sábado, abril 18, 2026
Monteiro Lobato: Adeus
Riding the Bullet, de Stephen King
No final do ano de 2000 a internet nos EUA foi abalada por um fenômeno sem precedentes: o lançamento do e-book Riding the Bullet (Montando na bala), de Stephen King. O interesse foi tamanho que os sites envolvidos chegaram a travar.
A história é aparentemente prosaica. Alan Parker é um estudante da Universidade do Maine quando recebe uma ligação dizendo que sua mãe teve um derrame e foi internada. Desesperado, ele pega uma mochila e sai pela estrada pedindo carona. E acaba descobrindo, tarde demais, que a pessoa que lhe deu carona na verdade já está morta.
Por trás dessa trama fantasmagórica se esconde uma história de forte teor humano. Riding nos faz pensar sobre nossa relação com as pessoas queridas e o que elas representam para nós. É muito mais uma história sobre a morte e a vida. Não por acaso, King a escreveu quando estava em uma cama de hospital, vítima de atropelamento quase fatal.
Em Riding vemos o autor de Carrie em sua plena forma, com um terror que se encontra nos detalhes. King não precisa de monstros para provocar medo. A tensão pode estar na forma de alguém puxar a calça, ou em um cheiro de morte. Detalhes assim nos fazem entrar na história.
A única falha tem relação justamente com a mídia encontrada para divulgar o volume. São aproximadamente 60 páginas e King escreveu direto, sem fazer sequer capítulos. A tendência dos e-books são capítulos curtos, que permitem ao leitor interromper a leitura na tela no momento em que quiser. Ou seja, Riding é um livro virtual que não tem característica de livros virtuais.
Futuramente, esse conto lançado de forma virtual foi incluído na coletânea Tudo é eventual, lançado aqui em 2005 pela editora Objetiva. A tradução ficou como Andando na bala.
Conan – A ira de Anu
A ira de anu, história publicada no volume 10 da revista Conan the barbarian é um exemplo das qualidades de Roy Thomas como grande narrador. Ele estava preparando a adaptação de uma história original de Conan, Inimigos em casa, quando percebeu que o primeiro parágrafo da história já dava uma outra HQ. Nesse parágrafo, Robert E. Howard informa que Conan estava preso e condenado à morte após ter imposto uma vingança a um corrupto sacerdote de Anu, que ordenara a morte de um ladrão amigo do cimério.
Thomas imaginou toda uma situação a partir desse pequeno resumo. Na história, Conan se associa a um ladrão Gunderlandês para roubar diversos tesouros que são entregues para o sacerdote de Anu, que os revende.
| Conan enfrenta um homem-touro sobrenatural. |
O templo, um local onde os soldados não podem entrar, é guardado por um homem-touro que pode ser invocado pelo sacerdote.
Quando este trai a dupla e ajuda a armar uma tocaia, Conan decide vingar o colega enforcado em praça pública e acaba enfrentando o homem-touro – e é nesse ponto que temos uma típica história do cimério, com ele enfrentando uma ameaça sobrenatural.
Na sequência, a força do texto de Thomas se destaca: “Eis outro momento capaz de congelar a alma... monstro e bárbaro fitam um ao outro. Em seu quase paralisado corpo, Conan sente o bafo ardente da perdição”.
Outro que se destaca é Barry Smith, que à essa altura se sentia cada vez mais à vontade no título. A sequência do enforcamento do ladrão é um primor narrativo. Smith contorna a censura da época mostrando apenas as pernas do ladrão, mas nos cinco quadros conseguimos perceber claramente o que está acontecendo, além de acompanhar a reação do cimério.
O experimento de aprisionamento de Stanford
Roteiro de quadrinhos: como construir um estilo
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| O Nome da Rosa, de Umberto Eco, é o resultado de diversas influências |
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| Miracleman foi uma das obras que mais me influenciaram no início de carreira |
O traço fascinante de Wilson McCoy
Wilson McCoy é um desenhista norte-americano mais conhecido pelo seu trabalho em O Fantasma.
Nascido em 1902, ele vinha de uma família pobre cuja situação financeira piorou quando o patriarca morreu. McCoy começou a trabalhar em uma farmácia. Quando estava no ensino médio, conseguiu emprego como mensageiro em uma agência de publicidade. Como seu sonho era se tornar artista, ele treinava o desenho nas horas vagas, até que começou a conseguir alguns trabalhos de ilustração publicitária.
Já na década de 1940 ele dividiu estúdio com Ray Moore, o primeiro desenhista do Fantasma e passou a colaborar com ele no desenho da tira. Quando Moore foi convocado para lutar na II Guerra Mundial, McCoy assumiu a tira, sem assinar. Moore voltou da guerra com um ferimento que o impedia de continuar desenhando, o que fez com que o sócio se tornasse o desenhista regular do herói.
McCoy desenhou O Fantasma por todo final da década de 1940, por toda a década de 1950. Com a sua morte, em 1961, Sy Barry assumiu a tira.
McCoy começou seu trabalho no Fantasma imitando o traço noir de Ray Moore, mas logo revelou seu traço estilizado quase caricato, mas charmoso. Por ter desenhado um dos personagens mais queridos dos quadrinhos durante mais de uma década, ele angariou muitos fãs.
Surfista Prateado: Parábola
sexta-feira, abril 17, 2026
Fundo do baú - Dino Boy
Dino Boy (Dino Boy in the Lost Valley) era uma série da Hanna-Barbera produzida entre 1966 e 1968, num total de 18 episódios.
Criado por Alex Toth, o desenho contava a história de um garoto que pulava de paraquedas de um avião em chamas e ia parar num vale onde vivem dinossauros e outras criaturas estranhas. Atacado por um tigre dentes de sabre, o garoto é salvo por um homem das cavernas chamado Ugh.
A maioria das histórias girava em torno de algum animal tentando devorar Dino Boy e Ugh salvando-o.
Em um episódio, por exemplo, Dino é sequestrado por um pterossauros que o leva para seu ninho e logo depois é atacado por outro pterossauros, que também pretende comer o garoto (“Enquanto eles continuarem lutando por mim, estou salvo”, diz Dino Boy). No mesmo episódio ele havia escapado por pouco de ser devorado por tyrannosaurus rex, o que provavelmente o coloca como a iguaria mais cobiçada do vale.
Algo interessante é que, embora fosse um homem das cavernas, Ugh falava de forma correta e parecia inteligente. No episódio acima, por exemplo, ele aprende a usar arco e flecha para salvar o garoto.
O grupo ainda era composto de um pequeno brontossauro, que servia tanto de cachorro quanto animal de montaria.
Monteiro Lobato: a chave do tamanho
Resgate
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| O filme é baseado na hstória em quadrinhos Ciudad. |
Tropa Alfa – Ouro e casos de amor
Um dos casais mais curiosos e extravagantes dos quadrinhos de super-heróis são dois membros da Tropa Alfa, Sasquatcht e Aurora.
O relacionamento desses dois personagens é explorado nos números 20 e 21 da série. É nessa história, inclusive, que Aurora estreia seu novo uniforme e o cabelo curto (pessoalmente, achei o uniforme genérico e muito parecido, por exemplo, com o de Talismã, outra heroína do grupo).
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| O novo uniforme de Aurora. |
O casal vai a uma ilha deserta onde se encontra uma mansão herdada por Walter e onde eles pretendem instalar uma base da Tropa. “Foi construída em 1896 por uma tia-avó da minha mãe. Ela era uma figura e tanto. Casou-se oito ou nove vezes, viuvou cada uma delas sob circunstâncias misteriosas. Sempre foi diferente do resto da família”.
Mas, durante a visita, Sasquatcht some e Aurora se vê em um local totalmente escuro. Não há nenhuma explicação para toda essa escuridão, de modo que desconfio que era só uma desculpa para Byrne duas páginas com quadros totalmente pretos (vale lembrar que na mesma época ele cuidava dos desenhos e roteiros do título do Quarteto Fantástico) nos quais Aurora fala, fala, fala sem parar.
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| Quadros pretos com diálogos: menos trabalho para Byrne. |
Por mais que heróis na época tivessem essa mania estranha de falarem sozinhos, aqui nitidamente há um exagero. A situação se justifica em parte, pelo fato da personagem mudar de personalidade no meio da sequência, o que se reflete em sua fala. É um bom recurso, embora exagerado, ainda mais pelo fato de que não existe nenhuma razão real para a personagem estar no escuro total.
A heroína acaba encontrando com uma personagem chamada Lírio Dourado e a galeria de maridos da mesma, transformados em estátuas de ouro. Aliás, ela acaba descobrindo que também Sasquatcht, em sua identidade secreta, foi transformado em ouro.
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| Uma galeria de estatuas douradas? |
A capa do número seguinte mostrava Sasquatcht e Aurora enfrentando Diablo, um antigo vilão do Quarteto Fantástico, o que era um tremenda enganação, já que o personagem aparece na história apenas em flash back, pois ele era o amante da Lírio Dourado e quem a iniciou nas ciências do mal. Essa capa enganação, uma forma descarada de vincular a Tropa Alfa ao Quarteto, talvez fosse uma antecipação do que Byrne faria, lá na frente com a Mulher Hulk.
Há um recurso interessante usado no flash back que é o fato de jamais vermos o rosto da vilã, o que cria suspense e abre caminho para a reviravolta final.
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| O rosto da vilã nunca é revelado. |
Uma curiosidade dessa história é que aqui Byrne conta com a arte-final de Keith Williams. Como na época ele estava bastante atarefado, cuidando de mais uma série, deve ter chegado um ponto em que ele não conseguiu continuar fazendo tudo na Tropa Alfa.
Supremo – Oculto pelas nuvens
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| A história é uma crítica de Moore à postura revisionista dos super-heróis. |
Na década de 1990, era famosa a rixa entre os
escritores britânicos Alan Moore e Grant Morrison. Uma rixa unilateral,
já que os ataques vinham mais da parte de Morrison. No entanto, na terceira
história de sua versão de Supremo (publicada no número 43 da revista) Moore resolveu aproveitar que o
protagonista era um desenhista de quadrinhos para dar uma resposta.
Na página de abertura, vemos um trecho do personagem Omniman,
desenhado por Ethan Crane (o alter-ego do Supremo), com o herói em
primeiro plano, arrancando o próprio coração, enquanto um ser monstruoso se
aproxima em segundo plano. “Você nunca vai me matar de verdade”, diz o herói.
“Da mesma forma que não conseguiu matar Jean Genet, Isidore Ducasse ou Mallarmé!
Não enquanto eu puder... unngghhh... arrancar meu próprio coração como um
manifesto final que justapõe a arte, o misticismo e o absurdismo!”.
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| O escritor Bill Friday é uma referência ao roteirista Grant Morrison. |
Era uma forma ácida de dizer que Morrison colocava
referências aleatórias a artistas apenas para parecer intelectual e "descolado",
por mais que essas referências não contribuíssem em nada para a trama.
Mas o escritor Bill Friday (o personagem que
representa Morrison) acha o resultado genial: “Há uma mensagem importante nas
palavras aqui e você pegou a ideia”. Em seguida, ele explica que está acabando
com toda a mitologia de Omniman.
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| A história flash back é um passeio pela Cidadela Suprema. |
Além da crítica, a revista se destaca pela HQ flashback,
desenhada por Rick Veitch e intitulada A charada do castelo das
nuvens. Na trama, Supremo leva Jonas e Judy, seus parceiros jornalistas,
para a Cidadela Suprema, escondida no meio das nuvens. Chegando lá,
porém, encontram as portas abertas e um bilhete. Ou seja: alguém invadiu o
local. A história reflete diretamente as HQs do Superman da Era de Prata, nas
quais tudo era desculpa para mostrar em detalhes a Fortaleza da Solidão.
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| O local foi invadido. Quem é o responsável? |
O local inclui uma dimensão espelhada, onde ficam presos os
inimigos do Supremo, entre eles o Supremo Sombrio, com a imagem em
negativo, além de um zoológico de criaturas lendárias, incluindo Medusas,
dragões e uma bela anjo Luriel. “Poderia ter acontecido algo entre nós
no passado, mas Luriel nem existe nesta realidade. Nunca poderia acontecer”.
Passam também pela galeria dos aliados, heróis da Segunda
Guerra Mundial, incluindo outra personagem de Rob Liefeld, Glory,
para a qual Moore criou uma série fantástica que, infelizmente, ficou
inacabada, mas serviu de base para Promethea.
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| A HQ serve para mostrar a mitologia do personagem. |
No final, a solução para o invasor da cidadela é infantil
e, ao mesmo tempo, inteligente.
É sintomático que Alan Moore tenha colocado essa história,
que explora toda a mitologia do personagem, exatamente no número em que começa
criticando a tendência revisionista e realista dos super-heróis, que inclui
apagar toda a sua mitologia. Era uma declaração de princípios.
Em tempo: Na contramão do
conteúdo, Rob Liefeld deixou de colocar na capa ilustrações de Joe
Bennett emulando quadrinhos clássicos, substituindo-as por pavorosas
imagens de Stephen Platt no pior estilo Image.


































