sábado, junho 06, 2026

O internato – Las cumbres

 

A série espanhola O internato – Las cumbres, disponibilizada no Brasial pela Amazon vídeo, é uma grata surpresa. O que parecia uma simples série juvenil sobre adolescentes presos em um internato linha dura vivendo os dramas da adolescência se revela uma trama complexa, amedrontadora e cheia de camadas.

A história se passa num internato isolado no alto de uma montanha, na Espanha. O local é repleto de lendas e histórias sobre bruxos. A trama é focada em quatro estudantes que resolvem escapar do local. No processo, três são recapturados, mas um desaparece na floresta, levado por um homem vestido de preto com uma máscara que lembra o bico de um corvo.

Sua namorada e seu melhor amigo tentam, a partir daí, descobrir o que aconteceu com ele. No processo, descobrem que o local onde foi construído o internato era o ponto de culto de um grupo satanista. Ao mesmo tempo, um dos professores descobre que os estudantes estão sendo usados como cobaias no uso de um medicamento. Os dois fatos estão relacionados ou é apenas uma coincidência?

Soma-se aí as relações entre os próprios estudantes, que incluem traições, vinganças, amores e sexo (sim, há muitas cenas quentes).

O ritmo é rápido, com as várias tramas se entrelançado e fatos se sucedendo rapidamente, o que torna a narrativa viciante como nos melhores seriados.

Por sua estrutura, com estudantes lutando contra uma ameaça satânica, O internato lembra Harry Potter, embora seja uma versão muito mais adulta e se aproximar muito mais do horror.

Tropa Alfa – A noite da besta

 


A história mais grandiosa da Tropa Alfa é o confronto com as bestas, seres malignos ancestrais. Essa trama inicia no número 23 da revista. Esse número, aliás, tem uma das melhores capas do título, com Sasquatch enfrentando uma versão de si mesmo, mas totalmente branca. É o tipo de capa que estimula a imaginação do leitor e o faz perguntar: o que está acontecendo aqui?

Na história, durante um confronto com um homem vestindo uma armadura, Sasquatch é ferido. Esse vilão com armadura é o que eu chamo de personagem bucha de canhão. Ele não tem motivação, história de vida, nada, é apenas alguém que vai provocar um ferimento no Sasquatch e desencadear a trama.

Um vilão bucha de canhão: sua única função é provocar o ferimento e, Sasquatch.


Com o ferimento, o personagem é tomado por uma fúria incontrolável, é quando se descobre a verdade a respeito de sua origem. Ao tentar duplicar sob condições controladas o acidente que criou o Hulk, Walter Langkowski na verdade libertou um antigo demônio chamado Tanaraq, permitindo que o cientista o convocasse e controlasse. Assim, Sasquatch era nada mais nada menos que uma fera de outra dimensão sob controle. Mas quando o personagem é ferido, a besta toma o poder do corpo, como acontece nesse número.

A edição inclui uma batalha mortal entre a Tropa Alfa e essa versão maligna de Sasquatch e inclui uma sequência magistral em que Pássaro da Neve se transforma em um Sasquatch branco para combater a besta – daí a imagem de impacto da capa.

O herói é dominado pela besta e se torna uma ameaça. 


No final, Pássaro da Neve vence, mas a um grande custo: matando o amigo.

Entretanto, seu espírito ainda vive e pode ser resgatado em um local assustador chamado O reino das bestas.

Pássaro da Neve se transforma em uma versão branca do Sasquatch.


No número 24, em uma edição com o dobro de páginas, os personagens viajam para outra dimensão, em uma trama realmente impressionante.

Um detalhe dessa história é que aqui Aurora aparece vestindo seu uniforme definitivo: um maiô amarelo e branco com um cachocol azul. Apesar do visual bonito, o cachecol é provavelmente o acessório mais idiota que uma super-heróina poderia usar, pois facilmente poderia se transformar em uma arma contra ela mesma. Bastaria alguém agarrar e puxar para estrangular... e a adeus Aurora!

E de espaço, de Ray Bradbury

 


Há algo de irônico em Ray Bradbury: embora seja um dos mais famosos escritores de ficção científica de todos os tempos, sua obra não é uma ode ao futuro e ao desenvolvimento da tecnologia. Ao contrário, seus livros ecoam diretamente o saudosismo de uma época mais simples.

E de espaço, antologia publicada no Brasil pela editora Hemos em 1978 é um exemplo disso.

O livro reúne 16 contos de Bradbury e demonstram bem o seu estilo de poético tanto nos temas quanto na narrativa.

As histórias vão do condutor de bonde que faz uma última viagem com os meninos antes de seu veículo ser substituído pelos ônibus até o homem que leva sua família para Marte fugindo da guerra nuclear na Terra (tema alias, presente em mais de um conto).

Mas talvez um dos melhores exemplos do estilo do autor seja “Pilar de fogo”.

A história se passa num futuro longíncuo em que as pessoas mortas não são mais enterradas, mas cremadas. E todos os cemitérios são esvaziados e os corpos queimados numa medida de higienização. O protagonista é o último cadáver ainda intacto, que se levanta e passa a andar entre os humanos.

A poesia já aparece nos primeiros parágrafos: “Ele andava sobre a terra, tinha saído da terra. Mas estava morto. Não podia respirar. Era impossível. Andava sobre a terra, tinha saído da terra. Mas estava morto. (...) Queria ter lágrimas, mas não podia fazê-las vir, tampouco. Tudo o que sabia é que estava de pé, estava morto, e não deveria estar andando!”.

Nesse mundo antisséptico, tudo que pudesse assustar ou incomodar  as pessoas havia sido eliminado. Livro de escritores como Edgar Alan Poe e Lovecraft tinham sido queimados.  

Mais do que uma história de zumbi, Bradbury usa o tema para tratar de temas que lhe são caros: o medo de uma sociedade anti-séptica, em que tudo capaz de incomodar deveria ser eliminado e sua visão de que isso seria uma distopia.

O mesmo tema aparece em “Fuga do tempo”, em que um professor leva seus alunos, através de uma máquina do tempo, para observar os costumes bárbaros do passado: “O Dia das Bruxas, o ápice do horror. Esta foi a era da superstição. Mais tarde baniram os irmãos Grimm, fantasmas, esqueletos, e toda essa baboseira. Vocês, crianças, graças a Deus, foram criadas em um mundo anti-séptico, sem sombras e sem fantasmas”.

“O Pedestre” é provavelmente o o conto mais importante da antologia, por ser a história que deu origem ao mais famoso livro de Bradbury, Fahreit 451. Na história, um homem é o último a caminhar pela cidade. Todos os outros passam o dia andando em carros e as noites em casa, assistindo televisão: “Pentrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de novembro, pousar os pés naquela sólida calçada de concreto, pisar nas fendas cheias de mato, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer”.

No final, Mead é abordado por um carro de polícia e preso por seu comportamento anti-social. Resumido nesse conto está toda a filosofia por trás da distopia do autor: um mundo anti-séptico, em que pessoas são hipnotizadas pela tela de TV e comportamentos considerados anti-sociais, como caminhar pelas ruas da cidade é considerado um crime.

Mas, além de um poeta da prosa e um filósofo, Bradbury era tamém um autor que sabia criar boas tramas.

“A mulher gritando” é um exemplo disso.

Na história uma garotinha ouve uma mulher gritando num terreno baldio e imagina que tenha sido enterrada ali. Corre para avisar o pai e mãe, mas estes não acreditam nela e acham que se trata apenas de uma brincadeira. “Está bem”, diz o pai. “Vamos desenterra a mulher depois do almoço” e segue-se uma narrativa extremamente tensa, em que o pai e mãe falam de futulidades enquanto a menina sente que a cada minuto pode ser a diferença entre a vida e a morte da mulher enterrada.

O conto é um primor não só pela trama bem bolada (com um gancho jogado no meio de uma conversa fútil que será fundamental no fecho da história), mas também pela abordagem. Bradbury escreve o conto como se fosse uma redação escrita pela própria menina: “Meu nome é Margaret Leary e tenho dez anos de idade, e estou no quinto ano da escola pública. Não tenho irmãos nem irmãs, mas tenho um bom pai e mãe, só que eles não me dão muita atenção. E de qualquer maneira, nunca pensamos que teríamos algo a ver com a mulher assassinada”.

Filósofo, poeta, criador de narrativas bem elaboradas e inteligentes, Bradbury é daquelas leituras essenciais para qualquer apreciador de ficção científica, como demonstra o livro E de espaço.

A arte incrível de Geraldo Borges

 


Nascido em Fortaleza, Geraldo Borges trabalha com quadrinhos desde 1997, quando desenhou a Revista Capitão Rapadura. Representado pelo Chiaroscuro Studios, maior agência brasileira de artistas para o mercado americano, tem feito trabalhos para a Marvel (Nova), DC Comics (Liga da Justiça, Mulher-Maravilha, Batman, Lanterna Verde, Legião dos Super-heróis, Asa Noturna, Superman, Aquaman), Dark Horse (Ghost) e Dynamite (Pathfinder).
Atualmente é  desenhista regular da série Angel Season 11, adaptação da série de TV criada por Joss Whedon, publicada pela Dark Horse. Além disso, é professor da Universidade Potiguar nos cursos de Design Gráfico e Jogos Digitais.












Eletric Dreams

 

 


Philip K. Dick é um dos mais importantes e disruptivos autores de ficção científica de todos os tempos. Seus textos transgressores colocavam em dúvida a nossa noção de realidade e até as verdades mais arraigadas. Eram textos perturbadores.

A série Eletric Dreams, disponível no Brasil pela Amazon Video adapta dez contos do autor em episódios que vão do brilhante ao confuso, mas na média respeitam a obra do grande autor norte-americano, sendo igualmente perturbadores.

Abaixo relaciono os episódios, do melhor ao pior.



Real Life

Na história, uma policial do futuro se sente culpada pela morte dos colegas. Por sugestão da esposa, ela embarca numa viagem virtual que deveriam ser de férias. Nessa nova realidade, ela é o presidente de uma empresa de realidade virtual que perdeu a esposa recentemente. A situação se complica quando a protagonista (ou o protagonista) não consegue mais identificar qual realidade é falsa e qual é verdadeira. Da mesma forma, o próprio expectador não consegue fazer essa distinção. É o episódio que melhor lida com os temas mais caros a Philip K. Dick.



Human is

Uma cientista vive uma relação abusiva com o marido, que parte em uma missão espacial para um planeta distante, onde deve conseguir uma substância essencial para a sobrevivência da humanidade, já que o ar se tornou rafefeito. Mas o planeta é defendido por agressivos seres extraterrestres. Quando volta, no entanto, ele parece diferente, surpreendentemente afetuoso. É o episódio que melhor discute a questão da humanidade, também presente na obra de Dick. Uma curiosidade é que, embora a Amazon não tenha traduzido, o título em português seria muito mais interessante por sua dupla interpretação: “Ser humano”.



Kill all others

O episódio se passa num futuro em que todos os aparelhos da casa são acionados por comando de voz (o que parecia ficção científica, hoje, surpreendentemente, é realidade) e anúncios holográficos são invasivos a ponto de aparecer para as pessoas até mesmo no banheiro. Philbert Noyce é um operário dividido entre uma rotina tediosa e a esposa, que parece estar apaixonada por um anúncio. Só essa premissa já tornaria o episódio interessante. Mas a trama se torna ainda mais pulgente quando Noyce assiste à entrevista da única candidata à presidência e fica estarrecido quando ela diz: “Mate todos os outros”. Surpreendentemente, ninguém mais parece se preocupar com essa fala, nem mesmo jornalistas ou colegas de trabalho. Teria ele ouvido mesmo a frase? O episódio se destaca tanto por abordar temas caros a Philip K. Dick como por refletir sobre como a comunicação digital pode contribuir para uma distopia.



The Hood Maker

Num futuro incerto, mutantes telepatas são a principal forma de comunicação a longa distância. Mas surge um movimento de resistência, que considera os telepatas uma forma de invasão à privacidade. Soma-se a isso um enorme preconceito contra telepatas, facilmente reconhecíveis por uma marcar no rosto.



The Commuter

Mais um episódio que lida com a noção de realidade. Na história, um pacato funcionário de uma estação ferroviária vive um drama: seu filho sofre de problemas psiquiátricos e tem surtos de violência. Em meio à rotina e à tragédia, ele conhece uma mulher que quer comprar uma passagem para um local que não existe. Seguindo as pistas, descobre que é possível descer do trem em uma estação inexistente e, uma vez ali, realizar seus maiores desejos. O grande problema é que para ter essa vida de sonhos, ele precisará sacrificar alguém próximo. É um episódio muito bem dirigido e comovente.




Safe And Sound

Mais uma história de Dick que lida com a vigilância como forma de controle social. Na história, vários atentados fizeram com que se criasse um estado policial em que estudantes são monitorados o tempo todo por pulseiras. Uma garota chega com sua mãe vinda de uma comunidade sem tecnologia de vigilância, que ainda resiste. Os problemas começam quando a garota tenta se encaixar nesse mundo tecnológico, comprando uma pulseira de vigilância (ela traz também diversos aplicativos, inclusive usados na escola, como forma de manter o interesse dos jovens) e a voz de um técnico de suporte a convence de que seus colegas estão envolvidos num plano de terrorismo. Além do tema de vigilância do cidadão, mais um aspecto caro à obra de Dick: à certa altura ela não sabe se a voz em seu ouvido é real ou não.



Impossible Planet

Num futuro distante, a Terra está extinta. Uma mulher aparece numa estação espacial de turismo pedindo para ser levada à Terra e oferece uma fortuna em troca. Os dois resolvem enganá-la levando-a outro planeta. Mas a situação se torna estranha quando um dos tripulantes descobre que é muito parecido com a avô da velhinha. À certa altura ele, a senhora e até o expectador passam a se questionar se eles não estão indo de fato para a Terra.



Father Thing

Father Thing é uma história estranha vinda da lavra de Philip K. Dick, mas seria uma história perfeita de Stepeh King por misturar drama pessoal com terror. Um garoto cujos pais estão se separando começa a desconfiar que seu pai foi substituído por um alienígena. Pesquisando em fóruns na internet, ele começa a desconfiar que várias pessoas no mundo todo foram substituídas.  Repleto de metáforas, com uma trama na qual crianças descobrem algo que os adultos nem desconfiam, Father Thing e uma narrativa frenética, e um bom episódio.



Autofac

Num futuro distópico, os recursos naturais se exauriram. O problema é ainda mais agravado por uma fábrica, que continua produzindo produtos inúteis e consumindo todos os recursos naturais disponíveis. Resta a um grupo de rebeldes tentar destruir o local. É uma premissa interessante, com uma crítica ao consumismo desenfreado, mas é também um episódio fraco, que poderia desenvolver muito melhor as questões envolvidas.



Crazy Diamond

De longe o episódio mais confuso de toda a série. Num futuro cuja data não é revelada, a terra está sendo desgastada pela erosão, fazendo com que casas caiam no mar. Híbridos de humanos com porcos são comuns e vivem em meios aos humanos. O protagonista é um engenheiro que produz consciências para os híbridos e as rouba a pedido de um híbrida. Há uma questão não explicada a respeito de plantas cultivadas dentro das casas. Parece confuso? Tente assistir. Provavelmente ficará ainda mais confuso. É o tipo de história em que o roteirista parecia ter muita informação em mãos, mas não sabia o que fazer com elas.

sexta-feira, junho 05, 2026

Antropofagia cultural

 


Uma discussão que tem intrigado intelectuais, artistas e pesquisadores é a cultura brasileira. O que é cultura nacional? Quais são as suas manifestações legítimas? Ela existe mesmo, ou, ou somos simples imitadores? Uma resposta curiosa para essas perguntas é representada pela antropofagia cultural.
Esse ponto de vista ganha uma metáfora na desafortunada viagem do Bispo Sardinha. O episódio se passou na época do Brasil Colônia. O sacerdote teve sérias desavenças com o Governador Geral do Brasil, em Salvador. A coisa se tornou tão séria que a Corte o chamou a Portugal para que explicasse a situação. Ainda na costa brasileira, o barco naufragou e os sobreviventes nadaram desesperados até a praia. Deram azar. Os índios antropófagos  estavam lá, esperando que a comida chegasse até eles. Que me desculpem o trocadilho, mas jantaram o sardinha.
O mesmo fez o povo brasileiro com a cultura que veio de fora. Ela foi jantada e digerida. Danças típicas, como a quadrilha e o carimbó, tiveram sua origem nos salões nobres da Europa, mas aqui foram misturadas com o tempero índio e negro, transformando-se em  algo completamente diferente, típico do Brasil, embora tenha suas origens no estrangeiro.
Quando Gilberto Gil e os Mutantes introduziram a guitarra elétrica na MPB, muitos chiaram. Para os patrulheiros de plantão, usar esse instrumento era se render à dominação cultural americana. Quem conhece a Tropicália sabe que foi exatamente o oposto que aconteceu. A mistura de ritmos, instrumentos e influências deu origem a algo completamente novo e inusitado, genuinamente nacional. Outro exemplo é Raul Seixas com seu rock misturado com forró, repente e baião
Mais recentemente tivemos outros exemplos, ainda na música. Chico Science e Pato Fu fazem uma música sem fronteiras, misturando ritmos e dando continuidade a uma tradição que remonta aos primeiros antropófagos que jantaram os náufragos europeus.
O mesmo fenômeno pode ser visto no cinema, literatura, quadrinhos e televisão. Veja-se o caso das telenovelas. Inicialmente realizadas com roteiros importados do México ou de Cuba, elas acabaram tomando uma “cara” nacional. O Brasil inventou um jeito de fazer novela que é reconhecido em todo o mundo e supera em qualidade até mesmo quem nos serviu de modelo.
Fechar-se em si próprio não parece ser a característica do brasileiro. Estamos sempre abertos ao novo, ao que vem de fora. Exemplo disso foram os imigrantes que ajudaram a construir o país e fizeram de nossa população um fenômeno de mistura e beleza. Observar as arquibancadas de um jogo do Brasil é observar um espetáculo miscigenação. Há desde pessoas negras a loiras de olhos azuis.
A maioria de nosso povo é uma mistura de negros, índios, portugueses, espanhóis e italianos. O mesmo ocorre com nossa cultura. Nossa ótica é a da mistura. A cultura nacional parece ser uma mescla de várias outras, mas é também extremamente original.
Somos, portanto, antropófagos. Antropófagos culturais.
Mas para que o canibalismo não degenere em macaquismo (imitação pura e simples) são necessários alguns cuidados.
O primeiro deles, claro, é preservar o que já temos. Não se faz antropofagia abandonando o que já existe para adotar o que vem de fora, e sim misturando o alienígena com o nacional. Como mixar rock com maracatu. Ficção-científica com cordel. Chiclete com banana. Se não preservamos e não damos valor ao que já faz parte da cultura nacional, então seremos eternos imitadores.
Um outro cuidado é fazer uma leitura crítica do que chega até nós. Os índios antropófagos escolhiam as melhores partes para devorarem (preferencialmente o cérebro, pois se acreditava que a inteligência da vítima passaria para o guerreiro). Andar por aí usando camisas de universidade americanas ou vestido de cowboy não é antropofagia, é macaquismo.
Podemos, claro, aproveitar até mesmo o lixo cultural que chega até nós, mas devemos fazer isso criticamente. Isso sim é antropofagia.

X-men: Fênix Negra

 


A saga da Fênix Negra foi criada em uma época em que matar heróis não tinha se tornado uma muleta criativa. Foi uma decisão corajosa, mas necessária (já que a personagem se tornara poderosa demais) e provocou uma verdadeira comoção dos fãs. É a história mais clássica dos X-men e a que mais marcou a minha geração. Suas histórias eram publicadas em Superaventuras Marvel. Nunca uma revista foi tão esperanda quanto na fase da Fênix Negra.
Quando os X-men chegaram aos cinemas, todo fã pensou: será que vão fazer a Fênix Negra? Fizeram. Transformaram a melhor saga dos mutantes em uma sub-sub-trama de X-men 3, desperdiçando a história no meio de muita porrada. Decepção geral, em especial para os que tinham lido os quadrinhos.
Quando a série mutante foi retomada com o excelente Primeira Classe, retormaram as esperanças de vermos finalmente a saga da Fênix no cinema.
Vieram dois filmes horríveis, trocas e mais trocas de diretores e finalmente chegamos à Fênix Negra, dirigida por Simon Kinberg.
Visto como filme isolado, é um bom filme. Sofie turner está perfeita como Fênix (infinitamente melhor que a insossa Famke Beumer Janssen, que fazia o papel na trilogia original) e sua história, em especial a relação com o pai, é muito bem desenvolvida (aliás, mais interessante que a dos quadrinhos). A propósito, esse é o filme dessa nova fase que melhor conversa com o Primeira Classe. Há boas cenas (eu particularmente adorei a referência à Cristal).
O maior problema de Fênix Negra é que ele veio depois de dois filmes horríveis. Nos quadrinhos, a saga da Fênix foi preparada ao longo de pelo menos uma dezena de edições e de uma saga realmente eletrizante (a famosa história de Protheus). Quando finalmente eclodiu, a personagem era uma das mais queridas dos fãs e uma das que mais chamavam atenção.
A Marvel fez isso muito bem isso no cinema com a saga de Thanos. Ela foi construída ao longo de diversos filmes em uma trama que foi se desenvolvendo aos poucos, que acostumou o expectador aos personagens e foi num crescendo até o seu antológico momento final.
Em Fênix Negra, como não houve uma construção ao longo dos filmes anteriores, tudo acontece muito rápido. Mal vemos a Fênix e ela já vira a Fênix Negra. E como tudo tinha que ser criado, desenvolvido e resolvido num único filme, inventaram uma raça alienígena da qual a Rainha Branca faz parte.
O curioso é que Simon Kinberg, diretor e roteirista de Fênix Negra, foi roteirista dos filmes anteriores e poderia ter jogado isso lá atrás, criando a expectativa e desenvolvendo a Fênix. Mas não sabemos até que ponto os diversos diretores que assumiram a franquia interferiram no roteiro. Além disso, a cronologia dos personagens ficou ainda mais zoada que nos quadrinhos.

Livro Jornalismo em Quadrinhos

 

Em Jornalismo em Quadrinhos, Gian Danton não apenas traça um histórico dessa área, mas também analisa as principais obras publicadas no Brasil e no mundo. Além do conteúdo servir como uma generosa introdução ao tema, o autor ainda traz os bastidores de diversas produções de Jornalismo em Quadrinhos feitas por ele mesmo.

Valor: 25 reais (frete incluso)

Pedidos: profivancarlo@gmail.com 

X-men – o início da saga de Proteus

 


 

A saga de Proteus, publicada a partir de The Uncanny X-men 125, representa o início do ponto do alto da dupla Chris Claremont-John Byrne. Dali viriam apenas clássicos, como a Saga da Fênix e Dias de um futuro esquecido.

Essa edição embora seja morna (era uma preparação para a trama principal), é envolvente pela maestria com que os dois autores trabalham com os ganchos ao mesmo tempo em que aprofundam os personagens.

A história começa com Jean Grey transformada em Fênix no labarotório de Moira Mactggert em uma ilustração belíssima e impactante de Byrne. O texto era do tipo que faria a fama de Claremont: “Era uma vez uma jovem chamada Jean Grey... uma telepata/telecinética mutante. E um dos membros fundadores dos fabulosos X-men. Agora ela é a Fênix. E para ela, para aqueles que ela ama e que a amam... e talvez para o mundo inteiro... nada jamais será o mesmo”.

Em poucas páginas, os ganchos de duas das principais sagas dos mutantes.


Nessa sequência inicial já são lançadas as bases do que viria a ser a saga da Fênix. Moira fica com medo ao imaginar o que acontecerá se Jean Grey usar todo o seu poder. Na mesma sequência um homem misterioroso observa as duas. O texto diz: “Atrás delas, sem ser visto por ambas as mulheres, a luz revela algo que um dia foi um homem” e a criatura pensa: “Tenho... fome! Mas devo esperar. Moira não deve saber”.

Ou seja, em apenas três páginas, Byrne e Claremont lançam os ganchos de suas duas principais sagas dos X-men de todos os tempos. Tudo ali, à mostra do leitor, mas encobertos por um ar de mistério que torna a leitura ainda mais viciante.

Se o leitor não havia sido fisgado por esse início, temos a sequência seguinte, com os X-men treinando na sala do perigo e mais um conflito entre Cíclope e Wolverine, algo que seria uma marca dos mutantes: conflitos humanos em meio a grandes sagas.

A narrativa pula para Jason Wyngard, o mestre mental. Ele pensa em como usou sua habilidades para conseguir a confiança de Jean se fazendo passar por um padre no avião.

Mas a história a história logo passaria dos ganchos e dramas humanos para a ação e o terror quando Moira percebe que há algum intruso no laboratório e desconfia que o mutante X escapou. Fênix percebe seus pensamentos e vai em seu socorro, mas no meio do resgate embarca num falso flash back que a deixa desorientada  a ponto de ser atacada e quase derrotada pelo intruso.

O clima de suspense permeia toda a história. 


A história termina com Lorna, a heroína magnética Polaris, pedindo ajuda aos X-men pelo telefone e olhando assustada para trás, a boca entreaberta no meio de um grito, enquanto a voz de alguém que não vemos aparece num balão distorcido: “Humana! Eu... preciso de você!”.

Em, suma, a história é uma aula de como construir uma trama e sustentar a atenção do leitor, com um final que deixa o leitor totalmente intrigado e ansioso pela continuação.

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 20 e demonstra muito bem porque os fãs aguardavam ansiosamente a chegada de mais um número nas bancas.