quarta-feira, outubro 21, 2026

Abapuru, de Tarsila do Amaral

 

Abapuru é o quadro mais famoso e importante da arte brasileira. Ele foi pintado em segredo por Tarsila do Amaral e dado de presente para seu esposo no dia de seu aniversário, em 11 de janeiro de 1928.
Oswald de Andrade ficou fascinado com o quadro e mostrou para o poeta Raul Bopp. Juntos começaram a analisar a imagem e ver ali um índio canibal, aquele que iria devorar a cultura vinda de fora para apossar-se dela e reinventá-la.
Tarsila procurou um dicionário de tupi e encontrou ali as palavras “aba” e “poru”, homem que come. Assim foi batizado o que se tornaria o quadro mais importante da arte brasileira.
Oswald usou o quadro como exemplo de sua proposta para a arte brasileira: ao invés de imitar os europeus, como se fazia até então, procurar uma arte nacional através da assimilação de vários elementos e reinvenção dos mesmos.
Quando o casal se separou, Tarsila quis ficar com o quadro – e ofereceu para Oswald um outro quadro seu, na época mais valioso.
Conforme participava de exposições no Brasil e no exterior, Abapuru foi ganhando fama.
Nos anos 1960, Tarsila vendeu o quadro para o crítico de arte  Pietro Maria Bardi, fundador do MASP. Sua ideia era que o quadro passasse a integrar o acervo do Museu. Mas Bardi preferiu ganhar dinheiro. O quadro foi vendido e revendido, tornando-se mais valioso a cada ano, até ir parar nas mãos de um colecionar argentino, que o colocou no acervo de um museu de Buenos Aires.
A volta do quadro para o Brasil em 2019, em uma exposição temporária no MASP, levou uma verdadeira multidão para o museu (foi quando tirei essa foto).
Uma curiosidade é que o quadro surge depois de uma visita do casal Tarsila-Oswald para as cidades históricas de Minas Gerais. Tarsila ficou encantada com a cultura local, principalmente as cores e passou a incorporá-la nas suas pinturas. Há um depoimento dela segundo o qual ao estudar na Europa ela aprendeu que as cores vivas eram feias e deviam ser evitadas, e depois dessa visita a Minas ela deixou de se envergonhar de usá-las em seus quadros.
Aliás, essa proposta lembra muito as ideias de um amigo do casal, Monteiro Lobato, segundo o qual os artistas brasileiros deveriam deixar de simplesmente imitar os europeus e buscar em nossas raízes populares o norte para uma arte brasileira. 

Quarteto Fantástico – Prisioneiros da dupla diabólica

  


No número 6 da revista do Quarteto Fantástico o grupo enfrentou as duas maiores ameaças encontradas até o momento: Dr. Destino e Namor.

Na trama, Destino resolve aproveitar o ódio de Namor pela humanidade transformando-o em um aliado para acabar com o Quarteto Fantástico. Assim, ele o usa para colocar um “buscador”, um aparelho que quando agarra em algo exerce uma força magnética nele, levando-o até o dono do controle remoto.

O plano é tão simples quanto non-sense: colocar o buscador no edifício Baxter e, usando uma nave espacial, jogar o edifício na direção do Sol. Eu lia e me perguntava: como é possível tirar um edifício, arrancando-o de suas fundações, sem que ele desmorone? Mas naqueles tempos valia tudo.

Sue, dividida entre dois amores. 


Essa história tem uma cena interessante, que mostra o quanto Stan Lee estava revolucionando as história. À certa altura Johnny encontra uma foto de Namor no meio das coisas de Sue. “Creio que você me deve uma explicação, Sue”, pede Reed Richards. “Como posso explicar algo que nem eu mesmo entendo? Sei que Namor é nosso inimigo, mas...”. Estava estabelecido ali o triângulo amoroso mais famoso dos quadrinhos de super-heróis.

Aliás, quando Namor aparece no prédio, Sue corre para defende-lo (ah, o amor!). “Não, vocês não podem atacá-lo! Precisam ouvi-lo! Ele não está nem mesmo tentando se defender!”.

Um edifício sendo levado pelo espaço? Stan, dessa vez, você exagerou. 


Apesar da trama maluca do edifício sendo levado pelo espaço, há um momento que mostra que Stan Lee tinha sim alguma preocupação científica. Quando o Tocha Humana tenta alcançar a nave de Destino, ele descobre que a falta de oxigênio faz com que suas chamas se apaguem.

Dessas primeiras histórias essa é a mais empolgante. O perigo aqui parece real e a solução parece impossível. Uma obra-prima de uma dupla que ainda iria realizar muitas obras-primas. 

Conan - A cidadela dos condenados

 


Em mais de duas décadas de publicação interrupta, Conan teve uma variedade imensa de grandes histórias. Mas uma das HQs que deveria constar obrigatoriamente em qualquer lista de melhores é a Cidadela dos Condenados, de Roy Thomas e Barry Windson Smith publicada originalmente na revista Savage Tales 2 de 1973 e republicada no Brasil no primeiro número da coleção A espada selvagem de Conan, da Salvat.
Se compararmos essa HQ com as primeiras histórias de Conan desenhadas por BWS apenas três anos antes, a evolução é simplesmente impressionante, em especial na figura humana, quase como se estivéssemos vendo um outro desenhista.
Essa evolução pode ser percebida logo nas primeiras páginas, que mostram a pirata Valéria adentrando em uma floresta. Sua figura sensual e anatomicamente perfeita, o detalhe nos olhos e no cabelo, a folhagem mostrada nos mínimos detalhes... cada quadro é uma obra de arte.
Quando aparece o dragão, na página cinco, então, é deslumbrante. BWS já tinha mostrado que sabia desenhar dinossauros na história Os guardiões da tumba, publicada em Conan 8, mas aqui, o bicho (na verdade um estegossauro, que no mundo real era herbívoro) se torna um monstro assustador.

Se o desenho é digno de todos os elogios, a história, baseada em um conto de Robert E. Howard, não fica atrás.
Na história, Valeria está fugindo depois de esfaquear um oficial stygio e vai parar em um oásis no meio do deserto. É seguida por Conan. Mas o oásis é um falso paraíso. O local é guardado por um dragão, que devora todos que procuram abrigo ali.
A dupla, consegue matar o dragão – graças à engenhosidade do cimério - e se encaminha por uma cidade no meio do deserto. Ali eles se deparam com uma guerra fraticida entre dois grupos por causa de uma mulher. É uma cidade em que a traição pode estar atrás de cada porta e ninguém parece confiável. O roteiro consegue explorar  com perfeição a guerra entre os dois grupos e as várias reviravoltas da trama. É uma história longa, mas que quando termina, queremos mais. 

O Telefone do Sr. Harrigan

 


Amizade, luto e tecnologia como elementos de terror. O telefone do senhor Harrigan, filme de John Lee Hancock, reúne todas essas características comum a muitos dos livros de Stephen King.

Na história, o garoto Craig vê sua vida mudar quanto um milionário o contrata para ler livros para ele. A partir daí começa a se desenvolver uma relação muito improvável entre esse jovem pobre e o velho milionário, uma amizade sedimentada principalmente na literatura, uma paixão em comum. Há um outro ponto em comum: ambos perderam suas mães muito jovens.

Essa história sofre uma reviravolta quando o velho morre e o garoto passa a acreditar que está recebendo mensagens dele no celular. Esse é o toque sobrenatural da história, como não poderia faltar em uma história de King.

Mas engana-se quem acha que se trata de uma história de terror. O telefone do Sr Harrigan está muito mais para a Jornada do Herói do que para a Jornada do Horror. Os elementos sobrenaturais aí são na verdade veículos para a jornada de auto-conhecimento e redenção do protagonista.

O telefone do Sr Harrigan é um filme tocante, cujos personagens prendem a atenção do leitor e ganham simpatia mesmo com seus defeitos. Uma boa pedida na Netflix.

A arte inesquecível de Galep

 

Galep é mais conhecido por ter sido o co-criador do ranger Tex, o mais famoso quadrinho italiano de todos os tempos. Seu estilo econômico e discreto, em que o desenho serve essencialmente à narrativa teve uma influência absoluta sobre os fumetti, em especial os publicados pela editora Bonelli. Mas seu trabalho não se restringiu a Tex: ele ilustrou de tudo, inclusive arte sacra. Confira o trabalho desse mestre e clique aqui para saber mais sobre sua trajetória.










O mundo hiper-real

 

A obra de Ron Muek reflete sobre a hiper-realidade

Olhe à sua volta. As propagandas que você vê, os filmes a que você assiste, a comida que você come. Tudo isso parece real, não? Mas não é. Nós deixamos de viver na realidade. Hoje vivemos em um mundo hiper-real.
A hiper-realidade é uma ficção, um simulacro, que é percebido como real. Baudrillard explica usando o exemplo de alguém que simula uma doença. Alguém que finge estar doente está apenas mentindo, mas quem simula chega ao ponto de sentir os sintomas, é como se a doença tivesse se fato se instalado na pessoa, embora ela seja apenas uma criação mental (exemplo disso é a chamada gravidez psicológica).
Na hiper-realidade, portanto, torna-se cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção, o natural do criado pelo homem. Um momento fundamental dessa mistura aconteceu durante os ataques terroristas de 11 de setembro. Aquilo parecia tanto com um filme que na França as transmissões eram acompanhadas do aviso: “Isto não é ficção”.
Essa confusão entre ficção e realidade tem um precedente famoso no Brasil: desde que as novelas estrearam entre nós se tornou comum que os telespectadores confundissem o ator com o personagem. Atores que interpretavam vilões muitas vezes eram insultados e até agredidos na rua.

Mas não é preciso ir muito longe ou mesmo ligar a TV. Abra a geladeira. É possível que você encontre lá cenouras. Podem parecer reais, mas não são. As cenouras reais são feias, murchas, pálidas. Aquelas cenouras bonitas, amarelas, grandes que você provavelmente tem em sua geladeira são uma ficção, uma invenção humana. São cenouras hiper-reais.
Aliás, aí vai mais uma característica da hiper-realidade: ela é muito mais fascinante que a realidade. Há uma anedota sobre isso. Uma mulher elogia a beleza de uma menina, ao que a mãe responde: “Se você acha ela bonita, precisava ver a foto dela!”.
Ainda na geladeira podemos ver isso nas embalagens de produtos congelados. As fotos das embalagens são lindas, irresistíveis, deliciosas. Você abre, é algo completamente diferente. O sanduíche vistoso da embalagem é uma coisa murcha e pequena. A lasanha saborosa, crocante, lustrosa da capa é uma massa gosmenta. As imagens hiper-reais da embalagem são muito mais interessantes que a comida em si.
No cinema então a diferença é gritante. Entramos na sala escura e vemos mundos extraterrestres extraordinários e acreditamos neles mais do que acreditamos no mundo lá fora. Até mesmo em filmes urbanos, como 50 tons, a fotografia hiper-real faz com que tudo seja fascinante, romântico, perfeito como o mundo real jamais será.
As também as pessoas se tornam hiper-reais. Um vídeo viralizou na internet ao mostrar todo o processo pelo qual passam as modelos de propagandas: da luz à maquiagem, passando pela manipulação digital, que as torna mais magras, esguias, tira manchas, espinhas, tornando-a perfeita segundo o um padrão de beleza estabelecido. E essa mulher hiper-real se torna o modelo a ser seguido, um modelo inalcançável.

Aliás, a mulher perfeita, hiper-real não está apenas nos anúncios. Ela existe em carne em osso. Ou melhor, em silicone. São as real dolls, novas bonecas sexuais produzidas ao gosto do freguês, que escolhe a cabeça, o tronco, os seios, as pernas até montar sua mulher ideal.
Os fabricantes perceberam, no entanto, que muitos homens não se excitavam com mulheres “reais”, mas com suas versões em anime ou mangá. Isso abriu um novo mercado: o de bonecas sexuais baseadas em personagens de animes. Ou seja: o simulacro do simulacro.
Na mão inversa desse fenômeno, surge um outro: mulheres que fazem de tudo para se parecerem com bonecas, como no caso da Barbie humana, que realizou diversas cirurgias para ficar o mais parecida possível com a famosa boneca. Em redes sociais como o Facebook é possível encontrar grupos de garotas que dão dicas de maquiagens, roupas e outras para quem pretende incorporar uma boneca.
Em tempos de internet, até a identidade se torna hiper-real, sendo definida pelo que as pessoas postam nas redes sociais. E geralmente essas publicações são escolhidas e pensadas pela imagem que irão passar. A maioria das pessoas escolhe as melhores fotos, os melhores momentos. No Facebook todo mundo é feliz e todos vivem em eternas férias. Essa situação foi aproveitada por uma designer holandesa que se fechou em sua casa durante um mês e, manipulando fotos, simulou uma viagem ao redor do mundo. Todos de seu círculo de amizade acreditaram.
Esse é o mundo em que vivemos: um mundo hiper-real em que modelo se sobrepõe ao original, em que imagens perdem seus referentes, em que é cada vez mais difícil distinguir ficção de realidade. 

A Briga dos Dois Ivans


Até a publicação de A Briga dos Dois Ivans (1834), de Nikolai Gógol, o humor com forte teor de sátira social ainda dava seus primeiros passos na consolidação da grande literatura russa. O estilo do autor era tão inovador e cômico que a produção de suas primeiras obras gerou uma cena antológica nos bastidores editoriais, na qual os próprios impressores da gráfica interrompiam o trabalho técnico para ler as páginas das provas e caíam na gargalhada.

A história gira em torno de dois vizinhos, Ivan Ivanovitch e Ivan Nikiforovitch, cujas personalidades e aspectos físicos são absolutamente opostos. Um é magro, o outro é gordo; um é falastrão, o outro é calado; um adora passear, enquanto o outro dificilmente sai de casa. Apesar de todas as discrepâncias, eles são considerados os melhores amigos da cidade de Mirgorod, até que um evento aparentemente banal os transforma em inimigos mortais. Certo dia, a criada de Ivan Nikiforovitch coloca as roupas da casa para tomar sol no quintal e, entre as peças, pendura uma velha espingarda que imediatamente desperta a cobiça do vizinho.

Ivan Ivanovitch tenta negociar o artefato oferecendo uma porca em troca; depois, propõe dois sacos de aveia; em seguida, tenta barganhar oferecendo a porca e os dois sacos de aveia juntos. Contudo, o amigo mantém-se irredutível na recusa e, no ápice da discussão, chama o vizinho de "ganso". Essa única palavra é o estopim que deflagra toda a inimizade vitalícia entre eles, e Gógol explora com maestria a pequenez do motivo como o motor principal do humor absurdo da narrativa.

Gógol é considerado o pai da literatura russa. 

Em sua guerra particular, os dois Ivans envolvem todas as esferas burocráticas e autoridades da cidade. A caracterização dessas figuras públicas é, provavelmente, o ponto alto da obra: todos são absolutamente ineptos, retratados como se tivessem sido selecionados para os cargos justamente por sua incompetência. O juiz não demonstra o menor interesse pelos processos jurídicos e prefere passar o expediente no tribunal fofocando com os presentes. O delegado foi atingido na perna durante o período de guerra, de modo que subir um simples lance de escadas se transforma para ele em uma verdadeira jornada épica. Para completar o cenário, o único policial da cidade é maneta e um tanto obtuso.

Gógol revela-se um mestre refinado da ironia, recurso visível no trecho em que descreve a geografia de Mirgorod como uma localidade encantadora. Na realidade, o lugarejo é um pacato fim de mundo onde os moradores estendem roupas para secar nas cercas das casas e a praça central é inteiramente ocupada por um lamaçal permanente; o escritor, contudo, narra o ambiente como se estivesse contemplando um espaço paradisíaco.

As descrições detalhadas, aliás, constituem outro grande destaque estilístico. Gógol frequentemente inicia os parágrafos afirmando ser incapaz de descrever determinado objeto ou situação e que, portanto, não o fará — para, logo em seguida, passar a descrever o elemento minuciosamente, nos mínimos detalhes.

Até mesmo os títulos dos capítulos são aproveitados como ferramentas de humor, a exemplo deste: “No qual o leitor saberá facilmente tudo que nele se contém”. Este recurso ilustra como a obra permanece atual mesmo quase dois séculos após o seu lançamento. Parece que Nikolai Gógol está, de certa forma, zombando dos leitores contemporâneos que detestam receber qualquer tipo de spoiler sobre o enredo.

Tive a oportunidade de ler A Briga dos Dois Ivans inserida em uma excelente antologia do conto russo publicada pela editora Lux, mas a novela em formato de volume solo encontra-se facilmente disponível no mercado editorial brasileiro em uma edição da editora Grua.

terça-feira, outubro 20, 2026

Crise – E o mundo há de morrer!

 


Embora Crise nas infinitas terras já tenha começa bem, é a partir do número 4 que a história se torna realmente memorável, a começar pela impressionante capa, com o Pária olhando atônito enquanto a Precursora mata Monitor com um raio.

Pária foi o primeiro personagem a aparecer na série. Vítima de uma maldição, ele percorre cada um dos mundos do multiverso DC, vendo-os morrer. No número 4, Monitor o leva para seu satélite, revela que ele é responsável por transformá-lo no que ele é e que ele terá um papel fundamental na crise que se aproxima, embora não explique qual é esse papel.

A página dupla mostra as consequências da Crise... 


Aqui entra a genialidade narrativa do desenhista George Perez. Ele ilustrou o diálogo entre os dois em uma página dupla, em que dos dois aparecem, um de cada lado, enquanto no meio vemos as consequências da crise em sequências em que os heróis nitidamente estão sendo derrotados pelas forças do mal.

“A terras 1 e 2 são as próximas a sucumbir... seus destinos estão ligados de maneira inexorável”, diz o Monitor. “A fúria é pior agora,... primeiro foram os céus tornando-se vermelhos. Depois, as tempestades e o clima... agora as perturbações cósmicas que devastam ambos os universos”.

... e os rostos de Monitor e de Pária. 

“Esses mundos morrerão, Monitor... como todos os demais que fui forçado a assistir. Por que fez isso comigo? Qual o propósito em me fazer sofrer tanto”, reclama o Pária.

Logo após o diálogo, o Monitor é morto pela precursora. Sua morte parece ecoar as mortes dos mundos, demonstrada mais uma vez com brilhantismo por George Perez.

Monitor é morto por sua pupila. Tudo está perdido? 


Imagens de diversas terras vão se sobrepondo em quadros verticais, mas a cada quadro parecem menos nítidos, até o final, formado apenas por um quadro branco. Na página seguinte, o fundo branco vai sendo substituído aos poucos por nuvens escuras, até o último quadro, totalmente preto. Uma solução gráfica perfeita para demonstrar que tudo acabou.

Seria esse o fim do universo?

George Perez mostra sua genialidade ao mostrar o fim das terras paralelas. 


Na comparação, a ameaça enfrentada pelos heróis da Marvel em Guerras Secretas parece ridícula.

Logan´s run: nenhuma ditadura é boa

 

Existem obras que nos marcam para o resto da vida. No meu caso, uma obra fundamental foi Logan's run (Fuga do século 23), um filme de 1976, dirigido por Michael Anderson, posteriormente transformado em série televisiva. Não lembro de ter visto ao filme, mas eu devorava a série todas as tardes e era muito raro perder um episódio.

Logan's run conta a história de uma cidade hermeticamente fechada onde as pessoas vivem para o prazer. Mas há um porém. Ao chegarem aos 30, todos precisam ser "renovados". A renovação acontece durante um evento chamado carrossel em que as pessoas, flutuando no ar, são atingidas por raios que supostamente teriam a capacidade de renová-los. Na verdade, as pessoas são mortas para dar lugar a crianças. 


Para cada criança que nasce, uma pessoa deve morrer. A estratégia é uma forma de controle populacional imposto pelas máquinas que governam a cidade e convencem os cidadãos de que 30 anos é idade máxima que se pode viver. Logan é um patrulheiro, uma das pessoas que perseguem e matam os que tentam fugir da renovação no carrossel.




Aí há algumas diferenças entre o filme e o seriado. No filme, Logan e uma jovem chamada Jéssica conseguem fugir, mas se deparam com um mundo destruído por uma guerra nuclear. Depois de muito caminharem, chegam em Washington, onde encontram um velho. Eles voltam para a cidade, que acaba sendo destruída e termina com os seus jovens habitantes ao redor do velho, admirados com um tipo de pessoa que nunca haviam visto. 


No seriado, Jéssica e Logan fogem ajudados por um androide e são perseguidos por patrulheiros. Em suas andanças à procura do Santuário, um local paradisíaco, onde as pessoas vivem felizes, sem terem de morrer aos 30 anos, eles se deparam com os mais diversos tipos de perigos, de uma sociedade religiosa fundamentalista a uma casa mal-assombrada (é, às vezes os roteiristas viajavam um pouco...). 


Minha idolatria pela série fez com que eu encontrasse uma ressonância em obras distópicas, como 1984, de George Orwell, Admirável Mundo Novo, de Adous Huxley e Farenheith 451, de Ray Bradbury e isso talvez explique porque eu gostei tanto desses livros. Em todos eles havia a concepção de uma sociedade despótica em que não eram as próprias pessoas que decidiam sobre seus destinos. 



Nesse sentido, Logan's run me ajudou a definir minha filosofia política. Eu percebi que os sistemas autoritários surgem geralmente respaldados pelos cidadãos comuns. Em Logan's run as próprias pessoas colocaram o controle nas mãos das máquinas, pois isso era mais cômodo, já que as máquinas providenciavam tudo que se necessitava, podendo as pessoas viverem apenas para o prazer. Em sociedades desse tipo, em que as pessoas colocam o controle de suas vidas nas mãos de outros, os que governam conseguem impor o que quiserem. Os habitantes da cidade dos Domos achavam que morrer aos trinta anos era algo absolutamente normal porque era isso que a as máquinas diziam. A figura dos patrulheiros também é interessante, pois embora também sejam vítimas desse sistema (também eles devem morrer aos 30 anos), eles o defendem com unhas e dentes. Tanto no filme quanto no seriado, Logan e Jéssica são perseguidos por um patrulheiro totalmente cego a tudo que vê, pois só consegue obedecer à sua programação. Da mesma forma, todo regime autoritário só existe porque tem à sua disposição a tigrada, aqueles que obedecem cegamente ao ditador, mesmo que sejam vítimas dele. 

Outro aspecto interessante é observar uma sociedade formada exclusivamente por jovens (há uma cena em que uma garotinha vê a personagem Jéssica, de 24 anos, e diz que ela é uma velha bonita) em um filme lançado no auge do movimento hippie.


No filme, as pessoas, quando querem sexo, entram num circuito que permite escolher qualquer outra pessoa que esteja no circuito (uma antecipação dos chats eróticos?), e há a loja do amor, onde qualquer um pode se relacionar com qualquer um. Ao fugirem, Jéssica e Logan redescobrem as sociedades antigas e as uniões estáveis e decidem que serão marido e mulher e terão filhos. Seria uma espécie de auto-crítica da geração do amor livre? Como um jovem refletindo sobre suas mais importantes questões, a série não dá respostas. Se no filme Jéssica e Logan tornam-se um casal (amável esposa, amável esposo), no seriado os dois fogem juntos, mas não fica clara a relação entre eles. Ou seja, a série é mais uma reflexão sobre um comportamento do que uma censura do mesmo. 


O filme também antecipa toda a discussão ecológica sobre o aquecimento global. Numa sociedade em que restauram poucos recursos naturais, a solução encontrada é o controle populacional e o reaproveitamento dos recursos (creio que esqueci de mencionar que as pessoas mortas no carrossel são secretamente transformadas em comida para os mais jovens). 


A presença do andróide REM também permite interpretações interessantes pois, embora Logan e Jéssica estejam fugindo da ditadura das máquinas, eles estão sendo ajudados por uma máquina. Seria o andróide um espião infiltrado entre eles apenas para destruir o santuário quando o encontrarem? A série nunca deixou isso claro, mas o fato deu origem a situações interessantes que quebram com o maniqueísmo: o amigo pode também ser o inimigo. Aquele que parece simpático pode ser a maior ameaça. 


O seriado nunca mostrou os personagens chegando ao santuário, o que foi uma decepção para alguns fãs. Mas, por outro lado, deixou em aberto a situação, permitindo que cada um visualize o santuário a seu modo. O santuário, assim, passou a significar menos um local e muito mais um sentimento de esperança de que o homem um dia consiga encontrar uma maneira de viver sem ser dominado por regimes autoritários, em que cada pessoa viva feliz, sendo responsável e livre para fazer suas próprias escolhas. 

Red Sonja – a balada da deusa ruiva

 


No início da década de 1970 a revista do selvagem Conan estava iniciando sua escalada para se tornar uma das mais vendidas do mercado de quadrinhos norte-americanos e Roy Thomas, o roteirista,  tinha um problema: ele queria uma personagem feminina, que não estivesse na cronologia do herói e que ele pudesse usar à vontade. Das personagens criadas por Robert E. Howard, Valeria era loira e Belit era morena. Thomas precisava de uma ruiva. Foi quando leu um texto num livro de ensaios sobre o gênero espada e magia que mencionava o conto A sombra do abutre, que apresentava uma personagem ruiva que seria uma boa companheira para Conan.

O roteirista foi atrás do conto original e descobriu que a história se passava no final da Idade Média, durante o cerco de Viena por parte dos turcos. A personagem era Red Sonya de Rogatino e dividia a história com um guerreiro alemão.

Thomas colocou a personagem na era hiboriana e trocou seu nome para Sonja. Surgia assim, numa história desenhada por Barry Windson Smith, uma das personagens mais queridas dos quadrinhos. Mas Roy Thomas não gostava da cota de malha e da calça collant que a personagem usara na história. Assim, quando chegou em suas mãos uma pin-up de Esteban Maroto da heroina com um biquíni de ferro, ele sabia que aquele seria o visual definitivo da heroína.

Maroto criou o visual da personagem. 


Em 2018, Roy Thomas foi convidado a participar de uma convenção de quadrinhos em Barcelona e surgiu a ideia de aproveitar o evento para o lançamento de um álbum de Sonja desenhado por ninguém menos que Esteban Maroto (com a colaboração de Santi Casas). O resultado foi o álbum A balada da deusa ruiva, publicado no Brasil em 2021 pela Pipoca e Nanquim.

A história mostra uma menestrel cantando uma balada para o rei Thallos, que conquistara um império. Thallos tem poder e riquezas inimagináveis, mas é atormentado pelo fantasma da morte e procura a fonte da juventude na qual Sonja se banhou.

Santi Casas desenha parte da história. 


Essa moldura, desenhada com muita competência por Santi Casas, serve de introdução para a origem de Conan, desenhada por Maroto. Embora seu desenho seja mais comportado do que na época que colaborava com a Warren, Maroto dá um show de narrativa com destaque para o trecho em que Sonja, após ser estuprada e quase morrer nas mãos de bandoleiros, é revivida por uma deusa – enquanto toda a HQ é preto e branco, a deusa é mostrada em vermelho – cor que Sonja passa a exibir nos cabelos após ser revivida e empreender sua vingança. Algo a se destacar é que a origem mostrada nesse álbum é muito mais crua e violenta que aquela que os leitores da Marvel conheceram lá nos anos 70.

O álbum da Pipoca e Nanquim já seria obrigatória para os fãs de Robert E. Howard só por conta da HQ, mas traz uma incrível supresa: A sombra do abutre, o conto original na qual aparece a personagem Red Sonya. Antes do resgate feito por Roy Thomas, o texto era tão obscuro que só tinha publicado uma vez, na revista Magic Carpet. E o texto é surpreendentemente bom, uma tremenda aventura com as descrições detalhadas e poderosas de Robert E. Howard.

O álbum faz um uso criativo da cor vermelha. 


A primeira vez que a heroína aparece, Howard a descreve da seguinte forma: “Ela era alta, esplendidamente bem torneada, mas ágil. Por baixo do elmo de aço, tranças rebeldes ondulavam como ouro vermelho ao sol, caindo sobre os ombros compactos. Botas altas de couro cordovês chegavam até o meio das coxas, estas cobertas por calças largas. Ela vestia uma camisa da mais fina cota de malha turca enfiada dentro das calças. Sua cintura delgada estava envolva por um cinturão de seda verda, no qual portava duas pistolas cruzadas, uma adaga, e do qual pendia um longo sabre húngaro. Um manto escarlate cobria desleixadamente todo o conjunto”.

A Sonya da literatura é, portanto, muito diferente visualmente da personagem dos quadrinhos, mas a personalidadeé muito parecida: irascível, corajosa a ponto de se mostrar temerária... e uma boca suja sem igual (característica que nos quadrinhos foi atenuada).

A história mostra a personagem ajudando o grandalhão Gottfried von Kalmbach, que, tirando o porte físico, não se parece em nada com Conan, a começar pelo longo bigode.

Os dois defendem Viena contra os turcos e mais especificamente contra o guerreiro Mkhal Oglu, que, para apavorar os inimigos usa, presa à armadura, uma asa com penas de abutre, daí o título do conto: A sombra do abutre.