sexta-feira, maio 03, 2024
As vidas de Chico Xavier
As capas de Sandman
A capa de Sandman 1 era um armário que Dave Mckean preencheu com pinturas, colagens e objetos... Foi revolucionário. Jack Kirby já tinha feito colagens na década de 1960, mas ninguém na indústria de quadrinhos tinha ido tão longe na experimentação. Uma das capas de quadrinhos mais famosas de todos os tempos. Em tempo: o armário voltou a ser reaproveitado nas capas seguintes da primeira saga do personagem.
quinta-feira, maio 02, 2024
Realidades adaptadas, de Philip K. Dick
Livro de Metodologia em promoção na Amazon
Meu livro Introdução à metodologia científica está em promoção de livro grátis da Amazon. A promoção vai só até amanhã. Para baixar, clique aqui.
Um estranho em uma terra estranha
Ajuricaba
Ajuricaba foi um líder indígena que, em pleno século XVIII, combateu os portugueses, chegando a dominar a região do Amazonas a ponto de se declarar governador do Rio Negro. Sua importância história é tão grande que sua tribo, os manao, deu origem à capital do Amazonas, Manaus.
É a história desse personagem histórico que Ademar Vieira (roteiro), Jucylande Júnior (desenhos) e Tiê Santos (arte-final) contam no álbum Ajuricaba lançado pelo selo Black Eye em 2020.
O que impressiona na história é a qualidade do roteiro. A história é fluída, magnética, do tipo que só largamos na última das 130 páginas do álbum. Os desenhos, simples, mas expressivos, se destacam principalmente pela força narrativa. É a arte a serviço da história.
| Os portugueses faziam incursões pela floresta para escravizar índios. Isso provoca a ira de Ajuricaba. |
E história é o que não falta. A vida de Ajuricaba é interessantíssima. Seu pai, líder dos manaó, era aliado dos portugueses, mas quando vai cobrar destes o fato de terem atacado uma tribo aliada para prender escravos, acabou sendo mortos por esses. Da mesma forma, também filho de Ajuricaba foi morto durante um ataque poruguês – o que levou o herói indígena a sua jornada de vingança e libertação.
O Ajuricaba da história em quadrinho não é apenas um personagem histórico. O roteiro o humaniza, mostrando sua relação meiga com o filho e a esposa e o forte impacto da visão dos índios sendo levado escravizados exercia sobre ele. Além disso, o roteiro explora seu lado de estrategista militar em sequências empolgantes de guerra.
| A história humaniza o herói indígena. |
Mas a HQ não o trata apenas como herói. Aspectos controversos do personagem, como o fato dele ter escravizado tribos rivais para trocá-las por armas com os holandese também são mostrados.
Os portugueses empreenderam uma dura repressão, que levou ao extermínio total da tribo manao, de modo que toda a sua cultura e até sua língua se perdeu. Mas Ademar Vieira resgata algumas das poucas palavras das quais sobraram registros para usá-las na história, dando um ar ainda mais verossímil à HQ.
| O lado controverso de Ajuricaba também é mostrado. |
Outro acerto foi introduzir uma trama paralela com o garoto Teodósio, um índio cristianizado que era tiranizado por um padre. A última página da história o mostra tirando as roupas europeias e entrando na floresta. Dessa forma, o álbum linka a revolta de Ajurucaba com a revolta liderada por Teodósio, um personagem real.
Ajuricaba é um dos melhores quadrinhos nacionais que li recentemente. O tipo de história que merecia leituras e releituras e por isso mesmo merecia também uma edição especial, com capa dura. Há tantas histórias ruins por aí sendo publicadas em capa dura, papel especial que não valem metade desse álbum nacional.
Onde comprar:
Manaus-AM
@banca_do_largo
@dontpanicgeekshop
São Paulo-SP
@ugra_press
@lojamonstra
Rio de Janeiro-RJ
@lazaruscomicshop
Curitiba-PR
@itibancomicshop
Belém-PA
@kryptonitabelem9
Mapinguari no traço de Antonio Eder
A mitologia amazônica é uma das mais ricas do Brasil. Entre os seres mitológicos da floresta está o Mapinguari. É um monstro enorme, todo peludo, com um único olho e boca na barriga. Uma boca pútrida, repleta de dentes com a qual ele devora suas vítimas. Câmara Cascudo diz dele: "Mata sempre, invariavelmente, obstinadamente, quem encontra. Mata para comer". O Mapinguari aparece no meu livro Cabanagem ilustrado pelo grande quadrinista Antonio Eder. Clique aqui para comprar o livro Cabanagem.
Feitiço do tempo
Assisti, finalmente, Feitiço do tempo (roteiro de Danny Rubin e Harold Ramis, direção de Harold Ramis). Na verdade, o interesse maior foi na interessante narrativa em elipse, que era sempre citada por alunos quando eu falava de narrativas não-lineares. Trata-se de um jornalista arrogante e egocêntrico, que, ao fazer uma matéria numa cidadezinha sobre uma marmota capaz de prever o fim do inverno, fica preso em um lapso temporal de um dia que sempre volta. Assim, os mesmos fatos vão se repetindo várias vezes e o protagonista passa várias vezes pelos mesmos fatos. Já tinha visto outros exemplo, como um episódio de O Arquivo X. Eu mesmo já escrevi um texto nessa estrutura, num e-book dos Exploradores do Desconhecido. O interesante é que o mesmo dia não se repete 3 ou 4 vezes, mas centenas, talvez milhares de vezes, o que traz algumas oportunidades interessantes para o roteiro, como, por exemplo, repetir uma cena várias vezes (o receptor acaba sacando que cada repetição é um dia diferente).
Apesar da preocupação maior ser com a questão narrativa, foi impossível não reparar em algo que muitos textos espíritas falam: Feitiço do Tempo é uma ótima metáfora do processo reencarnatório, segundo a visão espírita.
A cada vez que o protagonista volta, é como se ele estivesse em outra encarnação e tivesse outra chance de consertar os erros do passado e evoluir espiritualmente.
Arrogante e egocêntrico, Phil usa a volta eterna inicialmente para questões duvidosas do ponto de vista ético, como, por exemplo, descobrir algo sobre uma mulher para depois seduzi-la, ou cometer crimes sabendo que sua ação não teria consequências (como, por exemplo, quando ele rouba dinheiro do carro forte).
Com o tempo, esse tipo de coisa perde a graça e ele passa a se suicidar. Faz isso dezenas de vezes, tentando escapar do dia que sempre retorna. Em vão. Sua vida só começa a fazer sentido quando ele melhora espiritualmente e começa a ajudar as pessoas à sua volta. A máxima de Chico Xavier (Não há salvação fora da caridade) fica bem exemplificada no filme.
Em suma, um ótimo filme: pelo estrutura do roteiro, pela mensagem, pelo humor e pela ótima atuação de Bill Murray.
quarta-feira, maio 01, 2024
Revista polonesa Krakers
Amolação interrompida, de Almeida Júnior
Cabanagem: a revolta que se alastrou pela Amazônia
Perry Rhodan – O pseudo
Em 1836, o escritor russo Nicolai Gógol publicou pela primeira vez o sua peça teatral O inspetor-geral. A sátira era uma forte crítica à burocracia soviética e se situava numa aldeia em que os corruptos políticos locais descobrem que receberão uma visita de um inspetor do império e decidem corrompê-lo com todo tipo de suborno e regalia. Mas, na mesma época aparece por ali um trambiqueiro que se faz passar pelo inspetor.
Os autores da série Perry, em especial Clark Darlton, resolveram homenagear o autor russo no número 52 da série, conhecido aqui como O pseudo.
Na história, Laury Marten consegue roubar uma amostra do soro da imortalidade, mas ela, John Marshall e o Conde Rodrigo de Barceo ficam presos no planeta zoológico dos aras, sendo caçados pelos terríveis froghs. Para resgatá-los, Rhodan disfarça-se de inspetor de Árcon e leva consigo Gucky, que faz as vezes de criado pouco inteligente.
Mas o plano de Rhodan parece ir por água abaixo quando surge o verdadeiro inspetor arcônida. Se a semelhança da história com a do escritor russo não fosse o suficiente, Darlton ainda introduz mais uma dica: o inspetor verdadeiro chama-se Glogol.
![]() |
| O título original do volume é O falso inspetor. |
Aliás, é o próprio Glogol que protagoniza uma das cenas mais hilárias de toda a série, quando Gucky faz cair sua calça, revelando que o poderoso inspetor na verdade está usando ceroulas cor-de-rosa e meias furadas. “Glogol usava ceroulas compridas. E um arcônida arrogante de ceroulas é uma figura ainda mais ridícula que um terrano que use a mesma vestimenta. A dignidade do inspetor se desvanecera”. A cena reflete diretamente a frase do poeta Punchin, o grande mestre literário de Gógol. Punchin dizia para o pupilo: “Faça-os rir, quem ri não tem medo dos poderosos”.
Em tempo: o título original alemão, O falso inspetor, deixa ainda mais clara a homenagem à obra de Gógol.
Kardec – o filme
Batman – Ego trip
Qual o vilão mais mortal do Batman? Essa é a pergunta que John
Byrne se faz na graphic novel Ego trip, publicada aqui no Brasil pela Opera
Graphica.
A história começa com o Pinguim gravando um vídeo e confessando o
assassinto de um milionário chamado Hardman Twine. Mas outras pessoas reivindicam
o assassinato, que até então vinha sendo tratado como suicido, entre eles o
Charada. A história, aliás, começa com o Batman escapando de uma das muitas
armadilhas do Charada e recebendo uma fita com três enigmas: “Quando um
apartamento de cobertura se parece com um iceberg?; Como é possível viajar 300
km sem sair de Gothan?; O que o chinês que vive na montanha disse para a sua filha
quando ela se mudou para o vale?”.
![]() |
| A história começa com o Pinguim gravando um vídeo no qual confessa um assassinato. |
A trama é basicamente, Batman seguindo cada uma dessas pistas e
encontrando os esconderijos do Duas Caras, o Pinguim e o Coringa e, ao mesmo
tempo, tentando descobrir qual deles é o assassino.
É, em essência, uma história policial que lembra muito o seriado
da década de 1960.
Essa HQ parece anacrônica se considerarmos que foi publicada em 1990, uma época em que artistas como Frank Miller estavam se esforçando para dar ao Batman um ar mais sombrio e às suas histórias um ar mais adulto.
![]() |
| O Charada prepara uma armadilha para o Batman, mas não parece nada realmente perigoso. |
É anacrônica
também do ponto de vista narrativo, com os pensamentos do Batman sendo
mostrados o tempo todo, seja para refletir sobre os acontecimentos, seja para
ajudar o leitor a entender o que estava acontecendo. Vamos lembrar que naquela época
autores como Miller, Moore, Morrison e Gaiman estavam colocando em desuso o balão
de pensamento, assim como os monólogos narrativos dos personagens.
Ainda assim, é uma história divertida e instigante.
![]() |
| Para tornar a históira #D, a DC coloriu. Byrne deve ter odiado. |
Há uma curiosidade sobre essa graphic. Byrne fez ela com papel
doubletone. Nesse papel, a aplicação de um líquido com pincel faz aparecer uma
textura, algo que funciona muito bem em trabalhos em preto e branco. Por alguma
razão os editores da DC resolveram publicar em 3D, e aplicaram algumas cores. O
resultado parece horrível. A Opera Graphica, acertadamente, publicou em preto e
branco, em respeito à arte de Byrne.
A arte fantástica de Mozart Couto
Mozart Couto foi um talento revelado pela editora Grafipar, no final da década de 1970 e se tornou um dos principais nomes dos quadrinhos brasileiros. Com seu traço influenciado por artistas como Frank Frazzetta, ele brilhava especialmente em histórias de fantasia.
O alimento dos deuses
O alimento dos deuses é, injustamente, um dos livros menos conhecidos de H. G. Wells.
A trama gira em torno de dois cientistas que elaboram uma fórmula de crescimento (o tal alimento dos deuses) e das consequências dessa descoberta. Inicialmente eles criam uma fazenda modelo, onde pretendem experimentar a fórmula em frangos. Ocorre que os empregados contratados são relapsos, deixam o alimento aberto e a localidade sofre uma infestação de ratos e vespas gigantes, além das próprias galinhas, que se soltam do viveiro e ivadem a cidade.
Esse enredo original é a base de uma infinidade de obras, com destaque para os filmes com animais gigantes e pessoas gigantes e a destruição que eles provocam. Contando que Wells também é o pai das viagens no tempo através de mecanismos e das histórias de invasão alienígena, boa parte da ficção do século XX deriva de sua obra.
Mas O alimento dos deuses vai muito além. Algumas pessoas começam a dar o alimento para os filhos e surge uma geração de gigantes, com aproximadamente 12 metros de altura. É nesse ponto que o livro se torna uma vigorosa crítica social. Wells usa o enredo para refletir como as pessoas reagem ao novo e como o instinto reacionário é baseado no medo daquilo que é diferente.
Esse ponto já é entrevisto no trecho em que o prédio em que mora um dos inventores do alimento é depredado por uma multidão furiosa, mas ganha corpo quando foca nos filhos do alimento, os gigantes e a reação da sociedade a eles. “Reacionário? Quem não seria reacionário?”, diz um personagem à certa altura.
Esse ponto de vista é representado por um vigário de uma pequena localidade: “Pois estavam falando, ele e seu amigo, dos horrores da época, da democracia, da educação secular, dos arranha-céus, dos carros a motor, da invasão americana, da literatura barata popular e do desaparecimento de todo gosto”.
O ódio reacionário volta-se, no livro, contra os filhos do alimento, os gigantes. Ou estes são simplesmente subjugados, como acontece com o jovem Caddles, tornado gigante por conta do alimento levado pela empregada da fazenda, sua tia. Wells dá a entender que o garoto tem inteligência acima do normal, mas esta é sufocada pela situação em que é criado, sob a tirania do Vigário e e de Lady Wondershot. Os que não subjugados são simplesmente vítimas do ódio do normal a tudo que é diferente. “O grosso do povo está conosco. A lei está conosco, a constituição e ordem da sociedade, o espírito das religiões estabelecidas, os costumes e hábitos da sociedade estão conosco”, diz certo personagem.
Nesse sentido, o livro pode ser visto até mesmo como uma metáfora de todas as dificuldades que mentes revolucionárias, mentes que ousam agigantar cima do normal, encontram. Talvez fosse um desabafo do próprio H.G. Wells, ele mesmo um gigante de sua época.






























