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sexta-feira, janeiro 31, 2020

Livros sobre o futuro espacial

Um exemplo característico de obras hiper-reais eram os livros ilustrados que simulavam o futuro da humanidade. Lançados na década de 1970, no rastro do sucesso de filmes de ficção científica, como Star Wars, eles criavam uma hiper-realidade em que o futuro se transformava em passado. Ou seja: fatos ficcionais, de uma época bem posterior à do leitor era apresentados como passado longínquo.
Dois exemplos merecem destaque: Naves espaciais – de 2000 a 2100, de Stewart Cowley e Seres do Espaço, também de Stewart, sob pseudônimo de Steven Caldwell (um suposto habitante do século XXIV).

O livro Naves Espaciais seria uma espécie de manual publicado pela sociedade do comércio da Terra. Uma nota explicativa no início do livro explica que a STC foi fundada em 1999 (vale lembrar que o livro foi publicado em 1978) com o nome de Sociedade do Comércio Mundial, uma subsidiária do Conselho Mundial, ficando encarregada de todo o comércio global. Com o início da exploração espacial, ela mudou de nome e ampliou suas funções para outros planetas. O livro seria uma espécie de guia para pessoas que pretendem ingressar nesse comércio, indicando não só dados técnicos, mas históricos.
A maior parte da contextualização histórica é dada na introdução, na qual é explicado que no ano de 2036 uma nave de reconhecimento estabeleceu contato com os habitantes de Alpha Centauri e o encontro resultou num esforço de cooperação mútua. Em 2047 outra nave de reconhecimento foi atacada pelos habitantes de Proxima Centauri, iniciando uma guerra estelar de vinte anos durante os quais Alpha Centauri, Terra e Proxima Centauri dedicaram-se à produção de uma ampla variedade de naves militares.
Os fatos, como se percebe, são narrados no passado e, embora o ano de 2036 fosse um futuro longínquo em 1978, o livro narra o passado, envolvendo o leitor em um simulacro hiper-real.
Essa hiper-realidade é destacada pelas ilustrações hiper-realísticas e os detalhes técnicos extremamente específicos do texto. Assim, sabemos, por exemplo, que a CAM 117 Gunship era uma nave extremamente rápida, mas essa rapidez se fazia à custa do raio de ação.
Esse acúmulo de detalhes técnicos e históricos criam essa impressão de hiper-realidade, fazendo com que o leitor acredite que encontrou um livro que, de alguma forma, veio do futuro para narrar fatos que ainda irão acontecer (foi essa a impressão que tive ao lê-lo pela primeira vez, na pré-adolescência).

Cowley ampliou essa experiência ao correlacionar outros livros ao mesmo universo, criando uma mitologia coerente. Exemplo disso é o livro Seres do Espaço, de Steven Caldwell.
Na quarta capa do volume descobrimos que o autor integrou a Força de Segurança da Federação Galática em 2393, logo assumindo o posto de comandante militar do grupo 1 e, ao longo de quinze anos de carreira, viajou pelos mais variados lugares da Federação, o que lhe dá credibilidade para escrever sobre as várias raças que a compõe. Caldwell, claro, não é uma pessoa real. Na verdade, Caldwell é um simulacro criado por Cowley para tornar Seres do espaço ainda mais verossimilhantes.
No livro somos informados, por exemplo, que habitantes de Alpha Centauri (aqueles mesmos que haviam se deparado com uma nave de exploração terrana em 2036) são fisicamente semelhantes aos humanos, embora sejam mais esbeltos, tendo, no entanto, um período de gestação mais lento, o que diminuiu drasticamente o crescimento populacional, em especial após as Guerras Centaurianas.
Tais livros estimulavam a curiosidade e a imaginação e nos fazia pensar como de fato seria o futuro.

segunda-feira, setembro 09, 2019

Você, um estudo objetivo do comportamento humano


Desmond Morris era um zoólogo especializado em pesquisar primatas. Um dia ele percebeu que o método de observação que usava para analisar o comportamento dos macacos poderia ser usado para os seres humanos. O resultado disso foi o livro O macaco nu. Posteriormente, Morris desenvolveu suas ideias numa obra mais completa, “Você – um estudo objetivo do comportamento humano”, certamente um dos melhores livros que já li.
A obra faz análises de comportamento a partir das observações do autor. Há, por exemplo, um capítulo apenas sobre a pupila e como o tamanho dela mostra ou não nosso interesse por algo (da mesma forma como o tamanho da pupila de alguém pode torná-la interessante para um possível par).
Um dos capítulos mais interessantes é o que trata de estímulos Supernormais. Segundo Morris, um estímulo supernormal “é o que excede seu correlativo natural”. Em outras palavras, é o que chamamos de hiper-realidade.
O autor começa analisando como o ser-humano modifica a sua própria natureza de maneira artificial: se quer ficar mais alto, usa sapatos de salto, se deseja melhorar a maciez de sua pele, usa cremes. Usa peruca, cílios postiços, maquiagem. “São intermináveis as maneiras como ele ampliou seus sinais corporais como meio de aperfeiçoar suas exibições sexuais, suas exibições hostis ou exibições de status”.
Mas o ser humano passou a supernormalizar também o ambiente à sua volta. Um passeio pelo supermercado revela uma série de ardis supernormalizantes: dentrifícios que prometem um riso supernormal, sabões que prometem uma limpeza supernormal, xampus que prometem uma maciez supernormal dos cabelos. E esse recurso já inicia na embalagem: “A vasta indústria da propaganda comercial está interessada quase que inteiramente na questão de ampliar o apelo visual dos produtos. Já que muitos dos produtos reais são virtualmente indênticos, é necessário dedicar atenção de perito para apresentá-los de modo mais estimulante que os rivais”.
O recurso é usado até mesmo nos desenhos: “Como as pernas de uma garota se tornam mais longas quando ela se aproxima da maturidade sexual, segue-se que pernas compridas podem ser vistas como sensuais. Os artistas que retratam garotas atraentes, então, exageram o comprimento das pernas em seus desenhos e pinturas”.  

sexta-feira, agosto 16, 2019

Livros sobre o futuro espacial

Um exemplo característico de obras hiper-reais eram os livros ilustrados que simulavam o futuro da humanidade. Lançados na década de 1970, no rastro do sucesso de filmes de ficção científica, como Star Wars, eles criavam uma hiper-realidade em que o futuro se transformava em passado. Ou seja: fatos ficcionais, de uma época bem posterior à do leitor era apresentados como passado longínquo.
Dois exemplos merecem destaque: Naves espaciais – de 2000 a 2100, de Stewart Cowley e Seres do Espaço, também de Stewart, sob pseudônimo de Steven Caldwell (um suposto habitante do século XXIV).

O livro Naves Espaciais seria uma espécie de manual publicado pela sociedade do comércio da Terra. Uma nota explicativa no início do livro explica que a STC foi fundada em 1999 (vale lembrar que o livro foi publicado em 1978) com o nome de Sociedade do Comércio Mundial, uma subsidiária do Conselho Mundial, ficando encarregada de todo o comércio global. Com o início da exploração espacial, ela mudou de nome e ampliou suas funções para outros planetas. O livro seria uma espécie de guia para pessoas que pretendem ingressar nesse comércio, indicando não só dados técnicos, mas históricos.
A maior parte da contextualização histórica é dada na introdução, na qual é explicado que no ano de 2036 uma nave de reconhecimento estabeleceu contato com os habitantes de Alpha Centauri e o encontro resultou num esforço de cooperação mútua. Em 2047 outra nave de reconhecimento foi atacada pelos habitantes de Proxima Centauri, iniciando uma guerra estelar de vinte anos durante os quais Alpha Centauri, Terra e Proxima Centauri dedicaram-se à produção de uma ampla variedade de naves militares.
Os fatos, como se percebe, são narrados no passado e, embora o ano de 2036 fosse um futuro longínquo em 1978, o livro narra o passado, envolvendo o leitor em um simulacro hiper-real.
Essa hiper-realidade é destacada pelas ilustrações hiper-realísticas e os detalhes técnicos extremamente específicos do texto. Assim, sabemos, por exemplo, que a CAM 117 Gunship era uma nave extremamente rápida, mas essa rapidez se fazia à custa do raio de ação.
Esse acúmulo de detalhes técnicos e históricos criam essa impressão de hiper-realidade, fazendo com que o leitor acredite que encontrou um livro que, de alguma forma, veio do futuro para narrar fatos que ainda irão acontecer (foi essa a impressão que tive ao lê-lo pela primeira vez, na pré-adolescência).

Cowley ampliou essa experiência ao correlacionar outros livros ao mesmo universo, criando uma mitologia coerente. Exemplo disso é o livro Seres do Espaço, de Steven Caldwell.
Na quarta capa do volume descobrimos que o autor integrou a Força de Segurança da Federação Galática em 2393, logo assumindo o posto de comandante militar do grupo 1 e, ao longo de quinze anos de carreira, viajou pelos mais variados lugares da Federação, o que lhe dá credibilidade para escrever sobre as várias raças que a compõe. Caldwell, claro, não é uma pessoa real. Na verdade, Caldwell é um simulacro criado por Cowley para tornar Seres do espaço ainda mais verossimilhantes.
No livro somos informados, por exemplo, que habitantes de Alpha Centauri (aqueles mesmos que haviam se deparado com uma nave de exploração terrana em 2036) são fisicamente semelhantes aos humanos, embora sejam mais esbeltos, tendo, no entanto, um período de gestação mais lento, o que diminuiu drasticamente o crescimento populacional, em especial após as Guerras Centaurianas.
Tais livros estimulavam a curiosidade e a imaginação e nos fazia pensar como de fato seria o futuro.

segunda-feira, setembro 17, 2018

Você, um estudo objetivo do comportamento humano



Desmond Morris era um zoólogo especializado em pesquisar primatas. Um dia ele percebeu que o método de observação que usava para analisar o comportamento dos macacos poderia ser usado para os seres humanos. O resultado disso foi o livro O macaco nu. Posteriormente, Morris desenvolveu suas ideias numa obra mais completa, “Você – um estudo objetivo do comportamento humano”, certamente um dos melhores livros que já li.
A obra faz análises de comportamento a partir das observações do autor. Há, por exemplo, um capítulo apenas sobre a pupila e como o tamanho dela mostra ou não nosso interesse por algo (da mesma forma como o tamanho da pupila de alguém pode torná-la interessante para um possível par).
Um dos capítulos mais interessantes é o que trata de estímulos Supernormais. Segundo Morris, um estímulo supernormal “é o que excede seu correlativo natural”. Em outras palavras, é o que chamamos de hiper-realidade.
O autor começa analisando como o ser-humano modifica a sua própria natureza de maneira artificial: se quer ficar mais alto, usa sapatos de salto, se deseja melhorar a maciez de sua pele, usa cremes. Usa peruca, cílios postiços, maquiagem. “São intermináveis as maneiras como ele ampliou seus sinais corporais como meio de aperfeiçoar suas exibições sexuais, suas exibições hostis ou exibições de status”.
Mas o ser humano passou a supernormalizar também o ambiente à sua volta. Um passeio pelo supermercado revela uma série de ardis supernormalizantes: dentrifícios que prometem um riso supernormal, sabões que prometem uma limpeza supernormal, xampus que prometem uma maciez supernormal dos cabelos. E esse recurso já inicia na embalagem: “A vasta indústria da propaganda comercial está interessada quase que inteiramente na questão de ampliar o apelo visual dos produtos. Já que muitos dos produtos reais são virtualmente indênticos, é necessário dedicar atenção de perito para apresentá-los de modo mais estimulante que os rivais”.
O recurso é usado até mesmo nos desenhos: “Como as pernas de uma garota se tornam mais longas quando ela se aproxima da maturidade sexual, segue-se que pernas compridas podem ser vistas como sensuais. Os artistas que retratam garotas atraentes, então, exageram o comprimento das pernas em seus desenhos e pinturas”.