quinta-feira, fevereiro 25, 2021

O auto da barca do inferno

 


Gil Vicente foi o iniciador do teatro português. Altamente influenciado pelo autor castelhano Juan Del Encima, ele aos poucos desenvolveu um estilo próprio, com temas e abordagens únicas. Sua carreira começou de forma inusitada. Quando nasceu o filho de D. Manuel e D. Maria de Castela, reis de Portugal, ele entrou de surpresa no quarto do casal e recitou um monólogo no qual um homem simples do campo louvava o nascimento da criança. A corte adorou e ele foi convidado a repetir a apresentação no Natal. Ao invés disso, ele escreveu outra peça, Auto pastoril castelhano. O sucesso o levou a escrever diversas outras peças. Entre as mais famosas está o Auto da barca do inferno.

Auto era como eram chamadas as peças medievais. Inicialmente essas peças eram milagres e mistérios, peças religiosas, com histórias da Bíblia, a vida de cristo ou dos santos. Depois surgiram as moralidades, peças com simbolismo moral, nos quais os pecadores sofriam as mais terríveis punições. Logo surgiram as farsas, peças satíricas, cujo objetivo era apenas a diversão.

O auto da barca do inferno é uma mistura de farsa com moralidade. Nela, as almas das pessoas mortas chegam num porto e devem embarcar em duas naus: a do inferno, comandada por um demônio, e o paraíso, sob ordens de um anjo. Todos que ali chegam consideram que têm direito ao paraíso, mas logo se revelam seus pecados.

Os personagens eram tipos sociais, e representavam os grupos que Gil Vicente censurava. Há o fidalgo arrogante, que acha que tem direito ao paraíso por ser nobre; há o onceiro (agiota que emprestava dinheiro a preços extorcivos); o sapateiro, que representa os comerciantes que roubam seus clientes; o frade que vem com uma amante; a alcoviteira que conseguia mulheres para autoridades; o corregedor e o procurador, representando a corrupção da justiça e o enforcado, um ladrão que acha que vai para o paraíso. E havia o judeu, que até o diabo se nega a levar na barca, reflexo direto do preconceito anti-semita da época.  

De todos os personagens, só quem se salva é o Parvo, um camponês idiota e explorado, que fala palavrões, mas não tem malícia.

Um dos momentos mais interessantes é a entrada do corregedor e do procurador. Os dois se acham dignos do paraíso apenas por serem autoridades e sua arrogância transparece principalmente nas frases em latim. Sua forma de falar é satirizada pelo parvo:

“Hou, homens de breviários,

Rapinastis coelhorum

Et pernis perdigotorum

E mijais nos campanairos“

O auto da barca do inferno foi publicado na íntegra, em uma bela edição da editora Principis, ao preço módico de 10 reais. A edição traz ainda as peças Farsa de Inês Pereira, auto da alma, auto da feira, auto de mofina Mendes e O velho da Horta. De negativo a total falta de textos introdutórios ou mesmo notas explicando a linguagem de Gil Vicente, que misturava português com castelhano.

O anjo exterminador

 

O anjo exterminador é filme de 1962 do surrealista Luis Buñuel. O filme, considerado pelo New York Times como um dos 100 melhores de todos os tempos, conta a história de um grupo de ricos que, após um jantar formal, ficam presos na sala de uma mansão. Não há barreiras físicas que os impeça de sair, mas mesmo assim nenhum deles sai. O roteiro é inventivo ao criar estratégias para a não saída: É o criado que chega com o café, é uma acusação, é um assunto importante...
A premissa surreal serve para mostrar como reagem pessoas, no caso os ricos, em situações limite. Conforme vão passando os dias e os personagens são atormentados pela sede e pela fome, vão caindo as máscaras e aflorando o lado animal e instintivo dos mesmos. Impossível não comparar, por exemplo, com Walking Dead, que, embora num cenário e trama completamente diferente, lida com o mesmo princípio: mostrar como pessoas reagem diante de situações-limite.
Embora surreal, a película consegue ser verossímil. O expectador acredita que de fato, isso está acontecendo e se angustia junto com os prisioneiros.
Aliás, por seu caráter de fantasia, O anjo exterminador poderia figurar tranquilamente como um episódio de Além da Imaginação. 

quarta-feira, fevereiro 24, 2021

Evolução do Marketing

 


                             
O surgimento do marketing, como se conhece hoje, é resultado de uma longa evolução, que está diretamente ligada à evolução das próprias empresas.
            Na primeira fase, a centralização ocorria na produção. Essa fase corresponde ao início da revolução industrial, quando a demanda era maior que a oferta. Ou seja, havia mais pessoas querendo comprar do que produtos disponíveis. Isso fazia com que todos os esforços fossem direcionados à melhoria do processo de produção. Um exemplo muito bom disso foi Henry Ford. Ele percebeu que muitas pessoas não tinham carro simplesmente porque a produção não era suficiente. Os carros eram feitos artesanalmente, um a um, e demoravam muito para ficar prontos, além de serem caríssimos.
            Ford, então, implementou um processo de montagem em que cada operário fazia apenas uma parte do serviço. As peças eram feitas em série, exatamente da mesma maneira, para permitir um melhor encaixe e a aceleração da produção. Começaram a sair das fábricas milhares de Ford T, todos iguaizinhos, inclusive na cor: preta.
            O resultado foi um aumento incrível não só na produção, mas também no consumo de carros. Porém, logo começou a haver um excedente.  A situação tinha se invertido: agora havia mais oferta do que demanda e era necessário achar novos compradores. Era a segunda fase, da centralização nas vendas. Nessa fase, o vendedor começa a ter papel fundamental no marketing.
            O vendedor vendia um produto que a pessoa não conhecia e nem sabia que precisava. Então, a ênfase ficava no produto. O vendedor falava muito sobre o produto e focava pouco nos benefícios que o consumidor teria com a compra. O vendedor era a estrela.
            Nessa época, havia pouca concorrência. Geralmente uma empresa dominava o mercado e quem quisesse comprar não tinha muita opção. Exemplo disso era o Ford T. Quem não tivesse dinheiro para um caríssimo carro artesanal tinha de se contentar com o carro preto feito pela Ford. Isso não só nos EUA, mas no mundo todo, pois Ford ampliara sua rede de vendas por vários países.
            Então surgiu um homem chamado Alfred Sloam, da General Motors, que decidiu concorrer com Ford. Foi o marco da nova fase.
            Sloam percebeu que os carros de Ford tinham uma falha grave: eram todos iguais. Ele logo intuiu que o consumidor queria ter um carro diferente, com sua cor preferida, e começou a utilizar outras cores nos carros da GM. Além disso, nem todo mundo queria o mesmo carro. Alguns tinham dinheiro para pagar por um carro mais caro, outros não. Sloam criou quatro tipos diferentes de carro, um para cada faixa de renda. O mais caro era o Cadillac, e quem tinha um Cadillac não satisfazia apenas sua necessidade de locomoção, satisfazia também a necessidade de status.
            Foi um sucesso absoluto, e a GM desbancou a Ford em vendas. Os carros da Ford eram bons e baratos, mas não eram produzidos visando às necessidades e aos desejos do consumidor.
            Nessa fase tornou-se muito importante também diferenciar o produto dos concorrentes. Veja o Bombril, por exemplo. Durante muito tempo ele foi a única palha de aço do mercado, mas, de repente, começaram a aparecer concorrentes. Na época, as palhas de aço eram vendidas em rolos, sem embalagem, então a primeira coisa que os donos da Bombril fizeram para diferenciar o produto foi colocar uma etiqueta. Essa etiqueta logo evoluiu para uma embalagem amarela e vermelha que todo mundo conhece de longe.

            Outro exemplo é a Coca-Cola. Com o surgimento de vários outros concorrentes muito semelhantes, a Coca adotou a famosa garrafa com curvas, que a diferenciava dos concorrentes até mesmo no escuro.
            Nessa fase do marketing, a estrela é o consumidor. O enfoque todo passou a estar nele e nos benefícios conseguidos com o produto. Se antes um vendedor dizia: “Veja como é lindo este vestido”, agora os vendedores diziam: “Veja como esse vestido fica lindo em você.” Pode parecer pouco, mas essa mudança de foco foi uma revolução radical, que fez com que algumas empresas dominassem o mercado e sobrevivessem num mundo de negócios cada vez mais competitivo.
            No entanto, as empresas logo descobriram que não bastava deixar o cliente satisfeito individualmente. Era necessário que a sociedade também estivesse satisfeita.
            O marketing societal surgiu da evolução do pensamento do consumidor, que começou a cobrar das empresas responsabilidade social.
            Quem nunca recebeu um email com dizeres do tipo: “Não compre dessas empresas. Elas poluem o meio ambiente”?
            Muitas vezes uma empresa satisfazia o cliente isoladamente, mas a falta de compromisso social fazia com que suas vendas baixassem.
            As iniciativas de marketing societal são as mais diversas possíveis: do supermercado que oferece um dia de lazer para a comunidade à empresa de perfume que financia projetos de proteção ao meio ambiente. 
Empresas como O Boticário e a Natura têm se destacado justamente por sua atuação social e com isso acabam ganhando a simpatia do público. Em um mercado repleto de opções de cosméticos e perfumes, essa diferenciação tem um significado importante: competitividade. Além disso, elas ganham com a melhoria da imagem da empresa. E em marketing imagem é tudo. 
É importante destacar que essas fases do marketing não são estanques e nítidas historicamente. Há países que ainda estão na primeira fase do marketing, enquanto outros já estão na fase do marketing societal. Isso depende muito das variáveis que compõem a sociedade e o mercado de cada país. Não se espera encontrar no Zimbábue, por exemplo, uma grande procura por produtos com embalagem reciclável. Num país em que a sobrevivência ainda é uma conquista diária, detalhes como esse não fazem a menor diferença.

A ideia que governa o mundo

 

Gottfried von Leibniz foi um dos maiores gênios do século XVII. Ele se movia com facilidade pela matemática, filosofia e direito. Além disso, ele se envolveu em projetos de prensa hidráulica, horticultura e construção de moinhos de vento. Mas Leibniz acalentava um projeto especial: criar uma enciclopédia que contivesse todos os conceitos humanos. Ele acreditava que, por mais que pudesse haver muitos conceitos complexos, a quantidade de conceitos simples deveria ser pequena. E, se existe um número finito de conceitos simples, deve haver no pensamento um princípio de organização, que orquestre o modo como são combinados. No final, o filósofo concluiu que existem apenas dois conceitos simples: Deus e o Nada. A partir desses dois, todos os outros poderiam ser construídos. Gottfried von Leibniz foi um dos maiores gênios do século XVII.

A idéia, que parece uma maluquice de um pensador que já deveria estar no hospício muito antes de formular seu sistema filosófico, é, na verdade, um dos mais úteis instrumentos da atualidade. Sem ela, nem eu estaria escrevendo este texto em um computador, nem você o estaria lendo pela internet. Os conceitos de Deus e Nada de Leibniz são a base do 0 e 1, a linguagem binária usada pelos computadores digitais. Toda informação que adentra um computador, por mais complexa que seja, é transformada em uma série de 0 e 1, ou Deus e Nada.

Leibniz foi, portanto, o avô do algoritmo, um sistema lógico que tornou possível os computadores. É a história da criação do algoritmos que David Berlinsk, professor norte-americano de lógica, conta em O Advento do Algoritmo.

O livro pode parecer um volume hermético, de interesse único dos viciados em matemática, lógica e computadores, mas não é. Berlinski tem uma linguagem simples e um jeito muito divertido de falar de coisas complicadas. Além disso, ele é um tanto poético, às vezes exageradamente poético. Ao falar da lógica aristotélica, ele se refere à decadência do Império romano da seguinte forma: "A cultura brilhante e única dos gregos antigos se exauriu quando o sol ainda brilhava. Os bárbaros começaram a vagar pelas margens rotas e esfarrapadas do Império Romano".

O livro tem momentos exclusivamente literários, como aquele sobre um homem que vendia sonhos, colocado ali para nos fazer ver que sonhar com a verdade pode ter um preço muito caro.

Um preço muito caro pagou o lógico inglês Alan Turing, que se suicidou comendo uma maçã envenenada.

Turing percebeu que muitas vezes seres humanos faziam trabalhos mecânicos, que podiam perfeitamente ser feitos por um computador e imaginou uma máquina capaz de realizá-los. Ele partiu da idéia de Leibniz, de que conceitos complexos podem ser expressos através de conceitos simples. Ou seja, todas as coisas poderiam ser expressas através de dois símbolos, 0 e 1. Ou melhor, um, pois o 0 é a ausência de símbolo.

O computador de Turing teria uma fita infinitamente longa dividida em quadrados. Teria também um mecanismo de leitura que poderia realizar três operações: 1) ler os símbolos nos quadrados; 2) mover-se pelos quadrados, de acordo com uma programação; 3) imprimir símbolos nos quadrados.

Um exemplo simples e, ao mesmo tempo, maravilhoso de utilização da máquina de Turing é a soma 1 + 1. O número 1 é expresso através de dois símbolos, 11. O espaço em branco representa o sinal de somatória. Assim, 1+1 seria expresso da seguinte maneira: 11 espaço 11. A seguir, basta dar uma programação à máquina.

A programação é a seguinte:

A leitura se move para a direita até encontrar um espaço vazio e, então, imprime 1.

Os sinais, que eram 11 11, ficam 11111.

A seguir ela se move novamente para a direita até encontra um espaço em branco, sinal de que agora ela deve se mover para a esquerda e, ao invés de imprimir, deve apagar os dois primeiros da esquerda e, então, parar. O símbolo resultante é 111, justamente o símbolo do número dois.

Simples e extremamente eficiente.

O método proposto por Turing permite que computadores possam processar qualquer informação usando apenas o Deus e o Nada.

Só por nos mostrar que idéia aparentemente sem nenhuma utilidade prática podem se tornar extremamente importantes (e, de certa forma, governar o mundo), o livro de Berlinski já valeria a pena. Como se isso não bastasse, a editora Globo fez um belo trabalho gráfico, com uma capa belíssima e uma encadernação de primeira. Dá gosto de ler.

Roteiro de quadrinhos: colocando texto nos balões

 

Há dois aspectos que se deve considerar ao escrever o texto numa história em quadrinhos. E, quando falo de texto, vale tanto para legendas quanto para diálogos.
O primeiro deles é que quadrinho não é literatura. O texto quadrinístico só existe em íntima coesão com a imagem. O roteirista deve pensar visualmente, imaginar como seu texto vai interagir com os desenhos e que tipo de impressão essa junção vai causar.
O segundo aspecto é que o roteirista deve saber quem são os personagens. O ideal é que até mesmo os personagens secundários tenham uma história. Quem são eles? Quais são suas motivações, quais são os seus medos, quais são suas esperanças? Há alguma história de vida que podemos contar sobre esse personagem e que ajudem a mostrar ao leitor quem é essa pessoa?
Essas duas preocupações sempre dominaram minha produção de roteiros. Exemplo disso é a história O farol, publicada pela editora Nova Sampa e, posteriormente, na editora norte-americana Phantagraphics, com o nome de Beach Baby.
Na história um casal está na praia quando vê surgir um farol. Eles entram no local para investigar e acabam se perdendo um do outro. A sequência que apresento abaixo mostra o momento em que o rapaz se perde da namorada, e se vê em local totalmente escuro, sendo dominado pelo medo. 
Eu e Joe Bennett trabalhávamos com o marvel way, um método que só funciona se o desenhista for um narrador nato, como é o caso do compadre. Nós discutíamos a história, ele ia para casa, fazia um rafe das páginas e me trazia. Era sempre um desafio escrever o texto, pois ele conseguia contar tudo só com imagens. Isso exigia o máximo do roteirista.
No caso dessa página, o que escrever? O desenho já explicava facilmente a situação: o rapaz estava perdido e entrando em desespero.
Não fazia sentido colocar o rapaz falando sozinho. Embora esse seja um recurso usando em algumas HQs, a verdade é que só malucos falam sozinhos.
Assim, preferi trabalhar os pensamentos do personagem, mas explicitados por um narrador em terceira pessoa, para conseguir o efeito desejado.
Reparem que o texto começa contando um detalhe sobre o personagem, uma pequena história da vida dele, mas segue num crescendo até a conclusão final. O texto do último parágrafo encaixa perfeitamente com a expressão do personagem, conseguindo um efeito tanto de impacto quanto de ironia.
 Reproduzo abaixo o texto:
“Fábio”
“Fábio”
“Fábio”
Ele repete o nome para si milhares de vezes.
Uma vez ele conheceu um ocultista, um homem  de óculos grosso e estante cheia de livros.
O homem disse que o nome de cada pessoa é um mantra para si mesmo.
Palavras sagradas que, repetidas várias vezes, trazem calma e paz de espírito.
Com Fábio isso não deu muito certo.

As melhores capas de Conan

 


Uma das características das publicações de Conan no Brasil, em especial a revista em preto e branco A espada selvagem de Conan, eram as ótimas capas. Tão boas que se torna difícil escolher as melhores. Mas fiz uma seleção de algumas que considero que são essenciais. Espero que gostem.











Tentou comentar no blog e não conseguiu?

  


- Gian, entrei no seu blog e tentei comentar numa matéria, mas não consegui. 
- Infelizmente eu tive que bloquear os comentários. 
- Mas por quê? 
- Olha o tipo de comentário que os bolsominions estavam postando. 
- Caramba, são dezenas de comentários iguais o cara já começa te chamando de stalinista! 
- Pois é, é o culto à personalidade. Como eles consideram o Bolsonaro um semi-deus, qualquer um que não o idolatre só pode ser comunista. E pode colocar na conta vários outros "comunistas": Jim Starlin vira comunista, Raul Seixas vira comunista, Alan Moore vira comunista. E, para eles, comunista precisa ser preso. 
- O cara está te chamando de lulo-petralha?!!!
- Pois é, eu que nunca votei no PT, que sempre critiquei o PT de repente virei petralha só porque me recuso a idolatrar o mito. 
- E você praticamente nem fala de política no seu blog. 
- Pois é. Mas a estratégia deles é Dart Vader: ou você idolatra o Capitão ou é comunista. Teve um "amigo" bolsominions que ameaçou me dar um soco só porque eu disse que político é para ser cobrado não para ser idolatrado. Outro disse que o pior tipo de "comunistas" são os "isentões": isentão aí significa alguém que se recusa a idolatrar o mito deles, mas ao mesmo tempo não idolatra o Lula, que se recusa a tecer elogios à ditadura militar, mas também não elogia a Coréia do norte. Antigamente para ser comunista precisava ser fã do Karl Marx, precisava ler o Manifesto Comunista, precisava acreditar em ditadura do proletariado. Hoje em dia, para ser comunista, basta não idolatrar o mito.
- Ele te acusa de cometer um gesto lulo-petista. Que gesto lulo-petista é esse?
- Me recusar a idolatrar o mito. Para quem escreveu esse comentário, qualquer um que não idolatre o mito está cometendo um gesto lulo-petista. Ou seja, na cabeça dele, está cometendo um crime. São pessoas que só se informam pelo zap zap e por vídeos de teoria da conspiração.
- Caramba, estou lendo aqui. O cara está ameaçando te denuncia... Te denunciar para quem? 
- Para os militres, provavelmente. 
- Estou vendo aqui. Ele te acusa de doutrinar os alunos. Fui seu aluno e você nunca falou de política em sala de aula. 
- Deve ser porque uso camisas da Marvel em sala de aula. Dizem que estou doutrinando os alunos a gostarem da Marvel. Nisso, confesso, sou culpado. Mas em minha defesa posso dizer que gosto da DC quando ela é desenhada pelo Garcia-Lopez.... rsrs... 
- Nossa, o cara diz que vai fazer você perder o emprego! Chega até a te chamar de estelionatário! 
- Só faltou dizer que vai me prender e  torturar pessoalmente para que eu confesse todos os meues crimes...kkkk Tudo isso porque eu me recuso a idolatrar o Capitão. E é esse pessoal que diz que é a favor da liberdade. A liberdade que eles querem é a liberdade de poder denunciar e prender quem pensa diferente deles. E como você pode ver, postaram essas ameaças dezenas de vezes no blog antes que eu bloqueasse os comentários. É por isso que não é mais possível comentar no meu blog. Infelizmente, tive que bloquear essa possibilidade de contato com meus leitores por causa desse tipo de comentário ameaçador.   
- Assustador, melhor manter os comentários do blog fechados mesmo.  
- Pois é. Melhor do que dar voz a gente desse naipe, que só se informa pelo zap zap e acredita em todas as teorias da conspiração possíveis. O triste disso é que com isso percom uma forma de contato com os leitores. 

Pijama selvagem - um texto inacabado

 


Em 1999 fui colaborador de um dos melhores sites que já aportaram pela internet brasileira, o Pijama Selvagem. Era um tempo em que a internet ainda tinha para mim o fascínio do novo e o Pijama ajudava a construir esse fascínio. É, até hoje, o único site que eu esperava ansiosamente pelas atualizações. Eu já conhecia o editor, Nemo Nox, através do site cultural Esfera, com o qual eu colaborava ocasionalmente. Então ele me convidou para participar desse novo projeto, que unia apenas crônicas humorísticas. Quase todos os textos que tenho publicado aqui são dessa fase em que me meti a fazer humor. O texto abaixo foi feito na virada de 1999 para o ano 2000 e nunca foi publicado porque nunca fiquei satisfeito com o resultado e sempre achei que o texto estava inacabado. Mas publico aqui, como curiosidade.

Em tempo: o Pijama Selvagem não existe mais, mas é possível encontrar no antigo endereço algumas informações sobre como era o site e sua repercussão na imprensa.

 

Os melhores do século

 

            Com o final do século, tive uma idéia genial. Uma não, várias. Primeiro pensei em eleger o escritor do século. Pimba! Veio a Istoé e fez isso antes de mim. Depois o melhor músico, o melhor cientista, os melhores atores... tudo copiado por aquela revista odiosa.

            Já que a grande maioria da mídia insiste em copiar descaradamente minhas idéias, resolvi divulgar uma lista dos melhores pela qual a Globo provavelmente não se interessará.

            Claro, nada tão nobre quanto o cientista do século, mas quem disse que eu devo ser nobre? Eu só preciso ser engraçado o bastante para que o Nemo continue aceitando colocar meus textos no ar (Tá, você acha que isso é degradante? Eu nunca desci tão baixo quanto quando prometi um buquê de flores para que a editora do site Histórias de Amor aceitasse uma de minhas histórias).

            Mas vamos aos fatos, Athos:

O gago do século – é Poponho de Portela, de Paparica do Meio, Paraná. O primeiro emprego do rapaz foi de jornaleiro, em 1964, mas não deu certo. Ele terminou de anunciar o golpe militar quando os torcedores estavam comemorando o tricampeonato de futebol.

            Grande orador, Poponho criou a Fundação dos Ga-ga-gagos e tentou recolher assinaturas para um projeto de lei que proibia piadas com gagos. Acabou preso. Quando abordava as pessoas na rua, pedindo para “assassassassinar aqui”, muitos pensaram que ele estava incentivando a violência.

            Poponho morreu há dois anos, junto com toda a diretoria da Fundação, depois de protagonizar aquela célebre piada do gago que tenta avisar o grupo sobre a aproximação de um ônibus.

            Até hoje não terminaram o discurso de seu enterro.

 

O homem mais bravo do século – é Geraldo Cascagrossa, de Condenados do Sul, Rio Grande do Sul. Dizem que quando nasceu, ele deixou dois médicos com os olhos roxos, depois de retribuir o tapa da na bunda. Eu tentei entrevistá-lo, mas desisti da idéia quando dois tiros passaram perto de minha orelha esquerda. Não pude apurar mais nenhum dado, pois todos tinham medo de falar dele.       

terça-feira, fevereiro 23, 2021

Jogar o mau

 


Um grupo de amigos de Belém estava jogando sinuca quando apareceu um metaleiro. A cada boa jogada de alguém o cabeludo sacudia a cabeça e comentava: “Mau, cara, muito mau!”.
Todos acharam aquilo tão engraçado que, quando ele foi embora, começaram a imitá-lo. Toda jogada era “mau”, colocar o outro em sinuca era colocar em mau. Logo começaram a chamar o próprio jogo de mau.
A novidade fez tanto sucesso, que sinuca passou a ser “jogar o mau” entre nós.
A coisa viralizou e outras pessoas, nossos conhecidos, começaram a usar a expressão.
Mais de dez anos depois, já em Macapá, estava em um clube e um rapaz me indicou a mesa de sinuca e perguntou: “Vamos jogar o mau?”.
Para meu espanto, a expressão, que tinha surgido em um grupo de amigos tinha se popularizado a ponto de atravessar de uma cidade para a outra.

A experiência religiosa de Philip K. Dick, por Robert Crumb

 


Em 1974, o escritor de ficção-científica Philip K. Dick teve uma experiência mística em que se sentiu como uma pessoa que viveu no Império Romano, numa época em que os cristãos eram perseguidos. A experiência o marcou pelo resto da vida e pode ter sido responsável por sua morte. Se olharmos o episódio pela ótica da doutrina espírita, Dick teve um episódio de mediunidade. Robert Crumb, um dos maiores nomes do quadrinho underground americano, transformou em quadrinhos o relato do escritor. O resultado pode ser lido aqui.

Batman vs Hulk

 

Depois do sucesso do encontro do Super-homem e Homem-aranha surgiu a ideia de realizar mais um crossover entre heróis da Marvel e da DC. Os escolhidos foram Batman e Hulk. Para realizar a história foi chamado o roteirista Len Wein (que já trabalhara na Marvel e estava na DC) e o desenhista José Luís Garcia-Lopez, o mais emblemático ilustrador da DC.
Um encontro entre o homem morcego e o gigante esmeralda é um desafio absoluto de roteiro. A diferença de poder entre os dois é tão gritante que torna qualquer trama difícil, ainda mais uma trama que deixasse os dois personagens com igual nível de protagonismo, como queria a direção das duas editoras.


Wein escolhe como vilões o Coringa e o Figurador, um personagem alienígena capaz de transformar sonhos em realidades, e usa esses dois personagens numa trama bem elaborada e muito mais complexa do que o crossover anterior das duas editoras.
Para começo de conversa, o Figurador não é retratado como um vilão clássico. Enquanto na DC a diferença entre heróis e vilões é uma linha muito clara, na Marvel essa diferença é muitas vezes é apenas de intenção – e outras vezes nem isso. Conhecendo bem a diferença entre as duas abordagens, Wein as explora corretamente. Assim, o Coringa quer transformar o mundo à sua semelhança (nessa época ele ainda não havia se transformado no psicopata que conhecemos atualmente), enquanto o Figurador só quer uma maneira de se salvar.


Na parte dos heróis, tirando um ou outro roteirismo (como Batman chutando a barriga do Hulk e fazendo-o aspirar um gás), temos uma boa dinâmica. Não fica óbvio que a coisa foi pensada milimetricamente para nenhum dos dois ter protagonismo.


Quanto aos desenhos... Garcia-Lopez conta que quando o convidaram para o projeto, mostraram o crossover anterior, desenhado por Ross Andru e ele duvidou que pudesse fazer algo tão bom. Não só fez, como superou o mestre Ross. Com arte final de Dick Giordano, o artista argentino faz com que cada página seja um deleite de dinamismo e perspectiva. Pena que o formatinho da Abril não favoreça a apreciação da arte.

Crise nas infinitas terras: o melhor crossover de todos os tempos

 

No início da década de 1980, a cronologia da editora DC Comics era uma bagunça. O problema todo havia começado em 1961, quando Gardner Fox, responsável pela criação de Joel Ciclone e de sua versão da era de Prata, o Flash, resolveu fazer um encontro entre os dois personagens. A história “Flash de dois mundos” marcou a DC ao apresentar uma explicação que na época parecia muito criativa: o personagem clássico e o personagem moderno faziam parte de dimensões diferentes.
Posteriormente, a DC Comics (que na época se chamava National) começou a comprar personagens de outras editoras e, para acomodá-los, inventou novas Terras alternativas.
Os escritores começaram a juntar personagens de terras diferentes e a criar cada vez mais terras. Chegou num ponto que ficou difícil tanto ler as histórias quanto escrevê-las, pois ninguém conseguia entender direito como funcionava aquele universo com infinitas Terras alternativas.
Nessa época, o escritor Marv Wolfman, que vinha fazendo muito sucesso com os Novos Titãs, leu uma carta na seção de correspondência da revista do Lanterna Verde na qual um leitor reclamava: “Vocês deviam ajeitar a continuidade da DC” e teve a ideia de fazer uma grande história, em homenagem aos 50 anos da história da editora, que juntasse vários personagens e, ao mesmo tempo, desse uma arrumada na casa.
O personagem chave seria um vilão não aproveitado dos Novos Titãs, chamado Monitor, cuja função seria conseguir informações sobre os heróis para vendê-las aos inimigos. O Monitor foi transformado em herói, mas ganhou uma contrapartida negra: o Antimonitor, cujo objetivo seria destruir os universos paralelos. Ao final da Crise nas Infinitas Terras, sobraria uma única realidade e os personagens que não morreram durante a história foram acomodados nela.
A diretoria da DC Comics adorou a ideia de um grande crossover entre os personagens da editora e deu carta branca para Wolfman. Inclusive, escalou para a empreitada George Pérez. Os dois eram a escolha óbvia para o projeto, pois Wolfman sabia trabalhar muito bem com histórias que envolvessem muitos personagens e Pérez adorava desenhar muitos heróis em um único quadro. Em Crise, ele teria a chance de desenhar todos os personagens da editora, nem que fosse em uma única sequência.
Com a Crise, a DC mostrava que não era uma editora que vivia só de nostalgia, mas, ao contrário, consolidava a posição de inovadora. Afinal, além de mexer com toda o universo DC, Wolfman matou dois personagens queridos dos fãs: Flash e a Supermoça. E os personagens mais famosos, como Batman, Super-homem e Mulher Maravilha, foram reformulados.
O Super-homem ganhou uma nova versão, com traços e roteiros de John Byrne, que vinha do sucesso dos X-men. Batman foi reformulado por Frank Miller em Ano Um e a Mulher Maravilha ganhou uma nova versão, muito mais mitológica, com traço e roteiro de George Pérez.
Crise nas Infinitas Terras deixou três legados. O primeiro foi quanto à cronologia, um legado que com o tempo foi desaparecendo à medida em que novos roteiristas inventavam novas terras paralelas. O segundo legado foi quanto à obra em si, pois Crise foi uma ótima história em quadrinhos, com bom roteiro e bom desenho. O terceiro legado foi o negativo: a partir do sucesso de Crise, tanto a Marvel quanto a DC se viram tentadas a fazer mega-crossovers juntando todos os seus personagens sempre que as vendas iam mal. A maioria com qualidade muito inferior ao trabalho de Wolfman e Pérez. Como essas mega-sagas ocupavam todas as revistas da editora por um período, isso afastou novos leitores, que logo desistiram de comprar todos gibis de um mês para entender um único número.  

Os especialistas em Orwell que não leram Orwell


O escritor inglês George Orwell é a Clarice Linspector das citações políticas. Já vi as mais variadas falas creditadas a ele. Muitas são textos tirados do contextos. Outras são simples invenções. E muitos e muitos são os“especialistas em George Orwell” que nunca leram seus livros, ou quando muito leram os mais famosos, A revolução dos bichos e 1984.

O mais bizarro disso é a apropriação que o fascismo fazde George Orwell.

O escritor deve estar se revirando na cova. Logo ele, que lutou, ao lado dos trotskistas e anarquistas na Espanha contra o fascismo, ver sua obra e seu nome sendo apropriados pelos fascistas, muitas vezes com estratégias que ele mesmo denunciou no livro 1984, como a mudança do passado.

Para se ter uma ideia, agora que os livros do autor entraram em domínio público, uma editora fascista lançou 1984 e A revolução dos bichos. Para divulgar, simplesmente inventou fatos sobre a vida de Orwell. Segundo o texto de divulgação, 1984 foi recusado pela maioria das editoras inglesas por causa da aliança entre Inglaterra e a Rússia stalinista.

Em 1948, quando Orwell escreveu 1984, não existia mais essa aliança – ele ele era um best-seller, razão pela qual as editoras disputaram o livro. O livro A revolução dos bichos chegou a ser recusado por editoras, mas a razão era outra: livros com animais normalmente não vendiam bem e os editores temiam levar prejuízo.

A maioria das pessoas que cita George Orwell nas redes nunca leu qualquer livro dele além dos dois mais famosos (a maioria na verdade não leu nem esses dois e falam por “ouvir dizer”). São pessoas que acham que ele era um lorde inglês conservador que escrevia enquanto o mordomo lhe servia whisky.

O primeiro livro que li de Orwell foi 1984, no início dos anos 90, numa edição comprada em sebo, ao preço de uma passagem de ônibus (naquele dia eu voltei andando para casa). No final, eu tinha entrado em uma loja para comprar algo para minha avó e, quando o vendedor me entregou, fiquei lá, parado, porque não conseguia parar de ler. 

A partir daí fui comprando tudo que encontrava do autor. O que não conseguia comprar, lia de bibliotecas.

Orwell marcou meu estilo principalmente pela narrativa limpa e incisiva, sem firulas, pelo texto jornalístico impecável, com descrições extremamente vivas.

Outra característica de Orwell era a preocupação com temas sociais.

Essa preocupação o levou a escrever A caminho de Wigan, no qual ele denunciava a vida miserável dos mineiros de carvão na Inglaterra e como eles eram explorados.

A inquietação com os oprimidos o levou a se disfarçar para viver como mendigo – depois ele perderia o emprego e se tornaria de fato um mendigo, como relatado em Na pior em Paris e Londres.

O medo do fascismo o levou a se engajar na luta contra os fascistas na Espanha, como relatado no livro Lutando na Espanha. Aliás, foi ali na Espanha que ele percebeu que o fascismo tinha sua contrapartida esquerdista, o stalinismo. Quase foi morto pelos fascistas, quase foi morto pelos stalinistas. Toda a sua obra reverbera uma viva crítica a qualquer tipo de autoritarismo, seja ele de direita ou de esquerda.

Como critica aos conservadores ele escreveu um livro, A filha do reverendo, sobre uma professora que é massacrada pelos pais conservadores ao encenar com as crianças uma peça de Shakespeare, McBeth, que tinha uma referência ao parto.

Para quem, como eu, leu toda a obra de Orwell, é absolutamente lamentável ver a obra e o nome do autor serem apropriados por aqueles que ele mais combateu em vida.

Uma curiosidade é que, por outro lado, há muitos esquerdistas, especialmentes aqueles afeitos ao stalinismo, que chamam Orwell de fascista. Incrível como os extremos se parecem. 

Em tempo, quando ainda estava vivo, Orwell escreveu para um amigo explicando a tese principal do romance que ele estava escrevendo. Essa carta pode ser lida aqui

Um trecho: 
"Para onde quer que se olhe, todos os movimentos nacionalistas, mesmo os que surgiram como forma de resistência ao domínio alemão, parecem assumir formas não-democráticas, organizando-se em torno a algum tipo de fuhrer sobre-humano (...). Acrescente-se a isto o horror do nacionalismo exacerbado e uma tendência à descrença na existência das verdades objetivas, já que todos os fatos têm que se adequar às palavras e profecias de algum fuhrer infalível. Na verdade, em certo sentido, a história já deixou de existir, não havendo mais uma história contemporânea que possa ser universalmente aceita, e as ciências exatas também estarão ameaçadas tão logo não se precise mais do exército para manter a ordem. Hitler pode dizer que os judeus começaram a guerra, e se ele sobreviver, isso passará a ser a história oficial. Mas ele não pode dizer que dois mais dois são cinco, porque para os objetivos, digamos, da balística é preciso que essa soma continue sendo quatro". 

Parece que Orwell profetizou o mundo atual, não? 

segunda-feira, fevereiro 22, 2021

Além da imaginação – a versão de Jordan Peele

 


Além da imaginação foi um seriado clássico surgido no final dos anos 50 criado apresentado e produzido por Rod Serling (que, aliás, escrevia boa parte dos episódios). Marcou gerações. Suas histórias fantásticas, com roteiros irretocáveis tiveram uma influência duradoura a ponto de quando surgiu Black Mirror muito terem comentado que era o novo Além da imaginação. 
Suas histórias muito bem boladas, com a inevitável ironia do destino no final sedimentaram uma maneira de contar histórias e elevaram o nível da programação televisiva. O que Serling fez não foi só diversão, mas uma série que refletia sobre seu tempo (a guerra fria, o perigo nuclear) usando para isso a ficção científica e fantasia. Programas posteriores, como Jornada nas Estrelas devem muito a Serling. 
Na década de 1980, o seriado ganhou uma versão bastante equivocada, em que a ênfase estava muito mais nos efeitos especiais do que nos roteiros inteligentes. Agora o show retorna sob a batuta de  Jordan Peele, diretor de “Corra!”, que não só trouxe de volta a essência do seriado, como o atualizou o dando uma profundidade sociológica ao discutir temas como tensões raciais, ataques terroristas, imigração e eleições numa época de influenciadores digitais.
A qualidade do que foi apresentado nessa primeira temporada é tão grande que é difícil escolher o melhor episódio. Ainda assim, fiz uma lista dos episódios, do que mais gostei ao que menos gostei.  
Em tempo: a série está em exibição no streaming Amazon vídeo. 


Rebobine
Uma mulher negra está levando o filho para seu primeiro dia na universidade quando descobre que pode voltar o tempo rebobinando uma velha câmera vhs. Mas os dois estão sendo perseguidos por um policial racista. É um belo exemplo de roteiro em looping, com a protagonista tentando se livrar de um destino aparentemente inevitável. O episódio discute racismo, determinismo e a importância de se conciliar com o passado. Mas não traz respostas fáceis, como fica claro no final irônico. É o melhor episódio nova fase de Além da Imaginação e representa bem a proposta de usar a fantasia para falar de temas atuais.




Garoto prodígio
Um marketeiro em desgraça vê a chance de voltar ao topo quando um Youtuber de oito anos resolve lançar se candidato à presidência dos EUA. O episódio Garoto Prodígio reflete sobre os dias atuais, em que pessoas sem conteúdo se tornam celebridade da noite para o dia ganhando grande influência e poder político. Uma situação que é reflexo direto da falta de conteúdo da própria população, que vota em um candidato por ele prometer, por exemplo, vídeo games para todos. É um dos melhores episódios da nova encarnação de além da imaginação não só pelo tema, mas também pela constante tensão entre desejo e desgraça. É também um dos episódios que melhor refletem o modus operandi da série clássica, com seu final totalmente irônico.


Seis graus de liberdade
Seis graus de liberdade é um um dos roteiros mais complexos dessa nova versão de Além da Imaginação. E também um dos que permitem mais discussões filosóficas. Na história, um grupo de astronautas está sendo enviado a Marte. A terra está esgotada graças às mudanças climáticas e essa missão pode ser a última esperança da humanidade. Mas, no momento do lançamento, começa uma guerra nuclear de modo que os astronautas se vêm na situação de serem os últimos representante da humanidade. O episódio é todo construído em cima da teoria segundo a qual a maioria das civilizações tende a se aniquilar antes de desenvolverem tecnologia para viagens espaciais, o que explica o fato de nunca termos tido contatados por extraterrestres. Alguns autores, como Carl Sagan argumentam que se a civilização consegue ultrapassar essa fase e chegar ao espaço, ela tende a se perpetuar. O tema é explorado de forma inteligente, com poucos cenários, foco em closes e truques cinematográficos, como colocar a câmera de lado para simular gravidade zero.



Escorpião azul
Um professor universitário está se separando da esposa e morando com o pai. Um dia chega em casa e descobre que o pai, um hippie que tocou com várias bandas importantes, se matou com um tiro. A arma usada foi a escorpião azul, uma pistola rara que vale cem mil dólares. O episódio é usado para discutir a questão da idólatria das armas e de como elas são apresentadas como solução para todos os males. Mais: é sugerido que as armas se tornaram um novo tipo de religião fetichista. Isso é feito, no entanto, de maneira sútil, sem diálogos óbvios e com bom uso da força das imagens. A cena em que o professor vai a um clube de tiros testar a arma é perfeita. Quase sem diálogos, podemos ver sua transformação e a forma como a arma passa a encantá-lo, no sentido amazônico da expressão, de encantaria, de magia. É um dos episódios que melhor demonstram a força dessa nova encarnação de além da imaginação.



Ponto de origem
Uma dona de casa contrata uma imigrante ilegal como empregada doméstica e vê essa empregada ser presa pela polícia de imigração. Depois ela mesma acaba sendo presa sem saber sequer qual a acusação. O episódio ecoa diretamente o famoso livro O processo, de Kafka, com a protagonista presa em um local desconhecido, perdida em meio à burocracia. O roteiro constrói uma metáfora pesada e pungente a respeito da perseguição aos imigrantes. Destaque para a direção inspirada, em especial na cena da cela, com as luzes sendo usadas como elemento opressivo. Esse é um ótimo exemplo de como essa nova versão de Além da imaginação consegue usar a ficção científica para falar de temas atuais. 


Um viajante
Em uma pequena cidade do Alaska o xerife mantém a tradição de fazer uma festa de Natal no qual perdoa um prisioneiro. Mas naquele ano um desconhecido surge na cela pedindo para ser perdoado. Simpático e dizendo se dono de um canal no YouTube sobre viagens radicais, ele conquista a simpatia de todos e se torna o centro da festa. Mas uma jovem policial desconfia que há algo de errado na história. Esse é o plot do quarto episódio da nova encarnação de além da imaginação. É um daqueles episódios, a exemplos de muitos da série clássica, em que ação acontece toda em um local fechado e a trama se sustenta nós ótimos diálogos e atuações soberbas, com destaque para Steven Yeun  no papel do viajante. Uma trama, aliás, repleta de reviravoltas em que nunca sabemos qual as verdadeiras intenções do estranho. Destaque para o uso inteligente dos efeitos especiais, que surgem apenas nos momentos certos. Destaque também para o final, do mais puro humor ácido no melhor estilo Além da Imaginação. 


O comediante 
Um comediante fracassado descobre que pode fazer rir se usar algo de sua própria vida. Mas tudo que ele cita em suas piadas acaba desaparecendo. Além do ótimo conceito, que discute a questão do poder e seus perigos, vale destacar a ótima atuação de Kumail Nanjiani que consegue, por exemplo, contar uma piada e se mostrar tenso enquanto a plateia ri. A direção, repleta de closes estranhos valoriza a atuação. 


Pesadelo a 30 mil pés
Este foi um dos episódios mais memoráveis da série clássica. Baseado em um conto de Richard Matheson, mostrava um homem em um avião que vê um monstro do lado de fora e precisa convencer a tripulação de que a aeronave corre perigo. Nessa nova versão, um repórter investigativo acha um aparelho no assento e descobre que se trata de um podcast sobre um acidente aéreo. O problema é que ele parece se referir àquele vôo. O repórter deve, então, descobrir como impedir a tragédia usando as pistas do podcast. É incrível, mas esse plot, muito mais pé no chão, consegue ser menos verossímil que o duende da versão clássica principalmente graças ao final, totalmente desnecessário. Se o diretor tivesse a inteligência de terminar a história no momento em que o protagonista descobre o que está acontecendo, seria um dos melhores dessa nova versão de Além da imaginação.



O homem borrado
O episódio O homem borrado é praticamente um manifesto sobre as características de Além da Imaginação. Na história, a roteirista do seriado é assombrada por uma figura borrada que parece ter poderes paranormais. Em determinado ponto a personagem reflete sobre a série: “Além da imaginação não é só sobre monstros numa asa de avião. Se não tem nada de importante para dizer, então são só histórias para assustar. Rod Serling pegou um gênero infantil bobo e o elevou, fazendo arte para adultos”. Esse foi, por exemplo, o problema da maioria dos episódios da década de 1980: eram apenas efeitos especiais para crianças num roteiro que tinha pouco a dizer. É uma pena, no entanto, que o episódio que melhor reflete sobre a alma de Além da imaginação seja também um dos episódios mais fracos dessa nova encarnação liderada por Jordan Peele. (Alerta de spoiller) Por exemplo, o homem borrado, que persegue a roteirista, se revela como Rod Serling recriado digitalmente. A metáfora aí é óbvia: ele está levando a personagem para um mundo onde tudo é possível, um mundo além da imaginação. Entretanto, até esse ponto, parece que ele está muito mais interessado em machucar ou até mesmo matar a personagen do que realmente em introduzi-la em um mundo em que as leis da natureza funcionam de maneira diferente. A situação poderia ser facilmente resolvida mudando as situações para algo surreal, irreal, mas o roteirista parece ter tido preguiça de imaginar tais situações e simplesmente introduziu garrafas que voam na direção na protagonista e outras ameaças.


Nem todos os homens
Um dos grandes méritos da versão atual de Além da Imaginação é usar a fantasia para discutir questões do mundo atual. Isso, entretanto, não funciona quando a metáfora se torna óbvia demais, não deixando margem para interpretações.
Exemplo disso é o episódio Nem todos os homens. Na história, meteoros caem numa cidadezinha norte americana e todos os homens que entram em contato com as pedras se tornam violentos. Esse plot é usado para discutir a questão da violência masculina, mas isso é feito de maneira tão óbvia que descarta qualquer possibilidade de interpretação. Chega um ponto em que uma das personagens explica o que está acontecendo e qual a metáfora envolvida para ter certeza de o expectador tenha apenas uma interpretação. Junte a isso um roteiro ruim , com frases forçadas.
Umberto eco fala da obra aberta, que só se completa quando é interpretada pelo expectador. Já ao contrário, o discurso persuasivo permite uma única interpretação. Ele tende a levar-nos a conclusões definitivas e nos idica como devemos compreender o mundo. Nem todos os homens é um ótimo exemplo de discurso persuasivo.