sábado, novembro 07, 2026

Perry Rhodan – O mundo dos três planetas

 

No volume 38 da série Perry Rhodan, Crest e Thora tentam voltar para Árcon acompanhados dos terranos. Mas quando chegam lá, descobrem que não são bem-vindos e que o império agora é comandado por um robô. Na verdade, eles nem mesmo conseguem chegar à sede do império, ficando presos em um planeta periférico.

No número 39, “O mundo dos três planetas”, Rhodan resolve ir com os arcônidas para Árcon em uma gasela (uma nave menor).

O título é uma referência à característica única de Árcon, um mundo composto por três planetas que compartilham a mesma órbita ao redor do sol – uma demonstração do avanço da tecnologia arcônida. O primeiro mundo é reservado exclusivamente para áreas residenciais. O segundo, para o comércio, indústria e abastecimento alimentar. O terceiro é o planeta da guerra, onde fica a gigantesca frota arcônida.

A passagem do grupo pelo planeta residencial, no qual eles encontram o Imperador (e descobrem que ele não tem poder algum) é um dos momentos mais interessantes do livro ao mostrar a cultura e a arquitetura arcônida. Uma das características desse povo é fugir ao máximo de qualquer coisa que possa lembrar a uniformização. “Nenhum parque se parece com o outro e ninguém criará o mesmo animal doméstico que o vizinho”, explica Thora.

Também é explicado como funcionam as naves esféricas arcônidas, com os jatos montados no anel equatorial.

A capa alemã destacava a gigantesca nave Titã. 


O volume é escrito por K.H. Scheer, um dos melhores autores da franquia, que já demostra sua grande capacidade descritiva logo na primeira página: “Caíram dos céus como um bando de mosquitos gordos e repugnantes. Seus ferrões eram pesados canhões energéticos. As vísceras abrigadas atrás de blindagens resistentes pulsavam num ritmo tão preciso que jamais seria atingido por qualquer combinação orgânica de células vivas”.

O plano de Rhodan e os arcônidas Crest e Thora é temerário: roubar um supercouraçado arcônida, uma nave monstruosa de 1.500 metros. Para isso, eles se fazem passar por voluntários vindos de um dos mundos periféricos do império sob liderança de dois arcônidas da classe superior.  Mas como fazer isso em meio à vigilância do computador regente?

O resultado é uma trama extremamente tensa, repleta de ação militar, no melhor estilo K.H. Scheer.

Uma curiosidade é que o volume traz a atencipação da tecnologia Wi-fi. No caso não para sinal de internet, mas para energia usada pelo  computador que controla as naves arcônidas.

A porta no muro, de HG Wells

 


A fantasia é um gênero que pode gerar desde história do mais puro escapismo até profundas reflexões filosóficas. Nesse último caso se encaixa a noveleta A porta no muro, escrito em 1906 por HG Wells.

Na trama o narrador ouve a história da boca Lionel Wallace, um importante político britânico.

Quando era apenas uma criança, ele se deparara com uma porta verde num muro, entrou e se deparou com um mundo mágico, um jardim que o assombrou pelo resto da vida: "No momento em que entrou, o sentimento foi de uma felicidade intensa… como só acontece em raros momentos e quando se é jovem e cheio de vida e se pode ficar feliz neste mundo. E tudo era lindo lá…".

Nesse mundo de cores espetaculares, de onças inofensivas, o garoto se sente como se estivesse finalmente em casa: “Havia uma sensação clara de volta para o lar na minha mente, e, quando uma garota alta e loura apareceu no caminho e veio falar comigo, sorrindo, e disse ‘E então?’, me pegou no colo, me beijou, me pôs no chão e me pegou pela mão, não houve surpresa, mas só uma impressão de certeza prazerosa, de ser lembrado de coisas felizes que tinham sido, estranhamente, deixadas de lado".

Até aí o texto não traz nada diferente do que estamos acostumados em outros textos de fantasia. O mais interessante é o que vem depois. Wallace passa o resto da vida procurando a porta verde, mas sempre que a encontra há um compromisso, um encontro com um ministro, uma garota, uma lei a ser aprovada.... E ele nunca entra.

Wells traz uma reflexão sobre o perdemos ao sair da infância e sobre como os compromisso da vida adulta podem nos desviar do que é realmente importante.

O texto foi lançado em 2020 como ebook pela editora wish e está disponível na Amazon.

Homem-Aranha – Um cara chamado Joe!

 


A última história desenhada por Steve Ditko foi publicada em The Amazing Spider-man 38 e é uma perfeita demonstração de como o embate do desenhista com o roteirista Stan Lee estava chegando a um ponto crítico.

A história é focada em Joe, um pugilista fracassado a ponto de escorregar e cair fora do ringue durante as lutas. Ele é contratado como ator de um filme de ficção-científica e, enquanto atua destruindo um cenário, um refletor desaba sobre produtos químicos, concedendo ao desconhecido Joe uma força sobre-humana. Mais do que isso, o composto faz com que ele mude de personalidade: “Sempre disseram que eu não sou lutador porque não tenho instinto assassino... Não tenho sangue de lutador! Mas ninguém mais vai repetir isso!”.

O vilão é um pugilista fracassado que ganha poderes. 


Ao sair para a rua, Joe dá de cara com o aranha, que tenta detê-lo e leva uma surra.

Pouco depois vemos a primeira o primeiro ponto de discordância entre Stan Lee e Steve Ditko. Lee queria que o Duende Verde, o mais famoso vilão da franquia fosse Norman Osborn, pai de um dos amigos de Peter Parker. Ditko achava que isso tiraria a verossimilhança da história e defendia que o vilão tinha que ser um desconhecido. Essa foi a gota d´água para que ele saísse da série, sendo essa sua última história.

O pomo da discórdia: Ditko não queria que Osborn fosse o Duende Verde. 


Pois bem, na página 9 Norman Osborn aparece pagando para bandidos se livrem do aracnídeo. A sequência é estranha, como se Ditko pensasse numa coisa e Lee em outra, de modo que desenho e diálogos parecem não se encaixar (na história posterior, já desenhada por John  Romita, Osborn na verdade usa os campangas para lançarem uma substância que tira do herói o seu sentido de aranha).

Mas é na página seguinte que vemos mais claramente a diferença de abordagem. Peter Parker chega ao colégio e dá de cara com uma manifestação. “Outro protesto? O que é dessa vez?”, pergunta. “Estão protestando contra o protesto desta noite”, responde alguém.

Os manifestantes tentam fazer com que Parker pegue uma placa, mas ele se recusa. “Não quer salvar o mundo? E não quer matar aula também?”, pergunta alguém. A sequência inteira era Steve Ditko criticando a juventude norte-americana da década de 1960 – exatamente os jovens que tinham transformado o gibi do aracnídeo num enorme sucesso!

Ditko incluía crítica aos jovens da década de 60 nas histórias. 


Imaginem o desespero de Stan Lee ao colocar texto em sequências com essa, que certamente poderiam impactar nas vendas da revista.

A história tem uma sequência interessante: enquanto enfrenta o adversário, o aranha pergunta diversas vezes o nome dele. Isso poderia ser a deixa para toda uma série de situações de ironias do destino, com o personagem ficando famoso, mas ninguém sabendo seu nome. Mas à essa altura a dupla Ditko – Lee estava tão disfuncional que provavelmente ninguém pensou em aproveitar essa oportunidade narrativa.  

A arte fantástica de Michael C. Hayes

 


Michael C. Hayes é um famoso artista de fantasia conhecido principalmente por suas ilustrações para o jogo de cartas  Magic: The Gathering e para as imagens para o jogo Legends of Norrath. Ele formou em pintura a óleo no prestigiado Watts Atelier of the Arts. Seu trabalho também pode ser visto em inúmeras capas de livros de fantasia.  










Batman: Ano Um – Declaração de Guerra


A imagem de Gotham City como uma metrópole extremamente violenta, opressiva e corrompida — concepção hoje amplamente dominante na cultura pop — foi estabelecida na icônica série Batman: Ano Um, de Frank Miller e David Mazzucchelli, consolidando-se de forma magistral a partir do seu segundo capítulo.

A narrativa já se inicia com uma sequência altamente sintomática: um indivíduo em surto psicológico sequestra duas crianças e ninguém consegue decifrar suas exigências. A equipe da SWAT prepara-se para entrar em ação, uma intervenção que fatalmente provocaria um banho de sangue, de modo que a situação acaba sendo controlada unicamente pelo tenente James Gordon, que avança sozinho e desarmado na direção do sequestrador.

O desenho de Mazzucchelli destaca a sujeira da cidade. 


Frank Miller revela-se um gênio dos roteiros na sequência que traduz o suspense psicológico por meio do texto, sintetizando os pensamentos sufocantes de Gordon: “As escadas rangem demais. O espirro que contive até agora ameaça pôr tudo a perder. Meu nariz escorre. Não tenho coragem de assoar. A menina está chorando”. O impacto dessa série na indústria foi tão avassalador que, a partir de sua publicação, os tradicionais balões de pensamento caíram em desuso na maioria dos quadrinhos de super-heróis, sendo gradativamente substituídos por esses textos-legenda em formato de diário íntimo.

Os balões pensamento são substituídos por legenda em primeira pessoa. 


Contudo, apesar das virtudes literárias do texto, o que realmente magnetiza os olhos do leitor nesta edição é a arte de David Mazzucchelli. Seu estilo minimalista, caracterizado por economia de traços e sombras chapadas, acentua a imundície da cidade — uma prejuízo urbano tão entranhado que nem mesmo a chuva constante é capaz de lavar; ao contrário, parece apenas espalhá-la. Sob o seu pincel, o ambiente projeta-se permanentemente sombrio, decadente e ameaçador.

Gordon salva as meninas e vira herói local. 

Em paralelo, acompanhamos as primeiras incursões do Batman, já paramentado com seu uniforme definitivo, aterrorizando o submundo do crime. Um desses ataques é narrado por meio de um recurso de montagem paralela que evidencia mais uma vez a genialidade dos autores. Enquanto Gordon comanda uma reunião com a corregedoria, a testemunha ouvida é o detetive Flass, o principal contato da máfia infiltrado na polícia. Há um nítido e irônico contraste entre o depoimento falso que ele professa e a realidade crua mostrada nos quadros de recordação.

“Recebi uma informação anônima que me levou até uma entrega de coca. Eu estava efetuando a prisão dos marginais sozinho”, alega Flass em depoimento, enquanto a arte de Mazzucchelli o mostra, na verdade, extorquindo os traficantes e recebendo propina para garantir a segurança do carregamento.

Em constraste com a sujeira de Gothan, o jantar dos poderosos é marcado pelo luxo e limpeza. 

Quando o Batman subitamente ataca o bando de Flass, os quadrinhos são tomados por contrastes expressionistas de luz e sombra, evocando a atmosfera dos melhores filmes noir.

Contudo, a cena mais emblemática deste número reside na opulenta reunião das autoridades municipais corruptas com o chefão do crime organizado, Carmine Falcone. Em contraposição à crueza mostrada até então, esse cenário em particular apresenta-se limpo, fartamente iluminado e luxuoso, estabelecendo um profundo contraste moral e visual com o restante de Gotham. No momento em que o Batman invade o recinto, explodindo a alvenaria e lançando uma bomba de fumaça, a estética do salão se corrompe, tornando-se novamente sombria e claustrofóbica.

Gordon declara guerra aos poderosos: uma das imagens mais icônicas do personagem. 


“Senhoras e senhores. Vocês comeram bem. Comeram a riqueza de Gotham... seu espírito! O banquete acabou! De hoje em diante... nenhum de vocês estará a salvo!”

A imagem do Batman em contraluz, com sua capa desfraldada simulando asas monstruosas e apenas as fendas brancas dos seus olhos destacando-se em meio ao breu, figura com justiça como uma das composições visuais mais poderosas de toda a mitologia do Cavaleiro das Trevas na história da nona arte.

Batman é pego ao salvar uma mendiga. 


Evidentemente, essa audaciosa declaração de guerra transforma o herói na prioridade número um da cúpula política e policial de Gotham. Eles chegam a criar armadilhas nas ruas, utilizando policiais femininas disfarçadas que fingem fugir de estupradores para tentar emboscá-lo. Todavia, o Batman só se expõe ao perigo real quando seu instinto fala mais alto ao salvar uma mendiga de um caminhão desgovernado. Esse ato faz com que ele fique na mira de uma dessas detetives, sendo baleado por ela, o que o força a bater em retirada e se esconder ferido em um prédio abandonado.

O capítulo seguinte, de ritmo eletrizante, seria integralmente focado nos esforços desesperados do herói para subsistir em meio aos escombros desse prédio, lutando isolado contra bombardeios aéreos, desabamentos e o cerco implacável da equipe da SWAT.

Campo do medo

 


 

Campo do medo é uma produção da Netflix lançada em 2019 para aproveitar o dia das bruxas. Dirigido por Vincenzo Natali, é baseado em uma história de Stephen King e seu filho, Joe Hill.

Na história, dois irmãos estão na estrada rumo a San Diego. Becky está grávida e pretende doar o filho para um casal nessa cidade e é acompanhada por seu irmão, Cal.

 No meio do caminho ela necessita parar para vomitar e ouve uma criança implorando por socorro num matagal. Quando entram, descobrem que é impossível sair dali. O matagal é uma espécie de labirinto em que as distâncias mudam de uma hora para outra. Numa das melhores sequências, os irmãos, que se perderam um do outro, resolvem pular para se encontrarem. No primeiro pulo, estão a poucos metros um do outro. No segundo pulo, estão a dezenas de metros. Para piorar, algo parece estar seguindo os dois.

É um plot interessante, que permitiria o desenvolvimento de situações de horror e suspense. A partir de certo ponto, no entanto, há loopings temporais que, embora criem situações interessantes, deixam a história confusa. Além disso, o filme explica demais algumas coisas e deixa de explicar outras. 

Eu não li a obra original de King e Hill, mas conhecendo-os, imagino que deveria haver um profundo desenvolvimento de personagens (King tem uma história maravilhosa sobre uma garotinha perdida numa floresta que segue moldes semelhantes). Aqui, a ênfase na ação deixou essa caracterização para um o outro diálogo.

Ainda assim, O campo do medo é um filme divertido, que vale a pena principalmente por conta da sua primeira parte.

sexta-feira, novembro 06, 2026

O fim da eternidade, de Isaac Asimov

 

Quando pensa em ficção científica, a grande maioria das pessoas costuma lembrar em grandes batalhas espaciais e tramas repletas de ação. Existem obras, no entanto, que se baseiam principalmente nas questões lógicas e científicas relacionadas ao desenvolvimento tecnológico. São obras que têm como principal objetivo desafiar o leitor, estimular sua imaginação e raciocínio. O fim da eternidade, de Isaac Asimov (lançado no Brasil pela editora Aleph), é um ótimo exemplo disso.
Publicado originalmente em 1955, O fim da eternidade trata de viagens no tempo. Mas o enfoque é totalmente original. Imagine se o ser humano, ao descobrir as viagens temporais, não se contentasse em vagar para o passado ou futuro, mas se dedicasse a mudar a história. Pequenas modificações poderiam criar novas realidades, menos danosas ao ser humano. Para isso, é fundada toda uma sociedade de viajantes do tempo, centrada nos observadores, técnicos e computadores (a expressão aqui não é no sentido de pessoas que coordenam todo o processo de mudança da realidade).
Ao contrário do que a maioria das pessoas poderia imaginar, as mudanças na realidade têm como base pequenas, sutis modificações.
Um exemplo:
“Ele havia alterado a realidade. Havia adulterado um mecanismo (a embreagem de um carro) por alguns minutos do século 223 e, como resultado, um jovem não conseguiu assistir a uma palestra sobre mecânica à qual deveria ter comparecido. Nunca estudou engenharia solar e, em consequência, um invento perfeitamente simples teve seu desenvolvimento adiado por dez anos cruciais. Uma guerra no 224, espantosamente, sumiu da realidade como resultado”.
Asimov, muito à frente de seu tempo, antecipa alguns conceitos fundamentais da teoria do caos, como o efeito borboleta, também chamada de dependência sensível das condições iniciais. Esse conceito costuma ser exemplificado com a frase: uma borboleta batendo suas asas na mulhara da China pode provocar uma tempestade em Nova York.
O interessante é que esse fenômeno só foi observado pela primeira vez pelo metereologista Edward Lorenz, em 1963, e só se tornaria popular com o coletivo de sistemas dinâmicos, na década de 1970. Ou seja: Asimov antecipa, na ficção, o que a ciência só viria a observar de fato, quase dez anos depois. Mais, ele lança a ideia, hoje comum nos meios científicos, de que a realidade é feita de diversas bifurcações, pequenas escolhas. Eu vou para o trabalho usando a rua da esquerda ou da direita? O resultado dessa escolha pode provocar grandes alterações na realidade. A cada bifurcação, é como se uma nova realidade estivesse sendo escolhida. Então, o real seria resultado de uma quantidade infinita de bifurcações e, portanto, de uma infinidade de realidades paralelas.
O fim da eternidade, é, portanto, um livro sobre lógica e sobre como o desenvolvimento tecnológico afeta a realidade. O conflito aqui não está na ação, no embate de punhos, mas no embate de ideias, teorias e conceitos. Asimov se aventura até mesmo na teoria da evolução, ao postular que as constantes mudanças na realidade, ao criarem as melhores condições para a humanidade, emperrariam a evolução do ser humano, uma vez que a evolução decorre do ajustamento às situações ambientais desfavoráveis.
Surpreendentemente, o autor consegue transformar essa trama puramente cerebral em um verdadeiro triller de suspense. Passadas as primeiras páginas, dedicadas quase que exclusivamente à descrição da eternidade e seus agentes, o leitor logo se vê em uma trama complexa cheia de reviravoltas.
O fim da eternidade é um daqueles livros que exercitam o cérebro.

Entenda por que os comentários estão sendo moderados

 


 - Gian, entrei no seu blog e tentei comentar numa matéria, mas não ele não foi publicado imediatamente 

- Infelizmente eu tive que acionar a moderação de comentários. 

- Mas por quê? 
- Olha o tipo de comentário que os bolsominions estavam postando. 



- Caramba, são dezenas de comentários iguais o cara já começa te chamando de stalinista! 

- Pois é, virei um "extremista de esquerda stalinista"! 
- Caramba! 
- É o culto à personalidade. Como eles consideram o Bolsonaro um semi-deus, qualquer um que não o idolatre é imediatamente chamado de comunsita, petista, stalinista, dentista, skatista, surfista, remista. E pode colocar na conta vários outros "comunistas": Jim Starlin vira marxismo cultural, Raul Seixas vira marxismo cultural, Alan Moore vira marxismo cultural. E, para eles, comunista precisa ser preso ou morto. Para eles a Globo é comunista, a Folha de São Paulo é comunista, o Estadão é comunista. Esse tipo de gente só se informa pelo zap zap e por canais bolsonaristas como o Terça-livre. Qualquer coisa fora disso é comunismo. 
- O cara está te chamando de lulo-petralha?!!!



- Pois é, eu que nunca votei no PT, que sempre critiquei o PT, que na época da faculdade vivia em pé de guerra com os petistas da turma, de repente virei petralha só porque me recuso a idolatrar o mito. 
- E você praticamente nem fala de política no seu blog. 
- Pois é. Mas a estratégia deles é Dart Vader: ou você idolatra o Capitão ou é comunista, stalinista, petista, skatista, surfista, dentista, remista. Teve um "amigo" bolsominions que ameaçou me dar um soco só porque eu disse que político é para ser cobrado não para ser idolatrado. Outro disse que o pior tipo de "comunistas" são os "isentões": isentão aí significa alguém que se recusa a idolatrar o mito deles, mas ao mesmo tempo não idolatra o Lula, que se recusa a tecer elogios à ditadura militar, mas também não elogia a Coréia do norte. Antigamente para ser comunista precisava ser fã do Karl Marx, precisava ler o Manifesto Comunista, precisava acreditar em ditadura do proletariado. Hoje em dia, para ser comunista, basta não idolatrar o mito.
- Ele te acusa de cometer um gesto lulo-petista. Que gesto lulo-petista é esse?
- Me recusar a idolatrar o mito. Para quem escreveu esse comentário, qualquer um que não idolatre o mito está cometendo um gesto lulo-petista. Ou seja, na cabeça dele, está cometendo um crime. São pessoas que só se informam pelo zap zap e por vídeos de teoria da conspiração.
- Caramba, estou lendo aqui. O cara está ameaçando te denuncia... Te denunciar para quem? 
- Para os militres, provavelmente. 




- Estou vendo aqui. Ele te acusa de doutrinar os alunos. Fui seu aluno e você nunca falou de política em sala de aula. 
- Deve ser porque uso camisas da Marvel em sala de aula. Dizem que estou doutrinando os alunos a gostarem da Marvel. Nisso, confesso, sou culpado. Mas em minha defesa posso dizer que gosto da DC quando ela é desenhada pelo Garcia-Lopez.... rsrs... 
- Nossa, o cara diz que vai fazer você perder o emprego! Chega até a te chamar de estelionatário! 
- Só faltou dizer que vai me prender e  torturar pessoalmente para que eu confesse todos os meues crimes...kkkk Tudo isso porque eu me recuso a idolatrar o Capitão. E é esse pessoal que diz que é a favor da liberdade. A liberdade que eles querem é a liberdade de poder denunciar e prender quem pensa diferente deles. E como você pode ver, postaram essas ameaças dezenas de vezes no blog antes que eu bloqueasse os comentários. É por isso que não é mais possível comentar no meu blog. Infelizmente, tive que bloquear essa possibilidade de contato com meus leitores por causa desse tipo de comentário ameaçador.   
- Assustador, melhor manter os comentários do blog moderados mesmo.  
- Pois é. Melhor do que dar voz a gente desse naipe, que só se informa pelo zap zap e acredita em todas as teorias da conspiração possíveis. 

Como as estrelas na terra

 


Como as estrelas na terra, filme indiano de 2007 lançado recentemente aqui pela Netflix é uma obra que entrará para qualquer lista de melhores obras sobre a educação.

O filme conta a história de Ishaan Awasthi, um menino de nove anos que já reprovou a terceira série e irá reprovar novamente de ano, o que faz com que os pais o coloquem num colégio interno.

Visto como rebelde e preguiçoso, o garoto na verdade sofre de dislexia. As letras “dançam” na frente dele, o que faz com que ele seja incapaz de ler ou escrever.

A história do garoto muda quando o professor de artes do colégio interno percebe o problema do garoto e começa a ajudá-lo (a sequência em que ele ensina contas usando uma escada é um dos momentos mais interessantes). Mais ainda: o professor descobre que  Ishaan não só não é burro, como é um gênio da pintura.

A primeira parte peca por um problema que dizem ser comum nos filmes indianos: o excesso de musicais. Há momentos em que eles funcionam, como quando estão mesclados com animações. Mas chega num ponto de exagero em que tudo vira motivo para um musical. O garoto está triste? Música. A família vai deixá-lo no colégio interno? Música. Entra o novo professor de música? Música com dança.

A história engrena de fato quando o diretor  Aamir Khan  se concentra em contar a história, deixando as sequências de música mais pontuais.

Descontado esse exagero nos musicais, Como as estrelas na terra é um filme divertido e emocionante que aborda perfeitamente o assunto dislexia.

Um conto de duas cidades

 


Comprei o livro Um conto de duas cidades, de Charles Dickens em maio de 1999. Era uma edição de banca, da Nova Cultural. Tirando a capa mole, era uma publicação interessante, com biografia do autor e muitas notas sobre o texto. Por alguma razão eu comecei a ler e abandonei antes de terminar o primeiro capítulo. Isso é comum para quem é professor: você começa um romance e logo uma outra leitura, mais urgente, geralmente um texto técnico, o obriga a abandonar a ficção.

O livro ficou lá, escondido na estante, por mais de 10 anos, até que mudei de casa e comecei a arrumar a nova estante. Colocar livros numa estante pode parecer uma atitude simples para quem não gosta de leitura. Para um leitor assíduo, é algo demorado. É difícil resistir à tentação de dar uma folheada e ler um parágrafo ou outro.

Foi assim que comecei a ler Um conto de duas cidades. Considerando-se o início, é difícil imaginar porque eu o abandonei da outra vez. O livro tem uma das melhores aberturas da história da literatura:

"Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da luz, a estação das trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o paraíso, íamos todos direto no sentido contrário".

O livro apresenta uma trama que começa um pouco antes da Revolução Francesa e vai até a era de terror, em que dezenas, às vezes centenas de pessoas eram mortas diariamente, a maioria apenas pelo crime de serem nobres ou pela simples suspeita de serem traidores da pátria. As duas cidades do título são Paris e Londres, locais percorridos pelos personagens (embora os melhores momentos são aqueles passados na França revolucionária).

A trama inicia com o resgate do médico Manette, preso durante anos na Bastilha. Solto, sua filha, Lucie e um funcionário do banco Tellson seguem para Paris a fim de levá-lo para a Inglaterra, uma vez que ele pode vir a ser preso novamente se continuar em solo francês.

Dickens, baseando-se no livro de Carlyle, The French Revolution, aproveita-se do fato de que os nobres mais influentes da época tinham cartas que lhes permitiam capturar e encarcerar na Bastilhas qualquer desafeto para construir sua trama. O Doutor Manette teria sido vítima de uma dessas cartas, mas a razão pela qual ele foi preso só será revelada no final do livro, provocando uma nova tragédia.

Embora seja anterior a ele, Dickens parece ter lido o conselho de Edgar Alan Poe: imaginar primeiro o final e fazer todas as tramas e personagens se enlaçarem. Aliás, os últimos capítulos são uma aula de suspense. Como num filme de Hitchcock, acompanhamos as várias tramas avançando na direção da tragédia representada pela guilhotina.

Dickens tinha um olhar de fotógrafo: sua capacidade de ambientar o leitor através da visão de pequenos acontecimentos é única e pode ser bem apreciada no primeiro capítulo V, o primeiro em que aparece o bairro de Santo Antônio, onde é focada a maior parte da narrativa da era do terror. Um grande tonel de vinho tomba na rua e se quebra. O populacho se embriaga com o líquido, que escorre pelo calçamento acidentado: homens e mulheres cavoucam as poças com canecas de barro lascadas ou com lenços de cabeça das mulheres, que são torcidos para derramar gotas do líquido precioso na boca das crianças. O episódio, sem menor importância, torna-se um prenúncio do que virá quando um rapaz usando barrete vermelho usa o vinho para escrever no muro: "Sangue".

Dickens usa esses instantâneos para ambientar sua historia e criar expectativa, preparando o leitor para o que virá. Isso é feito de maneira lenta, própria de uma época em que se podia ler calmamente um livro: a narrativa avança aos poucos e há capítulos apenas com o objetivo de antecipar a carnificina que virá. O capítulo VI, por exemplo, é usado quase que só para descrever o local em que o Doutor e sua filha moram em Londres e um curioso efeito acústico, que lhes permite ouvir vozes e passos vindos de outras ruas, como se fossem uma multidão invisível: "Talvez vissem também a grande multidão de pessoas com seu ímpeto e seu rugido avançando sobre eles".

O leitor que resistir a essa narrativa lenta será recompensado não só pela bela prosa de Dickens ou pelo final de tirar o fôlego, mas também por uma análise interessante sobre uma época: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade ou Morte; a última muito mais fácil de conceder do que as outras, ó Guilhotine!".

Suas descrições da carnificina são um verdadeiro estudo da natureza humana sob a influência da multidão. Em determinado ponto do livro, um dos prisioneiros é restituído à liberdade exatamente na noite em que os jacobinos decidem matar centenas de nobres que entulham as prisões. No meio da confusão, ele acaba sendo apunhalado. Chamado para atendê-lo, o doutor o encontra sendo atendido por um grupo de samaritanos sentados sobre os corpos de suas vítimas. Eles o ajudam com total solicitude, improvisam uma padiola e mandam uma escolta tirá-lo dali. Depois empunham suas armas e voltam a se dedicar à hedionda carnificina.

As notas do final do livro ajudam a entender melhor o sentido de algumas passagens ou acrescentam informações aos episódios. Sobre a noite referida, a nota cita Mercier, detalhando o assassinato da princesa de Lamballe: "Tendo os assassinos dividido os pedaços sangrentos do corpo dela, um desses monstros arrancou-lhe os pelos pubianos e fez um bigode para si mesmo com eles".

Dickens, que chegou a fazer uma reportagem sobre uma execução na guilhotina (na Itália) mostra a todo momento sua ojeriza aos crimes cometidos durante a era do terror. Mas não faz uma acusação cega dos revoltados. Ao contrário, deixa claro que tal estado de coisas só foi possível em decorrência da situação absurda em que vivia a França na época pré-revolução, com uma nobreza de poderes absolutos gastando fortunas em luxo enquanto a população miserável passava fome: "Seis carros mortuários rodam com estrondo pelas ruas de Paris. Faça-os regressar ao que eram antes, ó Tempo, poderoso mago, e eles serão vistos como luxuosas carruagens de monarcas absolutos, como equipagens de nobres feudais, como toucadores de mulheres deslumbrantes como Jezebel, como igrejas que não a casa do meu Pai, mas um covil de ladrões, como a choupana de milhões de camponeses esfaimados!".

A edição da Nova Cultural já está fora de catálogo, mas existe uma outra, da Estação Liberdade, para os que ficarem interessados.