segunda-feira, maio 25, 2026

Skizz – Contato imediato de Alan Moore

 

Imagine filmes como Contato Imediatos de Primeiro Grau ou ET, o extraterrestre, mas escritos por Alan Moore. É exatamente o que vemos em Skizz, álbum lançado em 2003, pela editora Pandora.
Moore aproveita muitos dos conceitos de Spielberg (em especial de um extraterrestre perdido em nosso planeta e ajudado por pessoas simples), mas faz uma obra totalmente subversiva e instigante.
Alan Moore faz a sua versão do filme ET. 


Para começar, pelo humor negro que permeia toda a obra. A sequência inicial, em que Skizz cai na terra é, ao mesmo tempo, hilária e aterradora. A nave resolve se auto-destruir porque a lei interestelar proíbe apresentar alta tecnologia para raças de desenvolvimento restrito – e decide levar seu tripulante junto. O diálogo é hilário: enquanto Skizz tenta se salvar, a nave pergunta o nome de seus herdeiros.
Skizz passa a ser caçado por agentes do governo e recebe ajuda de uma garota punk – e temos aí diversas sequências de humor, que lembram ET, mas são muito mais ácidas. Uma das primeiras palavras que o personagem aprende é “Potameda”. E, claro, os agentes do governo não são bonzinhos como no filme de Spielberg: o principal responsável pelo caso é um militar paranoico que acha que o ET é só o início de uma invasão extraterrestre.
O desenhsita Jim Baikie se sai muito bem nas sequências de espaço. 


Vale destacar o desenho de Jim Baikie, que consegue captar bem tanto as situações de FC quanto de humor – destaque para a ótima caracterização do personagem Cornélius.

O roteirista profissional, de Marcos Rey

 

Marcos Rey.foi um dos principais roteiristas brasileiros de cinema e televisão. Na década de 1970 ele foi o rei da pornochanchada, escrevendo alguns dos principais filmes do gênero. Ele reuniu boa parte de sua experiência no livro O roteirista profissional: televisão e cinema. 
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Antes de mais nada, é bom avisar que não se trata exatamente de um manual. O autor até dá algumas dicas de como formatar o roteiro, mas não vai muito além da cabeça CENA 1 - LOCAL - EXTERIOR/INTERIOR - DIA/NOITE.
Na verdade, a obra é mais um relato de experiência com o qual podem aprender muito so que forem inteligentes e atentos. Escrito de forma coloquial, a impressão que temos é de estar conversando com um veterano e aprendendo de forma não muito sistemática.
Personagens

Uma das dicas é que Marcos Rey fazia uma espécie de questionário com qual "conversava com os personagens". Perguntas como: "Onde você nasceu? Qual a sua profissão? Gosta dela? Tem alguma religião? Já viveu algum grande amor? Tem algum ideal político? Gosta de repetir alguma palavra?" ajudam a compor o personagem. Todo mundo se lembra, por exemplo, do Coronel da novela Renascer que sempre dizia: "Certo, muito certo, certíssimo!".
No caso dos heróis, é bom dar-lhe um defeito, para torná-lo mais humano: Sherlock Holmes era um dependente de drogas, Poirot um vaidoso, Columbo um relaxado, só para ficar nos detetives.
Também é bom dar marcar fisicamente o personagem. Sherlock Holmes é conhecido pela roupa xadrez, pelo boné e pelo cachimbo. Kojak é careca e fuma uma piteira.
Se a dica é boa para seriados de TV, é melhor ainda para os quadrinhos, uma mídia que depende muito do visual.
RÚBRICAS

São marcações nas falas dos personagens para ajudar o diretor (ou o desenhista) a entender o tom da fala. Por exemplo:

JANDIRA (categórica): Neste hotel não vejo, não escuto, não falo!
PASCOAL (de boca cheia): É bom fazer coisa nova. a freguesia tá mudando!

DIÁLOGOS
Marcos Rey dá uma lição básica, mas importantíssima:
É preferível uma ação muda do que complementada por diálogos inúteis. Imagens também falam.
Nunca coloque em palavras o que a imagem já está tornando explícito.
Nesse sentido, ele critica os primeiros roteiristas de telenovelas, que, vindos do rádio, tinham o vício de fazer os personagens falarem o que estavam fazendo:
JANDIRA: Agora estou abrindo a porta. O que é isso? está tudo escuro? Ligaram uma luz! O quê? Fecharam a porta! Estou presa!
É, tem roteirista de quadrinhos que ainda faz esse tipo de coisa. Aliás, Marcos Rey devia estar pensando nos primeiros comics quando escreveu: "certos autores usam o diálogo como simples muletas de ação. Parece que escrevem histórias em quadrinhos".
NOVELAS
Marcos Rey conta que a maioria dos diretores mexia muito nos seus roteiros a ponto de muitas vezes ele não reconhecer seus textos na tela. De fato, normalmente diretores têm mais poder que os roteiristas e muitas vezes se dão o direito de mexer no texto. Isso só não acontece no caso das novelas. Os roteiristas são as grande estrelas e têm poder absoluto sobre suas novelas. Os diretores não costumam mudar quase nada. E a razão é simples: a produção de telenovelas é tão estafante e apressada que o diretor só tem tempo de filmar e editar. Curioso, não? É justamente o fato das novelas serem uma produção industrial que faz com que elas possam ser obras autorais a ponto de conseguirmos distinguir o estilo do roteirista. Uma novela de Benedito Rui Barbosa, por exemplo, é completamente diferente de uma do Manoel Carlos.


ADAPTAÇÕES
Talvez o capítulo mais interessante seja sobre adaptações. Uma dica de Marcos Rey: adaptações ao pé da letra, fidelíssimas, são péssimas. De fato, esse talvez tenha sido o maior problema do filem Watchmen. Aliás, passado o vislumbre de ver nas telas uma transposição quase literal dos quadrinhos, o que ficou foram duas criações do diretor: a cena de abertura, com a música do Bob Dylan, perfeita, e o final, cientificamente muito mais correta do que a da história em quadrinhos.
Marcos Rey foi um dos roteiristas da excelente série do Sítio do Pica-pau amarelo da década de 1970. Hoje, 10 em cada 10 críticos diz que aquela adaptação da obra de Monteiro Lobato foi um marco, que encantou toda uma geração, mas na época a maioria dos itelectuais simplesmente odiou. E aí vai outra grande lição: nem sempre quem critica uma adaptação conhece a obra original.
Três exemplos:
1 Os críticos acharam uma heresia colocar uma televisão na sala da Dona Benta, mas não se tocaram que o Lobato já tinha colocado um rádio lá em plena década de 1920, quando esse aparelho era novidade absoluta.
2 Um episódio, Narizinho atômica foi muito criticado por estar deturpando a obra de Lobato. E era adaptação fiel de uma história menos conhecida de Lobato no qual ele falava do perigo das bombas atômicas.
3 A jornalista Cléo foi vista como absurda criação dos roteiristas, mas foi criada por Lobato, um visionário, que já imagina o dia em que as mulheres exerceriam o jornalismo.

Para ler os quadrinhos

 


A primeria vez que li um texto sobre quadrinhos foi um artigo do Arnaldo Prado Júnior no jornal O Liberal sobre o Fantasma. Eu estava encerando a casa. Para quem não é da minha época, antigamente a casa era encerada e depois eram colocados jornais por cima, para que as pessoas pudessem passar enquanto a cera secava.

Estava ali, espalhando os jornais pelo chão quando um texto me chamou a atenção. Era o tal texto sobre o Fantasma. Parei o serviço e comecei a ler. Fiquei fascinado. Embora eu lesse quadrinhos desde que me entenda por gente, nunca tinha visto alguém escrever sobre quadrinhos.

O autor desse artigo depois viria a ser meu orientador de TCC, mas essa é outra história.

Um pouco mais velho, conheci a biblioteca pública Arhtur Viana, no centro de Belém. Foi lá que, vasculhando as prateleiras, descobri que existiam livros sobre quadrinhos. Os dois que constavam no acervo era de autoria de Sônia M. Bibe Luyten, uma pesquisadora da USP. O primeiro deles era o volume O que é história em quadrinhos, da Coleção Primeiros Passos. O outro era a antologia Histórias em quadrinhos – leitura crítica, da editora Paulinas.

Eu li e reli esses livros diversas vezes (nas primeiras vezes o funcionário responsável pelos empréstimos me avisava que eu já tinha emprestado aquele livro, depois simplesmente passou a ignorar) e foram obras fundamentais para que eu decidisse pesquisar e escrever sobre quadrinhos. Todos os livros que escrevi sobre o assunto tiveram sua origem lá, naqueles livrinhos lidos e relidos diversas vezes.

O volume O que é história em quadrinhos eu consegui comprar, até porque a Coleção Primeiros Passos até hoje é fácil de encontrar em sebos. Mas o História em quadrinhos – leitura crítica eu nunca achei em sebo e já estava fora do catalogo da Paulinas quando comecei a procurar. Apesar de ter muitos livros sobre quadrinhos, esse era um que faltava na estante.

Recentemente consegui achar, via estante virtual, um sebo que tinha o livro para vender.

Foi uma alegria reencontrar essa obra tão fundamental.

Somerset Holmes

 



No início da década de 1980 o roteirista Bruce Jones, uma das grandes figuras da Marvel nos anos 1970 com uma passagem memorável pelo personagem Kazar, estava cansado dos quadrinhos. Seu sonho era escrever roteiros para Hollywood.
Nesse meio tempo, enquanto fazia uma fotonovela ele conheceu a modelo e atriz April Campbell, que também queria ser roteirista de Hollywood. Os dois se apaixonaram e casaram, mas o sonho de escrever para o cinema parecia distante.
Foi quando um editor propôs a Jones criar uma linha de quadrinhos totalmente do roteirista, dando-lhe liberdade total.
Capa original. 

O casal teve a ideia de fazer um roteiro de cinema e transformá-lo em um gibi, rezando para que algum executivo de Hollywood visse e comprasse os direitos para o cinema.
A minissérie Somerset Holmes conta uma história de uma mulher que, após ser atropelada, perde a memória. Ela é ajudada por um médico, que é assassinado. É apenas o primeiro de uma série de assassinatos misteriosos que ocorrem enquanto a garota (que adota o nome baseada em um anúncio de beira de estrada) foge. Ela precisa descobrir quem é para entender por que todos à sua volta morrem.
É uma trama complexa e inteligente com um final bem amarrado.
Capa original da minissérie 

Para desenhar, chamaram o velho parceiro de Bruce Jones, Brent Anderson.
O maior problema do álbum (lançado no Brasil dentro da coleção graphic álbum) é o fato dele ter sido feito como um story board para cinema, o que faz com que aproveite pouco a linguagem dos quadrinhos.
O leitor deve estar curioso para saber se a história virou filme. Um produtor de cinema comprou os direitos, mas não produziu o filme. Entretanto, Bruce e April conseguiram, graças a isso, entrar para a União dos roteiristas para cinema e TV e começaram a colaborar com filmes e seriados de TV, em paralelo com a produção quadrinística.
Até hoje Jones e April argumentam que o filme O longo beijo de boa noite, de 1996, estrelado por Geena Davis e Samuel L. Jackson é um plágio de Somerset Holmes.

A arte espetacular de Luiz Eduardo Cardenas

 


Luiz Eduardo Cardenas nasceu em 1972, em Aracaju, Sergipe. Desde pequeno revelou talento para o desenho e logo começou a trabalhar na área. Sua primeira história em quadrinhos publicada foi Mais do mesmo, na revista Mestres do Terror, da editora D’Arte.

Além dos quadrinhos, transitou por áreas como publicidade, marketing, educação a distância e cinema, atuando com roteiro, ilustração, storyboard, design de personagens, cenografia, figurino e direção de arte.

No cinema, colaborou com o diretor capixaba Rodrigo Aragão nos filmes Mar Negro, As Fábulas Negras, O Cemitério das Almas Perdidas, Prédio Vazio e A Mata Negra. Suas HQs mais recentes foram Bergtagna: A Dimensão das Sombras, PIGZ, O Livro Maldito de Cipriano e Crônicas Tentaculares.















Campos do Jordão: História, Natureza e Espiritualidade

 


Campos do Jordão fica a 170 quilômetros de São Paulo, quase na divisa com Minas Gerais. Sendo a cidade mais alta do país, sempre teve vocação para o turismo. Na virada do século XIX para o século XX, a busca era pelo turismo médico: acreditava-se que o ar limpo e montanhoso da região ajudava a curar doenças respiratórias, o que fez com que várias clínicas se instalassem na região.

Atraídas pela cura, pessoas de todo o mundo vinham para a cidade e muitas acabaram fixando residência, conferindo-lhe um caráter cosmopolita. Com o tempo, Campos do Jordão se reinventou como um dos principais destinos turísticos do Sudeste, especialmente no período natalino. No Capivari, centro pulsante da cidade, há uma praça com diversas árvores de Natal, cada uma ornamentada por uma loja local, o que garante uma decoração variada e criativa.

Para conhecer os arredores, é possível fazer passeios guiados (cerca de R$ 70 por pessoa), com visitas aos castelos, à Ducha de Prata, ao Pico do Itapeva, ao bairro das mansões — onde residem algumas das pessoas mais ricas do Brasil —, à Vila Holandesa e às tradicionais lojas de chocolate. 

Outra atração imperdível é o Mosteiro de São João, das monjas beneditinas. Além da paz e da beleza do local, é possível lanchar com quitutes feitos por elas. Mas a grande atração é o canto gregoriano, a partir das 17h30: uma experiência transcendente, ampliada pela beleza e pela acústica da pequena igreja.

Para os amantes da natureza, o parque Amantikir é parada obrigatória. O local se destaca pelos belíssimos jardins e pela vista incrível da Serra da Mantiqueira. A entrada custa R$ 100 por pessoa, mas vale a pena contratar um guia. Em nossa experiência, pagamos R$ 120 por pessoa, valor que já incluía o transporte e o ingresso.

O parque Capivari é um dos principais pontos turísticos da cidade. 

Próximo do parque há um centro comercial. Além da arquitetura em estiulo europeu, a ornamentação se destacada. 

A cidade se destaca pela ornamentação natalina. 



O mosteiro é o local ideial para quem busca paz e tranquilidade. 




A arquitetura das lojas remente a estilos eruopeus. 




O Parque Amantikir é repleto de jardins e tem uma bela visão da serra da Mantiqueira. Uma boa opção para quem gosta de natureza. 













domingo, maio 24, 2026

Realidades adaptadas, de Philip K. Dick

 

Philip k dick é um dos escritores de ficção científica mais adaptados para o cinema. Seus textos, em especial os contos, tinham todas as características para se tornarem filmes de sucesso. Ação na medida certa e história instigante, geralmente com um plot Twist verossímil.
Realidades adaptadas é um livro da Aleph que reúne os contos do autor que foram filmados. O título destaca a principal questão por trás de todos os textos: o que é real e o que não é em um mundo de simulacros.
O próprio autor refletiu sobre isso, em nota publicadas no final do volume, a respeito do conto Segunda variedade: “Neste conto meu tema principal – Quem é humano e o que aparenta ser (simulacro) humano? – emerge de forma mais sublime. A menos que consigamos, individual ou coletivamente, ter certeza da resposta a essa pergunta, temos de encarar o que, em minha opinião, é o problema mais sério de todos. Se não a respondermos adequadamente, não poderemos ter certeza sobre nossa própria natureza (...) Para mim, nenhuma pergunta é mais importante. E a resposta é difícil de ser encontrada”.
A obra é uma seleção única, de extrema qualidade, de forma que é difícil destacar os melhores contos – e mais difícil ainda resumi-los sem dar spoillers. Mas alguns merecem destaque.
O famoso “Lembramos para você a preço de atacado” deu origem ao filme O Vingador do futuro e tem sido usado para discutir os problemas da memória: um homem pacato vai a uma empresa que lhe incutiria memórias de uma falsa viagem a Marte na qualidade de espião. Mas, ao fazer isso, ele descobre que realmente havia ido a Marte e que era um espião. Ficção e realidade se misturam e se alternam de maneira genial.
Segunda variedade fala de uma arma de guerra travada através de seres cibernéticos, esferas que estraçalham o inimigo. Mas tudo parece sair do controle quando elas começam a se consertar e a fabricar novos robôs – alguns perigosamente parecidos com humanos. É um triller de suspense que envolve um grupo de sobreviventes e a pergunta: quantos deles são realmente humanos?
O impostor é talvez um dos menos conhecidos do volume, mas um dos mais intrigantes. Autoridades descobrem que um cientista importante foi trocado por uma cópia cibernética que é, na verdade uma bomba. Mas o cientista sabe que é humano e tem que provar sua humanidade antes de ser morto. Dick brinca com as expectativas do leitor e com a nossa noção de humano.
Um ponto negativo da edição da Aleph são os textos introdutórios, muito curtos, a maioria dos quais se limitando apenas a dar informações básicas sobre os filmes adaptados dos contos, como diretor, roteiristas e atores.

Pateta faz história

 


 Pateta faz história é uma coleção criada pelo argentino Jaime Diaz na década de 1970. Foi um pedido da Disney, já que a editora americana, a Western, não estava dando conta da demanda internacional. Diaz imaginou uma série revolucionária, a começar por colocar o Pateta como protagonista, deixando o Mickey como personagem secundário (o que tornou a série muito mais interessante). Além disso, a diagramação era inovadora, com partes do cenário formando molduras dos quadrinhos.

Foi um sucesso mundo a fora. No Brasil foi lançado em 1978 pela editora Abril. A mesma Abril voltou a publicar a série em 2011, agora em formatinho, com textos de Marcelo Alencar. Os textos traziam a biografia dos cientistas, artistas, reis e aventureiros homenageados nas histórias, dando uma contextualização para as HQs.

Clássicos como a Eneida também foram adaptados. 




Em 2017 a Abril voltou a publicar a coleção, agora em volumes de capa dura e média de 350 páginas e oito histórias por volume.
Certamente muitos dos que compraram em 2011 vão comprar também esta nova edição, em especial graças ao belíssimo trabalho gráfico, com título em alto relevo prateado, boa encadernação (por alguns lançamentos mais recentes parecia que a Abril tinha perdido a prática de encadernar seus volumes Disney), papel de boa qualidade – ou seja, volumes de colecionador.
A estratégia era ensinar História com humor. 


O nível das histórias é variado. Há verdadeiras obras-prima de roteiro e desenho, há outras que se destacam pelo roteiro e outras que se destacam pelo desenho. Há histórias que valem a pena apenas por conta da piada final, como a de Tutacamon Pateta, que manda construir um monumento, um enorme boneco, mas no final só o que sobrevive é o chapéu em forma de pirâmide após todo o resto ser coberto pela areia.
A série inclui também adaptações de clássicos da literatura. 


De toda a coleção, o meu predileto é Louis Pasteur, escrito por Tom Yakutis, o melhor roteirista da série (também responsável pelas histórias de Ascenção e queda do império romano e Gengis Khan, entre outros). Yakutis consegue ser engraçado e, ao mesmo tempo, repassar as informações básicas sobre o biografado.
Ao escrever a biografia do grande cientista, que revolucionou a ciência ao descobrir a ação dos microorganismos, o roteirista consegue misturar fatos científicos reais (como a proliferação de bactérias no leite, que faz com que ele azede) com piadas memoráveis: ao colocar fogo na própria casa, Pateta descobre uma garrafa de leite que não azedou e concluí que as bactérias morrem se você colocar fogo numa casa!!!! Há até mesmo uma lição de lógica indutiva: o Pateta bate na própria cabeça com uma marreta 7504 vezes e em todas as vezes doeu bastante, assim é razoável presumir que se bater novamente no mesmo lugar a dor se repetirá!

The good bad mother

 


Confesso que gosto de, desde os primeiros momentos, de um filme ou série, saber qual é a trama, qual o conflito central. Quando isso não fica muito claro, por exemplo, no primeiro capítulo, minha tendência é abandonar pela metade achando que continuar seria perder tempo com um roteirista que não sabe onde quer chegar.  

O dorama (ou k-drama) coreano The good bad mother me mostrou que essa pode ser uma atitude precipitada. Até ali pelo final do segundo capítulo não está clara qual é a trama e o expectador só consegue entender de fato tudo que está acontecendo no nono capítulo. Eu só persisti porque a série tinha sido muito bem recomendada por amigos – e não me decepcionei.

Para continuar, preciso contar um pouco da história, então, se não gosta de spoiller, melhor parar aqui.

A história é focada em Kang Ho, um garoto inteligente e esforçado, que é criado de forma dura e até mesmo cruel pela mãe, que não lhe deixa ir nos piqueniques da escola e nem mesmo assistir televisão. A mãe na verdade, não o deixa nem mesmo comer o quanto quer, pois, segundo ela, comer muito dá sono e quem está com sono não pode estudar. O sonho dela, de que ele se forme em Direito e se torne um promotor público, acaba se realizando, mas aparentemente à custa do relecionamento entre os dois. Para piorar, o pai havia morrido há muitos anos, assassinado por um mafioso em um caso encoberto por um promotor.

Tudo muda quando Kang Ho sofre um acidente e não só fica paralítico, mas também perde a memória e a capacidade cognitiva, tornando-se o que seria equivalente a uma criança de sete anos.

A tragédia acaba se transformando em uma espécie de segunda chance entre mãe e filho, de forma que relação que se reconstrói do zero. A mãe má se transforma em uma mãe boa e amorosa, capaz de fazer tudo pelo filho, mas retorna de tempos em tempos. Quando, por exemplo, o filho não consegue levantar a mão, ela o faz passar fome. Ele só volta a comer quando conseguir se alimentar sozinho. Quando ela percebe que ele pode voltar a andar, ela o joga da cadeira de rodas em um rio diversas vezes até que ele se levante e ande. Ao longo da história, também entendemos as motivações para que ela tivesse sido tão má quando criava a criança. Até mesmo detalhes como não deixar o filho ir ao piquenique da escola tinha uma explicação.

Essa relação entre mãe e filho por si só já dariam uma ótima série, mas o que temos aqui é muito mais. Há toda uma trama policial e política e envolvida assegura os momentos de suspense.

A roteirista  Bae Se-youn dá uma verdadeira aula de como utilizar as elipses na narrativa, contando os fatos, mas pulando partes que só serão mostradas lá na frente. Se por um lado isso deixa o expectador confuso no início, por outro lado, torna a série instigante e mostra um domínio único da trama.

Vale destacar também a escolha inspirada do elenco.

Lee Do-hyun, como o promotor Kang Ho, consegue mudar completamente sua atuação entre os dois momentos – aquele em que ele é um homem adulto e um promotor respeitado, e aquele em que volta a ser criança. Apesar de ser um homem adulto, Lee Do-hyun consegue convencer como uma criança, com ótimas expressões faciais e corporais.

Outra atuação memorável é Ra Mi-ran, que interpreta a mãe. Ela também consegue oscilar perfeitamente entre a mãe má e e boa mãe sem nunca perder o encanto. A relação dela com o filho é emocionante e se sustenta na ótima interpretação dos dois.

Assim, siga o conselho: por mais que você não esteja entendendo muito no início, persista. A série The good bad mother vale muito a pena.

Batman – Ego trip

 

 

Qual o vilão mais mortal do Batman? Essa é a pergunta que John Byrne se faz na graphic novel Ego trip, publicada aqui no Brasil pela Opera Graphica.

A história começa com o Pinguim gravando um vídeo e confessando o assassinto de um milionário chamado Hardman Twine. Mas outras pessoas reivindicam o assassinato, que até então vinha sendo tratado como suicido, entre eles o Charada. A história, aliás, começa com o Batman escapando de uma das muitas armadilhas do Charada e recebendo uma fita com três enigmas: “Quando um apartamento de cobertura se parece com um iceberg?; Como é possível viajar 300 km sem sair de Gothan?; O que o chinês que vive na montanha disse para a sua filha quando ela se mudou para o vale?”.

A história começa com o Pinguim gravando um vídeo no qual confessa um assassinato. 


A trama é basicamente, Batman seguindo cada uma dessas pistas e encontrando os esconderijos do Duas Caras, o Pinguim e o Coringa e, ao mesmo tempo, tentando descobrir qual deles é o assassino.

É, em essência, uma história policial que lembra muito o seriado da década de 1960.

Essa HQ parece anacrônica se considerarmos que foi publicada em 1990, uma época em que artistas como Frank Miller estavam se esforçando para dar ao Batman um ar mais sombrio e às suas histórias um ar mais adulto. 

O Charada prepara uma armadilha para o Batman, mas não parece nada realmente perigoso. 


É anacrônica também do ponto de vista narrativo, com os pensamentos do Batman sendo mostrados o tempo todo, seja para refletir sobre os acontecimentos, seja para ajudar o leitor a entender o que estava acontecendo. Vamos lembrar que naquela época autores como Miller, Moore, Morrison e Gaiman estavam colocando em desuso o balão de pensamento, assim como os monólogos narrativos dos personagens.

Ainda assim, é uma história divertida e instigante.

Para tornar a históira #D, a DC coloriu. Byrne deve ter odiado.


Há uma curiosidade sobre essa graphic. Byrne fez ela com papel doubletone. Nesse papel, a aplicação de um líquido com pincel faz aparecer uma textura, algo que funciona muito bem em trabalhos em preto e branco. Por alguma razão os editores da DC resolveram publicar em 3D, e aplicaram algumas cores. O resultado parece horrível. A Opera Graphica, acertadamente, publicou em preto e branco, em respeito à arte de Byrne.