sábado, julho 11, 2026

Camelot 3000 – Prelúdio da Guerra

 


O capítulo 10 da série Camelot 3000 marca o início do terceiro ato, quando todas as tramas desenvolvidas se encaminham para sua resolução. 

E as coisas não estão boas para a Távola Redonda. 

Rei Arthur é acusado de matar os líderes mundiais. 


Mordred se apossara do Santo Graal e mandara construir com ele uma armadura para si, o que o tornava praticamente invencível, já que qualquer ferida era curada imediatamente. Ele também exterminara todos o principais governantes da terra e colocaram a culpa em Artur. 

Em paralelo a isso, Arthur e seus cavaleiros se encaminham ao décimo planeta, onde a batalha final terá lugar. 

A Rainha dos alienígenas se alia a Guinevere. 


Os cavaleiros ganham uma aliada inesperada na figura da rainha dos alienígenas, que pretende se vingar de Morgana por ela ter escravizado parte de seus filhos. 

Mike w. Barr constrói sua narrativa num crescendo, em que as ações vão se sucedendo na direção de um final que parece catastrófico.

Lancelot e Tristão parecem condenados. 


Lancelot é aparentemente morto por Mordred enquanto Tristão é aprisionada pelo sargento Owen, que agora pretende matá-la (em uma imagem de impacto com a moça engasgando e lutando pela vida).

Para tornar essa parte da história ainda mais célebre, aqui a arte final é de Terry Austin, que valorizava ainda mais a arte incluindo o fundo preto.

No Brasil esses capítulos finais foram publicados em Superamigos (a série havia começado a ser publicada na primeira série de Batman da Abril).

A arte impressionante de Gabriel Andrade Jr.

 

Gabriel Andrade Jr. é Músico, Animador, Ilustrador, Artista e Roteirista de quadrinhos. Nasceu em Macau, cidade do interior do Rio Grande do Norte. Seu primeiro trabalho publicado foram ilustrações para o livro A Ordem da Rosa Branca, de Daniel Nasser, no ano de 2005. A partir de 2009, Gabriel teve seus primeiros trabalhos requisitados por editoras norte-americanas, como Kingstone Comics (The Last Convert of John Harper), Dark Horse (Aliens), BOOM! Studios (Die Hard: Year One), Sea Lion Books (adaptação do livro O Alquimista, de Paulo Coelho) e Avatar Press (Lady Death, Feral, Uber, Crossed).  Atualmente desenvolve uma série de títulos de horror e suspense com o escritor inglês Alam Moore (V de Vingança, Watchmen), com quem foi co-autor da série de sucesso internacional Crossed One Hundred.










Chico Xavier - O filme

 



Chico Xavier é um filme de 2010 dirigido por Daniel Filho. 

O roteiro, , de Marcos Berstein, mostra Chico em um dos pontos altos de sua vida: a participação no programa Pinga Fogo, da TV Tupi. Sua vida é contanda a partir dos flash backs provocados pelas perguntas dos entrevistadores. Essa estrutura de roteiro dá dinamismo à história evitando o tom de discurso que caracterizou, por exemplo, o filme Bezerra de Menezes.

Além disso, o filme conta com um trama paralela que ajuda a manter o interesse: a do diretor do filme, que perdeu o filho em um acidente com uma arma.
Indo ao acordo com a personalidade de Chico, que dizem ter sido um piadista nato, a película também tem muito humor, até mesmo em cenas mais tensas, como naquela em que Chico diz para um assistente para usar o evangelho caso o espírito possesso em uma moça entrasse nele. O assistente não teve dúvidas: tascou-lhe a Bíblia na cabeça de Chico.
A direção de Daniel Filho também é muito segura. Um dos pontos interessantes é o uso econômico de efeitos especiais. Alguém comentou no Twitter que foi para economizar dinheiro da produção. Não acho. Hoje, CGI é a coisa mais barata e comum do mundo. Como diz Alan Moore, hoje vemos uma horda de ogros descendo uma coluna e bocejamos. O que falta hoje é um bom uso da linguagem do cinema, coisa que sobra em Chico Xavier. A quase ausência de efeitos computacionais faz com que, no momento em que eles apareçam, eles marquem a cena, como no primeiro momento em que Chico psicografa mensagens espirituais sob orientação de adeptos do espiritismo.
Um filme excelente, que segura a atenção até o último minuto. Nunca tinha visto a plateia inteira ficar sentada durante os créditos (que passa cenas reais de Chico no programa Pinga Fogo)

Hulk: no coração do átomo

 



Em 1970 o escritor de ficção científica Harlan Ellison (responsável por um dos melhores, senão o melhor episódio da fase clássica de Jornada nas estrelas) escreveu uma história em prosa do Hulk no qual o Golias Esmeralda era encolhido e vivia aventuras em um mundo microscópico em que todos os habitantes eram verdes como ele.

Roy Thomas percebeu que havia ali uma boa trama e a adaptou para a revista em quadrinhos do personagem. O desenho ficou por conta de Herb Trimpe e de Sam Grainger. Se Thomas soubesse a importância dessa história para a cronologia do golias esmeralda, talvez tivesse escolhido uma equipe de maior vulto.

Jarella surgiu no número 140 da revista do Hulk... 


Foi nessa história, com o título imenso de “A fera que gritou amor no coração do átomo” que apareceu uma das personagens mais carismáticas da série, a rainha Jarella, grande amor de Hulk. A reação foi tão boa que o mundo de Jarella reapareceu diversas vezes na revista do Hulk, com as equipes mais diversas.

Mas foi a entrada do desenhista Sal Buscema no título e, posteriormente, do roteirista Bill Mantlo, que o personagem ganhou o tratamento que merecia – e a saga de Jarella foi devidamente explorada.

... e logo se tornou o amor da vida do golias esmeralda. 


Jarella mostrou que a revista do Hulk poderia mostrar amor e, ao mesmo tempo drama. A paixão infantil do personagem logo se torna tragédia e a obsessão do monstro por salvar sua amada nos dá alguns dos melhores momentos do personagem – e a forma como a dupla fecha a trama, unindo drama e lirismo está certamente entre os grandes momentos da Marvel da era de bronze.

Essas histórias foram reunidas na graphic salvat No coração do átomo, certamente um dos melhores da série de clássicos da coleção de Graphic Novels da Marvel.

Ken Parker: Assalto em Canyon City

 


Uma das maiores virtudes do roteirista Giancarlo Berardi é sua maestria em transitar por gêneros, especialmente o policial. Frequentemente, ele aproveitava a série de faroeste Ken Parker para construir tramas de suspense e investigação. Um exemplo perfeito é a história publicada no número 13 da revista (no Brasil, pela Editora Vecchi), intitulada "Assalto em Canyon City", com a arte de Giorgio Trevisan.

Na trama, Parker e a jovem Pat O'Shane — apresentada na edição anterior — viajam até Canyon City para encontrar aquela que supostamente seria a mãe da menina. Contudo, ao baterem na porta da casa indicada, acabam mergulhando involuntariamente em um complexo plano de assalto.

Dois desconhecidos se conhecem no trem...

Berardi fisga o leitor logo nas primeiras páginas com uma sequência cinematográfica: dois homens chegam à cidade de trem. Um deles é elegante e falante; o outro, soturno e monossilábico. A dupla protagoniza momentos de alívio cômico e tensão, com diálogos afiados que revelam suas personalidades opostas: "Bebe um gole, pelo menos?", insiste o falastrão, ao que o outro corta secamente: "Não; em compensação, cuido apenas dos meus problemas".

A sequência culmina com a descoberta de que ambos foram contratados para o mesmo roubo. Aqui, Berardi brilha em uma de suas características mais louváveis: a criação de tipos marcantes, conferindo profundidade até mesmo a personagens secundários que nunca mais retornarão à série.

... e descobrem que foram convidados para o mesmo assalto. 


O plano é intricado, visando paralisar a cidade inteira ao neutralizar as forças da lei. Quando Ken Parker, agindo por instinto, mata um dos criminosos, ele é coagido a ocupar o lugar do falecido no bando para proteger a vida de Pat. Enquanto isso, a menina lida com o conflito interno de desconfiar que a mulher que a mantém refém é, de fato, sua mãe biológica.

Pat desconfia que a mulher que a raptou é na verdade sua mãe. 


A história se destaca por um roteiro no quial cada peça se encaixa com precisão. O plano bem elaborado, os diálogos realistas e a reviravolta final — surpreendente, porém absolutamente verossímil — confirmam por que muitos consideram Berardi o maior roteirista italiano de todos os tempos. É o ápice da forma narrativa da Bonelli.

sexta-feira, julho 10, 2026

Contadores de histórias

 


No livro O Macaco Nu, o biólogo e antropólogo Desmond Morris apresenta uma teoria no mínimo inquietante. Para ele, em certo momento da evolução, tornou-se mais importante usar o cérebro que os músculos na guerra pela sobrevivência. A criação de novas tecnologias e o aprendizado das mesmas tornou-se essencial (Quando falo em tecnologia, uso o sentido amplo da palavra, como qualquer processo que facilite ao ser humano o seu trabalho, obtendo melhores resultados com menor esforço. A roda ou a alavanca são exemplos de tecnologias utilizadas pelos nossos antepassados mais remotos).
Essa nova conjuntura criou um problema: como repassar essa nova tecnologia para as novas gerações, e, ao mesmo tempo, incentivá-las a aperfeiçoar essas mesmas tecnologias? Morris lembra que os macacos e chimpanzés novos são curiosos e criativos, mas essa fase passa rápido, estendendo-se apenas por uma breve infância. A solução encontrada foi prolongar a infância. Essa é a razão pela qual nós, ao contrário da maioria dos animais, levamos um longo tempo para obter autonomia. Um cavalo recém-nascido já consegue andar, um bebê humano recém-nascido é uma bolinha frágil, dependente de seus pais para tudo. O nosso cérebro continua a crescer até nove ou dez anos depois de adquirirmos nossa maturidade sexual. No chimpanzé esse processo de crescimento do cérebro se completa seis ou sete anos antes da maturidade sexual.
O que ganhamos com esse longo processo de evolução cerebral que compensasse a necessidade de dependermos de nossos progenitores até idade avançada? Simples, tivemos mais tempo para aprender. E não só isso. Tivemos mais tempo também para experimentar, criar, imaginar, sonhar. Dificilmente alguém consideraria descabida a afirmação de que as grandes inovações da humanidade vieram sempre da parte de jovens. A curiosidade e criatividade infantil têm sido o motor de nossa espécie.
As inovações trazidas pelas novas gerações em termos de comportamento e tecnologias foram de tal forma bruscas que acabaram gerando um fenômeno interessante, que não existe em nenhuma outra espécie: o conflito de gerações. Há um cartum curioso sobre o assunto. Nele vemos dois trogloditas idosos sentados em cadeiras de balanço na varanda de suas cavernas. Eles observam dois jovens trogloditas passarem com seus arco e flechas e comentam, com um não disfarçado desdém: “Olhe só para isso! Bons tempos aqueles em que os homens carregavam um tacape e tinham o cérebro do tamanho de uma castanha”. O cartum sugere que o conflito entre as gerações é tão velho quanto a tecnologia, o que provavelmente é um palpite certo. 
Algo, no entanto, que me chama atenção nessa perspectiva é como os jovens e crianças teriam sido estimulados para usar sua imaginação e criatividade. Claro, é praticamente impossível verificar como se desenrolou esse processo, mas penso que os contadores de histórias tiveram grande importância nele. Nas noites frias, reunidos ao redor da fogueira, os jovens e crianças deveriam deixar a imaginação voar escutando as histórias contadas por um dos sábios da aldeia. 
Contar ou ouvir histórias é um exercício inestimável de criatividade. As histórias não são limitadas pela lógica cartesiana, ou pela realidade que nos cerca. Nas histórias um lobo pode se disfarçar de vovó, os bichos podem falar, bonecos de madeira tomam vida... As histórias têm sua própria lógica, sua própria sintaxe. Elas exercitam em nós aquele tipo de pensamento divergente que não se encaixa nos quadradinhos das provas de vestibular, no qual apenas uma resposta é a certa. Hoje se sabe que as grandes soluções vêm de uma lógica que parece absurda. Na história da ciência são incontáveis os casos de grandes descobertas que eram grandes descobertas justamente porque contradiziam toda a lógica de sua época. E no caso das artes isso é ainda mais verdadeiro, assim como no caso da tecnologia.
Assim, as histórias exercitam em nós a criatividade, abrindo caminho para que encontremos soluções em nossa vida prática. Vou citar um único exemplo, o escritor francês Júlio Verne. São incontáveis os cientistas, técnicos ou inventores que passaram a infância e a adolescência devorando livros de Verne. O nosso Santos Dumond tinha os livros dele entre os seus prediletos.
E quando falo de histórias, não me refiro apenas à literatura. Falo das histórias contadas de avô para neto, das histórias em quadrinhos, dos filmes, dos seriados de TV, de todos os meios que as narrativas encontram para se difundir. Assim, todos esses contadores ganham uma importância insuspeita. Foi graças a eles, às suas fantasias, que o ser humano evoluiu para o que é hoje. E se evoluirmos mais, ao invés de nos afundarmos em nossa própria ganância, isso também se deverá, em grande parte,  às histórias. E aos seus contadores, evidentemente.

Thor contra Durok

 


No número 191 da revista do Thor, Loki se apropriou do anel de Odin e, com isso, se tornou o ser mais poderoso de Asgard. Claro que um vilão como esse só poderia usar esse poder para o mal. Sua primeira medida foi obrigar o pai dos deuses a dormir seu sono real.

O único que decide enfrentar o deus da trapaça é Thor e, para enfrentá-lo, o vilão ordena a Karnilla, Rainha dos Nornes, que produza um ser extremamente poderoso que se torna praticamente invencível graças ao anel de Loki. Esse ser, chamado Durok, é enviado para a Terra com a missão de devastar o planeta, forçando o deus do trovão a segui-lo.

Balder pede ajuda do Surfista. 


Essa saga, que se estendeu dos números 191 a 193 tem uma particularidade. Ela foi iniciada pela dupla Stan Lee e John Buscema. Mas no meio do caminho, Lee foi substituído por Gerry Conway, um garoto de apenas 19 anos.

Imaginem a responsabilidade, para um garoto dessa idade substituir Stan Lee num título!

Entretanto, Conway não só se sai muito bem como consegue, nesse início, mimetizar perfeitamente o estilo de Lee a ponto de um desavisado achar que a equipe criativa não havia sido alterada.

Na transição entre um título e outro, Balder pede a ajuda do surfista prateado, mas, enciumada, Karnilla o prende numa parede de pedras, afinal, ele jurara dedicar sua vida apenas a ela.

No começo, Gerry Conway imitava o estilo de Stan Lee. 


O diálogo que se segue lembra Stan Lee:

- Foi um homem honrado e corajoso que você atacou! Remova as pedras imediatamente e rogue para que ele não esteja morto!

- Como ousa me ameaçar? Meu é o poder de controlar os elementos contra os quais criatura alguma deve prevalecer!

- O Surfista prateado não se curva a ninguém! Nem mesmo a uma rainha.

Com o tempo, Conway conseguiria imprimir sua própria marca ao título do deus do trovão, mas lá naquele início, imitar Stan Lee era uma ótima estratégia.

Amazing Fantasy 15 - Surge o Homem-aranha!

 


Um dos aspectos interessantes da coleção clássica Marvel é o fato de muitas vezes eles reproduzirem textos da época, que permitem compreender melhor as estratégias editoriais – o que ainda é complementado pelos excelentes estudiosos italianos que escrevem os artigos de apoio.

O volume 1, dedicado ao Homem-aranha, é um exemplo disso. No texto de introdução, Massimiliano Brighel explica que Martin Goodman não havia gostado do herói aracnídeo e Stan Lee usara uma estratégia para convencê-lo a publicar o personagem. A revista Amazing Adult Fantasy ia ser cancelada no número 15 e Lee sugeriu publicar uma história do novo herói naquele último número. 

A capa, de autoria de Jack Kirby, mostra o aracnídeo se balançando numa teia, segurando um malfeitor e dizendo: “Embora o mundo possa zombar de Peter Parker, o adolescente tímido, em breve todos ficarão maravilhados com o incrível poder do Homem-aranha!”. Na mesma capa havia uma caixa com o texto: “Ainda nesta edição: uma mensagem importante do editor para você... sobre a nova revista!”.

A capa com a primeira aparição do personagem foi desenhada por Jack Kirby. 


A capa é um ótimo exemplo de como Stan Lee era um gênio da auto-promoção. O diálogo instiga o leitor a querer conhecer o personagem e a chamada o leva a procurar o tal texto do editor. E o que dizia o texto do editor? Esse texto está presente na edição da Panini e diz mais ou menos o seguinte: que a revista iria perder a palavra Adult porque alguns leitores se sentima constrangidos de comprar uma revista que era para adultos, ia mudar o formato, de magazine para comics e, finalmente, a malandragem de Lee: “Como você verá, apresentamos um dos personagens mais incomuns de todos os tempos, o HOMEM-ARANHA, que continuará a aparecer todos os meses em AMAZING. Talvez se suas cartas exigirem, podemos estender suas histórias, ou incluir DUAS aventuras do Homem-aranha em cada edição”.

O texto é uma tremenda malandragem porque Lee sabia que a revista ia ser cancelada, então sabia que o herói não continuaria a aparecer nela. Mas estimulava os leitores para escreverem cartas para a redação. Essas cartas seriam o seu argumento para convencencer Goodman a continuar publicando a revista, mas agora alterada, tendo apenas histórias do heróis aracnídeo.

Mas toda essa estratégia não daria certo se o material não tivesse qualidade. E o que vemos é uma história em quadrinhos realmente empolgante, muito bem narrada, um exemplo de como contar uma boa história em apenas 11 páginas.



A HQ inicia com uma splash page de Peter Parker olhando, desconsolado para um grupo, que caçoa dele. Na parede, sua sombra emula uma aranha. Aquela primeira página já cria uma identificação imediata. As pessoas a tendem a se identificarem e a simpatizarem com personagens vítimas de injustiças.

Segue-se uma sequência em que vemos que Peter Parker vive com os tios, pelos quais sente enorme carinho e  mais uma vez ele sendo desprezado pelos amigos porque prefere ir para uma feira de ciências a comparecer a uma festa.

Mais do que uma vítima, Peter Parker é um bom rapaz, querido pelos professores e pelos tios. É também muito inteligente, e possivelmente ganhará uma bolsa de estudos.

Em seguida vemos toda a sequencia célebre: o garoto sendo picado pela aranha, descobrindo que ganhou poderes, aproveitando os poderes para ganhar dinheiro e finalmente descobrindo que grandes poderes trazem grandes responsabilidades, quando o tio morre por culpa dele, que não parou um ladrão quando poderia fazê-lo. Tudo isso em pouquíssimas páginas!

Uma curiosidade é que, ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, naquela primeira história, o Tio Ben jamais falou a famos frase sobre poderes e responsabilidades. Ela aparece apenas na caixa de texto final da história.


Fundo do baú - Rambo

 


Na década de 1980, Rambo, estrelado por Silvester Stalone, era uma das franquias que mais levava pessoas ao cinema. Tinha começado com um filme introspectivo sobre um veterano da guerra do Vietnã que surta após ser perseguido por um delegado de uma localidade do interior dos EUA e quase destrói uma cidade inteira. Mas logo se tornou um soldado modelo vencendo sozinho as guerras no Vietnã e no Afeganistão.

Com tamanho sucesso surgiu a ideia de fazer uma animação para crianças, o que por si só era um contrassenso. Afinal, os filmes eram extremamente violentos, mas essa violência não podia ser replicada numa atração para crianças. Assim, embora balas voassem a torto e direito, com todo mundo atirando em todo mundo, nenhuma delas jamais acertava ninguém. No máximo, acertava o pneu de um carro.

Na trama, Rambo é convidado pelo Coronel Trautman para integrar um grupo chamado “Força da Liberdade” cujo principal objetivo era combater o general Warhawk, chefe da  S.A.V.A.G.E., que era uma sigla para Especialistas-Administradores em Vingança, Anarquia e Extorsão Global  (naquela época os vilões faziam questão de dizer que eram vilões).

No desenho Rambo andava o tempo todo sem camisa e constantemente havia closes dos seus músculos, o que podia funcionar nos filmes, mas ficava muito estranho num desenho, já que não se tratava de músculos de verdade.

Os roteiros eram incrivelmente ruins, mesmo para os padrões de Rambo.

No episódio Assalto subterrâneo, o Coronel Trautman informa que o general Warhawk foi visto num barzinho de motoqueiros e Rambo vai lá verificar a informação. Ele é atacado pelos motoqueiros, mas desistem de trabalhar para o general depois de levar uma surra. Então alguém, sem motivo nenhum, liga uma TV e está passando uma matéria sobre o transporte de dinheiro da Reserva Federal e Rambo diz: “Dinheiro da reserva federal? Então é atrás disso que o general Warhawk está”. Um gancho mais aleatório do que isso, impossível.

O plano do general é infiltrar seus homens nas tropas de retaguarda do grupo que está fazendo a escolta do dinheiro. Ninguém desconfia de nada, já que eles estão inclusive usando as roupas do exército. Ninguém, exceto Rambo, que do nada, resolve atacar a tropa de retaguarda.

Lá na frente, ele e os dois outros integrantes da Força de Liberdade descobrem que o objetivo real do general eram as placas, que lhe permitiriam imprimir dinheiro. E ele está escondido em antigos túneis abaixo da cidade. Mas são muitos túneis! Como encontra-los? Um providencial grupo de ratos passa pelo grupo, fugindo de alguma coisa, o que indica o local onde está o general. Mas não é mostrada nenhuma razão para os ratos fugirem. Aparentemente a razão é apenas que o roteirista não conseguiu pensar em uma pista mais inteligente.  Era roteirismo em cima de roterismo.

Cristo abençoador, de Ingres

 


Poucas pinturas são tão conhecidas quanto Cristo abençoador. A razão disso é que a imagem acabou se tornando meme em decorrência da expressão “Não estou nem aí” de Jesus.
Pintado em 1834, o quadro é de autoria de Ingres, um dos maiores nomes do neo-clássico francês.
A imagem mostra Jesus com as mãos abertas e voltadas para cima, como era normalmente representado nos primórdios do cristianismo.
A expressão de Jesus está diretamente relacionada ao estilo de Ingres, que evitava ao máximo expor qualquer tipo de emoção nos seus quadros, o que gerou essa curiosa expressão de indiferença.

Aurora

 


Aurora é um filme clássico de F.W. Murnau (de Nosferatu) com roteiro de Carl Mayer (Caligari) considerado um dos melhores de todos os tempos.


À primeira vista trata-se de um filme muito bem dirigido, com roteiro óbvio: uma mulher da cidade convence um ingênuo rapaz do interior a matar a esposa e fugir com ela para a metrópole. E a trama parece girar em torno da indecisão do homem de cumprir o que prometeu. O que segura é a direção, absolutamente revolucionária para a época, que deve ter um injetado criatividade expressionista alemã no cinema americano. Numa cena, por exemplo, o protagonista é atormentado pela imagem da mulher sedutora, um espectro que inclusive o abraça (num efeito especial impressionante para a época).
Entretanto, perto do final, o filme apresenta uma virada que transforma a história, tirando dela seu ar ingênuo e introduzindo suspense.
A platéia americana parece não ter entedido e o filme foi um fracasso, mas deixou uma marca eterna no cinema americano, em especial o "noir", que teve grande influência do expressionismo.

Perry Rhodan – O regresso do nada

 

No número 59 da série Perry Rhodan os terranos estão às voltas com a ameaça dos invisíveis, inimigos terríveis que fazem desaparecer todos os habitantes de um planeta inteiro.

Nesse número, intitulado O regresso do nada, e escrito por Kurt Mahr, os agentes de Rhodan entram no planeta Mirsal II, que está sendo atacado pelo perigo invisível, com o objetivo de descobrir qualquer pista sobre a ameaça. O grupo é formado pelo tenente Marcel Rous, pela psicóloga Rosita Peres e pelo mutante Fellmer Lloyd.

Esse seria o tipo de volume perfeito para Clark Darlton, um especialista em mostrar as culturas de mundos alienígenas, mas Mahr não faz feio. Nós descobrimos, por exemplo, que em Mirsal II, sair sem se despedir é um sinal de ameaça, tal a importância que os habitantes do planeta dão aos cumprimentos.

A capa original alemã destaca a passagem para o mundo dos invisíveis. 


Mas, fora esses pequenos detalhes sobre a vida local, esse é um volume lento e na maior parte desinteressante – especialmentes se considerarmos que ele vem após O ataque do invisível, um dos volumes mais tensos dos dois primeiros ciclos.

O livro só começa a se tornar realmente interessante lá pelo final, quando os agentes de Rhodan conseguem descobrir uma maneira de visualizar e, finalmente, visitar o planeta dos invisíveis (até que chegie esse momento há várias sequências repletas de termos técnicos que parecem ser puramente fictícios).

A sequência traz um acréscimo: uma interessante explanação sobre as consequências das alterações temporais. À certa altura, por exemplo, Rous percebe que as placas do local onde está são extremamente duras. Mas logo descobre que a aparente dureza do material é decorrente da modificação da dimensão temporal. Talvez as placas fossem de algum material macio, mas como Rous estava rápido demais, o material não tinha tempo de desviar de seu toque. Assim, algo macio parecia extremamente duro. É o tipo de reflexão (ou, melhor dizendo, extrapolação) sobre os limites da realidade que só a ficção científica permite. 

quinta-feira, julho 09, 2026

Mas não se matam cavalos?

 


Na década de 1930 um fenômeno bizarro se espalhou pelos EUA: as maratonas de dança. Elas tinham surgido na década de 1920 e duravam poucas horas. Com a grande depressão, as maratonas passaram a ser buscadas por pessoas desesperadas em busca do prêmio, que variava de 1000 a 1500 dólares, e comida, já que os dançarinos tinham direito a várias refeições diárias.

As maranotas começaram a durar dias, semanas e até meses, com os competidores muitas vezes desmaiando de exaustão. Para o público, o evento era uma forma de se divertir com o sofrimento dos outros e esquecer as agruras da vida. 

O escritor Horace McCoy chegou a participar de uma dessas maratonas durante um período em que estava desempregado. A experiência serviu de base para seu primeiro romance, Mas não se matam cavalos, de 1935. 

O livro é narrado por Robert Syverten, um rapaz que pretende se tornar diretor de cinema. Ao tentar trabalho em um estúdio, ele conhece Gloria Beatty, uma figurante de pouca expressão que o convence a participar da maratona como forma de chamar atenção dos estúdios de cinema. 

McCoy constrói a narrativa de forma envolvente e provavelmente revolucionário à época. Já no primeiro capítulo descobrimos que Robert matou Glória. Ele está no tribunal, sendo julgado por essa morte. Tudo que é narrado no livro são as suas lembranças enquanto ele ouve a sentença, cujas partes são distribuidas ao longo dos capítulos. 

Nitidamente o autor é influenciado pelo estilo noir e isso se reflete na escolha narrativa, que trata o tema como uma história policial. Sabemos que o protagonista matou sua parceira na dança, mas queremos saber por que é em que circunstâncias isso aconteceu. 

A influência do noir aparece também no texto, direto, sem firulas estilisticas. As elocução dia diálogos, por exemplo, limitam-se a “ele disse, ela disse”. 

Essa escolha narrativa pode parecer pobre, mas funciona perfeitamente no livro. 

McCoy traz detalhes sobre como funcionavam as maratonas:

“A maratona começou com 144 pares, mas 61 desistiram na primeira semana. A regra era dançar durante uma hora e cinquenta minutos e depois dez minutos de descanso, quando a gente podia dormir se quisesse. Mas aqueles dez minutos também eram para a gente se barbear, ou tomar banho, ou cuidar dos pés, ou qualquer outra necessidade”.

Depois de um certo tempo, a maioria se mexia apenas o bastante não serem desclassificados.  

Traz também detalhes sobre o nível de crueldade dessas competições. À certa altura, por exemplo, o organizador inventa um tal de Derby, uma corrida em volta de um círculo. Os homens só podiam andar sobre os calcanhares ou nas pontas dos pés. As mulheres os acompanhavam agarradas aos seus cintos. É de se imaginar o quanto pessoas exaustas correndo dessa forma em volta de um círculo poderia gerar um espetáculo bizarro para a plateia. Os ganhadores do Derby recebiam como prêmio de apenas 10 dólares, um valor baixo, mas que podia fazer a diferença numa época de depressão econômica. 

Outra forma de ganhar dinheiro era se exibir para a plateia esperando receber moedas. 

McCoy cria a impressão de que estamos vendo tudo aquilo diante de nossos olhos, impressão ampliada pela estratégia de colocar, no início de cada capítulo as horas transcorridas e os casais restante. 

A personagem Glória, com seu instinto depressivo, tornou-se um dos maiores símbolos dos EUA no período após a queda da bolsa de 1929.

Mas não se mata cavalos agradará tanto quem gosta de histórias policiais ou dramas humanos quanto quem tem interesses em relatos sobre esse momento histórico.