sábado, setembro 12, 2026

Basílica de Sacré-Cœur

 


A Basílica de Sacré-Cœur (Sagrado Coração) é uma das mais famosas igrejas de Paris. Construída no final do século XIX, ela resgatou a arquitetura romana e bizantina, com paredes sólidas.
A igreja é adornada com belíssimos vitrais, pinturas e esculturas – e uma réplica do santo sudário. E, embora tenha um estilo arquitetônico oposto ao de Notre Dame, também tem várias gárgulas que podem ser vistas na lateral do prédio.

A basília fica no alto do Monte Martre, o local mais alto de Paris e de lá é possível observar toda a cidade. Nos arredores há dezenas de lojas de lembrancinhas, café, restaurantes e quiosques nos quais são vendidos os tradicionais sanduíches parisienses, com pão baguete.

A canção da guerreira Sonja

A personagem Sonja surgiu nos quadrinhos em Conan The barbarian 23, que adaptava uma história de Robert E. Howard,  mas só iria brilhar mesmo no número seguinte da revista, uma história original de Roy Thomas e Barry Smith.

A HQ já inicia com uma splash page da heroína (ou anti-heroina) dançando sobre uma mesa numa taverna durante o cerco a Makalet.

Os presentes aplaudem e entoam em uníssono: “Sou-nia!”. Era Roy Thomas ensinando os leitores como se pronunciava o nome da personagem. Logo depois a própria guerreira ruiva provoca uma luta que acaba envolvendo todos na taverna apenas para sair com Conan para um banho no lago.

Os censores encrencaram com a sensualidade da história. 


 Um dos quadros mostra como Thomas não só era um ótimo escritor de aventura, mas também sabia fazer humor. Quando Conan está brigando com um dos amigos de Sonia, um dos presentes diz: “Aposto dez aspers no cimério! Garanto que ele derruba o porco brituniano!”, ao que o outro responde: “Quê? Eu sou brituniano, filho de uma rameira!” e outro retruca: “Quê? Você ofendeu a nossa mãe?”. E assim a briga se torna generalizada.

Essa história chamou a atenção dos censores do comic code, que pediram, entre outras coisas, que barry Smith levantasse as mãos do cimério para a cintura da moça numa cena do lago. “Ah, e nem sei como não nos forçaram a reformular o quinto quadro! Será que não ocorreu a nenhum dos censores o que significavam os borbulhos e erupções ali na água?”, brincou Roy Thomas, tempos depois.

A tiara transforma-se numa cobra: ação! 


Na sequência ela convence Conan a invadir uma torre do palácio no qual estão os tesouros do rei. A garota ruiva tem a missão de recuperar um bracelete no formato de serpente, mas a peça se torna uma cobra de verdade nas mãos da guerreira.

Essa seria a última colaboração de Smith na revista de Conan, mas se tornaria célebre pelo detalhismo dos desenhos. Não seria a última história dele com o cimério. Pouco depois ele desenhou uma adaptação de Pregos vermelhos, história clássica de Howard, dividida em dois números e publicada na revista Savage Tales. Como a revista só saía de quatro em quatro meses, o desenhista pôde aplicar todo o nível de detalhismo que caracterizaria seu trabalho.

Yesterday - o filme

 


Danny Boyle é um dos maiores diretores da atualidade. E uma de suas principais características é o cuidado na escolha dos roteiros. Seus filmes são irretocáveis quanto a isso, desde o primeiro, Cova Rasa, até o oscarizado “Quem quer ser um milionário”, em que toda a vida do protagonista é contada através dos flash backs provocados por questões de um programa de perguntas e respostas.
Seu novo filme, Yesterday, segue na mesma linha. A trama parte de uma pressima absolutamente original: uma realidade em que os Beatles não existiram e apenas um músico se lembra de suas composições. Boyle (com roteiro de Richard Curtis) usa essa premissa para fazer não só um musical, mas uma belíssima homenagem ao quarteto de Liverpool.
Na história, Jack Malik, um descendente de indianos, sonha em ser um músico famoso, mas sua carreira parece destinada ao fracasso. Após a participação em um festival no qual teve um público insignificante, Malik decide abandonar a música. Mas algo acontece: há um blecaute mundial e ele é atropelado. Quando acorda, descobre que está em uma realidade em que ninguém se lembra dos Beatles e decide lançar as músicas do quarteto como se fossem dele.
O filme usa esse mote para costurar uma biografia, um musical, uma homenagem de forma extremamente divertida.
Por exemplo, em determinado ponto Malik percebe que não consegue lembrar das letras e visita Liverpool, passando pelos locais que foram referências paras as músicas do Beatles. Aliás, esse “processo” é um dos pontos altos do filme, com Malik descobrindo as divergências entre as duas realidades. À certa altura ele diz: “Eu não fumo, mas um cigarro cairia bem agora”, ao que alguém retruca: “O que é um cigarro?”. Em outro ponto ele pergunta sobre o Oasis e ninguém sabe e ele conclui: “Pensando bem, é óbvio” (afinal, se não existirem os Beatles, não existe o Oasis).
Isso tudo é entremeado por apresentações musicais, críticas ácidas à indústria fonográfica (maravilhosa a cena da reunião com os marqueteiros em que eles dizem que Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band é um título grande demais) e por uma história romântica.
No final, apesar da premissa de ficção científica, Yesterday é um filme simples, quase singelo, mas bonito e, ao mesmo tempo profundo. Danny Bolyle é um daqueles caras que nunca decepcionam.

Homem-aranha - aranha no mar

 


Um autor que não costuma ser associado ao Homem-aranha é Denny O´Neil. No entanto, ele chegou a escrever o personagem no início da década de 1990. Uma dessas histórias, “Aranha ao mar”, foi publicada no Brasil em 1985 na revista Homem-aranha 23. O volume tem uma bela capa de John Romita Jr, desenhista da história. O Romitinha estava na fase anterior ao seu estilo atual (amado por muitos, odiado por outros). Na fase dessa história, ainda imitava o pai, Romita Senior. Na trama, o aracnídeo enfrenta Namor (daí a bela capa com os dois em conflito em um navio).

O problema da HQ é que o Aranha é um personagem urbano e o Namor, marítimo. Há uma história clássica do Demolidor, escrita por Stan Lee, em que o homem sem medo enfrenta o rei dos mares, mas este vai até Nova York. O´neil preferiu levar o aranha até alto-mar em uma solução para lá de forçada e pouco verossímil. A conclusão do conflito entre os dois também é apressada e pouco convincente.
O aracnídeo enfrenta Namor no mar. 


O mesmo para a história seguinte, em que surge o Homem hídrico. O Aranha vence-o com jornais e roupas! Considerando que O´Neil foi responsável por uma das melhores fases do Batman, parece que estava de má-vontade quando escreveu as histórias do amigo da vizinhança.
Uma grata surpresa é outra história, do volume, protagonizada pela Mulher Aranha, com roteiro de Chris Claremont e desenhos de Steve Leialoha na qual a personagem enfrente Agar, o gritador. O vilão tem a capacidade de provocar alucinações com seus gritos, o que nos lega as melhores páginas do volume. 
Os dsenhos se destacam na história da Mulher-Aranha. 


Embora seja pouco mais que competente nas cenas normais, o desenhista se solta nas sequencias de alucinação, com um desenho que flui pela página, rompendo os limites da diagramação. Há, claro, todo o novelão característico de Claremont, mas as sequencias de alunciação valem ler até o final. Fico imaginando se esse dom lisérgico fosse melhor aproveitado em uma série em que o desenhista pudesse usar todo o seu potencial. 

A incendiária, de Stephen King

 


A incendiária é um livro de Stephen King escrito em 1980. 
A trama gira em torno de uma experiência governamental com alucinógenos, que provocam poderes paranormais. Duas das cobaias na experiência acabam se casando e gerando uma menina com o poder de provocar incêndios. A menina e os pais passam a ser monitorados por uma agência governamental chamada A oficina, mas tudo foge ao controle quando a menina vai passar alguns dias na casa de uma amiga e a Oficina acha que os pais estão tentando escondê-la. Após assassinarem a mãe, sequestram a menina, que acaba sendo resgatada pelo pai. Começa então uma perseguição que é o eixo da trama. 
Quem está acostumado com os livros mais recentes de King, com uma escrita mais solta, irá estranhar: A incendiária é um livro com narrativa mais técnica, um típico triller de suspense escrito de acordo com a cartilha. Mesmo assim King consegue dar um toque pessoal ao fazer uma narrativa cheia de flash backs e cinematográfica. 
O livro virou filme em 1984, dirigido por Mark L. Lester, com Drew Barrymore no papel principal, e é surpreendente que não tenha se tornado um sucesso, já que o texto é quase um roteiro cinematográfico. Em tempo: no Brasil o filme foi lançado como Chamas da Vingnaça.
Em todo caso, embora A incendiária não seja muito parecido com Carrie (e, na comparação, sai perdendo), é um bom livro, que empolga lá pela metade, mas empolga. Para os fãs de quadrinhos e FC, parece um bom episódio de X-men ou de Perry Rhodan na fase em que os mutantes eram mais relevantes.

Hair – análise do roteiro

 


Hair é um dos filmes musicais mais famosos de todos os tempos. Dirigido por Milos Forman e lançado em 1979, tem uma trilha sonora realmente épica. Mas o filme se destaca também pelo roteiro muito bem amarrado.
A história, baseada num musical homônimo da Brodway, acompanha as aventuras de um rapaz do interior do Texas que vai para Nova York se alistar para a guerra do Vietnã e conhece um grupo de hippies. O filme mostra os bastidores da contracultura da época em meio às críticas à guerra.
A trama inicia com Claude Bukowiski se despedindo do pai e pegando o ônibus para nova York. A imagem foca na pequena cidade e na capela local para depois pular para uma cena em pleno central park, com uma arrebatadora interpretação da música Aquarius.

É quando o protagonista conhece um quarteto hippie liderado por Berger,  e vê se apaixona por uma garota rica, Sheila Franklin, que passa por ali num cavalo.
Os hippies conseguem dinheiro e alugam um cavalo, mas são incapazes de manejá-lo e o perdem. Bukowiski consegue resgatar o cavalo e, estimulado por Berger, vai atrás da moça pela qual se apaixonou, fazendo uma exibição de montaria.
Segue-se uma sequencia em que os personagens consomem haxixe. Nessa cena temos a primeira aparição da música “Manchester England”, cantanda inicialmente por Berger, mas que se refere a Claude: “Eu sou um gênio gênio/Eu acredito em Deus/ E eu acredito que Deus/Acredita em Claude/Que sou eu que sou eu/ Claude Hooper Bukowski”. A letra da música é usada tanto para caracterizar o personagem Claude como alguém ingênuo, como ironia por parte de Claude. No final do filme, essa música voltará com outro significado.  
A famosa cena da festa.

Chegamos finalmente à famosa cena da festa. Berger tem a ideia de invadir uma confraternização da família Franklin para que Claude possa ter a chance de ver Sheila antes de ir para o Vietnã.
Mas o grupo acaba preso.
Quando são finalmente liberados (graças ao dinheiro da mãe de Berger), eles vão para o Central Park, onde Claude experimenta pela primeira vez LSD enquanto Jeannie, uma das hippies, pergunta se ele não gostaria de se casar com ela para escapar da convocação para a guerra.
A “viagem” de Claude mostra o quanto o roteiro é bem amarrado: as imagens são resultado direto dos ganchos do roteiro: a sugestão de Jeannie, a capela que aparece na primeira sequência, os Hare Krishna que passam cantando, Sheila, a festa invadida, está tudo ali, como se todos os acontecimentos mais recentes tivessem se misturado e embaralhado na cabeça do personagem.
Em seguida, Claude vai para o treinamento militar e Berger tem a ideia de visitá-lo. Com uma manobra conseguem o carro da família de Sheila, que vai junto para ver pela última vez o seu amor.
Mas quando chegam na base é impossível entrar: estão todos em alerta e os soldados não podem ter contato com civis. Sheila engana um sargento, rouba-lhe a roupa e o carro e Berger consegue entrar na base para levar Claude para o floresta, onde o grupo de hippies o espera.
Mas claude discorda: há contagens o tempo todo e ele não pode se ausentar.
A solução é sugerida por Berguer: trocar de lugar com Claude.
Aí surge a grande sacada do filme: enquanto Claude visita os hippies, o grupo de soldados é chamado a embarcar para a guerra. Berger tenta escapar, mas não consegue e acaba embarcando no lugar do amigo.
A trilha sonora e a sequência seguinte, em um cemitério deixam claro que ele morre no conflito.
A música "Manchester England" é resignificada no final do filme 

Esse plot twist tem sido celebrado por críticos com o ponto alto do filme. Mas há uma outra sacada genial: enquanto marcha para o avião, Berger canta a música que inventara para Claude logo no início do filme. Mas agora não há nada de alegre nela e a nova situação torna a letra totalmente irônica: “Eu sou um gênio gênio/Eu acredito em Deus/ E eu acredito que Deus/Acredita em Claude/Que sou eu que sou eu/ Claude Hooper Bukowski”.
Se a primeira sequência em que a música aparece, ela se refere a Claude, aqui ela se refere a Berger: sua ideia parecia genial, mas foi um desastre e agora ele é Claude. Ao usar a mesma música em dois momentos chaves do filme, com sentidos completamente opostos, o roteirista mostra que pensou o filme como um todo e foi capaz de brincar com seus significados das letras.

A arte encantada de Otoniel Oliveira

 


 

Otoniel Oliveira é quadrinhista, ilustrador, professor universitário, diretor e produtor de filmes de animação. Fundador do Iluminuras Estúdio de Animação, 

Em 2012, dirigiu e animou a série de interprogramas Icamiabas na Amazônia de Pedra (2013); Dirigiu o Curta de Animação o A História de Zahy (2017); Dirigiu, escreveu e fez o storyboard para o Iluminuras Estúdio de Animação de Filmes da série de TV com cinco episódios Icamiabas na Cidade Amazônia (2018), ganhadora do prêmio de Melhor Série de Animação no Festival ANIMAÍ.

Como quadrinhista profissional participou de coletâneas de quadrinhista escrevendo e desenhando histórias, como MSP 50 da Mauricio de Sousa Produções. Como roteirista e desenhista lançou os quadrinhos: Belém Imaginária (2004); Encantarias - A Lenda da Noite (2006); A trilogia Brasil 1500 lançada pela Editora Devir (2011-2013); escreveu desenhou e editou a Graphic Novel Pretérito Mais Que Perfeito (2015).












Um homem chamado Nova!

 


Entre os vários personagens da Marvel apresentados no Brasil pela RGE, certamente um dos que mais chamaram a atenção dos leitores foi Nova, criado por Marv Wolfman e Len Wein (com uniforme definitivo idealizado por John Romita).

O personagem, surgido em 1976 já com título próprio, foi pensando como um Homem-aranha com toques de ficção científica.

Essa mistura já era óbvia na primeira página da revista de estréia. A imagem mostrava uma nave singrando o espaço enquanto o texto dizia: “Gravação de registro dados 409: Não consigo me mover, meus braços e pernas foram esmagados por Zoor. Mas ainda preciso persegui-lo... aos confins da galáxia se for preciso”.

A página inicial sintetiza todos os elementos da série. 

Logo abaixo, numa grande cena de impacto, vemos um garoto franzino perdendo a bola de basquete para uma garota. O texto, criativo, conversava com o leitor: “Onde você estava ontem às 16h15? Se estava tomando sorvete de morango com refri no salão das delícias do Tio Calda, havia chance dessa história ser sobre você!”. E continuava:  “Contudo, no infortúnio de você não ter sido sortudo o bastante para estar lá, nós, da Marvel, sugerimos que se sente numa poltrona confortável, tire os sapatos e aproveite a eletrizante origem do novo herói mais espetacular sobre o qual você já teve o privilégio de ler... Nova!”.

Só nessa única página temos todos os elementos que fariam a fórmula de sucsso do personagem: o enredo de ficção científica, o protagonista azarado, vítima de bullying o texto divertido e a identificação com o leitor adolescente.

O protagonista é vítima do valentão da escola. 

O protagonista era um garoto de 17 anos, Richard Rider, que recebe poderes de um ser espacial para combater um vilão espacial que destruiu o planeta do Nova original e pretende conquistar a Terra.

A série era tão calcada no Homem-Aranha que Marv Wolfman até se permite um momento de metalinguagem em um balão de pensamento enquanto o herói enfrenta Zoor, o conquistador: “Sou super-herói há cinco minutos e já faço frases de efeito que nem o Wood Allen! Acho que lá no fundo há algo de tão bizarro e artificial em ter poderes especiais que você tem que fazer piadas durante as lutas”. O comentário é, sem dúvida, uma referência ao costume do aracnídeo de sempre fazer comentários jocosos enquanto troca socos com algum vilão.

A forma como era mostrado o herói voando era inovadora. 

Algo interessante no personagem, introduzido por John Romita, é a forma como ele é mostrado voando. A parte de baixo de seu corpo desaparece e no lugar surge um rastro de luz amarela. Nenhum outro personagem voador havia sido mostrado nos quadrinhos dessa forma. O efeito é impressionante.  

No Brasil esse personagem era carinhosamente conhecido pelos leitores como "Cabeça de balde".

sexta-feira, setembro 11, 2026

Viúva negra – A mais fria das guerras

 

Gerry Conway é um caso interessante de roteirista. Ele consegue ser muito bom quando trabalha com grandes artistas, como Garcia-Lopez. Vide a obra-prima Esquadrão Atari. Mas é totalmente mediano quando é ilustrado por desenhistas menos eficientes. Um exemplo dessa última categoria é a graphic novel Viúva negra – a mais fria das guerras, desenhada por George Freeman. A história começa bem, com a espiã impedindo a venda de um disquete com informações secretas do departamento de defesa dos EUA.
Ela é então abordada por agentes da KGB que lhe revelam que Alexei Shostakov está vivo. Paixão da vida de Natasha Romanov, ele era também o herói russo Guardião Vermelho. O personagem havia aparentemente morrido em uma aventura antiga dos Vingadores, quando a base onde estava foi destruída. Os agentes usam essa informação para chantagear a viúva e obrigá-la conseguir informações secretas da SHIELD – se ela não o fizer, ele será morto. Vindo da escola Stan Lee de roteiro, Conway dependia demais da narrativa visual do desenhista e a de Freeman não era das melhores, com muitos quadros por página e pouco uso de quadros de impacto. Ou seja: a história não tinha o ritmo narrativo adequado, mas mesmo assim se sustenta. O final, entretanto, é forçado, com uma solução praticamente tirada da cartola e pouco condizente com a personagem conhecida por sua astúcia. Entretanto, embora não seja uma grande obra, é uma leitura divertida e descomprometida. Essa história foi publicada no número 7 da coleção Graphic Marvel, da editora Abril.

Jornada nas estrelas - Por qualquer outro nome

 


O título do episódio “Por qualquer outro nome”, da série clássica de Jornada nas Estrelas se refere a uma frase de Shakespeare: uma rosa teria o mesmo perfume por qualquer outro nome que a chamassemos.

Embora essa relação não fique explícita no episódio, é possível imaginar porque essa frase era tão importante a ponto de se tornar o título.

Na história, a Enterprise recebe um pedido de socorro de uma nave num planeta desconhecido nos limites do espaço ocupado pela Federação.

Lá o grupo de descida é imobilizado e desarmado. O líder dos atacantes explica a Kirk que o pequeno grupo faz parte de uma tropa de invasão que perdeu a nave ao atravessar uma barreira que cerca a galáxia. Conquistadores, os kelvan precisam invadir uma nova galáxia em razão da galáxia ocupada pro eles estar repleta de radiação.

Enquanto fala, os outros intregrantes do grupo invadem e tomam o controle da Enterprise.

Assim que atravessam a barreira, os kelvans transformam a maioria da tripulação em estruturas calcárias. Parece que tudo está perdido e que a Enterprise servirá agora aos invasores até que Spock descobre um segredo sobre eles: para conseguir uma maior produtividade e eficiência, os kelvan abdicaram das sensações e sentimentos que poderiam distrai-los. Cabe agora a Kirk e os poucos oficiais que restauram explorar isso.

É aí que entra a citação do título, que remete diretamente ao mundo das sensações. Uma flor irá ter o mesmo perfume (sensação-sentimento), independente do nome que usarmos para designá-la (razão). É mais um dos muitos episódios de Jornada que exploram a essência da humanidade.

Embora tenha uma construção lenta e tenha uma resolução abrupta, é um bom episódio, que se encaixa muito bem naquilo que Jornadas tem de melhor: refletir sobre o que nos torna humanos.

Demolidor – Desmascarado

 


No número 163 da revista do Demolidor, o herói enfrentou o Hulk e ficou gravemente ferido. O número 164 mostraria a convalescência do personagem. Seria uma edição morna, desinteressante, mas o talento de Roger McKenzie e Frank Miller transformou essa hq numa das mais memoráveis do personagem, lembrada com carinho pelos leitores que a leram em superaventuras Marvel 3.

A história começa com vários heróis, como os Vingadores, fazendo uma visita ao enfermo no hospital. É quando um homem irrompe no quarto, apesar dos protestos dos enfermeiros. É o repórter Ben Urich, que pede para falar em particular com o Demolidor.

Aqui temos uma daquelas sequências geniais de Miller.

Da negação à confissão. 


O repórter diz que quer ajuda com uma história, a história de um garoto cego que superou suas deficiências para se tornar um advogado famoso e um herói, um homem sem medo.

O Demolidor nega imeditamente a relação, mas Ben coloca diante dele uma foto: “Se você não é matt murdock nem é cego, descreva essa foto para mim”.

Então vemos seis quadros verticais em tanto as falas quanto os gestos do personagem vão mudando. “Ora, bem, deixe de brincadeiras. É claro que não sou matt murdock! Além do mais, eu não tenho que provar nada para você. Isso tudo é um absurdo! Isso tudo é... verdade!”

A edição reconta a origem do personagem. 


Texto e imagem se unem numa sequência que funciona perfeitamente e mostra como o herói muda da negação inicial à confissão.

Essa trama é usada como desculpa para recontar a história do surgimento do Demolidor, que se tornou cego num acidente de trânsito e se transformou em herói para vingar seu pai boxeador assassinado pela máfia após se recusar a perder uma luta.

A estratégia não era novidade. A Marvel tinha como prática de tempos em tempos fazer uma edição apresentando os personagens para novos leitores. A novidade aí está na forma como isso foi feito.

Miller presta uma homenagem... 


Provavelmente a sequência de maior destaque dessa história seja de quando o Demolidor, em sua primeira aparição, persegue o mafioso responsável pela morte de seu pai. Miller presta uma homenagem a um dos seus ídolos, Bernie Krigstein, que, na década de 1950 publicou na DC comics a antológica história Raça superior, na qual um nazista é perseguido por um judeu sobrevivente de campo de concentração no metrô de Nova York.

... ao ídolo Krigstein. 


Miller não só coloca a sequência no metrô, mas imita, quase quadro a quadro uma das cenas da história de Krgstein, colocando outros elementos, como uma a representação gráfica dos batimentos cardíacos do mafioso, que reflete os sentidos do Demolidor.

Não se trata de cópia, mas de um mestre homenageando outro mestre.

Mestre Giles d´Aldeia, de J.R.R. Tolkien

 


Embora seja mais conhecido pela trilogia O senhor dos anéis, Tolkien tem também uma ampla produção de livros de fantasia com histórias fechadas. Exemplo disso é o volume Mestre Giles d´Aldeia, lançado no Brasil em uma belíssima edição da Harperkids.

O livro conta a história de um pacato fazendeiro que sem querer acaba se tornando um herói ao afugentar um gigante de suas terras. A narrativa une fantasia com humor, como se pode ver na descrição do cachorro do protagonista: “O nome dele era Ganido. Os cães deviam contentar-se com nomes curtos da língua nacional: o latim dos livros era reservado para seus superiores. Ganido não sabia falar nem mesmo um latim grosseiro, mas sabia usar a língua dos plebeus tanto para ameaçar e contar vantagens como para bajular”.

A sequência do gigante é hilária. Giles enche seu bacamarte de pedras e entulhos, mas quando vê o gigante fica tão assustado que, sem querer, dispara a arma. Um prego vai parar no nariz do monstro, que, achando que se trata de insetos gigantes, vai embora, não sem antes levar algumas ovelhas para o jantar.

O episódio tem duas consequências. Primeiro transforma Giles em um herói local a ponto dele receber do rei uma velha espada de presente. Segundo, o gigante passa a espalhar a notícia de aquela região é rica de vacas e ovelhas que podem ser comidos à vontade, o que leva um dragão a se aventura pelo local.

Como herói local, Giles é obrigado a enfrentar a fera. O primeiro diálogo entre os dois é de uma simplicidade e, ao mesmo tempo, de um humor único:

- Desculpe a pergunta, mas você está procurando por mim? – indaga o dragão.

Lá na frente, no segundo encontro entre o fazendeiro e o dragão, será travado o mesmo diálogo, mas com sinal invertido, de modo que o significado se torna oposto, o que mostra que Tolkien tinha pleno controle da obra, planejando muito bem até mesmo os menores falas dos personagens.

No final, Mestre Giles d´Adeia se torna uma parábola sobre como os poderosos usam os pobres a seu próprio benefício. É uma sutil, mas ferina crítica social.

Não bastassem os méritos do próprio livro, a edição da Harperkids é uma verdadeira preciosidade. Em formato 12 x 16 cm, capa dura, com fitilho, a obra também traz as belíssimas ilustrações de Pauline Baynes, que mimetiza com perfeição o estilo das iluminuras medievais. O único defeito é que, ao invés de colocar as ilustrações no meio do livro, elas foram colocadas no final.