segunda-feira, março 23, 2026

Blueberry - Águia solitária

 


O terceiro volume da série Tenente Blueberry apresenta uma estrutura interessante, que lembra uma trama policial. 

Na história, Blueberry lidera a escolta de um comboio de armas e munições. Mais do que levar essas carroças em segurança, ele pretende chegar até o forte no qual está o general que comanda a guerra contra os índios. Blueberry pretende informá-lo que os apaches são inocentes do ataque aos colonos. 

Mas, conforme a caravana marcha, coisas estranhas começam a acontecer. Uma peça de toucinho desaparece, por exemplo. Quem está por trás dessas ações aparentemente sem sentido e com que objetivo? 

Mistério: por que alguém roubaria toucinho? 


Charlier manobra o roteiro de forma inteligente, mantendo o suspense e, quando descobrimos o que está acontecendo tudo faz sentido. É o tipo de coisa que lemos e pensamos: não poderia ser de outra forma, é óbvio. 

Quando esse mistério é solucionado, a trama se transforma num intenso triller de perseguição com os soldados fugindo de um verdadeiro exército de indígenas e tentando sobreviver mesmo com uma absoluta inferioridade numérica. 

Aqui destacam-se as estratégias inteligentes de Blueberry, que aproveita tudo, inclusive as dificuldades do terreno, como forma de defesa. 

Gir mostra seu talento em quadros como este. 


Há uma estratégia comum entre roteiristas de fazer os personagens agirem de forma tola como forma de fazer a história avançar.

Embora um ou outro dos militares aja de maneira idiota, Blueberry jamais o faz. Aqui cada personagem age de acordo com aquilo que o leitor espera sobre eles a partir das pistas deixadas pelo roteirista. Até mesmo quando erram, esses erros da consequência direta dessas pistas, e exemplo do soldado beberrão. 

Blueberry usa tudo a seu favor, inclusive as dificuldades do terreno. 


As dificuldades aparecem como parte das circunstâncias e nunca se maneira forçada, assim como as soluções para as mesmas.

Se Charlier dá uma aula de roteiro, Gir vai se mostrando um desenhista casa vez mais maduro e competente. Embora ainda esteja à sombra do mestre Jijé, ele já começa aqui a apresentar algumas das características que o fariam famoso, a exemplo do impressionante quadro do ataque dos índios à caravana, repleto de personagens e detalhes.

Perry Rhodan – A microfortaleza

 


Um dos problemas da série Perry Rhodan é que a tecnologia superior dos terranos e principalmente os mutantes, faziam com que as dificultades fossem solucionadas de forma muito fácil, o que muitas vezes gerava desinteresse dos leitores.

Essa crítica não pode ser feita ao início do ciclo conhecido como senhoras da galáxia.

No número 212 da série Perry Rhodan, os humanos foram reduzido a mil vezes seu tamanho normal. A redução fez com que todos os equipamentos baseados em energia atômica deixassem de funcionar. Da mesma forma, todos os mutantes perderam seus poderes. Ou seja: os humanos estão presos dentro de um vale a milhares de quilômetros de distância do equipamento que poderia levá-los de volta ao tamanho normal. Para sair do local eles contam apenas com aviões do modelo antigo, como os que são usados nos dias atuais.

Capa da edição alemã. 


Acontece que o primeiro vôo teste, comandado pelo Capitão Don Redhorse, o avião acaba sendo abatido ao ultrapassar uma colina e seus ocupantes aprisionados em uma fortaleza habitada por robôs.

Apesar de ser um escrito por William Voltz, o melhor autor da série, esse é um volume mediano, provavelmente porque Voltz não encontrou na trama a oportunidade de exercitar sua qualidade mais marcante: o humanismo e a visão aprofundada das inteligências alienígenas. Uma cidade governada por robôs dava poucas oportunidades nesse sentido.

O personagem de Alan Moore. 


Entretanto, há pelo menos uma grande inovação na história: os robôs na verdade são veículos de seres orgânicos, cuja essência está guardada em globos colocados nos ombros dos mesmos. Assim, um habitante da microfortaleza pode, por exemplo, mudar de corpo quando o antigo apresenta algum problema.

Anos depois, na década de 1990, Alan Moore explorou o conceito em uma das revistas a série 1963, com um personagem, Hypernauta, cuja essência estava um globo que usava corpos robóticos (era a sua versão para o Homem de Ferro). Eu fico me perguntando se Moore leu ou ouviu falar dessa história de Perry ou se foi apenas uma grande coincidência.  

Assunto de família, de Will Eisner

 


Will Eisner era um narrador  tão bom que conseguia fazer qualquer assunto, até uma prosaica reunião familiar, tornar-se uma HQ impressionante. Esse é exatamente o tema de Assunto de família, lançado no Brasil pela Devir em 2009.



Um homem de 90 anos vai fazer aniversário e a filha que cuida dele manda convites para todos os outros filhos. Nós acompanhamos cada um deles se arrumando para ir à festa e, no processo, conhecemos um pouco sobre cada um: o pilantra que arriscou todo o seu dinheiro numa companhia de petróleo e pode perder tudo; a senhora que casou por interesse e domina o marido; a garota bonita que tentou ser modelo e não conseguiu e agora vive com um bêbado...

Os personagens vão desfilando pelo leitor, que vai conhecendo suas personalidades, histórias de vida e principalmente, a razão pela qual a maioria está indo para a festa: o velho tem uma herança, que pode mudar a vida de todos.



A festa, como era de se esperar, acaba se tornando uma luta de egos e de interesses. Eisner usa um recurso interessante: quando cada um deles encontra com o pai, balões de pensamento trazem pequenos flashs deles com o genitor. Em outro momento, focado no pai, a narrativa é divida em dois, com presente à esquerda e passado à direita.

Mais do que uma leitura viciante, Assunto de família é uma verdadeira aula de narrativa sequêncial. 

O conflito e o desafio do heroi

 

O motor de qualquer história em quadrinhos é o conflito. Os conflitos são as dificuldades encontradas pelo personagem principal para conseguir seus objetivos. Sem conflito, a história vira uma chatice só.
Imagine a seguinte situação: um grupo de jovens vai fazer um passeio pelo shopping. Saem de casa, divertem-se, voltam para casa em segurança. Pode ser um final feliz, mas não é uma boa trama. O que era para ser uma aventura virou um simples passeio pela ausência de conflito. 
O ideal é que o desafio seja tão grande que o leitor acredite piamente que o protagonista não irá conseguir superá-lo. Exemplo disso é a história de Davi e Golias. Quem poderia imaginar que o franzino Davi poderia vencer o gigante Golias? Mas o heroi consegue superar o desafio por maior que ele seja, graças à sua inteligência ou força de vontade.
O desafio costuma ser tão difícil, tão assustador, que, na jornada do herói (esquema criado por Joseph Campbell no livro O heroi de mil faces), o terceiro passo costuma ser a recusa ao chamado. O herói hesita, diante do desafio gigantesco. Ou amigos e familiares tentam convencê-lo a desistir. Por essa razão, quase sempre o protagonista entra na história contra a vontade. Peter Parker, a princípio, pensa em usar seus poderes para ganhar dinheiro. Luke é forçado a entrar na jornada contra o império. Tony Stark só se torna o Homem de Ferro para salvar sua vida.  

Quanto maior o desafio, quanto maior a dificuldade encontrada pelo protagonista, maior será o seu triunfo no final, e, portanto, maior a catarse, pois o triunfo do heroi é também o triunfo do leitor.
Exemplo perfeito disso é a história do Homem-aranha publicada na revista Spiderman 33, a obra-prima da dupla Stan Lee e Steve Ditko. Nela, tia May está no hospital e o heroi precisa levar um preparado químico que irá salvá-la. Mas ele acaba preso no meio de um monte de escombros e ferragens.


Em uma sequência fenomenal de três páginas, o aracnídeo tenta se livrar das ferragens. Ele tenta, desiste, tenta de novo. Os escombros são muitos e o desafio parece estar muito além de suas forças. Mas no final, motivado pela necessidade de salvar a tia, ele triunfa. O texto diz algo como "Qualquer um pode vencer um desafio menor. O valor está em superar grandes provocações".
Ou seja: uma aula de roteiro.

A Arte Pulp de Allen Anderson

 



Allen Anderson foi um pintor norte-americano mais conhecido por suas capas para revistas pulp. Nascido em 1905, em Minneapolis, Minnesota, ele estudou artes por correspondência e se formou em 1928.

Em 1929, começou a trabalhar para a Fawcett Publications, onde conheceu Norman Saunders, que se tornaria seu mestre e cujo estilo ele imitava nitidamente no início. Com o tempo, no entanto, Anderson desenvolveu um estilo próprio.

Em 1940, mudou-se para Nova York e começou a colaborar com capas para revistas de pulp fiction. Ele também pintou capas de revistas em quadrinhos para a editora Ziff-Davis, de 1949 a 1953.

Allen Anderson morreu aos 87 anos, devido a problemas cardíacos, em 23 de outubro de 1995.












domingo, março 22, 2026

Mosquito, Mosquete e Moscardo

 


Mosquito, Mosquete e Moscardo é um desenho animado da Hanna-Barbera exibido pela primeria vez em 1964.

Os personagens principais são três cachorros mosqueteiros atrapalhados que servem a um rei. Os três são tão patetas que muitas vezes acabam se dando mal sozinhos, sem a necessidade de nenhum inimigo, seja dando de cara com uma porta fechada ou ferroando um amigo com a espada sem querer.

As histórias giram normalmente em torno de ordens recebidas pelos mosqueteiros e a forma desastrada com a qual agem – o que acaba colocando o soberano em situações dolorosas. O bordão do rei, aliás, é “preciso de guardas para me salvar dos meus guardas”.

Em A bruxa bucho, uma bruxa transforma o rei em sapo, o que faz com que os mosqueteiros levem o soberano para convencer a bruxa a transformá-lo em humano de novo e só conseguem o intento quando a bruxa, sem querer toma uma porção que a transforma numa bela e boa donzela.

Em O fora da lei na lei, a rainha decide que seu irmão deve se tornar um mosqueteiro. Mas durante todo o processo de instrução do rapaz, o máximo que ele consegue é machucar o rei das mais variadas formas possíveis, seja atingindo-o com uma flecha, com uma bola de canhão ou aplicando-lhe golpes de judô.

O desenho teve uma temporada com 23 episódios curtos. 

Metal Pesado - Imortalidade

 

 

Metal Pesado foi a versão nacional da famosa revista Heavy Metal (que, por outro lado, era a versão americana da Metal Hurlant).Publicada na década de 1990, a revista marcou época e mostrou que havia muita qualidade nos quadrinhos nacionais. Eu participei de três números. Um deles foi o número 3, com a história Imortalidade, com desenhos de Luciano Lagares. A ideia para a história havia partido do desenhista: um povo contaminado por uma estranha doença. O protagonista é um carteiro em seu primeiro dia de trabalho que descobre um mundo que nunca imaginou. Gosto particularmente da narrativa (embora o pessoal da editora tenha colocando algumas legendas como se fossem falas do personagem). 





Camelot 3000 – Casamento real

 

 

Um dos momentos mais impactantes da série Camelot 3000 é o casamento do rei Arthur com Guinevere.

O evento é planejado por Merlin como forma de dar visibilidade para a nova Camelot e, ao mesmo tempo, levantar o moral da população. De fato, a notícia faz pipocar várias revoltas contra o alienígenas nas áreas ocupadas.

A sequência do casamento praticamente não tinha texto. Não era necessário. 


O matrimônio acontece na sede das Nações Unidas e é mostrado de forma impressionante por Brian Bolland, desde a chegada dos noivos, em uma plataforma flutuante, até a declaração final. 

Mike w. Barr, de forma inteligente, praticamente não coloca texto na sequência, explorando assim a força das imagens. 

A Rainha é alvejada... 


Mas a celebração não acaba bem. Antes do beijo do casal, a noiva é alvejada.

O responsável pelo atentado é o sargento Owen McAllister, antigo noivo de Tristão quando este não se lembrava de seu passado. Ele é transformado em um monstro capaz de alterar sua forma e infringe serios danos ao cavaleiros… até encontrar sua amada e ser derrotado por ela em uma sequência memorável.  A imagem dele, monstruoso, envolvendo sua antiga amada, é uma das mais fortes de uma série caracterizada por cenas marcantes.

... mas é salva por Lancelot. 


Outra sequência memorável é aquela em que a rainha é revivida por Lancelot. Ele se dispõem a dar vida por ele, e de fato, cai duro, no chão, mas se levanta quando ela revive. 

Tristão aprisionada pelo ex-namorado. Uma das cenas mais impactantes da série.


Uma questão interessante é como, numa série desse tipo, a cena em questão seria verossimilhante, mas o gancho com o passado da Idade Média provavelmente fez com que os leitores aceitassem essa forçada de roteiro. Além disso, a sequência mostrava o amor de Lancelot pela rainha e antecipava os desenvolvimentos futuros da série.

Mosaico de Ravena - Matintaperera

 

Se eu pudesse indicar uma trilha sonora para meu livro Cabanagem, seria a obra do maestro paraense Waldemar Henrique. O maestro revolucionou a música clássica brasileira ao trazer para ela batidas e temas populares. Várias de suas músicas falavam de mitos amazônicos: Boto, Curupira, Matinta Pereira, Jurupari. Mas ele não dava um tom infantil a essas
lendas. Ao contrário: suas músicas eram sombrias como as matas amazônicas e o
melhor exemplo desse clima é Matinta:

Matinta Perera chegou clareira
e logo silvou
no fundo do quarto Manduca Torquato
de medo gelou
Matinta quer fumo
quer fumo migado
meloso melado
que dê muito sumo
Torquato não pita não masca nem cheira
Matinta Perera vai tê-la bonita
Matinta Perera de tardinha vem buscar
o tabaco que ontem a noite eu prometi
Queria Deus ela não venha me agoirar
Queria Deus ela não venha me agoirar
ah!

Matinta, preta velha mãe maluca, pé de pato
Queira Deus ela não venha me agoirar
Matinta Perera chegou na clareira
e logo silvou
no fundo do quarto manduca torquato
de medo gelou
que noite infernal

De todas as versões dessa música, a que melhor
encarnou esse clima de conto de terror foi feita pelo grupo paraense Mosaico
de, a começar pelo grito aterrorizante da Matinta. 


Para comprar meu livro Cabanagem, clique aqui.

Thor contra Merlin, o louco

 


Em suas primeiras histórias, o poderoso Thor tinha umas histórias muito bizarras e vilões ainda mais bizarros.

Merlin, o louco, escrita por Robert Bernstein (a partir de ideia de Stan Lee), com desenhos de Joe Sinott, e publicada em Journey into Mystery 96, com certeza entraria em qualquer lista de bizarrices.

A trama já estava explícita na capa (desenhada por Jack Kirby). Um sujeito com um roupão cheio de estrelas e luas (mas com calça e sapatos sociais), aponta as mãos para Thor, que olha assustado, paralisado no meio de um movimento: “O feitiço de Merlin paralisou meu braço! Não consigo me mover! Como quebro esse encanto?”.

Um resgate temerário. 


A história começa com uma splash page no qual um guindaste tira de um navio um sarcófago de pedra, enquanto Thor observa. Um professor informa que se trata do sarcófago do Mago Merlin, que fora descoberta na Inglaterra, mas enviada para Nova York para ser aberta. Afinal de contas, pensa o leitor, por que não abriram a relíquia na Inglaterra? Mas vamos em frente.

Essa trama principal é interrompida por um resgate a um ônibus que caíra no fundo de um rio. Thor amarra um cabo de aço em volta do veículo, prende no martelo e joga para fora da água. Nunca ninguém pensou num resgate tão temerário, mas, surpreendentemente, o veículo não só não é destruído pelo impacto da queda, como ainda vai parar no terminal de ônibus.

Bom trabalho, poderoso Thor, mas com isso Don Blake perde vários pacientes que decidem não esperar. “Fiquei dando desculpas esfarrapadas a tarde inteira!”, reclama Jane Foster irritada. “Um por um, irritados, foram embora, não os culpo!”.

Dois perigos: Jane Foster fica fula da vida e Merlin desperta de um sono milenar. 


Mas os perigos não tiram férias e o leitor logo descobre que Merlin na verdade não morreu: ele permanecera num estado de animação suspensa e revive logo que o ar entra no sarcófago. E o homem acorda disposto a falar. Conta aos leitores que na verdade não era um mago. Ele apenas fingia fazer mágica quando na verdade o poder vinha dele mesmo... pois ele era um... mutante!!!! Merlin podia ser um gênio, mas como ele, em plena Idade Média, sabia o que era mutante? Pelas barbas de Darwin!

E mais: ele não se espanta com o mundo de 1963. Acha a coisa mais normal do mundo o lançamento de um satélite, que resolve sabotar para mostrar ao mundo o seu poder e exigir riquezas em troca.

Merlin revela que é um mutante. 


Claro que isso o coloca em rota de colisão com Thor. Nesse duelo percebemos que o roteirista não pensou qual de fato seria o poder do mutante Merlin, pois ele parece tirar um novo poder da cartola a cada momento. Os poderes do personagem parecem tantos e tão variados que vencê-lo parece impossível, até que Thor o lubridia da maneira mais idiota possível.

Para uma ameaça tão grande, Merlin, o louco, é derrotado de maneira muito fácil. Ou talvez ele não fosse uma ameaça tão grande assim.