sexta-feira, maio 03, 2024

As vidas de Chico Xavier

 


Chico Xavier é uma das figuras mais importantes e polêmicas do Brasil. Sua popularidade é tão grande que, mesmo depois de morto, continua levando milhares de pessoas para Uberlândia, transformando o turismo religioso na principal fonte de renda da cidade. Não admira, portanto, que a vida do médium fosse transformada em uma biografia.
Ainda assim, o jornalista Marcel Souto Maior teve que vencer vários obstáculos para escrever o livro “As vidas de Chico Xavier”. O primeiro deles veio dos próprios colegas jornalistas. “Chico Xavier? Não é o Chico Buarque, não? Chico Anysio? Chico Mendes?”, ironizavam os amigos do Jornal do Brasil.
Outro obstáculo filho adotivo de Chico, Euripedes. Preocupado com a saúde do pai e em preservá-lo, Euripedes não deixou o jornalista passar nem do portão. Ainda assim, Marcel insistiu: resolveu assistir a uma sessão no Centro Espírita da Prece, fundado por Chico muitos anos antes. Depois que o médium deixara de comparecer, o público minguara e eram apenas 14. Surpreendentemente, naquele dia, ele resolveu reaparecer, com um sorriso largo e um terno mal-ajambrado.
Cético, Marcel não soube explicar as lágrimas que começaram a desabar em borbotões de seu rosto, sem nenhuma razão especial.
Terminada a sessão, o jornalista procurou Chico para pedir autorização para a biografia. Chico respondeu de forma indireta, evitando a palavra não:
- Deus é que autoriza.
- E ele autoriza?
- Autoriza.
Mas a muralha de Euripedes ainda continuava existindo. O jeito foi apelar para o outro filho adotivo de Chico, Vivaldo, que mora nos fundos da casa do pai.  Quando o jornalista o visitava, Chico chamou o filho por um interruptor. Quando Vivaldo saiu, um calor insuportável tomou conta das mãos do jornalista. Sobressaltado, ele largou a caneta, saltou do sofá e correu para o quintal. Ficou lá, sacudindo as mãos na noite fria, até que Vivaldo aparecesse:
- Meu pai disse que sua biografia vai ser um sucesso. Parabéns!
O episódio mostra bem os mistérios e a mística por trás de Chico Xavier. Chico escreveu quase 400 livros, cartas de pessoas desencarnadas, virou celebridade nacional. No entanto, até o final da vida, viveu de forma modesta, sem grandes fortunas, sendo quase um prisioneiro de seu próprio sucesso.
O fato do livro ser escrito por um cético, mas que passou pelas duas experiências acima (do choro descontrolado e das mãos em fogo) faz com que ele tenha a abordagem correta, não caindo nem na armadilha de um livro doutrinário, nem na reportagem sensacionalista que o filho adotivo de Chico tanto temia.
O que se revela é uma figura ímpar, que angariou milhões de fãs no Brasil todo e igual número de detratores. Essa dualidade já se apresentava na infância do médium, quando ao ouvir que ele conversava com os espíritos, a madrinha dizia que ele tinha o diabo no corpo e lhe fincava garfos na barriga na tentativa de espantar o mal. Chico, convencido de que que conversar com espíritos era errado, tentava tudo para se curar. Chegou até a desfilar em uma procissão com uma pedra de 15 quilos na cabeça, repetindo mil vezes a ave-maria. Nada adiantava. Quanto mais rezava, mais via espíritos.
O livro nos revela um Chico sofredor, que não era compreendido na infância e apanhava por causa da mediunidade. Quando finalmente se tornou adulto, sofria com doenças, como a catarata que fazia seus olhos sangrarem. À noite, era atormentado por espíritos baixos, que lhe provocavam pesadelos em, alguns casos, tentavam matá-lo usando para isso pessoas com mediunidade. Ao se queixar com seu guia espiritual, Emmanuel, recebia reprimendas. Tinha que aceitar de bom grado tudo que lhe acontecia, pois servia para expiar culpas de outras encarnações. Quando se tornou uma figura famosa, sofria com o assédio, com pessoas que queriam falar com ele mesmo quando ele estava muito doente. Além disso, Chico nunca ganhou nada com isso, pois todo o dinheiro das vendas dos livros ia para instituições de caridade.
Sua missão espírita parecia mais um castigo do que um prêmio. Por outro lado, havia as tentações. Uma vez Chico entrou no banheiro e encontrou três mulheres tomando banho nuas, jogando água umas nas outras e rindo para ele, convidativas. O médium fechou os olhos e rezou. Quando os abriu, elas haviam desaparecido.
Abnegado, Chico usava a humildade para resistir aos sofrimentos e tentações do mundo. Dizia que era um Cisco Xavier, brincando com o próprio nome. Quando lhe disseram que talvez fosse eleito para a Academia Brasileira de Letras, ele perguntou: “E agora aceitavam cavalos lá?”.
Se a biografia revela esse lado humilde, abnegado e caridoso, revela também um homem carismático e divertido. Chico gostava de contar casos e gostava de rir. Uma vez, convidado pelos amigos a pescar, foi, mas não pescou nada. Passaram a tarde na beira do rio e os amigos pegaram muito peixe. De Chico não se aproximava nem lambari. Ele acabou confessando: não tinha colocado isca no anzol, para não incomodar os bichinhos. Ao ser assediado por uma figura demoníaca, que lhe perguntava se tinha sido chamada, ele saiu-se com essa: “É que a vida anda difícil e queria que o senhor me abençoasse em nome de Deus ou das forças que o senhor crê”. O diabo reclamou: “É só a gente aparecer que você já cai de joelhos!” e sumiu.
Em suma: As vidas de Chico Xavier é um livro que abarca as várias facetas dessa famosa personalidade, num livro leve e gostoso de ler. É tão fascinante que serviu de base para o filme de Daniel Filho sobre a vida do médium mineiro.

As capas de Sandman

 


A capa de Sandman 1 era um armário que Dave Mckean preencheu com pinturas, colagens e objetos... Foi revolucionário. Jack Kirby já tinha feito colagens na década de 1960, mas ninguém na indústria de quadrinhos tinha ido tão longe na experimentação. Uma das capas de quadrinhos mais famosas de todos os tempos. Em tempo: o armário voltou a ser reaproveitado nas capas seguintes da primeira saga do personagem. 


quinta-feira, maio 02, 2024

Realidades adaptadas, de Philip K. Dick

 

Philip k dick é um dos escritores de ficção científica mais adaptados para o cinema. Seus textos, em especial os contos, tinham todas as características para se tornarem filmes de sucesso. Ação na medida certa e história instigante, geralmente com um plot Twist verossímil.
Realidades adaptadas é um livro da Aleph que reúne os contos do autor que foram filmados. O título destaca a principal questão por trás de todos os textos: o que é real e o que não é em um mundo de simulacros.
O próprio autor refletiu sobre isso, em nota publicadas no final do volume, a respeito do conto Segunda variedade: “Neste conto meu tema principal – Quem é humano e o que aparenta ser (simulacro) humano? – emerge de forma mais sublime. A menos que consigamos, individual ou coletivamente, ter certeza da resposta a essa pergunta, temos de encarar o que, em minha opinião, é o problema mais sério de todos. Se não a respondermos adequadamente, não poderemos ter certeza sobre nossa própria natureza (...) Para mim, nenhuma pergunta é mais importante. E a resposta é difícil de ser encontrada”.
A obra é uma seleção única, de extrema qualidade, de forma que é difícil destacar os melhores contos – e mais difícil ainda resumi-los sem dar spoillers. Mas alguns merecem destaque.
O famoso “Lembramos para você a preço de atacado” deu origem ao filme O Vingador do futuro e tem sido usado para discutir os problemas da memória: um homem pacato vai a uma empresa que lhe incutiria memórias de uma falsa viagem a Marte na qualidade de espião. Mas, ao fazer isso, ele descobre que realmente havia ido a Marte e que era um espião. Ficção e realidade se misturam e se alternam de maneira genial.
Segunda variedade fala de uma arma de guerra travada através de seres cibernéticos, esferas que estraçalham o inimigo. Mas tudo parece sair do controle quando elas começam a se consertar e a fabricar novos robôs – alguns perigosamente parecidos com humanos. É um triller de suspense que envolve um grupo de sobreviventes e a pergunta: quantos deles são realmente humanos?
O impostor é talvez um dos menos conhecidos do volume, mas um dos mais intrigantes. Autoridades descobrem que um cientista importante foi trocado por uma cópia cibernética que é, na verdade uma bomba. Mas o cientista sabe que é humano e tem que provar sua humanidade antes de ser morto. Dick brinca com as expectativas do leitor e com a nossa noção de humano.
Um ponto negativo da edição da Aleph são os textos introdutórios, muito curtos, a maioria dos quais se limitando apenas a dar informações básicas sobre os filmes adaptados dos contos, como diretor, roteiristas e atores.

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Um estranho em uma terra estranha

 


A primeira coisa a se dizer sobre Um estranho numa terra estranha é que é impossível fazer uma resenha do mesmo sem contar boa parte da história (a não ser que seja um texto apenas com frases genéricas). Portanto, se você não gosta de spoiller, pare aqui mesmo.
Dito isso, vamos aos fatos. Heinlein era um escritor de livros juvenis de FC e pretendia escrever um livro adulto. A sugestão de tema veio de sua esposa Virginía: que tal uma versão ficção científica de Mogli, tendo, no lugar de um menino criado por lobos, um humano criado por seres extraterrestres? Heinlein percebeu que esse mote lhe permitiria avançar muito além de questões juvenis. Alguém criado em outro planeta teria uma visão de mundo completamente diferente dos terráqueos, o que lhe permitiria discutir muitos temas: filosofia, sexo, religião, tabus, comportamentos.
A história ganhou corpo quando o autor soube dos manuscritos coptas do século 2, com evangelhos da heresia gnóstica. Um dos principais autores da gnose era Valentino de Alexandria. Assim, o protagonista ganhou nome: Valentine Michael Smith (ele será normalmente chamado de Mike na maioria das vezes). O título, até então era o Herético.
Henlein levou mais de 10 anos para escrever sua obra e só resolveu lançá-la quando percebeu que a censura aos livros nos EUA havia afrouxado.
Quando publicado, o livro fez sucesso mediano, mas se tornou um best-seller quando foi redescoberto pelos hippies no final da década de 1960, tornando-se um dos principais livros do movimento.
O início do livro é tão divertido quanto uma dor de dente. A narrativa se concentra na fuga do hospital onde o garoto de marte estava incomunicável e nas tratativas com o governo no sentido e garantir sua segurança e liberdade. Em meio a essa trama de pseudo-espionagem e negociações, só o que salva é a figura de Jubal, um advogado-médico-escritor que adota o garoto de marte e negocia por ele. Jubal é uma das figuras mais carismáticas da literatura de ficção científica. Velho, ranzina, irônico, cínico, vive em uma casa cercado por lindas secretárias. Ele é o ponto filosófico da trama. Muito antes que o Homem de marte comece a colocar em dúvidas a filosofia, religião e tabus humanos, Jubal já o faz com sua lógica certeira e desconcertante.
Uma vez livre, Mike e a enfermeira que o salvou, Jill irão percorrer os EUA em um verdadeiro road movie. Mike, por exemplo, usa seus poderes de telecinésia para trabalhar em um circo como mágico, mas o número não faz sucesso porque, embora os truques sejam bons demais, ele não entende da psicologia humana. Isso o leva a devorar livros e se interessar por religiões.
Quando finalmente consegue grokar em plenitude, Mike monta sua própria igreja.
Abre parêteses
O livro introduziu diversas palavras “marcianas”, a mais famosa delas foi grokar, tão popular que chegou a ser dicionarizada.
Fecha parêteses
Um estranho em uma terra estranha é, portanto, a trajetória do personagem, tentando entender a humanidade, a si mesmo.
É uma obra mais focada em discutir questões filosóficas do que realmente contar uma trama (embora ela exista), com longas discussões entre os personagens sobre os mais variados aspectos da existência, em especial as religiões. Como o foco é este, há poucas descrições, ou mesmo trechos narrativos.
Vendo o que ocorreu na década de 1970, com o movimento hippie e seus gurus, é impressionante como o livro de Heinlein antecipou tudo – ou talvez tenha influenciado os acontecimentos. O livro ficou tão famoso entre os hippies, que era muito comum pessoas invadirem a casa de Heinlein querendo compartilhar água (para desgosto do autor, que nunca quis ser um guru).
Aqui vale mais uma discussão, sobre se a arte antecipa o futuro ou cria o futuro, que bem poderia estar presente no livro.
Em suma, não leia Um estranho em uma terra estranha esperando encontrar uma narrativa convencional, uma trama, ou mesmo uma mensagem. Este é, acima de tudo, um livro que sucita perguntas e questionamentos – e que nos deixa olhando para o nada após lê-lo.

Ajuricaba

 


Ajuricaba foi um líder indígena que, em pleno século XVIII, combateu os portugueses, chegando a dominar a região do Amazonas a ponto de se declarar governador do Rio Negro. Sua importância história é tão grande que sua tribo, os manao, deu origem à capital do Amazonas, Manaus.

É a história desse personagem histórico que Ademar Vieira (roteiro), Jucylande Júnior (desenhos) e Tiê Santos (arte-final) contam no álbum Ajuricaba lançado pelo selo Black Eye em 2020.

O que impressiona na história é a qualidade do roteiro. A história é fluída, magnética, do tipo que só largamos na última das 130 páginas do álbum. Os desenhos, simples, mas expressivos, se destacam principalmente pela força narrativa. É a arte a serviço da história.

Os portugueses faziam incursões pela floresta para escravizar índios. Isso provoca a ira de Ajuricaba. 


E história é o que não falta. A vida de Ajuricaba é interessantíssima. Seu pai, líder dos manaó, era aliado dos portugueses, mas quando vai cobrar destes o fato de terem atacado uma tribo aliada para prender escravos, acabou sendo mortos por esses. Da mesma forma, também filho de Ajuricaba foi morto durante um ataque poruguês – o que levou o herói indígena a sua jornada de vingança e libertação.

O Ajuricaba da história em quadrinho não é apenas um personagem histórico. O roteiro o humaniza, mostrando sua relação meiga com o filho e a esposa e o forte impacto da visão dos índios sendo levado escravizados exercia sobre ele. Além disso, o roteiro explora seu lado de estrategista militar em sequências empolgantes de guerra.

A história humaniza o herói indígena. 


Mas a HQ não o trata apenas como herói. Aspectos controversos do personagem, como o fato dele ter escravizado tribos rivais para trocá-las por armas com os holandese também são mostrados.

Os portugueses empreenderam uma dura repressão, que levou ao extermínio total da tribo manao, de modo que toda a sua cultura e até sua língua se perdeu. Mas Ademar Vieira resgata algumas das poucas palavras das quais sobraram registros para usá-las na história, dando um ar ainda mais verossímil à HQ.

O lado controverso de Ajuricaba também é mostrado. 


Outro acerto foi introduzir uma trama paralela com o garoto Teodósio, um índio cristianizado que era tiranizado por um padre. A última página da história o mostra tirando as roupas europeias e entrando na floresta. Dessa forma, o álbum linka a revolta de Ajurucaba com a revolta liderada por Teodósio, um personagem real.

Ajuricaba é um dos melhores quadrinhos nacionais que li recentemente. O tipo de história que merecia leituras e releituras e por isso mesmo merecia também uma edição especial, com capa dura. Há tantas histórias ruins por aí sendo publicadas em capa dura, papel especial que não valem metade desse álbum nacional.


Onde comprar: 

Manaus-AM

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São Paulo-SP

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Rio de Janeiro-RJ

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Curitiba-PR

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Belém-PA

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Mapinguari no traço de Antonio Eder

 

 

A mitologia amazônica é uma das mais ricas do Brasil. Entre os seres mitológicos da floresta está o Mapinguari. É um monstro enorme, todo peludo, com um único olho e boca na barriga. Uma boca pútrida, repleta de dentes com a qual ele devora suas vítimas. Câmara Cascudo diz dele: "Mata sempre, invariavelmente, obstinadamente, quem encontra. Mata para comer". O Mapinguari aparece no meu livro Cabanagem ilustrado pelo grande quadrinista Antonio Eder. Clique aqui para comprar o livro Cabanagem. 

Feitiço do tempo

 

 

Assisti, finalmente, Feitiço do tempo (roteiro de Danny Rubin e Harold Ramis, direção de Harold Ramis). Na verdade, o interesse maior foi na interessante narrativa em elipse, que era sempre citada por alunos quando eu falava de narrativas não-lineares. Trata-se de um jornalista arrogante e egocêntrico, que, ao fazer uma matéria numa cidadezinha sobre uma marmota capaz de prever o fim do inverno, fica preso em um lapso temporal de um dia que sempre volta. Assim, os mesmos fatos vão se repetindo várias vezes e o protagonista passa várias vezes pelos mesmos fatos. Já tinha visto outros exemplo, como um episódio de O Arquivo X. Eu mesmo já escrevi um texto nessa estrutura, num e-book dos Exploradores do Desconhecido. O interesante é que o mesmo dia não se repete 3 ou 4 vezes, mas centenas, talvez milhares de vezes, o que traz algumas oportunidades interessantes para o roteiro, como, por exemplo, repetir uma cena várias vezes (o receptor acaba sacando que cada repetição é um dia diferente).
Apesar da preocupação maior ser com a questão narrativa, foi impossível não reparar em algo que muitos textos espíritas falam: Feitiço do Tempo é uma ótima metáfora do processo reencarnatório, segundo a visão espírita. 
A cada vez que o protagonista volta, é como se ele estivesse em outra encarnação e tivesse outra chance de consertar os erros do passado e evoluir espiritualmente.
Arrogante e egocêntrico, Phil usa a volta eterna inicialmente para questões duvidosas do ponto de vista ético, como, por exemplo, descobrir algo sobre uma mulher para depois seduzi-la, ou cometer crimes sabendo que sua ação não teria consequências (como, por exemplo, quando ele rouba dinheiro do carro forte).
Com o tempo, esse tipo de coisa perde a graça e ele passa a se suicidar. Faz isso dezenas de vezes, tentando escapar do dia que sempre retorna. Em vão. Sua vida só começa a fazer sentido quando ele melhora espiritualmente e começa a ajudar as pessoas à sua volta. A máxima de Chico Xavier (Não há salvação fora da caridade) fica bem exemplificada no filme.
Em suma, um ótimo filme: pelo estrutura do roteiro, pela mensagem, pelo humor e pela ótima atuação de Bill Murray.

quarta-feira, maio 01, 2024

Revista polonesa Krakers

 

Zulu é uma história em quadrinhos com texto meu (a partir de uma ideia de Walter Klattu) e arte do grande Will. É um exercício de narrativa paralela: enquanto Zullu enfrenta os perigos para cumprir sua missão de matar a Medusa, eu conto, com o texto. No final, as duas tramas se juntam e fica claro porque só ele seria capaz de matar a Medusa. Essa HQ foi publicada na revista polonesa Krakers no ano de 2015. É curioso ver meu texto em uma língua incompreensível para mim.

Amolação interrompida, de Almeida Júnior

 


Almeida Júnior era, essencialmente, um Jeca. Talento precoce da cidade de Itu, foi estudar no Rio, na academia Imperial de Belas Artes, onde era conhecido por suas roupas e linguajar matuto.
Assim que pôde, voltou para Itu e ficou por lá até a cidade ser visitada pelo imperador D. Pedro II, que, ao ver a qualidade do artista decidiu bancar do próprio bolso a ida dele para a Europa.
Mas, em Paris, sonhava em voltar para Itu.
Já no Brasil, assim que ganhou fama o suficiente para usar os próprios temas, passou a pintar os caboclos do interior paulista.
Amolação interrompida é um dos melhores exemplos dessa fase. Na tela, um homem do interior está amolando um machado em uma pedra quando vê o pintor e cumprimenta-o. Na melhor tradição do realismo, a imagem do caboclo não é idealizada. Ele é mostrado como realmente eram os homens das fazendas do interior paulista, os pés descalços, a casa de pau a pique ao fundo.

5 DESENHISTAS de quadrinhos que você DEVERIA CONHECER

 

Cabanagem: a revolta que se alastrou pela Amazônia

 

A cabanagem foi uma das revoltas mais interessantes da história do Brasil não só por ter chegado ao poder (e se mantido no poder por aproximadamente um ano), mas principalmente por sua amplitude: quando o movimento foi derrotado em Belém, a revolta, ao invés de ser sufocada, se espalhou por praticamente toda a  região Amazônica.
Os cabanos chegaram em Mazagão, no Amapá e até em Manaus, no Amazonas (onde tomaram o governo).
Contribuiu muito para isso o fato da região ser tomada por pequenos igarapés, que facilitavam muito o movimento dos cabanos. As canoas eram amarradas uma na outra, o que aumentava em muito a velocidade desses grupos chamados de magotes. E, quando passavam por grandes fazendas, libertavam os escravos, muitos dos quais se uniam ao magote.
Se por um lado a revolta se espalhava, a repressão também. O brigadeiro Andrea, enviado pelo governo regencial para acabar com a cabanagem e chamado de pacificador não tinha a menor preocupação com vidas. A ordem era matar. Assim, soldados atiravam em ribeirinhos suspeitos de terem dado acolhida aos cabanos.
Estima-se que um terço da população da Amazônia tenha perecido durante todo o período da cabanagem.

Perry Rhodan – O pseudo

 


Em 1836, o escritor russo Nicolai Gógol publicou pela primeira vez o sua peça teatral O inspetor-geral. A sátira era uma forte crítica à burocracia soviética e se situava numa aldeia em que os corruptos políticos locais descobrem que receberão uma visita de um inspetor do império e decidem corrompê-lo com todo tipo de suborno e regalia. Mas, na mesma época aparece por ali um trambiqueiro que se faz passar pelo inspetor.

Os autores da série Perry, em especial Clark Darlton, resolveram homenagear o autor russo no número 52 da série, conhecido aqui como O pseudo.

Na história, Laury Marten consegue roubar uma amostra do soro da imortalidade, mas ela, John Marshall e o Conde Rodrigo de Barceo ficam presos no planeta zoológico dos aras, sendo caçados pelos terríveis froghs. Para resgatá-los, Rhodan disfarça-se de inspetor de Árcon e leva consigo Gucky, que faz as vezes de criado pouco inteligente.

Mas o plano de Rhodan parece ir por água abaixo quando surge o verdadeiro inspetor arcônida. Se a semelhança da história com a do escritor russo não fosse o suficiente, Darlton ainda introduz mais uma dica: o inspetor verdadeiro chama-se Glogol.   

O título original do volume é O falso inspetor. 


Aliás, é o próprio Glogol que protagoniza uma das cenas mais hilárias de toda a série, quando Gucky faz cair sua calça, revelando que o poderoso inspetor na verdade está usando ceroulas cor-de-rosa e meias furadas. “Glogol usava ceroulas compridas. E um arcônida arrogante de ceroulas é uma figura ainda mais ridícula que um terrano que use a mesma vestimenta. A dignidade do inspetor se desvanecera”. A cena reflete diretamente a frase do poeta Punchin, o grande mestre literário de Gógol. Punchin dizia para o pupilo: “Faça-os rir, quem ri não tem medo dos poderosos”.

Em tempo: o título original alemão, O falso inspetor, deixa ainda mais clara a homenagem à obra de Gógol.

Kardec – o filme

 


Kardec foi o codificador da doutrina espírita, o homem que tornou o espiritismo famoso mundialmente. Mas sua vida em si não teve grandes atrativos, sendo sua jornada muito mais espiritual e intelectual. Transformar essa jornada em algo interessante era o objetivo de Wagner Assis. O diretor já tem uma relação com o tema: foi o responsável por transpor para as telas o livro Nosso Lar, de Chico Xavier.
Hypolite Leon Denizard Rivail era um revolucionário professor francês. Influenciado por Pestalozzi, propunha uma relação de afeto entre alunos e professores e uma educação que despertasse a curiosidade científica nos estudantes. Quando, por ordem de Napoleão III, as escolas foram obrigadas a ter aulas de religião começou seu primeiro grande combate. Seu método de ensino ia na contramão da catequese em que se transformaram as escolas. A solução foi se aposentar.
O filme inicia exatamente nesse momento, em que, desempregado, o célebre professor, autor de vários livros sobre educação, se vê numa situação de crise. Entremeada a essa crise, uma moda, inicialmente rechaçada por ele: a das mesas girantes. Pessoas lotavam teatros onde faziam perguntas a mesas que flutuavam no ar.
Como bom cientista, Hypolite rechaçou o fenômeno, imaginando que se tratava apenas de truques de ilusão.
De fato eram, como ele logo descobriu – mas havia também fenômenos autênticos, em grupos que envolviam até mesmo cientistas renomados. Aos poucos ele foi se deixando convencer pelos fatos, como mensagens para ele com informações que só ele ou sua esposa conheciam, ou um conto escrito por um autor falecido, mas cuja letra era absolutamente idêntica à letra do autor original.
O filme explora bem essa trajetória – do rejeição inicial ao momento em que o professor elabora um método para evitar fraudes: fazer a mesma pergunta a vários médiuns e comparar as respostas. Até que ele as codifica em uma obra – o Livro dos Espíritos.
Como foi dito, é uma jornada espiritual e intelectual – portanto há quase nenhuma ação ou conflito.
O momento de maior conflito ocorre quando a igreja católica bane o livro (Houve inclusive uma queima pública da obra, em Barcelona) e consegue a proibição das reuniões espíritas.
Entretanto, o filme consegue se sustentar bem com esse material, mantendo o interesse do expectador.
Como o orçamento é nitidamente baixo, os cenários de Paris do século XIX são recriados digitalmente e o filme todo tem um tom excessivamente teatral, o que barateia bastante os custos, mas torna um pouco forçada algumas cenas.

Batman – Ego trip

 

Qual o vilão mais mortal do Batman? Essa é a pergunta que John Byrne se faz na graphic novel Ego trip, publicada aqui no Brasil pela Opera Graphica.

A história começa com o Pinguim gravando um vídeo e confessando o assassinto de um milionário chamado Hardman Twine. Mas outras pessoas reivindicam o assassinato, que até então vinha sendo tratado como suicido, entre eles o Charada. A história, aliás, começa com o Batman escapando de uma das muitas armadilhas do Charada e recebendo uma fita com três enigmas: “Quando um apartamento de cobertura se parece com um iceberg?; Como é possível viajar 300 km sem sair de Gothan?; O que o chinês que vive na montanha disse para a sua filha quando ela se mudou para o vale?”.

A história começa com o Pinguim gravando um vídeo no qual confessa um assassinato. 


A trama é basicamente, Batman seguindo cada uma dessas pistas e encontrando os esconderijos do Duas Caras, o Pinguim e o Coringa e, ao mesmo tempo, tentando descobrir qual deles é o assassino.

É, em essência, uma história policial que lembra muito o seriado da década de 1960.

Essa HQ parece anacrônica se considerarmos que foi publicada em 1990, uma época em que artistas como Frank Miller estavam se esforçando para dar ao Batman um ar mais sombrio e às suas histórias um ar mais adulto. 

O Charada prepara uma armadilha para o Batman, mas não parece nada realmente perigoso. 


É anacrônica também do ponto de vista narrativo, com os pensamentos do Batman sendo mostrados o tempo todo, seja para refletir sobre os acontecimentos, seja para ajudar o leitor a entender o que estava acontecendo. Vamos lembrar que naquela época autores como Miller, Moore, Morrison e Gaiman estavam colocando em desuso o balão de pensamento, assim como os monólogos narrativos dos personagens.

Ainda assim, é uma história divertida e instigante.

Para tornar a históira #D, a DC coloriu. Byrne deve ter odiado.


Há uma curiosidade sobre essa graphic. Byrne fez ela com papel doubletone. Nesse papel, a aplicação de um líquido com pincel faz aparecer uma textura, algo que funciona muito bem em trabalhos em preto e branco. Por alguma razão os editores da DC resolveram publicar em 3D, e aplicaram algumas cores. O resultado parece horrível. A Opera Graphica, acertadamente, publicou em preto e branco, em respeito à arte de Byrne.

A arte fantástica de Mozart Couto

 


Mozart Couto foi um talento revelado pela editora Grafipar, no final da década de 1970 e se tornou um dos principais nomes dos quadrinhos brasileiros. Com seu traço influenciado por artistas como Frank Frazzetta, ele brilhava especialmente em histórias de fantasia.







O alimento dos deuses

 


 


O alimento dos deuses é, injustamente, um dos livros menos conhecidos de H. G. Wells.

A trama gira em torno de dois cientistas que elaboram uma fórmula de crescimento (o tal alimento dos deuses) e das consequências dessa descoberta. Inicialmente eles criam uma fazenda modelo, onde pretendem experimentar a fórmula em frangos. Ocorre que os empregados contratados são relapsos, deixam o alimento aberto e a localidade sofre uma infestação de ratos e vespas gigantes, além das próprias galinhas, que se soltam do viveiro e ivadem a cidade.

Esse enredo original é a base de uma infinidade de obras, com destaque para os filmes com animais gigantes e pessoas gigantes e a destruição que eles provocam. Contando que Wells também é o pai das viagens no tempo através de mecanismos e das histórias de invasão alienígena, boa parte da ficção do século XX deriva de sua obra.

Mas O alimento dos deuses vai muito além. Algumas pessoas começam a dar o alimento para os filhos e surge uma geração de gigantes, com aproximadamente 12 metros de altura. É nesse ponto que o livro se torna uma vigorosa crítica social. Wells usa o enredo para refletir como as pessoas reagem ao novo e como o instinto reacionário é baseado no medo daquilo que é diferente.

Esse ponto já é entrevisto no trecho em que o prédio em que mora um dos inventores do alimento é depredado por uma multidão furiosa, mas ganha corpo quando foca nos filhos do alimento, os gigantes e a reação da sociedade a eles. “Reacionário? Quem não seria reacionário?”, diz um personagem à certa altura.

Esse ponto de vista é representado por um vigário de uma pequena localidade: “Pois estavam falando, ele e seu amigo, dos horrores da época, da democracia, da educação secular, dos arranha-céus, dos carros a motor, da invasão americana, da literatura barata popular e do desaparecimento de todo gosto”.

O ódio reacionário volta-se, no livro, contra os filhos do alimento, os gigantes. Ou estes são simplesmente subjugados, como acontece com o jovem Caddles, tornado gigante por conta do alimento levado pela empregada da fazenda, sua tia. Wells dá a entender que o garoto tem inteligência acima do normal, mas esta é sufocada pela situação em que é criado, sob a tirania do Vigário e e de Lady Wondershot. Os que não subjugados são simplesmente vítimas do ódio do normal a tudo que é diferente. “O grosso do povo está conosco. A lei está conosco, a constituição e ordem da sociedade, o espírito das religiões estabelecidas, os costumes e hábitos da sociedade estão conosco”, diz certo personagem.

Nesse sentido, o livro pode ser visto até mesmo como uma metáfora de todas as dificuldades que mentes revolucionárias, mentes que ousam agigantar cima do normal, encontram. Talvez fosse um desabafo do próprio H.G. Wells, ele mesmo um gigante de sua época.