sábado, abril 18, 2026

Monteiro Lobato: Adeus

 

Em 1943 Emília encasquetou de conhecer a história da América “auto-contadamente”. Queria ouvir a história da boca do vulcão Aconcagua!
            Esse livro, que provavelmente se chamaria História da América para Crianças, nunca foi escrito por Lobato. Isso porque, além de pesquisar muito, o autor precisaria fazer uma viagem pela costa do Pacífico, beirando os Andes - um velho sonho. Não teve tempo. A partir de 1943 ele começou uma série de livros sobre os trabalhos de Hércules. E eram 12!
            Depois precisou fazer uma viagem à Argentina para tratar da edição de seus livros por lá. Foi recebido como uma celebridade e ficou um ano naquele país. Voltou ao Brasil apenas em 1947. Nessa época seus livros já eram traduzidos para as mais variadas línguas, todos com muito sucesso, em especial os infantis.
            Mas nem todo esse sucesso agradava tanto Lobato quanto as cartas que recebia de crianças.
            Uma vez uma menina, desesperada com o pedantismo dos programas oficiais, escreveu-lhe, pedindo para que Dona Benta explicasse a “regência dos verbos mais freqüentes”. Lobato, que não sabia nada do assunto, foi obrigado a recorrer a uma gramática e estudou até que pudesse explicar de forma compreensível o ponto.
            Certa vez um pai escreveu-lhe: “Com meus agradecimentos pela cartinha que o senhor mandou em resposta à do meu filho Lindenberg, dou-lhe notícia de que essa missiva está concorrendo enormemente para a cura do rapaz. Diz ele que ontem foi o dia mais feliz de sua vida”.
            Em outra carta, uma moça dizia que reprimida por todos da família, refugiava-se no Sítio do Pica Pau Amarelo, único lugar em que era realmente livre. “Cartas assim constituem os verdadeiros prêmios que possa ter um escritor no fim da vida”, admitia Lobato.
            E o escritor ia morrendo. “Sinto, às vezes, à noite, umas coisas que só posso definir como tentativas de fuga de um prisioneiro. Até agora todas as tentativas fracassaram, como têm fracassado todas as tentativas de fuga do Piantadino: mas de repente o consegue e os jornalistas no dia seguinte vêm com aquele trololó fúnebre: ‘Faleceu ontem, de síncope cardíaca o ilustre escritor Monteiro Lobato, um dos mais’, etc, etc, etc e lá vem toda a tropa de lugares comuns dos necrológios. Mas eu, o Ego que não morre porque não pode morrer, porque nada morre, nem o mais miserável átomo, estarei a rir da inópia dos jornalistas”.
            Lobato nessa época já acreditava na teoria espírita da sobrevivência da alma. Mas e se não fosse assim? E se, ao invés da continuação da vida, a morte trouxesse a extinção total do ser? “Nesse caso, vis-ótimo! Entro já de cara no Nirvana, nas delícias do não-ser! De modo que me agrada muito o que vem aí: ou a continuação da vida, mas sem os órgãos já velhos e perros, cada dia com pior funcionamento, ou NADA!”.
            No dia 28 de abril de 1948, 10 dias depois de seu aniversário, o escritor teve um espasmo vascular que deixou completamente cego. Pior dos martírios para um escritor: não podia ler uma única linha.
            Melhorou algum tempo depois, mas não tinha mais ânimo para viver. Seus dois filhos homens, Edgard e Guilherme, haviam morrido. Acrescentava-se a isso o fato de ter sido preso. A morte ia se aproximando e Lobato a aceitava como um alvará de soltura.
            “Adeus, Rangel! Nossa viagem a dois está chegando perto do fim. Continuaremos do além? Tenho planos logo que lá chegar, de contratar o Chico Xavier para psicógrafo particular, só meu - e a primeira comunicação vai ser dirigida justamente a você. Quero remover todas as tuas dúvidas”, escreveu ele ao amigo, poucos dias antes de morrer.
            Lobato faleceu no dia 04 de julho de 1948. Ao que se saiba, Chico Xavier nunca recebeu qualquer mensagem do escritor...
Em homenagem a ele, o dia 18 de abril passou a ser considerado o Dia do livro infantil

Riding the Bullet, de Stephen King

 


No final do ano de 2000 a internet nos EUA foi abalada por um fenômeno sem precedentes: o lançamento do e-book Riding the Bullet (Montando na bala), de Stephen King. O interesse foi tamanho que os sites envolvidos chegaram a travar.

A história é aparentemente prosaica. Alan Parker é um estudante da Universidade do Maine quando recebe uma ligação dizendo que sua mãe teve um derrame e foi internada. Desesperado, ele pega uma mochila e sai pela estrada pedindo carona. E acaba descobrindo, tarde demais, que a pessoa que lhe deu carona na verdade já está morta.

Por trás dessa trama fantasmagórica se esconde uma história de forte teor humano. Riding nos faz pensar sobre nossa relação com as pessoas queridas e o que elas representam para nós. É muito mais uma história sobre a morte e a vida. Não por acaso, King a escreveu quando estava em uma cama de hospital, vítima de atropelamento quase fatal.

Em Riding vemos o autor de Carrie em sua plena forma, com um terror que se encontra nos detalhes. King não precisa de monstros para provocar medo. A tensão pode estar na forma de alguém puxar a calça, ou em um cheiro de morte. Detalhes assim nos fazem entrar na história.

A única falha tem relação justamente com a mídia encontrada para divulgar o volume. São aproximadamente 60 páginas e King escreveu direto, sem fazer sequer capítulos. A tendência dos e-books são capítulos curtos, que permitem ao leitor interromper a leitura na tela no momento em que quiser.  Ou seja, Riding é um livro virtual que não tem característica de livros virtuais.

Futuramente, esse conto lançado de forma virtual foi incluído na coletânea Tudo é eventual, lançado aqui em 2005 pela editora Objetiva. A tradução ficou como Andando na bala.

Conan – A ira de Anu

 

A ira de anu, história publicada no volume 10 da revista Conan the barbarian é um exemplo das qualidades de Roy Thomas como grande narrador. Ele estava preparando a adaptação de uma história original de Conan, Inimigos em casa, quando percebeu que o primeiro parágrafo da história já dava uma outra HQ. Nesse parágrafo, Robert E. Howard informa que Conan estava preso e condenado à morte após ter imposto uma vingança a um corrupto sacerdote de Anu, que ordenara a morte de um ladrão amigo do cimério.

Thomas imaginou toda uma situação a partir desse pequeno resumo. Na história, Conan se associa a um ladrão Gunderlandês para roubar diversos tesouros que são entregues para o sacerdote de Anu, que os revende.

Conan enfrenta um homem-touro sobrenatural. 


O templo, um local onde os soldados não podem entrar, é guardado por um homem-touro que pode ser invocado pelo sacerdote.

Quando este trai a dupla e ajuda a armar uma tocaia, Conan decide vingar o colega enforcado em praça pública e acaba enfrentando o homem-touro – e é nesse ponto que temos uma típica história do cimério, com ele enfrentando uma ameaça sobrenatural.

Na sequência, a força do texto de Thomas se destaca: “Eis outro momento capaz de congelar a alma... monstro e bárbaro fitam um ao outro. Em seu quase paralisado corpo, Conan sente o bafo ardente da perdição”.



Outro que se destaca é Barry Smith, que à essa altura se sentia cada vez mais à vontade no título. A sequência do enforcamento do ladrão é um primor narrativo. Smith contorna a censura da época mostrando apenas as pernas do ladrão, mas nos cinco quadros conseguimos perceber claramente o que está acontecendo, além de acompanhar a reação do cimério.

O experimento de aprisionamento de Stanford

 

Em 1971 o psicólogo Philip Zimbardo conduziu uma experiência para entender como uma prisão afeita o comportamento dos prisioneiros. Para isso, ele selecionou 24 estudantes, considerados os mais equilibrados psicologicamente entre 70 voluntários. Como era época da impopular Guerra do Vietnã, ninguém queria ser guarda – de modo que tiveram que sortear quem seria prisioneiro e quem seria guarda.
 A experiência logo saiu do controle. Os guardas abusavam repetidamente de seu poder, humilhando e torturando psicologicamente os prisioneiros, que eram muitas vezes acordados de madrugada para contagens que duravam horas ou sessões de humilhação – que incluíam desde humilhação sexual até obrigar um estudante religioso a proferir palavrões. Até mesmo Zimbardo e seus assistentes saíram do controle, estimulando o comportamento dos guardas.
A experiência, que deveria durar duas semanas, foi abortada no sexto dia, quando o nível de descontrole dos guardas chegou ao seu auge.
O que começou como uma pesquisa sobre o comportamento dos prisioneiros terminou com um dos maiores alertas já feitos sobre os perigos do poder e do abuso de autoridade.
O episódio ganhou um filme dirigido por Kyle Patrick Alvarez e lançado pela Netflix em janeiro de 2018. O diretor busca fazer uma reconstrução o mais próxima possível dos acontecimentos reais, inclusive do ponto de vista visual (a experiência foi filmada, por isso há muitas imagens disponíveis). Além disso, o uso inteligente de closes torna tudo ainda mais pungente e assustador . As expressões faciais destacam a reação dos presos, de repente imersos em algo que não compreendem e a espiral de sadismo dos guardas, cada vez mais fascinados com as delícias do poder.
O experimento de aprisionamento de Stanford é um filme assustador sobre como pessoas normais podem se tornar psicopatas e deixar aflorar toda a sua maldade  numa situação de poder e de grupo – e sobre como essa sensação de poder vai contaminando a todos, inclusive os pesquisadores. E um grande alerta sobre os perigos do poder.

Roteiro de quadrinhos: como construir um estilo

 

O Nome da Rosa, de Umberto Eco, é o resultado de diversas influências

Na prática da escrita não existem gênios que surgem do nada, com um estilo próprio e revolucionário. Todo grande escritor é fruto de suas leituras. Todo grande escritor se assenta sobre os ombros dos que vieram antes dele. Só para citar um exemplo mais famoso: O nome da Rosa, de Umberto Eco é o resultado de uma série de influências, entre elas, principalmente Conan Doyle (o nome do protagonista, Guilherme de Barskerville, é uma referência direta aos romances de Sherlock Holmes) e Jorge Luís Borges (o nome do vilão, Jorge, é uma referência direta ao escritor argetino).
Na verdade, o estilo de um escritor é o resultado de suas influências literárias em conjunto com sua experiência de vida. Essa sopa, bem temperada, dá origem às grandes obras.
Isso não significa copiar um autor, mas absorver um pouco de vários e digerir essas influências. Com um autor você pode aprender narrativa, com outro diálogo, com outro a forma de lidar com as elipses quadrinísticas, outros sobre a estrutura da trama... cada um tem algo a nos ensinar.
Quando comecei a escrever quadrinhos durante algum tempo tive uma produção prolixa, já que a editora Nova Sampa, para a qual eu trabalhava, comprava praticamente tudo que eu escrevia. Isso me permitiu fazer um exercício que recomendo a todos novos autores: fazia histórias imitando o estilo deste ou daquele roteirista. Em uma HQ seguia o modo de escrever de Neil Gaiman, em outro, o de Grant Morrison e em outro, o de Alan Moore (só para citar os que mais me influenciaram). Para fazer isso eu precisava estudar o estilo de cada um para fazer a “história homenagem”.
Miracleman foi uma das obras que mais me influenciaram no início de carreira

Acabei gostando da brincadeira e produzi um fanzine literário, Ideias de Jeca-tatu em que, a cada número publicava a biografia de um escritor e um conto-homenagem no estilo dele. Foram homenageados Monteiro Lobato, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, entre outros. Com cada um eu aprendia algo, fosse o humor lobatiano, o clima poético de Poe, o sarcasmo sutil de Machado.

Ao final, meu próprio estilo foi se definindo. Um estilo que não era uma imitação de nenhum desses escritores ou roteiristas, mas uma mistura de todos eles, uma sopa antropofágica da qual emergiu minha própria maneira de escrever e bolar tramas. 

O traço fascinante de Wilson McCoy

 

 

Wilson McCoy é um desenhista norte-americano mais conhecido pelo seu trabalho em O Fantasma.

Nascido em 1902, ele vinha de uma família pobre cuja situação financeira piorou quando o patriarca morreu. McCoy começou a trabalhar em uma farmácia. Quando estava no ensino médio, conseguiu emprego como mensageiro em uma agência de publicidade. Como seu sonho era se tornar artista, ele treinava o desenho nas horas vagas, até que começou a conseguir alguns trabalhos de ilustração publicitária.

Já na década de 1940 ele dividiu estúdio com Ray Moore, o primeiro desenhista do Fantasma e passou a colaborar com ele no desenho da tira. Quando Moore foi convocado para lutar na II Guerra Mundial, McCoy assumiu a tira, sem assinar. Moore voltou da guerra com um ferimento que o impedia de continuar desenhando, o que fez com que o sócio se tornasse o desenhista regular do herói.

McCoy desenhou O Fantasma por todo final da década de 1940, por toda a década de 1950. Com a sua morte, em 1961, Sy Barry assumiu a tira.

McCoy começou seu trabalho no Fantasma imitando o traço noir de Ray Moore, mas logo revelou seu traço estilizado quase caricato, mas charmoso. Por ter desenhado um dos personagens mais queridos dos quadrinhos durante mais de uma década, ele angariou muitos fãs.  










Surfista Prateado: Parábola

 


Poucos títulos para uma obra poderiam ser tão adequados quanto a graphic novel do Surfista Parábola escrita por Stan Lee e desenhada por Moebius.
Quando os dois se encontraram em uma feira do livro, surgiu a ideia de fazer um trabalho em conjunto e Moebius sugeriu o Surfista. Mas como adequar a história ao estilo do autor francês? Lee voltou à origem do personagem. Conta-se que no argumento original da aparição de Galactus estava escrito: “O Quarteto Fantástico enfrenta deus!”.

Stan Lee retoma esse conceito, usando-como uma história alegórica, sobre os perigos da religião cega. Na HQ galactus volta à terra, mas não ataca. Simplesmente mostra o seu poder e se deixa idolatrar pelos humanos. Mas é uma religião cega e irracional, que leva a uma onda de irracionalidade, violência e intolerância.
Stan Lee coloca na HQ muito da sua maneira de ver o mundo, em especial nas falas do Surfista: “eles têm sede de lideranças, como um bebê que anseia o ventre materno. Certamente é por isso que são presas tão fáceis de tiranos e ditadores. Por que não percebem que a fé mais verdadeira de alguém é a fé em si mesmo? O que lhe causou desespero a ponto de buscar alguém que lhes mostre o caminho?”.

Moebius, por outro lado, buscou refletir na arte essa essência alegórica. Seu traço é fluído, leve, automático. São belíssimas páginas, com destaque para o confronto entre Galactus e o Surfista.
Essa história foi lançada aqui originalmente na coleção Graphic Novel, da editora Abril. Posteriormente a Panini fez uma edição em capa dura que até hoje pode ser encontrada em livrarias.

sexta-feira, abril 17, 2026

Fundo do baú - Dino Boy

 


Dino Boy (Dino Boy in the Lost Valley) era uma série da Hanna-Barbera produzida entre 1966 e 1968, num total de 18 episódios.

Criado por Alex Toth, o desenho contava a história de um garoto que pulava de paraquedas de um avião em chamas e ia parar num vale onde vivem dinossauros e outras criaturas estranhas. Atacado por um tigre dentes de sabre, o garoto é salvo por um homem das cavernas chamado Ugh.

A maioria das histórias girava em torno de algum animal tentando devorar Dino Boy e Ugh salvando-o.

Em um episódio, por exemplo, Dino é sequestrado por um pterossauros que o leva para seu ninho e logo depois é atacado por outro pterossauros, que também pretende comer o garoto (“Enquanto eles continuarem lutando por mim, estou salvo”, diz Dino Boy). No mesmo episódio ele havia escapado por pouco de ser devorado por tyrannosaurus rex, o que provavelmente o coloca como a iguaria mais cobiçada do vale.

Algo interessante é que, embora fosse um homem das cavernas, Ugh falava de forma correta e parecia inteligente. No episódio acima, por exemplo, ele aprende a usar arco e flecha para salvar o garoto.

O grupo ainda era composto de um pequeno brontossauro, que servia tanto de cachorro quanto animal de montaria.

Monteiro Lobato: a chave do tamanho

 


            Depois da prisão, o escritor publicou aquele que é, provavelmente, o livro mais original do sítio: A Chave do Tamanho. Na história, Emília, enervada com a bestialidade humana, resolve acabar com a Segunda Guerra Mundial. Usando o pó do pirlimpimpin, ela se transporta para a casa das chaves. Sim, porque todas as coisas do mundo têm uma chave, como a chave da eletricidade, e alguém tinha ligado a chave da guerra. . Emília inventou de fechá-la. Mas chegando lá deu com uma sala cheia de chaves sem qualquer identificação. E agora? Qual era a chave da guerra?
            Como não há como saber, Emília puxa a primeira que encontra. E encolhe. Não só ela, mas todas as pessoas do mundo. Em todo caso, acaba-se a guerra. Como iriam continuar os homens guerreando se ficaram menores que formigas? Claro que no final tudo volta ao normal, mas as quase 200 páginas do livro são um grande discurso contra o totalitarismo. Nesse livro Lobato deixa claro sua esperança num mundo melhor. Sua esperança estava nas crianças.
            Até aí nada de realmente estranho. A ditadura militar de 64 vivia propagando que as crianças e os jovens eram o futuro do país. A diferença é que Lobato não achava que as crianças fossem o futuro, mas sim o presente. Os livros do Sítio são os primeiros publicados no Brasil em que as crianças têm voz ativa e liberdade de ação. Pedrinho, Narizinho e Emília (que, embora fosse uma boneca, representava as crianças) não esperam crescer para tomar opiniões a respeito do mundo ou para agir afim de transformá-lo.
            Em que outro lugar do mundo, senão no Sítio, as crianças já tiveram direito de expressão e de voto?
            Um bom exemplo disso é a maneira como é resolvida a questão do tamanho. Todo o pessoal do sítio é convocado para decidir se a humanidade volta ao tamanho normal ou continua como está. As crianças defendem a pequenês. Os adultos, a volta ao tamanho normal. Fazem o plebiscito e a pequenês perde unicamente por causa do voto do Visconde.
            Em todos os seus livros, Lobato mostra que as crianças mais abertas para as novidades, para a mudança; bem ao contrário dos adultos, que já se acostumaram com o mundo como ele está. Entretanto, são justamente as novas idéias que levam ao progresso da humanidade.
            “Os personagens foram nascendo ao sabor do acaso e sem intenções”, dizia Lobato. “Emília começou como uma feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente - cabritinho novo, aos pinotes. Teoria biológica das mutações. E foi adquirindo uma tal independência que, não sei em que livro, quando lhe perguntaram: ‘Mas que você é, afinal de contas, Emília?’, ela respondeu de queixinho empinado: ‘Sou a independência ou a morte’. E é tão independente que nem eu, seu pai, consigo dominá-la. Quando escrevo um desse livros, ela me entra nos dois dedos que batem as teclas e diz o que quer, e não o que eu quero”.

Resgate

 

Na década de 1980 houve uma onda de filmes em que um homem enfrentava um exército – uma onda que surfou no sucesso do primeiro Rambo e teve seu auge nos filmes posteriores da franquia. Mas se o primeiro tinha profundidade psicológica e sequências de ação verossímeis, muitos dos seus derivados eram difíceis de acreditar: em Rambo II, por exemplo, o protagonista vence sozinho a guerra do Vietnã lutando contra vietnamitas que, mesmo com uma metralhadora em punho, não conseguem acertar um único tiro.
Resgate, filme dirigido por Sam Hargrave com roteiro e produção dos irmãos Russo (dos filmes do Capitão América e dos Vingadores) resgata muito daquele primeiro Rambo.
Na história, graças a uma falha na segurança, o filho de um traficante é sequestrado pelo traficante rival. Sem dinheiro para pagar o resgate, o chefe da segurança contrata um grupo de especialistas liderados pelo mercenário interpretado por Chris Hemsworth. Mas, como o dinheiro da quadrilha foi confiscado pela justiça, o chefe da segurança trai o grupo de mercenários na tentativa de salvar ele mesmo o garoto – e evitar pagar pelo serviço.
Enquanto isso, o chefe do tráfego coloca toda a força policial da cidade para caçar o mercenário e o garoto.
É um filme de ação de tirar o fôlego, com perigos a cada esquina. Mas é também verossímil. Não vemos, por exemplo, a câmera nervosa de outros filmes, usada para esconder problemas de coreografia das lutas – um recurso que torna a narrativa confusa. É possível ver e entender tudo que acontece. Além disso, o mocinho não sai incólume: sofre facada, tiro, é atropelado. A impressão que se tem é de ver alguém altamente preparado, mas que não é um super-herói lutando contra indianos incapazes de acertar um único tiro.
Acrescente a isso uma boa caracterização de personagens inclusive secundários, cada um com uma motivação muito clara: o chefe da segurança que precisa resgatar o garoto para que sua família não seja morta, o traficante que manda na cidade, o garoto que quer subir na cadeia do tráfico. 
Em tempo, o filme é adaptação de uma história em quadrinhos ‘Ciudad’ de Ande Parks e dos irmãos Russo.
O filme é baseado na hstória em quadrinhos Ciudad.

Tropa Alfa – Ouro e casos de amor

 


Um dos casais mais curiosos e extravagantes dos quadrinhos de super-heróis são dois membros da Tropa Alfa, Sasquatcht e Aurora.

O relacionamento desses dois personagens é explorado nos números 20 e 21 da série. É nessa história, inclusive, que Aurora estreia seu novo uniforme e o cabelo curto (pessoalmente, achei o uniforme genérico e muito parecido, por exemplo, com o de Talismã, outra heroína do grupo).

O novo uniforme de Aurora. 


O casal vai a uma ilha deserta onde se encontra uma mansão herdada por Walter e onde eles pretendem instalar uma base da Tropa. “Foi construída em 1896 por uma tia-avó da minha mãe. Ela era uma figura e tanto. Casou-se oito ou nove vezes, viuvou cada uma delas sob circunstâncias misteriosas. Sempre foi diferente do resto da família”.

Mas, durante a visita, Sasquatcht some e Aurora se vê em um local totalmente escuro. Não há nenhuma explicação para toda essa escuridão, de modo que desconfio que era só uma desculpa para Byrne duas páginas com quadros totalmente pretos (vale lembrar que na mesma época ele cuidava dos desenhos e roteiros do título do Quarteto Fantástico) nos quais Aurora fala, fala, fala sem parar.

Quadros pretos com diálogos: menos trabalho para Byrne. 


 Por mais que heróis na época tivessem essa mania estranha de falarem sozinhos, aqui nitidamente há um exagero. A situação se justifica em parte, pelo fato da personagem mudar de personalidade no meio da sequência, o que se reflete em sua fala. É um bom recurso, embora exagerado, ainda mais pelo fato de que não existe nenhuma razão real para a personagem estar no escuro total.

A heroína acaba encontrando com uma personagem chamada Lírio Dourado e a galeria de maridos da mesma, transformados em estátuas de ouro. Aliás, ela acaba descobrindo que também Sasquatcht, em sua identidade secreta, foi transformado em ouro.

Uma galeria de estatuas douradas? 


A capa do número seguinte mostrava Sasquatcht e Aurora enfrentando Diablo, um antigo vilão do Quarteto Fantástico, o que era um tremenda enganação, já que o personagem aparece na história apenas em flash back, pois ele era o amante da Lírio Dourado e quem a iniciou nas ciências do mal. Essa capa enganação, uma forma descarada de vincular a Tropa Alfa ao Quarteto, talvez fosse uma antecipação do que Byrne faria, lá na frente com a Mulher Hulk.  

Há um recurso interessante usado no flash back que é o fato de jamais vermos o rosto da vilã, o que cria suspense e abre caminho para a reviravolta final.

 

O rosto da vilã nunca é revelado. 

Uma curiosidade dessa história é que aqui Byrne conta com a arte-final de Keith Williams. Como na época ele estava bastante atarefado, cuidando de mais uma série, deve ter chegado um ponto em que ele não conseguiu continuar fazendo tudo na Tropa Alfa.

Supremo – Oculto pelas nuvens

 

A história é uma crítica de Moore à postura revisionista dos super-heróis. 

Na década de 1990, era famosa a rixa entre os escritores britânicos Alan Moore e Grant Morrison. Uma rixa unilateral, já que os ataques vinham mais da parte de Morrison. No entanto, na terceira história de sua versão de Supremo (publicada no número 43 da revista) Moore resolveu aproveitar que o protagonista era um desenhista de quadrinhos para dar uma resposta.

Na página de abertura, vemos um trecho do personagem Omniman, desenhado por Ethan Crane (o alter-ego do Supremo), com o herói em primeiro plano, arrancando o próprio coração, enquanto um ser monstruoso se aproxima em segundo plano. “Você nunca vai me matar de verdade”, diz o herói. “Da mesma forma que não conseguiu matar Jean Genet, Isidore Ducasse ou Mallarmé! Não enquanto eu puder... unngghhh... arrancar meu próprio coração como um manifesto final que justapõe a arte, o misticismo e o absurdismo!”.

O escritor Bill Friday é uma referência ao roteirista Grant Morrison. 


Era uma forma ácida de dizer que Morrison colocava referências aleatórias a artistas apenas para parecer intelectual e "descolado", por mais que essas referências não contribuíssem em nada para a trama.

Mas o escritor Bill Friday (o personagem que representa Morrison) acha o resultado genial: “Há uma mensagem importante nas palavras aqui e você pegou a ideia”. Em seguida, ele explica que está acabando com toda a mitologia de Omniman.

A história flash back é um passeio pela Cidadela Suprema. 


A sequência também é uma crítica à postura revisionista da década de 1990, que pretendia acabar com todas as mitologias dos personagens, surgidas na Era de Prata, em benefício de uma visão mais “adulta”. Vale lembrar que isso também foi feito pela DC no cinema e foi um desastre, de forma que personagens como o Superman só voltaram a fazer sucesso quando suas mitologias foram resgatadas, já na era James Gunn. Ou seja: mais uma vez, Moore tinha razão.

Além da crítica, a revista se destaca pela HQ flashback, desenhada por Rick Veitch e intitulada A charada do castelo das nuvens. Na trama, Supremo leva Jonas e Judy, seus parceiros jornalistas, para a Cidadela Suprema, escondida no meio das nuvens. Chegando lá, porém, encontram as portas abertas e um bilhete. Ou seja: alguém invadiu o local. A história reflete diretamente as HQs do Superman da Era de Prata, nas quais tudo era desculpa para mostrar em detalhes a Fortaleza da Solidão.

O local foi invadido. Quem é o responsável? 


O local inclui uma dimensão espelhada, onde ficam presos os inimigos do Supremo, entre eles o Supremo Sombrio, com a imagem em negativo, além de um zoológico de criaturas lendárias, incluindo Medusas, dragões e uma bela anjo Luriel. “Poderia ter acontecido algo entre nós no passado, mas Luriel nem existe nesta realidade. Nunca poderia acontecer”.

Passam também pela galeria dos aliados, heróis da Segunda Guerra Mundial, incluindo outra personagem de Rob Liefeld, Glory, para a qual Moore criou uma série fantástica que, infelizmente, ficou inacabada, mas serviu de base para Promethea.

A HQ serve para mostrar a mitologia do personagem. 


No final, a solução para o invasor da cidadela é infantil e, ao mesmo tempo, inteligente.

É sintomático que Alan Moore tenha colocado essa história, que explora toda a mitologia do personagem, exatamente no número em que começa criticando a tendência revisionista e realista dos super-heróis, que inclui apagar toda a sua mitologia. Era uma declaração de princípios.



Em tempo: Na contramão do conteúdo, Rob Liefeld deixou de colocar na capa ilustrações de Joe Bennett emulando quadrinhos clássicos, substituindo-as por pavorosas imagens de Stephen Platt no pior estilo Image.