração que passa 24 horas por dia logada. Para essa geração, estar off line é como estar morto. E estar on-line é estar disponível para conversar. Antes mandava-se uma carta e esperava-se muitas vezes um mês inteiro para receber resposta. Hoje, espera-se que todas as pessoas estejam disponíveis para responder às mensagens instantaneamente.

Eu tenho sérios problemas com internet no celular. Para começar, meus dedos são grandes demais para a tela digital e quando digito um “d” sai um “s”, quando digito “p” sai um “o”, de modo que quando sou obrigado a escrever saem coisas como “xasa”, no lugar de “casa”, ou “pafamento” no lugar de pagamento. Além disso, nas poucas vezes em que ligo a internet é para usar o GPS (o GPS do meu celular só funciona com o Google Maps), de modo que, se alguém me chama no MSN do Facebook no celular, provavelmente vai me encontrar com sérias dificuldades para digitar, sem óculos de leitura e no meio da rua. Mas para a maioria das pessoas isso não parece ser impedimento para responder às mensagens. Se estou online, estou disponível para bater-papo.
Dia desses, quando cheguei em casa e fui olhar o celular, tinha o seguinte monólogo na tela do MSN:
“Gian, você pode ler um conto que escrevi?”
“Não vai ler?”
“Não respondeu, né? Seu arrogante!”
Fui ver e o intervalo entre cada mensagem era pouco mais que um minuto. Ou seja: a pessoa parte do princípio de que sua mensagem deve ser respondida imediatamente, ou o outro é arrogante e convencido.
Imaginem eu, no meio do trânsito, sem óculos, tentando ler um conto de um desconhecido e ainda tendo que emitir parecer sobre ele?  Além da impossibilidade, junta-se outro fator: qualquer escritor ou roteirista minimamente profissional não avalia original alheio. Os noveleiros da Globo são terminantemente proibidos de ler roteiros de iniciantes. O motivo é óbvio: se depois disso o roteirista fizer qualquer coisa minimamente semelhante, será acusado de plágio. Para ler originais de iniciantes existem profissionais especializados, que fazem isso sob contrato e muitas vezes não só fazem considerações estilísticas como revisam e ainda ajudam a registrar o texto. Mas nada disso é levado em consideração pela pessoa que está ali na internet e vê a bolinha verde indicando que a pessoa está on-line. Seu raciocínio é “Ah, ele está on-line, então está disponível para ler meu texto de cinco páginas”.
Dia desses me vi numa situação ainda mais embaraçosa. Enquanto estava no celular uma pessoa me mandou uma mensagem no MSN do Face (aquela coisa terrível que vibra, acende luzinha e faz sons para chamar atenção, mesmo que você não esteja no Facebook) interessada em comprar um dos meus livros sobre quadrinhos. Cegueta como sou e na pressa da rua, eu me enganei e acabei mandando o livro errado.
Quando o livro finalmente chegou, a pessoa entrou em contato, reclamando. Eu estava no meio de uma aula do doutorado, no meio de uma acalorada discussão sobre um texto e, no meu português trôpego pedi “descukpa”. Como o livro de fato pedido estava fora de catálogo, propus que a pessoa ficasse com o que eu havia enviado, como compensação (ao que ela prontamente aceitou) e eu devolveria o dinheiro. Eu sabia que o erro tinha sido meu e achei justo devolver o dinheiro e recompensar o comprador com o outro livro. Expliquei que estava em sala de aula e que resolveria o assunto assim que saísse. A pessoa simplesmente se recusou a aceitar que a situação não fosse resolvida naquele exato momento. Eu ali, tentando participar da discussão sobre o texto e tentando explicar, tropegamente, que ia depositar o dinheiro assim que terminasse a aula.
E o indivíduo: “Mas você vai depositar mesmo? Quando você vai depositar?”.
E eu, digitando e rezando para não ser visto pela professora: “Ocupado agora aula. Deposito hoje”.
E o celular vibrando: “Você vai depositar quando?”
Não teve outra solução: fui obrigado a sair da sala de aula, no meio da discussão, para ir depositar o dinheiro. Depositei, tirei uma foto do comprovante da transação, mandei para a pessoa e só então ela se acalmou.
Pior que a pessoa era um conhecido meu de antiga data e me disse que não estava suspeitando da minha honestidade. Apenas queria que a solução fosse dada na hora.
Ou seja: é uma geração em que tudo deve ser imediato. A comunicação instantânea criou a ansiedade instantânea. Se o problema não foi resolvido imediatamente, não vai ser resolvido. Se a pessoa não responde automaticamente a mensagem, ela está esnobando e é arrogante.
Em tempo: um amigo me ensinou como aparecer sempre off-line no MSN do Facebook. Foi um alívio.
Um amigo, editor de quadrinhos, que usa o Face e o Twitter para divulgar seus lançamentos, me disse que em certos dias quase não consegue trabalhar, de tanta gente querendo conversar. Como o nome dele está sempre com a bolinha verde, isso necessariamente deve significar que ele está disponível para bater papo.
Não vai longe o dia em que começaremos a ler algo do tipo: “Como assim você está morrendo? Isso não é desculpa para não responder as mensagens!”.  

Perry Rhodan – A chave do poder

 


O número 86 da série Perry Rhodan apresenta a parte final da saga iniciada no volume Recrutas de Árcon.

Na trama, um comando de terranos se disfarça de recrutas zalistas na tentativa de se aproximar do computador regente e destruí-lo ou desativá-lo, uma vez que ele pretende destruir a Terra.

Juntamente com Rhodan e seu homens vai o arcônida Atlan, que havia passado milhares de anos vivendo em nosso planeta em um exílio involuntário, esperando que a humanidade chegasse à era espacial, o que lhe permitiria voltar para casa.

O livro começa lento. Um quinto dele é apenas um resumo dos volumes anteriores. Depois há uma longa sequência com o cotidiano dos recrutas em seu treinamento de guerra. Essa parte, apesar de pouco interessante, tem o charme de mostrar o nível de degeneração dos arcônidas, o que levou o Império a ser governado com mão de ferro por um computador.

Um deles, almirante, por exemplo, resolve não fazer nada quando é informado que uma das naves está com um defeito que pode ser fatal em uma batalha espacial. Pouco depois, quando encontram um cientista, K.H.Scheer, o autor do volume, detalha a forma como esses seres foram degenerados pela ação de um mecanismo de diversão que emite imagens: “À frente do cientista, encontrava-se um receptor portátil de imagens simultâneas , em cuja tela surgia uma multidão profusa de figuras coloridas. Ao que tudo indicava, o homem estava absorto no jogo, que, para mim, não tinha o menor sentido”.

A capa original alemã. 


A frase é credita a Atlan, que narra a história. Scheer, que parecia amar tanto o almirante arcônida quanto Clark Darlton gostava de Gucky.

A sequência nos faz pensar o quanto os autores da série foram proféticos ao imaginar em como uma raça poderia ter sua inteligência degenerada por mecanismos de emissão de imagens. Alguém aí lembrou de aplicativos de redes sociais, que podem estar diretamente relacionados à diminuição de QI das novas gerações?

À parte isso, o livro pega fogo quando finalmente o comando inicia o plano para destruir ou inutilizar o computador regente. Simplesmente tudo dá errado, dando ao leitor à sensação de que o fracasso é inevitável, assim como a morte dos personagens.

Essa certeza de fracasso torna ainda mais empolgante quando tudo se resolve, lá pelas últimas páginas, da maneira mais lógica e surpreendente possível.

Esse é certamente um dos grandes volumes do segundo ciclo.

A arte revolucionária de Sergio Toppi

 

Sérgio Toppi é um dos mais importantes artistas italianos de quadrinhos. Seu estilo revolucionário influenciou gente do naipe de Bill Sienkiewicz, Walt Simonson e Frank Miller. Seu estilo brincava com as imagens, muitas vezes distorcendo-as e brincando com os espaços em branco. Ele estreou  nos quadrinhos na década de 1960, mas só ficou realmente famoso na década de 1970, quando começou sua colaboração com a editora Bonelli. Entre os seus trabalhos mais famosos estão os álbuns da coleção Um homem, uma aventura, publicados no Brasil pela editora Ebal. Ele chegou a fazer também capas para a Marvel Comics. Sergio Toppi morreu em 2012. 













Jornada nas estrelas – o espelho

 


O tema das realidades paralelas apareceu pela primeira vez em Jornada nas Estrelas no episódio "O Fator Alternativo" e foi um desastre absoluto. Na segunda temporada, os roteiristas pareciam finalmente ter aprendido a lidar com a temática. Foi quando apareceu no episódio O espelho.
Na trama, Kirk, McCoy, Uhura e Scotty estão tentando fazer um acordo comercial com líderes de um planeta pacifista. Quando voltam para a enterprise, uma tempestade magnética faz com que eles sejam direcionados para uma realidade paralela em que a Federação dos planetas se tornou um império militarista e os oficiais sobem de postos assassinando seus superiores – e cada membro da Enterprise tem o seu duplo. Kirk e amigos precisam descobrir como voltar para nossa realidade ao mesmo tempo em que devem evitar que os outros descubram que eles não são suas contrapartes malignas. Destaque para Spock com uma barba e bigode que, como diz o próprio McCoy, lhe dão personalidade – e pode ser a pessoa a descobrir o que realmente está acontecendo e evitar que o grupo volte para a nossa realidade.
O roteirista Jerome Bixby parece ter se inspirado no tema do duplo, de Edgar Alan Poe. Poe imagina um personagem, William Wilson que se vê atormentado por um alter-ego maligno e se transformou em base para vários outros personagens, tornando-se um verdadeiro arquétipo moderno. A novidade aí foi transportar o tema para a ficção científica e misturá-lo às realidades alternativas – e fazer isso com muita competência.
O resultado foi tão bom que acabou gerando episódios nessa mesma realidade em várias outras encarnações da franquia.

terça-feira, maio 28, 2024

O sequestro do metrô

 



Comprei o livro O sequestro do metrô , de John Godey (editora Abril Cultural) por dois reais em um sebo. Poucas vezes dois reais foram tão bem investidos.
O livro narra a história de um quarteto de ladrões que sequestra um vagão de metrô e exige um milhão de dólares em sessenta minutos, ou matarão os passageiros.
O autor, Morton Freedgood usou o pseudônimo de John Godey, pois pretendia guardar seu nome verdadeiro para livros mais sérios. No entanto, foi este livro que o tornou famoso e fez com que ele entrasse na história da cultura pop quando o livro se transformou em filme apenas um ano depois de ter sido lançado, em 1973.
A primeira qualidade que salta aos olhos no texto é o foco narrativo: cada capítulo é focado em um personagem, e alguns são focados em um grupo de personagens, como jornalistas, assessores do prefeito, a multidão que se forma em torno do sequestro. Com isso o autor consegue dar uma visão ampla de um fato, mostrando-o sob os mais diversos pontos de vista.
Soma-se a isso os diálogos afinados, que muitas vezes refletem as críticas sociais do autor à sociedade de sua época. As ligações recebidas pelos jornais, com vários movimentos tentando assumir a autoria do atentando ou de leitores sugerindo soluções para o empasse refletem bem isso.
Além disso, Freedgood, como se escrevesse uma reportagem, fez uma extensa pesquisa sobre cada detalhe do metrô de Nova York e sobre as forças policiais, seus modos de ação: tudo é descrito nos mínimos detalhes.
A forma narrativa escolhida pelo autor faz com que o livro não tenha um protagonista. É como se o próprio metrô fosse o personagem principal, ao redor do qual tudo gira.

Uma curiosidade é que no filme de 1974 os bandidos se chamam por cores, uma estratégia adotada posteriormente por Tarantino no filme Cães de aluguel. A partir daí, usar palavras para os bandidos se chamarem a si próprios tornou-se um padrão na cultura popular, como podemos ver em La casa de papel, em que os assaltantes da casa da moeda usam nomes de cidades como codinome.
O sucesso do filme fez com que as autoridades do metrô de Nova York temessem que alguém tivesse a mesma ideia. Uma das consequências disso é que foram banidas as saídas de trens de Pelham no horário de 1h e 23 minutos (exatamente o trem escolhido pela quadrilha pelo golpe).
O filme ainda foi inspiração para uma canção de Carter USM e outra de Beastie Boys.
Em 2009, o filme ganhou um ótimo remake dirigido por Tony Scott com Denzel Washington e John Travolta no elenco intitulado O sequestro do metrô 123 (disponível na Netflix).

A era Image

 



No início dos anos 1990, uma nova geração começava a protagonizar sucessos estrondosos na Marvel Comics. O Homem-aranha 1, de Todd McFarlane vendera mais de um milhão de exemplares. X-force 1, de Robb Liefield vendera quatro milhões de exemplares. X-men, de Jim Lee, vendera 8 milhões de exemplares.
Era uma geração espalhafatosa, que fugia completamente do estilo funcional e narrativo dos anos 1980 e tinha pouco apreço pelo roteiro. Rob Liefield desenhava músculos que não existiam e janelas que por fora eram quadradas e por dentro eram redondas. O estilo dessa garotada foi resumido em uma fala de Todd McFarlane para seu editor em Homem-aranha: “Se eu posso entregar 22 páginas em branco e a meninada compra um milhão, quem se importa com os gibis que fizeram nos últimos cinquenta anos? Não me interessa se antes eram imagens e palavras!”.
Mas esses artistas, em especial McFarlane e Liefield estavam insatisfeitos. Queriam ser seus próprios editores e ter direitos sobre seus personagens. Ambos começaram a articular uma debandada em massa. Eles haviam percebido que a saída de um único artista, por mais importante que fosse, não abalaria a casa das ideias. Na década de 1970, por exemplo, Jack Kirby saiu da Marvel e não houve qualquer impacto sobre a editora.
Outros artistas, como Jim Valentino e Eric Larsen decidiram acompanhar o êxodo, mas o fiel da balança foi Jim Lee. Sua adesão ao projeto deu certeza de que a nova editora seria um calo no sapato da Marvel.
A nova editora se chamaria Image e seria um selo da Malibu.
O surgimento da Image coincidiu com a era da especulação, em que pessoas que entendiam pouco do mercado de quadrinhos compravam diversos exemplares da mesma revista esperando que elas valorizassem posteriormente. E as lojas compravam toneladas de quadrinhos esperando que os especuladores continuassem comprando caixas de gibis.
Os artistas da Image embarcaram num mundo de luxos: compravam mansões, carros para os amigos, contratavam animadoras de torcida para serem suas namoradas.
Mas a bolha explodiu: em algum momento de 1993 os especuladores começaram a perceber que talvez houvesse algo errado e começaram a debandar. Nesse meio tempo descobriu-se que muitos dos fãs de quadrinhos também tinham deixado de comprar gibis, cansados dos preços altos e das múltiplas capas variantes. As vendas despencaram.
Em apenas seis meses a indústria foi da euforia à bancarrota: milhares de lojas de quadrinhos fecharam suas portas.
Na Image, os artistas estavam brigando entre si e, especialmente, com Rob Liefield.
A era Image, de quadrinhos sem histórias e vendas astronômicas estava chegando ao fim.
Atualmente, o selo ainda existe, mas publica um material muito diferente do que tornou a editora célebre. Seu quadrinho mais vendido é Walking Dead, focado principalmente no roteiro de Robert Kirkman.

A guerra dos mundos

 

H.G. Wells é um dos fundadores da ficção científica. Alguns dos temas mais caros do gênero surgiram de sua imaginação, assim como algumas das obras mais perturbadoras. Dentre elas, merece destaque A guerra dos mundos, lançado no Brasil pela Suma.

A edição, em capa dura, tem prefácio de Bráulio Tavares, introdução de Brian Aldiss e ilustrações de 1906, de Henrique Alvim Corrêa. Além disso, traz uma entrevista com Wells e Orson Welles, o diretor que comandou a versão radiofônica do livro, tida por muitos como verdadeira e que provocou verdadeiro pânico ao ser transmitida nos EUA, em 1939. Tudo isso fazem dessa uma edição imperdível.
Mas mesmo sem tudo isso, já valeria a pena. Wells não escreveu um simples relato de invasão extraterrestre: ele fez uma obra que nos faz pensar: da denúncia do imperialismo ao futuro da humanidade.
Wells constrói sua obra em capítulos curtos e maneja bem o suspense, viciando o leitor que vira página após página seja para descobrir o destino do protagonista, seja para acompanhar uma explicação sobre os extraterrestres (a maior parte das quais amparada na teoria da evolução). A narrativa de Wells é simples, sem floreios, mas poderosa. A cada frase percebemos que estamos diante de uma mente brilhante.
Como muitas outras obras de ficção ou fantasia, A guerra dos mundos é uma metáfora: neste caso do colonialismo europeu. Os marcianos que lançam seus ataques, destruindo cidades inteiras e matando indiscriminadamente são como os europeus, sedentos por riquezas devastando os países conquistados e reduzindo sua população à escravidão (vale lembrar o domínio da Bélgica sobre o Congo, em que os trabalhadores que não cumpriam sua cota tinham suas mãos cortadas). Para tornar essa metáfora ainda mais poderosa e impactante, Wells faz com que seus marcianos se alimentassem do sangue humano.
O momento em que a invasão de fato ocorre, com os marcianos saindo de suas naves em seus mecanismos tripoides são o grande momento do livro – e o ponto em que o autor mostra o poder de suas palavras: “Ao ver aquelas estranhas, velozes e terríveis criaturas, a multidão à beira do rio pareceu por um momento paralisada de terror. Não houve gritos ou berros, mas silêncio. Em seguida, um murmúrio rouco, um movimento de pés, um jorro d´água”.
Outro grande trunfo é a narrativa em mosaico, em que um acontecimento grande é mostrado através de pequenos fatos. Wells usa esse recurso para humanizar a narrativa, mostrar que são pessoas reais ali, no meio da confusão e da carnificina: na fuga um homem com uma perna enrolada em trapos é ajudado por amigos, um velho com bigode militar sai mancando, depois para, senta-se ao lado de um sifão, tira a bota manchada de sangue, remove uma pedrinha e sai de novo capengando, uma criança grita: “Não consigo continuar, não consigo!”.
Filosofia, ciência, crítica social e uma imaginação poderosa de um homem a frente de seu tempo. O resultado é um clássico absoluto da ficção científica, uma obra que demonstra o quanto o gênero pode ir muito além da simples diversão. 

Os 7 de chicago

 

Em 1968 a Guerra do Vietnã se tornara extremamente impopular. Grupos tão diversos quanto objetores de consciência, os panteras negras e hippies resolveram aproveitar a convenção do partido democrata na cidade de Chicago para mobilizar uma grande manifestação. A polícia repreendeu duramente o protesto e oito pessoas foram presas: Abbie Hoffman, Jerry Rubin, David Dellinger, Tom Hayden, Rennie Davis, John Froines, Lee Weiner e Bobby Seale.  O grupo foi acusado de conspiração e ficou conhecido como os 7 de chicago. 

É a história desse julgamento histórico (o lema dos protestos na frente do tribual eram “O mundo está assistindo”) que o diretor Aaron Sorkin relata no aguardado filme da netflix.

Existem muitos filmes de tribunais nas mais variadas abordagens. Entrentato, nesse gênero tão surrado que já gerou algumas obras-primas e muitos filmes meia-boca, Sorkin inova pelo uso de uma edição rápida e trilha sonora da época.

O final dos anos 60 era quando tudo estava acontecendo e tudo estava mudando. Foi quando o rock tomou conta do imaginário popular norte-americano. “Os tempos estão mudando”, cantava Bob Dylan, e o filme reflete isso desde a primeira cena: uma rápida sequência dos acusados se preparando para ir para Chicago e falando sobre suas intenções. A edição faz com que cada um complete a fala do outro.

Quando os vemos novamente, eles estão no tribunal e tudo que aconteceu antes é mostrado na forma de flash backs puxados pelos depoimentos ou pelas lembranças dos acusados – a mais recorrente delas  a dos policiais tirando suas credenciais antes de atacar os manifestantes.

E trata-se de um julgamento completamente manipulado, em que o juiz nitidamente já tinha condenado os réus e chega ao ponto de mandar algemar, amordaçar e prender à cadeira um dos réus (que não estava sendo defendido por advogado) e a dispensar jurados que se mostrassem favoráveis aos réus. O filme mostra isso sem resvalar no dramalhão (ao contrário, é um filme divertido, engraçado) ou mesmo no maniqueísmo (as cenas de disputas entre os réus, que representam grupos diferentes são importantíssimas).

O filme, portanto, não só é bom, mas também tem um dos melhores finais que já vi num filme de tribunais.

Pateta faz história

 


 Pateta faz história é uma coleção criada pelo argentino Jaime Diaz na década de 1970. Foi um pedido da Disney, já que a editora americana, a Western, não estava dando conta da demanda internacional. Diaz imaginou uma série revolucionária, a começar por colocar o Pateta como protagonista, deixando o Mickey como personagem secundário (o que tornou a série muito mais interessante). Além disso, a diagramação era inovadora, com partes do cenário formando molduras dos quadrinhos.

Foi um sucesso mundo a fora. No Brasil foi lançado em 1978 pela editora Abril. A mesma Abril voltou a publicar a série em 2011, agora em formatinho, com textos de Marcelo Alencar. Os textos traziam a biografia dos cientistas, artistas, reis e aventureiros homenageados nas histórias, dando uma contextualização para as HQs.
A história sobre Pasteur une humor e divulgação científia. 


Em 2017 a Abril voltou a publicar a coleção, agora em volumes de capa dura e média de 350 páginas e oito histórias por volume.
Certamente muitos dos que compraram em 2011 vão comprar também esta nova edição, em especial graças ao belíssimo trabalho gráfico, com título em alto relevo prateado, boa encadernação (por alguns lançamentos mais recentes parecia que a Abril tinha perdido a prática de encadernar seus volumes Disney), papel de boa qualidade – ou seja, volumes de colecionador.
O nível das histórias é variado. Há verdadeiras obras-prima de roteiro e desenho, há outras que se destacam pelo roteiro e outras que se destacam pelo desenho. Há histórias que valem a pena apenas por conta da piada final, como a de Tutacamon Pateta, que manda construir um monumento, um enorme boneco, mas no final só o que sobrevive é o chapéu em forma de pirâmide após todo o resto ser coberto pela areia.
A série inclui também adaptações de clássicos da literatura. 


De toda a coleção, o meu predileto é Louis Pasteur, escrito por Tom Yakutis, o melhor roteirista da série (também responsável pelas histórias de Ascenção e queda do império romano e Gengis Khan, entre outros). Yakutis consegue ser engraçado e, ao mesmo tempo, repassar as informações básicas sobre o biografado.
Ao escrever a biografia do grande cientista, que revolucionou a ciência ao descobrir a ação dos microorganismos, o roteirista consegue misturar fatos científicos reais (como a proliferação de bactérias no leite, que faz com que ele azede) com piadas memoráveis: ao colocar fogo na própria casa, Pateta descobre uma garrafa de leite que não azedou e concluí que as bactérias morrem se você colocar fogo numa casa!!!! Há até mesmo uma lição de lógica indutiva: o Pateta bate na própria cabeça com uma marreta 7504 vezes e em todas as vezes doeu bastante, assim é razoável presumir que se bater novamente no mesmo lugar a dor se repetirá!

The good bad mother

 


Confesso que gosto de, desde os primeiros momentos, de um filme ou série, saber qual é a trama, qual o conflito central. Quando isso não fica muito claro, por exemplo, no primeiro capítulo, minha tendência é abandonar pela metade achando que continuar seria perder tempo com um roteirista que não sabe onde quer chegar.  

O dorama (ou k-drama) coreano The good bad mother me mostrou que essa pode ser uma atitude precipitada. Até ali pelo final do segundo capítulo não está clara qual é a trama e o expectador só consegue entender de fato tudo que está acontecendo no nono capítulo. Eu só persisti porque a série tinha sido muito bem recomendada por amigos – e não me decepcionei.

Para continuar, preciso contar um pouco da história, então, se não gosta de spoiller, melhor parar aqui.

A história é focada em Kang Ho, um garoto inteligente e esforçado, que é criado de forma dura e até mesmo cruel pela mãe, que não lhe deixa ir nos piqueniques da escola e nem mesmo assistir televisão. A mãe na verdade, não o deixa nem mesmo comer o quanto quer, pois, segundo ela, comer muito dá sono e quem está com sono não pode estudar. O sonho dela, de que ele se forme em Direito e se torne um promotor público, acaba se realizando, mas aparentemente à custa do relecionamento entre os dois. Para piorar, o pai havia morrido há muitos anos, assassinado por um mafioso em um caso encoberto por um promotor.

Tudo muda quando Kang Ho sofre um acidente e não só fica paralítico, mas também perde a memória e a capacidade cognitiva, tornando-se o que seria equivalente a uma criança de sete anos.

A tragédia acaba se transformando em uma espécie de segunda chance entre mãe e filho, de forma que relação que se reconstrói do zero. A mãe má se transforma em uma mãe boa e amorosa, capaz de fazer tudo pelo filho, mas retorna de tempos em tempos. Quando, por exemplo, o filho não consegue levantar a mão, ela o faz passar fome. Ele só volta a comer quando conseguir se alimentar sozinho. Quando ela percebe que ele pode voltar a andar, ela o joga da cadeira de rodas em um rio diversas vezes até que ele se levante e ande. Ao longo da história, também entendemos as motivações para que ela tivesse sido tão má quando criava a criança. Até mesmo detalhes como não deixar o filho ir ao piquenique da escola tinha uma explicação.

Essa relação entre mãe e filho por si só já dariam uma ótima série, mas o que temos aqui é muito mais. Há toda uma trama policial e política e envolvida assegura os momentos de suspense.

A roteirista  Bae Se-youn dá uma verdadeira aula de como utilizar as elipses na narrativa, contando os fatos, mas pulando partes que só serão mostradas lá na frente. Se por um lado isso deixa o expectador confuso no início, por outro lado, torna a série instigante e mostra um domínio único da trama.

Vale destacar também a escolha inspirada do elenco.

Lee Do-hyun, como o promotor Kang Ho, consegue mudar completamente sua atuação entre os dois momentos – aquele em que ele é um homem adulto e um promotor respeitado, e aquele em que volta a ser criança. Apesar de ser um homem adulto, Lee Do-hyun consegue convencer como uma criança, com ótimas expressões faciais e corporais.

Outra atuação memorável é Ra Mi-ran, que interpreta a mãe. Ela também consegue oscilar perfeitamente entre a mãe má e e boa mãe sem nunca perder o encanto. A relação dela com o filho é emocionante e se sustenta na ótima interpretação dos dois.

Assim, siga o conselho: por mais que você não esteja entendendo muito no início, persista. A série The good bad mother vale muito a pena.

Cobra Sofia, de Rafael Senra

 

Lançado no ano de 2021, o álbum de quadrinhos Cobra Sofia, de Rafael Senra, teve um percurso curioso. Começou como uma música. Da música, surgiu a ideia de fazer um clipe animado. Ao produzir as imagens para o clipe, o autor pensou: “Por que não uma história em quadrinhos?”.

O resultado foi a obra de 50 páginas lançada pela Marca de Fantasia.

Há alguns problemas ao se adaptar as lendas amazônicas para outras mídias. O primeiro deles é a visão corrente entre a população de que essas lendas são de cunho infantil, uma visão totalmente equivocada. A outra questão diz respeito à narrativa. As lendas em si apresentam histórias curtas. Como desenvolvê-las em um álbum? 



Senra consegue contornar essas situações de forma muito competente. Em nenhum momento, por exemplo, ele tenta infantilizar a lenda, o que tiraria dela muito de sua essência, já que se trata de uma história sobre uma índia engravidada pelo boto tucuxi e que acaba parindo uma cobra.

Há se destacar um possível problema de verossimilhança na lenda original. Por que razão a índia sairia da tribo e viveria fugindo pela floresta durante a gravidez? Para nós parece não fazer sentido, mas Senra consegue justificar a situação.



A questão da brevidade da lenda é resolvida de duas formas. A primeira delas com um bom desenvolvimento da mesma, detalhando todo o processo da gravidez. Vale destacar a cena em que a personagem atravessa um rio e sua imagem repetida, representa saltos no tempo, de modo que, quando entra na água, sua barriga está pequena, e quando saí ela já está próxima de dar a luz, uma grande sacada narrativa.

Outra forma de contornar a brevidade da lenda foi abordar suas consequências atuais, como pessoas cujo desaparecimento é creditado à cobra grande, ou os tremores de terra, que também seriam provocados pela mesma.

A obra pode ser baixada gratuitamente no site da Marca de Fantasia: http://marcadefantasia.com/albuns/repertorio/cobrasofia/cobrasofia.pdf.

Esperamos que em breve possamos ver uma versão impressa. Merece.

Mãe d´água

 

A mitologia brasileira é uma mistura de tradições índias, negras e europeias. Nenhuma figura mitológica encarna isso tão bem quanto a Iara, a mãe d´água.
Segundo Câmara Cascudo, os índios tinham em suas lendas um ser aquático, o Ipupiara, uma espécie de homem peixe, feroz, bestial, que saía da água para capturar suas presas e matá-las. Na religião indígena também havia a percepção de que tudo na natureza tem uma mãe. Portanto, existia a mãe do rio, sempre presente nos olhos d´água. Também era comum chamar a cobra grande de mãe d´água.
Os africanos tinham vários seres aquáticos: Iemanjá, Anambucuru, Oxum. E tinham um ser parecido com o Ipupiara, os nebéli, um espírito do rio, que, enfurecido, provocava tempestades, virando as pirogas e afogando quem estivesse dentro.
Já os europeus tinham as sereias, que seduziam os navegantes e muitas vezes se casavam com eles, dando-lhes riquezas e filhos e exigindo em troca respeito aos habitantes da água (nas lendas, o marido sempre descumpre essa promessa e acaba sem a esposa e as riquezas).
A mistura de todas essas tradições nos deu a Iara, a mãe d´água, um ser que, ao contrário dos Ipupiara e dos nebéli, é formoso. Trata-se de uma linda mulher, que seduz os os viajantes que passam por olhos d´água.
Olavo Bilac tornou célebre a lenda em um dos seus poemas:

Vive dentro de mim, como num rio,
Uma linda mulher, esquiva e rara,
Num borbulhar de argênteos flocos, Iara
De cabeleira de ouro e corpo frio.

Entre as ninfeias a namoro e espio:
E ela, do espelho móbil da onda clara,
Com os verdes olhos úmidos me encara,
E oferece-me o seio alvo e macio.

Precipito-me, no ímpeto de esposo,
Na desesperação da glória suma,
Para a estreitar, louco de orgulho e gozo...

Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:
E a mãe-d'água, exalando um ai piedoso,
Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

A mãe d´água aparece no meu romance Cabanagem ilustrada pelo grande quadrinista paraense Otoniel Oliveira. A imagem mostra a personagem encontrando com o protagonista, Chico Patuá e se destaca pela representação aquática da personagem, com seu cabelo e sua roupa se confundindo com a água do rio.