Mostrar mensagens com a etiqueta Filosofia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Filosofia. Mostrar todas as mensagens

domingo, dezembro 03, 2023

Edgar Morin e a teoria da complexidade

 

Um dos pensadores mais importantes da atualidade é o francês Edgar Morin. Suas idéias, inicialmente criadas para discutir a questão do conhecimento, espalharam-se por várias áreas e tornaram-se uma referência obrigatória na área de educação a partir do livro Os sete saberes necessários à educação do futuro, escrito a pedido da Unesco.
         Essencialmente, o pensamento de Morin, chamado de teoria da complexidade, baseia-se na busca de uma ética na ciência e na crítica ao que ele considera os três pilares da ciência moderna: a ordem, a separabilidade e as lógicas indutivas e dedutiva. Morin também insiste na necessidade de se trabalhar com as limitações  do pensamento científico.
         A busca da ordem sempre foi o interesse principal da ciência. Para a ciência, caótico é tudo aquilo que é desconhecido. A partir do momento em que se descobre como algo funciona, revela-se a ordem.        
         A teoria da informação  ensina que ordem é falta de varidade/informação. Já caos é variedade/informação em estado puro. Um relógio é um exemplo perfeito de ordem. Ele sempre fará as mesmas coisas, sempre se movimentará de maneira uniforme a totalmente previsível. Já a bolsa de valores é um fenômeno mais caótico, pois é muito mais difícil prever seus movimentos.  Uma outra maneira de definir ordem, complementar à anterior, é através da determinação. Fenômenos ordenados são determinados. Determinação sugere uma relação causal. Se determinado fenômeno ocorre, ele terá obrigatoriamente uma conseqüência.
         A relação de causa e consequência é extremamente determinada na Ciência Clássica, por isso o relógio foi tomado como modelo do mundo.
         A crença na determinação fez com que os cientistas e filósofos sonhassem com a possibilidade de decifrar a verdade definitiva. A Ciência Clássica ignorava os fenômenos dinâmicos, que estão mais próximos do caos que da ordem. A bolsa de valores, o trânsito de cidade, as sociedades e até a vida humana são fenômenos que escapam ao determinismo. Morin vai criticar justamente essa idéia de determinismo, que até pouco tempo predominava nas ciências sociais. 
         Edgar Morin diz que a complexidade nos dá a liberdade, pois nos livra do determinismo. Não somos prisioneiros de uma determinação, seja biológica ou social. Ao contrário, construímos nosso próprio destino a partir de nossas escolhas, sejam elas conscientes ou não.
         Para Morin, portanto, o mundo é uma mistura de caos e ordem e o cientista deve aprender a lidar com ambos.
         A segunda parte da teoria de Edgar Morin, e também a mais difundida,  refere-se à crítica à separabilidade. A ciência sempre trabalhou com a idéia de que, para resolver um problema, é necessário dividi-lo em pequenas partes e estudá-las uma a uma.
         Esse princípio provocou a divisão do saber e a especialização, que permitiu um grande avanço tecnológico. Mas a especialização logo revelou suas deficiências, pois os cientistas, cada vez mais especializados, perderam a visão do todo.
         A teoria dos sistemas demonstrou que os fenômenos são processos de retroação contínua. É, portanto impossível em algumas situações estabelecer a causa e a conseqüência. O que é causa de um fenômeno é também causada por outro fenômeno numa rede de interações infinita.
Como conseqüência da separabilidade, a responsabilidade sobre as decisões, incompreensíveis para os leigos, são deixadas nas mãos de especialistas, que não consideram as conseqüências amplas de suas ações.
Em lugar da separabilidade, Morin propõe a complexidade, que significa abraçar o todo. Ou seja, é o princípio de que é impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer as partes.
         A terceira parte da crítica de Edgar Morin à Ciência Clássica diz respeito à lógica indutiva. Desde Galileu a indução tem sido considerada o procedimento científico mais correto. Mas mesmo os defensores da dedução não conseguem responder a uma pergunta: quantos casos é necessário pesquisar para se  chegar a uma conclusão geral sobre o assunto? Morin usa a crítica de Karl Popper para fundamentar sua posição. Para Popper,  essa falha da indução faz com que ela não seja científica.
         Para Popper, a ciência só pode se utilizar da dedução, em que se faz uma generalização e depois vai se pesquisar casos singulares. Se os casos baterem com a hipótese, dizemos que ela foi corroborada (não confirmada, pois é possível que estudos futuros cheguem a conclusões diferentes). Se não baterem com a hipótese, dizemos que a mesma foi falseada. Popper demonstrou que só é científico aquele conhecimento que pode se mostrar falho, ao contrário do conhecimento teológico, que não pode ser falseado.
         Edgar Morin aproveitou a crítica de Popper à indução em sua filosofia, mas também fez crítica à dedução, citando o paradoxo lógico do mentiroso de Creta. Imagine que um cretense diz que todos os cretenses são mentirosos. Se ele estiver dizendo a verdade, está mentindo, pois ele também é cretense e, pela lógica, deveria estar mentindo. Se ele estiver mentindo, está dizendo a verdade. É uma situação que não tem escapatória lógica.
         Embora admita que a dedução é mais confiável que a indução, Morin propõe uma nova lógica, menos classificadora, que não fosse baseada no OU/OU, mas no E/E. Uma lógica complementar e não excludente, que permitisse termos contrários, como: “A vida surge da morte”. De fato, a morte do grão é o início da semente, que irá dar origem a outra planta. A cada dia nossa pele se renova em grande parte. É a morte das células da epiderme que nos permite continuar vivendo.

quinta-feira, novembro 23, 2023

O mundo hiper-real

 


Vivemos em um mundo em que cada vez mais se torna difícil distinguir realidade de ficção. Um exemplo disso ocorreu em 2014, quando a personagem Valdirene, vivida pela atriz Tatá Werneck, da novela Amor à vida, tornou-se participante do Big Brother Brasil 14.
A atriz permaneceu 12 horas dentro da casa, imersa em sua personagem, convivendo com os outros brothers como se fosse um deles.
Sem acreditar que estava realizando seu sonho antigo, a personagem Valdirene cruzou a porta amarela em êxtase e soltou sua primeira pérola: "Esqueci minha escova de dentes".
Ao som de “Piradinha”, sua trilha sonora, ela rodou pela festa, instigando os concorrentes. A cada grupo disse para alguém: "Você é o mais forte da casa". Perguntou a Clara se queria combinar voto e se esta jogava na "dança da pélvis" com os Brothers bonitões.
Enquanto isso, os personagens da novela assistiam ao programa, comentando os acontecimentos.
Por outro lado, no “mundo real” ela se tornava assunto nas redes sociais com internautas comentando sua participação no programa. A hashtag #ValdireneNoBBB14, que ficou entre os tópicos mais populares no Twitter.
O episódio testou os limites entre a realidade e a ficção em programas como o BBB. Uma personagem ficcional se tornou a grande estrela de um programa que tem como base a ideia de mostrar a vida real (há de se perguntar o que ocorreria se ela tivesse continuado no programa – teria ganhado a simpatia do público e sobrevivido até a final?) e levanta uma questão: os Brothers também não estariam atuando? Até que ponto o programa não é uma ficção? O BBB não seria ele também uma simulação da vida real?

Um exemplo de como o mundo se tornou uma construção hiper-real é o projeto acadêmico da designer holandesa Zilla van den Born realizado em 2014. Como o objetivo de provar o quanto é fácil forjar situações em redes sociais, ela arrumou as malas, despediu-se de seus pais no aeroporto Schiphol e, ao perdê-los de vista, pegou o trem de volta para sua casa em Amsterdã, onde mora sozinha.
Nas semanas seguintes ela produziu, através de programas de computador, fotos que a mostravam nas praias da Tailândia, saboreando comidas exóticas e até meditando em um templo budista.

A foto em que ela aparece mergulhando, por exemplo, foi tirada na piscina de sua casa e adornada com peixes falsos, mas hiper-reais adicionados via Photoshop.
Durante cinco semanas ela publicou as fotos e recebeu diversas curtidas e comentários elogiosos por parte de seus parentes e amigos. Ninguém desconfiou que a viagem fosse falsa.

O caso levantou uma questão: até que ponto o que vemos nas redes sociais é forjado, uma simulação (dos sorrisos forçados às fotos em locais paradisíacos) para impressionar seus seguidores? 

terça-feira, novembro 07, 2023

Epicuro: a filosofia do prazer

 


Na Grécia antiga, a filosofia epicurista tentou entender como o homem pode ser feliz

No ano de 306 a.c. o filósofo grego Epicuro, então com 36 anos, abriu sua escola em Atenas. Epicuro comprara para tal uma casa com jardim e, ao invés de trancafiar-se em uma sala com os alunos, preferia ficar ao ar livre, conversando com seus eles. Observadores da época diziam que não parecia um mestre rodeado de alunos, mas sim um grupo de amigos que filosofavam juntos. Aquele sábio simpático e hospitaleiro se debruçou sobre uma pergunta que inquieta o homem há séculos: como podemos ser mais felizes? Sua resposta: através do prazer. Essa filosofia do prazer influenciou diretamente não só a sociedade grega, mas principalmente a romana e chegou a ser deturpada ao ser vista como uma busca irrefletida do prazer carnal. Também teve grande influência sobre a ciência moderna ao estabelecer os alicerces do que seria a teoria atômica.

Vida

Epicuro nasceu em janeiro de 341 a.C, na ilha de Samos. Sua família fazia parte da nobreza falida de Atenas e viajara para Samos na qualidade de colonos. Seu pai, Néocles, era mestre escola e sua mãe, Querestrata, era curandeira e adivinhava o futuro. Ele costumava a ir com a mãe à casa de pessoas doentes para afastar o mau-olhado e curar doenças. Essa experiência infantil lhe deu uma boa ideia das crenças e superstições dos gregos, que ele iria criticar duramente em sua filosofia.
Desde pequeno, Epicuro se destacava pela inteligência e pelo espírito indagador. Aos 14 anos, quando o professor lhe ensinava o verso de Hesíodo segundo o qual no princípio de todas as coisas vieram do caos, ele perguntou: “E o casos, de onde veio?”, O professor, aturdido, não soube o que fazer e respondeu que esse tipo de pergunta deveria ser feita diretamente aos filósofos.
E foi o que Epicuro fez. Estudou vários sistemas filosóficos, entre eles os de Platão e o de Aristóteles, mas sem se deixar influenciar por eles e sem aprofundá-los. Com o tempo, sua inteligência foi reunindo em torno de si um grupo de discípulos que o seguiam como a um mestre e o acompanharam quando ele foi para Atenas. Acredita-se, inclusive, que o dinheiro para comprar o jardim que o tornaria conhecido veio de um aluno.
Epicuro não gostava de trancar-se com seus alunos em uma sala e preferia dar suas lições ao ar livre, razão pela qual sua instituição ficou conhecida como escola do jardim. Também não havia um horário para as aulas, já que a qualquer momento ele podia ser visto lá, ou cuidando das plantas, ou conversando com seus discípulos.
A personalidade de Epicuro foi fundamental para fazer com que o grupo permanecesse unido (tanto que mesmo os inimigos do epicurismo admitiam que a escola nunca teve cisões ou brigas). Segundo relatos da época, o mestre era caridoso com os irmãos, brando para com os escravos e procedia com afeto para com todas as pessoas.
Uma das questões principais que ocupavam o tempo desse grupo de amigos era a felicidade. É compreensível que essa fosse uma preocupação principal numa cidade que já fora gloriosa e que na época vivia em decadência, devastada por guerras.
Uma outra escola, o estoicismo, já se ocupava do mesmo assunto.  Segundo os estóicos, o mundo era governado por um determinismo implacável do qual não se podia fugir e a receita da felicidade estava em aceitar o que a vida nos dava. Uma anedota ajuda a compreender esse ponto de vista. Dizem que Zenão, criador do estoicismo, castigava um escravo por sua falta quando este argumentou que não tinha culpa, pois, segundo a filosofia de seu senhor, ele estava condenado, por toda a eternidade, a cometer aquela falta. Zenão replicou que, da mesma forma, ele estava destinado a bater no escravo.
Epicuro discordaria dessa visão determinística e argumentaria que nós mesmos somos guias de nosso destino, pois podemos formá-lo com nosso raciocínio.


Prazer

Para Epicuro, o segredo da felicidade estava na busca do prazer, pois só o prazer pode levar à felicidade. Mais tarde, em Roma, sua filosofia seria deturpada, configurando-se como uma busca desenfreada de prazer sensual e bebedeiras, também conhecida como hedonismo. Mas, na filosofia de Epicuro, o prazer é configurado como ausência de dor. Aquilo que nos dá prazer momentâneo, mas posteriormente provoca dor, em nós ou em outros, não é o prazer verdadeiro, pois só podemos tirar prazer da paz de espírito, a hedoné .. Exemplo disso é uma bebedeira, que provoca prazer momentâneo, mas depois ocasiona a ressaca.  
Além disso, buscar o prazer não significava ser dominado pelos desejos. Segundo Epicuro, devemos fruir o prazer de cada situação, sem nos preocuparmos com o que não temos. “Não deves corromper o bem presente com o desejo daquilo que não tens; antes deves considerar que aquilo que agora possuis se encontrava no número dos teus desejos”, dizia.
Essa visão do prazer está resumida no programa da escola, que, dizem, era gravado no pórtico de entrada: “Estrangeiro, aqui te encontrarás bem: aqui reside o prazer, o bem supremo. Encontrarás nesta casa um mestre hospitaleiro, humano e gracioso, que te receberá com pão branco e te servirá abundantemente água clara dizendo-te: Não foste bem tratado? Estes jardins não foram feitos para irritar a fome, mas para a apaziguar, não foram feitos para aumentar a sede com a própria bebida, mas para a curar por um remédio natural e que nada custa. Eis aqui a espécie de prazer em que tenho vivido e em que envelheci”.
Epicuro viveu de acordo com essa filosofia, comendo e bebendo sem excessos, tirando grande alegria da conversa com seus discípulos.

Átomos

Um aspecto importante na teoria epicurista e na sua noção de felicidade é a teoria atômística. Epicuro percebeu que um dos aspectos que impedem as pessoas de serem felizes é o medo da morte e dos deuses. Sua experiência infantil com a mãe curadeira havia lhe ensinado como as pessoas temiam a morte, agarrando-se à vida e a superstições.
Epicuro defendia que todas as coisas são feitas de átomos. Os átomos, em número infinito, estão em constante movimento. A junção e o movimento dos átomos é que fazem com que as coisas sem diferentes. Assim, tanto um homem como uma pedra são formados de átomos, mas configurados de forma diferente. Como são eternos, os átomos apenas mudam de lugar e se unem em outros corpos. Pela teoria epicurista, que seria resgatada pela ciência moderna, quando morremos, nossos átomos se espalham pelo universo e se transformam em material para criação de outros organismos.
Como, na teoria epicurista, tanto o corpo quanto a alma são feitos de átomos, não há possibilidade de existência no além, de modo que não há razão para temer a morte, pois aquilo que se dissolveu em suas partes não possui mais sensações. Epicuro dizia que a morte é o fim de todas as sensações e temê-la é bobagem, pois quando nós existimos, a morte não existe e, quando a morte chegar, nós não mais existiremos como pessoa. Seremos apenas átomos sem sensações, que se unirão com outros para formarem outros corpos.
Com a teoria atômica, Epicuro tirou de seus discípulos o medo da morte.
O temor dos deuses também seria destruído pela filosofia do jardim. Epicuro não negava a existência dos deuses, mas para ele, eles eram seres tão perfeitos que não se incomodavam com os humanos. Viviam num estado de total imperturbabilidade, num espaço entre os cosmos. Como seres perfeitos e inatingíveis, eles não recompensavam nem puniam os homens, cujo destino estava nas próprias mãos.
Dessa forma, Epicuro não só tirava o poder das mãos dos sacerdotes, que já não podiam ameaçar os homens com a fúria das divindades, como dava ao homem a responsabilidade sobre seu destino e sua felicidade.
Livre do medo da morte e dos deuses, o epicureu deveria viver uma vida racional, justa e venturosa, não prejudicando os interesses de outros e, principalmente, seguindo as leis.

Mulheres

Enquanto estava vivo, Epicuro ensinou todos os dias, em qualquer horário, recebendo tanto homens quanto mulheres. A forma avançada como as mulheres eram encaradas no epicurismo causou escândalo na sociedade machista moderna, quando a obra do filósofo foi recuperada. De fato, muitas mulheres tiveram papel essencial na difusão do epicurismo. Contrariando costumes da época, até escravos eram admitidos entre os epicuristas.
Mesmo sofrendo uma doença que lhe provocava dores terríveis, Epicuro não se deixava abater e perseverava em sua serenidade. “Durante minhas doenças”, escreveu ele “não falava a ninguém do que sofria no meu miserável corpo; não tinha essa espécie de conversação com aqueles que vinham me visitar: não falava com eles senão daquilo que desempenha na natureza o primeiro papel. Procurava sobretudo fazer-lhes ver que a nossa alma, mesmo sem ser insensível às perturbações da carne, podia no entanto mater-se isenta de cuidados e no gozo pacífico dos bens que lhe são próprios. Mesmo nesse tempo eu vivia tranqüilo e feliz”.
No dia em que morreu, ele escreveu a um amigo: “Este é o último dia de minha vida, ainda assim é um dia feliz”.
Com a morte de Epicuro, seus discípulos se mantiveram unidos e perseverantes em sua doutrina. Essa docilidade tem gerado alguma das principais críticas ao epicurismo. Dizem que lembravam do mestre como um deus e que a filosofia não se aperfeiçoou pelo extremo respeito que tinham pelas palavras do fundador. De fato, mesmo com o tempo, o epicurismo continuou o mesmo.
Poucas escolas filosóficas foram atacadas tão furiosamente. Os principais ataques vinham dos estóicos, provavelmente por inveja, já que os modos austeros de sua doutrina arregimentava poucos adeptos, enquanto que os seguidores do epicurismo aumentavam a olhos vistos. De fato, além da população de forma geral, muitas personalidades adotaram o epicurismo como modo de vida. Em Roma, o poeta Lucrécio ficou famoso ao cantar as ideias de Epicuro em verso e até mesmo o famoso orador Cícero, embora fosse influenciado pelo platonismo, tinha grande respeito pelos epicuristas. Os dois maiores poetas romanos, Virgílio e Horácio foram influenciados pelo epicurismo.
Em todo o mundo helênico, muitos homens e mulheres tornaram-se adeptos do epicurismo. Muitos não entenderam corretamente a filosofia de Epicuro e converteram-na em uma busca desenfreada pelo prazer sexual em meio a bebedeiras. Estes, segundo a maioria dos autores, não eram epicuristas, já que essa licenciosidade fugia da ideia de felicidade epicurista, que era, essencialmente, a paz de espírito.

Influência

A influência epicurista nessa época era tão grande que Diógenes Laércio, ao escrever a biografia dos filósofos, dedicou todo o capítulo 10 a Epicuro.
Entretanto, nem mesmo esse sucesso garantiu que a vasta obra escrita de Epicuro sobrevivesse. A maioria dos escritos se perdeu nos primeiros séculos da era cristã, até por conta da luta entre cristãos e pagãos. O epicurismo sobreviveu graças ao poema Da natureza, de Lucrécio e de trechos citados em outras obras. Diogenes Laércio teve a felicidade de incluir na biografia do filósofo quatro pequenos manuscritos.
Na época do Renascimento esses escritos foram redescobertos, especialmente por causa de Poggio. O trabalho do professor Pierre Gassendi, que usou o atomismo para atacar o cartesianismo, também ajudou a divulgar o epicurismo.
A filosofia epicurista também ganhou um impulso no ocidente da partir do ano 1738, quando foi encontrada a cidade de Herculano, que havia sido soterrada pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C. Na cidade havia uma biblioteca com vasta obra de Epicuro. A maioria das obras havia sido carbonizada pela lava, mas o pouco que restou causou grande impacto sobre a intelectualidade.
No século 19, a teoria atômica foi definitivamente resgatada e serviu de base para boa parte da física moderna.


Aforismos

A maior parte do pensamento de Epicuro sobreviveu graças aos aforismos, pequenas frases que resumem sua filosofia. Conheça alguns dos aforismos epicuristas.
 “Há também mundos infinitos, ou semelhantes a este ou diferentes. Uma vez que os átomos são infinitos e são levados aos espaços mais distantes, não há nada que impeça a infinidade de mundos.”
“Nem a posse de riquezas, nem a abundância de coisas, nem a obtenção de cargos ou poder produzem a felicidade e a bem-aventurança; produzem-na a ausência de dores, a moderação dos afetos e a disposição de espírito que se mantenha nos limites impostos pela natureza.”
“Se queres enriquecer Pítocles, não lhe acrescentes riquezas: diminui-lhe os desejos.”.
“Encontro-me cheio de prazer corpóreo quando vivo a pão e água e cuspo sobre os prazeres da luxúria, não por si próprios, mas pelos inconvenientes que os acompanham.”
“A quem não basta pouco, nada basta.”
“A justiça não tem existência por si própria, mas sempre se encontra nas relações recíprocas, em que exista um pacto de não produzir ou sofrer dano.”
“As leis não existem para os sábios, mas para impedir que estes recebam injustiça.”
“De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade.”
“O justo é sumamente sereno; o injusto, cheio da maior perturbação.”

segunda-feira, novembro 06, 2023

Conhecimento teológico

 

Você acredita em Deus? Por quê? A uma pergunta dessas, dificilmente alguém responderá que acredita em Deus porque o viu ou porque a lógica científica o diz.
         O conhecimento religioso, portanto, não surge da observação empírica ou da lógica. A história de São Tomé, que precisou ver as chagas de cristo para acreditar é contada como exemplo de falta de fé. A fé não depende da observação empírica. 
É um conhecimento revelado, razão pela qual dizemos que ele se baseia na fé. Uma pessoa tem uma revelação sobre uma verdade eterna e a divulga a outras pessoas, que acreditam na mensagem e passam a também propagá-la e assim surgem as religiões (ou através de diversas revelações).
         Existiram muitas tentativas de explicar Deus através da razão, da lógica filosófica, por exemplo, mas alguém que nunca ouviu esses argumentos pode, ainda assim, ter fé nos dogmas desta ou daquela religião. Só podemos entender suas verdades se acreditarmos.
         O conhecimento teológico está baseado no discurso da autoridade. A autoridade é Deus, que revela aos homens suas verdades, ou o profeta. Ao discutir com uma pessoa religiosa, ela certamente usará em seu discurso frases como “Está na Bíblia”, a “Bíblia diz isso”, que revelam a importância do discurso da autoridade para esse tipo de conhecimento.

domingo, novembro 05, 2023

A proposta libertária

 

Dias desses fiz uma postagem sobre o juiz parado na blitz da lei seca que processou a agente de trânsito que disse que ele não era Deus (recentemente a sentença foi confirmada e a agente terá de pagar 5 mil reais de indenização ao juiz). Para meu espanto, alguém viu a postagem e comentou que o tal juiz era um anarquista. Mais: defendeu que a corrupção que vemos hoje é resultado do anarquismo. Chegou a dizer que estávamos rumando para uma ditadura anarquista. Seria mais ou menos como dizer que vegetarianos têm como objetivo fazer as pessoas comerem carne. Expliquei (ou ao menos tentei) a ele o equívoco do uso da expressão só para descobrir que ele era um defensor da “intervenção militar constitucional”. Ao final, deixou uma ameaça: “Quando acontecer a intervenção, saberei onde te encontrar”. 

Embora seja interpretado equivocadamente como sinônimo de bagunça, desordem e até de ditadura (razão pela qual muitos preferem a expressão “libertário”), o anarquismo é uma doutrina política heterogênea que engloba os mais variados grupos e filosofias Um exemplo é Gandhi, que foi fortemente influenciado pelos ideias anarquista e tornou célebre a estratégia da resistência civil e da não-violência (vale lembrar que Gandhi nunca quis ocupar nenhum cargo público).

Unindo essas diversas correntes, uma ideia básica: a de que o estado será sempre ocupado por pessoas que usaram o poder em benefício próprio e que quanto mais concentrado o poder estiver nas mãos de algumas pessoas, pior será para a sociedade. Em contrapartida, quanto mais distribuído o poder, melhor para todos. Em outras palavras: a ideologia libertária é o oposto do fascismo, seja ele de direita ou esquerda.

Filosoficamente podemos remontar às teorias de Hobbes e Rousseau.

Hobbes argumentava que o homem é o lobo do próprio homem. De forma simplista: o homem é mau. Se não houver alguém fiscalizando-o, impedindo-o de praticar o mal, o homem inevitavelmente irá enveredar pelas maiores barbaridades. Esse pensamento, na época, serviu de desculpa para os regimes absolutistas. Se o homem é mau, justifica-se a existência de um rei todo poderoso para manter a sociedade sob controle e impedir que as pessoas se matem umas às outras. Essa é a premissa básica do fascismo.

Rousseau, ao contrário, dizia que o homem é, originalmente bom. Se ele se torna mau, é porque foi corrompido pela sociedade. Em outras palavras: as próprias estruturas criadas para impedir a maldade humana, na verdade acabavam provocando-a. 

Em outras palavras: o poder corrompe e quanto mais poder alguém tiver, mais corrupta essa pessoal será. A ideia básica da proposta libertária é de que o poder é uma droga, que vicia, e o viciado fará de tudo para permanecer no poder. O fascismo é baseado na coersão. Essa coerção pode ser a simples ameaça de violência física ou, o que é muito mais efetivo, a ameaça de não pertencer ao grupo. Relatos de observadores do nazismo dizem que os comícios de Hitler eram pensados para criar um sentimento grandioso de grupo e fazer com que os que não pertenciam a esse grupo se sentissem excluídos e culpados. A “grande Alemanha estava sendo construída” e quem não era nazista estava de fora desse sentimento.
Solomon Asch demonstrou que pessoas poderiam dar respostas nitidamente erradas para não serem rejeitadas pelo grupo. 


Um exemplo dessa conformidade ao grupo foi a experiência levada a cabo pelo psicólogo Solomon Asch na década de 1950. Ele reunia em uma sala oito pessoas, oito das quais eram atores orientados a dar respostas erradas. Em seguida, eram mostrados dois cartões. Um deles mostrava uma linha e, no outro, três linhas de tamanhos diversos, uma das quais era igual ao do outro cartão. O psicólogo perguntava qual era a linha que correspondia ao tamanho do outro cartão. Ao verem todo o grupo darem a resposta errada, mesmo em uma situação tão clara, a maioria das pessoas acompanhava o grupo. Apenas 25% contrariava o grupo e dava respostas certas. Chama-se a esse fenômeno de conformidade social: as pessoas agem de acordo com a maioria para não serem rejeitadas. 

Outro exemplo é a pesquisa de Stanley Milgram. Um ator em uma cabine fazia o papel de um aluno. Na outra cabine, uma pessoa lhe dava choques toda vez que errava. A maioria das pessoas continuou dando choques mesmo quando achava que eles poderiam ser mortais. A razão para isso era a figura de autoridade, o pesquisador, que dava as ordens para que continuassem aplicando choques. Outras experiências mostraram que quanto mais distante essa figura de autoridade estivesse, menor era a chance das pessoas que participavam da pesquisa continuarem dando choque. 

Milgram mostrou que pessoas normais podem até mesmo matar quando estão obedecendo ordens de uma figura superior. A razão para isso? A conformidade social: desobedecer o líder pode representar ser rejeitado pelo grupo.  
A experiência de Milgram mostrou que pessoas normais podem até mesmo matar se receberem ordem para isso. 

O experimento mostrou como a coerção do grupo pode levar as pessoas a fazerem algo nitidamente errado. É impossível ler sobre esses e outros experimentos sem lembrar a ideia de Rousseau, de que o ser humano é corrompido pela sociedade. Quanto maior a concentração de poder dessa sociedade, maior o poder de uma ou algumas poucas pessoas terão sobre o grupo e maior a coerção que exercerão. 

Se o fascismo é baseado na coerção, a proposta libertária é baseada na consensualidade. A liberdade individual, inclusive liberdade de pensamento, é um elemento mais relevante que a adesão ao grupo. A pessoa participa do grupo porque quer, não porque foi coagida a isso. 

O fascismo é a base ideológica de todas as ditaduras e regime totalitários, tanto de esquerda quanto de direita. Já a visão libertária deu origem desde o movimento de resistência civil de Gandhi e Martin Luther King às proposta de democracia semi-direta, como na Suécia e Suíça, em que cidadãos comuns podem propor leis e até pedir o impeachment de governantes. Não por acaso, a Suíça era a terra natal de Rousseau. 

sexta-feira, novembro 03, 2023

O que caracteriza a ciência?

 

Para Karl Popper, a ciência é caracterizada pelo falseamento. Ou seja, uma teoria só é científica se for possível provar que ela está errada.
Assim, seria não-científico afirmar que vai chover amanhã. É certo que amanhã vai chover em algum lugar do planeta, em algum horário.
É científico dizer que vai chover amanhã às 17 horas em Macapá, pois essa afirmação é passível de falseamento.
A ciência não aceita formulações vagas, que não podem ser falseadas, características dos videntes e cartomantes: “Você vai viver um grande amor”; “Um grande reino vai cair”. É impossível provar que essas afirmações são falsas. Em algum momento a pessoa vai viver um grande amor e em uma guerra, inevitavelmente um reino irá ser derrotado.
Para Popper, O cientista não deveria procurar fatos que comprovassem sua tese, mas fatos que o falseassem, que provassem que ela é falsa.
Imaginemos que estejamos estudando as galinhas. Pesquiso uma e descubro que ela bota ovos. Encontro outra galinha e observo o mesmo comportamento. Por indução, chego à conclusão de que todas as galinhas botam ovos. Para Popper isso não é científico, pois se eu encontrar uma única galinha que não bote ovos, minha tese cai por terra.
Para Popper, a indução é falha e a única maneira de sermos científicos é usarmos a dedução.
Assim, eu crio uma lei geral: todas as galinhas botam ovos. Então pego uma galinha ao acaso e verifico se ela bota ovos. Se isso ocorrer, a tese está correta, por ora. Se um dia aparecer uma galinha que não bote ovos, a tese será falseada.
Popper nos ensinou que as verdades científicas são provisórias. São apenas hipóteses esperando pelo falseamento.

terça-feira, outubro 31, 2023

Símbolos de status

 


Um dos capítulos mais interessantes do livro VOCÊ - um estudo objetivo do comportamento humano, de Desmond Morris, é o que fala sobre símbolos de status. Na pré-história a simples força bruta era suficiente para mostrar quem estava por cima e quem estava por baixo. Posteriormente, com os reis, os símbolos de status eram acompanhados de grande ostentação, com muito ouro, pedras preciosas e luxo. Na nossa sociedade, no entanto, os símbolos de status se tornaram mais sutis. 
Morris divide aqueles que exibem status em: executivos, herdeiros e talentosos. Na categoria executivos entram, por exemplo, políticos, que, apesar de não usarem as roupas suntuosas dos reis (e não o fazem para evitar a revolta popular), usam todo um aparato, como a escolta militar. 
Carros, roupas e acessórios são demarcadores de status. Morris explica que esses símbolos com o tempo são apropriados por imitadores, o que obriga os detentores de status a migrarem. Lembram da época em que ter um celular era símbolo de status? Com o tempo, todo mundo tinha celular. Os detentores de status foram obrigados a migrar para o smartphone. Logo todo mundo tinha um smart, e o I-phone passou a ser o novo demarcador de status. 
O mesmo aconteceu com o carro: nas sociedades pobres era símbolo de status ter um carro, mesmo um barato. Com o tempo, apenas automóveis caros passaram a exercer essa função. 
Nas sociedes mais pobres e machistas, mulheres são proibidas de dirigir carros. Em outras, é dito que uma mulher que dirige carro está pedindo para ser estuprada. A relação entre as duas coisas pode não parecer óbvia, mas é: uma mulher que está dirigindo um carro está tirando do homem seu status e a forma dos homens responderem a isso é estuprando a mulher - uma atividade sexual de afirmação de status e sujeição da vítima. Estuprar uma mulher que dirige um carro é uma forma de colocá-la em seu lugar. 

 
Os talentosos são aqueles que se destacam não pelo carro que usam, pelas roupas que vestem, mas pelo que fazem, por sua obra e seus feitos intelectuais. Exemplo disso são os grandes artistas. Enquanto os símbolos de status dos executivos e herdeiros desaparecem com eles, os símbolos de status sobrevivem a eles e muitas vezes continuam sendo apreciados durante centenas de anos. Como sua obra é seu status, os talentosos não se preocupam com símbolos de status transitórios. Muitos artistas e cientistas muitas vezes se vestem de maneira simples (quando não extravagante, como o caso de Salvador Dali) e dirigem carros de pouco baratos, muitas vezes tendo condições de comprar um melhor. Na verdade, a ausência deliberada de símbolos de status é, em si, uma demonstração de status.

sexta-feira, outubro 20, 2023

O mundo hiper-real

 

A obra de Ron Muek reflete sobre a hiper-realidade

Olhe à sua volta. As propagandas que você vê, os filmes a que você assiste, a comida que você come. Tudo isso parece real, não? Mas não é. Nós deixamos de viver na realidade. Hoje vivemos em um mundo hiper-real.
A hiper-realidade é uma ficção, um simulacro, que é percebido como real. Baudrillard explica usando o exemplo de alguém que simula uma doença. Alguém que finge estar doente está apenas mentindo, mas quem simula chega ao ponto de sentir os sintomas, é como se a doença tivesse se fato se instalado na pessoa, embora ela seja apenas uma criação mental (exemplo disso é a chamada gravidez psicológica).
Na hiper-realidade, portanto, torna-se cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção, o natural do criado pelo homem. Um momento fundamental dessa mistura aconteceu durante os ataques terroristas de 11 de setembro. Aquilo parecia tanto com um filme que na França as transmissões eram acompanhadas do aviso: “Isto não é ficção”.
Essa confusão entre ficção e realidade tem um precedente famoso no Brasil: desde que as novelas estrearam entre nós se tornou comum que os telespectadores confundissem o ator com o personagem. Atores que interpretavam vilões muitas vezes eram insultados e até agredidos na rua.

Mas não é preciso ir muito longe ou mesmo ligar a TV. Abra a geladeira. É possível que você encontre lá cenouras. Podem parecer reais, mas não são. As cenouras reais são feias, murchas, pálidas. Aquelas cenouras bonitas, amarelas, grandes que você provavelmente tem em sua geladeira são uma ficção, uma invenção humana. São cenouras hiper-reais.
Aliás, aí vai mais uma característica da hiper-realidade: ela é muito mais fascinante que a realidade. Há uma anedota sobre isso. Uma mulher elogia a beleza de uma menina, ao que a mãe responde: “Se você acha ela bonita, precisava ver a foto dela!”.
Ainda na geladeira podemos ver isso nas embalagens de produtos congelados. As fotos das embalagens são lindas, irresistíveis, deliciosas. Você abre, é algo completamente diferente. O sanduíche vistoso da embalagem é uma coisa murcha e pequena. A lasanha saborosa, crocante, lustrosa da capa é uma massa gosmenta. As imagens hiper-reais da embalagem são muito mais interessantes que a comida em si.
No cinema então a diferença é gritante. Entramos na sala escura e vemos mundos extraterrestres extraordinários e acreditamos neles mais do que acreditamos no mundo lá fora. Até mesmo em filmes urbanos, como 50 tons, a fotografia hiper-real faz com que tudo seja fascinante, romântico, perfeito como o mundo real jamais será.
As também as pessoas se tornam hiper-reais. Um vídeo viralizou na internet ao mostrar todo o processo pelo qual passam as modelos de propagandas: da luz à maquiagem, passando pela manipulação digital, que as torna mais magras, esguias, tira manchas, espinhas, tornando-a perfeita segundo o um padrão de beleza estabelecido. E essa mulher hiper-real se torna o modelo a ser seguido, um modelo inalcançável.

Aliás, a mulher perfeita, hiper-real não está apenas nos anúncios. Ela existe em carne em osso. Ou melhor, em silicone. São as real dolls, novas bonecas sexuais produzidas ao gosto do freguês, que escolhe a cabeça, o tronco, os seios, as pernas até montar sua mulher ideal.
Os fabricantes perceberam, no entanto, que muitos homens não se excitavam com mulheres “reais”, mas com suas versões em anime ou mangá. Isso abriu um novo mercado: o de bonecas sexuais baseadas em personagens de animes. Ou seja: o simulacro do simulacro.
Na mão inversa desse fenômeno, surge um outro: mulheres que fazem de tudo para se parecerem com bonecas, como no caso da Barbie humana, que realizou diversas cirurgias para ficar o mais parecida possível com a famosa boneca. Em redes sociais como o Facebook é possível encontrar grupos de garotas que dão dicas de maquiagens, roupas e outras para quem pretende incorporar uma boneca.
Em tempos de internet, até a identidade se torna hiper-real, sendo definida pelo que as pessoas postam nas redes sociais. E geralmente essas publicações são escolhidas e pensadas pela imagem que irão passar. A maioria das pessoas escolhe as melhores fotos, os melhores momentos. No Facebook todo mundo é feliz e todos vivem em eternas férias. Essa situação foi aproveitada por uma designer holandesa que se fechou em sua casa durante um mês e, manipulando fotos, simulou uma viagem ao redor do mundo. Todos de seu círculo de amizade acreditaram.
Esse é o mundo em que vivemos: um mundo hiper-real em que modelo se sobrepõe ao original, em que imagens perdem seus referentes, em que é cada vez mais difícil distinguir ficção de realidade. 

sábado, outubro 14, 2023

A imprecisão do tempo

 


Com a criação do relógio, surgiu a visão mecanicista e determinista do mundo. Ou seja, o mundo passou a ser visto como um relógio, uma máquina determinada e previsível. Até mesmo a educação e o trabalho passaram a ser regidos pelo relógio. Um professor, por exemplo, passou a ser pago quantidade de horas que lecionava.
Mas essa visão mecanicista do mundo parte da idéia newtoniana de que o tempo é um valor absoluto. Ou seja, o templo flui da mesma maneira em todos os lugares do universo. A teoria da relatividade de Einstein, no entanto, mostrou que essa idéia é equivocada. O tempo não é um valor absoluto, mas relativo. O mesmo evento visto por duas pessoas pode ser percebido em momentos diferentes, dependendo do ponto de observação.
Tanto a velocidade quanto a gravidade podem afetar o tempo. O tempo passa mais devagar para pessoas que estão em alta velocidade. Isso é exemplificado pelo chamado “paradoxo dos gêmeos”. Temos dois gêmeos, João e Maria. Um deles, Maria, faz uma viagem espacial à velocidade da luz. Para ela, a viagem dura apenas um ano, mas quando ela volta, descobre que seu irmão está 10 anos mais velho. Em viagens de avião, essa diferença é mínima, mas pode ser percebida por relógios atômicos. Isso significa que enquanto você faz uma viagem de avião, o tempo corre mais lento para você do que para quem está parado.
Da mesma forma, o tempo passa mais lentamente para quem vive em um planeta com alta gravidade. Esse achatamento do tempo já foi demonstrando em submarinos, que estão mais próximos do centro gravitacional da Terra.
Fora os aspectos físicos, há aspectos psicológicos que influenciam na percepção do tempo. Situações de tensão e preocupação podem fazer o tempo correr mais lentamente. Foi o que descobriu o professor Antônio Damásio, diretor do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa. Na edição nacional da revista Scientific American (n.5), ele publicou um artigo explicando como o cineasta Alfred Hitchcock dilatou o tempo no filme Festim Diabólico. A película conta uma história que se inicia às 15:30 e termina às 21:15. ou seja, o tempo dramático é de 105 minutos. Ocorre que o filme foi feito em tempo real, sem cortes, e resulta em 8 rolos de 10 minutos. Ou seja, 80 minutos. 

Em outras palavras, o tempo real do filme não bate com o tempo percebido pelos expectadores.
Como o filme deixa os expectadores tensos o tempo todo, parece que se passou mais tempo. Segundo Damásio, “Quando estamos incomodados e preocupados, freqüentemente sentimos o tempo passar mais devagar, porque nos concentramos nas imagens negativas associadas à nossa ansiedade”.
Em outras palavras, uma aula monótona e desinteressante parece decorrer em maior tempo do que uma aula divertida e interessante, que parece passar mais rapidamente, por mais que nos dois casos, os professores passem exatamente 50 minutos do relógio em sala de aula (aliás, pela lógica do relógio, o primeiro professor deveria ganhar mais, já que passou mais tempo em sala de aula).
Essa extensão do tempo pode mesmo ser uma estratégia de sobrevivência, pois nos dá maior prazo para reação em situações de perigo.
Em setembro de 1980, o piloto de testes da marinha americana Russ Stromberg sofreu um acidente após decolar de um porta-aviões. Até o avião mergulhar no mar, ele teve 8 segundos para decidir o que fazer para se salvar. Tudo entrou em câmara lenta, disse ele, depois. Ele primeiro tentou religar o motor. Como isso não funcionou, ele decidiu se ejetar, mas para isso ele precisava verificar se estava segurando corretamente a barra do assento ejetor. No final, ele acabou se ejetando 10 metros acima da água. Mais tarde ele tentou descrever tudo que lhe passara pela cabeça durante a queda e levou 45 minutos. Ou seja, embora o tempo de relógio do acidente tenha sido de 8 segundos, para Stromberg se passaram algo em torno de 45 minutos...

quinta-feira, outubro 12, 2023

Os estóicos

 


Um dos principais representantes da corrente filosófica estoicismo, na Grécia antiga, foi o escravo Epíteto.
Como escravo, Epíteto deparava-se com um problema que dizia respeito diretamente à sua felicidade. Ao pensarmos na relação senhor-escravo, todos imaginam imediatamente que o senhor será feliz e o escravo infeliz. Afinal, o senhor tem tudo o necessário à felicidade: as melhores comidas, as melhores roupas, os mais variados divertimentos... e não precisa trabalhar. Já o escravo não tem nada, nem mesmo o seu próprio corpo, que pertence ao senhor.
Como o escravo poderia ser mais feliz que o seu dono? Isso seria possível?
O filósofo resolveu a questão através de uma inversão de valores. Para ele, o que nos deixa felizes não são as coisas que temos, mas o significado que damos a elas. Por exemplo, se um belíssimo carro nos lembra uma pessoa querida, que morreu, esse carro será fonte não de alegrias, mas de tristezas.
Para Epíteto, o que nos torna felizes é a forma como encaramos aquilo que nos ocorre. Assim, devemos distinguir entre as coisas que podemos mudar e aquelas que não podemos mudar. Entristecer-se ou preocupar-se com algo que não podemos mudar, é tolice.
Esse ponto de vista foi expresso na frase: “Deus me dê paciência para agüentar aquilo que não pode ser mudado, coragem para mudar aquilo que pode ser mudado e principalmente sabedoria para distinguir um do outro”.
Mas os estóicos não só propunham paciência para aquilo que não pode ser mudado. Na verdade, os infortúnios podem ser fonte de felicidade, dependendo do sentido que se dá a isso. Se tudo que tenho é minha roupa do corpo, mas amo essa roupa, ela é fonte de felicidade. Essencialmente, o que importa é a atitude mental. “Se sou forçado a morrer, porém não entre gemidos, a ir para a prisão, mas não em meio a lamentações, a sofrer o exílio, mas o que impede que seja alegremente e de bom humor?”, dizia Epíteto.
Para ele, o que nós realmente possuímos não são os bens, os amigos, a saúde, nem o nosso próprio corpo, mas apenas o uso de nossas representações, o significado que damos às coisas que nos ocorrem, pois ninguém pode nos forçar a um uso que não desejamos.
Assim, para estóicos, devemos passar pelos momentos tristes da mesma forma que passaríamos pelos alegres.
É tolo aquele que no dia de sol, reclama de calor e num dia de inverno, reclama do frio. Sábio é aquele que sabe usufruir o melhor tanto do inverno quanto da doença.
Curiosamente, o estoicismo, uma filosofia que tinha como um dos principais representantes um escravo, foi adotado por pessoas ricas e poderosas. O imperador Marco Aurélio (que aparece no filme Gladiador) foi um dos mais importantes adeptos do estoicismo.

sexta-feira, setembro 08, 2023

O filósofo da contracultura

 


Hebert Marcuse é um dos mais importantes filósofos da chamada Escola de Frankfurt. E também um dos que mais se distanciaram do pensamento apocalíptico que caracterizou essa escola. Enquanto Adorno chamava a polícia para reprimir os jovens revoltosos de 1968, na Alemanha, Marcuse era o líder intelectual da garotada que pretendia fazer uma revolução baseada em princípios de liberdade e beleza. A influência de Marcuse na década de 60 era tão grande que se dizia que a juventude seguia três Ms: Marx, Mao, Marcuse. 

A crítica à racionalidade técnica irá direcionar toda a sua obra. Para ele, a instrumentalidade das coisas tornava-se a instrumentalidade dos indivíduos. Em outras palavras, o ser humano era visto como uma coisa, como um instrumento, e não como um indivíduo. Ao invés do homem dominar a máquina e tecnologia, como previa a utopia iluminista, era o homem que estava sendo dominado pela máquina e pela tecnologia. As pessoas são transformadas em coisas, reproduzidas em seqüência, massificadas, como produtos saindo de uma linha de montagem. 

Marcuse denunciou a criação do chamado homem unidimensional: um indivíduo que consegue ver apenas a aparência das coisas, nunca indo até a sua essência. O homem unidimensional é conformista, consumista e acrítico. Ele se acha feliz porque a mídia lhe diz que ele é feliz e, quando se sente triste, vai ao shopping, fazer compras. 

Para Marcuse, as mudanças só ocorreriam se houvesse a liberação de uma nova dimensão humana. Um princípio básico deveria permear essa nova revolução: a liberdade.

A nova sociedade, que surgiria das ruínas da sociedade consumista, deveria ter uma dimensão estético-erótica e, no lugar do consumismo, do conformismo, da competição, surgiriam os valores da felicidade, da paz e da beleza. 

À pergunta de Adorno "É possível fazer poesia depois de Auschwitz?", Marcuse vai responder positivamente. A arte ainda é possível, desde que seja uma arte revolucionária, que denuncie a sociedade unidimensional e leve aos receptores os novos valores. Curiosamente, Marcuse vai encontrar justamente em um produto da Indústria Cultural, tanto criticada pela Escola de Frankfurt, um exemplo dessa arte revolucionária: as músicas de Bob Dylan.

Segundo o filósofo, "A arte só pode cumprir sua função revolucionária se ela não fizer parte de nenhum sistema, inclusive o sistema revolucionário". O artista deve não consolar, mas instigar o seu público e fazê-lo rever seus valores. A trajetória de Bob Dylan demonstra bem isso. Quando achou que seu público estava acostumado com suas músicas políticas, ele lançou um disco não político.

No campo dos quadrinhos, o melhor exemplo talvez seja o roteirista britânico Alan Moore. Suas histórias sempre apresentaram uma dimensão crítica, seja do sistema (em V de Vingança), seja da potencialidade destrutiva da ciência, representada pela bomba atômica (em Watchmen e Miracleman). Quando seus fãs se acostumaram com seu trabalho mais intelectualizado, ele passou a fazer histórias de super-heróis para a editora Image.

Assim, para Marcuse, a nova arte não seria uma peça de museu, mas algo vivo, a expressão de um novo tipo de homem. Em alguns momentos, a recusa da obra de arte poderia ser uma forma de fazer arte.

Esse pensamento influenciou o movimento da contracultura, com seus fanzines, revistas alternativas e rádios livres. Outra conseqüência foi a anti-arte, um movimento que, em sua versão mais branda, procura demonstrar o equívoco da arte como ornamento, como peça de museu. Um exemplo disso foi o barquinho pirata colocado pelo estudante de jornalismo Cleiton Campos no meio de obras famosas durante a última Bienal. O quadro de Cleiton não tinha qualquer valor artístico, mas valor de atitude. Colocar em dúvida o aspecto sacramental da arte pode, também, ser um tipo de arte.

quinta-feira, setembro 07, 2023

O amor trágico de Abelardo e Heloísa

 

Pedro Abelardo foi um dos mais importantes filósofos da Idade Média. Diante da questão entre realistas (que, influenciados por Platão, acreditavam que as palavras universais, como "homem", tinham existência real) e nominalistas (que acreditavam que os universais eram apenas nomes, não tendo existência nem na natureza, nem na mente), ele apresentou um terceiro caminho, o conceitualismo, que sintetizava elementos dos dois e pregava que os universais são conteúdos da mente derivadas das coisas. Com suas ideias e novas formas de ensinar, ele criou a base do ensino universitário. Mas, para além de suas ideias, Abelardo ficou mais conhecido por ter protagonizado uma das mais famosas histórias de amor de todos os tempos, influenciando o que viria a ser o romantismo. 

Depois de passar por diversas cidades e ser perseguido por sua genialidade e espírito rebelde, Abelardo chegou em Paris em 1113 e começou a lecionar na escola de Notre Dame. Nessa época já era um professor famoso e suas aulas eram concorridas. Sua metodologia revolucionária quebrava com a metodologia platônica, maravilhando os alunos com o jogo de argumentação. 

Foi nesse período que ele conheceu uma jovem de 17 anos que chamava a atenção de todos por sua beleza e inteligência, Heloísa. Interessado em conquistar a moça, o filósofo se aproximou do tio (o cônego Fulberto), com a qual ela vivia e se ofereceu para ensinar à moça gratuitamente, em troca de moradia na casa. O cônego não só aceitou a oferta, como confiou a sobrinha inteiramente à orientação do filósofo, que poderia, inclusive, castigá-la severamente caso esta não se aplicasse nos estudos. 

Inicialmente o tio acompanhava os dois em suas lições, que geralmente aconteciam à noite, quando o filósofo voltava de suas aulas, mas depois, confiando na fama de casto de Abelardo, passou a deixa-los a sós. "Assim, com a desculpa do ensino, nós nos entregávamos inteiramente ao amor, e o estudo da lição nos proporcionava as secretas intimidades que o amor desejava. Enquanto os livros ficavam abertos, introduziam-se mais palavras de amor do que a respeito da lição, e havia mais beijos do que sentenças; minhas mãos transportavam-se mais vezes aos seios do que para os livros e mais frequentemente o amor se refletia nos olhos do que a lição os dirigia para o texto", escreveu Abelardo no livro A história das minhas calamidades. O casal chegou até mesmo a simular surras corretivas para dissimular as atividades românticas e não levantar suspeitas. 

Então começa a tragédia: Fulberto flagra o casal e expulsa Abelardo de casa. Mas nessa época Heloísa já estava grávida. Ainda tremendamente apaixonado por ela, Abelardo a tira às escondidas da casa do tio e a leva para sua terra natal, onde ela fica, na casa de uma irmã do filósofo, até dar à luz ao filho do casal, Astrolábio. 

Nesse meio tempo, Abelardo procura Fulberto e se oferece para se casar com a moça, desde que isso fosse mantido em segredo, a fim de que sua reputação não fosse prejudicada. 

Heloísa, no entanto, não concordava com o plano. Segundo ela, o casamento acabaria com a carreira do amado, pois, na época, acreditava-se que um verdadeiro filósofo deveria ser celibatário. Cícero, por exemplo, ao ser instado a casar com a irmã de Hírcio, respondeu que não podia consagrar-se igualmente a uma mulher e à filosofia. "Quem poderia, aplicando-se às meditações sagradas ou filosóficas, suportar o vagido das crianças, as cantarolas das amas que embalam e a multidão barulhenta da família?", indagava Heloísa. No final, o casal concordou com o casamento, desde que ele fosse totalmente secreto. Unidos pela benção nupcial, foram cada um para lado e se viam apenas às escondidas. O tio, envergonhado com a situação, passou a divulgar o casamento. 

Abelardo, para evitar o falatório, enviou Heloísa para um convento de monjas. Ultrajado, o tio arquitetou uma vingança que se tornaria célebre: mandou castrá-lo. Além da ferida, havia a vergonha: na época os eunucos eram considerados impuros e proibidos até mesmo de entrar nas igrejas. 

Ferido no corpo e na alma, humilhado, Abelardo internou-se no mosteiro de Saint-Denis, tornando-se um monge para o resto da vida. Heloísa, com apenas 20 anos, ingressou definitivamente no convento. Desde então, os dois nunca mais se viram, apenas trocaram cartas nas quais lamentavam a má sorte que os jogara naquela situação. 

Túmulo do casal></P> Túmulo do casal<BR><BR><BR><BR>
Os dois jamais deixaram de se amar, como atesta uma das cartas de Heloísa:
Túmulo de Abelardo e Heloísa no Cemitério Padre Lachaise.

Abelardo morreu em 1142, com 63 anos. Heloísa conseguiu que se construísse uma sepultura em sua homenagem. Quando ela morreu, em 1162, foi sepultada ao lado de seu amado. Conta-se que ao abrirem a sepultura de Abelardo para enterrar Heloísa, seu copro ainda estava conservado e se mantinha de braços abertos, como se esperasse a chegada de sua amada. Em 1817 os restos mortais dos dois amantes mais famosos da Idade Média foram levados para o cemitério do Padre Lachaise. 
A história dos dois deu origem a um filme, Em nome de Deus, de 1988, de Clive Donner.