terça-feira, setembro 01, 2026

Miracleman – Nêmesis

 



O ponto culminante da série Miracleman é, inegavelmente, o retorno de Kid Miracleman, arco que se inicia a partir da edição número 10 da revista.

No prelúdio desta história, os alienígenas responsáveis pela tecnologia que conferiu poderes aos Miracleman, visitam a Terra com o objetivo de destruir todos os seres superpoderosos. Nesse ínterim, surge mais um integrante da família: Miraclewoman. A personagem tinha mantido a consciência de seus poderes e se transformara em uma médica, atuando incógnita.

Miraclewoman, personagem criada por Alan Moore, torna-se fundamental na trama. 


A concepção de Winter, a filha de Miracleman, altera fundamentalmente o panorama. Um híbrido superpoderoso eleva a Terra à condição de "planeta inteligente". Como consequência, Miracleman e Miraclewoman são transportados para um planeta distante, onde uma conferência intergaláctica é convocada para decidir o destino de nosso planeta.

Enquanto isso, na Inglaterra, Johnny Bates (a identidade humana de Kid Miracleman) vive seu próprio inferno. Internado em um orfanato, ele sofre bullying constante dos outros garotos e resiste a dizer a palavra secreta que o transforma. Contudo, quando os garotos resolvem abusar sexualmente dele, ele finalmente se transforma, libertando seu lado maligno.

Johnny Bates resiste a se transformar em Kid Miracleman... 


Os agressores são mortos das formas mais cruéis possíveis. Ao sair do local, o vilão encontra uma enfermeira, a única pessoa que o havia tratado com dignidade. Ele finge poupá-la, apenas para voltar e esmagar sua cabeça com um soco. “Lamento. Diriam que eu fiquei frouxo, não?”, diz ele. Essa pequena sequência é simbólica: demonstra que já não há limite algum para a crueldade do personagem, cuja humanidade foi totalmente extinta.

... mas quando diz a palavra, o horror é solto no mundo. 


Quando Miracleman finalmente retorna à Inglaterra, encontra Londres transformada em um campo de extermínio. O texto descreve o horror: 

“As intermináveis horas que o maldito preenchera com séculos de sofrimento humano; as estreitas ruas laterais tomadas por quilômetros de dor. Tendo exaurido todas as crueldades banais conhecidas pelo homem ainda no início daquela tarde, ele havia avançado para inovações inconfundivelmente suas.”

Totleben se esmerou nos detalhes macabros... 


Se o texto de Alan Moore destacava a crueldade dos atos, o desenho de John Totleben torna visual todo esse horror: pessoas amarradas com arame farpado, cabeças empaladas, restos de corpos. Uma mulher com os olhos vazados e sem braços grita de dor enquanto seus filhos a acompanham, chorando.

A luta contra Kid Miracleman emerge como uma sequência visceral, superando em muitos pontos o que qualquer quadrinho de terror norte-americano havia publicado.

O desenho destaca a carnificina provocada por Kid Miracleman. 


No desfecho, para se salvar, Kid Miracleman reverte forçadamente para a forma de Johnny Bates. Resta a Miracleman tomar medidas drásticas para que essa ameaça jamais se repita, culminando em uma sequência pungente e inevitável.

Apesar de toda a popularidade de Watchmen, foi em Miracleman que Alan Moore se mostrou mais radical e foi mais longe em sua visão extrema da mitologia dos super-heróis. É lamentável que essa abordagem tenha sido, posteriormente, totalmente distorcida nos quadrinhos da década de 1990 (e, mais tarde, no cinema), resultando em heróis "realistas" e visões apocalípticas do futuro que parecem inteiramente forçadas.

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