quinta-feira, junho 18, 2026
Os Sobrinhos do Capitão e a era dos syndicates
Filmes que marcam época
Os herdeiros da caverna
O dito colecionador era um jovem senhor, na casa dos vinte e poucos anos, já graduado e na época cursando mestrado. Mas naquele dia, limpando e organizando suas revistas, ele parecia uma criança inebriada com um brinquedo novo. Ele sabia de cor tudo sobre o personagem, seus artistas e histórias e inebriava-se contando como o Fantasma havia derrotado os terríveis japoneses em plena II Grande Guerra.
Mais tarde, quando o pai dele chegou, os dois ingressaram juntos na fantasia que incluía Capeto, a caverna da caveira, os pigmeus e tudo o mais. Olhando dois eu percebi o que havia de tão interessante naquela história em quadrinhos: O Fantasma é uma história sobre herança. Sobre pais e filhos, sábios e discípulos. Não é por acaso que tantos pais legam a leitura desses gibis aos seus filhos. Temas como esse sempre calam fundo por falarem dos mitos mais ancestrais.
Não é de estranhar que esse seja o tema da tira. O criador do personagem, o escritor norte-americano Lee Falk, sempre teve um olhar paternal para com suas criações. Tanto que uma única vez o Fantasma fugiu de seu controle: quando foi publicado no Brasil e os editores, sem referencial de cores, trocaram o roxo original pelo vermelho, mais fácil de imprimir.
Lee Falk nasceu em 12 de abril de 1911, na cidade de St. Louis, Missouri. O primeiro personagem imaginado por ele foi o mágico Mandrake, criado aos 19 anos e fruto do fascínio do escritor pelos mágicos e ilusionistas.
Algum tempo depois, ele desenhou algumas tiras do personagem e aproveitou uma viagem que fez com seu pai para Nova York e passou nos escritórios da King Features Sindicate. Passou o dia mofando na ante-sala do chefão da KFS, Joe Conolly, mas quando este viu o material, decidiu-se imediatamente pela história. Era uma época de mudança, em que as antigas tiras cômicas estavam sendo abandonadas pelo público em favor de histórias de aventuras, que os levassem a viajar por mundos imaginários e esquecer as agruras da depressão norte-americana e as histórias do mágico se encaixavam nesse perfil.
Pouco seguro de seus dotes artísticos, Falk encarregou um colega, o desenhista publicitário, Phil Davis, de ilustrar o personagem. Mandrake estreou em 11 de junho de 1934, quando o escritor tinha apenas 23 anos. E foi um sucesso.
Lee Falk tornava-se não só um autor de sucesso, como também o primeiro roteirista de quadrinhos. Antes dele havia outras pessoas que se encarregavam da parte textual, como o criador do romance policial Dashiell Hammett, que assinava o Agente Secreto X9, mas faziam isso como se estivessem envergonhados de se envolverem com algo tão trivial. Falk, ao contrário, assumia seu amor pelo que fazia, o que provavelmente é uma das razões da verdadeira idolatria dos fãs por ele.
O nome do mágico era inspirado na planta mandrágora, usada como medicamento há séculos. Junto com ele, surgia seu fiel escudeiro, Lothar, um negro vestido de maneira exótica. Pouco tempo depois surgiu Narda, uma princesa do reino de Cockaigne que tinha uma curiosa característica: a ausência de umbigo. Inicialmente pensou-se que fosse falha de Phil Davis, mas a conforme a história avançava e o umbigo não aparecia, muitos estudiosos começaram a cogitar que Narda seria apenas mais uma ilusão do mestre das artes mágicas... uma antecipação talvez de temas como os que foram explorados em Matrix.
A história do umbigo demonstra a mitologia que se formou não só em torno da obra, mas também da vida do criador Lee Falk. Na época em que criou seu primeiro personagem, os relações públicas da KFS pediram dele uma biografia para ser apresentada aos jornais. Falk escreveu que era um aventureiro que, em suas viagens pelo mundo, encontrara diversos magos e se inspirara neles para criar Mandrake. Tudo balela, claro, mas convenceu.
Dois anos depois, Falk teve uma idéia para seu segundo personagem e a apresentou à KFS, que comprou de imediato o projeto. Para desenhar, foi chamado o assistente de Davis, Ray Moore, que deu ao personagem um traço elegante e misterioso.
A primeira história mostrava a saga de um lorde inglês, Kit Walker, único sobrevivente de um ataque pirata que jura devotar sua vida à destruição da pirataria, ganância, crueldade e injustiça. E não só isso: também seus filhos e os filhos de seus filhos seguiriam seu caminho. Assim que morria um fantasma, seu filho assumia seu lugar no combate ao mal. Para evitar que os malfeitores percebessem a troca, o herói usava uma máscara, dando a entender que o personagem era imortal.
A idéia inicial era mostrar o personagem como uma espécie de playboy que combatia o crime à noite, assustando malfeitores, um conceito muito próximo de personagens clássicos da literatura, como Zorro ou o Pimpinela Escarlate e certamente uma antecipação de Batman. Mas com o tempo, Falk foi se distanciando dessa idéia e, ao deslocar a ação para o mítico país de Bangala construiu toda a mitologia do personagem.
Falk, fã de Rudyard Kipling, cria a tribo de pigmeus bandar, inspirados na tribo de macacos homônimos de O Livro da Selva. Surgem as crônicas do Fantasma, os anéis, um para amigos, outro para inimigos, a Ilha do Éden, onde leões e tigres convivem harmonicamente com zebras e girafas. Surgem a cabana de Jade, onde os Fantasmas passam sua lua-de-mel, as Montanhas Misteriosas, a plataforma Walker, base de operações do Fantasma na América... a cada nova aventura um novo detalhe é acrescentado.
É essa mitologia que vai fazer com que o Fantasma torne-se eterno e angarie mais fãs que seu irmão mais velho, o Mandrake. A herança passada de pai para filho inclui os diversos itens que foram se acumulando ao longo do tempo e qual era a criança que não sonharia ganhar tudo isso de seu pai? De certa forma, é como se o leitor fosse o XXII Fantasma, lendo as crônicas de seu antecessor e preparando-se para entrar em ação e enfrentar o mal. E quando um pai lega ao filho a velha coleção de revistas do Fantasma, vai com ela todo o resto da mitologia.
Lee Falk podia não saber, mas estava construindo uma das grandes mitologias do século XX, um personagem que, mesmo diante de concorrentes mais modernos, terá seu lugar.
Nos anos 70 o Fantasma migrou para a literatura, numa série de livros publicados pela Avon Books e escritos pelo próprio Lee Falk. Também foi na década de 70 que o escritor ganhou o reconhecimento internacional com o prêmio Yellow Kid recebido em Luca, em 1971.
Aliás, Falk, embora fizesse questão de ser conhecido como escritor de quadrinhos, era também um teatrólogo de sucesso, tendo trabalhado com artistas como Marlon Brando e Charlton Heston.
Falk morreu em 13 de março de 1999. Até os últimos dias ele escreveu as tiras de Mandrake e Fantasma. Um pai preocupado até o último momento com seus dois filhos diletos e com seus milhões de filhos adotivos, leitores ávidos por mais e mais aventuras de seus heróis favoritos.
Ps: este texto foi publicado na edição especial sobre o Fantasma lançado pela editora Opera Graphica em homenagem aos 60 anos do personagem.
Homem-Aranha e Homem-Coisa
Embora tenha tido revista própria durante pouco tempo, o Homem-Coisa fez várias participações em aventuras de outros personagens da Marvel. Ele encontrou, por exemplo, o Homem-Aranha em Marvel Team-up 68 em uma aventura produzida pela dupla mais badalada dos quadrinhos da época: Chris Claremont (roteiro) e John Byrne (desenhos).
Na história, o personagem monstruoso foi aprisionado e colocado como atração em um zoológico – e o aracnídeo resolve ajudá-lo a voltar para o pântano.
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| O Homem-Coisa atacando o Aranha? Te enganei, leitor! |
A splash page, que abre a história é aquilo que hoje seria chamado de um “engana leitor”: o Homem-Coisa se jogando contra o Homem-Aranha, que recua, apavorado. Na verdade, ele estava apenas caindo contra o vidro da prisão, como descobrimos na página seguinte.
Claremont mimetiza os textos dos quadrinhos de terror da Marvel, o que mostra sua versatilidade: “Inícios: parece a calada da noite, um escuro irreal e estígio interrompido levemente apenas por faixas prateadas de luar que resvalam sobre antigos galhos retorcidos e cobertos de musgo que cobrem o pântano... e a criatura que espreita em seu interior”.
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| O Homem-Coisa renasce em contato com o pântano. |
O Aranha some com a gaiola de vidro e pega um avião para os pântanos da Flórida (não me pergunte, eu não sei quem são os personagens que lhe dão carona), mas o avião sofre um acidente e por pouco os humanos não morrem. A criatura do pântano, entretanto, fica renascida.
A trama só começa mesmo só quando os dois chegam num casebre e encontram um velho e uma garota amarrados. Na verdade, o velho é um mago de outra dimensão e a garota, Jennifer Kale, sua aprendiz. Quem os aprisionou é um vilão extradimensional chamado Desespero, capaz de fazer até mesmo o Homem-Coisa ter medo (e portanto queimar).
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| Desespero: pense num vilão fodão. |
Para um vilão tão poderoso, é estranha a forma como o herói o vence, usando, essencialmente a força. É também curioso perceber que a editora escolheu a Marvel Team-up, uma revista do Aranha, para terminar uma trama do monstro, o que mostra que as coisas não andavam bem para a vida editorial do feioso.
Monstro do Pântano – Pog
Certamente uma das mais estranhas histórias do Monstro do Pântano é Pog, publicada em Swamp Thing 32, com desenhos de Schawn McManus.
Essa história é uma das menos celebradas pelos leitores, a maioria dos quais deixou escapar a referência óbvia. Pog é a versão de Alan Moore para Pogo, de Walt Kelly.Essa tira de quadrinho surgiu inicialmente como um gibi da Dell Comics, mas logo migrou para os jornais, sendo publicada por até 500 periódicos na sua fase áurea.
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| Walt Kelly usava Pogo para falar de temas políticos e ecológicos. |
Pogo é um gambá antropomorfizado que vive em um pântano com seus amigos, o jacaré Albert, a coruja Howland Owl, a tartaruga Churchy La Femme, o mastim Beauregard Bugleboy e o porco-espinho Porkypine. Inteligentemente, Walt Kelly usava o formato aparentemente inocente de história em quadrinhos com bichinhos para refletir sobre a sociedade em que vivia e fazer forte crítica política. O senador Joseph McCarthy, por exemplo, apareceu na história como um gato selvagem de tendências ditatoriais chamado Simple J. Malarkey. Na HQ o gato desencadeia um reino de terror e intimidação no pântano.
Walt Kelly também usava as tiras e páginas dominicais para difundir ideias ecológicos. Uma frase de uma das histórias tornou-se lema de grupos de ecologistas: “Nós encontramos o inimigo, e ele somos nós”.
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| Alan Moore faz uma homenagem a Pogo. |
Moore usa todo esse contexto na história com maestria, imaginando um grupo de animais que cruza o universo em busca de um planeta onde poderão viver em paz depois de seu planeta ter sido destruído por uma espécie predadora, que não vivia em harmonia com a natureza.
O protagonista é Pog, e seu amigo (que tem grande importância na história) é um jacaré nitidamente baseado no jacaré Albert. Também é possível perceber na tripulação um equivalente a um porco espinho. Além disso, a nave é uma tartaruga.
O grupo chega à terra e descem exatamente no pântano onde vive o Monstro do Pântano. Eles ficam maravilhados com a natureza exuberante e acreditam que finalmente acharam a Dama, a terra prometida. Mas a dura realidade logo se revelará para eles.
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| Essa é a história mais declaradamente ecológica do Monstro do Pântano |
O curioso dessa história é que Moore simplesmente inventou uma língua para os animais alienígenas (o que deve ter dado um trabalho monstruoso para os tradutores). Um exemplo: “Atmosfitos medianamente toleráveis... gravifícos bastantes para manter a água parada no fundo... então, segundo minha calculetagem... vocês podem se desentranhar com plena imunidade diplomática”.
Posteriormente, em uma história em que o Monstro do Pântano visita o planeta Rann, Moore voltou a brincar de criar uma língua, mas dessa vez o fez de forma muito mais ampla.
Na toca dos leões
quarta-feira, junho 17, 2026
E Benício criou a mulher...
Superman contra o Sanguinário
Na sua fase à frente do Homem de aço, John Byrne fez histórias grandiosas, mas fez também pequenos e emocionantes contos. Um bom exemplo desse último é a história publicada em Superman 4.
Na trama, um terrorista entra em uma lanchonete e dispara uma metralhadora, matando diversas pessoas. “Tolos, animais! Foi por isso que lutamos?”, grita ele. “Eu e Mickey não fomos vítimas de uma explosão no Vietnã só para vocês poderem desperdiçar suas vidas assim!”.
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| Nessa época os super-heróis ainda sorriam. |
Nessa mesma lanchonete estava Jimmy Olsen, que chama o Superman para resolver a situação.
Aqui vale um parêntese sobre a belíssima splash page que mostra o herói chegando. Ele parece descer suavemente, como se flutuasse, sua imagem tomando quase toda a página. No rosto, um sorriso de uma época em que o super era um personagem simpático. “É melhor não ser outro pneu furado, Jimmy!”, diz ele.
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| Byrne era um mestre da narrativa. |
Apesar do Sanguinário estar armado até os dentes e ter pego uma senhora como refém, é um adversário sem importância para alguém como o homem de aço. Mas acontece que Lex Luthor armou o terrorista com uma pistola que dispara estilhaços de kriptonita, o que faz com que ele se torne uma grande ameaça.
Surpreendentemente, no final é Jimmy Olsen que resolve toda a situação, em um belo plot twist. Esse final reflete sobre a chaga social que foi a guerra do Vietnã e sobre como a guerra nada tem de gloriosa.
O gonzo jornalismo
Oxigênio - filme reflete tempos de pandemia
Uma mulher acorda dentro de uma câmara de criogenia sem saber quem é ou porque está ali dentro. Presa, com a reserva de oxigênio diminuindo a cada minuto ela precisa resgatar todas as lembranças do seu passado para tentar entender o que está acontecendo.
Essa é a premissa de Oxigênio, filme dirigido por Alexandre Aja com roteiro de Christie LeBlanc e protagonizado por Mélanie Laurent (Bastardos Inglórios).
Oxigênio é um filme instigante, que começa com uma premissa estranha e evolui para uma trama complexa. Então temos uma reviravolta. E, quando o expectador acha que já entendeu tudo está acontecendo, uma nova reviravolta, que muda tudo.
Há vários aspectos interessantes a serem destacados, que tornam esse filme especial. Um deles é o fato de praticamente toda a ação acontecer dentro de um ambiente fechado, com praticamente só uma atriz.
O enredo é uma solução criativa e perfeita para tempos de pandemia global, em que aglomerações podem ser extremamente perigosas. E a forma como o roteiro é desenvolvido, supreendentemente, consegue preencher todo o tempo do filme mantendo a atenção e o interesse do expectador. Sempre há algo acontecendo, algo a ser descoberto, algo a ser lembrado, numa infinita sucessão que dura todos os 101 minutos de filme.
Mas, por outro lado, Oxigênio também reflete uma época de pandemia ao evocar a sensação de claustrofobia e isolamento. E na história há também uma doença global que está provocando uma quantidade enorme de mortes. A agonia da protagonista com o oxigênio que acaba de certa forma é uma metáfora de uma época em que pessoas morrem sem conseguir respirar.
Talvez por isso (e pela perícia de seus realizadores e da atuação envolvente de Mélanie Laurent), Oxigênio se tornou um dos filmes mais assistidos da Netflix.
The Amazing Spiderman 100
O número 100 a revista do Homem-aranha merecia uma edição especial e Stan Lee bolou uma trama que reunia os principais vilões da série. Na história, decidido a deixar de ser o aracnídeo, toma uma porção que deveria tirar de seu sangue a radiação. Enquanto o líquido faz efeito, o personagem começa a ter alucinações envolvendo os vilões, que representam as próprias dificuldades psicológicas do herói.
Em determinado ponto, por exemplo, o Abutre diz: "Não! Você não pode me ferir! Você só fere as pessoas que ama!". As diversas lutas que se sucedem, portanto, acontecem dentro da cabeça do personagem, são conflitos internos, não externos.
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| As lutas da história representam o conflito interno do personagem. |
Nessa HQ Stan Lee mostra todos os méritos que o fizeram um dos mestres do roteiro de quadrinhos e antecipa inclusive as incursões psicológicas de Frank Miller no Demolidor e de Alan Moore no Monstro do Pântano (ambos fizeram histórias que mostravam apenas conflitos internos dos personagens).
No Brasil essa história foi publicada em Teia do Aranha 17



















