terça-feira, abril 30, 2024

Umpa-Pá – um ensaio para Asterix

 


Poucos sabem, mas Asterix não foi o primeiro trabalho da dupla Goscinny-Uderzo. Antes do baixinho gaulês os dois criaram dois outros personagens: João Pistolão e Umpa-pá. Esse último foi publicado no Brasil pela editora Record em 1987.
O mais interessante desse álbum é ver a dupla testando muitos dos elementos que seriam marcas do estilo Asterix.
A história gira em torno de Umpa-pá, um atlético índio norte-americano à época da chegada dos ingleses. A sequência inicial, como o navio se aproximando da costa e os marujos morrendo de medo dos índios (que esperam os escalpos chegarem) lembra muito as sequências dos soldados romanos apavorados sendo obrigados a enfrentar os corajosos gauleses.
Da mesma forma como faria em Asterix, Goscinny brinca com os trocadilhos: o nome da tribo é Cumekivai, um personagem se chama Mil Folhas. O inglês que acaba se tornando amigo de Umpa-pá vira Escalpo duplo por causa da peruca.
Já Uderzo se delicia com o humor visual e de repetição: as bordoadas na cabeça em que Escalpo Duplo quando este fala algo que não deveria; a cena da caçada, como o inglês correndo de um bisão e gritando: olha a carne aqui!
Enfim, era um divertido ensaio para criar um dos melhores quadrinhos de todos os tempos.

Perry Rhodan – Duelo de mutantes

 


Clark Darlton era conhecido entre os autores da série Perry Rhodan por humanizar seus relatos. E é exatamente isso que ele faz no número 26 da série.

Na trama, Perry Rhodan encontra um adversário à altura: um super-mutante apelidado de supercrânio, que usando suas capacidades hipnóticas, formara seu próprio exército de mutantes e, com eles, pretendia conquistar o poder mundial através de assassinatos, greves, guerras e atentados. O volume trata do ponto em que dois exércitos de mutantes entram em rota de colisão.

A história inicia no espaço, com um dos destróiers roubados pelo Supercrânio atacando uma nave-escola da terceira potência. O texto de Darlton foca em um dos recrutas: “Julian Tifflor, que seus amigos e colegas chamavam apenas de Tiff, enganava os que o cervavam. Atrás daqueles olhos sonhadores escondia-se a energia de uma pequena bomba atômica. Apesar de seus vinte anos, Tiff era um gênio matemático e um exemplar de coragem e resolução”.

Mais à frente, quando o Supercrânio usa uma unidade do exército da terceira potência para atacar a própria terceira potência, a narrativa é toda focada em um dos soldados, o sargento Harras, que vai do cansaço e do desejo era tirar o uniforme suado e dar um salto na piscina à necessidade irracional de guerrear.

O volume é um pouco decepcionante para quem se deixa levar pelo título. Não há de fato um duelo entre mutantes uma vez que assim que os mutantes do exército do supercrânio são tirados de sua influência hipnótica, eles aderem à terceira potência. Além disso, o mais poderoso dos mutantes, Gucky, acaba não participando do duelo, embora tenha uma atuação importante em outro momento da trama.

Ao contrário da capa americana, a capa alemã mostra uma cena que existe no livro. 


No volume há algumas frase que parecem estranhas. Quando é tirado da influência do Supercranio, é dito que um dos mutantes mudou de dono. Sobre outro é dito que mudou de mestre, o que vai na contramão da ideia de que Rhodan representa uma visão não-autoritária.

Ainda assim, com todos os volumes escritos por Darlton, esse é uma leitura deliciosa.

Em tempo: a capa da Ediouro, baseada na edição americanda, não tem mínima relação com a trama. Aparentemente o desenhista Gray Morrow sequer lia o volume, ou recebia um resumo. Assim, seguia o padrão de desenhar uma imagem de um homem com “roupa futurista” e uma mulher loura em apuros.

Cavaleiro da Lua – meia-noite significa morte

 


Pouco tempo depois de sua estréia o título do Cavaleiro da Lua chamou atenção. Com bons roteiros de Doug Moench e ótima arte de Bill Sienkiewcz, o título tinha tudo para conquistar os fãs. Mas faltava um vilão à altura do protagonista. Os vilões das histórias anteriores haviam morrido e, aparentemente não revelavam mais perigo.

Na RGE o personagem era chamado de Cavaleiro de Prata


Esse vilão vai surgir no terceiro volume intitulado “Meia-noite significa morte”. Essa oposição já aparecia na página de abertura, muito criativa, aliás, reproduzindo uma capa do Clarin Diário. Na metade esquerda, uma matéria sobre como o Cavaleiro da Lua vinha se destacando na luta contra o crime e, do outro lado o surgimento de um ladrão especialista em artes. A matéria previa que em algum momento eles iriam se encontrar.

Sienkiewcz mostra influência de Neal Adams.


O vilão é tão audacioso que chega a roubar um colar de diamantes de uma cantora de opera em plena apresentação... e desafia o Cavaleiro da Lua a pará-lo. Enquanto isso, um colecionador de arte contrata o mercenário Marc Spector para proteger suas obras, o que leva ao encontro dos dois personagens num final surpreendente (quer dizer, deve ter sido para os leitores, eu saquei logo, mas isso tem a ver com o fato de que eu penso como roteirista). Destaque para a luta final na qual Bill Sienkiewcz mostra o quanto aprendeu com Neal Adams com diagramações inovadoras e principalmente as poses dos personagens, sempre com um elemento em primeiro plano.

No Brasil essa história saiu em Almanaque Premiere (RGE) e coleção Paladinos Marvel (Panini).

Artigo de Gian Danton analisa os quadrinhos poéticos de Nelson Padrella

 

 A Imaginário! é uma revista eletrônica do Grupo de Pesquisa em Humor, Quadrinhos e Games - GP-HQG, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba, que tem como propósito a divulgação dos estudos voltados à Cultura Pop e às Artes Visuais, como História em Quadrinhos, grafite, humor, animação, fanzine e game.

O número 5 acabou de sair com uma ótima seleção de textos, incluindo uma homenagem ao pesquisador Elydio dos Santos Neto, falecido recentemente. 
A revista traz também um artigo meu sobre o roteirista Nelson Padrella, roteirista da editora Grafipar que escrevia histórias em quadrinhos eróticas-poéticas e antecipou no Brasil, o gênero quadrinhos poéticos. 
Para saber mais, clique aquihttps://www.marcadefantasia.com/revistas/imaginario/imaginario01-10/imaginario05/imaginario-5.pdf 
PlayGay, história com texto de Padrella que explora a poética nos quadrinhos.

Os quadrinhos e o castelo do Graal

   No livro HE, o psicólogo norte-americano Robert Johson explica a psicologia masculina através do mito da busca do Santo Graal. O personagem principal é o jovem Percival, um cavaleiro da Távola redonda.


Certo dia, durante suas andanças, ele entrou em um castelo belíssimo e imponente. Era ali que estava o Santo Graal, o cálice usado por Jesus durante a última ceia.
Todos o recepcionaram muito bem e ele se sentiu feliz e maravilhado com os poderes do Graal. O cálice podia, por exemplo, fazer surgir a comida que o convidado desejasse. E podia também curar qualquer ferida.

Na manhã seguinte, quando acordou, ele não encontrou mais ninguém no castelo. Estava completamente abandonado, e ele teve de ir embora.
Percival passaria o resto de sua vida tentando encontrar novamente o castelo do Graal.
Para Robert Johnson, o episódio é uma metáfora de algo que ocorre com todos os jovens durante a fase da pré-adolescência.
Essa é uma fase particularmente difícil, pois o menino não é mais uma criança, mas ainda não é adulto.
Todos os meninos entram no castelo do Graal ao menos uma vez na vida e essa experiência irá marcá-los pelo resto da vida. Assim como Percival, eles passarão o resto da existência tentando voltar para o castelo.
O que tudo isso tem a ver com quadrinhos?
Pare para pensar. Se tem mais de vinte anos e continua gostando de quadrinhos é porque há uma boa lembrança associada a eles.
Em outras palavras: muitas pessoas - e eu entre elas - entraram no castelo do Graal graças aos quadrinhos.
Tenho conversado leitores de gibis e todos eles têm algum episódio semelhante ao de Percival.
José Aguiar, desenhista da Manticore, saía de casa todos os dias de manhãzinha com sua bicicleta e ia direto para um sebo próximo de sua casa, onde ele comprava ou trocava gibis.
Essa experiência o marcou profundamente e eu não tenho dúvida nenhuma de que esse foi um dos fatores que o influenciaram a se tornar desenhista.

Lembro que quando estávamos na sétima série a revista preferida de todos era a Superaventuras Marvel. Nós sabíamos a data em que ela chegava nas bancas e saíamos correndo para ver quem chegava primeiro.
Como tinha pouco dinheiro para comprar gibis, eu usava de um estratagema. Eu conhecia um sebo que ficava próximo da Igreja e que vendia revistas a preço de banana. Eu passava lá todo Domingo e comprava as Heróis da TV, que uma amigo da escola colecionava. Depois eu vendia para ele, pelo dobro do preço, mas antes eu lia e relia a revista e esses momentos eram tão sagrados que me faziam esquecer a chateação que era ser obrigado a ir à igreja.
Aquela experiência - comprar a revista e nem esperar chegar em casa para começar a lê-la - era uma verdadeira entrada no castelo do Graal.
Só com a saga da Fênix foram centenas de entradas no castelo do Graal, até porque os X-Men, assim como a busca do Cálice Sagrado, são um mito sobre o fim da infância (prometo falar sobre isso em outro artigo).
Cada vez que eu leio uma HQ é como se eu estivesse voltando àquela época mágica da pré-adolescência.
E quando escrevo histórias, fico imaginando que talvez eu esteja proporcionando a outros garotos as mesmas sensações que eu sentia lendo quadrinhos.
É interessante notar que o tipo de quadrinho que você lê na pré-adolescência vai influenciar seu gosto pelo resto da vida.
O desenhista Antonio Eder odeia super-heróis. Também, pudera: ele passou toda a pré-adolescência lendo revistas Kripta e nesse período nunca botou os olhos num gibi de super-heróis.
O desenhista Bené Nascimento (Joe Bennet) passou essa fase lendo HQs do Jack Kirby. Hoje ele compra qualquer coisa sobre o velho Jack, até caríssimos fanzines importados.
Pare um instante e pense. Se você gosta de quadrinhos, é bastante provável que você tenha, em algum momento, entrado num castelo do Graal feito todinho de histórias em quadrinhos.

Vingadores ultimato

 


Antes de mais nada, um aviso: se você acha que contar qualquer coisa sobre o filme é spoiller, não leia este texto.

Vingadores ultimato é não só o ponto final da mega-saga marvelística no cinema (com um roteiro que costura todos os filmes anteriores em uma única trama). É também uma obra que ecoa algumas das melhores histórias em quadrinhos Marvel das décadas de 1970 e 80.
A trama inicia pouco depois os eventos do filme anterior. Metade da população do universo foi aniquilada pelo estalar de dedos de Thanos. Para trazê-los de volta, os Vingadores sobreviventes precisam voltar ao passado e reunir as jóias do infinito.
Esse plot permite que todos os heróis remanescentes tenham seu protagonismo em tramas com início, meio e fim, como se fossem gibis de heróis reunidos, contando uma história maior (o que, aliás, justifica e bem as três horas de filme).
Essa estratégia em que todos têm protagonismo vai se repetir até mesmo na batalha final. Sabemos exatamente o que cada herói faz ali. Ninguém está sobrando ou sendo apenas um enfeite: cada um, até mesmo os menos poderosos, têm seus momentos de brilho, ação e emoção. Jim Starlin era um cara que conseguia fazer isso bem nos quadrinhos: mesmo em uma mega saga cada herói tinha seu momento. Os irmãos Russo parecem ter aprendido bem com o mestre.
E, claro, muita gente tem saído chorando das salas de cinema. Há vários momentos emocionantes, em especial em relação a dois dos principais heróis (e, ao que parece, dos mais populares).

ENCANTARIAS: a lenda da noite

 


                               O álbum Encantarias, a lenda da noite é um trabalho conjunto dos integrantes do estúdio Casa Velha, de Belém, entre eles Volney Nazareno (criação e roteiro), Julião Cristo (argumento), Fernando Carvalho (arte-final e pintura), Aline Oliveira (letras) e Otoniel Oliveira (roteiro, desenho e pintura) lançado de forma independente em 2006.

                               A história em quadrinhos conta a origem da noite, segundo a tradição indígena. Com uma premissa dessas, o caminho mais fácil seria fazer uma narrativa tradicional, mas o grupo mistura a tradição com o novo, ao apresentar inovações narrativas.

                               O roteiro é melhor que o de Belém Imaginária, o outro trabalho do grupo, talvez por não ter a obrigação de ser um quadrinho infantil. Isso deixou os artistas mais soltos para experimentar.



                               O desenho se mostra pródigo ao retratar mulheres voluptuosas (um aspecto facilitado pelo fato de serem retratadas índias...), mas também demonstra um grande domínio da narrativa em quadrinhos. Em uma seqüência, por exemplo, os personagens estão subindo um morro. A leitura é feita de baixo para cima e quando os olhos sobem, nós os encontramos lá em cima.

                               Outra seqüência impressionante é quando a cobra Honorato enfrenta sua irmã Caninana. Para quem está lendo, é como se tivesse de repente deparado com duas serpentes imensas. Para isso, os autores exploram os ângulos, mostrando Caninana sempre de baixo para cima, deixando o leitor em posição inferior. A única imagem aérea só é mostrada quando o leitor se acostuma com o tamanho enorme da cobra Canina e então aparece seu irmão Honorato, muito maior.  

                               A história é uma espécie de Senhor dos Anéis tucuju: três guerreiros estão a serviço de tupã e precisam encontrar um alguidar que encerra a noite. Para cumprir sua missão, o trio enfrenta os mais terríveis perigos e encontra com os mais variados elementais amazônicos, da Iara ao Curupira.

                               Uma leitura reconfortante que mostra que não só temos uma cultura rica, como ela pode ser bem aproveitada nos quadrinhos.

                               A história tem um único senão: há um número talvez excessivo de balões-legenda, todos com texto em cor vermelha o que, se por um lado ajuda no visual, atrapalha na leitura.

segunda-feira, abril 29, 2024

The Witcher

 


The Witcher é a adaptação da Netflix da série de livros de fantasia do polonês Andrzej Sapkowski. O personagem foi criado no início da década de 1980 para um concurso de uma revista de fantasia. O conto ficou em terceiro lugar, mas o autor gostou do resultado e foi ampliando o universo do personagem com outros textos. Na década de 1990 o herói estreiou cinco romances. Depois foi adaptado para os games, que o tornaram realmente famoso fora da Polônia.
A série da Netflix se debruça sobre os contos e romances e a plataforma já anunciou a segunda temporada.
A trama se passa num mundo fantástico dominado por magia e povoado de seres fantásticos, como elfos, dragões e similares. Nesse mundo, feiticeiras são treinadas para se tornarem conselheiras de reis e meninos são treinados para se tornarem bruxos. Há um problema aqui. A palavra escolhida pelo tradutor pode dar a entender que se trata de alguém que lida com magia, o que não é verdade. Embora possam fazer alguns atos mágicos, os witchers são na verdade guerreiros, caçadores de monstros.
O protagonista da história é Geralt de Rivia, um bruxo envolvido com uma trama muito maior, que pode terminar com o fim da civilização. Duas personagens femininas se destacam: a feiticeira Yennefer, uma porqueira vendida pelo padastro por quatro moedas que descobre ser uma das feiticeiras mais poderosas de sua época e Cirila, a herdeira de um reino invadido que procura por Geralt, com o qual tem uma relação de destino.
A série foi anunciada pela Netflix como uma nova Guerra dos Tronos, o que certamente é um exagero, mas não deixa de ser uma boa atração para quem gosta de fantasia.
Henry Cavill surpreende no papel do bruxo. Ou talvez tenha encontrado o papel de sua vida: um caçador de monstros que não tem emoções, e, portanto, não precisa demonstrá-las. Se Henry Cavill no papel de um choroso Superman era vergonhoso, aqui ele parece perfeito.
A trama geral é séria e dramática, no estilo Guerra dos Tronos, mas há capítulos, como o da caça ao dragão, que têm o clima do desenho Caverna do Dragão ou dos seriados de fantasia que passavam na Globo nas tardes dos anos 1990, a exemplo de Xena.
Os roteiristas optaram por fazer uma narrativa não-linear, o que deixa interessante a história, permitindo que seja contada a origem de personagens como a feiticeira sem um longo primeiro ato com praticamente nenhuma ação.
Resumindo: The Witcher pode não ser o novo Game of Thrones, mas agrada. E se tiver um final melhor que o de GOT, já está valendo e muito.

Super-homem vs Apocalypse - a revanche

 

Na década de 1990 até o Super-homem, o mais antigo super-herói, precisava ser descolado. E o que significava ser descolado? Simples: roupas estranhas, anatomia duvidosa, cabelos compridos e roteiros sem muito sentido.
Ótimo exemplo desse Homem de aço descolado é a minissérie “Super-homem vs Apocalipse - a revanche” publicada pela editora Abril no ano de 1995.
A história, escrita e desenhada por Dan Jurgens, contava como o herói conseguiu finalmente derrotar o vilão responsável pela sua morte. Sim, amigos, ele tinha morrido, assim como o vilão, mas naquela época ninguém permanecia morto por muito tempo nos quadrinhos.
Com os dois – herói e vilão – de volta à vida, Superman passa a caçar seu oponente. Nisso, Apocalypse chega a Apokolips, o mundo governado por Darkside e quase mata o principal vilão da DC.
Á certa altura um personagem estrategimente escolhido para servir de muleta narrativa mostra para o Superman a origem de Apocalypse: ele foi criado artificialmente para ser invencível. Quer criar alguém invencível? A receita é simples: crie um bebê e jogue-o no meio de monstros. Depois recolha o que sobrar e crie outro bebê que será jogado no meio de monstros, e assim infinitamente, até que o bebê “evolua” para matar os monstros. Darwin deve estar tendo um ataque cardíaco lá no céu dos cientistas. Se essa origem já não fosse maluca o bastante, Dan Jurgens ainda dá um jeito de ligá-la ao superman: o planeta repleto de monstros no qual a criança apocalipse foi criada era nada mais nada menos que.... advinhem... Kripton!!!! Parabéns, Dan Jurgens, exceto pelo fato de que isso simplesmente vai contra toda as outras representações de Kripton já publicadas.
Por que razão o Super-homem precisaria de pochetes? 


E o meio do caminho, para vencer o monstro, o homem de aço é equipado com uma roupa que parece ter saído diretamente de algum designer da Image Comics, com direito a pochetes na perna e capa armada para cima, além de um cinto cruzando o peito. Detalhe: nada disso serve para absolutamente nada durante a história.
Além disso, o desenho de Jurgens imita John Byrne sem nunca acançá-lo e sofre do mal dos músculos que não existem (minha filha, que está estudando anatomia na faculdade, ficou indignada ao ver a revista).
No final, essa minissérie acabou se tornando célebre por uma razão que tinha pouco a ver com seu conteúdo: foi uma das tentativas da Abril de lançar capas diferenciadas. A capa do número 1 era platinada e chamava atenção nas bancas. Tanto que dos três volumes dessa série, apenas o primeiro, com essa capa diferenciada, é raro de encontrar em sebos a preços. Os outros dois você acha fácil com preços que vão de 2 a 3 reais. 

Basílica de Sacré-Cœur

 


A Basílica de Sacré-Cœur (Sagrado Coração) é uma das mais famosas igrejas de Paris. Construída no final do século XIX, ela resgatou a arquitetura romana e bizantina, com paredes sólidas.
A igreja é adornada com belíssimos vitrais, pinturas e esculturas – e uma réplica do santo sudário. E, embora tenha um estilo arquitetônico oposto ao de Notre Dame, também tem várias gárgulas que podem ser vistas na lateral do prédio.

A basília fica no alto do Monte Martre, o local mais alto de Paris e de lá é possível observar toda a cidade. Nos arredores há dezenas de lojas de lembrancinhas, café, restaurantes e quiosques nos quais são vendidos os tradicionais sanduíches parisienses, com pão baguete.

Liga Extraordinária: século

 

Liga Extraordinária é um dos projetos mais curiosos de Alan Moore, por uma série de motivos. Para começar, como surgiu. O desenhista inglês Kevin O`Neil ouviu o boato de que Alan Moore iria fazer um projeto com ele. Não era verdade, mas quando foi conferir a história com o próprio Moore, os dois tiveram a ideia de realmente fazer uma série. Além disso, a proposta é interessante: reunir heróis da literatura popular do século XIX em uma liga para combater grandes perigos.
A primeira geração tinha o Capitão Nemo (do livro 20 mil léguas submarinas, de Júlio Verne), Nina (de Drácula, de Bran Stock) o aventureiro Allan Quatermain (De As minas do rei Salomão, de Henry Rider Haggard), Dr. Jekyll (de O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson), e Hawley Griffin (de O Homem Invisível, de H.G. Wells).
A história fez grande sucesso e ajudou a popularizar o subgênero steampunk nos quadrinhos. Também deu origem a um filme, absolutamente esquecível.
Liga Extraordinára Século integral, publicado pela editora Devir em 2015 reúne uma história posterior da Liga, ambientada entre os anos 1910 e 2009. É centrado em Nina, Alan e um agregado: o imortal Orlando, que de tempos em tempos se transforma em mulher. Os três investigam um mago que pretende gerar o anti-cristo e as investigações passam da era vitoriana para a era hippie, chegando n a era atual (embora em uma realidade paralela).
Essa saga foi escrita quando Alan Moore já estava em guerra declarada contra a DC, que comprara a editora Widstorm, e, portanto, o universo ABC, criado por ele. Em decorrência disso, Moore resolve literalmente chutar o balde, sendo mais provocativo que nunca. O anti-cristo, por exemplo, é um Harry Potter enlouquecido. À certa altura ele atinge os heróis com um raio saído diretamente de seu... pênis!
Um dos problemas da série é que o clima steampunk, que caracterizava a primeira história aqui se perde completamente, perdendo muito de seu charme. Outro problema: há um intervalo de tempo muito grande na trama, e, no meio dele, um outro álbum, Dossiê Negro. Quem não leu o Dossiê Negro, como eu, fica perdido em muita coisa.
De resto, é uma boa trama, com sequências memoráveis. Destaque para a sequência de alucinação de Nina ou aquela em que o mago troca de corpo pela primeira vez.

domingo, abril 28, 2024

Grandes Heróis Marvel 18: Homem-aranha

 



Frank Miller desenvolveu um traço e um estilo narrativo tão próprios que, para a maioria dos leitores, é difícil identificar suas influências. No entanto, ele deve muito a Steve Ditko. Fica muito fácil perceber isso na história Espiral de ameaças, publicada no Brasil na Grandes Heróis Marvel 18, de dezembro de 1987.
A história, no entanto, é de 1980, ou seja, é anterior à antológica fase de Miller no Demolidor.
O roteiro é de Denny O´Neil, editor do Demolidor e que, segundo Miller, foi quem lhe ensinou muito sobre a narrativa.
Na história, o Doutor Destino contrata um cientista para construir uma máquina que abriria um portal para a dimensão de Dormammu (inimigo do Dr. Estranho). Quando a máquina fica pronta, ele manda o próprio cientista, temendo os perigos da viagem. Lá, o rapaz recebe de Dormammu poderes sobrenaturais como forma de se vingar de Strange. Preso, Strange envia um pedido de ajuda que acaba sendo captado por Peter Parker.
A história une um bom texto com um desenho inspirado, nitidamente influenciado por Steve Ditko (co-criador tanto do Homem-aranha quanto do Dr. Estranho, os dois heróis da história).
Sintonia entre os criadores. 

Mostra também uma sintonia única entre os dois autores. O´Neil escreve as legendas como se fossem trechos de uma obra arcana, o livro de Vishanti, e Miller as coloca no texto com uma diagramação diferenciada, com capitulares e bordas.
A primeira página da história, aliás, é um primor, com um personagem de cada lado, o texto no meio e as bordas formadas por demônios.
A sequência em que o cientista se vê na dimensão de Dormammu é igualmente inspirada: os primeiros quadros sem cenário e o último, de impacto, uma explosão de formas grotescas e psicodélicas no melhor estilo Ditko. Um deleite para os fãs e uma perfeita antecipação do mestre que Miller se tornaria.
Miller mostrava influência de Steve Ditko. 


O volume ainda inclui a história Karma, com roteiro de Chris Claremont, menos inspirada, mas igualmente divertida. Nessa HQ, o Homem-aranha e o Quarteto Fantástico enfrentam uma dupla de órfãos vietnamitas com poder mutante de se apoderar de corpos: um deles é maligno, ou outro benigno, como se fossem reflexo do Yin Yang. Aqui vemos a diagramação inovadora de Miller e sua narrativa revolucionária com forte uso dos contrastes. Mas o texto de Claremont parece estar muito aquém do desenho – além do final abrupto. Além disso, o arte-finalista Bob Wiacek em especial no começo, tenta modificar o desenho de Miller, aproximando-o do traço dos desenhistas do aracnídeo da época, como Jim Money.

Jornada nas Estrelas - Lamento para Adonis

 


Pavel Checkov é um dos personagens mais carismáticos da primeira formação de Jornada nas Estrelas. Sua estréia aconteceu em Lamento para Adonis, segundo episódio da segunda temporada, e desde o primeiro momento ele já se destaca.
Na história, a Enterprise é aprisionada por uma mão de energia. Ao descer para investigar, Kirk descobre que um extraterrestre que diz ser Apolo é o responsável – e tudo leva a crer que a visita de seu povo à Terra fez com que os gregos criassem seus mitos a partir desses viajantes.
Aí entra o jovem russo com cabelo Beatles: no momento em que o extraterrestre diz que é Apolo, este responde que é o Czar da Rússia para, no momento seguinte, se desculpar: “Eu nunca vi um deus antes”.
Lamento por Adonis é o tipo de trama que não funcionaria com um atores que levassem a história sério demais, até por conta dos efeitos especiais toscos da época. Os atores, no entanto, conseguem dar uma leveza à trama que nos faz esquecer o quanto é inverossímil um alienígena usar uma mão para prender a Entreprise apenas para ser idolatrado.

Conan – A ira de Anu

 

A ira de anu, história publicada no volume 10 da revista Conan the barbarian é um exemplo das qualidades de Roy Thomas como grande narrador. Ele estava preparando a adaptação de uma história original de Conan, Inimigos em casa, quando percebeu que o primeiro parágrafo da história já dava uma outra HQ. Nesse parágrafo, Robert E. Howard informa que Conan estava preso e condenado à morte após ter imposto uma vingança a um corrupto sacerdote de Anu, que ordenara a morte de um ladrão amigo do cimério.

Thomas imaginou toda uma situação a partir desse pequeno resumo. Na história, Conan se associa a um ladrão Gunderlandês para roubar diversos tesouros que são entregues para o sacerdote de Anu, que os revende.

Conan enfrenta um homem-touro sobrenatural. 


O templo, um local onde os soldados não podem entrar, é guardado por um homem-touro que pode ser invocado pelo sacerdote.

Quando este trai a dupla e ajuda a armar uma tocaia, Conan decide vingar o colega enforcado em praça pública e acaba enfrentando o homem-touro – e é nesse ponto que temos uma típica história do cimério, com ele enfrentando uma ameaça sobrenatural.

Na sequência, a força do texto de Thomas se destaca: “Eis outro momento capaz de congelar a alma... monstro e bárbaro fitam um ao outro. Em seu quase paralisado corpo, Conan sente o bafo ardente da perdição”.



Outro que se destaca é Barry Smith, que à essa altura se sentia cada vez mais à vontade no título. A sequência do enforcamento do ladrão é um primor narrativo. Smith contorna a censura da época mostrando apenas as pernas do ladrão, mas nos cinco quadros conseguimos perceber claramente o que está acontecendo, além de acompanhar a reação do cimério.

Fundo do baú - Mulher Maravilha

 


A Mulher Maravilha é uma das personagens mais clássicas da DC Comics. Mas, ao contrário de outros colegas, como Batman e Super-homem, ela não teve seriados na era de ouro ou mesmo na era de prata. Na verdade, parecia que nunca teria uma versão televisiva ou cinematográfica.

Na década de 60 executivos fizeram um piloto protagonizado por Ellie Wood que foi um fracasso total. Também, pudera. Era um seriado pastelão, com a atriz fazendo caras e bocas, olhando-se longamente no espelho antes de entrar em ação ou brigando com a mãe, que não a deixava sair de casa.

Em 1974 tentaram outro piloto protagonizado por Cathy Lee Crosby que foi outro fracasso. Tanto visualmente quanto em termos de história essa versão fugia muito do que os fãs de quadrinhos conheciam.

A versão protagonizada por Cathy Lee Crosby era muito diferente dos quadrinhos


Mas em 1975 os executivos finalmente acertaram a mão e lançaram a versão protagonizada por Lynda Carter. Essa nova versão era bem mais fiel aos quadrinhos. No episódio piloto, o capitão Steve Trevor cai na ilha paraíso e assim as mulheres que lá viviam descobrem que o mundo está ameaçado pelos nazistas (os novos representantes do patriarcado que havia feito com que as amazonas fugissem para a ilha).

A rainha decide que irá enviar uma campeã para combater esse mau. E quem acaba sendo escolhida é sua própria filha, Diana. Chegando aos EUA a heroína, após deixar Trevor num hospital, entra quase que imediatamente em ação lutando contra sabotadores e espiões. Ou seja: tudo muito parecido com as histórias clássicas da personagem, escritas por Charles Moulton.

A atriz Lynda Carter conquistou os fãs com seu carisma. 


A série foi exibida com sucesso pela ABC e depois passou para a CBS, que atualizou as aventuras para os dias atuais.

Uma das curiosidades dessa versão era o rodopio da protagonista, o que fazia com que Diana Prince se transforme na Mulher Maravilha. Inicialmente era apenas um rodopio, mas por sugestão de Lynda Carter foram acrescentados efeitos luminosos e estrondos. O efeito causava verdadeira sensação entre os fãs e é até hoje lembrado, assim como Lynda Carter, considerada durante muito tempo como a única Mulher Maravilha – até o surgimento dos filmes protagonizados por Gal Gadot, igualmente carismática.