domingo, fevereiro 22, 2026

Roteiro de quadrinhos: o texto como caracterização dos personagens

 

Os diálogos ajudam a caracterizar os personagens. 


Antes de escrever seja um texto sobre ou uma fala de um personagem, é importante entender quem é ele. O diálogo do personagem é reflexo de sua personalidade, de sua história de vida, do ambiente em que foi criado. Dois exemplos extremos: o Hulk e o Thor têm falas completamente diferentes. A maneira como cada um se expressa nos diz muito sobre eles.

Antes de escrever para o personagem, é importante pensar quem é ele, quais são suas motivações, qual a sua história de vida, quantos anos ele tem, qual a sua profissão, se ele tem algum medo, se tem uma  história de vida que poderia ser lembrada nesse momento, se ele tem família, o que ele está sentindo ou pensando. 

Quanto mais detalhes tiver sobre o personagem, melhor conseguirá caracterizá-lo através da fala ou do texto. Mesmo para personagens secundários o ideal é ter uma noção de sua personalidade e sua história de vida. Algo inclusive que se pode fazer é colocar ganchos sobre esse histórico nos diálogos.

A série Exploradores do Desconhecido, com roteiro meu e arte de Jean Okada mostra exploradores espaciais, cada um com um poder ou habilidade especial, que acabam indo parar em outra realidade através de um salto quântico. Os personagens não são apresentados como detentores dessas habilidades. Elas são indicadas aos leitores através de pequenos ganchos nos diálogos, pequenos detalhes que irão contribuir para que o leitor, posteriormente aceite os poderes. Ou seja: os diálogos também pode ser elementos importantes no pacto de verossimilhança que se estabelece com o leitor.

Exploradores do Desconhecido: Os diálogos dão pistas sobre as características dos personagens.

Sobre o diálogo como característica da personalidade do personagem, observe esse diálogo do Rei na série a queda de Matt Murdock:

Faça o iate voltar a nova York. Localize todos que tocaram neste envelope... Ou que falaram com quem tocou... e aguarde a ordem para matar.

O texto é todo no imperativo, representando alguém que está acostumado a dar ordens e que não admite contestação. A fala também revela alguém objetivo, prático.

Os diálogos demonstram a nobreza do Surfista Prateado. 



Em contraste, observe esse diálogo do Surfista Prateado, na graphic novel Parábola, com roteiro de Stan Lee e arte de Moebius:

Se desistirmos da luta só porque as chances de vitória são pequenas, onde fica o nosso valor? Que nossa motivação seja sempre o que nos leva em frente, e não as chances de sucesso.

Essa fala nos revela um personagem filosófico, poético, mais preocupado com ideais do que com a praticidade da vida.

Veja agora a fala do Monstro do Pântano na fase escrita por Alan Moore:

Não, Arcane. Esta é a nossa primeira batalha... você e eu... nunca nos encontramos... e também nossa última. Você reclama... o planeta para si... Arcane. Mas sem ter... um décimo do poder da terra.

A primeira coisa que chama atenção são as reticências. Elas dão a ideia de alguém que fala de maneira arrastada,  como de fato falaria uma planta tentando se comunicar como humano. Apesar disso, o diálogo demonstra grande auto-confiança. Vale lembrar que nessa fase do personagem ele está descobrindo poderes que não sabia ter, como a capacidade de regenerar o próprio corpo e esse empoderamento do personagem se reflete em sua fala.

Monstro do Pântano: uma planta tentando falar como um humano. 



Aliás, uma forma ideal de escrever diálogos de um personagem é se imaginar sendo ele. Alan Moore conta que andava pela casa como um corcunda quando estava escrevendo as falas de Etrigan no Monstro do Pântano. O resultado foi isso:

A graciosa dama e seu monstro coberto de raízes chegaram para salvar os inocentes de tal crime e do medonho banquete macacal poupar os petizes. Que alma nobre a deles! Que arrojo sublime! E mirem as crianças, com tanto alarido, acordam seus guardiões, raça tão dedicada! Embora ele traia a esposa, e ela o marido, ambos só querem tirar a criança da enrascada.

O diálogo é escrito de forma a mostrar que se trata de alguém diverso dos seres humanos comuns (Etrigan faz parte do grupo de demônio rimadores) e extremamente cínico.

Os vilões, aliás, funcionam melhor quando são bem caracterizados. Ao criar o principal vilão do Capitão Gralha, o Doutor Destruição, imaginei-o como alguém muito letrado, mas enlouquecido. Mas o Doutor não o tipo vilão maluco, desvairado. Ao contrário, é alguém que a todo momento procura mostrar seu refinamento (ele é filho de uma família aristocrática). Devido a um trauma de infância, ele é fascinado pela letra D. Tudo isso se reflete nas falas do personagem:

Débil demagogo, seus desejos defenestraram!  Destruirei Curitiba e depois o mundo. E você descansará desolado a dez palmos sem poder desbaratar meus planos descontrolados!

Tarzan e Balu dos grandes macacos

 


Na fase de Joe Kubert à frente de Tarzan algumas histórias são singelas, mas se destacam principalmente pela narrativa visual e pela arte estupenda.

Exemplo disso é “Balu dos grandes macacos”, publicada no número 213 da revista.

A arte estupenda de Joe Kubert é o destaque da história. 


A história começa com o Homem-macaco voltando de uma caçada e encontrando um macaquinho (o Balu do título). Ele tenta se aproximar do bebê, mas é rechaçado pela mãe histérica e depois pelo pai. Na tentativa de não machucar o amigo, Tarzan o prende no alto de uma árvore e depois tem que evitar que ele seja molestado pelos outros macacos.

Kubert usa a narrativa paralela como elemento de suspense. 


A genialidade da história está no último quadro de cada página. Um quadro horizontal, mostrando dois olhos felinos observando os macacos. Kubert usa esses quadros para criar um clima de suspense, antecipando um perigo que vai eclodir lá na frente, quando o casal de panteras emerge da selva na tentativa de caçar o macaquinho.

No Brasil essa história foi publicada originalmente pela Ebal e depois pela Devir.

Thor contra o Gárgula Cinzento

 


A revista do Thor sempre oscilava entre a mitologia e os super-heróis. Kirby puxava para o mitológico, Stan Lee, como roteirista e editor, trazia para os super-heróis.

Em alguns casos essa tensão levava a resultados divertidos, como na edição de Journey in to Mystery 113.

A história começa com uma splash page grandiosa mostrando Thor e outros deuses nórdicos velejando pelo ar em um navio viking. A ilustração brincava com os sentidos do leitor, com um efeito Escher numa escada impossível na lateral da nave. O texto dizia: “Quando o imperioso Odin comanda, Thor tem que obedecer! Assim, nós o encontramos a bordo da gigantesca nau celeste asgardiana, integrando a legião dos deuses que enfrentará os guerreiros demoníacos de Jotunheim! Isso não tem muito a ver com a parte principal da história, mas você tem de admitir que é um começo para lá de espetacular!”.

Kirby era um especialista das splash pages grandiosas. 


Segue-se uma página com dois quadros igualmente monumentais (e igualmente repletos de elementos) de batalha. O texto metalinguístico de Lee diz: “Nós prometemos a Jack Kirby que ele poderia desenhar algumas dessas cenas de batalha de cair o queixo... então lá vai! Aproveite... pois não cobramos um centavo a mais por isso!”. O texto brincava com a tensão entre os elementos de super-herói e mitologia do título e, ao mesmo tempo, fazia um tremendo marketing do trabalho de Kirby.    

Ao publicar a história, a Ebal tirou do texto todas as referências metalinguísticas.


Terminada essa sequência, Thor volta para a terra, disposto a abdicar de sua condição de imortal em favor do amor pela enfermeira Jane Foster. Enfurecido com essa escolha, Odin retira dele seus poderes. Claro que um vilão iria aparecer exatamente nesse momento: o Gárgula Cinzento, capaz de transformar qualquer pessoa em pedra por uma hora.

O que se segue é uma comédia de erros: Don Blake conta que é o deus do trovão, bate o martelo e nada acontece. A enfermeira acha que ele está enlouquecendo. Logo depois surge o vilão querendo que lhe contem onde está Thor.

Um personagem com asas de pedra capaz de... voar? 


Enquanto persegue os dois, o vilão diz: “Esqueceram que as minhas asas de pedra me dão poder de vôo ilimitado?”. Será que sou só eu que acho estranho um personagem com asas de pedra ser capaz de... voar?

Como era de se esperar, Thor volta a ter seus poderes no momento certo e consegue derrotar o vilão.

Beach Babe

 


A origem de Beach Babe está na HQ O Farol, publicada em uma das muitas revistas eróticas da editora Nova Sampa. Quando Bené se tornou um desenhista famoso nos EUA um agente teve a ideia de oferecer essa e outra história (Blood Road) para a editora Phantagraphics, dos EUA, que lançou ambas em revistas solo no selo Eros Comics no ano de 1995.

Na trama um casal vai para uma praia deserta e descobre o que parece ser um farol abandonado. Mas na verdade trata-se de uma nave espacial cujo objetivo é coletar informações sobre os habitantes da Terra. E a primeira informação que eles coletam é sobre prazer: o casal se separa e mulher encontra com um homem  belíssimo e acabam fazendo sexo (embora não seja mostrado, o homem também encontra uma mulher belíssima).

O casal descobre um farol, mas na verdade trata-se de uma nave espacial. 


No final, uma narrativa da nave diz que os androides recolheram informações sobre o prazer, mas falta a sensação de dor... e os personagens são retalhados.

Essa história foi publicada, mas gerou uma carta do editor Franco de Rosa na qual ele pedia, por favor, que nós não matássemos os personagens nos finais das histórias.

O desafio era expressar com o texto o sentimento da personagem. 


Embora a trama fosse simplória, quase uma desculpa para cenas de sexo (afinal, era uma revista erótica, lembram?), eu gosto particularmente do texto, inclusive nas sequências eróticas, na qual eu usei e abusei de metáforas náuticas.  Nesse sentido, o desenho do Bené criava um desafio, pois a narrativa visual era muito eficiente, contando a história praticamente sozinha. A forma de tornar o texto relevante era explorar aspectos que a imagem não conseguia mostrar.

A história tinha um toque de humor ácido. 


O quadro que mostra a moça vendo o androide é um exemplo de como usar o texto para mostrar a percepção dos personagens indo além do que o desenho podia mostrar: “Eu o vejo. Milhares de lampejos minúsculos se elevando... fazendo espirais... e se inclinando em queda livre rumo ao chão”.  

Fundo do baú - Banana Split

 

Os Banana Splits surgiram em 1968 quando a Hanna-Barbera decidiu criar um desenho animado chamado The Banana Bunch, mas nove meses antes de começarem a produzir o desenho, acreditaram que seria mais viável transformar os personagens em bonecos interpretados por atores fantasiados.
O programa tinha o cão Fleegle, o leão Drooper, o gorila Bingo e o pequeno elefante Snorky que formam a banda Banana Splits.
O grupo fazia palhaçadas e trocadilhos em meio a clipes musicais enquanto apresentavam os desenhos dos Cavaleiros da Arábia, dos Três Mosqueteiros e o seriado A Ilha do Perigo.                       
Quando não estava tocando a banda do barulho estava dirigindo seus bugs com 6 rodas, ou escutando a cabeça de alce. O grupo vivia trombando uns nos outros, além de esbarrar  nos móveis do lugar onde moravam juntos, uma espécie de galpão psicodélico.
A primeira temporada do seriado foi um sucesso, já a segunda não obteve os mesmos resultados, pois as crianças achavam estar vendo reprises. Em meados dos anos 70, 187 episódios da série foram editados para meia hora de duração, e foi essa versão que chegou ao Brasil pela TV Tupi e TV Bandeirantes.

Viva - a vida é uma festa

 


O ser humano é o único animal que tem consciência da própria morte. A percepção da própria finitude fez com que ele procurasse formas de sobreviver na memória de outras pessoas. Ter filhos, família, deixar uma obra pela qual será lembrado são formas de continuar existindo após a morte, de alcançar a imortalidade.

O esquecimento como uma forma de morte é o tema central de Viva - a vida é uma festa, filme da Pixar dirigido por Lee Unkrich, de 2017.

A história se passa no México. O garoto Miguel sonha se tornar um músico, mas vive em uma família em que todos odeiam a música. A tararavó de Miguel, Amélia, foi abandonada pelo marido músico e a partir de então, a música foi banida do seio familiar.

Durante o Dia de los muertos, a família coloca em um altar as fotos de todos os seus ancestrais, incluindo a foto da taravó e seu marido, com o rosto recortado. Ao acidentalmente, quebrar a moldura, Miguel descobre que o marido de Amélia segurava o violão de Enersto De La Cruz, o que pode indicar que ele é descendente do cantor mais famoso do México. Quando seu violão é quebrado, ele resolve “emprestar” o violão do famoso tataravô como forma de apresentar em um festival de música. É quando a magia acontece: ele é transformado em um fantasma e começa sua jornada pelo mundo dos mortos. Seu objetivo é encontrar Ernesto de la Cruz e conseguir sua benção para voltar ao mundo dos vivos e, ao mesmo tempo, tornar-se um músico importante.

No caminho, encontra com um fantasma abandonado, cujo único sonho é voltar para a terra para visitar sua filha, a única pessoa que ainda se lembra dele. Na realidade do filme, quando alguém é totalmente esquecido, ela desaparece inclusive do mundo dos mortos, sumindo para sempre.

Em sua jornada, Miguel irá descobrir um novo significado para seu talento e se reconciliará com a família.

A cena em que Miguel canta para a vó é um dos momentos mais emocionantes.


O resultado disso é um filme repleto de ação, mas também repleto de significados, engraçado, mas emocionante. É um filme com roteiro pefeito, em que tudo se encaixa e até as piadas de fundo acabam se mostrando fundamentais para a história. E é um filme musical em que nada é forçado, todas as músicas encaixam perfeitamente na narrativa. A música “Lembre de mim”, por exemplo, praticamente resume a história e gera uma das cenas mais emocionantes do filme, quando o garoto canta para a bisavó:

 

Lembre de mim

Hoje eu tenho que partir

Lembre de mim

Se esforce pra sorrir

 

Não importa a distância

Nunca vou te esquecer

Cantando a nossa música

O amor só vai crescer

 

Lembre de mim

Não sei quando vou voltar

Lembre de mim

Se um violão você escutar

 

Ele, com seu triste canto

Te acompanhará

E até que eu possa te abraçar

Lembre de mim

E-book A linguagem dos quadrinhos

 


 

Já está disponível em versão digital o livro A linguagem dos quadrinhos. Organizado por mim, pelo Rafael Senra e pelo Matheus Moura reúne seis artigos sobre HQs, entre eles meu artigo O uso de elipse em Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Para baixar, clique aqui. Quem quiser adquirir a versão impressa, só mandar um e-mail para profivancarlo@gmail.com. O valor da versão impressa é doze reais (apenas para pagar o frete).

Perry Rhodan - o universo vermelho

 

 

No número 75 da série Perry Rhodan a história voltou a girar em torno dos druufs, cujo universo está sequestrando áreas da nossa dimensão, o universo Einsteinano, como é chamado pelos autores. 

Esse número é escrito.por k. H. Scheer, que nitidamente gostava muito do personagem Atlan, da mesma forma que Clark Darlton gostava de Gucky. 

Na história, uma falha entre os dois universo se formou próximo do planeta Fera Cinzenta e por ele sai uma frota que se defronta com dezenas de milhares de naves arconidas. No meio dessa confusão, Rhodan resolve passar para o outro lado com uma nave e estabelecer uma base no universo dos druufs. 

Passa longe de ser uma trama interessante. Metade do livro é reservada a termos técnico e diálogos entre os personagens sobre a situação. 

A capa alemã. 

A história só engrena mesmo quando a nave terrestre é atacada e obrigada a fazer uma decolagem de emergência. Nisso, deixam Rhodan, Atlan e o.mutante Fellmer Lloyd no planeta Hades, onde estão instalando a sede. Scheer encontra uma forma inusitada de criar suspense: Fellmer está com desinteria, o que contamina seu sistema de suporte de vida, envenenando seu ar. 

Embora pouco heroica, essa é uma forma de lembrar que esses personagens são também seres humanos. 

Se esse volume tem algum mérito é o fato de pela primeira vez ser apresentar a descrição de um druuf: “A altura do druuf chegava a uns três metros, e sua largura era equivalente à altura. As pernas eram apenas duas, o que reprsentava um fato tranquilizador. Havia dois braços muito robustos, que terminavam em estranhos órgãos priêenseis finos articulados, que pelo aspecto exterior correspondiam aproximadamente à forma humanoide. O que infudia pavor era a cabeça redonda de cerca de cinquenta centímetros de diâmetro, na qual havia quatro olhos enormes. Dois deles estavam no lugar costumeiro, enquanto que os outros dois se encontravam no lugar onde ficam as têmporas humanas. Não havia nariz ou orelhas. Além disso, não existia nenhum cabelo. A boca triangular e estreita”.

sábado, fevereiro 21, 2026

O Namor de John Byrne

 


Em 1990 o Príncipe Submarino, o mais clássico herói da Marvel, foi reformulado por John Byrne. As primeiras histórias dessa nova fase do personagem foram publicadas pela editora Abril em Grandes Heróis Marvel 42.
Byrne aproveitou que o personagem estava “morto” (nos quadrinhos de super-heróis ninguém fica morto muito tempo) para modificar completamente suas histórias. Para começar, tirou totalmente a ambientação atlante. Além disso, mudou a personalidade do herói. Um cientista que aparece convenientemente no mesmo local em que Namor surge descobre que o humor instável do herói se devia a um desequilíbrio sanguíneo provocado por sua origem dupla (humana e atlante) e o submete a uma máquina que corrige o problema.

Algumas situações são totalmente gratuitas. 

Como resultado, Namor se torna um herói de fato, ajuda o cientista a comprar um conglomerado de empresas e as coloca a serviço da preservação da natureza.
Namor vira um super-herói de fato. 

Byrne, que já foi um bom roteirista, parecia já ter perdido a mão nesse trabalho. Tudo é forçado ou mal-explicado. Quando Namor surge, descobre uma tribo que idolatra um avião – e isso não tem a menor explicação. A relação com o cientista é forçada, assim como a explicação para o humor instável do atlante.

Além disso, ao mudar a personalidade e Namor, Byrne tira dele sua característica mais interessante: o fato dele ser um anti-herói e tirar dele toda a mitologia atlante tornou o personagem ainda mais vazio.
De positivo o desenho, simples, mas expressivo, que se encaixava bem com o formatinho da Abril.

X – A marca da morte

 


Existe um subgênero do terror chamado slasher, no qual adolescentes são mortos um a um por um assassino em série. Em X – a marca da morte, Ti West, faz uma homenagem a esse gênero ao mesmo tempo que o revigora e traz a ele camadas a mais de significados e aprofundamento de personagens.

Na trama, um grupo de jovens aluga um galpão em uma fazenda com o objetivo de fazer um filme pornô. Cada um ali tem uma motivação: o produtor acredita que ficará rico com o mercado de filmes caseiros, o diretor acredita que está conseguindo transformar o pornô em um filme artístico, a personagem Maxine, a protagonista, acha que merece ser famosa e pretende usar a repercussão do filme para isso.

Ocorre que os donos do local são um casal de assassinos, que, aproveitando a imagem de fragilidade, vão eliminando cada um dos integrantes da equipe de filmagem.

Há um fator aqui que é totalmente revolucionário. Nos slashers clássicos o sexo é visto quase como um pecado a ser punido. Não por acaso boa parte dos adolescentes que morrem em filmes como sexta-feira 13 acabam sucumbindo durante ou pouco depois de uma relação sexual. Aqui a questão sexual ganha outros contornos. A velhinha Pearl, por exemplo, tem sua sexualidade despertada ao ver as filmagens e a matança final é quase uma preliminar para o reencontro sexual do casal.

Vale destacar o cuidado de Ti West, tanto no roteiro quanto na direção. Tudo é muito bem pensando e muito bem construído, a começar pela cena inicial, em que os policiais encontram os cadáveres. Essa maestria narrativa encontra seu momento mais assustador no momento em que Maxine está tomando banho no lago. O uso de ângulos inusitados e trilha sonora deixa o espectador colado na poltrona, esperando pelo pior.

Também vale destacar o talento de Mia Goth, que faz tanto a mocinha Maxine quanto a vilã Pearl. Para ajudar a atriz a entrar no papel da vilã, o diretor escreveu para ela um texto contando sua história. Ao ler, ela comentou: isso dava um outro filme. O resultado foi Pearl, que narra o início da vida de assassinatos da personagem, um filme ainda melhor que o primeiro.  

Será Ti West o Tarantino dos filmes de terror?

Em tempo: há um terceiro filme, Maxxine, que ainda não consegui assistir.

Verossimilhança hiper-real na revista Cajueiro

 



Meu artigo Verossimilhança hiper-real nos quadrinhos de Alan Moore foi publicado na revista Cajueiro. No artigo, eu analiso uma estratégia, usada por Alan Moore, para fazer com que seus quadrinhos pareçam reais a ponto de alguns leitores acreditarem que aquilo que é narrado aconteceu mesmo. Alguns exemplos: os anexos de Watchmen e a série 1963, que emula perfeitamente as revistas da Marvel na década de 1960.

Para acessar os artigos, clique no link: https://seer.ufs.br/index.php/Cajueiro/article/view/13782

A elegante arte vintage de Darwyn Cooke

 


O canadense Darwyn Cooke começou sua carreira nos quadrinhos em 1985 quando procurou a DC Comics e conseguiu desenhar uma história de cinco páginas para a revista New Talent Showcase  19.

Mas o pagamento era pequeno, 35 dólares, e ele levava uma semana inteira para produzir uma página. Assim, ele desistiu do mundo dos quadrinhos e começou a trabalhar como diretor de arte.

Na década de 1990 ele resolveu voltar aos quadrinhos quando viu um anúncio de Bruce Timm pedindo artistas de story board. Cooke trabalhou produzindo story board para as séries do Batman e Superman.

Pouco tempo depois ele começaria a produzir quadrinhos. Um dos trabalhos que mais chamaram a atenção foi a série A Nova Fronteira, que reimaginava os heróis da DC Comics nas décadas de 50 e 60.

Dono de um traço vintage e muito elegante, Cooke era a pessoa ideal para esse tipo de trabalho, tanto que foi convidado para ser responsável pela minissérie dos Minutemen no selo Antes de Watchmen.

Ele também deixou sua marca na personagem Mulher-Gato e em The Spirit, personagem criado por Will Eisner, citado por Cooke como uma de suas principais influencias.

Cooke morreu em 2016, vítima de um câncer. Tinha apenas 53 anos.