domingo, junho 02, 2024

Escrevendo quadrinhos: Não mostre tudo

    Eu costumo dizer que quadrinho é a arte da elipse. Elipse é uma figura de linguagem em que pulamos parte da frase, deixando restante subentendido. Por exemplo: Maria gosta de mação, João, de morango. O verbo gostar foi pulado, mas o sentido se manteve – é uma elipse.

O que na literatura é um recurso ocasional, nos quadrinhos ocorre o tempo todo. Há sempre um pulo entre um quadro e outro, que deve ser preenchido pelo leitor (aqueles que criticavam os quadrinhos por não estimularem a imaginação do leitor, dando tudo pronto, certamente nunca leram quadrinhos).
Observe o exemplo abaixo, de Will Eisner.

Entre o momento em que o malandro está falando e o momento em que ele está caído no chão, alvejado, houve uma série de ações. O gangster tirou o revólver do bolso (ou de uma gaveta na mesa) apontou, atirou, a bala fez o trajeto da arma até o corpo do rapaz, ele foi atingido e, finalmente caiu. Tudo isso ocorre dentro da cabeça do leitor.
Os melhores quadrinistas são aqueles que conseguem lidar com a elipse, mostrando apenas os necessário, deixando o leitor participar da história.
Observe, por exemplo, a tira abaixo, do Pelezinho. 

O humor está todo na elipse, a graça está em imaginar o que aconteceu entre o momento em que o Pelezinho faz o gol, pula para comemorar e o constrangedor momento em que ele está no chão, com um pássaro nas mãos.
 As elipses pode, inclusive, dar o ritmo da história. Elipses mais curtas, que mostram muito, podem demonstrar lentidão. Na história clássica do Demolidor A queda de Matt Murdock, há um ponto em que Murdock está acabado, derrotado, em um hotel barato, com poucos dólares no bolso. Deitado na cama, ele reflete sobre o que lhe aconteceu e concluí que tudo faz parte de um plano do Rei do Crime e decide se levantar para se vingar. A sequência parece uma câmera lenta: ele começa a se levantar da cama, ele se levanta, ele anda, ele pega na maçaneta da porta.... e no quadro seguinte ele está de volta à cama. A impressão que se tem é de que o levantar para sair foi feito com grande esforço, lentamente, enquanto que a volta para a cama foi rápida, o que mostra o quanto a personalidade do herói foi quebrada.

Na história Pig Ficiton, com desenhos de Antonio Eder, eu usei a elipse para demonstrar rapidez dos acontecimentos. O pulo entre uma ação e outra é tão grande que parece que tudo aconteceu muito rápido, surpreendendo o porquinho que imaginava que iria escapar.
Ou seja: na hora de escrever seu roteiro, tenha em mente que nem tudo precisa ser mostrado. Às vezes o que não mostramos é mais importante do que aquilo que é visto pelo leitor. 

João e Maria

 



Entrei. Um vento forte varria o chāo da estação, levantando pedaços de papel e folhas.  Uma senhora aflita lidava com três filhos, tentando direcioná-los à locomotiva. O maquinista já apitava, fazendo com que rasgos de fumaça se misturassem ao vento.

Desci. Corri até eles. Peguei um dos guris no colo e outro pela mão. As grandes rodas de ferro já se movimentavam quando entramos. Coloquei o rapazote no chāo e enxuguei o suor do rosto. O serviço de escritório havia me enferrujado até a medula. O corpo todo arfava ao menor exercício.

 - Brigado. – agradeceu a senhora, reunindo a ninhada ao seu redor.

- Não há de quê. - respondi, ofegante.

Seguimos em frente e talvez por coincidência, havia somente quatro lugares vagos. Sentamos Os cinco juntos, a senhora de frente para mim. Pude, então, observá-la Devia ter uns 25 anos, embora aparentasse mais. Varizes serpenteavam por toda sua perna. O vestido de chita, estampado de flores, a custo segurava os seios moles. Tinha mão grossas, de gente que lida com a terra. O rosto era marcado pela vida. Rugas precoces avolumavam-se sobre a pele queimada. O cabelo, descuidado, deslizava simplesmente em direção aos ombros. Os olhos, tinha-os tristes, cabisbaixos, injetados de sangue. Havia de ter sido bela um dia.

-Seu marido não vem? - perguntei eu, depois de algum tempo.

Ela abaixou o rosto. Passou algum tempo assim. Depois observou os meninos. Estavam todos vestidos iguais, com calças que deixavam entrever o joelho e camisas de algodão. Ela vistoriou o que estava no seu colo. Arrependi-me da pergunta e olhei pela janela, desconcertado.

- Não vem, não senhor. - exclamou ela, de repente

Olhei-a. Ela abaixou os olhos

- Esta esperando você? - arrisquei

- Não tá mais não. O pobre ficou lá na cidade.

Interessou-me. Fiz-lhe novas perguntas que ela respondia com monossílabos, até que desatou a chorar. Consolei-a. Segurei sua mão. Pedi que demonstrasse força diante dos filhos, ao que ela se recompôs. Encostou na cadeira enxugou as lágrimas e pôs-se a falar. Soluçava e às vezes até vinha-lhe à garganta novo ataque de choro, que ela segurava heroicamente.

Contou-me que havia casado nova, com um rapaz das redondezas, lavrador como ela. Naquela época ainda não existia o trem e até a  cidade eram léguas no lombo do cavalo, se o viajante fosse rico, ou a pé, se fosse pobre. Contou-me das andanças que precisou fazer no dia do casório. Falou do caminho estreito, sujo de esterco, que teimava em grudar na ponta do seu vestido branco. Narrou o episódio de uma cobra que aparecera no meio do mato e como seu futuro esposo a matou querendo impressioná-la

Casaram na cidade e voltaram à noite para a roça

No começo viveram com sua mãe, depois construíram uma choça de pau-a-pique. Teriam sido felizes, não fosse uma promessa que o marido lhe havia feito na lua de mel: ficaria rico! Havia de ver! Ficaria rico de comprar fazendas até onde a vista pudesse alcançar. Eles beberiam cafë em xicaras, como haviam visto na casa do coronel, e seus filhos estudariam na capital. Seriam doutores

- Vão sê dotô, Maria, de falar difícil de ninguém entender.

Tiveram um filho e depois outro e outro. Ele não se esquecia da promessa Haviam de ser ricos.

Foi quando surgiu o trem de ferro. Passava a umas tantas terras da choupana, mas João - esse era seu nome- ia todo dia religiosamente, ver o trem passar. Regalava-se. Batia palmas, ria, gritava para os passageiros. Seis olhos brilhavam

-É isso, mulher! O trem! É o jeito da gente ficar rico, não vê?

- Mas como, João

- Como? Como? Mas então, com aquela ferraiada toda.. é coisa de rico, coisa de rico, mulher! O homem que dirige aquele trem deve de ser rico até não mais podé contá..

- E comoé que voce vai ganhá dinheiro com isso, João?

- Mas como? Como?! Eu entro no trem e converso com o homem, sô. Proponho sociedade.. eu trabalho para ele e recebo uma parte das passage..

- Mas e se ele não aceitá?

- Sempre vale a viage, num vale?

-E como é que ocê vaì entrar no trem, homem de Deus?

- Ah, isso é cá comigo.

 João mudou. Não cuidava da roça. Deixava a vaca pastando ao léu, voltava tarde para casa... Ficava o tempo todo no morro, observando os trilhos, esperando a hora em que trem passava.

 Vieram avisá-la. Estava morto. No fim da tarde, quando o trem passava, João pulara sobre ele como se fosse um cavalo. Até conseguira se agarrar, mas desiquilibrara, perdera o pé... e caira. Seu corpo rolou pelo morro e a cabeça deslizou para debaixo do trem.

A mulher agora vinha do enterro. O padre insistira para que fossem depositar o corpo no cemitério da cidade. Algumas pessoas juntaram seus cobres, a fim de pagar-lhe a passagem, a ela, aos ortãos e ao marido morto.  

No enterro compareceram alguns gatos pingados, mais por curiosidade que por piedade. Os amigos estavam todos na roça.

Nisso o trem parou.

-Brigado, seu moço, brigado. - disse ela, pegando os filhos.

Desceram. Observei-os durante algum tempo, mas o trem pegou velocidade e eles desapareceram no meio do rastro de fumaça.

X-men – o início da saga de Proteus

 


 


 

A saga de Proteus, publicada a partir de The Uncanny X-men 125, representa o início do ponto do alto da dupla Chris Claremont-John Byrne. Dali viriam apenas clássicos, como a Saga da Fênix e Dias de um futuro esquecido.

Essa edição embora seja morna (era uma preparação para a trama principal), é envolvente pela maestria com que os dois autores trabalham com os ganchos ao mesmo tempo em que aprofundam os personagens.

A história começa com Jean Grey transformada em Fênix no labarotório de Moira Mactggert em uma ilustração belíssima e impactante de Byrne. O texto era do tipo que faria a fama de Claremont: “Era uma vez uma jovem chamada Jean Grey... uma telepata/telecinética mutante. E um dos membros fundadores dos fabulosos X-men. Agora ela é a Fênix. E para ela, para aqueles que ela ama e que a amam... e talvez para o mundo inteiro... nada jamais será o mesmo”.

Em poucas páginas, os ganchos de duas das principais sagas dos mutantes.


Nessa sequência inicial já são lançadas as bases do que viria a ser a saga da Fênix. Moira fica com medo ao imaginar o que acontecerá se Jean Grey usar todo o seu poder. Na mesma sequência um homem misterioroso observa as duas. O texto diz: “Atrás delas, sem ser visto por ambas as mulheres, a luz revela algo que um dia foi um homem” e a criatura pensa: “Tenho... fome! Mas devo esperar. Moira não deve saber”.

Ou seja, em apenas três páginas, Byrne e Claremont lançam os ganchos de suas duas principais sagas dos X-men de todos os tempos. Tudo ali, à mostra do leitor, mas encobertos por um ar de mistério que torna a leitura ainda mais viciante.

Se o leitor não havia sido fisgado por esse início, temos a sequência seguinte, com os X-men treinando na sala do perigo e mais um conflito entre Cíclope e Wolverine, algo que seria uma marca dos mutantes: conflitos humanos em meio a grandes sagas.

A narrativa pula para Jason Wyngard, o mestre mental. Ele pensa em como usou sua habilidades para conseguir a confiança de Jean se fazendo passar por um padre no avião.

Mas a história a história logo passaria dos ganchos e dramas humanos para a ação e o terror quando Moira percebe que há algum intruso no laboratório e desconfia que o mutante X escapou. Fênix percebe seus pensamentos e vai em seu socorro, mas no meio do resgate embarca num falso flash back que a deixa desorientada  a ponto de ser atacada e quase derrotada pelo intruso.

O clima de suspense permeia toda a história. 


A história termina com Lorna, a heroína magnética Polaris, pedindo ajuda aos X-men pelo telefone e olhando assustada para trás, a boca entreaberta no meio de um grito, enquanto a voz de alguém que não vemos aparece num balão distorcido: “Humana! Eu... preciso de você!”.

Em, suma, a história é uma aula de como construir uma trama e sustentar a atenção do leitor, com um final que deixa o leitor totalmente intrigado e ansioso pela continuação.

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 20 e demonstra muito bem porque os fãs aguardavam ansiosamente a chegada de mais um número nas bancas.

Fundo do baú - Viagem ao fundo do mar

 


Viagem ao fundo do mar foi um seriado de aventura criado por Irwin Allen e exibido na TV americana na década de 1960.
O seriado teve origem em um filme dirigido por Allen sobre um submarino nuclear que tenta salvar a terra de um desastre. O diretor conseguiu convencer a Fox a produzir o seriado com o argumento de que os principais cenários já estavam prontos e poderiam ser reaproveitados.
Assim, surgiu o seriado no qual o submarino seaview enfrentava monstros, extraterrestres e nações inimigas dos EUA.
Uma curiosidade é que a marinha americana inicialmente se negou a ajudar a produção, temendo que o desenho de seus submarinos fosse divulgado. Assim, o pessoal do design teve de se infiltrar em grupos de turistas em exposições de submarinos alemães capturados durante a II Guerra e fazer desenhos escondidos.
Com o sucesso da série, o submarino a principal estrela. O Marechal Costa e Silva, então presidente do Brasil, fez questão de visitar o seaview quando visitou os EUA, em 1967.

No Brasil, Viagem ao Fundo do Mar foi exibida em vários canais de TV a partir dos anos 70. A última emissora a transmití-la foi a Rede Record, no início dos anos 90.

sábado, junho 01, 2024

Exposição Olá, Maurício

 

A exposição Olá Maurício foi uma homenagem ao universo da Turma da Mônica e seu criador, Maurício de Sousa. Sediada no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo, a exposição fez tanto sucesso que se estendeu de 17 de julho de 2019 a 16 de fevereiro de 2020. Eu a visitei logo no primeiro mês. Confira as imagens.


















 

Perry Rhodan – A frota dos saltadores

 



Escrito por Kurt Mahr, o volume 29 da série Perry Rhodan mostra os terranos em pleno embate com os saltadores cósmicos.

Esses vilões da série haviam aparecido na edição anterior, quando Rhodan, ansioso em saber quem estava aprisionando as naves da terceira potência, colocara um sinalizador no cadete Tifflor e dera a entender que ele levava consigo uma mensagem importante. A nave de Tifflor fora aprisionada pelos saltadores e o livro inicia quando a frota terrestre chega para salvar o rapaz e o restante da tripulação.

O interessante do volume é que pela primeira vez os saltadores são descritos em detalhes: “Pela sua origem, os saltadores podiam ser considerados uma raça arcônida. No que diz respeito à tecnologia, eram iguais, se não superiores aos arcônidas, senhores do império galáctico. Eram seres estranhos. Não tinham pátria; viviam nas naves em que viajavam pela galáxia. Viam a finalidade da vida em praticar o comércio e impedir que qualquer outro ser o praticasse. Reinvidicavam o monopólio do comércio intergaláctico. Por mais abertas que suas mentes fossem para o Universo, afirmavam com um fervor verdadeiramente religioso que no começo de sua história uma lendária divindade lhes havia concedido o monopólio do comércio intergaláctico”.

Esse volume é, provavelmente, um dos primeiros, senão o primeiro, em que Perry Rhodan é praticamente um personagem secundário. Quem se destaca aqui é o cadete Tifflor, que mesmo sendo um iniciante, revela inteligência e capacidade de liderança. Durante a batalha, sua pequena nave acaba caindo num planeta de gelo, e usando os pouquíssimos recursos que lhe restam, ele ainda consegue subjugar os saltadores que vão em seu encalço.

A estratégia de dar destaque a um personagem secundário revelou-se extremamente inteligente em uma série que atualmente conta com milhares de exemplares. Se todos os volumes fossem centrados em Perry Rhodan, não haveria quem tivesse paciência para ler. 

A capa alemã mostrava uma cena do volume, ao contrário da edição brasileira. 


Uma curiosidade é a capa do volume, baseada na capa da edição americana. Embora mostre um belo desenho de Gray Morrow, trata-se de uma imagem genérica que não tem mínima relação com o conteúdo. É possível que Morrow quisesse mostrar os vilões do livro, mas se essa era a ideia, errou miseravelmente: os saltadores tinham cabelos e barbas longas, enquanto que o personagem representado é careca.

Livro para baixar A arte dos quadrinhos

 

Já está on-line o e-book A arte dos quadrinhos. O livro reúne os artigos apresentados no III FNPAS com as mais variadas temáticas. Eu colaborei com o artigo SIMULACRO E PASTICHE EM 1963, DE ALAN MOORE. Para baixar o e-book clique aqui

Bojeffries: a saga, de Alan Moore

 


Alan Moore não é só um dos melhores – senão o melhor – roteiristas vivos, como é também um dos mais ecléticos. Ele fez horror (Monstro do Pântano), super-heróis (Superman, 1963), ficção-científica (A balada de Halo Jones). Bojeffries: a saga, lançado recentemente pela Devir oferece mais uma face do mago inglês: o humor.

A trama se desenvolve em torno da família Bojeffries, “uma mistura de Família Adams com Monstro com elementos lovecraftianos”, como definie Alexandre Callari na introdução do volume.

É uma família totalmente disfuncional, composta por um lobisomem, um vampiro, um vovô monstro lovecrafiatiano, um bebê capaz de gerar energia termonuclear suficiente para iluminar toda a Inglaterra e dois adolescentes: Reth  e Ginda . Ginda é capaz de transformar um bombom de chocolate num diamante e comê-lo e por isso acredita que os homens ficam intimidados ao conhecer alguém poderosa.

Bojeffries: a saga é Alan Moore transportando o humor típico de grupos como o Monty Phyton para os quadrinhos numa história com toques de terror e fortes críticas sociais.

A primeira história é centrada num cobrador de impostos. 


A primeira história, por exemplo, é sobre o cobrador de alugueis sociais que passa suas horas de folga lendo relatórios de alugueis atrasados. Ele descobre que a família Bojeffries não paga aluguel desde o século XIX e resolve cobrar os alugueis atrasados. É uma estratégia para apresentar os personagens, a ambientação e, ao mesmo tempo, fazer uma ácida crítica à burocracia inglesa. Junte a isso várias gags que se repetirão ao longo do álbum, como a mania do tio Raoul de comer cachorros.

Mas os melhores capítulos são aqueles focados nos personagens, como “A noite de folga do tio Raoul”, em que o personagem participa de uma festa da empresa e se transforma em lobisomem no meio da comemoração (um episódio com forte crítica social). Ou “festus: madrugada dos mortos”, em que o tio vampiro acorda pouco antes do nascer do sol e precisa comprar sangue de soja antes que o sol surja. Mas em seu caminho há todo tipo de obstáculos, como pãezinhos de sexta-feira santa, pessoas carregando clavas de madeira e entregadores de jornais que decidem puxar conversa. É um capítulo de puro humor visual.

Tio Raoul trabalha numa fábrica. 


Mas, em termos de humor, o melhor conto talvez seja “Sexo com Ginda Bojeffries”. O capítulo já começa com uma tremenda inversão de papéis, quando Ginda passa por uma obra e começa a assediar os pedreiros. “Isso é tão degradante! Quer dizer, sou um ser humano... tenho sentimentos e ambições, tenho diploma de pedreiro. Mas para ela eu não passo de um par de nádegas durinhas dentro de um jeans apertado”, reclama um pedreiro enquanto a garota grita: “Qual é, lorinho?! Mostra essa sua ferramenta do amor!”.

Os exemplos mostram o tipo de humor usado por Moore na obra: irônico, inteligente, inquietante e sutil.

Essas histórias começaram a ser publicadas em 1983 na revista Warrior. Depois a saga passou por várias outras publicações até serem finalmente reunidas em álbum.  

É uma leitura divertida e obrigatória para os fãs de Moore e de humor ácido, mas tem um problema: fica a impressão de que havia muito mais a ser explorado na família.

Homem de Ferro - suspeito de assassinato

  

A dupla identidade de Tony Stark - Homem de Ferro criou situações interessantes, que se tornaram o motor de muitas tramas na era de prata.

Uma das mais curiosas foi a publicada no número 60 da revista Tales of Suspense. Na história, Stark teme tirar a armadura e isso provocar sua morte. Ocorre que isso gera um problema: as pessoas próximas ao empresário e até a polícia começam a achar que o Homem de Ferro matou Stark para se apropriar da sua fábrica. A situação se complica mais ainda quando ele é visto tirando dinheiro do cofre. 

O Homem de Ferro torna-se suspeito de ter assassinado Tony Stark... 


Ironia das ironias: o personagem se torna suspeito de ter matado a si mesmo. 

Claro que uma história de super heróis teria que ter um vilão, e Stan Lee providencia isso fazendo o Gavião Arqueiro, influenciado pela Viúva Negra,invadir a fábrica para roubar segredos militares.

Ei, há um padrão aí: um drama pessoal se mistura com uma ameaça à fábrica!

... enquanto isso, o Gavião Arqueiro invade a fábrica. 


Essa história traz um belo texto final, que reflete toda o dilema do personagem: “E assim nos despedimos do vingador dourado... enquanto ele trabalha sozinho em seu laboratório, desesperadamente tentando encontrar uma maneira segura de retirar sua armadura, que o faz um dos homens mais poderosos do mundo... e um dos mais trágicos!” 

Em tempo, essa história é arte finalizada por Dick ayers, que definitivamente não combinava com o traço refinado de desenho de Don Heck.

Jornada nas estrelas – corte marcial

 

Jornada nas estrelas é uma série cuja pluralidade de temas surpreende. Havia histórias de terror, de ação, filosóficas... e até uma trama de tribunal: Corte marcial, da primeira temporada da série clássica.
No episódio, Kirk é acusado de provocar a morte de um tripulante, ejetando sua cápsula antes do alerta vermelho (que seria a dica para que o tripulante abandonasse a cápsula). Para piorar, o computador da nave tem um registro que parece provar que Kirk é culpado.
O episódio tem alguns problemas de verossimilhança, como o fato da cápsula precisar ser operada por um tripulante em uma situação de perigo e o fato de ser possível manipular os registros da nave – incluindo o registro visual, forjando um vídeo. A filha do oficial morto também aparece com um visual que parece saído diretamente de um concurso de cospobre.
Apesar desses problemas, é um episódio que diverte, especialmente graças à atuação de Leonard Nimoy, que tranquilamente joga xadrez com o computador em uma das sequências enquanto seu capitão é julgado (e, como sempre, essa ação será essencial para a solução do episódio) e de William Shatner, que consegue passar diversos nuances da personalidade do Capitão Kirk, do divertido ao arrogante. Shatner era, provavelmente, o melhor canastrão de todos os tempos.
Se esquecermos os exageros e falhas no roteiro, a história consegue prender a atenção do leitor com uma interessante reviravolta final. Talvez atualmente, com os programas de computador capazes de produzir simulacros a trama fizesse mais sentido.

A arte empolgante de Bruce Timm

 


 



Bruce Timm começou sua carreira na década de 1970 fazendo layouts de séries animadas da Filmation, como Flash Gordon, He-man e She-Ra. Pouco depois ele tentou trabalhar para a Marvel e DC, sem sucesso. Em 1989 ele entrou para a divisão de animação da Warner Bross e trabalhou em Tiny Toon Adventures.

Mas o grande sucesso, o trabalho pelo qual ele seria conhecido e reconhecido, viria em 1992: Batman, a série animada. Essa animação revolucionou a forma como os super-heróis eram mostrados na telinha, com desenhos simples, dinâmicos e expressivos, e roteiros que aprofundavam os personagens.

O sucesso da série do Batman levou à criação da série do Superman, Liga da Justiça e Liga da Justiça sem limites, um projeto impressionante que reuniu quase todos os personagens da DC.

O sucesso dessas séries foi tão grande que a DC lançou revistas em quadrinhos baseadas nos seriados com artistas imitando o traço de Bruce Timm.

Não bastasse sua impressionante atuação nas animações, Timm também produziu quadrinhos premiados, incluindo história da Arlequina, personagem criada por ele para o desenho do Batman.