segunda-feira, março 10, 2008

Quadrinhofilia



"Mais do que histórias em quadrinhos, a obra revela um artista com pleno domínio do que faz, o que permite diálogos mais ousados com a experimentação e o surreal. A sensação que se tem ao fim da leitura é que Aguiar escondia um lado artístico esteticamente criativo, desconhecido de boa parte do público de quadrinhos. É esse lado que vem à tona nesta obra".- Paulo Ramos, jornalista, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo e responsável pelo Blog dos Quadrinhos, em seu prefácio.
Premiado e publicado no Brasil e no exterior, o artista José Aguiar retorna da Europa, onde participou do prestigiado Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, e lança seu primeiro trabalho de 2008 pela HQM Editora: Quadrinhofilia.
O livro reúne 14 histórias onde o autor passeia por diversos gêneros e estilos de traço, experimentando técnicas e explorando as possibilidades da linguagem dos quadrinhos. Do humor, passando pelo terror, aventura, ficção científica e até pelo erótico. São HQs selecionadas de sua produção autoral nos últimos 10 anos. O livro é um apanhado da carreira de Aguiar, reunindo histórias já publicadas com outras inéditas, produzidas especialmente para esta edição.
Segundo o próprio autor: "Boa parte das histórias que compõem este livro nunca foram publicadas. Quando muito, foram vistas na Internet. Cada HQ aqui tem sua história e relevância dentro da minha própria. Elas não foram agrupadas em ordem cronológica, mas seguindo critérios mais subjetivos para que o todo do livro fosse o mais interessante possível. A linha editorial reside no fato de que busquei utilizar as minhas HQs favoritas e mais relevantes, dentre toda a minha produção de histórias curtas... Não há um só estilo ou proposta. Só a busca de uma boa história é o que une esse material todo num conjunto batizado de Quadrinhofilia."
Mas o que vem a ser uma QUADRINHOFILIA? Essa palavra é um neologismo todo próprio, que o autor criou quando decidiu revirar suas idéias sobre quadrinhos na coluna que escreveu no site de cultura pop Omelete: "O sufixo "filia", confesso que tirei da palavra necrofilia: aquela que define você sabe o quê... Mas antes que faça mau juízo de mim, que fique claro que minha intenção na coluna era revirar minha coleção de quadrinhos mortos e enterrados em busca de elucubrações interessantes. O mesmo nome emprestei a uma exposição onde fiz um balanço de minha carreira, realizada em 2006 em Curitiba. Para minha surpresa ela foi indicada ao Troféu HQ Mix de melhor exposição daquele ano. Não levei o prêmio, mas daí me veio a convicção de que este era mesmo o nome do meu livro. "
As histórias que fazem Quadrinhofilia:
- Absoluto: Uma viagem muda por uma sopa de letrinhas rumo ao absoluto;
- Baile de Salão: Uma homenagem aos antigos bailes de carnaval e aos compositores de marchinhas;
- Genealogia do Mal: Uma lenda urbana, com roteiro de Abs Moraes e colaboração de Jairo Rodrigues;
- No fim, tudo é bem simples...: Uma HQ muda onde o título diz tudo;
- Catarrinho de Amor: Um dia típico no cartório de registros;
- O Gabinete do Dr. Caligari: Adaptação do clássico filme expressionista alemão de 1919, com texto de Gian Danton;
- Entropia: Um conto de ficção científica com argumento de Gian Danton;
- Invasão: Ficção, terror e clichês numa cidadezinha qualquer com argumento de Gian Danton;
- O triste fim de João e Maria: Um conto de fadas sob um olhar moderno, adaptado de um conto de Sabrina Lopes
;- O último milênio meu: Deus fazendo um balanço dos últimos mil anos;
- Noite...: Uma história erótica e hermética, premiada em Portugal;
- Quadrinhos em outras bandas (desenhadas)!: Um relato semibiográfico da primeira viagem de Aguiar à Europa e seu contato com os quadrinhos de lá;
- Pirata: Uma homenagem ao personagem italiano Dylan Dog;
- Poréns da vida herdada dos outros: Uma história autobiográfica narrada por ícones.
Confira um preview de algumas das histórias que integram o livro no site pessoal do autor: http://www.joseaguiar.com.br/
Sobre o Autor:José Aguiar é formado em Artes Plásticas pela FAP (Faculdade de Artes do Paraná) e é professor de História em Quadrinhos na Gibiteca de Curitiba, tendo ministrado palestras e oficinas sobre o assunto pelo país. Publicou artigos sobre HQ, TV e cinema no jornal Folha de São Paulo e também no site Omelete. Atua como ilustrador publicitário e editorial e também para teatro, onde desenvolveu o projeto gráfico e as ilustrações do personagem Artie, do premiado espetáculo Graphic, da companhia Vigor Mortis.Iniciou profissionalmente com tiras em jornais de Curitiba. Suas principais são Folheteen e Pensão João. Criou também aventuras para o Gralha, super-herói inspirado no folclore de sua região, publicado no jornal Gazeta do Povo e criado em parceria com outros autores. Material vencedor do Troféu HQMix em 2001 e adaptado para o teatro e cinema em dois curtas-metragens.Publicou em diversas revistas nacionais, como Metal Pesado, Front, Canalha, Omelete, Wizard Brasil, Zé Pereira e no site Nona Arte, de André Diniz, para quem ilustrou
A Guerra de Canudos, pela Escala Educacional.Ilustrou capas em Portugal (Sketchbook e C.A.O.S.) onde foi o segundo colocado no concurso Jovens Talentos BD, realizado em 2006. Na Espanha participou da coletânea e mostra de novos talentos brasileiros Consecuências. Na França, participou da coletânea Flying Doctors - Un Jour de Mai e ilustrou dois álbuns da série de aventura Ernie Adams, todos publicados pela Éditions Paquet.Em 2005 venceu o I Concurso Internacional de Quadrinhos do SENAC-SP, prêmio que lhe rendeu a publicação de Folheteen pela editora Devir em 2007.Atualmente o artista trabalha no livro que reunirá os trabalhos da exposição Reisetagebuch - Uma Viagem Ilustrada pela Alemanha, com ilustrações sobre o período em que residiu na Europa, além de trabalhar nos álbuns Pensão João e no novo Folheteen.Sua exposição Quadrinhofilia, realizada no Solar do Barão, em Curitiba, foi indicada ao Troféu HQMix na categoria de melhor exposição de 2006.
Lançamento no dia 8 de março, na 14ª. Fest Comix, em São Paulo.
Distribuição em comic shops e livrarias: Comix Book ShopAlameda Jaú, 1998São Paulo – SP
Fone 11-3088-9116http://www.comix.com.br/

domingo, março 09, 2008


Está sendo leiloado na Inglaterra uma cópia do livro Juden sehen Dich An (os judeus estão te olhando), publicado pelos nazistas. O livro era uma peça de propaganda racista destinada a mostrar judeus de sucesso e convencer os alemães que estes estavam tramando contra a Alemanha. Quase todas as pessoas que aparecem no livro foram exterminadas pela SS.

O destaque vai para Charles Chaplin. Ele é atacado na seção artistas judeus. Ele não era judeu, mas como nunca negou isso, os nazistas acabaram colocando-o na lista e mandando a ele um exemplar do livro, quase como uma sentença de morte. Chaplin temeu por sua vida, mas decidiu realizar um ato de desafio, produzindo o filme O grande ditador, que fez com que a opinião pública norte-americana se voltasse contra os nazistas...
Compre aqui o DVD do Grande Ditador e dê uma forcinha para este blog.

O site 100 grana mostrou as primeiras fotos oficiais dos personagens da adaptação de Watchmen para a tela grande. Confiram. O Comediante está perfeito. Já o Ozymandias...

sábado, março 08, 2008


Em homenagem ao dia da mulher, um texto de Rita Lee:


Lugar de mulher é...


Eis que chega minha primeira menstruação e com ela leva embora minha infância querida, salve, salve. "Rita, minha filha, agora você já é uma mocinha, precisa mudar seu comportamento. Não pode mais, por exemplo, se sentar com as pernas abertas, nem ficar andando de carrinho rolimã com os moleques da rua. Há certas regras nesta vida que devemos respeitar. Você tem de entender que o nosso mundo feminino é muito diferente do masculino, Deus assim quer".

Não demorei para entender que a partir de então seria deselegante me sentar de pernas abertas, assim como totalmente fora de cabimento continuar andando de carrinho rolimã. Mesmo porque lá em casa todos já achavam meio esquisito eu nunca ter brincado com bonecas e preferir "coisas de meninos". Confesso que sempre odiei bonecas mesmo, aquilo de ficar tirando e pondo vestidinhos, arrumando e desarrumando cabelinhos era no mínimo bocejante. Pelo menos com a molecada eu aprendia ótimos palavrões. Tudo bem, não custa fazer um esforço, afinal, agora eu sou uma mocinha. Leia mais

Amapá francês


O historiador português Jorge Couto afirmou recentemente que uma das principais razões para vinda da família real ao Brasil foi defender a Amazônia. Isso porque havia um plano entre os franceses de ampliar a Guiana até o rio Amazonas. Se o historiador estiver certo, a vinda da família real impediu que o Amapá se tornasse território francês... Leia aqui a notícia

sexta-feira, março 07, 2008

Carrie, a estranha

Há uma tendência generalizada entre os críticos mal-humorados em considerar Stephen King um escritor ruim. Essa postura fundamenta-se na idéia de que tudo que faz sucesso não tem qualidade. Os grandes escritores seriam aqueles voltados para pequenos públicos. Mas basta uma olhada rápida em Carrie, a Estranha (Carrie, 1974), romance de estréia de Stephen King, para perceber o óbvio: esse pessoal não sabe se divertir.
Carrie é uma leitura divertida que, no entanto, não subestima a inteligência do leitor. A narrativa não é linear. A história principal é entremeada por fatos do passado e recortes de revistas de livros, técnica muito usada por grandes escritores pós-modernos. King conta que, na época em que começou a escrever a história, era professor de uma escola de ensino médio. A renda não era suficiente para sustentar a família com dois filhos. Assim, para se manter, ele vendia contos de terror para revistas mensais. Quando uma das crianças aparecia com uma otite, Tabitha, a mulher do escritor, dizia: "Rápido, Steve, pense num monstro!".
No final do ano de 1972, King teve a idéia para um conto sobre uma menina com poderes telecinéticos. A trama era baseada em uma matéria da revista Life sobre uma casa assombrada por poltergeist. Entretanto, os pesquisadores logo descobriram que o caso não tinha nada a ver com fantasmas. O centro do fenômeno era uma menina. Quando ela estava em casa, objetos saíam voando. Quando ela saía, as coisas voltavam a ficar comportadas. A idéia do artigo era de que meninas na puberdade tinham despertado um poder telecinético capaz de mover objetos. Claro, isso chamou a atenção de um escritor que ganhava dinheiro extra vendendo histórias para revistas de terror.
King, na época, morava em trailer com família, e o único lugar disponível para escrever era próximo da máquina de lavar roupa. Ele se sentou lá, colocou a máquina sobre o colo e começou a escrever em espaço um, sem margens, para economizar papel. Quando percebeu que a história estava se tornando maior que um conto, ele a jogou fora. Afinal, ele precisava de dinheiro imediato, e uma novela era muito trabalho. Além disso, um texto desses encontraria maior dificuldade de ser publicado. Carrie não existiria se não fosse Tabitha. Ela foi até a lixeira, limpou o papel e começou a ler. Gostou e incentivou o marido a continuar escrevendo. Ele o fez apenas para agradá-la.
De fato, foi muito difícil encontrar um editor para a história, e o único que aceitou só o fez pensando no sucesso do filme O Exorcista. Para surpresa geral, Carrie, a Estranha se tornou um best seller. Virou até filme, pelas mãos de Brian de Palma, o que projetou King para o Olimpo dos escritores americanos: Hollywood.
King colocou os seus próprios fantasmas na história: duas meninas, colegas de escolas, ambas já falecidas na época. Uma delas, Tina White, era gorducha e quieta. O fato de usar sempre a mesma roupa fazia dela a vítima potencial de todas as brincadeiras sádicas dos colegas. Era ela que sempre sobrava na dança das cadeiras, era ela que sempre carregava um cartaz dizendo "me chute" colado ao traseiro. A outra, Sandra Irving, era filha de uma fanática religiosa e tinha ataques epilépticos. Usava roupas pudicas e antiquadas. Tudo isso fazia dela um alvo muito bom para a chacota das crianças. Carrie White é uma mistura das duas. Filha de uma fanática religiosa, que a sufoca e a impede de ter uma vida normal, ela é humilhada na escola por ser diferente e por usar roupas estranhas.
A cena inicial do filme é particularmente significativa. Carrie está no banheiro, tomando banho com as outras meninas após as aulas de ginástica. Ela tem dezessete anos e tem sua primeira menstruação. Carrie pensa que está morrendo de hemorragia. As colegas começam a gritar com ela e a jogar absorventes. O episódio demonstra a total ignorância da menina quanto às coisas da vida. Demonstra também a rejeição das outras garotas. Mas demonstra acima de tudo o que Carrie tem de diferente das colegas de King. No ápice da humilhação, um lâmpada estoura, revelando que a menina tem o poder mental chamado telecinésia. Carrie usará isso para se vingar de todos que a maltrataram e humilharam. O leitor sabe disso desde o primeiro momento. A graça não está em adivinhar o final (que, em certo sentido, é óbvio), mas em perceber a textura dos eventos que vão se acumulando até provocar a catástrofe final. Para isso, King se utiliza de fragmentos de livros, de revistas, jornais, de entrevistas que pessoas que conheceram Carrie White. As informações são jogadas ao longo da história, de maneira não-linear. É como montar um quebra-cabeça, mas sabendo que o resultado final será assustador.
Carrie ganhou uma versão nova pela editora Objetiva, que está republicando toda a obra do mestre do terror.

Algumas pessoas estão me perguntando onde comprar o livro 200 perguntas sobre nazismo e estão afirmando que não conseguem achar nas bancas.

A razão para isso, parece-me, é que o livro está vendendo muito bem. O amigo Jeferson, da Caverna do Gibi, diz que encontrou numa banca em Belém, mas quando voltou para comprar, já tinham vendido.

Em Macapá o livro chegou, mas já se esgotou na maioria das bancas. A única banca em que ainda vi exemplares é a do canto da Padre Júlio com a Hildemar Maia.

quinta-feira, março 06, 2008

Cidade série é outra coisa...

Nova lei proíbe carros de som em áreas residenciais
Carros de som que anunciam os mais diversos produtos, ônibus velhos que emitem ruídos ensurdecedores, bares e boates que tornam remota qualquer possibilidade de um sono tranqüilo. O excesso de barulho está em primeiro lugar entre as reclamações recebidas pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram) no ano passado.
Mas uma lei publicada no Diário Oficial do Distrito Federal em fevereiro promete combater a poluição sonora que tira o sossego dos brasilienses. As novas normas ambientais proíbem, por exemplo, carros de som em áreas residenciais ou escolares e exigem isolamento acústico para casas noturnas.

Fonte: Correio Brasiliense
O que o povo está dizendo por aí:



Em Macapá, precisa ser beija-flor
para não cair nos buracos



No Amapá, a parceria entre governo e prefeitura é 10
um buraco a cada 10 metros


Macapá é cidade de primeira
se engatar a segunda, o carro quebra

quarta-feira, março 05, 2008

Histórias de robôs



A primeira impressão que se tem ao folhear o primeiro volume da trilogiaHistórias de robôs (L&PM, 2005, 235 págs.), da coleção L&PM Pocket, é de decepção. O nome, enorme, de Isaac Asimov na capa dá a entender que se trata de uma coletânea de histórias do autor de Eu, robô. Na verdade, Asimov foi apenas um dos organizadores e contribuiu com um conto para cada capítulo da trilogia. A decepção tem sua razão de ser. Asimov é garantia de boa leitura. Com uma narrativa simples, mas fluente, ele deliciou uma geração de fãs com seus contos construídos a partir de uma premissa lógica, como as três leis da robótica (1 ― um robô não pode fazer mal a um ser humano e nem permitir que algum mal lhe aconteça; 2 ― um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, exceto quando estas contrariarem a primeira lei; 3 ― um robô deve proteger a sua integridade física, desde que com isto não contrarie as duas primeiras leis). Aliás, foi ele que criou a palavra robótica.


Entretanto, aqueles que se aventurarem a ler, vão descobrir que a seleção vale a pena, mesmo com a pequena participação de Asimov. O volume 1 reúne as primeiras histórias sobre robôs, incluindo "Robbie", o conto de estréia de Asimov. "O feitiço e o feiticeiro", de Ambrose Bierce, de 1894, abre o volume. Bierce é um famoso jornalista e contista norte-americano. É um nome célebre, mas sua história "O feitiço e o feiticeiro" parece deslocada na coletânea. O conto narra a história de uma máquina capaz de jogar xadrez que se rebela contra seu criador. A narrativa é, provavelmente, influenciada pelo jogador automático inventado por Wolfgang Von Kemplen em 1809. A máquina chegou a vencer Napoleão II num jogo e causou rebuliço. Depois, descobriu-se que existia na verdade um anão dentro do mecanismo, movimentando as peças. Bierce pretende discutir as implicações filosóficas da criação de uma máquina desse tipo, mas não avança muito. Além disso, seu robô descontrolado destoa totalmente dos robôs apresentados nos outros contos da coletânea.
"A máquina perdida", de John Wyndham, de 1932, já apresenta um robô bem intencionado, ou pelo menos não-maligno. Outra novidade é a história contada em primeira pessoa pelo próprio robô. Isso, acrescido do suicídio do personagem robótico, levou a história a contar na coletânea. A narrativa, ao mostrar um robô alienígena em suas aventuras pela Terra, tem um toque humorístico e antropológico que vale a leitura, mas é apenas aperitivo para o que vem adiante. "Rex", de Harl Vicent, de 1934, é um exemplo muito interessante de história de robôs, embora insista no complexo de Frankstein, como Asimov chamava a mania de mostrar os robôs como malignos. O interessante aqui é que o robô, em sua lógica fria, pensa estar fazendo o melhor para a humanidade ao instalar uma ditadura mecânica. Outra característica interessante é que o robô Rex não é uma lata de sardinha ambulante. Ao contrário. Sua pele era de material plástico, usava peruca e roupas masculinas. Era como um ser humano comum, exceto por um detalhe: não tinha sentimentos. E quando finalmente consegue tê-los é que advém sua desgraça.
"Robbie", de 1940, é um marco. É a narrativa simples de uma garotinha apaixonada por seu robô. Mas já se encontram ali referências às leis da robótica e à cientista Suzan Calvin, que seria fundamental em obras posteriores. Asimov escreveu o conto em 1939, quando tinha apenas 19 anos. Ele enviou o texto para John W. Campbell, editor da revista pulp Astounding. Numa daquelas ironias do destino, Campbell devolveu o original com a desculpa de que o conto não tinha o nível de qualidade que pretendia manter. Mal sabia que estava diante de um clássico. Frederick Pohl percebeu o talento do novato e publicou a história na revista Super-science. Um dos pontos altos do livro é o conto seguinte, "Adeus ao mestre", de Harry Bates, de 1940. Foi esse conto que deu origem ao clássico do cinema O dia em que Terra parou, de 1951. Todos os fãs de ficção conhecem a história do embaixador espacial Klaatu, que vem à Terra para nos alertar sobre o perigo nuclear. O filme de Robert Wise criou imagens que entraram no imaginário popular, e chegou a se tornar música de Raul Seixas. Mas Hollywood aproveitou do conto apenas os elementos básicos, mudando muito da trama.
Em "Adeus ao mestre", o personagem principal é o robô. Depois que Klaatu morre, um monumento é erigido em sua homenagem ao redor da nave, que não pode ser aberta, e do robô, que não se mexe e aparentemente está inativo. Mas algo de estranho parece estar acontecendo e um fotógrafo decide passar a noite no local para tentar desvendar esse mistério. É nesse ponto que começa a trama. Todo o restante (o que seria, aproximadamente, o filme de Wise) é contado em flashback. Embora extenso, o conto tem aquele aspecto de fascínio e mistério que caracteriza uma boa ficção-científica. Some-se a isso um final surpreendente e, ao mesmo tempo, irônico, e tem-se um dos melhores momentos dessa coletânea.
Se "Adeus ao mestre" é um trunfo em termos de trama e final surpresa, "A volta do robô", de Robert Moore Williams, de 1938, se destaca pela narrativa elegante. Quem já leu Ray Bradbury certamente vai se lembrar de seu texto poético ao ler este conto. A trama é simples, mas ecoa um conteúdo mítico, como bem destaca o texto de abertura. Trata-se do mito do eterno regresso, mas aqui os heróis aventureiros que voltam para casa não são humanos, mas robôs. Eles voltam para a terra em busca de sua origem, dos seres que os haviam criado (nesse sentido, a trama lembra Jornada nas estrelas, o filme, de 1979, também de Robert Wise). Encontrando uma terra devastada por um vírus, os robôs a imaginam povoada, mas sua imaginação não vai além de seus próprios paradigmas: "Tentou imaginar milhões de habitantes perambulando por aquela cidade. Viu corpos de metal cintilante caminhando pelas ruas, flutuando no ar, junto à parede do edifício". Assim, a história dialoga com a filosofia e com a ciência cognitiva, como costumam fazer as boas obras de ficção científica.
Esse conto curto ficou tão bom que o editor Lester Del Rey insistiu para que Williams continuasse a história, contando como os robôs haviam chegado ao planeta distante. Williams sabiamente declinou da oferta, mas deu autorização para que o amigo o fizesse. O resultado foi "Mesmo que os sonhadores morram", de 1944. A presença do conto no volume vale para lembrar que às vezes é melhor deixar as coisas como estão. O interessante de "A volta do robô" é justamente os pontos não explicados, que deixam espaço para a imaginação e o raciocínio do leitor. Lester Del Rey sintetizou todo o significado filosófico em uma única frase, a mesma do título, banalizando os aspectos discutidos por Williams.Finalmente, "Satisfação", de 1951, de A.E. van Vogt, fecha o volume. É uma história interessante, mas que parece com uma piada que se estende demais e perde a graça. De interessante aqui, a narrativa do ponto de vista de um computador (chamado cérebro, na história) e seus pontos de vista sobre os seres humanos. Não chega a fazer feio, mas também não é o melhor do volume. Histórias de robôs é, apesar da inconstância, um bom livro. De negativo mesmo, só a capa. A coleção L&PM Pockets atualmente tem se destacado por algumas belas capas, que se destacam nas prateleiras, apesar do tamanho reduzido. Aqui, o responsável apenas colocou um fundo rosa com o título e o nome dos autores. Talvez a necessidade de destacar o nome de Isaac Asimov, como medida editorial, tenha imposto limitações, mas mesmo assim seria possível colocar ao menos uma figura.
Compre o livro Hístórias de robôs no Submarino.

terça-feira, março 04, 2008


ALEPH 2

Levantei. Havia desaparecido. Fora rápido como um flash. Ainda assim, fui seguindo naquela direção. Dei com uma árvore grande, em cuja base se abria um buraco de proporções grandiosas. Ajoelhei-me e olhei em interior.
Foi quando aconteceu. Fui dominado pela sensação de que meu corpo havia perdido inexplicavelmente o peso e o retomado no momento seguinte. Senti a cabeça às voltas, como se estivesse bêbado.
O momento seguinte foi plasmado pela sensação de que meus olhos se abriam em uma visão de 360 graus. Tinha consciência de tudo o que estava na minha frente, atrás, acima e abaixo. Consegui adivinhar o movimento seguinte do peixe na água, compartilhei da consciência estóica da minhoca escavando o chão sob meus pés. Antecipei o canto dos pássaros nos galhos e admirei a velhice secular da árvore que me envolvia.
Vi o nascimento de meu filho. Percebi o momento mágico da fecundação e a tragédia irrecuperável de sua morte.
Vi um homem morrendo numa trincheira, o peito transpassado por um tiro. Em seu bolso, a foto de uma jovem que choraria por ele por 30 anos, quando enfim se mataria.
Gozei e bebi com prostitutas polonesas em plena São Paulo do século XIX. Copiei iluminuras, recitando versos em latim, e fiz isso até que meus dedos doessem e minhas pernas tivessem câimbras.
Berrei com o povo pedindo a cabeça do rei. Ao meu lado, havia um homem chamado Marat e sua boca exalava ódio. Vi o rosto de uma menina que chorava enquanto a cabeça de sua mãe rolava pelo chão.
Experimentei o sangue de um vampiro. Beijei uma moça de pele branca como leite. Cacei búfalos nas planícies, sobre um grande cavalo malhado. Escalei montanhas e naveguei num galeão.
Morri 300 mil vezes. Conheci a dor, a tristeza e a fadiga.
Senti ansiedade ao abrir uma carta com as mãos trêmulas. Padeci da solidão da velhice e da inexperiência da juventude.
Vi meus amigos morrerem e uma abelha polinizando. Dancei como um louco nos braços de uma birmanesa. Senti todos os gostos, todos os sabores e todas as essências.
Vi todo meu futuro como se folheasse um livro empoeirado. Passaram-se todos os séculos e nem mesmo um segundo.
Quando acordei, estava rodeado pelos meus amigos. Haviam me descoberto desmaiado no chão da floresta. Segui, cambaleante, com eles, até o acampamento. Fomos embora no dia seguinte.
Estava doente, mas nenhum médico soube diagnosticar meu mal. A razão para isso era simples: estava doente de velhice. Era se tivesse um milhão de anos e ainda não completara 30.
Vivi naquele dia toda uma velhice milenar e, desde então, tenho apenas me arrastado pelos anos. Não tenho mais nada a conhecer. Só aguardo a morte, que me libertará do determinismo de tudo saber e tudo conhecer. Assim, acordo, levanto, como e novamente durmo.
Eternamente, até o fim.
Na Europa é assim que tratam os roteiristas:
Revista DBD de março dá destaque para Jodorowsky
Por Sérgio Codespoti (03/03/08)O escritor e cineasta chileno Alejandro Jodorowsky é o destaque de capa da edição de março da revista DBD, especializada em quadrinhos.A revista traz um dossiê completo sobre o artista, no formato glossário, de A-Z, realizada ao longo de algumas horas de entrevista. Leia mais

domingo, março 02, 2008


Carlos Zéfiro foi uma das figuras mais importantes do imaginário popular brasileiro nos anos 1950, 1960 e 1970. Ele foi o primeiro a realizar quadrinhos eróticos, que não podiam ser vendidos abertamente, então eram vendidos pelos jornaleiros dentro de catecismos, razão pela qual acabaram sendo chamados de catecismos.

Vários autores já se debruçaram sobre o obra de Zéfiro, analisando-a do ponto de vista antropológico (eu entre eles), a maioria seguindo a linha de Roberto da Matta, que também escreveu sobre o quadrinista numa coletânea organizada pelo Joaquim Marinho (durante muitos anos secretário de cultura do Amazonas).

Embora seu desenhos fossem toscos, Zéfiro sintetizou como ninguém a cultura sexual brasileira, realizando um trabalho que nos diz mais sobre os anos 1950, 1960 e 1970 que a maioria das teses acadêmicas.

Apesar disso, é hoje, um autor relativamente desconhecido for do circulo de colecionadores. Uma tentativa de reconhecimento se deu quando Marisa Monte lançou o disco Barulhinho Bom, cuja capa e ilustrações internas eram todas de Zéfiro.

Agora existe um site especializado nesse autor, no qual é possível ter acesso à maioria dos catecismos de Zéfiro. Só para maiores de 18 anos.


História do quadrinhos 26
A guerra dos gibis


A campanha do Dr. Fredric Werthan contra os quadrinhos teve um grande impacto no Brasil por causa de uma questão política.
Segundo Gonçalo Júnior, autor do livro A Guerra dos Gibis, embora existissem iniciativas isoladas desde a década de 30, quando os quadrinhos de aventura chegaram ao Brasil, a campanha contra os quadrinhos só tomou fôlego na década de 40, graças a uma briga entre Roberto Marinho, do Jornal O Globo, e Orlando Dantas, do Diário de Notícias. Dantas estava ganhando mercado ao promover concursos em que os leitores do jornal concorriam a prêmios em dinheiro. Preocupado com a concorrência, Marinho usou sua influência junto ao governo Vargas para fazer com que fossem proibidos os prêmios em dinheiro.
Dantas, agora sem o principal atrativo de seu jornal, passou a atacar Marinho pelo que considerou o seu ponto fraco: o fato de seu concorrente ser um dos principais editores de histórias em quadrinhos do Brasil (sua publicação Gibi acabou virando sinônimo de quadrinhos). Dantas, ex-repórter de Assis Chateaubrind, sabia que a melhor forma de um jornal sair de uma situação financeira difícil era comprar briga com um concorrente de peso. O Diário de Notícias passou a acusar os gibis de provocarem preguiça mental, inculcarem valores estrangeiros nos jovens e incentivarem a violência. Na verdade, Dantas não tinha nada contra quadrinhos, e, aliás, tinha sido um dos pioneiros a publicar tiras de jornais no Brasil (o humorístico Popeye), mas ele logo descobriu que a melhor forma de chamar atenção para si e alfinetar o rival era fazer acusações aos gibis.
Passou a ser moda falar mal dos gibis. Até mesmo quem nunca tinha lido uma revista se apressava a dar sua opinião. A jornalista Ivone Jean, do Correio da Manhã, por exemplo, escreveu um artigo no qual pedia reconhecimento público por ter roubado um gibi do consultório de um pediatra, impedindo assim, que as crianças tivessem contato com a leitura. Além de se vangloriar do crime, a jornalista admitia que sua birra se devia ao fato dela não compreender o código quadrinístico: “Não sei ler histórias em quadrinhos! Aprendi a ler da esquerda para a direita e linha após linha. As legendas atrapalhadas que ilustram os desenhos são impressas em caracteres estranhos e dançam em todos os sentidos”.
Mas a campanha contra os gibis teria seu momento mais grave a partir de 1953. Dessa vez, além de Dantas, Roberto Marinho teria contra si Samuel Wainer, do jornal Última Hora. Assim como acontecera com o Diário de Notícias uma década antes, o diário de Wainer estava tomando leitores de O Globo, graças a inovações editoriais. Marinho concentrou sua artilharia no concorrente e descobriu que Wainer não era brasileiro, pois chegara ao Brasil com dois anos de idade. Na época a legislação proibia estrangeiros de terem veículos de comunicação no Brasil.
Wainer vingou-se empreendendo uma dura campanha contra as histórias em quadrinhos que durou anos. Para isso foi destacado o repórter Pedro Morel. Este percebeu que a estratégia de maior impacto era acusar os gibis de serem responsáveis pela criminalidade infantil. Citando as pesquisas de Fredric Whertan, Morel defendeu que as histórias em quadrinhos ensinavam as crianças como cometerem crimes.
Para provar o que dizia, Morel foi ao Reformatório de menores Saul de Gusmão atrás do maior criminoso juvenil da época, um tal de Lilico, apelidado de “Terror do subúrbio”. Para sua decepção, encontrou o rapaz jogando futebol, e não lendo gibis. Mas nem por isso achou que seria o futebol o responsável pelos crimes de Lilico. Os responsáveis deviam ser os gibis.
Apesar da total falta de embasamento e de serem resultados de uma briga de mercado, as denúncias deram resultado. Nas portas das igrejas eram distribuindo panfletos orientando pais a não deixarem seus filhos lerem quadrinhos. Em alguns locais os professores tiravam cinco minutos diários de suas aulas para falarem dos riscos da leitura dos gibis.
Um dos resultados dessa campanha se vê nos testes escolares. Desacostumados a ler, os estudantes são incapazes de interpretar os textos mais simples. Nos países em que a leitura dos gibis foi estimulada a realidade é outra.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Estou disponibilizando no 4shared as minhas apostilas de aulas. É só clicar:

Apostila de metodologia científica

Apostila de Marketing global

Contos do Cargueiro Negro estará incluso no DVD de Watchmen


Por Sérgio Codespoti (29/02/08) O ator Gerard Butler, de 300, confirmou para a revista Empire que Os Contos do Cargueiro Negro estarão inclusos no DVD de Watchmen, como animação. Leia mais


Ps: Os contos do cargueiro negro são um gibi que um garoto está lendo em uma banca de revista e que reflete a história de Watchmen e os dilemas dos personagens. A história reflete a estrutura fractal da trama. De fato, é muito bom que venham os contos no DVD, mas não gostei da idéia de que será um anime.

A editora Conrad está disponibilizando, gratuitamente, o livro Plantados no chão, da jornalista Nátalia Viana. O livro discute os assassinatos políticos no Brasil, de pessoas que, em busca da defesa da natureza ou do direito das populações pobres, acabam batendo de frente com interesses de poderosos. Chico Mendes e Dorothy Stang são ótimos exemplos. O release, enviado pela editora, diz:


¨A idéia é que o conteúdo se espalhe bem mais do que seria possível no formato papel, para que esse debate encontre espaço nos mais diferentes cantos possíveis. Por isso, nós da Conrad, juntamente com a autora Natalia Viana, pedimos: baixe o livro, copie, imprima, critique, entre no debate. Espalhe. O livro pode ser baixado no site
http://www.conradeditora.com.br/plantadosnochao.html

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Recebi do amigo Josiel, um dos melhores escritores de ficção ciberpunk do Brasil:

O ensino público do Brasil é uma máquina de moer carne, que nem no filme The Wall do Pink Floyd. Sabem, eu tenho uma sobrinha que aqui tirava notas ruins na escola pública. Por uma dessas viradas da vida, em 2002 ela foi morar na Espanha. Hoje ela fala 5 línguas e conseguiu uma bolsa na Noruega. Ela tem 17 anos. Sim, a minha sobrinha! Que aqui no Brasil nunca demonstrou ter uma inteligência excepcional.
O mais engraçado é que quando ela morava aqui, muita gente poderia dizer que as notas ruins dela eram culpa exclusivamente dela.Mas como tirar notas boas e como ter interesse nas aulas da rede pública, que, de resto, não desperta interesse algum na maioria dos alunos, e mais: condiciona os alunos a sempre passarem de ano "raspando", com a nota mínima para passar de ano, e nota esta atingida com "colas", ou então "decorebas" que são esquecidas no dia seguinte à prova?
E o quadro acima é "na melhor das hipóteses". Na televisão eu vi uma reportagem em que fizeram uma pesquisa com o destino dos alunos da escola pública de SP. Pegaram aleatoriamente a foto de formatura de uma turma de uma escola do Jardim ângela, periferia de SP e foram ver o que tinha acontecido com aqueles alunos formados na oitava série. Quase a metade estava presa, uma outra parcela tinha sido assassinada e só uma pequena parcela tinha conseguido emprego. Salário? 600 reais por mês... a escola pública brasileira está perpetuando a diferença entre as classes sociais. Josiel

Uma vez, em Fortaleza, pegamos um taxi e o motorista, ao passar por um ponto em que o asfalto era irregular, começou a reclamar:
- Isso é um absurdo! Onde já se viu asfalto dessa qualidade!
- Você diz isso porque nunca foi em Macapá. - adverti.
- Impossível! O asfalto não pode ser pior do que isso aqui!
- Isto aqui é um tapete comparado com as ruas de Macapá.
Na verdade, a realidade é muito pior do que o taxista poderia sequer imaginar. O problema não são irregularidade no asfalto, mas buracos mesmo. Alguns tão grandes que podem caber um carro. Outros ocupam toda a extensão da pista, de um lado a outro. Outros são pequenos, mas tão profundos que, se você deixar cair uma roda ali, só sai com um guincho. O pior é que esses buracos surgem até mesmo em ruas que foram asfaltadas (quase escrevi assaltadas, ato falho...) há menos de seis meses.
Quando morava em Belém, eu costumava ler no ônibus. Em Macapá isso é absolutamente impossível, pois não há rua ou trecho que não esteja repleto de buracos.
Parece que asfalto usado na cidade tem a mesma qualidade de nossos políticos...

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Hipocondríacos

A moça irrompeu, esbaforida, pela porta, enquanto a enfermeira terminava de aplicar o soro.
- Ei, não pode entrar agora!
- Rafael, Rafael! Você está bem? Vim correndo quando soube que você estava doente.
- Por favor, ainda não é o horário de visitas. Como a senhora conseguiu entrar? - perguntou a enfermeira, puxando a moça para fora.
- Não, não me afaste do meu Rafael! Por favor, me diga: ele está bem?
Nisso o doente se mexeu no leito, murmurando:
- Beatriz? Você está aí?
Foi o bastante. A mulher se desvencilhou dos braços da enfermeira e se jogou aos pés da cama.
- Rafael, Rafael, você ainda está vivo?
- Beatriz, você está aí? Eu não consigo vê-la...
- Mas ele só está... - interveio a enfermeira.
- Santo Deus, o que fizeram com o meu amado?! Você consegue me ouvir, querido?
- Beatriz? É você mesmo? Agora que vou morrer, quero que saiba que te amo...
- Oh, Rafael! Eu também te amo. Do fundo do meu coração...
- Beatriz, por favor, me dê um último beijo.
Houve um minuto de silêncio, ao fim do qual Beatriz pulou sobre ele, num último e ardoroso beijo de amor. A enfermeira tentou impedi-la, mas era impossível até mesmo saber quem era quem no meio dos aparelhos, seringas e tubos.
- Querida, você sabe o quanto eu amo você. - garantiu ele, depois que se desgrudaram. Não chore por mim. Também quero que você arranje outro homem. Não perca sua juventude por mim...
- Não, não me diga isso, meu amor, você vai sobreviver... E eu jamais terei outro homem...
Ficaram em silêncio. Beatriz enxugava as lágrimas com um lenço.
- Querida, agora que estou morrendo, acho que deveria saber de uma coisa. Lembra-se de Ana?
- A Ana?
- Sim, aquela estudava com você quando nos conhecemos...
- Rafael, você não...
- Eu tive um caso com ela.
- Não, não acredito... não é possível!
Ficou repetindo isso, balançando a cabeça em negativa, a enfermeira parada num canto, os olhos arregalados, sem saber o que fazer....
- Beatriz... agora que estou morrendo, não faz mais sentido esconder meu caso com Maria...
- A minha melhor amiga? Desgraçada!
- Calma, foi coisa pequena: durou só dois anos...
- Dois anos? Seu safado! Cretino!
- Cretino, eu? Pensa que não sei do Paulo?
Beatriz ficou estática.
- Paulo?
- Pensa que não sei? Tenho até fotos...
- Seu cretino! - gritou a mulher e pulou no pescoço dele.
- Gasp, gasp - fez o doente, envolvendo com as mãos o pescoço de Beatriz, que caiu no chão, sob ele.
Rolaram pelo chão do hospital até perderem as forças e só então caíram nos braços um do outro, jurando:
- Beatriz, eu te amo.
- Também te amo, Rafael.
A enfermeira ficou alguns instantes estarrecida, depois saiu do quarto, murmurando consigo:
- Esses hipocondríacos... e era só uma infecção intestinal.

Mauricio de Sousa conduz debate sobre importância da leitura e escrita


Os direitos das crianças e a importância da leitura e da escrita darão o tom do encontro da embaixadora do UNICEF no Brasil, a personagem dos quadrinhos Mônica, e do Escritor do UNICEF para as Crianças Brasileiras, Mauricio de Sousa, com os alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Brasil-Japão. O evento acontece na próxima quarta-feira, 27 de fevereiro, às 14 horas, na própria escola, no bairro do Rio Pequeno, Butantã.

Durante o evento, Mauricio, Mônica e Cebolinha entregarão cerca de 900 jogos de materiais escolares arrecadados no final do ano passado durante a Campanha Social de Natal, realizada pelo Parque da Mônica. Mauricio de Sousa conversará com as crianças sobre sua experiência como escritor e defensor dos direitos das crianças e dos adolescentes.

Entusiasmados com a visita, professores e alunos já estão tratando dos temas que serão abordados no encontro durante as aulas. Redações, desenhos e histórias em quadrinhos ajudam as crianças, os adolescentes e os adultos que participarão do evento a expressar sua opinião. Os temas também continuarão a ser tratados pela escola após o evento.

A ação faz parte das atividades de Mônica como embaixadora do UNICEF no Brasil, título que recebeu em novembro de 2007. Mônica foi escolhida pelo UNICEF pela influência que exerce sobre crianças, professores e famílias, tendo ajudado, ao longo de mais de 44 anos, a transmitir valores como a amizade, a importância da educação, da convivência familiar e comunitária.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Os premiados no Oscar


MELHOR FILME
"Onde os Fracos Não Têm Vez"
MELHOR DIRETOR
Ethan e Joel Coen, por "Onde os Fracos Não Têm Vez"
MELHOR ATRIZ
Marion Cotillard, por "Piaf: Um Hino ao Amor"
MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis, por "Sangue Negro"
ATRIZ COADJUVANTE
Tilda Swinton por "Conduta de Risco"
ATOR COADJUVANTE
Javier Bardem em "Onde os Fracos Não Têm Vez"
MELHOR FILME ESTRANGEIRO
"The Counterfeiters", da Áustria
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Diablo Cody, por "Juno"
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ethan e Joel Coen por "Onde os Fracos Não Têm Vez"
LONGA DE ANIMAÇÃO
"Ratatouille"
CURTA DE ANIMAÇÃO
"Peter & the Wolf"
MELHOR CURTA-METRAGEM
"Le Mozart des Pickpockets (The Mozart of Pickpockets)"
MELHOR DOCUMENTáRIO
"Taxi to the Dark Side"
MELHOR DOCUMENTáRIO EM CURTA-METRAGEM
"Freeheld"
MELHOR MONTAGEM
"Ultimato Bourne"
EFEITOS VISUAIS
"A Bússula de Ouro"
MELHOR FOTOGRAFIA
"Sangue Negro"
MELHOR EDIÇÃO DE SOM
"O Ultimato Bourne"
DIREÇÃO DE ARTE
"Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet"
FIGURINO
"Elizabeth: A Era de Ouro"
MAQUIAGEM
"Piaf: Um Hino ao Amor"
MELHOR TRILHA SONORA
Dario Marianelli por "Desejo e Reparação"
MELHOR CANçãO
Falling Slowly, de "Once"

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

O poder de uma marca


Na década de 1970, Stephen King arranjou uma solução para sua super-produção. Ele produzia demais e as editoras tinham medo de lançar todas as obras, saturando o mercado com seus livros. Assim, ele inventou o pseudônimo Richard Bachman, com os quais assinou aqueles trabalhos que lhe pareciam menos comerciais. A farsa durou alguns anos, até que um repórter descobriu a verdade. Como resultado disso, os livros de Bachman tiveram um salto de vendas. Um deles, que havia vendido 28 mil exemplares, vendeu 280 mil exemplares. É o poder de uma marca de sucesso...

Conheci o Nirlando Lopes na loja Caverna do Gibi, em Belém. Como era fã dos meus roteiros, ele tinha pedido para o Jeferson (dono da loja) me ligar caso eu aparecesse por lá. Desde então temos nos encontrado ocasionalmente por lá e conversado sobre quadrinhos. Agora descobri que, além de fã, ele também é um bom desenhista. É possível conferir aqui algumas ilustrações de guerreiras feitas por ele.

PROFESSOR DO AMAPÁ LANÇA LIVRO SOBRE NAZISMO
Uma das novidades das bancas nesse mês de fevereiro é o livro 200 perguntas sobre nazismo, de autoria do professor Ivan Carlo. O livro foi lançado pela editora Escala ao custo de R$ 12,90.
Este é o primeiro volume de uma coleção com perguntas e respostas sobre temas instigantes. Além do texto, a qualidade gráfica também se destaca. A capa cartonada e o papel gouchê do miolo tornam a leitura mais agradável, além de um glossário em cada página, explicando os termos mais difíceis. ¨É um bom guia para quem tem curiosidade sobre o assunto, mas ainda está iniciando¨.
Entre as curiosidades, estão o fato de que Hitler viveu durante algum tempo quase como mendigo ou a oração dedicada a ele que as crianças rezavam nos orfanatos alemães da época. Mas o volume não traz apenas informações históricas. Também filmes, jogos e quadrinhos sobre o nazismo são analisados. Uma das curiosidades: A roupa do vilão Darth Vader, da série Star Wars, foi baseada no uniforme dos African Korps, os soldados nazistas que atuavam África.
Além de diversão, o livro é um alerta: ¨ Lembrar o que aconteceu é uma forma de evitar que aconteça de novo. Quanto mais pessoas souberem o que foi o nazismo, menor a chance de que ele venha a eclodir novamente, com este ou com outro nome. Este livro reúne 200 perguntas que podem ajudar o leitor iniciante a conhecer um pouco melhor o que foi esse período negro da história... e nunca esquecer¨, escreve o professor, na introdução.

Ivan Carlo é mestre em comunicação e professor do Centro de Ensino Superior do Amapá e da Faculdade de Macapá. É autor de vários livros nas áreas de metodologia científica e comunicação, entre eles o Introdução à metodologia científica. Atualmente ele prepara o volume 200 perguntas sobre sociedades secretas, também para a editora Escala.

O grupo de quadrinistas independentes Quarto Mundo lançou o seu informativo. Ainda não recebi, mas pelo que vi lembra o saudoso Recado, da Devir, que servia para divulgar os lançamento dessa distribuidora. Para conhecer o Quarto Mundo, clique aqui.

O Universo HQ anunciou que John Landis, diretor de Blues Brothers e Um Lobisomem Americano em Londres, filmará uma biografia autorizada de William Gaines. Gaines foi o dono da EC, a editora mais revolucionária dos quadrinhos, que revolucionou os quadrinhos de terror e o humor, com a MAD.

Dá para comprar igressos antecipados?

Republicação de cartuns causa revolta na Dinamarca


Por Sérgio Codespoti (21/02/08)Depois que a polícia dinamarquesa desmantelou um complô para matar Kurt Westergaard, um dos 12 responsáveis pelas polêmicas caricaturas de Maomé, mais de 15 jornais e revistas decidiram republicar os cartuns como uma forma de protesto contra tentativas de tolher a liberdade de expressão usando a violência.A Dinamarca foi tomada por uma revolta de jovens muçulmanos, que já dura oito dias, com mais de 20 jovens presos. Diversos carros e caminhões de lixo foram queimadosMas a republicação dos cartuns não é a única causa da violência. Os jovens muçulmanos estão acusando a polícia de abuso de autoridade e assédio. Atualmente, a polícia dinamarquesa pode interpelar qualquer pessoal na rua, mesmo sem motivo aparente, para revista pessoal em busca de armas, uma política nova criada para coibir atentados.As autoridades locais e os líderes da comunidade muçulmana estão tentando acabar com a revolta de maneira pacífica. O problema abriu nova discussão sobre a integração das culturas. Apesar disso, já existem parlamentares e funcionários do governo falando em deportar famílias e jovens. Fonte: Universo HQ.


PS: Essa crise das caricatura é um assunto espinhoso. Mostra o choque entre duas culturas. As caricaturas mostravam os mulçumanos como terroristas. Revoltados por serem mostrados dessa forma, os mulçumanos no mundo destroem prédios, botam fogo em carros... Tem também o fato de que a religião mulçumana proíbe a divulgação de imagens do profeta Maomé (uma das caricaturas supostamente mostrava Maomé com um manto que formava uma bomba, supostamente, pois, como não se conhece o rosto do profeta, poderia ser qualquer pessoa). Essa regra serve para os mulçumanos, mas eles querem proibir qualquer um de qualquer religião, em qualquer país, de divulgar imagens do profeta. Tenho saudades da Idade Média, quando os países islâmicos eram os mais intelectualizados e mais civilizados do mundo ocidental...
Essa é para os meus alunos de marketing: um bom vídeo em espanhol explicando o que é o marketing viral. Pode ser acessado aqui.
CURUPIRA 3
A mata da região tinha uma característica que dificultava em muito as coisas para mim. O chão era, na maior parte, elameado. Nada de terra firme, na qual acabam se formando trilhas nos locais por onde as pessoas passam com mais freqüência. Em certo ponto, precisei atravessar uma baixinha que estava aparentemente seca. Quando dei o primeiro passo, afundei até quase a cintura. A lama era tão espessa que agarrava meu tênis, tirando-o do pé. Isso me atrasava, pois eu tinha de voltar para pegá-lo. Andar sem tênis, nem pensar.
Já em terra firme, pensei em seguir uma baixinha, mas eu sempre as encontrava pelo meio e, como ainda não começara a cheia, não sabia para que lado ficava o rio. Outro problema é que, em certas regiões mais estreitas da ilha, as baixinhas poderiam até varar de um lado a outro.
O jeito era gritar e andar. Fiz isso até que ficasse rouco e meus pés já não me agüentassem em pé. O pior de tudo é que o dia já ia terminando. A perspectiva de pssar a noite na floresta sozinho, enlameado, sem fogo, e apenas com um facão era assustadora demais para ser sequer cogitada. Eu não iria querer isso nem para o meu pior inimigo. A floresta de dia é uma espécie de paraíso silvestre, um local onde reencontramos nossa essência, um local em que entramos em contato com a natureza no seu estado mais puro... mas a floresta de noite é um inferno capaz de fazer Rousseau mudar de idéia e ansiar desesperadamente para o conforto de uma casa com todas as comodidades modernas. Há os insetos. Todos eles saem de noite para se alimentar do primeiro bobalhão com a pele descoberta que puderem encontrar. E existem insetos que nem merece esse nome, pois são enormes, verdadeiros monstros. Além deles, todos os animais carnívoros saem de noite para caçar. E havia também aquilo que não podia ser nomeado, as criaturas da noite, que não existem para a nossa realidade cartesiana, mas são perigosamente reais quando o manto negro cai sobre as árvores. E, quando se está na floresta, a noite cai de repente, sem qualquer aviso. Num momento é dia e no outro é a mais negra noite.
Estava já quase desistindo e me conformando com minha má sorte quando ouvi vozes. Vozes humanas. Comecei a gritar para chamar a atenção de quem quer que fosse, enquanto me aproximava da origem do som. Então percebi que as pessoas estavam do outro lado de uma baixinha. Uma, aliás, que nem merecia esse nome: era enorme.
Impossível de atravessar como eu fizera com a outra. Comecei a percorrer a beira até encontrar uma árvore caída que servia de ponte. Quase caí, mas cheguei do outro lado. Depois de muita procura, encontrei um casal de caboclos com filhinha. Contei para eles minha história.
- Nós estamos indo catar açaí. – informou o homem. Espere aqui, que depois a gente te leva pra casa.
Sentei numa árvore caída e esperei. Esperei. Esperei e esperei. O tempo passou e nada deles aparecerem. Uma idéia idiota, aterrorizante, passou por minha mente: e se não existissem nem o homem, nem a mulher, nem a criança? E se fosse tudo uma ilusão provocada pelo curupira?
O tempo passava e eu me sentia cada vez mais angustiado. O pensamento terrível aparecia de tempos em tempos, mas eu o afastava, como quem espanta um mosquito.
Finalmente, ouvi barulho de vozes. Os três apareceram, trazendo cachos de açaí. Enquanto me levavam para sua casa, eles me informaram que eu havia atravessado de um lado a outro da ilha. Também disseram que, pelo caminho que ia, acabaria chegando no mangue e, provavelmente, seria obrigado a passar a noite lá.
- O mangue é um lugar terrível para se andar. – comentou o homem.
Realmente, além do solo enlameado, essa região tem uma vegetação característica, composta de capim navalha (que corta a pele ao menor contato) e plantas espinhosas.
No final, voltamos para a casa do meu sogro da maneira mais rápida: de canoa. A maré estava cheia, o que nos permitiu atravessar por uma baixinha que ia de um lado a outro da ilha. Caso contrário, teríamos que contornar a ilha, o que levaria horas.
Quando contei o que me acontecera, meu sogro não só não duvidou de minha palavra, como ainda aconselhou:
- Não se entra na mata sem pedir permissão.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

CURUPIRA 2
Certo de que era um porco, pus-me a chamá-lo. Coisa curiosa são as formas que o pessoal do interior usa para chamar porcos. Cada região tem uma. Na ilha de Marajó, chama-se assim: cheine, cheine, cheine... pode parecer nome de cowboy, mas funciona. Comigo, no entanto, não deu certo. Não era um porco.
Enquanto chamava o porco, parei numa clareira com uma mangueira muito grande. Continuei andando. Pelos meus cálculos, já devia estar perto da casa e logo acabaria me livrando do meu perseguidor. Para minha surpresa, não só não encontrei a casa, como voltei para o mesmo ponto: a clareira com a mangueira! Fiquei apavorado. Eu nunca havia andado em círculos em todos os anos andando no meio da floresta! Além disso, para fazê-lo, eu precisaria estar caminhando há horas. Eu havia voltado para o mesmo ponto em poucos minutos. Para quem achava que estava indo em linha reta, era uma constatação assustadora.
Lembrei imediatamente da lenda do curupira. Para os que não a conhecem, o curupira é um menino de cabelos de fogo e pés voltados para trás. Trata-se de um elemental da floresta, que faz com que se percam caçadores e pessoas mal-intencionadas (na verdade, eu descobri depois que qualquer um que entra na mata sem pedir permissão é considerado mal-intencionado). O curupira tem também o poder de ilusão. Há uma história sobre um caçador que sempre matava mais animais do que precisava, desrepeitando a natureza. Para castigá-lo, o curupira fez com que ele, vendo sua mulher, pensasse que se tratava de um bicho. Resultado: o caçador fez fogo e acabou matando a própria esposa...
Todas essas histórias me vieram à mente naquele momento. Então fiz a única coisa que não poderia ter feito: saí correndo pela mata. Quando dei por mim, estava completamente perdido. Os passos já não me seguiam mais.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008


Há algum tempo queria escrever aqui sobre os mitos da amazônia. Remexendo nos meus fanzines encontrei um chamado Curupira que apresentava duas histórias auto-biográficas. Como vou precisar digitá-las, vou postando aqui em partes. Aí vai a primeira parte:


CURUPIRA 1

Nunca acreditei em elementais. Na minha opinião, isso era assunto de meninas bobas que lêem Paulo Coelho e de caboclos supersiticiosos. Só mudei de opinião quando visitei uma cidade da ilha de Marajó chamada Muaná.
Fui com a minha namorada na época e atual esposa. Talvez caiba aqui uma palavrinha sobre o modo de vida na ilha de Marajó. O que mais salta aos olhos é a importância do rio. Para as pessoas que moram no interior, o rio é tudo: de fonte de alimentos a rua. Sim, rua! Para se ir à casa do vizinho, não se vai por terra, mas numa canoazinha inconstante, que alguns chamam montaria. Todos fazem suas casas na beira da água. Minha esposa me contou que certa vez sua mãe brigou com uma vizinha que morava do outro lado do rio. As duas postaram-se na ponta do trapiche e ficaram lá, gritando impropérios uma para a outra. Para nós, seria como ter uma discussão com um vizinho que mora a duas ruas de distância sem sair de casa.
Usando um barquinho, no qual eu quase nunca conseguia me equilibrar, visitamos vários locais e conhecemos a região próxima ao rio. Mas tinha ganas mesmo era de andar no meio da floresta. Afinal, eu já estava mais do que acostumado a fazê-lo na mata do Utinga, em Belém. Assim, munido de um facão, entrei na floresta.
Meu objetivo era encontrar um pé de fruta (não me lembro realmente qual) que havíamos avistado à beira de uma baixinha. Baixinha é como os caboclos chamam os pequenos riachos criados pela cheia do rio. Verdadeiras veias que serpenteiam toda a mata, transformando-se em valas de lodo quando a maré está baixa.
Não houve qualquer problema na ida, embora eu fosse obrigado a atravessar uma parte bem densa da floresta e não tivesse comigo uma bússula. Cheguei exatamente onde queria, o que não surpreende, pois eu estava acostumado a andar na mata e sempre o fiz usando apenas o sol, a beira do rio e as trilhas existentes para me orientar.
Infelizmente, o cacho estava vazio. Algum animal se antecipara a mim na colheita das frutinhas. Era retornar.
Quando voltava, comecei a ouvir passos atrás de mim. Quem quer que fosse, andava quando eu andava e parava quando eu parava. Intrigado, dei o grito característico que os caboclos usam para se cumprimentarem. Uma mistura de O com U muito agudo e forte. Pode parecer pouco elegante, mas no meio da mata é a melhor maneira de se ter certeza de que o outro ouvirá. Mas naquela ocasião, meus cumprimentos não foram respondidos.
Tentei novamente, ainda mais forte. Nada.
Continuei andando, e os passos atrás de mim. Era bem audíveis. Não se tratava, por exemplo, de uma ilusão auditiva provocada pelo vento nas folhas ou pelos galhos caídos. Não mesmo. Podia ouvir perfeitamente os passos atrás de mim: poc poc poc... de vez em quando, podia perceber uma madeira estalando, sinal claro de que alguém a pisara.
Parei novamente... e repeti o cumprimento. Nenhuma resposta. Comecei a pensar, então, que poderia ser um porco. Os marajoaras têm o costume de criar seus porcos soltos pela floresta. Todo dia, no final da tarde, os suínos se reúnem para receber comida de seu dono, mas passam a maior parte do dia na floresta, devorando coquinhos. De vez em quando um deles se torna selvagem, dando ensejo para uma caçada com espingardas pica-pau.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Curiosidades sobre Stephen King

Uma das comunidade de que participo no Orkut é sobre Stephen King, sempre um dos meus autores prediletos. E aí vai uma das curiosidades postadas recentemente nessa comunidade:

¨De acordo com uma pesquisa americana feita há alguns anos, dentre as coisas que os americanos escolheriam levar para uma ilha deserta a primeira colocoda foi a Bíblia Sagrada e a segunda foi qq livro de Stephen King. Depois de saber do resultado dessa pesquisa SK teria pedido um adiantamento de R$17 milhões de dólares pelo livro que estava escrevendo na época (Saco de Ossos)¨

É raro a grande imprensa se interessar pelos quadrinhos nacionais. Mais raro ainda se interessar pelo maior prêmio da área, o Ângelo Agostini. Pois o site do UOL não só falou sobre o assunto, como abriu um álbum para que seus leitores pudessem ver os trabalhos premiados. Clique aqui para conferir. (acima, desenho do Laudo, premiado como melhor desenhista)

domingo, fevereiro 17, 2008

Mainardi não tem nada na mão

Paulo Henrique Amorim
Em nenhuma democracia séria do mundo,jornais conservadores, de baixa qualidadetécnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PIG, Partido da Imprensa Golpista.. Diogo Mainardi dedicou uma parte de sua carreira como colonista da Veja – clique aqui para ler o que chamo de "colonista" - a provar que o Presidente Lula e seu Governo seriam demolidos quando ele concluísse as investigações sobre a Telecom Itália.. Instado a mostrar as provas, Mainardi, promovido à pág 55 da edição de 20 de fevereiro, que acaba de chegar às bancas, mostrou o que tinha na mão.. Nada.. Mainardi não tem um par de setes na mão.. A colona é uma maçaroca, sem pé nem cabeça, que se baseia em dois depoimentos: de um tal de Giuliano Tavaroli, e de um outro Fabio Ghioni.. Que poderiam ter dito que Roberto Civita é da Al-Qaeda.. O que vale tanto quanto o que os dois falaram sobre o "lulismo".. Sobre Mainardi e a Veja, o melhor é não comprá-la.. Não assiná-la.. Não ir ao seu site na web, onde se depositam seus dejetos.. Não recomendar aos amigos.. Nem à mídia de sua agencia de publicidade.. E ir ao blog do Nassif. . Fonte de pesquisa : http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/478001-478500/478365/478365_1.html


história dos quadrinhos 25
A Mad

A revista Mad foi a única revista que sobreviveu à caça aos quadrinhos da EC Comics, além de ser uma das publicações mais rentáveis de todos os tempos, chegando a vender mais de um milhão de exemplares, mesmo quando as vendas de outras revistas estavam caindo. O segredo da publicação estava no humor escrachado, que não perdoava ninguém. A Mad era tão irreverente que não conseguia anunciantes, vivendo exclusivamente das vendas em banca.
O criador da revista chamava-se Harvey Kurtzman. Ele trabalhava para as revistas de terror e ficção científica da EC Comics, de Bill Gaines. Um dia, sem dinheiro, Kurtzman procurou o patrão pedindo um empréstimo. Gaines deu um empréstimo, mas em troca pediu que ele editasse uma revista humorística para aproveitar seu talento natural para a sátira.
Kurtzman afirma que criou o nome, mas Gaines garante que o título surgiu numa reunião com All Feldestien, o outro editor da EC. A revista, que tirava sarro de tudo e de todos (inclusive dos leitores) estreou em 1952, em formato comics, colorida e bimestral. Seu humor era ácido e tinha alguns dos melhores desenhistas da época, como Wally Wood, Jack Davis e Bill Elder. Os quadrinhos eram recheados de piadas de fundo, num estilo escrachado. Não foi um sucesso imediato. O tipo de sátira apresentada ali era tão original que espantou no início, mas as vendas foram aumentando aos poucos. O sucesso só viria mesmo no número 4, com uma sátira do Super-homem, o Superduperman.
Logo a Mad estava vendendo muito bem e satirizando todos os aspectos da cultura pop norte-americana. As vendas estavam muito bem, mas a caça às bruxas estava à porta e a saída foi transformar a Mad em um magazine, com formato maior e em preto e branco. Com essa mudança, ela não era considerada um gibi e, portanto, não tinha que se adequar ao comics code. Em 1956, todas as publicações da EC fecharam suas portas e a editora passou a se sustentar apenas com a Mad.
Nesse período, Kurtzman se desentendeu com Gaines e a revista passou a ser editada por All Feldestein. Este não tinha um humor tão corrosivo quanto o de Kurtzman, mas introduziu mudanças que agradaram, como colocar o mascote da revista, o idiota Alfred E. Newman, em todas as capas.
Aliás, o personagem se tornou tão popular que chegou a ser usado em protestos contra o presidente George Bush (os dois, aliás, são muito parecidos). Algumas frase de Alfred E. Newman se tornaram famosas, como "O importante não é saber, mas sim ter o telefone de quem sabe." ou "Vivemos em uma época em que os sucos de limão são feitos com limões artificiais e que os detergentes são feitos com limões verdadeiros."
Em 1961, Gaines vendeu a revista para o grupo Time-Warner, que passou a publicá-la sob o selo DC Comics. Mesmo concorrendo com gigantes, como o Super-homem, a Mad continuou a ser a revista mais lucrativa do grupo. Gaines continuou no controle da revista até sua morte, em 1992.
No Brasil, a revista chegou só em 1974, vinte anos depois de ser lançada. A razão do atraso é que todos os editores achavam que seria impossível traduzir as piadas. Quem resolveu apostar foi Lotário Vechhi, da editora Vecchi. Para cuidar da edição e adaptação ele chamou Otacílio d´Assunção Barros, o famoso Ota, que se tornaria uma referência absoluta da Mad no Brasil.
A entrevista de emprego parecia mais uma piada da Mad. Lotário perguntou ao Ota quais eram os nomes dos sobrinhos do Pato Donald e do cachorro do Fantasma. Ao final, ele se levantou, apertou sua mão e disse ¨Sr. Otacílio, o senhor foi o melhor candidato que apareceu aqui até agora. O emprego é seu!¨. ¨Saí de lá descrente, achando meu futuro patrão completamente imbecil. Qualquer idiota que tivesse dado as mesmas respostas teria sido contratado do mesmo jeito¨, lembra Ota.
Apesar de tudo, a maioria das pessoas na Vecchi estava relutante quanto ao sucesso da publicação e decidiram lançar apenas 40 mil exemplares, e apenas no Rio e São Paulo. Se não vendesse bem, o encalhe seria mandado para outros estados. Mas Ota fez um trabalho tão bom que a revista esgotou rapidamente, sendo necessária uma segunda tiragem de 30 mil exemplares. E as vendas foram aumentando, até se estabilizarem em 150 exemplares, tornando-se um dos maiores sucessos de vendas da época. A capa desse primeiro número, com os dizeres ¨quebre em caso de fossa¨, tornou-se um clássico.
Com o tempo começou a surgir um problema: a edição americana saía apenas oito vezes por ano, a brasileira, doze. Além disso, muitas das histórias eram referências a seriados ou filmes que não haviam saído aqui. A solução foi contratar artistas nacionais, o que fez com a Mad se tornasse uma reunião do melhor do humor nacional. Gente como Vilmar, Carlos Chagas e Tako fizeram sucesso na revista, além do próprio Ota, que, apesar de ter um traço muito ruim, acabou fazendo sucesso com os relatórios Ota.
Com o fechamento da Vecchi, a revista foi para a Record e mais uma vez surpreendeu, vendendo muito bem. As vendas só caíram a partir de meados da década de 1990. Depois da Record, a revista migrou para Mithos e atualmente não é publicada no Brasil.

sábado, fevereiro 16, 2008

Aliás, deviam também avisar aos turistas que os pontos turísticos não abrem em dias de feriados. Nem os do Estado, nem os particulares. Também aconselharia ler esse meu texto: Nossa odisséia pelo interior do Amapá.

Princípio básico de marketing: não adianta divulgar um produto se não há como satisfazer o cliente. Aqui falta estrutura turística, os balneários e hotéis de selva que fecham na época de feriados prolongados, a cidade está cheia de buracos... o turista dificilmente vai sair daqui satisfeito.
Agora que Macapá foi tema da vencedora Beija-flor, vão aparecer muitos turistas por aqui. E o povo já está comentando que, para recepcioná-los, seria bom colocar uma faixa no aeroporto:

BEM-VINDOS À CIDADE DOS BURACOS

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Alan Noronha foi mais do que um amigo na época em que eu morava em Belém. Foi um irmão. De fato, muita gente pensava que éramos irmãos. Um dos caras mais talentosos que já vi, ele escrevia muito bem. Na época do movimento de quadrinhos que transformou Belém no que é hoje (um celeiro de quadrinistas), ele era um dos roteiristas mais talentosos. Na verdade, você só não leu mais coisas dele porque o cabra é terrivelmente preguiçoso e produz muito pouco. Mas agora ele lançou um blog, o Guamundo, onde você pode conferir um pouco da sua prosa refinada. Confira.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

As mulheres dos quadrinhos

Todo bom leitor de quadrinhos sabe que certos desenhistas têm uma capacidade incrível de sintetizar no seu estilo tipos de pessoas. No caso das mulheres, isso é ainda mais verdadeiro. Numa reunião de fãs é comum ouvir algo como: ¨Nossa, essa menina parece ter sido desenhada pelo Crumb¨, ou algo assim. Assim, apresento abaixo alguns desenhistas que definaram tipos femininos.
Alex Raymond - desenhista americano, criador de Flash Gordon. Desenhava mulheres com beleza clássica, grega, sem exageros, com proporções estudadas. Como costumava usar modelos vivos, suas mulheres são muito realistas.


John Byrne - Esse desenhista ficou famoso após desenhar os X-men. Sua fase com os personagens é considerada a melhor de todos os tempos. Byrne faz como ninguém a típica mulher norte-americana: reta como uma tábua, e sem curvas, com rosto bonitinho. Pode ver que é o padrão da maioria das atrizes norte-americanasMilo Manara - desenhista italiano, famoso por seus trabalhos eróticos. Sua mulher é magra, com seios pequenos e bunda pequena, mas tem curvas e pernas longas. Apesar de não ter atributos exagerados, exala sensualidade.

Guido Crepax - desenhista italiano famoso por sua narrativa cinematográfica e por suas histórias que misturavam surrealismo com erotismo. Personagem mais famosa: Valentina. Suas mulheres eram muito magras, com seios pequenos, mas com bunda grande e ancas pronunciadas. É o modelo quadrinístico que mais se aproxima das atuais top-models.

Frank Frazetta - desenhista americano. Na década de 1950 começou fazendo quadrinhos. Depois se notabilizou fazendo capas de revistas, como a Kripta. Suas mulheres são baixas, com pernas curtas, ancas largas e seios grandes. Era de uma época em que não havia essa preocupação exagerada com magreza, de modo que tem uma barriguinha. Num paralelo, poderia se comparar com as índias brasileiras jovens.



Paolo Serpieri - é um desenhista italiano. Sua mais famosa criação é a personagem Druuna, que ele diz ter criado baseado nas mulheres brasileiras e em uma prima. Alta, musculosa, com seios e bundas grandes, Druuna fez de seu autor um homem rico, protagonizando histórias que misturavam sensualidade com ficção-científica.



Robert Crumb - desenhista norte-americano, papa do underground. Sua mulher é uma mulher fetiche, com destaque exagerado para os atributos que chamam atenção dos homens, como os seios, a bunda e as pernas. A grande característica são as pernas muito grossas e grandes. As mulheres de Crumb sempre usavam botas e seu tamanho exagerado fazia com que elas andassem como se estivessem marchando. Ao contrário do restante do corpo, o rosto era desenhado de maneira realista, representando, provavelmente, a personalidade da mulher. Aliás, se não fosse pelo rosto, seria impossível distinguir uma mulher de outra entre as desenhadas pelo Crumb. Por incrível que pareça, já vi mulheres Crumb andando por aí.


Qual a sua mulher de quadrinhos preferida? (eu acabei casado com uma mulher Frazetta)

Brasileiro concorre para publicar HQ em site da DC Comics


Por Marcelo Naranjo, sobre o press release (13/02/08)A HQ The Passenger, de Alexandre Vidal, conta as desventuras de Alberto, um cidadão comum que, após receber um fora de sua namorada, entra em um processo autodestrutivo. Em uma noite de embriaguez, pega o táxi errado e é abandonado numa encruzilhada interdimensional. Agora, completamente perdido, precisa encontrar o caminho de volta. No entanto, cada táxi que ele pega apenas o deixa mais desorientado e longe de casa. O trabalho de Alexandre está no site norte-americano Zuda Comics, de propriedade da DC Comics, que está realizando uma competição na qual, durante o mês de fevereiro, dez criadores terão suas HQs sendo votadas pelo público. Leia mais


Ps: Falex é um velho amigo. Ele foi o primeiro ilustrador da minha série infantil Mundo Dragão. De lá para cá, seu traço melhorou muito, com destaque para a cor. Vale a pena ir no site http://www.zudacomics.com/ e se cadastrar votando nesse talento brasileiro.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Os nossos super-heróis

Os criadores brasileiros de histórias em quadrinhos são como os heróis que eles inventam: aparecem, brilham e somem. Enfrentam batalha que parece trama de gibi: lutam contra a invisibilidade, devido à falta de editoras, e monstros gringos que dominam o mercado. Depois, mesmo vitoriosos, não conseguem se estabelecer como profissionais e são vistos com preconceito e desprezo. Se os desenhistas têm a opção de se mudar para o exterior, roteiristas são obrigados a se conformar com a rotina de outro trabalho. O resultado é estafa maior do que a de Peter Parker, o Homem-Aranha. leia mais

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Plágio


Há algum tempo escrevi uma nota neste blog sobre os alunos que, para não terem o trabalho de pesquisar e produzir seu próprio texto, entram na internet, copiam o texto e colam em seu trabalho, mudando apenas o nome do autor (e, claro, colocando o deles no lugar).
Uma leitora deixou um comentário dizendo que era infantilidade minha achar que o plágio é pernicioso e que ela agride a inteligência do professor. “O mundo é movimentado pelo plágio, se não fosse ainda andaríamos com a roda de pedra”.
É preocupante que alunos universitários ainda recorram ao plágio, mas é mais preocupante ainda que haja pessoas dispostas a defendê-lo, pessoas que acham que o plágio é normal e faz parte da vida.
Essas pessoas, na maioria, confundem plágio com citação ou embasamento. A citação e o embasamento são procedimentos normais em qualquer área de conhecimento e são o que permite a evolução do conhecimento. Já o plágio é não só altamente recriminado, como é crime, segundo a lei 9610, de 19 de fevereiro de 1998.
Segundo essa mesma legislação, no artigo 46, o direito à citação é assegurado para fins de crítica, estudo ou comentários, desde que sejam apenas trechos e seja citados o nome do autor e a origem da obra. A legislação, além de explicar o que é uma citação, o diferencia do plágio. Usar uma frase de um autor, ou uma idéia dele e colocar em meu trabalho, indicando que aquela frase ou aquela idéia não é minha é citação. Tentar fazer com que as pessoas acreditem que determinada frase ou idéia alheia é minha, isso sim é plágio. Mas a legislação deixa claro que isso só pode ser feitos com trechos de obras. Alguns alunos espertos copiam e colam todo um texto da internet e, pelo fato de terem tirado o nome do autor, colocando o deles no lugar, e feito uma ou outra pequena mudança, como colocar a referência do texto na bibliografia, dizem que não é plágio. Por mais que eles argumentem que se trata de uma citação, não há como negar: trata-se de um plágio.
A citação é a base da ciência e da filosofia. Todo grande autor utiliza o conhecimento anterior a ele para avançar a partir daquele ponto. Newton dizia que só tinha sido grande porque havia subido no ombro de gigantes.
Não há nada de errado em usar as informações coletadas por outras pessoas e avançar a partir delas. O que não posso fazer é pegar essa informação pronta e sair por aí dizendo que fui eu que a inventei.
Vamos a um exemplo ilustrativo: o avião. Eu poderia pegar as anotações de Santos Dumond e construir um 14 bis para mostrar para as pessoas e dizer: Veja, fui eu que inventei. Isso seria plágio. Ou eu poderia utilizar os avanços de Santos Dumond para construir um avião melhor. Isso não seria plágio (e seria muito elegante da minha parte dizer que só consegui chegar a esse avião melhor porque usei as descobertas de Santos Dumond).
Por outro lado, temos de fazer uma separação entre as informações que têm um autor definido e aquelas que já fazem parte do conhecimento da humanidade, já de domínio público. Por exemplo, se digo que a Terra é redonda, não preciso referenciar. Todos sabem disso.
Um mundo em que fosse impossível usar as informações criadas ou coletadas por outras pessoas seria um mundo parado. Nada se faria porque as pessoas estariam continuamente precisando repetir o que fez a geração anterior.
Mas, por outro lado, um mundo em que o plágio fosse a regra, também seria um mundo parado. Se cada geração plagiasse a anterior, aí sim, ainda usaríamos rodas de pedra...

Psicopatas: um cérebro perverso

Estudos recentes demonstram que psicopatas têm mentes com características especiais.
Uma das pistas pode estar no lobo frontal.
O auto-controle, o planejamento, o equilíbrio das necessidades dos indivíduos versus as necessidades sociais são mediadas pela parte frontal do cérebro. O córtex frontal está associado também ao medo condicionado. Quando um rato é punido toda vez que acende uma luz em uma gaiola, ele associa a luz à punição e é essa área do cérebro que é acionada.
Antônio e Hama Damasio, dois neurologistas da Universidade de Iowa investigaram as bases neurológicas da psicopatia. Eles demonstraram que indivíduos que haviam tido danos no córtex frontal ventromedial desenvolveram conduta social anormal. Eles tomavam decisões inadequadas e tinham pouca habilidade de planejamento a longo prazo.
Os dois pesquisadores reconstituiram neurologicamente o primeiro caso conhecido de alteração de personalidade em decorrência de um dano cerebral.
No século XIX, na Inglaterra, Phineas Cage, um supervisor de obras ferroviárias, perdeu uma parte do cérebro quando uma barra de ferro atravessou seu crânio após uma explosão. Ele sobreviveu muitos anos, mas se tornou abusivo e agressivo, irresponsável e mentiroso. Um conterrâneo disso dele: "Phineas não é mais o Phineas".
Os psicopatas parecem ter dificuldade também de acionar a área do cérebro responsável pela emoção. Eles só teriam as chamadas proto-emoções - sensações de prazer, fúria e dor menos intensas que o normal, o que os leva a sempre buscar novos estímulos, seja matando uma pessoa ou arriscando tudo num golpe.
Um psicopata entrevistado pelo psicólogo Hare disse: "Quando assaltei um banco, notei que uma caixa começou a tremer e a outra vomitou em cima do dinheiro, mas não consigo entender por quê. Na verdade, não entendo o que as pessoas querem dizer com a palavra medo".
Em 2001, o psiquiatra Antônio Serafim colocou presos de São Paulo para assistir cenas de corpos decapitados, crianças esquálidas com moscas nos olhos, torturas com eletrochoque e gemidos desesperados. Os criminosos tiveram reações físicas de medo, como aumento das batidas do coração, intensificação da atividade cerebral e enrijecimento dos músculos. Os psicopatas não tiveram sequer variação de batimentos cardíacos.
Uma pesquisa nos EUA demonstrou que os psicopatas têm dificuldade de identificar reações de tristeza, medo ou reprovação em rostos humanos.
Um psicopata da Califórnia saiu para comprar cerveja e, ao descobrir que havia esquecido a carteira em casa, pegou um pedaço de pau, bateu em um homem e levou o dinheiro dele.
Uma mulher deixou a filha de cinco anos ser estuprada pelo namorado. Ao ser perguntada por que deixou aquilo acontecer, ela respondeu simplesmente: "Eu não queria mais transar, então deixei que ele fosse com minha filha".
A ausência de medo da punição foi demonstrada por um experimento do psicólogo norte-americano Joe Newman, em 1987. No laboratório havia quatro montes de cartas. Sem que os jogadores soubessem, um deles estava premiado com cartas boas. Aos poucos, no entanto, a quantidade de cartas boas ia rareando até que escolher aquele monte passava a dar prejuízo. Pessoas comuns logo percebiam isso e deixavam de apostar naquele monte. Psicopatas, no entanto, continuavam tentando conseguir a recompensa anterior. "Crianças e adultos psicopatas continuam a ação mesmo repetidamente punidos", explica Newman.
Ou seja, não adianta punir ou ameaçar um psicopata. Se tiver oportunidade, ele fará tudo de novo.
Quando se fez passar por um famoso e violento policial de Curitiba, Marcelo Nascimento (aquele mesmo que se fez passar por filho do dono da gol) foi descoberto. O policial andou com ele um bom tempo, apontando sua arma para a cabeça do rapaz e fazendo roleta russa. Qualquer pessoa normal nunca mais pensaria em se fazer passar por outra pessoa, mas Marcelo já saiu do encontro pensando no próximo golpe que aplicaria.
Isso faz com que os psicólogos concordem num ponto: é impossível reabilitar um psicopata. Solto ele voltará aplicar golpes, ou a matar.

Compre o livro Serial Killer, louco ou cruel? no Submarino.

domingo, fevereiro 10, 2008


Terminei de ler Celular, o mais novo livro de Stephen King. Não é um clássico do terror, como O Iluminado, ou Cemitério. Na verdade, você sente falta daquela ar de tranquilidade que costuma ter os livros de King no início e o terror vai se instalando na vida daquelas pessoas normais aos poucos. Em Celular, o terror é logo no início. Um pulso transforma todas as pessoas que estão usando celulares em zumbis. O personagem principal é um quadrinista que se recusa a ter celulares e, por isso, salva-se do pulso, mas agora precisa sobreviver tanto aos zumbis assassinos quanto aos humanos, que num momento como esse, se tornam ainda mais desunidos. King é um pessimista. Para ele, o homem é o lobo do próprio homem e é numa situação dessas que o pior da humanidade se revela.

Embora não seja um clássico, é uma daquelas obras que te prendem. Li em uma semana. Ontem à noite estava nas últimas páginas e só consegui ir dormir depois de ler a última palavra. Ou seja, é uma boa diversão, mas nada que se compare a outras obras do mestre King, como O corredor da morte.