sábado, maio 28, 2022

Super-homem vs Apocalypse; a revanche

 

Na década de 1990 até o Super-homem, o mais antigo super-herói, precisava ser descolado. E o que significava ser descolado? Simples: roupas estranhas, anatomia duvidosa, cabelos compridos e roteiros sem muito sentido.
Ótimo exemplo desse Homem de aço descolado é a minissérie “Super-homem vs Apocalipse - a revanche” publicada pela editora Abril no ano de 1995.
A história, escrita e desenhada por Dan Jurgens, contava como o herói conseguiu finalmente derrotar o vilão responsável pela sua morte. Sim, amigos, ele tinha morrido, assim como o vilão, mas naquela época ninguém permanecia morto por muito tempo nos quadrinhos.
Com os dois – herói e vilão – de volta à vida, Superman passa a caçar seu oponente. Nisso, Apocalypse chega a Apokolips, o mundo governado por Darkside e quase mata o principal vilão da DC.
Á certa altura um personagem estrategimente escolhido para servir de muleta narrativa mostra para o Superman a origem de Apocalypse: ele foi criado artificialmente para ser invencível. Quer criar alguém invencível? A receita é simples: crie um bebê e jogue-o no meio de monstros. Depois recolha o que sobrar e crie outro bebê que será jogado no meio de monstros, e assim infinitamente, até que o bebê “evolua” para matar os monstros. Darwin deve estar tendo um ataque cardíaco lá no céu dos cientistas. Se essa origem já não fosse maluca o bastante, Dan Jurgens ainda dá um jeito de ligá-la ao superman: o planeta repleto de monstros no qual a criança apocalipse foi criada era nada mais nada menos que.... advinhem... Kripton!!!! Parabéns, Dan Jurgens, exceto pelo fato de que isso simplesmente vai contra toda as outras representações de Kripton já publicadas.
E o meio do caminho, para vencer o monstro, o homem de aço é equipado com uma roupa que parece ter saído diretamente de algum designer da Image Comics, com direito a ponchetes na perna e capa armada para cima, além de um cinto cruzando o peito. Detalhe: nada disso serve para absolutamente nada durante a história.
Além disso, o desenho de Jurgens imita John Byrne sem nunca acançá-lo e sofre do mal dos músculos que não existem (minha filha, que está estudando anatomia na faculdade, ficou indignada ao ver a revista).
No final, essa minissérie acabou se tornando célebre por uma razão que tinha pouco a ver com seu conteúdo: foi uma das tentativas da Abril de lançar capas diferenciadas. A capa do número 1 era platinada e chamava atenção nas bancas. Tanto que dos três volumes dessa série, apenas o primeiro, com essa capa diferenciada, é raro de encontrar em sebos a preços. Os outros dois você acha fácil com preços que vão de 2 a 3 reais.  

Hércules e Nesso, de Gianbologna

 


Hércules e Nesso é uma escultura pequena, mas que ajudou a mudar a história da arte, estabelecendo um padrão que seria copiado por diversos outros escultores. O autor, Gianbologna, é o principal nome do maneirismo na escultura. Na época, havia um grande debate artístico. 
A pintura era considerada uma arte maior e a escultura apenas um tipo de pintura. Para provar que a escultura tinha possibilidades inexistentes na pintura, Gianbologna começou a produzir peças extremamente dinâmicas, com imagens que podiam ser vistas sob diversos ângulos – ao contrário da pintura – que só pode ser vista de frente. 

Uma das maiores realizações dessa empreitada foi Hércules e Nesso, que mostra o herói grego matando o centauro. Realizada em 1599, no final da vida do artista, a escultura mostra os dois personagens entrelaçados, no momento mais dramático da luta. Um dos artistas mais influenciados por Gianbologna foi Gian Lorenzo Bernini, o mestre do barroco italiano.

Os 7 de chicago

 

Em 1968 a Guerra do Vietnã se tornara extremamente impopular. Grupos tão diversos quanto objetores de consciência, os panteras negras e hippies resolveram aproveitar a convenção do partido democrata na cidade de Chicago para mobilizar uma grande manifestação. A polícia repreendeu duramente o protesto e oito pessoas foram presas: Abbie Hoffman, Jerry Rubin, David Dellinger, Tom Hayden, Rennie Davis, John Froines, Lee Weiner e Bobby Seale.  O grupo foi acusado de conspiração e ficou conhecido como os 7 de chicago. 

É a história desse julgamento histórico (o lema dos protestos na frente do tribual eram “O mundo está assistindo”) que o diretor Aaron Sorkin relata no aguardado filme da netflix.

Existem muitos filmes de tribunais nas mais variadas abordagens. Entrentato, nesse gênero tão surrado que já gerou algumas obras-primas e muitos filmes meia-boca, Sorkin inova pelo uso de uma edição rápida e trilha sonora da época.

O final dos anos 60 era quando tudo estava acontecendo e tudo estava mudando. Foi quando o rock tomou conta do imaginário popular norte-americano. “Os tempos estão mudando”, cantava Bob Dylan, e o filme reflete isso desde a primeira cena: uma rápida sequência dos acusados se preparando para ir para Chicago e falando sobre suas intenções. A edição faz com que cada um complete a fala do outro.

Quando os vemos novamente, eles estão no tribunal e tudo que aconteceu antes é mostrado na forma de flash backs puxados pelos depoimentos ou pelas lembranças dos acusados – a mais recorrente delas  a dos policiais tirando suas credenciais antes de atacar os manifestantes.

E trata-se de um julgamento completamente manipulado, em que o juiz nitidamente já tinha condenado os réus e chega ao ponto de mandar algemar, amordaçar e prender à cadeira um dos réus (que não estava sendo defendido por advogado) e a dispensar jurados que se mostrassem favoráveis aos réus. O filme mostra isso sem resvalar no dramalhão (ao contrário, é um filme divertido, engraçado) ou mesmo no maniqueísmo (as cenas de disputas entre os réus, que representam grupos diferentes são importantíssimas).

O filme, portanto, não só é bom, mas também tem um dos melhores finais que já vi num filme de tribunais.

A arte única de Brian Bolland

 


Brian Bolland é um desenhista britânico que ficou famoso na revista 2000 AD. Nos EUA seu primeiro trabalho de impacto foi a série Camelot 3000. Outro trabalho marcante dele foi a graphic Piada Mortal, com roteiro de Alan Moore. Na década de 1990 ele se dedicou principalmente a produzir capas para diversas revistas DC. Dizia-se que qualquer revista com uma capa sua venderia.













Proclamação da república, de Marcos Rey

 


A coleção O cotidiano da história,d a editora Ática, tinha como objetivo contar, de forma agradável e atraente, fatos importantes da história do Brasil. Eram edições ilustradas, com diagramação inovadora e textos de alguns dos grandes autores infanto-juvenis brasileiros. Um dos volumes de destaque é Proclamação da República, escrito por Marcos Rey.
Marcos Rey é um escritor de narrativa fluída, que torna até mesmo um tema pouco atrativo, como a proclamação da república (que foi, essencialmente, uma quartelada sem qualquer ação real) em uma delícia de leitura.
Rey adota como estratégia contar os fatos do ponto de vista de um personagem que teria presenciado os acontecimentos. No caso, um jornalista, Antônio Brotero, o Broteirinho. Trabalhando no jornal republicano O País, Broteirinho resolve abadonar sua coluna de resenhas literárias para se dedicar às notícias políticas exatamente no período em que o Brasil se convulsiona. Com o aval do diretor do jornal, Quintin Bocaiúva, ele invade o clube militar durante uma reunião do alto oficialado, que conspira contra D. Pedro, o baile de ilha fiscal (festa suntuosa que marcaria o fim da monarquia) e acompanha a movimentação dos quarteis que levariam à instalação da república e o exílio de D. Pedro II. A ação é mínima: um combate mequetrefe entre o exército e a marinha que termina com um ferido, mas Marcos Rey conta tudo como se estivesse narrando um folhetim.
O autor também não se furta a alguns comentários sobre o evento. Por exemplo, quando o protagonista ouve as falas na reunião do clube militar, pensa: “A República, sem dúvida, estava próxima, mas não a do moderado Quintino Bocaiúva, nem a do radical Silva Jardim; a julgar por aquela reunião, excluiria as elites civis e a participação popular, correndo o risco de tornar-se uma ditadura, rígida, que talvez fizesse o País ter saudades do Império”. Como dizia o jornalista Silva Jardim, “falta povo nessa revolução”.
Como é um livro para adolescentes e para ser usado em escolas, o autor deixa de fora muitas fofocas históricas (como o fato de que Marechal Deodoro e o Visconde de Ouro Preto (primeiro ministro do Império) tinha disputado a mesma mulher e, portanto, tinham rivalidade antiga. Ainda assim, é um livro que prende a atenção.

sexta-feira, maio 27, 2022

Eu e os livros

 


Acho que a leitura pode ser um hábito aprendido, mas acho também que pode ser algo mais, pode estar nos genes, pode vir com a gente quando nasce. Eu, por exemplo, não tinha livros em casa. Mas tinha tanta vontade de ler que ficava lendo as caixas de sapatos empilhadas sobre o guarda-roupa. Uma vez deixaram em casa o romance Tubarão, que deu origem ao filme de Steven Spielberg. Era um livro difícil, grosso, para um garoto de nove anos, mas mesmo assim me esforcei. Depois de ler umas 25 páginas, desisti. Era adulto demais para mim, demorava muito para chegar a alguma ação.

Quando a professora da escola pediu para lermos Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, tive finalmente uma desculpa para comprar um livro. E aproveitei-o até o último ponto. Li tantas vezes que decorei o texto. No dia antes da prova os amigos liam um trecho e perguntava: Em que página? Eu invariavelmente acertava.

Então eu entrei na adolescência quase totalmente virgem de leituras (exceto pelas histórias em quadrinhos). Nessa época conheci em Belém um amigo, o Afonso. Era um tipo estranho, que colecionava lagartos e cobras vivas. A gente ficava andando pelas matas caçando bichos para a coleção dele. Uma vez, quando estávamos com um grupo de amigos no meio da floresta, nos deparamos com uma enorme cobra no meio do caminho. Todo mundo saiu correndo para longe da cobra, mas o Afonso correu para pegar a cobra. Certa vez, quando limpávamos a gaiola, quase fui picado por uma serpente, de modo que depois me recusei totalmente a continuar ajudando-o.

Mas o Afonso me influenciou muito por causa dos livros. Ele tinha uma coleção enorme. Tinha a obra completa de Monteiro Lobato, presente de um padrinho, militar esquerdista. Um dia, no auge da ditadura militar, ele chegou com o carro cheio de livros, disse que era presente para o afilhado e sumiu para nunca mais ser visto. Ninguém sabe se ele conseguiu fugir ou se foi preso e morto nos porões da ditadura.

Mas o Afonso ficou lá, com aquela coleção enorme e variada. Tinha quase todos os autores clássicos, além das obras completas de Jung e de Lobato.

Quando eu ia na casa dele, ele pegava um livro e me contava o enredo. Acho que aprendi muito mais sobre literatura naquelas conversas do que com qualquer professor de português.

Eu ficava tão fascinado que pegava para ler, mas ele tirava o livro das minhas mãos ou começava a bater no sofá para não me deixar ler. Claro, ele gostava de ser o centro das atenções e eu lendo sozinho, o livro tirava o foco sobre ele.

O curioso é que, ao invés de isso fazer com que eu criasse ojeriza pela leitura, fez com que eu ficasse mais e mais curioso pelos livros. Como não podia nem pensar em pedir emprestados os livros do Afonso, acabei descobrindo a Bliblioteca Pública e depois os sebos. Eu me sentia tão em atraso que lia como um desesperado, no mínimo um livro por semana. Era um leitor tão assíduo que, ao chegar aos dezesseis anos eu já tinha ultrapassado o Afonso no número de leituras.

Aí acabei descobrindo outra coisa: às vezes é bom não ter tudo nas mãos. Perde o divertido gosto de correr atrás, de fazer descobertas por si mesmo. 

Yuki – vingança na neve

 


Yuki é, imerecidamente, uma obra menos conhecida de Kazuo Koike, o roteirista de Lobo Solitário.
O mangá surgiu em 1972, um ano depois do Lobo Solitário e conta a história de uma moça em uma jornada em busca de vingança. Seu pai e seu irmão foram mortos, sua mãe foi presa e, na prisão, seduz todos os homens que encontra com o objetivo de ter um filho e, assim, realizar a vingança contra as pessoas que desgraçaram sua família. A menina é criada desde cedo nas mais diversas artes, inclusive artes marciais e se torna uma assassina de aluguel com o objetivo de arrecadar dinheiro para seu plano de vingança.
Kazuo Kamimura nem de longe é um desenhista tão competente quanto Goseki Kojima, mas o roteiro é tão bom quanto o de Lobo Solitário, especialmente graças aos planos geniais da protagonista para cumprir sua missões. Koike parecia ter uma criatividade infinita para criar situações interessantes para seus personagens e misturá-las com detalhes que vão desde uma planta de edifício até uma o valor de uma prostituta no período. A série é também um passeio pela história do Japão na era Meiji
Já na primeira história, Yuki se deixa ser presa para matar um chefe da yakusa. Mas ela não usa apenas sua habilidade física para matar suas vítimas. Na maioria das vezes ela se vale da estratégia e é isso que faz desse trabalho algo tão genial. O desafio do leitor é imaginar que golpe brilhante Koike pensou para a sua protagonista.
Um exemplo (se não gostar de spoiller, pare aqui): ao ser contratada para acabar com o aluguel de rixixás, carruagens para duas pessoas puxadas por homens que eram usadas pelos casais para transar, Yuki se deixa prender por um vigarista que recruta prostituta. Uma vez no local, ela se oferece para pintar as carruagens. A novidade se torna um sucesso, mas também leva o dono do local à ruína: ela pinta a imagem do imperador embaixo de um banco e denuncia à polícia. Como o imperador é considerado um deus, pintá-lo debaixo do banco de um quixixá faz com que o dono do local seja condenado à forca.
Há um recurso narrativo muito usado em Lobo Solitário, mas que aqui aspectos fantásticos: a história começa no meio da ação, ou de alguma missão, e só depois, através de flash backs é explicado o que está acontecendo. A diferença aqui é que na maioria das vezes as ações de Yuki parecem totalmente sem sentido, ou até mesmo suicidas, até que seja apresentado o flash back.
Além disso, a série é de uma poesia única.

Homem-aranha – A ameaça de Mystério


Quando criança cantávamos uma corruptela da música do desenho animado do aracnídeo: “Homem-aranha, homem-aranha, nunca bate, só apanha”. A música representava bem uma característica bem marcante das primeiras histórias do personagem: antes de finalmente vencer, ele apanhava muito.

Exemplo disso é o número 13 da revista Amazing Spiderman na qual o personagem enfrenta pela primeria vez o vilão Mystério.

Um onda de crimes assola Nova York. Seria obra do Homem-aranha? 


A revista já chama atenção pela capa inusitada, com o herói lançando sua teia sobre Mystério, e a teia a derrete no ar. A chamada da capa diz: “Nós conseguimos ! criamos o maior vilão de todos para o velho aranha!”. Abaixo, dois quadros menores, com legendas no formato de seta. Em um deles, o Aranha joga suas teias sobre um homem ao lado de um confre: “O que é isso??! O Homem-aranha se volta para o crime?! Você vai ficar chocado!”. Na outra, um homem bem vestido aponta um divã para o herói: “Já viu algum super-herói de revistas em quadrinhos levar seus problemas até um psiquiatra? Pois você vai ver!”.

De fato, ambas as coisas acontecem na história. Nova York é assolada por uma onda de crimes efetuados aparentemente pelo Homem-aranha. Acreditando que cometeu os crimes enquanto estava dormindo, como uma espécie de sonambulismo, Peter Parker decide ir num psiquiatra!

Atormentado pela dúvida, o herói resolve consultar um psiquiatra. 


Na história, Mystério desafia o aranha a enfrentá-lo no alto da ponte do Brooklyn. E no desafio, o herói apanha de todas as maneiras possíveis, incapaz de revidar no meio da névoa criada por Mystério e o aparelho que bloqueia os efeitos do sentido de aranha.

Dois pontos merecem atenção: o fato de Stan Lee colocar o conflito na ponte do Brooklyn, um local que todos os nova iorquinhos conhecem, aumentava a identificação dos leitores com as histórias.

O herói apanha muito. E depois apanha mais. 


A outra questão é: como Mystério sabia que o herói contava com um sentido de aranha? Afinal, essa não era uma parte visível dos poderes do mesmo. Naquela época corrida, em que várias revistas eram tocadas por uma equipe mínima, ninguém deve ter se preocupado com esse detalhe. E isso ficou apenas como mais um mistério.

Cachorro sincero

 


Fundo do baú - Mundo da Lua

 



Mundo da Lua foi um dos seriados nacionais de maior sucesso da década de 1990. Criado por Flávio de Souza, o programa teve 52 episódios exibidos originalmente entre 1991 e 1992 na TV Cultura.

A série tinha como protagonista o garoto Lucas Silva e Silva, cujo sonho era ser astronauta. O primeiro episódio mostrava o aniversário de dez anos do personagem e as sucessivas frustações com os presentes recebidos: meias, cuecas, sapatos, cintos. Além disso, o bolo foi deixado fora da geladeira e a cobertura derreteu e os salgados foram congelados.

Parece ser o pior aniversário de todos, até que ele ganha do avô um velho gravador e começa a narrar sua versão do aniversário, em que tudo dá certo.

Estabelecia-se aí a estrutura do programa, dividido entre os fatos reais e a imaginação de Lucas. Um recurso que ajudava a criar o clima de fantasia eram os efeitos simples, mas funcionais do gravador, com luzes acendendo e barulhos de ficção científica. Somava-se a isso a fala do personagem: “Alô, alô, planeta terra! Aqui fala Lucas Silva e Silva, falando diretamente do mundo da lua!”.

O seriado também se destacava por retratar a família de classe média da época, com o pai professor tendo dificuldade para pagar as contas, a empregada doméstica que não desgrudava do rádio e parecia falar com o locutor, como se ele a ouvisse e o avô com alma de criança.

O elenco tinha verdadeiras estrelas, como Antônio Fagundes, que interpretava o pai de Lucas, Gianfrancesco Guarnieri, como avô e melhor amigo do garoto. Flávio de Souza, criador do seriado, fazia participações ocasionais como o atrapalhado tio Dudu. Aliás, na vida real, Flávio era casado com Mira Haar, que interpretava a mãe de Lucas.

Grade ou matriz curricular?

 

É comum ouvir pessoas falarem de uma tal de "grade da escola", que deveria ser seguida rigidamente pelo professor. Mas o que é essa tal de "grade da escola"?
Para começar, não existe grade da escola. Quer dizer, existe. Algumas escolas têm grades nas janelas. Mas o que a pessoa, especialista em educação, deve estar se referindo é a "grade curricular", um termo que não é mais usado há muito tempo. Hoje usa-se matriz curricular.
Grade significação prisão: é uma normatização rígida da educação que não deixa margem para adaptações.
Um ótimo exemplo de grade curricular é a frase "Vovô viu a uva". Crianças do Rio Grande do Sul ao Amazonas eram alfabetizadas com ela. Crianças que nunca tinham visto uma uva aprendiam a ler com uma frase que não lhe dizia nada. Mas todos deviam seguir a grade curricular, então todos os professores, de norte a sul, seguiam a grade curricular.
Já a matriz curricular permite adaptações, é flexível.
Um exemplo. Certa vez, quando lecionava redação, cheguei na sala de aula e descobri que os alunos só falavam do fim do mundo. No dia anterior, uma matéria do Fantástico mostrara um grupo de fanáticos que acreditava que o mundo iria acabar aquela semana. O livro me indicava um determinado tema para a redação, mas eu o modifiquei. Fizemos um pequeno debate sobre o que os alunos achavam sobre a questão do fim do mundo e depois cada um escreveu uma redação sobre o tema.
Isso é matriz curricular.

Como escrever quadrinhos

 


 


O livro Como escrever quadrinhos ensina os fundamentos básicos do roteiro a partir da experiência do premiado roteirista Gian Danton. Valor: 25 reais (frete incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

quinta-feira, maio 26, 2022

Revista Imaginário publica artigo de Gian Danton sobre Jornalismo em Quadrinhos


 

O número 24 da revista Imaginário publicou um artigo meu e do amigo Rafael Senra intitulado "Jornalismo e quadrinhos - uma relação antiga". No artigo nós fazemos uma abordagem história entre jornais e HQs até chegar o surgimento do Jornalismo em Quadrinhos. 



Imaginário é a principal revista acadêmica brasileira voltada para temas de cultura pop. 

É possível baixar gratuitamente a revista clicando aqui

Bastidores das HQs: Doutor Estranho

O Cavaleiro das Trevas

 


No início da década de 1980, Frank Miller era o grande nome dos quadrinhos americanos. Depois de salvar a revista do Demolidor do cancelamento, transformando-a num campeão de vendas, ele foi contratado para a DC Comics na qualidade de astro.
Seu primeiro trabalho para a editora, Ronin, foi aplaudido pela crítica, fez sucesso e abriu as portas para a invasão dos mangás, mas não chegou a ser algo bombástico. O grande sucesso mesmo viria com a minissérie Batman - Cavaleiro das Trevas, de 1986.
Cavaleiro das Trevas foi um arrasa-quarteirão que mudaria para sempre a história dos quadrinhos de super-heróis, a começar pelo formato de luxo em que foi lançado, chamando atenção dos leitores adultos e da imprensa.
A história se passa em um futuro em que os super-heróis foram proibidos. Aposentado após a morte de seu parceiro Robin, Bruce Wayne é um homem amargurado pelos fantasmas do passado e pela percepção de que a cidade que protegeu durante anos está se transformando em um completo caos de violência urbana.
Sua volta à ação marca também o retorno dos vilões Duas Caras e Coringa e a tensão com o Super-homem, o único herói com autorização para agir.
Miller foi revolucionário em tudo, a começar pela forma de contar a história, usando e abusando das elipses. Elipses são pulos na narrativa, partes não mostradas pelo quadrinistas e que são completadas pelo leitor. Os quadrinhos usam as elipses o tempo todo: o personagem se levanta da cadeira, no quadro seguinte está na porta de casa: todo o trajeto entre uma ação e outra é completado pela imaginação do leitor. Miller levou o recurso a patamares nunca explorados em especial na sequência em que o Batman volta à ação: o leitor nunca vê o herói, e sim as consequências de sua ação. Quando ele finalmente surge é numa grandiosa splash page, de enorme impacto.
Outra revolução de Miller foi introduzir quadros televisivos como elementos narrativos. Quando vemos Batman pela primeira vez, por exemplo, as telas mostram pessoas comuns comentando sua aparição. Além disso, a narrativa televisiva muitas vezes ajudando o leitor a entender as elipses – exemplo disso é a mulher cuja bolsa é revistada pela gangue mutante e que sai feliz ao descobrir que não foi roubada – na sequência, uma jornalista informa: “Mulher explode numa estação de metrô! Noticiário completo às onze...”.
As telas de televisão também funcionam como um acréscimo de aprofundamento ao mostrar debates sobre a ação do herói. É nesses inserts que Miller irá colocar uma das questões mais interessantes da obra: seriam os vilões uma consequência dos super-heróis? Ou seria o contrário? A obra não dá respostas fáceis, deixando muito mais perguntas que certezas.
Outra inovação de Miller foi mostrar o Batman como alguém que capaz de qualquer coisa para conseguir seus objetivos – inclusive usar uma criança como aliada no combate ao crime ou torturar um bandido para conseguir uma informação. Maníaco? Visionário? Herói? Vilão? Junto com A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland, Cavaleiro das Trevas transformou o Batman em um herói tridimensional, um dos mais complexos do universo DC.
Miller continuou sua abordagem sobre o personagem em uma outra série, Batman ano um, com desenhos de David Mazzuchelli, em que contava os primeiros anos do herói.
Como resultado, Batman se tornou o herói mais popular da época, uma verdadeira mania, com várias revistas derivadas e especiais.
No Brasil, Cavaleiro das Trevas foi a obra que inaugurou a era das graphic novels. O sucesso da série fez com que a Abril lançasse várias outras minisséries de luxo e até uma coleção, Graphic Novel, apenas com histórias fechadas, em papel gouchê.

Teia do Aranha e o novelão aracnídeo

 

A revista Teia do Aranha publicava as histórias clássicas do aracnídeo em sequência, iniciando pela fase inicial de John Romita no título. 
O interessante de ler uma revista assim é acompanhar a evolução da trama. 
O título do Aranha, escrito por Stan Lee, era um grande novelão, mas as histórias eram auto-contidas. Raramente uma saga se estendia além de uma edição. O conflito normalmente era resolvido dentro daquela edição - terminando sempre com Peter Parker refletindo depressivamente sobre sua vida. 
O desafio aí deveria ser criar um vilão para cada edição - ou resgatar um vilão. 
Uma das curiosidades é uma edição usada apenas para apresentar o novo uniforme da Viúva Negra (e uma briga dela com o amigão da vizinhança que se revela totalmente despropositada). 
Mas no geral, a trama super-heroiesca misturada aos problemas pessoais e amorosos de Peter Parker seguravam o leitor. 
Não admira que o título se tornasse o mais vendido da Marvel na década de 1970: era uma revista à frente de seu tempo. (foto da minha coleção)

O estranho que nós amamos

 


Sexo e morte. Eros e Tanatos. Esses dois conceitos são perfeitos para definir “O estranho que nós amamos”, filme de 2017, de Sofia Coppola.
Na história, um soldado nortista é ferido na perna e encontra abrigo numa antiga mansão sulista que agora funciona como escola feminina. Acolhido pelas mulheres, que em um primeiro momento pensam em entregá-lo aos soldados sulitas, ele se acaba sendo cortejado pelas duas professoras e por todas as alunas.
A casa é tomada pela tensão sexual, explificada pela cena do jantar. Cada uma veste seu melhor vestido e até mesmo uma torta de maçã acaba ganhando contornos de cortejo e os risinhos encobrem o forte desejo sexual de todos os presentes.  
Mas a história, como se tivesse um lado B, logo se torna também uma história de suspense e violência em um plot twist surpreendente, mas totalmente verossímel.
Sofia Coppola tem um olhar sensível, capaz de captar detalhes e nuances que talvez escapassem de um cineasta menos competente, e que ajudam a compor a história e os personagens e mostrar a trama do ponto de vista das mulheres sem a necessidade de longos diálogos. Além disso, a fotografia é dominada por aquilo que Roland Barthes chamava de estetismo: a busca de aproximar a imagem de uma pintura. Dessa forma, a maioria dos takes são verdadeiros quadros, inclusive em termos de enquadramento.

O Rádio Pop está de volta

 


Depois de ter parado por todo o período da pandemia, o programa Rádio Pop está de volta, toda quinta-feira, 17 horas, na rádio da Universidade Federal do Amapá, 96, 9 FM. Também dá para ouvir pela WebRádio.  O Rádio Pop é o único programa de rádio do Amapá a falar sobre quadrinhos, seriados, filmes, games e literatura pop.

A ilha do Cumbu em Belém

 

Uma das atrações mais incríveis para quem visita Belém é a ilha do Cumbu, a apenas 15 minutos de Belém. Para ir para a ilha é possível pegar um barco na praça Princesa Isabel, na rua Alcindo Cacela, no bairro do Condor. A passagem é uma média de cinco reais a sete reais por pessoa.

A ilha é uma grande produtora de açaí e cacau e tem uma fábrica de chocolate - um dos itens básicos do passeio é visitar a fábrica e comprar o chcolate artesanal.
Há vários restaurantes-balneários, mas o melhor parece ser o Saldosa Maloca. Sim, saldosa com L. Pelo que nos explicaram, a primeira placa foi escrita de maneira errada e para não perdê-la, o dono resolveu deixar esse nome diferenciado.


O restaurante, como fica de frente para o rio, é muito ventilado e ornamentação é um dos diferenciais. Fica uma dica: eles vendem um copo de água por cinco reais. O copo vem caracterizado e já seria uma ótima lembrança, mas tem mais: dá direito a refil. Ou seja, o cliente pode beber água quantas vezes quiser. Ou seja: uma ótima lembrança e água a preço muito baixo. Os pratos são deliciosos, com destaque para o peixe.
Vários barquinhos fazem a travessia para a ilha. 



O chalé da ilha conta com balneário e até rede dentro da água.



Chalé da ilha é uma boa opção para quem busca diversão. 


A ilha permite uma bela vista de Belém. 

O valor de cada quadro na página

Em uma página de quadrinhos, os quadros podem ter valor narrativo diferente. Alguns merecem maior destaque, seja pela sua importância para a história, seja pelo seu valor dramático ou de ação. Ou seja: alguns quadros são apenas narrativos, outros devem provocar um impacto no leitor. Os quadros de impacto são maiores exatamente por serem mais importantes. O roteirista deve indicar, no roteiro, quando há um quadro de impacto na página. 

A minissérie Watchmen é um ótimo exemplo de como utilizar esse recurso, sendo uma verdadeira aula.
Abaixo uma página em que todos quadros têm a mesma importância:
Já na página seguinte, o último quadro tem maior valor dramático. Todos os outros são apenas uma preparação para o impacto deste último, pois o destino do mundo está nas mãos de um idiota:
Watchmen usa um esquema fixo de 9 quadros por página, como se fossem blocos que pudessem ser separados ou unidos.
Para formatinho, o esquema de 6 quadros funciona muito bem e pode ser usado da mesma maneira, inclusive com quadros de impacto. Ótimo exemplo disso são as páginas de Júlias, as aventuras de uma criminóloga.
Na página abaixo, de simples diálogo, não há necessidade de qualquer impacto, então os quadros são iguais:  
Já na página abaixo, o último quadro é maior, de impacto, para destacar a violência do personagem:
Abaixo um exemplo do Monstro do Pântano, de Alan Moore, com um esquema de quadros mais solto, mas que igualmente usa o tamanho do quadro para dar impacto à cena: