sábado, julho 18, 2026

Conan – O povo da escuridão

 

 

Atualmente é impossível dissociar o sucesso de Conan aos artistas filipinos que atuaram principalmente na arte final do traço de John Buscema. Um filipino que raramente é associdado ao personagem é Alex Niño. Entretanto, ele emprestou seu traço único ao personagem em uma história publicada em Savage Sword of Conan 6.

A história, intiluada O povo da escuridão, é uma adaptação de Roy Thomas em cima de uma história de Robert. E. Howard que nada tinha a ver com Conan (Thomas era um especialista nisso) e fala de um homem moderno que, ao penetrar numa caverna, cai de uma escada, bate a cabeça e acorda como um bárbaro de tempos imemoriais.

Os quadros se fundem, fazendo com que a página forme um todo. 


A página de abertura é um exemplo perfeito da maestria de Niño: quadros que vão se ampliando vão mostrando aos poucos um homem que se aproxima enquanto ao fundo vemos uma árvore sombria e o rosto de um homem. Figura e fundos e unem, formando um todo numa técnica que só alex niño parecia dominar.

Na terceira página, o desenhista abstrai até mesmo os quadros, as imagens vão se sobrepondo, mas ainda assim conseguimos entender a ações.

Página mostra o personagem caindo da escada e voltando no tempo: genialidade narrativa. 


O protagonista é Jim O´Brien, um homem apaixonado por uma garota que não consegue se decidir entre ele e outro homem, formando um triângulo amoroso. Ao descobrir que seu rival pretende visitar a caverna de Dagon (uma referência a Lovecraft, do qual Howard era amigo), este desce a caverna para matá-lo.

Mas quando cai, se vê como conan. E aqui, essa história, revolucionária em muitos aspectos, ganha mais um aspecto inovador. Conan está caído no chão da caverna e um flash back mostra como ele chegou até ali: ele participaram da invasão de da cidade de Venarium. Quando andava pelas ruas da cidade, Conan deparara-se com uma garota e se apaixonara pelos cabelos dourados e os olhos acizentados (há aqui uma insinuação de tentativa de estupro).

Conan tenta violentar uma garota, que conta com um protetor. 


Mas a moça tem um protetor, que foge com ela para a floresta e, finalmente, para uma caverna, justamente o local onde vive o povo da escuridão. Ao perseguir o casal, Conan acaba, à certa altura, protegendo a moça dos ataques dessa raça reptiliana.

Estabelece-se um triângulo amoroso que, depois, ao final, irá se refletir nos dias atuais, numa trama muito bem costurada.

Eis uma história que surpreende mesmo os leitores costumazes do bárbaro.

Sweet Tooth

 


Uma doença chamada flagelo mata a maior parte da humanidade. Ao mesmo tempo em que surge, bebês híbridos, humanos e animais começam a nascer. Ninguém sabe se eles são consequência do vírus ou a causa da pandemia. Na dúvida, a maioria das pessoas os odeia e eles são caçados como animais.

Essa é a premissa de Sweet Tooth, série da Netflix baseada nos quadrinhos de Jeff Lemire publicados pela DC Comics.

Sweet Tooth é centrada no garoto Gus, um híbrido de humano e cervo, criado pelo pai em uma floresta isolada de tudo e de todos. Esse idílio é quebrado quando o pai morre e Gus é aprisionado por caçadores e salvo por um homem chamado na série de Grandão. Grandão era um caçador de híbridos, mas a relação com Gus o transforma e surge daí uma amizade improvável. Os dois empreendem uma viagem, em busca de respostas e da mãe do garoto híbrido. No caminho, conhecem uma garota defensora dos híbridos chamada de Ursa. Forma-se assim um trio improvável e disfuncional, mas que magnetiza a simpatia do expectador.

Jim Mickle, o responsável pela adaptação, fez algumas mudanças. Gus, por exemplo, que é um garoto feio nos quadrinhos virou fofo garotinho na série. O tom também é menos cru. A relação de Gus com o pai, por exemplo, é mais afetiva.  

Mas aparentemente, nada do que era realmente essencial na história foi modificado. A premissa das pessoas odiando e perseguindo tudo que é diferente, por exemplo, se mantém. Além disso, o garoto Christian Convery interpreta com perfeição o personagem, conquistando o público desde a primeira tomada.

Muito bem dirigida, a série mistura uma narrativa pós-apocalíptica e uma forte denúncia social com um tom de fábula do tipo que vemos em filmes de Tim Burton, por exemplo. E a trama é envolvente, com personagens carismáticos (interpretados por atores igualmente carismáticos) e sem sequências de pura enrolação como é comum vermos em seriados desse tipo. Tudo ali contribui para a narrativa fluir.

O clima é tão envolvente que acabamos esquecendo que na grande maioria das cenas o único efeito especial é um garoto com uma tiara de chifres na cabeça.

Monstro do Pântano – Estranhos frutos

 


Em gótico americano, Alan Moore revisitou os principais monstros do terror. Nos números 41 e 42 ele abordou os zumbis, como sempre de maneira revolucionária.

Na trama, uma equipe de TV está gravando uma soap opera em um velho casarão sulista. Mas o local está impregnado de tragédia e maldição, um horror que virá à tona quando os atores encarnarem as pessoas reais que moraram ali.

A história começa com uma sequência em visão subjetiva. O leitor entra no casarão e parece ouvir os fantasmas. 


A história inicia como se o leitor estivesse entrando na casa e descendo ao porão até parar numa coluna manchada de sangue. O diálogo é colocado na forma de legendas, como se reverberasse pela estrutura da casa assombrada: a esposa do senhor envolveu-se com um negro. Quando descobriu, o senhor de escravos levou o escravo até o porão e esfolou-o.

A trama pula para os dias atuais e temos novamente um trio, mas agora com papéis trocados: a mulher é racista e tem nojo do ator negro, enquanto o ator que faz papel de seu marido faz de tudo para ser aceito pelo ator negro. Essa situação vai se invertendo quando os fantasmas do passado encarnam nos atores e eles passam a representar o drama real. Ao mesmo tempo, os mortos levantam da tumba e vão até o casarão, exigindo sua liberdade.

A sequência do morto que não consegue descansar é uma das melhroes. 


Curiosamente, as melhores sequências são focadas nos zumbis. É também quando o texto de Moore encontra seu ápice: “Mas uma coisa todos queriam sem exceção: liberdade. Liberdade desse solo ruim, onde ressentimentos enterrados envenenam as raízes do mundo e de todas as culturas. Liberdade dessas terras contaminadas que deitam frutos tão amargos”.

É um zumbi que protagoniza a impressionante sequência final, repleta de humor ácido e critica social. Um dos mortos vivos apresenta-se como candidato à vaga como bilheteiro em um cinema. O próprio dono do cinema afirma que é um trabalho lamentável, em que as pessoas são obrigadas a passar horas sem comer ou ir ao banheiro, por isso poucos ficam muito tempo. “Tudo bem, quando eu começo?”, responde o zumbi. “Olha, gostei da sua atitude. Você não resmunga sobre condições de trabalho nem vem com papo de sindicato. Não se fazem mais trabalhadores assim”. A metáfora é óbvia: algumas vagas de trabalhos são tão entediantes e deploráveis que só poderiam ser ocupadas por zumbis.

A parte final da história é cheia de homenagens a filmes de zumbis. 


Uma curiosidade é que, nessa sequência final, os filmes que estão passando no cinema são todos de zumbis, como A noite dos mortos vivos, o famoso filme de George Romero que redefiniu o gênero.

A guerra dos tronos

 

A literatura de fantasia surge, no século XIX, como uma reação romântica ao racionalismo iluminista. No lugar da ciência e da tecnologia pregados por movimentos como o samsionismo, o romantismo colocava as velhas lendas, bruxos, duendes e gigantes da Idade Média. A opera O anel de Nibelungo, de Richard Wagner, é exemplo disso. Posteriormente, esse novo gênero vai dar origem a todo um novo gênero, com exemplos como O senhor dos anéis, Crônicas de Narnia e Harry Potter.
Entretanto, todas essas obras  sempre tiveram um pé no romantismo dos primeiros tempos. A Guerra dos tronos, de George R.R. Martin mostra que o gênero cresceu e agora já namora com o realismo.
O livro fala sobre um mundo em que as estações podem durar décadas e que existem dragões, zumbis e lobos gigantes. Mas, contracenando com esses seres fantásticos, Martin coloca personagens tão reais que parecem existir de fato. Com óbvia inspiração na Idade Média, mas uma Idade Média real, o livro mostra prostitutas, complôs, bebedeiras, sexo e muita, muita violência.
Os protagonistas são a família Stark, Lorde Eddard, sua esposa Catelyn, seus filhos Robb, Sansa, Arya, Brandon, Rickon e o bastardo Jon. Os capítulos, titulados com os nomes dos personagens, acompanham a maior parte da família em suas desventuras a partir do momento em que Eddard, senhor de um feudo no norte, é convidado pelo soberano e amigo Robert para se tornar a mão do rei, o que joga a todos no meio das intrigas da corte.
Mas há dois personagens que, embora não sejam protagonistas desse primeiro livro, chamam atenção: Danny, um sobrevivente da família real destronada por Robert, que evolui de uma garota tímida e amedrontrada pelo irmão para uma mulher forte (refletindo, provavelmente, o poder que as mulheres ganharam na Europa a partir das Cruzadas) e Tyrion.
Tyrion é um dos melhores vilões da literatura. Fiel ao realismo, Martin escreveu um livro em que até o vilão é um personagem interessante, conflituoso, que, embora rejeitado pela família, faz tudo para mantê-la no poder. Anão, aleijado e feio, Tyrion compensa suas limitações físicas com um intelecto privilegiado e a estratégia de um jogador de xadrez. Mesmo em situações em que o leitor o imagina morto, ele consegue reverter a situação a seu favor. É tão interessante que, a certo ponto, a maioria dos leitores começa a torcer por ele. Não bastasse isso, ele se confraterniza com Jon, do clã Stark, por sentir que ambos são excluídos. Desde já é um vilão que ficará imortalizado na literatura e na cultura pop.
Aliás, Tyrion representa bem algo que poderia ser uma máxima de Guerra dos Tronos: nada é o que parece. Fã de quadrinhos, George Martin parece inspirar-se neles para colocar reviravoltas em cima de reviravoltas na trama, muitas das quais parecem seguir na direção do romantismo, mas logo dão uma guinada rumo à realidade. A primeira transa do duende (como ele é chamado) representa bem esse ponto de vista. Um dia ele e o irmão andavam pela estrada quando viram uma jovem donzela sendo perseguida por malfeitores. O irmão tratou de perseguir os ladrões, enquanto ele socorria a jovem. Foram para a cama e ele se apaixonou tanto os dois se casaram, escondidos do pai. Ao saber, este obrigou o irmão a revelar a verdade: a garota era na verdade uma prostituta e tudo não passara de uma brincadeira para que o anão tivesse sua primeira noite de amor. Como lição, o pai deu a “esposa” aos guardas, cada um dos quais a pagou com uma moeda de prata: “ela tinha tantas peças de prata que as moedas escorregavam entre seus dedos e rolavam para o chão. Lorde Tywin obrigou-me a ser o último. E deu-me uma moeda de ouro para pagá-la, porque era um Lannister, e por isso valia mais”.
Essa guinada é visível também nos capítulos centrados em Sansa. Todos começam com um insuportável tom açucarado, mas logo a realidade se revela. Exemplo disso é o capítulo sobre o torneio, ao final do qual a herdeira do clã Stark descobre que um rapaz morto durante o torneio foi na verdade assassinado.  
Não confie nos seus olhos, parece dizer o autor: o belo e atencioso príncipe pode se revelar um vilão muito mais cruel do que o seu deformado segurança.
Outro mérito de Guerra dos tronos é a questão das descrições. Um dos pontos mais criticados em obras como O Senhor dos Aneis é o excesso de descrições de paisagens, algumas delas insuportáveis. George Martin também as utiliza em grande quantidade, mas prefere descrever ações (quase sempre num estilo cinematográfico): “Gritando, Bran caiu da janela de costas para o vazio. Nada havia a que pudesse se agarrar. O pátio correu ao seu encontro. Em algum lugar, ao longe, um lobo uivava. Corvos voavam em círculos sobre a torre quebrada, esperando milho”.
Em outras ocasiões, as descrições são usadas para caracterizar os personagens: “Os olhos dele abriram-se de repente e olharam-na, e neles nada havia além da repugnância, nada além do mais vil desprezo. – Então vai – ele cuspiu. – E não me toque”.
Não por acaso, Guerra dos tronos deu origem a um seriado de sucesso pela HBO: o livro é um ótimo roteiro, já decupado.
Em tempo, vale lembrar que a iniciativa de George Martin de trazer o realismo para a literatura de fantasia já havia sido usada por Robert Edward nas histórias de Conan, que praticamente definiram o gênero espada e magia, mas as limitações dos pulps onde este publicava suas histórias o impedia que avançar em todos os sentidos. Sem esses limites, Guerra dos tronos eleva esse gênero a um novo patamar.

A complexidade em escalas: como Watchmen ajudou a divulgar a Teoria do Caos


Hoje em dia é praticamente impossível falar de Watchmen sem citar a Teoria do Caos, mas, para que não sabe, eu fui a primeira pessoa no Brasil a dizer que Watchmen é baseada na Teoria do Caos, no meu TCC, lá no longícuo ano de 1993. Depois, no meu mestrado, destrichei todos os elementos da Teoria encontrados na obra, como o uso de fractais para construir a trama e a narrativa visual. Esse artigo, publicado na revista Puçá, resume essas características e explica como a obra de Alan Moore e Dave Gibbons ajudou a popularizar a Teoria do Caos. Para ler, clique aqui



A arte de Simon Stalenhag que inspirou Contos do Loop

 


Com o sucesso da série Contos do Loop na Amazon o trabalho do ilustrador sueco Simon Stalenhag ficou mundialmente conhecido. Suas imagens misturando ficção científica com nostalgia foram a principal fonte de inspiração para os episódios e realmente são quadros que dão asas à imaginação. Confira alguma de suas pinturas. 








Howard, o pato

 


A década de 1970 na Marvel foi a era dos quadrinhos estranhos, fora da caixinha. A regra parecia ser “não há regra” – e eram muitas as experimentações. Surgiram desde quadrinhos sobre heróis espirituais, como Warlock, até quadrinhos sobre artes marciais (Mestre do Kung-fu). Até personagens clássicos, como o Dr. Estranho, tiveram aventuras que saiam completamente do comum – com o personagem contracenando com uma lagarta fumadora, por exemplo. Tudo isso capitaneado por uma geração de hippies que aproveitou ao máximo a abertura que a indústria de entretenimento estava lhes dando naquele momento.
Mas nenhum quadrinho foi tão revolucionário, tão fora da caixinha quanto Howard, o pato.
 O personagem surgiu como coadjuvante em uma aventura do Homem-coisa, escrito por Steve Gerber e desenhado por Val Maverick.
O monstro se envolvia em uma trama de encontros de realidades e – entre os personagens que surgiam estavam um bárbaro e um pato falante. Ao final da história, o pato simplesmente sumiu em meio às realidades, desaparecendo da história.


Seria o fim dele, mas os leitores gostaram do personagem e começaram a escrever para a Marvel pedindo mais histórias com aquele personagem. Roy Thomas, editor-chefe da editora na época, achava que o personagem não se sustentaria num título, mas Gerber garantiu que daria conta do serviço e o personagem ganhou uma segunda chance, primeiro na revista do Homem-coisa, depois com título próprio. O desenho ficou sob a responsabilidade de Frank Brunner (que havia ilustrada a fase mais lisérgica do Dr. Estranho) e depois de Gene Colan.
E eram aventuras absolutamente subversivas. Howard, depois que quicar em várias realidades, vem parar na terra, onde encontra uma linda moça que seria sua parceira e passa a viver suas aventuras enfrentando os tipos mais estranhos, a exemplo do Homem-nabo (vindo de uma espécie de vegetais agressivos que superaram os limites de suas raízes para se tornarem empreendedores galácticos), O Pestana (um artista com sonambolismo) e muitos outros.


Em uma das histórias, a dupla é vítima de uma gangue de valentões e Howard se torna mestre de Quac Fu em apenas três horas de treino!!! Aliás, essa é uma das aventuras mais divertidas, uma belíssima brincadeira homenagem ao personagem Shang Chi, da Marvel desenhada por John Buscema.
Howard não parava. Em um momento ele estava enfrentando um mágico contador espacial, em outro estava na cidade grande se deparando com uma velha gorda e adepta de teorias da conspiração, em outro estava num castelo vitoriano caindo aos pedaços enfrentando um monstro Frankstein feito de biscoito. Em outras palavras: era piração em cima de piração.
O ponto alto desse processo é quando o Partido Noturno resolve lançar Howard como candidato à presidência – e este passa a ser alvo de todo assassino profissional do país.
O personagem fez tanto sucesso que se tornou filme, uma película pouco inspirada que tinha pouco a ver com toda a subversão dos quadrinhos.

sexta-feira, julho 17, 2026

Kull, o conquistador

 

 

O rei Kull, criação de Robert E. Howard, o mesmo de Conan é um daqueles exemplos de um nome que parece bom no país de origem, mas tem um péssimo significado em outros locais. As piadas com ele, na década de 1980, eram inúmeras, a mais óbvia delas: “Esse rei é um kull!”.
O personagem, no entanto, tinha ótimas história e uma equipe de estrelas. Os roteiro eram de Gerry Conway (o roteirista que Roy Thomas queria originalmente para Conan) e os desenhos dos irmãos John e Mary Severin. John tinha sido um dos melhores desenhistas da EC Comics e seu traço é muito conhecido aqui pelas histórias publicadas na revista Kripta. O trabalho dos irmãos não era tão detalhado nas histórias de Kull (até porque as HQs iam receber cor), mas mesmo assim impressionavam pela qualidade. Já Conway conseguia definir bem o personagem, diferenciando-o de Conan em histórias repletas de intrigas palacianas, monstros e magia (incrível como havia monstros naquela época!).
Kull recebe um pedido de ajuda... 


Um bom exemplo do entrosamento desse trio é a história “Um reino em alto-mar”, publicada no quinto número da revista Kull The Conqueror e no número 23 de Superaventuras Marvel.
Na história, um embaixador de uma ilha distante procura Kull para pedir ajuda numa guerra com os vizinhos de outra ilha. Ao chegar ao local, os valusianos descobrem que ali havia apenas uma ilha que, dividida, deu origem a dois povos inimigos. Por tras disso, claro, há tramas e subtramas e muita traição.
... o que dá origem a uma história de tramas palacianas e magia. 


Conway consegue desenvolver bem a HQ, contando uma história longa, repleta de informações, em poucas páginas.  

Bonnie e Clyde

 

Bonnie e Clyde, filme de 1967, produzido e idealizado por Warren Beatty e dirigido por Arthur Penn, abriu caminho para a Nova Hollywood, a geração de cineastas que revolucionou o cinema norte-americano com obras como Sem Destino e O poderoso Chefão. O tema básico dessa geração já estava lá: o conflito de gerações, que aparece com maior destaque no final. Para quem não sabe, os dois eram assaltantes de bancos que ficaram famosos na década de 1930. Nessa época de depressão, muitas pessoas estavam perdendo suas propriedades para os bancos (fato muito bem mostrado no filme Vinha da Ira) e a população logo se identificou com a dupla, muitas vezes protegendo-os. Para a geração do final dos anos 60, a identificação foi imediata: eles eram como o casal, em busca de aventura e novidades, e a polícia representava a geração anterior, conservadora. 
Dizem que Warren Beatty se jogou aos pés do presidente da Warner (que já estava praticamente falindo na época) para fazer esse filme. Ao invés de receber um cachê normal de astro, ficou com 40% da bilheteria, o que o tornou milionário quando o filme (indo contra todas as expectativas do estúdio) se tornou um sucesso de bilheteria. 
Um dos aspectos curiosos do filme foram as adaptações feitas no roteiro. Na história original, Clyde era bissexual, e só conseguia se excitar com a presença do terceiro membro da gangue, C.W. Moss. Os executivos proibiram essa parte do roteiro e a solução foi sugerir que o personagem tinha problemas de ereção, o que, de certa forma aumentou a tensão entre o casal, deu um ar de humanidade ao personagem e colocou a relação entre Bonnie e Clyde num patamar mais complexo, já que ficamos o tempo todo os nos perguntando o que os mantém juntos (talvez o gosto pela aventura). 
Uma figura central no sucesso do filme foi o roteirista Robert Towne. Towne era extremamente inseguro quando estava escrevendo um roteiro próprio, mas era o melhor para consertar roteiros de outros. Uma das maiores contribuições dele foi antencipar uma cena que acontecia após a visita de Bonnie à mãe. A gangue rouba um carro e, no final, acaba dando carona aos donos do carro. O grupo está se divertindo quando Clyde pergunta ao homem qual a sua profissão. Agente funerário, diz ele. Bonnie ordena: "Tirem esse cara daqui". A cena, antecipada, marca o final do segundo ato e o início do terceiro ato. Dali em diante sabemos que o fim do casal está próximo e que eles serão mortos. 
Uma curiosidade sobre o filme é que o seu sucesso entre a nova geração foi tão grande que a boina usada por Bonnie se tornou moda entre as garotas do final dos anos 60.

Monstro do Pântano: pontas soltas

 


Antes de reformular o personagem Monstro do Pântano, na história Lição de Anatomia, Alan Moore escreveu uma história do personagem pouco conhecida, publicada em Swamp Thing 20. Intitulada “Pontas soltas”, o objetivo era exatamente esse: fechar as pontas soltas deixadas pelo roteirista anterior, Martin Pasko, preparando terreno para a reformulação do personagem.
Pontas soltas é injustamente pulada nas antologias do personagem. É Alan Moore na sua melhor forma. E os desenhos de Dan Day não deixam nada a desejar aos outros artistas que trabalharam com o personagem na fase mais famosa, como Stephen Bissette. Sob a orientação de Moore, Day cria diversas páginas espelhadas e a página de abertura, com uma moldura no formato de colunas que desmoronam é espetacular.
Uma das páginas espelhadas da história.

A história se passa logo depois do confronto do Monstro com Arcane, cuja nave cai, provocando sua morte. A corporação Sunderland aproveita a oportunidade para tentar matar o monstro e seus amigos. Como sabemos, o personagem é aparentemente morto, para renascer como elemental na história lição de anatomia.
Talvez o maior impacto dessa história seja sobre Lizabeth Tremayne e seu namorado, Dennis Barclay. Ela uma jornalista renomada, ele um veterano do Vietnã. À certa altura ela solta a frase “Tudo que temos em comum é o horror em nossas vidas”, o que fará com que Dennis a envolva numa teia de falsas conspirações como forma de manter seu amor através do medo. Essa relação abusiva seria abordada em Swamp Thing 54, 34 números depois desse gancho ter sido lançado, o que mostra a habilidade de Moore para pensar a trama a longo prazo.

Uma família segurada

 


Era uma família segurada. O pai, Rivaldo, fizera a primeira apólice como presente de casamento para a esposa. Se ele morresse nas núpcias, já estava tudo arranjado...

Em seguida nasceu a primeira filha, Patrícia, e Rivaldo providenciou logo um seguro para a esposa, tendo como beneficiária a filha.

Em uma noite escura e tempestuosa, berrara pela primeira vez Roberto, o caçula. O pai achou que era um mal agouro e fez um seguro para Patrícia, tendo como beneficiário o irmão.

Desde então, a família pegou a febre do seguro. Carro, bicicleta, casa, móveis, até os seios de Márcia (que, aliás, eram belíssimos) foram segurados.

Viveram felizes por vários anos, coberto pelo manto protetor de duas ou mais dezenas de apólices. Até aquela tarde...

Márcia fora visitar o marido no escritório e tivera de esperar ao lado da Secretária.

- O seu Rivaldo está ocupado. A senhora espera um instantinho... – sugeriu a Secretária.

- Só dez minutos, advertiu Márcia.

Esperou meia-hora. Só então a porta se abriu e saiu dela um homem gordo, vestindo um terno antigo e suando bicas. Era um segurador. Márcia conhecia-o muito bem. Vira-o várias vezes em sua casa. Mas, de tudo que tinham, apenas um candelabro velho que ficava jogado no porão ainda não fora segurado. Não, não podia ser. Não, a explicação era outra: o sacripanta arranjara uma amante. E, não satisfeito, ainda fazia um seguro para a concubina... Hipócrita, desavergonhado, fanfarrão!

Havia de se vingar!

A partir daquela tarde, a vida de Rilvado passou a ser uma contagem regressiva. Até que aconteceu. Numa noite de chuva, o freio falhou. Os pneus derraparam, o carro despencou num despenhadeiro e explodiu. Não sobrou muito para ser investigado.

Márcia recebeu o seguro do marido e do carro. Estava feita! Comprou uma casa nova – bem maior – contratou um motorista, colocou o resto do dinheiro no banco e viveu numa boa desde então. Ou viveria, se não fosse aquela tarde...

Se havia uma coisa que enervava completamente Patrícia, era a matemática. Odiava fazer as lições de casa e já tinha repetido um ano na escola por causa da dita. Naquela tarde, ela e a mãe tiveram uma briga dos diabos. Márcia queria obrigá-la a fazer a lição de casa.

- Eu não preciso fazer a lição de casa, eu sou rica! – gritou a garota.

- Ah, é? Pois fique sabendo que enquanto eu estiver viva, você não toca em um tostão... aliás, pode ir esquecendo a mesada, que este mês não tem!

Foi uma briga feia! Feia demais por sinal. Se fosse um pouco mais esperta, Márcia teria se preocupado com a expressão maquiavélica que a filha passou a ostentar desde então. Passava horas trancada no quarto e andava com ares de quem pensa – o que, aqui para nós, era bastante raro naquela família...

Por fim, aconteceu. Foi durante o banho. Um fio solto provocou um curto circuito e eletrocutou a dona da casa. Quando finalmente desligaram a chave, não havia sobrado muita coisa de Márcia para ser enterrado.

Estavam ricos. Patrícia com 18 anos e Roberto com 16, sozinhos em casa, donos de seu futuro. Era a vida que qualquer jovem pediria a Deus, mas não Patrícia. Pegara o gosto pela coisa e a lembrança de que teria de dividir a herança com o irmão simplesmente a aterrorizava. Resolveu, então, matá-lo. Mandou preparar um jantar especial, dispensou os empregados e armou o seu circo.

- Jantar à luz de velas, maninha? – perguntou Roberto, entrando na sala.

- Claro! Antes de morrer, papai fez um seguro para este candelabro velho. Coloquei aí para ver se quebra... pedi à cozinheira para fazer seu prato predileto... isso tudo para o meu irmãozinho predileto...

Sentaram-se.

- Vejo que temos vinho. – observou Roberto.

- É do Porto. Não faz mal mexer na adega de vez em quando, não é? Especialmente para ocasiões especiais.

- Claro, passe a garafa.

- Não, deixe que eu o sirva...

- Está bem, mas só se você deixar que eu a sirva...

- Claro.

Serviram-se. Disfarçadamente, Patrícia despejou um pouquinho de pó no copo. Era um veneno feito especialmente para não deixar vestígios. Tivera um grande trabalho para conseguir...

Tilintaram os cristais, beberam de uma só vez e ficaram sorrindo um para o outro.

Patrícia foi a primeira a falar:

- Sabe, maninho, que você é um tipo insuportável?

- Pode ter certeza de que tenho os mesmos sentimentos com relação a você...

Patrícia cortou-o:

- Mas eu tomei providências para que isso não dure muito!

De repente uma dor aguda despontou como uma alfinetada no peito de Patrícia. O sorriso desapareceu do rosto de Roberto. Foi substituído por grandes rugas de dor.

- Não me diga que... – gemeu ele.

- ... você colocou... – continuou Patrícia.

- ...Veneno no vinho! – completaram juntos.

Deram um último suspiro e morreram um nos braços do outro. Teria dado um bom dinheiro de seguro...

Fundo do bau - Falcão Azul

 


Falcão Azul é um desenho animado da Hanna-Barbera criado em 1976 como uma sátira dos quadrinhos de Batman e Robin.

A trama gira em torno do milionário Radley Crown que combate o crime disfarçado como o sério herói Falcão Azul. Para ajudá-lo (ou atrapalhá-lo), ele conta com um parceiro canino, o robô Bionicão, que usa uma máscara e tem até uma identidade secreta (o cachorro Dinamite).  

As semelhanças com Batman são tão grandes que o personagem é chamado através do falco-sinal e anda num falcomóvel.  

A dupla defendia a cidade de Cidadópolis de vilões como a Liga da Injustiça da América, o Abutre Vermelho. Tim kong e o Minhoca, um gênio cujo cérebro foi transplantado para uma minhoca e anda no Minhocão, um carro no formato de... minhoca!

Normalmente nas histórias, o herói está pronto para capturar o vilão quando o Bionicão se atrapalha com suas bugigangas tecnológicas, o que faz com que eles fujam. No final, claro, tudo acaba dando certo.

Uma curiosidade é que, embora no Brasil o destaque fosse para o Falcão Azul, originalmente o desenho levava o nome do Bionicão (Dynomutt, Dog Wonder, em inglês).