segunda-feira, março 02, 2026

Lições literárias

 


Quando conheci Afonso, aos 14 anos, eu só tinha lido um livro, Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida. Afonso já  tinha lido todo Lobato, infantil e adulto, alguns livros de Freud e estava começando a ler Jung  em edições bonitas, encadernadas, que ornavam a sala de sua casa.
Essas  três coleções tinham história. Haviam pertencido ao seu padrinho, sargento do exército. Em plena ditadura, era um militar de esquerda. Um dia bateu na porta da família do afilhado com caixas repletas dessas coleções:
- Me descobriram. Eu vou sumir. Esses livros ficam de presente para o Afonso.
Nunca mais ouviram falar dele. Não se sabe se foi pego pelos órgãos de repressão, ou se fugiu para outro país.
Afonso tinha um ciúme atroz  desses volumes encadernados. Coisa de colecionador. Mostrava o que estava lendo, comentava, lia um trecho, mas não me deixava nem tocar no exemplar.
Talvez isso tenha aguçado minha curiosidade pela leitura.  Como não tinha livros em casa, tive que ir desbravando outros caminhos. Descobri os sebos e muitas vezes voltava a pé para casa, pois havia gastado o dinheiro da passagem com livros e gibis. 1984, de George Orwell, custou exatamente o valor de uma passagem de ônibus, depois de muito choro com o dono do sebo. Um outro livro que custou o preço exato de uma passagem de ônibus foi um volume argentino sobre história romana, com o qual não só aprendi sobre Roma, mas também comecei a dar os primeiros passos na língua espanhola.
Descobri também a biblioteca pública, em especial a seção circulante, que emprestava  livros. Pegava um livro por semana, religiosamente. Passava horas  olhando entre as estantes, lendo trechos, sorvendo um gostinho da obra. Na dúvida, levava Júlio Verne.  E nunca me arrependi. Entre os vários xodós, um exemplar de Viagem ao centro da terra com um texto  delicioso e ilustrações de um artista espanhol. Talvez  da mesma coleção (lembro que o ilustrador também era espanhol), um outro livro que me fascinou por seu intimismo: Robison Crusoe, um livro com um único personagem na maioria dos capítulos. E, claro, Lobato, mas esse eu emprestava pouco. Havia muitos livros dele em sebos e fui comprando um a um, muitos da mesma coleção encadernada em verde que eu via na casa do Afonso.
Na circulante havia um quadro onde eram colocadas pequenas resenhas escritas pelos leitores. Quando emprestei meu primeiro livro (um ótimo volume de contos de HG Wells), a bibliotecária sugeriu que eu escrevesse uma resenha para o quadro. Escrevi e na semana seguinte escrevi outra, e outra e outra, até que o quadro fosse totalmente tomado por resenhas de minha autoria.
Eu seguia também as sugestões da bibliotecária, algo muito útil para quem leu um livro por semana, por anos a fio. Meninos de engenho, de José Lins do Rego, foi dessa safra.
Ler era um prazer e, ao mesmo tempo, uma competição. Como na fábula do coelho e da tartaruga, eu largara muito atrás, mas queria vencer a corrida. Queria ler mais livros que o Afonso. Felizmente para mim, ele era como a tartaruga, lento para ler e preguiçoso para escrever. Aos 17 anos  eu já  tinha lido mais livros que ele, todos registrados em um caderno.
Além de, mesmo por vias tortas, me despertar o interesse pela leitura, Afonso, muito influenciado por Lobato, me ensinou uma grande lição: a propriedade no uso das  palavras.
No meio da  conversa ele soltava uma expressão que eu não conhecia e perguntava:
- Entendeu?
- Entendi, claro.
Ele  ralhava:
- Entendeu nada. Você nem sabe o que essa palavra significa.
Como eu negasse, ele me desafiava a definir o verdadeiro sentido da expressão.
Eu gaguejava, gaguejava, gaguejava, até que finalmente admitia ser era ignorante com relação àquele termo. 
Era humilhante, mas era  também uma lição: nunca finja entender de algo que não sabe  e, principalmente, nunca use palavras cujo significado não esteja muito claro para você.
Hoje vejo muitas pessoas  ansiosas por “falar difícil” usando expressões cujo significado desconhecem e penso: essas aí deveriam ter tido um amigo como o Afonso e um mestre como Lobato.  
Afonso passou anos se preparando nos melhores colégios, mas, mesmo com sua inteligência a e seu texto irrepreensível, não passou no vestibular. Foi para o Rio de Janeiro e nunca mais nos falamos. Era  época pré-internet e as minhas cartas levavam semanas para chegar e as respostas  às vezes  meses, até se esgotarem completamente. À moda de Carlota Joaquina, ele dizia que não queria levar nada de sua estada em Belém, nem mesmo os amigos.  A última notícia que tive dele é que tinha se envolvido com drogas e tinha abandonado dois curso de graduação, um deles de psicologia. Eu já trabalhava como jornalista  quando uma conhecida em comum me disse que ele ainda era sustentando pelos pais e não estava  estudando ou  trabalhando.
Mesmo com toda sua arrogância e egoísmo, Afonso despertou em mim o lado intelectual, o interesse pela leitura e o gosto por escrever de maneira clara.  Foram verdadeiras lições literárias. 

Os pilares da terra

 


Em Os pilares da Terra, Ken Follett construiu uma obra grandiosa, uma verdadeira saga em torno da construção de uma catedral na Inglaterra do século XII.
A história se passa entre os anos de 1123 e 1174. É um período de transformações que irão se refletir principalmente na arquitetura. Até então, as catedrais eram edifícios atarracados, de paredes grossas e janelas pequenas, locais escuros e insalubres. Aos poucos irão se transformar em imponentes edifícios esbeltos, belos, altos, com amplas janelas enfeitadas de vitrais coloridos que filtravam a luz do sol provocando grande deslumbramento nos que as visitavam.
Follett foca sua narrativa na construção de uma catedral fictícia, Kingsbridge e em um homem, Tom Construtor. Mas a narrativa envolve também uma ampla variedade de personagens, do prior de Kingsbridge a uma mulher que se refugiou na floresta depois de amaldiçoar pessoas poderosas que haviam condenado seu marido à forca. É também uma saga que se desenrola por décadas, o tipo de livro no qual vemos os personagens nascerem, crescerem, envelhecerem, acompanhamos seus sonhos, suas frustações e vitórias.
Concentrando tudo, como personagem principal, a catedral. O autor mostra como a construção de uma igreja de tamanha envergadura muda tudo ao seu redor: do comércio que se desenvolve aos conflitos palacianos que se desenvolvem (um dos vilões do livro é um bispo, que jura impedir a construção).
Follett maneja bem duas instâncias aparentemente opostas: a realidade e a ficção. Assim, ele mistura fatos e personagens reais (o mártir São Tomás Becket merece toda uma sequência) com pura ficção. Aliás, o romance pode ser visto ele mesmo como uma catedral: os fatos e pessoas reais são o cimento, que dão sustentação para os tijolos ficcionais.
A narrativa de Follett passa longe de ser elaborada: ele é um escritor que parece estar mais interessado na costura da trama do que em jogos literários. Isso certamente foi um fator que fez o livro se tornar um best-seller, apesar de seu tema de pouco apelo popular. O roteiro é redondo, sem falhas, com fatos que se encaixam perfeitamente, personagens que parecem não ter importância, mas se revelam fundamentais para a trama e segredos que são revelados no momento exato.
A obra é um verdadeiro tijolaço. São quase mil páginas de texto, mas que prendem o leitor – em especial após o primeiro terço. E, ao final, aquilo que poderia afastar o leitor – os detalhes sobre a arquitetura da época – acaba se transformando em uma atração a mais. Eu, ao menos, fiquei curioso para conhecer mais sobre o assunto.
Um único ponto negativo é a capa pouco inspirada da edição encadernada da editora Rocco. Em um livro sobre uma catedral e seus monges e construtores, usaram a imagem de soldados combatendo em frente a um castelo.

Jornada nas estrelas: O fator alternativo

 


O fator alternativo, episódio da primeira temporada da série clássica de Jornada nas Estrelas escrita por Don Ingalls é uma daquelas histórias que tinham tudo para serem grandes, mas que acabam se tornando um desastre.
Na trama, a Entreprise se depara com uma turbulência magnética ao entrar na órbita de um planeta. O fenômeno é descrito como uma piscadela, um momento em que o universo parece deixar de existir.
Ao descer para investigar, Kirk encontra um homem que diz estar lutando contra um demônio responsável pelo evento. De fato, nos momentos em que ocorre a perturbação magnética, Lazarus e o demônio parecem lutar e tudo leva a crer que ele pode estar falando a verdade. Mas Lazarus também parece enlouquecido na maior parte do tempo.
(A partir daqui, teremos spoiller, então leia por sua conta e risco).
A cena com efeitos mequetrefes é repetida à exaustão. 

No final, descobrimos que na verdade, o “demônio” é a contraparte do próprio Lazarus de um universo de antimatéria. Assim, o encontro dos dois Lazarus provoca as “piscadelas” em que o universo parece oscilar. Mas, pela lógica do próprio roteiro, o simples encontro dos dois faria com que ambos os universos deixassem de existir. Para explicar o fato do universo ainda existir, o roteirista tira da cartola um “corredor” entre as duas dimensões, em que os dois podem se encontrar sem destruírem seus universos, um verdadeiro deus ex machina.
Como essa trama confusa não sustenta um episódio de 50 minutos, o diretor é obrigado a repetir à exaustão longas cenas dos dois Lazarus brigando num efeito bem mequetrefe. A caracterização do personagem, com um longo bigode artificial, também não ajuda.
Em tempo: pelo que pesquisei, o roteiro foi modificado. No original, Lazarus tinha um romance com uma tripulante negra, algo que foi cortado para evitar problemas com a censura (na época casais interraciais eram mal vistos). É possível que a história original não fosse tão vergonhosa.

Rio Pedreira Eco Hostel

 



O Rio Pedreira Eco Hostel fica em Santo Antônio da Pedreira a 45 km de Macapá, indo pela AP 070 (rodovia do Curiaú). São três chalé à beira do rio Pedreira. 

Cada chalé tem o nome de uma localidade: Santo Antônio, Lontra e Abacate. O Lontra é o maior, contando com duas camas de casal e uma cama de solteiro. Os outros têm uma cama de casal e uma cama de solteiro. Os chalés contam ainda com geladeira, fogão, pia, churrasqueira, talheres, pratos e panelas. 

O local não serve comida, então é necssário levar tudo que for consumir, inclusive água. Em Santo Antônio existe uma mercearia que vende itens básicos, como água, ovos e pão. Também é possível comprar queijos regionais. 

O grande atrativo do Rio Pedreira Eco Hostel é a proximidade com a natureza e a bela paisagem. Os chalém ficam próximos da floresta e é possível ouvir todo tipo de sons do mundo animal, incluindo o ritual dos macacos bugios, cujos urros são ouvidos por toda a região. Esse ritual normalmente acontece no início da manhã e da noite. A proximidade com a floresta também torna a temperatura muito mais agradável do que na cidade. 

Outra atração, claro, é o rio. O local conta com um tablado, o que facilita para quem está com criança. Mas atenção: a correnteza pode se tornar forte, então é preciso atenção total aos pequenos. 

Enfim, o Rio Pedreira Eco Hostel é um local para ir com a família, relaxar e se divertir. 

As diárias custam 150 reais por casal (pessoas a mais pagam 50 reais cada - crianças até 6 anos não pagam). As reservas devem ser feitas com a simpática proprietária do local, a Sandra, pelo número (96) 991156162.  

O local conta com três chalés. 


Todos os chalés têm cama de casal e solteiro. Também é possível armar rede. 

A estrutura dos chalés conta com fogão, geladeira e churrasqueira. 

A belíssima paisagem é um dos atrativos do local. 

As refeições podem ser feitas do lado de fora dos chalés. 

Um tablado torna mais seguro o banho no rio Pedreira. 

A ABNT e o professor que ensinava os alunos a fazerem parafusos e porcas

 


Uma ex-aluna de pós-graduação atualmente é professora de metodologia científica (ótima professora, por sinal) e sempre que surge uma dúvida, ela vem me procurar. Certa vez ela me contou que na faculdade em que ele trabalhava havia um professor de ética que dizia aos alunos que tudo que ela ensinava para eles estava errado. “A ABNT mudou completamente. Agora não é nada mais disso”. E ensinava para os alunos o que ele achava ser o jeito certo.
Aconselhei-a a perguntar qual tinha sido a NBR que mudou. Explico: ABNT significa Associação Brasileira de Normas Técnicas. O que muda não é a ABNT, o que muda são as normas, as NBR.
Pois bem, ao ser indagado que NBR tinha mudado, o professor gaguejou e finalmente respondeu: a NBR 36.
Essa minha amiga não sabia o que era a NBR 36, e nem eu, então entramos no site da ABNT (http://www.abntdigital.com.br) para descobrir que tipo de norma era essa. Para nossa surpresa, a NBR 36 existe, é de 1981, não é mudada desde aquela época e fala sobre... PARAFUSOS E PORCAS.
Ou seja, o tal professor estava ensinando os alunos a fazerem trabalhos universitários baseado em uma NBR sobre parafusos e porcas. Desculpem, mas não posso deixar de pensar que esse professor tem algum tipo de problema: ou é no parafuso ou é na porca...
Meninos, quando alguém aparecer dizendo que a ABNT mudou completamente, pergunte qual NBR mudou, quando e o que mudou. Se o professor não souber dizer, pode ter certeza de que ele não entende nada do assunto. A ABNT tem centenas de normas e às vezes muda a norma de papel higiênico e muita gente sai por aí dizendo que as normas para fazer trabalhos científicos mudou. Qualquer dúvida, consulte o site da ABNT.

Uma Carta à Minha Juventude: O Poder do Reencontro

 


É da Indonésia que vem uma das produções mais emocionantes exibidas pela Netflix nos últimos tempos. Trata-se do longa-metragem Uma Carta à Minha Juventude, dirigido por Sim F.

O filme acompanha Kefas, um homem bem-sucedido assombrado por um segredo do passado, o que o torna extremamente protetor com sua filha. Essa característica é exemplificada logo no início, quando ele corre com a menina para um hospital em desespero, apenas para descobrir que ela não tem nada de grave.

O velório de um antigo cuidador de um asilo o faz embarcar em uma viagem ao passado, e nós voltamos junto com ele, passando a conhecer as razões de seu comportamento no presente. Kefas perdeu a irmã muito jovem quando um cuidador, preocupado em roubar a comida do abrigo, negligenciou o socorro médico. Esse trauma fez com que Kefas passasse a infernizar a vida de todos os cuidadores que assumiam o emprego posteriormente.

A situação muda quando o senhor Simon é convencido por um amigo a assumir o cargo. Simon carrega sua própria trajetória de tragédias: seu filho morreu em um acidente de moto e a esposa faleceu pouco depois. Apático, seu único plano para o futuro é morrer.

O encontro dessas duas figuras atravessadas pela perda — inicialmente marcado pelo estranhamento — gera uma mudança mútua que encanta o espectador. Divertido, emocionante e memorável, Uma Carta à Minha Juventude transita por diversos gêneros, apresentando desde números musicais muito bem executados até cenas de ação, destacando-se principalmente pela atuação magistral do elenco infantil.

domingo, março 01, 2026

Fundo do baú – É o lobo

 


É o lobo é um animação da Hanna-Barbera de 1969 cujas histórias giravam sempre em torno da mesma trama: um lobo (chamado no Brasil de Lobo Bobo) tentando pegar um carneirinho para comer e sendo impedido por um cão pastor.

Era um humor de repetição, com o Lobo Bobo sempre criando os disfarces mais absurdos, o carneirinho ingênuo a princípio sendo enganado e ele finalmente descobrindo e chamando o cachorro (“É o Lobo! Sim, é isso mesmo, é o lobo. É o lobo!”). Os roteiristas, no entanto, compensavam essas repetições com ótimos diálogos, que brincavam com trocadilhos, rimas e todo tipo de jogos de linguagem.

Em certo episódio, por exemplo, o carneirinho canta: “Era uma vez um carneirinho que foi passear...”. “Na boca do lobo ele foi parar”, completa o lobo.

Os diálogos do lobo com o protetor do carneirinho também era impagáveis. “Em que posso servi-lo?”, pergunta o cachorrão. “Carneiro ensopado”, implora o lobo, como se de fato o outro fosse atendê-lo.

Mas as melhores falas são do carneirinho, quando ele encontra o lobo: “Ei, quem será aquele ali? Será um canguru de Botucatu, ou um galo de São Gonçalo?”; “Quem será esse? Será um bonito jabuti, das margens do Araguari? Ou será que é um camaleão de Jaboatão?”. Claro que a piada funciona graças principalmente aos tradutores, que souberem adaptá-la ao Brasil.

Apesar dos ótimos diálogos, o desenho não parece ter agradado. No final, foram feitos apenas 11 episódios de aproximadamente 6 minutos.

As aventuras de Xisto

 



Quando eu estava no primário, li um livro que me fascinou. Era um trabalho de escola e cada um era sorteado para ler um capítulo em uma aula. Na primeira aula o sorteado admitiu que não tinha lido nada e, portanto, não se sentia capaz de ler para a turma. A professora perguntou se alguém já tinha lido. Silêncio total. Eu levantei a mão. “Você já leu o livro todos?”. “Duas vezes”, respondi. Depois li tantas vezes que decorei a ponto dos colegas me testarem. Liam um trecho e eu dizia em qual página estava.

O nome desse livro era Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, publicado na coleção Vaga Lume.

Além do texto maravilhoso da autora, o livro se destaca pelo trabalho primiroso do ilustrador Mário Cafiero, cujo talento para a fantasia já se revela logo na capa, com o protagonista montado em um cavalo, a espada levantada. O meticuloso trabalho do artista, desenhando cada folhinha nas árvores e cada grama no chão, impressiona. Mas esse detalhismo não está a serviço do realismo. Ela contribui muito mais para tornar a imagem irreal, como num sonho, o que é ampliado pelo fato da proporção entre cavalo e cavaleiro ser estranha, incluindo uma cabeça de cavalo pequena na proporção com o corpo. Essa característica se repete ao longo das ilustrações internas com os bruxos, por exemplo, sendo mostrandos com uma proporção excessivamente alongada (com nove cabeças).

Tudo isso contribui em muito para o clima de fantasia da obra.

O texto de Lúcia Machado de Almeida é singelo e inventivo. Parece simples, mas é cheio de estratégias narrativas, a exemplo da abertura do livro. A autora narra o nascimento no qual o personagem olhou para a mãe e sorriu. E depois:

“Passava o tempo... Quando Xisto fez três anos, morreu-lhe o pai. Aos cinco, teve sarampo, e aos nove ficou de castigo por ter pregado um susto no mestre, que por pouco não endoideceu”.

Misturar em um único parágrafo vários fatos dá a impressão de que esses fatos aconteceram muito rápido. E misturar em uma mesma frase um evento importante, como sarampo e o castigo, dá a dimensão de importância desse último fato ao mesmo tempo em que a história, contada em seguida, destaca a inteligência do personagem.

Na trama, Xisto vê um feiticeiro esconder na parede falsa do fundo de uma gruta um objeto. Ao abrir o local, eles descobre o MANUAL DO SEGREDO DOS BRUXOS.

O manual lista os quatro bruxos ainda existentes no mundo e o ponto fraco de cada um, além de nomear cada um deles de acordo com seus atributos:

Fredegonda – senhora dos que voam, mas não são aves;

Jacomino – o que se alimenta do humo da terra;

Minhoco – o senhor do tempo;

Durga – o que vê sem ser vito.

Como se percebe, a lista só amplia o mistério graças ao texto misterioso (o que seria alguém que vê sem ser visto?), estimulando o leitor a imaginar quais os poderes dessas pessoas.

Para eliminar esses últimos bruxos, Xisto torna-se um cavaleiro andante, acompanhado de seu amigo Bruzo, tão simplório quanto Xisto é inteligente.

Nessa jornada eles ainda enfrentam tiranos. Há tempo até para situações de humor quixotesco, como quando eles acreditam que bruxos estão executando pessoas e acabam descobrindo que são fazendeiros pegando uma galinha para o jantar.

Em suma, um livro mágico, que encantou toda uma geração e abriu as portas para a predileção pela literatura de fantasia.

Thongor, o quase Conan

 

 

Quando a redação da Marvel começou a ser inundada por cartas pedindo uma revista com personagens do gênero espada e magia, Roy Thomas pensou em fazer uma adaptação de Thongor, de Lin Carter. A razão é que o chefão da Marvel, Martin Goodman, tinha reservado apenas 150 dólares para cada edição publicada. Com um valor desses, Thomas achou que seria impossível pagar os direitos de um personagem popular como Conan e optou por um menos conhecido. Além disso, Lin Carter era fã de quadrinhos. Isso certamente facilitari a negociação. 
Não contavam com o empresário do escritor, que emperrou a negociação pedindo mais de 150 dólares. Como bom judeu, Goodman não aceitava pagar um centavo a mais do que o que estava no planejamento. 
Nesse meio tempo, Roy Thomas entrou em contato com o empresário responsável pelos direitos de Conan e conseguiu os direitos do cimério. Se não fosse o empresário ambicioso, hoje milhares de fãs de quadrinhos seriam também fãs de Thongor. Ou não. 

Em tempo: posteriormente, quando a revista do Conan havia se tornado um sucesso e impulsionado a venda dos livros, o agente de Lin Carter aceitou licenciar o personagem para a Marvel. Mas a revista de Thongor durou poucos números: a maioria dos leitores considerou que o personagem era apenas uma imitação barata do cimério.

Clássicos revisitados – Frankstein noir

 


O segundo volume da coleção Clássicos Revisitados uniu dois assuntos diversos: monstros e policial noir. Para quem não conhece, o noir é um gênero policial surgido nos EUA que se diferenciava do tipo dedutivo (característico da Inglaterra) ao apresentar detetives durões, narrativa sarcástica, violência, femmes fatales etc. Eu escrevi a história “Frankstein Noir”, desenhada pelo amigo JJ Marreiro.
O roteiro já era repleto de referências, desde aos romances noir à literatura de H.P.Lovecraft.

Mas o desenhista acrescentou muito mais, a começar pela página de abertura, que emula a capa de um pulp fiction da década de 1930, com chamadas de capa e até preço. Marreiro também recheou a história de easter eggs (novamente, para quem não conhece o termo easter egg significa ovo de páscoa e é a brincadeira de esconder numa histórias referências visuais para serem encontradas pelo leitor da mesma forma que crianças encontram ovos na brincadeira de páscoa), principalmente na sequência da danceteria, na qual aparecem diversos personagens de quadrinhos, cinema e até artistas. 

Confira abaixo alguns previews e easter eggs espalhados pela história: 







Titãs - a série

 


Quando foram divulgadas as primeiras fotos não oficiais da série Titãs, o seriado recebeu uma enxurrada de críticas. Os fãs morderam a língua. Titãs é o melhor seriado de super-heróis de todos os tempos e melhor que 90% de todos os filmes de super-heróis já lançados.
Para quem não conhece quadrinhos, Titãs é baseado no grupo de parceiros mirins da DC Comics. Sim, durante um longo período todo super-herói tinha que ter um parceiro mirim. Batman tinha o Robin, Mulher Maravilha tinha a Moça Maravilha, Flash tinha o Kid Flash e assim por diante.
Na década de 60 a DC teve a ideia de reunir esses heróis mirins em uma revista, Teen Titans. Não deu muito certo. Os personagens usavam gírias da década de 40 ou 50, eram extremamente respeitosos com os heróis principais e tinham a metade do tamanho desses. Ou seja, não agiam como jovens.
Na década de 1980, o roteirista Marv Wolfman, que odiava o gibi quando era jovem, resolveu mostrar como se faz uma série para a juventude. Além de criar novos personagens, como Ravena, Estelar e Mutano, ele mudou a relação dos parceiros com os heróis. Robin, por exemplo, passou a ter uma relação de conflito com o Batman. Foi um sucesso tão grande que levou à criação de três animações (a mais recente voltada ao público infantil) e o live action, criado, entre outros pelo roteirista de quadrinhos Geoff Johns e lançado recentemente pela Netflix.
E o que Titãs tem de revolucionário?
Essencialmente a forma como é estruturado um seriado de super-heróis. Tirando os heróis urbanos da Marvel, como Demolidor, a maioria desses seriados é focada em heróis em uniformes coloridos lutando a cada episódio contra um vilão, em meio a uma grande quantidade de efeitos especiais meia-boca (o orçamento dos seriados é bem menor que o dos filmes).
Titãs quebra com esse esquema ao se estruturar como um seriado de mistério. O expectador não sabe quem são os personagens e, em alguns casos, nem eles mesmos sabem (como é o caso de Estelar e Ravena) e mesmo aqueles heróis que conhecemos como tal desde o início, a exemplo do Robin, têm algo a ser revelado. Além disso, há uma trama maior, que também se revela um mistério - quem quer matar Ravena?
Essa estrutura faz com que o seriado seja interessante não só para os fãs de quadrinhos, mas para os expectadores em geral.
Além disso, muda o foco da trama da ação e os efeitos especiais para o desenvolvimento dos personagens – e esses são muito bem desenvolvidos. Nesse sentido, a escolha de atores foi acertadíssima. Destaque para Teagan Croft, no papel de Ravena e Anna Diop, no papel de Estelar. Aliás, a criticada roupa usada por Anna Diop na série acaba fazendo todo sentido, dentro da proposta do seriado.
Os efeitos especiais, quando aparecem, são em momentos chave, e muitas vezes, nem exigem o famoso CGI. Há uma cena, por exemplo, em que Ravena usa seus poderes que é feita exclusivamente com maquiagem, interpretação e montagem.
Bons diretores já haviam mostrado que para fazer produções sobre seres super-poderosos não é necessário uma fortuna em efeitos especiais – basta uma boa direção, bom roteiro e bons atores. Scanners, filme de 1981, de David Cronenberg, é um exemplo. Mais recentemente, a trilogia de Shyamalan (Corpo Fechado – Fragmentado – Vidro) é outro.
Titãs parece mostrar que a DC aprendeu essa lição: Boa direção, efeitos especiais na medida certa, bons atores, bons roteiros e uma trama que vai num crescendo até o capítulo final.
Se não bastasse tudo isso, há o ótimo capítulo com a Patrulha do Destino (que o tradutor da Netflix rebatizou como Patrulha dos Condenados) e uma visão do Batman muito mais adequada que todos os últimos filmes da DC. A forma como o Homem-morcego - e Gothan - é mostrado na série (ou não é mostrado) é simplesmente genial e lembra grandes obras dos quadrinhos, como Asilo Arkhan.

Super-homem contra Bizarro

 


Bizarro é um dos personagens mais interessantes da mitologia do homem de aço e um dos que mais simbolizam a era de prata. Originalmente ele era o equivalente ao super-homem num planeta em que tudo era o oposto da terra.

Claro que um personagem tão emblemático não poderia ficar de fora da reformulação de John Byrne, mas o quadrinista canadense deu ao personagem uma formulação completamente diferente.

Na versão de byrne, Bizarro é resultado de uma tentativa de Lex Luthor de criar uma versão própria do super-homem.

A história começa com uma referência à armadura de Luthor da era de prata. 


O confronto entre os dois foi publicado em Man of stell 5, com desenhos e texto de John Byrne.

A história já começa com uma referência anedótica à mitologia da era de prata. O Super agarra uma armadura, como as usadas por Lex Luthor na era de prata e diz: Você está ficando descuidado, Luthor! Mas quem está dentro da armadura não é Luthor, mas um lacaio (que irá morrer em breve: “Esse traje foi desenvolvido para a Nasa, mas depois descobrimos que qualquer um dentro dele mais de uma hora vira um vegetal”). Nessa nova versão, Luthor é um empresário ganancioso e frio, que não suja as mãos e, portanto, não iria sair por aí vestindo uma armadura.

Na versão de Byrne, Bizarro é uma criação de Luthor. 


A história pula para várias sequências: um ambulância tem seu pneu furado e não conseguirá chegar a tempo no hospital, mas é transportada pelo que parece o Super-homem, a irmã de lois lane tenta suicidio, mas é salva pelo que parece o homem de aço.

Todas essas boas ações eram, na verdade, de Bizarro.

O quaro em branco mostra a solidão da irmã de Lois Lane. 


Tudo isso é mostrado numa narrativa simples, mas eficiente, assim como o traço de Byrne. Exemplo disso é a sequência que mostra o drama da irmã de Lois Lane, que ficou cega numa história anterior.

Uma pena que a opção foi simplesmente matar Bizarro ao final da história.

Guerras Secretas – Ataque a Galactus

 


O número nove da série Guerras Secretas começa com uma situação extremamente tensa. Galactus terminou seu equipamento e está prestes a devorar o planeta criado por Beyonder.

Aí você percebe porque Galactus foi colocado no meio da disputa, embora sua presença ali desequilibrasse totalmente a balança a favor dos vilões. Era uma estratégia narrativa de Jim Shooter para criar uma ameaça maior do que a própria disputa e garantir um clímax dramático para a história. Ou talvez fosse porque os fabricantes de brinquedo acharam que Galactus ia ficar legal na coleção. Vá saber.

O Senhor Fantástico lidera a luta contra Galactus... 


Quando o Homem de Ferro consegue passar pelos robôs e pelo próprio Galactus, Reed Richards muda de ideia e decide que os heróis não devem mais atacar o deus cósmico.  O argumento do Senhor Fantástico é que se vencer a disputa, Galactus terá seu desejo realizado por Beyonder e deixará de exterminar planetas.

... depois decide não lutar... 


Essa é uma das características mais irritantes do roteiro de Jim Shoooter em Guerras Secretas. Os personagens mudam o tempo todo de opinião, indo de 8 a 80 em segundos, numa total desconexão com o que foi mostrado antes. Quem estava muito disposto a lutar em uma página está tentando convencer os outros a não lutarem na página seguinte. 

... depois decide lutar de novo. 


No caso do senhor fantástico, ele é um dos principais líderes da luta contra Galactus, depois muda de ideia e decide que Galactus deve devorar o planeta, depois se torna um dos mais empolgados na luta contra Galactus. O humor dele vai variando de acordo com as necessidades narrativas do roteirista.

Reed faz uma visita  à nave de Galactus e este o convence a lutar. Roteirismo puro. 


Enquanto isso, o Doutor Destino elabora um plano para roubar todo o poder de Galactus usando para isso o corpo do Garra Sônica, que é fatiado por ele. Isso cria uma boa base de suspense para a história, fazendo com o que o leitor se pergunte se ele sairá vitorioso dessa arriscada empreitada.