domingo, outubro 04, 2026

Jornada nas estrelas – O sobrevivente

 


A Enterprise descobre um planeta jovem cuja atmosfera e flora parece inconsistente com sua idade e Kirk resolve descer ao planeta para fazer investigações geológicas. No momento em que estão descendo, uma mulher aparece na sala de teletransporte e mata o responsável, simplmente tocando-o (todas as suas células explodem).

Quando o capitão Kirk, o Dr. McCoy , o tenente Sulu e o geólogo D'Amato descem, o planeta é abalado por um forte tremor, que, misteriosamente, envia a Enterprise milhares de anos luz de distância do local. Além disso, a mulher volta a aparecer na nave e danifica os sistema de controle do motor, que usa matéria e anti-matéria.

Isso gera um duplo suspense: a tripulação conseguirá consertar o defeito e chegar a tempo de salvar o grupo de descida? O grupo de descida conseguirá sobreviver aos ataques da mulher misteriosa?

Embora a premissa seja interessante, o roteiro peca em alguns pontos. À certa altura, por exemplo, Kirk diz que a mulher matou o responsável pelo teletransporte fazendo explodir todas as suas células, algo que ele não tinha como saber.

Além disso, por que a mulher não atacou diretamente o grupo de descida, já que seu objetivo era defender o planeta contra possíveis intrusos?

A caracterização de Spock também peca por mostrá-lo ríspido em diversos momentos, o que não condiz com sua caracterização convencional, em que ele é mostrado sempre lógico e racional, mas também amigável.

Enfim, O sobrevivente é um daqueles episódios que ficam no meio termos: não são grandes exemplos de qualidade, mas também não chegam a decepcionar.  

Xisto no espaço

 


Olhando em retrospecto, percebo que dois livros, lindos na pré-adolescência, foram essenciais pelo meu fascínio pelos gêneros da fantasia e da ficção-científica. O interesse pela fantasia surgiu com As aventuras de Xisto. Já a ficção científica, com Xisto no espaço, ambos lançados na coleção Vaga-Lume e de autoria de Lúcia Machado de Almeida.

Recentemente consegui num sebo o último e o reli agora com um olhar de adulto sobre aquela obra lida no fim da infância.

A história começa num laboratório, onde dois cientistas captam uma mensagem vinda de outro planeta. Os dois são construídos como alívios cômicos, estratégia da escritora para garantir o interesse de crianças.

Protônius é um homem alto, de óculos com aros de tartaruga e cabelos compridos sempre revoltos. “Vivia inventando coisas esquisitas e tinha fama de doido (mas não era)”, explica a autora. Já o professor Van-Van é um homem baixo, de barba enorme, dado a desmaios repentinos e a falas incompreensíveis.

A mensagem captada por eles é estarrecedora: “Caso Xisto não venha até Minos, atacaremos vosso planeta quando este sair de seu eixo. Inútil reagir. (Assinado) Rutus, o que não tem sangue, senhor de Minos”.

Xisto, neste livro, já foi alçado à condição de governante local, apesar da sua pouca idade (17 anos) e continua o mesmo idealista guloso de sempre, louco por pastéis de queijo. Ele resolve enfrentar o desafio de uma viagem espacial e ir para Minos.

Um dos aspectos interessantes do livro é como Lúcia Machado de Almeida descreve a astronave, seus equipamentos e forma de funcionamento. Um exemplo: “Afim de tornar respirável o ar no interior da astronave, o Professor Van-Van preparara um recipiente com soda cáustica, clorato, peróxido de potássio e outros produtos destinados a absorverem o gás carbônico eliminado pela expiração, e a fabricarem o oxigênio necessário à respiração. Além disso, uma espécie de aquário cheio de algas unicelulares foi colocado no mesmo lugar, a fim de reforçar a purificação da atmosfera”. A decolagem se dá em estágios, com foguetes se desprendendo.

O livro foi escrito em 1967, auge da corrida espacial (os americanos chegarima à Lua em 1969) e fica óbvio que a autora acompanhava as notícias sobre o assunto e tentava se inteirar de como seria uma viagem espacial. Ela, aliás, antecipa alguns aspectos, como o passeio no espaço com pistola de pressão, algo que seria de fato usado por astronautas. Ela também usa informações científicas, como a descoberta da penicilina, de forma criativa para eliminar um perigo.

Apesar da imaginação da autora surpreender em muitos pontos do livro, sua percepção da vida em outros planetas é limitada. Xisto e seu amigo Bruzo chegam, por exemplo, em um planeta chamado Nívea em que os habitantes são exatamente iguais aos terrestres e o que muda é apenas a fauna, muito grande ou muito pequena: “Incrível! Animais das selvas reduzidos a cinco centímetros de tamanho! Camelos de um dedo, ursos do tamanho de uma caixa de fósforos... E tudo isso vivo, correndo de um lado para outro”.

A autora, entretanto, consegue fazer uma obra empolgante, mesmo para um leitor adulto, pela trama um tanto ingênua, mas bem bolada, em que, por exemplo, um gancho jogado lá no início do livro, como o lenço encharcado de essência de feno, torna-se fundamental no desfecho da trama.  

O livro encanta também por sua visão pacifista do mundo. No final, a grande ameaça de Rutus é debelada sem o uso de violência. Xisto é um herói que coloca o cérebro acima dos músculos e dos punhos.

Demolidor – Trilhas de papel

 


Durante sua passagem pelo Demolidor, Frank Miller conseguia equilibrar perfeitamente ação desenfreada, trama policial, trama política e humor. Bom exemplo disso é a história trilhas de papel publicada em Daredevil 178.

Na história, um vereador, Randolph Cherryh, tem a sua campanha financiada pelo Rei do crime, que pretende usar o expediente para chegar ao poder político.

As sequências com Luke Cage e Punhos de Ferro são humorísticas desde o início. 


O Clarin Diário denunciou o esquema e contratou o escritório de Nelson & Murdock para denfendê-lo, o que coloca o Demolidor diretamente no centro dos acontecimentos. Um rapaz tem uma cópia de um cheque que comprovaria a ligação entre o candidato e o mafioso e todos estão atrás dele, incluindo Tucão e Mongol e o Demolidor.

Acontece que, temendo pelo sócio, Nelson Foggy contrata Punho de Ferro e Luke Cage para protegerem Matt Murdock.

O Demolidor faz os outros dois heróis de bobos. 


Eu lembro quando li essa história pela primeira vez, o quanto ri das situações criadas por Miller com os dois heróis sendo enganados por Matt Murdock para que ele possa se disfarçar de Demolidor e encontrar o garoto com o cheque. Na época, era algo totalmente inédito mostrar heróis em situações ridículas e é exatamente o que acontece aqui.

Ação: Elektra é testada pelos capangas do Rei. 


Em uma narrativa paralela mais séria, Elektra é contratada pelo Rei do crime como sua assassina particular – e isso é feito em várias sequências de ação, incluindo uma surra em capangas do mafioso em um teste de suas habilidades.

Miller estava construindo meticulosamente o grande drama que colocaria Matt Murdock em rota de colisão com a mulher que ele mais amava.

Floresta Negra, da dupla Gian-Bené

 


Floresta Negra foi a primeira história da dupla Gian-Bené. Foi também um divisor de águas para a arte de Bené, que até então era caracterizada pelo exagero, principalmente na musculatura dos personagens. Bené fez a história como uma homenagem a Hall Foster, criador do Príncipe Valente e, para simular o estilo do mestre, usou pincel para fazer a arte-final. Por outro lado, a diagramação, a perspectiva e a anatomia remetiam ao mestre José Luís Garcia-Lopez. Imagine Hall Foster mistura com Garcia-Lopez. Essa era a arte de Floresta Negra. Essa história marca a entrada de Bené numa fase totalmente madura de seu trabalho e virou instantaneamente um clássico.
Lembro que quando ele me mostrou os originais, fiquei maravilhado. Já gostava do traço do Bené, mas ali tinha um verdadeiro salto estético, algo que mostrava que ele seria o grande desenhista de terror dos anos 1990.
Confesso que quando ele me pediu para escrever o texto, senti um frio na barriga, mas aceitei. Bené tinha uma boa ideia de como seria o texto, inclusive no fato do demônio falar em rimas – uma referência direta ao personagem Etrigan, da DC, uma das grandes criações do mestre Jack Kirby.
A história acabou sendo publicada na revista Calafrio número 45 e fez grande sucesso com os leitores, fazendo o editor Rodolfo Zalla pedir mais histórias da dupla.

Uma curiosidade é que a revista Calafrio tinha uma estrutura que tinha que ser seguida por todas as histórias - e a floresta negra não se encaixava em nenhum dos modelos de roteiro deles. Aí o editor mudou o final para encaixar. No último quadro, quando o cavaleiro coloca o crucifixo para abençoar a floresta e afastar novos demônios, o texto mudou para: "Você coloca o crucifixo na árvore, pois sabe que agora é o novo DEMÔNIO DA FLORESTA NEGRA!!!", um texto totalmente em desacordo com o que o desenho mostrava.

Mister no - Piratas do rio

 


Os ratos d’água são um fenômeno comum na Amazônia. Bandidos que percorrem os rios para roubar navios, eles são o assunto da trama de Mister no que inicia no número 8 e vai até o 10 da série. 

Na história, o herói vai a Belém comprar uma peça sem a qual o seu avião não pode voar. No meio da viagem, o navio é assaltado por piratas em busca de uma carga de ouro. Para aproveitar a situação, eles resolvem roubar também os passageiros e isso incluí uma maleta na qual está a tal peça do avião. 

A peça do avião do herói é roubada. 


Depois de uma troca de tiros protagonizada por Mister No, dois deles morrem e com eles são encontrados pingentes com jacarés de prata, o que se torna uma pista a ser seguida. 

Depois de ser acusado de homicídio, o herói acaba se aliando a um capitão da polícia para invadir uma reunião dos piratas e descobrir quem é o mistério chefe que usa uma máscara vermelha. 

A única pista é um jacaré de prata. 


Sérgio Bonelli, o roteirista, une com perfeição aventura e humor em sequências memoráveis.

No humor, por exemplo, temos a sequência em que Mister No, para fugir dos perseguidores, dorme dentro de um barco, embrulhado por redes de pesca. “A ginástica de ontem à noite quase me deixou fora de combate. Ginástica? Foi uma olimpíada! Salto em altura... corrida de obstáculos... nado e mergulho... e sobretudo tiro ao alvo, onde eu fazia o papel de alvo!”.

Logo a seguir ele é capturado por um policial em ronda, mas o que para ser uma situação, torna-se humor puro quando os gatos, atraídos pelo cheiro dos peixe, começa a seguir os dois. “O sargento barroso sabe trabalhar”, diz alguém. “Conseguiu capturar um gringo e uma dúzia de gatos!”.  

 

A história une aventura e humor. 

A história tem também um trecho curioso, em que o soldado amazônida reproduz o discurso colonial sobre a Amazônia: “Sempre me perguntei o que o levou a abandonar o país mais evoluído da terra para se sepultar nesta espécie de purgatório dos vivos”, diz ele. Ao que Mister No retruca, apontando para a floresta: “O que me levou? Um bocado de motivos mais ou menos justificados, capitão! E aí está um: olhe ao redor e entenderá”.

A cena mostra uma curiosa inversão, em que o colonizado se apropria do discurso do colonizador de que a Amazônia é um local atrasado e, em uma nova inversão, é o estrangeiro que tenta lhe abrir os olhos para a riqueza cultural e ambiental da sua região.

O colonizado reproduz o discurso do colonizador sobre a Amazônia. 


Não bastasse todos os méritos, a história tem uma tremenda reviravolta no final do 9, que faz o leitor roer as unhas.

Apesar de todas as qualidades, a história tem um defeito: na sequência do navio as pessoas vão sentadas no chão do convés. Qualquer um que já tenha viajado de navio na Amazônia sabe que a tradição é os passageiros irem em redes.

Fundo do baú - Thunderbirds

 


Thunderbirds é um dos mais criativos seriados de todos os tempos e também um dos mais queridos.
O seriado surgiu em 1965 e era o ápice do trabalho dos ingleses Gerry e Silvia Anderson, que já haviam lançado seriados com marionetes, mas foi com Thunderbirds que eles alcançaram a fama e encantaram milhões de fãs no mundo todo.
O seriado contava a história de um ex-astronauta que liderava de uma organização chamada resgate internacional. Quando havia algum acidente, sua equipe entrava em ação para socorrer os necessitados.
O que chamava atenção no seriado era o detalhismo dos bonecos e dos veículos usados, entre elas um avião, um submarino e até uma estação espacial. Além disso, eles usavam jargões que se tornaram célebres, como “Thunderbirds em ação”, que posteriormente foi copiado por outras séries.
Foram produzidos 32 episódios.

Filme 100% amapaense, Magrela passa a integrar o catálogo do Itaú Cultural Play

 

Filme 100% amapaense “Magrela” passa a integrar o catálogo do Itaú Cultural Play

Em um furo jornalístico exclusivo, confirmamos que o curta-metragem de ficção “Magrela”, uma produção 100% realizada no Amapá, passará a integrar o catálogo da plataforma de streaming do Itaú Cultural (Itaú Cultural Play). A conquista representa um passo decisivo para a difusão do cinema amazônico em todo o território nacional, permitindo que o público de todo o Brasil tenha acesso gratuito a uma obra que celebra a identidade, a cultura e a resistência do Norte do país. Leia mais

sábado, outubro 03, 2026

Os quadrinhos e o castelo do Graal

 No livro HE, o psicólogo norte-americano Robert Johson explica a psicologia masculina através do mito da busca do Santo Graal. O personagem principal é o jovem Percival, um cavaleiro da Távola redonda.


Certo dia, durante suas andanças, ele entrou em um castelo belíssimo e imponente. Era ali que estava o Santo Graal, o cálice usado por Jesus durante a última ceia.
Todos o recepcionaram muito bem e ele se sentiu feliz e maravilhado com os poderes do Graal. O cálice podia, por exemplo, fazer surgir a comida que o convidado desejasse. E podia também curar qualquer ferida.

Na manhã seguinte, quando acordou, ele não encontrou mais ninguém no castelo. Estava completamente abandonado, e ele teve de ir embora.
Percival passaria o resto de sua vida tentando encontrar novamente o castelo do Graal.
Para Robert Johnson, o episódio é uma metáfora de algo que ocorre com todos os jovens durante a fase da pré-adolescência.
Essa é uma fase particularmente difícil, pois o menino não é mais uma criança, mas ainda não é adulto.
Todos os meninos entram no castelo do Graal ao menos uma vez na vida e essa experiência irá marcá-los pelo resto da vida. Assim como Percival, eles passarão o resto da existência tentando voltar para o castelo.
O que tudo isso tem a ver com quadrinhos?
Pare para pensar. Se tem mais de vinte anos e continua gostando de quadrinhos é porque há uma boa lembrança associada a eles.
Em outras palavras: muitas pessoas - e eu entre elas - entraram no castelo do Graal graças aos quadrinhos.
Tenho conversado leitores de gibis e todos eles têm algum episódio semelhante ao de Percival.
José Aguiar, desenhista da Manticore, saía de casa todos os dias de manhãzinha com sua bicicleta e ia direto para um sebo próximo de sua casa, onde ele comprava ou trocava gibis.
Essa experiência o marcou profundamente e eu não tenho dúvida nenhuma de que esse foi um dos fatores que o influenciaram a se tornar desenhista.

Lembro que quando estávamos na sétima série a revista preferida de todos era a Superaventuras Marvel. Nós sabíamos a data em que ela chegava nas bancas e saíamos correndo para ver quem chegava primeiro.
Como tinha pouco dinheiro para comprar gibis, eu usava de um estratagema. Eu conhecia um sebo que ficava próximo da Igreja e que vendia revistas a preço de banana. Eu passava lá todo Domingo e comprava as Heróis da TV, que uma amigo da escola colecionava. Depois eu vendia para ele, pelo dobro do preço, mas antes eu lia e relia a revista e esses momentos eram tão sagrados que me faziam esquecer a chateação que era ser obrigado a ir à igreja.
Aquela experiência - comprar a revista e nem esperar chegar em casa para começar a lê-la - era uma verdadeira entrada no castelo do Graal.
Só com a saga da Fênix foram centenas de entradas no castelo do Graal, até porque os X-Men, assim como a busca do Cálice Sagrado, são um mito sobre o fim da infância (prometo falar sobre isso em outro artigo).
Cada vez que eu leio uma HQ é como se eu estivesse voltando àquela época mágica da pré-adolescência.
E quando escrevo histórias, fico imaginando que talvez eu esteja proporcionando a outros garotos as mesmas sensações que eu sentia lendo quadrinhos.
É interessante notar que o tipo de quadrinho que você lê na pré-adolescência vai influenciar seu gosto pelo resto da vida.
O desenhista Antonio Eder odeia super-heróis. Também, pudera: ele passou toda a pré-adolescência lendo revistas Kripta e nesse período nunca botou os olhos num gibi de super-heróis.
O desenhista Bené Nascimento (Joe Bennet) passou essa fase lendo HQs do Jack Kirby. Hoje ele compra qualquer coisa sobre o velho Jack, até caríssimos fanzines importados.
Pare um instante e pense. Se você gosta de quadrinhos, é bastante provável que você tenha, em algum momento, entrado num castelo do Graal feito todinho de histórias em quadrinhos.

A sensação de setembro, de Marcos Rey

 


Confesso que A sensação de setembro foi o único livro de Marcos Rey que pensei em abandonar no meio – logo eu, fã convicto do escritor. Para começar a capa não ajuda e talvez fosse mais adequada para um romance teen. E a trama demora bastante a engrenar. Mas fui feliz em ir até o final, embalado mais pela boa prosa de Rey do que pela trama em si: na terceira parte, o livro dá uma virada e se torna uma interessantíssima comédia de erros ao melhor estilo de grandes cineastas, como Billy Wilder (que aliás, é citado no livro).
A história inicia com a morte de um industrial, alvejado por um vaso de flores caído da janela de um velho maestro que vive sozinho com seu gato. A sequência inicial é primorosa: “O vaso, delicada peça de cerâmica doméstica, verde-musgo, com desenhos incaico, bamboleou no peitoril da janela do 13º andar, no antiquado ritmo de conga, precipitou-se no espaço cinzento da tarde paulistana, e adeus senhore Krememelbein”.
A partir da morte do empresário, a história se concentra na viúva, a gorda Duducha e seu filho super-dotado, Rudi, cujo maior interesse é construir miniatura de navios de guerra, que atiram de verdade. Como personagens secundários, o psicólogo, preocupado com o fato de que o garoto não parece ter interesse pelo sexo oposto (e que elabora uma trama para despertar-se a sexualidade usando uma playmate – a tal sensação de setembro) e uma empregada doméstica negra, Claudete, que acaba incendiando o geniozinho, mas enfrenta a feroz resistência de todos.
A história lembra muito as pornochanchadas, gênero cinematográfico (famoso no Brasil na década de 1980) do qual Marcos Rey foi um dos principais roteiristas. Nas pornochanchadas o erotismo é sempre mais insinuado que mostrado e quase sempre envolto com um toque de humor.

Marcos Rey brinca com o texto, como um craque que faz o que quer com a bola. Faz referências à linguagem de cinema e de quadrinhos (“balõezinhos de histórias em quadrinhos, cheios de exclamações, erguiam-se das mesas vizinhas”) e até mesmo com a auto-censura: “E depois de todo esse baixo calão, e muito mais, que a mãe do autor aconselhou eliminar, a moça Bruna caiu num pranto desesperador”). É esse “brincar com a linguagem” que segura o leitor, prendendo-o até a virada que transforma o livro na comédia de erros já aludida anteriormente.  

As vidas de Chico Xavier

 

 


Chico Xavier é uma das figuras mais importantes e polêmicas do Brasil. Sua popularidade é tão grande que, mesmo depois de morto, continua levando milhares de pessoas para Uberlândia, transformando o turismo religioso na principal fonte de renda da cidade. Não admira, portanto, que a vida do médium fosse transformada em uma biografia.
Ainda assim, o jornalista Marcel Souto Maior teve que vencer vários obstáculos para escrever o livro “As vidas de Chico Xavier”. O primeiro deles veio dos próprios colegas jornalistas. “Chico Xavier? Não é o Chico Buarque, não? Chico Anysio? Chico Mendes?”, ironizavam os amigos do Jornal do Brasil.
Outro obstáculo filho adotivo de Chico, Euripedes. Preocupado com a saúde do pai e em preservá-lo, Euripedes não deixou o jornalista passar nem do portão. Ainda assim, Marcel insistiu: resolveu assistir a uma sessão no Centro Espírita da Prece, fundado por Chico muitos anos antes. Depois que o médium deixara de comparecer, o público minguara e eram apenas 14. Surpreendentemente, naquele dia, ele resolveu reaparecer, com um sorriso largo e um terno mal-ajambrado.
Cético, Marcel não soube explicar as lágrimas que começaram a desabar em borbotões de seu rosto, sem nenhuma razão especial.
Terminada a sessão, o jornalista procurou Chico para pedir autorização para a biografia. Chico respondeu de forma indireta, evitando a palavra não:
- Deus é que autoriza.
- E ele autoriza?
- Autoriza.
Mas a muralha de Euripedes ainda continuava existindo. O jeito foi apelar para o outro filho adotivo de Chico, Vivaldo, que mora nos fundos da casa do pai.  Quando o jornalista o visitava, Chico chamou o filho por um interruptor. Quando Vivaldo saiu, um calor insuportável tomou conta das mãos do jornalista. Sobressaltado, ele largou a caneta, saltou do sofá e correu para o quintal. Ficou lá, sacudindo as mãos na noite fria, até que Vivaldo aparecesse:
- Meu pai disse que sua biografia vai ser um sucesso. Parabéns!
O episódio mostra bem os mistérios e a mística por trás de Chico Xavier. Chico escreveu quase 400 livros, cartas de pessoas desencarnadas, virou celebridade nacional. No entanto, até o final da vida, viveu de forma modesta, sem grandes fortunas, sendo quase um prisioneiro de seu próprio sucesso.
O fato do livro ser escrito por um cético, mas que passou pelas duas experiências acima (do choro descontrolado e das mãos em fogo) faz com que ele tenha a abordagem correta, não caindo nem na armadilha de um livro doutrinário, nem na reportagem sensacionalista que o filho adotivo de Chico tanto temia.
O que se revela é uma figura ímpar, que angariou milhões de fãs no Brasil todo e igual número de detratores. Essa dualidade já se apresentava na infância do médium, quando ao ouvir que ele conversava com os espíritos, a madrinha dizia que ele tinha o diabo no corpo e lhe fincava garfos na barriga na tentativa de espantar o mal. Chico, convencido de que que conversar com espíritos era errado, tentava tudo para se curar. Chegou até a desfilar em uma procissão com uma pedra de 15 quilos na cabeça, repetindo mil vezes a ave-maria. Nada adiantava. Quanto mais rezava, mais via espíritos.
O livro nos revela um Chico sofredor, que não era compreendido na infância e apanhava por causa da mediunidade. Quando finalmente se tornou adulto, sofria com doenças, como a catarata que fazia seus olhos sangrarem. À noite, era atormentado por espíritos baixos, que lhe provocavam pesadelos em, alguns casos, tentavam matá-lo usando para isso pessoas com mediunidade. Ao se queixar com seu guia espiritual, Emmanuel, recebia reprimendas. Tinha que aceitar de bom grado tudo que lhe acontecia, pois servia para expiar culpas de outras encarnações. Quando se tornou uma figura famosa, sofria com o assédio, com pessoas que queriam falar com ele mesmo quando ele estava muito doente. Além disso, Chico nunca ganhou nada com isso, pois todo o dinheiro das vendas dos livros ia para instituições de caridade.
Sua missão espírita parecia mais um castigo do que um prêmio. Por outro lado, havia as tentações. Uma vez Chico entrou no banheiro e encontrou três mulheres tomando banho nuas, jogando água umas nas outras e rindo para ele, convidativas. O médium fechou os olhos e rezou. Quando os abriu, elas haviam desaparecido.
Abnegado, Chico usava a humildade para resistir aos sofrimentos e tentações do mundo. Dizia que era um Cisco Xavier, brincando com o próprio nome. Quando lhe disseram que talvez fosse eleito para a Academia Brasileira de Letras, ele perguntou: “E agora aceitavam cavalos lá?”.
Se a biografia revela esse lado humilde, abnegado e caridoso, revela também um homem carismático e divertido. Chico gostava de contar casos e gostava de rir. Uma vez, convidado pelos amigos a pescar, foi, mas não pescou nada. Passaram a tarde na beira do rio e os amigos pegaram muito peixe. De Chico não se aproximava nem lambari. Ele acabou confessando: não tinha colocado isca no anzol, para não incomodar os bichinhos. Ao ser assediado por uma figura demoníaca, que lhe perguntava se tinha sido chamada, ele saiu-se com essa: “É que a vida anda difícil e queria que o senhor me abençoasse em nome de Deus ou das forças que o senhor crê”. O diabo reclamou: “É só a gente aparecer que você já cai de joelhos!” e sumiu.
Em suma: As vidas de Chico Xavier é um livro que abarca as várias facetas dessa famosa personalidade, num livro leve e gostoso de ler. É tão fascinante que serviu de base para o filme de Daniel Filho sobre a vida do médium mineiro.

Clarabela e o jornalismo

 

 

A primeira lição que eu tive sobre o jornalismo aconteceu muito antes de entrar na faculdade.
Eu era ainda uma criança quando li, numa revista Disney, uma história em que Clarabela era contratada como repórter. A situação era meio surreal, pois ela não era formada em jornalismo, não tinha experiência e nem mesmo pauta. O editor simplesmente mandou que ela fosse a campo em busca de notícias.
 A primeira matéria dela foi sobre coisas que aconteciam com ela: o que ela havia feito durante o dia, etc. Era até informação, mas que só interessava a ela e aos amigos. Quando o editor vê o texto, fica desesperado: "Não, a notícia não pode ser sobre você!".
E lá foi a Clarabela em busca de outra notícia...
Nisso ela passa na frente do banco e acaba sendo tomada como refém.
Apesar do assalto ter  sido algo que atiçara a curiosidade de todos, Clarabela não escreve a notícia, pois o fato havia acontecido com ela e o editor havia dito que ela não era notícia.
O leitor, esperto, descobria que ambos, editor e repórter eram verdadeiras antas e que notícia é informação, mas um tipo específico de informação: a que tem interesse público. O cotidiano de Clarabela não tem interesse público, mas o assalto ao banco tem. 

Homem-aranha: todos os homens do rei

 

Nós estamos acostumados a ver o Rei do Crime como um estrategista cruel, capaz de destruir a vida do Demolidor apenas usando suas conexões políticas. O tipo de pessoa que quebra o pescoço de um chefe mafioso apenas porque este ousou discordar dele. Pouca gente, no entanto, se lembra que ele era um vilão menor do Homem-aranha. Era um vilão fanfarrão, que usava ajudantes uniformizados e criava planos que na grande maioria das vezes eram um fiasco.

Exemplo desse tipo de história é “Todos os homens do rei”, publicada em The Amazing Spider-Man 163 e 164 de 1976 com roteiro de Len Wein e desenhos de Ross Andru. Na história, o filho do Rei está em animação suspensa depois de ter enfrentado o quinto Hibernante e o vilão pretende usar a energia vital do Homem-aranha para revitalizá-lo, algo que ele consegue, momentaneamente, deixando o herói solto, mas totalmente sem forças.



Nessa época, o Rei gostava de botar as mãos na massa. É ele que enfrenta o Homem-aranha (os dezenas de campangas uniformizados se contentam em apertar botões) e é de novo ele que enfrenta o herói quando ele consegue a energia de volta. Era um roteiro divertido, típico dos anos 1970, mas também é interessante ver como um dos grandes roteiristas do período não conseguiu ver algo a mais no Rei. Há algum conflito familiar quando o filho descobre como foi renascido, mas nada muito profundo.

Uma curiosidade é o título dessa história, que remete diretamente ao livro Todos os homens do presidente, de Carl Bernstein e Bob Woodward, sobre o Watergate e os escândalos do governo Nixon. Talvez se tivesse levado o próprio título mais a sério, Len Wein tivesse antecipado o Rei que todos nós amamos odiar.  

No Brasil essa história foi publicada em Homem-aranha 39, da RGE e na Teia do Aranha 34, da Abril.

Aconteceu naquela noite

 

Aconteceu Naquela noite foi o primeiro filme de grande sucesso de Frank Capra (ganhou 5 dos principais prêmios do Oscar), o diretor que seria símbolo da era pós-recessão com suas histórias de caráter otimista. 
Em Aconteceu... uma garota (Claudette Colbert), filha de um milionário, foge de seu pai e passa a ser procurada por todo o país. Numa viagem de ônibus ela conhece um jornalista (Clark Gable) desempregado que vê na fuga uma grande reportagem capaz de fazê-lo conseguir seu emprego de volta. Os dois viajam dias juntos, de ônibus, a pé, de carona, de carro, em situações que oscilam entre o lirismo e o humor. 
Como a censura era forte na época, o diretor e roteirista usa de metáforas visuais, como o cobertor, colocado entre as camas, chamado de Muralha de Jericó. 
Capra não é inovador nem no uso da câmera, nem na montagem, mas, assim como Billy Wilder tem uma característica essencial dos grandes narradores: usa as imagens para contar a história. Não há um único take desnecessário ou mesmo planos abertos. O foco é todo nos atores e na história. Com isso, o diretor consegue criar uma química entre a dupla que só existia na tela. 
Na verdade, Clark Gable havia sido emprestado à Colúmbia como punição por sua constante recusa de roteiros na MGM e Claudette Colbert havia sido igualmente emprestada pela Paramount por medida disciplinar. Dizem que os dois se odiavam e que a atriz simplesmente não queria fazer uma das cenas mais famosas do filme, aquela em que a mocinha mostra as pernas para conseguir uma carona. 
Colbert, sempre de má vontade, acabou se encaixando bem no papel da garota mimada. Aconteceu naquela noite pode não ter a mensagem espiritual de A felicidade não se compra ou o conteúdo crítico de A mulher faz o homem. Ainda assim, é uma ótima comédia de costumes com uma das melhores duplas do cinema. E, convenhamos, o título é muito bom.

A arte marcante de Milton Caniff

 


Milton Caniff nasceu em 1907, no estado norte-americano do Ohio. Em 1932 ele se mudou para Nova York com o objetivo de trabalhar com quadrinhos.

Sua primeira tira foi "The Gay Thirties”, de 1932, mas o sucesso só viria mesmo com Terry e os piratas, distribuída pelo Tribune Syndicate.

Altamente influenciado por Roy Crane, Caniff trazia inovações como a narrativa cinematográfica e o traço limpo e muito expressivo.

Na década de 1940 ele criou, para as forças armadas norte-americanas, a tira Male Call, protagonizada por belíssimas mulheres. A tira foi distribuída no front e se tornou extremamente popular entre os soldados durante a II Guerra Mundial.

Em 1946, descontente por não ter os direitos sobre Terry e os piratas, Caniff se mudou para o Enterprises Syndicate para o qual criou a tira Steve Cannyon, sobre o qual tinha totais direitos.

A influência de Milton Caniff sobre outros artistas é incomensurável. Até mesmo o brasileiro Flávio Colin o apontava como uma de suas principais influências.