segunda-feira, maio 17, 2021

Mort Cinder, o homem das mil mortes

 


Hector Oesterheld é certamente um dos maiores escritores de quadrinhos de todos os tempos, rivalizando apenas como Alan Moore. Alberto Breccia é um dos mais revolucionários desenhistas de todos os tempos, tendo criado um estilo que influenciou diversos outros artistas, entre eles Frank Miller. A união desses dois grandes talentos só poderia resultar em uma obra-prima. E essa é a melhor expressão para descrever o álbum Mort Cinder, publicado recentemente pela editora Figura após uma campanha no Catarse.
Mort Cinder poderia ser descrito como a história de um homem imortal, mas essa é apenas uma simplificação grosseira. Mort Cinder é uma história de realismo fantástico, um suspense inigualável, uma obra com forte conteúdo político e histórico.
Quando a série começou a ser publicada na revista Misterix, Breccia pediu a Oesterheld que atrasasse  o surgimento do protagonista porque ainda não havia se decidido quanto à sua caracterização. Mestre absoluto da narrativa, Oesterheld transformou essa limitação em um dos maiores méritos da história. Assim, acompanhamos um antiquário, Ezra Winston, e diversos fatos estranhos que ocorrem com ele, fatos que irão se acumulando até o encontro com Mort Cinder, renascido após ser enforcado. Mas para presenciar esse renascimento – e ajudar o herói – Ezra precisará enfrentar os misteriosos olhos de chumbo. Isso introduz um senso de mistério único na história e faz desse senso de mistério o motor da narrativa. Também introduz uma espécie de realismo fantástico, que lembra muito Jorge Luís Borges.
Soma-se isso ao texto poderoso de Oesterheld: “A estrada se faz trilha. Os retalhos de neblina se alongaram à minha passagem. Rãs coaxaram e era como avançar por um oceano morto, já decomposto. A sombra ao meu lado se mexeu”. Quantos roteiristas de quadrinhos chegaram a esse nível de refinamento do texto? Quantos conseguiram criar uma atmosfera tão opressiva apenas com algumas palavras?
Por outro lado, a arte de Breccia é tão impactante, tão inovadora em que cada quadro merece ser visto várias e várias vezes. Breccia não tem limites: usa borrões, cortes de gilette, parece não existir nada que ele não experimente para ajudar a criar o clima da HQ.
Então imagine uma HQ em que cada quadro é uma obra de arte a ser vista e deleitada. E no qual cada balão tem a força e o valor de uma poesia inteira. Esse é Mort Cinder.
O álbum tem 232 páginas, em formato em capa dura, formato A4. É uma publicação de luxo, cujo formato permite apreciar melhor a arte de Breccia. Há um inconveniente: como a publicação original da série, a revista Misterix, variou do formato horizontal para o vertical, a leitura de algumas páginas fica prejudicada, obrigando o leitor a virar o volume. Mas é compreensível: isso foi feito para evitar adulterar a arte original.

Quem é o Pantera Negra?

 


Quando o roteirista Reginald Hudlin contou aos amigos que ia escrever a revista do Pantera Negra, eles perguntaram: Quem? Isso o levou a escrever uma história que não só apresenta o personagem, mas também o reino de Wakanda e mas também criou as principais bases do que viria a ser o filme de enorme sucesso de 2018. Essa história, reunida no volume 38 da coleção de graphic novels Marvel chamou-se “Quem é o Pantera Negra?”.
Hudlin avança muito além do que até então tinha sido feito, remontando ao passado longíncuo de Wakanda, mais precisamente no século V, quando uma tribo rival tenta invadir o local e seus guerreiros são dizimados pelo sistema de defesa incluindo balestras gigantes. Depois, no século XIX, um grupo de aventureiros belgas tenta invadir o local com metralhadoras e é igualmente repelido.
A história pula para o presente, quando o rei de Wakanda está enfrentando adversários em uma disputa pela coroa enquanto dois grupos planejam invadir o país: de um lado vilões, chefiados pelo Garra Sônica, e do outro os americanos interessados nas riquezas naturais do país.
A história não só amplia em muito a mitologia do personagem, acrescentando informações (como a de que o Garra Sônica é descendente do belga que foi morto tentando invadir Wakanda no século XIX). E faz isso com muita ação e uma trama envolvente e empolgante. Além disso, acrescenta uma viva crítica social sobre como os países de primeiro mundo sempre viram a África como um quintal do qual poderiam retirar o que quisessem.
Os desenhos ficam por conta de John Romita Jr. Ele é adorado por muitos e odiado por outros (no geral eu gosto muito). Mas mesmo quem odeia dificilmente diria que ele não foi uma boa escolha. Fortemente influenciado por Jack Kirby, ele traz de volta toda a grandiosidade de Wakanda e cria um visual que seria a principal influencia para o design do filme.

Feitiço do tempo

 

Assisti, finalmente, Feitiço do tempo (roteiro de Danny Rubin e Harold Ramis, direção de Harold Ramis). Na verdade, o interesse maior foi na interessante narrativa em elipse, que era sempre citada por alunos quando eu falava de narrativas não-lineares. Trata-se de um jornalista arrogante e egocêntrico, que, ao fazer uma matéria numa cidadezinha sobre uma marmota capaz de prever o fim do inverno, fica preso em um lapso temporal de um dia que sempre volta. Assim, os mesmos fatos vão se repetindo várias vezes e o protagonista passa várias vezes pelos mesmos fatos. Já tinha visto outros exemplo, como um episódio de O Arquivo X. Eu mesmo já escrevi um texto nessa estrutura, num e-book dos Exploradores do Desconhecido. O interesante é que o mesmo dia não se repete 3 ou 4 vezes, mas centenas, talvez milhares de vezes, o que traz algumas oportunidades interessantes para o roteiro, como, por exemplo, repetir uma cena várias vezes (o receptor acaba sacando que cada repetição é um dia diferente).
Apesar da preocupação maior ser com a questão narrativa, foi impossível não reparar em algo que muitos textos espíritas falam: Feitiço do Tempo é uma ótima metáfora do processo reencarnatório, segundo a visão espírita. 
A cada vez que o protagonista volta, é como se ele estivesse em outra encarnação e tivesse outra chance de consertar os erros do passado e evoluir espiritualmente.
Arrogante e egocêntrico, Phil usa a volta eterna inicialmente para questões duvidosas do ponto de vista ético, como, por exemplo, descobrir algo sobre uma mulher para depois seduzi-la, ou cometer crimes sabendo que sua ação não teria consequências (como, por exemplo, quando ele rouba dinheiro do carro forte).
Com o tempo, esse tipo de coisa perde a graça e ele passa a se suicidar. Faz isso dezenas de vezes, tentando escapar do dia que sempre retorna. Em vão. Sua vida só começa a fazer sentido quando ele melhora espiritualmente e começa a ajudar as pessoas à sua volta. A máxima de Chico Xavier (Não há salvação fora da caridade) fica bem exemplificada no filme.
Em suma, um ótimo filme: pelo estrutura do roteiro, pela mensagem, pelo humor e pela ótima atuação de Bill Murray.

Letimotiv: o motivo condutor

 

A cidade de Cartão Postal em Refrão de Bolero muda de significado no final da história. 
A palavra Leitmotiv foi usada inicialmente para analisar a obra de Wagner e pode ser traduzida como "Motivo condutor". 
Em roteiro tem se usado para uma ação ou objeto recorrente que expressa os sentimentos ou estado do personagem, ou até mesmo uma mudança nesse estado.
No filme de Billy Wilder Pacto de sangue, o chefe do protagonista nunca consegue acender o cigarro (e quem acende para ele é o protagonista). No final, quando o protagonista está caído no chão, é o chefe que acende o cigarro para ele. O cigarro aí era a representação primeiro de como o personagem estava conseguindo enganar o chefe, e depois de sua derrota, de sua incapacidade de continuar com a farsa e sua derrota intelectual.
Em Pacto de sangue, o cigarro representa empodeiramento.
Em Refrão de bolero, a expressão "Cidade de Cartão Postal" é usada pela protagonista para se referir a Belém, quando ela está ali como turista. Depois, quando ela foi assaltada e se vê sozinha, sem dinheiro ou documentos numa cidade desconhecida, ela diz: "tudo que tenho é um corte na mão... e uma cidade de cartão postal". A expressão é um Leitmotiv que representa, primeiro, sua impressão de turista sobre a cidade e, depois, sua nova visão sobre ela, o que irá, de certa forma, desencadear o segundo ato.
Os suspensórios representam a ética jornalística no filme A montanha dos sete abutres

No filme A montanha dos sete abutres vemos um jornalista sensacionalista, Tatum, que, depois de se envolver em várias confusões em jornais de capitais, é obrigado a trabalhar em um pequeno jornal de interior. O dono do jornal é um homem ético, que usa cinto e suspensórios (eu sempre chego tudo duas vezes). Tatum passa a usar cinto e suspensórios. Em determinado ponto da narrativa, ele faz de tudo para que um homem preso em uma caverna continue lá para ter uma notícia de repercussão nacional. Nesse ponto de virada - em que ele volta a ser sensacionalista - ele tira os suspensórios e os joga fora. Os suspensórios significam, portanto, a ética jornalística. Jogá-los fora demonstra que a partir daquele momento o protagonista será capaz de qualquer coisa para conseguir seus objetivos. 

A "muralha de Jericó" simbolizava a tensão entre os personagens.

No filme aconteceu naquela noite, de Frank Capra acompanhamos uma moça rica que está fugindo do pai, indo para Nova York incógnita para impedir que seu pai anule seu casamento com um aviador. No meio do caminho ela conhece um jornalista, que se oferece para ajudá-la em troca de exclusividade sobre a história (o desaparecimento da moça virou notícia nos jornais). Quando o ônibus para, os dois, sem dinheiro, alugam um único chalé e o jornalista estende um cobertor no meio do quarto para separá-los e diz que é a muralha de Jericó. Foi uma forma esperta de Capra burlar a censura da época (afinal, um casal não casado dormindo juntos no mesmo quarto não era bem visto pela sociedade americana), mas acabou se tornando um Leitmotiv que expressava exatamente a tensão entre os dois, inclusive a tensão sexual. No final, do filme, a queda a muralha de Jericó simboliza o fim da tensão e a união sexual dos dois.
De uma forma menos sutil e mais geral, podemos usar a expressão Leitmotiv para nos referir a uma ação do personagem que revela suas verdadeiras intenções. No meu romance O uivo da górgona, em determinado ponto uma personagem que o leitor imagina simpática e que em outras ocasiões havia acariciado o cachorrinho da históira se abaixa para acariciar o cachorro... e em seguida lhe quebra o pescoço. Esse ato, descrito de maneira seca e sem sentimentos desvela ao leitor a verdadeira natureza da personagem.

O alimento dos deuses

 


O alimento dos deuses é, injustamente, um dos livros menos conhecidos de H. G. Wells.

A trama gira em torno de dois cientistas que elaboram uma fórmula de crescimento (o tal alimento dos deuses) e das consequências dessa descoberta. Inicialmente eles criam uma fazenda modelo, onde pretendem experimentar a fórmula em frangos. Ocorre que os empregados contratados são relapsos, deixam o alimento aberto e a localidade sofre uma infestação de ratos e vespas gigantes, além das próprias galinhas, que se soltam do viveiro e ivadem a cidade.

Esse enredo original é a base de uma infinidade de obras, com destaque para os filmes com animais gigantes e pessoas gigantes e a destruição que eles provocam. Contando que Wells também é o pai das viagens no tempo através de mecanismos e das histórias de invasão alienígena, boa parte da ficção do século XX deriva de sua obra.

Mas O alimento dos deuses vai muito além. Algumas pessoas começam a dar o alimento para os filhos e surge uma geração de gigantes, com aproximadamente 12 metros de altura. É nesse ponto que o livro se torna uma vigorosa crítica social. Wells usa o enredo para refletir como as pessoas reagem ao novo e como o instinto reacionário é baseado no medo daquilo que é diferente.

Esse ponto já é entrevisto no trecho em que o prédio em que mora um dos inventores do alimento é depredado por uma multidão furiosa, mas ganha corpo quando foca nos filhos do alimento, os gigantes e a reação da sociedade a eles. “Reacionário? Quem não seria reacionário?”, diz um personagem à certa altura.

Esse ponto de vista é representado por um vigário de uma pequena localidade: “Pois estavam falando, ele e seu amigo, dos horrores da época, da democracia, da educação secular, dos arranha-céus, dos carros a motor, da invasão americana, da literatura barata popular e do desaparecimento de todo gosto”.

O ódio reacionário volta-se, no livro, contra os filhos do alimento, os gigantes. Ou estes são simplesmente subjugados, como acontece com o jovem Caddles, tornado gigante por conta do alimento levado pela empregada da fazenda, sua tia. Wells dá a entender que o garoto tem inteligência acima do normal, mas esta é sufocada pela situação em que é criado, sob a tirania do Vigário e e de Lady Wondershot. Os que não subjugados são simplesmente vítimas do ódio do normal a tudo que é diferente. “O grosso do povo está conosco. A lei está conosco, a constituição e ordem da sociedade, o espírito das religiões estabelecidas, os costumes e hábitos da sociedade estão conosco”, diz certo personagem.

Nesse sentido, o livro pode ser visto até mesmo como uma metáfora de todas as dificuldades que mentes revolucionárias, mentes que ousam agigantar cima do normal, encontram. Talvez fosse um desabafo do próprio H.G. Wells, ele mesmo um gigante de sua época.

domingo, maio 16, 2021

Dom Quixote das crianças

 


Dom Quixote é uma das obras mais importantes da literatura universal. Mas é também um livro de linguagem empolada, repleto de frases com orações subordinadas e expressões em desuso. Para apresentar esse clássico às novas gerações, Monteiro Lobato escreveu sua própria versão condensada do clássico.
Dom Quixote das crianças mostra que Lobato não era só alguém com prosa agradável e fluída, mas era também um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos – capaz de condensar uma obra densa e complexa sem perder sua essência ou mesmo suas reflexões.
Para quem não conhece, Dom Quixote é um velho espanhol que, de tanto ler romances de cavalaria, enlouqueceu, achando que era um cavaleiro andante, convenceu um vizinho, Sancho Pança a ser seu escudeiro, e saiu pelo mundo em busca de aventuras, que quase sempre terminam em memoráveis surras.
Lobato inicia a narrativa no sítio do pica-pau amarelo. Emília fica curiosa para ver dois volumes pesados no alto da estante e, ao tentar alcançá-los com o uso de uma alavanca, derruba os livrões em cima de Visconde, que fica achatado. Essa é a dica para que Dona Benta leia o imenso livro ilustrado por Gustave Doré. Mas logo percebe que as crianças não pescam nada da narrativa antiquada e resolve recontar as aventuras do cavaleiro andante com suas próprias palavras. A forma narrativa permite que Lobato, através da voz de Dona Benta, faça comentários sobre a obra e até explique alguns termos usados no romance.
Segundo Lobato, “Cervantes escreveu esse livro para fazer troça da cavalaria andante, querendo demonstrar que tais cavaleiros não passavam de uns loucos. Mas como Cervantes fosse um homem de gênio, sua obra saiu um maravilhoso estudo da natureza humana, ficando por isso imortal”. Por outro lado, o protagonista, Dom Quixote, “não é somente o tipo do maníaco, do louco. É o tipo do sonhador, do homem que vê as coisas erradas, ou as que não existem. É também o tipo do homem generoso, leal, honesto, que quer o bem da humanidade, que vinga os fracos e inocentes, e acaba sempre levando na cabeça, porque a humanidade, que é ruim inteirada, não compreende certas generosidades”.   
Lobato consegue, mesmo em poucas páginas na comparação com o romance original, preservar sua complexidade. Dom Quixote é uma mistura de humor e drama e é impossível não se compadecer do pobre protagonista, constantemente enganado por muitos, em sua ingenuidade e loucura e mesmo cenas que parecem cômicas guardam uma alta dramaticidade. É um riso entre lágrimas.
Em tempo: essa minha edição é de 1967 e trazia um atrativo a mais: as belíssimas ilustrações de André Le Blanc, que ilustrou vários livros de Lobato antes de se mudar para os EUA e trabalhar como assistente do quadrinista Will Eisner.

Fundo do baú - O Homem pássaro

 


Homem-pássaro foi um desenho animado criado pelo lendário Alex Toth para a Hanna-Barbera. Foi exibido entre 1967 e 1969 no canal NBC.
O personagem era um super-herói que combatia o crime a serviço de uma sociedade secreta, com ajuda de seu ajudante Birdboy e da ave Vingador.
O herói tinha os seguintes poderes:
Absorção solar espontânea: capacidade mágica de absorver energia solar e converter em vigor corporal, resistência física a danos físicos, gerar potentes raios de calor concentrado através das mãos e dedos, controlar a temperatura de um ambiente ou equipamento e produzir um “escudo” solar protetor de grande resistência contra ataques.
Voo: por possuir um par de asas é possível alçar grandes alturas e impulsionar-se através do ar em qualquer direção.
Regeneração ou fator de cura solar: capacidade de curar ferimentos e restaurar a própria saúde em alta velocidade desde que exposto à luz solar.
Capacidade de se comunicar com a ave Vingador.

Mundo Monstro: o estranho caso do vampiro assassino

 

Imagine um mundo em que monstros e humanos convivem normalmente, em que Fênix fazem show de pirotecnia e o delegado é uma múmia. Mas a paz desse local é quebrado quando uma moça é morta e o principal suspeito é um vampiro. É quando um detetive lobisomem e seu aprendiz são chamados para ajudar nas investigações. Essa é a premissa de Mundo Monstro, meu livro infanto-juvenil de fantasia. Para baixar o livro, clique aqui. Em tempo: ele está em formato E-pub, caso não tenha o leitor desse formato, baixe aqui o programa de leitura.

Guerra do tronos: os problemas de roteiro da Batalha de Winterfell

 



Atenção: contém spoiller

O terceiro episódio da oitava temporada de Guerra dos tronos foi, provavelmente, o mais esperado de toda a série ao mostrar a batalha entre o Rei da noite e os vivos, conflito que vinha sendo construído desde o primeiro episódio.
Vendido como a maior batalha campal já exibida na TV, o episódio agradou alguns e desagradou muitos. Quem tem razão?
De fato, a batalha é grandiosa, com muitos figurantes e muitos efeitos especiais. O episódio é muito bem dirigido, com boas cenas de luta e um bom timming narrativo. A sequência anterior aos primeiros confrontos é habilmente construída para promover o máximo de suspense e tensão.
O grande problema é o roteiro.
A estratégia montada por Jon Snow é tão primariamente equivocada que compromete a verossimilhança do episódio.
Assim que os caminhantes brancos se aproximam, ele envia sua cavalaria, os Dothraki, que são totalmente dizimados (e passam a fazer parte do exército inimigo). Em termos de imagem, foi interessante, pois inicialmente vemos uma verdadeira massa de luzes (as espadas dos guerreiros) se aproximando dos mortos e depois as luzes vão se apagando à medida em que eles vão sendo tomados pela multidão e morrendo. O impacto visual é grande e deixa no expectador a impressão de que tudo está perdido, mas em termos de estratégia militar não faz sentido. Enviar primeiro a cavalaria  sozinha e perde-la nos primeiros minutos de uma batalha é erro crasso (aliás, a origem do termo se refere a um comandante romano que comenteu um erro grave em uma batalha).
Além disso, as catapultas são colocadas antes das tricheiras, que depois seriam incendiadas. Aliás, as tricheiras foram colocadas muito próximas das muralhas. Como resultado, as catapultas praticamente não são usadas, ficando inúteis.
Em uma batalha como aquela, com um inimigo infinitamente superior, o correto seria colocar as trincheiras mais distantes, aproveitar que o inimigo ficaria parado diante delas e exterminá-los ao máximo com os dragões, catapultas e flechas. Além disso, como vimos, os caminhantes só conseguem ultrapassar as trincheiras criando pontes com seus próprios corpos, deixando passar alguns.
Esse seria o momento de atacá-los, quando os que entravam eram poucos, ao invés de enfrentá-los no seu número máximo, como foi a estratégia de Jon Snow.
Aí chegamos à Arya. O fato dela matar o Rei da noite e resolver a situação em si não é algo negativo, uma vez que há vários ganchos nesse sentido, pistas de que seria isso que aconteceria. Mas a forma como aconteceu, sim.
Arya surge do nada, quase como um deus ex machina, para resolver a situação. O expectador se pergunta: como ela chegou ali? Todos estavam tentando e ninguém conseguia. Arya nem mesmo é mostrada tentando. Quando a vemos já é no clímax da cena. Como a personagem tem a capacidade de se disfarçar, isso poderia ser usado como explicação para essa aparição repentina, mas os roteiristas preferiram a supresa pura e simples, ao invés de justificar, dar verossimilhança ao que está acontecendo.

As vidas de Chico Xavier

 


Chico Xavier é uma das figuras mais importantes e polêmicas do Brasil. Sua popularidade é tão grande que, mesmo depois de morto, continua levando milhares de pessoas para Uberlândia, transformando o turismo religioso na principal fonte de renda da cidade. Não admira, portanto, que a vida do médium fosse transformada em uma biografia.
Ainda assim, o jornalista Marcel Souto Maior teve que vencer vários obstáculos para escrever o livro “As vidas de Chico Xavier”. O primeiro deles veio dos próprios colegas jornalistas. “Chico Xavier? Não é o Chico Buarque, não? Chico Anysio? Chico Mendes?”, ironizavam os amigos do Jornal do Brasil.
Outro obstáculo filho adotivo de Chico, Euripedes. Preocupado com a saúde do pai e em preservá-lo, Euripedes não deixou o jornalista passar nem do portão. Ainda assim, Marcel insistiu: resolveu assistir a uma sessão no Centro Espírita da Prece, fundado por Chico muitos anos antes. Depois que o médium deixara de comparecer, o público minguara e eram apenas 14. Surpreendentemente, naquele dia, ele resolveu reaparecer, com um sorriso largo e um terno mal-ajambrado.
Cético, Marcel não soube explicar as lágrimas que começaram a desabar em borbotões de seu rosto, sem nenhuma razão especial.
Terminada a sessão, o jornalista procurou Chico para pedir autorização para a biografia. Chico respondeu de forma indireta, evitando a palavra não:
- Deus é que autoriza.
- E ele autoriza?
- Autoriza.
Mas a muralha de Euripedes ainda continuava existindo. O jeito foi apelar para o outro filho adotivo de Chico, Vivaldo, que mora nos fundos da casa do pai.  Quando o jornalista o visitava, Chico chamou o filho por um interruptor. Quando Vivaldo saiu, um calor insuportável tomou conta das mãos do jornalista. Sobressaltado, ele largou a caneta, saltou do sofá e correu para o quintal. Ficou lá, sacudindo as mãos na noite fria, até que Vivaldo aparecesse:
- Meu pai disse que sua biografia vai ser um sucesso. Parabéns!
O episódio mostra bem os mistérios e a mística por trás de Chico Xavier. Chico escreveu quase 400 livros, cartas de pessoas desencarnadas, virou celebridade nacional. No entanto, até o final da vida, viveu de forma modesta, sem grandes fortunas, sendo quase um prisioneiro de seu próprio sucesso.
O fato do livro ser escrito por um cético, mas que passou pelas duas experiências acima (do choro descontrolado e das mãos em fogo) faz com que ele tenha a abordagem correta, não caindo nem na armadilha de um livro doutrinário, nem na reportagem sensacionalista que o filho adotivo de Chico tanto temia.
O que se revela é uma figura ímpar, que angariou milhões de fãs no Brasil todo e igual número de detratores. Essa dualidade já se apresentava na infância do médium, quando ao ouvir que ele conversava com os espíritos, a madrinha dizia que ele tinha o diabo no corpo e lhe fincava garfos na barriga na tentativa de espantar o mal. Chico, convencido de que que conversar com espíritos era errado, tentava tudo para se curar. Chegou até a desfilar em uma procissão com uma pedra de 15 quilos na cabeça, repetindo mil vezes a ave-maria. Nada adiantava. Quanto mais rezava, mais via espíritos.
O livro nos revela um Chico sofredor, que não era compreendido na infância e apanhava por causa da mediunidade. Quando finalmente se tornou adulto, sofria com doenças, como a catarata que fazia seus olhos sangrarem. À noite, era atormentado por espíritos baixos, que lhe provocavam pesadelos em, alguns casos, tentavam matá-lo usando para isso pessoas com mediunidade. Ao se queixar com seu guia espiritual, Emmanuel, recebia reprimendas. Tinha que aceitar de bom grado tudo que lhe acontecia, pois servia para expiar culpas de outras encarnações. Quando se tornou uma figura famosa, sofria com o assédio, com pessoas que queriam falar com ele mesmo quando ele estava muito doente. Além disso, Chico nunca ganhou nada com isso, pois todo o dinheiro das vendas dos livros ia para instituições de caridade.
Sua missão espírita parecia mais um castigo do que um prêmio. Por outro lado, havia as tentações. Uma vez Chico entrou no banheiro e encontrou três mulheres tomando banho nuas, jogando água umas nas outras e rindo para ele, convidativas. O médium fechou os olhos e rezou. Quando os abriu, elas haviam desaparecido.
Abnegado, Chico usava a humildade para resistir aos sofrimentos e tentações do mundo. Dizia que era um Cisco Xavier, brincando com o próprio nome. Quando lhe disseram que talvez fosse eleito para a Academia Brasileira de Letras, ele perguntou: “E agora aceitavam cavalos lá?”.
Se a biografia revela esse lado humilde, abnegado e caridoso, revela também um homem carismático e divertido. Chico gostava de contar casos e gostava de rir. Uma vez, convidado pelos amigos a pescar, foi, mas não pescou nada. Passaram a tarde na beira do rio e os amigos pegaram muito peixe. De Chico não se aproximava nem lambari. Ele acabou confessando: não tinha colocado isca no anzol, para não incomodar os bichinhos. Ao ser assediado por uma figura demoníaca, que lhe perguntava se tinha sido chamada, ele saiu-se com essa: “É que a vida anda difícil e queria que o senhor me abençoasse em nome de Deus ou das forças que o senhor crê”. O diabo reclamou: “É só a gente aparecer que você já cai de joelhos!” e sumiu.
Em suma: As vidas de Chico Xavier é um livro que abarca as várias facetas dessa famosa personalidade, num livro leve e gostoso de ler. É tão fascinante que serviu de base para o filme de Daniel Filho sobre a vida do médium mineiro.

Marshal Law

 

Entre os vários artistas que passaram pea revista 2000 AD, dois dos mais anárquicos eram o roteirista Pat Mills e o desenhista Kevin O´Neill.
Em Marshal Law, publicado em 1987 pelo selo Epic da Marvel, os dois mostraram que podiam usar esse espírito para subverter o gênero super-heróis. E o que fizeram lembra muito a hoje famosa série The Boys, da Amazon. Muitos dos principais conceitos, como super-heróis drogados já estava ali.
Na história, um cientista descobre um meio de transformar fetos, dando-lhes poderes. O resultado disso é uma quantidade enorme de superes. Quando explode uma guerra na América do Sul, eles são enviados para ela, e muitos deles retornam completamente malucos.
Imagine veteranos do Vietnã com super-poderes. É por aí.
A coisa se torna ainda pior em São Francisco: um terremoto destrói boa parte da cidade e o local é tomado pelos super-seres, que vêem ali a chance de poderem exercer seus super-poderes para benefício próprio em uma terra sem lei. Para combatê-los surgem policiais especiais, com super-poderes, o mais famoso deles Marshal Law, um homem que se veste com roupas do universo sadomasoquista e que em sua identidade secreta, namora uma garota que considera que os super-heróis, em especial Marshal Law, são fascistas.
Pela sinopse acima dá para perceber o quanto a série virava o universo dos heróis de cabeça para baixo. Mas o quadrinho ia muito além, a começar pelo desenho nada convencional de Kevin O´Neill e as mensagens de fundo, as brincadeiras visuais incluídas por ele na história. Há de tudo: de aviões com Jesus desenhado na lataria a pichações contra pichações.
A série foi pioneira ao mostrar versões não-convencionais de super-heróis, caminho que seria seguido em The Boys e Invencível. 


Os exemplos de heróis mostram o quanto duas mentes criativas e dispostas a virar tudo do avesso poderiam ir. Há, por exemplo, Hitler Hernandez, descendente de criminosos nazistas, que se dedica a eliminar índios. Ou O Traidor, um índio branco que considera a traição uma virtude – quando tiveram contato com o evangelho, passaram a idolatrar Judas ao invés de Jesus. Ou O Bode expiatório, que tem dificuldade para sentir sensações e faz de tudo para sentir dor.
Tudo isso é entremeado com uma trama policial: um dos super-heróis está matando mulheres vestidas como a super-heroina Celeste. Marshal Law acredita que o responsável é Espírito Público, um dos primeiros e mais famosos heróis.
Marshal Law poderia ser apenas um quadrinho que subverte o gênero super-heróis. Mas Mills e O´Neil dominam bem a narrativa e fazem um quadrinho gostoso de ler, fluído, divertido pacas.
A história original foi publicada pela Abril em 1991 em uma minissérie em seis partes e uma edição especial. Este ano a Panini publicou um encadernando, juntando as duas histórias.

Xuxulu e o aniversário de Azatoti

 


sábado, maio 15, 2021

Superaventuras Marvel 1

 

Lançada em 1982, a Supervaventuras Marvel se tornou uma das mais celebradas revistas de super-heróis já lançadas no Brasil, principalmente por conta das histórias do Demolidor de Frank Miller e dos X-men de Chris Claremont e John Byrne. Nos primeiros números se destacavam personagens como o Pantera Negra, em ótima fase, Dr. Estranho (igualmente em ótima fase) e Conan. Mas a revista só tomaria uma cara própria a partir do número 16, quando a Abril conseguiu o direito de todos os personagens Marvel (antes esses direitos eram divididos com a editora RGE).

A arte espetacular de Dave Hoover

 


Dave Hoover foi um ilustrador, animador e quadrinista norte-americano. Ele é mais conhecido nos quadrinhos por seu trabalho nas séries Wanderes (DC) e Capitão América (Marvel). Também desenhou histórias do personagem Tarzan. Uma de suas características mais fortes é a sua haibilidade para desenhar mulheres. 












Mãe d´água

 

A mitologia brasileira é uma mistura de tradições índias, negras e europeias. Nenhuma figura mitológica encarna isso tão bem quanto a Iara, a mãe d´água.
Segundo Câmara Cascudo, os índios tinham em suas lendas um ser aquático, o Ipupiara, uma espécie de homem peixe, feroz, bestial, que saía da água para capturar suas presas e matá-las. Na religião indígena também havia a percepção de que tudo na natureza tem uma mãe. Portanto, existia a mãe do rio, sempre presente nos olhos d´água. Também era comum chamar a cobra grande de mãe d´água.
Os africanos tinham vários seres aquáticos: Iemanjá, Anambucuru, Oxum. E tinham um ser parecido com o Ipupiara, os nebéli, um espírito do rio, que, enfurecido, provocava tempestades, virando as pirogas e afogando quem estivesse dentro.
Já os europeus tinham as sereias, que seduziam os navegantes e muitas vezes se casavam com eles, dando-lhes riquezas e filhos e exigindo em troca respeito aos habitantes da água (nas lendas, o marido sempre descumpre essa promessa e acaba sem a esposa e as riquezas).
A mistura de todas essas tradições nos deu a Iara, a mãe d´água, um ser que, ao contrário dos Ipupiara e dos nebéli, é formoso. Trata-se de uma linda mulher, que seduz os os viajantes que passam por olhos d´água.
Olavo Bilac tornou célebre a lenda em um dos seus poemas:

Vive dentro de mim, como num rio,
Uma linda mulher, esquiva e rara,
Num borbulhar de argênteos flocos, Iara
De cabeleira de ouro e corpo frio.

Entre as ninfeias a namoro e espio:
E ela, do espelho móbil da onda clara,
Com os verdes olhos úmidos me encara,
E oferece-me o seio alvo e macio.

Precipito-me, no ímpeto de esposo,
Na desesperação da glória suma,
Para a estreitar, louco de orgulho e gozo...

Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:
E a mãe-d'água, exalando um ai piedoso,
Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

A mãe d´água aparece no meu romance Cabanagem ilustrada pelo grande quadrinista paraense Otoniel Oliveira. A imagem mostra a personagem encontrando com o protagonista, Chico Patuá e se destaca pela representação aquática da personagem, com seu cabelo e sua roupa se confundindo com a água do rio.
O original dessa ilustração é uma das recompensas do projeto.

A terra plana dá voltas

 


Tudo muda, as pessoas mudam. Isso é comum. Mas em alguns casos as mudanças são extremas. Muito extremas. Tenho visto guinadas de uma ponta a outra. Exemplo disso é um ex-amigo. Ele era fã do Raul Seixas, hoje em dia é fã do mito e diz que Raul Seixas é marxismo cultural. Era fã do Alan Moore, hoje em dia é fã do mito e diz que Alan Moore é marxismo cultural. Era professor de universidade pública, hoje em dia diz que universidades são marxismo cultural. Como as pessoas mudam!