sexta-feira, abril 10, 2026

Perry Rhodan – O ponto final de horror

 


O número 215 da série Perry Rhodan é todo focado na nave Androtest II, cuja missão é resgatar Rhodan no sistema Horror, um planeta artificial composto por várias camadas que funcionam como uma armadilha. Nos números anteriores, os terranos tinham sido miniaturizados, assim como a nave Crest.

Esse é um volume complicado. Nitidamente no resumo que foi entregue o autor não acontecia nada – era apenas a viagem em estágios rumo ao sistema em que se encontra Rhodan.

H. G. Ewers, o autor do volume, é um ótimo narrador, como se percebe nesse trecho, descrevendo uma transição: “Véus coloridos juntavam-se em desenhos que cambiavam rapidamente, voltavam a desmanchar, estavam ora próximos ora distantes. (...) Todas as cores desbotaram, transformando-se numa mancha negra: no meio dela, dois sóis avermelhados. O preto vazio – universo em chamas”.



Mas, apesar de ser um bom narrador, Ewers simplesmente não sabe desenvolver a trama e isso é prejudicado por um capítulo em que, teoricamente não deveria acontecer nada.

Ewers inventa vários mistérios que deveriam ser ganchos, mas que acabam se tornando apenas pontas soltas. A única trama trazida por que ele fecha é a do Okrill Sherlock, que no final acaba se revelando bizarra.

Para coroar, no final eles não conseguem salvar Rhodan, o que é uma grande decepção, já que o título, O ponto final de Horror, dava a entender que finalmente esse ciclo seria encerrado.

Fome de poder

 


O McDonald´s é a maior rede de fast food do mundo. É tão popular que simplemente mudou a forma como as pessoas se alimentam, em especial nos EUA. Mas, por trás de todo esse sucesso há toda uma história de traições, ganância e total falta de ética. É esse lado sujo da franquia que John Lee Hancock mostra no filme Fome de poder, disponível no Brasil pela Netflix.
O filme começa com Ray Kroc tentando inutilmente vender um mixer para produção de milk shake. Ele tenta em várias lanchonetes e drive thrus, sempre sem sucesso. O roteiro aproveita para mostrar o vendedor tentando almoçar e enfrentando os mais diversos problemas para isso: a comida que demora, o prato que vem errado.
É quando a firma recebe a encomenda de seis mixers de uma lanchonete na pequena cidade de Santo Antonio, na Califórnia e liga para saber se não houve um mal entendido, afinal ninguém nunca tinha pedido tantos aparelhos. E descobre que havia de fato um erro: eram oito, e não seis mixers. Incrédulo, ele visita o local e descobre, assustado que, o pedido sai exatamente o que ele pediu, no momento seguinte ao pagamento.
Os donos do local o convidam para conhecer a cozinha, feita ao estilo da linha de montagem de Ford: nela tudo é pensado para produzir o máximo de comida no menor tempo possível, de maneira totalmente padronizada (cada sanduíche deve ter exatamente a mesma quantidade de picles, mostarda e catchup). Eles também eliminaram do cardápio tudo que vendia pouco, concentrando-se nos pratos mais populares: hambúrguer e batata frita, vendidos em sacos, e não em pratos.
É também um ambiente familiar, ao contrário dos drive thru, invadidos por adolescentes rebeldes. Os donos, os irmãos McDonald´s, têm o sonho de transformar o restaurante numa fraquia com lojas caracterizada por grandes arcos dourados, mas suas tentativas se mostraram infrutíferas: os restaurantes abertos simplesmente não conseguiram manter o padrão de qualidade.
Ray Kroc, que já tentara de tudo na vida e fracassara em tudo, percebe ali a sua grande chance de se tornar finalmente milionário. Mas o que parecia uma parceria logo se revela uma arapuca: Kroc manobra até retirar a rede das mãos da dupla, chegando ao ponto até mesmo de proibi-los de usar o nome McDonald´s no restaurante original.
O título original era The Founder (o fundador), mas o título brasileiro é muito mais feliz e conta muito melhor a história: Fome de poder é a perfeita definição de Ray Kroc.

Batman – terror sagrado

 


Batman – terror sagrado é uma daquelas pérolas esquecidas do homem-morcego. É também uma das mais curiosas e fora da curva.

Na história, Crowell conseguiu se manter no poder na Inglaterra e exportou seu estado teológico para os EUA, de modo que o país americano se torna uma ditadura governanda por religiosos.

O estado teológico dominou praticamente toda a América. 


A história, claro, é focada em Bruce Wayne e na descoberta de que seus pais foram assassinados por ordem de um conselho religioso, mas executada de forma a parecer um assalto – o que leva o personagem a uma jornada de vingança.

Provavelmente o momento mais interessante da revista é um telejornal, no qual uma sorridente jornalista anuncia as medidas do governo. Sabemos, por exemplo, que o exército de resistência do Brasil está prestes a ser derrotado, de modo que os EUA tomaram conta de praticamente toda a América. Nesse sistema de governo, grandes proprietários de terras têm um voto de maior valor que outras pessoas. Não brancos têm direito a apenas meio voto.

Os pais de Bruce Wayne abriram uma clínica para ajudar pessoas submetidas à cura gay. 


Outra sequência interessante é um flash back que mostra a atividade suberversiva dos pais de bruce Wayne: uma clínica de ajuda a pessoas submetidas à cura gay, um tratamento que inclui choques nos órgãos genitais. É essa atividade que leva o conselho a declarar a sentença de morte do casal.

Ou seja: é uma história que prometia muito, com um ótimo contexto, mas prejudicada por dois aspectos. O primeiro deles é a quantidade de páginas. Fica óbvio que aquilo foi pensado como uma série, de forma que a HQ parece inconclusa nas 47 páginas.

Toda a trama gira em torno da questão religiosa. 


O outro problema é a necessidade de adequar esse contexto a uma trama de super-heróis. Há, por exemplo, uma sequência com seres super-poderosos vítimas de experiências dos religiosos que nos apresenta algumas interessantes referências. Nenhum nome de herói é citado, de modo que o leitor precisa advinhar quem são aqueles personagens. Mas, apesar de curiosa, a sequência parece ter sido introduzida apenas para agradar os fãs de super-heróis e parece ter pouco impacto na trama principal. Provavelmente, se a história girasse apenas em torno de Batman, o resultado fosse mais resolvido, principalmente levando-se em conta o número de páginas que a história teria.

Há uma sequência em que aparecem vários heróis da DC. 


O roteirista Alan Brennert escreve bem e tem boas ideias. Embora tenha escrito alguns quadrinhos, ele parece ser mais conhecido pelas séries de TV (ele chegou a roteirizar episódios do seriado da Mulher Maravilha (interpretado por Lynda Carter), o que reforça a ideia de que ele pretendia fazer uma série ou uma minissérie dentro desse universo distópico.

O desenho fica por conta de Norm Breyfogle, que aqui enfrenta o desafio de mostrar visualmente o que seria essa América puritana e se sai relativamente bem.

No Brasil essa HQ foi publicada pela Abril em 1992.

Mister No - O rei do sertão

 


Lampião é uma das figuras mais interessante e mais controversas da história brasileira. E é justamente esse personagem mutifacetado que serviu de mote para uma das melhores histórias de mister. Publicada no especial número 3 e com roteiro de Sérgio Bonnelli e desenho de R. Diso, a história gira em torno do roubo da cabeça mumificada do cangaceiro.

Na história, Mister No está de passagem pela Bahia quando se encontra, por acaso, com uma antiga paquera, Miranda, e ela o leva para namorar em um local inusitado: ao lado do Museu Estácio de Lima, no Instituto de Medicina Legal da Bahia.
Tudo começa com o roubo da cabeça de Lampião. 


Mas a paquera faz parte de um plano: o namorado de Marina pretende roubar a cabeça de Lampião e usar o piper do herói para tirá-lo do Brasil. A peça tinha sido encomendada por um antropólogo que pretendia, através das medições do crânio, revelar que o cangaceiro era geneticamente determinado a se tornar um criminoso.

A situação, no entanto, se complica primeiro quando o ladrão mata dois vigias e depois, quando dois dos campangas resolvem mudar de lado e roubar a cabeça e leva-la para um coronel que pretende fundar uma república independente no nordeste.
Um coronel quer fundar um novo país no sertão nordestino.


Pode parecer que estou dando spoiller, mas isso são só as primeiras páginas desse voluem extra. É história em cima de história, reviravolta em cima de reviravolta em uma trama cada vez mais ampla que vai envolver os mais variados tipos do sertão, sempre com Mister No, a contragosto, no meio.

É uma trama tão divertida e surreal que me faz lembrar os roteiros de Jodorowsky.
Novos cangaceiros também querem a cabeça de Lampião. 


Mas como o roteiro é de Sérgio Bonnelli, ele consegue transformar essa trama amalucada em uma aventura comercial da melhor qualidade e das mais divertidas.
Sérgio Bonnelli nitidamente pesquisou muito sobre Lampião e percebeu que sua personalidade era multifacetada, fazendo com que ele fosse visto tanto como um bandido, como um santo, tanto como um defensor dos pobres como um conservador a serviço dos grandes fazendeiros. Essa multiplicidade de pontos de vista a respeito dessa figura hoje folclórica é muito bem explorada na história.
No Brasil essa história foi lançada pela editora 85.

quinta-feira, abril 09, 2026

A Liga da Justiça de Keith Giffen e JM De Matteis

 


No ano de 1987 o editor Andy Helfer estava com uma puta bomba nas mãos. Ele tinha sido designado pela direção da DC Comics para ser editor da nova revista da Liga da Justiça. O editor-chefe Dick Giordano tinha lhe dito: “Faça com que a Liga da Justiça volte a ser grande. Faça com que ela seja genial!”.
O problema é que a DC estava saindo da saga Lendas e os editores estavam reformulando seus personagens e não queriam atrapalhar isso colocando-os num grupo. Batman, Superman, Mulher Maravilha, Flash, nenhum dos grandes estava disponível. Na verdade, até personagens menos conhecidos estavam comprometidos.
Tudo que o editor conseguiu foram personagens de terceiro escalão e a promessa de alguns de segundo escalão. No final, o editor do Batman apiedou-se dele e permitiu que ele usasse o Cavaleiro das Trevas no título. Mas não dá para fazer um grupo só com o Batman. Além disso, não havia certeza sobre quais seriam os outros integrantes, o que dificultava criar uma trama.
Desesperado, Andy Helfer apelou para o desenhista Keith Giffen, que toda semana colocava a cabeça na sua porta e implorava pela Liga da Justiça. O próprio Giffen não acreditou, até perceber a roubada na qual tinha se metido.
Foi quando tiveram a ideia de focar no cotidiano e na convivência dos personagens no lugar de grandes sagas e fizeram uma aposta ainda mais arriscada: colocar humor nas histórias.
Antes todas as tentativas de fazer isso tinham resultado em desastre. Bom exemplo disso era o terceiro filme do Superman de Christopher Reeve, que era odiado pelos fãs.
Além disso, aquela era uma época de heróis darks e “profundos”, todos muito sérios, todos imitando o cavaleiro das trevas de Frank Miller. Será que os leitores iriam gostar de uma versão humorística da Liga?
Giffen ficou responsável pelo plot e pelos esboços. Para escrever os diálogos chamaram JM DeMatteis, mais uma aposta arriscada, pois até então nunca escrevera nada na linha humorística.
Gladiador Dourado, Besouro Azul e o lanterna verde Guy Gardner eram o centro da maioria das piadas. 


Para desenhar, o pouco conhecido Kevin Maguire, que acabou sendo escolhido apenas porque estava sem trabalho e, se o editor não lhe oferecesse algo, iria de malas e cuia para a Marvel. No final, acabou sendo um tremendo acerto. Sua aptidão para expressões faciais eram perfeitas para histórias de cotidiano e principalmente humorísticas.
Surpreendentemente essa nova versão foi um sucesso, a ponto de gerar diversos derivados, como a Liga da Justiça Europa e séries solos de personagens como Senhor Milagre e Senhor Destino.
Conforme o sucesso da fórmula ia se estabelecendo, os roterististas iam se arriscando a colocar cada vez mais humor nas histórias. Em uma das HQs, por exemplo, a Liga enfrenta um ser extremamente poderoso, Mr. Nebula, o decorador de mundos e seu arauto Esquiador Escarlate. Eles vencem o vilão levando-o a Las Vegas e, assim demonstrando que a Terra já era brega o suficiente.
O vilão Mr. Nebula, uma sátira de Galactus, queria redecorar o planeta Terra. 

Em outra história memorável (que se estendeu da revista principal da Liga para a Liga Europa), a mansão dos heróis é invadida por... um gato! E as confusões que o felino provoca seriam muito maiores do que as de muitos vilões.
Há ainda a edição em que Gladiador Dourador e Besouro Azul resolvem montar um cassino em uma ilha tropical com o dinheiro da Liga da Justiça – claro que no final tudo vira um tremendo desastre.
Mas talvez a história que melhor representou essa fase foi aquela em que o vilão é o Poderoso Tortoloni, um jornalista que ganha no jogo de cartas diversos apetrechos de vilões e, ao ser atacado por um grupo que quer as informações que ele recolheu sobre a Liga (baseadas no que ele descobriu vasculhando o lixo do grupo), provoca pânico na cidade. Nessa fase a revista já era desenhada por Adam Hughes, que manteve o mesmo nível de qualidade de Maguire e tinha o mesmo pendão para expressões faciais.
Outros grandes desenhista que passaram pelo título foram Bart Sears, Darick Robertson e Marshall Rogers. Até Chris Sprouse, que depois se tornaria célebre ao desenhar Tom Strong, de Alan Moore, trabalhou no título no início da carreira. 

Monteiro Lobato: Cidades Mortas

 


            Em 1917, Lobato, já formado, é nomeado promotor público da cidade de Areias, no interior paulista. Areias era o que o autor mais tarde chamaria de Cidades Mortas. Vítimas das mudanças econômicas, esses lugarejos, antes prósperos, viviam em estado de lesmice patológica. Com a economia local quebrada, a maior parte dos jovens se mudara para cidades mais desenvolvidas e só ficava em Areias quem não tinha condições ou idade para a mudança.
            Numa cidade como essa, até o passeio matutino do recém-nomeado promotor público virava atração pública. As moças saiam na janela para ver Lobato passar.
            Naquela época Lobato já namorava sua futura esposa, Maria da Pureza Natividade. Ia de vez em quando a São Paulo para vê-la. As cartas escritas para ela revelam gripes, caçadas a onças, uma ou outra refrega entre vizinhos e muita saudade. Em suma, não havia o que fazer em Areias. Assim, Lobato gasta a maior parte do tempo lendo e escrevendo. Vai passando para o papel o que observa no lugarejo. São esses escritos que mais tarde formarão o livro Cidades Mortas. Nos escritos, Areia é rebatizada de Oblivion, depois Itaoca.
            Em Oblivion só meia dúzia de pessoas recebe jornais. São a intelectualidade local. Livros só há três, que passam de mão em mão. Cada um que pegava fazia questão de escrever algo. “Li e gostei”, afirmava um. Outro versificava: “Já foi lido - pelo Valfrido”.
            Cidades Mortas é cheia desses casos, entre eles o de um réu que escapou enquanto o júri permanecia horas reunido numa sala, incapaz de tomar uma decisão.

O tigre branco

 


Eu gosto de narrações em off. Mal feitas, elas se tornam muletas narrativas, contando o que as imagens já estão narrando, mas bem feitas, elas ajudam a dar significados às imagens e aprofundar a trama, a ambientação e os personagens. Ótimo exemplo desse segundo caso é O tigre branco, filme do indiano Ramin Bahrani, de 2021.

O filme conta a história de Balram Halwai, um garoto prodígio de um pequeno vilarejo da Índia, que, apesar dos ótimos resultados na escola, é obrigado pela família a parar os estudos para trabalhar em uma loja de chás.

Mas a vida de Balram começa a mudar quando o filho mais novo da família de mafiosos volta dos EUA e ele vê a possibilidade de se tornar motorista do mesmo. O filme começa no meio da história, quando a esposa do rapaz pega o carro e Balram assiste do banco de trás, prevendo que algo errado irá acontecer. Então começa a narrativa em off, segundo a qual aquela era a maneira errada de começar uma história, já que na Índia sempre se começa com um oferecimento aos deuses.

A narrativa aqui funciona como desconstrução tanto dos filmes indianos (há outros momentos de desconstrução, inclusive com quebra da quarta parede, no final), quanto da imagem que se tem da Índia. A índia paradisíaca e turística não combina com a Índia real, em que um emprego de motorista é disputado de todas as formas e o sistema de castas parece subsistir até os dias atuais – com possibilidades mínimas de ascenção social. É também uma desconstrução do discurso de empreendedorismo. À certa altura, o personagem diz: Só existem duas formas de um pobre subir na vida em meu país: através do crime e da política. No seu país também é assim?

O tom sociológico pode dar a entender que se trata de um filme modorrento, chato, mas é exatamente o oposto disso que vemos em O tigre branco. Tanto a primeira parte, dominada pelo otimismo e com pegadas de humor, quando a segunda e sombria parte funcionam muito bem como narrativa envolvente. 

Jornal O Liberal faz matéria sobre livro Cabanagem, de Gian Danton

 


O Liberal, principal jornal de Belém, publicou uma matéria dando destaque para meu livro Cabanagem, que está em campanha no Catarse. Clique aqui para ler a matéria.

Alerta Vermelho

 

Existe uma tradição em Hollywood de filmes de golpistas concebendo um grande roubo. Alerta Vermelho, filme dirigido por Rawson Marshall Thurber com  Dwayne Johnson, Ryan Reynolds, Gal Gadot se encaixa nessa categoria.

 Na história, o agente do FBI John Hartley (Dwayne Johnson) tenta impedir que o ladrão Nolan Booth (Ryan Reynolds) roube um dos objetos antigos mais preciosos do mundo: o ovo de Cleópatra. No entanto, Hartley é vítima de uma armação e acaba incriminado e preso com Booth numa cadeia russa. A responsável por isso é a ladra O Bispo (Gal Gadot) e para limpar seu nome, Hartley precisa se aliar a Booth e impedir que o terceiro ovo seja encontrado.

 É uma trama repleta de reviravoltas, em que ninguém é o que parece ser. Tudo isso misturado com sequências inteiras de cenas de ação entremeadas com muito humor, algo que Ryan Reynolds faz bem. Nessas cenas, aliás, a canastrice Dwayne Johnson funciona bem, de forma que ele serve perfeitamente como escada para as piadas, como quando Booth diz, em plena prisão russa, no meio de uma centena de bandidos,que o colega é na verdade um policial.

 O filme é bem dirigido, tem diálogos afinados, mas parece não ir muito além da superfície, de modo que fica sempre a impressão de que falta alguma coisa. Alerta Vermelho nem se compara com clássicos como Golpe de Mestre ou Onze homens e um segredo. Ainda assim é divertido.

Antes de Watchmen - Minutemen

 

Quando a DC Comics anunciou a série Antes de Watchmen, pareceu uma heresia. Afinal, watchmen era uma série tão redonda, tão fechada, que uma continuação parecia impossível.

Entretanto, entre os vários títulos, pelo menos um fazia sentido. Afinal, os Minutemen haviam aparecido tão por alto na série (a maior parte do que sabemos sobre eles se deve ao livro sob a máscara, de Hollis Mason, que vinha nos anexos) que na década de 80 especulava-se que o próprio Alan Moore iria escrever uma série do grupo. É provável que o boato fosse verdade e a série só não tenha acontecido por conta da briga do mago inglês com a editora DC.

O traço de Cooke é perfeito para o projeto. 

A escolha de Darwin Cooke para a série dos Minutemen foi um acerto e tanto. Com seu traço aparentemente simples e vintage, ele era uma figura apropriada para uma série sobre a era de ouro dos super-heróis.

Cooke reconta a história do surgimento dos Minutemen preenchendo as lacunas deixadas por Moore: o misterioso Justiça Encapuzada dando fim numa quadrilha de ladrões; Sally Jupiter prendendo um falso ladrão de jóias numa situação encenada para chamar a atenção da imprensa; O coruja salvando pessoas de bandidos; O Comediante extorquindo um lojista; o Traça estreando suas asas; Dollar Bill num anúncio publicitário; Silhouette salvando crianças raptadas.

A série mostra a escolha dos integrantes da equipe, numa sequência repleta de humor. 

A série deixa mais explícita situações que eram apenas insinuadas em watchmen, como a relação sadomasoquista entre o Capitão Metrópole e o Justiça Encapuzada.

Também cria uma trama que permeia toda a história, sobre um serial killer de crianças investigado por Silhouette, Coruja e Traça – uma trama que tem uma reviravolta interessante.

A história contrasta aquilo que é mostrado para o público com o que realmente está acontecendo. As imagens promocionais são mostradas em quadrinhos redondos. 

O grande problema é que, embora Cooke seja um desenhista espetacular e perfeito para o projeto, ele não escreve tão bem quanto Alan Moore. Além disso, algumas situações parecem forçadas, como o relato do comediante sobre seus dias na II Guerra Mundial. Uma família de japoneses salvando o comediante e depois este se importando quando estes são mortos? Não parece o personagem que conhecemos.

Entre mortes e feridos, salvam-se todos. Minutemen é a série que vale a pena no selo antes de watchmen.

A história secreta da criatividade

 


O título do livro A história secreta da criatividade dá a entender que se trata mais um manual que ensina seus leitores a se tornarem gênios criativos. Mas o livro de Kevin Ashton, lançado em 2016 pela editora Sextate é exatamente o oposto disso.
Para Ashton, não existem grandes gênios da criatividade capazes de criar como se fosse magia. Ao contrário, criação é, essencialmente trabalho, uma sequência interminável de tentativa de erro, de descontentamento com os resultados: “O trabalho é a alma da criação (...) Não é divertido, romântico, nem, na maior parte do tempo, interessante”.
Segundo o autor, a criação acontece através de passos, não saltos: “Não existe uma mudança súbita de percepção. Vamos do conhecido para o novo em pequenos passos. Em cada caso, o padrão é o mesmo: começar com algo familiar, avaliá-lo, resolver qualquer problema e repetir até que uma solução satisfatória seja encontrada”.
Ashton apreseta diversos exemplos, na ciência, na tecnologia e nas artes, mas podemos trazer a questão para os quadrinhos. Um clássico do quadrinho europeu, Asterix, visto como ápice da criatividade da dupla de gênios Goscinny e Uderzo parece ter sido criado pronto, como aparentemente prova seu primeiro e ótimo álbum. Mas qualquer um que conheça melhor a história da dupla sabe que ambos fizeram várias tentativas até chegar no baixinho gaulês e seu inseparável amigo Obelix. Antes de Asterix  vieram o pirata Jehan Pistolet e o indío americano Umpa-pá. Nessas séries os dois experimentaram temas e aborgagens (tanto visuais quanto literárias) que se tornariam célebres em Asterix. Até mesmo o tema da aldeia vem de Umpa-pá. A série do gaulês seria o resultado de anos de esforço da dupla tentando encontrar a melhor maneira de fazer um quadrinho humorístico.
Segundo Ashton, a criação não é algo reservado a gênios, mas a grande característica da espécie humana e o que nos diferencia de todas as outras espécies. Outros animais usam ferramentas. Marmotas fazem represas, pássaros constroem ninhos e macacos usam gravetos para pescar formigas e pedras para quebrar nozes. O diferencial da humanidade é que em algum momento nossos antepassados olharam para suas ferramentas primitivas e pensaram: isso pode ser melhorado: “A capacidade de modificar qualquer coisa foi o gatilho que transformou tudo”. A partir de então, a criação passou a ser uma característica da espécie: “Ocupamos o nicho evolucionário do novo. O nicho do novo não é propriedade de uns poucos privilegiados. É o que nos torna humanos”.  
O livro prossegue falando de paradigmas, dissonância cognitiva, duplas criativas, as experiências de Vygotiky que explicam porque as crianças são mais criativas que os adultos. Mmuito curioso o desafio do marshmallow, em que grupos recebem vinte varetas de macarrão, um metro de barbante e um metro de fita adesiva. O desafio é construir uma torre para sustentar o marshmallow. As crianças constroem torres de 68 cm, enquanto CEOs constroem torres de 53 cm , advogados de 38 cm e estudantes de administração de 25 cm.
Enfim, A história secreta da criatividade foi uma bela surpresa para um livro que só comprei porque estava em promoção na Amazon. Uma das obras mais instigantes que li recentemente.

Cabanagem: a revolta que se alastrou pela Amazônia

 

A cabanagem foi uma das revoltas mais interessantes da história do Brasil não só por ter chegado ao poder (e se mantido no poder por aproximadamente um ano), mas principalmente por sua amplitude: quando o movimento foi derrotado em Belém, a revolta, ao invés de ser sufocada, se espalhou por praticamente toda a  região Amazônica.
Os cabanos chegaram em Mazagão, no Amapá e até em Manaus, no Amazonas (onde tomaram o governo).
Contribuiu muito para isso o fato da região ser tomada por pequenos igarapés, que facilitavam muito o movimento dos cabanos. As canoas eram amarradas uma na outra, o que aumentava em muito a velocidade desses grupos chamados de magotes. E, quando passavam por grandes fazendas, libertavam os escravos, muitos dos quais se uniam ao magote.
Se por um lado a revolta se espalhava, a repressão também. O brigadeiro Andrea, enviado pelo governo regencial para acabar com a cabanagem e chamado de pacificador não tinha a menor preocupação com vidas. A ordem era matar. Assim, soldados atiravam em ribeirinhos suspeitos de terem dado acolhida aos cabanos.
Estima-se que um terço da população da Amazônia tenha perecido durante todo o período da cabanagem.


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Ken Parker – Um hálito de gelo

 


Em 1984 Berardi e Milazzo estavam insastisfeitos com o ritmo insano de produção em massa da Bonelli, com álbuns de aproximadamente 100 páginas produzidos mensalmente. A solução foi criar a própria editora e publicar álbuns de luxo. O primeiro desses álbuns, “Hálito de gelo” foi lançado no Brasil pela editora Ensaio em 1994.
Além da história do título, o álbum traz uma história introdutória, “Os cervos”, uma rica demonstração narrativa da dupla. Na HQ, Ken está caçando cervos quando descobre que atirou numa fêmea com filhotes e, compadecido, começa a tratar de sua perna atingida e alimentar a família. A história não tem texto, apenas imagens – e ele seria totalmente desnecessário. A história é poética, pungente, com um plot twist emocionante.
Parker está fugindo junto com outras pessoas pelas montanhas geladas. 


Em “Um hálito de gelo” Ken está fugindo para o Canadá em um perigoso caminho pelas montanhas geladas depois de ser acusado de matar um policial
Junto com ele fogem um índio que acabou de fugir da prisão (e para isso matou o carcereiro), um casal em que a mulher fugiu do marido e um repórter fazendo uma matéria sobre essa rota de fuga.
O grupo, que está sendo perseguido por policiais, enfrenta todo tipo de perigos, de lobos a ladrões, mas os conflitos internos são a maior ameaça. Berardi é um mestre na caracterização dos personagens e consegue explorar muito bem a personalidade de cada um e a relação entre eles.