sábado, junho 30, 2018

Creepshow


Em 1982 dois grandes mestres do horror, o escritor Stephen King e o cineasta George Romero se reuniram para fazer uma homenagem aos quadrinhos da EC Comics. O filme se chamou Creepshow e fez tanto sucesso que teve duas continuações.
Já que se tratava de um filme para homenagear os quadrinhos, por que não transfomar o roteiro em um gibi? Para isso foi chamado um dos desenhistas mais importantes da época, Bernie Wrightson, cujo personagem Monstro do Pântano, criado em parceria com Len Wein, havia sido um dos marcos do terror na década de 1970. Para fazer a capa contrataram um velho mestre da própria EC, Jack Kamen. Aliás, a própria capa já dá o tom da publicação: um garoto lê um exemplar de uma revista de terror enquanto uma figura cadavérica o observa pela janela. Nas paredes, cartazes de filmes de terror: Carrie, Despertar dos Mortos e O iluminado. Aliás, o cartaz do Iluminado é um curiosidade, já que King sempre odiou o filme – talvez Kamen tenha feito a homenagem sem saber disso.
O resultado é bastante divertido, especialmente para aqueles que leram os quadrinhos da EC. King em seu texto satiriza o estilo da EC, inclusive com o apresentador comentando a história e fazendo seus inevitáveis trocadilhos. Bernie Wrightson é Bernie Wrightson e, embora esse não seja seu melhor trabalho (só eu acho que o traço dele fica melhor em PB?), não decepciona.
As histórias são irregulares, primando muito mais pelo escatológico do que para o horror psicológico – que era uma das grandes características da EC. Também é raro encontrar nas histórias a ironia do destino comum em histórias da EC.
King nitidamente volta ao seu tempo de criança nessa homenagem à EC, mas também parece escrever as histórias com um olhar de criança, que não conseguia ver com profundidade as narrativas de terror de revistas como Tales from the Crypt.
Algumas histórias parecem uma boa ideia desperdiçada, como o caso de “Indo com a Maré”, em que um marido ciumento enterra o amante de sua esposa na beira da praia, deixando apenas sua cabeça do lado de fora. Se fosse uma história da EC, toda a narrativa se concentraria na agonia do homem, que sabe que irá se afogar quando a maré encher. Mas King estica a narrativa para mostrar os dois amantes voltando do mundo dos mortos para se vingar do esposo ciumento – um ponto da história totalmente descartável, que foge do ritmo narrativo já estabelecido na história e serve apenas apenas para aumentar a escatologia da HQ.
Nesse sentido, “Vingança barata” talvez seja o que mais se aproxima do que seria uma história EC Comics. Havia um padrão de histórias EC sobre pessoas com TOC, como do homem que comete um assassinato e passa tanto tempo limpando a cena do crime e de forma tão obsessiva que quando a polícia chega ao local ele ainda está lá, limpando digitais. “Vingança barata” mostra um magnata fanático por limpeza que de repente vê seu apartamento ser dominado por baratas.
King se destacou por conseguir levar o estilo dos quadrinhos EC para a literatura, criando narrativas envolventes que se aprofundam na psicologia dos personagens. É uma pena que quando ele tentou levar isso de volta para os quadrinhos não tenha mantido o mesmo nível. Ainda assim, Creepshow é um álbum divertido e a edição da DarkSide é caprichada, em capa dura, papel de boa qualidade, boa impressão e só peca pela total ausência de textos explicativos.

Fanzine Crash


Crash foi o primeiro fanzine de quadrinhos do Pará (antes havia alguns fazines que tinham quadrinhos, mas Crash foi o primeiro totalmente dedicado a publicar HQs).
Ele surgiu quando fui entrevistar Bené Nascimento para um trabalho de faculdade. O que era para ser uma entrevista virou uma conversa de horas e, ao final, Bené me convidou a produzir com ele um zine.
O número zero saiu em 1989 e publicou uma história do Bené com o Batman – o tipo de história que naquela época só poderia sair em um fanzine. Curioso que nesse primeiro número eu ainda estava definindo o pseudônimo , que em alguns momentos aparecia como Jean Danton e outros Gian Danton.
Foi em um número deste fanzine que publiquei pela primeira vez um texto sobre Watchmen, com desenhos de Bené com todos os personagens da série.
Crash teve quatro número (se contarmos o número zero) e marcou época nos quadrinhos paraenses.

A arte de Jack Davis, o mestre do terror e do humor


Jack Davis foi um desenhista norte-americano mais conhecido por seu trabalho para as revistas de horror da EC Comics e para a MAD, da mesma editora. Seu estilo, com figuras humanas distorcidas, com cabeças grandes, braços e pernas finos e pés enormes, se encaixava perfeitamente tanto no terror quanto no humor. Ele também cartazes publicitários, emprestando seu estilo único para filmes de Woody Allen e outros. Confira alguns trabalhos desse mestre.








sexta-feira, junho 29, 2018

Congresso irá reunir pesquisadores de quadrinhos da região norte



O Aspas Norte irá acontecer em outubro, na Universidade Federal do Amapá


            A Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS) em parceria com o Projeto de Pesquisa História em quadrinhos – UNIFAP realiza entre os dias 25 e 26 de outubro o I ASPAS NORTE – Congresso de quadrinhos da região norte, tendo como tema de fórum “A Linguagem dos Quadrinhos”.  O evento incluirá palestras, oficinas, lançamentos de publicações e a apresentação de trabalhos de pesquisa sobre quadrinhos, O Congresso será realizado no campus Marco Zero da Universidade Federal do Amapá.
O evento terá a participação especial de grandes nomes da pesquisa sobre sequencial, como Iuri Andreas Reblin e Edgar Franco. As oficinas terão como tema “Qualquer um pode fazer quadrinhos”, com Rafael Senra (autor do álbum Balada Sideral), mangá, com Cibele Tenório e Roteiro para quadrinhos, com Gian Danton (ganhador dos prêmios HQ Mix, Angelo Agostini e Araxá, entre outros).
“Nos estados da região norte há muita gente pesquisando quadrinhos, fazendo seu TCC sobre o tema, mas poucos têm condições de pagar passagem para ir a eventos nacionais, como o  Fórum da Aspas e as Jornadas Internacionais de Quadrinhos. Assim, essa é uma ótima oportunidade de apresentar seu trabalho em um evento com o selo da Aspas”, diz o coordenador do evento, professor Ivan Carlo.  
As inscrições para participação como ouvinte e/ou envio de resumos podem ser feitas até o dia 31 de julho no endereço https://aspasnorte.wordpress.com. Os resumos aprovados serão divulgados no dia 15 de agosto. O valor das taxas de inscrição variam dependendo da categoria de participação.
Os interessados em participar da apresentação de resumos devem ficar atentos às regras de formatação, datas e pagamento da inscrição. Os participantes com resumo aprovado, assim como aqueles que optaram em participar do evento com ouvintes terão data limite para a efetivação do depósito com desconto até o dia 23 de outubro de 2018 e deverão enviar comprovante de depósito para o e-mail: aspasnorte@gmail.com.

Para maiores informações, clique aqui

Iniciação ao taoismo


Em tempos como esse, de stress e materialismo, são muitas as pessoas que se empenham em tentar aquilo que se convencionou denominar de auto-conhecimento. Essa busca espiritual foi aproveitada pelos chamados livros de auto-ajuda, muitos dos quais a mais descarada empulhação, com receitas furadas para se alcançar a felicidade. Não espere encontrar algo assim em “Iniciação ao Taoísmo”, de Wu Jyh Cherng. Sério e, ao mesmo tempo coloquial, o volume é indicado para quem conhecer melhor essa filosofia/religião oriental.
Conta a lenda que o primeiro livro taoista, o Tao Te King (ou Ching, segundo alguns tradutores) foi escrito pelo sábio Lao Tse quando este se preparava para deixar a China. O soldado que guardava a fronteira, tentando evitar que o sábio homem abandonasse o país, exigiu dele uma obra que contivesse toda a sua filosofia.
Com isso ele pretendia segurar o homem pelo menos mais um ano. Enganou-se. Lao Tse escreveu o Tao te King de uma sentada só. Essa coletânea de ótimas poesias influenciou decisivamente o pensamento chinês e deu origem à medicina tradicional e à astrologia chinesa. No Japão, a palavra para tao é Do, que deu origem à arte marcial Judô (caminho da suavidade) à caligrafia Shodo (caminho da escrita) e à arte do espadachim Kendo (caminho da espada). No Ocidente, o taoismo deu origem até a técnicas de marketing (esse último item foi obra de All Ries em seu livro Marketing de Guerra).
Como a história acima indica, o taoismo é uma filosofia simples e flexível.
Uma característica especial do taoismo é sua tolerância com outras formas de pensamento ou de religião. Para os mestres taoistas, o universo é como uma árvore. Todas as suas partes têm uma origem em comum, a raiz, mas são naturalmente diferentes. “Aceitar a diversidade dos ramos é saber respeitar as diferenças entre as pessoas, entre as religiões, entre as culturas, entre as raças. Ter respeito pela diversidade e compreender a essência é exatamente uma das buscas e um dos propósitos dos antigos mestres taoistas”, escreve Cherng.
Como resultado disso, você dificilmente encontrará um taoista discutindo com um católico ou com um muçulmano. A filosofia taoista prega que todas as religiões são galhos da mesma árvore. Esse respeito para com outras formas de credo é percebido no texto de “Iniciação ao Taoismo”. De tempos em tempos, Cherng lembra que muitas religiões discordam de seu ponto de vista, não com o objetivo de criticá-las, mas para lembrar que as opiniões divergentes são fruto das características de cada galho.
Mas, afinal, o que é o taoismo? Para começo, Tao significa caminho. Mas um caminho só existe enquanto é vivido. “Para vivê-lo”, escreve Cherng, “existe o ato de caminhar, existe a prática, existe a vivência”.
O taoismo é vivido no dia-a-dia e não como algo sagrado, que deve ser colocado em um altar. Pelo contrário, deve-se usar seus ideais em todos os momentos, no convívio com os filhos, com os subordinados, na hora de comprar sapatos ou consertar motocicletas...
Ao contrário de outras religiões, como o catolicismo, o taoismo considera que não é necessário sofrer para alcançar a virtude espiritual. “O taoismo não trabalha com culpas, remorsos, muito pelo contrário. Tentamos remover as culpas e os remorsos”, afirma Cherng. Para os taoistas, a vida deve ser vivida com saúde e alegria. Afinal, não é melhor antecipar o fim do sofrimento, vivendo, desde já, o paraíso?
Para conseguir esse estado de espírito é necessária a simplicidade e a paz de espírito. Não é necessário se mudar para um templo ou se refugiar no topo de uma montanha para conseguir isso, até porque, para uma alma conturbada, até um passarinho cantando é um incômodo. Basta não criar expectativas antes dos eventos, não complicar as coisas durante os acontecimentos e não remoer o que já passou.
A primeira regra do caminho da realização pessoal é tomar consciência de si, descobrir o que você gosta e o que não gosta em si mesmo. Primeiro devemos aceitar o nossos aspectos negativos, para depois trabalha-los, nos tornando mais tolerantes, abrangentes e flexíveis.
Se isso pareceu psicologia, não foi por acaso. O famoso psicanalista Carl Gustav Jung foi buscar no taoismo subsídios para boa parte de suas formulações.
Wu Jyh Cherng é presidente da Sociedade Taoísta do Brasil, acumpurista, especialista em medicina taoísta e orienta mestres de Tai Chi Chuan. Ninguém mais abalizado para escrever sobre o assunto, portanto.  

O que foi a revolta de Treblinka?



Houve várias tentativas individuais para resistir aos nazistas em Treblinka; por exemplo, o assassinato do SS Max Biala por Meir Berliner em 11 de Setembro de 1942, mas não foi antes dos primeiros meses de 1943 que um grupo de resistência foi formado. Este grupo incluía Galewski, Dr. Julian Chorazycki, Zelo Bloch, Zvi Kurland, Rudolf Mazarek e Dr. Leichert. Nem todos do grupo sobreviveram ao levante; muitos iriam morrer heroicamente.
Quando a cremação dos corpos estava chegando perto do fim, e estava claro que o campo e os prisioneiros estavam prestes a serem liquidados, os líderes do movimento de resistência resolveram que o levante não poderia mais ser postergado. Uma data e hora foi fixada – 17:00 em 2 de Agosto de 1943.
Inicialmente, o levante ocorreu de acordo com o plano. Com uma cópia da chave, o arsenal foi aberto. Armas foram removidas e entregues aos membros da resistência.
Pouco antes do momento programado para o levante, alguns dos homens da SS haviam decidido se banhar no vizinho Rio Bug, dessa forma enfraquecendo a guarnição. Por causa disso, e para assegurar que o levante não tinha sido comprometido, os rebeldes não tiveram opção senão iniciar a revolta mais cedo que o planejado. Os rebeldes que possuíam armas roubadas abriram fogo nos guardas do campo. O posto de gasolina explodiu e os alojamentos de madeira foram incendiados. As câmaras de gás não foram danificadas. Uma massa de prisioneiros agora tantava romper as cercas na tentativa de escapar do campo. Eles foram alvejados pelos guardas das torres de vigia. A maioria daqueles que tentavam escapar foram alvejados enquanto ficavam enroscados no arame farpado que ficava entrelaçado com as armadilhas anti-tanque.
Aqueles que escaparam foram perseguidos pela polícia local e forças de segurança, incluindo guardas de Treblinka I. 1.000 internos ainda estavam vivos quando ocorreu o levante de 2 de Agosto de 1943. Destes, somente 200 conseguiram escapar. Cerca de 60 dos fugitivos ainda estavam vivos no final da guerra para contar ao mundo os horrores de Treblinka.
Um certo número de sobreviventes testemunhou nos julgamentos pós-guerra de Josef Hirtreiter nos anos 1950. O julgamento principal dos homens da SS de Treblinka ocorreu em 1964/65; o julgamento do comandante Franz Stangl foi em 1970.
Dos prisioneiros que permaneceram no campo depois do levante, alguns foram assassinados no local. O resto foi forçado a demolir as estruturas e eliminar os traços das atividades homicidas do campo.
Como as câmaras de gás ainda funcionavam depois da revolta, as últimas vítimas foram gaseadas em 21 de agosto de 1943. 

quinta-feira, junho 28, 2018

Livro infantil Moira


Eu sempre soube que teria uma filha chamada Moira. Em 1997 (três anos antes da Moira verdadeira nascer) escrevi um texto sobre uma menina chamada Moira e seu gato procurando pelo sentido na vida – em sua busca eles encontram um leão, um palhaço e uma mula sem cabeça.
Sim, era uma história surreal.
Quando a protagonista finalmente nasceu, resolvi publicar o texto na forma de livro. O amigo Jean Okada se ofereceu para fazer as ilustrações, que ficaram belíssimas. Mas publicar livro colorido no Brasil é cilada, Bino. Os custos gráficos são altíssimos para esse tipo de publicação.
Assim, acabei lançando na forma de e-book, disponibilizado pela Virtual Books. O livro foi baixado por milhares de pessoas (em uma estatística que me enviaram na época, o total de leituras de meus livros lançados pela Virtual Books chegou a superar a casa do um milhão). O livro até hoje está disponível no endereço: http://www.virtualbooks.com.br/v2/ebooks/pdf/00841.pdf

Nosso Lar



Nosso Lar é um dos grandes best-seller brasileiros. Escrito pelo espírito André Luís, através do médium Chico Xavier, popularizou a literatura espírita com a história de um médico em uma colônia espiritual. Publicado em 1944, o livro  já vendeu mais de... e gerou uma versão cinematográffica assinada por Wagner de Assis (A Cartomante).
Bastante conhecido, o enredo do livro inicia com o narrador chegando ao Umbral após a sua morte. O relato lembra muito as descrições do inferno católico, com o protagonista assediado por formas diabólicas, rostos Álvares e expressões animalescas. Ele sofre ali por oito anos, até finalmente ser levado para a colônia espiritual de Nosso Lar. A grande falta do médico, que o leva ao Umbral, é o ceticismo e o orgulho, que fazem com que ele demore tanto a pedir ajuda.
Uma vez na colônia, André Luís é iniciado nos mistérios da vida espiritual, da cura, da comunicação com os vivos, etc.
Há, em todo o livro, um excesso de adjetivos que atrapalham a leitura: o aposento é confortador, as luzes cariciosas. Mas essa característica, hoje considerada um vício de linguagem, era comum na maioria dos autores antigos. Fora isso, o livro passaria tranquilamente por uma boa obra de ficção científica da primeira metade do século 20.
A linguagem antiquada foi facilmente resolvida na versão cinematográfica com uma bem pensada atualização. Mas a história apresentava um outro problema, um certo caráter de"diário de viagem", que torna difícil sua adaptação para a sétima arte. Um filme precisa ter uma trama, com conflitos e uma estrutura narrativa que caminha na direção da resolução do conflito.
Em Nosso Lar, todos são bons demais e não existe uma possível figura de vilão. Da mesma forma, não há um destino que represente o conflito, já que os personagens gozam de livre-arbítrio. Em suma: não há quase nenhum conflito visível na obra original.
Como transportar isso para o cinema sem que o resultado seja duas horas de sono?
O diretor Wagner de Assis optou por focar a narrativa no conflito interno dos personagens (apenas sugerida no livro), especialmente André Luiz e Eloísa, uma moça que aparece rapidamente no livro se lamentando de ter morrido antes de casar e de saber que seu noivo encontrou uma nova esposa. 
André Luiz luta contra a arrogância, o egoismo e o ceticismo (e, no final do filme, contra o ciúme), e Eloísa quer a todo momento voltar para seu noivo. Boa parte da narrativa se sustenta nessa sustentação. André será capaz de ultrapassar seus conflitos internos, e, dessa forma, ajudar a moça, fazendo com a que a trama paralela se una à principal num roteiro bem costurado.
Ou seja: o diretor optou por uma inteligente estrutura narrativa, que prende o expectador exatamente pela identificação. Alguns talvez se identifiquem com André, outros com Eloísa.
Se o roteiro é competente e enxuto, a direção é outro ponto forte. Os efeitos especiais são grandiosos (o filme custou 20 milhões de reais, boa parte deles gastos com efeitos), mas usados em favor da narrativa. Não há efeitos apenas pelo efeito, como Hollywood muitas vezes tem feito. Entretanto, muitos que assistiram à fita comentaram que gostaram de ver esse nível de efeitos num filme nacional de FC ou fantasia.
O diretor também trabalha muito bem a imagem, em ótimas cenas sem diálogos, como no reencontro de André Luiz com sua esposa. Com pouquíssimas falas, toda a tensão da situação é repassada aos expectadores.
Há algumas cenas que chamam atenção dos mais atentos: quando começa a II Guerra Mundial, a colônia espiritual recebe centenas de desencarnados. A maioria deles usando a estrela de Davi (judeus), mas há também pessoas com outros símbolos usados em campos de concentração, o que se relaciona com os ensinamento de Chico Xavier de que o sofrimento liberta. A mesma cena traz um conteúdo de tolerância religiosa que se reflete também na cena da sala do governador, cujas paredes ostentam símbolos das principais religiões terrenas.
Sobre a questão da II Guerra, Chico conta, no livro, que os nazistas, ao morrerem na guerra, fugiam dos que iam resgatá-los, chamando-os de "fantasmas da cruz". Esse ponto, no entanto, não foi explorado pelo filme.
Outro aspecto curioso da versão cinematográfica é inverter o paradigma convencional do ser humano com relação à dualidade vida-morte. Em Nosso Lar, vemos personagens chorando e lamentando a partida de entes queridos que vão reencarnar. Nesse ponto o roteiro foi particularmente eficiente ao mostrar que vida e morte são apenas dois lados da mesma moeda em um ciclo de reencarnações. Chega, inclusive, a brincar com isso, como na cena em que uma senhora reclama que o marido estava sempre muito doente, “Mas morrer que é bom, nada!”.
Nosso Lar conta com uma equipe internacional:  o fotógrafo suíço Ueli Steiger (“Dia depois de amanhã”, “Godzilla”, “10.000 a.C”), os canadenses da Intelligent Creatures para os efeitos especiais (“Watchmen”), a diretora de arte brasileira Lia Renha ( “A muralha”, “Hoje é dia de Maria”, “Auto da Compadecida”), e o músico  Philip Glass (“As horas”, “O ilusionista”).
É um filme que irá agradar tanto os espíritas quanto não espíritas ou simples simpatizantes da doutrina. Mesmo aqueles que foram assisitir Nosso Lar apenas como um filme de ficção científica provavelmente irão gostar. Prova disso é que em apenas 5 dias  já ultrapassou a marca de um milhão de expectadores.

quarta-feira, junho 27, 2018

Francisco Iwerten, a biografia de um visionário


Informamos ao nosso distinto público que se encontra à venda o livro Francisco Iwerten - A Biografia de uma Lenda ao preço promocional de 15 reais apenas até o início do ano. Aproveite o clima natalino para presentear seus amigos com essa maravilhosa biografia. Interessados, favor contatar o senhor Gian Danton através do e-mail profivancarlo@gmail.com. 

Interfaces midiáticas na Amazônia


Em 2014, a Unifap lançou um edital de publicações e dois professores do curso de comunicação apresentaram uma proposta de uma antologia de artigos sobre a questão da comunicação na Amazônia.
 O livro acabaria sendo publicado em 2015 com o título de Interfaces midiáticas na Amazônia. Eu colaborei com o artigo “O pânico gasolina: como uma noticia falsa gerou uma crise de combustível em Macapá”.
O texto versava sobre um caso real, semelhante ao famoso pânico Guerra dos Mundos, de 1938, em que uma transmissão radiofônica dirigida por Orson Welles provocou pânico nos EUA.
No caso em específico, um radialista noticiou que a cidade de Macapá voltaria a ter falta de gasolina (já havia ocorrido de fato uma crise alguns dias antes). As pessoas, desesperadas, correram para os postos e, quem via os postos cheios, entrava também na fila num efeito dominó que acabou provocando de fato uma crise de abastecimento, já que os postos não estavam preparados para essa demanda exagerada.
No artigo eu não só conto essa história em detalhes, como analiso a situação do ponto de vista da teoria hipodérmica, um das primeiras teorias da comunicação.

O que era o campo de Treblinka?


Treblinka era um campo de extermínio nas proximidades da cidade com esse mesmo nome, a 100 km de Varsóvia. Incialmente era um campo de trabalhos forçados para prisioneiros políticos, mas em 1942, um ano após sua abertura, foi construindo um anexo que se transformaria num local de extermínio de raças indesejáveis. 
A mão-de-obra usada para construir Treblinka I eram prisioneiros poloneses e judeus trazidos do gueto de Varsóvia. Posteriormente, quando o gueto foi evacuado, Treblinka recebeu e exterminou 265 mil judeus da capital polonesa. 
Para evitar levantes e tornar suas vítimas dóceis, os nazistas alegavam que estavam apenas reassentando judeus da Europa para terras do leste. 
Os judeus deviam acreditar que Treblinka era apenas um entroncamento ferroviário, um local para descansar e tomar banho antes de continuar viagem. Para isso seu diretor, Franz Stangl mandou construir uma estação ferroviária falsa: um relógio com números pintados indicando permanentemente 6 horas, janelas de guichês e vários quadros de horários com viagens para Varsóvia, Wolkowice e Bialystok. 
Quando chegavam, as vítimas eram levadas para cortar os cabelos. Um oficial da SS fazia um discurso explicando que aquele era apenas um entrocamento e que deveriam tomar um banho de desinfecção. Os guardas incentivavam as pessoas a escreverem cartas a conhecidos e familiares dizendo que estavam bem e que apenas estavam em trânsito para outro local no qual seriam realojadas. Essas cartas eram depois enviadas como forma de camuflar o holocausto. 
Depois eram levados para o que seria o banho, mas na verdade eram as câmeras de morte. 
Seus pertences eram recolhidos e separados, os objetos valiosos enviados para a Alemanha e os que eram considerados sem valor queimados. 
O campo de extermínio começou a operar com três câmaras de gás, chegando em pouco tempo a seis. De julho de 1942 a abril de 1943, aproximadamente 870 mil pessoas morreram no local. Era tão eficiente na sua tarefa de matar que a maioria das pessoas que chegavam estava morta duas horas após a chegada. 

terça-feira, junho 26, 2018

Duetos Essenciais



Em meados da década de 1990 eu conheci o trabalho de quadrinhos de Edgar Franco e me impressionei com seu estilo (que viria a ser chamado de poético-filosófico). Eu percebi que aquele traço era muito mais adequado para transmitir ideias do que para contar histórias tradicionais. E fiz um roteiro para ele, baseado no mito da caverna, de Platão. Esse foi um dos trabalhos que marcaram a maturidade artística desse quadrinistas, a começar pela belíssima primeira página, em que desenho, textos se unem, formando uma única image. Publicada em diversos fanzines ao longo da década de 1990, essa HQ chegou a ser objetivo de apresentação em congresso no qual Edgar explicitava o processo criativo e discutia as referências filosóficas da obra. Recentemente a HQ foi publicada no álbum Duetos Essenciais, lançada em 2017 pela Marca de Fantasia. 

Tom´s Bar


Ivo Milazzo e Giancarlo Berardi conquistaram uma fiel legião de fãs brasileiros com o personagem Ken Parker. Lançado aqui no início dos anos 80 pela editora Vecchi, Parker se destacava por ser um herói humano em uma época em que todos os caubóis dos quadrinhos eram estereotipados. O personagem foi publicado por várias outras editoras, inclusive a Mythos, que fechou a série recentemente, publicado a última aventura do chamado "Rifle Comprido". Agora a dupla de autores está de volta com Tom's Bar, editado pela Opera Graphica.

Em Tom's Bar o ambiente é a Chicago dos anos 40. O personagem principal é o Tom do título, um homem já idoso, que guarda segredos sobre seu passado.

O álbum reúne quatro histórias envolvendo Tom e o Bar. Parece monótono, mas não é. Berardi quer nos mostrar que por trás de um homem e um ambiente simples, sem glamour, há grandes histórias.

O primeiro conto, "Quase Sempre" é uma introdução e uma declaração de princípios. Um jornalista visita o bar e reclama de que já não há mais fatos interessantes para os jornais: "Devia aparecer outro Al Capone para aumentar a tiragem". Tom concorda: "É, bons tempos aqueles!".

Enquanto o jornalista toma um drinque, Tom sem que o último veja, se resolve com um gangster que veio cobrar proteção.

Ou seja: os fatos interessantes, assim como as pessoas interessantes, estão debaixo de nossos narizes. Basta ter olhos para ver.

Tom não é um herói bidimensional. Tem coração, mas também tem contradições. Ao mesmo tempo em que vende armas, evita que um garoto se envolva no mundo do crime.

Ler Tom's Bar é como ver um fractal (figura geométrica que representa fenômenos caóticos): à medida em que nos aprofundamos nos personagens, eles nos revelam novas complexidades.

Além do texto de Berardi, vale destacar a arte de Milazzo. Toda realizada, em aguada, a história é um colírio para os olhos cansados de ver histórias pintadas em computador.

A aguada é feita de nanquim misturado com água. Dá um efeito semelhante ao da aquarela, mas em preto e branco. É uma arte perdida. Com a popularização da impressão em cores e a difusão dos computadores, poucos artistas da atualidade sequer sabem o que é uma aguada. Milazzo sabe, e muito bem.

A técnica usada nos desenhos não é gratuita. A aguada dá à história um toque nostálgico de filme noir dos anos 40. Além disso, as angulações usadas por Milazzo também são muito cinematográficas.

Tom's Bar é um álbum indispensável para que gosta de quadrinhos, mas já está cansado de heróis com cuecas do lado de fora das calças.

segunda-feira, junho 25, 2018

Far side

Far Side foi uma série criada pelo cartunista Gary Larson distribuída pela Universal Press de 1980 a 1995. O humor surreal logo chamou a atenção. Larson constantemente inverte as expectativas do leitor, ou mostra o outro lado das coisas, como no caso do homem que pesca um peixe e encontra com um homem-peixe levando para a água uma mulher. No Brasil a série foi publicada em álbum pela Cedibra na década de 1990.









Odisseia cósmica



Todos que conhecem um pouco mais de quadrinhos sabem que Thanos é uma cópia de um vilão da DC, Darkside, criado por Jack Kirby quando este revolucionou a editora na década de 1970.
Em 1988, Jim Starlin, criador de Thanos e grande mestre das sagas cósmicas estava na DC Comics. Era a oportunidade de trabalhar com a versão original de seu vilão.
Starlin imaginou uma grande saga estelar em que alguns dos mais poderosos heróis da DC se unem a Darkside para enfrentar a ameaça absoluta da anti-vida.
Starlin fazendo uma grande saga cósmica com personagens da DC é um velho sonho dos leitores e não decepciona. Como nessa época ele já estava diminuindo sua atividade como desenhista, foi chamado um artista que na época era uma estrela em ascenção: Mike Mignola. A junção desses dois grandes astros nos deu um dos poucos crossoveres realmente divertidos dos quadrinhos de super-heróis.
Mignola sabe dar peso às imagens, usando e abusando dos contrastes, o que é particularmente eficaz nas cenas do universo da anti-vida. Ele nitidamente não conseguiria desenhar diversos heróis em um único quadro (o que é uma especialidade de George Perez), de modo que Starlin, de maneira inteligente, escolhe um pequeno time de personagens para combater os espectros da anti-vida que escaparam para nosso universo, indo cada um para um mundo com o objetivo de destruí-lo. Algumas escolhas fazem todo o sentido, como Super-homem, Lanterna Verde, Estelar e Orion. Outras parecem forçadas por decisões editoriais, como o Batman, que parece deslocado numa saga cósmica. Mas, como bom roteirista, Jim Starlin dá um jeito de fazer com que o personagem se torne relevante na HQ (ele havia feito a mesma coisa com o Homem-aranha na saga de Thanos).
Aliás, Starlin consegue equilibrar perfeitamente a trama, sem fazê-la pesar demais para personagens como o Super-homem. Todos os personagens têm um bom desenvolvimento – inclusive melhor do que normalmente se fazia com eles à época.
Essa história foi lançada na década de 1990 pela editora Abril e em 2015 foi relançada pela Panini em volume encadernado com capa metalizada.

A arte única de Brian Bolland


Brian Bolland é um desenhista britânico que ficou famoso na revista 2000 AD. Nos EUA seu primeiro trabalho de impacto foi a série Camelot 3000. Outro trabalho marcante dele foi a graphic Piada Mortal, com roteiro de Alan Moore. Na década de 1990 ele se dedicou principalmente a produzir capas para diversas revistas DC. Dizia-se que qualquer revista com uma capa sua venderia.














Quem foi Klaus Barbie?



Klaus Barbie foi o Diretor da Gestapo, a polícia política alemã. Era famoso pela brutalidade com que torturava os prisioneiros. Foi um dos grandes responsáveis pelo Holocausto.
Klaus nasceu em uma pequena cidade do vale do Reno. Entrou para a SS em 1936. Em 1940 foi enviado para os países baixos para procurar judeus e adversários políticos do nazismo. É para fugir da sua perseguição que a família de Anne Frank viveu escondida.
Em 1942 ele assume a direção da Gestapo, cargo no qual foi implacável e cruel.
Entre os atos que o tornaram famoso está o assassinato de Jean Moulin, braço-direito de Charles De Gaulle na resistência francesa. Barbie só conseguiu pegá-lo graças à denuncia de René Hardy, um amigo de Moulin.
Barbie e seus subordinados o torturaram quase até a morte e depois o deixaram no pátio da prisão, entregue à sua própria sorte. Moulin morreu uma semana depois.
Outro crime famoso de Barbie foi a destruição de um campo onde se escondiam crianças judias. Com idades inferiores a 14 anos, elas tinham se refugiado numa pequena aldeia perto de Lyon, na França. O diretor da Gestapo caçou-as uma a uma, deportando-as para Auschwitz, de onde nenhuma delas saiu viva.
Klaus Barbie era famoso pela crueldade que usava nos interrogatórios. Os prisioneiros que se recusavam a falar eram punidos com chicotadas, amputações, fome e afogamentos. Suas vitimas afirmam que ele tinha especial prazer com os interrogatórios.
Terminada a guerra, Barbie desapareceu e foi julgado à revelia na França, sendo condenado à pena de morte. Na verdade, ele se tornara agente do serviço secreto americano e depois fugira para a Bolívia para oferecer seus serviços ao ditador local, Luis Garcia Meza.
Depois viajou para a Europa com o nome falso de Klaus Altmann, para negociar a compra de veículos usados para reprimir as manifestações da oposição.
Foi reconhecido pelo filho de um homem assassinado em Auschwitz, mas só foi extraditado para a França em 1983, quando a Bolívia voltou a ser um país democrático. Em 1987 foi julgado na cidade Lyon e condenado à prisão perpétua.

Em nenhum momento Klaus Barbie deu mostras de arrependimento. Ao contrário, dizia estar satisfeito por ter livrado a França do perigo comunista. Morreu de leucemiana prisão, em 25 de setembro de 1991.