sexta-feira, abril 30, 2021

O seriado pastelão da Mulher Maravilha

 





O seriado da Mulher Maravilha, um dos grandes sucessos televisivos da década de 1970. Foram 59 episódios em 3 temporadas, de 1975 a 1979.  A heroína era protagonizada pela atriz Linda Carter, até hoje idolatrada pelos fãs.
O piloto do seriado mostrava a heroína na II Guerra, combatendo nazistas.
Nos episódios a história pula para a década de 1970 e a Diana Prince é a secretária do diretor da CIA, Steve Trevor Jr (filho do namorado da heroína no piloto). Aliás, ele era apaixonado tanto por Diana quanto pela Mulher Maravilha sem saber que eram a mesma pessoa.
Uma das curiosidades do seriado era o rodopio de bailarina que a personagem usava para se transformar na Mulher Maravilha.
Mas algo que pouca gente sabe é que na década de 1960 houve um piloto da personagem estrelado por Ellie Wood Walker, que foi um fracasso total. Também, pudera. Algumas imagens recuperadas mostram que o
seriado tinha pegada de humor pastelão, com a Mulher Maravilha se olhando no espelho por longos minutos antes de entrar em ação ou tendo que discutir com sua mãe, que não quer deixar a heroina sair de casa. Confira a cena resgatada pelos fãs.  

A revista mais valiosa

 


Pessoas que não entendem de quadrinhos tendem a achar que o número 1 de uma revista em quadrinhos é a mais valorizada. Nem sempre. O melhor exemplo disso é este: a revista Amazing Fantasy 15 (de 1962) é de longe a mais valorizada da série por uma razão simples: foi a primeira a publicar uma história do Homem-aranha. Stan Lee aproveitou a revista, que seria cancelada para introduzir seu personagem e testar sua popularidade (o dono da Marvel achou que as crianças não iriam gostar de um personagem baseado em uma aranha). Posteriormente o herói ganhou revista própria.

Marketing: segmentação

 

A segmentação trabalha com três grandes divisões: geográfica, demográfica e psicográfica.
            A segmentação geográfica divide os consumidores por área. Pode ser um bairro, uma cidade, um estado, um país e até um continente. Normalmente, as empresas começam com uma segmentação geográfica restrita e depois vão ampliando sua área de atuação. O Boticário, por exemplo, começou segmentado apenas em Curitiba (PR) e região metropolitana. Depois, por meio do sistema de franquias, esse segmento foi se espalhando. A segmentação pode ser ainda mais específica. Uma panificadora, por exemplo, geralmente atende clientes apenas de um bairro. Se ela estabelecer um sistema de entregas ou de vendas em mercearias, essa segmentação pode ser ampliada.
Uma coisa importante: o segmento geográfico não é onde está a fábrica, mas onde está o cliente. O chocolate Wonka é fabricado pela Nestlé de Caçapava, interior de São Paulo, mas é vendido, na sua maior parte, nos EUA.
Conhecer o local onde mora o consumidor é essencial para evitar problemas. Por exemplo, se seu negócio é uma loja de roupas elegantes, não vá instalá-la num bairro pobre. Se o seu negócio são guarda-chuvas, não vá vendê-los em um local onde não chove. Se o seu negócio é fabricar biquínis, nem pense em mandá-los para um país muçulmano, onde a mulher não pode mostrar o corpo.
Segmentação demográfica
A segmentação demográfica inclui variáveis como idade, sexo, renda, instrução, religião, raça. Esses dados são facilmente encontrados em instituições de pesquisa, como o IBGE. Uma pessoa que pretenda abrir uma loja infantil pode pesquisar no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para saber como está o índice de natalidade naquela cidade. Se a natalidade está aumentando, significa mais consumidores vindo aí.

Países com características demográficas diferentes apresentam oportunidades diferentes. Na China, as crianças representam um grande mercado para produtos infantis, pois cada casal pode ter apenas uma criança, o que os leva a mimar os filhos ao máximo. Já na Itália o mercado está diminuindo para produtos infantis, pois cada vez mais casais optam por não ter filhos. No entanto, o envelhecimento da população fez com a Itália se tornasse um grande mercado para produtos voltados para a terceira idade, como fraldas geriátricas e remédios.

Até a religião pode representar uma oportunidade de mercado. Uma cidade com muitas pessoas cristãs pode ser um bom mercado para uma loja de artigos religiosos.

Assim, antes de montar o negócio, tente definir o seu público-alvo. Alguns casos são tão óbvios que nem precisam de uma pesquisa de mercado. Batons, por exemplo, são para mulheres, gravatas para homens. 

Jornada nas estrelas – a revista em quadrinhos

 


Peter David é um cara que nunca decepciona. Pode ter não fazer obras-primas, mas sempre consegue fazer um quadrinho divertido. Bom exemplo disso é sua fase no título de Star Trek publicado aqui pela editora Abril entre os anos 1991 e 1992.
A história começa com os Klingons pedindo a cabeça de Kirk. Na primeira história, Kirk tenta salvar um rebelde de um planeta dominado por um ditador chamado Salla e com isso com isso, todo um império resolve colocar Kirk como inimigo público número. Resultado: os impérios Klingon e Nasgul passam a oferecer recompensas cada vez mais valiosas pela cabeça do capitão da Entreprise. Caçadores de recompensa começam a corrida para ganhar o prêmio. De uma hora para a outra, é como se a Entreprise tivesse pintada nela um alvo gigante.
Peter David explora bem as relações entre os diversos tripulantes da Entrepise, sejam os clássicos ou os criados por ele e traz para o quadrinho a leveza da série original. Falta o sense of wonder que era comum no seriado clássico, mas isso é compensado pela ação e por um bom trabalho com tramas e subtramas. O desenho de James W. Fry não é grande coisa, mas também não decepciona e funciona bem nas sequências de humor.
Uma curiosidade é que o visual dos personagens é o dos filmes, e não da série de TV.
A revista durou nove números e publicava também as aventuras da Nova Geração escritas por Michael Jan Friedman e desenhadas por Pablo Marcos. Na época nem mesmo a série de TV de Nova Geração havia encontrado seu caminho próprio, modo que a equipe dos quadrinhos acaba fazendo um bom trabalho. Além disso, Pablo Marcos era um bom desenhista, com uma incrível capacidade de reproduzir a fisionomia dos atores.  
Foi uma revista divertida e um dos melhores quadrinhos de Star Trek – considerando-se que alguns publicados ao longo dos anos ou eram totalmente sem noção ou eram absolutamente ilegíveis.

Eu me importo

 


Antes de começar, é importante avisar que este texto contém spoiller.

Eu me importo é um filme de J Blakeson com uma trama interessante. Um casal de golpistas em coluiu com uma médica descobrem velhos endinheirados, e, usando atestados falsos, conseguem judicialmente sua internação em uma clínica para idosos. Enquanto estão internados, todos os seus bens são vendidos para pagar o salário da cuidadora e as diárias da clínica. Mas o plano todo pode ir por água abaixo quando a quadrilha faz isso com a mãe do chefão da máfia russa.

Filmes sobre golpes são uma tradição em Hollywood e já geraram algumas obras-primas, como Golpe de Mestre, de George Roy Hill (1974). Nesses, os mocinhos conseguem empreender seus golpes apesar de todo o poder, força bruta e inteligência da outra parte. São filmes que trazem para o presente o velho mito de Davi contra Golias.

O grande problema de Eu me importo é justamente esse. Seria como se Golias fosse um gigante desastrado que socasse a própria cara sem querer – o que tornaria a vitória de Davi sem sentido.

No filme, a máfia russa é desastrosamente incompetente. Tudo, absolutamente tudo que é feito, é feito da pior maneira possível. O advogado que tenta tirar a velhinha do asilo nem mesmo pesquisa o caso com atenção. Posteriormente, quando as vias legais não funcionam, três mafiosos invadem o asilo e são detidos por um segurança – em uma sequencia vergonhosa, um dos mafiosos é notacauteado por um tudo de oxigênio.

A incompetência da máfia chega às raias do inverossímil quando conseguem prender uma das golpistas, simulam um acidente de carro e a protagonista, teoricamente bêbada, consegue sair do carro, nadar para fora do lago, andar até um posto de gasolina, comprar novas roupas, fazer um lanche, ligar para um taxi, esperar o taxi... e ainda assim chegar a tempo de salvar sua companheira da explosão do apartamento do casal.

Poderia até funcionar se fossem sequências de humor, mas em nenhum momento roteiro ou direção seguem por esse caminho. Não funciona sequer como humor involutário. A única sensação que eu tinha o tempo todo era pensar: “Como esse cara chegou a ser chefe da máfia russa?”.

Fico imaginando o que aconteceria com alguém que sequestrasse a mãe do Rei do Crime de Frank Miller.

George Orwell e o alerta contra o totalitarismo

 




Até os 30 anos, George Orwell sempre levou consigo a convicção de que nunca seria alguém na vida. Até essa idade, havia sido soldado, mendigo, cozinheiro e professor primário. Quando começou a escrever, seus livros não faziam sucesso - o que o levou a profetizar que nenhum best-seller sairia de sua pena. Viveu na penúria a maior parte da vida. Seu primeiro livro de sucesso, Revolução dos Bichos, foi publicado dois anos antes de sua morte. E sua obra-prima, 1984, só foi publicada depois de sua morte. Contrariando a profecia do próprio autor, os livros de Orwell se tornaram sucessos mundiais e obras como 1984 nos deram uma aterradora antecipação do que seria o mundo se as ideologias totalitárias, como o nazismo e stalinismo tivessem prevalecido.

Eric Arthur Blair (nome verdadeiro de Orwell) nasceu em 25 de junho de 1903, em Bengala, na Índia. Voltando para a Inglaterra, estudou em colégios tão famosos quanto ineficientes, tais como Eton, onde sofria todo tipo de humilhação dos colegas ricos. A infância deixou nele um complexo de feiura de fracasso que marcou toda a sua vida.

Depois do colégio, Orwell alistou-se na Polícia Imperial Indiana. Na Birmânia, para onde foi chamado, ele conheceu o sentimento de culpa que acompanhava os ingleses. Teve, também, duas experiências que o transformariam profundamente.

Na primeira delas, Orwell estava no mercado quando um elefante se perdeu do domador. Desesperado, acabou matando duas pessoas. O animal estava calmo quando o escritor o encontrou. Mas a população não, e exigia a morte do animal. Ele foi obrigado a sacrificar o animal, embora não quisesse fazer isso. Essa foi sua primeira descoberta: o opressor era também oprimido. Os algozes também perdem sua liberdade.

O segundo insight ocorreu durante a execução de um homem. Enquanto caminhava na direção da forca, o prisioneiro birmanês fez um único gesto, que abalou as convicções de Orwell: "Quando vi o prisioneiro ir para o lado a fim de evitar a poça d`água, entendi o mistério, o erro indizível de acabar com uma vida humana em plena força".

Orwell abandonou a polícia cinco anos depois de ter entrado nela. Ele voltou para a Inglaterra, a fim de despencar no abismo, viver na pele o sofrimento dos oprimidos e explorados.



Decidido, vestiu-se de mendigo e passou três anos como um. Seu primeiro livro publicado foi justamente um relato romanceado desse período de mendicância: Na pior em Paris e Londres. Foi quando usou pela primeira vez o pseudônimo de George Orwell. Nesse meio tempo ele trabalhou como professor primário. Seu terceiro livro fala justamente do assunto. A Filha do Reverendo é a história de uma garota oprimida pelo pai, que perde a memória e acaba vagando por Londres como uma mendiga e depois torna-se professora.

Orweel ainda publicou outros livros, como Dias na Birmânia e Keep the Aspidistra Flying (publicado na Brasil com o título absurdo de Depois de 1984), mas os seus livros dessa fase que mais se destacam são duas reportagens: Lutando na Espanha e A Caminho de Wigan.



A Caminho de Wigan fala sobre os trabalhadores das minas de carvão do sul da Inglaterra. Orwell já começa desmoronando as regras do jornalista: o início é a descrição do hotel em que ele ficara hospedado durante a coleta de informações. Ele gasta todo o primeiro capítulo nisso e se mostra um mestre das descrições. Toda a atmosfera de nojo e feiura são brilhantemente descritos. Ao invés de ficar no escritório tomando declarações de pessoas "autorizadas", ou coletando estatísticas, ele se arrasta pelos túneis das minas de carvão, come a comida insossa dos carvoeiros, dorme na cama cheia de pulgas...



Lutando na Guerra Civil é um relato da experiência de Orwell na guerra civil espanhola. Ele batalhou ao lado dos anarquistas e trotkistas. Isso levou muitos de seus biógrafos a considerarem-no anarquista. Embora nunca tenha se declarado como tal, poucas pessoas neste século lutaram tão ferrenhamente contra o autoritarismo.

É na Espanha que Orwell começa a ter contato com o lado negro do socialismo. Em pleno combate contra os fascistas de Franco, os stalinistas se voltaram contra os exércitos revolucionários. Orwell foi atingido por uma bala e teve de escapar secretamente do país em decorrência da perseguição stalinista. Essa experiência iria ser marcante para a formação de 1984, seu principal livro.



A idéia para Revolução dos Bichos veio quando o autor viu um rapazinho chicoteando um cavalo. Fazendo correspondência entre a dominação entre as classes e a que ocorre entre homens e animais, Orwell criou a mais famosa fábula política da atualidade. Apesar da idéia original e do texto conciso, em que cada palavra parece ter sido escolhida para causar o máximo de impacto, os originais foram recusados sistematicamente pelos editores. Um deles alegou que livros sobre animais não vendiam. Eles devem ter arrancado os cabelos quando Revolução dos Bichos se tornou um best-seller. Orwell nem teve tempo de comemorar: sua mulher morreu cinco meses antes do lançamento.



1984 foi escrito em uma cama de hospital, em 1948. O autor sofria de uma tuberculose pulmonar que o mataria um ano depois. Nele, o globo é dominado por três grandes potências que controlam não só os indivíduos, mas também seus pensamentos e desejos. A visão política desenvolvida por Orwell nesse último livro é ímpar. O sexo, por exemplo, é sublimado por marchas, minutos de ódio e outras atividades controladas pelo Estado. Orwell chega a dizer claramente que a união dos corpos nus, a explosão do desejo sexual puro, é um ato político, de rebeldia.

Lembrar também é um ato político. Winston, o personagem principal, passa a história inteira tentando recuperar os fragmentos de uma canção esquecida. Tudo que é passado lhe interessa porque, como diz o lema do Partido, quem controla o passado, controla o presente e quem controla o presente, controla o futuro.

Todo fã de quadrinhos se recordará, inevitavelmente, da minissérie V de Vingança, de Alan Moore. Nela, o personagem principal anda pela cidade recolhendo lembranças de um filme esquecido: Dunas de Sal.

Em 1984 o Estado pretende dominar totalmente a vida do cidadão. Cada pessoa tem em casa uma televisão que ao mesmo tempo é uma câmera. Ela jamais pode ser desligada. A todo momento a pessoa está sendo observada e ouvida. Não há qualquer tipo de privacidade.

A dominação se estende até mesmo à língua. No livro, o inglês começa a ser substituído por algo chamado novilíngua. A idéia é reduzir ao máximo a variedade de palavras. A utilização de uma linguagem totalmente objetiva tornaria impossível qualquer pensamento subversivo.

A teoria política de Orwell também é muito interessante. Para ele, a história, mais que uma luta de classes, é a luta da classe média para alcançar o poder. Como sozinha ela não tem força para derrubar o sistema, ela faz com que os princípios da revolução pareçam abrangentes, atraindo a simpatia dos pobres.

Conseguido o poder, o povo é recolocado em seu lugar e passam a existir somente duas classes: exploradores e explorados. Com o tempo irá surgir entre esses últimos uma nova classe média que fará uma nova revolução. Daí a crença de que a revolução só pode vir do povo. Como diz Orwell: "Eles são o futuro. Nós somos os mortos".

Mais de 50 anos depois de ser escrito, 1984 continua sendo um dos livros mais importantes do século. Para aqueles que o acham um livro pessimista, é importante conhecer um pouco da história de vida de Orwell. Uma análise detalhada demonstra que Orwell não pretendia ser profeta. Ela pretendia, isso sim, avisar sobre como se tornaria o mundo se nós abdicássemos de nossa liberdade e privacidade. O mundo será como em 1984 quando as pessoas deixarem de lutar contra o autoritarismo. Se todas as pessoas se acomodarem, é isso que acontecerá. Essa é a lição do livro.
 

quinta-feira, abril 29, 2021

Groo, o errante

 


Groo é uma sátira dos quadrinhos de espada em magia (a exemplo de Conan), criado por Sérgio Aragonés, famoso por seu trabalho na revista MAD.
Aragonés elaborou seu personagem na década de 1970, mas na época a política de direitos autorais das editoras americanas não era favorável aos criadores e o cartunista guardou a ideia na gaveta.
Quando a Marvel criou a linha Epic, em que os direitos ficavam com os criadores, Aragonés resolveu publicar uma história de seu personagem.
Para isso ele convidou o amigo e Mark Evanier, que ficou responsável pelos textos e diálogos.
O personagem foi publicado pela primeira vez na revista Destroyer Duck #1, em 1981 e logo alcançou grande sucesso. Afinal, não só era sátira de um dos personagens mais populares da Marvel, como também era uma das melhores revistas de humor já lançadas.
Logo o personagem ganhou título próprio pela Pacif Comics. O título depois passou pela Epic, Image e atualmente Dark Horse.
No Brasil o personagem apareceu pela primeira vez na coleção Graphic Novel, número 14, em uma história que mostrava a “morte” do personagem.
Um  dos atrativos de Groo é toda a caracterização bolada por seus criadores. Apaixonado por queijo derretido, Groo é burro como uma porta, um desastre ambulante e um guerreiro invencível. E afunda todos os barcos nos quais entra. Quando ele entra em uma cidade, os moradores sabem que estão perdidos, por melhores que sejam suas intenções (em uma sequência, um homem pergunta a outro: “Este é Groo?”, ao que o outro responde: “Não pode ser, nós ainda estamos vivos”).
A série tem também uma rica galeria de personagens secundários. Entre eles o Sábio, que tem sempre um provérbio pronto para qualquer situação e sempre tenta impedir que Groo se torne um desastre; o Menestrel, que narra as histórias, sempre em rima; Rufferto, cão fiel companheiro de Groo, tão fascinado por seu dono que acha até mesmo que ele é inteligente; Taranto, um saqueador que sempre tenta se aproveitar da ingenuidade de Groo. Além da enorme quantidade de reis que veem seus reinos destruídos pela simples presença de Groo.
Uma curiosidade é que Groo se encontrou já com Conan em uma história publicada pela Dark Horse.

Adeus, minha rainha

 

O filme francês Adeus minha rainha, dirigido por Benoît Jacquot e lançado aqui no Brasil pela Amazon Prime é um ótimo contraponto ao seriado Versailles, da Netflix.
Se Versailles mostra a monarquia absolutista no seu auge, representado pela construção do palácio que se tornaria o mais luxuoso da época, o filme de Jacquot se debruça sobre a decadência dessa mesma monarquia. Decadência refletida inclusive no próprio palácio.
Isso, aliás, é simbolizado na primeira cena, quando a protagonista acorda, descabelada, maltrapilha, coçando-se. Ali já temos outra grande diferença com relação à série: enquanto Versailles era focada no rei e na rainha, Adeus minha rainha é focado numa criada que lê para a rainha. A derrocada da realeza é mostrada do ponto de vista dessa menina, que cultiva um amor platônico por Maria Antonieta.
Assim, os principais acontecimentos iniciais da revolução francesa revelam-se pelo olhar dela, um olhar furtivo, como na vez em que ela e uma amiga se espremem numa janela para ver o rei e seus ministros. É algo que uma criada vê, um boato, um panfleto que chega às suas mãos.
Em Paris, o povo toma a bastilha. No palácio, os nobres em pânico passam a noite acordados, criados fogem com relógios de ouro, ratos mortos flutuam no lago. E uma lista de nobres que devem ser guilhotinados, encabeçada por Maria Antonieta e sua amante, a Duquesa de Polignac circula pelos corredores.
O filme talvez decepcione alguns por não mostrar de fato nenhum dos grandes eventos da época, já que sua proposta é focar apenas no que a jovem criada vê, mas não deixa de ser uma perspectiva interessante.
Um enredo como esse exige uma artista de peso e Léa Hélène Seydoux cumpre bem o seu papel, representando bem a paixão da criada pela rainha até mesmo quando isso pode colocar sua vida em risco.
De estranho mesmo só a direção repleta de zoons, que foram muito populares na década de 70, mas não são usados há pelo menos 20 anos.  

A cidade à beira da eternidade – a versão em quadrinhos

 


A cidade à beira da eternidade é o mais premiado e aclamado episódio da série clássica de Jornada nas Estrelas. Entretanto, a versão que foi para as telas era muito diferente da versão original, do escritor Harlan Ellison. Ellison, aliás, ficou tão indignado com as alterações que repudiou o episódio e só aceitou que seu nome aparecesse nos créditos porque isso lhe abria caminho para escrever filmes e séries.
Em 2014 a editora IDW resolveu publicar uma versão em quadrinhos dessa história clássica com roteiro de David Tipton e Scott Tipton e arte de J.K. Woodward, mas adaptando à risca o roteiro de Ellison.
O resultado é muito interessante, especialmente para comparar as diferenças entre as duas versões.
A primeira coisa que salta à vista é que na versão original a história começava com uma trama de tráfico de drogas. É o traficante que desce ao planeta e volta ao passado, modificando o passado e alterando completamente o futuro. Na versão de Gene Romdemberry, é McCoy, que afetado por uma dose excessiva de remédio, que volta no tempo.
A trama sobre drogas dificilmente seria aceita pela televisão da época. Além disso, ia contra a ideia de Gene Roddenberry de Jornada nas Estrelas como uma espécie de utopia tecnológica.

A sequência do planeta mostra outra alteração necessária: no roteiro de Ellison eles encontram de fato uma cidade, com vários seres que controlam o tempo. Como forma de cortar os custos, rondeberry cortou a cidade e deixou apenas um portal. Funcionou bem, embora o título tivesse perdido o sentido.
A trama na terra também fica mais sintética e mais fluída com a eliminação de alguns personagens e sequências. Colocar a jovem micssionária Edith Keeler como proprietária do local que dá comida aos necessitados funciona muito bem e dá sentido aos seus sermões, que na versão televisiva se interliga com a própria utopia de Jornada.
Por fim, trocar o traficante por McCoy tornou mais coerente o final, uma vez que esse também passa a ter uma relação com a missionária e, assim, tem uma razão concreta para salvá-la.
A conclusão é de que a versão de Ellison é muito boa. Só não é Jornadas.

Fundo do baú - O sítio do pica-pau amarelo

 


A obra infantil de Monteiro Lobato teve várias adaptações para TV. A Tupi apresentou as histórias do sítio entre 1952 e 1962, num programa ao vivo. Em 1964 foi a vez da TV Cultura. Em 1967, a Bandeirantes.

Mas foi na década de 70 que surgiu a mais célebre versão do Sítio do pica-pau amarelo. Dirigida por Geraldo Casé, essa versão contava com roteiros de grandes autores, como Benedito Rui Barbosa e Marcos Rey. Um dos destaques dessa nova versão era a trilha sonora, composta por grandes mestres da MPB da época. A música de abertura, de autoria de Gilberto Gil, tornou-se extremamente famosa ao sintetizar perfeitamente um programa no qual tudo podia acontecer: “Marmelada de banana/bananada de goiaba/goiabada de marmelo/sítio do pica-pau amarelo”.

A série foi gravada no bairro O bairro da Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro. O sítio, a casa, o quintal e o curral foram construídos ali. Já algumas cenas internas eram gravadas no estúdio da Cinédia.

Embora alguns personagens, como as crianças Pedrinho, Narizinho e a boneca Emília tenham tido vários atores que passaram pelos papéis, Zilka Sallaberry e Jacyra Sampaio se tornaram, respectivamente as eternas Dona Benta e Tia Nastácia.

Talvez um dos maiores diferenciais dessa versão tenha sido a pegada de aventura, fruto principalmente do desenvolvimento dos efeitos especiais, que permitia levar os personagens aos mais variados locais ou trazer os mais diversos personagens para o sítio. Entre os mais memoráveis está o episódio do Minotauro, que chegava a provocar medo em algumas crianças.

O programa fez tanto sucesso que durou nove anos, indo de 1977 a 1986.

O coisa contra o surfista prateado


Um dos grandes segredos da Marvel era o incrível dinamismo que Jack Kirby imprimia às cenas de ação – tanto que todo mundo que ia desenhar para a Marvel primeiro tinha que fazer um “estágio” arte-finalizando as histórias de Kirby, para pegar o jeito.

Kirby não só exagerava nas poses dos personagens, na perspectiva, mas também enchia os quadros de onomatopeias retumbantes, linhas de ação e o recurso gráfico inventado por ele, os Kirby Kracle (pontos kirby), que consistiam em borrões e pequenos pontinhos em volta de um personagem muito poderoso.
Uma mistura de perspectiva forçada, linhas cinéticas e onomatopéias retumbantes dava incrível dinamismo aos quadros. 


Jeffrey J. Kripal, autor do livro Mutants and Mystics: Science Fiction, Superhero Comics, and the Paranormal escreveu sobre os Kirby Kracle: “Para Kirby, o corpo humano é uma manifestação de energias definitivamente inexplicáveis - um super-corpo. O que Mesmer chamou de magnetismo animal se torna em Jack Kirby uma marca registrada energética sinalizada por "linhas de explosão" e um campo de energia único de pontos negros e borrões que passou a ser carinhosamente conhecido como "Kirby Krackle" [...]. O resultado final foi uma visão do ser humano como um corpo de energia congelada que, como uma bomba atômica, poderia ser liberada com efeitos deslumbrantes, para o bem ou para o mal”.
É literalmente isso que acontece na história “Quando ataca o surfista Prateado”, publicada em Fantastic Four 55.
Na trama, o Quarteto voltou de Wakanda e o Coisa resolve visitar Alícia, a artesão cega pela qual é apaixonado. Inseguro, ele teme que ela possa ter arranjado outro amor na sua ausência. Mas ocorre uma coincidência: quando chega lá, ela está sendo visitada pelo Surfista Prateado.
Os pontinhos Kirby em ação. 


O herói pedregoso simplesmente parte para cima dele, chegando a derrubar até mesmo um pequeno prédio no surfista. Reticente no início, o herói prateado perde a paciência e aumenta sua energia a ponto de se tornar pura energia. “Ele está se transformando numa bomba atômica ambulante... e tudo por minha causa! Eu tava tão ocupado dando chilique que esqueci do maior perigo de todos... ele não é humano!! Não sabe o que está fazendo! Provavelmente pode explodir esse pedaço de terra inteiro sem nem tentar!”, reflete um Coisa apavorado com a possibilidade da explosão matar sua querida.
É claro que tudo isso é demonstrado através dos famosos pontos Kirby. E o que deveria ser só uma escaramuça entre fortões acaba virando uma aula de narrativa visual.

quarta-feira, abril 28, 2021

Matérias para a Folha de Londrina

 

Entre os anos de 1993 e 1994 eu trabalhei no jornal Folha de Londrina. Embora fosse um jornal de interior, vendia mais que o da capital, a Gazeta do Povo. Também, pudera: a Folha produzia um jornalismo revolucionário para a época, com uma diagramação mais leve, textos curtos e muita experimentação. Enquanto isso, a Gazeta era um jornal extremamente conservador.
Nesse período fiz várias matérias em parceria com Ariel Palácios, hoje corresponde internacional da Globo da revista Época. Também entrevistei gente como Carla Camurati, Neil Gaiman e Sebastião Salgado.
Fiz também várias matérias históricas (eu era o único na redação que tinha saco de passar horas na biblioteca pública consultando documentos, como jornais antigos).
Como a Folha era um jornal inovador, isso nos permitia fazer experimentações.
Na redação eu era conhecido como a pessoa que tirava leite de pedra. Uma pauta básica sobre turismo em Curitiba virava motivo para um texto literário sobre o pouco conhecido Parque do Mate.
Um dos textos que mais gosto dessa fase é a entrevista com Carla Camurati, que segue o modelo de entrevista perfil, com descrições intercaladas à fala da personagem.


Manto e Adaga

 


A Marvel sempre teve como característica personagens diferentes, que se distinguiam muito da imagem clássica dos super-heróis. Mas nenhum deles eram tão singular quanto Manto e Adaga.
Surgidos em uma história do Homem-aranha, eles ganharam uma minissérie em quatro edições no ano de 1983, publicada aqui na revista Heróis da TV. Foram apenas quatro histórias, mas que chamaram atenção e marcaram os leitores da época.
Vítimas de uma experiência de traficantes, dois jovens ganham poderes opostos: Manto assume as trevas, enquanto Adaga é a luz.
Pode parecer algo simplório, mas o roteirista Bill Mantlo conseguiu dar grande profundidade ao conceito, transformando-os em opostos em tudo, mas complementares como se fossem versões humanas do Yin Yang.
Por viver nas trevas, Manto se alimenta de luz e é a parceira que lhe cede a essa energia, mas isso a afeta, podendo até mesmo matá-la. Esse impasse ético é boa parte do charme das histórias.
A história vai muito além da dicotomia típica das histórias de heróis, em que vilões e heróis são extremamente demarcados: em alguns momentos Manto parece o vilão em sua fome de luz, que o leva a sugar a energia de outras pessoas, matando-as.
Para ilustrar essa história foi chamado Rick Leonardi, um dos mais subestimados desenhistas dos comics americanos. Seu traço era bonito, inovador, dinâmico. E a caracterização dos personagens era perfeita na: Adaga era desenhada num traço limpo, enquanto o traço de Manto era uma massa de sombras. Ajudava muito, claro, a incrível arte-final de Terry Austin, que ajudava a dar leveza para a Adaga e peso para o Manto. 

A arte de Simon Stalenhag que inspirou Contos do Loop

 


Com o sucesso da série Contos do Loop na Amazon o trabalho do ilustrador sueco Simon Stalenhag ficou mundialmente conhecido. Suas imagens misturando ficção científica com nostalgia foram a principal fonte de inspiração para os episódios e realmente são quadros que dão asas à imaginação. Confira alguma de suas pinturas. 








O declínio

 


Existe uma certa consonância no mundo que se reflete principalmente nas artes. Quando ocorreu o atentado de 11 de setembro explodiram séries e filmes sobre atentados terroristas, a maioria dos quais tinha sido planejada ou produzida antes dos antentados.
O mesmo ocorre agora, em tempos de pandemia de coronavírus. O poço, com pessoas isoladas numa prisão com comida que escasseia conforma descem os níveis é um exemplo. Outro exemplo é o filme canadense O declínio, dirigido por Patrice Laliberté.
O filme começa com uma família recolhendo as coisas mais importantes e fugindo de casa às pressas no meio da madrugada. Depoisdescobrimos que se trata apenas de um treinamento para um apocalipse, que poderia ser provocado por mudanças climáticas, tensões sociais ou uma pandemia.
A cena seguinte mostra a família assistindo a um Youtuber que dá dicas de sobrevivência mostrando, por exemplo, como armazenar arroz por anos.
O pai acaba conseguindo uma vaga em um curso de sobrevivência do tal youtuber e, bem, o que deveria ser um final de semana divertido se transforma num pesadelo em pleno floresta canadense.
Embora não seja uma obra cujo roteiro tenha muita profundidade, o filme levanta muitas questões relevantes: o medo de um crise global, os youtubers difusores de teorias da conspiração, o fetiche por armas. Além disso, é uma trama de ação que se sustenta bem. Seja como um filme que fala de questões relevantes, seja como filme de ação, O declínio vale uma conferida.