segunda-feira, fevereiro 09, 2026

A bíblia do roteiro de quadrinhos

 

Há algum tempo, os roteiristas Alexandre Lobão e Leonardo Santana me convidaram para escrever a seis mãos um livro sobre roteiro para quadrinhos.
Na época eu não poderia imaginar a proporção que isso iria ganhar. O projeto foi aumentando, aumentando, até se transformar no que é, provavelmente, o mais completo livro sobre roteiro já publicado no Brasil.
A obra tem praticamente tudo que um roteirista precisaria saber para escrever boas histórias para qualquer mídia.
Alguns assuntos foram tratados no Brasil apenas nesse livro. Já outros assuntos é a primeira vez que são tratados num livro de roteiro provavelmente no mundo, como a verossimilhança hiper-real.
É uma obra de peso (340 páginas!), tanto que decidimos chamar de A bíblia do roteirio de quadrinhos. Essa obra teve seu lançamento oficial em Curitiba sexta-feira passada e já está vendida no site da editora.
Para quem quiser seu exemplar autografado e frete grátis, só me mandar um e-mail: profivancarlo@gmail.com. 
O valor do livro é 60 reais + 15 de frete. 

Esquadrão Atari – Dart contra a Bestafera

 


O segundo número de Esquadrão Atari é uma edição morna, de preparação para a grande narrativa que viria a seguir. De fato, não acontece quase nada de relevante. Mas nem por isso é uma revista menos empolgante. Isso graças à maestria da dupla Gerry Conway e Garcia Lopez.

A trama é focada principalmente em Dart e Blackjack. Depois de levarem o calote do general Ki, ambos aderem aos rebeldes, para desespero de Blackjack, já que estes estão em desvantagem, sendo massacrados pela artilharia no alto de um monte. Embora briguem o tempo todo, a química entre os dois é óbvia, fazendo com que sejam dois dos personagens mais carismáticos num grupo que só tinham personagens carismáticos.

A dinãmica entre os dois personagens era um dos pontos altos da série. 


Após conseguirem derrotar a artilharia, os dois enfrentam um novo inimigo, Necromius, um alienígena canibal enviado pelo misterioso vilão da. A forma como Dart o vence é mais uma amostra da sintonia dela com Blackjack e, ao mesmo tempo, a sintonia entre os dois criadores da série. A sequencia é divertida, tem ação na medida certa, não é forçada e faz todo o sentido.

Só por imagens como essa a série já valeria a pena. 


É nesse número que vemos, pela primeira vez, Martin Champion, o pai de Tormenta. No passado ele conduziu a humanidade rumo a seu novo planeta, mas agora é um cientista amargurado, crente que a humanidade irá enfrentar sua maior ameaça.

O que sabemos?

 


           A grande maioria das pessoas tem a noção de que existe um mundo real, exterior a todos nós, compartilhado por todos. Uma cadeira é uma cadeira, em qualquer situação, para qualquer pessoal. É isso que nos diz o senso comum.
            No entanto, os avanços da ciência têm demonstrado que o processo de percepção tem menos a ver com o objeto observado do que com as interações internas que fazemos na hora de ver algo.
            O cientista chileno Humberto Maturana realizou algumas pesquisas interessantes com salamandras que ajudaram a desvendar essa área do conhecimento. A salamandra tem grande capacidade de regeneração. Você corta uma perna dela e nasce outra. Da mesma forma, se retirarmos seu olho e colocarmos de volta, ele se regenera. O que o Maturana fez foi retirar o olho e, na hora de colocá-lo de novo, inverteu a posição. A salamandra, na hora de caçar, joga sua língua sobre o inseto e é certeira: a língua sempre acerta seu alvo. Mas quando seu olho é invertido, ela joga a língua para o lado oposto ao inseto.  A conclusão é de que, na hora de ver, valem mais as conexões internas do que os objetos em si. Alguns cientistas, inclusive, afirmam que vemos com o cérebro, não com o olho. Experiências demonstram, por exemplo, que ao lembrarmos de um objeto acionamos as mesmas áreas do cérebro que usamos quando vemos esse objeto. Ou seja, para nosso cérebro não existe diferença entre ver algo e lembrar de algo.
Assim, não existe uma realidade externa, exterior ao observador, que possa ser captada. Toda percepção é um processo de reelaboração. Nós olhamos para algo e vemos não o que de fato é o objeto, mas aquilo que nosso cérebro, baseado inclusive nos nossos modelos de mundo, nos diz que ele é.
            Só reconhecemos uma cadeira porque temos um modelo de como deve ser uma cadeira. E só nos sentamos nela porque temos expectativas a respeito de sua funcionalidade.
            O filósofo T.S. Kuhn demonstrou no livro A estrutura das revoluções científicas diz que os cientistas se tornam cegos para fatos que não se encaixam em seus paradigmas. Em uma pesquisa citada por Kuhn, foram mostradas diversas cartas para várias pessoas. Algumas dessas cartas eram anômalas, como um quatro de copas preto, mas os sujeitos adequavam essas cartas às suas expectativas sobre o baralho, fazendo com que o quatro de copas preto fosse tomado com um quatro de espadas. Da mesma forma, o cientista, ao ver um fato anômalo, tem a tendência ou de ignorá-lo inconscientemente ou de adequá-lo a uma situação normal. 

            Cotidianamente podemos perceber essa diferença de percepção. Uma moça que é indiferente para um rapaz pode ser apaixonante para outro. Um local agradável para uns pode ser desagradável para outros.
            Quando alguém acha o ser amado bonito, a beleza está muito mais nele mesmo e nas suas lembranças dos bons momentos que passaram juntos do que na realidade exterior. A idéia de que existe um mundo pronto e acabado, fixo, está, quase sempre relacionada a regimes totalitários. Para muitas pessoas o mundo é como elas o vêm e, percebendo que as outras pessoas têm percepções diferentes, acreditam que sua visão é a mais correta e querem impor essa visão aos outros. Esses costumam ser os grandes ditadores.

Perry Rhodan – Nas algemas da eternidade

 

 

Em sua primeira ida ao planeta Druufon, Rhodan acaba inadivertidamente saltando para o centro de pesquisa desse povo e é salvo por um representante daquela raça misteriosa. O que levaria um druff a salvar os terranos? Essa pergunta é respondida no número 77 da série.

Na trama, Rhodan se encontra no meio de seu jogo duplo, de parecer um aliado dos druufs ao mesmo tempo em que se prepara para ajudar os arcônidas. Na verdade, uma brecha entre as duas dimensões temporais se abriu fazendo com que os druffs invadam nosso universo. Mesmo com milhares de naves, o regente pede, desesperadamente, a ajuda dos terranos.

Mas a principal preocupação de Rhodan é descobrir quem é o desconhecido que o ajudou. A resposta para isso revela o planejamento da série a longo prazo. No druuf em questão incorporara um mutante que aparenemtente havia morrido lá nas primeiras histórias da série, um ser capaz de viajar em espírito pelo tempo.

A capa alemã destaca o personagem Harno, uma bola capaz de transmitir imagens de qualquer ponto do universo. 


Clark Darlton, o autor do livro, consegue resumir bem os acontecimentos passados sem parecer que a narrativa parou. Ao contrário: esse é um dos momentos mais interessantes da obra.

A descoberta a respeito de quem é o misterioso aliado faz Rhodan estabelecer um plano audacioso cujo objetivo é roubar algumas das tecnologias dos druufs que poderão ser essenciais para o resultado da guerra. Ele faz isso no meio de uma batalha entre as duas dimensões. O plano é bem bolado e a narrativa é frenética e verossímil. Tudo se encaixa perfeitamente.

Esse livro reúne na medida certa, e desde o começo, quantidades de ação, mistério e revelações, o que faz dele um daqueles volumes que nos fazem querer continuar lendo a série.

A única coisa que decididamente não encaixa é a capa feita por Gray Morrow para a edição americana, que foi usada na edição da Ediouro. A imagem mostra um cavaleiro medieval segurando um escudo e uma águia. É um daqueles casos em que Morrow não tinha a menor noção do assunto do livro.

Dylan Dog – Depois de um longo silêncio

 


Existem, no mundo real, monstros muito mais perigosos que múmias, zumbis e vampiros. Um desses perigos é o vício e esse é o tema abordado por Tiziano Sclavi na história “Depois de um longo silêncio”, publicada no número 23 da nova série de Dylan Dog da Mythos.

Na história, um homem vê a sua vida desabar quando a esposa morre e ele se entrega ao álcool. Mas a esposa, inexplicavelmente, parece continuar ali, convivendo com ele e ele é capaz de perceber sua presença, mas é perturabado pelo fato de que ela nunca, jamais, fala nada.

Uma única taça de vinho faz retornar o vício. 


Em busca de resposta, ele vai procura o detetive do pesadelo, mas Dylan Dog está envolvido com seus próprios problemas – que, no final, irão se misturar à trama de fantasmas. Ele agora tem uma nova namorada, Crystal, e está tão apaixonado que se permite beber um copo de vinho, por insistência dela.

O personagem é conhecido por ser totalmente abstêmio – são inúmeras as histórias em que alguém lhe oferece bebida e ele recusa. Aqui, nessa história entendemos o porquê. Dylan, em um passado remoto, foi um alcoolatra, que conseguiu se livrar do vício. No ententanto aquela única taça de vinho acaba provocando uma reação em cadeia. Logo ele está bebendo o tempo todo. Além disso, se torna agressivo inclusive com o amigo Grouxo e chega ao ponto de ter delírium tremens.

Dylan torna-se agressivo e irraiconal. 


“O alcoolismo é uma doença progressiva. Fica cada vez pior”, diz o texto. “E, mesmo se parar por muito tempo e depois tiver uma recaída, os efeitos serão desvastadores em poucos dias”.

Também é apresentada uma estatística (não é dito de que país, mas é possível que seja da Inglaterra, onde se passa a história): Enquanto as drogas matam 6 mil por ano, o álcool mata 60 mil.

A trama do alcoolismo se mistura à trama de fantasmas. 


É de se admirar a habilidade de Sclavi de unir essa trama de alcoolismo com a trama de fantasmas, transformando a segunda em uma metáfora dos perigos do vício em álcool... e o faz com um final realmente emocionante.

Não por acaso, essa é uma das histórias mais célebradas do detetive do pesadelo.

A arte marcante de Bira Dantas


 

Nascido em São Paulo, em 1963, e criado no Rio de Janeiro, Bira Dantas iniciou sua carreira em 1979. Começou como assistente de Eduardo Vetillo nas revistas Chet, Chaves e Spectreman e, já em 1980, tornou-se desenhista da icônica revista Os Trapalhões, do estúdio Ely Barbosa.

Como chargista, atuou em veículos como Retrato do Brasil, Folha da Tarde, Diário do Povo e Correio Popular. Desde 1982, publica regularmente na imprensa sindical e corporativa. Sua obra rompeu fronteiras, marcando presença em eventos como a World Comics Conference (Coreia do Sul) e nos Festivais de BD de Angoulême (França) e da Argélia. Premiado em múltiplos salões de humor, Bira atualmente reside em Vitória (ES), onde continua produzindo quadrinhos e charges.














A escavação

 

 



A morte, a descoberta do passado e o futuro incerto. Esses são os temas de Escavação, filme da Netflix dirigido por Simon Stone e estrelado por Ralph Fiennes e Carey Mulligan.

O filme conta a história da maior descoberta arqueológica na Inglaterra no século XX, um navio anglo saxão no qual foi enterrado um grande chefe com seu tesouro. A descoberta revelou objetos da Escandinávia, Egito e império bizantino, mudando a forma como os historiadores viam o século VI.

Essa sinopse pode dar a entender que se trata de uma obra de interesse apenas histórico ou para pessoas que gostam de arqueologia. Mas a forma como a história foi contada resultou num filme sensível e amplamente interessante.

Um dos destaques é a caracterização dos personagens. A história foca principalmente em uma viúva, que desconfia que sua fazenda esconde tesouros arqueológicos e contrata um escavador. Contrariando todas as previsões, inclusive de especialistas, eles fazem a descoberta. O escavador, que deveria ser apenas um trabalhador braçal especializado se revela um homem culto, o primeiro a perceber a importância da descoberta. A relação entre eles vai muito além da patrão-empregado: até mesmo o filho da viúva se torna extremamente apegado ao velho escavador.

Há dois fatos históricos que são explorados pelo filme como metáfora: a viúva está morrendo e a Inglaterra está prestes a entrar em guerra contra a Alemanha. A descoberta arqueológica torna-se assim um símbolo de como a herança humana pode se tornar perene, indo muito além da morte ou das intempéries, como as guerras. É sintomático que a descoberta seja de um navio funerário. Ao financiar a descoberta, a viúva eterniza seu nome, transcendendo a morte. O mesmo ocorre com o escavador, cuja autoria da descoberta foi escondida pelos arqueólogos e só recentemente descoberta.

Tudo isso é contado de forma envolvente, com uma fotografia belíssima e ótimas atuações. Destaque para um recurso que amplia as simbologias do filme: constantemente as falas dos personagens são apresentadas em off, muitas vezes quando imagens já mostram outros momentos. É como se as vozes dos personagens estivessem se perpetuando no tempo, da mesma forma que as descobertas arqueológicas.  

domingo, fevereiro 08, 2026

Fundo do baú - Doctor Who

 

Doctor Who é uma premiada série de ficção científica britânica, produzida e transmitida pela BBC. A série mostra as aventuras de um humanoide alienígena conhecido apenas como "O Doutor". Ele explora o universo em sua máquina do tempo, conhecida como TARDIS, cuja aparência exterior se assemelha a uma cabine da polícia londrina de 1963  e é pequena por fora mas imensa por dentro.

O Doutor enfrenta uma variedade de inimigos, enquanto trabalha para salvar as civilizações, ajudar as pessoas comuns, e corrigir erros temporais .
O programa originalmente funcionou de 1963 a 1989. Houve um filme para TV em 1996 que foi um fracasso, mas a série voltou em 2005 e desde então tem sido um grande sucesso. Recentemente foi exibido em todo o mundo, ao mesmo tempo, o especial de 50 anos, o dia do doutor, batendo recordes de audiência.
Doze atores já atuaram na série como O Doutor. A transição de um ator para outro é escrito no enredo do show como a regeneração. Essa foi a solução encontrada para continuar a série com atores diferentes. 
Dr. Who se tornou famosa pelos roteiros inteligentes e pelo uso econômico de efeitos especiais, mostrando que a força da boa ficção científica está na história. 

Perry Rhodan – O pavor

 



O número 74 de Perry Rhodan é considerado pelos fãs um marco da série. A razão é que foi nesse número que William Voltz, o mais celebrado escritor de PR estreou. E ele fez uma estreia com uma história realmente empolgante e envolvente, difícil de largar antes da última página.

Curiosamente,K. H. Scheer, então coordenador da série, parecia não confiar no novo autor. Reservou para ele uma história menor, que não tinha praticamente influência nenhuma nos rumos da saga. Além disso, exigiu que ele reescrevesse o texto várias vezes.

Na história, um grupo de astronautas terranos desce no planeta Epan com o objetivo de levar de volta para a Terra um mutante deixado no planeta como espião.

A capa da edição alemã. 


Epan é um planeta primitivo, que lembra a Roma antiga. A principal diversão dos habitantes locais é o combate na arena, em que epanenses enfrentam monstros reptilianos. O mais famoso desses gladiadores, chamado Mataal, é também quem acolheu o espião terrano em sua casa. Mas o rapaz está debilitado e magro a ponto de sua identidade terrana ter sido revelada, o que faz com que o grupo leve também o gladiador na nave.

A maior parte da trama se passa na nave girino. Um a um os tripulantes são paralisados. No começo, suspeita-se de uma doença, mas logo fica claro que alguém está provocando isso. Mas quem? E com qual objetivo?  

Voltz constrói uma trama de suspense e drama psicológico extremamente envolvente em que os acontecimentos e mistérios vão se sucedendo. A trama não perde fôlego nem mesmo quando ele revela aos leitores quem é o responsável pela situação, ali pela metade do livro.

Não sei se isso estava na sinopse que lhe foi apresentada, mas William Voltz transforma O pavor numa trama policial ao estilo Agatha Christie, mas misturada com ficção científica, em que pessoas num ambiente fechado começam a tombar e a suspeita vai recaindo sobre uma pessoa, que logo tomba, fazendo com que a suspeita recaia sobre outro e assim sucessivamente.

Se isso já não fosse bom o suficiente, o escritor ainda reserva uma tremenda reviravolta para o final.

William Voltz não era apenas alguém que sabia desenvolver histórias. Ele também tinha um texto poético (eu o chamdo de “O Ray Bradbury dos livros de bolso”) que foi se desenvolvendo aos poucos, mas já aparece nessa edição, como no começo, em que ele estimula os sentidos dos leitores ao descrever a arena do planeta Epan: “O cheiro de suor, sangue, sujeira, animais e... terra úmida revolvida; uma massa de expectadores formada por pequenos funcionários, grandes dignatários, mercadores, contrabandistas, operários, soldados, nobres; o rugido da luta, o tinir das armas, os gritos do animais feridos, as exclamações exaltadas do público... era este o espetáculo na arena de Rapmaag”.

Não é por acaso que O pavor se transformou num clássico instantâneo.

O terror, o terror!

 


O terror é uma das emoções humanas mais básicas e fundamentais. Somos todos assombrados por algum tipo de fantasma. Talvez o medo seja a primeira emoção experimentada pelo ser humano, o medo de um mundo desconhecido que se encontra do lado de fora da barriga da mãe.
E o terror nos acompanha por toda a vida: ele está em filmes, seriados e quadrinhos, causando fascínio e repulsa.
Eu tive boa parte de minha carreira ligada ao terror. Quando comecei a escrever quadrinhos, esse era o único gênero – além do erótico – em que um brasileiro podia fazer quadrinhos. Meu grande parceiro na época era o compadre Bené Nascimento (Joe Bennett) e lembro que nos divertíamos muito imaginando as formas mais bizarras de matar ou dar um destino pior aos protagonistas. Também fazíamos piadas internas, em que cada um de nós era submetido a situações de terror. Em uma das HQs, um personagem com meu rosto sofria de medo de multidões e via seu corpo transformado em milhares de bocas em eterno falatório.
Como disse, era uma piada interna, mas hoje penso que, por trás do riso havia algo mais, como essa fosse uma forma de lidar com algo difícil. Quantas pessoas não riem diante de uma situação embaraçosa ou até mesmo perigosa? “Hahaha! Poxa vida! Esse carro quase leva o meu braço!”.
A verdade é que todos nós precisamos do terror por algum tipo de necessidade psicológica. Talvez o medo verdadeiro seja algo tão insuportável que precisamos de um treino para lidar com ele. É como as pessoas que se borram toda apenas em pensar em locais altos e são levadas por psicólogos para edifícios e incentivadas a enfrentarem seus medos de forma controlada.
Da mesma forma, você pega essa revista e exorciza seus fantasmas. Se a situação ficar realmente difícil, se a mão fria da morte parecer estar tocando sua fronte, basta fechar a revista e os demônios estarão ali, presos nas páginas fechadas, sob controle. Mas eles estarão lá acenando para você e, uma hora ou outra, você voltará a abrir as páginas e ler como o menino que morreu de medo na montanha russa, mas mesmo assim voltou para a fila.
Talvez a grande lição do terror é que nós podemos vencer nossos demônios.
A casa do terror é uma revista para aqueles que sabem que o medo pode ser um dos grandes segredos da vida, tão essencial quanto o amor e o oxigênio.
(editorial que escrevi para o primeiro número de A casa do terror) 

Guia do mochileiro das galáxias em Clássicos revisitados

 


Clássicos revisitados é uma série de álbuns de quadrinhos da editora Quadrinhópole em que os quadrinistas são desafiados a fazer uma HQ unindo duas obras distintas (na maioria das vezes com pouca relação entre elas).
O quarto volume foi dedicado a unir obras famosas de ficção científica com fatos históricos. Eu acabei fazendo duas histórias. Uma delas unia a extinção dos dinossauros com o livro O guia do mochileiro das galáxias.
Na minha história, dois garotos alienígenas acabam vindo parar numa Terra pré-histórica e, sem querer, provocam a extinção dos dinossauro. E qual a primeira coisa que dois garotos bolsonianos fazem diante de  algo assim? Claro, consultar o Guia para saber se a informação aparece lá.
Eu bolei a HQ como um verbete do Guia, de modo que os textos e até o título aparecem como texto do Guia (mostrado aqui como uma espécie de tablet).
Tempos depois o desenhista da história, Hugo Nanni entrou em contato comigo e me mandou a seguinte mensagem: “Antes de mais nada gostaria de te agradecer por um roteiro teu que tive a honra desenhar e que figurou numa das publicações Clássicos Revisitados. Quero dizer ao senhor que considero um dos meus melhores trabalhos e tenho grande carinho por ela. Grande parte desse apreço pelo resultado final dessa curta e divertida HQ vem da fluidez do roteiro. Sei que o senhor é um mestre, tem livro sobre o assunto e isso me deixa bastante feliz em ter participado desse trabalho e contribuído com sua carreira nessa parceria. Quero deixar aqui meu agradecimento de coração por ter me dado esse roteiro , que pra mim foi um grande presente”.
Em tempo: o álbum está disponível na Amazon
Fiquem com a história






Ascensão: Império Otomono

 


A Netflix tem várias séries históricas, a exemplo de Vikings. Tem também diversos documentários sobre história.

Já a série Ascensão: Império Otomono é uma curiosa mistura dos dois. Enquadrada dentro do gênero normalmente catalogado como docudrama, o seriado narra como o império otomano se tornou um dos mais poderosos do mundo.

Dirigido pelo turco Emre Şahin, a série conta com duas temporadas. Na primeira, o sultão Maomé II conquista Constantinopla, que a partir daí seria conhecida como Istambul. A segunda é focada na guerra de Maomé II contra Vlad Drácula, o soberano da Valáquia (atual Romênia), conhecido por sua predileção por empalar seus inimigos.

Muito bem dirigida e escrita,  a atração consegue manter o suspense mesmo quando conhecemos os fatos históricos. Maomé conseguirá conquistar Constantinopla, a cidade com 22 quilômetros de muros impenetráveis? Conseguirá derrotar Vlad, um inimigo com um exército muito menor, mas totalmente desprovido de qualquer tipo de escrúpulos ou ética, cujo comportamento parece imprevisível?

A primeira temporada parece não ter um protagonista. Se por um lado, Maomé é mostrado como um soberano sábio, com um passado triste, por outro lado os defensores de Constantinopla, em especial o mercenário Giovanni Giustiniani, são heroicos em sua resistência. É um caso curioso em que não sabemos para quem torcer, pois os dois lados parecem ter seus méritos. O expectador se deleita com as estratégias de ambos os lados.

Já na segunda temporada, a torcida toda é por Maomé. Vlad Drácula é tão obviamente vilão que deu origem ao Conde Drácula das histórias de vampiros. Vlad era uma espécie de psicopata que sentia prazer em empalar homens, mulheres e crianças em sua guerra psicológica (o seriado, embora não mostre explicitamente, deixa claro como ocorre o processo de empalamento).

De tempos em tempos, a narrativa fictícia é interrompida para inserir falas de historiadores e especialistas, que destrincham e explicam os aspectos históricos, detalhes sobre a vida dos personagens ou sobre os costumes da época. Mas essas inserções são bem feitas, de forma que não quebram a narrativa, ao contrário, a complementam a ponto do expectador esperar por elas.

Ascensão: Império Otomono é diversão garantida para os amantes de história.

O experimento de Milgran

 

Filho de imigrantes que haviam saído da Europa fugindo da perseguição aos judeus, Stanley Milgran se perguntava como havia sido possível o holocausto. Como milhares de pessoas normais, pais de família, pessoas do bem, haviam se tornado carrascos nazistas nos campos de concentração, matado e torturado pessoas que mal conheciam. Um fato ainda mais perturbador: nos julgamentos que se seguiram, muitos desses criminosos de guerra alegaram que estavam apenas cumprido ordens superiores.
Para verificar como a obediência à autoridade poderia levar pessoas normais a atos extremos, Milgran bolou uma experiência. Um voluntário era levado a acreditar que estava participando de um experimento a respeito da influência da punição na aprendizagem. A cada resposta errada, o professor deveria acionar uma chave que aplicava um choque em um “aluno”, em outra sala. Os choque aumentavam gradativamente de potência. Na outra sala havia na verdade um ator, que gritava, alegava que tinha problemas cardíacos e pedia para parar o experimento. 65% das pessoas foram até o choque mais potente, que poderia até matar o “aluno”. Isso porque uma autoridade, o pesquisador lhe dizia que deveria continuar apicando choque.
A experiência abalou a psicologia social – até então a maioria dos psicólogos acreditava que pouquíssimas pessoas iriam até o final.
A vida de Milgran é mostrada no filme O experimento de Milgran, de Michael Almereyda, lançado pela Netflix, com Peter Sarsgaard e Winona Ryder no elenco.
Não é um filme convencional, que permita uma fácil identificação com o protagonista, em especial graças à quebra da quarta parede – em diversos momentos Milgran se vira para a câmera e conversa com o telespectador. Isso pode provocar alguma rejeição de receptores mais acostumados a filmes convencionais, mas certamente serve aos propósitos do filme. O objetivo aqui parece ser não mergulhar o expectador numa história, mas principalmente força-lo a refletir sobre determinadas situações. Nesse sentido, é quase uma experiência social, fato reforçado por algumas situações estranhas, como um elefante que anda atrás de Milgran em determinados momentos ou o filho do psicólogo, que sempre aparece pintado de verde.
Embora sua experiência com autoridade o tenha tornado famoso, Milgran é também autor da teoria dos seis laços, segundo a qual há no máximo seis graus de separação entre qualquer pessoa do mundo. Ou seja: eu conheço alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece aquela pessoa. É a base filosófica das redes sociais, como o Facebook.
Milgran também criou experiências que se tornaram famosas como pegadinhas, como a da pessoa que no meio da rua começa a olhar para cima até que várias outras pessoas também começam a olhar para cima até que uma multidão se junta para ver nada... numa perfeita demonstração da chamada conformidade social.
O filme passeia por essas experiências e pela vida de Milgran focando inclusive na versão televisiva de sua experiência, o filme The Tenth Level, de1975, estrelado por William Shatner (sim, o mesmo ator que ficou famoso no papelo do Capitão Kirk!!!).
Em tempos em que pessoas acreditam cegamente em boatos anônimos em redes sociais e parecem cada vez mais inclinadas a seguirem líderes autoritários, é um filme necessário, que nos alerta sobre o lado terrível da natureza humana.

Miss Potter

 

 

Beatrix Potter foi uma das mais importantes escritoras e ilustradoras infantis de todos os tempos. Suas obras sobre animais revolucionaram o gênero no século XIX e a tornaram rica, o que lhe permitiu comprar diversas fazendas para transformá-las em reservas ambientais.

É a história dessa personagem fascinante que o diretor Chris Noonan conta no filme Miss Potter, disponível na Netflix. Nooman é o mesmo diretor do filme Babe, sobre um porquinho, o que o torna a pessoa certa para o projeto.

Noonan usa live action e animação em sua narrativa. Assim, se por um lado temos os atores, em um ótimo elenco encabeçado por Renée Zellweger, por outro, temos cenas de animação, nas quais os personagens de Potter, a exemplo de Peter Rabbit, interagem com a protagonista. Isso dá uma leveza única para a narrativa.

Mas não pense que se trata de um filme apenas leve. Há momentos de drama e conflito, em especial com a mãe, que se nega a perceber os méritos e sucessos da filha e a quer casar com um jovem da nobreza, afinal, a família Potter era formada por novos ricos, que ansiavam por ascender socialmente – e o casamento de Beatrix era um caminho para isso.

Beatrix Potter, como mostra o filme, não era apenas uma inovadora na literatura, mas também no papel das mulheres na sociedade da época.

O filme inclui até mesmo momentos de drama, mas mesmo nesses momentos não perde a leveza e o encanto.

Fundo do baú - Jeannie é um gênio

 


“Era uma vez, num lugar mítico chamado Cabo Kennedy... um astronauta de nome Tony Nelson foi lançado numa missão especial. O seu míssel subiu, porém algo aconteceu e ele teve que retornar à Terra. O Capitão Nelson chegou a uma ilha onde encontrou uma garrafa que não era uma garrafa qualquer, pois dentro havia um lindo gênio que tinha o poder de realizar todos os seus desejos. Diferente, divertido, surpreendente. A garota desse programa é um sonho, um espetáculo, é muito viva!”

O texto acima era a abertura dos primeiros episódios de Jeannie é um gênio, sitcom criada por Sidney Sheldon que estreou nos EUA em 18 de setembro de 1965 e foi exibido até 1970, num total de 139 episódios. Posteriormente foi feita uma animação e aproveitada apenas a parte final da narração.

Na história, Barbara Eden era um provocante gênio das mil e uma noites e Larry Hagman era seu amo e senhor. Apaixonada pelo seu amo, ela vai com ele para os EUA coloca sua vida de cabeça para baixo com suas estripulias. Entre os personagens secundários da série estavam o Dr. Bellows, um psicólogo da força aérea que tenta descobrir porque coisas estranhas acontecem sempre que o Capitão Nelson está por perto e o atrapalhado Roger Healey, melhor amigo de Nelson, que muitas vezes ajuda a encobrir as confusões criadas por Jeannie.

O programa se aproveitava de truques básicos de montagem para simular de magia. Assim, por exemplo, o Capitão Nelson está no sofá e de repente o jornal aparece em sua mão, assim como uma xícara de café. Esses truques de montagem eram salientados por um movimento de cabeça de Jeannie e por efeitos sonoros. O conjunto funcionava incrivelmente bem.  

Em um dos episódios, Jeannie resolve se casar com Nelson. Como esse pretende continuar solteiro, ela cria um sósia dele, que se mostra absolutamente apaixonado por ela e chega a levá-la ao altar. Claro que no final ela desiste, pois o segredo do programa estava justamente na tensão sexual nunca realizada entre Jeannie e Nelson. Ao contrário de A feiticeira, cujo humor se concentrava em situações domésticas, em Jeannie é um gênio o foco são as insinuações sexuais, tanto que o fato dos dois terem finalmente se casado é apontado por muitos como a razão pela qual o seriado perdeu audiência e foi descontinuado.

Embora tenha sido criado como uma imitação de A feiticeira, Jeannie é um gênio logo mostrou que tinha brilho próprio e angariou uma legião de fãs.  

O seriado ainda ganhou dois filmes, lançados na década de 1980.