domingo, maio 31, 2026

Watchmen e a teoria do caos

 

Matéria de jornal de 1994 sobre o meu TCC sobre Watchmen. Hoje em dia todo mundo minimamente informado sabe que Alan Moore e Dave Gibbons usaram os princípios da teoria do caos na elaboração de Watchmen, mas na época essa informação era novidade a ponto de merecer matéria em jornal.

Fundo do baú - A família Ursa

 


Família Ursa (The Beary Family, no original) foi um desenho animado desenvolvido pela Walter Lantz, a mesa produtora do Pica-Pau. A família era composta pelo pai Ursulão, pela esposa, Úrsula, pelo filho Ursulino e pela filha Ursulina. Posteriormente a filha desapareceria das animações.

A trama geralmente começava com a matriarca percebendo que a casa precisava de algum serviço e tentando contratar profissionais especializados. E, invariavelmente, Ursulão decidia que ia ele mesmo fazer o serviço como forma de economizar dinheiro (ao que a esposa respondia batendo na testa e dizendo “Lá vamos nós de novo!”) . Mas tanto ele quanto o filho eram extremamente desastrados e o que era para ser economia virava prejuízo. Os episódios eram geralmente compostos de uma série de gags das trapalhadas da dupla.

Em um dos episódios, por exemplo, a esposa decide comprar um ar-condicionado, mas ursulão decide economizar o dinheiro da entrega e da instalação. No caminho da loja para casa o ar condicionado cai das mais variadas maneiras – na maioria das vezes machucando o próprio Ursulão. Depois, durante a instalação, ele e o filho provocam um grande buraco no chão, na parede e no teto.

Em outro episódio, Úrsula decide colocar um portão automático na garagem. Para economizar dinheiro, Ursulão decide criar ele mesmo um mecanismo. No final, eles acabam perdendo o portão e são obrigados a pagar não só pela instalação do sistema automático como por um portão novo.

O desenho tinha duração de 7 minutos e foi produzido de 1962 a 1972, num total de 28 episódios.

Drácula vs Heróis Marvel

 

Drácula versus Heróis Marvel foi uma publicação da editora Abril que reunia encontros do famoso vampiro com super-heróis. 
Nessa edição temos dois clássicos da década de 1970. "A nau dos condenados", de Len Wein e Ross Andru é uma história de 1974 em que o Homem-aranha, em busca de um remédio para Tia May, vai até um navio onde está um médico que também é procurado por um bandido e pelo vampiro. 
A história do aranha é repleta de diálogos e balões de pensamento. 


"O príncipe dos vampiros" é uma história em que o Dr. Estranho enfrenta Drácula depois que esse mata seu criado. O roteiro de Marv Wolfman e desenhos de Gene Colan.
Os dois desenhistas por si só já valem o volume. Gene Colan, desenhista oficial de Drácula, nasceu para fazer terror.

Mas vale a pena comparar com os dois mestres do roteiro (e grandes amigos) Len Wein e Marv Wolfman trabalham seus textos, adaptando-os ao gênero. A história do Homem-aranha segue o estilo super-heróis. Já a HQ do Dr. Estranho envereda de fato pelo terror. Wein, que co-criaria um dos mais famosos clássicos do terror, o Monstro do Pântano, sabia que sua história do Aranha tinha que ter pouco texto e muitos diálogos e balões de pensamento, estética consagrada por Stan Lee. 
A história do Dr. Estranho é caracterizada pelo texto denso. 

Já Marv Wolfman  recheia seu roteiro de um texto denso, que funciona como a trilha sonora de um filme de terror.
Bons roteiristas não são apenas os que sabem escrever ou criar boas tramas: são também aqueles que conseguem adaptar seu texto a cada gênero.

Quem é o Pantera Negra?

 


Quando o roteirista Reginald Hudlin contou aos amigos que ia escrever a revista do Pantera Negra, eles perguntaram: Quem? Isso o levou a escrever uma história que não só apresenta o personagem, mas também o reino de Wakanda e mas também criou as principais bases do que viria a ser o filme de enorme sucesso de 2018. Essa história, reunida no volume 38 da coleção de graphic novels Marvel chamou-se “Quem é o Pantera Negra?”.
Hudlin avança muito além do que até então tinha sido feito, remontando ao passado longíncuo de Wakanda, mais precisamente no século V, quando uma tribo rival tenta invadir o local e seus guerreiros são dizimados pelo sistema de defesa incluindo balestras gigantes. Depois, no século XIX, um grupo de aventureiros belgas tenta invadir o local com metralhadoras e é igualmente repelido.
A história pula para o presente, quando o rei de Wakanda está enfrentando adversários em uma disputa pela coroa enquanto dois grupos planejam invadir o país: de um lado vilões, chefiados pelo Garra Sônica, e do outro os americanos interessados nas riquezas naturais do país.


A história não só amplia em muito a mitologia do personagem, acrescentando informações (como a de que o Garra Sônica é descendente do belga que foi morto tentando invadir Wakanda no século XIX). E faz isso com muita ação e uma trama envolvente e empolgante. Além disso, acrescenta uma viva crítica social sobre como os países de primeiro mundo sempre viram a África como um quintal do qual poderiam retirar o que quisessem.
Os desenhos ficam por conta de John Romita Jr. Ele é adorado por muitos e odiado por outros (no geral eu gosto muito). Mas mesmo quem odeia dificilmente diria que ele não foi uma boa escolha. Fortemente influenciado por Jack Kirby, ele traz de volta toda a grandiosidade de Wakanda e cria um visual que seria a principal influencia para o design do filme.

Maria Erótica e o clamor do sexo

 


No ano de 2003, o jornalista baiano Gonçalo Júnior chamou atenção com um livro essencial para qualquer que queira entender o mercado editorial brasileiro. Guerra dos Gibis mostrava como alguns dos principais impérios editoriais haviam sido erguidos a partir das vendas astronômicas dos gibis, em especial nos anos 1940 e 1950. Focado na vida de Adolfo Aizen, o livro contava também a perseguição aos gibis, feita por padres, professores e políticos. Mas, como a narrativa terminava na década de 1960, faltava uma segunda parte. É exatamente a segunda parte dessa epopéia que a editora Peixe Grande está lançando agora, com o livro Maria Erótica e o clamor do Sexo (Peixe Grande, 2010, 494 p.).
Se o primeiro livro tinha como personagem principal o editor Adolfo Aizen (dono da Ebal), este segundo é focado em dois outros personagens: Minami Keizi e Cláudio Seto. Ambos viveram a fase mais difícil dos quadrinhos nacionais, quando a perseguição aos gibis nacionais era institucionalizada e fazia parte do programa da ditadura militar. E ambos revolucionaram a linguagem dos quadrinhos ao introduzir os mangás em nosso país.
Minami chegou em São Paulo com pouquíssimo dinheiro no bolso, foi rejeitado pela maioria dos editores da época (que estranharam seu traço com fortíssima influência oriental), mas acabou criando uma das melhores editoras de quadrinhos da década de 1970, a Edrel.
Vindo da mesma cidade que Minami, Lins, no interior paulista, Cláudio Seto foi um dos principais e mais revolucionários artistas da Edrel e, posteriormente, comandou o setor de quadrinhos da Grafipar, a maior trincheira dos quadrinhos nacionais no final da década de 1970 e início da década de 1980.
O livro acompanha ora um, ora outro, oscilando entre as histórias desse personagens tão interessantes quanto as histórias que criaram.
A forma como Minami consegue sair da miséria para se tornar dono de uma editora é digna de nota. Após ter seu trabalho rejeitado, ele investiu seu pouco dinheiro num sistema de venda de livros por reembolso postal (os anúncios do serviço eram conseguidos em publicações em troca de tiras de quadrinhos produzidas por ele) que deu tão certo a ponto de Sebastião Bentivegna, dono da editora Pan-Juvenil convidá-lo a ser supervisor editorial. Com o tempo, afundado em dívidas com agiotas, Sebastião chamou Minami e o dono da gráfica que fazia fotolitos para a editora e ofereceu a Pan-Juvenil, de graça, desde que eles assumissem as dívidas.
Minami investiu em quadrinhos ousados tanto pelo erotismo quanto pelas inovações estéticas, que aproximavam os gibis dos mangás e teve tanto sucesso que a editora, agora chamada Edrel, não só conseguiu quitar seus débitos, como ainda cresceu e chegou a ameaçar as grandes.
Foi nesse momento que começou a calvário de Minami com a ditadura. Felizmente, o editor guardou todo o histórico de correspondências com a censura, o que permitiu a Gonçalo Júnior fazer um raio x da repressão ditatorial, nos brindando com alguns dos momentos mais interessantes do livro.
O argumento da ditadura é que, por trás da liberdade sexual, que se mostrava através das publicações da Edrel, escondia-se o comunismo internacional, que pretendia desestabilizar a família brasileira. Curiosamente, o mesmo fenômeno era também combatido na União Soviética como um vício capitalista.
Gonçalo amplia a investigação sobre a censura na época, abarcando de revistas como Garotas de Piadas da Edrell aos gibis do Pato Donald e Luluzinha, além de revistas de reportagens, como a Realidade.
Mas a perseguição ao Pato Donald nem se comparava à repressão ao erotismo. Sem querer perder o negócio, Minami procurava se informar como continuar publicando sem ter suas revistas apreendidas. Logo descobriu que não havia parâmetros. Tudo dependia muito da cabeça do censor.
O risco maior não era só a apreensão de revistas: as sedes  das editoras poderiam ser invadidas a qualquer momentos e seus funcionários presos.
O esquema da censura era cruel especialmente para os pequenos editores, com poucas ligações com o poder. Na fase mais cruel da ditadura, as bonecas das revistas tinham de enviadas para Brasília, onde muitas vezes demoravam meses para serem analisadas. Se houvesse algum corte ou pedido de mudança, uma nova boneca deveria ser feita e enviada para Brasília para uma análise igualmente demorada.
Se a revista focasse em assuntos do momento, esse esquema era morte certa. No final, a repressão levou ao fechamento tanto da Edrel quanto da editora seguinte de Minami, a M&C.
Para fugir da repressão, Cláudio Seto, escondeu-se no único lugar onde não se esperava encontrar um subversivo: no partido do regime a Arena, pela qual foi eleito vereador em Lins.
Quando se casou, resolveu pegar a estrada e fazer uma viagem pelo sul do país. Ao chegar em Curitiba, encontrou a cidade envolta pela neve e, encantado, resolveu morar lá.
Sua ida para Curitiba parece ter sido arquitetada pelo destino, pois, na mesma época um editor local pretendia entrar no mercado erótico, aproveitando a abertura da censura e o interesse da população pelo tema. Era o início da Grafipar. Deu tão certo que virou uma verdadeira trincheira do quadrinho nacional, a ponto de alguns dos mais importantes artistas da época se mudaram para a capital do Paraná.
Erros editoriais, perseguição política e a crise econômica selaram o fim da editora, o que não a impediu de deixar uma marca poderosa nos quadrinhos brasileiros.
O livro se torna ainda mais importante pelo fato de tanto Minami quanto Seto terem morrido recentemente, quase no esquecimento, em especial Minami. Numa época em que os mangás dominam as bancas, poucos se lembram desses grandes artistas e editores que introduziram a linguagem oriental nos quadrinhos nacionais. Nas palavras de Toninho Mendes, que escreve a orelha da publicação: “Gonçalo Júnior faz ressurgir do limbo um segmento da imprensa nacional quase desconhecido: o dos pequenos editores de revistas e livros de sexo que desafiaram a polícia e os censores com forma criativas de enganar a repressão e fazer o brasileiro participar mais ativamente – em vários sentidos – da revolução sexual, que a ditadura tanto se empenhou por não deixar entrar no país”.

Perry Rhodan – A esfera do tempo e do espaço

 


Em algumas edições da série Perry Rhodan, a trama é tão desprovida de acontecimentos que nem mesmo os melhores escritores conseguem salvar. É o que acontece com o número 244, escrito por Clark Darlton.

A história se passa depois que a ameaça dos Moby foi debelada, com a destruição da lua Siren. Os defensores de Beta, por alguma razão, fogem para Andrômeda e resta a Perry Rhodan ficar andando para lá e para cá, como se estivesse num passeio. Ele vai visitar Troia, depois resolve ocupar o planeta Gleam... nada acontece.

Para quebrar um pouco a monotomia do livro, temos a presença de Aquilo, que aparece na nave sendo precedido por uma risada estrondosa, e por Harno, a esfera capaz de mostrar todos os pontos do universo como se fosse uma TV avançada.

Só começa a acontecer de fato alguma coisa na página 83, quando Gucky é aprisionado por androides que protegem Gleam. Detalhe: o livro tem 104 páginas!

sábado, maio 30, 2026

Jornada nas estrelas – o espelho

 


O tema das realidades paralelas apareceu pela primeira vez em Jornada nas Estrelas no episódio "O Fator Alternativo" e foi um desastre absoluto. Na segunda temporada, os roteiristas pareciam finalmente ter aprendido a lidar com a temática. Foi quando apareceu no episódio O espelho.
Na trama, Kirk, McCoy, Uhura e Scotty estão tentando fazer um acordo comercial com líderes de um planeta pacifista. Quando voltam para a enterprise, uma tempestade magnética faz com que eles sejam direcionados para uma realidade paralela em que a Federação dos planetas se tornou um império militarista e os oficiais sobem de postos assassinando seus superiores – e cada membro da Enterprise tem o seu duplo. Kirk e amigos precisam descobrir como voltar para nossa realidade ao mesmo tempo em que devem evitar que os outros descubram que eles não são suas contrapartes malignas. Destaque para Spock com uma barba e bigode que, como diz o próprio McCoy, lhe dão personalidade – e pode ser a pessoa a descobrir o que realmente está acontecendo e evitar que o grupo volte para a nossa realidade.
O roteirista Jerome Bixby parece ter se inspirado no tema do duplo, de Edgar Alan Poe. Poe imagina um personagem, William Wilson que se vê atormentado por um alter-ego maligno e se transformou em base para vários outros personagens, tornando-se um verdadeiro arquétipo moderno. A novidade aí foi transportar o tema para a ficção científica e misturá-lo às realidades alternativas – e fazer isso com muita competência.
O resultado foi tão bom que acabou gerando episódios nessa mesma realidade em várias outras encarnações da franquia.

The Hunters

 


Quando terminou a II Guerra Mundial, muitos dos principais cientistas nazistas foram levados para os EUA, onde seriam fundamentais para o projeto Apolo, que levou o homem à Lua. Na década de 1970 caçadores de nazistas começaram a identificar criminosos de guerra que haviam se refugiado nos Estados Unidos e denunciá-los. Esses dois fatos reais foram aproveitados para bolar uma das séries mais interessantes da atualidade: The Hunters.
Na história, um grupo de sobreviventes, após ver que suas tentativas de denunciar nazistas não davam em nada, resolvem montar uma equipe para matar os mesmos. No meio desse processo, acabam descobrindo que os nazistas organizaram um grande plano para implementar o 4º Reich e precisam impedi-los.
A série lembra muito seriados famosos das décadas de 70 e 80, a exemplo de Esquadrão classe A, em que um grupo de renegados com características e habilidades muito diferentes luta contra vilões enquanto são caçados pela lei. E une isso com um clima Tarantino de muita violência estilizada, visual retrô e uma trilha sonora maravilhosa, que inclui até Tim Maia na sua fase racional. Acrescente a isso uma narrativa que oscila bem entre o dramático, o humor ácido e até a metalinguagem – impagáveis os inserts feitos na forma de comercial na qual se ensina como identificar um nazista ou um show de variedades em que ganha quem consegue advinhar porque os judeus são tão odiados (a vencedora ganha com a resposta: “Porque são judeus!”).
A primeira sequência do primeiro episódio é, literalmente, matadora: um nazista que trabalha como conselheiro da casa branca está fazendo um churrasco com amigos quando uma das convidadas o reconhece como criminoso de guerra. Ele simplesmente saca uma pistola e mata não só ela, mas todos os presentes – e depois consegue convencer a todos de que foi o sobrevivente de um massacre.
A série tem algumas incoerências, como idades dos personagens que não batem – a garota que reconhece o nazista na primeira sequência, por exemplo, é nova demais para ter sido sobrevivente de campo de concentração. Mas é um detalhe que pode ser facilmente relevado diante de todo o resto.  
Poderia-se dizer, então, que The Hunters  é uma das melhores séries da atualidade? Sem dúvida nenhuma – se você ignorar completamente o último capítulo. Ali os roteiristas forçaram a mão num plot twist totalmente desnecessário e muito forçado. Uma boa ideia seria assistir ao seriado e simplemente pular esse capítulo.  

Júlia Kendall – De má-fé

 

 

Há Quem diga que Giancarlo Berardi é o melhor roteirista de quadrinhos da atualidade. Histórias como “De má-fé”, publicadas no número da revista 190 da revista mostram que ele pode até não ser o melhor, mas certamente está no páreo dos melhores de todos os tempos. 

Na trama uma jovem mulher é encontrada morta na beira de um rio em Garden City. O corpo foi queimado, mas uma tatuagem indica que ela é de origem russa ou ucraniana. 

Em paralelo a isso, Júlia ajuda uma mulher a encontrar um homem desaparecido. Esses dois fatos, que aparentemente não têm relação nenhuma, acabam se mostrando parte de uma trama maior, que envolve imigração ilegal, prostituição e golpes pela internet. 

Uma mulher é encontrada morta... 


Dois aspectos chamam atenção. O primeiro deles é como Berardi faz com que essa trama aparentemente simples, sem grandes atrativos, torne-se uma história envolvente, do tipo que lemos de um só fôlego. 

A segunda são os diálogos. Berardi é um mestre dos diálogos a ponto de parecer que estamos vendo de fato pessoas conversando. E, ao contrário de outros roteiristas que usam a habilidade para o diálogo como uma forma de exibicionismo, o roteirista italiano usa isso a favor da história. 

Uma das técnicas usadas é fazer os personagens constantemente fugirem, mesmo que momentaneamente, do assunto principal. 

... e um homem desaparece. Qual a relação entre os dois fatos. 


Um exemplo dessa habilidade do.momento em que Julia interroga uma das prostitutas:

Júlia: A coisa não envolve só prostituição. Nós temos um crime.. . 

Prostituta: Eu fala com advogado…

Júlia: Aposto que é o mesmo das outras. 

Prostituta: Somos grupo unido. 

Júlia: O aluguel é pago pela organização que fez vocês entrarem clandestinamente nos Estados Unidos, certo? 

Prostituta: Advogado se chama Garfield, tenho número na bolsa. 

Júlia: Quem pode ter matado sua amiga Glenda? 

Prostituta: Não sei mesmo… 

Júlia: E o senhor Reginald Wood, o que houve com ele?

Berardi é um mestre dos diálogos. 


Esse trecho simples é repleto de subtextos. A prostituta usa as falas sobre o advogado para fugir das perguntas. Mas Julia também usa a mesma estratégia. A pergunta sobre o aluguel não está diretamente ligada ao assunto, e é uma tentativa de encurralar a depoente. Ela, entretanto, só consegue isso quando foge novamente do assunto, perguntando sobre o homem desaparecido. 

Tal habilidade na condução dos diálogos parece essencial em gênero como o policial em que uma pista que muitas vezes pode levar a solução de um caso pode estar em uma fala aleatória.

Em tempo: o roteiro chama tanta atenção que acabei esquecendo de comentar sobre o desenhista Roberto Zaghi, que faz um ótimo trabalho na edição.

O gênio do crime

 



Uma das obras mais famosas e reconhecidas da literatura infantil brasileira é O gênio do crime, de João Carlos Marinho, lançado originalmente em 1969 pela editora Brasiliense. O livro chegou a vender mais de um milhão de exemplares somando todas as suas edições.

A abertura do livro é uma verdadeira pérola literária. Se fosse uma matéria jornalística, seria o lead perfeito:

“Deu mania, mania forte, dessas que ficam comichando o dia inteiro na cabeça da gente e não deixa pensar em mais nada. Quem enchia o álbum ganhava prêmios bons e a turma jogava abafa pela cidade: São Paulo estava de cócoras, batendo e virando”.

A história gira em torno de um empresário de figurinhas que está sendo vítima de um vigarista. Alguém está imprimindo as figurinhas difíceis e vendendo por altos valores. Como resultado, a empresa precisa pagar muito mais prêmios do que deveria de fato. Isso, aliás, gera um revolta e as crianças chegam a pensar em incendiar o prédio quando uma delas, Edmundo, convence as outras a resolver a situação de modo pacífico.

Na sequência, o dono da empresa procura o garoto e lhe faz um pedido: descobrir a o fornecedor das figurinhas falsas. O homem já havia contratado diversos detetives, mas os cambistas sempre os despistavam. Restava a ele tentar com crianças, que chamariam menos atenção.

Entra em ação o trio de protagonista: Edmundo, Pituca e Gordo, ou Bolacha. São os três que vão descobrir toda a trama por trás do gênio do crime envolvido com as falsificações. Lá pelas tantas entra na história um tal de Mister John, um detetive gringo que cria as principais situações de humor da história.

A trama é surreal. Por que razão um gênio do crime, que seria capaz de bolar qualquer tipo de golpe,  resolveria gastar seu tempo falsificando figurinhas de jogadores de futebol? Pior: ainda estabelecendo um esquema extremamente sofisticado de recebimento de encomendas e entrega de de figurinhas para os cambistas?

Além disso, hoje o livro dificilmente seria aceito, a começar pelo  próprio apelido de um dos protagonistas, Gordo. E, logo na primeira participação na história, o detetive gringo oferece uísque para uma das crianças. Quando Pituca bebe, é tomado por soluço incurável. Essa cena, politicamente incorreta em todos os sentidos, é coroada por um dos momentos mais cômicos da história. O Mister pede que Pituca coloque um copo de água sobre a cabeça e depois atira, estilhaçando o copo. “O senhor ficou gira, Mister. E se o tiro pega em mim?”, reclama o garoto. “O sistema ser perfeita”, responde ele. “Se tira pegar na você, a soluço passar da mesma maneira”.

Provavelmente o segredo do sucesso do livro estava justamente aí. Na trama ao mesmo tempo infantil e ingênua misturada com situações de perigo real.

Além disso, é inegável a força narrativa de João Carlo Marinho, que brinca com as palavras, inventa, dribla a gramática em frases e palavras como “O cambista conferiu o seu oclóque”, “atrapalhação”, “esparramação”, “pranchou”; “escapulido”.

Marinho inovou tanto na linguagem que provavelmente se sentiu inseguro quanto à recepção do livro. Tanto que na primeira edição acrescentou um posfácio dedicado a professores em que defende seu jeito de escrever citando exemplos de grandes nomes da nossa literatura, como Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Nas edições seguintes, com o sucesso absoluto do livro junto ao público infantil, esse posfácio desapareceu.

Uma curiosidade: quando procurava o livro para resenhar, acabei descobrindo que, além de uma edição recente da Ediouro, tinha também uma da Brasiliense. Fui olhar a data e descobri que é nada menos que a primeira edição do livro no Brasil. É a capa dele que aparece na imagem.

O Kit gay, diretamente de Paris

 


Olhem o que achei num sebo... O kit gay!!! E, quem poderia imaginar..... ELE É FRANCÊS?!?!?!!!!! Ainda bem que nosso presidente nunca vai deixar publicarem aqui. Nossa bandeira jamais será vermelha, azul e branca. O Brasil nunca vai ser a França!!!!!!!!!!
O Kit gay ensina que os bebês são feitos na máquina de xerox!!!!
Mas o que eu achei mais impressionante é que o kit gay, em nenhum momento parece falar de homossexualidade. Não entendi isso. 
O Kit gay fala de garçons, mas não fala de gays. Não entendi nada.

A arte inquietante de Edgar Franco

 

Edgar Franco é um renomado artista-pesquisador brasileiro. É um dos nomes mais destacados da linha poético-filosófica, estilo de quadrinhos que ele batizou em um de seus muitos artigos acadêmicos. Vê-lo desenhar é sempre um deleite: as formas vão surgindo de linhas aparentemente sem relação, dando vazão a imagens oníricas, lisérgicas, de ficção científica, pós-humanas. É um artista de quadrinhos em busca constante de inovações, que se interessa tanto pelo processo quanto pelo resultado final.









Conan - Os guardiões da tumba

 


Em 1971, Roy Thomas e Barry Smith estavam em plena forma para transformar a revista do Conan em um grande sucesso da Marvel. O começo tinha sido atribulado, com os dois tentando entender o personagem e as vendas caindo. Mas o número oito salvou tudo. A razão não era só a qualidade da história, muito superior às anteriores, mas também a uma dica de Stan Lee: este percebera que o excesso de animais nas capas da revista estava afastando os leitores. Roy Thomas abandonou a ideia de colocar o dragão na capa e colocou em seu lugar mortos-vivos. Funcionou. A revista a partir daí só aumentou as vendas.
Barry Smith tinha melhorado muito na anatomia dos personagens. 


A história começa com Conan fugindo de uma patrulha após ser incriminado pela morte de uma nobre na história anterior e acaba indo parar em uma cidade abandonada e um templo repleto de jóias. Um dos soldados que o está caçando acaba mudando de ideia quando vê tanto ouro e predras preciosas e resolve ajudá-lo a roubar o tesouro, quando são atacados pelos guardiões da tumba, guerreiros mortos-vivos.
O desenhista inova na diagramação. 


Barry Smith ainda apanhava na figura humana e na sua representação de Conan, mas nessa história dá um verdadeiro show nos detalhes do cenário e principalmente no dragão que ataca o cimério. Já estava ali, naquele dragão, o desenhista que seria venerado pelos fãs de quadrinhos. Novidade também na diagramação: aqui ele abandona completamente o esquema de seis quadros típico dos quadrinhos de super-heróis – sinal de que para ele já estava muito claro que Conan não era uma revista de heróis.
A história ainda tem problemas, como a forma fácil com que o cimério vence os guardiões e a parte final, forçada, em que ele reencontra a prostituta Jenna, mas o plot twist do final compensa essas pequenas falhas.

sexta-feira, maio 29, 2026

Experiências e livros

 Monteiro Lobato já disse que um país se faz com homens e livros. Da mesma forma, um homem se faz de experiências e livros. Não há formação intelectual que não passe pela leitura.

O convite para integrar o especial "Biblioteca Básica" do site Digestivo Cultural me fez pensar em todos os livros que, de uma maneira ou de outra, ifluenciaram minha formação.
O mais remoto deles, parece-me, é pouco conhecido da geração atual. Mas fez as delícias de todos os jovens devoradores de livros da década de 80. Falo de Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, publicado na época na coleção Vaga-lume.


Esse foi o primeiro livro que li (não estou contando os pequenos livros infantis dos quais guardo poucas lembranças). Devia ter algo em torno de 10 anos. Pode parecer uma discrepância eu ler meu primeiro livro aos 10 anos, mas há de se considerar que eu cresci em uma família pobre, na qual livros eram um luxo supérfluo.
Só consegui convencer minha avó a me dar o dinheiro para esse livro porque ele ia ser utilizado na escola. Na época vivíamos na pequena cidade de Mococa, no interior de São Paulo.
Eu mesmo fui à livraria, no outro lado da cidade e comprei o livro. Antes que o dia terminasse eu já o tinha lido inteiro. No dia seguinte, dia de frio, coloquei uma cadeira no quintal e, enquanto tomava um sol, li pela segunda vez.
Uma semana depois a professora iniciou a leitura em sala de aula, mas o rapaz responsável por ler o primeiro capítulo não havia nem mesmo aberto o livro. “Alguém já leu o livro?”, perguntou a professora. Eu levantei a mão: “Já li cinco vezes, professora”. Li tantas vezes que decorei. Os colegas me desafiavam lendo um trecho e eu, invariavelmente, conseguia dizer a página na qual aquele trecho estava. 
Aventuras de Xisto influenciou meu gosto pela história, especialmente pela história medieval. O clima sombrio e fantasioso também influenciou muito minha literatura. Minha novela O Anjo da Morte é uma espécie de Aventuras de Xisto para adultos. Gostaria de dar destaque também para as ilustrações do livro, de autoria de Mário Cafiero. Sempre imaginei ter uma história desenhada por ele.


Depois disso, eu não tinha mais como convencer minha avó a comprar outros livros e só fui voltar a ler uns quatro anos depois, quando descobri a biblioteca pública e os sebos. Foi época de conhecer Monteiro Lobato.
Não houve um livro específico que tenha me influenciado. Nessa época lia tudo que me chegava às mãos do autor paulista. Curiosamente, li primeiro sua literatura adulta, depois a infantil. Na literatura adulta, Urupês é sem dúvida a obra-prima. Lobato estava menos preocupado em fazer literatura e mais em causar uma impressão no leitor. Lembro que a primeira vez que li me pareceu um livro de terror... Da literatura infantil, História do mundo para crianças é, certamente, a obra que li mais vezes. Lobato era uma dessas inteligências enciclopédicas, que escreviam sobre tudo e em tudo deixavam um gosto delicioso.


Mais ou menos por essa época, tinha um amigo que colecionava a revista Heróis da TV e descobri um sebo que as vendia por um preço irrisório. Eu comprava as revistas e as vendia pelo dobro do preço, e assim conseguia dinheiro para comprar minhas próprias revistas. Antes de vender as revistas, eu passava o final de semana lendo. Só muito tempo depois fui perceber o quanto essas leituras me influenciaram, especialmente as histórias do Mestre do Kung Fu, de Dough Moench (roteiro), Paul Gullacy e Mike Zeck (desenhos).

1984, de George Orwell, foi a leitura que mais influenciou o período da universidade. Quando já estava no final do livro, fui comprar adubo para minha avó (que adora plantas). Como o troco demorasse, encostei no balcão e comecei a ler. Só sai de lá depois de ter lido a última palavra, para espanto dos balconistas. 1984 é um livro que deixa uma marca em quem o lê. É impossível sair dele o mesmo.
Também da época da Faculdade, O Nome da Rosa, de Umberto Eco foi um livro que prendeu minha atenção. Às vezes desconfio que só gostei tanto dele porque a ambientação era quase a mesma de Aventuras de Xisto. Em todo caso, li-o três vezes. Na primeira, o que mais me chamou atenção foram os detalhes sobre a história da Idade Média. Na segunda, os aspectos relacionados às teorias da comunicação (especialmente semiótica e teoria da informação). Na terceira, eu já estava mais interessado em detectar as influencias de Jorge Luís Borges sobre a obra.


Chegamos em Borges. O que mais me marcou no autor argentino não foi um livro, mas um conto: "O Aleph". O texto parecia uma versão literária de meus estudos sobre teoria do caos. A partir daí comecei a devorar tudo que me caía as mãos sobre o autor portenho. 
"O Aleph" me foi emprestado por um colega de redação na Folha de Londrina. Foi também ele quem me emprestou Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. Eu já havia lido Farenheith 451, mas esse parecia uma versão menor de 1984, de Orwell. Crônicas Marcianas tinha vida própria e fez com que eu me interessasse pela literatura de ficção científica norte-americana.
De Bradbury para Isaac Asimov foi um passo. Além das histórias de robôs, sempre me fascinaram seus textos de divulgação científica. Asimov produziu um verdadeiro tijolo, Cronologia das descobertas cientificas, que foi meu livro de cabeceira durante o mestrado.
Uma história em quadrinhos que mudou a minha forma de ver o mundo foi Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Moore virou de cabeça para baixo os comics norte-americanos ao mostrar os super-heróis de uma perspectiva realista. Histórias de heróis cuja vestimenta é uma fantasia sexual se misturam com casos de personagens que deixaram escapar bandidos porque precisavam ir ao banheiro. Pode parecer humorístico, mas a perspectiva não era essa. Moore realizou uma obra profunda sobre a condição humana em meio ao caos. O subtexto baseado na teoria do caos e na geometria fractal passou despercebido pela maioria dos leitores e só se tornou corrente no Brasil após o meu trabalho de conclusão de curso de graduação.


Já que falamos em teoria do caos, Caos: a criação de uma nova ciência, de James Gleick, é outro livro que exerceu grande influência sobre mim ao me mostrar o poder desse novo paradigma para explicar fenômenos não deterministas. Fenômenos deterministas são aqueles que seguem um padrão fixo, como um relógio. Para a ciência clássica, todo o universo era determinista. A teoria do caos demonstrou que esse modelo do universo como um relógio não corresponde à realidade. A maioria dos fenômenos, por mais determinados que pareçam, podem mudar de comportamento de uma hora para outra em decorrência de pequenas alterações, chamadas de efeito borboleta.
A teoria do caos foi uma das bases da teoria de Edgar Morin. Esse autor francês produz tanto que é quase impossível destacar um livro mais importante. Ciência com consciência, Sete saberes necessários à educação do futuro e A Cabeça bem-feita são alguns dos mais famosos. Morin defende uma nova visão de mundo, diversa daquela inaugurada por René Descartes, segundo a qual, para conhecer algo, é necessário dividir esse algo em pequenas partes e estudá-las um a uma.
Para Morin, as partes não podem ser vistas senão em sua relação com o todo. A teoria do caos demonstrou que tudo está relacionado. Uma pequena borboleta batendo suas asas na China pode desencadear uma série de eventos que redundam em uma tempestade em Nova York.
Morin critica a fragmentação dos saberes e defende uma ciência que vê as coisas em suas relações com outras coisas. Pensando bem, isso tem tudo a ver com a filosofia oriental que aparecia nas páginas das histórias em quadrinhos do Mestre do Kung Fu. Talvez tudo esteja mesmo interligado.