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sábado, agosto 29, 2026

A pele de Onagro

 


A pele de Onagro é um filme dirigido por Alain Berliner disponível no Amazon Prime. A película baseia-se num dos principais romances de Horoné de Balsac.

A trama gira em torno de Rafael de Valentin, um jovem romântico que dedica sua vida a escrever um tratado filosófico. Quando sua obra é rejeitada pela editora (logo após uma desilusão amorosa), Rafael pensa em suicídio. Sua tentativa de se jogar de uma ponte se revela infrutífera e ele acaba optando por comprar uma arma. Mas na loja em que entra, acaba se deparando com um homem misterioso que lhe faz uma proposta: se quer mesmo morrer, que aceite a pele de onagro, um couro mágico que, na medida em que realiza desejos, abrevia a vida de seu dono.

É uma trama que poderia facilmente se encaixar num episódio de Além da Imaginação, mas o filme vai mais além, refletindo filosoficamente sobre como os desejos podem ser fortes a ponto de tomar a vida daquele que deseja.

Por mais que realize seus desejos, há sempre um desejo novo, algo a se  querer, algo que parece importante, por mais que isso diminua o tamanho da pele e com ela a vida de seu proprietário. Conforme mergulha nessa armadilha de desejos infinitos, Rafael esquece-se do que realmente importa e, quando percebe, é tarde demais: sua vida está no final.

O filme consegue desenvolver bem esse conceito, com uma fotografia que recria o clima romântico do início do século XIX. Vale também destacar a atuação contida e sensível dos atores, em especial do casal de protagonistas.

sexta-feira, agosto 28, 2026

O Esquadrão Suicida de James Gunn

 



Ao assistir a versão de James Gunn para o Esquadrão Suicida, o pensamento que me vinha à mente o tempo todo era: o primeiro filme foi um desperdício total de dinheiro, tempo e talentos.

O primeiro filme parecia ter sido feito por alguém que nunca leu quadrinhos. Além disso, tinha uma premissa absurda: o Esquadrão Suicida foi reunido para impedir uma ameaça provocada... pelo surgimento da criação do esquadrão suicida! Sem falar, claro, do fato da película nunca se decidir se era sombria e realista ou cômica.

James Gunn começa acertando pelo tom: O esquadrão suicida é, acima de tudo, uma comédia. Como levar a sério um grupo de vilões desconhecidos trabalhando como heróis? E Gunn caprichou nos desconhecidos. Eu, por exemplo, nunca tinha ouvido falar no Dardo (um personagem tão obscuro que nos quadrinhos não tem nem identidade secreta ou origem) ou a Doninha ou a Caça-ratos 2. E o que falar do Bolinha?

Mas, apesar do tom cômico, o filme respeita os personagens e consegue desenvolvê-los até melhor do que nos quadrinhos. Os traumas do Bolinha com a mãe, por exemplo, creio que nunca foram trabalhadas nos quadrinhos. E até a Caça-ratos 2 ganha uma relação afetiva com o pai que tem tudo a ver com os ratos é um dos momentos mais ternos e marcantes do filme. O único personagem plano é o Pacificador, mas essa característica encaixa perfeitamente no personagem. É dele, aliás, uma das melhores frases do longa: “Eu amo a paz, se precisar matar homens, mulheres e crianças para manter a paz, eu mato”.

Os personagens também ganham com ótimas interpretações, em especial Margot Robbie, que parece ter encarnado ainda mais a vilã. Mas, ao contrário de Esquadrão Suicida 1, aqui ela não leva o filme nas costas (e nem salva o dia sozinha). Aqui todos têm seu carisma e sua função e todos os personagens contam com atuações inspiradas.    

Outro ponto de destaque é a trilha sonora, escolhida a dedo. James Gunn, seguindo a tradição de Tarantino de escolher músicas já existentes para compor a trilha, consegue o clima perfeito desde a primeira cena.

Na trama, o grupo de vilões é acionado por Amanda Waller para destruir um prédio onde está sendo desenvolvida uma arma secreta que poderá ser usada pelo novo governo da Ilha de Corto Maltese para atacar os EUA. Essa arma é, na verdade, Starro, o conquistador, uma estrela do mar alienígena que conquista planetas inteiros com clones de si que dominam as pessoas com os quais entram em contato. O que já era perceptível no início, logo fica claro: Amanda quer não só destruir Starro, mas também apagar os rastros do governo americano na experiência.

Sem querer, James Gunn acabou criando uma grande metáfora da atuação nos EUA no Afeganistão, em especial se considerarmos os eventos recentes.

Starro foi o primeiro vilão enfrentado pela Liga da Justiça. 


Algumas curiosidades sobre o filme:

- A personagem argentina Mafalda é homenageada em determinado trecho, ao aparecer como chaveiro na sequência do caminhão.

- Corto Maltese é o nome de um personagem de quadrinhos criado pelo italiano Hugo Pratt. Provavelmente a primeira vez que esse nome foi usado para se referir a uma ilha que existe no universo DC foi em Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller.

- Starro realmente existe nos gibis e é provavelmente um dos vilões visualmente mais ridículos dos quadrinhos (uma estrela do mar com um olho no meio). Foi a primeira ameaça enfrentada pela Liga da Justiça. 

quinta-feira, agosto 27, 2026

Janela indiscreta

 

Janela indiscreta (Alfred Hitchcock, 1955) é um dos melhores filmes da história do cinema. Uma verdadeira aula de cinema (e, se você souber fazer as conexões necessárias, de quadrinhos).
Para quem não conhece a história, trata-se de um fotógrafo impossibilitado de sair de casa após quebrar uma perna que se diverte observando os vizinhos, até presenciar o que acha ter sido um assassinato.
A sequência inicial é uma ótima demonstração da força narrativa das imagens. A câmera passeia pelo conjunto de prédios e nesse passeio, sem que nenhuma palavra seja dita, conhecemos tanto o ambiente da história quanto seus personagens, suas manias, características, suas histórias. É um filme com múltiplas narrativas paralelas que são acompanhadas em sequências praticamente mudas, em que ouvimos uma ou outra frase. No final, uma outra sequência de imagens mudas fecha a narrativa e nos mostra o que aconteceu com cada um dos personagens.
É também um filme sobre a força da sugestão. Tudo é mais sugerido do que mostrado - a começar pelo próprio assassinato, que em nenhum momento é mostrado.
Exemplo dessa sugestão é a rua, lá fora, que é entrevista apenas por um pequeno corredor. Provavelmente havia cenário apenas no trecho que pode ser visto pelo expectador, mas este imagina a rua inteira.
Cinema, como quadrinhos, é a arte de mexer com a imaginação do receptor.

quarta-feira, agosto 26, 2026

As montanhas da Lua

 


Uma vez eu e Bené Nascimento (Joe Bennett) conversávamos sobre cinema e ele defendia que, num bom filme de aventura, era impossível aprofundar os personagens. Para provar o contrário, eu citei o filme As Montanhas da Lua, de Bob Rafelson.
O filme conta a história de Richard Burton e sua busca da fonte do Nilo, uma das descobertas científicas mais importantes do século XIX. O filme é uma grande aventura, mas o ponto alto é a relação de Burton com John Speke, que oscila entre a amizade e a inimizade, passando por uma possível relação homossexual, apenas insinuada.
Bob Rafelson foi um dos diretores que abriram caminho para a geração anos 70, que revolucionou Hollywood e a escolha do tema e do protagonista certamente não foi por acaso. Hippie, Rafelson devia se sentir entre os executivos da indústria como o revolucionário Burton na sociedade vitoriana.
Diplomata, explorador, espião, escritor e tradutor, Burton foi responsável, por exemplo, por uma polêmica tradução das Mil e uma noites (com notas  de rodapé sobre sexo) outro da Kama Sutra, que escandalizou a sociedade da época. 
Ou seja: é um personagem que por si só vale um filme. Feito por um grande diretor como Rafelson, torna-se obrigatório.
A propósito, sobre aquela discussão, o Bené acabou concordando comigo: É possível sim fazer um grande filme de aventura e aprofundar os personagens.

terça-feira, agosto 25, 2026

O falcão maltês

 


No final da década de 1930, John Huston já era um roteirista de prestígio em Hollywood e resolveu que iria dirigir um filme. O todo poderoso da Warner, Jack Warner, deu carta branca, mas impôs uma condição: teria que ser um filme barato.

Huston escolheu fazer uma adaptação do livro O falcão Maltês, do escritor noir Dashiell Hammet, o que era um mau sinal. A obra já tinha sido adaptada duas vezes para o cinema e nenhuma das duas tinha sido um grande sucesso nem de crítica nem de público.

Além disso, o ator George Raft, escolhido para interpretar o personagem Sam Spade, recusou. Ele alegou que o contrato lhe garantia fazer apenas filmes importantes e, portanto, ele não faria um filme B destinado a ser um fracasso.

O orçamento de 375 mil dólares era tão baixo que Humphrey Bogart, o ator escolhido para substituir George Ralf, teve que comprar os próprios ternos. Huston tinha só seis semanas para terminar as filmagens e o contrato tinha uma cláusula de demissão caso ele extrapolasse o orçamento.

Bogart convence como o detetive cínico e durão. 


Mas há males que vêm para o bem. Bogart deu ao detetive Sam Spade um tom de cinismo único que gerou boa parte do sucesso do filme, alguém capaz de desmascarar uma mentira só com uma risada.

Na história, uma mulher, Brigid O'Shaughnessy, contrata um escritório de detetives para descobrir sua irmã, que estaria desaparecida depois de se envolver com um gangster. Mas, ao investigar o caso, o detetive Miles Archer acaba sendo morto. O mafioso é morto na mesma noite, de modo que a suspeita de seu assassinato recai sobre o sócio de Archer, Sam Spade, que, segundo a polícia, teria cometido um ato de vingança. Spade precisa descobrir o que está acontecendo para provar que é inocente e, ao mesmo tempo, levar para a cadeia o assassino de seu amigo.

Como era comum nas histórias de Dashiell Hammett, a história que começa de uma maneira acaba tomando rumos inesperados. Assim, Spade descobre que tudo gira em torno de uma estatueta, o falcão maltês, que é disputada por várias pessoas.

Lançado em 1941, O falcão maltês é considerado o primeiro do gênero noir e gerou uma infinidade de obras parecidas. A trama de uma pessoa acusada de um assassinato que deve descobrir o que está acontecendo para provar sua inocência foi imitada à exaustão em novelas, filmes  e seriados.

Mary Astor faz o papel de uma mulher mentirosa e manipuladora.


Surpreendentemente, é um filme barato. Os cenários são pouquíssimos, com destaque para a casa e o escritório de Sam Spade. Não há uma única cena de externa. Essa escolha poderia tornar o filme limitado se não fosse a atuação gloriosa do elenco, que mimetiza o público, seja a femme fatale dúbia Mary Astor que parece estar mentido o tempo todo, mas ao mesmo tempo parece uma mulher em perigo que precisa seja protegida seja o gordo mafioso (Sydney Greenstreet) que fala o tempo todo ou o histérico Joel Cairo (Peter Lorre), ajudante do mafioso.

Mas o destaque vai mesmo para o Sam Spade de Humphrey Bogart. Muito longe dos heróis hollywoodianos, ele tem uma ética própria, mas é capaz de mentir, fingir se aliar a bandidos e ao mesmo tempo ser implacável em sua busca de vingança. Como um adicional, temos o fato de que ele de fato consegue nos convencer quando, por exemplo, puxa o sobretudo de um bandido para se apoderar das duas armas dele. Sam Spade de bogart  era um cara durão e cínico.

As estatuetas usadas no filme são disputadas por colecionadores.


O grande segredo dessa versão cinematográfica da história não são arroubos estilísticos. O segredo do diretor John Huston é simplesmente sua fidelidade à bora original e sua direção focada em privilegiar a atuação dos atores.

O resultado foi um sucesso absoluto, arrecadando 1,8 milhão de dólares.

Uma curiosidade é que foram gastos menos de 700 dólares para fazer as estatuetas usadas no filme (duas de chumbo e seis de gesso). Hoje em dia, cada uma delas vale três vezes o valor do orçamento do filme.

segunda-feira, agosto 24, 2026

Metrópolis: um marco do cinema

 


Metrópolis é um dos filmes mais importantes da história. Dirigido por Fritz Lang e lançado em 1927, a película veio no rastro do expressionismo alemão (Lang havia sido co-roteirista de O gabinete do Doutor Caligari, filme fundador do expressionismo no cinema), o que se reflete principalmente pelos cenários grandiosos e pela interpretação marcante. 
A história deve muito ao clássico A máquina do tempo, de H.G. Wells: no ano de 2016, ricos vivem na superfície e têm sua vida paradisíaca sustentada pelos pobres trabalhadores, que vivem no subsolo operando máquinas monstruosas.
A história foca em um casal: Freder, filho do magnata dono da cidade, e Maria, uma benfeitora dos pobres, que acredita na paz entre as duas classes. Os dois se conhecem quando Maria leva crianças pobres para a superfície e é imediatamente enxotada. O rapaz, fascinado, desce, procurando por ela e vê uma máquina explodindo e matando vários operários.
A situação se complica quando um inventor enlouquecido cria um robô com as feições de Maria capaz de enfeitiçar a todos com sua beleza. Seu objetivo é provocar uma revolta dos operários que resultaria na destruição da cidade.
Metrópolis criou a base do que viria a ser a ficção científica cinematográfica (a exemplo de Star Wars e Wall-E), desde a ação initerrupta aos cenários deslumbrantes e visual dos robôs.
O impacto sobre os quadrinhos não é menos relevante. Basta lembrar da cidade do Super-homem, Metrópolis, uma referência óbvia ao clássico de Fritz Lang.

domingo, agosto 23, 2026

A noite dos desesperados

 


Baseado no livro de Horace McCoy, a noite dos desesperados focaliza sua narrativa em um dos fenômenos mais bizarros da grande depressão: as maratonas de danças em que pessoas passavam dias e até meses dançando em troca de comida e de um prêmio que podia variar de mil a mil e quinhentos dólares. 

O filme é dirigido por Sidney Pollock e foi lançado em 1969 dentro do contexto da chamada Nova Hollywood, em que diretores jovens e idealistas revolucionaram o cinema norte americano, muitas vezes salvando estúdios da falência. 

Uma maratona de pessoas desesperadas é um tema perfeito para Pollock, pois lhe permite abordar diversos assuntos caros à Nova Hollywood, como a verdadeira face dos EUA, a sociedade do espetáculo e a forma como as pessoas se divertem com o sofrimento dos outros para esquecer seus próprios sofrimentos. 

O filme acompanha o casal Glória e Robert, ela uma atriz fracassada, ele uma pessoa que acaba entrando na maratona quase sem querer. 

Pollock faz diversas modificações na história do livro, principalmente retirando as partes mais violentas, provavelmente para adequar o filme à censura da época. Mas em compensação, aprofunda mais os personagens, inclusive os secundários e seus dramas. Mesmo para quem leu o livro, é só no filme que podemos sentir o sofrimento dos personagens após centenas de horas dançando e praticamente sem dormir. 

No livro os participantes têm 10 minutos de intervalo para tudo, inclusive comer e usar o banheiro. No filme as refeições são feitas em pleno palco, com eles dançando,uma ideia acertada, que característiza ainda mais a degradação dos personagens e o fato de que tudo relacionado a eles se tornar um espetáculo.

Mas o grande acerto de Pollock é durante os Derby, momento em que os dançarinos devem correr ao redor do palco e os últimos são eliminados. O diretor foca a câmera nos atores, de modo que não vemos mais nada. É como se estivesse ali no meio deles, sentindo todo o sofrimento e desespero. 

Destaque para as atuações de Jane Fonda e em especial Susannah York, cuja personagem mal aparece no livro, mas ganha muita profundidade no filme, como uma mocinha bonita que deseja ser estrela de cinema vai enlouquecendo ao longo da maratona.

Em uma época de reality shows, A noite dos desesperados parece cada vez mais atual.

sábado, agosto 22, 2026

Era uma vez em Hollywood

 

Quentin Tarantino é um sacana. Exemplo disso, é  “Era uma vez em Hollywood”, um filme feito como uma forma de vingança cinematográfica contra Charles Mason e sua gangue, que, em 1969, assassinaram a atriz Sharon Tate, grávida de oito meses, esposa do diretor Roman Polanski.
O filme é centrado no vizinho de Tate, um ator decadente de seriado de faroeste, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt). Dalton vê o cinema convencional ser eclipsado pelo cinema de contracultura, representado por diretores como Polanski, e a produção de wertern se deslocar dos EUA para a Itália. E, em meio a isso, as tensas cenas com a gangue de Mason, como a visita de Booth ao rancho Spahn, uma fazenda que tinha sido cenário de filmes de faroeste e que na época era dominada pela gangue.
O filme é assim, uma descrição do cenário cinematográfico do final da década de 1960, uma vigança pessoal do diretor, uma homenagem à atriz Sharon Tate. E é óbvio que Tarantino faz de tudo isso uma grande diversão e prazer, a começar pelas várias sequências centradas nos pés das atrizes.
Além disso, o diretor aproveita os flash backs de Dalton e Booth para fazer paródias de filmes e até de comerciais (não percam a cena pós-crédito, com os bastidores da filmagem de uma propaganda de cigarro).
A cena da filmagem do piloto de um faroeste no qual DiCaprio faz o papel de vilão é um dos grandes momentos do filme e uma grande demonstração de como Tarantino consegue tirar o melhor dos atores. Destaque para a atriz mirim Julia Butters, em uma química perfeita com DiCaprio.  
Como é comum em outras obras de Tarantino, Era uma vez em Hollywood é repleto de citações a filmes e seriados reais, a começar pelo próprio título, que faz referência direta à mais famosa película de Sérgio Leoni, Era uma vez no oeste.
A estrutura de flash backs, que tomam metade do tempo do filme, torna o roteiro meio desconjuntado. Mas se você se propor a se divertir tanto quanto o diretor, dificilmente isso será um incômodo.

sexta-feira, agosto 21, 2026

Fuja

 


A primeira cena do filme Fuja, de Aneesh Chaganty (disponibilizado pela Netflix), é emblemática. Em uma reunião de pais que educam seus fihos em casa, uma mulher choraminga sobre o filho que irá para a faculdade e talvez não se lembre de escovar os dentes. A apreensão é compartilhada por outros país presente, algo simbolizado pela caixa de lenços de papeis que circula de mesa em mesa até chegar em  Diane Sherman, que num gesto extremamente simbólico, recusa o lenço: “Minha filha enfrentou mais desafios psicológicos e físicos do que a maioria das pessoas em sua vida. Cloe é a pessoa mais capaz que conheço. Se tem alguém que não me preocupa é ela”.

A trama acompanha sua filha, Cloe, que nasceu prematura e, em consequência disso, desenvolveu diversos problemas de saúde. Ela não consegue andar e só se locomove numa cadeira de rodas. Além disso, tem asma, diabetes, arritimia e diversas outras doenças. Assim, ela vive totalmente dependente de sua mãe amorosa, que parece dedicar a vida a cuidar dela.

Mas uma descoberta feita por Cloe coloca sua vida em risco e para sobreviver ela precisará usar toda a sua inventividade e força de vontade.   

A película é um dos melhores exemplos de cinema de suspense dos últimos tempo e consegue isso focando principalmente na atuação impressionante de Kiera Allen, que é cadeirante na vida real.

As situações pela qual a garota passa são agoniantes tanto pela própria dificuldade de locomoção quanto pela expectativa de que o inimigo poderá chegar a qualquer momento. Não por acaso, Chaganty privilegia os closes, tirando o máximo da atuação da menina. A cena em que ela, presa em seu próprio quarto, se arrasta pelo telhado para chegar a outro cômodo é o ponto alto do filme tanto pelo suspense quanto pela inventividade e força de vontade apresentados pla personagem.

Além disso, roteiro e direção são afinados a ponto de serem necessários diálogos expositivos: a maioria das grandes revelações do filme são feitas exclusivamente através do que Cloe vê.

Fuja é um daqueles filmes em que o suspense vai num crescendo até atingir o seu ápice e tem um dos melhores finais que já vi nesse tipo de obra. Um final que, da mesma forma que todo o filme, surpreende por não ser o que parece.

quinta-feira, agosto 20, 2026

O dia em que a terra parou

 

A origem do filme O dia em que a terra parou é o conto “Adeus ao mestre, de Harry Bates, publicado em 1940. No conto, um embaixador extraterrestre é morto e um momento é erigido em sua homenagem ao redor da nave, que não pode ser aberta e, na frente dela, o robô, que não se mexe, e, aparentemente, está inativo. Mas um fotógrafo desconfia que algo está acontecendo e resolve passar a noite próximo ao robô (e acaba se surpreendendo com o que acontece).
Robert Wise pegou essa premissa e transformou num dos filmes mais importantes da ficção científica de todos os tempos. Ao contrário do conto (em que a história do embaixador Klaatu é narrada em flash back), o diretor preferiu trabalhar com uma narrativa linear, o que não tirou da história seu impacto revolucionário, mas de certa forma, ampliou-a.
Muito mais do que um filme de ação, O dia em que a terra parou é um filme filosófico, que reflete sobre a humanidade e a bondade.
Na história, o embaixador traz uma mensagem de paz, mas um aviso: se continuarem se tornando uma ameaça aos outros planetas, a Terra deverá ser exterminada. Mas a chegada da nave é vista pelo governo americano como uma ameaça. Klaatu é alvejado e foge, indo parar em uma pensão, onde conhece uma viúva e seu filho, que o ajudam a encontrar um grande cientista, que poderia ajuda-lo em sua missão de convencer os governos terrestres a cessarem a corrida armamentística.
O filme, lançado em 1951, estreou em plena Guerra Fria, período em que Rússia e EUA disputavam o controle mundial num frágil equilíbrio, que colocou a humanidade diversas vezes próxima do armagedrom (chegou a existir até mesmo um relógio do fim do mundo, criado por cientistas, que mostrava o quanto estávamos próximos do fim – representado pela meia-noite). Tornou-se um símbolo do apelo pela paz e um dos mais pungentes apelos contra a insensatez humana.

quarta-feira, agosto 19, 2026

Elizabeth - a era de ouro

 


Elizabeth, a era de ouro, filme recentemente lançado pela Netflix, é um caso curioso de releitura. Em 1998, o cineasta paquistanês Shekhar Kapur realizou um premiado filme sobre a rainha Elizabeth com Cate Blanchett no papel principal. Em 2007 ele fez outro filme sobre o mesmo assunto, tendo de novo Cate Blanchett como rainha da Inglaterra mais velha.
Essa nova película é centrada no momento mais importante do reinado da rainha virgem, quando se descobre uma trama para matá-la ordenada por Mary Stuart, rainha da Escócia e católica fervorosa. Isso leva à execução de Mary. Como consequência, a Espanha declara guerra à Inglaterra e envia a maior armada já construída até então, com centenas de navios.
Esse é um momento-chave na história mundial, um daqueles efeitos borboletas que mudam completamente a relação de forças. Até então, a espanha era a mais rica e poderosa nação do mundo, após o confronto, a Inglaterra começa a galgar os passos que a levarão a construir um dos maiores impérios de todos os tempos – tão vasto que se dizia que no império britânico o sol nunca se punha.
Tudo isso, o atentado contra Elizabeth, a morte de Maria Stuart, a guerra com a Espanha é contado no filme de Shekhar Kapur, mas o foco maior acaba sendo a sua relação com o pirata Walter Raleigh. Esse talvez seja o maior defeito do filme, pois, para aprofundar essa relação ficcional, tira o foco dos fatos históricos reais.
Ainda assim, é um filme belíssimo, que se destaca pelo figurino, pela fotografia, pelos cenários grandiosos e pela atuação marcante de Cate Blanchett. Uma boa dica para quem gosta de história.

terça-feira, agosto 18, 2026

Águia solitária, de Billy Wilder

 


Charles Lindberg foi um herói dos tempos modernos. Ao fazer o primeiro vôo sem escalas entre Nova York e Paris, ele ultrapassou os limites da natureza usando para isso sua força de vontade, inteligência, a ciência e a tecnologia.
É a história desse herói modern que Billy Wilder conta em Águia Solitária, filme de 1957. 
Sabendo que um homem dentro de um avião não sustentaria um longa metragem, Wilder, inteligentemente, dividiu o filme em dois momentos. No primeiro, o aviador está no quarto do hotel, antes da decolagem. Incapaz de dormir, ele relembra os fatos que o levaram até ali, sua experiência como aviador dos correios, sua busca por patrocinadores, a construção do avião, as decisões e indecisões.
No segundo momento, já dentro do aeroplano, Lindberg lida com as adversidades, como o sono, a neve que insiste em se acumular nas asas, as nuvens, entre outros, enquanto relembra passagens de sua vida que ajudarão a compor o personagens.
Wilder joga tanto com o humor - como a passagem de Lindberg comprando um avião sem saber pilotá-lo, como com o suspense, como nos momentos mais tensos da travessia. A decisão de usar flash backs, além de tirar o foco apenas do avião, deu dinamismo à narrativa.
Outro destaque é a genialidade de Wilder de contar a história através de metáforas visuais, como o mapa na lanchonete que o aviador usa para demonstrar seu vôo colocando uma torre Eifel no outro extremo. Esse mapa aparece em dois outros momentos da trama. Quando tudo parece estar dando errado, a torre cai do alfinete e Lindeberg a endireita, numa demonstração visual de sua força de vontade.

segunda-feira, agosto 17, 2026

A catedral do mar

 


A Igreja de Santa Maria do Mar é uma das principais construções góticas de Barcelona. Iniciada em 1329, ela se destaca por ter sido construída não pela igreja católica, ou pelos nobres, mas pelo próprio povo. Quem não podia contribuir com dinheiro, contribuía com trabalho, como os carregadores, que levavam pedras para a igreja. Essa igreja é o cenário da série espanhola A catedral do mar, lançada aqui pela Netflix.
A história começa com um agricultor que se casa com uma linda camponesa. Quando a festa de casamento parece o auge da felicidade, o senhor feudal aparece e exige o direito de tirar a virgindade de noiva. As núpcias do casal acontecem assim: com a noiva machucada e o o noivo obrigado a isso para diversão do nobre.
Esse início dá o tom da série: é uma trama cujos dramas se sucedem quase initerruptamente. Nesse sentido é um verdadeiro dramalhão mexicano, mas se diferencia desses pelo conteúdo histórico. Ao expor as relações de poder na Idade Média, a série mostra o quanto os pobres e em especial as mulheres pobres eram estigmatizados e abusados pelas classes nobres e até mesmo pela igreja: uma simples acusação de bruxaria poderia levar uma mulher à fogueira da inquisição.
O protagonista da série é o filho desse casal, Arnau, um sobrevivente. Quando finalmente nasce, sua mãe é requisitada para ama de leite do filho do senhor e, sem leite, ele está para morrer de fome. O pai invade o palácio e foge com o filho para Barcelona, um burgo, um local em que servos ganhavam a liberdade após um ano. Mas lá em Barcelona ele se depara com infinitos outros problemas, de relações de trabalho desiguais à fome.
Seu filho acaba conhecendo um garoto, João, cuja mãe foi aprisionada pelo marido. Nessa época, ao desconfiar que a esposa lhe era infiel, o marido tinha o direito de prendê-la num cômodo sem saída, apenas com uma janela para se jogar água e comida.
Os dois, Arnau e João, se tonarão como irmãos e passarão por todas as dificuldades da vida na Idade Média: as guerras, a fome, a peste, que dizimava famílias inteiras. E, durante todo esse tempo, Nossa Senhora do Mar será como uma mãe para eles, consolando-os nos momentos de aflição e ajudando-os a superar os desafios. É curioso que, numa época em que as mulheres eram estigmatizadas como seres demoníacos, tenha se estabelecido um culto tão popular a uma mulher.
Descontando o melodrama excessivo, a catedral do mar é uma boa série para quem gosta de história e uma trama que prende por seu desenvolvimento e seus personagens carismáticos.

domingo, agosto 16, 2026

O tempo e o vento

 


A trilogia O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, é uma das obras mais importantes da literatura brasileira, em especial o primeiro livro, O continente, que narra a formação do estado do Rio Grande do Sul através das famílias Terra-Cambará. A obra é tão impactante que ganhou diversas adaptações audiovisuais, a mais recente delas dirigida por Jayme Monjardim e lançada no ano de 2013.

Monjardim e a roteirista    Letícia Wierzchowski enfrentaram um grande dilema: como condensar quase 500 páginas de um livro, passando por várias gerações de uma família, de forma coerente, no tempo de um longa metragem?

A estratégia escolhida  foi interessante por destacar uma personagem de pouco relevo em outras adaptações e até mesmo no livro Veríssimo.

A história começa durante o cerco ao casarão, no período da Revolução Federalista. Os Terra-Cambará estão entrincheirados lá dentro, passando por sede e fome, mas não desistem. Do lado de fora, a família inimiga, os Amaral, tenta a todo custo tomar o local. Esse início, aliás, é muito parecido com o da obra literária. As mudanças começam quando vemos o Capitão Rodrigo Cambará entrando na cidade. Ele passa pelos Amaral e pelos sitiados e adentra o quarto onde repousa a velha vovó Bibiana. Só então percebemos que ele é um fantasma, ou talvez uma lembrança dela. Ao conversar com seu amado, ela rememora toda a história de sua família, desde o mestiço Pedro Missioneiro, o ataque às missões com o massacre dos indígenas, sua fuga, a chegada, quase morto, à fazenda dos Terra e o romance com Ana Terra.

Essa abordagem surpreende e agrada por uma série de razões. Primeiro, por mostrar os acontecimentos sob o olhar de uma mulher. Segundo porque permite narrar fatos de uma forma contextualizada. Aliás, o filme vai além do primeiro livro, mostrando o fim da saga do casarão. Vale destacar o final, com forte teor simbólico e emotivo, que não consta no livro, mas bem poderia ser escrito por Érico Veríssimo.

Um aspecto do filme que vale o registro é a escolha de atores.

Thiago Lacerda orna perfeitamente com o Capitão Rodrigo, da mesma forma que Tarcísio Meira havia feito na minissérie da Globo. Mas um acerto digno de destaque diz respeito à escolha das atrizes. Cléo Pires revive o papel de Ana Terra, que havia sido interpretado por sua mãe, Glória Pires, na minissérie. Marjorie Estiano surpreende como Bibiana e sua aperência física combina perfeitamente com Fernanda Montenegro, que faz Bibiana idosa.

Vale também destacar a direção inspirada de Jayme Monjardim, com suas belíssimas imagens que contribuem para tornar esse filme tão épico quanto o livro.  

sábado, agosto 15, 2026

Jornada nas estrelas - Um pedaço de ação

 


Na década de 60 era muito comum nos seriados de ficção científica episódio que se passavam no passado. Isso geralmente era uma forma de reaproveitar cenários de outras produções.

O episódio um pedaço de ação faz isso, mas com resultados muito mais interessantes.

Na história uma nave espacial num período anterior à primeira diretriz visita um planeta e deixa vários objetos no local. Depois desaparece. Anos depois a Enterprise capta o relatório enviado ao espaço pela nave desaparecida e resolve conferir uma possível contaminação.

Quando descem descobrem que um dos objetos deixados foi um livro sobre gangsters dos anos 20 e que toda a sociedade de moldou a partir das informações ali contidas.

O resultado apresenta uma divertida crítica social exemplificada pela cena em que Kirk, Mcoy e Spock descem no planeta e se vêem numa rua em que todos que passam estão armados: homens com metralhadoras, mulheres com pistolas e crianças com facas. O resultado é ridículo, sinal da verve pacifista dos roteiristas.

Esse episódio é um daqueles em que William shatner rouba a cena, em especial quando decide incorporar o chefão mafioso.

É também curioso como roteiro e direção fazem uma bela homenagem aos filmes de gangsters.

O resultado é tão divertido que até relevamos as lutas mal coreografadas.

sexta-feira, agosto 14, 2026

Cidade de gelo

 


Talvez o que seja mais surpreendente em cidade de gelo, filme de  Michael Lockshin disponibilizado no Brasil pela Netflix seja descobrir que se trata de um filme russo.

Lockshin narra uma história romântica no estilo A dama e o vagabundo no melhor estilo hollywoodiano, inclusive em termos de produção (que é verdadeiramente grandiosa). Mas, no meio do conto de fadas, introduz pontadas de crítica social difíceis de serem imaginadas numa produção norte-americana.

A trama gira em torno de Matvey, um pobre patinador que é demitido de seu trabalho como entregador de tortas ao se atrasar numa entrega em decorrência da passagem da carruagem de uma dama da nobreza. Nesse meio tempo ele conhece Alex, o líder dos batedores de carteira do comércio local e passa a integrar sua gangue. Alex tem um forte discurso marxista: segundo ele, suas ricas vítimas são na verdade nobres e burgueses, pessoas que passam a vida explorando outras – e portanto, a riqueza que possuem não são de fato delas.

A trama se torna romântica quando Matvey conhece Alice, a dama nobre cuja passagem lhe custou o emprego... e os dois se apaixonam. Mas Alice está prometida por um nobre que ocupa cargo de chefia na polícia. Além disso, a moça quer seguir a carreira científica, algo totalmente reprovado por seu pai.

Segue-se uma agitada trama em que os dois tentam ficar juntos mesmo tendo contra si todas as regras da sociedade. Lembra a dama e o vagabundo, mas, pelo ritmo narrativo intenso, lembra Metrópolis, de Fritz Lang.

Cidade do gelo é um filme romântico, um conto de fadas, que funciona perfeitamente como tal. Mas entrega muito mais do que isso. A sequência incial, com o pobre Matvey patinando pela cidade e tentando entregar sua encomenda antes que a torta esfrie reflete diretamente a precarização do trabalho provocada por aplicativos de entregas (não por acaso, sua mochila é muito parecida com a usada por aplicativos). Em outra cena, Alice diz que sua família construiu um palácio, o rapaz pergunta quantos servos eles tinham, ao que ela responde, constrangida: milhares.

quinta-feira, agosto 13, 2026

Jornada nas estrelas - Síndrome de imunidade

 


A premissa de jornada permitia a criação de histórias realmente criativas. Uma delas é síndrome de imunidade, episódio da segunda temporada.

Na história, a Enterprise é chamada para verificar a situação de uma nave vulcana desaparecida.

Quando chegam ao local, descobrem que não só a nave foi destruída, mas todo um sistema solar.

O responsável parece ser uma criatura imensa, que começa a puxar a Enterprise rumo à destruição.

Sondas enviadas revelam uma verdade assustadora sobre a criatura: trata se de um ser unicelular que se alimenta da energia de outros seres. Em outras palavras: é um vírus infectando o universo e pronto para se replicar.

O ponto alto do episódio é a disputa entre Spock e McCoy pelo direito de pilotar a nave auxiliar em uma missão suicida para descobrir um ponto fraco na criatura, uma situação que acrescenta uma boa dose de suspense ao episódio.

Entretanto, embora a premissa fosse genial, a solução não está à altura. A forma como eliminam a criatura é mal explicada ou simplesmente não faz sentido dentro do conceito.