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quarta-feira, março 17, 2021

A ABNT e o professor que ensinava os alunos a fazerem parafusos

 


Uma ex-aluna de pós-graduação atualmente é professora de metodologia científica (ótima professora, por sinal) e sempre que surge uma dúvida, ela vem me procurar. Certa vez ela me contou que na faculdade em que ele trabalhava havia um professor de ética que dizia aos alunos que tudo que ela ensinava para eles estava errado. “A ABNT mudou completamente. Agora não é nada mais disso”. E ensinava para os alunos o que ele achava ser o jeito certo.
Aconselhei-a a perguntar qual tinha sido a NBR que mudou. Explico: ABNT significa Associação Brasileira de Normas Técnicas. O que muda não é a ABNT, o que muda são as normas, as NBR.
Pois bem, ao ser indagado que NBR tinha mudado, o professor gaguejou e finalmente respondeu: a NBR 36.
Essa minha amiga não sabia o que era a NBR 36, e nem eu, então entramos no site da ABNT (http://www.abntdigital.com.br) para descobrir que tipo de norma era essa. Para nossa surpresa, a NBR 36 existe, é de 1981, não é mudada desde aquela época e fala sobre... PARAFUSOS E PORCAS.
Ou seja, o tal professor estava ensinando os alunos a fazerem trabalhos universitários baseado em uma NBR sobre parafusos e porcas. Desculpem, mas não posso deixar de pensar que esse professor tem algum tipo de problema: ou é no parafuso ou é na porca...
Meninos, quando alguém aparecer dizendo que a ABNT mudou completamente, pergunte qual NBR mudou, quando e o que mudou. Se o professor não souber dizer, pode ter certeza de que ele não entende nada do assunto. A ABNT tem centenas de normas e às vezes muda a norma de papel higiênico e muita gente sai por aí dizendo que as normas para fazer trabalhos científicos mudou. Qualquer dúvida, consulte o site da ABNT.

quarta-feira, março 10, 2021

Não existe pré-projeto de pesquisa

 


A palavra projeto vem do latim “projectu”, que significa lançar para a frente. Ou seja, é algo que ainda não existe, é algo que está sendo projetado, que só existirá concretamente no futuro.
Em ciência, projeto significa um planejamento da pesquisa, com tema, delimitação, problema, hipótese, metodologia etc. O futuro do projeto dará origema algo pronto, seja um artigo, uma monografia, uma dissertação de mestrado, uma tese.
No entanto, de uns tempos para cá tornou-se comum usar a expressão ‘pré-projeto” de pesquisa. Como é necessário nomear o projeto final, passaram a usar projeto para o resultado da pesquisa. Assim, a monografia vira um projeto, subvertendo completamente o sentido da palavra “projeto”. Se está pronto, não pode ser projeto.
A situação é tão bizarra que dia desses um amigo arquiteto disse que ia me mostrar o projeto de um prédio. Achei que fosse uma maquete, ou uma planta baixa. Cheguei lá era o prédio pronto.
Provavelmente, em algum momento alguém leu um projeto de pesquisa e comentou que estava tão ruim que não era nem um projeto, mas um pré-projeto, ou seja um esboço. Alguém ouviu, achou a palavra bonita e pensou que fosse um elogio. E aí começou a confusão de se chamar o produto final de projeto e o que vem antes de “pré-projeto”.
Então, crianças: não existe pré-projeto. Se ainda não está pronto, se é apenas um planejamento, é projeto. E o produto final é o produto final, não um projeto, seja uma monografia, uma dissertação ou um edifício. 

terça-feira, novembro 17, 2020

O conhecimento artístico

 


Durante muitos anos, a visão positivista do conhecimento colocou a ciência no topo de uma pirâmide. Logo abaixo dela, vinham conhecimentos tidos como inferiores, como a filosofia, a religião e o empirismo (chamado de conhecimento vulgar). Atualmente, filósofos e cientistas começam a concordar que existem outras forma de explicar o mundo, tão importantes quanto a ciência. Uma dessas formas, cada vez mais valorizadas, é a arte. Em filmes, quadros, livros e até histórias em quadrinhos podem estar a chave para compreender o homem e o mundo em que vivemos.
Edgar Morin acredita que a arte é um elemento essencial para analisar a condição humana. No livro A cabeça bem-feita ele diz que os romances e os filmes põem à mostra as relações do ser humano com o outro, com a sociedade e o mundo: ¨O romance do século XIX e o cinema do século XX transportam-nos para dentro da História e pelos continentes, para dentro das guerras e da paz. E o milagre de um grande romance, como de um grande filme, é revelar a universalidade da condição humana¨. Assim, em toda grande obra, seja de literatura, poesia, cinema, música, pintura ou escultura, há um profundo pensamento sobre a condição humana.
Entretanto, essa maneira de ter contato com o mundo representado pela arte foi marginalizado durante décadas. 

Preconceito

O círculo de Viena, importante grupo de intelectuais do início do século XX, acreditava que a imaginação era um corpo estranho à ciência, um parasita que devia ser eliminado por aqueles que pretendem fazer uma pesquisa séria.
Numa época em que o ciência era tida como a única forma válida de explicar o mundo, isso equivalia a uma sentença de morte contra a imaginação e a criatividade. Edgar Morin, no livro Introdução ao pensamento complexo  explica que a imaginação, a iluminação e criação, sem as quais o progresso da ciência não teria sido possível, só entrava na ciência às escondidas. Eram condenáveis como forma de se chegar a um conhecimento sobre o mundo.
A valorização da criatividade e imaginação só aconteceu muito recentemente. O filósofo Karl Popper, por exemplo, ao observar as pesquisas de Einstein, que ele considerava o mais importante cientista do século XX, percebeu que toda descoberta desse cientista encerrava um ¨elemento irracional¨, uma¨ intuição criadora¨. 
O trabalho de Thomas Kuhn, ao demonstrar os aspectos sociais e históricos na construção do conhecimento científico, abriu caminho para que a arte fosse resgatada como forma de conhecimento. Afinal, se o cientista é influenciado pelo mundo em que vive, ele também é influenciado pelos romances que lê, pelos filmes que assiste e até pelas músicas que ouve.
No Brasil, um livro importante para a aceitação da arte como forma de conhecer o mundo foi A Pesquisa em arte, de Silvio Zamboni. Na obra, o autor argumenta que a arte não só é um conhecimento por si só, como também pode constituir-se em importante veículo para outros tipos de conhecimentos, pois extraímos dela uma compreensão da experiência humana e de seus valores.

Intuição

            A aceitação da arte como conhecimento implica na necessidade de compreender como ela se desenvolve. Sabe-se que existe um lado racional na produção artística, mas também existe um componente não racional e, portanto, difícil de ser verbalizado.
Uma das obras mais relevantes para a compreensão desse processo é o livro Desenhando com o lado direito do cérebro, de Betty Edwards. Baseando-se em pesquisas científicas sobre a constituição do cérebro, ela percebeu que na maioria das vezes o cérebro esquerdo é dominante na maioria das pessoas, o que dificulta a livre expressão da criatividade, já que o lado esquerdo é racional, lógico e analítico, enquanto o lado direito é intuitivo e criador.  
Uma outra forma de compreender o fenômeno é relacionar o raciocínio com o consciente e a intuição com o inconsciente. Quando se pensa que algo foi esquecido, na verdade essa informação passou para o inconsciente, sendo lembrada em momentos específicos. O psicólogo Carlo Gustav Jung dizia que a intuição nos faz ver o que está acontecendo nos cantos mais escondidos de nossa mente. O filósofo Bergson afirmava que, através da intuição, problemas que julgamos insolúveis vão se resolver, ou, antes, se dissolver, seja para desaparecerem definitivamente, seja para colocarem-se de outra maneira.
A intuição surge quando o raciocínio lógico e a observação empírica falham em processar nosso contato com o mundo. A intuição surge repentinamente, sem a necessidade de qualquer percepção que passe pelos sentidos. Ela registra-se ao nível do inconsciente.
Casos de intuições são relatados nas mais diversas culturas e são tantos que desafiam uma catalogação. Após grandes acidentes aéreos é comum descobrir casos de pessoas que iam viajar naquele avião, mas, sem nenhuma explicação racional, decidiram voltar para casa.
A intuição e o uso do lado direito do cérebro não são exclusivos dos artistas. Cientistas, por exemplo, usam a intuição e a criação para elaborarem hipóteses. Entretanto, na arte, a intuição e a criação são fundamentais.
A intuição criadora, segundo os psicanalistas neofreudianos, estaria vinculada não ao inconsciente, mas ao pré-consciente, já que pode ser acessada quando ocorre um relaxamento da parte racional. Os artistas teriam essa capacidade plenamente desenvolvida, o que lhes permitiria criar obras que são importantes intuições da condição humana.

Discos voadores

Numa tarde de outubro de 1957, o futuro escritor Stephen King, então com 10 anos, estava em um cinema na cidade de Stratford, Conencticut. O filme chamava-se A invasão dos discos voadores. Na tela, os ocupantes de naves extra-terrestres eram criaturas velhas e extremamente maldosas, com seus corpos nodosos e cara enrugadas. Eles traziam raios mortais, destruição em massa e a guerra total.
Quando o filme se aproximava do clímax, as luzes acenderam e o gerente subiu ao palco. Ele parecia nervoso e pálido. ¨Eu gostaria de lhes comunicar que os russos acabam de colocar um satélite m órbita: ele se chama Sputinik¨, disse.
Um silêncio mortal tomou conta da platéia. Logo o filme recomeçou, com a voz gutural dos extraterrestres se espalhando por todos os lados: ¨Olhem para o céu... um aviso virá dos céus... olhem para o céu...¨.
King pela primeira vez sentiu medo ao saber que os russos tinham um mecanismo no espaço, talvez sobre sua cabeça. Mas na tela tudo acabou bem. O mocinho descobriu uma arma secreta e os discos voadores foram derrotados. Os alto-falantes anunciaram em todas as eqüinas: ¨Perigo superado... perigo superado¨ e o medo mais profundo daquelas crianças, o de uma guerra nuclear, foi extirpado. Segundo King, foi um momento mágico de reintegração e segurança. Ele concluiu que inventamos horrores imaginários para poder suportar os horrores verdadeiros.
Assim, as salas de cinema na década de 1950 eram imensos divãs de analistas, onde as pessoas faziam uma sessão coletiva de catarse, do medo da terceira guerra mundial. Não é por outra razão que esse tipo de filme se tornou extremamente popular na época.

Loucos tiranos
Processo semelhante aconteceu na Alemanha da década de 1920. Nessa época proliferaram os filmes expressionistas, com vilões em busca do poder. Exemplos disso são O Consultório do Dr. Caligari, em que um psicólogo usa de seus conhecimentos para induzir um sonâmbulo a praticar crimes e Dr. Marbuse (Fritz Lang, 1922), em que um vilão assume diversas personalidades e lidera um bando de assassinos que aterrorizam a cidade.
Siegrifried Kracauer no livro De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão explica que os filmes de uma nação refletem a mentalidade desta de uma maneira mais direta que qualquer outro meio artístico. Isso acontece por dois motivos. Primeiro, porque tais filmes nunca são produto de uma só pessoa. Segundo, porque são destinados a multidões de indivíduos anônimos e fazem sucesso por revelar processos mentais ocultos. Assim, os filmes expressionistas eram protótipos da loucura e tirania que tomaria conta da Alemanha na década de 1930, sob a égide do nazismo, o que jogaria o país e o mundo em uma guerra desastrosa. Da mesma forma que os vilões do cinema, Hitler teria colocado o povo alemão numa espécie de hipnose que libertaria seu lado mais cruel.


Antecipação espacial
A arte constantemente não só analisa a sociedade de uma época, como antecipa suas realizações. Exemplo disso são as histórias em quadrinhos de Flash Gordon e Buck Rogers.
A tira de Buck Rogers surgiu pela primeira vez em janeiro de 1929. Na primeira história os leitores dos jornais conheciam um piloto que adormecia por inalação de um gás radioativo e acorda no ano de 2419, numa época em que a América tinha sido invadida por orientais e os americanos resistiam escondendo-se nas florestas.
Logo na terceira tira, a heroína Wilma apresenta a Buck Rogers uma mochila anti-gravitacional que lhe permite dar saltos tremendos. Para direcionar o saltos, os homens usavam o recuo de pistolas, o mesmo método que seria usado posteriormente pelos astronautas norte-americanos.
            Em 1984, quando os primeiros astronautas passearam no espaço sem estarem ligados à nave, muitos se lembraram que a cena era muito parecida com aquela tira de Buck Rogers: havia a mochila e o recuo da arma sendo usado para direcionar o astronauta.
Flash Gordon surgiu pela primeira vez nos jornais em 7 de janeiro de 1934. Desenhado pelo talentoso Alex Raymond, logo entrou na galeria dos personagens que antecipavam descobertas científicas. Raymond, ao contrário dos criadores de Buck Rogers, não tinha a consultoria de um grupo de cientistas, o que provavelmente o deixou solto para suas intuições tecnológicas.
Flash Gordon antecipou o forno microondas, mostrou mil e uma utilidades para o raio laser, e até antecipou o uso da mini-saia pela mulheres.
A própria NASA admitiu num boletim oficial que as histórias em quadrinhos do personagem foram usadas para solucionar problemas de suas cosmonaves. Uma visão atenta nas fotos do projeto Apolo permitem perceber influências no formato das naves e até no traje dos astronautas, especialmente se compararmos com a fase de Flash desenhada por Dan Barry.
Mas Flash Gordon não foi só antecipação. A série representou bem um momento da história em que as pessoas tinham total confiança na ciência, na tecnologia e no racionalismo. Essa época ficou conhecida como modernidade. Hoje, num período pós-moderno, é fácil perceber os componentes modernos nas tiras do personagem. Os cientistas eram mostrados sempre como pessoas boas, que traziam soluções para os problemas da humanidade. Até mesmo quando estava relacionada a projetos militares, a técnica era vista como algo bom. Numa das histórias, por exemplo, Flash vai parar em um planeta semelhante à Idade Média terrestre. Os humanos ajudam um grupo de rebeldes ensinando-os a fazer armas de fogo. O líder agradece-os pelo conhecimento que levaram ao planeta: ¨Conhecimento para pensar e fazer coisas! Conhecimento que nos trará a verdade, e a verdade nos tornará livres!¨, diz ele, apontado para um arsenal de armas.
Hoje, filósofos pós-modernos criticam a relação entre ciência e militarismo, que já estava implícita nas tiras de Flash Gordon.


Júlio Verne
No campo das antecipações, também a literatura se destaca. Exemplo disso são os romances de Júlio Verne, também exemplos perfeitos da crença absoluta na técnica e na ciência. Verne não só antecipou descobertas científicas, como, principalmente ajudou a popularizar essa forma de conhecimento, inspirando vários cientistas. A relação de Verne ao influenciar e ser influenciado por cientistas, mostra como essa troca é mais complexa do que se imagina.
Verne publicou seu primeiro romance científico, Cinco Semanas Num Balão, em 1863. Há apenas cinco anos havia sido publicado o livro A Origem das Espécies, de Darwin. Há pouco tempo Pasteur divulgara suas descobertas, que derrubavam a teoria da geração espontânea e lançava a teoria dos vermes como causadores de doenças. As descobertas científicas ocorriam numa sucessão cada vez mais rápida. Entretanto, o povo, o cidadão comum, ainda via a ciência como uma desconhecida. A própria palavra ciência era relativamente nova em 1868. A ciência estava além do alcance do homem comum. Pouco havia sido escrito que ele entendesse, ou de um modo que o tentasse à leitura. Era costume, naquele tempo, deixar a ciência aos inventores e químicos com suas máquinas esquisitas e estranhos tubos e recipientes.
                Interessante notar que nos livros do autor de Vinte Mil Léguas Submarinas a ciência não aparece apenas como um apoio da narrativa. Verne profetiza um mundo onde ciência e técnica fazem parte do dia-a-dia do cidadão comum.
                Não há dúvida nenhuma, no entanto, de que primeiro romance de Verne, Cinco Semanas num Balão, foi baseado em fatos científicos da época. Verne era colaborador da revista Museu das Famílias, para a qual escrevia textos de divulgação científica. Esse trabalho o obrigava a passar longas horas na Biblioteca Nacional, consultando livros, revistas e toda sorte de documentos da época. Além disso, o escritor era amigo  de Nadar, cientista e fotógrafo e  entusiasta do vôo e do mais pesado que o ar.
O balão de Cinco Semanas, assim como o aparelho voador de Robur, o Conquistador, eram nada mais que a concretização literária dos sonhos de Nadar.
O escritor, que se deixou influenciar por cientistas e fundamentou seus livros no conhecimento científico da época, influenciou também ele os cientistas e técnicos. Vários cientistas e inventores declararam que tiraram sua inspiração dos livros de Verne.
Verne mostrou em seus livros diversas realizações que só se tornaram realidade tempos depois:  os aviões, os helicópteros, os submarinos, a viagem à lua. Nesse último item, ele intuiu até mesmo o lugar de onde sairia o foguete: o estado norte-americano da Flórida.

Seriados
Mais recentemente, seriados têm discutido a condição humana tão bem que têm chamado a atenção da ciência.
O seriado Arquivo X, sucesso durante anos nas televisões de todo o mundo, mostrou como poucas outras obras a condição do homem pós-moderno. Na modernidade, a humanidade e acreditava piamente na ciência e na razão. Havia a idéia de que a ciência e técnica nos levariam a um mundo perfeito, o sonho de Júlio Verne. Mas a modernidade não realizou suas promessas. Se por um lado, a medicina aumentou a expectativa de vida da população, a industrialização fez proliferar os casos de câncer. Essa mesma ciência foi usada pelos nazistas nos campos de concentração, em experiências cruéis e no assassinato em massa. E foi a ciência e a tecnologia que criaram a bomba atômica, um artefato capaz de destruir toda a vida humana no planeta. Assim, a pós-modernidade é justamente uma crítica à visão ingênua sobre a ciência. Em muitos sentidos, essa crítica se transformou num resgate dos saberes tradicionais, inclusive religiosos.
O homem pós-moderno vive, portanto entre o ceticismo da ciência e a crença em coisas que não podem ser provadas cientificamente, como a magia, as simpatias, o horóscopo, os discos voadores. Essa dualidade é representada pelos dois personagens principais da série Arquivo X: a agente Sculy é a cética, que só acredita naquilo que pode ser provado cientificamente. Seu parceiro, Mulder, ao contrário, tem no escritório um pôster com um disco voador e os dizeres: ¨Eu quero acreditar¨.
Outro seriado de grande sucesso é Lost, sobre sobreviventes de um desastre de avião presos em uma ilha misteriosa. Logo nos primeiros episódios, revela-se que alguns dos sobreviventes na verdade não estava no avião. Eram ¨Os outros¨, um grupo de pessoas que se infiltra entre os sobreviventes com objetivos escusos e chegam a raptar alguns dos protagonistas.  
Da mesma forma que os filmes de discos voadores sintetizaram o medo de uma invasão russa durante os anos 1950, Lost sintetiza o medo do homem ocidental no mundo pós-11 de setembro. A referência óbvia é o desastre de avião, que, cogitava-se, poderia ter acontecido por causa de um atentado. Uma referência mais sutil são os outros. Esses são os terroristas, que vivem entre as outras pessoas, sem levantar suspeitas, até o momento de agirem.
Dessa forma, a arte cria uma maneira de explicar o mundo que não só antecipa inovações científicas e tecnológicas, mas também analisa a sociedade e o homem de uma forma que outros conhecimentos não conseguem. Como diz Edgar Morin, no livro A cabeça bem-feita: ¨em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escutura, há um pensamento profundo sobre a condição humana¨.

sábado, março 28, 2020

Não existe pré-projeto de pesquisa



A palavra projeto vem do latim “projectu”, que significa lançar para a frente. Ou seja, é algo que ainda não existe, é algo que está sendo projetado, que só existirá concretamente no futuro.
Em ciência, projeto significa um planejamento da pesquisa, com tema, delimitação, problema, hipótese, metodologia etc. O futuro do projeto dará origema algo pronto, seja um artigo, uma monografia, uma dissertação de mestrado, uma tese.
No entanto, de uns tempos para cá tornou-se comum usar a expressão ‘pré-projeto” de pesquisa. Como é necessário nomear o projeto final, passaram a usar projeto para o resultado da pesquisa. Assim, a monografia vira um projeto, subvertendo completamente o sentido da palavra “projeto”. Se está pronto, não pode ser projeto.
A situação é tão bizarra que dia desses um amigo arquiteto disse que ia me mostrar o projeto de um prédio. Achei que fosse uma maquete, ou uma planta baixa. Cheguei lá era o prédio pronto.
Provavelmente, em algum momento alguém leu um projeto de pesquisa e comentou que estava tão ruim que não era nem um projeto, mas um pré-projeto, ou seja um esboço. Alguém ouviu, achou a palavra bonita e pensou que fosse um elogio. E aí começou a confusão de se chamar o produto final de projeto e o que vem antes de “pré-projeto”.
Então, crianças: não existe pré-projeto. Se ainda não está pronto, se é apenas um planejamento, é projeto. E o produto final é o produto final, não um projeto, seja uma monografia, uma dissertação ou um edifício. 

quarta-feira, março 11, 2020

A ABNT e o professor que ensinava os alunos a fazerem parafusos


Uma ex-aluna de pós-graduação atualmente é professora de metodologia científica (ótima professora, por sinal) e sempre que surge uma dúvida, ela vem me procurar. Certa vez ela me contou que na faculdade em que ele trabalhava havia um professor de ética que dizia aos alunos que tudo que ela ensinava para eles estava errado. “A ABNT mudou completamente. Agora não é nada mais disso”. E ensinava para os alunos o que ele achava ser o jeito certo.
Aconselhei-a a perguntar qual tinha sido a NBR que mudou. Explico: ABNT significa Associação Brasileira de Normas Técnicas. O que muda não é a ABNT, o que muda são as normas, as NBR.
Pois bem, ao ser indagado que NBR tinha mudado, o professor gaguejou e finalmente respondeu: a NBR 36.
Essa minha amiga não sabia o que era a NBR 36, e nem eu, então entramos no site da ABNT (http://www.abntdigital.com.br) para descobrir que tipo de norma era essa. Para nossa surpresa, a NBR 36 existe, é de 1981, não é mudada desde aquela época e fala sobre... PARAFUSOS E PORCAS.
Ou seja, o tal professor estava ensinando os alunos a fazerem trabalhos universitários baseado em uma NBR sobre parafusos e porcas. Desculpem, mas não posso deixar de pensar que esse professor tem algum tipo de problema: ou é no parafuso ou é na porca...
Meninos, quando alguém aparecer dizendo que a ABNT mudou completamente, pergunte qual NBR mudou, quando e o que mudou. Se o professor não souber dizer, pode ter certeza de que ele não entende nada do assunto. A ABNT tem centenas de normas e às vezes muda a norma de papel higiênico e muita gente sai por aí dizendo que as normas para fazer trabalhos científicos mudou. Qualquer dúvida, consulte o site da ABNT.

terça-feira, janeiro 07, 2020

O método cartesiano

Um dos pensadores mais importantes da humanidade foi o filósofo francês René Descartes. Suas idéias mudaram a forma de pensar do mundo ocidental e inauguraram os pilares da metodologia científica.
Descartes era tudo, menos humilde. Ele queria criar uma nova forma de pensar, que fosse mais adequada aos novos tempos. É importante lembrar que o filósofo viveu em uma época de mudanças. O mundo passava do geocentrismo (a idéia de que tudo, inclusive o Sol, gira ao redor da Terra) ao heliocentrismo (a idéia de que é a Terra que gira ao redor do Sol), as grandes navegações demonstravam que havia todo um mundo a ser descoberto, a imprensa tornava possível que um pensamento se dissipasse com grande velocidade e, finalmente, os reis passavam a ter mais poder do que jamais tiveram em toda a Idade Média.
Em 1619, Descartes teve um sonho em que o espírito da verdade descia sobre ele. A partir desse dia, passou a se dedicar à busca da verdade e de uma nova forma de pensar, que tornasse o caminho em direção à verdade mais rápido.
Depois de andar por boa parte do mundo conhecido, recolhendo conhecimentos, Descartes se isolou em busca de um método próprio. Ele percebeu que o método característico da Idade Média, a lógica, não o levaria longe: “Verifiquei que, quanto à lógica, os seus silogismos e a maior parte de suas restantes instruções serviam mais para explicar aos outros as coisas que já se sabem”, escreveu ele no seu livro O Discurso do Método.          
O novo pensamento, criado por Descartes, seria baseado em quatro princípios:
1 – Nunca aceitar como verdadeira nenhuma coisa que não se conhecesse evidentemente como tal.
Ou seja, duvidar sempre. Aí o filósofo difere o conhecimento científico do teológico, baseado na fé. Enquanto a religião prega o acreditar sempre, a ciência partiria sempre da dúvida.
2 – Dividir cada uma das dificuldades que devesse examinar em tantas partes quanto fosse possível e necessário para resolvê-las.  
Descartes inaugurou com esse princípio a divisão do saber. Segundo a lógica cartesiana, não devemos pesquisar o fenômeno no todo, mas em partes. Para conhecer o corpo humano, devo dividi-lo em partes e estudar uma a uma.  Esse princípio deu origem à especialização que se reflete na própria organização da escola. Temos professores de geografia, história, ciências, literatura, redação... muitas vezes o professor de história não entende nada de geografia e o professor de literatura não sabe nada de redação. A crítica a esse princípio seria a base do pensamento da cibernética e de Edgar Morin.
3 – Conduzir em ordem os pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para chegar, aos poucos, gradativamente, ao conhecimento dos mais compostos, e supondo também, naturalmente, uma ordem de precedência de uns em relação aos outros.
Em outras palavras, ao resolver um problema devemos solucionar primeiro as partes mais simples para depois chegar às mais complexas. Esse princípio também leva a crer que o complexo é na verdade uma junção de partes simples, uma idéia que depois seria criticada por pensadores como Edgar Morin.
4 – Fazer, para cada caso, enumerações tão completas e revisões tão gerais que tivesse a certeza de não ter omitido nada.
Esse princípio, certamente advindo da matemática, teve como conseqüência, na ciência, na idéia de que não se deve confiar no primeiro resultado de uma experiência. O cientista deve refazer suas experiências à exaustão até ter certeza de que o resultado está correto. Mesmo em uma pesquisa bibliográfica esse princípio pode ser adotado. Já vi alunos que, ao fazerem uma pesquisa, usam apenas um livro como referência. Isso não é pesquisa, é cópia. Um trabalho de pesquisa deve comparar as idéias de informações de vários autores. Confiar na primeira obra que encontramos pode ser perigoso, pois o autor pode estar equivocado.
Alguns anos depois, um cientista inglês, Isaac Newton, usaria os princípios de Descartes para resolver um problema científico: por que a Lua não cai na Terra? Mas antes disso, Descartes usou o método para resolver um problema  filosófico.
O que o filósofo se perguntou é como podemos chegar a certezas. Ele já havia identificado que os sentidos não são confiáveis. Afinal, as pessoas haviam acreditado durante anos que o Sol girava ao redor da Terra simplesmente porque os sentidos lhe diziam isso.
Quantas vezes não somos enganados por nossos sentidos? Às vezes estamos em um navio e achamos que já começou a viagem, quando na verdade foi o barco ao lado que começou a se movimentar? Quantas vezes não temos sonhos que parecem perfeitamente reais?
A não confiabilidade dos sentidos fica demonstrada em filmes como Matrix. Neo acreditava piamente que a vida que levava era real, até descobrir que tudo era uma ilusão criada por um programa de computador...
No filme Uma Mente Brilhante, o personagem principal, um ganhador do prêmio Nobel, conversava com pessoas que não existiam. 
Descartes imaginou-se dominado por um demônio da dúvida que o faria ter dúvida de tudo. Se eu duvido de tudo, se duvido até mesmo se estou realmente aqui escrevendo este texto, qual a minha única certeza?
A minha única certeza é de que tenho dúvidas. Se tenho dúvidas é porque penso. Se penso, logo existo. Cogito ergo sum.
Esse raciocínio de Descartes teve duas conseqüências. Por um lado a ciência procurou aperfeiçoar cada vez mais os instrumentos de pesquisa para fugir da validação subjetiva. Balanças, cronômetros, questionários, observação sistemática são instrumentos de pesquisa que tentam fugir da dúvida deixada pelos sentidos. Na filosofia, as idéias de Descartes inauguram o postulado da razão, que dominaria toda a Idade Moderna.

sábado, janeiro 04, 2020

O que é indução?


Indução é o princípio segundo o qual deve-se partir das partes para o todo. Ou seja, ao fazer uma pesquisa, deve-se  ir coletando casos particulares e, depois de certo número de casos,  pode-se  generalizar, dizendo que sempre que a situação se repetir o resultado será o mesmo.
         Se, por exemplo, eu quero saber a que temperatura a água ferve. Coloco água no fogo e, munido de um termômetro, meço a temperatura. Descubro que a fervura aconteceu a 100 graus centígrados.
         Repito a experiência e chego ao mesmo resultado. Repito de novo e vou repetindo até chegar à conclusão de que a água sempre ferverá a 100 graus centígrados.
         Umberto Eco dá um outro exemplo curioso: os sacos de feijões.
         Vejo um saco opaco sobre a mesa. Quero saber o que tem no mesmo. Uso o método indutivo: vou tirando o conteúdo do saco um a um. Da primeira vez, me deparo com um feijão branco. Na outra tentativa, de novo um feijão branco. Repito a experiência até achar que está bom (ou até acabar a verba). Então extraio uma lei: dentro deste saco só há feijões brancos. 

quinta-feira, dezembro 19, 2019

Karl Popper: a ciência é caracterizada pelo falseamento


Para Karl Popper, a ciência é caracterizada pelo falseamento. Ou seja, uma teoria só é científica se for possível provar que ela está errada.

         Assim, seria não-científico afirmar que vai chover amanhã. É certo que amanhã vai chover em algum lugar do planeta, em algum horário.

         É científico dizer que vai chover amanhã às 17 horas em Macapá, pois essa afirmação é passível de falseamento.

         A ciência não aceita formulações vagas, que não podem ser falseadas, características dos videntes e cartomantes: “Você vai viver um grande amor”; “Um grande reino vai cair”. É impossível provar que essas afirmações são falsas. Em algum momento a pessoa vai viver um grande amor e em uma guerra, inevitavelmente um reino irá ser derrotado.
         Para Popper, O cientista não deveria procurar fatos que comprovassem sua tese, mas fatos que o falseassem, que provassem que ela é falsa.

Imaginemos que estejamos estudando as galinhas. Pesquiso uma e descubro que ela bota ovos. Encontro outra galinha e observo o mesmo comportamento. Por indução, chego à conclusão de que todas as galinhas botam ovos. Para Popper isso não é científico, pois se eu encontrar uma única galinha que não bote ovos, minha tese cai por terra.

Para Popper, a indução é falha e a única maneira de sermos científicos é usarmos a dedução.

         Assim, eu crio uma lei geral: todas as galinhas botam ovos. Então pego uma galinha ao acaso e verifico se ela bota ovos. Se isso ocorrer, a tese está correta, por ora. Se um dia aparecer uma galinha que não bote ovos, a tese será falseada.

Popper nos ensinou que as verdades científicas são provisórias. São apenas hipóteses esperando pelo falseamento.

segunda-feira, dezembro 02, 2019

O que é dedução?


A dedução é uma forma de raciocínio científico segundo o qual devemos partir do geral para o particular. Assim, devemos primeiro criar uma lei geral e depois observar casos particulares e verificar se essa lei não é falseada. Para os adeptos da dedução, o cientista não precisa de mil provas indutivas. Basta uma única prova dedutiva para que a lei possa ser considerada válida.
         No exemplo do saco, imaginem que o vendedor nos disse que ele estava cheio de feijões brancos. Eu então retiro um feijão de dentro do saco. Se for um feijão branco, então minha hipótese está, por enquanto, correta.
         Um problema da dedução é que ela geralmente se origina de induções anteriores. Geralmente fazemos uma lei geral depois de já termos observado casos particulares. 

domingo, novembro 03, 2019

Conhecimento teológico

Você acredita em Deus? Por quê? A uma pergunta dessas, dificilmente alguém responderá que acredita em Deus porque o viu ou porque a lógica científica o diz.
         O conhecimento religioso, portanto, não surge da observação empírica ou da lógica. A história de São Tomé, que precisou ver as chagas de cristo para acreditar é contada como exemplo de falta de fé. A fé não depende da observação empírica. 
É um conhecimento revelado, razão pela qual dizemos que ele se baseia na fé. Uma pessoa tem uma revelação sobre uma verdade eterna e a divulga a outras pessoas, que acreditam na mensagem e passam a também propagá-la e assim surgem as religiões (ou através de diversas revelações).
         Existiram muitas tentativas de explicar Deus através da razão, da lógica filosófica, por exemplo, mas alguém que nunca ouviu esses argumentos pode, ainda assim, ter fé nos dogmas desta ou daquela religião. Só podemos entender suas verdades se acreditarmos.
         O conhecimento teológico está baseado no discurso da autoridade. A autoridade é Deus, que revela aos homens suas verdades, ou o profeta. Ao discutir com uma pessoa religiosa, ela certamente usará em seu discurso frases como “Está na Bíblia”, a “Bíblia diz isso”, que revelam a importância do discurso da autoridade para esse tipo de conhecimento.

quarta-feira, abril 03, 2019

Sherlock Holmes e a navalha de Ockham

A melhor piada que já ouvi sobre a Navalha de Ockham:
Sherlock Holmes e Dr. Watson vão acampar. Montam a barraca e, depois de uma boa refeição e uma garrafa de vinho, deitam-se para dormir.
Algumas horas depois, Holmes acorda e cutuca seu fiel amigo:
- Meu caro Watson, olhe para cima e diga-me o que vê. 
Watson responde:
- Vejo milhares e milhares de estrelas.
Holmes então pergunta:
- E o que isso significa?
Watson pensa um pouco. Depois responde:
- Significa que há milhares, talvez milhões de estrelas.
- Não, Watson, não é isso!
- Signifia que Saturno está em Leão e teremos um dia de sorte amanhã.
- Não, Watson, não é isso!
- Significa que são 3:15 da manhã pela altura da Estrela Polar.
- Não, Watson, não é isso!
- O céu está limpo, o que significa que teremos um belo dia amanhã!
- Watson, roubaram a barraca!!!!!!

quinta-feira, março 28, 2019

A ABNT e o professor que ensinava os alunos a fazerem parafusos




Uma ex-aluna de pós-graduação atualmente é professora de metodologia científica (ótima professora, por sinal) e sempre que surge uma dúvida, ela vem me procurar. Certa vez ela me contou que na faculdade em que ele trabalhava havia um professor de ética que dizia aos alunos que tudo que ela ensinava para eles estava errado. “A ABNT mudou completamente. Agora não é nada mais disso”. E ensinava para os alunos o que ele achava ser o jeito certo.
Aconselhei-a a perguntar qual tinha sido a NBR que mudou. Explico: ABNT significa Associação Brasileira de Normas Técnicas. O que muda não é a ABNT, o que muda são as normas, as NBR.
Pois bem, ao ser indagado que NBR tinha mudado, o professor gaguejou e finalmente respondeu: a NBR 36.
Essa minha amiga não sabia o que era a NBR 36, e nem eu, então entramos no site da ABNT (http://www.abntdigital.com.br) para descobrir que tipo de norma era essa. Para nossa surpresa, a NBR 36 existe, é de 1981, não é mudada desde aquela época e fala sobre... PARAFUSOS E PORCAS.
Ou seja, o tal professor estava ensinando os alunos a fazerem trabalhos universitários baseado em uma NBR sobre parafusos e porcas. Desculpem, mas não posso deixar de pensar que esse professor tem algum tipo de problema: ou é no parafuso ou é na porca...
Meninos, quando alguém aparecer dizendo que a ABNT mudou completamente, pergunte qual NBR mudou, quando e o que mudou. Se o professor não souber dizer, pode ter certeza de que ele não entende nada do assunto. A ABNT tem centenas de normas e às vezes muda a norma de papel higiênico e muita gente sai por aí dizendo que as normas para fazer trabalhos científicos mudou. Qualquer dúvida, consulte o site da ABNT.

domingo, março 24, 2019

Não existe pré-projeto de pesquisa



A palavra projeto vem do latim “projectu”, que significa lançar para a frente. Ou seja, é algo que ainda não existe, é algo que está sendo projetado, que só existirá concretamente no futuro.
Em ciência, projeto significa um planejamento da pesquisa, com tema, delimitação, problema, hipótese, metodologia etc. O futuro do projeto dará origema algo pronto, seja um artigo, uma monografia, uma dissertação de mestrado, uma tese.
No entanto, de uns tempos para cá tornou-se comum usar a expressão ‘pré-projeto” de pesquisa. Como é necessário nomear o projeto final, passaram a usar projeto para o resultado da pesquisa. Assim, a monografia vira um projeto, subvertendo completamente o sentido da palavra “projeto”. Se está pronto, não pode ser projeto.
A situação é tão bizarra que dia desses um amigo arquiteto disse que ia me mostrar o projeto de um prédio. Achei que fosse uma maquete, ou uma planta baixa. Cheguei lá era o prédio pronto.
Provavelmente, em algum momento alguém leu um projeto de pesquisa e comentou que estava tão ruim que não era nem um projeto, mas um pré-projeto, ou seja um esboço. Alguém ouviu, achou a palavra bonita e pensou que fosse um elogio. E aí começou a confusão de se chamar o produto final de projeto e o que vem antes de “pré-projeto”.

Então, crianças: não existe pré-projeto. Se ainda não está pronto, se é apenas um planejamento, é projeto. E o produto final é o produto final, não um projeto, seja uma monografia, uma dissertação ou um edifício. 

terça-feira, janeiro 22, 2019

Redação científica: características

“As pessoas tendem a colocar palavras onde faltam idéias”
Johann Wolfgang von Goethe


Uma das grandes dificuldades de quem vai produzir uma monografia é confundir texto científico com texto de divulgação científica. Ao pedir para alunos textos científicos, a maioria me traz revista como a Galileu, a Superinteressante ou a Revista dos Curiosos. Essas revistas são exemplos do que é chamado de comunicação científica secundária.
Na comunicação científica primária, o cientista fala para outro cientista. Exemplos de comunicação científica primária são as monografias, teses, dissertações de mestrado e papers. Na comunicação científica secundária, o cientista, ou um repórter, divulga conhecimentos científicos a um público leigo, formado na sua maioria por não cientistas.
Embora revistas como a Superinteressante tenham características de textos científicos (é importante lembrar que o texto jornalístico tem muitas semelhanças com o científico), elas não seguem normas de apresentação de trabalho exigidas em comunicações científicas.
Entre as características dos textos científicos, podemos citar os seguintes:
1.Linguagem unívoca;
2.linguagem impessoal;
3.uso de citações (argumento da autoridade – paradigma);
4.referências;
5.clareza.