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sábado, julho 04, 2026

I-ching, o livro das mutações

 


            As mudanças constantes do universo são representadas nas figuras do Yin Yang. Yang representa a força masculina do universo, violenta, criadora. Yin é a força feminina, receptiva, flexível. Yin é a intuitiva, meditativa e complexa. Yang é racional, criativo e ativo.

            Na filosofia taoista, Yin e Yang são elementos do mesmo processo.  Quando um chega ao seu auge, engendra o outro. Ser sábio é combinar esses dois pólos, harmonizando Yin e Yang.

O estudo do ciclo de Yin Yang, embora seja muito influenciado pelas ideias taoistas, é comum a toda a cultura chinesa e já existia em um livro ancestral, o I-ching.

            A mais antiga forma de adivinhação chinesa era a leitura de sinais nos ossos de bois, surgidos depois que eram expostos ao fogo. Daí foi criada a adivinhação em cascas de tartaruga. Na dinastia Shang, o oráculo era consultado com o uso de varetas. O sábio jogava as varetas e determinava se a linha era inteira ou cortada. Depois de jogar seis vezes, formava-se o hexagrama e era possível interpretar seu significado.

            Em torno do ano 1150 a.C., o imperador Shang Chou Hsin mandou prender o governador da província de Chou, o rei Wen. Na prisão, ele elaborou os julgamentos dos hexagramas. Posteriormente, seu filho tomou o poder, tornando-se imperador e, descobrindo o trabalho do pai, resolveu ampliá-lo, escrevendo os comentários às linhas mutáveis. Posteriormente, o oráculo foi enriquecido com comentários atribuídos a Confúcio e seus discípulos.

            O I-ching não é um livro de adivinhações, pois ele não prevê o futuro, mas estabelece o estado em que as coisas estão, analisando a mudança e a relação entre as forças Yin e Yang.

            Por exemplo, no primeiro hexagrama, todas as linhas são inteiras. A imagem formada representa uma situação apenas de linhas fortes Yang, que significam força, criatividade e liderança, razão pela qual esse hexagrama é normalmente chamado de O criativo. O julgamento diz que as forças do céu impelem o homem e o ajudam a iniciar ou levar adiante um empreendimento. O comentário diz que “as forças da natureza favorecem tudo aquilo que se inicia”.

            O hexagrama oposto, chamado de O receptivo, é formado apenas por linhas cortadas, representando Yin, a passividade, a dedicação e concórdia, a diplomacia, a perseverança e a paz. O julgamento diz que o sucesso está garantido se a pessoa que consulta o oráculo colaborar e se deixar conduzir, mantendo-se sempre flexível e disponível. O comentário diz que “Ser receptivo é muito importante, pois todos os seres lhe devem o nascimento. Como a Terra, cuja função é receber a semente que depois darão os frutos, também obterá muitos benefícios àquele que souber tolerar e compreender as pessoas e as situações”.

quinta-feira, julho 02, 2026

O budismo não é uma negação do mundo

 

A maioria das pessoas tem uma interpretação equivocada da palavra zen. No linguajar popular, ficar zen significa algo como ficar alegre, ficar feliz ou até mesmo alienado do mundo. Frases que já ouvi: “Fulano é zen, está sempre com um sorriso no rosto”; “Beltrano é zen, pode cair o mundo à volta dele que ele nem liga”.  É o famoso “está tudo bem, está tudo zen”.

 Essa, no entanto, é uma interpretação equivocada do zen budismo e do zazen.

 Para explicar isso é interessante recorrer a uma historinha.

 Várias pessoas estavam viajando num ônibus quando o motorista teve um ataque cardíaco. A reação da maioria das pessoas foi de desespero: “O ônibus vai bater! Vamos morrer! Vamos morrer!”. Outros entraram num processo de negação: “Está tudo bem, nada vai acontecer, está tudo ótimo!”. Havia um monge zen budista no ônibus. Este levantou do seu lugar, foi até a cabine do motorista, tirou-o da cadeira, sentou no lugar, freiou o ônibus e desligou o motor.

 A história demonstra bem o conceito: o budismo (e, portanto, o zen) não é uma negação da realidade, nem o desespero com a realidade.

 Buda já dizia: o mundo é dukka (uma palavra que, de forma simplista, pode ser traduzida como sofrimento). Inevitavelmente iremos passar por momentos de sofrimento: vamos ficar doentes, vamos ficar velhos, vamos morrer.

 O sofrimento físico existe, assim como o sofrimento psicológico. Negar isso não traz benefício nenhum. Tanto que a primeira nobre verdade é a existência do sofrimento. Uma atitude negacionista é totalmente isolória e não leva a nada.

 Não adianta, por exemplo, chegar com alguém que está com depressão e dizer: “Você não deve ficar em depressão, deve ficar feliz, seja feliz!”. Ou chegar para alguém que acabou de perder um ente querido e dizer: “Não fique triste, seja feliz!”.  O problema existe, negar ele não só não ajuda como pode piorar as coisas.

 Por outro lado, o desespero também só piora a situação. Desesperar-se com algo que ainda vai acontecer, como aliás aconteceu com Buda quando descobriu que ia adoecer, envelhecer a até morrer, só pode trazer resultados negativos.

 Como o monge da história, devemos estar conscientes da situação e devemos aprender a lidar com ela.

 Se alguém está em depressão, o que levou a isso? Como isso pode ser resolvido? Essa atitude é muito mais válida do que desesperar-se com a situação ou simplesmente negá-la. Estar consciente de si e do mundo é a base do budismo, a atenção plena.

 A meditação zazen é um passo essencial desse processo. Não é por acaso que muitos não se adaptam. Ali é você com você mesmo, consciente da sua situação e tendo que encontrar maneiras de lidar com isso. Não há ninguém pegando na sua mão e lhe apresentado soluções mágicas.

 A perna está dormente depois de vários minutos de meditação? Simplesmente ignorar isso não serve de nada, assim como desesperar-se e sair da posição. Você precisa entender a dor a aprender a lidar com ela. O mesmo ocorre com os fatos psicológicos. Muitas vezes, problemas surgem na hora do zazen é necessário aprender a lidar com eles, sem negá-los ou desesperar-se.

 Nesse sentido, o zazen é aprendizado para a vida. Um aprendizado que nos distancia tanto da negação quanto do desespero, mas, ao contrário, mantém o foco na percepção do instante presente. 

quarta-feira, junho 10, 2026

Taoismo: a filosofia da eterna transformação

 


            O taoísmo é baseado num pequeno livro de 81 versos chamado Tao Te King. Conta-se que o autor seria um velho chamado Lao Tsé.  Lao Tse viveu a primeira metade de sua vida, em torno do século 6 a.C. na corte imperial chinesa trabalhando como historiador e bibliotecário. Um dia, ele abandonou a corte e retirou-se para floresta, onde passou a viver como eremita, estudando e meditando. Depois de algum tempo, resolveu cruzar a fronteira da China. O soldado que guardava a fronteira, imaginando que as autoridades não iriam gostar se ele deixasse ir embora um homem tão sábio, impôs uma condição para que o velho atravessasse a fronteira: antes disso, ele deveria escrever um livro que reunisse toda a sua filosofia. Lao Tse sentou-se, escreveu rapidamente o pequeno livro, entregou ao soldado e foi embora para nunca mais ser visto.
            Essa é apenas um das versões para o surgimento do Tao Te King. Hoje não se tem certeza nem mesmo de que Lao Tse tenha existido e muitos pesquisadores prefere creditar o livro à tradição oral.
            O livro surge em um período conturbado da história chinesa. Por volta do ano 1000 a 700 a.C., a China foi unificada sob o domínio da Dinastia Zhou. No século 7 a.C. o império Zhou entrou em decadência. As famílias aristocráticas que governavam os estados começaram a brigar pelo poder, absorvendo os estados menores. Essa época conturbada foi chamada de “período dos reinos combatentes”.
            Nessa época surgiu uma nova classe de homens, os shi, formada por camponeses ambiciosos e membros falidos da aristocracia. Eles ocupavam o cargo de administradores e conselheiros dos estados.
            Embora a maioria dos shi se ocupasse apenas de questões práticas, outros eram idealistas e pretendiam reformular a vida política chinesa com ideais morais e espirituais. Esses homens normalmente se reuniam em torno de um mestre, como Confúcio, e tentavam convencer os governantes locais a seguirem suas políticas. Outros se afastavam do mundo para viver uma vida feliz e simples em bosques, onde apenas pescavam e meditavam.
            O Tao Te King é uma mistura das visões desses grupos e de outros. Pode ser lido como um manual para governantes ou como um livro puramente espiritual e contemplativo. Política, religião e filosofia se misturam em uma obra que, ao mesmo tempo é simples e complexa, permitindo várias interpretações.
            Na dinastia Han (151-41 a.C.) o Tao Te King foi adotado como um dos principais manuais da corte. Surgiu também a versão de que ele teria sido escrito por um rei, o Huang Di (Imperador Amarelo). No final desse período, o taoismo já era uma religião, com o Tao sendo considerado seu livro sagrado. A lenda de que Lao Tse teria deixado a China chegou mesmo a ser ampliada do modo que ele teria ido para a Índia, trocado de nome para Gautama e fundado o budismo. Aliás, ao entrar na China, o Budismo foi influenciado pelo taoísmo, dando origem ao Zen Budismo.

Tao - indo além da dualidade

            O principal conceito do taoísmo é de Tao. Lao Tse diz que era impossível descrever o Tao de maneira racional: “O caminho que pode ser seguido não é o Caminho Perfeito. O nome que pode ser dito não é o Nome eterno. No principio está o que não tem nome”. Assim, o Tao deve ser conhecido de maneira direta e intuitivamente. Para isso é necessário manter a mente tranqüila e esquecer os pensamentos a respeito das coisas eternas.
            Para conseguir compreender o Tao também é necessário ir além da dualidade. Nós achamos alguém belo e, por conseguinte, achamos outras pessoas feias. Ao concebermos o bem, criamos o mal. O Tao pretende ir além da ilusão da dualidade, vendo além dos pares opostos.

Eterna mudança
            Para os taoistas, a realidade é vista como um fluxo contínuo de mudanças. A essência de todas as coisas é justamente o fato de que elas estão em constante transformação.
            Os taoistas acreditavam que não só a mudança era parte essencial da vida, como era possível entender como ela acontecia harmonizando-se com a natureza e seu fluxo.
            Assim, o Tao é caracterizado como uma mudança cíclica. Dessa forma, afastar-se significa retornar. Se alguém andar ininterruptamente para oeste, acabará chegando a leste. Quando uma situação atinge seu ponto extremo, é compelida a voltar e se tornar seu oposto. Essa crença dá aos taoistas coragem e perseverança nos períodos de dificuldade cautela nos períodos de sucesso. Eles seguem uma doutrina de meio-termo evitando o excesso e o exagero, pois sabem que uma atitude extrema gera seu oposto.

Simplicidade
            Lao Tsé achava que o modo correto de viver era através da simplicidade e da sintonia com o Tao. Adaptação e humildade são virtudes vista como essenciais para os líderes, pois aquele que se intromete com violência no curso natural das coisas prejudica a si mesmo, a sociedade e causa o caos. O bom governo é aquele que menos se intromete na sociedade, deixando que ela cumpra seu curso natural: “Quanto mais leis e mandamentos existirem, mais bandidos e ladrões haverá”.
            As pessoas em posição de comando tendem a se achar melhor do que outras. Contrariando isso, o Tao Te King diz que o homem sábio não tenta se mostrar acima das outras pessoas. Constantemente, pessoas que falam demais são as menos sábias. Muitas pessoas ricas parecem não ter nada. Já por outro lado, pessoas enfeitadas de jóias e com roupas de marca muitas vezes moram em uma casa na favela.
            Da mesma forma, muitos acreditam que pessoas em alta posição devem estar em constante atividade, o que as deixa estressadas e impossibilita ver os fatos com ponderação. Como resposta, o taoísmo aconselha exercícios meditativos que conservam a energia e produzem um estado de quietude e equilíbrio.

I-ching
            As mudanças constantes do universo são representadas nas figuras do Yin Yang. Yang representa a força masculina do universo, violenta, criadora. Yin é a força feminina, receptiva, flexível. Yin é a intuitiva, meditativa e complexa. Yang é racional, criativo e ativo.
            Na filosofia taoista, Yin e Yang são elementos do mesmo processo.  Quando um chega ao seu auge, engendra o outro. Ser sábio é combinar esses dois pólos, harmonizando Yin e Yang.
O estudo do ciclo de Yin Yang, embora seja muito influenciado pelas ideias taoistas, é comum a toda a cultura chinesa e já existia em um livro ancestral, o I-ching.
            A mais antiga forma de adivinhação chinesa era a leitura de sinais nos ossos de bois, surgidos depois que eram expostos ao fogo. Daí foi criada a adivinhação em cascas de tartaruga. Na dinastia Shang, o oráculo era consultado com o uso de varetas. O sábio jogava as varetas e determinava se a linha era inteira ou cortada. Depois de jogar seis vezes, formava-se o hexagrama e era possível interpretar seu significado.
            Em torno do ano 1150 a.C., o imperador Shang Chou Hsin mandou prender o governador da província de Chou, o rei Wen. Na prisão, ele elaborou os julgamentos dos hexagramas. Posteriormente, seu filho tomou o poder, tornando-se imperador e, descobrindo o trabalho do pai, resolveu ampliá-lo, escrevendo os comentários às linhas mutáveis. Posteriormente, o oráculo foi enriquecido com comentários atribuídos a Confúcio e seus discípulos. 
            O I-ching não é um livro de adivinhações, pois ele não prevê o futuro, mas estabelece o estado em que as coisas estão, analisando a mudança e a relação entre as forças Yin e Yang.
            Por exemplo, no primeiro hexagrama, todas as linhas são inteiras. A imagem formada representa uma situação apenas de linhas fortes Yang, que significam força, criatividade e liderança, razão pela qual esse hexagrama é normalmente chamado de O criativo. O julgamento diz que as forças do céu impelem o homem e o ajudam a iniciar ou levar adiante um empreendimento. O comentário diz que “as forças da natureza favorecem tudo aquilo que se inicia”.
            O hexagrama oposto, chamado de O receptivo, é formado apenas por linhas cortadas, representando Yin, a passividade, a dedicação e concórdia, a diplomacia, a perseverança e a paz. O julgamento diz que o sucesso está garantido se a pessoa que consulta o oráculo colaborar e se deixar conduzir, mantendo-se sempre flexível e disponível. O comentário diz que “Ser receptivo é muito importante, pois todos os seres lhe devem o nascimento. Como a Terra, cuja função é receber a semente que depois darão os frutos, também obterá muitos benefícios aquele que souber tolerar e compreender as pessoas e as situações”.

Rituais
            No taoísmo religioso, um dos principais rituais é o de iniciação. Ele é usado para introduzir aqueles que estão interessados em tomar o taoísmo como seu caminho espiritual. A cerimônia pode ser bem simples ou mais elaborada, mas tanto em um caso como outro, são estabelecidos compromissos entre mestre e discípulo. Os iniciantes passam a receber proteção dos mestres taoístas. Os iniciados também podem participar, de modo que são renovadas as bênçãos dos mestres.
            No ritual de purificação são feitos pedidos de desenvolvimento espiritual. No ritual de oferenda são realizadas oferendas de frutas, flores, incenso, velas e alimentos para as divindades como forma de agradecimento e devoção. As oferendas representam desprendimento das coisas materiais e dedicação ao caminho de transformação espiritual. Através delas, Yin e Yang são fundidos, criando um estado de unidade no praticante.
            Cada oferenda tem um significado. O incenso simboliza a transcendência e dissolução do ego, correspondendo ao conceito de Wu Wei (ação não-intencional). As flores simbolizam a vida e correspondem ao conceito de Dzé Zan (natureza e naturalidade). As frutas simbolizam o desapego e desprendimento em relação aos valores materiais. A água e o chá representam a purificação e a remoção dos apegos, correspondendo ao conceito Chin Jin (Transparência e Pureza). Finalmente, as velas simbolizam o encontro de nossa Consciência com a Consciência Sagrada, correspondendo ao conceito Suen Hua (Transformação Natural).
            Nos templos taoístas também são feitos rituais de casamento, benção de crianças e ritos fúnebres.

O TEI-GI
            O  Tei-Gi, também conhecido como Yin Yang, é um famoso ícone popular. Mas poucos sabem o que significa. Seu desenho, na verdade, é uma interpretação icônica dos princípios do taoísmo. A figura é formada por duas partes, uma preta e outra branca. São os pares opostos, o Yin e o Yang: o masculino e feminino, o feio e o belo, o bom e o mal.
            As figuras formam uma espécie de onda, como se fosse a água se movimentando. Isso simboliza a eterna mudança, base de toda a criação. Então, os pares opostos não estão estaques, mas em movimento. Uma mulher que hoje é bela amanhã pode se tornar feia. O que hoje é bem, pode ser o mal. Assim, no auge da parte branca, temos um pequeno círculo preto, demonstrando que o auge de um estágio é o começo do estágio seguinte. O auge do sucesso marca o início da decadência, etc.
            Dessa forma, os pares opostos não são absolutos: o belo traz em si também o feio. O feio traz em si o belo. A imagem permite ver os pares opostos em uma perspectiva global e é o que faz o taoísta, indo além deles. Assim, para o taoísta, vitória e derrota são apenas dois lados da mesma moeda e não se deve apegar a nenhum deles, pois seria estar parado em um mundo de eterno movimento. 

domingo, maio 17, 2026

O budismo e a superação do sofrimento

 

A questão do sofrimento é a espinha dorsal da doutrina budista. Na verdade, a própria transformação de Sidarta Gautama em Buda inicia com uma jornada de sofrimento.

Gautama era um príncipe que foi criado pelo pai longe de tudo que pudesse ser desagradável. Preso dentro de um palácio em que tinha de tudo do bom e do melhor, um dia ele resolveu sair e encontrou um homem doente. Quando descobriu que ele também um dia ficaria doente, isso o deixou extremamente abalado. Em outra vez que saiu do palácio, ele encontrou com um homem velho. Ele nunca havia visto pessoas velhas e quando soube que também ele ficaria velho, isso o aterrorizou. Finalmente, numa terceira vez, ele viu um enterro e descobriu que ele também um dia iria morrer. Imaginem o horror da situação.

Para se livrar desse sofrimento, Sidarta inicia uma jornada que o faria se elevar à condição de Buda. Em sua iluminação, ele descobriu quatro nobres verdades: A verdade da existência do sofrimento; a verdade da causa e da origem do sofrimento; a verdade da cessação do do sofrimento; o caminho que conduz à extinção do sofrimento.

Embora seja normalmente traduzida como sofrimento, a palavra usada por Buda era “dukkha”. Dukkha era uma roda de carro de boi mal-feita, em que o orifício está mal centrado, o que faz com que ela se encaixe imperfeitamente no eixo, deixando a roda desalinhada. A dukkha fazia com que o carro sacolejasse e a viagem fosse acidentada, incômoda, um sofrimento.

Era uma metáfora: quando nossa mente não está centrada, o resultado é sofrimento.

As escrituras budistas dividem a dukkha em três categorias: dukkha do sofrimento comum; dukkha da transformação; dukkha do condicionamento.

Dukkha do sofrimento comum é o tipo mais óbvio de sofrimento: a doença, a velhice, a morte. Damos uma topada na mesa e sentimos dor. Ficamos velhos e sentimos dor nas mais variadas partes do corpo, adoecemos com mais facilidade. Esse tipo de dor é inevitável, mas o budismo nos ensina a lidar com ele de forma a sofrermos menos.

Dukkha da transformação é um tipo mais sutil e psicológico. O mundo está em constante transformação, em eterna mudança, mas tememos isso e nos protegemos numa fortaleza pessoal. Vivemos um momento de alegria e queremos que esse momento dure para sempre. Vivemos um momento de glória e queremos que esse momento dure para sempre. Experimentamos uma vitória e queremos jamais experimentar a derrota.

Mas é impossível agarrar esses momentos. O mundo está em eterna transformação. Num momento estamos felizes, no outro tristes. Num momento estamos no auge da vitória, no momento seguinte experimentamos a queda e a derrota. 

Quando o mundo à nossa volta se transforma, isso provoca sofrimento porque nos negamos a aceitar essa mudança.

O medo da transformação pode provocar inclusive tragédias, como nos casos dos homens que matam suas companheiras por ciúmes. Há um caso emblemático de um homem que era casado com um mulher de sorriso lindo, que garantia elogios de todos. Com ciúmes, ele pegou um martelo e quebrou todos os dentes dela. Ele tinha uma mulher linda, com um sorriso perfeito e deveria se sentir feliz com isso, mas, com medo de perdê-la, preferiu machucá-la e acabar com aquele sorriso. O medo da mudança fez com que ele não conseguisse aproveitar a companhia de uma pessoa tão bela.

O budismo nos ensina a viver o momento presente, sem nos atormentarmos com o futuro ou com o passado. O presente é o que realmente importa. Ao focarmos no futuro, perdemos o momento presente. Quantas vezes não olhamos para o passado e não percebermos o quanto tínhamos sido felizes em determinada situação, mas não havíamos valorizado isso?

O Dukkha do condicionamento é também chamado de sofrimento de fundo. É uma sensação de ansiedade, nos que nos leva a criar uma fortaleza à nossa volta para nos defender do fluxo da vida. "Renato Russo sintetizou isso nos versos: Tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor".

Ao aprendermos a lidar com as situações, mantemos centralizada a nossa mente, superando a dukkha.

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

O zen e o epicurismo

 


O budismo e o epicurismo surgiram em períodos relativamente próximos e há tempos tenho observado muitos pontos de contato entre essas duas filosofias, o que pode significar que em algum momento houve alguma troca cultural (Epicuro teria entrado em contato com o budismo? Posteriormente o budismo teria assimilado algo do epicurismo?). Apresento aqui alguns pontos que considero semelhantes entre eles, mas lembrando que não sou exatamente um especialista no budismo (de modo que amigos que saibam mais sobre o assunto podem complementar).
Uma das bases do epicurismo é a ideia de moderação. Devemos ser moderados em tudo que fazemos, exercitando um auto-controle como forma de conseguir a felicidade. Mesmo algo que dá prazer, como comer, deixa de ser prazeroso se a pessoa se empanturra e passa mal (e, lembrando que, para Epicuro, prazer era o oposto de dor, se algo traz sofrimento não é prazer verdadeiro). Comer o suficiente, sorvendo os alimentos, é muito mais sábio que comer como um doido, mal sentindo o gosto do alimento. O mesmo vale para todas as outras instâncias da vida. Para Epicuro devemos ser moderados em tudo que fazemos. Lembra muito o caminho do meio da filosofia budista. Antes de se tornar Buda, Sidarta viveu primeiro uma vida de luxo e abundância, como príncipe. Depois tornou-se um asceta (e dizem que nessa fase ele comia um grão de arroz por dia). Quando se iluminou, percebeu que esses dois extremos eram negativos. O certo é não comer até se empanturrar e nem passar fome. Lembra as ideias de Epicuro, não?
Epicuro dizia que boa parte da nossa infelicidade é provocada pelo medo da morte. As pessoas deixam de viver o momento por medo do que acontecerá no futuro. E é um medo sem razão: se existir vida após a morte, ainda estaremos vivos, então não há porque temer a morte. Se não existir vida após a morte, então não estaremos lá para lamentar isso e, portanto, não fará diferença. Lembra muito a ideia zen-budista de foco no presente. A ideia é que não devemos nos preocupar com o que acontecerá no futuro, mas vivermos o momento presente da melhor forma. O meditação zazen, inclusive, ajuda nisso: em manter o foco no agora.
Epicuro dizia que tudo é formado de átomos, partículas elementares das quais tudo é feito e que as diferentes formas são apenas diferentes organizações desses átomos. Um cachorro é feito da mesma substância primordial de uma pedra. A ciência moderna resumiu esse pensamento no princípio de que somos feitos de poeira das estrelas. Lembra muito a ideia budista de vazio, em que as coisas são na verdade feitas de outras coisas, não tendo uma substância, uma essência. A essência de todas as coisas é a mudança. Assim, uma mesa não é uma mesa, ela está mesa (mas antes foi uma árvore, se foi feita de madeira).  
Epicuro era um crítico das filosofias deterministas (como o estoicismo) e acreditava que não existe destino, ou seja, o ser humano é dono de seu próprio destino, sendo o único responsável por suas decisões. Lembra muito as palavra do monge Genshô: “Se houvesse destino nossas decisões estariam prejudicadas pois o que quer que fizéssemos o destino decidiria por nós, um absurdo lógico, se assim fosse nenhum criminoso seria responsável e sim o destino, nenhum ato bom teria mérito também”.

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Kinhin: meditar andando

 

Quem nunca praticou zazen acha muito estranho quando ouve falar do Kinhin. Como assim? Meditar andando? Parece estranho, não parece? Afinal, a maioria das pessoas, quando pensa em meditação, pensa em alguém sentado, em descanso. Como acalmar a mente com o corpo em movimento?

Para começar, o Kinhin se encaixa perfeitamente na proposta budista de atenção plena, estar presente, estar centrado no aqui e agora. Isso pode ser feito em qualquer momento, em qualquer situação: quando a pessoa está tomando chá, comendo, e até mesmo andando.

Há um outro aspecto interessante nesse tipo de meditação: normalmente associamos movimento a pressa. Andando, queremos ir mais rápido possível, no carro, queremos acelerar o máximo possível. O Kinhin nos obriga a desacelerar.

O desafio, nesse tipo de meditação, é andar lentamente, no ritmo da respiração, cada respiração correspondendo a um passo e cada passo correspondendo a uma respiração. É necessária total atenção aos passos para cadenciá-los com o ato de respirar.

O andar também é diferente. No Kinhin não damos passos largos, apressados. Cada movimento corresponde a meio passo, começando sempre pelo pé direito. Os presentes andam um atrás do outro, em sentido horário. O grupo ainda acrescenta mais um elemento de atenção: é necessária total cuidado para não atropelar a pessoa da frente. No final, o grupo entra em harmonia, todos andando no mesmo ritmo.

Não por acaso, muitas pessoas relatam que a segunda parte do zazen, após o Kinhin, é muito mais produtiva: a mente está mais concentrada no momento presente e também mais leve.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

O taoismo e a superação dos pares contrários

 

Muita gente conhece, e até usa o símbolo aí em cima, mas pouca gente realmente sabe o que ele significa. O tei-gi é a representação visual dos princípios do taoismo uma filosofia-religião chinesa. Os taoistas acreditavam que a vida estava em constante mudança. Nada é eterno, nada é para sempre, tudo está em cosntante transformação. 
Mas essa transformação se dá de forma cíclica e é o que a figura mostra. Ela é formada por duas partes, uma preta e outra branca. São os pares opostos, o yin e o yang: o masculino e feminino, o feio e o belo, o bom e mal. Normalmente, quando interpretamos o mundo, usamos os pares contrários: fulano é belo, fulano é feio, fulano é vitorioso, beltrano é um derrotado. Mas a figura nos mostra que devemos transcender essa visão limitada.

As formas preta e branca formam uma espécie de onda, como se fosse a água se movimentando. Isso simboliza a eterna mudança, base de toda a criação. Os pares opostos não estão estaques, mas em movimento. Uma mulher que hoje é bela amanhã pode se tornar feia. O que hoje é bem, pode ser o mal. O que hoje é prazer pode se tornar dor. A vitória pode se transformar em derrota. 
O tei-gi nos ensina que no auge da parte branca, temos um pequeno círculo preto, demonstrando que o máximo de um estágio é o começo do estágio seguinte. O auge do sucesso marca o início da decadência. O auge da derrota pode ser o início da vitória. Exemplo: no início da década de 1940, quando invadiram a Rússia, os nazistas viviam seu maior momento e parecia que eles eram invencíveis. Mas foi justamente nesse período que os rumos da guerra começaram a virar em favor dos aliados. 
Dessa forma, os pares opostos não são absolutos: o belo traz em si também o feio. O feio traz em si o belo. A imagem permite ver os pares opostos em uma perspectiva global e é o que faz o taoista, indo além deles. Assim, para o taoista, vitória e derrota são apenas dois lados da mesma moeda e não se deve apegar a nenhum deles, pois seria estar parado em um mundo de eterno movimento.

quarta-feira, outubro 29, 2025

O budismo é uma negação do mundo?

 


Há uma visão comum de que o budismo seria um tipo de alienação do mundo. Nessa visão, o budista viveria numa bolha de coisas belas e agradáveis onde não haveria espaço para notícias de mortes, doenças e sofrimento. Nada poderia ser mais equivocado que essa imagem.

Sidarta Gautama, que viria a se tornar o Buda, foi criado num palácio no qual não podia penetrar nada feio ou doloroso. Nada de morte, doença, velhice, sofrimento. Nada que pudesse aflingir o seu espírito. Apenas as belezas da vida numa existência de eterna alegria e tranquilidade.

Quando sai do palácio, Sidarta encontra uma pessoa doente, depois uma pessoa envelhecida e finalmente um enterro. Essa revelação provoca nele uma tremenda crise existencial. Até então vivendo num mundo de felicidade eterna, ele se viu frente a frente com a realidade do mundo, onde o sofrimento não só existia como na maioria das vezes era a regra.

Muitas pessoas voltariam para a fortaleza onde só existiam coisas agradáveis e belas, mas Sidarta Gautama percebeu que aquele castelo  de alegrias e paz de espírito era apenas uma ilusão.  Para alcançar a verdadeira paz de espírito, o primeiro passo era admitir a existência do sofrimento.

Mais tarde, quando despertou (Buda significa aquele que acordou), Sidarta percebeu que aquilo que ocorrera com ele era apenas um exemplo extremo do que ocorre com a maioria das pessoas. Elas constroem ao redor de si uma fortaleza para se abrigar de todas as tristezas do mundo, um local onde não entram notícias de doenças, mortes, tragédias. E é exatamente essa fortaleza que impede que consigam alcançar a iluminação e a superação do sofrimento. Como dizia Renato Russo, “Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”.

Segundo Alan W. Watts, autor do livro O espírito do zen, o homem sofre devido ao seu desejo de possuir e manter para sempre coisas que, por essência, são impermanentes. “Dentre essas coisas, a principal é a sua própria pessoa, pois ela é o meio que serve para se isolar do resto da vida, seu castelo”.

Ainda segundo esse autor, a pessoa acredita que essa posição fortificada e isolada é o melhor meio para obter a felicidade. Mas “Buda ensinou que todas as coisas, incluindo esse castelo, são essencialmente  impermanentes e que tão logo o homem tente possuí-las, elas escapam”, explica Alan W. Watts. A frustação de não conseguir manter essa bolha gera o sofrimento.

Assim, o budismo não tem a função de nos isolar do mundo. Ao contrário, ele nos ajuda a entender que o mundo é feito de doenças, sofrimento e morte (essa é a primeira nobre verdade) – e aprender a lidar com esses fatos da vida.  

Um exemplo disso são as doenças. Ignorar as notícias sobre o assunto só vai fazer com que fiquemos ainda mais propensos a adoecermos já que não saberemos como nos proteger.

Outro exemplo é a violência urbana. Ao ignorar esse perigo podemos ficar ainda mais propensos a sermos vítimas dessa violência.  

Isolar-se do mundo, negando-se a receber qualquer notícia que aflinja nosso espírito é apenas criar para si uma ilusão que irá provocar ainda mais sofrimento, pois, como toda ilusão, ela não pode ser mantida. Só podemos superar o sofrimento se tivermos consciência da existência do sofrimento.

quinta-feira, julho 10, 2025

O budismo não é uma negação da realidade

 

A maioria das pessoas tem uma interpretação equivocada da palavra zen. No linguajar popular, ficar zen significa algo como ficar alegre, ficar feliz ou até mesmo alienado do mundo. Frases que já ouvi: “Fulano é zen, está sempre com um sorriso no rosto”; “Beltrano é zen, pode cair o mundo à volta dele que ele nem liga”.  É o famoso “está tudo bem, está tudo zen”.

 Essa, no entanto, é uma interpretação equivocada do zen budismo e do zazen.

 Para explicar isso é interessante recorrer a uma historinha.

 Várias pessoas estavam viajando num ônibus quando o motorista teve um ataque cardíaco. A reação da maioria das pessoas foi de desespero: “O ônibus vai bater! Vamos morrer! Vamos morrer!”. Outros entraram num processo de negação: “Está tudo bem, nada vai acontecer, está tudo ótimo!”. Havia um monge zen budista no ônibus. Este levantou do seu lugar, foi até a cabine do motorista, tirou-o da cadeira, sentou no lugar, freiou o ônibus e desligou o motor.

 A história demonstra bem o conceito: o budismo (e, portanto, o zen) não é uma negação da realidade, nem o desespero com a realidade.

 Buda já dizia: o mundo é dukka (uma palavra que, de forma simplista, pode ser traduzida como sofrimento). Inevitavelmente iremos passar por momentos de sofrimento: vamos ficar doentes, vamos ficar velhos, vamos morrer.

 O sofrimento físico existe, assim como o sofrimento psicológico. Negar isso não traz benefício nenhum. Tanto que a primeira nobre verdade é a existência do sofrimento. Uma atitude negacionista é totalmente isolória e não leva a nada.

 Não adianta, por exemplo, chegar com alguém que está com depressão e dizer: “Você não deve ficar em depressão, deve ficar feliz, seja feliz!”. Ou chegar para alguém que acabou de perder um ente querido e dizer: “Não fique triste, seja feliz!”.  O problema existe, negar ele não só não ajuda como pode piorar as coisas.

 Por outro lado, o desespero também só piora a situação. Desesperar-se com algo que ainda vai acontecer, como aliás aconteceu com Buda quando descobriu que ia adoecer, envelhecer a até morrer, só pode trazer resultados negativos.

 Como o monge da história, devemos estar conscientes da situação e devemos aprender a lidar com ela.

 Se alguém está em depressão, o que levou a isso? Como isso pode ser resolvido? Essa atitude é muito mais válida do que desesperar-se com a situação ou simplesmente negá-la. Estar consciente de si e do mundo é a base do budismo, a atenção plena.

 A meditação zazen é um passo essencial desse processo. Não é por acaso que muitos não se adaptam. Ali é você com você mesmo, consciente da sua situação e tendo que encontrar maneiras de lidar com isso. Não há ninguém pegando na sua mão e lhe apresentado soluções mágicas.

 A perna está dormente depois de vários minutos de meditação? Simplesmente ignorar isso não serve de nada, assim como desesperar-se e sair da posição. Você precisa entender a dor a aprender a lidar com ela. O mesmo ocorre com os fatos psicológicos. Muitas vezes, problemas surgem na hora do zazen é necessário aprender a lidar com eles, sem negá-los ou desesperar-se.

 Nesse sentido, o zazen é aprendizado para a vida. Um aprendizado que nos distancia tanto da negação quanto do desespero, mas, ao contrário, mantém o foco na percepção do instante presente. 

quarta-feira, julho 09, 2025

I-ching, o livro das mutações

 


            As mudanças constantes do universo são representadas nas figuras do Yin Yang. Yang representa a força masculina do universo, violenta, criadora. Yin é a força feminina, receptiva, flexível. Yin é a intuitiva, meditativa e complexa. Yang é racional, criativo e ativo.

            Na filosofia taoista, Yin e Yang são elementos do mesmo processo.  Quando um chega ao seu auge, engendra o outro. Ser sábio é combinar esses dois pólos, harmonizando Yin e Yang.

O estudo do ciclo de Yin Yang, embora seja muito influenciado pelas ideias taoistas, é comum a toda a cultura chinesa e já existia em um livro ancestral, o I-ching.

            A mais antiga forma de adivinhação chinesa era a leitura de sinais nos ossos de bois, surgidos depois que eram expostos ao fogo. Daí foi criada a adivinhação em cascas de tartaruga. Na dinastia Shang, o oráculo era consultado com o uso de varetas. O sábio jogava as varetas e determinava se a linha era inteira ou cortada. Depois de jogar seis vezes, formava-se o hexagrama e era possível interpretar seu significado.

            Em torno do ano 1150 a.C., o imperador Shang Chou Hsin mandou prender o governador da província de Chou, o rei Wen. Na prisão, ele elaborou os julgamentos dos hexagramas. Posteriormente, seu filho tomou o poder, tornando-se imperador e, descobrindo o trabalho do pai, resolveu ampliá-lo, escrevendo os comentários às linhas mutáveis. Posteriormente, o oráculo foi enriquecido com comentários atribuídos a Confúcio e seus discípulos.

            O I-ching não é um livro de adivinhações, pois ele não prevê o futuro, mas estabelece o estado em que as coisas estão, analisando a mudança e a relação entre as forças Yin e Yang.

            Por exemplo, no primeiro hexagrama, todas as linhas são inteiras. A imagem formada representa uma situação apenas de linhas fortes Yang, que significam força, criatividade e liderança, razão pela qual esse hexagrama é normalmente chamado de O criativo. O julgamento diz que as forças do céu impelem o homem e o ajudam a iniciar ou levar adiante um empreendimento. O comentário diz que “as forças da natureza favorecem tudo aquilo que se inicia”.

            O hexagrama oposto, chamado de O receptivo, é formado apenas por linhas cortadas, representando Yin, a passividade, a dedicação e concórdia, a diplomacia, a perseverança e a paz. O julgamento diz que o sucesso está garantido se a pessoa que consulta o oráculo colaborar e se deixar conduzir, mantendo-se sempre flexível e disponível. O comentário diz que “Ser receptivo é muito importante, pois todos os seres lhe devem o nascimento. Como a Terra, cuja função é receber a semente que depois darão os frutos, também obterá muitos benefícios àquele que souber tolerar e compreender as pessoas e as situações”.

quinta-feira, maio 22, 2025

O budismo e a superação do sofrimento

 

A questão do sofrimento é a espinha dorsal da doutrina budista. Na verdade, a própria transformação de Sidarta Gautama em Buda inicia com uma jornada de sofrimento.

Gautama era um príncipe que foi criado pelo pai longe de tudo que pudesse ser desagradável. Preso dentro de um palácio em que tinha de tudo do bom e do melhor, um dia ele resolveu sair e encontrou um homem doente. Quando descobriu que ele também um dia ficaria doente, isso o deixou extremamente abalado. Em outra vez que saiu do palácio, ele encontrou com um homem velho. Ele nunca havia visto pessoas velhas e quando soube que também ele ficaria velho, isso o aterrorizou. Finalmente, numa terceira vez, ele viu um enterro e descobriu que ele também um dia iria morrer. Imaginem o horror da situação.

Para se livrar desse sofrimento, Sidarta inicia uma jornada que o faria se elevar à condição de Buda. Em sua iluminação, ele descobriu quatro nobres verdades: A verdade da existência do sofrimento; a verdade da causa e da origem do sofrimento; a verdade da cessação do do sofrimento; o caminho que conduz à extinção do sofrimento.

Embora seja normalmente traduzida como sofrimento, a palavra usada por Buda era “dukkha”. Dukkha era uma roda de carro de boi mal-feita, em que o orifício está mal centrado, o que faz com que ela se encaixe imperfeitamente no eixo, deixando a roda desalinhada. A dukkha fazia com que o carro sacolejasse e a viagem fosse acidentada, incômoda, um sofrimento.

Era uma metáfora: quando nossa mente não está centrada, o resultado é sofrimento.

As escrituras budistas dividem a dukkha em três categorias: dukkha do sofrimento comum; dukkha da transformação; dukkha do condicionamento.

Dukkha do sofrimento comum é o tipo mais óbvio de sofrimento: a doença, a velhice, a morte. Damos uma topada na mesa e sentimos dor. Ficamos velhos e sentimos dor nas mais variadas partes do corpo, adoecemos com mais facilidade. Esse tipo de dor é inevitável, mas o budismo nos ensina a lidar com ele de forma a sofrermos menos.

Dukkha da transformação é um tipo mais sutil e psicológico. O mundo está em constante transformação, em eterna mudança, mas tememos isso e nos protegemos numa fortaleza pessoal. Vivemos um momento de alegria e queremos que esse momento dure para sempre. Vivemos um momento de glória e queremos que esse momento dure para sempre. Experimentamos uma vitória e queremos jamais experimentar a derrota.

Mas é impossível agarrar esses momentos. O mundo está em eterna transformação. Num momento estamos felizes, no outro tristes. Num momento estamos no auge da vitória, no momento seguinte experimentamos a queda e a derrota. 

Quando o mundo à nossa volta se transforma, isso provoca sofrimento porque nos negamos a aceitar essa mudança.

O medo da transformação pode provocar inclusive tragédias, como nos casos dos homens que matam suas companheiras por ciúmes. Há um caso emblemático de um homem que era casado com um mulher de sorriso lindo, que garantia elogios de todos. Com ciúmes, ele pegou um martelo e quebrou todos os dentes dela. Ele tinha uma mulher linda, com um sorriso perfeito e deveria se sentir feliz com isso, mas, com medo de perdê-la, preferiu machucá-la e acabar com aquele sorriso. O medo da mudança fez com que ele não conseguisse aproveitar a companhia de uma pessoa tão bela.

O budismo nos ensina a viver o momento presente, sem nos atormentarmos com o futuro ou com o passado. O presente é o que realmente importa. Ao focarmos no futuro, perdemos o momento presente. Quantas vezes não olhamos para o passado e não percebermos o quanto tínhamos sido felizes em determinada situação, mas não havíamos valorizado isso?

O Dukkha do condicionamento é também chamado de sofrimento de fundo. É uma sensação de ansiedade, nos que nos leva a criar uma fortaleza à nossa volta para nos defender do fluxo da vida. "Renato Russo sintetizou isso nos versos: Tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor".

Ao aprendermos a lidar com as situações, mantemos centralizada a nossa mente, superando a dukkha.

quarta-feira, fevereiro 19, 2025

O gato budista

 


Leandro karnall diz que o gato é budista. Ele conta que quando Buda morreu, todos os animais fizeram uma fila para homenageá-lo e conseguir a iluminação e o único que não compareceu foi o gato. Ao ouvir o cachorro criticar o gato, Buda teria dito: "O gato foi o único que entendeu o budismo".
Há uma máxima segundo a qual, se você encontrar Buda, deve matar Buda. Isso porque Buda não está lá fora. O Buda está dentro de cada um. Nos templos zen não se faz reverência para o buda de madeira, para a imagem, mas para o buda que está dentro de todas as outras pessoas que estão meditando. Cada um é responsável por sua própria iluminação.
O cachorro deve ser disciplinado, o gato é auto-disciplinado. O cachorro deve seguir a um líder, um dono, que lhe diz o que fazer e como fazer. O gato só segue a si mesmo. O gato não precisa que alguém lhe diga para tomar banho: ele mesmo se limpa. O gato não precisa que alguém lhe diga onde fazer suas necessidades. Se há local adequado, ele fará lá, e cobrirá depois.
Há uma velha história sobre um mestre equilibrista que ensinava um discípulo. Em um dos números, o discípulo equilibrava-se sobre uma corda e o mestre equilibrava sobre a cabeça dele. E o discípulo disse: "Cuide de mim e eu cuido de você" ao que o mestre replicou: "Não, cuide de você eu cuido de mim, assim estaremos cuidando dos dois!". De fato, se o discípulo perdesse o equilíbrio, o mestre cairia com o ele.