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sábado, agosto 29, 2026

Justiceiro vs Wolverine

 


No final da década de 1980, Justiceiro e Wolverine eram os personagens mais populares da Marvel.

Por que, então, não juntá-los numa mesma aventura?

Foi a ideia que a equipe responsável pela revista do Justiceiro, Carl Potts (roteiro) e Jim Lee (desenhos) teve.

A história foi publicada em The Punisher War Journal 6 e 7 e mostra tanto o Justiceiro quanto o carcaju atrás de uma quadrilha que caça animais em extinção. Claro que, como é regra nos quadrinhos Marvel, uma confusão faz com que os dois entrem em rota de confronto, um achando que o outro faz parte da quadrilha.

Os heróis entram em rota de colisão. 


Carl Potts era um bom roteirista, infelizmente pouco valorizado, e desenvolve bem a história, embora o Justiceiro pareça estranho na ambientação de selva. Talvez uma ligação com a experiência dele na guerra tornasse a trama mais orgânica para o personagem.

Já Wolverine sempre foi mostrado na selva, em sintonia com animais, de modo que sua presença na história parece óbvia.

Jim Lee faz um bom uso de retículas. 


Algo a se notar é que Jim Lee nessa época não tinha os exageros que caracterizariam sua fase Image e aqui usa o desenho a serviço da história. E usa bem. Destaque para as cenas de luta entre os dois anti-heróis e para a sequência em que o Justiceiro cai na água, com o uso inteligente da retícula.

No Brasil essa história foi publicada em Grandes Heróis Marvel 26.

Thor – Contos de Asgard

 

 É indubitável que Stan Lee e Jack Kirby criaram uma mitologia moderna.
Nenhum personagem encarnou tão bem isso quanto o Thor. Vindo diretamente da mitologia nórdica, ele permitia a Kirby explorar a grandiosidade e a Lee a nobreza. Mas no início a revista se destacava mais pelas características do gênero super heróis do que por sua herança nórdica.
A série conta a origem dos deuses nórdicos. 


Foi Quando a dupla teve a ideia de lançar uma série derivada, na qual podiam explorar em mais detalhes os aspectos mítico do personagem que Thor se tornou o personagem que conhecemos hoje.
Com apenas cinco páginas, contos de Asgard recontava grande parte das lendas nórdicas e mostrava o melhor da Marvel. Essa série conectou definitivamente o Thor dos quadrinhos com o Thor da mitologia, dando uma identidade única à revista. 
A série introduz personagens mitológicos, como Heimdall...


Talvez em nenhum outro momento da Marvel Jack Kirby se mostrou tão a vontade. Fascinado pelas lendas nórdicas, ele está em seu elemento ao recontar as lendas desde o surgimento do universo até a criação dos deuses e dos homens. 
A dupla também aproveita para apresentar os personagens secundários, como Heimdall, o guardião da ponte do arco íris, ou Balder, e estabelecer o universo das histórias. 
... e Balder. 


Além de contos retirados diretamente da mitologia nórdica, Kirby e Lee criaram também cria contos inéditos, surgidos exclusivamente da imaginação dos dois.
Contos de Asgard é também uma pérola da síntese narrativa. Em apenas cinco páginas a dupla conseguia apresentar os personagens, estabelecer um conflito e resolvê-lo, geralmente de maneira surpreendente.
Kirby podia usar nessa série todo o seu talento para grandiosas cenas de batalha. 


Essa HQs foram reunidas em um volume da coleção de clássicos Marvel da Salvat. A edição tem dois problemas: um problema menor é a capa, que não traz um desenho de Kirby, e a coloração digital, muito escura, que esconde detalhes do traço. Mesmo assim é um item essencial na coleção de qualquer aficionado pela Marvel.

Rawhide Kid – Duelo Mortal em Solavanco

 


Antes da "Era Marvel", Stan Lee e Jack Kirby já experimentavam algumas das ideias que seriam a base da Casa das Ideias. Exemplo disso é o caubói Rawhide Kid, um verdadeiro ensaio para o que viria a ser o Homem-Aranha.

O personagem teve uma rápida aparição na década de 1950, mas, em 1960, Stan Lee resolveu trazê-lo de volta com uma nova roupagem. Nessa versão (que manteve a numeração anterior), o jovem Johnny Bart, de apenas 18 anos, vê seu tio Ben morrer e decide se tornar um justiceiro. Contudo, ele é acusado de um crime que não cometeu e passa a ser perseguido pelas autoridades, tornando-se o clássico herói incompreendido. Para o arquétipo aracnídeo ficar completo, só faltou um J. Jonah Jameson.

A história começa com o valentão local provocando Kid. 


A edição nº 19 da revista — a terceira desta nova fase — exemplifica bem essas semelhanças. Lançada em dezembro de 1960, ela chegou às bancas 11 meses antes de Fantastic Four nº 1. Apesar de ainda não contar com as chamadas de marketing efusivas que caracterizariam o estilo de Stan Lee anos depois, a capa já sintetizava a trama de forma magnética. Um brutamontes segura os braços de uma moça, puxando-a: “Escuta, gata, ninguém diz não para mim, sacou?”. Enquanto a multidão se afasta, o herói se aproxima, decidido: “Se afasta da moça, coiote ordinário! É o Rawhide Kid quem está mandando!”.

Curiosamente, a história começa de forma invertida, com o valentão no saloon ameaçando o Kid: “Você é um forasteiro em Solavanco, rapaz! Bem, eu sou Big Bill Corbett e não gosto de estranhos!”. O herói mantém-se sentado, de cabeça baixa, temendo ser reconhecido — afinal, é um fugitivo. Ele não reage nem mesmo quando o valentão chuta sua cadeira. Porém, quando o vilão ataca a mocinha em plena rua, o rapaz intervém, mesmo sob o risco de revelação de sua identidade.

Quando o valentão resolve intervir para salvar uma moça. 


Embora o traço de Jack Kirby não enfatizasse esse aspecto — Kirby, inclusive, seria preterido para o Homem-Aranha por não saber desenhar personagens esguios —, o roteiro deixa claro que o Kid é franzino. Isso transparece no quadro em que ele soca o valentão: “Surpreso, o valentão imenso se vira e encontra setenta quilos de fúria incandescente atrás de um punho que parece moldado em puro aço!”.

Como resultado, a jovem se apaixona por ele, mas surge um conflito: ela é filha do xerife. Ao perceber o perigo, Rawhide decide partir, justamente quando um bando de assaltantes invade a cidade para roubar o banco e faz a garota refém. O herói, então, retorna para intervir.

Kid salva a moça, mas depois finge ser um bandido. 


Nesse ponto, emerge um traço de personalidade que se refletiria profundamente em Peter Parker: ao notar que jamais poderia ter um relacionamento estável com a filha da autoridade local, ele simula agir como um bandido, fugindo com o dinheiro para depois devolvê-lo secretamente ao pai dela: “Comigo ela não teria nada além da infelicidade! A vida de um fugitivo não é vida para a mulher que se ama! Se ela pensar que não presto, poderá me esquecer!”.

Quantas vezes não vimos Peter Parker adotar postura semelhante com Gwen Stacy ou Mary Jane?

O personagem é caracterizado pela habilidade no uso da arma. 


Apesar dos méritos e de antecipar conceitos fundamentais do "herói com pés de barro", a história guarda uma inconsistência óbvia: se a garota era realmente filha do xerife, dificilmente um valentão local arriscaria abordá-la de forma tão violenta à luz do dia, correndo o risco imediato de prisão ou morte.

sexta-feira, agosto 28, 2026

Sandman 24 horas - O quadrinho que testou os limites do mercado

 


O seriado de Sandman me fez ter curiosidade de reler o número seis da revista antes do episódio equivalente. Da saga Prelúdio e Noturnos essa foi a história que mais me impactou e teve maior influência sobre meus roteiros de terror.

A releitura tinha um motivo: descobrir se, trinta anos depois, a história ainda tinha o mesmo impacto.

Os números anteriores tinham me chamado atenção lá no início da década de 90 pelo texto competente, puxando para o poético. Mas não era nada muito diferente de outras coisas que eu já tinha lido, incluindo mesmo outros títulos de terror da DC e principalmente as histórias da Kripta, que republicava material da Warren. A primeira saga era, de certa forma até previsível do ponto de vista de roteiro, com um MacGuffin muito claro. Sandman é aprisionado, perde suas ferramentas e precisava recuperá-las.

A história é focada na garçonete-escritora. 


Esse número específico trata do destino da última ferramenta: o rubi, então de posse do transtornado John Dee. Ele está em uma lanchonete 24 horas, mas não o vemos logo.

Na verdade, toda a narrativa é focada em Bette, a garçonete. Embora seja uma garçonete, Bette na verdade se considera uma escritora e a lanchonete um local para recolher histórias. Ela descobriu o segredo dos contos: saber quando terminar. Se você se estender demais, eles inevitavelmente terminam em morte e tragédia. Assim, seus contos sempre têm finais felizes. Mesmo para os clientes que estão ali, naquele momento, ela imagina histórias com finais felizes.

A história tem referência até a suicídio. 


Mas John Dee irá providenciar para esse conto não tenha um final feliz.

Numa mistura de Além da Imaginação com Buñuel, o episódio todo se passa dentro da lanchonete da qual os clientes jamais conseguem sair.

A impressão que tive ao ler a primeira vez – e se tornou ainda mais patente nessa releitura – é de que Gaiman era alguém disposto a testar limites. Ele queria saber até onde poderia ir numa revista de linha da DC. Para começar, ele coloca uma personagem declaradamente lésbica, uma novidade nos comics à época. Mas o limite que seria realmente ultrapassado dizia respeito ao terror.

Ninguém consegue sair da lanchonete. 


E a lista é grande. Uma das mulheres presentes na lanchonete admite que fez sexo com um cadáver e gostou tanto que pedia para o marido não se mexer durante o sexo. Outra personagem prega a mão de um cliente no balcão, dois homens lutam até que um deles morra. Uma moça fura os olhos.

A palavra que me vinha à cabeça enquanto lia era: “Visceral”. Aquela era uma história visceral, tanto do ponto de vista visual quanto do ponto de vista pisicológico, com os personagens desnudados em seus mais íntimos segredos, como se sua psiquê tivesse sido exposta da mesma forma que as vísceras.

Trinta anos depois, a mesma palavra me veio à cabeça: visceral. O impacto ainda é grande e surpreendente ler isso numa revista de linha publicada há três décadas. Era – e ainda é – uma história perturbadora. 

Quarteto Fantástico - O despertar da Mulher Invisível

 

 

De todos os personagens do Quarteto Fantástico, a de menor destaque sempre foi a Mulher Invisível. Seus poderes pareciam ser apenas defensivos e muitas vezes ela nem participava de fato das tramas. Alan Moore satirizou isso na minissérie 1963. Uma das revistas era uma paródia do Quarteto e a personagem equivalente à Mulher Invisível em determinado momento varria a sala enquanto os meninos liam e respondiam as cartas. E uma das cartas pedia sua saída do grupo: “ela não bate em ninguém e ninguém pode bater nela”.
Essa situação mudou radicamelmente na ótima fase de John Byrne no título (talvez a melhor depois da saída de Lee e Kirby do quarteto). Na história o Barão Ódio, com a ajuda do Homem-psíquico, incendeia Nova York estimulando o ódio entre a população.
A trama por si já seria relevante nos dias atuais, em que discursos de ódio se disseminam facilmente pela internet. Byrne reflete sobre como o ódio ao diferente parece estar sempre encomberto por uma fina camada de gelo, que pode ser facilmente quebrada. Assim, mutantes, judeus, qualquer um que seja diferente passa a ser caçado pela população.
O Barão Ódio provoca o caos em NY estimulando o ódio entre a população. 


E, em meio a isso, o Barão consegue dominar Sue Storm, transformando-a em Malícia, uma perigosa vilã e é quando seu poder é totalmente explorado. É como se a doce garota invisível fosse incapaz de perceber a extensão total de seus poderes – capazes de derrotar até mesmo a Mulher Hulk.
O desenho de Byrne, com arte-final de Jerry Ordway e Al Gordon se encaixa perfeitamente no título, seguindo a melhor tradição de Jack Kirby e atualizando-o para a década de 1980: perfeitos nas cenas de ação ou de ficção-científica, com exemplar equilíbrio entre quadros repletos de cenários e quadros minimalistas.
O problema é no roteiro. Byrne aborda aspectos importantes da personagem, como no momento em que o Homem-psíquico explora os medos da Mulher Invisível, mas não os aprofunda.
A manipulação psíquica faz aflorar o lado malígno de Sue. 


 Além disso, em determinado ponto os heróis vão atrás do Homem-psíquico e simplesmente esquecem o Barão Ódio, que foi quem de fato manipulou Sue, tirando dela seu pior lado. Byrne esquece do personagem. Além disso, em uma sequência vemos Nova York destruída e sendo literalmente incendiada pelo ódio e na sequência seguinte tudo pareceu resolvido.
Apesar desses problemas, é uma boa história do Quarteto e merece estar em qualquer coleção. 
No Brasil essas histórias saíram nos formatinhos do Abril e recentemente na coleção Os heróis mais poderosos da Marvel, da Salvat.  

quinta-feira, agosto 27, 2026

Panthéon de Paris

 



O Panteão era originalmente uma igreja dedicada a Santa Genoveva. Quando eclodiu a Revolução Francesa, o prédio foi transformado em um ponto histórico, onde são enterrados os grandes nomes franceses. Voltaire e Rousseau estão enterrados lá, um de frente para o outro. Ali também está o túmulo do famoso escritor Victor Hugo.
A arquitetura neo-clássica, por si só já é digna de nota, mas o local tem muitos outros atrativos. O edifício é no formato de uma cruz grega e tem várias pinturas e estátuas, inclusive dois conjuntos frente a frente: um em homenagem a Rousseau, outro em homenagem a Voltaire.
O altar da igreja foi substituído por uma homenagem aos revolucionários. Danton é o primeiro da esquerda.

A nave principal é curiosa: o altar foi substituído por um monumento em homenagem à revolução francesa (é possível ver, entre as estátuas, Danton, saudando Marianne, a deusa da razão e da liberdade). Um pouco antes temos o Pêndulo de Foucault, a experiência realizada por Jean Bernard Léon Foucault para demonstrar a rotação da terra.
O panteão é uma verdadeira viagem pela história e ciência francesas.
O Pêndulo de Foucault provou que a terra se move.




Túmulo de Rousseau

Túmulo de Victor Hugo
Conjunto de estátuas em homenagem a Voltaire. 

As mil caras de Jack, o estripador

 


Os espanhóis Antônio Segura (roteiro) e José Ortiz (desenhos) são uma das duplas mais afinadas dos quadrinhos mundiais. Suas histórias sempre nos surpreendem e trazem diversas camadas de significado, mesmo sendo HQs curtas. É o que podemos ver no álbum As mil caras de Jack, o estripador, lançado por aqui pela editora Figura.

Segura e Ortiz parte do fenômeno Jack, o estripador, mas não se limitam a contar sua história. Sua abordagem é muito mais a respeito de como o serial killer influenciou uma geração de assassinos, que podem ser as pessoas menos suspeitas.

O álbum reflete sobre a influência de Jack sobre outros assassinos. 


Assim, cada história traz um assassino. Um deles pode ser o verdadeiro Jack, ou talvez nenhum seja, ou talvez todos sejam. Sobre esse padrão fixo, Segura imagina as mais diferentes e surpreendentes tipos de abordagens.

Isso é representado pela primeira história, homônima ao álbum, no qual um jovem policial vê uma das mulheres estripadas por Jack e fica obcecado a ponto de decidir se tornar ele mesmo um novo Jack. Mas quando decide matar uma mulher é surpreendido pelo verdadeiro Jack (ou não).

Um estrangulador volta para pegar seu relógio. 


Seguem-se a mais diversas abordagens: um estrangulador que deixa o relógio na mão da vítima e volta para buscar;  uma velha mendiga que diz saber a identidade real de Jack; um traficante chinês cuja filha foi desonrada que contrata um suposto Jack para vingar a moça... o álbum poderia se chamar variações sobre o mesmo tema. E cada variação consegue ser mais surpreendente e inusitada que a outra.

Misturando terror, humor ácido e ironia do destino, o álbum As mil caras de Jack, o estripador é daquelas leituras que te seguram da primeira à última página.

quarta-feira, agosto 26, 2026

O casamento do Fantasma

 

 

Entre as histórias mais famosas do Fantasma estão duas que fogem completamente do modelo de HQs de heróis, trazendo pouquíssima ação. Trata-se do casamento e da lua-de-mel do personagem. 

Desenhada pelo haitiano brasileira André LeBlanc (mas assinada por Sy Barry), a história começa com pedido de casamento. 

Lee falk é um roteirista habilidoso e estica ao máximo o suspense, fazendo com que o Fantasma não consiga pedir a amada em casamento. É alguém que interrompe o casal, é uma carta que chega, ou a simples insegurança. É curioso ver um personagem tão onipotente mostrar essa faceta fragilizada e insegura. 

Diana realiza um trabalho de direitos humanos em uma ditadura militar. 


Quando finalmente ele ganha coragem para fazer o pedido, surge um empecilho. Nesse meio tempoDiana foi escalada para participar de uma comissão de diretoria humanos da ONU para inspecionar as prisões de um país que vive uma ditadura militar, um local em que, para falar com o ditador local, só é possível se a pessoa entrar na sala arrastando pelo chão (LeBlanc acentua esse aspecto ao mostrar apenas os pés do ditador). Diana tenta descobrir o que há realmente por trás das masmorra e acaba sendo presa - e o Fantasma vai em seu auxílio. 

Se lembrarmos que na década de 70 havia várias ditaduras militares espalhas pela America Latina, inclusive no Brasil, é uma opção corajosa de Lee Falk trazer o tema para a trama do casamento.

A cerimônia tem diversos convidados. 


(É irônico, aliás, que a maioria dos fãs do Fantasma, que vibraram com essa aventura, hoje em dia bradem contra os direitos humanos e peçam ditadura militar)

Aliás, Lee falk parece muito avançado para sua época. O Fantasma nunca mata e mesmo quando é atacado por animais, como acontece com leões durante a lua de mel, faz de tudo para não feri-los. 

O casamento se torna grandioso por resgatarem toda a mitologia do personagem através dos convidados. Comparecem os presidente de Luaga e de Ivory-Lana, os chefes tribais, os príncipes das Montanhas da Neblina, Hzz, um ser humanoide e peludo, e muitos outros. Uma curiosidade é que Mandrake é apresentado apenas como o amigo de Lothar, príncipe das sete nações em uma curiosa inversão das tiras clássicas, em que Lothar era o criado do mágico – e demonstra a preocupação de Lee Falk em atualizar suas séries. Aliás, o próprio fato da esposa do Fantasma não largar o emprego ao se casar mostra essa preocupação.

A lua-de-mel acontece em uma praia paradisíaca. 


Mesmo durante a comemoração, vamos descobrindo aspectos culturais. Por exemplo, o brinde é feito com água da nascente, pois o Fantasma proíbe bebidas alcóolicas na Floresta Negra.

A lua-de-mel se passa na praia dourada de Keela-Wee. “Esta cabana de jade foi presente do imperador Joonkoor ao 7º Fantasma”, explica o herói. “Desde então, todo Fantasma passa aqui sua noite de núpcias”.

Quando aparecem bandidos, parece que eles fazem parte da diversão. 


A sequência, claro, não mostra nada de sexo (eles nem mesmo se beijam), mas encanta por mostrá-los se divertindo em meio à natureza. Quando aparecem alguns bandidos, eles são derrotados com tanta facilidade que parece que tudo faz parte do pacote de diversão.

A história foi lançada em formatinho em 1978 pela RGE, dividida em duas partes. Mas os editores logo perceberam que aquela história merecia uma edição especial e lançaram em formato maior, juntanto o casamento e a lua-de-mel em um único volume. A belíssima capa, de Walmir Amaral, mostrava o Fantasma e Diana sobre o cavalo Herói, tendo a caverna da caveira ao fundo. Uma edição histórica, disputada por fãs do espírito que anda.  

Demolidor contra o Hulk

 


No número 163 do Demolidor, o roteirista Roger Mckenzie colocou o Demolidor em rota de colisão com um dos personagens mais poderosos da Marvel: o Hulk.

Na história, Matt Mudock está numa festa quando ouve um batimento cardíaco único, como um bate-estacas e percebe que o gigante esmeralda está nas proximidades. Apesar do perigo, ele vai até o local com o objetivo de acalmar a fera. Não há conflito: o advogado consegue fazer com que o monstro volte a ser Bruce Banner e o leva para casa. Depois dá dinheiro para que consiga sair de nova York.

Miller era um especialista em mostrar caos urbano... 


Entrentanto, quando Bannner pega o metrô, o stress provocado pelo local faz com que ele volte a se transformar no monstro. Com os Vingadores e o Quarteto fora da cidade, só resta ao Demolidor tentar deter o Hulk.

Apesar de ser uma típica história de super-heróis, a edição tem algumas características interessantes que a diferenciam de outras obras. Para começar, o dom de Frank Miller para mostrar ambientes urbanos e todo o caos relacionado. A sequência do metrô, embora curta, é primorosa e reflete diretamente a claustrofobia sentida pelo personagem.

Outro aspecto essencial é o fato de McKenzie mostrar o Demolidor voltando a atacar o monstro, mesmo depois de seriamente ferido: “Eu não posso detê-lo! O monstro é forte demais! Eu fiz tudo que estava ao meu alcance! Se eu for embora, ninguém poderá me culpar... ninguém, exceto eu mesmo!”.

... sem falar das cenas de ação. 


Estava ali, muito bem caracterizada a principal característica do personagem, que seria explorada ao extremo por Frank Miller: o Demolidor é alguém que nunca desiste, como um lutador que sempre se levanta por mais que tenha apanhado. Essa característica será, inclusive, a base da saga A queda de Matt Murdock.

Outro aspecto relevante é quando a noiva do Matt Murdock se aproxima do local e grita pelo amado. Esse pequeno fato irá ser a peça que encaixava no quebra-cabeça que o jornalista Bem Hurich vinha montando, e que o levará a descobrir a identidade secreta do Demolidor. Essa será a base para a história seguinte.

Dr. Estranho - Em um mundo enlouquecido

 



No segundo número da revista Superaventuras Marvel foi publicada uma das melhores história do Doutor Estranho. Apresentada originalmente na revista Marvel Premiere 3, a HQ “Em um mundo enlouquecido” contava com uma dupla de peso na criação: Barry Windsor-Smith (argumento e desenhos) e
Stan Lee (roteiro).
Na história, o mestre das artes místicas está caminhando por Nova York quando quase é atropelado por um caminhão. A partir desse ponto começam a ocorrer coisas estranhas, surreais, que testam a sanidade do personagem.

É uma história que explora muito bem as melhores características do personagem: o Dr. Estranho é um ponto fora da curva dos heróis Marvel que se notabilizam principalmente pela pancadaria. Aqui quase não há conflito, além do conflito interno do personagem, que tenta a todo custo dar algum sentido ao que está ocorrendo. É um conto intimista e psicológico, característica destacada ainda mais pela arte de Barry Windsor-Smith, que, aliás, se sai muito bem nas sequências surreais.
O texto de Lee, por outro lado, mantém a atenção do leitor mesmo sem muita ação, ao lidar com o senso de desconhecido e o suspense sobre o que realmente está acontecendo.
É uma pena que a dupla não tenha sido responsável por toda uma saga do personagem. Seria épico.