domingo, dezembro 03, 2023
Edgar Morin e a teoria da complexidade
quinta-feira, novembro 23, 2023
O mundo hiper-real
terça-feira, novembro 07, 2023
Epicuro: a filosofia do prazer
Vida
Epicuro nasceu em janeiro de 341 a.C, na ilha de Samos. Sua família fazia parte da nobreza falida de Atenas e viajara para Samos na qualidade de colonos. Seu pai, Néocles, era mestre escola e sua mãe, Querestrata, era curandeira e adivinhava o futuro. Ele costumava a ir com a mãe à casa de pessoas doentes para afastar o mau-olhado e curar doenças. Essa experiência infantil lhe deu uma boa ideia das crenças e superstições dos gregos, que ele iria criticar duramente em sua filosofia.
Desde pequeno, Epicuro se destacava pela inteligência e pelo espírito indagador. Aos 14 anos, quando o professor lhe ensinava o verso de Hesíodo segundo o qual no princípio de todas as coisas vieram do caos, ele perguntou: “E o casos, de onde veio?”, O professor, aturdido, não soube o que fazer e respondeu que esse tipo de pergunta deveria ser feita diretamente aos filósofos.
E foi o que Epicuro fez. Estudou vários sistemas filosóficos, entre eles os de Platão e o de Aristóteles, mas sem se deixar influenciar por eles e sem aprofundá-los. Com o tempo, sua inteligência foi reunindo em torno de si um grupo de discípulos que o seguiam como a um mestre e o acompanharam quando ele foi para Atenas. Acredita-se, inclusive, que o dinheiro para comprar o jardim que o tornaria conhecido veio de um aluno.
Epicuro não gostava de trancar-se com seus alunos em uma sala e preferia dar suas lições ao ar livre, razão pela qual sua instituição ficou conhecida como escola do jardim. Também não havia um horário para as aulas, já que a qualquer momento ele podia ser visto lá, ou cuidando das plantas, ou conversando com seus discípulos.
A personalidade de Epicuro foi fundamental para fazer com que o grupo permanecesse unido (tanto que mesmo os inimigos do epicurismo admitiam que a escola nunca teve cisões ou brigas). Segundo relatos da época, o mestre era caridoso com os irmãos, brando para com os escravos e procedia com afeto para com todas as pessoas.
Uma das questões principais que ocupavam o tempo desse grupo de amigos era a felicidade. É compreensível que essa fosse uma preocupação principal numa cidade que já fora gloriosa e que na época vivia em decadência, devastada por guerras.
Uma outra escola, o estoicismo, já se ocupava do mesmo assunto. Segundo os estóicos, o mundo era governado por um determinismo implacável do qual não se podia fugir e a receita da felicidade estava em aceitar o que a vida nos dava. Uma anedota ajuda a compreender esse ponto de vista. Dizem que Zenão, criador do estoicismo, castigava um escravo por sua falta quando este argumentou que não tinha culpa, pois, segundo a filosofia de seu senhor, ele estava condenado, por toda a eternidade, a cometer aquela falta. Zenão replicou que, da mesma forma, ele estava destinado a bater no escravo.
Epicuro discordaria dessa visão determinística e argumentaria que nós mesmos somos guias de nosso destino, pois podemos formá-lo com nosso raciocínio.
Prazer
Para Epicuro, o segredo da felicidade estava na busca do prazer, pois só o prazer pode levar à felicidade. Mais tarde, em Roma, sua filosofia seria deturpada, configurando-se como uma busca desenfreada de prazer sensual e bebedeiras, também conhecida como hedonismo. Mas, na filosofia de Epicuro, o prazer é configurado como ausência de dor. Aquilo que nos dá prazer momentâneo, mas posteriormente provoca dor, em nós ou em outros, não é o prazer verdadeiro, pois só podemos tirar prazer da paz de espírito, a hedoné .. Exemplo disso é uma bebedeira, que provoca prazer momentâneo, mas depois ocasiona a ressaca.
Além disso, buscar o prazer não significava ser dominado pelos desejos. Segundo Epicuro, devemos fruir o prazer de cada situação, sem nos preocuparmos com o que não temos. “Não deves corromper o bem presente com o desejo daquilo que não tens; antes deves considerar que aquilo que agora possuis se encontrava no número dos teus desejos”, dizia.
Essa visão do prazer está resumida no programa da escola, que, dizem, era gravado no pórtico de entrada: “Estrangeiro, aqui te encontrarás bem: aqui reside o prazer, o bem supremo. Encontrarás nesta casa um mestre hospitaleiro, humano e gracioso, que te receberá com pão branco e te servirá abundantemente água clara dizendo-te: Não foste bem tratado? Estes jardins não foram feitos para irritar a fome, mas para a apaziguar, não foram feitos para aumentar a sede com a própria bebida, mas para a curar por um remédio natural e que nada custa. Eis aqui a espécie de prazer em que tenho vivido e em que envelheci”.
Epicuro viveu de acordo com essa filosofia, comendo e bebendo sem excessos, tirando grande alegria da conversa com seus discípulos.
Átomos
Um aspecto importante na teoria epicurista e na sua noção de felicidade é a teoria atômística. Epicuro percebeu que um dos aspectos que impedem as pessoas de serem felizes é o medo da morte e dos deuses. Sua experiência infantil com a mãe curadeira havia lhe ensinado como as pessoas temiam a morte, agarrando-se à vida e a superstições.
Epicuro defendia que todas as coisas são feitas de átomos. Os átomos, em número infinito, estão em constante movimento. A junção e o movimento dos átomos é que fazem com que as coisas sem diferentes. Assim, tanto um homem como uma pedra são formados de átomos, mas configurados de forma diferente. Como são eternos, os átomos apenas mudam de lugar e se unem em outros corpos. Pela teoria epicurista, que seria resgatada pela ciência moderna, quando morremos, nossos átomos se espalham pelo universo e se transformam em material para criação de outros organismos.
Como, na teoria epicurista, tanto o corpo quanto a alma são feitos de átomos, não há possibilidade de existência no além, de modo que não há razão para temer a morte, pois aquilo que se dissolveu em suas partes não possui mais sensações. Epicuro dizia que a morte é o fim de todas as sensações e temê-la é bobagem, pois quando nós existimos, a morte não existe e, quando a morte chegar, nós não mais existiremos como pessoa. Seremos apenas átomos sem sensações, que se unirão com outros para formarem outros corpos.
Com a teoria atômica, Epicuro tirou de seus discípulos o medo da morte.
O temor dos deuses também seria destruído pela filosofia do jardim. Epicuro não negava a existência dos deuses, mas para ele, eles eram seres tão perfeitos que não se incomodavam com os humanos. Viviam num estado de total imperturbabilidade, num espaço entre os cosmos. Como seres perfeitos e inatingíveis, eles não recompensavam nem puniam os homens, cujo destino estava nas próprias mãos.
Dessa forma, Epicuro não só tirava o poder das mãos dos sacerdotes, que já não podiam ameaçar os homens com a fúria das divindades, como dava ao homem a responsabilidade sobre seu destino e sua felicidade.
Livre do medo da morte e dos deuses, o epicureu deveria viver uma vida racional, justa e venturosa, não prejudicando os interesses de outros e, principalmente, seguindo as leis.
Mulheres
Enquanto estava vivo, Epicuro ensinou todos os dias, em qualquer horário, recebendo tanto homens quanto mulheres. A forma avançada como as mulheres eram encaradas no epicurismo causou escândalo na sociedade machista moderna, quando a obra do filósofo foi recuperada. De fato, muitas mulheres tiveram papel essencial na difusão do epicurismo. Contrariando costumes da época, até escravos eram admitidos entre os epicuristas.
Mesmo sofrendo uma doença que lhe provocava dores terríveis, Epicuro não se deixava abater e perseverava em sua serenidade. “Durante minhas doenças”, escreveu ele “não falava a ninguém do que sofria no meu miserável corpo; não tinha essa espécie de conversação com aqueles que vinham me visitar: não falava com eles senão daquilo que desempenha na natureza o primeiro papel. Procurava sobretudo fazer-lhes ver que a nossa alma, mesmo sem ser insensível às perturbações da carne, podia no entanto mater-se isenta de cuidados e no gozo pacífico dos bens que lhe são próprios. Mesmo nesse tempo eu vivia tranqüilo e feliz”.
No dia em que morreu, ele escreveu a um amigo: “Este é o último dia de minha vida, ainda assim é um dia feliz”.
Com a morte de Epicuro, seus discípulos se mantiveram unidos e perseverantes em sua doutrina. Essa docilidade tem gerado alguma das principais críticas ao epicurismo. Dizem que lembravam do mestre como um deus e que a filosofia não se aperfeiçoou pelo extremo respeito que tinham pelas palavras do fundador. De fato, mesmo com o tempo, o epicurismo continuou o mesmo.
Poucas escolas filosóficas foram atacadas tão furiosamente. Os principais ataques vinham dos estóicos, provavelmente por inveja, já que os modos austeros de sua doutrina arregimentava poucos adeptos, enquanto que os seguidores do epicurismo aumentavam a olhos vistos. De fato, além da população de forma geral, muitas personalidades adotaram o epicurismo como modo de vida. Em Roma, o poeta Lucrécio ficou famoso ao cantar as ideias de Epicuro em verso e até mesmo o famoso orador Cícero, embora fosse influenciado pelo platonismo, tinha grande respeito pelos epicuristas. Os dois maiores poetas romanos, Virgílio e Horácio foram influenciados pelo epicurismo.
Em todo o mundo helênico, muitos homens e mulheres tornaram-se adeptos do epicurismo. Muitos não entenderam corretamente a filosofia de Epicuro e converteram-na em uma busca desenfreada pelo prazer sexual em meio a bebedeiras. Estes, segundo a maioria dos autores, não eram epicuristas, já que essa licenciosidade fugia da ideia de felicidade epicurista, que era, essencialmente, a paz de espírito.
Influência
A influência epicurista nessa época era tão grande que Diógenes Laércio, ao escrever a biografia dos filósofos, dedicou todo o capítulo 10 a Epicuro.
Entretanto, nem mesmo esse sucesso garantiu que a vasta obra escrita de Epicuro sobrevivesse. A maioria dos escritos se perdeu nos primeiros séculos da era cristã, até por conta da luta entre cristãos e pagãos. O epicurismo sobreviveu graças ao poema Da natureza, de Lucrécio e de trechos citados em outras obras. Diogenes Laércio teve a felicidade de incluir na biografia do filósofo quatro pequenos manuscritos.
Na época do Renascimento esses escritos foram redescobertos, especialmente por causa de Poggio. O trabalho do professor Pierre Gassendi, que usou o atomismo para atacar o cartesianismo, também ajudou a divulgar o epicurismo.
A filosofia epicurista também ganhou um impulso no ocidente da partir do ano 1738, quando foi encontrada a cidade de Herculano, que havia sido soterrada pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C. Na cidade havia uma biblioteca com vasta obra de Epicuro. A maioria das obras havia sido carbonizada pela lava, mas o pouco que restou causou grande impacto sobre a intelectualidade.
No século 19, a teoria atômica foi definitivamente resgatada e serviu de base para boa parte da física moderna.
Aforismos
A maior parte do pensamento de Epicuro sobreviveu graças aos aforismos, pequenas frases que resumem sua filosofia. Conheça alguns dos aforismos epicuristas.
“Há também mundos infinitos, ou semelhantes a este ou diferentes. Uma vez que os átomos são infinitos e são levados aos espaços mais distantes, não há nada que impeça a infinidade de mundos.”
“Nem a posse de riquezas, nem a abundância de coisas, nem a obtenção de cargos ou poder produzem a felicidade e a bem-aventurança; produzem-na a ausência de dores, a moderação dos afetos e a disposição de espírito que se mantenha nos limites impostos pela natureza.”
“Se queres enriquecer Pítocles, não lhe acrescentes riquezas: diminui-lhe os desejos.”.
“Encontro-me cheio de prazer corpóreo quando vivo a pão e água e cuspo sobre os prazeres da luxúria, não por si próprios, mas pelos inconvenientes que os acompanham.”
“A quem não basta pouco, nada basta.”
“A justiça não tem existência por si própria, mas sempre se encontra nas relações recíprocas, em que exista um pacto de não produzir ou sofrer dano.”
“As leis não existem para os sábios, mas para impedir que estes recebam injustiça.”
“De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade.”
“O justo é sumamente sereno; o injusto, cheio da maior perturbação.”
segunda-feira, novembro 06, 2023
Conhecimento teológico
domingo, novembro 05, 2023
A proposta libertária
Embora seja interpretado equivocadamente como sinônimo de bagunça, desordem e até de ditadura (razão pela qual muitos preferem a expressão “libertário”), o anarquismo é uma doutrina política heterogênea que engloba os mais variados grupos e filosofias Um exemplo é Gandhi, que foi fortemente influenciado pelos ideias anarquista e tornou célebre a estratégia da resistência civil e da não-violência (vale lembrar que Gandhi nunca quis ocupar nenhum cargo público).
Unindo essas diversas correntes, uma ideia básica: a de que o estado será sempre ocupado por pessoas que usaram o poder em benefício próprio e que quanto mais concentrado o poder estiver nas mãos de algumas pessoas, pior será para a sociedade. Em contrapartida, quanto mais distribuído o poder, melhor para todos. Em outras palavras: a ideologia libertária é o oposto do fascismo, seja ele de direita ou esquerda.
Filosoficamente podemos remontar às teorias de Hobbes e Rousseau.
Hobbes argumentava que o homem é o lobo do próprio homem. De forma simplista: o homem é mau. Se não houver alguém fiscalizando-o, impedindo-o de praticar o mal, o homem inevitavelmente irá enveredar pelas maiores barbaridades. Esse pensamento, na época, serviu de desculpa para os regimes absolutistas. Se o homem é mau, justifica-se a existência de um rei todo poderoso para manter a sociedade sob controle e impedir que as pessoas se matem umas às outras. Essa é a premissa básica do fascismo.
Rousseau, ao contrário, dizia que o homem é, originalmente bom. Se ele se torna mau, é porque foi corrompido pela sociedade. Em outras palavras: as próprias estruturas criadas para impedir a maldade humana, na verdade acabavam provocando-a.
Em outras palavras: o poder corrompe e quanto mais poder alguém tiver, mais corrupta essa pessoal será. A ideia básica da proposta libertária é de que o poder é uma droga, que vicia, e o viciado fará de tudo para permanecer no poder. O fascismo é baseado na coersão. Essa coerção pode ser a simples ameaça de violência física ou, o que é muito mais efetivo, a ameaça de não pertencer ao grupo. Relatos de observadores do nazismo dizem que os comícios de Hitler eram pensados para criar um sentimento grandioso de grupo e fazer com que os que não pertenciam a esse grupo se sentissem excluídos e culpados. A “grande Alemanha estava sendo construída” e quem não era nazista estava de fora desse sentimento.
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| Solomon Asch demonstrou que pessoas poderiam dar respostas nitidamente erradas para não serem rejeitadas pelo grupo. |
Um exemplo dessa conformidade ao grupo foi a experiência levada a cabo pelo psicólogo Solomon Asch na década de 1950. Ele reunia em uma sala oito pessoas, oito das quais eram atores orientados a dar respostas erradas. Em seguida, eram mostrados dois cartões. Um deles mostrava uma linha e, no outro, três linhas de tamanhos diversos, uma das quais era igual ao do outro cartão. O psicólogo perguntava qual era a linha que correspondia ao tamanho do outro cartão. Ao verem todo o grupo darem a resposta errada, mesmo em uma situação tão clara, a maioria das pessoas acompanhava o grupo. Apenas 25% contrariava o grupo e dava respostas certas. Chama-se a esse fenômeno de conformidade social: as pessoas agem de acordo com a maioria para não serem rejeitadas.
Outro exemplo é a pesquisa de Stanley Milgram. Um ator em uma cabine fazia o papel de um aluno. Na outra cabine, uma pessoa lhe dava choques toda vez que errava. A maioria das pessoas continuou dando choques mesmo quando achava que eles poderiam ser mortais. A razão para isso era a figura de autoridade, o pesquisador, que dava as ordens para que continuassem aplicando choques. Outras experiências mostraram que quanto mais distante essa figura de autoridade estivesse, menor era a chance das pessoas que participavam da pesquisa continuarem dando choque.
Milgram mostrou que pessoas normais podem até mesmo matar quando estão obedecendo ordens de uma figura superior. A razão para isso? A conformidade social: desobedecer o líder pode representar ser rejeitado pelo grupo.
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| A experiência de Milgram mostrou que pessoas normais podem até mesmo matar se receberem ordem para isso. |
O experimento mostrou como a coerção do grupo pode levar as pessoas a fazerem algo nitidamente errado. É impossível ler sobre esses e outros experimentos sem lembrar a ideia de Rousseau, de que o ser humano é corrompido pela sociedade. Quanto maior a concentração de poder dessa sociedade, maior o poder de uma ou algumas poucas pessoas terão sobre o grupo e maior a coerção que exercerão.
Se o fascismo é baseado na coerção, a proposta libertária é baseada na consensualidade. A liberdade individual, inclusive liberdade de pensamento, é um elemento mais relevante que a adesão ao grupo. A pessoa participa do grupo porque quer, não porque foi coagida a isso.
O fascismo é a base ideológica de todas as ditaduras e regime totalitários, tanto de esquerda quanto de direita. Já a visão libertária deu origem desde o movimento de resistência civil de Gandhi e Martin Luther King às proposta de democracia semi-direta, como na Suécia e Suíça, em que cidadãos comuns podem propor leis e até pedir o impeachment de governantes. Não por acaso, a Suíça era a terra natal de Rousseau.
sexta-feira, novembro 03, 2023
O que caracteriza a ciência?
Assim, seria não-científico afirmar que vai chover amanhã. É certo que amanhã vai chover em algum lugar do planeta, em algum horário.
É científico dizer que vai chover amanhã às 17 horas em Macapá, pois essa afirmação é passível de falseamento.
A ciência não aceita formulações vagas, que não podem ser falseadas, características dos videntes e cartomantes: “Você vai viver um grande amor”; “Um grande reino vai cair”. É impossível provar que essas afirmações são falsas. Em algum momento a pessoa vai viver um grande amor e em uma guerra, inevitavelmente um reino irá ser derrotado.
Para Popper, O cientista não deveria procurar fatos que comprovassem sua tese, mas fatos que o falseassem, que provassem que ela é falsa.
Imaginemos que estejamos estudando as galinhas. Pesquiso uma e descubro que ela bota ovos. Encontro outra galinha e observo o mesmo comportamento. Por indução, chego à conclusão de que todas as galinhas botam ovos. Para Popper isso não é científico, pois se eu encontrar uma única galinha que não bote ovos, minha tese cai por terra.
Para Popper, a indução é falha e a única maneira de sermos científicos é usarmos a dedução.
Assim, eu crio uma lei geral: todas as galinhas botam ovos. Então pego uma galinha ao acaso e verifico se ela bota ovos. Se isso ocorrer, a tese está correta, por ora. Se um dia aparecer uma galinha que não bote ovos, a tese será falseada.
Popper nos ensinou que as verdades científicas são provisórias. São apenas hipóteses esperando pelo falseamento.
terça-feira, outubro 31, 2023
Símbolos de status
Um dos capítulos mais interessantes do livro VOCÊ - um estudo objetivo do comportamento humano, de Desmond Morris, é o que fala sobre símbolos de status. Na pré-história a simples força bruta era suficiente para mostrar quem estava por cima e quem estava por baixo. Posteriormente, com os reis, os símbolos de status eram acompanhados de grande ostentação, com muito ouro, pedras preciosas e luxo. Na nossa sociedade, no entanto, os símbolos de status se tornaram mais sutis.
Morris divide aqueles que exibem status em: executivos, herdeiros e talentosos. Na categoria executivos entram, por exemplo, políticos, que, apesar de não usarem as roupas suntuosas dos reis (e não o fazem para evitar a revolta popular), usam todo um aparato, como a escolta militar.
Carros, roupas e acessórios são demarcadores de status. Morris explica que esses símbolos com o tempo são apropriados por imitadores, o que obriga os detentores de status a migrarem. Lembram da época em que ter um celular era símbolo de status? Com o tempo, todo mundo tinha celular. Os detentores de status foram obrigados a migrar para o smartphone. Logo todo mundo tinha um smart, e o I-phone passou a ser o novo demarcador de status.
O mesmo aconteceu com o carro: nas sociedades pobres era símbolo de status ter um carro, mesmo um barato. Com o tempo, apenas automóveis caros passaram a exercer essa função.
Nas sociedes mais pobres e machistas, mulheres são proibidas de dirigir carros. Em outras, é dito que uma mulher que dirige carro está pedindo para ser estuprada. A relação entre as duas coisas pode não parecer óbvia, mas é: uma mulher que está dirigindo um carro está tirando do homem seu status e a forma dos homens responderem a isso é estuprando a mulher - uma atividade sexual de afirmação de status e sujeição da vítima. Estuprar uma mulher que dirige um carro é uma forma de colocá-la em seu lugar.
Os talentosos são aqueles que se destacam não pelo carro que usam, pelas roupas que vestem, mas pelo que fazem, por sua obra e seus feitos intelectuais. Exemplo disso são os grandes artistas. Enquanto os símbolos de status dos executivos e herdeiros desaparecem com eles, os símbolos de status sobrevivem a eles e muitas vezes continuam sendo apreciados durante centenas de anos. Como sua obra é seu status, os talentosos não se preocupam com símbolos de status transitórios. Muitos artistas e cientistas muitas vezes se vestem de maneira simples (quando não extravagante, como o caso de Salvador Dali) e dirigem carros de pouco baratos, muitas vezes tendo condições de comprar um melhor. Na verdade, a ausência deliberada de símbolos de status é, em si, uma demonstração de status.
sexta-feira, outubro 20, 2023
O mundo hiper-real
| A obra de Ron Muek reflete sobre a hiper-realidade |
sábado, outubro 14, 2023
A imprecisão do tempo
Mas essa visão mecanicista do mundo parte da idéia newtoniana de que o tempo é um valor absoluto. Ou seja, o templo flui da mesma maneira em todos os lugares do universo. A teoria da relatividade de Einstein, no entanto, mostrou que essa idéia é equivocada. O tempo não é um valor absoluto, mas relativo. O mesmo evento visto por duas pessoas pode ser percebido em momentos diferentes, dependendo do ponto de observação.
Tanto a velocidade quanto a gravidade podem afetar o tempo. O tempo passa mais devagar para pessoas que estão em alta velocidade. Isso é exemplificado pelo chamado “paradoxo dos gêmeos”. Temos dois gêmeos, João e Maria. Um deles, Maria, faz uma viagem espacial à velocidade da luz. Para ela, a viagem dura apenas um ano, mas quando ela volta, descobre que seu irmão está 10 anos mais velho. Em viagens de avião, essa diferença é mínima, mas pode ser percebida por relógios atômicos. Isso significa que enquanto você faz uma viagem de avião, o tempo corre mais lento para você do que para quem está parado.
Da mesma forma, o tempo passa mais lentamente para quem vive em um planeta com alta gravidade. Esse achatamento do tempo já foi demonstrando em submarinos, que estão mais próximos do centro gravitacional da Terra.
Fora os aspectos físicos, há aspectos psicológicos que influenciam na percepção do tempo. Situações de tensão e preocupação podem fazer o tempo correr mais lentamente. Foi o que descobriu o professor Antônio Damásio, diretor do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa. Na edição nacional da revista Scientific American (n.5), ele publicou um artigo explicando como o cineasta Alfred Hitchcock dilatou o tempo no filme Festim Diabólico. A película conta uma história que se inicia às 15:30 e termina às 21:15. ou seja, o tempo dramático é de 105 minutos. Ocorre que o filme foi feito em tempo real, sem cortes, e resulta em 8 rolos de 10 minutos. Ou seja, 80 minutos.
Em outras palavras, uma aula monótona e desinteressante parece decorrer em maior tempo do que uma aula divertida e interessante, que parece passar mais rapidamente, por mais que nos dois casos, os professores passem exatamente 50 minutos do relógio em sala de aula (aliás, pela lógica do relógio, o primeiro professor deveria ganhar mais, já que passou mais tempo em sala de aula).
Essa extensão do tempo pode mesmo ser uma estratégia de sobrevivência, pois nos dá maior prazo para reação em situações de perigo.
Em setembro de 1980, o piloto de testes da marinha americana Russ Stromberg sofreu um acidente após decolar de um porta-aviões. Até o avião mergulhar no mar, ele teve 8 segundos para decidir o que fazer para se salvar. Tudo entrou em câmara lenta, disse ele, depois. Ele primeiro tentou religar o motor. Como isso não funcionou, ele decidiu se ejetar, mas para isso ele precisava verificar se estava segurando corretamente a barra do assento ejetor. No final, ele acabou se ejetando 10 metros acima da água. Mais tarde ele tentou descrever tudo que lhe passara pela cabeça durante a queda e levou 45 minutos. Ou seja, embora o tempo de relógio do acidente tenha sido de 8 segundos, para Stromberg se passaram algo em torno de 45 minutos...
quinta-feira, outubro 12, 2023
Os estóicos
Como escravo, Epíteto deparava-se com um problema que dizia respeito diretamente à sua felicidade. Ao pensarmos na relação senhor-escravo, todos imaginam imediatamente que o senhor será feliz e o escravo infeliz. Afinal, o senhor tem tudo o necessário à felicidade: as melhores comidas, as melhores roupas, os mais variados divertimentos... e não precisa trabalhar. Já o escravo não tem nada, nem mesmo o seu próprio corpo, que pertence ao senhor.
Como o escravo poderia ser mais feliz que o seu dono? Isso seria possível?
O filósofo resolveu a questão através de uma inversão de valores. Para ele, o que nos deixa felizes não são as coisas que temos, mas o significado que damos a elas. Por exemplo, se um belíssimo carro nos lembra uma pessoa querida, que morreu, esse carro será fonte não de alegrias, mas de tristezas.
Para Epíteto, o que nos torna felizes é a forma como encaramos aquilo que nos ocorre. Assim, devemos distinguir entre as coisas que podemos mudar e aquelas que não podemos mudar. Entristecer-se ou preocupar-se com algo que não podemos mudar, é tolice.
Esse ponto de vista foi expresso na frase: “Deus me dê paciência para agüentar aquilo que não pode ser mudado, coragem para mudar aquilo que pode ser mudado e principalmente sabedoria para distinguir um do outro”.
Mas os estóicos não só propunham paciência para aquilo que não pode ser mudado. Na verdade, os infortúnios podem ser fonte de felicidade, dependendo do sentido que se dá a isso. Se tudo que tenho é minha roupa do corpo, mas amo essa roupa, ela é fonte de felicidade. Essencialmente, o que importa é a atitude mental. “Se sou forçado a morrer, porém não entre gemidos, a ir para a prisão, mas não em meio a lamentações, a sofrer o exílio, mas o que impede que seja alegremente e de bom humor?”, dizia Epíteto.
Para ele, o que nós realmente possuímos não são os bens, os amigos, a saúde, nem o nosso próprio corpo, mas apenas o uso de nossas representações, o significado que damos às coisas que nos ocorrem, pois ninguém pode nos forçar a um uso que não desejamos.
Assim, para estóicos, devemos passar pelos momentos tristes da mesma forma que passaríamos pelos alegres.
É tolo aquele que no dia de sol, reclama de calor e num dia de inverno, reclama do frio. Sábio é aquele que sabe usufruir o melhor tanto do inverno quanto da doença.
Curiosamente, o estoicismo, uma filosofia que tinha como um dos principais representantes um escravo, foi adotado por pessoas ricas e poderosas. O imperador Marco Aurélio (que aparece no filme Gladiador) foi um dos mais importantes adeptos do estoicismo.
sexta-feira, setembro 08, 2023
O filósofo da contracultura
Hebert Marcuse é um dos mais importantes filósofos da chamada Escola de Frankfurt. E também um dos que mais se distanciaram do pensamento apocalíptico que caracterizou essa escola. Enquanto Adorno chamava a polícia para reprimir os jovens revoltosos de 1968, na Alemanha, Marcuse era o líder intelectual da garotada que pretendia fazer uma revolução baseada em princípios de liberdade e beleza. A influência de Marcuse na década de 60 era tão grande que se dizia que a juventude seguia três Ms: Marx, Mao, Marcuse.
A crítica à racionalidade técnica irá direcionar toda a sua obra. Para ele, a instrumentalidade das coisas tornava-se a instrumentalidade dos indivíduos. Em outras palavras, o ser humano era visto como uma coisa, como um instrumento, e não como um indivíduo. Ao invés do homem dominar a máquina e tecnologia, como previa a utopia iluminista, era o homem que estava sendo dominado pela máquina e pela tecnologia. As pessoas são transformadas em coisas, reproduzidas em seqüência, massificadas, como produtos saindo de uma linha de montagem.
Marcuse denunciou a criação do chamado homem unidimensional: um indivíduo que consegue ver apenas a aparência das coisas, nunca indo até a sua essência. O homem unidimensional é conformista, consumista e acrítico. Ele se acha feliz porque a mídia lhe diz que ele é feliz e, quando se sente triste, vai ao shopping, fazer compras.
Para Marcuse, as mudanças só ocorreriam se houvesse a liberação de uma nova dimensão humana. Um princípio básico deveria permear essa nova revolução: a liberdade.
A nova sociedade, que surgiria das ruínas da sociedade consumista, deveria ter uma dimensão estético-erótica e, no lugar do consumismo, do conformismo, da competição, surgiriam os valores da felicidade, da paz e da beleza.
À pergunta de Adorno "É possível fazer poesia depois de Auschwitz?", Marcuse vai responder positivamente. A arte ainda é possível, desde que seja uma arte revolucionária, que denuncie a sociedade unidimensional e leve aos receptores os novos valores. Curiosamente, Marcuse vai encontrar justamente em um produto da Indústria Cultural, tanto criticada pela Escola de Frankfurt, um exemplo dessa arte revolucionária: as músicas de Bob Dylan.
Segundo o filósofo, "A arte só pode cumprir sua função revolucionária se ela não fizer parte de nenhum sistema, inclusive o sistema revolucionário". O artista deve não consolar, mas instigar o seu público e fazê-lo rever seus valores. A trajetória de Bob Dylan demonstra bem isso. Quando achou que seu público estava acostumado com suas músicas políticas, ele lançou um disco não político.
No campo dos quadrinhos, o melhor exemplo talvez seja o roteirista britânico Alan Moore. Suas histórias sempre apresentaram uma dimensão crítica, seja do sistema (em V de Vingança), seja da potencialidade destrutiva da ciência, representada pela bomba atômica (em Watchmen e Miracleman). Quando seus fãs se acostumaram com seu trabalho mais intelectualizado, ele passou a fazer histórias de super-heróis para a editora Image.
Assim, para Marcuse, a nova arte não seria uma peça de museu, mas algo vivo, a expressão de um novo tipo de homem. Em alguns momentos, a recusa da obra de arte poderia ser uma forma de fazer arte.
Esse pensamento influenciou o movimento da contracultura, com seus fanzines, revistas alternativas e rádios livres. Outra conseqüência foi a anti-arte, um movimento que, em sua versão mais branda, procura demonstrar o equívoco da arte como ornamento, como peça de museu. Um exemplo disso foi o barquinho pirata colocado pelo estudante de jornalismo Cleiton Campos no meio de obras famosas durante a última Bienal. O quadro de Cleiton não tinha qualquer valor artístico, mas valor de atitude. Colocar em dúvida o aspecto sacramental da arte pode, também, ser um tipo de arte.
quinta-feira, setembro 07, 2023
O amor trágico de Abelardo e Heloísa
Depois de passar por diversas cidades e ser perseguido por sua genialidade e espírito rebelde, Abelardo chegou em Paris em 1113 e começou a lecionar na escola de Notre Dame. Nessa época já era um professor famoso e suas aulas eram concorridas. Sua metodologia revolucionária quebrava com a metodologia platônica, maravilhando os alunos com o jogo de argumentação.
Foi nesse período que ele conheceu uma jovem de 17 anos que chamava a atenção de todos por sua beleza e inteligência, Heloísa. Interessado em conquistar a moça, o filósofo se aproximou do tio (o cônego Fulberto), com a qual ela vivia e se ofereceu para ensinar à moça gratuitamente, em troca de moradia na casa. O cônego não só aceitou a oferta, como confiou a sobrinha inteiramente à orientação do filósofo, que poderia, inclusive, castigá-la severamente caso esta não se aplicasse nos estudos.
Então começa a tragédia: Fulberto flagra o casal e expulsa Abelardo de casa. Mas nessa época Heloísa já estava grávida. Ainda tremendamente apaixonado por ela, Abelardo a tira às escondidas da casa do tio e a leva para sua terra natal, onde ela fica, na casa de uma irmã do filósofo, até dar à luz ao filho do casal, Astrolábio.
Nesse meio tempo, Abelardo procura Fulberto e se oferece para se casar com a moça, desde que isso fosse mantido em segredo, a fim de que sua reputação não fosse prejudicada.
Heloísa, no entanto, não concordava com o plano. Segundo ela, o casamento acabaria com a carreira do amado, pois, na época, acreditava-se que um verdadeiro filósofo deveria ser celibatário. Cícero, por exemplo, ao ser instado a casar com a irmã de Hírcio, respondeu que não podia consagrar-se igualmente a uma mulher e à filosofia. "Quem poderia, aplicando-se às meditações sagradas ou filosóficas, suportar o vagido das crianças, as cantarolas das amas que embalam e a multidão barulhenta da família?", indagava Heloísa. No final, o casal concordou com o casamento, desde que ele fosse totalmente secreto. Unidos pela benção nupcial, foram cada um para lado e se viam apenas às escondidas. O tio, envergonhado com a situação, passou a divulgar o casamento.
Abelardo, para evitar o falatório, enviou Heloísa para um convento de monjas. Ultrajado, o tio arquitetou uma vingança que se tornaria célebre: mandou castrá-lo. Além da ferida, havia a vergonha: na época os eunucos eram considerados impuros e proibidos até mesmo de entrar nas igrejas.
Ferido no corpo e na alma, humilhado, Abelardo internou-se no mosteiro de Saint-Denis, tornando-se um monge para o resto da vida. Heloísa, com apenas 20 anos, ingressou definitivamente no convento. Desde então, os dois nunca mais se viram, apenas trocaram cartas nas quais lamentavam a má sorte que os jogara naquela situação.
| Túmulo de Abelardo e Heloísa no Cemitério Padre Lachaise. |


















