sexta-feira, maio 22, 2026

Bebê Rena

 


Perturbadora. Essa é a melhor definição para a série Bebê Rena. Escrita e criada pelo comediante escocês Richard Gadd, a série Bebê Rena conta a história de como ele foi perseguido por uma stalker durante cinco anos.

Na época, Gadd ainda tentava chegar ao sucesso, mas enquanto isso, trabalhava em pub. Um dia uma mulher chamada Martha entra no local e parece entristecida. Para ampará-la, ele lhe oferece uma xícara de chá. A partir daí, Martha desenvolve uma verdadeira obsessão por ele, não só comparecendo ao seu trabalho e aos seus shows, como mandando milhares de e-mails.

Quando o comediante percebe que as coisas estão indo longe demais e tenta dar um fim ao episódio, tudo piora ainda mais, com Martha perseguindo-o até em casa, agredindo sua ex-namorada e namorada atual e até mesmo ligando para os pais do comediante “informando” que ele se acidentou e está internado em um hospital. A vida do personagem se torna um inferno.

O seriado se destaca não só pela história perturbadora, mas também por ser uma espécie de terapia na qual o autor se desnuda diante do expectador, revelando seus segredos mais íntimos, como o fato de ter sido estuprado por um roteirista e produtor ou o fato de ele mesmo ter se tornado tão obcecado por Martha a ponto de ter se masturbado pensando nela. Talvez seja esse o aspecto mais chocante da minissérie: perceber qua a vítima de perseguição ou de um abusador muitas vezes pode se tornar dependente de seu algoz.

Igualmente perturbador é perceber o quanto a polícia, ao ser acionada, mostra-se totalmente inoperante, mesmo se tratando de uma perseguidora serial, que já havia sido presa antes.

À certa altura, os policiais chegam a sugerir que Martha seria a vítima da história, o que mostra que a sociedade ainda não parece estar preparada para lidar com casos como esse, de um homem sendo perseguido por uma mulher. Aliás, com o sucesso do seriado, jornalistas britânicos teriam descoberto a suposta Martha e, na versão dela, ela era a vítima. Contrariando a sua própria versão, ela passou a perseguir e mandar mensagens intimidadoras para o jornalista que entrevistou. Chegou até mesmo a espalhar a notícia falsa de que ele teria abusado de colegas de redação.

Embora a história de Bebê Rena pareça um conto bizarro e estranho, situações como essa são mais comuns do que se pensa, ainda mais em nossa época de redes sociais, em que qualquer um pode ter contato com qualquer pessoa a qualquer momento. Eu mesmo já vivi uma situação parecida com um indivíduo que me perseguiu virtualmente por quase dois anos e chegou a tentar descobrir onde eu trabalhava e onde meus filhos estudavam. Felizmente, não morava na mesma cidade que eu e um processo resolveu tudo.

Por essas e outras que o sucesso do seriado tem um lado muito positivo: alertar para o perigo de perseguidores seriais e a necessidade de leis específicas para casos como esses.

Tarzan - A fera da Lua

 

 

A capa do número 225 da revista do Tarzan publicada pela DC mostra, em uma impressionante imagem de Joe kubert, um poço no qual se amontoam diversas serpentes. O corpo de uma delas são do crânio seco de um homem nos chamando atenção para o fato de que já diversos outros esqueletos ali, indício de que muitas pessoas morreram no local. Logo acima, Tarzan se equilibrar na beirada enquanto um feiticeiro da tribo o empurrar na direção da morte certa. 

A imagem nos apresenta a cena mais dramática da história a fera da Lua, escrita e desenhada por kubert. 

Uma fera está atacando crianças e mulheres de uma tribo e Tarzan terá que enfrentá-la.


Na trama, um monstro está matando pessoas de uma tribo africana. O feiticeiro acusa Tarzan de ser o assassino, mas logo depois descobrimos que é ele que controla a fera. Ou seja: é tudo um plano para se livrar do homem macaco.

No Brasil essa históri foi publicada originalmente pela Ebal e, mais recentemente, pela Devir, no volume Tarzan  - O homem-leão e outras histórias.

Proclamação da república, de Marcos Rey

 


A coleção O cotidiano da história,d a editora Ática, tinha como objetivo contar, de forma agradável e atraente, fatos importantes da história do Brasil. Eram edições ilustradas, com diagramação inovadora e textos de alguns dos grandes autores infanto-juvenis brasileiros. Um dos volumes de destaque é Proclamação da República, escrito por Marcos Rey.
Marcos Rey é um escritor de narrativa fluída, que torna até mesmo um tema pouco atrativo, como a proclamação da república (que foi, essencialmente, uma quartelada sem qualquer ação real) em uma delícia de leitura.
Rey adota como estratégia contar os fatos do ponto de vista de um personagem que teria presenciado os acontecimentos. No caso, um jornalista, Antônio Brotero, o Broteirinho. Trabalhando no jornal republicano O País, Broteirinho resolve abadonar sua coluna de resenhas literárias para se dedicar às notícias políticas exatamente no período em que o Brasil se convulsiona. Com o aval do diretor do jornal, Quintin Bocaiúva, ele invade o clube militar durante uma reunião do alto oficialado, que conspira contra D. Pedro, o baile de ilha fiscal (festa suntuosa que marcaria o fim da monarquia) e acompanha a movimentação dos quarteis que levariam à instalação da república e o exílio de D. Pedro II. A ação é mínima: um combate mequetrefe entre o exército e a marinha que termina com um ferido, mas Marcos Rey conta tudo como se estivesse narrando um folhetim.
O autor também não se furta a alguns comentários sobre o evento. Por exemplo, quando o protagonista ouve as falas na reunião do clube militar, pensa: “A República, sem dúvida, estava próxima, mas não a do moderado Quintino Bocaiúva, nem a do radical Silva Jardim; a julgar por aquela reunião, excluiria as elites civis e a participação popular, correndo o risco de tornar-se uma ditadura, rígida, que talvez fizesse o País ter saudades do Império”. Como dizia o jornalista Silva Jardim, “falta povo nessa revolução”.
Como é um livro para adolescentes e para ser usado em escolas, o autor deixa de fora muitas fofocas históricas (como o fato de que Marechal Deodoro e o Visconde de Ouro Preto (primeiro ministro do Império) tinha disputado a mesma mulher e, portanto, tinham rivalidade antiga. Ainda assim, é um livro que prende a atenção.

Fundo do baú - Betty Boop

 


Todo mundo conhece Betty Boop. Ela está em todos os lugares: camisas, bolsas, acessórios femininos. Mas poucos sabem que a personagem, surgida na década de 1930 causou furor na sociedade americana e chegou a ser proibida pela censura.
A personagem foi criada por criada por Max Fleischer e Grim Natwick e estreou no cinema em um curta metragem, em 1930. Nessa época ela era uma cachorrinha coadjuvante do cachorro Bimbo. A inspiração era a cantora Helen Kane, conhecida por seu rosto engraçado e voz infantilizada. A inspiração era Little Esther, uma cantora negra que começou a se apresentar ainda criança (daí a voz infantilizada) e era conhecida por cantar sons como "boop-oop-a doop" enquanto revirava os olhos. Além do timbre de voz e dos sons sem sentido, os produtores usaram também os trejeitos da cantora. 
Logo Betty começou a fazer mais sucesso que o protagonista Bimbo e surgiu a ideia de fazer desenhos tendo ela como protagonista, mas transformada em humana. As orelhas foram trocadas por argolas douradas, os olhos ficaram grandes e ganharam pestanas e ela passou a usar um vestido curto mostrando a liga. Na nova versão ela era dançarina de cabaré. Era uma mulher sensual, independente, que tinha um namorado novo a cada episódio e vários pretendes. O sucesso foi imediato. Foram mais de 100 animações com a coquete.
Isso, claro, chamou a atenção da censura. Para evitar que seus desenhos fossem proibidos, os criadores a vestiram da cabeça aos pés, mas não adiantou muito: em 1939 o Comitê Moralizador vetou novos desenhos com a personagem.
A partir daí ela continuou fazendo aparições ocasionais em outros desenhos, uma delas foi em Uma cilada para Roger Rabitt, de 1988.  
É possível ver alguns de seus desenhos no Youtube.

quinta-feira, maio 21, 2026

Do inferno, de Alan Moore

 


Jack, o estripador é uma das figuras mais famosas da cultura pop. O psicopata que matou uma série de prostitutas no bairro pobre de Whitechapel no final do século XIX foi retratado em dezenas de livros, filmes e até quadrinhos. Assim, espantou a muitos quando Alan Moore, anunciou que faria sua própria versão da história. Àquela altura não parecia possível acrescentar mais nada à lenda do assassino.

Entretanto, Do Inferno, publicada em capítulos entre 1989 e 1996, com desenhos de Eddie Campbell, trouxe um olhar totalmente novo, revolucionário para a história.

O primeiro ponto relevante foi o detalhismo. Moore fez uma extensa pesquisa, e incluiu até mesmo referências bibliográficas ao final do capítulo. Todas as sequências são devidamente referenciadas e, quando ficção, isso é destacado no anexo.

O detalhismo da pesquisa se revela, por exemplo, na forma como é retratado o modo de vida das prostitutas. Lendo a história e o apêndice descobrimos, por exemplo, que a gíria inglesa para a genitália feminina, na Inglaterra vitoriana, era “Hairy-Ford-Shire”, um torcadilho com “Hartfordshire” e que o preço de uma rápida relação sexual era de três pêni. Geralmente o ato consumava-se de encontro a uma parede ou cerca, com ambos os envolvidos em pé, razão pela qual era chamado de “thrupenny uprght” (vertical três pêni). Como método anti-concepcional, a mulher retinha o membro do homem entre as coxas, evitando a penetração (claro que sem o conhecimento do cliente).

                Com um pagamento desses, dificilmente as moças conseguiam dinheiro o suficiente para uma cama e acabavam dormindo em bancos de madeira. Para evitar que caíssem, o dono do banco as amarrava e, no dia seguinte, desamarrava quando queria que elas fossem embora, provocando um verdadeiro desmoronar de mulheres.

Moore transformou a história numa investigação social, política, filosófica e mágica.

                Em Do Inferno, o capítulo que mostra a morte da primeira mulher em Whitchapel é também o que mostra a concepção de Hitler. De fato, pela data de seu nascimento, acredita-se que o futuro Füller teria sido concebido em agosto de 1888, mesmo mês do primeiro assassinato.

                A coincidência não é apenas curiosidade. Alan Moore usa o fato para embasar a idéia principal de sua obra: Jack, o estripador inaugurou o século XX.

Na história, ele Jack é o médico da família real, chamado pela Rainha para resolver um possível escândalo: o princípe engravidou uma moça e se casou com ela. O caso foi abafado, com a moça sendo internada em um asilo e submetida a uma lobotomia. Mas agora suas amigas prostitutas estão fazendo chantagem, ameaçando revelar o caso para a imprensa.

Ao invés de simplesmente matar as garotas, o médico resolve transformar os assassinatos num ritual de magia, criando um século tão frio e sanguinolento quanto ele. De fato, o século XX foi caracterizado por ditadores sanguinolentos, que fizeram do assassinato em massa uma arte.

Aliás, o capítulo em que Jack, na companhia de sua cocheiro, faz um passeio por Londres, dissertando sobre toda a magia envolvida na arquitetura da cidade, é um dos melhores da série – senão o melhor. Para escrevê-lo, Moore pesquisou tanto sobre magia que depois fez uma série exclusivamente sobre o assunto: Promethea.

Homem-aranha – A ameaça de Mystério

 


Quando criança cantávamos uma corruptela da música do desenho animado do aracnídeo: “Homem-aranha, homem-aranha, nunca bate, só apanha”. A música representava bem uma característica bem marcante das primeiras histórias do personagem: antes de finalmente vencer, ele apanhava muito.

Exemplo disso é o número 13 da revista Amazing Spiderman na qual o personagem enfrenta pela primeria vez o vilão Mystério.

Um onda de crimes assola Nova York. Seria obra do Homem-aranha? 


A revista já chama atenção pela capa inusitada, com o herói lançando sua teia sobre Mystério, e a teia a derrete no ar. A chamada da capa diz: “Nós conseguimos ! criamos o maior vilão de todos para o velho aranha!”. Abaixo, dois quadros menores, com legendas no formato de seta. Em um deles, o Aranha joga suas teias sobre um homem ao lado de um confre: “O que é isso??! O Homem-aranha se volta para o crime?! Você vai ficar chocado!”. Na outra, um homem bem vestido aponta um divã para o herói: “Já viu algum super-herói de revistas em quadrinhos levar seus problemas até um psiquiatra? Pois você vai ver!”.

De fato, ambas as coisas acontecem na história. Nova York é assolada por uma onda de crimes efetuados aparentemente pelo Homem-aranha. Acreditando que cometeu os crimes enquanto estava dormindo, como uma espécie de sonambulismo, Peter Parker decide ir num psiquiatra!

Atormentado pela dúvida, o herói resolve consultar um psiquiatra. 


Na história, Mystério desafia o aranha a enfrentá-lo no alto da ponte do Brooklyn. E no desafio, o herói apanha de todas as maneiras possíveis, incapaz de revidar no meio da névoa criada por Mystério e o aparelho que bloqueia os efeitos do sentido de aranha.

Dois pontos merecem atenção: o fato de Stan Lee colocar o conflito na ponte do Brooklyn, um local que todos os nova iorquinhos conhecem, aumentava a identificação dos leitores com as histórias.

O herói apanha muito. E depois apanha mais. 


A outra questão é: como Mystério sabia que o herói contava com um sentido de aranha? Afinal, essa não era uma parte visível dos poderes do mesmo. Naquela época corrida, em que várias revistas eram tocadas por uma equipe mínima, ninguém deve ter se preocupado com esse detalhe. E isso ficou apenas como mais um mistério.

Como a geração sexo drogas e rock´n´roll salvou Hollywood

 


No final da década de 1960, Hollywood vivia o seu pior momento. Poucos filmes faziam sucesso, muitos estúdios estavam em vias de fechar e o sistema que perdurou durante décadas se revelava um beco sem saída. A venda de ingressos, que em 1946 era de 78,2 milhões de dólares por semana caíra para 15,8 milhões e estava ladeira abaixo.

Esse sistema permitia, por exemplo, a existência de um diretor quase cego, como Norman Taroug,  de Canções e Confusões, com Elvis Presley. Os diretores eram funcionários de luxo que estava no set apenas para garantir que os atores ficassem nos lugares certos quando a câmera começasse a filmar. A maioria dos diretores não podia nem entrar na sala de projeção para ver o corte final.

Era também uma situação que dificultava a inovação.  Só dirigia um filme quem já tivesse dirigido um filme. A média de idade nas equipes técnicas era de 60 anos.

Foi justamente nesse período que um grupo de diretores jovens, a maioria amigos, revolucionou a indústria de cinema, com equipamentos novos, mais leves, e a vontade de fazer as coisas de maneira totalmente diferente. É a história desses revolucionários que Peter Biskind conta no livro Como a geração sexo, drogas e rock´n´roll salvou Hollywood. Biskind é editor executivo da revista Premiere e editor-chefe da American Film, sendo um famoso crítico de cinema.

O autor conta a história dos filmes, diretores, roteiristas, produtores e atores que formaram a chamada Nova Hollywood usando uma narrativa deliciosa, que vai pulando de um personagem para outro, conforme eles se encontram. Embora vivessem uma guerra de egos, a maioria desses astros eram amigos, ou tão amigos quanto Hollywood permite. Spielberg, Scorcese e Copolla freqüentavam as festas na casa de Brian De Palma. George Lucas servia comida nas recepções na casa de Copolla e tinha com ele uma relação pai-filho, inclusive nos seus conflitos...


David Newman, analisando o sucesso de Bonnie e Clyde, filme roteirizado por ele, diz que os personagens foram mortos não porque roubavam bancos (“Ninguém gostava da porra dos bancos”), mas por serem revolucionários estéticos. E provavelmente por colocarem na tela o conflito de gerações que caracterizou toda a década de 1970 e todo o cinema do período.
A mudança estética proposta por Bonnie e Clyde não ficou apenas nas películas, mas em todos os aspectos. Na nova Hollywood, executivos, diretores e produtores trocavam ternos e gravatas por calças boca de sino, colares, cabelos compridos, barba e sandálias. Também mergulhavam nas drogas – qualquer droga que estivesse na moda, até gás do riso.
  
Bert Schneider e Bob Rafaelson são exemplos disso. Donos da BBS, a mais importante produtora do período, eles pareciam ter caído de outro planeta, mesmo estando ligados à Colúmbia, o mais conservador dos estúdios. Na BBS, as secretárias passavam a maior parte do tempo enrolando baseados para os visitantes.

Poucos filmes sintetizaram, tanto no resultado final quanto na produção, o melhor e o pior da década quanto Sem Destino, de Dennis Hopper.

Hopper era um bad boy, odiado pelos estúdios. Costumava ir nas festas e, quando via um produto, o ameaçava perguntando porque não estava dirigindo nenhum filme. Era violento (batia na mulher) e vivia à base de drogas e álcool. Mesmo assim, o ator Peter Fonda o chamou quando teve a ideia de fazer um filme sobre motoqueiros que atravessam o país depois de conseguirem muito dinheiro vendendo cocaína.

Como ninguém queria patrocinador, eles procuraram a BBS, que na época se chamava Raybert. “Esse cara é louco pra caralho, mas eu acredito totalmente nele, e acho que faria um filme brilhante para nós”, disse Peter.

 Os produtores deram 40 mil dólares de teste para que a dupla filmasse o carnaval de Nova Orleans. A reunião da equipe reuniu um monte de gente cabeluda, todos sentados no chão. Eles não tinham iluminador. Uma garota que não tinha nenhuma experiência na área se ofereceu. “Você quer fazer isso mesmo? Tô curtindo! Você vai iluminar o filme!”, responde Hopper, sem se preocupar com o fato de que o iluminador é um dos técnicos mais importantes da equipe.

Eles não tinham roteiro e ninguém sabia exatamente o que filmar, só sabiam que se tratava de uma viagem de ácido. O diretor mantinha consigo sempre duas armas de fogo e gostava de gritar com a equipe, lembrando que o filme era dele. Numa cena no cemitério, Dennis insistiu para que Peter Fonda subisse no colo de Nossa Senhora e falasse sobre o seu relacionamento com a mãe, que havia se suicidado há pouco tempo. Fonda aceitou, mas nunca mais perdoou o diretor e a partir daí virou praticamente um inimigo público do mesmo.

Além de diretor, Dennis fazia Billy e Peter fazia o Capitão América. O terceiro papel, de um advogado que se junta à dupla, deveria ser interpretado por Rip Torn, mas depois de uma briga com o diretor em que os dois quase se mataram, acabou sendo substituído por Jack Nicholson, no seu primeiro papel importante.

Em meio a brigas pela autoria do roteiro e muita droga, as filmagens acabaram sendo feitas, mas o filme não ficava pronto. Dennis Hoppe era um péssimo montador e não conseguia diminuir para menos de 4 horas. Tiveram que pagar-lhe uma passagem de férias para  Laos. Quando voltou, ficou furioso ao descobrir que tinham diminuído seu filme para uma duração normal (“Você arruinou meu filme! Você transformou meu filme num programa de TV”),  mas não matou ninguém, de modo que Sem Destino estava finalmente pronto para as salas de cinema.

Mesmo assim, a Colúmbia não queria lançá-lo. Só depois do sucesso no festival de Cannes o estúdio resolveu colocá-lo no circuito. Foi um sucesso estrondoso. O filme custou apenas 501 mil dólares e faturou 19 milhões.

Os donos de estúdios ficaram estarrecidos com a possibilidade de fazer filmes baratos que iriam faturar alto. Qualquer um que aparecesse com uma ideia diferente ganhava a possibilidade de realizar o seu projeto. Se alguém aparecesse querendo fazer um filme sem imagens, eles provavelmente aceitariam.


Foi esse esquema que permitiu o surgimento de nomes como Francis Ford Copolla, William Friedlin, George Lucas, Bob Rafelson, Martin Scorcese, Hal Ashby, Robert Altman, Brian De Palma e Peter Bogdanovich e criou um sonho que duraria quase uma década antes de ser soterrado pela cocaína e pelos orçamentos descontrolados, já que os diretores, longe da ditadura dos produtores, gastavam até não poder mais e chegavam a se dar o luxo de passar o dia se drogando enquanto toda a equipe esperava para filmar ou mandar vir comida da Itália num jatinho enquanto filmavam na selva.

É essa história que Peter Biskind conta com maestria em Como a geração sexo drogas e rock´n´roll salvou Hollywood, provavelmente um dos melhores livros sobre o cinema norte-americano e seus bastidores.

Vikings Valhalla

 

 Vikings é uma das séries de maior sucesso dos últimos anos. Foi tão popular que mesmo depois da morte do protagonista, Ragnar Lothbrok, continuou, foca nos filhos do líder viking.

 Dessa forma, criar uma série derivada era uma responsabilidade imensa. Criada por Jeb Stuart, Vikings Valhalla se passa 100 anos após o início das invasões vikings, retratadas na primeira série. O estopim da história é o massacre do dia de São Brice, quando o rei da Inglaterra ordena a morte de todos os vikings residentes na ilha. A trama, assim, começa com os nórdicos se preparando para uma expedição de vingança.

 A série é focada em Leif Erikson, um navegador groelandês que de fato existiu e teria sido o primeiro viking a chegar à América do Norte.

 Em Vikings Valhalla, Leif chega em Kattegat quando estão sendo feitos os preparativos para a expedição punitiva. Mas seu objetivo é outro: ele pretende vingar sua irmã Freydis Eriksdotter, que havia sido violentada e marcada com uma cruz por um dos assessores do rei Olaf. Quando Freydis mata o homem que a violentou, Leif é obrigado a integrar a expedição como forma de manter a vida da irmã. No processo ele acaba se tornando amigo do príncipe Harald Sigurdsson.

 A decisão de focar em acontecimentos futuros é mais do que acertada, mas arriscada: os personagens da nova série precisariam ser tão carismáticos quanto os da série original. E são. Leif Erikson, interpretado por Sam Corlett, faz o papel que a série original era de Ragnar Lothbrok: a do jovem que sai da obscuridade para a história.

 O elenco é afinado e desponta com vários ótimos atores, com destaque para Laura Berlin no papel de Emma da Normandia, a Rainha da Inglaterra. Desde sua primeira aparição na tela, ela rouba cena com sua atuação contida, mas, ao mesmo tempo, expressiva. Laura Berlin faz parte daquele seleto grupo de atores que conseguem passar toda a motivação e intenção do personagem com apenas um olhar. E é uma atuação favorecida por uma personagem inteligente e astuta, capaz de fazer tanto planos de guerra quanto intrigas palacianas.

 Aliás, esse é um diferencial de Vikings Valhalla: como nesse período os nórdicos já haviam configurado uma sociedade mais hierarquizada, ocupando postos de poder, há muito espaço para intrigas palacianas. Nesse sentido, o astuto Godwin, interpretado por David Oakes, é um ótimo acréscimo. O personagem é do tipo traiçoeiro, que a qualquer momento pode estar tramando a morte da pessoal da qual é aliado.

 Acrescente a isso ótimas cenas de batalha e de luta e temos um seriado que consegue fazer jus à série original e chega a ser melhor até mesmo do que as últimas temporadas de Vikings.

Mãe d´água

 

A mitologia brasileira é uma mistura de tradições índias, negras e europeias. Nenhuma figura mitológica encarna isso tão bem quanto a Iara, a mãe d´água.
Segundo Câmara Cascudo, os índios tinham em suas lendas um ser aquático, o Ipupiara, uma espécie de homem peixe, feroz, bestial, que saía da água para capturar suas presas e matá-las. Na religião indígena também havia a percepção de que tudo na natureza tem uma mãe. Portanto, existia a mãe do rio, sempre presente nos olhos d´água. Também era comum chamar a cobra grande de mãe d´água.
Os africanos tinham vários seres aquáticos: Iemanjá, Anambucuru, Oxum. E tinham um ser parecido com o Ipupiara, os nebéli, um espírito do rio, que, enfurecido, provocava tempestades, virando as pirogas e afogando quem estivesse dentro.
Já os europeus tinham as sereias, que seduziam os navegantes e muitas vezes se casavam com eles, dando-lhes riquezas e filhos e exigindo em troca respeito aos habitantes da água (nas lendas, o marido sempre descumpre essa promessa e acaba sem a esposa e as riquezas).
A mistura de todas essas tradições nos deu a Iara, a mãe d´água, um ser que, ao contrário dos Ipupiara e dos nebéli, é formoso. Trata-se de uma linda mulher, que seduz os os viajantes que passam por olhos d´água.
Olavo Bilac tornou célebre a lenda em um dos seus poemas:

Vive dentro de mim, como num rio,
Uma linda mulher, esquiva e rara,
Num borbulhar de argênteos flocos, Iara
De cabeleira de ouro e corpo frio.

Entre as ninfeias a namoro e espio:
E ela, do espelho móbil da onda clara,
Com os verdes olhos úmidos me encara,
E oferece-me o seio alvo e macio.

Precipito-me, no ímpeto de esposo,
Na desesperação da glória suma,
Para a estreitar, louco de orgulho e gozo...

Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:
E a mãe-d'água, exalando um ai piedoso,
Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

A mãe d´água aparece no meu romance Cabanagem ilustrada pelo grande quadrinista paraense Otoniel Oliveira. A imagem mostra a personagem encontrando com o protagonista, Chico Patuá e se destaca pela representação aquática da personagem, com seu cabelo e sua roupa se confundindo com a água do rio.

Blueberry – O general Cabeça Amarela

 


Blueberry sempre foi uma série que desafiava os cânones do faroeste.

Seu protagonista, visualmente feio, aproximava-se muito mais da figura do anti-herói. No entanto, foi a partir do décimo álbum, General Cabeça-Amarela, que a série se tornou realmente revolucionária. Produzido em 1968, no mesmo período das revoltas estudantis, este álbum trazia consigo os ecos dos acontecimentos da época.

O general quer uma grande vitória sobre os índios, mesmo que para isso precise massacrar mulheres e crianças. 


Para começar, o vilão da história é o General McAlister, claramente baseado no General Custer, que entrou para a história por conseguir uma "grande vitória contra os índios" ao massacrar mulheres, crianças e idosos. O personagem, inclusive, é visualmente inspirado no Custer verdadeiro. Assim nasceu o General Cabeça-Amarela, que deu título ao álbum.

Na história anterior, Blueberry havia conseguido negociar a paz no oeste, fazendo com que os indígenas parassem seus ataques contra a ferrovia. Mas a chegada de McAlister coloca todo o esforço a perder. O general quer, a todo custo, uma vitória gloriosa para seu currículo. Ao encontrar um grupo formado por mulheres, idosos e crianças, passa a persegui-los. Essa é uma trama perfeita para um período em que os cânones estavam sendo questionados, inclusive a ideia de que os indígenas eram os vilões.

Blueberry salva o general, mas nem isso o livra da fúria dos superior. 


Charlier aproveita essa deixa social, mas não a transforma em um panfleto, como faria um roteirista menos competente. O resultado é uma história frenética de ação em que o leitor não consegue respirar em paz por um minuto, tal como os personagens.

O protagonista oscila constantemente entre dois imperativos éticos: de um lado, ele quer ajudar os indígenas e impedir o massacre; por outro, como militar, ele precisa obedecer a ordens. Um exemplo é quando ele e um grupo são colocados na retaguarda para retardar um grupo de guerreiros que pretendem auxiliar os atacados. Vale destacar que a trama aqui também é mais crua: muita gente morre, de ambos os lados.

Blueberry é colocado para proteger a retaguarda do batalhão. 


Blueberry vive outros momentos de dilema ético quando precisa enganar um grupo de guerreiros, fazendo-os ir na direção errada para impedir que seu regimento seja massacrado... ou quando ele salva o general de morrer afogado nas águas geladas.

No entanto, todos os seus atos de coragem só lhe valem acusações de traição e covardia. Uma situação perfeita para conquistar a simpatia de uma geração que via com maus olhos a autoridade e o militarismo.

Para evitar que os militares sejam atacados, o protagonista faz os indígenas desviarem do caminho. 


Além da própria qualidade do roteiro de Charlier e dos desenhos de Giraud, essa característica de disruptura explica por que Blueberry continuou sendo um sucesso enquanto muitas outras séries de faroeste caíram no esquecimento.

quarta-feira, maio 20, 2026

Super-homem vs Apocalypse; a revanche

 

Na década de 1990 até o Super-homem, o mais antigo super-herói, precisava ser descolado. E o que significava ser descolado? Simples: roupas estranhas, anatomia duvidosa, cabelos compridos estilo mullet e roteiros sem muito sentido.
Ótimo exemplo desse Homem de aço descolado é a minissérie “Super-homem vs Apocalipse - a revanche” publicada pela editora Abril no ano de 1995.
A história, escrita e desenhada por Dan Jurgens, contava como o herói conseguiu finalmente derrotar o vilão responsável pela sua morte. Sim, amigos, ele tinha morrido, assim como o vilão, mas naquela época ninguém permanecia morto por muito tempo nos quadrinhos.
Apocalipse derrota Darkside. 


Com os dois – herói e vilão – de volta à vida, Superman passa a caçar seu oponente. Nisso, Apocalypse chega a Apokolips, o mundo governado por Darkside e quase mata o principal vilão da DC.
Á certa altura um personagem estrategimente escolhido para servir de muleta narrativa mostra para o Superman a origem de Apocalypse: ele foi criado artificialmente para ser invencível. 
Como criar um ser invencível... 


Quer criar alguém invencível? A receita é simples: crie um bebê e jogue-o no meio de monstros. Depois recolha o que sobrar e crie outro bebê que será jogado no meio de monstros, e assim infinitamente, até que o bebê “evolua” para matar os monstros. 
Darwin deve estar tendo um ataque cardíaco lá no céu dos cientistas. 
Se essa origem já não fosse maluca o bastante, Dan Jurgens ainda dá um jeito de ligá-la ao superman: o planeta repleto de monstros no qual a criança apocalipse foi criada era nada mais nada menos que.... advinhem... Kripton!!!! 
... matando bebês. 


Parabéns, Dan Jurgens, exceto pelo fato de que isso simplesmente vai contra toda as outras representações de Kripton já publicadas.
E o meio do caminho, para vencer o monstro, o homem de aço é equipado com uma roupa que parece ter saído diretamente de algum designer da Image Comics, com direito a ponchetes na perna e capa armada para cima, além de um cinto cruzando o peito. Detalhe: nada disso serve para absolutamente nada durante a história.
Por que diabos o Super-homem precisaria de ponchetes na perna? 


Além disso, o desenho de Jurgens imita John Byrne sem nunca acançá-lo e sofre do mal dos músculos que não existem (minha filha, que está estudando anatomia na faculdade, ficou indignada ao ver a revista).
No final, essa minissérie acabou se tornando célebre por uma razão que tinha pouco a ver com seu conteúdo: foi uma das tentativas da Abril de lançar capas diferenciadas. A capa do número 1 era platinada e chamava atenção nas bancas. Tanto que dos três volumes dessa série, apenas o primeiro, com essa capa diferenciada, é raro de encontrar em sebos a preços. Os outros dois você acha fácil com preços que vão de 2 a 3 reais.