segunda-feira, novembro 02, 2026

13 vidas – O resgate

 

Tailândia. No dia 23 de junho de 2018 de 12 meninos entre 11 e 16 anos resolveram entrar numa caverna para comemorar a vitória numa partida de futebol. O técnico os acompanhou. Quando já estavam adiantados na caverna, começou a chover forte e, na tentativa de fugir do alagamento, eles foram entrando cada vez mais no local, até chegarem o ponto de ficarem totalmente isolados.

Uma equipe de resgate incluindo mergulhadores especializados de diversos países se envolveu na tentativa de resgate. Os garotos e o treinador tinham se refugiado num local a quilômetros da entrada e a operação de salvamento, mesmo para mergulhadores treinados era extremamente difícil. A água era turva, quase impossível de ver (alguns mergulhadores diziam que era como café frio). Além disso, alguns trechos eram tão estreitos que os mergulhadores tinham que tirar os tubos de oxigênio para conseguirem passar. A viagem inteira, quase o tempo todo dentro da água, durava de seis a oito horas.

O local era um labirinto tão difícil que os garotos só foram encontrados nove dias depois.  A travessia era tão árdua que um dos mergulhadores morreu na tentativa de chegar aos garotos. Como resgatar crianças que nunca tinham mergulhado na vida, ainda mais nessas condições? Para piorar, uma chuva ainda mais forte está vindo, o que pode tornar impossível o resgate.



É esse desafio que Ron Howard mostra no filme 13 vidas, recente lançamento do Amazon Prime Vídeo. Diretor de clássicos como Cocoon e Uma mente brilhante, Howard é competente até mesmo quando dirige filmes meramente comerciais, como O código Da Vinci. E aqui ele encontra uma história que reúne todos os elementos para um bom filme. A história real já é repleta de suspense, algo muito bem aproveitado pelo diretor, assim como o elemento humano, outra grande especialidade de Howard. O filme consegue explorar muito bem o quanto parecia impossível o resgate e como era ousada a estratégia usada para o mesmo. Ajuda muito a escolha inteligente do diretor de fazer imagens focadas, dando uma impressão de claustrofobia. O diretor também inclui mapas que ajudam o expectador a entender o desafio.

Tudo é muito bem aproveitado: a apreensão dos parentes das vítimas, as dúvidas dos mergulhadores, o trabalho dos centenas de voluntários, que ajudaram a tirar água da caverna.

Talvez por isso 13 vidas não tenha momentos marcantes. Todos os momentos são marcantes. É um filme linear, que mantém o interesse do expectador durante todos o tempo de 2 horas e 27 minutos.

Em tempo: um momento curioso do filme é quando os garotos são finalmente descobertos e esses dizem que conseguiram sobreviver graças às lições de meditação dadas pelo treinador. Noventa e cinco por cento da Tailândia professa o budismo.

Artigo sobre a revista Herói

 


Meu artigo A revista Herói e o jornalismo infanto-juvenil apresentado no 42o Congresso Intercom de Ciências da Comunicação já está disponível nos anais do evento. Para acessar, clique aqui.

Memórias de um Arqueiro Verde

 


Entre as histórias mais célebres do Arqueiro Verde está a minissérie escrita por Mike W. Barr e desenhada por Trevor Von Edden. 

Na trama, Oliver Queen é convidado para a leitura de um testamento e descobre que se tornou o herdeiro de uma multinacional. A mulher que deixou a herança, Abby Horton, foi a mentora do personagem e tudo indica que ela foi assassinada e caberá ao herói descobrir quem é o culpado e qual foi a motivação. 

A missérie reconta a origem do herói. 


Um dos atrativos da série é recontar a origem do personagem, no estilo que seria feito anos depois em série como Batman ano um. Nessa versão, Oliver Queen é um playboy preocupado apenas com diversão que, jogado no mar por piratas, aprende a sobreviver com o uso de flechas até se tornar um expert nesse tipo de arma. 

Como essa é uma história de super heróis, temos também vilões, como o conde Vertigo e o Capitão Chibata. Mas o atrativo do roteiro realmente é a trama policial bem elaborada, com um bom plot twist final.

O desenho de Trevor Von Eden se destaca. 


Apesar do bom roteiro, o que realmente chama a atenção é o desenho de Trevor Von Edden, cujo maior destaque são as Splash page impressionantes, como aquela em que o Arqueiro e Canário estão descendo de paraquedas no meio da artilharia inimiga. Aliás, o roteirista pecou por não dar mais destaque para a Canário. Trevor desenha ela com perfeição.

Não bastasse a virtuose no desenho, Trevor também se destaca pela diagramação inovadora com quadros divididos meio para criar ideia de sequência ou várias imagens num mesmo quadro. O ápice dessa experimentação é a cena desenhada como uma página de jornal. 

A diagramação era inovadora. 


No Brasil essa história foi publicada pela editora Abril em Superamigos e foi uma das que mais chamaram a atenção dos leitores à época. Até hoje não entendi porque a Panini não republicou.

Esquadrão Atari – Traidor

 


Desde que Blackjack voltou da aparente morte nas mãos do Destruidor Negro, Martin Champion desconfiou de que ele fosse na verdade um espião do vilão.

Isso acabou se revelando verdade no número 11 da série Esquadrão Atari.

A capa já revela essa verdade, numa daquelas cenas impressionantes que só Garcia-Lopez conseguia fazer: Dart está caída no chão, a calça rasgada pelo que parece ser um tiro. Ela olha para cima, assustada e levanta a mão esquerda para se defender. Acima dela, Blackjack sorri e aponta a arma futurista.

Blackjack está a serviço do Destruidor. 


Já no interior, vemos Blackjack acordando no meio da madrugada e acessando o computador da nave para fazer uma ligação para o vilão. “Como estão meus amigos do Esquadrão Atari?”, pergunta o Destruidor. “Espero que Martion Champion e seu filho gozem de boa saúde! Não quero que nada aconteça a eles... ainda!”.

O plano do Destruidor é levar o grupo ao local onde está instalada a bomba de antimátiera que irá destruir todo um universo como forma de se vingar de Champion.

Blackjack seria capaz de matar sua amada? 


Para isso, Blackjack trava os controles da nave, fazendo com que ela se direcione exatamente para o local onde o vilão quer. Nesse meio tempo, a traição de Blackjack é descoberta e a imagem da capa se reproduz na HQ: Dart caída, seu namorado apontando a arma para ela, pronto para mata-la.

Toda essa sequência é uma mostra de como a dupla Gerry Conway e Garcia-Lopez estava sintonizada. O roteiro eleva o suspense ao seu máximo e o desenho destaca ainda isso.

A esposa de Martin Champion morre no parto e ele passa a acreditar que a culpa é do bebê. 


Essa mesma edição traz a explicação da relação conflituosa entre Martin Champion e seu filho.

Numa sequência extramemente dramática, vemos o nascimento da criança. A mulher é envolva por uma luz e grita: “Oh, meu Deus... ele está me matando! Martin, é ele... é ele!”.

Champion a partir daí passa a acreditar que o filho de alguma forma matou a mãe, mas ele entendeu mal a mensagem: o verdadeiro assassino é o Destruidor Negro, que todos pensavam estar morto e estava ali iniciando sua jornada de vingança.  

Mama Guga

 


Fernando Canto é um dos grandes nomes da literatura amapaense. Mais conhecido por suas letras de música – ele foi um dos fundadores do grupo Pilão, que marcou época na MPA, ele também é um contista inspirado, como mostra o livro recém-lançado pela Paka-Tatu, Mama Guga.
O livro traz contos intimistas e emocionantes, como O retrato azul, narrado como um filho falando ao pai: “Agora estou aqui, engolindo este silêncio, sem saber o que dizer para você (...) Agora estamos nós dois sem saber o que fazer... Você aí sentando nesta rede com os olhos brilhosos de lágrimas, olhando fixo o quadro que lhe demos de presente de aniversário”. Além de criativa, a abordagem permite um aprofamento no personagem que talvez não fosse possível de outra maneira.
Há contos que oscilam entre o causo urbano, o humor e o drama, como em “A seringa contaminada de Bambo, o zagueiro do futlama”, no qual um homem com HIV ameaça picar pessoas com uma seringa.
Mas os melhores contos são aqueles em que Fernando Canto se utiliza da mitologia local, entremeando-a muitas vezes de fatos históricos e narrativas cotidianas. Exemplo disso é “As mulheres-peixe do meu garimpo”, sobre um garimpeiro que se enamora de sereias encontradas em uma gruta. Mas são sereais amazônicas, com cor local e sexualidade aflorada: “Tinham a cor dourada e eram largas. Suas barbatanas eram vermelhas, umas gracinhas. Nem de longe pareciam com as sereias que eu tinha visto em revistas. Brincavam com as águas e sorriram quando me viram. Me chamaram pra bem perto delas, e aí pude conhecer o verdadeiro sabor do prazer sexual”.
Desses, o melhor é “A cidade encantada sob a pedra”.
A história se passa em uma cidade fictícia (meio que uma mistura de Macapá e Mazagão), mas mágica, em que seres encantados saem do fundo do rio para defender os negros entre eles o pretinho Chibante, que distribui para a criança bombons trazidos em seu chapéu de casco de tartaruga.
Na história, dois irmãos descem à cidade encantada em busca de um suposto tesouro. O interessante do conto é a forma como o autor mescla fatos históricos, personagens mitológicos e ladrões de marabaixo para construir sua narrativa.
Para quem não é da região, os ladrões são músicas cantadas nas rodas de marabaixo, geralmente sobre fatos ocorridos na comunidade.
Há duas versões sobre o nome. Na primeira delas, os versos são chamados ladrões porque um “rouba” a música do outro, continuando o verso. Na outra, porque a letra “rouba” fatos das vida pessoal das pessoas, tornando-as públicas através da música. Fernando Canto adota essa última explicação e constrói todo o conto a partir de ladrões, entremeando-os à narrativa em prosa. A narrativa é fluída, quase como um causo narrado a um visitante e fantasia, história e ladrões vão se misturando naturalmente.
O conto é um delicioso causo e, ao mesmo tempo, uma curiosa experiência estética.   

É de se destacar o ótimo trabalho editorial da Pakatatu no livro, a começar pela bela capa com ilustração de Maciste Costa. O papel polém e a difamação simples, limpa, mas eficiente fazem com que a leitura do livro se torne leve e agradável. 

Álbum de figurinhas Marvel 80 anos

 


Este ano a Marvel completa 80 anos. Para comemorar, a Panini lançou um álbum de figurinhas que é, desde já, item de colecionador.

Álbuns de figurinhas de quadrinhos não são novidade. Da Marvel muito menos. Lembro de pelo menos dois. Mas a maioria era apenas ilustrações, a maioria contemporâneas, de personagens da editora. O diferencial deste é que ele é praticamente um documento histórico. Embora de maneira bastante sucinta, os textos contam a história da editora, desde Marvel Comics número 1, que trouxe Namor e Tocha Humana, os primeiros heróis da editora, até os dias atuais, passando por fases pouco conhecidas da editora pelos leitores atuais, como quando a editora se especializou em histórias de terror, monstros, faroeste e até românticas.

Uma das atrações é a reprodução das capas originais.

A grande atração aqui são as reproduções das capas originais em figurinhas com borda metalizada.

Ao final há uma história em quadrinhos com quadros que precisam ser completados com figurinhas com o Capitão América, uma escolha mais do que acertada, já que o personagem foi um dos primeiros sucessos da Marvel e continua relevante até os dias atuais. É um pequeno conto sobre uma garota que ajuda o Capitão e precisa de sua ajuda para convencer sua mãe sobre os rumos de sua vida. Infelizmente a HQ não é creditada.

Ah, o álbum traz também cards desenhados por gente do calibre de Alex Ross e Mike Deodato Jr.

É uma boa oportunidade para apresentar a história da Marvel para as novas gerações. Eu comprei para montar com meu neto.

domingo, novembro 01, 2026

Fundo do baú - Além da imaginação

 

"Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo Homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do Homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região Além da Imaginação." Essa era a narrativa inicial de todos os episódios de Além da Imaginação, série criada por Rod Serling entre 1959 e 1964 em preto e branco, para o canal CBS nos EUA. 
Uma curiosidade é que a série era apresentada pelo seu criador, que sempre aparecia no início dos episódios. Em cinco anos foram dezenas de episódios memoráveis, como o do homem que vê um gremlin na asa de um avião ou os policiais que precisam descobrir um marciano entre os fregueses de um restaurante de beira da estrada. Serling foi roteirista do primeiro filme do Planeta dos Macacos e foi ele que sugeriu o final, baseado em um dos episódios, atirei uma flecha no ar. Um dos meus prediletos é tempo suficiente, de 1959, em que o caixa de um banco não tem tempo para ler, um exemplo perfeito de ironia do destino. 
O seriado ganhou uma nova versão na década de 1980 e fez muito sucesso no Brasil, sendo exibido pela Rede Globo.

Tropa Alfa – As coisas nem sempre são o que parecem

 


Seguindo a lógica de dedicar cada um dos primeiros números da Tropa Alfa a um herói, John Byrne colocou o Sasquatch como protagonista dos números 9 e 10.

Na história, Langkowski é chamado para investigar leituras estranhas na estação de raios cósmicos do Monte Logan. Estranhamente as leituras pareciam indicar um ritmo biológico. Quando os cientistas montam uma antena de captação, o Coisa surge no local.

Parece o Coisa, mas é o Super-Skrull. 


No final, claro, não era de fato o membro do Quarteto Fantástico, mas um vilão que emulava seus poderes, o Super-Skrull, o que garante todo o porradal obrigatório de uma história em quadrinhos de super-heróis.

O surgimento do Super-Skrull parece unicamente uma desculpa para arranjar um adeversário à altura do Sasquatch (Byrne chega a agradecer a um amigo por ter sugerido o confronto).

Há algo de irracional no herói peludo? 


Apesar da narrativa muito bem fluída e elegante de Byrne, o volume peca por falta de profundidade. O único aspecto realmente interessante é que, quando o cientista se transforma no monstro, ele está com o braço quebrado, e isso faz com que  Sasquatch surja com uma ferocidade inesperada e irracional, o que deixa para o leitor a percepção de que em algum momento esse lado irracional poderá tomar conta do personagem. Mas isso fica muito mais como promessa. Byrne joga com bons conceitos, mas raramente parece disposto a levá-los ao seu máximo criativo.

Guerras Secretas – A batalha dos quatro exércitos

 


O número 5 da série Guerras Secretas inicia com o grupo de heróis refugiado em uma aldeia governada por uma belíssima curandeira. Lembro que quando li pela primeira vez, aos meus 15 anos, eu me perguntei: De onde saiu essa vila? De fato, se o planeta onde acontece o conflito foi criado do nada por Beyonder, como já poderia ter uma vila, com uma cultura formada e inclusive liderança? Lá na frente Shooter diz que o planeta foi formado por partes de outros planetas, o que mostra que o roteirista não tinha muito apreço pelas leis da física.

A grande ameaça da edição é Galactus, que sai de sua letargia e chama sua nave. O que ele estaria pretendendo? Qual o seu objetivo? Consumir o planeta?

Os heróis se refugiam numa aldeia governada por uma curandeira. Shooter tirava personagens da cartola.


Um momento interessante da edição é a conversa de Encantor com Doutor Destino. Ela quer convencê-lo a desistir de atacar os heróis e chega a propor curar as cicatrizes com que o vilão esconda o rosto sob uma máscara, mas ele recusa ao que ela se ajoelha: “Destino, por favor, eu te imploro!”.

Encantor se humilhando? Quem é você e o que você fez com a deusa nórdica? 


Essa sequência é um ótimo exemplo de como Jim Shooter não estava minimamente preocupado em fazer com que a história de vida e a personalidade dos personagens governasse seu comportamento. Uma deusa como Encantor se humilhnado e implorando de joelhos? Essa definitivamente não é a personagem criada por Stan Lee e Jack Kirby. É possível imaginar que ela estivesse evitando entrar em conflito com Thor, pelo qual ela está apaixonada, mas nesse momento da trama, ela acreditava que Thor foi morto por Ultron. Então é simplesmente um comportamento inexplicável e em total desacordo com a personagem. 

A morte de Stalin

 


Em 1953, o líder da União Soviética, Joseph Stalin, morreu inesperadamente, o que levou a uma luta por sua sucessão. É sobre esse momento histórico que o filme A morte de Stalin, dirigido por Armando Iannucci e disponibilizado no Brasil pela Amazon Vídeo,  se debruça.
O filme é baseado numa história em quadrinhos de Fabien Nury e Thierry Robin e mostra com bastante liberdade poética os momentos anteriores à morte do ditador, os bastidores da morte e a sucessão. Poderia ser um filme histórico, mas é, acima de tudo, uma grande comédia ácida. Aliás, se você não gosta desse tipo de comédia, passe longe do filme.
O clima de terror criado por stalin serve para alguns dos momentos mais engraçados do filme, com a reunião de ministros que termina com um deles dizendo que o que acabou de sair está na lista (de pessoas que irão morrer ou serem enviadas para a Sibéria). Em vários momentos cenas singelas, quase caseiras, têm, em segundo plano, alguém sendo morto ou preso.
A história inicia com o diretor da rádio recebendo um pedido de gravação da apresentação músical que acabou de encerrar. O jeito é gravar tudo de novo, o mais rápido possível para não provocar a ira do ditador.
Quando está ouvindo a gravação, Stalin tem um mal súbito e chegamos a um dos melhores momentos, quando os membros do comitê central chegam e começam a discutir o que fazer.
Não é possível chamar um bom médico, pois todos os bons médicos ou foram mortos ou mandados para a Sibéria. Também pode não ser uma boa chamar médicos ruins, pois isso pode custar a vida de quem chamou. Durante toda essa longa discussão, Stalin permanece lá, caído no chão.
Quando fica claro que o ditador morreu, começam as conspirações – e nesse jogo, quem perde, morre. Uma palavra errada pode representar a morte de alguém.
Há se destacar o elenco primoroso, cuja atuação é boa parte do sucesso do humor estranho da película.
Nesse sentido, destaque para Jeffrey Tambor, como Malenkov, o indeciso presidente do comitê central, que não sabe o que fazer em meio às conspirações. E Michael Pain, como Molotov, o ministro que continua fiel a Stalin mesmo depois de sua morte e tem opiniões muito fortes e decididas... que mudam a cada minuto. Um dos melhores momentos da dupla é uma reunião de ministros, logo após a morte do ditador, em que Malenkov faz uma proposta e coloca em votação, interrompida por um discurso de Molotov: Malenkov muda seu voto a cada frase do colega, incapaz de decidir se ele é favorável ou contrário à proposta.

Os escravos da górgona

 


Os escravos da górgona foi um dos livros que me influenciaram a escrever O Uivo da górgona (pelo menos foi a maior inspiração para o título ao ampliar o conceito de górgona para eventos que essencialmente mudam o ser humano para pior). Esse livrinho, originalmente denominado Os 100 dias da Górgona, foi escrito por Curtis Garland (pseudônio do espanhol Juan Gallardo) e publicado pela Cedibra em 1976 na forma de livro de bolso. Eu li provavelmente em 1984 ou 85 (comprei num sebo).
A história é fantasiosa: uma luz encobre o planeta terra. Quem a vê passa por transformações. O protagonista é um homem que sofreu acidente com ácido e está com os olhos enfaixados e por isso não se transforma. Ao acordar e tirar as faixas, ele descobre que todos estão paralisados, recobertos por uma película azulada.
Talvez seja coincidência, mas esse início me faz lembrar ao menos três obras. O homem que acorda num hospital após um apocalipse remete diretamente a Walking Dead e Extermínio. E pessoas sobrevivendo num mundo em que todas as outras foram paralisadas lembra muito o romance Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva. Tpdas essas obras são posteriores, o que pode significar que alguém talvez também tenha lido esse livro de bolso. Ou talvez ele só tocasse em temas universais do imaginário terror e FC.
O protagonista percorre a cidade e, milagrosamente, encontra a namorada e descobre que ela não se transformou - Londres inteira estava na rua no dia de verão e por alguma razão ela estava trancada no porão, de modo que não viu o clarão.
O casal passa as 128 páginas do livro se livrando de perigos. Primeiro são os homens petrificados, que ganham vida, depois as crianças, que se tornam verdadeiros psicopatas, e, finalmente, gosmas espaciais que sugam as memórias da pessoa e se transformam nela.
Antes que perguntem: não, o livro não é bom. Há vários deus ex machina, desde o padre cego que encontram e que sabe contar tudo que eles não sabem até a própria sobrevivência da namorada do herói, quando todos os outros se transformaram. Ah, sim, e enquanto fogem do perigo, a moça só consegue pensar em se casar!
E os diálogos, ah, os diálogos! Talvez para lembrar o leitor quem estava falando - ou simplesmente para deixar os diálogos mais melosos, os protagonistas repetiam o nome um do outro a cada fala:
- Ewa, minha querida. Agora estamos sós diante de um mundo diferente, hostil e estranho. É preciso lutar com muita coragem e determinação... está disposta?
- Todd, ao seu lado eu sou capaz de tudo!
Mas, aos meus treze anos, eu prestava pouca atenção aos problemas de roteiro ou diálogos forçados. Na verdade, eu muitas vezes reescrevia a história em minha cabeça.
E, como disse, essa foi, provavelmente, a gênese de O uivo da Górgona.
Em outras palavras: mesmo livros ruins podem ser uma boa influência.

MAD 25 - Alice no país das armadilhas

 


Na época da MAD 25 já fazia algum tempo que eu não colaborava com a revista e andava bastante ocupado. Mas o editor Raphael Fernandes me fez um convite irrecusável: escrever uma história para o grande Roger Cruz, famoso pela sua fase nos X-men. Tratava-se de uma sátira do filme Alice no país das maravilhas, que ainda ia estrear estrear. Eu resolvi fazer uma proposta diferente: ao invés  de ser a Alice do filme, seria uma Alice no país das armadilhas). A pobre e inocente Alice cai em um bueiro e vai parar em um país muito diferente do Brasil - repleto de malandros e políticos corruptos. Eu conhecia o traço de Roger Cruz e sabia que o cara era fera, mas não imaginava que ele iria se adaptar tão bem ao gênero humor. A pobre Alice cai em todos os golpes possíveis. Eu pensei na história como sendo um livro infantil e ele conseguiu pegar perfeitamente o espírito da HQ ao fazer um requadro pouco convencional. 

Hipocondríacos

 

A moça irrompeu, esbaforida, pela porta, enquanto a enfermeira terminava de aplicar o soro.
    - Ei, não pode entrar agora!
    - Rafael, Rafael! Você está bem? Vim correndo quando soube que você estava doente.
    - Por favor, ainda não é o horário de visitas. Como a senhora conseguiu entrar? - perguntou a enfermeira, puxando a moça para fora.
    - Não, não me afaste do meu Rafael! Por favor, me diga: ele está bem?
    Nisso o doente se mexeu no leito, murmurando:
    - Beatriz? Você está aí?
    Foi o bastante. A mulher se desvencilhou dos braços da enfermeira e se jogou aos pés da cama.
    - Rafael, Rafael, você ainda está vivo?
    - Beatriz, você está aí? Eu não consigo vê-la...
    - Mas ele só está... - interveio a enfermeira.
    - Santo Deus, o que fizeram com o meu amado?! Você consegue me ouvir, querido?
    - Beatriz? É você mesmo? Agora que vou morrer, quero que saiba que te amo...
    - Oh, Rafael! Eu também te amo. Do fundo do meu coração...
    - Beatriz, por favor, me dê um último beijo.
    Houve um minuto de silêncio, ao fim do qual Beatriz pulou sobre ele, num último e ardoroso beijo de amor. A enfermeira tentou impedi-la, mas era impossível até mesmo saber quem era quem no meio dos aparelhos, seringas e tubos.
    - Querida, você sabe o quanto eu amo você. - garantiu ele, depois que se desgrudaram. Não chore por mim. Também quero que você arranje outro homem. Não perca sua juventude por mim...
    - Não, não me diga isso, meu amor, você vai sobreviver... E eu jamais terei outro homem...
    Ficaram em silêncio. Beatriz enxugava as lágrimas com um lenço.
    - Querida, agora que estou morrendo, acho que deveria saber de uma coisa. Lembra-se de Ana?
    - A Ana?
    - Sim, aquela estudava com você quando nos conhecemos...
    - Rafael, você não...
    - Eu tive um caso com ela.
    - Não, não acredito... não é possível!
    Ficou repetindo isso, balançando a cabeça em negativa, a enfermeira parada num canto, os olhos arregalados, sem saber o que fazer....
    - Beatriz... agora que estou morrendo, não faz mais sentido esconder meu caso com Maria...
    - A minha melhor amiga? Desgraçada!
    - Calma, foi coisa pequena: durou só dois anos...
    - Dois anos? Seu safado! Cretino!
    - Cretino, eu? Pensa que não sei do Paulo?
    Beatriz ficou estática.
    - Paulo?
    - Pensa que não sei? Tenho até fotos...
    - Seu cretino! - gritou a mulher e pulou no pescoço dele.
    - Gasp, gasp - fez o doente, envolvendo com as mãos o pescoço de Beatriz, que caiu no chão, sob ele.
    Rolaram pelo chão do hospital até perderem as forças e só então caíram nos braços um do outro, jurando:
    - Beatriz, eu te amo.
    - Também te amo, Rafael.
    A enfermeira ficou alguns instantes estarrecida, depois saiu do quarto, murmurando consigo:
    - Esses hipocondríacos... e era só uma infecção intestinal.

Supremo - Imagine Isso...

 


Uma das características mais marcantes da revista Justice League of America sob a edição de Julius Schwartz eram as capas chamativas e, por vezes, surreais. Frequentemente, essas capas eram concebidas antes mesmo do roteiro, desafiando os escritores a criarem tramas que justificassem aquelas imagens absurdas. Alan Moore explora com maestria essa metalinguagem em Supremo #48.

Na trama moldura, Supremo reúne o grupo anteriormente conhecido como Aliados para resgatar as almas do Professor Meia-Noite e de sua ajudante, Sombria. Enquanto os heróis viajam, eles relembram aventuras passadas, o que serve de pretexto para a introdução de capas fictícias de "edições antigas", enquanto o diálogo de fundo sintetiza a história.

A capas reproduziam a estética da Liga da Justiça clássica. 


A primeira capa apresenta o embate contra Florax, o Dominador, uma planta senciente que colonizou cidades com seu perfume hipnotizante. O vilão foi neutralizado pelo Caçador Espacial, cuja fisiologia única o tornava imune ao aroma, permitindo que o destruísse com um herbicida. A arte de Rick Veitch (que emulava com perfeição o traço da Era de Prata) reproduz todos os maneirismos da época: o título em moldura, as fontes clássicas e o rodapé listando os heróis presentes — uma tática de marketing de Schwartz para fisgar os leitores nas bancas.

Glory reclama de ser presa: ecos da origem bondagista da Mulher Maravilha. 


A capa mais intrínseca à trama principal mostra os heróis em grilões, puxando uma carroça de pedra sob o chicote do Escravizador de Almas. Aqui, Moore insere uma referência jocosa e ácida à origem "bondagista" da Mulher-Maravilha (criada por William Moulton Marston). A personagem Glory comenta com ironia: “Eu não gostava desse negócio de escravidão, sabe? Parece que entre os anos 40 e 60 eu acabava amarrada mês sim, mês não”.

Crítica aos encontros dos Aliados: o que era novidade virou fórmula. 


Moore também utiliza esses diálogos para criticar o esgotamento de fórmulas editoriais, como os encontros anuais entre grupos de épocas ou dimensões diferentes:

“Na primeira vez foi legal, mas depois nos encontrávamos todos os anos... ou eram duplicatas malignas, ou aliados de mundos paralelos. No fim, só sabíamos quem era quem por pequenas diferenças nos uniformes!”

O desenhista Mark Pajarillo evita desenhar cenários, essenciais para a HQ. 


Se as inserções de Rick Veitch são um deleite de saudosismo e sátira, a arte da trama principal é decepcionante. Enquanto o roteiro de Moore mergulha em conceitos densos do subconsciente — elementos que ele refinaria anos depois em Promethea —, o trabalho de Mark Pajarillo é visualmente pífio.

Seguindo os vícios do estúdio de Rob Liefeld, Pajarillo negligencia os cenários (essenciais para entender a história), substituindo-os por fundos confusos e hachuras excessivas que desorientam a leitura. É o paradoxo máximo da fase Image de Moore: um roteiro de um gênio da literatura gráfica preso em uma estética que priorizava músculos e poses em detrimento da narrativa visual e da profundidade de campo.