domingo, julho 03, 2022

Sweet Tooth

 


Uma doença chamada flagelo mata a maior parte da humanidade. Ao mesmo tempo em que surge, bebês híbridos, humanos e animais começam a nascer. Ninguém sabe se eles são consequência do vírus ou a causa da pandemia. Na dúvida, a maioria das pessoas os odeia e eles são caçados como animais.

Essa é a premissa de Sweet Tooth, série da Netflix baseada nos quadrinhos de Jeff Lemire publicados pela DC Comics.

Sweet Tooth é centrada no garoto Gus, um híbrido de humano e cervo, criado pelo pai em uma floresta isolada de tudo e de todos. Esse idílio é quebrado quando o pai morre e Gus é aprisionado por caçadores e salvo por um homem chamado na série de Grandão. Grandão era um caçador de híbridos, mas a relação com Gus o transforma e surge daí uma amizade improvável. Os dois empreendem uma viagem, em busca de respostas e da mãe do garoto híbrido. No caminho, conhecem uma garota defensora dos híbridos chamada de Ursa. Forma-se assim um trio improvável e disfuncional, mas que magnetiza a simpatia do expectador.

Jim Mickle, o responsável pela adaptação, fez algumas mudanças. Gus, por exemplo, que é um garoto feio nos quadrinhos virou fofo garotinho na série. O tom também é menos cru. A relação de Gus com o pai, por exemplo, é mais afetiva.  

Mas aparentemente, nada do que era realmente essencial na história foi modificado. A premissa das pessoas odiando e perseguindo tudo que é diferente, por exemplo, se mantém. Além disso, o garoto Christian Convery interpreta com perfeição o personagem, conquistando o público desde a primeira tomada.

Muito bem dirigida, a série mistura uma narrativa pós-apocalíptica e uma forte denúncia social com um tom de fábula do tipo que vemos em filmes de Tim Burton, por exemplo. E a trama é envolvente, com personagens carismáticos (interpretados por atores igualmente carismáticos) e sem sequências de pura enrolação como é comum vermos em seriados desse tipo. Tudo ali contribui para a narrativa fluir.

O clima é tão envolvente que acabamos esquecendo que na grande maioria das cenas o único efeito especial é um garoto com uma tiara de chifres na cabeça.


Capitão América – Se houver amanhã

 


Na trama criada por JM DeMatteis e Mike Zeck para o encontro do Capitão América com Deathlok, no ano de 1986, uma organização criminosa lançara um plano de extermínio de super-heróis. Esses foram enviados para dimensões separadas, onde acabaram sendo mortos. Como resultado, a Terra se tornou uma distopia.

No número 289 da revista Capitain America, o sentinela da liberdade volta para 1986 para tentar impedir que isso aconteça.

O Capitão precisa impedir um plano para matar todos os super-heróis. 


O plano já está em execução, então ele não pode pedir ou contar com o auxílio de nenhum grupo de heróis. Nessa época, o Capitão era um herói fodão, que sozinho conseguia salvar o mundo.

A sequência mais interessante é quando entra na sede da organização e precisa destruir gerador que transportará todos os heróis para as dimensões paralelas. O meio de defesa são raios psíquicos, que cavam as profundezas do inconsciente e projetam horrores aos quais nenhuma mente resiste.

Mike Zeck faz toda uma sequência em um único quadro. 


A sequência era JM DeMatteis exercitando a profundidade psicológica que o tornaria célebre anos depois com Mooshadow e A útlima caçada de Kraven.

Por outro, lado, Zeck se mostra extremamente competente e criativo nos desenhos. Ele, por exemplo, usa um quadro só para mostrar todo uma sequencia de ação impressionante, com o Capitão se movimentando ao redor de um robô.

A edição trazia uma história imaginária. 


Uma curiosidade é que a edição americana trazia uma história, curta, imaginária, na qual Bernie torna-se uma super-heroina, Bernie America.

A capa de Watson. 


 A Abril cortou essa HQ e, como a capa fazia referência a ela, a solução foi encomendarem uma capa original para o artista brasileiro Watson, que fez um belo trabalho.

sábado, julho 02, 2022

Chove chuva, chove sem parar

 


Revendo as matérias que escrevi para a Folha de Londrina, encontro essa cujo título brinca com uma famosa música. O caderno era de verão, mas a previsão era de chuva durante a semana toda. Imagine a situação de que tinha ido para a praia. O editor me pediu para fazer uma matéria com sugestões do que fazer durante esse período. Detalhe: todas as indicações tinham alguma relação com a chuva.

A morte do Super-homem e o deus ex-machina

 

A morte do Super-homem é um ótimo exemplo de deus ex-machina

A morte do Super-homem foi um sucesso estrondoso. Vendeu milhões de exemplares na década de 1990. No entanto, a grande maioria das pessoas que comprou na época hoje, ao reler, considera essa uma história ruim do personagem.
A razão disso é um deus ex machina.
Deus ex machina é qualquer solução que não faça parte da lógica da história. É um recurso que destrói o pacto de verossimilhança, pois o leitor percebe que há algo errado ali, algo parece não fazer sentido.
A maioria das pessoas costuma imaginar o deus ex machina como uma solução para salvar o herói. O protagonista está prestes a ser enforcado quando aparece do nada alguém para salvá-lo. Mas a morte do Super-home mostra que o deus ex machina pode ser também o oposto: alguém que aparece do apenas para matar o personagem.
A história dessa saga é atribulada.
Nos anos 1990 o departamento de marketing das editoras exigia eventos sensacionalistas que ajudassem a vender os gibis. A equipe do Super-homem decidiu casar o personagem. Mas surgiu uma dificuldade: na época o homem de aço tinha um seriado live action de sucesso e iria se casar com Lois Lane, mas só no ano seguinte. Se ele casasse nos quadrinhos, teria que ser em sincronia com o seriado.
Foi quando tiveram a ideia de matar o Super-homem. Mas o prazo era curto, então a solução foi simplesmente introduzir do nada um personagem super-poderoso que não fala uma única palavra durante toda a história, derrota todos os super-heróis (sem matar nenhum) e finalmente mata o Homem de aço. Apocalipse parecia ter sido criado com um único objetivo: providenciar a necessidade que os roteiristas tinham de criar um evento bombástico criado não só para vender gibis, mas também bonequinhos.
O personagem Apocalypse surge do nada, apenas para matar o homem de aço.

Um personagem tirado da cartola que derrota todo mundo, mas não mata ninguém além do Super-homem é um ótimo exemplo de um deus ex machina. Uma falha do roteiro que se tornou ainda mais evidente quando o personagem simplesmente voltou da morte.
Na contramão da correria que foi a morte do Super-homem temos uma das melhores sagas dos quadrinhos de super-heróis, a saga da Fênix Negra.
No número 125 da revista X-men, Claremont mostra Moira realizado testes com a Fênix e o diálogo posterior mostra ambas preocupadas que o poder imenso da personagem possa sair do controle. No número seguinte, uma “alucinação” mostra Jean Grey caçando um homem vestido de cervo, o que já demonstra o lado negro da personagem vindo à tona. A personagem pensa: “Um homem?! Eu queria matá-lo! Estava prestes a... o que está acontecendo comigo?”.
A saga da Fênix é um exemplo de solução dentro da lógica da história.

Assim como esse, vários outros indícios de que há algo errado com a personagem vão sendo mostrados até que ela se alia ao Clube do inferno na edição 132. Quando no número 134 ela se transforma na Fênix Negra, uma das maiores vilãs que o universo Marvel já conheceu, o leitor lê e pensa: “Sim, isso faz sentido. Ela era uma heroína, mas eu acomapanhei sua transformação em vilã”.
Claremont e Byrne levaram nove números construindo a lógica da história, de modo que o surgimento da Fênix Negra parece consequência óbvia do que veio antes.
Não é à toa que a Saga da Fênix é até hoje considerada uma das melhores histórias de super-herois de todos os tempos, e parece melhor a cada leitura. Ao contrário da morte do Super-homem.

Capas de revistas da Grafipar

 


Grafipar foi uma das mais importantes editoras brasileiras de quadrinhos. Especializada em quadrinhos eróticos, ela inundou as bancas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 com uma enorme variedade de revistas com a nata dos quadrinhos nacionais. Confira algumas capas da editora.
















Monteiro Lobato: O Minarete

 

José Renato Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, São Paulo, no dia 18 de abril de 1882. Alguns anos depois modificou seu nome para José Bento, pois desejava usar uma bengala que fora do pai e que estava marcada com as iniciais J.B.M.L. Tinha duas irmãs, Judite e Ester, e brincava com brinquedos rústicos, feitos de sabugo de milho, chuchus e mamão verde.
            Esses primeiros anos influenciaram em muito a sua produção infantil. A Taubaté daqueles tempos certamente tinha um pouco do que viria a ser o Sítio do Pica-Pau Amarelo.
            Desde pequeno Lobato adorava livros. Devorou a toda a biblioteca do avô paterno, o Visconde de Tremenbé. Leu tudo que havia para crianças na época - o que não era muito. Ainda não surgira um Monteiro Lobato para escrever livros que as crianças realmente apreciassem...
            Os principais traços da personalidade do escritor já se delineavam na época. Extremamente sincero, Lobato falava o que queria, abusando da ironia e do cinismo.
            Aos 15 perde o pai, aos 16, a mãe.
            Nessa época ele estudava num colégio em São Paulo, onde fundou vários jornais, usando pseudônimos. Lobato queria ser escritor, ou pintor. Por ele, faria a escola de Belas Artes. Mas o avô queria vê-lo advogado, ou juiz. Assim, no ano de 1900, com 18 anos, o jovem escritor entra para a Faculdade de Direito de São Paulo. Lá ele faz amizade com várias outras pessoas que adoram literatura, entre eles Godofredo Rangel e o poeta Ricardo Gonçalves. Fundam o grupo literário O Minarete. Minarete era a república onde eles moravam, um chalé amarelo, chamado assim em homenagem às mesquitas maometanas. Todos eram boêmios e rebeldes.
            Em 1904 Lobato forma-se em direito e volta para Taubaté. Continuaria a ter contatos com os amigos, em especial com Godofredo Rangel, com o qual se corresponderia até o fim da vida. Todas essas cartas foram reunidas em dois livros, chamados de A Barca de Gleyre.
            Monteiro Lobato escrevia cartas como ninguém. Durante toda a sua vida, ele jamais deixou de responder as cartas dos amigos, fãs e, principalmente, crianças. Algumas dessas cartas foram reunidas em livros, Cartas Escolhidas, e Cartas de Amor, com as missivas que ele mandava para sua esposa, Purezinha, ainda na época do namoro.

Baiano e os novos caetanos

 


Baiano e os novos caetanos era um quadro de humor do programa Chico City que satirizava a tropicália. Composta por Chico Anysio (Baiano) e por Arnaud Rodrigues (Paulinho Boca de Profeta), a dupla fez muito sucesso, o que levou ao lançamento do disco Vô bate pra tu, em 1974. O disco era não só uma sátira, mas também uma homenagem a Caetano Veloso e Gilberto Gil, que na época haviam sido exilados pela ditadura militar.
A música de maior sucesso do disco (Vô bate pá tu) fala justamente da delação de artistas no período. Além disso, havia até mesmo crítica ao milagre econômico, como em O urubu tá com raiva do boi.
A parte humorística fica por conta principalmente dos comentários ácidos e non-sense de Chico Anysio, que lembram as falas de Caetano e Gil. 
Na música Cidadão da Mata, Chico fecha com o discurso, cheio de humor e de duplo sentido: "Amo, amo a mata! Porque nela não há preços. Amo o verde que me envolve... o verde sincero que me diz que a esperança, não é a ultima que morre. Quem morre por último é o herói. E o herói, é o cabra que não teve tempo de correr...". 
Em O urubu tá com raiva do boi, ele diz: "O norte, a morte, a falta de sorte... Eu tô vivo, tá sabendo? Vivo sem norte, vivo sem sorte, eu vivo... Eu vivo, Paulinho. Aí a gente encontra um cabra na rua e pergunta: 'Tudo bem?'
E ele diz pá gente: 'Tudo bem!' Não é um barato, Paulinho? É um barato...". Uma  fala ao mesmo tempo humorística, profunda e non-sense. 
Apesar de ser uma sátira, o disco ficou tão bom que fez enorme sucesso e levou seus autores a uma turnê pelo Brasil. Explica-se: além da humor e das letras engajadas, havia os ótimos arranjos musicais. De certa forma, pode-se dizer que Baiano e os novos caetanos era tão bom que pode ser incluído entre o melhor da tropicália.
Clique aqui para ouvir o disco. 

Balada sideral

 


O motor de todas as histórias é o conflito. Sem conflito não há HQ. A maioria das pessoas costuma visualizar isso como algo externo, a exemplo das lutas entre heróis e vilões. Mas existe um outro tipo de história, em que o conflito ocorre dentro do personagem. Ótimo exemplo disso é o álbum Balada Sideral, de Rafael Senra, publicado em 2014 pela Bartleblee.
O álbum narra a trajetória de Markun, um jornalista hipocondríaco que vê suas certezas desabarem quando é escalado para entrevistar uma dupla de irmãos músicos que vivem na rustigaláxia.
O resultado é um road movie com o jornalista acompanhando Opala e seu irmão Arcus durante uma turnê e se deparando com um mundo totalmente diferente do seu, em que as pessoas ainda vivem de forma natural. Na multigaláxia, de onde vem Markun, as pessoas desaprenderam a comer, tomando pílulas nutritivas, e se empanturram com todo tipo de químicos. De um estranhamento inicial (e os conflitos inerentes ao choque cultural) à aceitação dessa nova experiência, vemos a evolução do personagem, que encontra seu ápice na chamada pira, show em que, com uso de tecnologia o personagem tem uma viagem pelo mundo dos arquétipos e do inconsciente coletivo.
É interessante acompanhar a evolução do protagonista e igualmente interessante obervar como Rafael Senra constrói um universo plausível e ao, mesmo tempo, muito diferente do nosso, com casas e carros que podem ser virtualizados, só para dar um exemplo. A sequência da viagem interna do personagem também é muito bem construída, poética e lembra algumas histórias de Alan Moore, inclusive na concepção da arte como magia.
De negativo o formato reduzido, que prejudica visualizar os quadros em que o desenho é mais detalhista ou que há uma grande quantidade de diálogos.

SAM 4 – a primeira revista Marvel que li

 


 No início dos anos 1980 não existia caixa eletrônico e muito menos aplicativos de bancos. A única forma de pagar uma conta era passar horas numa fila. Foi numa situação dessas que consegui ler pela primeira vez uma revista Marvel. O primeiro contato tinha acontecido anos antes, que quando vi na vitrine de uma mercearia um exemplar de uma Heróis da TV com uma capa realmente impressionante com o Motoqueiro Fantasma. Mas a primeira vez que li uma revista, foi ali, na fila do banco.

Alguém levara a superaventuras Marvel número 4 para ler e emprestara para alguém, que emprestara para o seguinte da fila e assim em diante até que chegou em mim. Eu só devolvi quando li a última página.

Passei anos procurando essa revista. Nunca encontrei em sebos.

Enfim, desisti e resolvi apelar para uma pessoa que produz fac símiles. Então, quase 40 anos depois, tive a oportunidade mágica de reler aquela revista, tentando entender como e porque ela me marcou tanto.

A capa era uma colagem, feita pelos artistas da Abril com um desenho em destaque de Luke Cage e dois boxes com o Demolidor (num estilo que não lembrava nada Frank Miller) e de Conan (num traço que lembrava remotamente John Buscema).         O verdadeiro impacto estava no miolo. A revista reunia quatro histórias, uma de Luke Cage, uma do Demolidor, uma do Dr Estranho e, fechando, uma de Conan.

Luke Cage era um herói nada convencional. 


Relendo, é possível perceber o quanto a história do Herói de aluguel deve ter sido marcante. Era algo totalmente diferente de qualquer coisa que eu já tivesse lido de super-heróis. Nada de máscaras, identidade secreta, um herói que parecia muito mais um anti-herói, que vendia seus serviços e, nessa história, alugava um muquifo acima de um cinema como escritório.

Na história, cortesia de Archie Goodwin no roteiro e George Tuska na arte, o personagem enfrenta um tal de Cascavel, que teria sido o responsável pela morte da namorada do herói. A HQ mostrava também a origem do personagem e a forma como ele escolhera seu marcante uniforme, escolhendo entre os itens descartados numa loja de fantasia.

Para quem estava acostumado com os heróis certinhos, que tinham tudo nas mãos, como os Superamigos, era algo totalmente diferenciado.

A cena página de Demolidor que me marcou. 


Mas o que vinha depois era muito mais revolucionário: o Demolidor de Frank Miller, nessa época ainda com roteiro de Roger Mckenzie. Na história, o herói investiga o roubo de um carregamento de adamantium.

A diagramação de Miller era revolucionária, assim como a abordagem do Demolidor (algo que eu não sabia na época) e a cena que mais me marcou já estava lá, na segunda página. O herói está num bar, tentando tirar informações de um bandido, quando outro meliante se aproxima dele pelas costas com uma faca. Sem se virar ou mesmo tirar o olho do que está sendo interrogado, o Homem sem medo para o agressor com um soco no rosto. Eu me lembro que pensei: caramba! Esse cara é incrível! Não sabia naquela época que o personagem era incrível porque tinha um gênio por trás de suas histórias. A ambientação urbana e factível era mais uma quebra com os coloridos Superamigos, que pareciam incapazes de dar um soco num vilão.

Em seguida vinha a história do Dr. Estranho. Essa história era continuação de uma trama anterior, inciada por Archie Goodwin e Barry Smith, toda baseada na mitologia lovecraftiana. Nessa edição, o roteiro já estava a cargo de Gardner Fox e a arte de Irv Wesley.

Doutor Estranho se tornou um dos meus personagens prediletos na Marvel. 


Na HQ, o mago se envolve com uma seita secreta que tenta trazer de volta um deus adormecido. Hoje vejo que a trama tinha todos os elementos que tornariam Lovecraft  famoso, numa nítida homenagem, entre eles uma cidade isolada com habitantes que são resultado de uma mistura de raças. Mas na época o que mais me marcou foi a sequência inicial: com o herói aprisonado por grilões numa mesa de concreto, uma cruz invertida com uma cobra ao seu lado e um demônio reptiliano se aproximando para matá-lo.

Eu não tinha lido a história anterior, mas apenas aquele quadro já era o suficiente para despertar minha atenção e tornar o Dr. Estranho um dos meus personagens prediletos da Marvel de todos os tempos. Aquilo não era só super-herói. Havia uma essência de terror ali, de mistérios assombrosos. Imaginem isso para alguém que estava saindo da infância (eu devia ter uns 12 anos na época) e praticamente só conhecia os Superamigos.

Quarenta anos depois eu ainda consigo me lembrar do diálogo final dessa história de Conan. 


Fechando a revista, uma história de Conan com roteiro de Roy Thomas e arte de Barry Smith na qual o cimério salva uma prostituta chamda Jenna das garras de um demônio morcego. Aqui foi a sequencia final que me marcou profundamente, a ponto de eu conseguir me lembrar do diálogo 40 anos depois. Os dois estão no deserto e Jenna sugere que Conan durma e sonhe sonhos de ouro. Quando o cimério acorda, ela fugiu com o ouro, ao que ele comenta: “Tenha sonhos de ouro, ela me disse... e eu fiquei com os sonhos... e ela com o ouro!”.

Era o fechamento perfeito de um mix perfeito que simplesmente fez pirar um garoto de 12 anos e mudou totalmente a forma como eu via os quadrinhos.

Quarenta anos depois essa edição ainda parece ter o mesmo encanto.

sexta-feira, julho 01, 2022

Esses quadrinhos são um caos!

 

Há algum tempo, os cientistas descobriram a entropia, um princípio universal que estaria levando o universo inexoravelmente ao caos. A entropia é a perda de energia, ou informação. O caos está à nossa volta. Uma xícara de café que esfria é um exemplo de como ela está até onde menos imaginamos.

Depois os cientistas descobriram os atratores estranhos, os fractais, o efeito borboleta. Tudo isso, mais a entropia, forma a Teoria do Caos...

Mas o que tudo isso tem a ver com os quadrinhos? Simples, os quadrinhos foram a principal mídia a se apropriar desse discurso caótico. Sem se dar conta, os roteiristas formaram um batalhão para divulgar a nova teoria e convencer todo mundo de que o caos nos rodeia. Nesse artigo, vamos conhecer algumas dessas histórias baseadas, de uma maneira ou de outra, nessa teoria.


O ARTISTA E OS FRACTAIS
O exemplo mais óbvio é o roteirista inglês Grant Morrison. Ele falou do assunto abertamente em suas HQs. Numa das histórias do Homem-Animal, a Terra vai ser invadida pelos Tanagharianos (lembram? Aquele pessoal de asas do planeta do Gavião Negro...). E, para executar o primeiro passo do plano adivinhem quem eles convocam?
Um artista especializado em geometria fractal. Fractais são imagens de computador formadas a partir de fórmulas matemáticas. Elas formam imagens muito bonitas e o mais interessante é: se você ampliar uma parte do desenho, ele será muito semelhantes à imagem maior. Você pode passar a vida inteira ampliando um fractal e ele vai aparecer sempre com a mesma imagem auto-semelhante.
Lá pelo meio da história, o extraterrestre diz: "Talvez você esteja familiarizado com os conceitos da geometria fractal. Uma forma fractal é aquela que revela mais detalhes quando examinada de perto. Pode ser ampliada indefinidamente e ainda revela novas complexidades. Ocorreu-me que a vida em si pode ser entendida como tendo uma forma fractal! Noção interessante, não acha? Então fiz esta bomba!".
A artefato ia bombardear todos os humanos com uma torrentes de lembranças caóticas do próprio artista.


O CAOS DO DIA A DIA

Em outra história de Grant Morrison, Asilo Arkham, que ficou famosa por causa da cena em que o Coringa passava a mão na bunda do Batman, também há referências à teoria.
Uma psicóloga explica a personalidade do Coringa usando a Teoria do Caos. Segundo ela, o vilão era, num dia, um palhaço inocente e, no outro, um assassino perigoso. Tudo isso, porque não conseguia lidar com o caos de informações que recebemos dia após dia, instante após instante. Ao contrário de nós, ele não selecionava as informações que chegam e, para lidar com isso, tinha diversas personalidades. Em outra seqüência, o Chapeleiro Louco é visto numa sala de espelhos em que sua imagem se repete ao infinito.



SHOPPING CENTER CAÓTICO
Bill Sienkiewicz, desenhista de Elektra Assassina assimilou o caos ao seu estilo. As obra de Bill são repletas de informações numa única página. Ele e Alan Moore juntaram-se para fazer um vídeo caótico sobre a queda do Muro de Berlim e ganharam diversos prêmios. Gostaram da experiência e decidiram fazer uma minissérie sobre o caos. A revista chamou-se Big Numbers e contava a história de como a instalação de um shopping center pode mudar completamente a vida dos habitantes de uma cidadezinha do interior da Inglaterra. Deveriam ser 12 números, mas só foram publicados dois. As razões, só o caos explica. Deu bug no Sienkiewicz e eles simplesmente decidiram abandonar o projeto.



QUEM VIGIA AS BORBOLETAS
Mas a obra definitiva sobre o caos publicada em quadrinhos é Watchmen, de Alan Moore e Dave GibbonsWatchmen mostra um mundo modificado pelo surgimento dos super-heróis. Alan Moore baseou-se no princípio do efeito borboleta, segundo o qual pequenas modificações podem provocar grandes mudanças.
Na trama, há vários efeitos borboleta, ou seja, inúmeros pequenos eventos que acabam provocando grandes mudanças. Começa com algo que parece simples: o assassinato de um diplomata. Quando se descobre que a vítima era o herói Comediante, Rorschach inicia uma investigação a respeito de um matador de mascarados. As conseqüências dessa investigação acabam sendo imprevisíveis e o futuro da humanidade pode depender dos resultados da mesma.
 O próprio mundo está a caminho do caos, já que os EUA e a Rússia estão a um passo da guerra nuclear. E o único que pode impedir a catástrofe é Dr. Manhattan, um super-herói com jeito de Deus que se diverte construindo castelos fractais em Marte.
Mas a grande questão de Watchmen é: se o mundo é governado por pequenos eventos que têm grandes conseqüências, alguém poderia controlar o destino da humanidade por meio de sua manipulação? É possível ditar o que as pessoas desejam, seus ideais, o seu futuro? Só o caos, meus senhores... só o caos sabe a resposta.

Homem-aranha vs Capitão Britânia

 

 

Marvel Team UP era uma publicação da Marvel que mostrava encontros entre heróis Marvel. Entre as várias equipes criativas que assumiram o título, sem dúvida a mais célebre foi a do roteirista Chirs Claremont e do desenhista John Byrne.
Ótimo exemplo dessa dupla afinada foi o encontro do Homem-aranha com o Capitão Britânia, publicada no número 65 e 66 da revista, em 1977.
Na história, Peter Parker recebe em sua casa um estudante inglês, Brian Braddock, que é ninguém menos que o herói britânico. Depois de uma luta entre os dois ocasionada por um equívoco (parece haver uma regra na Marvel: toda vez que dois heróis encontram, eles primeiro devem brigar), eles se deparam com uma ameaça terrível: o Mundo assassino do vilão Arcade.


Criado nessa história, Arcade é um jovem rico que, entendiado, resolve criar um parque de diversões para testar vários heróis da Marvel.
Os dois heróis são colocados em bolas transparentes e introduzidos em um fliperama gigantesco. Depois se deparam com os mais diversos tipos de ameaças, todas baseadas na ideia de um parque de diversões mortal.
Era uma ideia que de fato funcionava – tanto que a dupla ia retornar o vilão numa história dos X-men, pois permitia ação initerrupta.
Se Chris Claremont era bom ao trabalhar com diversos personagens, Byrne era ótimo com ação. A junção dos dois fez com que essa história se tornasse um clássico.
No Brasil essa história foi publicada em Homem-aranha 38 e na coleção de Graphic Novels Marvel da Salvat (também no número 38).