segunda-feira, maio 11, 2026

Monstro do Pântano - Enterro

 


Quando assumiu o título do Monstro do Pântano, Alan Moore revolucionou o personagem. O protagonista deixou de ser Alec Holland e passou a ser um agregado de criaturas do pântano, criado a partir das memórias de Holland.

Mas isso deixava uma ponta solta: se o monstro não era Holland, o que acontecera com Holland? Moore aproveitou o número 28 da revista para explicar isso e, ao mesmo tempo, deixar claro que a revista entrava em uma nova fase. Muito apropriadamente, a história se chamou de O enterro.

A origem do personagem é revivida. 


Desenhada por Shawn McManus em início de carreira, a história inicia com o protagonista cavando um buraco (que depois descobrimos ser um túmulo). Corta para um flash back de uma conversa do personagem com Abbe Cable, no meio do qual aparece o fantasma de Alec Holland. O monólogo do personagem, enquanto persegue o espectro, é perfeito: “Você não é Holland. Eu não sou Holland. Holland morreu. Morreu numa explosão. Eu carrego a consciência e a memória dele. Mas ele morreu e eu não serei... assombrado... por mim mesmo”.

O fastama o leva à casa onde Holland e sua esposa faziam pesquisas com a fórmula biorestauradora e o monstro vê, acontecendo diante de seus olhos, os fatos que levaram à sua criação: o laboratório explodindo e o cientista em fogo pulando no pântano.

A HQ é uma despedida poética da fase anterior.


Numa sequencia maravilhosa, a versão antiga do monstro emerge do pântano, como um fantasma e ambos ficam frente a frente.

É interessante como Moore consegue, ao mesmo tempo, ser revolucionário, mostrar uma quebra com o que veio antes, mas, ao mesmo tempo, ser extremamente reverente com o material original de Len Wein e Bernie Wrightson numa despedida emocionante e poética. Uma história simples, sem reviravoltas ou grandes tramas, mas que o mostra o a estatura de Alan Moore no roteiro.

domingo, maio 10, 2026

O sequestro do metrô

 



Comprei o livro O sequestro do metrô , de John Godey (editora Abril Cultural) por dois reais em um sebo. Poucas vezes dois reais foram tão bem investidos.
O livro narra a história de um quarteto de ladrões que sequestra um vagão de metrô e exige um milhão de dólares em sessenta minutos, ou matarão os passageiros.
O autor, Morton Freedgood usou o pseudônimo de John Godey, pois pretendia guardar seu nome verdadeiro para livros mais sérios. No entanto, foi este livro que o tornou famoso e fez com que ele entrasse na história da cultura pop quando o livro se transformou em filme apenas um ano depois de ter sido lançado, em 1973.
A primeira qualidade que salta aos olhos no texto é o foco narrativo: cada capítulo é focado em um personagem, e alguns são focados em um grupo de personagens, como jornalistas, assessores do prefeito, a multidão que se forma em torno do sequestro. Com isso o autor consegue dar uma visão ampla de um fato, mostrando-o sob os mais diversos pontos de vista.
Soma-se a isso os diálogos afinados, que muitas vezes refletem as críticas sociais do autor à sociedade de sua época. As ligações recebidas pelos jornais, com vários movimentos tentando assumir a autoria do atentando ou de leitores sugerindo soluções para o empasse refletem bem isso.
Além disso, Freedgood, como se escrevesse uma reportagem, fez uma extensa pesquisa sobre cada detalhe do metrô de Nova York e sobre as forças policiais, seus modos de ação: tudo é descrito nos mínimos detalhes.
A forma narrativa escolhida pelo autor faz com que o livro não tenha um protagonista. É como se o próprio metrô fosse o personagem principal, ao redor do qual tudo gira.

Uma curiosidade é que no filme de 1974 os bandidos se chamam por cores, uma estratégia adotada posteriormente por Tarantino no filme Cães de aluguel. A partir daí, usar palavras para os bandidos se chamarem a si próprios tornou-se um padrão na cultura popular, como podemos ver em La casa de papel, em que os assaltantes da casa da moeda usam nomes de cidades como codinome.
O sucesso do filme fez com que as autoridades do metrô de Nova York temessem que alguém tivesse a mesma ideia. Uma das consequências disso é que foram banidas as saídas de trens de Pelham no horário de 1h e 23 minutos (exatamente o trem escolhido pela quadrilha pelo golpe).
O filme ainda foi inspiração para uma canção de Carter USM e outra de Beastie Boys.
Em 2009, o filme ganhou um ótimo remake dirigido por Tony Scott com Denzel Washington e John Travolta no elenco intitulado O sequestro do metrô 123 (disponível na Netflix).

Quadrinhofilia

 

Quadrinhofilia foi o nome de uma antologia de trabalhos do quadrinista curitibano José Aguiar publicada pela editora HQM no ano de 2008. Aguiar desenhou três histórias minhas, duas adaptações de contos: Em entropia um astronauta sozinho em uma estação espacial vê a terra sendo invadida por naves extraterrestres; Invasão é uma história de terror no estilo dos filmes B dos anos 1950.
Mas nosso melhor trabalho juntos é a adaptação do filme expressionista O Gabinete do Dr. Caligari. Caligari é um dos maiores clássicos do terror e um dos meus filmes prediletos de todos os tempos.
Lembro que foi um trabalho de fôlego: assistimos ao filme mais de uma vez, fazendo anotações e comentando aspectos relevantes para a adaptação.

O resultado foi uma história em quadrinhos que resgata toda a complexidade da obra original, inclusive com seus diversos sentidos.

A página que mostra pela primeira vez o sonâmbulo Cesare é a minha preferida, com o personagem avançando pelos quadrinhos, o que destaca sua figura alongada e soturna ao mesmo tempo em que quebra com a normatividade da diagramação dos quadrinhos da mesma forma que Caligari quebrou com diversas convenções do cinema da época. 

Trent - O morto

 

 

A polícia montada do Canadá é uma das mais emblemáticas forças policiais de todos os tempos. Com sua jaqueta vermelha em um cenário inóspito de neve, sua própria existência já promete uma vida de aventuras. Apesar disso, não existiam, que eu saiba, quadrinhos focados nesses personagens. 

Trent, do roteirista francês Rodolphe e do desenhista brasileiro Leo, surge para suprir essa falha. 

Trent encontra uma garota em apuros, que passa a acompanhá-lo


O roteirista conta que a inspiração surgiu dos livros de aventura e de uma única imagem: a capa de um caderno distribuído pro militares canadenses ao fim da segunda guerra mundial: “Nele havia uma cabana sólida de troncos em um bosque. Um oficial da Polícia Montada segurava uma frigideira. Sua jaqueta estava meio desbotada e apoiava o fuzil contra a parede. De repente o nosso homem pararia e viraria a cabeça até a escuridão do bosque e franzia o cenho. Instintivamente, dirigia a mão até o fuzil”.

O personagem Trent é um taciturno soldado da polícia montada. Na primeira história ele recebe a incumbência de aprisionar um bandido responsável por assassinatos. 

O personagem tem um segredo do passado. Uma paixão antiga. 

No meio do caminho ele encontra com Emile, que procura o irmão desaparecido após adentrar na região em busca de ouro. 

Surge um conflito: o nome do rapaz é o mesmo do bandido que Trent foi incumbido de prender.

Os cenários têm uma importância fundamental na trama. 


O interessante aqui é que o conflito se estabelece na maior parte contra o ambiente inóspito: é uma tempestade de neve, são as dificuldades do percurso. Isso dá ao álbum um aspecto de nostalgia, como se estivéssemos lendo um daqueles romance de aventura do século XIX mas ao contrário daqueles romances, aqui a ameaça parece real embalada principalmente pela avidez humana. No caminho de Trent e Emile cadáveres se acumulam. 

Cadáveres se acumulam no caminho do casal. 


Esse álbum, primeiro da série, foi publicado na Europa pela Dargaud. Seria uma boa ideia que alguma editora brasileira resolvesse trazer para o Brasil, ainda mais considerando que Leo já tem fãs que acompanharam a série Aldebaran publicada pela Panini.

Sergio - Vagner Moura se destaca em filme sobre diplamata

 


O brasileiro Sérgio Vieira de Melo foi um dos mais importantes diplomatas brasileiros e uma das figuras mais importantes da ONU. Foi responsável, por exemplo, por negociar a independência de Timor Leste, ilha colonizada por portugueses na Ásia que durante mais de uma década foi massacrada pelo governo da Indonésia. Depois do sucesso, ele foi enviado ao Iraque, onde deveria negociar a criação de um governo local depois da queda de Saddam Hussein.
É a história desse homem que Greg Barker conta em Sergio, filme lançado por aqui diretamente na Netflix.
A história do diplomata e sua atuação corajosa em locais de conflito aberto é interessante e vale um filme, mas a obra de Greg Barker tem problemas de ritmo e narrativa. A história é contada através de várias linhas temporais que se interpõem e se alternam com ambientação tão diferente quanto o Camboja, Timor Leste, Bagdá e Rio de Janeiro e de maneira não cronológica. Nem sempre funciona, especialmente porque o diretor americano focou demais na atuação no Iraque (uma guerra que que tem mais apelo para o público norte-americano), abreviando ou simplesmente ignorando todo o resto da atuação de Sérgio ao redor do mundo, de modo que o expectador não consegue entender direito sua importância. 
Para nós brasileiros o filme tem um problema a mais. O filme é originalmente falado em inglês e temos até mesmo Wagner Moura dublando a si mesmo. Mas o que realmente cusa estranhesa são as sequências de Timor Leste. Lá se fala um português mais próximo de Portugal, muito diferente do brasileiro. E, em alguns momentos suas falas são dubladas, e em outros são deixados no original, muitas vezes dentro da mesma cena, o que resulta em dois sotaques completamente diferentes para o mesmo personagem.
O grande destaque do filme acaba sendo mesmo a atuação de Wagner Moura, que se mostra um dos grandes atores da atualidade, conseguindo mudar completamente a cada personagem.

The Spirit – as novas aventuras

 

 

Spirit é um dos mais queridos e mais clássicos personagens dos quadrinhos. Criado por Will Eisner na década de 1940, o personagem revolucionou a narrativa gráfica esbanjando as potencialidades da linguagem e criando recursos únicos, como prédios que formavam o título da história ou o nome do personagem. Além disso, a série revolucionou ao focar não só no protagonista, mas principalmente em personagens secundários, o que dava um toque muito humano à série.
Por ser um personagem autoral, Eisner não autorizava que a editora que publicava o personagem desde a década de 1970, a kitchen, fizesse histórias do herói com outros autores.
Em 1998 o editor convenceu o Eisner a finalmente permitir uma publicação com vários autores mostrando suas versões do personagem. O resultado é o álbum publicado pela editora Devir.
O resultado é irregular. Algumas histórias conseguem captar a essência inovadora do personagem – outras são simplesmente histórias do personagem.
Moore e Gibbons focam suas narrativas nos vilões. 


Entre o melhor da edição estão as histórias escritas por Alan Moore e desenhadas por Dave Gibbons, que abrem a edição. As duas HQs interligadas conta a origem de dois dos principais vilões do Spirit: O Cobra e o Octopus. As duas, ao focarem nos vilões, exploram seus lados humanos, inclusive com as contradições entre as duas narrativas. A ironia entre o que ambos relatam e o que de fato acontece cria alguns dos melhores momentos dessas HQs.
A dupla ainda entrega outra história genial, agora sobre o assistente do Doutor Cobra, que teria morrido na primeira história do Spirit. Moore, como sempre, costura tudo, aproveitando as pontas soltas das histórias originais.
A dupla Moore- Gibbons ecoa a inovação narrativa de Eisner.


Outro ponto alto do álbum é “Domingo no parque com São Jorge”. O desenho underground de Dan Burr se encaixa perfeitamente com a narrativa de Jim Vance sobre o dia em que Spirit foi convencido a descansar no parque – o que, claro, o coloca em uma tremenda confusão.
Temos ainda Neil Gaiman fazendo o que Neil Gaiman sempre faz: uma história sobre um escritor escrevendo algo que se entremeia à narrativa. No caso, um roteirista de cinema que tenta escrever um roteiro policial e se depara com o Spirit investigando um caso real. Apesar do clichê a la Gaiman, é uma HQ divertida.

Fundo do baú - Space Ghost

 


Pode não parecer, mas Space Ghost foi a resposta da Hanna-Barbera ao sucesso do seriado do Batman de Adam West.

A Hanna-Barbera e a rede de televisão CBS tinham decidido criar um personagem de ficção científica para a programação. No final da discussão, chegaram a um nome: Space Ghost, mas não havia decisão sobre o uniforme. A ideia era fazer um personagem que tivesse o poder de se tornar invisível, daí o título, que pode ser traduzido como Fantasma Espacial.

Quando ainda estava sendo desenvolvido o uniforme, o produtor Freddie Silverman chegou com uma revista Time que mostrava na capa Adam West como Batman de Adam West e o Robin de Burt Ward. Ele queria algo naquele estilo. O responsável por criar o design da série era o lendário Alex Toth, que odiou a ideia. Afinal, a proposta era criar um personagem que se parecesse com um fantasma, portanto totalmente branco. Mesmo assim teve que colocar um capuz preto no personagem e dar-lhe uma capa. Para evitar que a cabeça se confundisse com o fundo preto nas cenas do espaço, a solução foi criar uma espécie de halo de energia em volta do personagem.

O personagem tinha dois ajudantes, o casal de irmãos Jan e Jace, que seguiam o visual de Robin. Completava o grupo um macaco, Blip. O curioso aí é que tanto os irmãos quanto o macaco usavam máscaras. Como o grupo só combatia ameaças de outros planetas, por que proteger suas identidades secretas? E por que um macaco precisaria usar uma máscara? Nada disso foi explicado, assim como a origem dos personagens. Mas o visual criado por Toth se tornou icônico e um dos mais bonitos do gênero super-heroiesco, o que em boa parte garantiu o sucesso da série entre os fãs.

Os roteiros não variavam muito além da ameaça da semana. No primeiro episódio, o grupo enfrentava um monstro feito de lava, em outro combatia um povo alienígena que capturava naves e vendia seus passageiros como escravos.  

O personagem surgiu em 1966 e teve duas temporadas com 42 episódios. Já na década de 1960 teve uma revista em quadrinhos publicada pela Gold Key. Posteriormente a Marvel e a DC fariam suas versões do herói.

Em 1994 o personagem voltou a ter uma série com o inusitado Space Ghost de Costa a Costa, no qual entrevistava personalidades. Alguns vilões da série original, como Zorak, apareciam como show como coadjuvantes.

A tartaruga e a lebre

 


A maioria das pessoas conhece a história da tartaruga que desafiou uma lebre para uma corrida e acabou ganhando após a concorrente parar para dormir.

Embora pareça uma situação atípica e até pouco verossímil, a verdade é que, na maioria das vezes, a tartaruga acaba de fato ganhando a corrida – há vários vídeos do tipo. O coelho para no meio do caminho, volta, se distrai, fareja, enquanto a tartaruga, focada e persistente, segue reto até cruzar a linha de chegada.

Em quase 30 anos de ensino superior tenho visto muitos alunos coelhos e muitos alunos tartarugas. Os coelhos são muito inteligentes e se acham geniais. Em jornalismo são aqueles que já chegam escrevendo muito bem, são comunicativos, falam muito em sala de aula. Quase todos os coelhos que conheci se tornaram péssimos profissionais. Como acham que já são muito bons, estão pouco abertos a aprender. Além disso, a falta de foco faz com que, uma vez no emprego, eles faltem, cheguem atrasados, sejam relapsos.

Já os alunos tartarugas são aqueles que chegam com muitas dificuldades, mas muita vontade de aprender, muita determinação e foco. Apesar das dificuldades iniciais, em pouco tempo eles ultrapassam as lebres, alinhando qualidade de texto com responsabilidade.

sábado, maio 09, 2026

Lanterna e Arqueiro Verde – o mal sucumbirá ante à minha presença

 


Em 1970, o roteirista Dennis O´Neil participava de abaixo-assinados, passeatas e apoiava Martin Luther King. Também era jornalista, fã dos grandes nomes do Novo Jornalismo e do Gonzo, como Tom Wolfe e Hunter Thompson. E ele se perguntava: seria possível fazer nos quadrinhos um equivalente do Novo Jornalismo? Quando o convidaram para renovar o Lanterna Verde, ele resolveu testar essa hipótese. E o melhor de tudo: o título seria desenhado por Neal Adams, o nome mais quente do mercado de quadrinhos à época.  

O resultado foi publicado em Green Lantern 76.

Adams coloca os créditos num caminhão. 


A capa desse número era uma típica imagem do editor "Julie" Schwartz, com uma situação bizarra que seria elucidade ao longo da edição. Nela, o Lanterna está fazendo o seu juramento e recarregando seu anel, mas o Arqueiro atira uma flecha na lanterna e grita: “nunca mais!”.

A história começa com o herói sobrevoando a cidade, num daquelas imagens impressionantes de Neal Adams. O texto, misturado ao título, dizia: "esta não é uma história alegre... nem simples. O que você está prestes a testemunhar talvez seja inevitável. O nome dele, claro, é Lanterna Verde e ele sempre jurou que o mal sucumbirá ante minha presença, mas Hal andou se enganando...”. Detalhe: Adams, além de providenciar uma splash page lindíssima, ainda colocou os créditos na carroceria de um caminhão, numa estratégia que lembrava Will Eisner.

O Lanterna acha que será recebido como herói, mas isso não acontece. 


O herói vê um homem sendo agredido e resolve intervir. Ele coloca o agressor numa jaula e o envia à delegacia. Mas, quando se prepara para receber os aplausos dos circundantes, descobre, espantado, que estão jogando lixo nele e no homem que ele salvou. Antes que o Lanterna revide, aparece o Arqueiro: “Até eu tive vontade de jogar uma lata nessa cabeça oca”. “Não estou entendendo Arqueiro Verde!”, “Não? Então chega mais que eu te mostro como o outro lado vive”.

O que você fez pelo povo negro? 


Eles entram num cortiço e o Arqueiro explica que o homem lá fora é o dono do local e quer despejar todos os inquilos para fazer um estacionamento. Surge um velhinho e sua fala é sintomática: “ Cê trabalha para uns homenzinhos azuis... e ajudou uns sujeitos laranjas em outro planeta. Também deu uma forcinha prum povo roxo! Só que cê andou esquecendo uma cor... por que cê nunca ajudou os negros?”. O herói é incapaz de responder (e aqui o destaque vai para o desenho de Neal Adams que o mostra cabisbaixo, com os ombros caídos).

O Lanterna tenta fazer o homem desistir de vender o cortiço, em vão, e ainda é chamado pelos Guardiões e colocado de castigo quando tenta atacar o vilão.

Neal Adams estava na sua melhor forma. 


No final, os heróis descobrem que o homem tem várias atividades ilícitas e criam uma arapuca para ele se delatar na presença de um promotor. Ele é preso e tudo parece ser resolvido. Se terminasse aí, essa seria mais uma das típicas histórias da DC Comics no final dos anos 60 e início dos 70. Mas O`neil acrescenta um epílogo, em que os guardiões aparecem para dar outra bronca em Hall Jordan, mas acabam ouvindo é uma lição de moral do Arqueiro, que os convence a mandar um representante para ver os problemas da hunidade. No final, eles embarcam numa caminhonete. “O trio viaja junto, passando por cidades, vilarejos e maravilhas da natureza... em busca de um tipo especial de verdade... em busca de si mesmos”, diz o texto.

Perry Rhodan – O domínio do hipno

 


A maior ameaça enfrentanda nas primeiras histórias da série Perry Rhodan foi sem dúvida o mutante Ivã Ivanovitch Goratchim.

Aliado involuntário do Supercrânio, que usara seu poder mental para controlá-lo, Ivã conseguia nada menos que transformar qualquer pessoa ou coisa em uma bomba atômica.

O personagem fez sua estréia no volume 27 da série, escrito por Clark Darlton. No número anterior o Supercrânio fora vencido na terra e fugira para Marte onde estava sua arma secreta, o homem que podia provocar explosões nucleares. Como vencer um inimigo desses?

Darlton detalha o surgimento do mutante como consequência da explosão da primeira bomba atômica russa, em 1949. Segundo Darlon, o acontecimento surpreendeu e apavorou o mundo ocidental, mas também os cientistas soviéticos quando as condições metereológicas desfavoráveis fizeram com que uma nuvem de poeira radioativa se abatesse sobre eles. Como resultado, Ivã e sua jovem esposa Ludmila tiveram um filho que parecia um monstro de duas cabeças.

Isso por si só já era uma novidade. Os mutantes que haviam aparecido até então na série tinham tido apenas mutações positivas. Afinal, quem não quer ganhar um poder especial? Mas todos sabemos que a radiação na maioria das vezes provoca mudanças negativas, então o surgimento de Ivã torna mais verossímil o exército de mutantes.

A capa alemã mostra Ivan Ivanovicthc. 


Mas há uma outra questão interessante no volume. As duas cabeças são chamadas pelo Supercrânio erroneamente de Ivã e Ivanovitch. Segundo Darlton, o vilão “nunca dera a menor atenção ao fato de que os costumes russos exigem dois nomes para cada pessoa;  no caso de Goratchim, Ivã era o nome propriamente dito, enquanto Ivanovitch apenas significava filho de Ivan”.

É bem possível que a sequência fosse uma homenagem ao escritor russo Nicolai Gógol, cujo conto mais famoso, O capote, era protagonizado por um personagem chamado Akaki Akakievitch – e o nome do personagem era usado como elemento de humor, uma piada que só faria sentido na Rússia.

Clark Darlton nitidamente era fã de Gógol, tanto que um dos episódios escritos por ele na série, O pseudo, era quase que uma adaptação espacial da peça O inspetor geral (O título original era O falso inspetor). Desse modo não é estranho pensar que lá no início da saga de Perry Rhodan já tivesse colocado essa referência à obra do escritor russo.

Hércules e Nesso, de Gianbologna

 


Hércules e Nesso é uma escultura pequena, mas que ajudou a mudar a história da arte, estabelecendo um padrão que seria copiado por diversos outros escultores. O autor, Gianbologna, é o principal nome do maneirismo na escultura. Na época, havia um grande debate artístico. 
A pintura era considerada uma arte maior e a escultura apenas um tipo de pintura. Para provar que a escultura tinha possibilidades inexistentes na pintura, Gianbologna começou a produzir peças extremamente dinâmicas, com imagens que podiam ser vistas sob diversos ângulos – ao contrário da pintura – que só pode ser vista de frente. 

Uma das maiores realizações dessa empreitada foi Hércules e Nesso, que mostra o herói grego matando o centauro. Realizada em 1599, no final da vida do artista, a escultura mostra os dois personagens entrelaçados, no momento mais dramático da luta. Um dos artistas mais influenciados por Gianbologna foi Gian Lorenzo Bernini, o mestre do barroco italiano.

A arte espetacular de John Harris

 

John Harris é um artista e ilustrador britânico, conhecido por trabalhar no gênero de ficção científica. Suas pinturas foram usadas em capas de livros para muitos autores, incluindo Orson Scott Card, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov e Frederik Pohl. Uma das suas especialidades são as imaginativas naves espaciais e paisagens aéreas.




A criada

 


A criada é o novo filme do cineasta sul-coreano ParkChan-Wook, conhecido no Brasil por Oldboy. A trama se passa durante a II Guerra Mundial, quando a Coréia foi invadida pelo Japão e trata de um golpe: um falso conde pretende conquistar uma rica moça japonesa, casar com ela e interná-la em hospício, apropriando-se de sua fortuna. Para isso, ele introduz na casa uma criada de confiança, que o ajudará em seus planos. A moça vive em uma mansão construída por seu tio, um pervertido, que treinou a sobrinha para ler contos eróticos para uma plateia seleta e pretende se casar com ela para ficar com sua herança. O golpe, entretanto, se complica quando a criada se apaixona pela patroa.
O filme é construído em três atos, cada um mostrando o ponto de vista de um personagem – e aí está a grande sacada do roteiro: uma mesma cena adquire outros significados de acordo com o olhar de cada personagem. Isso permite ao diretor introduzir viradas na trama, surpreendendo o expectador quando ele parece ter certeza do que está acontecendo.
A única certeza desse filme é: nada é o que aparenta ser.  
Soma-se a isso a ambientação estranha, uma mistura de roupas e arquitetura inglesas, coreanas e japonesas, os personagens bizarros, a sensualidade única, o cuidado apurado com o cenário e suas simbologias e a violência, que finalmente explode no final – tudo é desconcertante nesse filme.
A criada é um daqueles tesouros escondidos da Netflix.

Demolidor – Matador de mulheres

 


O número 173 da revista Daredevil apresentou um respiro, um conto isolado em meio a duas sagas do personagem. No entanto, é uma história tocante e profunda sobre abuso feminino.

Na trama, dois repórteres são atacados na Cozinha do Inferno por um homem forte e mascarado. Embora o atacante esteja usando máscara, Melvin, o Gladiador, é preso porque o físico dele bate com a descrição.

Há um assassino de mulheres à solta...


Acontece que Matt Murdock está representando o antigo vilão e acredita na sua inocência, o que leva o Demolidor a se envolver na trama. Seria apenas mais uma história de super-herói tentando provar a inocência de alguém, não fosse por um detalhe: Becky, a secretária de Matt Murdock desmaia ao ver Melvin. Quando acorda, descobrimos que ela foi violentada quando ainda era estudante de direito e que a violência fez com que ela ficasse paraplégica.

... e o suspeito é um ex-vilão defendido por Murdock. 


Isso não só cria um dilema ético, já que Matt Murdock pode ser responsável pela soltura do homem que violentou sua secretária, mas também reflete sobre como muitas vezes as vítimas não denunciam seus agressores por medo.

Para além da história de super-herói, o que chama atenção é a jornada de Betsy e sua tentativa de superar o trauma.

A história é focada em Betsy e sua tentativa de superar o trauma do abuso. 


Essa é uma história que mostra que Miller não só era bom em narrar ação, mas também se destacava pelo bom desenvolvimento dos personagens, inclusive os secundários.