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quinta-feira, outubro 01, 2026

Onde você quer dizer com isso?

 


Dizem que Vicente Mateus, o presidente do Corinthias, pediu para a secretária fazer uma convocação, marcando uma reunião para uma sexta-feira. A secretária perguntou:
- Sexta-feira se escreve com x ou com s?
E ele:
- Marca a reunião para a quinta.
Se fosse hoje, ele diria:
- Coloca onde.
E a frase ficaria algo como “A Diretoria do Corinthias marca uma reunião para a onde-feira”.
Parece piada, mas é exatamente o que estão fazendo com o “onde”. “Onde” é advérbio e se refere a lugar. Tem o sentido e “no lugar em que”. Mas essa palavra virou o coringa da língua portuguesa, sendo usado no lugar de qualquer palavra que a pessoa não se lembre no momento. Assim, ele tem substituído palavras tão díspares quanto “porém”, “pois”, “quando”, “assim”, “e”, “em que”, “no qual”,  “enquanto”, “todavia” e muitas outras.
Assim, temos frases como:
A teoria ONDE o filósofo argumenta...
O rapaz roubou o pão ONDE estava com fome.
Eu gosto de pizza, ONDE vou comer tudo.
A Educação a distância é um processo mediado de aprendizagem ONDE professores e alunos estão separados.
Compre o produto ONDE ganhe o cupom.
O atentado aconteceu ONDE o secretário estava de férias.

Se formos levar ao pé da letra, a interpretação dessas frases seria:

A teoria NO LUGAR EM QUE o filósofo argumenta...
O rapaz roubou o pão NO LUGAR EM QUE estava com fome.
Eu gosto de pizza, NO LUGAR EM QUE vou comer tudo.
A Educação a distância é um processo mediado de aprendizagem NO LUGAR EM QUE professores e alunos estão separados.
Compre o produto NO LUGAR EM QUE ganhe o cupom.
O atentado aconteceu NO LUGAR EM QUE o secretário estava de férias.

Na verdade, o que se queria dizer era:

A teoria NA QUAL o filósofo argumenta...
O rapaz roubou o pão, POIS estava com fome.
Eu gosto de pizza, PORTANTO vou comer tudo.
A Educação a distância é um processo mediado de aprendizagem NO QUAL professores e alunos estão separados.
Compre o produto E ganhe o cupom.
O acidente aconteceu ENQUANTO o secretário estava de férias.

Algumas vezes é quase impossível entender o que o autor queria dizer, como em:
Sempre com novas atração, ONDE nosso objetivo é sua opinião.


E o cúmulo quando encontrei o seguinte exemplo em um trabalho:
Faça sua pesquisa DONDE tire uma hipótese.

Além de ser gramaticalmente incorreto, o uso indevido do ONDE dificulta a compreensão do texto, prejudicando o processo de comunicação e ocasionando equívocos. Assim, da próxima vez em que for usar a palavra ONDE, pense bem e veja se é isso mesmo que você está querendo dizer. Na dúvida, troque o “onde” por “no lugar em que”. Se der certo, o onde está correto, caso não, coloque a palavra correta.

sexta-feira, agosto 28, 2026

O historiador

 


Eu fui o primeiro coordenador do primeiro curso de comunicação do Amapá, em uma faculdade particular. Como era a primeira do estado, recebia muitas visitas inusitadas, como gente que não tinha sequer graduação querendo lecionar no curso. Mas o caso mais bizarro foi de um boliviano que chegou com uma pasta repleta de papeis sujos.

Ele se apresentou com pesquisador de história brasileira e queria ministrar uma palestra para nossos alunos. Era um negócio imperdível: uma palestra totalmente gratuita lecionada por um boliviano que havia descoberto fatos surpreendentes e totalmente inéditos sobre a história do Brasil!

Pedi para ver os papéis que ele trazia na pasta e era um amontoado de textos, sem citações, referências, nada. Parecia ser algo escrito por alguém que nunca tinha ouvido falar da ABNT. Ele me apresentou um diploma de graduação que achei muito suspeito e alguns papéis que deveriam comprovar que ele tinha mestrado e doutorado, mas não eram diplomas.

Perguntei qual era o órgão que financiava as pesquisas dele.

- Não recebo bolsa de nenhum órgão. Sou um pesquisador independente! – respondeu ele, com orgulho.

Indaguei quais eram essas novidades extraordinárias que ele havia descoberto e ele me deu uma prévia, empolgado. Na palestra, ele contaria, por exemplo, a origem da palavra Brasil que, pasmem, tinha relação com uma madeira que existia em nossas terras da qual era extraído um corante.

Olhei para ele, esperando uma risada que comprovasse que se tratava de uma pilhéria. Esse é o tipo de informação que eu havia tido nos primeiros anos de estudo, quando ainda era criança. Mas ele permanecia sério, esperando por aplausos como se tivesse dito uma grande novidade.

Ele tinha uma outra pasta, repleta de recortes de palestras que havia ministrado em faculdades particulares em cidades pequenas.

No final, eu o dispensei argumentando que precisava antes pedir a autorização do diretor e que o diretor estava viajando etc... mas fiquei me perguntando o que ele ganharia com essa palestra. Deveria haver algum golpe por trás disso.

Só fui entender tudo algum tempo depois quando descobri que ele de fato havia conseguido ministrar a tal palestra em uma outra faculdade local.

O golpe era o seguinte: ele ministrava a palestra, conseguia uma matéria de jornal e depois se apresentava nas escolas particulares se dizendo professor daquela faculdade e cobrando pela tal palestra um valor altíssimo.

Em Macapá mais de uma dezena de escolas haviam caído nesse golpe. A pessoa que me contou, dono de uma escola particular, chegou a comentar: “Eu não entendi como a faculdade tal poderia contratar alguém tão desqualificado. A palestra dele não fazia sentido nenhum!”.

Claro que era um golpe que tinha um prazo de validade (em algum momento os donos das escolas descobriam que ele não era professor universitário), o que o obrigava a ficar se mudando de cidade de tempos em tempos.

domingo, agosto 16, 2026

Ivan Carlo ou Ivan Carlos?

 

- Qual é o seu nome?

- Ivan Carlo.

- Ah, tá, Ivan Carlos.

- Não. O meu nome não tem “s”.

- Ah, entendi. Seu nome é Ivan Calo.

- Não, não é Ivan Calo.

- O senhor não disse que não tem “r” no seu nome?

- “R” tem. O que não tem é “s”.

- Ah, então é Ivan Calos.

- Quer saber, coloca aí Gian Danton.

sexta-feira, julho 17, 2026

Uma família segurada

 


Era uma família segurada. O pai, Rivaldo, fizera a primeira apólice como presente de casamento para a esposa. Se ele morresse nas núpcias, já estava tudo arranjado...

Em seguida nasceu a primeira filha, Patrícia, e Rivaldo providenciou logo um seguro para a esposa, tendo como beneficiária a filha.

Em uma noite escura e tempestuosa, berrara pela primeira vez Roberto, o caçula. O pai achou que era um mal agouro e fez um seguro para Patrícia, tendo como beneficiário o irmão.

Desde então, a família pegou a febre do seguro. Carro, bicicleta, casa, móveis, até os seios de Márcia (que, aliás, eram belíssimos) foram segurados.

Viveram felizes por vários anos, coberto pelo manto protetor de duas ou mais dezenas de apólices. Até aquela tarde...

Márcia fora visitar o marido no escritório e tivera de esperar ao lado da Secretária.

- O seu Rivaldo está ocupado. A senhora espera um instantinho... – sugeriu a Secretária.

- Só dez minutos, advertiu Márcia.

Esperou meia-hora. Só então a porta se abriu e saiu dela um homem gordo, vestindo um terno antigo e suando bicas. Era um segurador. Márcia conhecia-o muito bem. Vira-o várias vezes em sua casa. Mas, de tudo que tinham, apenas um candelabro velho que ficava jogado no porão ainda não fora segurado. Não, não podia ser. Não, a explicação era outra: o sacripanta arranjara uma amante. E, não satisfeito, ainda fazia um seguro para a concubina... Hipócrita, desavergonhado, fanfarrão!

Havia de se vingar!

A partir daquela tarde, a vida de Rilvado passou a ser uma contagem regressiva. Até que aconteceu. Numa noite de chuva, o freio falhou. Os pneus derraparam, o carro despencou num despenhadeiro e explodiu. Não sobrou muito para ser investigado.

Márcia recebeu o seguro do marido e do carro. Estava feita! Comprou uma casa nova – bem maior – contratou um motorista, colocou o resto do dinheiro no banco e viveu numa boa desde então. Ou viveria, se não fosse aquela tarde...

Se havia uma coisa que enervava completamente Patrícia, era a matemática. Odiava fazer as lições de casa e já tinha repetido um ano na escola por causa da dita. Naquela tarde, ela e a mãe tiveram uma briga dos diabos. Márcia queria obrigá-la a fazer a lição de casa.

- Eu não preciso fazer a lição de casa, eu sou rica! – gritou a garota.

- Ah, é? Pois fique sabendo que enquanto eu estiver viva, você não toca em um tostão... aliás, pode ir esquecendo a mesada, que este mês não tem!

Foi uma briga feia! Feia demais por sinal. Se fosse um pouco mais esperta, Márcia teria se preocupado com a expressão maquiavélica que a filha passou a ostentar desde então. Passava horas trancada no quarto e andava com ares de quem pensa – o que, aqui para nós, era bastante raro naquela família...

Por fim, aconteceu. Foi durante o banho. Um fio solto provocou um curto circuito e eletrocutou a dona da casa. Quando finalmente desligaram a chave, não havia sobrado muita coisa de Márcia para ser enterrado.

Estavam ricos. Patrícia com 18 anos e Roberto com 16, sozinhos em casa, donos de seu futuro. Era a vida que qualquer jovem pediria a Deus, mas não Patrícia. Pegara o gosto pela coisa e a lembrança de que teria de dividir a herança com o irmão simplesmente a aterrorizava. Resolveu, então, matá-lo. Mandou preparar um jantar especial, dispensou os empregados e armou o seu circo.

- Jantar à luz de velas, maninha? – perguntou Roberto, entrando na sala.

- Claro! Antes de morrer, papai fez um seguro para este candelabro velho. Coloquei aí para ver se quebra... pedi à cozinheira para fazer seu prato predileto... isso tudo para o meu irmãozinho predileto...

Sentaram-se.

- Vejo que temos vinho. – observou Roberto.

- É do Porto. Não faz mal mexer na adega de vez em quando, não é? Especialmente para ocasiões especiais.

- Claro, passe a garafa.

- Não, deixe que eu o sirva...

- Está bem, mas só se você deixar que eu a sirva...

- Claro.

Serviram-se. Disfarçadamente, Patrícia despejou um pouquinho de pó no copo. Era um veneno feito especialmente para não deixar vestígios. Tivera um grande trabalho para conseguir...

Tilintaram os cristais, beberam de uma só vez e ficaram sorrindo um para o outro.

Patrícia foi a primeira a falar:

- Sabe, maninho, que você é um tipo insuportável?

- Pode ter certeza de que tenho os mesmos sentimentos com relação a você...

Patrícia cortou-o:

- Mas eu tomei providências para que isso não dure muito!

De repente uma dor aguda despontou como uma alfinetada no peito de Patrícia. O sorriso desapareceu do rosto de Roberto. Foi substituído por grandes rugas de dor.

- Não me diga que... – gemeu ele.

- ... você colocou... – continuou Patrícia.

- ...Veneno no vinho! – completaram juntos.

Deram um último suspiro e morreram um nos braços do outro. Teria dado um bom dinheiro de seguro...

Como fugir de uma roubada

 


            Vocês vão dizer que sou um cara azarado, mas a verdade é que sempre vivo me metendo em roubadas. Tanta experiência me levou a criar um verdadeiro manual de como fugir desse tipo de programa indesejável. São dicas que podem ser divididas em cinco leis. Se você é azarado como eu, memorize-as, ou imprima e guarde na carteira, para nunca esquecer:

Primeira lei – desconfie de convites de cunhados

            Certa vez o namorado de minha irmã me convidou para ir a um balneário. Depois de mais de uma hora de ônibus, chegamos a um local chamado Piscina dos Padres, onde era proibido tomar banho de sunga. O cunhado, claro, me emprestou uma bermuda que ia até o joelho e aparentemente não ofendia nenhum dogma católico. Entrei na água e vi toda a minha vida passar congelada diante dos meus olhos. A água estava abaixo de zero grau!
Passei o tempo todo sentado em um banco, tentando advinhar como o meu cunhado conseguia se divertir tanto em uma lagoa de gelo.

Segunda lei – olhe o nome do lugar
            Se eu tivesse reparado que o nome do balneário era Piscina dos Padres, não teria me metido naquela roubada e não teria tido vontade de matar meu cunhado.
            Perto de minha casa tem um bar chamado NOSTAUGIA´S BAR. Um lugar desaconselhável para qualquer um que tenha terminado a quinta série.
            Certa vez tentei explicar ao proprietário que nostalgia é com “l” e que o ´s é possessivo, mas desisti quando ele tirou um facão de trás do balcão e me perguntou o que eu queria dizer com aquilo.

Terceira lei – cuidado com convites de namoradas para almoçar na casa dos pais dela

            Essa lei é especialmente válida se você é vegetariano. Quase sempre o sogrão está fazendo um churrasco com carne de segunda.  Sua namorada se entoca na cozinha e você é obrigado a escolher entre o programa do Silvio Santos e a ladainha dos parentes (falando nisso, já perceberam como o Silvio está cada vez melhor?).
            Um amigo meu costumava levar uma marmita de casa, mas não acho que essa é uma maneira razoável de conseguir a simpatia da família da moça...

Quarta lei – se a pessoa que convidar você for fã do reginaldo rossi, não vá, não importa para onde

            Você acabará caindo em um lugar em que todo mundo masca palito de dente e chupa os dentes, fazendo aquele som característico.
            Evite sobretudo contar piadas de cornos. Há sempre um no balcão conversando com garçom e pedindo para tocar outro brega. E, acredite-me, cornos mansos são sempre muito sensíveis e violentos quando você toca no assunto.
           
Quinta lei – se tudo falhar, leve um livro

            Às vezes não há como se livrar de um programa de índio. Então aproveite para aumentar seu nível cultural. Leve um livro, de preferência um escrito pelo grande Gian Danton, e divirta-se. Isso, claro, se o bêbado babando no seu ombro deixar...  

quarta-feira, julho 15, 2026

Relato de um velho sábio a respeito de sua viagem ao de país de bananolândia

 


            Conheci o sábio através de um amigo em comum. Ele me levou até um bar nas docas com a promessa de que teria um encontro do qual jamais me esqueceria. Argumentei que somente algo muito importante me levaria a sair de casa numa noite tão fria e tão repleta de neblina.
            - Não se preocupe. - me garantiu ele. A pessoa que vamos encontrar valerá por inspiração para quantos livros queira escrever.
            Já ia explicar que os livros não são feitos de inspiração, mas de muito esforço e muito estudo, quando entramos num bar escuro, de paredes baixas, enfeitadas com motivos marítimos. Numa mesa num canto do bar encontrava-se um homem vestido com um pesado capote. Tinha uma barba curta, mas cerrada e fumava um cachimbo. A expressão de seu rosto revelava que aquele homem havia passado por diversas experiências e que viajara muito. Era, certamente, um marinheiro.
            Meu amigo o cumprimentou efusivamente e depois me apresentou.
            - Meu companheiro é escritor. - explicou. E gostaria que contasse alguma de suas viagens a ele...
            O homem inspirou profundamente e soltou uma baforada que se elevou no ar, uma nuvem branca esvanecendo no ar...
            - Bem. - começou ele. Em todos esses anos fiz diversas viagens. Já estive em locais que eram habitadas apenas por ciclopes, outros em que todos os homens tinham enormes corcundas, outros que era povoado por cavalos tão inteligentes quanto poderiam ser criatura criadas por Deus, e certamente muito mais éticos que nós. Mas nenhum desses lugares me parece tão inusitado quanto uma pequena ilha perdida no meio do oceano Atlântico. Chama-se Bananolândia. Talvez o nome viesse das muitas plantações de banana, mas é possível que tivesse algo a ver com o caráter de seu povo. É preciso entender que bananolândia é um país muito pobre. Seu clima é caracterizado por duas estações bem distintas: numa época é seco e a poeira se espalha por todos os cantos, penetrando até mesmo nas dobras da pele. Muitos bananoeses mal conseguem respirar, tal a quantidade de poeira.
O outro período é úmido e chove cântaros. Nessa época a água dos rios sobe e inunda as casas. As ruas não asfaltadas, que antes faziam poeira, agora fazem lama e deixam imundo qualquer um que se aventure a sair na rua. Os inconvenientes dessas duas estações poderiam ser facilmente evitados, se fossem tomadas as medidas necessárias. Mas parece que ninguém se importa, então ficam as coisas por isso mesmo.
            O transporte coletivo de Bananolândia consiste em caixas puxadas por dinossauros. As caixas, devo acrescentar, não têm rodas, pois os bananoeses ainda não descobriram essa maravilha da civilização. Em todo caso, andar numa dessas caixas não é muito diferente de praticar suicídio: elas são desconfortáveis ao extremo. E a passagem é caríssima. Além disso, os cobradores não dão troco e quem reclama é imediatamente surrado e jogado para fora do veículo. De vez em quando os dinossauros pisam algum bananoês, que fica estendido como uma panqueca no chão, fazendo as vezes de asfalto.
            Diante de tudo isso, você talvez pense que tudo isso leva seu povo a ser muito triste. Ledo engano, e o que o livra da tristeza é justamente o esporte nacional, pelo qual os bananoeses são verdadeiramente apaixonados. Chama-se preleção e é realizado de quatro em quatro anos. Nessa época é escolhido o pisador real, o único tipo de governo que vi naquela ilha. Teoricamente qualquer um pode se candidatar a pisador real, desde que saiba pisar em outras pessoas de maneira satisfatória. Mas sabemos que somente os mais ricos se candidatam. Para isso, fazem grandes reuniões em praça pública, nas quais se vangloriam de suas capacidades pisativas. Um explica que fez cursos em outros países para aprender a pisar corretamente, outro garante que já pisou em mais de 500 pessoas, e que algumas delas jamais se levantaram depois disso. Mas a verdade é que é muito difícil ouvir qualquer coisa. Se é o seu candidato, os bananoenses aplaudem interminavelmente, se não é o seu candidato, vaiam interminavelmente, de modo que conclui que não é o que homem fala, mas a maneira que ele fala que influencia os presentes. Em suma, quem grita mais alto e de maneira mais ameaçadora acaba vencedor nessas reuniões. Quase sempre ao fim de tais reuniões há brigas de facções. Inevitavelmente um sai com o nariz quebrado, outro perde uma perna, mas no geral todos se divertem muito. E nem mesmo os machucados mais graves os impede de comparecer na próxima reunião. Os candidatos colocam bandeiras por toda a cidades, espalhando seu nome e seu símbolo. Tudo isso sai muito caro e os pisadores reais atualmente no cargo arranjaram uma maneira prática de subsidiarem suas campanhas: obrigam todos os funcionários públicos a contribuírem com metade de seu salário para a mesma. Além disso, estes são obrigados a saírem às ruas cantado as virtudes do pisador oficial. Nesse período de preleção o país torna-se um caos. Alguns cometem as maiores crimes e se refugiam a uma das facções, pois sabem que estarão imunes, desde que sua facção seja a vencedora. Conheci um funcionário público que passou três meses sem ir ao trabalho, mas como ele cantava muito bem as pisadas do pisador real, acabou sendo promovido.
            Ao final de um certo tempo há uma eleição para escolher qual é o melhor desportista. Escolhido o ganhador, toda a população de Bananolândia se deita no chão da principal rua do país e o pisador anda por cima deles, juntamente com sua corte, que é formadas dos principais funcionários públicos. Se um deles se mostra ineficaz na edificante tarefa de pisar em seus compatriotas, é imediatamente expulso e jogado à lama.
            Tive ocasião de presenciar um desses espetáculos e devo dizer que é realmente impressionante. O gemido dos pisados pode ser ouvido de longe e é considerado por eles uma verdadeira sinfonia. A ordem é a seguinte: primeiro vem o Pisador Real, atrás dele os funcionários públicos mais graduados, segurando seu manto, atrás deles os funcionários de segundo escalão, segundo o manto daqueles, e assim por diante.
            Como para se eleger o Pisador real é necessário o apoio de muitos dos chamados Chefes de Preleção, que fazem sua campanha, foram criados diversos cargos para satisfazê-los após a preleção. Devido a isso, o desfile dura horas e horas...
            Depois disso o sábio me contou muitas e muitas outras histórias a respeito desse curioso país chamado Bananolândia. Tantas que dariam para preencher todo um livro, e talvez eu o faça, um dia...

terça-feira, julho 07, 2026

Mineirices

 


Quando entrevistava o mestre Cláudio Seto para meu livro Grafipar, a editora que saiu do eixo, comentei com ele que Minas é o local do Brasil mais parecido com o Japão em termos de cultura – ao que ele concordou.
No Japão há uma espécie de dívida de gentileza. Se alguém nos faz um favor, ficamos em dívida com essa pessoa e devemos em outro momento, retribuir esse favor. Sônia Luyten me contava que quando foi fazer doutorado no Japão certa vez recebeu uma encomenda que era para a vizinha e entregou assim que ela chegou. No dia seguinte, a vizinha bateu-lhe na porta com um presente em retribuição à gentileza de ter recebido a encomenda.
Eu cansei de ver isso na minha infância e vejo isso quando visitos meus parentes mineiros. É uma gentileza tão grande que às vezes chega a ser constrangedora. Você não sai sem tomar um cafezinho - e esse cafezinho logo se transforma num verdadeiro banquete de quitandas. 
Seto conta que comprava dinheiro com o dinheiro dos ovos. Ele sempre acompanhava sua avó à granja do tio para comprar ovos. Chegavam lá eram tratados da melhor forma possível e, ao final, quano a avó queria pagar, o tio não aceitava. Paga, não paga, paga não paga, a velhinha deixava o dinheiro em algum lugar. Quando o tio descobria, corria atrás deles para devolver o dinheiro. Como a avó se recusava a receber, as notas acabava parando nas mãos do Seto, que usava para comprar gibis.
Mas isso, claro, tem o outro lado, tanto em Minas quanto no Japão: a pessoa só aceita uma favor, uma gentileza de alguém na qual ela confia. Afinal, ela não vai querer ficar devendo um favor para alguém que não é confiável. Por essa razão que recusar uma gentileza é tão ofensivo: significa que a pessoa considera que o outro não é confiável e, portanto, não quer ficar em dívida com ele.
Durante anos, embora tenhamos saído de Minas, a guardiã das tradições mineiras era minha avó. Enquanto morei com ela, nunca perdi o “uai” e sempre comia angu em todas as refeições.
Minha avó foi uma das pessoas mais admiráveis que já conheci. Estudou apenas até a quarta-série, mas escrevia melhor que vários estudantes universitários. Quando eu trabalhava em jornal e trazia os exemplares para casa, ela devorava da primeira à última página. Foi a única pessoa que conheci que leu a Bíblia de cabo a rabo mais de uma vez. Hoje em dia, a pessoa lê um versículo e já sai dizendo que leu a Bíblia.
E foi com ela que aprendi mais uma parte da cultura mineira que lembra muito o modo japonês de ser: a honra.
Ela sempre me dizia:
- Meu filho, pobre não tem nada, só tem a própria honra.
Exemplo disso aconteceu quando ela aceitou fazer, de graça, um vestido para uma vizinha.
Minha avó era costureira prendada, do tipo de costurava para esposa do prefeito, vereador e cobrava bem, mas para a vizinha, que era amiga, se recusou a cobrar (mais uma vez a história da gentileza mineira – imagina se ela ia cobrar de uma amiga!).   
Quando recebeu o vestido, a vizinha reclamou:
- E a minha tesoura?
- Como assim, que tesoura?
- Quando levei o vestido, levei também uma tesoura nova. Cadê a tesoura?
Minha avó insistiu que não tinha visto tesoura nenhuma e nem precisava, pois tinha tesoura em casa. E a outra instindo:
- Cadê a tesoura?
Resumo da ópera: minha avó foi até a loja, comprou uma tesoura nova e levou para a vizinha, ainda na embalagem. Preferiu ficar no prejuízo a ser chamada de ladra.
No dia seguinte a vizinha achou a tal tesoura e veio devolver a que recebera. Minha avó recusou. Deixou a vizinha com as duas tesouras. Mas também nunca mais falou com ela. Ela não poderia ser amiga de alguém que desconfiava de sua honestidade. Como ela sempre dizia: “Pobre não tem nada, meu filho, só tem a própria honra”.

domingo, julho 05, 2026

Casamento

 


Américo só percebeu que se metera numa enrascada quando já estava casado. A esposa era uma megera. Tratava-o por palerma, idiota, desengonçado... Certo dia, como ele encontrasse dificuldade em consertar um chuveiro, a mulher acrescentou um novo adjetivo á coleção:
            - Nem pra isso você serve, seu imprestável!?!
            Imprestável. Parece que gostou do termo, pois passou a usá-lo em todas as frases dirigidas ao marido:
            - Venha jantar, seu imprestável.... faça a barba, imprestável...
            Com o tempo, Américo foi abandonando todos os seus prazeres. Deixou de comprar livros (ela sempre reclamava dos gastos com esse tipo de bobagem...), deixou de visitar os amigos e, por fim, desistiu até de assistir seus programas prediletos na TV. Isso porque, sempre que estava assistindo algo, ela o chamava com o pretexto de trocar uma lâmpada, enxugar a louça do jantar ou fazer qualquer outros desses serviços domésticos.
            - Você lavou a louça e não enxugou, seu imprestável! - arrematava ela, como agradecimento.
            À medida em que o humor da esposa ia piorando, também ia aumentando seu sedentarismo. Até o ponto em que os vizinhos só tomavam conhecimento dela através dos gritos histéricos com que ela recebia o marido todas as noites...
            Depois de muitos anos trabalhando sempre no mesmo serviço burocrático, chegando em casa sempre à mesma hora, Américo teve, finalmente, uma atitude que se poderia chamar de autônoma. Chegou em casa com um belo aparelho de som. A esposa que já o esperava pronta para reclamar do atraso, não se conteve:
            - Para que isso, seu imprestável? Não sabe que eu não gosto de música?!?
            E desatou a reclamar por duas horas inteiras. Américo gravou tudo. E gravou também a reprimenda do dia seguinte, e do outro. Quando achou que já tinha o suficiente, esganou a esposa e enterrou o corpo no porão.
            A partir de então chegava em casa toda a noite e ligava o toca-fitas. Depois ligava a TV, ou pegava um livro, e se divertia pelo resto da noite. Os vizinhos, acostumados a só saberem da mulher pelos seus tremendos gritos, nunca desconfiaram de nada. Pelo contrário. De vez em quando algum vizinho pensava consigo:
            - Coitado do Seu Américo. Agüenta poucas e boas da sua mulher. Se fosse eu, já a tinha matado...


Obs: Este texto foi o vencendor do I concurso de crônicas e contos da editora Geração. 

quarta-feira, julho 01, 2026

O Super-brasileiro

 

- Oi Gian, eu adicionei você porque gosto muito dos seus roteiros. 
- Obrigado. 
- Olha, eu tenho uma proposta irrecusável para vc. 
- Ah, tá. Beleza. 
- Eu tenho um personagem chamado Super-brasileiro e podia ter escolhido qualquer roteirista, mas escolhi você para escrever as primeiras histórias. 
- Er... bem... obrigado. Mas vai sair como revista? Já tem editora?
- Cara, presta atenção: eu estou falando do Super-brasileiro! As editoras vão correr atrás da gente. Ontem mesmo mandei um e-mail para a Panini oferecendo e só estou esperando a resposta. 
- Cara, obrigado pelo convite, mas ando bastante ocupado. Estou fazendo doutorado, já estou em outros projetos... 
- Gian, você não está entendendo! É o Super-braileiro, cara! O Super-brasileiro! É um super-herói nacionalista que se veste como o mosquito da dengue para picar políticos corruptos! É sucesso garantido! Só vou precisar que você escreva as três primeiras revistas para eu desenhar e apresentar para as editoras. São só 60 e poucas páginas! 
- Olha, obrigado pelo convite, mas tenho aqui na centenas de páginas de roteiros que escrevi para personagens de outras pessoas. No final, a revista não saiu e nem posso aproveitar para outra coisa, já que o roteiro era para o personagem específico daquela pessoa. Já perdi muito tempo assim. 
- Gian, você não está entendendo: é o Super-brasileiro, é genial, cara. E eu vou te pagar pelos roteiros! 
- Vai pagar? 
- Assim que as revistas saírem cara. Vou te pagar muito bem. Estou te dizendo, mandei ontem e-mail para a Panini. As editoras vão correr atrás desse personagem. 
- Cara, obrigado pelo convite. Mas vou ter que declinar. Se ainda fosse algo pequeno... não tenho tempo para escrever três revistas.
- Tá bom, seu arrogante FDP!
E assim eu ganhei mais um inimigo no Facebook.

segunda-feira, junho 15, 2026

João e Maria

 


Entrei. Um vento forte varria o chāo da estação, levantando pedaços de papel e folhas.  Uma senhora aflita lidava com três filhos, tentando direcioná-los à locomotiva. O maquinista já apitava, fazendo com que rasgos de fumaça se misturassem ao vento.

Desci. Corri até eles. Peguei um dos guris no colo e outro pela mão. As grandes rodas de ferro já se movimentavam quando entramos. Coloquei o rapazote no chāo e enxuguei o suor do rosto. O serviço de escritório havia me enferrujado até a medula. O corpo todo arfava ao menor exercício.

 - Brigado. – agradeceu a senhora, reunindo a ninhada ao seu redor.

- Não há de quê. - respondi, ofegante.

Seguimos em frente e talvez por coincidência, havia somente quatro lugares vagos. Sentamos Os cinco juntos, a senhora de frente para mim. Pude, então, observá-la Devia ter uns 25 anos, embora aparentasse mais. Varizes serpenteavam por toda sua perna. O vestido de chita, estampado de flores, a custo segurava os seios moles. Tinha mão grossas, de gente que lida com a terra. O rosto era marcado pela vida. Rugas precoces avolumavam-se sobre a pele queimada. O cabelo, descuidado, deslizava simplesmente em direção aos ombros. Os olhos, tinha-os tristes, cabisbaixos, injetados de sangue. Havia de ter sido bela um dia.

-Seu marido não vem? - perguntei eu, depois de algum tempo.

Ela abaixou o rosto. Passou algum tempo assim. Depois observou os meninos. Estavam todos vestidos iguais, com calças que deixavam entrever o joelho e camisas de algodão. Ela vistoriou o que estava no seu colo. Arrependi-me da pergunta e olhei pela janela, desconcertado.

- Não vem, não senhor. - exclamou ela, de repente

Olhei-a. Ela abaixou os olhos

- Esta esperando você? - arrisquei

- Não tá mais não. O pobre ficou lá na cidade.

Interessou-me. Fiz-lhe novas perguntas que ela respondia com monossílabos, até que desatou a chorar. Consolei-a. Segurei sua mão. Pedi que demonstrasse força diante dos filhos, ao que ela se recompôs. Encostou na cadeira enxugou as lágrimas e pôs-se a falar. Soluçava e às vezes até vinha-lhe à garganta novo ataque de choro, que ela segurava heroicamente.

Contou-me que havia casado nova, com um rapaz das redondezas, lavrador como ela. Naquela época ainda não existia o trem e até a  cidade eram léguas no lombo do cavalo, se o viajante fosse rico, ou a pé, se fosse pobre. Contou-me das andanças que precisou fazer no dia do casório. Falou do caminho estreito, sujo de esterco, que teimava em grudar na ponta do seu vestido branco. Narrou o episódio de uma cobra que aparecera no meio do mato e como seu futuro esposo a matou querendo impressioná-la

Casaram na cidade e voltaram à noite para a roça

No começo viveram com sua mãe, depois construíram uma choça de pau-a-pique. Teriam sido felizes, não fosse uma promessa que o marido lhe havia feito na lua de mel: ficaria rico! Havia de ver! Ficaria rico de comprar fazendas até onde a vista pudesse alcançar. Eles beberiam cafë em xicaras, como haviam visto na casa do coronel, e seus filhos estudariam na capital. Seriam doutores

- Vão sê dotô, Maria, de falar difícil de ninguém entender.

Tiveram um filho e depois outro e outro. Ele não se esquecia da promessa Haviam de ser ricos.

Foi quando surgiu o trem de ferro. Passava a umas tantas terras da choupana, mas João - esse era seu nome- ia todo dia religiosamente, ver o trem passar. Regalava-se. Batia palmas, ria, gritava para os passageiros. Seis olhos brilhavam

-É isso, mulher! O trem! É o jeito da gente ficar rico, não vê?

- Mas como, João

- Como? Como? Mas então, com aquela ferraiada toda.. é coisa de rico, coisa de rico, mulher! O homem que dirige aquele trem deve de ser rico até não mais podé contá..

- E comoé que voce vai ganhá dinheiro com isso, João?

- Mas como? Como?! Eu entro no trem e converso com o homem, sô. Proponho sociedade.. eu trabalho para ele e recebo uma parte das passage..

- Mas e se ele não aceitá?

- Sempre vale a viage, num vale?

-E como é que ocê vaì entrar no trem, homem de Deus?

- Ah, isso é cá comigo.

 João mudou. Não cuidava da roça. Deixava a vaca pastando ao léu, voltava tarde para casa... Ficava o tempo todo no morro, observando os trilhos, esperando a hora em que trem passava.

 Vieram avisá-la. Estava morto. No fim da tarde, quando o trem passava, João pulara sobre ele como se fosse um cavalo. Até conseguira se agarrar, mas desiquilibrara, perdera o pé... e caira. Seu corpo rolou pelo morro e a cabeça deslizou para debaixo do trem.

A mulher agora vinha do enterro. O padre insistira para que fossem depositar o corpo no cemitério da cidade. Algumas pessoas juntaram seus cobres, a fim de pagar-lhe a passagem, a ela, aos ortãos e ao marido morto.  

No enterro compareceram alguns gatos pingados, mais por curiosidade que por piedade. Os amigos estavam todos na roça.

Nisso o trem parou.

-Brigado, seu moço, brigado. - disse ela, pegando os filhos.

Desceram. Observei-os durante algum tempo, mas o trem pegou velocidade e eles desapareceram no meio do rastro de fumaça.

sexta-feira, maio 15, 2026

Hipocondríacos

 


A moça irrompeu, esbaforida, pela porta, enquanto a enfermeira terminava de aplicar o soro.

    - Ei, não pode entrar agora!
    - Rafael, Rafael! Você está bem? Vim correndo quando soube que você estava doente.
    - Por favor, ainda não é o horário de visitas. Como a senhora conseguiu entrar? - perguntou a enfermeira, puxando a moça para fora.
    - Não, não me afaste do meu Rafael! Por favor, me diga: ele está bem?
    Nisso o doente se mexeu no leito, murmurando:
    - Beatriz? Você está aí?
    Foi o bastante. A mulher se desvencilhou dos braços da enfermeira e se jogou aos pés da cama.
    - Rafael, Rafael, você ainda está vivo?
    - Beatriz, você está aí? Eu não consigo vê-la...
    - Mas ele só está... - interveio a enfermeira.
    - Santo Deus, o que fizeram com o meu amado?! Você consegue me ouvir, querido?
    - Beatriz? É você mesmo? Agora que vou morrer, quero que saiba que te amo...
    - Oh, Rafael! Eu também te amo. Do fundo do meu coração...
    - Beatriz, por favor, me dê um último beijo.
    Houve um minuto de silêncio, ao fim do qual Beatriz pulou sobre ele, num último e ardoroso beijo de amor. A enfermeira tentou impedi-la, mas era impossível até mesmo saber quem era quem no meio dos aparelhos, seringas e tubos.
    - Querida, você sabe o quanto eu amo você. - garantiu ele, depois que se desgrudaram. Não chore por mim. Também quero que você arranje outro homem. Não perca sua juventude por mim...
    - Não, não me diga isso, meu amor, você vai sobreviver... E eu jamais terei outro homem...
    Ficaram em silêncio. Beatriz enxugava as lágrimas com um lenço.
    - Querida, agora que estou morrendo, acho que deveria saber de uma coisa. Lembra-se de Ana?
    - A Ana?
    - Sim, aquela estudava com você quando nos conhecemos...
    - Rafael, você não...
    - Eu tive um caso com ela.
    - Não, não acredito... não é possível!
    Ficou repetindo isso, balançando a cabeça em negativa, a enfermeira parada num canto, os olhos arregalados, sem saber o que fazer....
    - Beatriz... agora que estou morrendo, não faz mais sentido esconder meu caso com Maria...
    - A minha melhor amiga? Desgraçada!
    - Calma, foi coisa pequena: durou só dois anos...
    - Dois anos? Seu safado! Cretino!
    - Cretino, eu? Pensa que não sei do Paulo?
    Beatriz ficou estática.
    - Paulo?
    - Pensa que não sei? Tenho até fotos...
    - Seu cretino! - gritou a mulher e pulou no pescoço dele.
    - Gasp, gasp - fez o doente, envolvendo com as mãos o pescoço de Beatriz, que caiu no chão, sob ele.
    Rolaram pelo chão do hospital até perderem as forças e só então caíram nos braços um do outro, jurando:
    - Beatriz, eu te amo.
    - Também te amo, Rafael.
    A enfermeira ficou alguns instantes estarrecida, depois saiu do quarto, murmurando consigo:
    - Esses hipocondríacos... e era só uma infecção intestinal.