quarta-feira, agosto 19, 2026

A arte Steve Ditko, o gênio da narrativa em quadrinhos

 

Ditko foi um dos gênios que transformaram a Marvel na maior editora de quadrinhos dos Estados Unidos. Ele começou a fazer quadrinhos no final da era de ouro e fez uma infinidade de histórias de terror para a Atlas (nome da Marvel na época).
Quando criou o Homem-aranha, Stan Lee chamou o desenhista para o título. Originalmente o personagem seria desenhado por Jack Kirby, mas a troca foi mais que acertada: o Peter Parker franzino e inseguro de Ditko foi um das razões pelas quais o título se tornou um campeão de vendas.
Ditko também criou o Dr. Estranho, maravilhando os leitores com as cenas psicodélicas de realidades paralelas. A marca de Ditko no personagem foi tão grande que ele só voltaria a ter uma fase equivalente na década de 1970, mas mãos de Steve Eglehart e Frank Brunner. Para a Charlton Ditko criou uma galeria de personagens que depois dariam origem aos "heróis" de Watchmen. Aliás, não só o Rorschach é baseado no personagem Questão, criado por Ditko como visualmente lembra muito o Mestre do Crime, um vilão criado por Ditko para o Homem-aranha.
Nada melhor para homenagear esse gênio do que apreciarmos sua arte.

















terça-feira, agosto 18, 2026

Águia solitária, de Billy Wilder

 


Charles Lindberg foi um herói dos tempos modernos. Ao fazer o primeiro vôo sem escalas entre Nova York e Paris, ele ultrapassou os limites da natureza usando para isso sua força de vontade, inteligência, a ciência e a tecnologia.
É a história desse herói modern que Billy Wilder conta em Águia Solitária, filme de 1957. 
Sabendo que um homem dentro de um avião não sustentaria um longa metragem, Wilder, inteligentemente, dividiu o filme em dois momentos. No primeiro, o aviador está no quarto do hotel, antes da decolagem. Incapaz de dormir, ele relembra os fatos que o levaram até ali, sua experiência como aviador dos correios, sua busca por patrocinadores, a construção do avião, as decisões e indecisões.
No segundo momento, já dentro do aeroplano, Lindberg lida com as adversidades, como o sono, a neve que insiste em se acumular nas asas, as nuvens, entre outros, enquanto relembra passagens de sua vida que ajudarão a compor o personagens.
Wilder joga tanto com o humor - como a passagem de Lindberg comprando um avião sem saber pilotá-lo, como com o suspense, como nos momentos mais tensos da travessia. A decisão de usar flash backs, além de tirar o foco apenas do avião, deu dinamismo à narrativa.
Outro destaque é a genialidade de Wilder de contar a história através de metáforas visuais, como o mapa na lanchonete que o aviador usa para demonstrar seu vôo colocando uma torre Eifel no outro extremo. Esse mapa aparece em dois outros momentos da trama. Quando tudo parece estar dando errado, a torre cai do alfinete e Lindeberg a endireita, numa demonstração visual de sua força de vontade.

Demolidor – Jornada de terror

 


A fase Denny O´Neil – David Mazzuchelli no título do Demolidor é considerada apenas um intervalo entre as duas fases igualmente geniais de Frank Miller no título. Mas essa fase, pouco valorizada, teve suas obras-primas.

Uma delas foi Jornada de terror, publicada em Daredevil 222.

Na história, Glorianna O´Breen, na época namorada do herói cego, está voltando para os EUA quando um terrorista tenta sequestrar o avião. A intervenção da moça faz com que a arma atire e atinja uma maleta que transportava gás do medo. Com todos a bordo tomados pelo pavor, o avião cai num pântano.

Demolidor e Viúva Negra vão atrás dos sobreviventes. 


O Demolidor e a Viúva Negra vão atrás dos sobreviventes. Matt tenta salvar sua namorada e Natasha quer capturar o inventor do gás. Nesse meio tempo, Glorianna e o inventor são aprisionados por uma família dos pântanos. Os bandidos querem casar a moça com um dos irmãos, com problemas mentais. Depois da lua-de-mel, ela será morta, avisam.

O desenho explora as expressões de pavor dos personagens. 


O caminho percorrido pelos heróis é cheio de perigos incluindo armadilhas e cobras. Mas o destaque aqui são os perigos psicológicos. O medo é o maior inimigo. Denny O´Neil consegue explorar muito bem isso no texto e o desenho de Mazzuchelli complementa o roteiro ao mostrar os personagens em closes, os olhos com pupilas dilatadas, a expressão de pavor, o gás em volta, numa névoa de terror.

Ao explorar muito bem esses elementos, a dupla consegue fazer uma história que funciona perfeitamente, da splah page de abertura ao final irônico.  

As viagens de Gulliver

 


Embora normalmente seja visto como um livro infantil, As viagens de Gulliver é um dos livros mais críticos que já li, repleto de metáforas políticas. Eu já havia percebido isso quando li pela primeira vez, em uma belíssima edição da Nova Cultural com adaptação de ninguém menos que Clarice Linspector. Mas só fui perceber o alcance e a ferocidade dessa crítica recentemente, quando tive a oportunidade de ler uma edição, também da Nova Cultural, com quase 100 páginas de notas.

Johnathan Swift, o autor, era uma figura proeminente na época e havia caído em desgraça quando o governo Tory, para o qual trabalhava, perdeu o poder para os Whig. Os Tory haviam negociado a paz com a França, após um longo conflito e os whig os havia acusado de traição por terem assinado um tratado de paz, que, embora vantajoso para a Inglaterra, não colocava de joelhos a França. Os Tory foram perseguidos.

Swing se vingou-se escrevendo As viagens de Gulliver. Para publicar a obra sem que o autor fosse perseguido foi montada uma verdadeira operação de guerra. Os amigos transcreveram os originais, para evitar que a letra de Swift fosse usada como prova com ele. Além disso, o livro foi deixado na casa do editor altas horas da noite por uma carruagem de praça. O editor adorou o livro, mas fez várias mudanças para tornar a crítica menos óbvia e publicou como se fosse de fato o livro de um tal Gulliver (só anos depois Swift assumiria a autoria).

O livro foi um sucesso imediato por uma razão simples: ele aliava crítica política a uma narrativa de aventuras empolgante, fazendo dele o melhor exemplo de livros de viagem tão em moda na época.

A primeira edição que li tinha texto de Clarice Linspector. 


Na história, Gulliver é cirurgião em um navio cargueiro e quando este naufraga, vai parar em um país, Lilipute, em que todos os habitantes são minúsculos. Inicialmente aprisionado, Gulliver logo se torna um favorito do rei. A sequência tem momentos memoráveis, como quando liliputianos são colocados nos bolsos de Gulliver e devem relatar tudo que viram lá. Lá eles acham, por exemplo, um objeto que é um globo achatado, metade de prata, metade de metal transparente: “Ele aproximou a máquina dos nossos ouvidos e ouvimos um ruído contínuo, como o de uma roda-d´água. Imaginamos que se trata de um animal desconhecido ou de um deus que ele adora. Estamos mais inclinados a essa segunda hipótese, porque ele nos assegurou que não faz nada sem consulta-lo”. Era um relógio.

Mas as melhores partes são as sátiras ácidas de Swift à nobreza europeia e ao governo inglês em específico. Em Lilipute, por exemplo, o esporte nacional são as danças na corda bamba, esporte praticado por todos aqueles que querem um cargo no governo. Aquele que saltar mais alto sem cair ganha o cargo.

A ganância e falta de gratidão dos governantes é outro aspecto abordado pela obra. Um exemplo é quando Gulliver atravessa para a ilha inimiga de Blefescu (que representa a França, enquanto Lilipute representa a Inglaterra) e traz consigo boa parte da frota da marinha daquele país. Ao invés de se sentir agradecido, o rei reclama de Gulliver não ter despojado o inimigo de todas as suas forças e não ter transformado o outro país em uma colônia.

Ainda mais ácida é a metáfora encontrada por Swift para a guerra entre os dois países. Num passado recente, o governante de Lilipute havia ordenado que todos os seus súditos só quebrassem os ovos pela parte menor. Milhares de pessoas foram mortas porque se recusavam a quebrar os ovos pela parte menor e centenas de livros escritos sobre a controvérsia. Os ladograndenses procuraram refúgio na ilha vizinha, gerando a guerra entre os dois. A situação toda é uma metáfora da questão religiosa envolvendo Inglaterra e França, uma vez que a Inglaterra havia criado uma nova religião (a anglicana) e a França permanecia católica, o que, teoricamente, seria o motivo da guerra entre os dois países.

No final, Gulliver acaba sendo perseguido e quase morto (alguns ministros haviam proposto uma pena mais humana: cegá-lo) ao urinar sobre o palácio como forma de apagar um incêndio.

Embora a parte mais famosa seja a que se passa em Lilipute, há uma parte em que Gulliver vai parar em um país em que todos são gigantes e até um capítulo dedicado a uma ilha flutuante. A parte da ilha flutuante é a que a aventura se torna menos visível e a sátira social se torna mais clara. O local, chamado de Laputa, era habitado por matemáticos tão imersos em seus problemas que tinham que contratar servos munidos de bexigas cheias de ervilhas secas para baterem neles para despertá-los de suas elocubrações. Durante uma conversa, por exemplo, o servo batia na boca de quem deveria falar e no ouvido de quem estava ouvindo. É um local de ciência inútil, em que mesmo uma atividade simples como tirar as medidas para fazer uma roupa se transformava em uma desculpa para práticas complexas, o que fazia com que todas as roupas tenham tamanhos errados. A sequência toda é uma óbvia crítica à Royal Society em especial a Isaac Newton, retratado como alguém eternamente preocupado que o sol deixe de dar luz ao mundo ou que um cometa, ao voltar de sua órbita, possa destruir nosso mundo.

Swift chega a ser cruel ao retratar a ilha flutuante como um local em que as mulheres desprezam os maridos e demonstram excessiva gentileza com estrangeiros. Ele estava nada menos que acusando Issac Newton e outros cientistas da época de serem cornos. Não é por acaso que os amigos tinham medo da repercussão do livro e de futuros processos.

Mas, para além da fofoca e a sátira política, As viagens de Gulliver é também um livro profundamente pacifista, aspecto representado pela frase: “Um soldado é um homem pago para matar a sangue-frio o maior número possível de seres de sua espécie que jamais lhe fizeram mal algum e nunca o ofenderam”.

Caçador - o anti-herói da DC Comics

 


Embora tenha escrito diversas histórias de super-heróis, o roteirista Archie Goodwin nitidamente gostava mesmo era de histórias policiais e de espionagem (algo que ele fazia com perfeição na tira Agente secreto Corrigan, em parceria com Al Williamson). Em 1973 ele uniu esses gêneros em um dos melhores (e menos conhecidos) personagens da era de bronze: Caçador.
Inspirado em um personagem antigo da DC, o Caçador tinha histórias de oito páginas, desenhadas por Walter Simonson e era publicado na revista Detective Comics (nos dois últimos capítulos tiveram a participação do astro da revista, Batman).
Eram apenas oito páginas, mas chamavam a atenção pelos roteiros bem elaborados e pela arte revolucionária.
Primeira página da primeira história: narrativa em flash back.  

A primeira história já dava o tom da série.
Uma agente da Interpol, Christine St. Clair vai ao Nepal atrás do misterioso personagem chamado Caçador. Ali ela encontra com um ancião que lhe conta tudo que sabe sobre o personagem: sobre como ele invadiu a Seita dos ladrões onde aparentemente foi para matar um revolucionário refugiado, mas no final, descobriu-se que seu objetivo era salvar sua vida. A trama toda é contada em flash backs, de acordo com a narrativa do velho em sequências de ação extremamente dinâmicas e diagramação nada convencional. No final, quando a agente vai embora, descobre-se que o velho, na verdade, é o próprio Caçador.
Hoje, tanto anos depois, é impossível não perceber que Frank Miller bebeu muito dessa série. As sequências, por exemplo, lembram muito a narrativa visual de Miller no Demolidor.
Caçador destoava de outros heróis da época por ser mais parecido com um anti-herói, que matava sem piedade quando necessário.
A narrativa visual lembra o que Frank Miller faria anos depois no Demolidor. 

Seu visual, por outro lado, é icônico: a roupa vermelha com ombreiras que lembram as roupas de samurai; a máscara simples e adereços nas pernas que, se fossem reais, iriam dificultar muito seus movimentos, mas nos quadrinhos davam um visual perfeito e arrojado.
Se Simonson carregava na experimentação visual, Goodwin se esmerava em produzir narrativas pouco convencionais. Uma das histórias, por exemplo, é focada numa família de turistas que visita uma catedral antiga onde o Caçador enfrenta seus inimigos da sociedade secreta, o Conselho. O único da família que consegue perceber o que está acontecendo é o menino, vestido de cowboy, mas nem seu pai, nem sua mãe lhe dão atenção. A história é toda focada no menino, inclusive em sua intervenção essencial na história.

A série teve apenas oito capítulos, mas marcou época, sendo lembrada com carinho pelos fãs.    
Uma curiosidade é que o Caçador, criado um ano antes do Wolverine, já tinha o fator de cura.
No Brasil essas histórias foram publicadas em revistas da editora Abril e reunidas no volume 1 de Lendas do Cavaleiro das Trevas – Archie Goodwin.

Conan – A maldição da deusa-gato

 


Baset era uma deusa egípcia, com cabeça de gato e corpo humano e representava a maternidade e proteção. Mas, nas histórias de Conan, a divindade ganhou um outro significado, como vemos na história A maldição da deusa-gato, publicada Savage Sword of Conan 9.

Com roteiro de Roy Thomas e desenhos do peruano Pablo Marcos, a história já começa com uma sequência memorável, uma splah page impressionante de Conan sobre o cavalo. Ele olha para trás e vê um grupo de lobos do deserto atacando uma caravana.

A estatueta da deusa gato irá mudar o comportamento de Conan. 

Temos a seguir uma sequência empolgante de lutas, com Conan trucidando os guardas da caravana. Mas o fim da luta não representa o fim do conflito. O gigante cimério repreende duramente seu segundo em comando, Fazal: “Você não viu que se tratava de uma caravana religiosa, e não de mercadores? Nem mesmo os camelos brancos estígios dizem algo a você?”.

Como se trata de uma caravana religiosa, há poucos espólios, entre eles uma estatueta de uma deusa com cabeça de gato, que Conan acaba pegando para si. É essa estatueta que irá gerar o conflito da história, pois ela desperta o lado mais selvagem de seu portador, fazendo com que Conan leve seus zuagires a ataques cada vez mais ousados, contra inimigos cada vez mais poderosos.

Um exemplo do talento de Pablo Marcos. 


O auge dessa história é uma página em que Pablo Marcos une várias imagens sem divisão de quadros, um todo coeso e ao mesmo tempo caótico em que o balão de legenda é usado para dividir as sequências e indicar um caminho para o olhar do leitor.

“Nas semanas seguintes, os zuagires de olhar severo descobrem que uma sutil mudança se apoderou de seu chefe de guerra... tanto que agora ele lidera seus ataques no deserto com uma selvageria e uma ferocidade impiedosa rara até mesmo para um indomado filho das terras geladas do norte”, diz o texto, que mimetiza perfeitamente o estilo de Robert E. Howard.

Conan é traído e aprisionado. 


Como sempre, a história se desenvolve no sentido de traições e vemos Conan à beira da morte.

O Super-homem é judeu

 

 Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler, dizia que "Super-Homem é judeu", rebatendo a propaganda aliada feita pelos quadrinhos norte-americanos da época. Referia-se também ao fato de que os dois criadores do personagens, o roteirista Jerry Siegel e o desenhista Joe Shuster, eram judeus. Mas será que o herói é realmente judeu?
Uma leitura literal de sua história não permite esse tipo de interpretação. Afinal, o personagem é um alienígena, enviado à Terra ainda bebê e que, no trajeto, torna-se super-poderoso, vindo a ser o grande defensor da humanidade.
Entretanto, alguns pesquisadores têm destacado as semelhanças do mito super-heroiesco com o mito do messias judaico.
Afinal, seria natural para dois judeus, num período turbulento, em que todo o povo de Israel era perseguido, criar um personagem que representasse o Messias. Para os judeus, o Messias é o enviado divino, que vem à terra para trazer uma era de paz e felicidade.
A primeira indicação de que o personagem estaria ligado a esse mito está no seu nome de batismo, Kal-el. A palavra El em hebraico que significa Deus.
Além disso, ele vem para a terra num foguete, ainda bebê, exilado de sua terra, da mesma forma que Moises é colocado em um cesto e lançado no rio para ser criado pelos egípcios. O Super-homem, como os judeus da época, inclusive seus autores, é um homem sem terra, e é obrigado a esconder sua verdadeira identidade.
No livro Homens do Amanhã, Gerard Jones diz que “histórias de identidade secreta sempre encontraram eco entre os filhos de judeus imigrantes em virtude da necessidade de máscaras; máscaras que permitiam à pessoa tornar-se um americano moderno, consumidor das coisas do mundo. Mas, ao mesmo tempo permitem fazer parte de uma sociedade antiguíssima, ser um elo de uma velha cadeia sempre que ela estivesse no seio seguro daqueles que conheciam seu segredo. Um Clark Kent nas ruas e um super-homem em casa”. 
Para Jones, o Capitão América avançou ainda mais na metáfora judaica. Os leitores de quadrinhos sabem que ele é Steve Rogers, um garoto franzino, curvado, um Zé-ninguém, que, graças ao soro do super-soldado, torna-se um herói. ¨Ele é o garoto subnutrido do gueto que adquire força desmedida ao agarrar as oportunidades americanas; o ressabiado sobrevivente do velho país que renasce como o judeu combativo graças à mistura americana de violência e liberdade¨.
Na medida em que fizeram a metáfora da elevação do povo judeu através dos emergentes meios de comunicação, os autores do Capitão América capturaram também o espírito do norte-americano comum, que via seu país tornar-se a grande potência mundial, superando as velhas potências européias.
Além das metáforas mais óbvias, vale lembrar que praticamente todos os desenhistas, roteiristas, editores e donos de editores da era de ouro eram judeus. Explica-se isso pelo fato de que os quadrinhos na época eram vistos como subliteratura, desprezadas pelos chamados artistas sérios. Os judeus, ao contrário, agarraram essa oportunidade e fizeram dos super-heróis o maior símbolo da grande virada estabelecida por eles no novo mundo. Não é à toa que os nazistas sempre foram os vilões prediletos dos quadrinhos.

The Spirit

 


Dos heróis surgidos nos anos da Segunda  Guerra Mundial, um  deles se destacou não pelos po­deres extraordinários ou por uniformes espalhafatosos.  Spirit, criado por Will Eisner, era um herói, acima de tudo, humano. Policial dado como morto, Colt se aproveita do anonima­to para resolver casos além do alcan­ce da polícia, apenas com uma capa e um chapéu “noir”. A minúscula máscara, sugestão do editor, procurou torná-lo mais comercial, mas não lhe diminuiu o prestígio.
O Spirit era uma espécie de mes­tre de cerimônias de um show  pelo qual desfilavam menores abandonados, ladrões, suicidas... Gente que tem uma bela ou triste história para con­tar.
Uma das histórias mais tocantes era sobre um garoto que sabia voar. Proibido de sair do chão pela mãe, ele sobe, já adulto, num edifício onde o Spirit troca tiros com bandidos e começa a fazer evoluções no ar, até que uma bala o acer­ta. Eisner aconselha os leitores não chorarem por ele, mas pelas pessoas que não perceberam seu vôo.
Apesar dos textos impressionis­tas, o Spirit entrou para a  história dos quadrinhos por um motivo estético: foi o primeiro a tentar uma linguagem realmente quadrinística.
O texto nun­ca dizia o que a imagem podia passar  e havia uma exploração muito grande das possibilidades narrativas do desenho. Eisner foi o primeiro a usar a sequên­cia com maestria nos quadrinhos e é considerado o pai da nova geração de quadrinistas, como Alan Moore, Da­ve McKean, Dave Gibbons e Neil Gai­man, entre outros.
O Spirit durou de 1940 a 1952, quando a opinião pública voltou-se contra os quadrinhos, depois que o livro ‘Sedução de inocentes”, do psicólogo Frederích Werthan, os acusou de serem responsáveis pela delinqüência juvenil que florescia nos EUA. Vendo a decadência do mercado de quadrinhos, Eisner foi fazer desenhos para o exército.
Na década de 1970, Eisner voltaria aos quadrinhos, criando as graphic novels com a obra Um contrato com Deus.

segunda-feira, agosto 17, 2026

A catedral do mar

 


A Igreja de Santa Maria do Mar é uma das principais construções góticas de Barcelona. Iniciada em 1329, ela se destaca por ter sido construída não pela igreja católica, ou pelos nobres, mas pelo próprio povo. Quem não podia contribuir com dinheiro, contribuía com trabalho, como os carregadores, que levavam pedras para a igreja. Essa igreja é o cenário da série espanhola A catedral do mar, lançada aqui pela Netflix.
A história começa com um agricultor que se casa com uma linda camponesa. Quando a festa de casamento parece o auge da felicidade, o senhor feudal aparece e exige o direito de tirar a virgindade de noiva. As núpcias do casal acontecem assim: com a noiva machucada e o o noivo obrigado a isso para diversão do nobre.
Esse início dá o tom da série: é uma trama cujos dramas se sucedem quase initerruptamente. Nesse sentido é um verdadeiro dramalhão mexicano, mas se diferencia desses pelo conteúdo histórico. Ao expor as relações de poder na Idade Média, a série mostra o quanto os pobres e em especial as mulheres pobres eram estigmatizados e abusados pelas classes nobres e até mesmo pela igreja: uma simples acusação de bruxaria poderia levar uma mulher à fogueira da inquisição.
O protagonista da série é o filho desse casal, Arnau, um sobrevivente. Quando finalmente nasce, sua mãe é requisitada para ama de leite do filho do senhor e, sem leite, ele está para morrer de fome. O pai invade o palácio e foge com o filho para Barcelona, um burgo, um local em que servos ganhavam a liberdade após um ano. Mas lá em Barcelona ele se depara com infinitos outros problemas, de relações de trabalho desiguais à fome.
Seu filho acaba conhecendo um garoto, João, cuja mãe foi aprisionada pelo marido. Nessa época, ao desconfiar que a esposa lhe era infiel, o marido tinha o direito de prendê-la num cômodo sem saída, apenas com uma janela para se jogar água e comida.
Os dois, Arnau e João, se tonarão como irmãos e passarão por todas as dificuldades da vida na Idade Média: as guerras, a fome, a peste, que dizimava famílias inteiras. E, durante todo esse tempo, Nossa Senhora do Mar será como uma mãe para eles, consolando-os nos momentos de aflição e ajudando-os a superar os desafios. É curioso que, numa época em que as mulheres eram estigmatizadas como seres demoníacos, tenha se estabelecido um culto tão popular a uma mulher.
Descontando o melodrama excessivo, a catedral do mar é uma boa série para quem gosta de história e uma trama que prende por seu desenvolvimento e seus personagens carismáticos.

Supermoça, de Peter David e Gary Frank

 


Em 1996 a DC Comics resolveu lançar uma nova revista da Supermoça sob a batuta de Peter David (roteiro) e Gary Frank (desenhos). Frank já despontava como um desenhista de talento e David, embora nunca tenha sido um roteirista genial, sempre foi um artesão talentoso, alguém que conseguia fazer manter um título em um nível alto de qualidade.
No Brasil parte dessas histórias foram publicadas na revista Superboy, da editora Abril.
A comparação com as demais histórias do mix mostra o quanto esse trabalho estava acima da média na época. As HQs da Supergirl são muito superiores, por exemplo, às do próprio Superboy.  
Um problema: nesse período todas as editoras precisavam ter diversos crossovereres (inclusive alguns que envolviam apenas determinado núcleo de heróis) e as revista eram sempre conectadas. Dessa forma, para o leitor de hoje, ou mesmo o leitor da época que não acompanhava tudo da DC, muita coisa parece não fazer sentido. Mesmo assim, Peter David consegue estruturar uma saga coerente, com início, meio e fim.
Na história, a Supermoça vai salvar uma moça vítima de um sacrifício em um ritual demoníaco e seu corpo se funde com o dela. A história começa com a personagem sem se lembrar de nada do que aconteceu e flash backs aleatórios vão mostrando um pouco do passado das duas.
A história começa com a personagem desmemoriada, tentando se lembrar do que aconteceu.


Ao mesmo tempo, a supermoça se vê vivendo a vida de Linda e seus dramas.  Enquanto isso, uma seita parece estar tramando algo que envolve as personagens.  
Um dos melhores capítulos é quando a mãe de Linda (a garota com a qual a Supergirl se fundiu) convida para um encontro às escuras exatamente o líder da seita demoníaca. Um simples jantar, mas repleto de suspense e frases com dupla interpetação.
Um dos capítulos mais tensos é um jantar. 


Se o roteiro de Peter David estava acima da média da revista, o desenho de Gary Frank estava ano luz do restante. Em uma época de desenhos exagerados, ele conseguia ser anatômico e ao mesmo tempo expressivo. E conseguia caracterizar perfeitamente tanto a Supergirl quanto Linda - não só na cor do cabelo, mas também no físico e na expressão corporal. Além disso, ele se saía bem tanto em monumentais cenas de ação quanto em momentos íntimos, como uma discussão na mesa de jantar.
Infelizmente, a revista do superboy acabou no número 28 e foi publicado apenas o primeiro arco da personagem.

Homem-Animal - O mito da criação

 

 

A revista Secret Origins era uma publicação dedicada a recontar a origem dos personagens da DC Comics. No número 39 o astro foi o Homem-Animal, o que mostra o sucesso que a releitura de Grant Morrison estava fazendo. Afinal, o gibi do personagem estava sendo publicado há menos de um ano.

A história começa com o herói testando seus poderes e descobrindo que estão de fato descontrolado. A certa altura, por exemplo, ele tenta absorver os poderes de um cachorro, mas consegue os de uma pulga.

Os poderes do personagem estão descontrolados. 


A cena corta para dois alienígena que observam o personagem e refletem sobre o que está acontecendo com ele. 

Acho que devemos rever a criação do Homem-Animal, mas como nos lembramos”, diz um dos alienígenas.

Alienigenas teriam criado o herói? 


Maroto, Morrison usa o recurso para trazer, para a sua história, a primeira HQ do personagem (publicada em Strange Adventures 180) ao mesmo tempo em que o redefinia. Vale lembrar que Alan Moore já tinha usado, em Monstro do Pântano, um recurso semelhante.

A editora Abril não só publicou a história como.a colocou em ordem cronológica com relação a revista do personagem, o que mostra o cuidado editorial.