quarta-feira, abril 17, 2024

Conan – Os demônios da montanha

 


Estamos acostumados a ver Conan desenhado pelo ítalo americano John Buscema. No entanto, diversos outros grandes artistas tiveram suas passagens pelo personagens. Entre eles o filipino Tony DiZuniga. Isso aconteceu na história Os demônios da floresta, publicada em Savage Sword of Conan 3, de dezembro de 1974.

Na história, escrita por Roy Thomas, Conan e um outro soldado estão sendo perseguidos por Khozgaris quando encontram uma bela mulher sozinha nas montanhas. Ela se identifica como Shanya, filha do chefe dos Khozgaris.

A habilidade de Tony DeZuniga para desenhar mulheres é uma grande contribuição para a história. 


“Mentira!”, afirma Conan. “A filha de um chefe aqui... sozinha... sem uma guarda armada?”

“Ninguém ousa por as mãos em Shanya... então eu vou aonde eu quiser!”, responde a garota.

O cimério resolve tomá-la como refém até que eles estejam em segurança, o que irá assegurar um dos elementos básicos das histórias de espada e magia: uma bela mulher em trajes sumários. A grande habilidade de Tony DiZuniga, cujo traço é quase fotográfico, ajuda muito nesse sentido.

O soldado é rapidamente descartado. 


Enquanto o trio atravessa um despenhadeiro, uma pedra caí, matando o outro soldado, o que deixa a trama focada apenas em Conan e na princesa. Aqui é necessário fazer um parêntese. É impressionante como é comum que as histórias iniciem com um ou mais soldados além de Conan. Todos morrem até a terceira página.

A garota é sequestrada por seres disformes e Conan resolve ir em seu socorro. Afinal, ele é um selvagem e tudo que interessa para os selvagens é salvar princesas em perigo.

A princesa será usada como procriadora. 


A garota é levada para o líder local, que pretende usá-la para procriar. “Nenhum sangue novo foi misturado à raça do povo do cume por mais de 200 anos. Você será uma companheira adequada para mim e para meu filho!”. Depois de usá-la como procriadora, o líder local pretende dá-la de comer a uma criatura monstruosa, cuja simples visão faz a princesa desmaiar.

A história tem um deus ex-machina: quando derrota o primeiro do povo do cume, Conan vê que ele usa uma máscara e resolve simplesmente colocar o artefato no rosto, o que faz com que ele veja no espesso vapor usado como arma pelos locais.

Apesar dessa situação forçada,  Os demônios da montanha tem todos os elementos de uma boa história de conan.

Filosofia teen

 



Na época da faculdade, tivemos uma discplina chamda Introdução à filosofia. Eram duas horas de tortura. Ninguém, absolutamente ninguém na turma conseguia entender o que a professora falava. Ela pulava de Platão para Descartes, dele para o taxista da esquina e dele para as eleições presidenciais. Um colega definou filosofia como tentar encontrar uma pedra de gelo num campo de neve. Essa visão aterradora tem acompanhado muitos jovens ao longo de todos esses anos. A filosofia, ou é vista como algo indecifrável, sem qualquer nexo com a realidade, ou é ensinada de maneira totalmente descontextualizada, consistindo apenas em fazer os alunos discutirem determinados assuntos, sem qualquer embasamento.
Assim, qualquer tentativa de trazer a filosofia para o mundo dos jovens deve ser aplaudida. Já houve alguns exemplos notáveis, como o Filosofando (de Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins) , ou O Mundo de Sofia (de Jostein Gaarder), e agora temos mais um exemplo. Trata-se de Filosofia para adolescentes, de Yves Michaud (Escala educacional, 2007, 134 páginas).  
Yves Michaud é filósofo, professor de Filosofia da Universidade de Rouen, ex-diretor da École Nationele de Beaux Arts de Paris. Ele maneja bem o assunto, mas faz abordagem diferente de livros predecessores, como O Mundo de Sofia. Ao invés de apresentar o assunto através de uma história da filosofia, Michaud prefere dividir o livro em temas de interesse dos jovens, em reflexões filosóficas, como ¨Por que precisamos de amor?¨, ¨Será a morte o fim de tudo?¨, ¨Somos livres?¨, ¨Pode a ciência explicar tudo?¨.
Cada capítulo inicia com um diálogo entre o autor e um grupo de adolescentes sobre o assunto em questão. É um ponto positivo, já que o volume parece ser direcionado a objetivos didáticos. A mesma discussão que o filósofo estabelece com os jovens pode ser travada em sala de aula, entre professor e alunos.
Para tornar a leitura mais agradável, o texto é entremeado de ilustrações cômicas (de autoria de Manu Boisteau) e de boxes com notas sobre filosófosos famosos. O recurso dos boxes permite aprofundar os temas, dando um embasamento sobre o que se está lendo. Espera-se que o leitor fique curioso e decida conhecer melhor o filósofo e suas idéias sobre o tema em reflexão no capítulo.
O livro seria todo excelente, uma ótima introdução para quem está dando os primeiros passos no assunto, não fossem por alguns pequenos detalhes. Não há, por exemplo, nenhuma informação biográfica sobre o autor. Além disso, o volume peca na revisão. Há erros bobos de digitação, como ¨engrançada¨ no lugar de ¨engraçada¨.
A capa também não parece muito chamativa para um livro que se pretende direcionado aos jovens.
Colocando na balança, os pontos positivos pesam mais que os pontos negativos. Filosofia para adolescentes pode ser uma boa introdução ao pensar ao mostrar que as a reflexão filosófica pode ser usada em assuntos de interesse dos jovens.

Jornada nas estrelas: tempo de loucura

 


Uma das características da primeira encarnação de Jornada nas Estrelas é que a série não se levava tão a sério. Em alguns casos isso poderia se transformar em desastre completo. Em outros, pura diversão. Ótimo exemplo desse segundo caso é “Tempo de loucura”, episódio escrito por Theodore sturgeon da segunda temporada.
Na trama, Spock começa a apresentar um comportamento agressivo totalmente na contramão do primeiro oficial frio e calculista que estamos acostumados a ver. Ao ser indagado por Kirk, ele pede que lhe seja concedida uma licença em Vulcano, seu planeta natal.
A razão para isso: chegou sua época de acasalar e deve voltar a Vulcano para se casar com sua prometida. Esse “tempo de loucura” seria uma compensação da natureza para a natureza fria dos vulcanos. Na explicação dada ao amigo Kirk, Spock chega a citar até mesmo os salmões, que voltam ao lago onde nasceram para acasalar.
Já no planeta, a futura esposa exige combate e escolhe Kirk como seu campeão. O capitão aceita, para só depois descobrir que o combate só pode terminar com a morte de um dos contedores em uma cena que só poderia funcionar com Willam Shatner.
É bizarro, mas, ao mesmo tempo, divertido, ver Spock com um comportamento totalmente diferente do que se espera dele e mais divertido ainda a luta dele com Kirk (fico imaginando quantos fãs do programa gostariam de ver essa luta da mesma forma que gostariam de ver uma luta entre o Capitão América e Homem de ferro). Além disso, o episódio torna muito mais rica a mitologia vulcana.
Aliás, a solução do episódio é bem bolada e segue faz sentido dentro da trama. Como diria Spock: “Muito lógico”.  

Condorito Brasil

 

Condorito é um personagem de humor chileno extremamente popular em vários países da América do Sul. No Brasil infelizmente ele é pouco conhecido. Suas piadas - a maioria politicamente incorretas ou simplesmente malucas - são ótimas. Para corrigir essa falha, fãs criaram o página Condorito Brasil no Facebook. Para acessá-la, clique aqui. Fiquem com uma prévia.



Fundo do baú - Besouro Verde


“Mais um desafio para o Besouro verde, seu ajudante Kato e o arsenal sobre rodas Beleza Negra. Nos registros policiais são criminosos procurados, mas o Besouro Verde é na verdade... o redator proprietário do sentinela diária. Sua identidade secreta só é conhecida de sua secretária e do promotor público. E agora, para proteger os direitos dos cidadãos decentes, surge o Besouro Verde!”.

Assim começava o seriado Besouro Verde, série produzida por William Dozier e exibida originalmente no ano de 1967, num total de 26 episódios.

O personagem, cujo nome original é The Green Hornet (a Vespa Verde) estreou no rádio na década de 1930. Na década de 1940 teve um seriado matinê, mas ficou realmente conhecido da maioria do público graças ao seriado dos anos 1960.

E a série só saiu do papel graças à batmania. Dozier, que havia produzido o seriado do Batman, resolveu apostar em outra série de heróis, mas dessa vez com um tom mais sério e menos infantil.

Para interpretar o herói foi escolhido Van Williams e para o papel de Kato ninguém menos que Bruce Lee, em seu primeiro papel nos EUA. Lee inclusive convenceu os diretores a trocar o estilo de luta livre de Kato por artes marciais, de modo que essa foi a primeira vez que o público norte-americano teve contato com esse tipo de luta. Até mesmo Van Williams teve algumas aulas com Bruce Lee nas quais aprendeu alguns golpes.

O personagem Besouro Verde é um combatente do crime que traz um diferencial: todos acham que ele é um criminoso, o que lhe permite entrar no submundo do crime. A ideia fazia ressonância com o policial noir, algo que vai se refletir inclusive na série, como diálogos e situações típicas desse gênero.

A cada episódio, Besouro e Kato enfrentam um malfeitor, geralmente caracterizado pelo uso de algum tipo de arma. No primeiro deles, por exemplo, eles enfrentam alguém que possui uma pistola capaz de disparar sem emitir som ou luz, fazendo com que uma pessoa seja morta num elevador lotado, por exemplo, sem que se saiba quem atirou. Isso coloca o herói numa jornada para tirar a arma de circulação. No final, o principal repórter do Sentinela comenta o caso e diz que teria sido uma tragédia se o Besouro Verde tivesse se apropriado dessa arma, no que  Britt Reid  concorda plenamente. A ironia aí é Reid é o Besouro Verde, mas a cena serve para mostrar como, ao mesmo tempo em que combatia o crime, o herói era visto como vilão por parte da sociedade.

Além do Beleza Negra, um carro cheio de faróis verdes, o personagem contava com outros apetrechos tecnológicos, como uma pistola que emitia um gás verde e fazia as pessoas desmaiarem e o Hornet's Sting, um dispositivo que emitia ondas sonoras e podia ser usado até mesmo para colocar fogo em coisas ou abrir portas.

O seriado fez um sucesso mediano na época, mas quando Bruce Lee se tornou um grande astro com seus filmes de artes marciais, foi redescoberto e se tornou cult, sendo reprisado por diversas emissoras de TV.

Uma curiosidade é que o Besouro Verde é descendente de outro herói, Lone Ranger, criado pelos mesmos autores.

A origem do livro Cabanagem

 


A ideia para o livro Cabanagem surgiu de uma conversa com o amigo José Ricardo Smith.
Ele me apresentou algumas moedas feitas pelos cabanos (na verdade, moedas da regência “carimbadas” com novos dizeres) e comentou sobre o quanto essa revolta tinha se alastrado pela Amazônia. E no final perguntou: “Por que você não faz um livro sobre a cabanagem no Amapá?”.
Eu nunca tinha ouvido falar que a cabanagem tivesse chegado ao Amapá, mas ao pesquisar, acabei descobrindo que ela se alastrou pela Amazônia praticamente inteira. E os cabanos usavam para isso canoas, na maioria das vezes amarradas umas às outras, que impulsionadas por braços fortes de índios, negros e mestiços, atravessavam rápidas os igarapés da região.
Eu comprei livros, baixei teses, artigos, li muito sobre o assunto, mas a ideia de fazer um livro histórico não me agradava.
Eu queria fazer uma obra de fantasia histórica, um gênero em que o fantástico se mescla aos acontecimentos reais.
Jorge Luís Borges dizia que o estilo do escritor consiste, basicamente, na repetição de temas. Os temas preferidos de Borges eram espelhos, tigres, espadas e mensagens cifradas. A maioria de seus textos tem pelo menos um desses elementos, muitos têm todos.
O que Borges talvez tenha percebido é que, por alguma razão, as histórias só funcionam para escritores se tiverem aqueles elementos que fazem parte do seu estilo.
Assim, a trama de Cabanagem só se estabeleceu quando consegui descobrir uma maneira de colocar nela um psicopata. Meus dois outros livros, Galeão e O uivo da górgona, têm psicopatas assassinos.
A partir desse plot básico (um grupo de cabanos fugindo e sendo perseguidos por soldados chefiados por um psicopata assassino) a história se firmou. Também se tornou mais fácil incluir um outro elemento que me é muito caro: os mitos amazônicos. E se essas lendas tomassem partido de um lado ou do outro do conflito?
Assim surgiu o meu livro Cabanagem. 

Para comprar o livro, clique aqui

A arte hiper-realista de Michael Black

 


Michael Black é um artigo digital freelancer russo caracterizado pelo detalhismo insano de sua obra. Suas imagens futuristas, com robôs, armas e veículos são tão repletos de textura hiper-realista que parecem existir mesmo. Confira o trabalho desse artista.






terça-feira, abril 16, 2024

Monteiro Lobato: O Sítio Do Pica Pau Amarelo

 


            O primeiro livro de Lobato para crianças foi lançado em 1921 e chamava-se Narizinho Arrebitado. Teve a tiragem monstra de 50 mil exemplares. E vendeu tudo. Antes disso praticamente não havia livros para crianças. Quando ele mesmo era pequeno, as leituras se restringiam a dois álbuns coloridos, Menino Verde e João Felpudo. “Pobres crianças daquele tempo! Não tinham nada para ler”, admitia.
            Os livros que exitiam eram cheios de “literatura”, que certamente não agradava Lobato. Ao invés de se dizer céu azul, dizia-se céu azul turqueza, ou cerlea abobada celeste.
            Embora os primeiros livros infantis de Lobato fosse cheios de “literatura”, o escritor foi salvo pelas crianças: “de tanto escrever para elas, simplifiquei-me, aproximei-me do certo (que é o claro, transparente como o céu)”.
            Até meados da década de 20, Lobato ainda não se decidira a realizar a grande obra que viria a ser o Sítio. Mas tinha uma coceiras: “Ando com idéias de entrar por esse caminho: livros para crianças. De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para as crianças um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do Robinson Crusoe do Laemmert. Ainda acabo fazendo livros onde nossas crianças possam morar, como morei no Robinson e n’Os Filhos do Capitão Grant”.
            Coçou-se em 1934. Foi quando a editora Nacional lançou Reinações de Narizinho, reunindo num só volume todas as histórias pequenas do sítio que já haviam sido publicadas. Lobato fez os ajustes, revisou, e entusiasmou-se: “Estou gostando tanto que brigarei com quem não gostar”. E começou a vir a idéia de transformar o Sítio numa série contínua, um “rocambole infantil”, como ele chamava. Os rocamboles eram romances franceses, famosos por estender a história por volumes e mais volumes.
            O escritor pretendia levar a turma do sítio para uma viagem ao céu e se ria, imaginando a tia Nastácia metida no embrulho, sem nada entender.
            Mas Lobato ainda estava envolvido com o petróleo, andava entretido com as gentes grandes. Quando foi preso, desistiu delas. Voltou-se completamente para os pequenos.
            Publicou, então, dezenas de livros. Entre eles, História do Mundo para Crianças, que fez com que um padreco da década de 50 acusasse Lobato de comunista. Tudo isso porque o livro explicava o surgimento do universo e da espécie humana segundo os conceitos científicos. Para o venerável sacerdote, dizer que o homem que conhecemos hoje é resultado de uma evolução milenar era sinônimo de comunismo. O sacerdote também achava comunista e anti-cristão o fato das histórias de Lobato não terem lição de moral...

A divulgação científica nos quadrinhos

Defendida em 1996, minha dissertação de mestrado A divulgação científica nos quadrinhos - análise do caso Watchmen foi um dos primeiros trabalhos acadêmicos a analisar a relação entre HQs e ciência no Brasil. Tornou-se referência obrigatória inclusive sobre uso de gibis em sala de aula. Para ler, clique aqui.

A fantástica fábrica de chocolate

 

A Fantástica fábrica de chocolate é um filme de 2005, de Tim Burton, com Johnny Depp no papel principal. Eu me lembrava da versão original e era uma péssima imagem. Quando criança, eu odiava essa versão, especialmente por causa  dos musicais.

Os musicais continuam presentes na versão de Tim Burton, mas já não são aquela coisa quebrada que era até a década de 80: o filme pára e começa um número musical que não tem nada a ver com o que está acontecendo. Esse estilo perdurou durante décadas nos desenhos da Disney, até vir Toy Story, que revolucionou o gênero.

Tim Burton percebeu que A fábrica é uma fábula e trabalhou o filme todo nesse sentido. Algo perfeito para quem já tinha feito a grande fábula da década de 90: Eduard mãos de tesoura. Aliás, há até uma cena em que o diretor homenageia a si mesmo fazendo referência ao personagem com mãos de tesoura (no momento em que Wonka está inaugurando a fábrica).

Portanto, A FÁBRICA é uma fábula sobre a família. É um resgate da família verdadeira, um item raro hoje. Numa época em que os pais não têm controle nenhum sobre seus filhos, que crescem como ditadores interessados unicamente em consumir, consumir e consumir, o filme resgata a família unida por laços de amor. Pessoas que, mesmo na mais absurda miséria, ainda assim são felizes por terem umas às outras. De quantas famílias podemos dizer isso hoje? São cada vez mais comuns os casos de filhos que chegam a matar os pais no primeiro momento em que esses lhes dizem não.

A FÁBRICA desfila as possibilidades de deturpação da infância: uma é mimada excessivamente, outro come demais, outra é educada apenas para vencer, outro é um craque dos vídeo-games e da internet, mas não usa toda essa informação de maneira saudável. De todos, apenas o garoto Charlie Bucket tem uma relação saudável com os pais.

Se não bastasse a ótima mensagem, o filme conta com a cenografia expressionista, típica dos filmes de Burton, com a fantástica música de Danny Elfman e com uma das melhores e criativas aberturas que já vi. Além, é claro, de contar com Johnny Depp, um ator capaz de transformar até uma bomba, como Piratas do Caribe, em um filme sensacional, e que brilha como nunca nesta refilmagem. Um programa para toda a família.

Lídia Poet

 


 

Lídia Poet, série criada por Criada por Guido Iuculano e Davide Orsini, é baseada em uma personagem real, a primeira advogada italiana. Formada numa época em que o machismo imperava, ela foi proibida de exercer a profissão, tornando-se assistente do irmão.

O seriado pega essa figura real e essa premissa para construir uma trama policial, em que Lídia resolve um crime a cada episódio enquanto tenta conseguir novamente a permissão para advogar.

A estrutura é mais ou menos a mesma: Lídia se depara com um cliente que está preso por um crime que não cometeu e deverá provar sua inocência.

É uma estrutura interessante, com um bom desenvolvimento. Não há exageros ou piruetas narrativas, como temos visto em Enola Holmes, muitas vezes com soluções pouco críveis. A narrativa é simples, mas envolvente. Lídia consegue resolver as situações com um senso de observação apurado e raciocínio lógico. Em uma das histórias, por exemplo, ela percebe que a principal testemunha contra sua cliente é um vigia alcoolatra que dormiu em serviço. O final parece uma consequência muito lógica do veio antes.

Vale destacar a atuação fenomenal de Matilda De Angelis, com suas pequenas expressões faciais extremamente reveladoras. A moda da época, um período em que as mulheres usavam cabelos presos, com chapéus, também ajuda a atuação, já que dá destaque para seu rosto. Aliás, o figurino usado por Lídia também cabe um elogio por sua elegância.

A primeira temporada tem seis episódios que passam muito rápido, pois é muito difícil deixar um episódio pela metade.

Fases do processo criativo

 Como acontece o processo  de criação? Seja uma grande lei da física ou uma nova maneira de fazer uma receita de bolo, as idéias criativas passam pelas mesmas fases.

A primeira é a fase da preparação. Aristóteles já dizia que antes de começar a escrever, devemos pesquisar tudo que se sabe sobre o assunto. De fato, você não será capaz de resolver um problema se não conhecê-lo a fundo.

Essa fase se relaciona muito com a curiosidade. Pessoas curiosas têm mais chances de ter boas idéias, pois estarão mais antenadas às informações relacionadas ao problema.

Para escrever este texto, por exemplo, pesquisei em diversas revistas e livros.

Também é necessário pensar e pensar muito no problema, mesmo que não se chegue a uma solução satisfatória.

Em seguida vem a fase da incubação. É o famoso "deixar a idéia dormir", ou "consultar o travesseiro". Se, depois de ter pesquisado muito, a solução não se apresenta, esqueça. Vá fazer outra coisa, ou até mesmo durma.

Sherlock Holmes tocava violino durante a fase de incubação.


O monge-detetive Guilherme de Baskerville, do livro O Nome da Rosa, costumava tirar uma soneca quando se deparava com um problema insolúvel.. O psicólogo Jung costumava construir casas de brinquedo. Sherlock Holmes tocava violino. Há quem goste de ouvir uma música, ou ler um livro.

Nessa fase o importante é deixar o inconsciente trabalhar em busca de uma solução.

Mas atenção: o inconsciente só vai lhe dar uma idéia se você tiver fornecido antes informações sobre o assunto. Sua mente precisa de subsídios para trabalhar, subsídios que são recolhidos na fase de preparação.

Finalmente, depois de pesquisar muito e deixar a idéia dormir, vem a iluminação. É o eureka!

Um célebre exemplo de iluminação foi a que aconteceu com o químico alemão Firedrich Kekulé. Ele passou dias tentando descobrir como os seis átomos do se benzeno se ligavam, sem sucesso.

Então cochilou e sonhou com uma cobra mordendo o próprio rabo. Era a resposta! Os átomos se ligavam em círculo!

Outro exemplo famoso, embora alegórico, é a maçã de Newton, que, ao cair sobre a cabeça do cientista, deu-lhe a idéia para a teoria da gravitação universal.

Finalmente vem a fase da avaliação. Só aqui entra o senso crítico. A avaliação serve para peneirar as idéias e perceber as que funcionam e as que não funcionam. Se a idéia não se revelar a mais adequada para a situação, o jeito é voltar ao início e começar tudo de novo. Como dizemos cientistas dos
desenhos animados, "De volta à prancheta".

Mas lembre-se: só descarte as idéias na fase final de criação.

Ken Parker – Um hálito de gelo

 


Em 1984 Berardi e Milazzo estavam insastisfeitos com o ritmo insano de produção em massa da Bonelli, com álbuns de aproximadamente 100 páginas produzidos mensalmente. A solução foi criar a própria editora e publicar álbuns de luxo. O primeiro desses álbuns, “Hálito de gelo” foi lançado no Brasil pela editora Ensaio em 1994.
Além da história do título, o álbum traz uma história introdutória, “Os cervos”, uma rica demonstração narrativa da dupla. Na HQ, Ken está caçando cervos quando descobre que atirou numa fêmea com filhotes e, compadecido, começa a tratar de sua perna atingida e alimentar a família. A história não tem texto, apenas imagens – e ele seria totalmente desnecessário. A história é poética, pungente, com um plot twist emocionante.
Parker está fugindo junto com outras pessoas pelas montanhas geladas. 


Em “Um hálito de gelo” Ken está fugindo para o Canadá em um perigoso caminho pelas montanhas geladas depois de ser acusado de matar um policial
Junto com ele fogem um índio que acabou de fugir da prisão (e para isso matou o carcereiro), um casal em que a mulher fugiu do marido e um repórter fazendo uma matéria sobre essa rota de fuga.
O grupo, que está sendo perseguido por policiais, enfrenta todo tipo de perigos, de lobos a ladrões, mas os conflitos internos são a maior ameaça. Berardi é um mestre na caracterização dos personagens e consegue explorar muito bem a personalidade de cada um e a relação entre eles.

Cabanagem: A miserável revolução das classes infames

 


A Cabanagem foi a mais sangrenta guerra civil da América Latina. Foram 35 mil mortos, 30% da população da região amazônica. Entretanto, é uma das menos conhecidas revoltas do período regencial. Uma ótima obra para os interessados no assunto é A miserável revolução das classes infames, de Décio Freitas (editora Record).
Décio conta que o livro é baseado em cartas que lhe foram entregues por um amigo espanhol. Escritas meio em francês, meio em bretão, eram redigidas por um revolucionário francês que participara da revolta paraense.
Já nos finais da revolução francesa, muitos indíviduos do grupo que perdia o poder, ao invés de serem guilhotinados, eram simplesmente enviados para a Guiana francesa. Era a “guilhotina seca”.
Quando Napoleão chegou ao poder, continuou a prática e quando este foi derrotado, seus inimigos fizeram o mesmo. Dessa forma, na Guiana Francesa podia-se encontrar desde jacobinos veteranos da revolução francesa a pessoas perseguidas por Napoleão.
Entre os revolucionários enviados para a Guiana está Jean-Jacques Berthier, expulso da França com apenas 14 anos. E este é o autor das cartas que servem de base para o livro. Assim, os principais fatos do conflito amazônico são esmiuçados do ponto de vista desse personagem. As cartas, no entanto, parecem ser só uma estratégia de verossimilhança. Da mesma forma que Umberto Eco inventou que O nome da Rosa não era um romance, mas a tradução de um texto real da Idade Média, Décio aparentemente  inventa que seu livro é resultado das cartas recebidas de um amigo e traduzidas a grande custo do bretão.
Mas se o personagem é fictício, os fatos históricos narrados no livro são reais. O autor pesquisou a fundo o período e lança uma nova luz sobre a revolta.
A começar por algo que fica claro durante toda o obra: a cabanagem foi a nossa revolução francesa. A relação é, de fato, direta.
Quando Napoleão invade Portugual, D. João e a corte portuguesa são obrigados a fugir para o Rio de Janeiro. Mas, em retaliação, D. João manda invadir a Guiana Francesa com o apoio dos ingleses.
A conquista é fácil, mas vai ter grandes consequências. Na época, a colônia francesa estava repleta de revolucionários jacobinos. Como eram inimigos de Napoleão, os portugueses são tolerantes com eles e alguns até são levados a Belém para ajudar na construção de um palacete para o governador. Outros vão por conta própria.
Além disso, os soldados brasileiros que participaram do conflito têm contato direto com as ideias dos revolucionários. Em pouco tempo, Belém não só estava cheia de jacobinos, mas também de soldados brasileiros com ideias revolucionárias.
Décio faz uma descrição ampla de Belém e das condições sociais do Pará à época.
O Pará era dominado pelos portugueses e pelos mestiços de principais famílias. Aos negros restava a escravidão e aos índios, chamados tapuios, a miséria. Era comum, por exemplo o sequestro de meninais tapuias destinadas à lascívia dos endinheirados. São as “índias de corda”: seus captores furam suas orelhas pela qual passam uma corda que prende uma às outras. Se tentarem fugir, provocam dores atrozes nas outras.
O governador, corrupto, pensa em uma só coisa: enriquecer mesmo que à custa de saquear o povo local.
A língua mais falada não é o português, mas a língua geral, o Nheengatu, língua indígena baseada no tupi e criada pelos jesuítas. 
Um fato que antecipou e, de certa forma provocou a revolta da cabanagem, foi o massacre do Brigue Palhaço.
Quando o Brasil se tornou independente, o Pará não aderiu. Afinal, a capital paraense era mais próxima de Portugal do que do Rio e comércio era todo com a Europa.
D. Pedro manda um mercenário inglês, Lorde Greenfell, para providenciar a adesão do estado ao império brasileiro.
Greenfell faz um acordo com as principais famílias, que aceitavam aderir à independência em troca de manter o status quo.
A população pobre se revolta: esperava-se que a adesão do Brasil à independência mudasse alguma coisa na situação política e social do estado, mas continua tudo como estava.
A rebelião estoura: as pessoas saem às ruas saqueando os comércios dos portugueses. A repeensão, efetuada pelo mercenário é cruel e aleatória. Ele envia seus soldados, que recolhem todos que encontram na rua e, sem qualquer julgamento, os aprisiona no porão de um navio, o Brigue Palhaço.
Eram 256 pessoas aprisionadas em um espaço mínimo, num calor extremo, sem água ou comida. A ideia era matá-los de fome e sede, mas quando o gemido agonizante dos aprisionados começou a incomodar os soldados, Greenfell mandou dar tiros a esmo no porão. Não deu certo. Os gritos de agonia continuaram. A solução foi radical: jogar cal no porão, asfixiando os prisioneiros. De todos, apenas uma pessoa sobreviveu.
Essa tragédia marcaria para sempre a história do Pará e seria, anos mais tarde, o estopim para a revolta dos cabanos.

Clique aqui para comprar o meu livro Cabanagem no site da editora. 

segunda-feira, abril 15, 2024

Ebook sobre Teorias da Comunicação

 


O livro Teorias da comunicação: correntes de pensamento e metodologia de ensino reúne artigos de diversos professores do Brasil. É provavelmente uma das melhores obras sobre o assunto já publicadas em nosso país. Eu colaboro com dois artigos, um sobre a teoria hipodérmica e outro sobre a cibernética e a teoria do caos. O ebook pode ser baixado gratuitamente no site do Congresso Intercom:http://www.portcom.intercom.org.br/ebooks/detalheEbook.php?id=55845