domingo, agosto 02, 2026

Quarteto Fantástico – No micromundo do Dr. Destino

 


Em pouco tempo, o Quarteto Fantástico se tornou um sucesso absoluto junto ao público. Stan aproveitava isso para promover novos heróis da Marvel colocando-os em participações especiais no título. Esse foi o caso do Homem-Formiga no número 16.

Na história, o Doutor Destino, que todos acreditavam estar morto, na verdade, tinha se tornado o soberano do micromundo ao usurpar o poder do verdadeiro rei.

Todos os heróis tinham passado por uma situação de miniaturização. 


Fazendo um parêntese, o Dr. Destino deve ser o personagem de quadrinhos que mais vezes “morreu” e “renasceu”, o que mostra como Lee e Kirby ainda estavam testando e tentando entender como funcionavam as histórias. Fica óbvio que ele era para ser um vilão de uma história só, mas logo conquistou os leitores, o que fez com que ele retornasse diversas vezes.

Voltando à trama, o Tocha chega ao edifício Baxter e encontra os outros heróis miniaturizados e sendo puxados pelo duto de ar. Após serem salvos, eles voltam ao tamanho normal.

Isso é um trabalho para... o Homem-Formiga! 


Passado o perigo, eles começam a conversar e descobrem que cada um deles passou por uma situação em que ficou muito pequeno do nada, como quando a Mulher Invisível estava sendo entrevistada em um programa de televisão.

Para decifar esse enigma eles resolvem chamar o Homem-Formiga, e aí você percebe que toda a trama tinha sido bolada exatamente para introduzir esse novo herói no título.

Os heróis seriam transformados em escravos... se não fosse a intervenção do... Homem-Formiga! 


Ao tomar o líquido fornecido pelo amigo, eles reduzem de tamanho até chegar ao micromundo do Dr. Destino, onde são presos e serão vendidos a répteis alienígenas para serem usados como escravos (sabe-se lá como o vilão conhecera esses ETs_. A situação é demonstrada com uma imagem de Sue descabelada, servindo uma espécie de sopa para os ETs.

Claro que no final, tudo se resolve da maneira mais fácil possível e o Destino é derrotado... só para voltar no número seguinte.

Demolidor - Caçadores

 

 

Uma das inovações de Miller no Demolidor foi introduzir humor nos comics de super-heróis, influência direta de Will Eisner. E a especialidade de Miller era o humor de repetição, em que a graça surje da repetição de ações.

Exemplo disso é a história publicada em Daredevil 176. Na trama, o protagonista perdeu seu radar após a explosão de uma bomba e precisa achar Stcick, seu mestre, para que ele o ajude. Essa é, aliás, a primeria referência o mentor do Demolidor. Até então, ninguém havia se preocupado em explicar como o personagem adquira tantas habilidades de luta e como aprendera a usar seus sentidos. Miller, de acordo com a tradição japonesa, tratou de arrumar um mestre para ele.

Miller, acertadamente, arranjou um mestre para o Demolidor. 


Mas Murdock não é o único em busca de seu mentor. Também a namorada do mesmo, Tucão e Elektra o estão procurando.

A única pista é um tal de Zoiúdo, que andou reclamando ter perdido dinheiro para Stick na sinuca.

No humor de repetição, as mesmas situações se repetem... 


A primeira a chegar é Elektra, que entra quebrando a janela. Apesar de tentar dar uma durão, o tal do Zoiúdo (que de fato Miller desenha como alguém vesgo e com olhos grandes) entrega logo toda a informação: “Sinuca do Duca. Nova avenida, sul da Houston. Porão”. Logo depois aparece o Tucão, agora equipado com um exoesqueleto, de forma que aparece destruindo tudo. “Tucão, cê atravessô minha parede... e estraçalhô minha cama, seu escroto do cara...”, reclama o outro. Mal ele se recupera disso, o Demolidor aparecendo quebrando a outra janela.

A situação é tão inusitada que o tal do zoiúdo resolve mudar de cidade. Está de saída, ainda de ceroulas, quando dá de cara com a namorada de Murdock segurando uma arma.

... de maneira diferente. 


O efeito é simplemente hilário e dá todo um charme para uma história que teoricamente não teria grandes atrativos, já que há pouca ação – o único momento mais quente de fato é quando Elektra enfrenta, de novo, o ninja Kirigi.

Fundo do baú - Super Galo

 

Super Galo (Super Chicken) é um desenho animado criado por Jay Ward e Bill Scott e produzido no ano de 1967. A atração se caracterizava pelo humor bizarro, a começar pelo conceito: um milionário chamado Rico Dondoco III combate o crime ao vestir uma roupa no estilo zorro e tomar um suco, que lhe confere poderes especiais. O suco é preparado pelo seu parceiro Fred, um leão vegetariano vestido com um pulôver com um “F” ao contrário.

Uma gag recorrente era o momento em que o personagem bebia o suco. Ele normalmente fazia algum comentário sobre o preparo (dessa vez você exagerou na mostarda, você colocou muito limão etc), mas era interrompido quando começava a transformação. Essa transformação era descrita pelo narrador: “O super suco funciona e rapidamente transforma o débil milionário num monte de músculos”, o que contrariava totalmente a imagem, já que o personagem continuava exatamente igual ao que era antes. Essa cena aliás, era usada para quebrar a quarta parede, por exemplo quando o Super Galo começa a soluçar no meio da transformação, atrapalhando o narrador, que reclama: “Já acabou?”; “Eu acho que sim”, diz o herói, depois de três soluços.

Os vilões eram uma atração à parte: dr. Gozado, o Ostra, Robotudo, Merlin Brando (um trocadilho com Marlon Brando), entre outros.

Um exemplo do humor surreal do desenho: Em um episódio um vilão prende o Super Galo e Fred num foguete e os manda ao espaço. A cena seguinte os dois aparecem no seu castelo. Espantado ele pergunta: “Como você chegaram aqui?”. “Entramos pela janela”, responde o Super Galo.

Além do humor inteligente, Super Galo tinha uma das melhores aberturas de todos os tempos, repleta de humor bizarro e intercalada pelo cacarejar estridente do personagem, que também aparecia no final, no qual o personagem pilotava seu veículo no formato de ovo, o Galomóvel enquanto o narrador dizia: “Então, quando ouvirem aquele berro nos céus, saberão que é o Super Galo”. Havia variações, que deixavam o final ainda mais engraçado: “Então, quando ouvirem aquele berro nos céus, saberão que o Super Galo ainda não descobriu um jeito de aterrissar”.

Mocumentário: testando as fronteiras entre a realidade e a ficção

 


Um gênero cinematográfico que sempre suscitou discussões sobre a questão da realidade-ficção foi o documentário. Em uma abordagem mais clássica, o documentário é visto como o oposto da ficção, reproduzindo a bipolaridade ficção-realidade.
            Mas um novo gênero surge exatamente para contestar essa diferenciação: o mocumentary (ou, aportuguesando, mocumentário). 
            Provavelmente o primeiro exemplo célebre de mocumentário tenha sido Zelig, de Woody Alenn, de 1983. O pseudo-documentário é ambientado na década de 1920 e fala sobre Leonard Zelig, um um homem que tem a capacidade de mudar sua aparência para se adequar ao meio. Se ele está no meio de mafiosos, começa a se parecer com mafiosos, se está no meio de médicos, parece um médico. É um verdadeiro camaleão humano.

Uma das estratégias usadas para diluir o limite entre realidade e ficção é o uso de pessoas reais, como a escritora Susan Sontag, o psicólogo Bruno Bettelheim, que, com seus depoimentos, reforçam a verossimilhança da narrativa. O filme ainda usa outros recursos de documentários, como imagens de cinejornais, fotos da época e até mesmo áudios das consultas do protagonista com sua psicóloga (devidamente acrescidos de ruídos que os tornam mais realistas).
O mocumentário, portanto, testa os limites entre o ficcional e o real, entre o documentário e a ficção, levando o espectador a indagar-se até que ponto essa separação é válida.
Atualmente há vários exemplos famosos de mocumentários. Entre eles destaca-se o filme Borat, e o seriado Modern Family.
Borat, filme dirigido por Sasha Baron Cohen, de 2006, satiriza o modo de vida americano ao apresentar “O segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão viaja à América”, como diz seu subtítulo, que vai aos Estados Unidos aprender sobre o modo de vida daquele país.
Como elemento reforçador dessa sátira, o ator permanece no personagem mesmo quando dá entrevistas de divulgação do filme.

Modern Family é um seriado criado por Christopher Lloyd e Steven Levitan. A série mostraria as gravações de um cineasta europeu que no passado havia feito um intercâmbio na casa dos Pritchett e decidiu retornar aos Estados Unidos para fazer um documentário sobre “sua família americana”. Após a recusa de outras produtoras, a ABC resolveu produzir a série, mas com a condição de que a trama do diretor fosse retirada da história, ficando apenas as ações das três famílias e seus depoimentos para a câmera, que comentam e costuram os acontecimentos.
O enorme sucesso de público e de crítica (o seriado já está na sétima temporada e já recebeu 15 prêmios Emmy) despertou atenção para o gênero mocumentário, mostrando sua importância atual.

Embora não utilize totalmente a linguagem dos documentários, os depoimentos para a câmera e a abordagem sobre temas recentes (como a liberação do casamento gay) criam um clima de verossimilhança próprio dos documentários ou reality shows. Seu sucesso é indício da familiaridade da audiência com obras que testam os limites entre o ficcional e o real.  

Cursed – a lenda do lago

 


Cursed é a nova série da Netflix explorando os mitos arturianos. A série é baseada no livro de Tom Wheeler com ilustrações de Frank Miller. Os dois, aliás, são produtores da versão televisiva.
A história tem como protagonista Nimue, a dama do lago, que nas narrativas medievais, entrega a espada para Arthur.
Mas Tom Wheeler faz uma tremenda salada, aproveitando apenas os nomes de personagens como Morgana, Lancelot, Arthur, Percival e mudando todo o resto. E acrescenta uma raça de seres mitológicos, os feéricos da qual a dama do lago faria parte.
Na história, os feéricos estariam sendo massacrados por um grupo de fanáticos religiosos, os paladinos vermelhos, e os poderes de Minue em conjunto com a espada mágica seriam a única chance de sobrevivência da espécie.
Will Eisner dizia que nos quadrinhos quando a história era realista, a diagramação poderia ser mais ousada e inovadora. Já em histórias de fantasia, a diagramação deveria ser mais conservadora, pois isso ajudaria o leitor a aceitar aqueles fatos estranhos como reais. O mesmo pode ser dito sobre séries de TV. E Cursed peca exatamente nisso: é uma trama mirabolante, fantasiosa, contada de uma forma que não ajuda a verossimilhança. Pense em todos os exageros de Frank Miller e ele estarão presentes em Cursed. À certa altura, por exemplo, uma das freiras decide se tornar uma paladina vermelha. Na cena seguinte ela aparece indo embora enquanto o convento queima ao fundo.
Até mesmo as transições entre uma cena e outra pecam nesse sentido, ao mostrarem a continuação da cena ou a cena seguinte em desenhos (provavelmente uma referência às ilustrações de Miller), o que prejudica ainda mais a verossimilhança.
Falta também profundidade aos personagens, tanto que muitas vezes suas mortes praticamente não são sentidas pelos expectadores. No último episódio, por exemplo, um dos chefes feéricos morre e a direção dá um destaque dramático enorme para sua morte, mas mal sabemos quem é ele.
Ilustração de Frank Miller para o livro.

A série conta com o ótimo Gustaf Skarsgård, de Vikings, fazendo o papel de Merlin, mas aqui ele parece apenas exagerado.
Outro problema da série são os efeitos, fracos para uma produção desse tipo, que pretende rivalizar com GOT. Em certos momentos parece que estamos vendo um episódio de Xena, com a difereça de que Xena não se levava a sério, o que garantia a diversão, ao contrário de Cursed, que, segundo a sinopse, “é uma história sobre amadurecimento, com temas conhecidos de nosso tempo: destruição da natureza, terror religioso, guerras sem sentido e a coragem de assumir a liderança quando tudo parece impossível”.
Entretanto, os episódios vão melhorando aos poucos com o tempo, talvez pelo fato do expectador começar a se acostumar com os personagens. O episódio final também tem, finalmente, uma cena de batalha bem produzida, o que indica que talvez a segunda temporada seja melhor.
Em todo caso, Cursed pode ser divertido se você a considerar apenas como uma série pipoca.

sábado, agosto 01, 2026

Batman – Reinado de terror

 


A série Elseworlds (conhecida no Brasil como Túnel do tempo) colocava os personagens da DC Comics em eras passadas ou futuras. Uma das mais interessantes dessa série sem dúvida é Batman – reinado do terror, de Mike W. Bar e José Luís Garcia-Lopez.

A história coloca o cavaleiro das trevas no centro dos acontecimentos da Revolução Francesa. Na história, o Capitão Wayne é um herói da guerra (assim que estourou a revolução francesa, vários países monarquistas empreenderam uma guerra contra a França), mas quando volta para Paris, descobre que os pais de sua esposa estão condenados à guilhotina. 

Ao voltar da guerra, Wayne descobre que seus sogros estão condenados à morte... 


Percebendo que não consegue usar seu prestígio para salvar os sogros, ele resolve disfarçar-se de morcego e usar equipamentos, como uma asa delta, para tirá-los do patíbulo e enviá-los para a Inglaterra num barco. Depois desse salvamento bem-sucedido, ele começa a salvar diversos outros nobres, enquanto sua contraparte parece ter o único interesse em diversões frívolas.

A história é interessante por pagar um tributo ao Pimpinela Escarlate, um herói da literatura cuja atuação consistia em salvar nobres franceses e que foi uma das influências na criação do cavaleiro das trevas.

... e se transforma em Batman para salvá-los. 


Há um sacada interessante ao mostrar o duas caras como um jacobino que teve parte do seu rosto destruído durante uma batalha e que toma a tarefa de matar o máximo possível de nobres: “Você não entende? Minha vida é a revolução!”.

Uma incoerência é mostrar Wayne como um almofadinha frívolo e, ao mesmo tempo, com um jacobino disfarçado. A Revolução Francesa foi justamente o ponto de virada em que passou a se valorizar comportamentos másculos em oposição ao comportamento da nobreza (saíram as roupas cheias de frufrus e a maquiagem e entrou a roupa sóbria e funcional). O comportamento de Wayne o colocaria imediatamente como suspeito de traição.



Mas, apesar de alguns pequenos deslizes, essa é uma história memorável, que se destaca principalmente pelo desenho de Garcia-Lopez. O maior problema dessa história é que ela parece terminar muito abruptamente. A trama dava tranquilamente uma série ao invés de um volume único.

Sombra da Lua - Uma adaptação teatral de Moonshadow

 


O roteirista Alan Noronha andava tanto comigo que muitas pessoas juravam que nós éramos irmãos. Contribuía para isso o fato de ambos sermos altos (exatamente a mesma altura, 1,83) e magros. Alan de fato era o irmão eu que nunca tive, uma pessoa incrivelmente criativa e antenada. Ambos participávamos não só do Ponto de Fuga, mas também de um grupo de teatro que havíamos criado, Os argonautas. Os dois grupos eram tão interligados que era comum o pessoal sair da reunião do Ponto de Fuga, no sábado à tarde, na Fundação Curro Velho, e ir direto para os ensaios do grupo de Teatro, na Cidade Nova, em Ananindeua.
Eu e Alan passávamos longe de sermos bons atores, mas compensávamos com a criatividade. Em uma visita ao sítio dos Hare Krishna, por exemplo, para agradecer a hospitalidade e a ótima comida, bolamos uma peça na qual um casal matava o coelho de uma menina e fazia um ensopado – depois ainda tentavam convencê-la a comer. O tema, claro, era o vegetarianismo.
Uma peça que apresentamos em diversos locais foi o Mestre das Máscaras. A característica do personagem era “tirar as máscaras” dos personagens, revelando suas verdadeiras personalidades. Um machão violento, por exemplo, se revelava alguém inseguro. Essa peça foi apresentada no dia 1º de maio de 1992, em um protesto de um grupo anarquista.
A principal peça do grupo era nada menos que uma adaptação não autorizada de Moonshadow, a série de J.M. de Matteis. Para evitar problemas, renomeamos como Canção de Inocência. A peça foi encenada no Teatro Waldemar Henrique, na Praça da República, em Belém. Alan fazia o personagem principal, o Sombra da Lua. Eu fazia o narrador e qualquer outro personagem menor que aparecesse por alguns minutos no palco.


(Trecho do meu livro A árvore das ideias - clique aqui para baixar gratuitamente).

Conan – A sombra do mausoléu

 


Nos muitos anos nos quais trabalhou em Conan, Roy Thomas não só o transformou em um dos personagens mais populares da Marvel e dos quadrinhos, mas também ampliou sua mitologia, indo muito além daquilo que Robert E. Howard havia escrito.

A história A sombra no Mausoléu, publicada em Conan the barbarian 31 se encaixa nessa categoria.

Na época em que se passa essa história, Conan era mercenário a serviço da tropa turaniana. A história começa com os homens da colina atacando o tropa.

John Buscema sabia dar movimento a uma cena de impacto. 


A imagem grandiosa, cortesia de John Buscema e Ernie Chan, mostra os selvagens pulando sobre os soldados. O texto, primoroso, dizia: “O sol estava em seu ponto mais alto quando os homens das colinas atacaram! Havia machados em suas mãos... velhos ressentimentos no peito... e gritos de guerra em seus lábios contorcidos”.

Para escapar ao ataque, os soldados se refugiam em uma caverna, mas a solução é provisória: em algum momento eles terão que sair e se defrontar com o numeroso grupo. Mas o chefe dos selvagens faz uma proposta: se um dos soldados aceitar enfrentar o campeão deles (um homem monstruosamente enorme) e vencê-lo, o grupo poderá partir em segurança.

Como vencer um gigante? Talvez com uma espada mágica. 


O capitão da guarda reflete: “Para vencer aquele gigante, eu precisaria de uma espada encantada, mas como conseguir algo assim?”.

A frase traz para Conan lembranças de sua juventude (e aqui uma sacada genial de Thomas, que pede a Buscema que mostre o cimério da mesma forma como ele retratado por Barry Smith, estabelecendo, assim, que a fase do desenhista inglês mostrava a juventude do bárbaro).

No flash back, Buscema mostra Conan com o mesmo visual de Barry Smith. 


No flash back, Conan enfrenta um urso branco e cai numa câmera, onde encontra uma espada enfeitiçada, que transforma sua sombra em inimigo.

Um dos charmes dessa HQ, além de mostrar um detalhe desconhecido da vida do cimério, é o final, com uma muito bem bolada ironia do destino.

Essa história foi publicada pela editora Abril em heróis da TV 51.

Jornada nas estrelas - Volta ao amanhã

 


Havia uma regra não explícita em Jornada nas Estrelas segundo a qual o capitão Kirk deveria ter um interesse romântico a cada episódio.

Muitas vezes os roteiristas faziam verdadeiros malabarismos para conseguir isso.

O episódio De volta ao amanhã exemplifica bem isso.

Na história, a Enterprise é contactada por uma entidade que direciona Kirk, McCoy e Spock para um bunker nas profundezas de um planeta.

O planeta havia sido devastado por uma guerra e alguns cientistas se refugiaram no solo, abdicando de seus corpos físicos e transferindo suas consciências para esferas, onde permanem por centenas de anos.

A proposta da entidade é usar os corpos de Kirk, Spock e uma tripulante para serem ocupados pelos sobreviventes tempo o suficiente para que eles criem corpos artificiais. Em troca, ofereceriam novidades tecnologias inimagináveis aos humanos.

Acontece que uma das sobreviventes é a esposa da entidade que ocupa o corpo de Kirk, o que dá ensejo a diversas cenas românticas.

Volta ao amanhã é um daqueles episódios que exploram bem os potenciais da ficção científica, embora algumas questões fiquem mal resolvidas. Por exemplo: por que os seres não fizeram os corpos antes de transferirem suas consciências para as esferas?

Destaque aqui para a atuação de Leonard Nemoy, cuja atuação muda completamente ao ser incorporado por um dos seres. Um gigante da atuação cujo talento muitas vezes dispensava efeitos especiais. William Shatner também se destaca, especialmente na primeira vez que recebe a entidade.

Minas histórica: guia de viagem

 

Igreja de N. Senhora das Mercês, em Ouro Preto

Visitar as cidades históricas de Minas é como passear pela história do Brasil. Casas, ruas, igrejas, tudo conta um pouco do Brasil colônia.
Eu saí muito cedo de Minas, com sete anos e sempre tive vontade de fazer essa viagem. E posso garantir: foi uma das melhores viagens que já fiz. Minas é um daqueles locais que você não pode morrer sem conhecer.
Além dos atrativos arquitetônicos, religiosos e históricos, há mais um aspecto: a comida mineira. Em poucos locais você irá comer tão bem. As quitandas mineiras são famosas, assim como os doces, os queijos... o risco de visitar Minas é engordar alguns quilos.
Uma visita completa aos locais turísticos exige pelo menos um mês. Como tínhamos só duas semanas, deixamos de visitar alguns locais importantes, como Diamantina e Congonhas. Assim, este guia não inclui esses lugares, mas se puder, visite-os também. Se tiver menos tempo, concentre-se apenas nos arredores de Belo Horizonte, como Araxá, Ouro Preto e Mariana.
Uma dica é começar por Belo Horizonte. Dali é possível ir de ônibus para diversos lugares históricos e um deles, Sabará, pode ser visitado em um dia.

Belo Horizonte
A capital mineira tem diversas atrações, entre elas a praça da liberdade. Ao redor da praça há diversos museus. Obrigatório é o Palácio da Liberdade, que conta a história de Minas e, em específico de Belo Horizonte. O prédio antigo, por si só já é uma atração com sua belíssima escadaria. Mas há também salas temáticas. A sala sobre a inconfidência mineira é um verdadeiro show de tecnologia usada para contar uma história. E parepare-se para levar um susto na sala direcionada às lendas urbanas da cidade.
O Palácio das artes é visita obrigatória para quem gosta de arte. 

Outra dica é o Palácio das Artes, que fica no Parque municipal Américo René. Ali é possível ver as mais variadas exposições artísticas, além do próprio prédio, que é belíssimo.  
Não deixe de ir ao mercado central. Além de poder apreciar o melhor da culinária mineira, é possível visitar os sebos que ficam no andar superior.
A igreja dedicada a S. Francisco permitiu a Niemayer mostrar sua arquitetura revolucionária, repleta de curvas.

A lago da Pampulha é outro ponto obrigatório. O cenário é belíssimo. Na lagoa fica uma igrejinha dedicada a São Franscisco projetada por Oscar Niemayer e com pinturas de Cândido Portinari. 
O interior da igreja é ornamentado por pinturas de Portinari.
Também em volta da lagoa temos o Museu Kubitschek. A casa do presidente bossa-nova foi conservada exatamente como era quando o então governador de Minas morou lá. Além da arquitetura inovadora (também obra de Niemayer), há discos, lembranças, uma verdeira viagem pela década de 1950.
A casa de JK foi transformada em museu. 

Nas proximidades da lagoa fica o Museu da história da inquisição (http://www.museudainquisicao.org.br/). O Museu foi criado por judeus para mostrar como era a perseguição ao povo hebraico no período inquisitório. Inclui até mesmo réplicas de instrumentos de tortura, além de roupas típicas da época e história dos judeus que chegaram ao nosso país fugindo da perseguição na Europa.
No Museu da Inquisição há até instrumentos de tortura usados na época. 

Outra dica é o Museu Inhotim, em Brumadinho. Especializado em arte contemporânea, tem obras de alguns dos mais renomados artistas brasileiros e estrangeiros. Destaque para as obras interativas. Aliás, o próprio museu foi pensado como uma obra de arte, com um belíssimo jardim e bancos criados pelo designer Hugo França. É possível ir para o Museu de ônibus, que sai do terminal rodoviário de Belo Horizonte.   
Inhotim é o maior museu a céu aberto do mundo. 

Sabará
Sabará fica a 21 quilômetros de Belo Horizonte. Existe um ônibus que sai do centro da capital na direção de Sabará. É como uma linha urbana, mas com ônibus melhores, com ar-condicionado. O ônibus passa pela rua Guaicurus e pela Avenida dos Andradas. A viagem dura menos de uma hora.
Casa que foi morada de Aleijadinho em Sabará.

Sabará é uma das cidades mais antigas de Minas e foi fundada pelo bandeirante Borba-gato (a casa dele ainda está preservada). É uma das primeiras cidades nas quais foi encontrado ouro em Minas. Também foi morada de Aleijadinho, quando este fazia serviços pela região.
Igreja de Nossa Senhora do Carmo: uma incrível coleção de arte sacra.

Sabará tem algumas das mais lindas igrejas de Minas. Entre elas a Nossa Senhora do Carmo, que tem uma bela coleção de arte sacra. Mas destaque também para a igreja de Nossa Senhora do Rosário construída por negros, que ficou inacabada por falta de recursos. Apesar de inacabada, é uma construção interessante e envolvente.
A igreja do Rosário, construída pelos escravos, ficou inacabada. 

Foi em Sabará que encontrei um guia turístico que realmente entendia muito de história e de história da arte – a maioria dos guias que vi se limitava a contar anedotas para turistas.
Em Sabará também é possível visitar o Museu do Ouro, no qual é possível ver ferramentas da época da mineiração colonial e entender como era o processo de retirada do ouro. O Museu foi instalado na casa em que o bandeirante Borba Gato vivia. A própria casa é uma atração turística. Ah, e a casa em Aleijadinho morou ainda existe e está conservada como era na época.

Ouro Preto
Ouro preto é a jóia da coroa da Minas histórica: a cidade inteira é uma atração turística. Andar pelas ruas de Ouro Preto é andar pela história do Brasil colônia.
A viagem de ônibus de Belo Horizonte para Ouro Preto dura apenas duas horas e custa, em média, 35 reais. Os ônibus saem da rodoviária de BH.
O hotel em si já era uma atração turística.

Nós ficamos em um hotel que era casa de um dos ricos fazendeiros da região, de forma que o próprio hotel já era uma viagem pela história, com sua arqutitetura colonial e as grossas paredes de pedras. O café da manhã, com quitandas mineiras também era irresistível.
Em Ouro Preto  encontram-se algumas das principais realizações dos mestres do barroco brasileiros, como Aleijadinho e Manoel da Costa Ataíde. Eles se apropriaram da arte que vinha da Europa e fizeram algo completamente diferente, com formatos e cores locais. Mesmo do lado de fora, as igrejas de Ouro Preto são monumentos imponentes, impressionantes. Na parte interna são a perfeita demonstração da norma barroca de horror ao vácuo: cada pequeno canto de parede é ornamentado com pinturas, ouro, altos relevos, estátuas. É um verdadeiro deslumbre para os olhos.
A igreja de São Francisco é um dos mais impressionantes exemplos da arte barroca mineira. 
Igreja de Nossa Senhora do Carmo: as igrejas eram construídas e mantidas pelas irmandades.

Uma das razões para tanta beleza era a rivalidade entre as irmandades.
Na época, a coroa portuguesa proibia a igreja de construir igrejas no Brasil, de modo que a construção dessas igrejas ficava por conta de grupos de pessoas leigas. Essas irmandades cuidavam não só da questão religiosa, mas de vários outros aspectos da vida de seus associados. Se eles morriam, elas eram responsáveis pelo funeral e enterro, se a pessoa passasse por dificuldades, a irmandade era responsável por ajudá-lo.
A feirinha de artesanato é especializada em miniaturas em pedra-sabão. 

A rivalidade entre elas era equivalente à rivalidade que existe hoje entre torcidas de futebol: quem era de uma irmandade, por exemplo, não ia na missa na igreja de outra irmandade. Se uma construía uma igreja bonita, outra construía uma mais bonita ainda. Se uma construía uma igreja imponente, a outra construía uma mais imponente ainda. E as duas principais irmandades eram, ironicamente, a de São Francisco (um santo que viveu e morreu na pobreza) e a do Carmo.
Em Mariana a concorrência entre essas duas era tão grande que elas construíram suas igrejas uma na frente da outra.
A Casa do Conto é um dos museus de visita obrigatória. 

Como Ouro Preto era o local mais rico de Minas, e o que tinha mais irmandades, o resultado disso foi que vemos hoje: dezenas de igrejas espalhadas pela cidade, cada uma mais bonita que a outra. 
Cada canto de Ouro Preto é capaz de nos surpreender. Visitando, por exemplo, o modesto cemitério da Igreja de São José dos Pretos, eu me deparei com o túmulo de Bernardo Guimarães, autor do romance A escrava Isaura, que deu origem à famosa novela da Globo.
Túmulo de Bernardo Guimarães

Além disso, a cidade conta com vários museus que são parada obrigatória, como a Casa Guignard e a Casa dos Contos.
A quantidade de atrações é tão grande que seria necessário pelo menos duas semanas para ver tudo.
Em Ouro Preto eram comuns altares externos para proteger a casa de espíritos malígnos. 

 Mariana
Mariana próxima a Ouro Preto e a melhor forma de aproveitar a linda paisagem é ir de trem. A passagem custa 70 reais, ida e volta. Os trens saem em vários horários, mas o melhor é sair de Ouro Preto às 10 horas e voltar às 16 horas.
A viagem de trem compensa principalmente pela bela paisagem. 

Uma dica: quando for comprar a passagem, não deixe de comer nos restaurantes que ficam na proximidade: a melhor feijoada que já comi na minha vida foi ali.
Igreja do Carmo e S. Francisco: rivalidade entre as irmandades fez com que as igrejas fossem construídas uma em frente a outra.
Interior da Igreja do Carmo. 

Mariana é o local em que a rivalidade entre as irmandades fica mais evidente: ali a irmandade do Carmo e de São Francisco construíram suas igrejas lado a lado, numa verdadeira concorrência arquitetônica. No meio delas, uma praça no qual eram açoitados os escravos.
A igreja do S. Pedro fica na parte mais alta da cidade.

No alto da cidade fica a igreja de São Pedro dos Cléricos, com sua fachada de tijolos, que destoa completamente do restante da arquitetura barroca da cidade. Nessa igreja é possível subir na torre dos sinos e ter uma visão privilegiada da cidade.

São João Del Rei
A viagem de Ouro Preto para São João Del Rei dura pouco mais de três horas e custa em média 70 reais. São João del rei fica próximo de Tiradentes e o preço dos hotéis não são tão caros. Aliás, tudo é mais barato em São João. Como Tiradentes é uma cidade turística, tudo é muito caro, do hotel ao cafezinho. Além disso, em São João há uma grande variedade de supermercados, restaurantes, fast food. Então a dica é ficar em São João e visitar Tiradentes apenas um dia.
Igreja de S. Francisco. 

Interior da Igreja de S. Francisco. 

São João tem belíssimas igrejas, algumas das quais rivalizam com as de Ouro Preto, principalmente no ouro. Se der sorte, poderá visitar uma delas durante uma missa com canto gregoriano (aconteceu conosco quando visitamos a igreja de São Francisco). Além disso, a cidade tem um centro histórico muito bonito e diversos museus.
Igreja de N. Senhora do Pilar. 
Interior da Igreja de N. Senhora do Pilar: uma das mais luxuosas de Minas. 

 Vale a pena visitar, por exemplo, o museu em homenagem a Tancredo Neves, que conta muito da história do Brasil, principalmente o processo de redemocratização. O Museu Regional é outra atração obrigatória, não só pela coleção de arte sacra, mas também pelas peças que conta a história do Brasil colonial.
O Museu regional guarda muitos objetos da Minas colonial. 


Tiradentes
Tiradentes é uma cidade que vive, essencialmente, do turismo. A cidade é famosa principalmente por ter sido o local onde nasceu Tirandentes e soube aproveitar essa fama para se tornar um local turístico. As igrejas não são tão ricas, belas ou monumentais quanto as de São João Del Rei ou Ouro Preto, mas a paisagem toda é muito bonita.
A matriz de Santo Antonio é a principal igreja da cidade. 

O altar-mor é um belo exemplo do barroco mineiro. 

Uma das atrações do local são os passeios de charrete, que saem da praça central. Os charreteiros percorrem alguns dos principais pontos da cidade e dão algumas informações ou curiosidades sobre os locais visitados.
Há, ainda, vários restaurantes, bares e lojas de artesanato.
Os passeios de charrete são uma boa opção para o turista que vai passar apenas um dia na cidade. 
 A capela de São Francisco de Paula é uma igrejinha pequena, humilde na comparação com as outras de Minas histórica, mas vale a visita principalmente pela belíssima vista. Por ficar no alto de um morro, ela permite uma visão privilegiada da região. Vale a pena ver o por-do-sol de lá.
A vista da capela de S. Francisco permite contemplar toda a cidade de Tiradentes.