quinta-feira, abril 23, 2026

Groo, o errante

 


Groo é uma sátira dos quadrinhos de espada em magia (a exemplo de Conan), criado por Sérgio Aragonés, famoso por seu trabalho na revista MAD.
Aragonés elaborou seu personagem na década de 1970, mas na época a política de direitos autorais das editoras americanas não era favorável aos criadores e o cartunista guardou a ideia na gaveta.
Quando a Marvel criou a linha Epic, em que os direitos ficavam com os criadores, Aragonés resolveu publicar uma história de seu personagem.
Para isso ele convidou o amigo e Mark Evanier, que ficou responsável pelos textos e diálogos.
O personagem foi publicado pela primeira vez na revista Destroyer Duck #1, em 1981 e logo alcançou grande sucesso. Afinal, não só era sátira de um dos personagens mais populares da Marvel, como também era uma das melhores revistas de humor já lançadas.
Logo o personagem ganhou título próprio pela Pacif Comics. O título depois passou pela Epic, Image e atualmente Dark Horse.
No Brasil o personagem apareceu pela primeira vez na coleção Graphic Novel, número 14, em uma história que mostrava a “morte” do personagem.
Um  dos atrativos de Groo é toda a caracterização bolada por seus criadores. Apaixonado por queijo derretido, Groo é burro como uma porta, um desastre ambulante e um guerreiro invencível. E afunda todos os barcos nos quais entra. Quando ele entra em uma cidade, os moradores sabem que estão perdidos, por melhores que sejam suas intenções (em uma sequência, um homem pergunta a outro: “Este é Groo?”, ao que o outro responde: “Não pode ser, nós ainda estamos vivos”).
A série tem também uma rica galeria de personagens secundários. Entre eles o Sábio, que tem sempre um provérbio pronto para qualquer situação e sempre tenta impedir que Groo se torne um desastre; o Menestrel, que narra as histórias, sempre em rima; Rufferto, cão fiel companheiro de Groo, tão fascinado por seu dono que acha até mesmo que ele é inteligente; Taranto, um saqueador que sempre tenta se aproveitar da ingenuidade de Groo. Além da enorme quantidade de reis que veem seus reinos destruídos pela simples presença de Groo.
Uma curiosidade é que Groo se encontrou já com Conan em uma história publicada pela Dark Horse.

Charlier, o mestre dos quadrinhos franco-belgas

 


Um dos meus roteiristas prediletos é o belga Jean-Michel Charlier.
Charlier foi uma das mentes brilhantes que projetaram a HQ franco-belga pela Europa e construiram um gênero que une qualidade a popularidade, pelo menos no velho mundo.
A primeira vez que tive contato com seu trabalho foi no número 21 da série Graphic Novel, da editora Abril, que publicou a primeira história de Blueberry. Quando li a biografia e vi sua foto com o sorriso bonachão, os óculos pendurados e um charuto na boca, disse para mim mesmo: esse é o cara!

Charlier, além de ter um texto genial, era eclético. Escrevia em qualquer gênero, para qualquer desenhista e qualquer faixa etária. Para os desenhos de Uderzo (ilustrador de Asterix) criou uma série de aventuras sobre dois aviadores, Tanguy e Laverdure. 
Para o traço clássico de Hubinon criou uma série infantil, Barba Negra. Além disso, escreveu programas de televisão e reportagens especiais.

Mas sua maior criação foi Blueberry, o cowboy cara de pau, inveterado jogador de pocker. 
O sucesso do personagem não foi só por sua causa. Blueberry juntou o melhor roteirista da Europa com o melhor desenhista do velho continente: Moebius, que começa tímido nos primeiros capítulos e depois solta todo o seu traço detalhista, mais apreciado nas cenas de saloons, nos quais se podia contar 20, 30 pessoas. Cada vinheta de Blueberry é um verdadeiro quadro, a ser apreciado com gosto e atenção.

E Blueberry era um personagem perfeito para os novos tempos: não era um mocinho que sempre fazia o bem, mas costumava se importar com os índios, característica que fez dele um diferencial nos quadrinhos de faroeste. Além disso, bebia e parecia ter tantos defeitos quanto qualidades (anos depois, essa tendência de cowboy humano seria muito bem aproveitada em Ken Parker).
Levei muitos anos vasculhando sebos, encontrando aqui e ali edições portuguesas de Tangui e Laverdure e do Barba Ruiva. E a cada álbum que lia eu me encantava mais. Gostava especialmente do fato de que Charlier não parecia estar querendo fazer uma obra-prima, mas simplesmente contar uma boa história. Roteirista que se levam a sério demais,  que se acham gênios, costumam ser maçantes.

A maldição do Onde

 


Dizem que Vicente Mateus, o presidente do Corinthias, pediu para a secretária fazer uma convocação, marcando uma reunião para uma sexta-feira. A secretária perguntou:
- Sexta-feira se escreve com x ou com s?
E ele:
- Marca a reunião para a quinta.
Se fosse hoje, ele diria:
- Coloca onde.
E a frase ficaria algo como “A Diretoria do Corinthias marca uma reunião para a onde-feira”.
Parece piada, mas é exatamente o que estão fazendo com o “onde”. “Onde” é advérbio e se refere a lugar. Tem o sentido e “no lugar em que”. Mas essa palavra virou o coringa da língua portuguesa, sendo usado no lugar de qualquer palavra que a pessoa não se lembre no momento. Assim, ele tem substituído palavras tão díspares quanto “porém”, “pois”, “quando”, “assim”, “e”, “em que”, “no qual”,  “enquanto”, “todavia” e muitas outras.
Assim, temos frases como:
A teoria ONDE o filósofo argumenta...
O rapaz roubou o pão ONDE estava com fome.
Eu gosto de pizza, ONDE vou comer tudo.
A Educação a distância é um processo mediado de aprendizagem ONDE professores e alunos estão separados.
Compre o produto ONDE ganhe o cupom.
O atentado aconteceu ONDE o secretário estava de férias.

Se formos levar ao pé da letra, a interpretação dessas frases seria:

A teoria NO LUGAR EM QUE o filósofo argumenta...
O rapaz roubou o pão NO LUGAR EM QUE estava com fome.
Eu gosto de pizza, NO LUGAR EM QUE vou comer tudo.
A Educação a distância é um processo mediado de aprendizagem NO LUGAR EM QUE professores e alunos estão separados.
Compre o produto NO LUGAR EM QUE ganhe o cupom.
O atentado aconteceu NO LUGAR EM QUE o secretário estava de férias.

Na verdade, o que se queria dizer era:

A teoria NA QUAL o filósofo argumenta...
O rapaz roubou o pão, POIS estava com fome.
Eu gosto de pizza, PORTANTO vou comer tudo.
A Educação a distância é um processo mediado de aprendizagem NO QUAL professores e alunos estão separados.
Compre o produto E ganhe o cupom.
O acidente aconteceu ENQUANTO o secretário estava de férias.

Algumas vezes é quase impossível entender o que o autor queria dizer, como em:
Sempre com novas atração, ONDE nosso objetivo é sua opinião.


E o cúmulo quando encontrei o seguinte exemplo em um trabalho:
Faça sua pesquisa DONDE tire uma hipótese.

Além de ser gramaticalmente incorreto, o uso indevido do ONDE dificulta a compreensão do texto, prejudicando o processo de comunicação e ocasionando equívocos. Assim, da próxima vez em que for usar a palavra ONDE, pense bem e veja se é isso mesmo que você está querendo dizer. Na dúvida, troque o “onde” por “no lugar em que”. Se der certo, o onde está correto, caso não, coloque a palavra correta.

Sabre – A primeira graphic novel?

 


A palavra graphic novel vinha sendo usada algumas vezes desde a década de 1960, mas quem popularizou o termo foi Will Eisner com o seu Um contrato com Deus. Entretanto, dois meses antes foi lançada Sabre, uma história escrita por Don McGregor e Paul Gulacy, o que faz com que muitos acreditem que ser a primeira graphic novel. De certo mesmo, foi a primeira obra de quadrinhos distribuída exclusivamente para as lojas de quadrinhos através do mercado direto.

Pioneirismos à parte, Sabre, lançada aqui pela Nova Sampa, é uma tremenda história, em que um texto impecável se junta a um Paul Gulacy em plena forma.

A história se passa em um futuro apocaliptico. 


A história se passa em um futuro distópico. Uma epidêmica devastou boa parte da população. Vazamentos atômicos contaminaram estados inteiros. Em paralelo a isso, pessoas começaram a colecionar armas antigas com melhorias futuristas (o que garante o visual futurístico retrô da história).

Nesse futuro, um forte movimento rebelde se espalha pelos estados unidos e o governo responde não só com uma forte repressão como com uma lavagem cerebral intitulada sincronização.

A trama é focada em Sabre, o líder da revolução, que embarca em uma jornada para libertar seus companheiros presos. A ele junta-se Melissa Siren, a primeira pessoa a nascer de forma artificial, sendo gerada em laboratório.

Os personagens chegam a dançar uma valsa em meio a reflexões. 


Ao contrário do que se poderia esperar, Sabre e Siren não enfrentam uma forte oposição ao entrar no local, um antigo parque de diversões repleto de animatrônicos.

Don McGregor constrói a trama de forma que eles andam pelo local, chegando a dançar uma valsa e a confraternizar com sereias em meio a reflexões filosóficas e sociológicas.

Quando, no entanto, a ação acontece, ela simplesmente explode nas páginas, de forma initerrputa. O traço fotográfico de Gulacy impressiona e se destaca nas cenas de ação – vale lembrar que o artista vinha da série Mestres do Kung Fu.

Quando começa, a ação explode nas páginas. 


Essa história também se destaca por mostrar uma relação inter-racial, já que é Sabre é negro e Siren branca, o que certamente deve causado sensação entre os leitores à época.

Uma curiosidade é que essa história foi feita em vista da insatisfação de McGregor com o pouco pagamento recebido na Marvel e pelo fato de não receber royalties. Tanto que ele aceitou receber só 300 dólares pela história, prevendo que conseguiria depois um valor maior com os direitos. A história chegou a atrasar porque algumas páginas enviadas por Gulacy se extraviaram quando o carteiro não conseguiu entregar na casa do roteirista. Mesmo assim, o desenhista se empenhou igualmente na nova página, tanto que é impossível, hoje em dia, saber quais páginas foram refeitas.

A graphic novel, lançada pela Eclipse, custava 6 dólares, um valor alto, considerando-se que na época os quadrinhos custavam centavos. Mesmo assim vendeu bastante e teve uma segunda edição já em 1979, um ano depois da primeira edição.

Conan – Os demônios da montanha

 


Estamos acostumados a ver Conan desenhado pelo ítalo americano John Buscema. No entanto, diversos outros grandes artistas tiveram suas passagens pelo personagens. Entre eles o filipino Tony DiZuniga. Isso aconteceu na história Os demônios da floresta, publicada em Savage Sword of Conan 3, de dezembro de 1974.

Na história, escrita por Roy Thomas, Conan e um outro soldado estão sendo perseguidos por Khozgaris quando encontram uma bela mulher sozinha nas montanhas. Ela se identifica como Shanya, filha do chefe dos Khozgaris.

A habilidade de Tony DeZuniga para desenhar mulheres é uma grande contribuição para a história. 


“Mentira!”, afirma Conan. “A filha de um chefe aqui... sozinha... sem uma guarda armada?”

“Ninguém ousa por as mãos em Shanya... então eu vou aonde eu quiser!”, responde a garota.

O cimério resolve tomá-la como refém até que eles estejam em segurança, o que irá assegurar um dos elementos básicos das histórias de espada e magia: uma bela mulher em trajes sumários. A grande habilidade de Tony DiZuniga, cujo traço é quase fotográfico, ajuda muito nesse sentido.

O soldado é rapidamente descartado. 


Enquanto o trio atravessa um despenhadeiro, uma pedra caí, matando o outro soldado, o que deixa a trama focada apenas em Conan e na princesa. Aqui é necessário fazer um parêntese. É impressionante como é comum que as histórias iniciem com um ou mais soldados além de Conan. Todos morrem até a terceira página.

A garota é sequestrada por seres disformes e Conan resolve ir em seu socorro. Afinal, ele é um selvagem e tudo que interessa para os selvagens é salvar princesas em perigo.

A princesa será usada como procriadora. 


A garota é levada para o líder local, que pretende usá-la para procriar. “Nenhum sangue novo foi misturado à raça do povo do cume por mais de 200 anos. Você será uma companheira adequada para mim e para meu filho!”. Depois de usá-la como procriadora, o líder local pretende dá-la de comer a uma criatura monstruosa, cuja simples visão faz a princesa desmaiar.

A história tem um deus ex-machina: quando derrota o primeiro do povo do cume, Conan vê que ele usa uma máscara e resolve simplesmente colocar o artefato no rosto, o que faz com que ele veja no espesso vapor usado como arma pelos locais.

Apesar dessa situação forçada,  Os demônios da montanha tem todos os elementos de uma boa história de Conan.

Lupin

 


Em 1907, Pierre Lafitte, editor da revista francesa  Je sais tout encomendou ao escritor  Maurice Leblanc uma versão francesa do famoso detetive inglês Sherlock Holmes. Leblanc, ao invés de criar um detetive, criou um ladrão anarquista, Arsène Lupin, cuja principal ocupação é enganar a polícia, socorrer os fracos e debochar dos burgueses.

Esse personagem, que se tornou extremamente popular na frança, é a base da série Lupin, da Netflix.

Na história, Assane Diop é um fã inventerado de Lupin que embarca numa jornada com o objetivo de provar a inocência de seu pai, que morreu na prisão ao ser acusado de roubar um colar.

Para conseguir seu objetivo, ele empreende diversos roubos, incluindo o colar da rainha – numa sequencia que toma todo o primeiro episódio. Ali, nessa primeira parte, vemos o novo Lupin em todo o seu esplendor: um ladrão que consegue enganar a todos (inclusive o expectador), roubando um item extremamente valioso na frente de uma multidão. Um ladrão que ao invés de armas ou violência usa a inteligência e a habilidade.

Assane é interpretado pelo ator francês Omar Sy, conhecido entre nós pelo filme Intocáveis, e que é um dos grandes responsáveis pelo sucesso da série (ela chegou a ficar em primeiro lugar na Netflix brasileira). A ousadia de colocar um ator negro como protagonista da história em si já foi uma escolha corajosa, e ajuda a refletir questões sociais, como a exploração colonial e a imigração. Mas Omar Sy surpreende ao entregar uma atuação inspirada, que vai do humor à ação e à astúcia com muita facilidade.

Ajuda muito também a trilha sonora, que casada com a direção, torna empolgantes as sequencias de golpes.

O problema é que o Lupin da literatura é um ladrão que nunca é pego e que parece estar sempre um passo à frente de seus inimigos. Na série, o protagonista age dessa forma nos primeiros capítulos, mas tudo escapa do controle nos últimos capítulos. Com a segunda temporada está confirmada, esperamos que isso seja apenas um gancho para uma reviravolta no melhor estilo do ladrão de casaca.

O dia em que a espada e magia nasceu

 


O gênero espada e magia tem uma data de nascimento: agosto de 1929. Foi nesse mês que a revista Weird Tales, publicou a história “The Shadow Kigdon”, de Robert E. Howard.

A história, protagonizada pelo Rei Kull, fazia parte de um conjunto de oito histórias enviadas por Howard para o o editor Farnsworth Wright e era protagonizada por um personagem chamado Rei Kull. A história era “robusta, violenta, sanguinária, repleta de ação, mistério e descobertas sensacionais. É uma das mais vigorosas e bem-sucedidas histórias de Howard”, afirma Lin Carter em texto publicado em Savage Sword of Conan 3.

Howard inovara fundindo três diferentes estilos em um só. Segundo Carter, “ele pegou o tipo de história que Clark Ashton Smith passada nos fabulosos e cintilantes reinos da alvorada de magia e feitiçaria, os contos de terror lovecraftiano sobre o mal sobrenatural e pré-humano e enxertou tudo com as novelas heróicas de espadachins escritas por Harold Lamb, Rafael Sabatini e Talbot Mundy”, resume Carter.

Era de se esperar, portanto, que essa fosse uma edição antológica. 

Nada mais distante da realidade. Ninguém, nem mesmo o editor, parecia ter noção de que estava nascendo ali um dos gêneros mais famosos da literatura de gênero.

A capa era bem fraquinha, mostrando uma mulher nua e acorrentada. Havia uma única chamada na capa, destacando a história “The inn of Terror” (A estalagem do terror), do escritor francês Gaston Leroux – autor de O fantasma da ópera (informação que aparecia com enorme destaque).

Além da história de Howard, nenhum dos contos publicados naquela edição ganhou qualquer destaque posterior (tinha até uma história de uma tal de Lois Lane).

Na edição seguinte, as cartas elogiavam efusivamente as histórias de Gaston Leroux e de E. F. Benson. A história de Howard recebeu apenas algumas palavras elogiosas em uma das cartas.

“The shadow Kigndon” foi um conto que passou despercebido na época, mas iria ter grande impacto no futuro.

A Arte Estupenda de Henry Clive

 


Henry Clive foi um artista australiano multifacetado, atuando como ator, ilusionista e pintor.

Nascido em 1883, Clive iniciou sua carreira na Austrália como mágico. Foi durante uma turnê pelos Estados Unidos que a pintura, inicialmente um hobby, rapidamente se transformou em profissão.

Ao se mudar para Hollywood, ele se destacou ao atuar em filmes mudos e, posteriormente, tornando-se diretor de arte da First National Pictures. Seu trabalho também incluiu colaborações em produções de Charlie Chaplin, notavelmente no clássico Luzes da Cidade.

Como ilustrador, Clive ganhou grande reconhecimento por suas contribuições para a revista The American Weekly e pela criação de capas de livros marcantes.













quarta-feira, abril 22, 2026

Perry Rhodan – Duelo de mutantes

 


Clark Darlton era conhecido entre os autores da série Perry Rhodan por humanizar seus relatos. E é exatamente isso que ele faz no número 26 da série.

Na trama, Perry Rhodan encontra um adversário à altura: um super-mutante apelidado de supercrânio, que usando suas capacidades hipnóticas, formara seu próprio exército de mutantes e, com eles, pretendia conquistar o poder mundial através de assassinatos, greves, guerras e atentados. O volume trata do ponto em que dois exércitos de mutantes entram em rota de colisão.

A história inicia no espaço, com um dos destróiers roubados pelo Supercrânio atacando uma nave-escola da terceira potência. O texto de Darlton foca em um dos recrutas: “Julian Tifflor, que seus amigos e colegas chamavam apenas de Tiff, enganava os que o cervavam. Atrás daqueles olhos sonhadores escondia-se a energia de uma pequena bomba atômica. Apesar de seus vinte anos, Tiff era um gênio matemático e um exemplar de coragem e resolução”.

Mais à frente, quando o Supercrânio usa uma unidade do exército da terceira potência para atacar a própria terceira potência, a narrativa é toda focada em um dos soldados, o sargento Harras, que vai do cansaço e do desejo era tirar o uniforme suado e dar um salto na piscina à necessidade irracional de guerrear.

O volume é um pouco decepcionante para quem se deixa levar pelo título. Não há de fato um duelo entre mutantes uma vez que assim que os mutantes do exército do supercrânio são tirados de sua influência hipnótica, eles aderem à terceira potência. Além disso, o mais poderoso dos mutantes, Gucky, acaba não participando do duelo, embora tenha uma atuação importante em outro momento da trama.

Ao contrário da capa americana, a capa alemã mostra uma cena que existe no livro. 


No volume há algumas frase que parecem estranhas. Quando é tirado da influência do Supercranio, é dito que um dos mutantes mudou de dono. Sobre outro é dito que mudou de mestre, o que vai na contramão da ideia de que Rhodan representa uma visão não-autoritária.

Ainda assim, com todos os volumes escritos por Darlton, esse é uma leitura deliciosa.

Em tempo: a capa da Ediouro, baseada na edição americanda, não tem mínima relação com a trama. Aparentemente o desenhista Gray Morrow sequer lia o volume, ou recebia um resumo. Assim, seguia o padrão de desenhar uma imagem de um homem com “roupa futurista” e uma mulher loura em apuros.

Buddy longway – O inimigo

 

 

O caráter diferenciado de Buddy Longway, de ser um faroeste familiar, fica claro já no segundo álbum, O inimigo.

Na história, Buddy e Chinook se casam e procuram um lugar para morar. Eles encontram um vale pelo qual passa um riacho, um local verdadeiramente paradisíaco. A sequência bucólica mostra os dois construindo a casa com troncos de abetos. Mas, no meio da felicidade conjugal, há algo errado. Uma refeição desaparece, a corda é cortada enquanto o cavalo carrega um tronco por uma subida, provocando um quase acidente.

Buddy e Chinook encontram um paraíso... 


Já depois de construída a casa, os incidentes continuam: algo afugenta os cavalos do estábulo. Aparentemente é um carcaju, mas como um carcaju conseguiria cortar uma corda enquanto ela está sendo puxada? E porque ele faria isso?

Com o tempo, a vida paradisíaca torna-se um inferno e o mistério só aumenta quando Slim, o caolho, visita o casal e eles descobrem que foi ali que ele perdeu um dos olhos. 

... mas vários acontecimentos estranhos transformam esse paraíso num inferno. 


O final consegue resolver bem esse mistério, sem deixar pontas soltas ou explicações absurdas.

Homem-animal – Espelho, espelho meu

 


Uma das características da fase de Grant Morrison à frente do Homem-animal é a forma inusitada com que ele abordou os personagens da DC Comics, a começar pelo próprio protagonista, que antes só fazia um uso óbvio dos seus poderes, captando habilidades de animais como pássaros (nenhum roteirista antes de Morrison tinha pensando em colocar o personagem para captar as habilidades de uma minhoca para provocar regeneração de membros).

No número 8 da revista, foi a vez de Morrison abordar um vilão, o Mestre dos Espelhos. Aqui a inovação não está exatamente no uso dos poderes, mas na forma como esses poderes são apresentados.

Uma splash page de impacto. 


Na história, o protagonista acorda, vai ao banheiro lavar o rosto e, quando olha no espelho, vê refletido o Homem-animal. “Sabe o que realmente anda errado com nosso relacionamento?”, pergunta a imagem no espelho. “É que a gente não se vê mais cara a cara”, responde a mesma imagem, agora saindo do espelho, em uma tremenda imagem de impacto.

Logo a situação fica clara: o vilão foi contratado por pessoas poderosas, que estão incomodadas com a atuação ecológica do Homem-animal. “Eu tô trabalhando para pessoas que querem te dar uma liçãozinha. Que querem que você saiba que podem te pegar, não importa o que faça ou onde esteja. O que também vale para a sua família.”.

A esposa do herói dá um chute no vilão...


É uma história simples, de luta de herói e vilão, mas lembro que quando li pela primeira vez, na DC 2000 número 14, ela parecia muito descolada e divertida. Também destacava o fato de que Morrison não carregava no texto, ao contrário de outros autores da época, como Chris Claremont. Ali o que contava era a qualidade e não a quantidade. Atualmente, lendo na edição da Panini, percebo que a quantidade de textos e diálogos era de fato bem menor que a média da época. 

... mas quem é atingido é o marido. 


Apesar das qualidades, a história tem um erro de continuidade. Em certo momento, a esposa do Homem-animal dá um chute nos fundilhos do vilão e, no quadro seguinte, aparece o herói caindo em uma poltrona, como se ele tivesse sido atingido pelo chute. Detalhe: não há nenhum motivo para o herói ter caído assim, já que ele não fora golpeado uma única vez na página anterior. Pode ter sido um erro do roteirista, ou do desenhista Chas Truog, vá saber. Em todo caso, foi algo que escapou à editora Karen Berger.

Os quadrinhos e o castelo do Graal

     No livro HE, o psicólogo norte-americano Robert Johson explica a psicologia masculina através do mito da busca do Santo Graal. O personagem principal é o jovem Percival, um cavaleiro da Távola redonda.


Certo dia, durante suas andanças, ele entrou em um castelo belíssimo e imponente. Era ali que estava o Santo Graal, o cálice usado por Jesus durante a última ceia.
Todos o recepcionaram muito bem e ele se sentiu feliz e maravilhado com os poderes do Graal. O cálice podia, por exemplo, fazer surgir a comida que o convidado desejasse. E podia também curar qualquer ferida.

Na manhã seguinte, quando acordou, ele não encontrou mais ninguém no castelo. Estava completamente abandonado, e ele teve de ir embora.
Percival passaria o resto de sua vida tentando encontrar novamente o castelo do Graal.
Para Robert Johnson, o episódio é uma metáfora de algo que ocorre com todos os jovens durante a fase da pré-adolescência.
Essa é uma fase particularmente difícil, pois o menino não é mais uma criança, mas ainda não é adulto.
Todos os meninos entram no castelo do Graal ao menos uma vez na vida e essa experiência irá marcá-los pelo resto da vida. Assim como Percival, eles passarão o resto da existência tentando voltar para o castelo.
O que tudo isso tem a ver com quadrinhos?
Pare para pensar. Se tem mais de vinte anos e continua gostando de quadrinhos é porque há uma boa lembrança associada a eles.
Em outras palavras: muitas pessoas - e eu entre elas - entraram no castelo do Graal graças aos quadrinhos.
Tenho conversado leitores de gibis e todos eles têm algum episódio semelhante ao de Percival.
José Aguiar, desenhista da Manticore, saía de casa todos os dias de manhãzinha com sua bicicleta e ia direto para um sebo próximo de sua casa, onde ele comprava ou trocava gibis.
Essa experiência o marcou profundamente e eu não tenho dúvida nenhuma de que esse foi um dos fatores que o influenciaram a se tornar desenhista.

Lembro que quando estávamos na sétima série a revista preferida de todos era a Superaventuras Marvel. Nós sabíamos a data em que ela chegava nas bancas e saíamos correndo para ver quem chegava primeiro.
Como tinha pouco dinheiro para comprar gibis, eu usava de um estratagema. Eu conhecia um sebo que ficava próximo da Igreja e que vendia revistas a preço de banana. Eu passava lá todo Domingo e comprava as Heróis da TV, que uma amigo da escola colecionava. Depois eu vendia para ele, pelo dobro do preço, mas antes eu lia e relia a revista e esses momentos eram tão sagrados que me faziam esquecer a chateação que era ser obrigado a ir à igreja.
Aquela experiência - comprar a revista e nem esperar chegar em casa para começar a lê-la - era uma verdadeira entrada no castelo do Graal.
Só com a saga da Fênix foram centenas de entradas no castelo do Graal, até porque os X-Men, assim como a busca do Cálice Sagrado, são um mito sobre o fim da infância (prometo falar sobre isso em outro artigo).
Cada vez que eu leio uma HQ é como se eu estivesse voltando àquela época mágica da pré-adolescência.
E quando escrevo histórias, fico imaginando que talvez eu esteja proporcionando a outros garotos as mesmas sensações que eu sentia lendo quadrinhos.
É interessante notar que o tipo de quadrinho que você lê na pré-adolescência vai influenciar seu gosto pelo resto da vida.
O desenhista Antonio Eder odeia super-heróis. Também, pudera: ele passou toda a pré-adolescência lendo revistas Kripta e nesse período nunca botou os olhos num gibi de super-heróis.
O desenhista Bené Nascimento (Joe Bennet) passou essa fase lendo HQs do Jack Kirby. Hoje ele compra qualquer coisa sobre o velho Jack, até caríssimos fanzines importados.
Pare um instante e pense. Se você gosta de quadrinhos, é bastante provável que você tenha, em algum momento, entrado num castelo do Graal feito todinho de histórias em quadrinhos.