segunda-feira, janeiro 31, 2022

Jornada nas Estrelas - Um gosto de Armagedom

 


Uma das características fascinantes em jornada nas estrelas é a criatividade de seus roteirista para imaginar outras civilizações e suas culturas. Ótimo exemplo disso é o episódio Um gosto de Armagedom, da primeira temporada.
Na história Kirk e uma equipe de tripulantes vai parar em um planeta em guerra há 500 anos com outro planeta. Durante a visita há um ataque, mas não há qualquer indício de nada acontecendo. É quando descobrem que as batalhas são travadas de forma virtual e um computador calcula quais as baixas de cada lado e faz uma lista de vítimas, que são levadas a um desintegrador.
Para piorar as coisas, a Enterprise é considerada com uma baixa de guerra e toda sua tripulação deve ser morta para cumprir o que foi designado pelo computador. 
Kirk deve agir para salvar sua população, o que inclui, claro, muitas lutas mal coreografadas com guardas que parecem ter saído de alguma matinê de flash Gordon.
Mas por trás dessa pirotecnia, o episódio é um dos mais interessante do ponto de vista filosófico. Há muitas questões interessantes. A primeira delas é o fato dessa guerra limpa, que teoricamente parece mais civilizada, é justamente a razão do conflito ter durado 500 anos. Quando o ciclo é quebrado, as partes se apressam em debater um armistício. Nesse sentido há uma inversão interessante, pois o bárbaro Kirk com sua diplomacia de faroeste é justamente o que pode levar à paz.
Outro aspecto interessante é imaginar como pessoas se submeteriam a morrer para cumprir uma cota de uma guerra fictícia travada por generais como quem joga xadrez. Ao mostrar isso de maneira crua, o episódio cria uma metáfora que nos faz refletir sobre a crueza da guerra. Afinal, na verdade não é isso que acontece? Generais movimentam as peças da guerra e como consequência as pessoas morrem. Embora pareça destino, não é.
Por fim, o aspecto talvez mais interessante: o episódio mostra como o simulacro comanda o real a ponto do real ter que se adaptar a ele. Se alguém morreu no jogo da guerra, e premente que morra no mundo físico. E pensar que esse episódio foi escrito muito antes da internet.

Esquadrão classe A - a série símbolo dos anos 80

 

Esquadrão Classe A foi um dos seriados de maior sucesso em meados da década de 1980. No Brasil, passava no SBT e era um programa obrigatório para a garotada.
Em muitos sentidos, o Esquadrão era uma releitura dos Sete Samurais, filme clássico de Akira Kurossawa, no qual um grupo de samurais desempregados ajuda uma vila de agricultores atormentada por bandidos. Esse tema de heróis lidando com seus próprios problemas, mas encontrando tempo para ajudar pessoas necessitadas será a base de todos os episódios do seriado. Em todos eles, o grupo de soldados da fortuna é contratado por alguém com dificuldade com malfeitores.
Além da referência básica aos Sete Samurais, o Esquadrão trazia um contexto histórico. Veteranos da guerra do Vietnã, eles são condenados por um crime que não cometeram, conseguem fugir, mas têm sempre os militares em seus calcanhares.
O texto de abertura resumia bem o clima das histórias:
“Em 1972 uma unidade especial das forças armadas foi condenada no tribunal militar por um crime que não cometeu. Esses soldados logo conseguiram escapar da prisão de segurança máxima, se estabelecendo clandestinamente em Los angeles. Hoje, procurados pelo governo, eles sobrevivem como soldados da fortuna. Se você tem um problema, se ninguém pode ajudá-lo e se você puder achá-los, talvez você possa contratar o ESQUADRÃO CLASSE A”
A estrutura narrativa era quase sempre a mesma: fugindo dos militares, os heróis chegam em um local e se deparam com pessoas sendo oprimidas, seja por patrões cruéis, bandidos ou políticos. Comovidos, resolvem ajudar, mesmo sabendo que essa ajuda poderá fazer com que sejam finalmente pegos, o que quase acontecia, em todos os episódios.

A equipe era liderada pelo Coronel John Hannibal Smith (George Peppard), um líder nato, fanático por charutos. Bom ator, Hannibal costumava protagonizar o início dos únicos episódios em que a estrutura era um pouco diferente: nestes, alguém tentava contatar o grupo de soldados da fortuna, mas se deparava com alguém inconveniente, como um vendedor de cachorros quentes muito chato. Era o coronel. A maquiagem fazia com que mesmo os telespectadores mais assíduos fossem enganados, de modo que uma das diversões do seriado era tentar descobrir quem era Hannibal disfarçado. O nome do personagem é uma referência ao general cartaginês que quase destruiu o exército romano. Assim como o seu homônimo histórico, o líder da equipe é um grande estrategista e seus planos mirabolantes eram uma das atrações da série.  
Para concretizar seus planos, Hannibal conta com uma equipe bastante heterodoxa.

O Capitão H.M. Murdock é um especialista em pilotar qualquer tipo de aeronave, mas gastava a maior parte do tempo fazendo macacadas, conversando com a própria mão ou algo do gênero. Careteiro, Dwight Schultz, que interpretava o personagem, era um espécie de Jim Carrey da época e dava o toque humorístico ao seriado.

O tenente Templeton Cara-de-Pau , interpretado por Dirk Benedict, era o galã da série e o responsável por conseguir tudo necessário para colocar em ação os planos do Coronel. Com seu charme, ele conseguia tudo, mesmo que para isso precisasse trocar seus sapatos novos por uma bota de trabalhador.

Completando o grupo, havia o carismático Sargento Bosco Barracus ou B.A. (abreviação de Bad Attitude ou temperamento ruim), interpreado por Mr.T., um grosso de cabelos moicanos, mas que adorava leite, crianças e morria de medo de voar. Como em muitas missões era necessário embarcar num avião, ou num helicóptero, uma das atrações era tentar adivinhar que estratégia seria usada pelos outros para dopá-lo. Além disso, as brigas de B.A. com o Murdock criavam uma das grandes tensões do seriado, geralmente com resultados humorísticos. O personagem também era um gênio em mecânica e era essencial para colocar em prática os planos. Como a televisão da época não podia mostrar nada mais violento que algumas explosões e pessoas saltando, os roteiristas tinham que inventar geringonças, como uma máquina que atirava repolhos.
Mesmo com uma estrutura rígida e personagens estereotipados, o Esquadrão Classe A conseguia surpreender dar uma grande lição: é necessário ajudar os outros, deixando nossos interesses em segundo plano.

A era da burrice

 


Na Dinamarca desde o início do século XX os homens, quando fazem o alistamento militar, são obrigados a se submeterem a um teste de inteligência, o QI. Isso permitiu medir e comparar a inteligência, geração a geração. E aconteceu algo estranho: depois de crescer continuamente durante todo o século XX, a inteligência média começou a cair, a partir de 1998. Uma média de 3 pontos a cada 10 anos. E não é um fenômeno isolado. Em diversos outros países, em que o teste de QI é comum, o índices de inteligência só têm caído.
O tema é tão relevante que ganhou capa da revista Superinteressante de novembro de 2018.
Os dados são assustadores e preocupantes. Afinal, na comparação com outros animais, somos inferiores fisicamente. O que permitiu ao homem não só sobreviver, como dominar o planeta, foi a inteligência e a capacidade de adaptação. Com a inteligência decaindo, qual será o futuro da humanidade? Exemplo perfeito dos riscos dessa queda na inteligência são as campanhas contra as vacinas, que circulam nas redes sociais, que já provocaram mortes e volta de doenças erradicadas.
Há duas hipóteses para esse fenômeno. O primeiro é que as pessoas inteligentes estão tendo menos filhos, enquanto as pessoas burras continuam tendo muitos filhos. A segunda é que as redes sociais estão tornando as pessoas mais burras. Provavelmente é uma junção das duas coisas.
As redes sociais como promotoras de burrice é um fenômeno visível: temos a difusão de aberrações como terra plana, campanhas anti-vacinas, campanhas contra o ensino da teoria da evolução e sentimento anti-intelectual e anti-ciência que têm se disseminado pelas redes (basta lembrar que o guru da nova geração é justamente alguém que se destacou pelo anti-intelectualismo e pelas ideias anti-ciência).
Essa burrice generalizada também é cada vez mais visível nos comentários de matérias seja em sites de notícias ou no Facebook. No blog eu fui obrigado a bloquear os comentários. A pessoa discordava de mim, mas não apresentava argumentos, dados, nada. Eram apenas ofensas e frases de efeito. Na era da burrice, uma frase feita vale por mil argumentos.

Os 100 maiores cientistas

 


Quais são os cientistas mais importantes de todos os tempos? É a essa pergunta que John Simmons pretende responder no volume Os 100 Maiores Cientistas da História, lançado recentemente pela editora Difel.
É uma tarefa ingrata, pois, por melhor que seja a seleção, sempre faltarão nomes importantes. Entretanto, o resultado é muito positivo, pois nos dá um volume com a biografia de 100 pessoas que contribuíram para o crescimento dessa forma de pensar e ver o mundo chamada ciência.
Simmons sabe do que fala. Há mais de quinze anos ele escreve para a revista Current Biography, para a qual produz textos sobre os ganhadores do prêmio Nobel em ciência. Foi escritor e produtor da série Mind, um program de TV Educativo.
O livro, apesar do tamanho (mais de 500 páginas), é uma leitura rápida e agradável, pois é possível ler os capítulos com as biografias separadamente, sem seguir qualquer ordem. O livro é, assim, perfeito, para quem gosta de ciência e quer conhecer um pouco melhor a vida dos grandes cientistas.
E o leitor médio vai acabar se surpreendendo com fatos curiosos sobre as vidas dos cientistas. Ele saberá, por exemplo, que Newton, ao morrer, deixou mais de um milhão de palavras sobre misticismo e alquimia e que, em 1952, Einstein recusou a oferta de se tornar presidente de Israel.
O leitor médio também conhecerá figuras pouco exploradas pela mídia, mas que tiveram grande importância para o avanço da ciência. Entre eles, Lucrécio, um filósofo epicurista, anterior a Cristo, que lançou as bases da teoria atômica. Saberá, por exemplo, que Lucrécio tinha seis princípios básicos, entre os quais:
1 - O mundo é composto de átomos, que estão em constante movimento;
2 - Os objetos, que podem ser vistos e tocados, são feitos de diferentes tipos de átomos;
3 - A mente nasce e deverá morrer; não existe vida após a morte; a imaginação do inferno é uma projeção do sofrimento passado na Terra;
4 - A superstição é derivada da ignorância.
Para os que têm uma noção um pouco mais aprofundada da ciência, o divertido é descobrir as omissões. E são muitas, a maioria inexplicáveis. Por exemplo: Freud está na lista (é o sexto), mas Jung não.
É possível defender o autor se acreditarmos que a ênfase é sobre cientistas das áreas de exatas e naturais, mas mesmo assim ainda é possível encontrar omissões incompreensíveis. Um exemplo gritante é John von Newman. Ele é creditado como autor cibernético, criador da teoria dos jogos e inventor do computador. Ora, na cibernética temos um autor mais importante que ele, Norbert Wiener. Quanto aos computadores, é inexplicável a ausência de Alan Turing na lista. Sobre a teoria dos jogos, John Nash, ganhador do prêmio Nobel de economia (e inspiração para o filme Uma Mente Brilhante) também é uma ausência inexplicável.
No campo da lingüística, Noam Chomski aparece, mas a lista omite Ferdinand de Saussure e, principalmente, Charles Pierce. Ambos foram criadores da semiótica e tiveram uma influência muito mais duradoura.
Nenhum dos cientistas da chamada Teoria do Caos entra na lista, o que é mais do que uma injustiça. A Teoria do Caos é um novo paradigma, que está mudando completamente a maneira como vemos o mundo e tem tido influência em campos tão distintos quanto a medicina e a economia. Minha aposta para a lista, para representar os teóricos do caos, seria o matemático polonês Benoit Mandelbrot, o criador da geometria fractal.
Além do interesse óbvio de conhecer um pouco mais sobre as mentes que fizeram nossa civilização, há um outro, descobrir padrões na história de todos eles. O próprio autor nos dá algumas pistas na introdução, ao dizer que, "Com alguma exceções - Michael Faraday, a mais conhecida - nenhum deles nasceu num ambiente de pobreza. Na verdade, vieram de origens abastadas ou lares de bom nível, em que a busca de valores intelectuais era altamente apreciada. A maioria, em Os 100 Maiores Cientistas da História, era prezada e encorajada por seus pais e, ainda criança, teve inúmeros passatempos, como colecionar isentos, observar pássaros, aprender álgebra ou cálculo e construir".
Ou seja, a grande lição do livro é que, mesmo a melhor mente não se desenvolve se não tiver estímulo tanto material quando intelectual. Não é de admirar, portanto, que os maiores gênios surjam em países ricos. E que o Brasil não tenha um único representante na lista. Quantas e quantas crianças poderiam ser grandes gênios da ciência, mas se perdem em meio à pobreza, más condições de vida, fome e falta de qualquer estímulo intelectual. Se esse quadro, tão comum no Brasil, não for mudado em breve, talvez em pouco tempo não entremos nem mesmo na lista dos 1000 maiores cientistas.

Quarteto Fantástico – O dia do juízo final

 


Durante boa parte da década de 1960, a revista do Quarteto Fantástico era a mais vendida da Marvel (o que pode parecer uma surpresa para os fãs mais jovens). E havia uma razão: a publicação não só foi a primeira da era Marvel como foi, em muitos sentidos, o ápice da criatividade da dupla Jack Kirby – Stan Lee.

O saga O dia do juízo final, publicada em Fantastic Four 57 a 60 é um dos picos dessa dupla criativa.

Na trama eletrizante, o Doutor Destino rouba os poderes do Surfista Prateado e pretende usar esse poder para conquistar o planeta terra. Como uma criança fascinada com um presente de natal, ele percorre o mundo, transformando o dia em noite, tornando uma ilha tropical em um deserto congelado e convertendo um gorila numa fera assassina.

O Doutor Destino rouba os poderes do Surfista. 


Nesse meio tempo, ele se envolve em diversas escaramuças com os membros do Quarteto Fantástico, que inevitavelmente saem derrotados. O leitor sente que a ameaça é real, a maior já enfretada pelo grupo de aventureiros desde que estes enfrentaram Galactus.

Para tornar a situação ainda mais tensa e eletrizante, uma narrativa paralela mostra os Inumanos conseguindo finalmente se libertar da prisão na qual estavam confinados – numa sequencia incrível em que descobrimos finalmente porque Raio Negro nunca fala.

Isso de colocar tramas dentro de tramas era uma das razões do sucesso do quarteto – e uma das dificuldades dos editores que pretendem publicar apenas uma determinada saga: a fase de Stan Lee e Jack Kirby parece uma grande saga dividida em que tudo se interliga.

O vilão se diverte testando seu poder. 


Curioso que nenhum outro personagem Marvel aparecesse para ajudar na luta contra uma ameaça tão absurdamente poderosa. Essa era uma característica do grupo: enfrentar ameaças muito mais poderosas que eles e ainda assim vencer – geralmente graças a um plano engenhoso do senhor fantástico. O grupo era, de fato, fantástico.

Aliás, os outros personagens Marvel fazem uma aparição na história, mas de forma inusitada. Logo na primeira história, à certa altura o Coisa está assistindo televisão e diz: “Ei, essa série dos super-heróis Marvel é batuta! Mas, se quer saber, algumas das histórias são exageradas demais!”. Stan lee misturando marketing e metalinguagem.

Em tempo: o nome da saga é Doomsday, um trocadilho com o nome do vilão, Doctor Doom.

domingo, janeiro 30, 2022

LIVE da CAPA Comics - Gian Danton

A Bíblia do roteiro de quadrinhos


 

Descubra os segredos dos grandes roteiristas de quadrinhos e crie HISTÓRIAS INCRÍVEIS

Nos quadrinhos, os desenhos chamam a atenção de possíveis leitores, mas só bons roteiros garantem histórias memoráveis. E é essencial que o roteirista não só tenha ideias inspiradas, mas também que saiba transmiti-la perfeitamente para os desenhistas.
Para isso, nesta obra apresentamos as melhores ferramentas utilizadas para produzir roteiros profissionais. Mas vamos além: abrimos a mente do leitor para as possibilidades da nona arte, pois profissionais sabem usar estas ferramentas, e gênios as usam para abrir novos horizontes.

Valor: 60 reais. Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

MAD 14 - Prepúcio

 

A sátira do filme Crepúsculo foi meu terceiro roteiro para a MAD. Foi um sufoco porque o filme ainda não havia estreado e tive que conseguir uma versão pirata. Fora isso, foi uma sátira que meio que se escreveu sozinha. O desenho ficou a cargo do grande Raphael Salimena. Nós enchemos a história de piadas de fundo, em especial na página dupla de apresentação dos personagens. Em um dos cantos aparecemos eu, o desenhista e o editora Raphael Fernandes como turistas. Eu comento: “Nossa, nessa cidade todos são virgens” ao que o editor responde: “Até os DVDs são virgens” enquanto segura o DVD “Fiz pornô e continuei virgem” (sim, existiu um filme com esse título!). Gosto particularmente da sequência do pai da Mella Swando com Fedward Cúllen.
Em tempo: já fui chamado de machista, racista e homofóbico por causa dessa capa, então gostaria de esclarecer que não desenhei a capa muito menos era o editor que escolhia a capa. 

As melhores distopias

  As distopias são utopias ao contrário. Se as utopias surgiram no sonho do racionalismo humanista e iluminista, as distopias vão surgir como denúncia do processo de massificação característico do século XX, com sociedades autoritárias usando a mídia e a psicologia de massas para garantir a manutenção do regime. As distopias são essencialmente uma crítica da massificação e manipulação do povo, principalmente através dos Meios de Comunicação de Massa.


1984, de George Orwell 

O inglês Orwell escreveu o livro depois de sua experiência na Guerra Civil espanhola em que viu as notícias serem manipuladas pelos stalinistas (são famosas, por exemplo, as fotos em que eram retirados líderes comunistas que caiam em desgraça). O contato com os fascistas, contra os quais Orwell lutou na Espanha, também influenciou a produção da obra. Em 1984 as pessoas são vigiadas 24 horas por dias por telas que enviam e transmitem informações. As notícias são constantemente reescritas para se adequar aos novos rumos do regime (o lema do governo é: quem governa o passado, governa o presente, quem governa o presente, governa o futuro). É nesse livro que surge o Big Brother, o ditador onipresente que, ironicamente, serviu de inspiração para o reality show. O livro foi adaptado várias vezes para cinema e TV. A mais famosa é a versão de Michael Radford feita exatamente no ano de 1984. 




Admirável mundo novo 
Escrito pelo filósofo Adous Huxley, o livro mostra uma sociedade em que as pessoas são condicionadas a viverem felizes num sistema de castas que decide o destino de cada um. Para isso é usada a psicologia comportamental e subliminares. A grande lição do livro é que não existe felicidade verdadeira sem liberdade de pensamento. O livro é muito conhecido no Brasil por conta da música Admirável gado novo, de Zé Ramalho.





Fahrenheit 451 
Ray Bradbury fez uma análise acurada da população atual ao escrever um livro em que o totalitarismo surge não através da emergência de um ditador, mas do próprio povo, que opta por viver uma vida massificada. O livro gira em torno dos bombeiros, que, uma vez que as casas na obra são à prova de fogo, ganham para queimar livros, já que a leitura é proibida. Segundo Bradbury, tal estado de coisas começou com os protestos das minorias, que se sentiam ofendidas por esta ou aquela obra, até o ponto em que todos os livros foram proibidos, pois todos os grandes livros nos incomodam e nos fazem pensar. Na obra, as pessoas passam todo o tempo livre ou dirigindo em alta velocidade ou assistindo programas de TV totalmente insossos, que não ofendem ou incomodam ninguém, mas colocam seus expetadores num estado de topor massificante. Deu origem a um ótimo filme dirigido por François Truffaut.



Logan´s run (Fuga nas estrelas ou Fuga no século 23)

Filme, quadrinhos, seriado de TV, livro... essa foi um das mais famosas distopias da década de 1970. Após uma guerra nuclear, os protagonistas vivem numa cidade fechada chamada Domo governada por um computador. Para equilibrar a população, ninguém pode viver mais de 30 anos. Os que chegam a essa idade são supostamente renovados em um evento público chamado carrossel. Na verdade, são transformadas em comida para os mais jovens. Para cada novo bebê, uma pessoa precisa morrer. Numa felicidade hedonista que remete à Admirável mundo novo, os habitantes do domo não se casam: têm apenas relações sexuais fortuitas. Alguns fogem e tentam chegar a um local chamado Santuário, onde as pessoas podem viver livres e envelhecer. Para caçá-las existem os Sandman, soldados totalmente devotados ao regime. A história é focada em Logan, um Sandman que foge junto com uma jovem e sua busca pelo Santuário. Embora não teha uma análise política tão avançada quanto outros exemplos de distopias, o seriado teve o mérito de levar o tema para o público juvenil. 

V de Vingança

Escrito por Alan Moorre e ilustrado por David Lloyd, essa HQ mostra uma sociedade autoritária em que as pessoas são vigiadas por câmeras (como em 1984) e controladas pela mídia. A história é focada em V, um herói anarquista que vai minando aos poucos as bases do regime numa tentativa de convencer a população de que cada deve pensar por si mesmo, e não entregar sua vida nas mãos de govenantes. A série ganhou uma adaptação cinematográfica pelas mãos dos mesmos diretores de Matrix que eliminou da história boa parte de seu conteúdo político. 



O concorrente  
Nessa distopia de Stephen King, os EUA, totalmente dominados pela poluição, a maioria da população vive miserável e doente, mas é mantida sob controle através reality shows. O personagem principal entra em um deles para conseguir dinheiro para a operação da filha. Ele é literalmente caçado e quanto mais tempo sobreviver, maior será o prêmio ganho pela família. Uma interessante análise do poder da mídia e de como o sentido do mórbido atrai a grande massa (todos os reality shows são crueis - em um deles cardíacos deve fazer exercícios até a morte). Virou filme com Arnold Schwarzenegger com o nome de O Sobrevivente.

A arte fantástica de Even Amdundsen

 


Even Amundsen é um artista da Noruega que produz ilustrações de fantasia. Ele fez ilustrações para diversas empresas de games, como a Blizzard, Riot e Wizards of the Coast. Suas imagens geralmente apresentam personagens de fantasia, como dragões, elfos, orcs, feiticeiros e guerreiros medievais. Atualmente ele trabalha como freelancer para diversas empresas.














Xuxulu, foi você?

 

Fundo do baú - He-man

 

O desenho animado He-man é um filho bastardo do Conan. No início dos anos 1980, a Mattel comprou os direitos para fazer os bonecos do cimério, mas considerou que o filme era muito adulto. Assim, criou a série Mestres do Universo e encomendou para a Filmation uma série de desenhos animados para ajudar a alavancar as vendas. Em 1983 foi lançada a série He-man e os mestres do universo tornando-se um enorme sucesso. Foram duas temporadas de 65  episódios cada. Além disso, ainda surgiu uma série irmã, She-ha, a princesa do poder, com 93 episódios.
A Filmation usou a técnica da rotoscopia, em que os desenhos eram feitos em cima de filmagens de atores. O estúdio já havia usado essa técnica em Tarzan e Flash Gordon e costumava repetir os movimentos. Tarzan, Flash Gordon e He-man corriam da mesma maneira.
No Brasil He-man foi uma febre. Surgiu até um álbum de figurinhas que esgotava rapidamente nas bancas.
Uma das curiosidades do seriado são os conselhos de He-man dados ao final de cada episódio, que acabaram de transformando memes na web.

Correio do Cidadão indica Gian Danton como um dos 7 quadrinistas nacionais para se conhecer

 

O jornal Correio do Cidadão, de Guarapuava (segundo a Amazon, a cidade mais nerd do Brasil) fez uma matéria sobre o dia do quadrinho nacional e publicou uma relação de sete quadrinistas que o leitor deveria conhecer. E, entre os diversos nomes de feras dos quadrinhos, colocou o meu. Uma hora! Para ler a matéria, clique aqui.

sábado, janeiro 29, 2022

A análise da narrativa

 

Estamos cercados de narrativas. Das novelas aos grandes romances, passando por lendas e histórias em quadrinhos, as narrativas acompanham o homem há milênios e são um item cultural importante na distinção entre humanos e outros animais. Foi para ajudar a explicar essas histórias que Yves Reuter escreveu A Análise da Narrativa - o texto, a ficção e a narração.
A análise à qual se refere Reuter tem duas características. A primeira delas é interessar-se pelas narrativas como objetos lingüísticos. Assim, a forma como foram construídas ou a sua forma de comunicação não são objetos de análise. A segunda é a idéia de que, apesar da diversidade de histórias, há formas básicas e princípios de composição que podem ser percebidos.
Achar esses núcleos comuns, essas formas nas quais são feitas todas as narrativas foi objetivo de vários pensadores, a começar por Aristóteles em seus textos sobre o teatro grego.
Mas Reuter restringe seu resgate a autores mais modernos, como Umberto Eco, Roland Barthes, Claude Brémond e Vladmir Propp.
A teoria de Propp, por exemplo, parte da idéia de que existem 31 funções que constituem a base comum sobre qualquer história.
Para quem leu os livros de Harry Potter, ou assistiu aos filmes, algumas funções são facilmente identificáveis nessa história:
1 - Afastamento - um dos membros da família parte ou morre (a saga de Potter começa com a morte dos pais).
2 - Marca - o herói recebe uma marca provocada normalmente por um ferimento. Essa marca o ajudará posteriormente (Potter recebe uma marca na forma de raio).
3 - Partida - o herói deixa sua casa (as aventuras de fato começam quando Potter parte do lar dos tios em direção à escola de magia).
4 - Interdição - o herói se defronta com uma ordem ou uma proibição (quem já leu os livros de Potter sabe que sempre há algum tipo de proibição: não entrar em uma sala, ou não andar pelos corredores à noite).
5 - Recepção do objeto mágico - o herói recebe um ou mais objetos mágicos.
6 - Transgressão - a ordem não é atendida (a insistência de Potter em desobedecer proibições e a tendência do diretor da escola de perdoá-lo tem sido, inclusive objeto de crítica. Muitos pais têm dito que o bruxinho é um incentivo à desobediência).
7 - Engano - o agressor tenta enganar a vítima para apoderar-se dela ou de seus bens (Essa é fácil. Valdemort sempre se disfarça de alguém bom para prejudicar Potter).
8 - Cumplicidade - a vítima se deixa enganar e involuntariamente ajuda seu inimigo (se você leu Harry Potter, não há mais o que dizer).
9 - Descoberta - o falso herói é desmascarado.
10 - Vitória - o agressor é vencido.
Claro que pulei 21 funções e tirei outras do lugar, mas é surpreendente como elas se encaixam na história do bruxinho inglês. Das duas, uma: ou Rowling leu toda a obra de Popp e escreveu sua história baseando-se na teoria do narratólogo russo, ou Propp realmente conseguiu alinhavar algumas características comuns a muitas histórias. A primeira hipótese é muito pouco provável. É mais certo que existam certos arquétipos, certos princípios básicos das histórias que sejam compartilhados por nós através do inconsciente coletivo e apareçam nas histórias que lemos ou vemos nas telas do cinema.
Além dos interessantes capítulos sobre a teoria da narrativa, o livro de Reuter ganha fôlego ao falar do texto e suas relações com o mundo e outros textos.
Todo texto remete ao mundo. Por mais ficcional que seja uma narrativa, ainda assim, ela remeterá a categorias e objetos que já conhecemos. Mesmo um escritor de ficção científica, ao descrever um extraterrestre, o fará comparando-o a animais ou objetos por nós conhecidos. Reuter dá como exemplo as descrições de ETs feitas por H.G. Wells, em A Guerra dos Mundos: "Dois grandes olhos sombrios me examinavam fixamente. O conjunto da massa era redondo e possuía, por assim dizer, uma face: sob os olhos havia uma boca, cujas bordas desprovidas de lábios tremiam, agitavam-se e deixavam escapar uma espécie de saliva".
O realismo é uma das formas mais constantes da relação entre o texto e o mundo. Aqui não se fala da escola literária (em específico), mas da tentativa de fazer o leitor acreditar naquilo que está lendo, comum a quase todas as escolas literárias.
A forma de dar realismo ao texto muda de geração para geração e o que é realista hoje pode parecer totalmente irreal daqui a algumas décadas (uma forma de perceber isso é assistir filmes de ficção científica do início do século XX). Mas existem alguns recursos interessantes, levantados por Reuter, para criar o realismo.
Um deles, naturalizar a narração, foi muito usado no século XVIII. Consistia em justificar a origem da história. Geralmente isso era feito com um preâmbulo ao leitor, no qual se explicava que o livro havia sido escrito por outra pessoa e muitas vezes detalhava a forma como se teve acesso aos originais. Umberto Eco usou esse recurso em O Nome da Rosa, ao atribuir a autoria a um monge da Idade Média.
Até mesmo romances da chamada literatura de massa se utilizam desse recurso. J. J. Benitez jura até hoje que os livros da coleção Operação Cavalo de Tróia foram escritos por um militar norte-americano que, teria, realmente, voltado ao passado para se encontrar com Jesus. Lembro de um livro que encontrei na biblioteca da escola quando pequeno que mostrava naves espaciais. As ilustrações eram acompanhadas de textos que tratavam as naves como coisas do passado. Tipo: "Essa nave foi muito usada quando os humanos começaram a se aventurar para fora do sistema solar". Claro que o texto era só uma desculpa para as ótimas ilustrações serem vendidas como livro, mas ele realmente me convenceu e eu acreditava que havia entrado em algum dobra espacial através da qual havia chegado em minhas mãos um livro de um futuro distante.
Mas os textos não fazem só referência ao mundo. Eles também fazem referência a outros textos. Essas referências podem ser caracterizadas, por exemplo, pela intertextualidade. É o que ocorre quando temos um texto dentro do outro. As formas mais comuns são as citações, em que os escritores se divertem fazendo referências a outros autores. O livro O Nome da Rosa, por exemplo, é repleto de referências aos textos de Jorge Luís Borges.
Outra forma de intertextualidade consiste em apropriar-se de aspectos pouco explorados de histórias clássicas. Quem lê quadrinhos conhece muito bem esse recurso. Em Batman Ano 1, Frank Miller se aproveitou das brechas deixadas por Bob Kane para recontar a origem do Homem Morcego. Miller fez o mesmo com o Demolidor. Umberto Eco, aliás, tem um texto excelente em que explica porque os super-heróis da DC nunca envelheciam: suas histórias eram contadas sempre no vácuo deixado por outra aventura. Assim, o personagem ficava preso em um círculo vicioso que o impossibilitava de envelhecer.
Yves Reuter é doutor em letras e professor da Universidade Charles-de-Gaule-Lille III. Em A Análise da Narrativa ele faz um resgate aprofundado da narrativa, sem, no entanto se tornar cansativo. Seu texto é fácil e fluente e vai agradar não só professores de Literatura, mas todos que se interessam por entender um pouco melhor as histórias com as quais convivemos diariamente, seja em livros, em histórias em quadrinhos, nos cinemas, ou até nas páginas de jornais.