domingo, setembro 20, 2026

Batman e Sargento Rock

 


No número 84 da revista The Brave And The Bold, o cavaleiro das trevas se encontrou com o herói da II Guerra Mundial, Sargento Rock.

Encontro de personagens de eras diferentes podem parecer absurdas, mas nas mãos de roteiristas competentes, podem gerar histórias memoráveis, como o encontro do Homem-aranha com Sonja na revista Marvel Team-Up 79, com roteiro de Chris Claremont e desenhos de John Byrne. A dupla conseguiu explicar perfeitamente esse encontro inusitado.

Acontece que Bob Haney, o roteirista de The Brave and the bold, não era Chris Claremont e, apesar do desenho inspirado de Neal Adams, o resultado é sofrível.

A história começa com uma sequência confusa, em que o leitor não consegue distinguir passado de presente. 

A história começa em 1969, no Museu de Gotham. Um homem que parece ser o diretor do Museu mostra para Bruce Wayne uma estátua: “O arcanjo Gabriel, que na Segunda Guerra Mundial, foi contrabandeado da frança ocupada pelos nazistas para ficar seguro aqui. Finalmente alguém ligou reclamando a estátua”. Mas Bruce Wayne esclarece que o verdadeiro arcanjo nunca saiu da frança, o que significa que a estátua é falsa.

Tudo bem que Batman é o maior detetive do mundo, mas ele saber mais sobre os objetos de arte do que um diretor de museu, que teoricamente é alguém especializado no assunto? Parece que Bruce Wayne tirou essa conclusão da mesma forma que um mágico tira um coelho da cartola.

Uma sequência de ação totalmente desnecessária. 


Mas calma, leitor, isso é só o início. Bob Haney ainda vai aprontar muita confusão.

Logo depois os dois são atacados por um alemão, que atira no diretor do museu e ameaça Wayne. Logo depois, na mesma página, o alemão desaparece e alguém chamado Digby dá um soco em Bruce Wayne. Isso é um flash back, mas não há qualquer indicação disso e, como a sequência começa no meio da ação,a tendência do leitor é achar que se trata de uma continuação dos fatos mostrados anterioremente. Esse flash back mostra Bruce Wayne em Londres, na época da II Guerra Mundial, exatamente com a mesma cara da sequência do presente – ou seja, ele não envelheceu nada em quase 25 anos!

Bruce Wayne é incubido pelo governo inglês de ir à França ocupada descobrir um plano secreto dos alemães para parar a invasão da normandia. O playboy vai no mesmo avião que a companhia Moleza, do sargento rock, numa sequência de ação totalmente desnecessária, em que ele pula de uma moto diretamente na porta do avião e é agarrado pelo sargento.

Bruce Wayne descobre o plano dos nazistas: dedução ou super-poderes? 


Na França, Bruce Wayne entra num castelo ocupado pelos nazistas e descobre que o plano dos mesmos tem algo a ver com garrafas de vinho. Descendo à adega, ele percebe que as garrafas estão vazias. Mas olhando bem ele descobre que na verdade elas estão cheias de gás dos nervos!

Mais uma vez o maior detetive do mundo faz suas deduções da mesma forma que um mágico tirando um coelho de uma cartola. Como ele chegou à conclusão de que as garrafas estão cheias de gás dos nervos sem sequer analisar o conteúdo? Ele tem algum poder sobrenatural que faz com que seus olhos consigam analisar moléculas? Bob Haney diria: “não importa!”.

Para piorar, quando a história volta ao presente, Sargento Rock aparece do nada para salvar Bruce Wayne (o que já é um tremendo deus ex machina) e ele está envelhecido! O tempo passou para o Sargento Rock, mas não para Wayne?

Neal Adams imita o estilo de Joe Kubert. 


Bob Haney coloca o batman para narrar a história, mas isso se torna totalmente desnecessário, pois a narração sequer ajudar o leitor a compreender essa história extremamente confusa.

No final, a HQ vale mesmo pelo desenho de Neal Adams, que, além de dar o seu show habitual, ainda imita o estilo de Joe Kubert nas sequências em que aparece a companhia moleza (Kubert foi o desenhista oficial do Sargento Rock por anos).

Hulk: um herói a cada dia

 


Publicada na revista Hulk 39 da edtora Abril, “Um herói a cada dia” é um ótimo exemplo das razões pela qual a dupla Bill Mantlo e Sal Buscema criaram a mais longeva e mais elogiada fase do gigante verde.  
A história se passa em um futuro apocalíptico em constante guerra em que pessoas têm como único objetivo matar e destruir. Um desses guerreiro é acertado por um raio gama e enviado ao passado, indo parar exatamente no laboratório onde Bruce Banner faz suas pesquisas e, claro, entra em conflito com o Hulk.
A história é uma crítica à guerra. 


É o tipo de história que só poderia ser publicada na Marvel da Era de Bronze. Mais do que uma boa aventura, é um libelo pela paz e uma metáfora sobre como os soldados são doutrinados de forma a matarem sem nem mesmo saberem porque o fazem.
O “herói”  do título faz parte da crítica e tem sentido irônico.
O texto, mesmo resumido, guarda sua força “Na noite passada, o campo de batalha foi sua cama e os gases venenosos que pairam sobre ele foram seu corbertor. Para a café da manhã, uma injeção intravenosa de ração pré-programada. Ontem lutou com garra... hoje vai ter que ser melhor ainda, pois recebeu uma menção honrosa e foi declarado herói do dia (...) Um soldado apenas obedece ordens.


Uma curiosidade é que quando essa história foi publicada no Brasil a editora Abril mudou o rosto do Hulk na capa. 

Predadores humanos

 

Os psicopatas assassinos não são uma realidade apenas dos EUA, como durante muito tempo se acreditou. Eles estão aí, em todas as sociedades e, ao contrário do que se pensa, são, na grande maioria das vezes, indivíduos perfeitamente ajustados à sociedade, pais de família, simpáticos, pessoas acima de qualquer suspeita. Saber sobre eles, como eles são e como agem é a melhor forma de se prevenir contra eles. Assim, é bem-vindo o fato de que cada vez mais surgem nas livrarias obras especializadas no assunto. Entre elas, uma das mais interessantes é Predadores Humanos, de Janire Rámila (editora Madras, 216 páginas).
Janire parece ser uma pessoa indicada para a empreitada. É jornalista com mestrado em criminologia. É colaboradora de revistas como a Muy Interessante (versão original da nossa conhecida Superinteressante) e autora dos livros La maldición de Whitechapel e La ciência contra el crimen.
O interessante do livro de Janire é que, ao contrário da grande maioria das obras sobre o assunto, não se limita a apenas narrar casos famosos. Sua análise vai desde a definição de serial killer (alguém que matou ao menos três vezes, em momentos e lugares diferentes) até a discussão sobre o que fazer com eles.
O livro inicia pela diferenciação entre psicopata e psicótico, uma confusão comum tanto na imprensa como nos tribunais, já que muitos advogados de serial killeres tentam convencer o júri de que seus clientes são doentes mentais.
Segundo a autora, psicose é uma doença mental que provoca em quem a tem uma alteração do sentido de realidade: “O psicótico constrói um mundo próprio no qual o bem e o mal se fundem, levando o indivíduo a não ser consciente de seus atos”. Ou seja: o psicótico é um doente, que não tem consciência de seus atos e, portanto, não pode ser responsabilizado por eles.
Já os psicopatas são pessoas perfeitamente integradas à sociedade, capazes de distinguir o certo do errado. São frios e calculistas. Ao contrário dos psicóticos, que geralmente matam num ataque de fúria descontrolada, os psicopatas planejam seus atos. São também superficialmente simpáticos e agradáveis – uma máscara criada para ser mostrada para a sociedade. Psicopatas também são mestres da mentira, capazes de enganar e manipular suas vítimas.
Um quadro apresentado pela autora mostra as diferenças radicais entre psicopatas e psicóticos: enquanto os primeiros são aparentemente ajustados à sociedade, os segundos são socialmente imaturos e reservados; enquanto os primeiros têm forte auto-controle e auto-estima, os segundos têm personalidade frágil e mostram precisar de ajuda; enquanto os primeiros têm controle durante o assassinato, chegando a alterar a cena do crime para esconder provas ou mandar mensagens, os segundos são descuidados e atabalhoados; enquanto os primeiros seguem os meios de comunicação e normalmente fazem recortes sobre seus crimes, os segundos não acompanham as notícias; enquanto os primeiros são presos-modelo (pois sabem que isso diminuirá sua pena), os segundos têm comportamento violento e conflituoso quando são presos.
O capítulo mais interessante do livro, pouco abordado em outras obras, é “O problema do tratamento”, que inicia com uma pergunta instigante: o que podemos fazer para evitar que o assassino serial volte a matar?
O problema é mais complexo do que aparenta. Primeiro porque o psicopata não é um doente mental, como tal, não pode ser internado em centros psiquiátricos e, se o forem, podem facilmente manipular os psicólogos para fazerem crer que estão curados (uma das principais características dos psicopatas é a sua capacidade de mentir e manipular). Por outro lado, se forem presos junto com os criminosos comuns, têm os mesmos direitos de redução de pena de qualquer outro preso e, como sempre são presos exemplares, de ótimo comportamento, conseguem facilmente a redução da pena. Além disso, a mentalidade atual é de que as prisões servem como meio de reabilitar o detento e reincorpora-lo à sociedade. “Até agora, não se conseguiu inserir um só assassino ou estuprador serial”, afirma a autora “Por quê? Simplesmente porque já são velhos para aprender a sentir esse carinho que nunca demonstraram em relação aos seus semelhantes estando livres. Não se pode transformar um feroz assassino em um vizinho amável mediante reuniões de grupo”.
Além disso, os psicopatas assassinos são uma exceção às teorias mais convencionais sobre o crime. Um exemplo: pesquisas realizada nos EUA em 2005 mostram que as vítimas de assassinato são preferencialmente homens negros e as mulheres brancas são o tipo com menor probabilidade de serem assassinado. Quando se trata de assassinos seriais, a estatística se inverte: as mulheres brancas são o grupo mais propenso a morrer e os homens negros os menos propensos. Enquanto, na maioria das vezes, os criminosos são homens negros e pobres (reflexo direto de suas condições sociais), entre os psicopatas assassinos, geralmente são homens brancos, de classe média, com empregos estáveis e muitas vezes donos de seus próprios negócios.
Esses dados demostram o quanto o tema é importante nos dias atuais. Só com conhecimento a sociedade pode discutir soluções para esse problema. Nesse sentido, livros como Predadores humanos podem ser uma grande contribuição.
Ps: Gostaria de conhecer mais sobre Psicopatas? Que tal comprar o  Livro Psicopatas - o perigo invisível na Amazon

Conan – A libertação de Thugra Khotan

 

Algo que diferencia Conan da maioria das histórias de fantasia (e até mesmo de espada e magia) é que as histórias de Robert E. Howard tinham muito de terror, herdado de Lovecraft.  O terror criava o elemento  que equilibrava o erotismo latente das histórias, replicando os princípios de Eros e Thanatos. Soma-se a isso um protagonista que mais se aproximava de um anti-herói e temos a fórmula do que fez Conan um personagem tão famoso na literatura e nos quadrinhos.

A libertação de Thugra Khotan, com roteiro de Roy Thomas e desenhos de John Buscema e Alfredo Alcala (e publicado originalmente em Savage Sword of Conan 2) apresenta todos esses elementos.

Na história, um ladrão invade um antigo templo para roubar tesouros e, no processo, liberta um feiticeiro que estava preso ali há séculos. A splash page inicial, com o ladrão aproximando-se do templo, é um dos melhores exemplos de como a dupla Buscema – Alcala era inspirada. A arte destaca o quanto o local é soturno, repleto de sombras  que parecem espreitar o personagem. O texto diz: “Lá está Shevatas, o ladrão... o único resquício de vida entre os colossais monumentos de desolação e decadência”.

A princesa atormentada por pesadelos. 

A história pula para o pequeno reino de Khoraja, onde a bela princesa Yasmela é atormentada em sonhos pelo espectro de Natohk: “Em breve, como uma avalhanche, eu passarei sobre as territórios dos meus antigos inimigos! Os soberanos daquelas terras fornecerão os crânios que serão usados como cálices... mas você... você será a minha Rainha, princesa... você aprenderá as formas de prazer há muito esquecidas...”.  as imagens mostram a princesa atormentada a ponto de parecer uma mendiga, os cabelos desgrenhados, a expressão assustada.

Aconselhada por uma criada, a rainha procura a estátua do deus Mitra, que dá um conselho estranho para a princesa: sair na rua, de madrugada, e convidar o primeiro homem que encontrar para se tornar o general de seu exército.

Claro que o homem que ela encontra é... Conan, que até então vinha trabalhando como mercenário para o exército do país. 

A dupla Buscema-Alcala consegue ilustrar até aquilo que seria difícil de descrever.


É conan que irá salvar o reino e a princesa, libertando o mundo da maldição do feiticeiro. A história, tirada diretamente de um conto de Howard, é um exemplo de como a equipe da revista estava em sintonia, conseguindo resultados igualmente assustadores e empolgantes – não por acaso essa história se tornou um clássico. Entre as sequências memoráveis, há uma em que a montaria do feiticeiro muda de forma. Buscema e Alcala consegue transformar em imagens algo que não poderia ser descrito.

No Brasil essa história foi publicada pela primeira vez em A espada selvagem de Conan 3.

Artigo sobre a evolução dos textos nos quadrinhos

 


 
A revista Imaginário é uma das mais importantes publicações acadêmicas do Brasil sobre quadrinhos e cultura pop. No número 21 ela trouxe um artigo meu, escrito em parceria com Rodrigo Bandeira, sobre como texto evoluiu nos quadrinhos americanos, indo desde a abordagem redundante em que texto e desenhos competiam para transmitir as mesmas informações, até o uso criativo e revolucionário do texto. 


O texto é resultado de mais de 30 anos lendo e estudando quadrinhos. Quando comecei a escrever roteiros, uma das coisas que percebi é que, para ter bons textos, precisa saber "ler" as HQs. Isso significava uma leitura mais apurada, em que eu procurava distinguir os elementos do roteiro, em termos de estrutura e de texto. Quando gostava de algo, eu me perguntava: o que faz disso uma obra tão boa? Quais as caracteríticas do texto que fazem com que ele seja uma leitura tão agradável? 

Com o tempo essa leitura mais apurada foi se transformando em textos e artigos. Esse artigo em especial é meio que um resumo do que descobri nesses 30 anos a respeito de como os quadrinistas foram melhorando a parte textual dos quadrinhos. 

Uma curiosidade é que o artigo foi escrito durante a pandemia, enquanto eu estava convalescendo de covid-19. Rodrigo Bandeira, que aparece como co-autor, me ajudou bastante, conseguindo informações, imagens, dando ideias. 

Leia mais sobre essa edição: 

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Para ir direto ao meu artigo, clique aqui

Nove desconhecidos

 

Nove desconhecidos, nova série da Amazon, é uma incógnita . É uma série de terror psicológico? É uma série sobre pessoas que superam suas dificuldades e se tornam pessoas melhores? É tudo isso junto e misturado?

Na trama, um grupo de pessoas se reúne num spah com métodos poucos ortodoxos, entre eles o uso de drogas alucionógenas. Todos ali parecem ter grandes traumas. Há um ex-jogador de futebol que teve que largar os esportes após fraturar o joelho, há uma escritora de histórias românticas que foi vítima de um golpe de internet, há uma mulher que foi abandonada pelo marido e tem ataques de fúria, há uma família cujo filho se suicidou...

O local é administrado pela misteriosa Masha, interpretada por Nicole Kidman (que também assina a produção). Dela só sabemos que era uma importante e pouco escrupulosa empresária antes de sofrer um atentado e quase morrer – o que mudou a sua vida.

Em tempo: Nove desconhecidos tem uma abertura realmente memorável, que lembra muito a antológica abertura de True Detective.

Fundo do baú - Perdidos no espaço

 


Perdidos no espaço é um daqueles casos singulares em que toda uma série muda para se adequar a um ator que, a princípio, deveria aparecer apenas em alguns episódios.

Criada por Irwin Allen, a série se passava em um futuro distante, em que a terra estava sofrendo com super-população. Assim, uma família, os Robinsons, são escolhidos para tripular uma nave em direção a Alpha Centauri, com o objetivo de conseguir uma nova casa para os humanos. A eles junta-se o Major Don West.

Mas tudo dá errado quando um espião de uma nação inimiga sabota a nave. Entretanto, ele acaba ficando preso na nave e quando a programação faz a nave se perder no espaço, ele acaba se perdendo junto. No final, eles ficam presos em um planeta desconhecido.

Esse espião era o Doutor Zachary Smith, interpretado por Jonathan Harris. Ele percebeu que seu personagem era chato e desinteressante (já que ele deveria aparecer apenas nos primeiros episódios) e começou a reformulá-lo. Ele interpretava de uma maneira cômica, introduzindo humor em uma série que, a princípio deveria ser séria (a inspiração de Forbiden Planet era tão grande que um dos episódios tinha esse nome). Além disso, criava suas próprias falas, fugindo do roteiro. Suas brigas com o robô Robby tornaram-se célebres com frases de efeito que logo caíram no gosto do público.

Logo, O Doutor Smith se tornou o vilão que todos adoravam odiar e os roteiristas passaram a aproveitar isso, mesclando a ficção científica original da série com humor.

A maioria das histórias, aliás, passou a girar em torno da mesquinharia do Doutor Smith e seus planos mirabolantes que quase sempre colocavam alguém ou até todos em perigo. 

Perdidos no espaço teve três temporadas com 84 episódios e só foi cancelada porque era uma série cara para os padrões da época.

Uma curiosidades é que o seriado é uma adaptação do livro A família Robinson, de Johann David Wyss no qual uma família de imigrantes que vão parar em uma ilha deserta após um naufrágio. O livro Wyss, por outro lado, era versão de Robison Crusoe, de Daniel Defoe.

sábado, setembro 19, 2026

A vênus de Milo

 


A vênus de Milo é uma das esculturas gregas mais famosas de todos os tempos. É também uma das poucas que restaram. A maioria das estátuas gregas existentes em museus são cópias feitas por romanos para adornar casas dos ricos (naquela época parecer grego era a coisa mais chique que você poderia almejar).

A estátua foi descoberta por acaso por Olivier Voutier, um oficial da marinha francesa. De serviço na ilha de Milo, ele resolveu descer do navio e procurar restos arqueológicos. Deu de cara com um agricultor, Yorgos Kentrotas, que procurava pedras para reforçar o muro de sua fazenda. O agricultor tinha encontrado a estátua e estava enterrando-a de novo, já que não servia para a muro. O que ele descobrira era apenas a parte superior do conjunto. Olivier conseguiu convencer o agricultor a procurarem a parte inferior e encontraram pouco depois.

Voutier estava convencido de que estava diante de uma obra-prima e conseguiu convencer as autoridades francesas e comprar a obra do fazendeiro por 700 francos.

A estátua foi recebido com festa no Museu do Louvre. Afinal, o Museu Britânico tinha o Mármores de Elgin do Partenon e o Louvre não tinha nenhuma obra legitimanete grega. Eles chegaram a apresentar a estátua como sendo obra de Fídias ou Praxiteles, dois dos maiores escultores gregos da era clássica. Hoje tudo leva a crer que o verdadeiro autor seja o desconhecido Alexandro, filho de Menides e teria sido feita na era helenística, ou seja, muito mais recente.

Mas a propaganda deu certo e logo a Vênus se tornou uma das obras mais populares do Louvre a ponto de pessoas se aglomerarem ao redor dela da mesma forma que se aglomeram ao redor da Monalisa (Foi muito difícil conseguir um espaço  no meio da multidão para conseguir tirar essa foto).  

Não se sabe exatamente quem está representado na estátua, mas sua beleza e seu rosto impassível levam a crer que se trata de uma deusa, provavelmente Vênus, ou Afrodite.

A Vênus de Milo se tornou também uma das obras mais homenageadas e reproduzidas de todos os tempos.

O mistério dos signos

 

 

Em dezembro de 1990 eu já era roteirista de quadrinhos com trabalhos publicados. Tinha praticamente abandonado os gibis e lia principalmente graphic novels e minisséries. Foi quando saiu uma série Disney que me fez comprar e relembrar a infância, quando eu devorava gibis do Tio Patinhas. 
O mistério dos signos, lançado pela Abril em três volumes era uma história Disney totalmente atípica. A começar pela ênfase, que não era o humor, mas a aventura. Além disso, era uma história longa, no total quase 400 páginas, com uma trama bem amarrada e desenhos do meu artista Disney preferido, Massimo De Vita, cujo nome eu não conhecia, mas cujo traço eu reconheci assim que coloquei os olhos na primeira edição. 
O professor Zodíacus divide a pedra dos signos em doze partes. 


Não eram quadrinhos comuns. Aquilo parecia mais uma graphic novel. Na história, Mickey e Pateta voltam ao passado em uma pesquisa para o museu de Patópolis sobre o modo de vida dos primeiros colonos. Enquanto descansam num celeiro, são surpreendidos pela reunião de um grupo de místicos e seu líder, o Professor Zodíacus, que dá a cada um uma pedra e promete que quando elas forem reunidas, será possível prever o futuro. 
Voltando para o futuro, Mickey e Pateta decidem reunir as pedras para o museu. Enquanto isso, Tio Patinhas fica sabendo da pedra zodiacal e os dois grupos (um formado pelo Pateta e pelo Mickey e outro formado pelos patos) une forças para reunir as peças. Mas sempre é necessário haver um vilão, e Bafo de Onça e Mancha Negra resolvem se apoderar da pedra.
Bafo de Onça é o vilão da história. 


É o que chamo de roteiro redondo: há um MacGuffin (o objeto que que os personagens procuram) muito claro dividido em doze partes cada um delas ligada de alguma forma a algum símbolo do zodíaco. Assim, por exemplo, a pedra de escorpião é encontrada no vale dos escorpiões, a pedra de aquário dentro de um aquário etc.
Há episódios que puxam mais para o humor, outros mais para a aventura e outros para o policial. De todos, “Moda estelar”, correspondente ao signo de Virgem, é um dos melhores. 
O capítulo sobre o signo de virgem é o mais curioso. 


Tentando conseguir a pedra que se encontra com um estilista famoso, Donald é abduzido junto com ele por um planeta dominado por mulheres no qual os homens ficam em casa enquanto as mulheres trabalham. A ambientação permitiu que Massimo De Vita explorasse todo o seu pontecial. Na trama, todo ano é escolhida uma roupa para o marido da rainha, roupa que será usada por todos os homens do planeta. E como estão com faltas de ideia, sequestram o tal estilista.
O aviador cegueta é uma homenagem ao Mister No. 


Além de ter um roteiro redondo, Bruno Sarda incluiu diversas referências a astros de cinema, pintores, escultores, estilistas e até personagens de quadrinhos. 
À certa altura Mickey e Pateta preciam pegar um avião na Amazônia e o aviador é Mister Jô, uma bela homenagem ao personagem bonneliano Mister No. E, como sua contraparte, que vive se embedando, essse também tem um defeito para um aviador: é quase cego. 
Nem tudo é perfeito, claro. Como De Vita não conseguiria dar conta de uma história tão longa, à certa altura ele é substituído por Franco Valussi, que os editores consideravam o artista da Disney italiana mais próximo de De Vita. Não que ele a qualidade da arte caía muito, mas é difícil ficar à altura do mestre. O mistério dos signos é até hoje a mais longa história Disney já publicada no mundo e uma das melhores de todos os tempos. Na época foram três edições da Abril, em papel gouchê. Em 2013 a editora republicou a história, agora reunida em um único volume em capa dura. Item de colecionador.

Homem-animal – Vida na selva de pedra

 


Embora o primeiro número do gibi do Homem-animal tivesse chamado a atenção pela qualidade do texto de Morrison e por sua visão descolada de um personagem menor da DC, seria no número dois que os leitores iriam perceber o quanto essa nova série era revolucionária.

No número anterior, o herói é chamado por um laboratório que tinha sido invadido por uma barata do de dois metros de altura. “Todos sabemos que isso é fisiologicamente impossível, pois o esquema de respiração traqueal dos insetos só é eficaz até um certo tamanho”, explica o cientista, numa demonstração de como Morrison pesquisava para escrever suas histórias.

Para seguir o rastro do invasor, o Homem-animal absorve a capacidade olfativa de cachorros usados nas experiências do laboratório – e aqui temos um breve relance do tema principal dessa saga, os abusos praticados contra animais em experiências científicas. O personagem sai do local se sentindo mal e comenta: “Eu preferia um cachorro saudável”.


Um garoto pede autógrafo: pensei que você fosse o Aquaman. 

O herói está lanchando no alto de um prédio quando de repente aparece o Super-homem, num interlúdio levemente cômico, que brinca com o fato do personagem ser praticamente desconhecido dos leitores da DC. Também há uma demonstração de que Homem-animal era um gibi que não se levava tão a sério, com a sequência em que o garoto pede autógrafos para o herói para logo depois descobrir, frustrado, que não se trata do Aquaman.

Mas essa pausa dura pouco. ele é atacado por um homem-rato (e aqui percebemos que o personagem misterioso que vimos desde o primeiro número tem a capacidade de unir dois seres, formando um só).



Pela lógica dos quadrinhos de super-heróis, o Homem-rato seria facilmente derrotado, mas não é o que acontece. Depois de bater muito no herói, o monstro simplesmente... arranca o braço do mesmo.

A sequência inteira é absolutamente memorável tanto pela total quebra de expectativa quanto pela qualidade do texto de Morrison aliada a um bom senso narrativo de Chas Troug. “Eu tento bater. Tento um belo murro. Mas... mas aí nada. Meu Deus. Santo Cristo. O braço... meu braço!”. E vemos o braço caído no meio do lixo e depois o personagem olhando assustado para o tronco e depois desmaiando.

O texto de Morrison é muito eficiente, apesar de curto. Aliás, o Homem-animal tinha, em média menos texto que outros gibis da época, o que mostra que a qualidade é mais importante que a quantidade.

A arte impressionante de Joe Bennett

 

Joe Bennett é hoje um dos mais importantes desenhistas de super-heróis da atualidade. Seu trabalho no Hulk ao lado do roteirista inglês Al Ewing tem sido aclamado pela crítica e pelo público.
Joe Bennett é o pseudônimo do paraense Benedito José Nascimento, ou, como é mais conhecido no Brasil, Bené Nascimento. Influenciado por José Luis Garcia-Lopez e Jack Kirby, ele começou a desenhar desde muito pequeno, sendo totalmente autodidata.
Seus primeiros trabalhos comerciais foram para editora Press, em meados da década de 1980. Chamou tanta atenção que chegou a merecer uma edição especial, lançada em 1987.
Em 1989 conheceu o roteirista Gian Danton, que viria a ser seu principal parceiro nos quadrinhos nacionais. Juntos eles trouxeram a influência de autores britânicos, como Alan Moore, para o Brasil.
No início da década de 1990, uma história da dupla, A insólita Família Titã, chamou a atenção de um caçador de talentos, que o colocou no mercado norte-americano.
Seus primeiros trabalhos foram para editoras pequenas, como a Now, em revistas como o Besouro Verde, mas logo ele estreava na Marvel, no personagem Ravage, da linha 2099.
Desde então ele desenhou os mais diversos personagens da Marvel e da DC e chegou a ilustrar um roteiro de Alan Moore, no personagem Supreme, da Image Comics.