segunda-feira, setembro 21, 2026

Quarteto Fantástico e Inumamos: caos

 


Um dos aspectos mais interessantes da ficção científica é a possibilidade de abordar temas que fogem muito daquilo que estamos acostumados. A imaginação é o único limite e exemplo disso é a história Pesadelo, com roteiro e arte de John Byrne e publicada em Fantastic Four 248.
Na história, o Quarteto está visitando o refúgio dos Inumanos na Lua quando o satélite terrestre é sequestrado por uma nave gigantesca.
Uma vez lá dentro, tanto o Quarteto quanto os Inumanos tentam descobrir o que está acontecendo, quando se deparam com o dono da nave: um ser tão descomunal que Byrne o descreve como tendo massa equivalente à da Terra!
O alienígena tem massa equivalente à da Terra. 

É como se Byrne, cuja fase à frente do Quarteto explorou muito esse aspecto de FC do título estivesse pensando: até onde eu posso ir? O quão grande pode ser uma ameaça?
Claro, há problemas do ponto de vista científico. Um ser tão grande teria uma força gravitacional tão grande teria puxado para si os heróis que estavam perto dele, por exemplo. Byrne tenta mostrar isso quando extraterrestre passa a mão pela face da lua e a força gravitacional de sua mão destrói a cidade de Attilan. Mas se só sua mão era capaz de fazer isso, o que não faria o seu corpo todo?
Ainda assim, é uma história divertida que mostra bem porque a fase de Byrne é tão querida pelos leitores.
No Brasil essa história foi publicada em Grandes heróis Marvel 19. 

Pigs on the wing - O Batman da dupla Gian-Bené

 


Em 1990 eu o compadre Bené Nascimeto resolvemos fazer uma história do Batman. Havia a ideia  de apresentar essa HQ para a DC Comics. A ideia de fazer HQs e tentar a DC através do roteirista Júlio Emílio Braz, que já fora agente em editora europeias (Júlio chegou a fazer uma HQ do Batman com o Mike Deodato para tentar vender para a DC).  Mesmo que não desse certo, a história seria uma espécie de fanfic da dupla, provavelmente para publicação no nosso fanzine Crash.
A história mostrava Batman investigando uma série de enigmas recebidos pelo comissário Gordon e que parecem indicar um ataque terrorista em Gothan. Nossa ideia é que para investigar ele procurasse cada um dos seus vilões, de forma que teríamos toda a galeria de vilões aparecendo na história – mas não parece ser nenhum deles, já que a maioria está presa ou regenerada.
Do ponto de vista do texto, a história era uma reflexão sobre como as histórias do Batman haviam sido alteradas pela geração de autores dos anos 80 (gente que admirávamos, como Frank Miller e Alan Moore), como os vilões havia deixado de ser palhaços inofensivos e haviam se transformado em psicopatas.  O texto também refletia em como isso mudara o próprio Batman e até Gothan City.
Quanto ao desenho, era extremamente caprichado, talvez um dos pontos altos do estilo Bené Nascimento na fase brasileira: havia prédios expressionistas inspirados no filme de Tim Burton (que fora lançado no ano anterior), o traço era extremamente detalhado e repleto de hachuras.  De certa forma, era uma antecipação do estilo atual do desenhista em sua fase no Hulk.
Pings on the wing era a nossa versão do Batman, fortemente influenciada por trabalhos como Wachmen, Cavaleiro das Trevas, Piada Mortal e Orquídea Negra.
Infelizmente chegou num ponto que as contas começaram a se tornar mais importantes que a paixão e o Bené teve que abandonar essa HQ para se dedicar a outros trabalhos que davam dinheiro. Essa história ficou como um sonho impossível. Mal podíamos imaginar que quatro anos depois o Bené, agora com o nome de Joe Bennett, estaria trabalhando para os EUA e desenhando diversos personagens tanto da DC quanto da Marvel, incluindo o Batman.
Em tempo: o título, Pigs on the wing, era referência a uma música do Pink Floyd, banda que ouvíamos tanto que acabou se transformando em trilha sonora da dupla.
Confira abaixo as outras páginas da história:








Thunderbolts - Justiça relâmpago

 



No ano de 1997, os Vingadores, o Quarteto Fantástico e alguns dos principais heróis da Marvel foram aparentemente mortos ao tentar conter uma ameaça chamada Massacre.

No mesmo ano, para substitui-los, a Marvel lançou uma nova equipe de heróis, os Thunderbolts, com roteiro de Kurt Busiek e arte de Mark Bagley. A equipe estreou numa aventura do Hulk escrita por Peter David e desenhad por Mike Deodato Jr. Era um teste e agradou os leitores.

Quando a revista finalmente foi lançada, o impacto foi enorme, principalmente graças à reviravolta final: os Thunderbolts eram, na verdade, os vilões Mestres do Mal, liderados pelo Barão Zemo. A ideia de Zemo era aproveitar o vácuo deixado pelos heróis, substitui-los e, assim, conseguir informações privilegiadas.

A ideia tinha ocorrido a Busiek anos antes, quando dirigia para visitar os pais. Para se manter acordado, ele bolava histórias para os vingadores e, numa delas, a equipe Mestres do Mal se fazia passar por um novo grupo de heróis para aos poucos substituir os vingadores

A equipe era formada por Zemo, ironicamente rebatizado de Cidadão V (um herói dos anos 40 que foi morto pelo pai nazista de Zemo), Armador (que se tornou Tecno), Besouro (que adotou o nome de MACH-1), Golias (que passou a se chamar Atlas), Rocha Lunar (agora Meteorita) e Colombina (rebatizada de Soprano).



O curioso aí é que esse grupo realmente existia antes de sua versão heroica e os leitores mais antento podiam comparar as versões antigas com suas novas encarnações.

Outro ponto importante é que alguns dos personagens vão aos poucos gostando do seu papel de heróis e começam a ficar contra Zemo.

A melhor história é o anual da equipe de 97, escrito por Busiek e desenhado por vários artistas, incluindo o veterano Gene Colan.

Na história, uma heroína é ajudada pelo grupo e, por sugestão de Meteorita, passa a integrar a equipe. Ela não sabe as reais intenções da equipe, mas quer saber como a equipe se formou. Cabe ao cidadão v explicar como isso ocorreu sem mentir, mas ao mesmo tempo sem dizer a verdade (o que revelaria que eles são vilões). Aí entra a maestria do texto de Busiek, com falas que têm duplo sentido. Dessa forma, a narrativa conta o que parece ser uma história heroica quando o desenho e os diálogos mostram um grupo de malfeitores se reunindo. O momento em que Zemo decide o nome da equipe é um dos mais interessantes. O nome deveria remeter à II Guerra Mundial, como Stormtroppers e Blitzkrieg: “algo  criptofascista... porém amigável”.

O roteiro é tão bem elaborado que até mesmo Mark Bagley na sua fase Image fica suportável.

X-men – A filha da luz e das trevas

 


No número 136 de The Uncanny X-men, a Fênix Negra volta para a terra após destruir um sistema solar e um cruzador do império Shiar.

O capítulo não poderia ter título melhor: “Filha da Luz e das trevas”. O título expressa perfeitamente a dualidade de uma personagem que é, ao mesmo tempo, luz (Jean Grey) e trevas (a Fênix Negra), além de deixar claro que ambas fazem parte do mesmo ser.



Aliás, vale a pena comentar a splash page de abertura, com a fênix envolvendo o planeta Terra em suas garras a terra, transformando-a em uma bola de fogo. A cena, espetacular, mostra como Byrne e Claremont conseguiam manejar a narrativa para criar suspense e gerar ainda mais expectativa dos leitores.

Ao voltar à terra, a Fênix visita seus pais, com os quais tem um diálogo repleto de nuances, que ficam explícitos nos balões de pensamento. Se por um lado, a personagem está feliz em voltar para a família, por outro, a ocasião a aborrece. Essa variação entre uma e outra, a luz e as trevas, é demarcada perfeitamente por John Byrne e Terry Austin não só neste, mas em outro momento, quando ela conversa com Scott. Só de olharmos a imagem sabemos exatamente quem está no comando.



O ponto alto disso é quando Jean fala com Cíclope: “Eu... tenho fome. Sinto falta de uma alegria... de um êxatase incompreensível. Essa necessidade também é parte de mim... ela me consome”. E, na imagem, vemos o rosto de Jean no meio das trevas criadas por sua cabeleira, como se a personagem estivesse perdida em meio ao seu lado sombrio.

O pianista

 


Quem assistiu ao filme O Pianista deve ter ficado intrigado com o oficial nazista que salva Wladislaw Szpilman, escondendo-o no sótão de uma casa e lhe levando comida. O nome desse oficial era Wilm Hosenfeld e cartas suas recentemente publicadas revelam que ele não só salvou o pianista, como outras pessoas, pois discordava do genocídio praticado pelos alemães.
Hosenfeld era um veterano da Primeira guerra Mundial, na qual lutou muito jovem. Como outros alemães, sentia-se ressentido com o Tratado de Versalhes e achou uma resposta para suas ansiedades no partido nazista. Alistou-se em 1939, tendo participado da invasão da Polônia, mas seu entusiasmo com o nazismo terminou no dia em que viu uma criança ser executada por ter roubado um pouco de feno.
Sua revolta era expressa em cartas à mulher. Em uma delas dizia: "Envergonho-me de fazer parte dos culpados por uma tragédia tão grande, sem poder auxiliar as vítimas" . Em outra afirmava: “Pode um alemão ainda mostrar-se ao mundo? É para isso que nossos soldados morrem na frente de batalha? A história não conhece nada igual. Talvez os arcaicos tenham praticado o canibalismo. Mas nós que conduzimos a cruzada contra o bolchevismo, como podemos abater homens, mulheres e crianças em pleno século XX? Seremos normais? A culpa é tão grande que nos faz afundar no chão de vergonha.Será que o demônio adotou forma de gente?”. 
Como forma de resistência, começou a esconder fugitivos, a fornecer comida e documentos falsos. Salvou tantos quanto pôde. Mesmo as cartas enviadas à família já seriam suficientes para condená-lo à morte, mas mesmo assim ele continuou praticando o bem até ser preso pelos russos.  Apesar dos apelos de muitas pessoas que tiveram sua vida salva por ele, Stalin não abrandou sua pena, condenando-o a 25 anos de trabalhos forçados, praticamente uma condenação à morte na União Soviética stalinista. Ele morreu em 1952, num campo de prisioneiros, aos 57. 

Sua vida demonstra que, mesmo para os que estavam diretamente envolvidos com o regime, havia como fazer algo para evitar o massacre de pessoas. 

A Arte Inesquecível de Arantza Sestayo

 


Arantza Sestayo nasceu em San Sebastián, no País Basco (Espanha), em 1964. Autodidata na essência, iniciou sua trajetória profissional na década de 1980, dedicando-se inicialmente a retratos, design de cerâmicas e produção de cenários para desenhos animados.

Posteriormente, foi contratada pela Prefeitura de Castellón para decorar a fachada do Ateneo, um centro cultural local de prestígio. Teve publicado o livro Duende, uma coletânea de suas obras que inclui, inclusive, esse célebre trabalho de decoração urbana.

Em 2010, seu livro Wicked Kisses foi lançado internacionalmente em vários países, e ela participou da antologia Vampires; ambos os títulos foram publicados pela renomada Norma Comics.

Com influências profundas do Art Nouveau e do movimento pré-rafaelista, Arantza rapidamente se consolidou como uma das artistas mais requisitadas para ilustrações de fantasia no mercado. Suas imagens trazem geralmente mulheres de cabelos longos em ambientes românticos e fantásticos, misturando um clima de contos de fadas com um erotismo sutil.

Entre os seus trabalhos mais importantes estão capas para a revista Heavy Metal e participações em antologias de ilustrações como Reinas de la Ilustración Española del Siglo XXI (Norma Editorial) e Game of Thrones 20th Anniversary. Ela inclusive foi a artista responsável pelas imagens do calendário oficial de Game of Thrones de 2022 (Harper Collins).
















Perry Rhodan – A quinta coluna

 


Um dos chavões mais comuns da ficção científica – quase um paradigma do gênero são as situações em que uma nave pequena consegue se safar de uma situação extremamente perigosa e teoricamente impossível, efetuando fuga mesmo com diversas naves muito mais poderosas em seu encalço.

O volume 223 da série Perry Rhodan parece ter sido pensado para desconstruir esse chavão e mostrar o que realmente aconteceria numa situação real.

Na história, os cinco agentes terranos enviados para espionar os alienígenas maakhs retornam em uma nave avariada e pegando fogo enquanto são perseguidos por centenas de naves inimigas. São resgatados por uma nave terrana que os espera para levá-los para casa. A nave de resgate consegue também sobreviver por milagre em uma sequência sintetizada pela narrativa do escritor H. G. Ewers: “Os tiros disparados pelos maahks só provocaram um sorriso zangado em Hattinger. Continuou a levar a Androtest II obstinadamente para a frente”.

A capa original alemã. 


No final, mesmo depois dos seus estágios serem destruídos, a nave consegue penetrar na barreira de naves inimigas e entrar no transporte do sistema Horror e se teleportar para o sistema Gêmeos (onde estão os terranos) seguindo o fluxo de uma frota de ataque.

Parece tudo bom demais para ser verdade – e é. Na verdade, tudo faz parte de um plano dos maahks para introduzir cinco cópias perfeitas dos agentes humanos nas linhas terranas. O objetivo deles: preparar tudo para a destruição da humanidade.

Embora seja escritor por alguém que nem de longe é o meu autor predileto na série, esse é um volume que impressiona com a inteligência com que foi pensado  e pelas ótimas descrições das cenas de ação... um volume, aliás, que deixa o leitor roendo as unhas: os agentes infiltrados conseguirão cumprir sua missão de destruir a humanidade? Isso só saberemos no próximo número. Nem mesmo os péssimos diálogos de H. G. Ewers consegue estragar essa ótima história.

domingo, setembro 20, 2026

Batman e Sargento Rock

 


No número 84 da revista The Brave And The Bold, o cavaleiro das trevas se encontrou com o herói da II Guerra Mundial, Sargento Rock.

Encontro de personagens de eras diferentes podem parecer absurdas, mas nas mãos de roteiristas competentes, podem gerar histórias memoráveis, como o encontro do Homem-aranha com Sonja na revista Marvel Team-Up 79, com roteiro de Chris Claremont e desenhos de John Byrne. A dupla conseguiu explicar perfeitamente esse encontro inusitado.

Acontece que Bob Haney, o roteirista de The Brave and the bold, não era Chris Claremont e, apesar do desenho inspirado de Neal Adams, o resultado é sofrível.

A história começa com uma sequência confusa, em que o leitor não consegue distinguir passado de presente. 

A história começa em 1969, no Museu de Gotham. Um homem que parece ser o diretor do Museu mostra para Bruce Wayne uma estátua: “O arcanjo Gabriel, que na Segunda Guerra Mundial, foi contrabandeado da frança ocupada pelos nazistas para ficar seguro aqui. Finalmente alguém ligou reclamando a estátua”. Mas Bruce Wayne esclarece que o verdadeiro arcanjo nunca saiu da frança, o que significa que a estátua é falsa.

Tudo bem que Batman é o maior detetive do mundo, mas ele saber mais sobre os objetos de arte do que um diretor de museu, que teoricamente é alguém especializado no assunto? Parece que Bruce Wayne tirou essa conclusão da mesma forma que um mágico tira um coelho da cartola.

Uma sequência de ação totalmente desnecessária. 


Mas calma, leitor, isso é só o início. Bob Haney ainda vai aprontar muita confusão.

Logo depois os dois são atacados por um alemão, que atira no diretor do museu e ameaça Wayne. Logo depois, na mesma página, o alemão desaparece e alguém chamado Digby dá um soco em Bruce Wayne. Isso é um flash back, mas não há qualquer indicação disso e, como a sequência começa no meio da ação,a tendência do leitor é achar que se trata de uma continuação dos fatos mostrados anterioremente. Esse flash back mostra Bruce Wayne em Londres, na época da II Guerra Mundial, exatamente com a mesma cara da sequência do presente – ou seja, ele não envelheceu nada em quase 25 anos!

Bruce Wayne é incubido pelo governo inglês de ir à França ocupada descobrir um plano secreto dos alemães para parar a invasão da normandia. O playboy vai no mesmo avião que a companhia Moleza, do sargento rock, numa sequência de ação totalmente desnecessária, em que ele pula de uma moto diretamente na porta do avião e é agarrado pelo sargento.

Bruce Wayne descobre o plano dos nazistas: dedução ou super-poderes? 


Na França, Bruce Wayne entra num castelo ocupado pelos nazistas e descobre que o plano dos mesmos tem algo a ver com garrafas de vinho. Descendo à adega, ele percebe que as garrafas estão vazias. Mas olhando bem ele descobre que na verdade elas estão cheias de gás dos nervos!

Mais uma vez o maior detetive do mundo faz suas deduções da mesma forma que um mágico tirando um coelho de uma cartola. Como ele chegou à conclusão de que as garrafas estão cheias de gás dos nervos sem sequer analisar o conteúdo? Ele tem algum poder sobrenatural que faz com que seus olhos consigam analisar moléculas? Bob Haney diria: “não importa!”.

Para piorar, quando a história volta ao presente, Sargento Rock aparece do nada para salvar Bruce Wayne (o que já é um tremendo deus ex machina) e ele está envelhecido! O tempo passou para o Sargento Rock, mas não para Wayne?

Neal Adams imita o estilo de Joe Kubert. 


Bob Haney coloca o batman para narrar a história, mas isso se torna totalmente desnecessário, pois a narração sequer ajudar o leitor a compreender essa história extremamente confusa.

No final, a HQ vale mesmo pelo desenho de Neal Adams, que, além de dar o seu show habitual, ainda imita o estilo de Joe Kubert nas sequências em que aparece a companhia moleza (Kubert foi o desenhista oficial do Sargento Rock por anos).

Hulk: um herói a cada dia

 


Publicada na revista Hulk 39 da edtora Abril, “Um herói a cada dia” é um ótimo exemplo das razões pela qual a dupla Bill Mantlo e Sal Buscema criaram a mais longeva e mais elogiada fase do gigante verde.  
A história se passa em um futuro apocalíptico em constante guerra em que pessoas têm como único objetivo matar e destruir. Um desses guerreiro é acertado por um raio gama e enviado ao passado, indo parar exatamente no laboratório onde Bruce Banner faz suas pesquisas e, claro, entra em conflito com o Hulk.
A história é uma crítica à guerra. 


É o tipo de história que só poderia ser publicada na Marvel da Era de Bronze. Mais do que uma boa aventura, é um libelo pela paz e uma metáfora sobre como os soldados são doutrinados de forma a matarem sem nem mesmo saberem porque o fazem.
O “herói”  do título faz parte da crítica e tem sentido irônico.
O texto, mesmo resumido, guarda sua força “Na noite passada, o campo de batalha foi sua cama e os gases venenosos que pairam sobre ele foram seu corbertor. Para a café da manhã, uma injeção intravenosa de ração pré-programada. Ontem lutou com garra... hoje vai ter que ser melhor ainda, pois recebeu uma menção honrosa e foi declarado herói do dia (...) Um soldado apenas obedece ordens.


Uma curiosidade é que quando essa história foi publicada no Brasil a editora Abril mudou o rosto do Hulk na capa. 

Predadores humanos

 

Os psicopatas assassinos não são uma realidade apenas dos EUA, como durante muito tempo se acreditou. Eles estão aí, em todas as sociedades e, ao contrário do que se pensa, são, na grande maioria das vezes, indivíduos perfeitamente ajustados à sociedade, pais de família, simpáticos, pessoas acima de qualquer suspeita. Saber sobre eles, como eles são e como agem é a melhor forma de se prevenir contra eles. Assim, é bem-vindo o fato de que cada vez mais surgem nas livrarias obras especializadas no assunto. Entre elas, uma das mais interessantes é Predadores Humanos, de Janire Rámila (editora Madras, 216 páginas).
Janire parece ser uma pessoa indicada para a empreitada. É jornalista com mestrado em criminologia. É colaboradora de revistas como a Muy Interessante (versão original da nossa conhecida Superinteressante) e autora dos livros La maldición de Whitechapel e La ciência contra el crimen.
O interessante do livro de Janire é que, ao contrário da grande maioria das obras sobre o assunto, não se limita a apenas narrar casos famosos. Sua análise vai desde a definição de serial killer (alguém que matou ao menos três vezes, em momentos e lugares diferentes) até a discussão sobre o que fazer com eles.
O livro inicia pela diferenciação entre psicopata e psicótico, uma confusão comum tanto na imprensa como nos tribunais, já que muitos advogados de serial killeres tentam convencer o júri de que seus clientes são doentes mentais.
Segundo a autora, psicose é uma doença mental que provoca em quem a tem uma alteração do sentido de realidade: “O psicótico constrói um mundo próprio no qual o bem e o mal se fundem, levando o indivíduo a não ser consciente de seus atos”. Ou seja: o psicótico é um doente, que não tem consciência de seus atos e, portanto, não pode ser responsabilizado por eles.
Já os psicopatas são pessoas perfeitamente integradas à sociedade, capazes de distinguir o certo do errado. São frios e calculistas. Ao contrário dos psicóticos, que geralmente matam num ataque de fúria descontrolada, os psicopatas planejam seus atos. São também superficialmente simpáticos e agradáveis – uma máscara criada para ser mostrada para a sociedade. Psicopatas também são mestres da mentira, capazes de enganar e manipular suas vítimas.
Um quadro apresentado pela autora mostra as diferenças radicais entre psicopatas e psicóticos: enquanto os primeiros são aparentemente ajustados à sociedade, os segundos são socialmente imaturos e reservados; enquanto os primeiros têm forte auto-controle e auto-estima, os segundos têm personalidade frágil e mostram precisar de ajuda; enquanto os primeiros têm controle durante o assassinato, chegando a alterar a cena do crime para esconder provas ou mandar mensagens, os segundos são descuidados e atabalhoados; enquanto os primeiros seguem os meios de comunicação e normalmente fazem recortes sobre seus crimes, os segundos não acompanham as notícias; enquanto os primeiros são presos-modelo (pois sabem que isso diminuirá sua pena), os segundos têm comportamento violento e conflituoso quando são presos.
O capítulo mais interessante do livro, pouco abordado em outras obras, é “O problema do tratamento”, que inicia com uma pergunta instigante: o que podemos fazer para evitar que o assassino serial volte a matar?
O problema é mais complexo do que aparenta. Primeiro porque o psicopata não é um doente mental, como tal, não pode ser internado em centros psiquiátricos e, se o forem, podem facilmente manipular os psicólogos para fazerem crer que estão curados (uma das principais características dos psicopatas é a sua capacidade de mentir e manipular). Por outro lado, se forem presos junto com os criminosos comuns, têm os mesmos direitos de redução de pena de qualquer outro preso e, como sempre são presos exemplares, de ótimo comportamento, conseguem facilmente a redução da pena. Além disso, a mentalidade atual é de que as prisões servem como meio de reabilitar o detento e reincorpora-lo à sociedade. “Até agora, não se conseguiu inserir um só assassino ou estuprador serial”, afirma a autora “Por quê? Simplesmente porque já são velhos para aprender a sentir esse carinho que nunca demonstraram em relação aos seus semelhantes estando livres. Não se pode transformar um feroz assassino em um vizinho amável mediante reuniões de grupo”.
Além disso, os psicopatas assassinos são uma exceção às teorias mais convencionais sobre o crime. Um exemplo: pesquisas realizada nos EUA em 2005 mostram que as vítimas de assassinato são preferencialmente homens negros e as mulheres brancas são o tipo com menor probabilidade de serem assassinado. Quando se trata de assassinos seriais, a estatística se inverte: as mulheres brancas são o grupo mais propenso a morrer e os homens negros os menos propensos. Enquanto, na maioria das vezes, os criminosos são homens negros e pobres (reflexo direto de suas condições sociais), entre os psicopatas assassinos, geralmente são homens brancos, de classe média, com empregos estáveis e muitas vezes donos de seus próprios negócios.
Esses dados demostram o quanto o tema é importante nos dias atuais. Só com conhecimento a sociedade pode discutir soluções para esse problema. Nesse sentido, livros como Predadores humanos podem ser uma grande contribuição.
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Conan – A libertação de Thugra Khotan

 

Algo que diferencia Conan da maioria das histórias de fantasia (e até mesmo de espada e magia) é que as histórias de Robert E. Howard tinham muito de terror, herdado de Lovecraft.  O terror criava o elemento  que equilibrava o erotismo latente das histórias, replicando os princípios de Eros e Thanatos. Soma-se a isso um protagonista que mais se aproximava de um anti-herói e temos a fórmula do que fez Conan um personagem tão famoso na literatura e nos quadrinhos.

A libertação de Thugra Khotan, com roteiro de Roy Thomas e desenhos de John Buscema e Alfredo Alcala (e publicado originalmente em Savage Sword of Conan 2) apresenta todos esses elementos.

Na história, um ladrão invade um antigo templo para roubar tesouros e, no processo, liberta um feiticeiro que estava preso ali há séculos. A splash page inicial, com o ladrão aproximando-se do templo, é um dos melhores exemplos de como a dupla Buscema – Alcala era inspirada. A arte destaca o quanto o local é soturno, repleto de sombras  que parecem espreitar o personagem. O texto diz: “Lá está Shevatas, o ladrão... o único resquício de vida entre os colossais monumentos de desolação e decadência”.

A princesa atormentada por pesadelos. 

A história pula para o pequeno reino de Khoraja, onde a bela princesa Yasmela é atormentada em sonhos pelo espectro de Natohk: “Em breve, como uma avalhanche, eu passarei sobre as territórios dos meus antigos inimigos! Os soberanos daquelas terras fornecerão os crânios que serão usados como cálices... mas você... você será a minha Rainha, princesa... você aprenderá as formas de prazer há muito esquecidas...”.  as imagens mostram a princesa atormentada a ponto de parecer uma mendiga, os cabelos desgrenhados, a expressão assustada.

Aconselhada por uma criada, a rainha procura a estátua do deus Mitra, que dá um conselho estranho para a princesa: sair na rua, de madrugada, e convidar o primeiro homem que encontrar para se tornar o general de seu exército.

Claro que o homem que ela encontra é... Conan, que até então vinha trabalhando como mercenário para o exército do país. 

A dupla Buscema-Alcala consegue ilustrar até aquilo que seria difícil de descrever.


É conan que irá salvar o reino e a princesa, libertando o mundo da maldição do feiticeiro. A história, tirada diretamente de um conto de Howard, é um exemplo de como a equipe da revista estava em sintonia, conseguindo resultados igualmente assustadores e empolgantes – não por acaso essa história se tornou um clássico. Entre as sequências memoráveis, há uma em que a montaria do feiticeiro muda de forma. Buscema e Alcala consegue transformar em imagens algo que não poderia ser descrito.

No Brasil essa história foi publicada pela primeira vez em A espada selvagem de Conan 3.