terça-feira, março 17, 2026

Lendas - o samba do Byrne doido

 


Lendas foi o primeiro crossover da DC após Crise nas infinitas Terras. Criado a partir de uma ideia de John Ostrander, teve como principal roteirista Len Wein e a maior parte dos desenhos por conta de John Byrne (que também fez as capas).
Aqui foi lançada pela editora Abril em uma minissérie de seis capítulos, em 1988.
Se Crise era uma obra coesa, em que roteiro e desenho se casavam à perfeição para compor uma obra que vai num crescendo até seu final apoteótico, Lendas parece um bolo que desandou porque todo mundo botou a mão.
Darkside resolve acabar com os heróis atacando a reputação das lendas. 


Para começar, a própria premissa não nada é original: Darkside resolve acabar com os heróis (as Lendas) introduzindo um personagem que controla mentes e faz a população ficar contra os heróis. Quem leu os quadrinhos da Marvel na década de 1970 sabe que essa premissa foi usada em mais de uma história. Além disso, o personagem que faz isso é muito mal construído. Gordon Godfrey é um político? Um estudioso? Um jornalista? Ele surge do nada na história, concedendo uma entrevista televisiva. Não há nenhuma explicação de porque ele está sendo entrevistado e não temos nenhuma explicação de nada durante a série: Godfrey não tem existência como personagem, é apenas um roteirismo, alguém necessário para que a trama ande.
Godfrey surge do nada. 


E, bem, a trama não anda. Há muitas idas e voltas, mas pouco desenvolvimento. A ida do Superman para Apokolips, por exemplo, é totalmente desnecessária e não contribuiu em nada para o enredo (tanto que no final dessa subtrama o herói perde a memória do que aconteceu).
O desenho de Byrne ajuda a dar um charme para a série, especialmente quando o roteiro está a cargo de Len Wein, que tenta salvar a história como pode. 
A série vale a pena pelo belo traço de Byrne. 


Mas Byrne encontra tempo até mesmo para dar uma alfinetada em seu antigo-chefe, Jim Shoter, colocando-o como vilão em uma sequência totalmente desnecessária. Como àquela altura ele era um astro dos comics, parece que ninguém teve coragem de dizer que aquelas quatro páginas não encaixavam na trama.
Byrne cutucando o antigo chefe: "Eu posso criar um novo universo!".


Um dos piores capítulos é o segundo, escrito por John Ostrander e desenhado por Joe Brozowski, focado inteiramente em Nuclear, em que a subtrama se resolve com... tortas na cara. Não, não é brincadeira. A trama se resolve com tortas na cara.
Lendas foi um verdadeiro samba do Byrne doido.

A Garota-esquilo

 


Em 1990, Steve Ditko e Will Murray criaram uma super-heróina inusitada para uma história complementar da antologia Marvel Super-Heroes. O nome? Garota-esquilo. Era uma mutante com rabo que tinha poderes de esquilo, incluindo dentes frontais avantajados e podia se comunicar com roedores. Na história, ela tenta se tornar parceira do Homem-de-ferro e ajuda a vencer o Dr. Destino.

Garota-esquilo? Aparentemente era só uma piada e com certeza a personagem nunca ganharia um título. Mas em 2005 a personagem apareceu na minissérie Vingadores Centrais e chamou a atenção do público. A partir daí começou a aparecer em vários outros títulos até ganhar uma série própria, em 2015, escrita por Ryan North com arte de Erica Handerson.

A primeira aparição da personagem.


O resultado é muito divertido. Na trama, Daaren Green está se mudando para a faculdade quando os esquilos a avisam que Galactus está vindo aí (aparentemente, os esquilos têm grandes habilidades astronômicas). Mas dessas vez ele veio camuflado e não mandou nenhum arauto na frente para avisar de sua presença (o roteiro toca num ponto interessante: por que um ser como Galactus precisaria avisar um planeta repleto de super-heróis, dando tempo para que eles se preparassem?). Nesse meio tempo ela derrota ladrões de banco, Kraven, o Caçador e Chicote Negro.

Destaque para a interação entre a protagonista e mindinha, sua amiga esquilo,  que na história consegue falar (embora só Daaren possa entendê-la), o que dá ensejo a ótimos diálogos.



Outro ponto é a forma como a Garota-esquilo vence os desafios. Embora algumas soluções sejam forçadas (uma armadura de esquilos?), outras funcionam bem. E a forma como ela vence Galactus é realmente genial. Aliás, ponto para o diálogo dela com galactus:

- Você me entende? Ninguém entende esquilos! – diz mindinha.

- Aquele que detém o poder cósmico pode lançar raios de seus olhos, se teleportar e criar e destruir vida por todo o tempo e espaço. Então, obviamente, falar com esquilos não é nada demais.



O desenho de Erica Handerson passeia entre o anatômico e o caricatural, funcionando muito bem para a história.

No Brasil essas histórias foram publicadas apenas na coleção os heróis mais poderosos da Marvel e passou batido entre os fãs. Infelizmente, pois é grata surpresa.

No limite da traição

 


Os problemas no filme No limite da traição, filme de Tyler Perry lançado pela Netflix  começam no título nacional. O título original, “A Fall From Grace” poderia ser traduzido mais ou menos como Caída em desgraça, algo que faz muito mais sentido na trama do que a “tradução”.
Na história, uma advogada inexperiente é escalada para negociar um acordo de confissão com o Ministério Público para uma mulher que matou o marido muitos anos mais jovem que ela, um caso que mobiliza a opinião pública. Mas, conforme investiga o caso, vai descobrindo que a história pode não ser o que aparenta.
O plot em si é interessante, mas é um daqueles casos em que a gente fica pensando: caramba, como conseguiram arruinar uma boa história com uma direção ruim e problemas no roteiro?
Os problemas começam na cena inicial, com o marido da advogada tentando impedir uma idosa de se suicidar. A cena é mal dirigida a ponto de parecer patético o que deveria ser dramático. O problema maior é que essa cena será essencial para o final, mas se ela realmente tivesse acontecido, na vida real, toda a trama já teria sido descoberta pela polícia nos primeiros segundos do filme.
A direção ruim se mantém por toda película, fazendo com que as cenas de conversa do casal de protagonistas, que deveriam dar profundidade aos personagens, sejam apenas chatas.
Mas o bolo da cereja é o final, em que a advogada descobre o que está acontecendo por um puro acaso, um tremendo deus ex machina.
Como dito anteriormente, o que sobra do filme é a sensação de uma boa história que foi desperdiçada.  

Perry Rhodan – O sacrifício de Thora

 



Não há spoiler nenhum em dizer que no número 78 da série Perry Rhodan, Thora, esposa do herói, morre. Essa informação já está expressa no título. Sendo ela uma das personagens mais relevantes da franquia, era de se esperar que esse número fosse memorável, mas infelizmente não é o que acontece.

Escrito por Kurt Brand, o livro gira em torno de uma tentativa dos terranos de comprar 100 naves arcônidas. Em uma trama paralela acompanhamos a degenerência da esposa de Rhodan, que, mesmo após receber o soro dos aras, que deveria prolongar sua vida, passou a envelhecer em ritmo crescente a ponto de se tornar uma idosa com dificuldade até mesmo para se levantar da cadeira.

Os médicos aconselham que ela seja incubida de alguma missão, aparentemente como forma de terapia psicológica. Parece uma forma pouco ortodoxa de fisioterapia para uma moribunda, tanto que Rhodan se recusa, mas Bell o convence dizendo que ele está sendo egoísta. Um diálogo, aliás, que não faz o menor sentido.

Metade do livro é dedicado aos preparativos para a viagem, à descrição do estado de saúde de Thora e à conversa entre Bell e Rhodan. Mesmo quando a viagem começa, não acontece nada. Há um desvio totalmente desnecessário para a zona de guerra, que parece ter tido o objetivo apenas de fazer a nave aparecer no meio de uma batalha e dar um pouco de ação ao volume.

Capa alemã. 


Começa a acontecer alguma coisa só lá pela página 120 (o volume tem 169 páginas), quando o computador regente de Árcon aprisiona a comitiva que tinha ido negociar a compra das naves, incluindo Thora.

O título do volume dá a entender que Thora irá se sacrificar pelo bem da humanidade, em um final heróico e apoteótico. Nada disso. A morte dela acontece quando tudo já está resolvido e é mostrada com quase nenhum impacto (culpa de Kurt Brand, que ao invés de focar a narrativa no que está acontecendo, foca em Deringhouse, que sequer está no local dos acontecimentos e só chega quando tudo já aconteceu).

É decepcionante perceber que uma personagem tão querida e tão forte (provavelmente a única personagem feminina de relevância da série nesse período) tenha perdido seu protagonismo no segundo ciclo e termine sua participação na série num livro tão fraco. É possível que os grandes escritores, como Clark Darlton, estivessem ocupados com outros volumes importantes, mas torna-se incompreensível que K.H. Scheer, o coordenador da série, tenha colocado esse volume nas mãos de Kurt Brand ao mesmo tempo em que relegava William Voltz com volumes menos relevantes. Afinal, os dois à época eram calouros na série.

Você sabe a diferença entre ficção e fraude?

 

Atualmente nos quadrinhos, na literatura, na arte, existem trabalhos tão hiper-reais, tão verossimilhantes que muitos acreditam que se trata de realidade. Por conta dessa confusão, há quem diga que trabalhos que utilizam essa estratégia são na verdade fraudes.
Isso aconteceu, por exemplo, com o e-book Delegado Tobias, de Ricardo Lísias. A narrativa usa recortes de jornais e documentos jurídicos fictícios e vários outros simulacros para tecer a narativa.
Alguém, ou ingênuo, ou mal-intencionado, denunciou-o à justiça por falsificação de documentos jurídicos e instalou-se um processo para investigar o caso. Justiça federal, Ministério Público Federal e Polícia Federal foram mobilizados para investigar o caso, com enorme gasto de dinheiro público. Quando ficou claro do que se tratava, cada órgão jogou a culpa no outro e todos declararam que não investigavam ficção. A própria justiça teve que declarar oficialmente aquilo que todo mundo deveria saber: falsificação é falsificação e ficção é ficção (por mais verossimilhante que seja).
A situação é simples: se o autor do livro tivesse entrado num fórum e adulterado documentos jurídicos reais, ele estaria cometendo uma fraude. Ao criar um documento jurídico e incluir em seu livro, o autor só está criando... ficção.
Um outro exemplo, famoso, agora na área de quadrinhos.

No final de cada capítulo de Watchmen, o leitor encontra uma série de anexos: matérias de jornais, recortes de artigos e até o prontuário médico do personagem Roschach.
Esses anexos são fraudes? Não.
Seria uma fraude se Alan Moore tivesse, por exemplo, ido em uma clínica médica e modificado o prontuário de um paciente real. Mas criar o prontuário médico de um personagem fictício é apenas... ficção!
Mas Gian, eu acreditei que determinado personagem de um quadrinho existia! No quadrinho que eu li tinha até a carteira de identidade dele! Isso não é uma fraude?
Não. Isso só demonstra que o autor do quadrinho conseguiu usar bem a verossimilhança para caracterizar esse personagem.
Isso seria uma fraude se, por exemplo, alguém criasse um personagem chamado Peter Parker e forjasse uma carteira de identidade dele para inscrevê-lo no tribunal eleitoral para que esse "personagem" pudesse votar. Ou usar essa identidade para pegar dinheiro emprestado e não pagar.
- Mas, Gian, o quadrinista cobrou pela HQ. Então ele teve lucro. Isso não é fraude?
Claro que não. Se fosse assim, qualquer um que vendesse uma HQ estaria incorrendo em fraude, já que toda HQ usa em maior ou menor grau, estratégias de verossimilhança.
O que caracteriza a fraude é a manipulação de DOCUMENTO OFICIAL visando prejudicar alguém. E todos nós sabem

Fundo do baú - Super-herói americano


Entre os vários seriados de super-heróis surgidos na TV, um deles se destaca por um ser um ponto fora da curva. Trata-se de Super-herói americano (The Greatest American Hero, no original). Bolado pelo mesmo criador do Esquadrão Classe, Stephen Joseph Cannell, o seriado se destacava por mostrar um herói atrapalhado.

Na trama, um professor leva uma turma para uma excursão quando a van onde estão deixa de funcionar. Ao procurar ajuda, ele encontrar um agente do FBI cujo parceiro foi morto por uma organização secreta. Juntos, eles têm um contato imediato com uma nave alienígena que concede ao professor Ralph Hinkley um traje que lhe dá os mais variados poderes, de voar a super-força, passando por conseguir ver acontecimentos que estão se desenrolando em outro local. Mas acontece que o professor perde o manual de instruções, de modo que nada funciona como o planejado, em especial os voos, que sempre acabam em aterrissagens desastrosas.

O traje vermelho era tão ridículo que o ator William Katt tinha vergonha de usá-lo. O emblema tem uma história curiosa. O traje havia sido desenhado pelo próprio Cannell, mas quando o designer de produção lhe perguntou como seria o emblema do peito, ele simplesmente não sabia. Uma tesoura que estava próxima acabou sendo a inspiração.



O roteiro tinha uma boa mistura de humor, aventura e drama pessoal – o professor vive com o filho, mas a ex-esposa quer ficar com a guarda do mesmo.

O grupo de ação era formado pelo herói, pelo agente do FBI e pela namorada de Hinkley. No primeiro episódio o trio enfrenta um grupo que quer dar um golpe político nos EUA, matando o presidente e colocando seu vice no lugar.

Algo interessante sobre o seriado é que, embora fosse uma série de super-heróis, a maioria dos efeitos eram simples e práticos. Um exemplo disso é quando o herói dá uma surra em vários membros da gangue no episódio piloto. A câmera é colocada no corredor e os dublês simplesmente pulam por uma porta, dando a entender que foram arremessados.

O seriado, lançado em 1981, teve três temporadas, com 45 episódios. Posteriormente tentaram fazer uma nova série, em que uma mulher assume o uniforme, mas a reação ao piloto foi tão ruim que o resultado foi simplesmente incorporado como sendo um episódio da série original.

Uma curiosidade é que a música tema da série, cantada por Joey Scarbury fez muito sucesso, chegando a ficar entre os primeiros lugares da parada de sucesso. 

segunda-feira, março 16, 2026

Cabanagem: a revolta que se alastrou pela Amazônia

 

A cabanagem foi uma das revoltas mais interessantes da história do Brasil não só por ter chegado ao poder (e se mantido no poder por aproximadamente um ano), mas principalmente por sua amplitude: quando o movimento foi derrotado em Belém, a revolta, ao invés de ser sufocada, se espalhou por praticamente toda a  região Amazônica.
Os cabanos chegaram em Mazagão, no Amapá e até em Manaus, no Amazonas (onde tomaram o governo).
Contribuiu muito para isso o fato da região ser tomada por pequenos igarapés, que facilitavam muito o movimento dos cabanos. As canoas eram amarradas uma na outra, o que aumentava em muito a velocidade desses grupos chamados de magotes. E, quando passavam por grandes fazendas, libertavam os escravos, muitos dos quais se uniam ao magote.
Se por um lado a revolta se espalhava, a repressão também. O brigadeiro Andrea, enviado pelo governo regencial para acabar com a cabanagem e chamado de pacificador não tinha a menor preocupação com vidas. A ordem era matar. Assim, soldados atiravam em ribeirinhos suspeitos de terem dado acolhida aos cabanos.
Estima-se que um terço da população da Amazônia tenha perecido durante todo o período da cabanagem.


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Um erro de pronome

 

Muitos alunos dão pouca importância ao estudo da Língua Portuguesa. De certa forma, é até compreensível. As atenções estão voltadas para as disciplinas específicas do curso. Entretanto, ignorar o estudo da língua portuguesa pode acabar se tornando um erro fatal.
    Muitos especialistas consideram a nossa época a era da comunicação. Assim, quem não sabe se comunicar corretamente, fica de fora  de sintonia com o mundo e tem menos chances de conseguir um bom emprego. Uma ficha preenchida com erros de português certamente  não ajuda a conseguir um bom emprego.
    E, vejam bem, expressar-se bem não significa apenas escrever corretamente, de acordo com a gramática. Significa também dar fluência ao texto, torná-lo agradável e objetivo. Um relatório claro, sem erros ortográficos ou de pontuação, com frases curtas, tem mais chances de ser lido. 
    Entretanto, um bom conhecimento de nossa língua pode acabar influenciado até em nossa vida amorosa. É o que mostra o escritor Monteiro Lobato no conto “O Colocador de Pronomes” do livro Negrinha.
    A história se passa em uma cidadezinha do interior. Havia ali um pobre moço que definhava de tédio no fundo do cartório. Era escrevente, mas gostava de ler e, pior, de escrever versos lacrimogêneos. 
    Tudo ia na santa paz até que o moço se apaixonou pela filha mais moça do Coronel da cidade, a Laurinda, linda flor de 17 anos.  A filha mais velha, Do Carmo, era o encalhe da família. Já velha para casar, não conseguia bom ou mau partido. Também, pudera: era vesga, histérica, manca de uma perna e meio aluada. Se a mais nova era o ideal de beleza, a outra era feia até não poder mais.
    Pois se apaixonou o pobre rapaz e, para extrema infelicidade, escreveu um bilhetinho à amada: “Anjo adorado. Amo-lhe”. 
    O Coronel, entretanto, interceptou o bilhetinho e chamou o seu autor:
-    É seu? – disse, estendendo o papel para o rapaz.
-   É... – gaguejou o rapaz.
-    Pois agora... – ameaçou o vingativo pai... é casar!
O moço, que já se imaginava morto, ressuscitou. Casar com a filha do Coronel! A moça mais bonita de Itaoca!
O Coronel gritou lá para dentro:
- Do Carmo! Vem abraçar o seu noivo!
O escrevente piscou seis vezes e, enchendo-se de coragem, corrigiu o erro. O bilhete fora escrito para Laurinda...
- Sei onde trago o nariz, moço. – esbravejou o Coronel. Você mandou o bilhete à Laurinda dizendo que ama-lhe. Se amasse a ela, teria dito “amo-te”. Dizendo “amo-lhe”, declara que ama uma terceira pessoa, no caso a Do Carmo. 
E, pacientemente, o velho explicou que os pronomes se dividem em três: de primeira pessoa, quem fala; de segunda pessoa, a quem se fala, e de terceira pessoa, de quem se fala. E o lhe é pronome de terceira pessoa. 
Portanto, nada de dizer “amo-lhe” ou “convido-lhe”. Expressões com essas demonstram que se ama ou se está convidado uma terceira pessoa.
Quanto ao moço? Casou-se mesmo com a megera. Tudo por causa de um pronome...

Os melhores do mundo

 


Super-homem e Batman são os dois mais famosos heróis da DC. Embora sejam totalmente diferentes um do outro, foram unidos em uma das revistas de maior sucesso da Era de Prata, a Word´s Finest (conhecida aqui como Melhores do Mundo). Um dos fãs dessa revista era o desenhista Dave Gibbons, famoso pela série Watchmen. Gibbons propôs à DC fazer uma série, revivendo a parceria. Para desenhá-la foi escalado Steve Rude O resultado foi uma das melhores publicações da década de 1990.
Em muitos sentidos, Melhores do Mundo é o oposto de Watchmen. Se Watchmen teve como principal mérito a desconstrução dos super-heróis, em uma abordagem extremamente realista, Melhores do Mundo é uma homenagem aos heróis e às suas características mais marcantes.
Pelo que pode-se ler do roteiro no final do volume publicado pela Panini, Gibbons deu total liberdade narrativa a Steve Rude, descrevendo apenas sequências, que o desenhista poderia desenvolver de acordo com sua própria narrativa visual. E, meus amigos, Rude é a grande atração da revista. Seu desenho de linhas simples, limpas, mas repleto de detalhes de fundo, é simplesmente perfeito para o projeto. A sequência em que Bruce Wayne visita o Planeta Diário é um bom exemplo disso. Embora o foco seja a convera de Wayne com Lois Lane, as mulheres que passam por eles e olham maravilhadas para o milionário ajudam a caracterizar o alter-ego do Batman como um galã pelo qual todas as mulhes se apaixonam.
O traço limpo e anatômico de Steve Rude era um alívio numa época em que até os músculos dos heróis tinham músculos.

Na história, os vilões fazem um acordo e trocam de cidade: assim, o Coringa vai para Metrópoles e Lex Luthor tenta dominar Gothan. Esse acordo faz com que o Super-homem e Batman também troquem de cidade.
A caracterização dos dois locais é um dos pontos altos da série: Gothan é uma cidade gótica e sombria, suja, enquanto Metrópolis é uma iluminada e dourada cidade art-decó.
Essa dicotomia se reflete também nos protagonistas. Na primeira vez que se encontram, Bruce Wayne e Clark Kent estão abaixo de um relógio, que marca meia-noite e cinco. Wayne diz: “Boa noite”, ao que o outro retruca: “Bom dia”.
Publicada no início dos anos 1990, Os melhores do mundo era um verdadeiro ponto fora da curva numa época em que os heróis estavam se tornando cada vez mais sombrios e violentos e o desenho se tornava uma atração em si (como se fossem pôsteres), deixando a narrativa em segundo plano. Na década de 1990, até os músculos dos heróis tinham músculos.
A série era uma deliciosa volta aos tempos em que os quadrinhos eram apenas divertidos.

Quarteto Fantástico – Inconcebível

 


O Doutor Destino é um dos mais recorrentes inimigos do Quarteto Fantástico. E também um dos mais interessantes e complexos. Ele tem uma relação com Reed Richards de admiração e ódio, é um vilão científico que lida com a magia.
Ao assumir o título do Quarteto Fantástico, Mark Waid resolveu trazer o vilão de volta e explorar todas essas contradições e levá-lo ao extremo. Para derrotar o Senhor Fantástico ele sacrifica aquilo que mais ama, o que o torna extremamente poderoso numa área que o seu adversário que não domina: a magia. Essa é a trama de Quarteto Fantástico – inconcebível, volume 30 da coleção de graphic Marvel da Salvat.
Mark Waid é um cara que, embora não seja genial, sabe elevar a qualidade de um título respeitando sua essência e essa saga é um ótimo exemplo.
O Doutor Destino da série é um vilão de respeito. 


O Doutor Destino dessa fase é um vilão de respeito, alguém disposto a tudo para concretizar sua vingança, até mesmo enviar o filho de Reed e Sue para o inferno. Por outro lado, coloca seu adversário numa situação com a qual ele não consegue lidar. Afinal, o Senhor Fantástico é um homem cético, de ciências, e não um mago, o que aumenta em muito no leitor a sensação de que o grupo finalmente encontrou uma situação da qual não há escapatória.
O Senhor Fantástico precisa resgatar o filho no inferno. 


Se essa aventura já é muito boa, a seguinte, com as consequências do ataque de Destino é ainda melhor. Waid sabe como aprofundar os personagens e aproveitar o conceito de família do Quarteto como ninguém.
O grande problema é o desenho de Mike Wieringo. Os demônios, por exemplo, parecem caricaturas de demônios e o leitor fica se perguntando como os personagens estão tendo medo daquilo.

Cidade invisível

 


A primeira coisa que chama atenção em Cidade Invisível, série da Netflix criada por Carlos Saldanha (de A era do gelo), é a nítida semelhança com trabalhos de Neil Gaiman, como Sandman e Deuses Americanos, em que seres mitológicos e deuses vivem misturados com os humanos, como se fossem pessoas normais. Certamente não é uma coincidência, uma vez que a fonte é uma trama criada por Rafael Draccon, que certamente conhece o trabalho de Gaiman.

O que a série traz de inovador é explorar a mitologia brasileira, com sacis, curupira, iara, cuca e misturar isso com uma trama policial – em que alguém parece estar matando entidades.

O título cidade invisível tem dupla interpretação. Por um lado, remete aos seres míticos, invisíveis à maioria das pessoas. Mas por outro, remete à invisibilidade social. Todas as entidades são pessoas excluídas da sociedade, mendigos, moradores de favelas e cortiços.

Nesse sentido, um dos maiores méritos da série é a caracterização visual dos personagens. A Iara, por exemplo, tem um belo cabelo trançado que emula a cauda de uma sereia.

Outro grande mérito é provar que a mitologia nacional pode ser mostrada de maneira não-infantilizada em uma trama que flerta com o terror. Essa abordagem, aliás, parece ter funcionado, já que a série está entre as mais assistidas da Netflix.

Como aspecto negativo, o excesso de bifes,  diálogos que parecem a maior parte do tempo não ter outra função que não seja explicar aspectos da trama ou do próprio universo da série para o expectador. Aliás, essa necessidade de explicar tudo é, certamente o maior defeito da série. Até mesmo a origem de seres como a Iara, a Cuca, o saci e o curupira  e até do vilão e do protagonista são explicados, muitas vezes de maneira forçada para encaixar tudo numa trama coesa.

Entre erros e acertos, entretanto, o saldo é positivo.

Perry Rhodan – Chave Secreta X

 

Chave Secreta X, número 23 da coleção Perry Rhodan é o primeiro escrito por W.W. Shols e uma grata surpresa.

 A história é uma continuação do livro anterior, A fuga de Thora, na qual a arcônida foge para Vênus tentando contatar o império, mas sua nave é derrubada pela base por não ter a senha de acesso. O mesmo acontece com Rhodan, que vai em seu encalço. Pior: a base acionou a Chave Secreta X, o mecanismo que isola o planeta, o que impede que Reginald Bell vá em socorro do amigo.

 Esse número específico é focado nos muitos perigos de Vênus e na forma como Rhodan e seus amigos tentam permanecer vivos e chegar à base, onde poderão desativar a Chave Secreta X. Mas os russos aprisionaram thora e pretendem usá-la para fazer o mesmo.

 Ao contrário de outros livros sobre o planeta, como Ameaça a Vênus, aqui sentimos que Rhodan corre um risco real. Shols usa sua narrativa para convencer o leitor de que o chefe da terceira potência está em vias de perder tudo que conquistou e até mesmo a vida.

 Mais do que isso, o escritor consegue revigorar a descrição da flora e da fauna do planeta, detalhando melhor algo que havia sido só sugerido por outros autores ou criando novos elementos. Os vermes monstruosos, que já haviam sido mencionados em outras edições, ganham mais detalhes, como o cheiro pestilento que exalam.

  

A capa original alemã. 


 Suas descrições são vivas e detalhadas, como se vê no caso dos lagartos das árvores: “Pelo que se dizia, seu aspecto era semelhante ao de um jacaré. Dali provinha o nome, tirado da biologia terrestres. Porém um exame mais detido logo revelava as diferenças. A cauda preênsil tinha cerca de quatro vezes o comprimento do resto do corpo. Desempenhava uma função tão imporante como o rabo dos macacos. O lagarto propriamente dito tinha o corpo curto e coberto de pelos como um castor. Vivia principalmente nas árvores. Até chegava a construir ninhos”.

 Ou o vampiro-carata, um animal que se fazia passar por planta: “O vampiro-carata costuma permanecer imóvel por dias, camuflando-se sob a forma de uma árvore. Esse disfarce constitui sua proteção mais segura contra os inimigos naturais. Mas quando é atacado reage com uma rapidez surpreendente. Suas folhas, que lembram as palmeiras da carata, natural da América do Sul, estão semeadas no lado inferior com milhares de glândulas venenosas. E o animal sabe agarrar sua vítima”.

 Uma mistura de aventura, sequências eletrizantes e boas descrições fazem desse um dos volumes obrigatórios do primeiro clico de perry rhodan.

domingo, março 15, 2026

Fundo do baú: Scooby Doo

 



Scooby doo é um desenho animado criado pelo estúdio Hanna Barbera em 1969.
É o segundo desenho animado com mais temporadas da TV mundial, perdendo apenas para Os Simpsons.
Tudo começou quando o diretor da rede BBS Fred Silverman pediu à Hanna Barbera um seriado que misturasse humor e mistério. Entretanto, os primeiros desenhos eram muito assustadores e foram rejeitados.
O formato definitivo só surgiu quando Silverman ouviu a canção "Strangers in the Night", de Frank Sinatra. Em determinado trecho, Sinatra canta "dooby dooby doo". A partir daí tiveram a ideia de colocar como astro da nova atração um cachorro e chamá-lo de Scoob Doo (e seu famoso bordão, que reproduz o verso de Sinatra: Scooby dob doo!).
O roteiro foi baseado no famoso livro O cão de Barkesville, uma história de Sherlock Holmes. Na história escrita por Arthur Conan Doyle um cão fantasmagórico aterroriza uma vila inglesa, mas ao final descobre-se que era apenas um plano de bandido para ficar com a propriedade.
Assim, a trupe anda pelos Estados Unidos em uma Kombi colorida, a mistery machine, e resolve casos em que um fantasma ou mostro se revela um vilão com objetivos escusos.
Além do cachorro, o elenco ganhou um galã, Fred, uma mocinha, Daphne, o atrapalhado Salsicha e a nerd Velma, que, apesar de toda a sua inteligência, vivia perdendo seus óculos nos momentos mais inoportunos.
Algumas das falas do seriado se tornaram muito populares, como a dita pelos vilões ao final do episódio: “Se não fossem esses garotos intrometidos eu teria conseguido”. 
Sempre houve o boato de que o personagem Salsicha fumava maconha – afinal, além de avoado, ele estava sempre com fome. No filme dos personagens, inclusive, o roteirista fez várias piadas com isso. 

Cavaleiro da Lua - O Retalhador

 


No início da década de 80, o Cavaleiro da Lua era um dos títulos mais quentes da Marvel. Mérito da dupla Doug Moench (roteiro) e Bill Sienkiewicz (desenhos). Exemplo dessa qualidade já era visível no segundo número, com a história O retalhador (tradução da Paninin).

A primeira página já dava uma boa amostra do que viria. Mostrava o protagonista e uma personagem secundária, a garçonete Gena, sob a ameaça de uma foice empunhada em primeiro plano, numa cena de grande impacto. O texto, pungente, seguia o mesmo nível do desenho: “Sangue. Há sangue. Sangue no coração, nas veias e na carne. Sangue quente afluindo vermelho, dando vida. Há sangue. Sangue na cidade, nas ruas e nos becos. Sangue frio, escoando escarlate, deixando morte”.

A RGE trazudiu o título como O Cortador. 


A trama sobre um seril killer que assassinava mendigos era uma desculpa perfeita para Moench abordar temas sociais, como a invisibilidade social. À certa altura, por exemplo, um policial diz: “Até Jack, o estripador, teve mais atenção que o retalhador, e o safado só matava prostitutas... mendigos tão num nível ainda mais baixo. Ninguém liga para mendigos. Se ligassem, eles não seriam mendigos”.

A história toda vai muito além de um relato de super-herói, sendo emocionamente, especialmente quando descobrimos que Crawley, o mendigo amigo do taxista Jacke Lockley (uma das identidades do Cavaleiro) tem relação direta com o assassino.

Doug Moench usou a história para discutir temas socias. 


É também um capítulo em que se forma a equipe que iria ajudar o herói, dando ao título uma cara de pulp fiction. Além do piloto francês e do mendigo, entram na equipe a garçonete Gena e seus filhos.