quinta-feira, agosto 27, 2026

Psicopatas: fantasias assassinas

 

Personalidades psicopáticas costumam se caracterizar por uma grande necessidade de fantasias. Eles fantasiam tudo que vão fazer e têm prazer especial com o planejamento de seus crimes. A fantasia deve continuar depois do crime, razão pela qual muitos guardam lembranças de suas vítimas. Partes do corpo, objetos ou fotos ajudam o psicopata a rememorar os momentos do crime.
         Jeffrey Dahmmer tirava fotos de seus assassinatos.
         Na ficção, em um dos episódios de Arquivo X, o psicopata recolhia objetos das vítimas que pretendia matar. No livro Insônia, Stephen King fala de uma espécie de psicopata fantasma, que tinha uma casa cheia de recordações de suas vítimas.
         É também muito comum em psicopatas históricos de momentos de solidão, em alguns casos por iniciativa própria, em outros uma solidão forçada, em que os psicopatas se divertiam fantasiando sobre seus futuros crimes.
         Big Ed, por exemplo, era trancado no porão por sua mãe, que temia que ele molestasse as irmãs, e passava os dias fantasiando.

Quer saber mais sobre psicopatas? Clique aqui.

Panthéon de Paris

 



O Panteão era originalmente uma igreja dedicada a Santa Genoveva. Quando eclodiu a Revolução Francesa, o prédio foi transformado em um ponto histórico, onde são enterrados os grandes nomes franceses. Voltaire e Rousseau estão enterrados lá, um de frente para o outro. Ali também está o túmulo do famoso escritor Victor Hugo.
A arquitetura neo-clássica, por si só já é digna de nota, mas o local tem muitos outros atrativos. O edifício é no formato de uma cruz grega e tem várias pinturas e estátuas, inclusive dois conjuntos frente a frente: um em homenagem a Rousseau, outro em homenagem a Voltaire.
O altar da igreja foi substituído por uma homenagem aos revolucionários. Danton é o primeiro da esquerda.

A nave principal é curiosa: o altar foi substituído por um monumento em homenagem à revolução francesa (é possível ver, entre as estátuas, Danton, saudando Marianne, a deusa da razão e da liberdade). Um pouco antes temos o Pêndulo de Foucault, a experiência realizada por Jean Bernard Léon Foucault para demonstrar a rotação da terra.
O panteão é uma verdadeira viagem pela história e ciência francesas.
O Pêndulo de Foucault provou que a terra se move.




Túmulo de Rousseau

Túmulo de Victor Hugo
Conjunto de estátuas em homenagem a Voltaire. 

As mil caras de Jack, o estripador

 


Os espanhóis Antônio Segura (roteiro) e José Ortiz (desenhos) são uma das duplas mais afinadas dos quadrinhos mundiais. Suas histórias sempre nos surpreendem e trazem diversas camadas de significado, mesmo sendo HQs curtas. É o que podemos ver no álbum As mil caras de Jack, o estripador, lançado por aqui pela editora Figura.

Segura e Ortiz parte do fenômeno Jack, o estripador, mas não se limitam a contar sua história. Sua abordagem é muito mais a respeito de como o serial killer influenciou uma geração de assassinos, que podem ser as pessoas menos suspeitas.

O álbum reflete sobre a influência de Jack sobre outros assassinos. 


Assim, cada história traz um assassino. Um deles pode ser o verdadeiro Jack, ou talvez nenhum seja, ou talvez todos sejam. Sobre esse padrão fixo, Segura imagina as mais diferentes e surpreendentes tipos de abordagens.

Isso é representado pela primeira história, homônima ao álbum, no qual um jovem policial vê uma das mulheres estripadas por Jack e fica obcecado a ponto de decidir se tornar ele mesmo um novo Jack. Mas quando decide matar uma mulher é surpreendido pelo verdadeiro Jack (ou não).

Um estrangulador volta para pegar seu relógio. 


Seguem-se a mais diversas abordagens: um estrangulador que deixa o relógio na mão da vítima e volta para buscar;  uma velha mendiga que diz saber a identidade real de Jack; um traficante chinês cuja filha foi desonrada que contrata um suposto Jack para vingar a moça... o álbum poderia se chamar variações sobre o mesmo tema. E cada variação consegue ser mais surpreendente e inusitada que a outra.

Misturando terror, humor ácido e ironia do destino, o álbum As mil caras de Jack, o estripador é daquelas leituras que te seguram da primeira à última página.

O Homem dos patos

 

            No final da década de 1920, Walt Disney estava inconsolado. Ele havia acabado de perder os direitos sobre seu personagem Osvald, o coelho para Charles Mintz. Para compensar, ele criou outro personagem inspirando-se num camundongo que costumava visitar seu escritório. Assim nascia o divertido Mickey, com sua cabeça grande, pernas finas e sapatos grandes, como um menino que tivesse vestido os sapatos do pai. Inicialmente, o camundongo deveria se chamar Mortiner, mas Disney acabou mudando de idéia (alguns autores creditam a mudança à esposa do desenhista). Em 1928 estreou o primeiro curta-metragem do personagem, e também o primeiro desenho animado sonoro da história, tornando-se logo um sucesso.
            Não tardou para que o personagem migrasse para as tiras. Floyd Gottfredson foi escolhido para fazer a adaptação.
            Outro personagem surgido nas animações também logo ganharia sua versão em quadrinhos: o Pato Donald. O desenhista Al Taliaferro adaptou o filme A galinha sábia para as tiras e depois o resultado foi copilado em um gibi com grande sucesso.
            Mas o personagem realmente só se tornaria célebre após a entrada de Carl Barks no título. Barks foi um fracasso em diversas profissões, de cowboy a carpinteiro, passando por condutor de mulas e impressor. Não conseguindo sucesso em nada, ele decidiu investir no sonho de ser desenhista. Seu primeiro trabalho foi numa revista humorística, mas um dia ele viu um anúncio da Disney, procurando animadores e se candidatou. Foi colocado no setor de roteiros e ajudou a criar gags visuais para mais de 40 curta-metragens.
            Certa vez ele foi escolhido para participar de um longa do Pato Donald intitulado O Ouro do Pirata. O projeto não saiu do papel, mas mesmo assim Disney resolveu transformar o material em uma revista em quadrinhos e convidou Barks para fazer a adaptação. Foi um sucesso tão grande que a editora Dell-Western lhe ofereceu um emprego como quadrinista.
            Barks estava, enfim, no seu elemento. Em 1947 ele criou o Tio Patinhas, baseado no personagem sovina do Conto de Natal, de Dickens. Criado para uma única história, ele agradou tanto que logo ganharia revista própria. Barks continou desenvolvendo a mitologia dos patos com a criação de outros personagens, como o inventor Professor Pardal e o sortudo Gastão.
            Tio Patinha logo se tornou um personagem extremamente popular, graças quase que exclusivamente às histórias de Barks.
             Segundo a enciclopédia Históira de los Comics, o que fazia de Barks um gênio não era sua criatividade ou seus desenhos, embora ambos fossem ótimos. O que o transformou em gênio foi a autenticidade dos mundos que criou. Essa autenticidade surgia tanto da experiência de vida quanto das pesquisas minuciosas que fazia para suas histórias.
            Um exemplo de mundo criado é a vila quadrada, um local perdido nos Andes em que tudo era quadrado (até os ovos!) e as formas arredondadas eram proibidas.
            As histórias de Barks embalaram a infância de milhões de crianças em todo o mundo. Quando ele parou de produzir, foi como se fosse criado um vácuo nos quadrinhos Disney. Hoje esses quadrinhos estão sendo cancelados em todo o mundo. No Brasil, a única revista que ainda vende bem é a luxuosa Clássicos Disney, que republica as histórias de Barks, e tem como públicos os adultos saudosistas de boas HQs.
            Atualmente, o quadrinista Disney mais famoso é Don Rosa, um fã tão inveterado de Carl Barks que faz de todas suas HQs homenagens ao homem dos patos.

Janela indiscreta

 

Janela indiscreta (Alfred Hitchcock, 1955) é um dos melhores filmes da história do cinema. Uma verdadeira aula de cinema (e, se você souber fazer as conexões necessárias, de quadrinhos).
Para quem não conhece a história, trata-se de um fotógrafo impossibilitado de sair de casa após quebrar uma perna que se diverte observando os vizinhos, até presenciar o que acha ter sido um assassinato.
A sequência inicial é uma ótima demonstração da força narrativa das imagens. A câmera passeia pelo conjunto de prédios e nesse passeio, sem que nenhuma palavra seja dita, conhecemos tanto o ambiente da história quanto seus personagens, suas manias, características, suas histórias. É um filme com múltiplas narrativas paralelas que são acompanhadas em sequências praticamente mudas, em que ouvimos uma ou outra frase. No final, uma outra sequência de imagens mudas fecha a narrativa e nos mostra o que aconteceu com cada um dos personagens.
É também um filme sobre a força da sugestão. Tudo é mais sugerido do que mostrado - a começar pelo próprio assassinato, que em nenhum momento é mostrado.
Exemplo dessa sugestão é a rua, lá fora, que é entrevista apenas por um pequeno corredor. Provavelmente havia cenário apenas no trecho que pode ser visto pelo expectador, mas este imagina a rua inteira.
Cinema, como quadrinhos, é a arte de mexer com a imaginação do receptor.

As Minas do Rei Salomão

 


No século XIX, os exploradores eram verdadeiras estrelas, desfrutando de uma popularidade comparável à dos jogadores de futebol atuais. Aventureiros como Sir Richard Burton eram celebridades globais, o que, naturalmente, refletiu-se na literatura por meio de relatos que louvavam suas conquistas. Dentre essas obras, a mais emblemática é, provavelmente, As Minas do Rei Salomão, de Rider Haggard, publicada originalmente em 1885. O impacto da obra foi tão profundo que sua tradução para o português foi assinada por ninguém menos que Eça de Queiroz.

O protagonista e narrador é o veterano caçador de elefantes Allan Quatermain. Ele é contratado por um barão e seu amigo para localizar o irmão do nobre, que desaparecera em solo africano enquanto buscava as lendárias minas do rei Salomão.

Haggard é um escritor fenomenal, e sua prosa ganha ainda mais vigor com a tradução de Eça de Queiroz, como se nota na descrição do personagem John Good:

“Este impressionou-me pelo apuro. Nunca conheci ninguém mais escarolado, mais escanhoado, mais engomado, mais envernizado! Usava no olho direito um vidro, sem aro, sem cordel, e tão fixo que parecia natural como a pálpebra. Só muito mais tarde descobri que, à noite, o metia no bolso das calças – no mesmo bolso em que guardava a dentadura postiça mais bela, a mais perfeita dentadura que me recordo de ter contemplado, mesmo em anúncios de dentistas! E o capitão, destas, possuía duas!”

Haggard não se preocupava apenas com a forma, mas era também um arquiteto eficiente de tramas. No livro, cada detalhe é uma peça que se encaixa na narrativa, revelando ganchos importantes — inclusive a dentadura do capitão John.

O sucesso de Indiana Jones fez com que a história fosse adaptada para as telas em 1985 com direção de  Jack Lee Thompson. 


Naturalmente, por ter sido escrita no período colonial, a obra carrega as marcas e preconceitos de sua época. Em certo ponto, o narrador relata seu diálogo com o ajudante de um explorador e explicita sua visão sobre o tratamento dispensado aos africanos: “Calei-me porque não convinha à minha dignidade de patrão e de branco revelar curiosidade diante de um bexuana”.

Talvez o que mais choque o leitor contemporâneo seja o capítulo em que os aventureiros deparam-se com um rebanho de elefantes e decidem abater o maior número possível apenas para extrair o marfim. O trecho detalha, com uma naturalidade perturbadora, o extermínio de vinte animais.

Os críticos consideram a versão de 1950, dirigida Compton Bennett e Andrew Marton, a melhor até agora.


No entanto, quando o grupo ingressa no deserto, a narrativa ganha um fôlego empolgante. Haggard descreve minuciosamente os suplícios dos homens: a sede excruciante, a fome, o arrastar de passos cambaleantes e a iminência da morte. Ao atravessarem o deserto e transporem uma montanha, alcançam o território das minas, onde encontram uma civilização perdida e um segredo revelado por um impactante plot twist. Outras reviravoltas pontuam a trama até o desfecho, quando a posse dos tesouros parece finalmente assegurada.

As Minas do Rei Salomão foi tão influente que moldou uma infinidade de obras subsequentes, incluindo O Mundo Perdido, de Conan Doyle; Tarzan, de Edgar Rice Burroughs; e até O Fantasma, de Lee Falk. A obra consolidou o arquétipo do "homem branco salvador", que intervém nos conflitos africanos para estabelecer sua própria noção de justiça.

Para os fãs de quadrinhos há uma curiosidade a mais: Allan Quatermain é um dos personagens da Liga Extraordinária, de Alan Moore e Kevin O´Neil.

quarta-feira, agosto 26, 2026

O casamento do Fantasma

 

 

Entre as histórias mais famosas do Fantasma estão duas que fogem completamente do modelo de HQs de heróis, trazendo pouquíssima ação. Trata-se do casamento e da lua-de-mel do personagem. 

Desenhada pelo haitiano brasileira André LeBlanc (mas assinada por Sy Barry), a história começa com pedido de casamento. 

Lee falk é um roteirista habilidoso e estica ao máximo o suspense, fazendo com que o Fantasma não consiga pedir a amada em casamento. É alguém que interrompe o casal, é uma carta que chega, ou a simples insegurança. É curioso ver um personagem tão onipotente mostrar essa faceta fragilizada e insegura. 

Diana realiza um trabalho de direitos humanos em uma ditadura militar. 


Quando finalmente ele ganha coragem para fazer o pedido, surge um empecilho. Nesse meio tempoDiana foi escalada para participar de uma comissão de diretoria humanos da ONU para inspecionar as prisões de um país que vive uma ditadura militar, um local em que, para falar com o ditador local, só é possível se a pessoa entrar na sala arrastando pelo chão (LeBlanc acentua esse aspecto ao mostrar apenas os pés do ditador). Diana tenta descobrir o que há realmente por trás das masmorra e acaba sendo presa - e o Fantasma vai em seu auxílio. 

Se lembrarmos que na década de 70 havia várias ditaduras militares espalhas pela America Latina, inclusive no Brasil, é uma opção corajosa de Lee Falk trazer o tema para a trama do casamento.

A cerimônia tem diversos convidados. 


(É irônico, aliás, que a maioria dos fãs do Fantasma, que vibraram com essa aventura, hoje em dia bradem contra os direitos humanos e peçam ditadura militar)

Aliás, Lee falk parece muito avançado para sua época. O Fantasma nunca mata e mesmo quando é atacado por animais, como acontece com leões durante a lua de mel, faz de tudo para não feri-los. 

O casamento se torna grandioso por resgatarem toda a mitologia do personagem através dos convidados. Comparecem os presidente de Luaga e de Ivory-Lana, os chefes tribais, os príncipes das Montanhas da Neblina, Hzz, um ser humanoide e peludo, e muitos outros. Uma curiosidade é que Mandrake é apresentado apenas como o amigo de Lothar, príncipe das sete nações em uma curiosa inversão das tiras clássicas, em que Lothar era o criado do mágico – e demonstra a preocupação de Lee Falk em atualizar suas séries. Aliás, o próprio fato da esposa do Fantasma não largar o emprego ao se casar mostra essa preocupação.

A lua-de-mel acontece em uma praia paradisíaca. 


Mesmo durante a comemoração, vamos descobrindo aspectos culturais. Por exemplo, o brinde é feito com água da nascente, pois o Fantasma proíbe bebidas alcóolicas na Floresta Negra.

A lua-de-mel se passa na praia dourada de Keela-Wee. “Esta cabana de jade foi presente do imperador Joonkoor ao 7º Fantasma”, explica o herói. “Desde então, todo Fantasma passa aqui sua noite de núpcias”.

Quando aparecem bandidos, parece que eles fazem parte da diversão. 


A sequência, claro, não mostra nada de sexo (eles nem mesmo se beijam), mas encanta por mostrá-los se divertindo em meio à natureza. Quando aparecem alguns bandidos, eles são derrotados com tanta facilidade que parece que tudo faz parte do pacote de diversão.

A história foi lançada em formatinho em 1978 pela RGE, dividida em duas partes. Mas os editores logo perceberam que aquela história merecia uma edição especial e lançaram em formato maior, juntanto o casamento e a lua-de-mel em um único volume. A belíssima capa, de Walmir Amaral, mostrava o Fantasma e Diana sobre o cavalo Herói, tendo a caverna da caveira ao fundo. Uma edição histórica, disputada por fãs do espírito que anda.  

Demolidor contra o Hulk

 


No número 163 do Demolidor, o roteirista Roger Mckenzie colocou o Demolidor em rota de colisão com um dos personagens mais poderosos da Marvel: o Hulk.

Na história, Matt Mudock está numa festa quando ouve um batimento cardíaco único, como um bate-estacas e percebe que o gigante esmeralda está nas proximidades. Apesar do perigo, ele vai até o local com o objetivo de acalmar a fera. Não há conflito: o advogado consegue fazer com que o monstro volte a ser Bruce Banner e o leva para casa. Depois dá dinheiro para que consiga sair de nova York.

Miller era um especialista em mostrar caos urbano... 


Entrentanto, quando Bannner pega o metrô, o stress provocado pelo local faz com que ele volte a se transformar no monstro. Com os Vingadores e o Quarteto fora da cidade, só resta ao Demolidor tentar deter o Hulk.

Apesar de ser uma típica história de super-heróis, a edição tem algumas características interessantes que a diferenciam de outras obras. Para começar, o dom de Frank Miller para mostrar ambientes urbanos e todo o caos relacionado. A sequência do metrô, embora curta, é primorosa e reflete diretamente a claustrofobia sentida pelo personagem.

Outro aspecto essencial é o fato de McKenzie mostrar o Demolidor voltando a atacar o monstro, mesmo depois de seriamente ferido: “Eu não posso detê-lo! O monstro é forte demais! Eu fiz tudo que estava ao meu alcance! Se eu for embora, ninguém poderá me culpar... ninguém, exceto eu mesmo!”.

... sem falar das cenas de ação. 


Estava ali, muito bem caracterizada a principal característica do personagem, que seria explorada ao extremo por Frank Miller: o Demolidor é alguém que nunca desiste, como um lutador que sempre se levanta por mais que tenha apanhado. Essa característica será, inclusive, a base da saga A queda de Matt Murdock.

Outro aspecto relevante é quando a noiva do Matt Murdock se aproxima do local e grita pelo amado. Esse pequeno fato irá ser a peça que encaixava no quebra-cabeça que o jornalista Bem Hurich vinha montando, e que o levará a descobrir a identidade secreta do Demolidor. Essa será a base para a história seguinte.

As montanhas da Lua

 


Uma vez eu e Bené Nascimento (Joe Bennett) conversávamos sobre cinema e ele defendia que, num bom filme de aventura, era impossível aprofundar os personagens. Para provar o contrário, eu citei o filme As Montanhas da Lua, de Bob Rafelson.
O filme conta a história de Richard Burton e sua busca da fonte do Nilo, uma das descobertas científicas mais importantes do século XIX. O filme é uma grande aventura, mas o ponto alto é a relação de Burton com John Speke, que oscila entre a amizade e a inimizade, passando por uma possível relação homossexual, apenas insinuada.
Bob Rafelson foi um dos diretores que abriram caminho para a geração anos 70, que revolucionou Hollywood e a escolha do tema e do protagonista certamente não foi por acaso. Hippie, Rafelson devia se sentir entre os executivos da indústria como o revolucionário Burton na sociedade vitoriana.
Diplomata, explorador, espião, escritor e tradutor, Burton foi responsável, por exemplo, por uma polêmica tradução das Mil e uma noites (com notas  de rodapé sobre sexo) outro da Kama Sutra, que escandalizou a sociedade da época. 
Ou seja: é um personagem que por si só vale um filme. Feito por um grande diretor como Rafelson, torna-se obrigatório.
A propósito, sobre aquela discussão, o Bené acabou concordando comigo: É possível sim fazer um grande filme de aventura e aprofundar os personagens.

A arte detalhista de George Perez


 Poucos artistas estão tão associados ao gênero super-heróis quanto George Perez. Ele iniciou sua carreira na Marvel na década de 1970 e chegou a desenhar os Vingadores em uma fase muito elogiada. Mas seu talento só iria se mostrar em seu auge criativo na década de 1980, trabalhando para a rival DC Comics. Na DC, Perez foi responsável pelo desenho da série Novos Titãs, um dos maiores sucessos da década, rivalizando com os X-men. Sua habilidade de fazer mil detalhes numa cena e de desenhar dezenas de personagens em um único quadro fez dele o artista ideal para crossovers, a exemplo de Crise nas Infinitas Terras, até hoje considerado o melhor crossover de todos de heróis de todos os tempos.








Dr. Estranho - Em um mundo enlouquecido

 



No segundo número da revista Superaventuras Marvel foi publicada uma das melhores história do Doutor Estranho. Apresentada originalmente na revista Marvel Premiere 3, a HQ “Em um mundo enlouquecido” contava com uma dupla de peso na criação: Barry Windsor-Smith (argumento e desenhos) e
Stan Lee (roteiro).
Na história, o mestre das artes místicas está caminhando por Nova York quando quase é atropelado por um caminhão. A partir desse ponto começam a ocorrer coisas estranhas, surreais, que testam a sanidade do personagem.

É uma história que explora muito bem as melhores características do personagem: o Dr. Estranho é um ponto fora da curva dos heróis Marvel que se notabilizam principalmente pela pancadaria. Aqui quase não há conflito, além do conflito interno do personagem, que tenta a todo custo dar algum sentido ao que está ocorrendo. É um conto intimista e psicológico, característica destacada ainda mais pela arte de Barry Windsor-Smith, que, aliás, se sai muito bem nas sequências surreais.
O texto de Lee, por outro lado, mantém a atenção do leitor mesmo sem muita ação, ao lidar com o senso de desconhecido e o suspense sobre o que realmente está acontecendo.
É uma pena que a dupla não tenha sido responsável por toda uma saga do personagem. Seria épico.

Coluna de fogo, de Ken Follett

 


O reinado da Rainha Elizabeth foi um dos mais importantes  e também um dos mais conturbados períodos da história da Inglaterra. A Rainha virgem criou as condições para que a Ingaterra se tornasse a maior potência mundial e centro cultural do mundo. Mas ela sofreu várias tentativas de golpes, assassinatos, uma quase guerra civil e a invasão da maior armada do mundo.
É esse período conturbado que Ken Follett narra em seu livro Coluna de fogo, terceira parte da trilogia inicada em Os pilares da terra.
A história inicia em 1558, dois séculos depois da construção da Catedral de Kingsbridge (que era o fio condutor de Os pilares da terra). A rainha Elizabeth chega ao poder depois da morte de sua irmã. O país vinha sendo dilacerado por conflitos religiosos. O pai de Elizabeth, Henrique VIII, havia rompido com a igreja católica e transformado a Inglaterra num país protestante e passara a perseguir católicos, muitas vezes enviando-os à fogueira. Já sua filha, Maria, era católica e passou a perseguir protestantes, enviando-os à fogueira. Quando Elizabeth ascende ao trono sua promessa é tornar o país uma terra de tolerância, em que ninguém seria morto por sua fé.
Essa trama é contada do ponto de vista de Ned Willard, descendente dos constrututores da catedral e da ponte (narrada em Mundo sem fim). Mas, ao contrário de seus ancestrais, negociantes e engenheiros, Ned torna-se um político. Ao ver um dos cidadãos de Kingsbridge ser morto na fogueira por ser protestante, e após sua mãe perder tudo num julgamento manipulado por um bispo católico, ele decide se colocar a serviço de Elizaberth e ajudá-la a construir um país de tolerância e no qual cada um possa viver sua vida, ganhar seu dinheiro, sem ser incomodado por questões religiosas. Para isso ele acabará se tornando uma peça-chave de seu sistema de espionagem inglês – um dos primeiros do mundo e com agentes em todos os países da Europa.
Por outro lado, seu irmão, Barney, é perseguido pela inquisição na Espanha e, depois de várias peripécias, acaba embarcando em um navio e se tornando um pirata – a pirataria, embora ilegal, era tolerada pela rainha Elizabeth.
De todos os livros da trilogia esse é, sem dúvida, o mais interessante e o que apresenta uma trama mais envolvente. Um dos acertos foi tirar a ação de Kingsbridge. Como tanto Pilares da terra quanto Mundo sem fim se passavam na cidade, centrar os acontecimentos ali num terceiro livro o tornaria cansativo para os leitores. E essa ampliação da ambientação permitiu a Ken Follett contar boa parte da história do período. Temos núcleos nos países baixos, na Espanha, na França, na Inglaterra e até no novo mundo. O autor, por outro lado, aproveita muito bem os eventos históricos para compor uma trama irresistível, repleta de suspense e de ação. São 800 páginas que passam muito rápido.

Duelos – Em Oeste Bravio

 


Um gênero que descobri tarde, mas do qual acabei virando fã, foi o faroeste. No início dos anos 80, quando comecei a ler quadrinhos não infantis, os cowboys estavam em decadência e as bancas eram dominadas pelos super-heróis (e pelo terror, no caso das revistas nacionais). A primeira série do gênero a chamar minha atenção foi Blueberry, publicada pela editora Abril (lembro que estava lendo uma das histórias no ônibus, indo para a universidade, e, quando cheguei lá, estava tão envolvido com a trama que sentei no corredor e só entrei na sala quando terminei de ler tudo).

Algum tempo depois, descobri Ken Parker e, mais recentemente, Buddy Longway, só para citar algumas das séries que mais me marcaram. Entretanto, até há pouco tempo, eu não tinha produzido nenhum roteiro de faroeste. Minha primeira história em uma publicação do gênero saiu no número 3 da revista Oeste Bravio, da editora Ink&Blood (a mesma da revista Calafrio).



Para minha sorte, o editor Daniel Saks escolheu para desenhar a história Duelos ninguém menos que Jairo Moreno, um dos melhores artistas da publicação — com um traço tão bom que já colaborou até mesmo com a editora Bonelli. Na história, um garimpeiro chega a uma cidade depois de um longo tempo isolado, mas a encontra aparentemente abandonada. Para sua surpresa, duas mulheres, uma professorinha e uma dançarina do saloon, saem à rua e começam um duelo que termina com a morte de ambas, em uma cena totalmente improvável. Como se vê, a HQ, embora seja de faroeste, tem um toque de Além da Imaginação.

Uma curiosidade é que, embora o faroeste seja um gênero eminentemente armamentista, a história é uma crítica exatamente à proliferação desordenada de armas.

A revista custa 20 reais e pode ser comprada pelo e-mail revistacalafrio@gmail.com . 

A revista custa 20 reais e pode ser comprada pelo e-mail 

terça-feira, agosto 25, 2026

Fantasmogênese – Em busca da loira fantasma

 


A Loira fantasma é uma das principais lendas urbanas de Curitiba. Na versão local, uma loira pede uma corrida de taxi para um cemitério. Chegando lá, desaparece.

Essa é a história por trás do álbum Fantasmogênese – em busca da loira fantasma, de Antonio Eder e André Stahlschmidt.

A dupla não faz uma simples dramatização ou reconstituição da história. Ao contrário. O álbum de 134 páginas é resultado de uma extensa pesquisa sobre o assunto. Antonio eder, responsável pelo roteiro, pesquisou exaustivamente em jornais da época, revistas, sites e livros, construindo uma verdadeira reportagem em quadrinhos sobre o tema.

A pesquisa de dois alunos de jornalismo é o fio condutor da HQ. 


O roteiro usa como moldura a história de uma dupla de estudantes que pesquisa o assunto em uma biblioteca pública. Esse pano de fundo serve inclusive para introduzir comentários sobre o caso.

A lenda curitibana surge 20 de maio de 1975. Nesse dia, o taxista Walmir Siqueira pega uma passageira na rua Matheus Leme, no centro de Curitiba. A mulher, loira, usa um casaco de peles de cor preta e um colar de pérolas que dá várias voltas no pescoço. Ela pede uma corrida até o cemitério dos Abranches. Ao chegar ao local, simplesmente desaparece do carro e aparece na rua. Assustado, o homem pede ajuda para dois policiais que passam pelo local. A loira reaparece dentro do carro e tenta matar o motorista esganado, sendo impedida por um dos policiais, que atira três vezes. Ela some.

O fantasma da loira aterrorizou os taxistas de Curitiba. 


No dia seguinte a história aparece nos jornais, nos programas de rádio. Na cidade não se fala de outra coisa. Como resultado, loiras não conseguem mais pegar taxi e até prostitutas loiras vêm seus ganhos minguarem: “Não consegui clientes desde terça-feira. Só posso atribuir ao fato de ser loira”, relatou uma garota a um jornalista.

O álbum segue essa história e a repercussão na mídia, acompanhando inclusive a trajetória do carro, do motorista e do dono do veículo. O carro foi destruído num acidente, o dono assassinado e o motorista provavelmente cometeu suicídio. 

O álbum acompanha também as tentativas da imprensa de explicar quem seria a mulher fantasma, sempre com toques de sensacionalismo.

Além de relatar os fatos, a HQ também reflete sobre eles, numa análise muitas vezes sociológica e histórica.

Ao final, o álbum traz um mapeamento das aparições da loira fantasma na produção cultural de Curitiba e até reproduções de matérias de jornais da época.

Tudo isso faz de Fantasmogênese uma das melhores publicações nacionais de 2022.