segunda-feira, março 25, 2024

Kid Miracleman e a pós-verdade

 

Para alguns, Kid Miracleman era um herói. 
Uma das passagens mais marcantes da série Miracleman, de Alan Moore é quando o Kid Miracleman, seu parceiro mirim, sai do controle. Enlouquecido pelo poder, ele destrói Londres e mata milhares de pessoas. Não só mata. Ele tortura, amputa, decepa. A dor torna-se uma forma dele afirmar seu poder. Muitos dos heróis da história morrem para deter ao massacre.
Os quadrinhos mostravam pessoas mortas e torturadas. 

O curioso é que, logo após esses eventos, surge um grupo que idolatra o Kid Miracleman. Para eles, ele era o verdadeiro herói e os crimes associados a ele pela mídia eram apenas invenções. Nem mesmo as milhares de fotos, vídeos e relatos de sobreviventes eram capazes de convencer esse grupo de que o Kid Miracleman era um vilão.
A história é uma metáfora do Moore para pessoas que se recusam a acreditar nas evidências, preferindo acreditar que a mídia, os relatos, os historiadores, as fotos são falsos e que suas convicções são verdadeiras.

Para o grupo que idolatra Kid Miracleman, o massacre é uma invenção da mídia.


Explicando melhor: eu não fui preso em um campo de concentração, não fui perseguido pelos nazistas. Mas eu sei que tudo isso aconteceu porque leio relatos de sobreviventes, vejo fotos, leio livros de historiadores e matérias da mídia especializada.
Eu não precisava estar lá presente para saber que esses fatos aconteceram. Há muitas evidências.
Entretanto, há um grupo que quando vê matérias sobre nazismo diz que relatos de sobreviventes são falsos, que a mídia e historiadores estão mentindo etc.
Os adoradores de Kid Miracleman são uma metáfora do Moore para esse tipo de situação, cada vez mais comum em que as convicções pessoais são mais relevantes que os fatos, o depoimento de sobreviventes, as matérias jornalísticas, os livros de historiadores etc.
Ou, trazendo para um exemplo mais brasileiro, a pessoa que prefere acreditar que a matéria jornalística (de um jornal que pode ser processado - e deve - se publicar uma notícia falsa) não tem credibilidade nenhuma, mas que um texto anônimo de zap zap, que ninguém sabe quem escreveu (e, portanto, quem escreveu não tem nada a perder) é a verdade absoluta - isso quando a pessoa não assina com o nome de uma pessoa famosa (como aconteceu recentemente com o Padre Fábio de Melo) para dar credibilidade ao texto e fazer essa pessoa ser processada pelas informações erradas, calúnias etc.
Moore como sempre antecipando e discutindo situações extramente atuais.

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