quinta-feira, outubro 22, 2026
Arcimboldo
O homem que copiava
Se há um filme cuja força está no roteiro, esse é O homem que copiava. Lançado em 2003 e escrito e dirigindo por Jorge furtado, ele conta a história de André (interpretado por Lázaro Ramos), um operador de fotocopiadora apaixonado por uma vizinha que ele espiona toda noite através de um binóculo.
O roteiro é do tipo em que um fato vai puxando o outro que puxa outro etcetera. Para impressionar a garota ele fica de comprar um Chambre na loja que ela trabalha. Para isso ele falsifica dinheiro na xerox. Para trocar dinheiro, ele faz um jogo na lotérica. Cada um desses pequenos fatos, aparentemente aleatórios vai ganhando importância na trama. Até mesmo a galinha do clímax ganha relevância.
Além disso, temos uma ótima caracterização dia personagens, tão diversos quanto carismáticos. O elenco, afinado, ajuda a dar credibilidade para a história. Além de Lázaro Ramos, temos Leandra Leal, como a garota interesse romântico do protagonista, Luana Piovani, como a colega de trabalho que só pensa em casar com um homem rico e Pedro Cardoso, o malandro dono de uma loja de usados.
Se não bastasse tudo isso, temos uma reviravolta final que ressignifica tudo. O espectador percebe que tudo que viu até ali não era nada do que ele imaginava.
O filme está disponível na Netflix.
Hulk e Coisa: A grande mudança
| Berni Wrightson conseguia unir humor com desenho anatômico. |
A longa noite, de Raymond Chandler
Raymond Chandler era um dos principais escritores do policial noir. Em A longa noite, ele mostra porque era o mestre do gênero.
A história começa em um bar, no qual está o detetive Philp Marlowe, o famoso personagem de Chandler. Um homem entra, pergunta a respeito uma mulher, dá a descrição dela e, em seguida é assassinado por um bêbado que estava lá aparentemente por acaso.
Esse acontecimento aparentemente casual vai dar origem a toda uma trama, que dura uma noite inteira, em que os fatos vão se sucedendo um atrás do outro. É aquele tipo de história em que algo pequeno revela algo maior, que revela algo maior e assim sucessivamente, deixando o leitor continuamente supreso com o desenrolar dos acontecimentos.
Chandler, juntamente Dashiell Hammett, revolucionaram o gênero policial ao unirem descrições realistas de cenas de crime com uma narrativa ácida e diálogos sarcásticos.
A maestria do escritor já pode ser percebida desde o primeiro parágrafo, no qual ele fala do vento do deserto, que estava soprando sobre a cidade. É uma noite em que “esposas submissas passam o dedo pelo fio de facões de carne e contemplam, pensativas, os pescoços dos maridos”.
As descrições são precisas e ao mesmo tempo exageradas, como em: “O sujeito moreno levou uma semana inteira para cair” ou em diálogos, como em:
- Eu também não gosto de ser testemunha. O pagamento é muito baixo.
Muitas das histórias de Chandler foram transpostas para o cinema, com grande sucesso, e lendo A longa noite, entendemos porque. Sua narrativa era praticamente uma cena decupada. Há, por exemplo, uma sequência em que e o detetive conhece a garota que será seu interesse romântico na história. Ela está metida em apuros e Chandler usa o elevador e o medo de alguém que poderia emergir dele como elemento de suspense, pontuando a narrativa. De tempos em tempos ele acrescenta: “O elevador parou lá embaixo”; “o elevador começou a descer novamente”. Era só seguir o texto e filmar.
O surgimento da Marvel
Camelot 3000 – O monarca do passado e do futuro
Camelot 3000 foi uma obra marcante para a DC. Primeiro porque inaugurou o conceito de maxisérie, que depois viria a ser usado em quadrinhos como Watchmen. Segundo porque foi a primeira publicação da DC voltada exclusivamente para o mercado direto, as lojas de quadrinhos, o que a deixava fora da censura do comics code. “Tendo adicionado um cavaleiro transexual, lesbianismo, incesto e vários outros elementos que desobeciam o código, eu sentia que tinha levado as coisas tão longe quanto elas poderiam ir à época”, conta Mike W. Barr, o roteirista.
Além disso, a arte de Brian Bolland dava uma característica visual única à HQ. Sua mistura de futurismo e Idade Média foi fundamental para que a série fosse um sucesso. Essas características de inovação já apareciam no primeiro número (embora nessas primeiras histórias a arte-final estivesse a cargo de Bruce Patterson, que combinava pouco com o traço detalhista de Bolland).
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| A série apresentava violência explícita. |
Na história, um garoto, Tom, está fugindo da Inglaterra ocupada por alienígenas na tentativa de chegar à França. O carro onde eles está é atingido por um raio e os pais de Tom morrem. Ele se refugia em uma escavação histórica, mas mesmo assim é perseguido. Ao tentar passar por um corredor ele levanta a tampa de um caixão de onde sai ninguém menos que o Rei Arthur, em uma splah page impressionante que destacava toda a altivez do herói.
Já nessa primeira sequência percebemos como o fato de não estar sujeita ao comics code tornava essa história diferente das outras. A violência aqui não é simulada, mas real e mostrada em detalhes: Arthur usa uma espécie de espada para simplesmente rachar a cabeça de um dos extraterrestres e atravessar o peito de outro – imagens mostradas com realismo por Bolland.
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| A primeira aparição de Arthur é impressionante... |
Usando a nave dos alienígenas, Arthur e Tom vão para Stonehenge, onde libertam Merlin, mais uma vez em uma splash page impressionate com o personagem, monstruosamente grande, emergindo da terra.
Essa história ainda apresenta textos em excesso, como admitido pelo próprio roteirista: “Quando comecei, eu ainda era da turma do ‘texto em excesso’, um escritor que frequentemente achava que era necessário duplicar em uma legenda descritiva a informação dada ao artista, mas rapidamente percebi que a arte fornecida por alguém do calibre de Brian Bolland não precisava dessas muletas narrativas”.
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| ... assim como a primeira aparição de Merlin. |
Mesmo com esse problema e com a arte-final ainda não adequada, é um começo de fôlego, que deve ter empolgado os leitores americanos e certamente empolgou os leitores das revistas da editora Abril, como Batman e Superamigos.
quarta-feira, outubro 21, 2026
Abapuru, de Tarsila do Amaral
Quarteto Fantástico – Prisioneiros da dupla diabólica
No número 6 da revista do Quarteto Fantástico o grupo enfrentou as duas maiores ameaças encontradas até o momento: Dr. Destino e Namor.
Na trama, Destino resolve aproveitar o ódio de Namor pela humanidade transformando-o em um aliado para acabar com o Quarteto Fantástico. Assim, ele o usa para colocar um “buscador”, um aparelho que quando agarra em algo exerce uma força magnética nele, levando-o até o dono do controle remoto.
O plano é tão simples quanto non-sense: colocar o buscador no edifício Baxter e, usando uma nave espacial, jogar o edifício na direção do Sol. Eu lia e me perguntava: como é possível tirar um edifício, arrancando-o de suas fundações, sem que ele desmorone? Mas naqueles tempos valia tudo.
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| Sue, dividida entre dois amores. |
Essa história tem uma cena interessante, que mostra o quanto Stan Lee estava revolucionando as história. À certa altura Johnny encontra uma foto de Namor no meio das coisas de Sue. “Creio que você me deve uma explicação, Sue”, pede Reed Richards. “Como posso explicar algo que nem eu mesmo entendo? Sei que Namor é nosso inimigo, mas...”. Estava estabelecido ali o triângulo amoroso mais famoso dos quadrinhos de super-heróis.
Aliás, quando Namor aparece no prédio, Sue corre para defende-lo (ah, o amor!). “Não, vocês não podem atacá-lo! Precisam ouvi-lo! Ele não está nem mesmo tentando se defender!”.
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| Um edifício sendo levado pelo espaço? Stan, dessa vez, você exagerou. |
Apesar da trama maluca do edifício sendo levado pelo espaço, há um momento que mostra que Stan Lee tinha sim alguma preocupação científica. Quando o Tocha Humana tenta alcançar a nave de Destino, ele descobre que a falta de oxigênio faz com que suas chamas se apaguem.
Dessas primeiras histórias essa é a mais empolgante. O perigo aqui parece real e a solução parece impossível. Uma obra-prima de uma dupla que ainda iria realizar muitas obras-primas.
Conan - A cidadela dos condenados
O Telefone do Sr. Harrigan
Amizade, luto e tecnologia como elementos de terror. O telefone do senhor Harrigan, filme de John Lee Hancock, reúne todas essas características comum a muitos dos livros de Stephen King.
Na história, o garoto Craig vê sua vida mudar quanto um milionário o contrata para ler livros para ele. A partir daí começa a se desenvolver uma relação muito improvável entre esse jovem pobre e o velho milionário, uma amizade sedimentada principalmente na literatura, uma paixão em comum. Há um outro ponto em comum: ambos perderam suas mães muito jovens.
Essa história sofre uma reviravolta quando o velho morre e o garoto passa a acreditar que está recebendo mensagens dele no celular. Esse é o toque sobrenatural da história, como não poderia faltar em uma história de King.
Mas engana-se quem acha que se trata de uma história de terror. O telefone do Sr Harrigan está muito mais para a Jornada do Herói do que para a Jornada do Horror. Os elementos sobrenaturais aí são na verdade veículos para a jornada de auto-conhecimento e redenção do protagonista.
O telefone do Sr Harrigan é um filme tocante, cujos personagens prendem a atenção do leitor e ganham simpatia mesmo com seus defeitos. Uma boa pedida na Netflix.
A arte inesquecível de Galep
O mundo hiper-real
| A obra de Ron Muek reflete sobre a hiper-realidade |
A Briga dos Dois Ivans
Até a publicação de A Briga dos Dois Ivans (1834), de Nikolai Gógol, o humor com forte teor de sátira social ainda dava seus primeiros passos na consolidação da grande literatura russa. O estilo do autor era tão inovador e cômico que a produção de suas primeiras obras gerou uma cena antológica nos bastidores editoriais, na qual os próprios impressores da gráfica interrompiam o trabalho técnico para ler as páginas das provas e caíam na gargalhada.
A história gira em torno de dois vizinhos, Ivan Ivanovitch e
Ivan Nikiforovitch, cujas personalidades e aspectos físicos são absolutamente
opostos. Um é magro, o outro é gordo; um é falastrão, o outro é calado; um
adora passear, enquanto o outro dificilmente sai de casa. Apesar de todas as
discrepâncias, eles são considerados os melhores amigos da cidade de Mirgorod,
até que um evento aparentemente banal os transforma em inimigos mortais. Certo
dia, a criada de Ivan Nikiforovitch coloca as roupas da casa para tomar sol no
quintal e, entre as peças, pendura uma velha espingarda que imediatamente
desperta a cobiça do vizinho.
Ivan Ivanovitch tenta negociar o artefato oferecendo uma
porca em troca; depois, propõe dois sacos de aveia; em seguida, tenta barganhar
oferecendo a porca e os dois sacos de aveia juntos. Contudo, o amigo mantém-se
irredutível na recusa e, no ápice da discussão, chama o vizinho de
"ganso". Essa única palavra é o estopim que deflagra toda a inimizade
vitalícia entre eles, e Gógol explora com maestria a pequenez do motivo como o
motor principal do humor absurdo da narrativa.
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| Gógol é considerado o pai da literatura russa. |
Em sua guerra particular, os dois Ivans envolvem todas as esferas burocráticas e autoridades da cidade. A caracterização dessas figuras públicas é, provavelmente, o ponto alto da obra: todos são absolutamente ineptos, retratados como se tivessem sido selecionados para os cargos justamente por sua incompetência. O juiz não demonstra o menor interesse pelos processos jurídicos e prefere passar o expediente no tribunal fofocando com os presentes. O delegado foi atingido na perna durante o período de guerra, de modo que subir um simples lance de escadas se transforma para ele em uma verdadeira jornada épica. Para completar o cenário, o único policial da cidade é maneta e um tanto obtuso.
Gógol revela-se um mestre refinado da ironia, recurso
visível no trecho em que descreve a geografia de Mirgorod como uma localidade
encantadora. Na realidade, o lugarejo é um pacato fim de mundo onde os
moradores estendem roupas para secar nas cercas das casas e a praça central é
inteiramente ocupada por um lamaçal permanente; o escritor, contudo, narra o
ambiente como se estivesse contemplando um espaço paradisíaco.
As descrições detalhadas, aliás, constituem outro grande
destaque estilístico. Gógol frequentemente inicia os parágrafos afirmando ser
incapaz de descrever determinado objeto ou situação e que, portanto, não o fará
— para, logo em seguida, passar a descrever o elemento minuciosamente, nos
mínimos detalhes.
Até mesmo os títulos dos capítulos são aproveitados como
ferramentas de humor, a exemplo deste: “No qual o leitor saberá facilmente
tudo que nele se contém”. Este recurso ilustra como a obra permanece atual
mesmo quase dois séculos após o seu lançamento. Parece que Nikolai Gógol está,
de certa forma, zombando dos leitores contemporâneos que detestam receber
qualquer tipo de spoiler sobre o enredo.
Tive a oportunidade de ler A Briga dos Dois Ivans
inserida em uma excelente antologia do conto russo publicada pela editora Lux,
mas a novela em formato de volume solo encontra-se facilmente disponível no
mercado editorial brasileiro em uma edição da editora Grua.
terça-feira, outubro 20, 2026
Crise – E o mundo há de morrer!
Embora Crise nas infinitas terras já tenha começa bem, é a partir do número 4 que a história se torna realmente memorável, a começar pela impressionante capa, com o Pária olhando atônito enquanto a Precursora mata Monitor com um raio.
Pária foi o primeiro personagem a aparecer na série. Vítima de uma maldição, ele percorre cada um dos mundos do multiverso DC, vendo-os morrer. No número 4, Monitor o leva para seu satélite, revela que ele é responsável por transformá-lo no que ele é e que ele terá um papel fundamental na crise que se aproxima, embora não explique qual é esse papel.
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| A página dupla mostra as consequências da Crise... |
Aqui entra a genialidade narrativa do desenhista George Perez. Ele ilustrou o diálogo entre os dois em uma página dupla, em que dos dois aparecem, um de cada lado, enquanto no meio vemos as consequências da crise em sequências em que os heróis nitidamente estão sendo derrotados pelas forças do mal.
“A terras 1 e 2 são as próximas a sucumbir... seus destinos estão ligados de maneira inexorável”, diz o Monitor. “A fúria é pior agora,... primeiro foram os céus tornando-se vermelhos. Depois, as tempestades e o clima... agora as perturbações cósmicas que devastam ambos os universos”.
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| ... e os rostos de Monitor e de Pária. |
“Esses mundos morrerão, Monitor... como todos os demais que fui forçado a assistir. Por que fez isso comigo? Qual o propósito em me fazer sofrer tanto”, reclama o Pária.
Logo após o diálogo, o Monitor é morto pela precursora. Sua morte parece ecoar as mortes dos mundos, demonstrada mais uma vez com brilhantismo por George Perez.
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| Monitor é morto por sua pupila. Tudo está perdido? |
Imagens de diversas terras vão se sobrepondo em quadros verticais, mas a cada quadro parecem menos nítidos, até o final, formado apenas por um quadro branco. Na página seguinte, o fundo branco vai sendo substituído aos poucos por nuvens escuras, até o último quadro, totalmente preto. Uma solução gráfica perfeita para demonstrar que tudo acabou.
Seria esse o fim do universo?
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| George Perez mostra sua genialidade ao mostrar o fim das terras paralelas. |
Na comparação, a ameaça enfrentada pelos heróis da Marvel em Guerras Secretas parece ridícula.































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