quinta-feira, maio 07, 2026

Quarteto Fantástico e o mortífero mestre do som

 


Garra sônica é um vilão que surgiu em Fantastic Four 53, como um mercenário que tenta a todo custo se apoderar do vibranium de Wakanda. Quando está prestes a ser derrotado pelo Quarteto Fantástico e pelo Pantera Negra, ele entra no transformador sonoro.

O personagem iria ressurgir em Fantastic Four 56, agora transformado na sua forma definitiva: um vilão que não só é capaz de controlar o som, mas é ele mesmo uma espécie de som solidificado. Ele ataca a aprisiona o Quarteto como forma de conseguir sua vingança contra o Pantera Negra.

O que não faltava no Quarteto era ação. 


A história é uma sequencia initerrupta de ação, com o Senhor Fantástico, o Coisa e a Mulher Invisível tentando romper a prisão criada pelo vilão, mas é também um bom exemplo de como Stan Lee e Jack Kirby tinham sempre cartas na manga. À certa altura, o prédio é invadido por um mini-foguete vindo de Wakanda. O pequeno veículo traz um presente: faixas de vibranium, o único metal capaz e absorver energia sônica. De posse dessas faixas, fica fácil derrotar o vilão.

É uma história que mostra como Kirby e Lee planejavam as histórias a longo prazo (algo que acontece no número 53 vai ter consequências no número 56) e como sabiam manejar a narrativa misturando desenvolvimento de personagens, muita ação, truques visuais, como os pontinhos Kirby, e reviravoltas empolgantes.

Perry Rhodan – A partida dos oldtimers

 

 

Embora fosse uma série que tinha um pé na ficção científica hard, Perry Rhodan às vezes forçava a mão nos fatos inacreditáveis. Exemplo disso é o número 216, A partida dos oldtimers.

Na história, os terranos estão presos no planeta Horror, sob o efeito de um aparelho que os miniaturizou assim como a nave que foi ao seu auxílio. Uma nova nave terrana está chegando e precisa ser avisada do perigo, mas como, se o aparelho de comunicação da Crest também foi miniaturizado e não tem potência para tal? A solução encontra é resgatar uma nave deixada no interior do planeta. O problema é que a nave tem dez metros de comprimento e os personagens têm 2 milímeros. Mesmo com todas as explicações sobre talhadeiras e roldanas, é difícil engolir a história. Seria como micróbios pilotando uma nave espacial.  

O volume é escrito por William Voltz, o melhor escritor da série e ele faz de tudo para tornar esse livro interessante. Inventa, por exemplo, que uma das naves está sendo disputada por soldados e uma fera de vários braços – o que nos traz os melhores momentos da história e permite a Voltz exercitar sua versão humanista da ficção científica.

A capa original alemã. 

Depois, quando soldados tentam destruir a nave terrana, o livro volta a se tornar interessante.

O problema é que a trama básica desse livro era pouco verossímil e, além disso, a história já girava há tanto tempo ao redor de Horror, que o leitor não aguentava mais. Pelo menos eu, quando lia, pensava: “Caramba, eles nunca vão sair desse planeta?”. O fato dos terranos terem sido miniaturizados por uma atitude burra e impensada de Rhodan, fazendo algo que parece contra o que conhecemos do personagem, também não ajuda.

quarta-feira, maio 06, 2026

Quarteto Fantástico contra o Fantasma Vermelho

 

 

Jack Kirby e Steve Ditko eram os dois grandes gênios da Marvel, dois desenhistas e narradores visuais incomparáveis, que criaram visualmente a Marvel como a conhecemos hoje. Os dois se esncontraram em Fantastic Four 13, que teve lápis de Kirby e arte-final de Ditko.

Na história, Reed Richards está testando um novo composto, tirado de meteoros, que permitiria finalmente a viagem à lua. Vale lembrar que isso acontece em plena guerra fria, de modo que um grupo soviético também está planejando a viagem. O cientista Ivan Krakoff treinou três macacos (um gorila, um babuíno e um orangotango) e viaja com eles numa nave desprotegida para que os passageiros sejam bombardeados pelos raios cósmicos e assim possam conseguir poderes da mesma forma que o Quarteto.

A primeira aparição do Vigia. 


Claro que cada um deles vai conseguir algum tipo de poder e, no auge da trama, os dois grupos que chegaram praticamente ao mesmo tempo ao satélite terrestre vão entrar em conflito.

Mas essa história, além de apresentar um novo grupo de vilões, tornou-se famosa por ser a primeira aparição do Vigia, uma vez que os dois grupos desembarcam exatamente na cidadela desse ser ancestral. Era Kirby colocando no papel toda a sua paixão pela ficção científica, em cenários deslumbrantes e grandiosos. Aqui o grupo parece encontrar sua verdadeira vocação, que a diferenciava de outras agremiações de heróis: a primeira família parecia mais à vontade no espaço do que na terra.

A união Kirby - Ditko criou belas cenas, como essa. 


A arte-final refinada de Ditko dá um ar elegante para o traço de Kirby, a exemplo da página de abertura do capítulo 2, com os personagens olhando a Lua pela eclusa. De forma inteligente, Kirby coloca O Coisa, o personagem mais pesado, flutuando no espaço, o que aumenta ainda mais a impressão de falta de gravidade. Embora aqui o equipamento não seja tão detalhado como Kirby faria posteriormente, a imagem é belíssima e impressionante.

O texto traz algumas curiosidades, típicas das HQs dessa época, em que os comunistas eram mostrados como vilões auto-declarados. À certa altura, por exemplo, o Vigia diz que quebrou o silêncio de séculos para salvar o povo da terra da selvageria, ao que o Fantasma Vermelho responde: “Você ousa pensar que pode parar a marcha de conquista comunista?!”.

A divulgação científica nos quadrinhos

 

Em dezembro de 1997 defendi, no programa de pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo, a dissertação de Mestrado A divulgação científica nos quadrinhos: análise do caso Watchmen, um trabalho inovador não só por mostrar que Watchmen foi baseado na teoria do caos (algo que eu já havia feito em meu TCC, defendido em 1993), como em analisar a relação entre a ciência e os quadrinhos, algo que serviu de base de muitos trabalhos, em especial sobre o uso de quadrinhos nas aulas de ciência. 
Essa dissertação foi disponibilizada durante muitos anos no site da Virtual Books, que acabou saindo do ar. Assim, resolvi disponibilizá-la através de um blog.  Para conhecê-lo, clique aqui

MAD 13 – Rephorma hortográfica

 




Na MAD 13 eu estava em minha terceira participação na antológica revista de humor da qual eu era fã desde criança. Na época estava entrando em vigor a reforma ortográfica e o editor Raphael Fernandes teve a ideia fazer piada com isso. Para isso, colocamos o professor Pasquale (devidamente renomeado como Pasquase) explicando a rephorma hortográfica. Uma das mudanças se daria no trânsito, onde os palavrões agora seriam politicamente corretos. FDP, por exemplo, passaria a ser “Faça o dispor de passar”. Os desenhos ficaram a cargo de Juarez Ricci. 

Feitiço do tempo

 

 

Assisti, finalmente, Feitiço do tempo (roteiro de Danny Rubin e Harold Ramis, direção de Harold Ramis). Na verdade, o interesse maior foi na interessante narrativa em elipse, que era sempre citada por alunos quando eu falava de narrativas não-lineares. Trata-se de um jornalista arrogante e egocêntrico, que, ao fazer uma matéria numa cidadezinha sobre uma marmota capaz de prever o fim do inverno, fica preso em um lapso temporal de um dia que sempre volta. Assim, os mesmos fatos vão se repetindo várias vezes e o protagonista passa várias vezes pelos mesmos fatos. Já tinha visto outros exemplo, como um episódio de O Arquivo X. Eu mesmo já escrevi um texto nessa estrutura, num e-book dos Exploradores do Desconhecido. O interesante é que o mesmo dia não se repete 3 ou 4 vezes, mas centenas, talvez milhares de vezes, o que traz algumas oportunidades interessantes para o roteiro, como, por exemplo, repetir uma cena várias vezes (o receptor acaba sacando que cada repetição é um dia diferente).
Apesar da preocupação maior ser com a questão narrativa, foi impossível não reparar em algo que muitos textos espíritas falam: Feitiço do Tempo é uma ótima metáfora do processo reencarnatório, segundo a visão espírita. 
A cada vez que o protagonista volta, é como se ele estivesse em outra encarnação e tivesse outra chance de consertar os erros do passado e evoluir espiritualmente.
Arrogante e egocêntrico, Phil usa a volta eterna inicialmente para questões duvidosas do ponto de vista ético, como, por exemplo, descobrir algo sobre uma mulher para depois seduzi-la, ou cometer crimes sabendo que sua ação não teria consequências (como, por exemplo, quando ele rouba dinheiro do carro forte).
Com o tempo, esse tipo de coisa perde a graça e ele passa a se suicidar. Faz isso dezenas de vezes, tentando escapar do dia que sempre retorna. Em vão. Sua vida só começa a fazer sentido quando ele melhora espiritualmente e começa a ajudar as pessoas à sua volta. A máxima de Chico Xavier (Não há salvação fora da caridade) fica bem exemplificada no filme.
Em suma, um ótimo filme: pelo estrutura do roteiro, pela mensagem, pelo humor e pela ótima atuação de Bill Murray.

A guerra dos mundos

 

H.G. Wells é um dos fundadores da ficção científica. Alguns dos temas mais caros do gênero surgiram de sua imaginação, assim como algumas das obras mais perturbadoras. Dentre elas, merece destaque A guerra dos mundos, lançado no Brasil pela Suma.

A edição, em capa dura, tem prefácio de Bráulio Tavares, introdução de Brian Aldiss e ilustrações de 1906, de Henrique Alvim Corrêa. Além disso, traz uma entrevista com Wells e Orson Welles, o diretor que comandou a versão radiofônica do livro, tida por muitos como verdadeira e que provocou verdadeiro pânico ao ser transmitida nos EUA, em 1939. Tudo isso fazem dessa uma edição imperdível.
Mas mesmo sem tudo isso, já valeria a pena. Wells não escreveu um simples relato de invasão extraterrestre: ele fez uma obra que nos faz pensar: da denúncia do imperialismo ao futuro da humanidade.
Wells constrói sua obra em capítulos curtos e maneja bem o suspense, viciando o leitor que vira página após página seja para descobrir o destino do protagonista, seja para acompanhar uma explicação sobre os extraterrestres (a maior parte das quais amparada na teoria da evolução). A narrativa de Wells é simples, sem floreios, mas poderosa. A cada frase percebemos que estamos diante de uma mente brilhante.
Como muitas outras obras de ficção ou fantasia, A guerra dos mundos é uma metáfora: neste caso do colonialismo europeu. Os marcianos que lançam seus ataques, destruindo cidades inteiras e matando indiscriminadamente são como os europeus, sedentos por riquezas devastando os países conquistados e reduzindo sua população à escravidão (vale lembrar o domínio da Bélgica sobre o Congo, em que os trabalhadores que não cumpriam sua cota tinham suas mãos cortadas). Para tornar essa metáfora ainda mais poderosa e impactante, Wells faz com que seus marcianos se alimentassem do sangue humano.
O momento em que a invasão de fato ocorre, com os marcianos saindo de suas naves em seus mecanismos tripoides são o grande momento do livro – e o ponto em que o autor mostra o poder de suas palavras: “Ao ver aquelas estranhas, velozes e terríveis criaturas, a multidão à beira do rio pareceu por um momento paralisada de terror. Não houve gritos ou berros, mas silêncio. Em seguida, um murmúrio rouco, um movimento de pés, um jorro d´água”.
Outro grande trunfo é a narrativa em mosaico, em que um acontecimento grande é mostrado através de pequenos fatos. Wells usa esse recurso para humanizar a narrativa, mostrar que são pessoas reais ali, no meio da confusão e da carnificina: na fuga um homem com uma perna enrolada em trapos é ajudado por amigos, um velho com bigode militar sai mancando, depois para, senta-se ao lado de um sifão, tira a bota manchada de sangue, remove uma pedrinha e sai de novo capengando, uma criança grita: “Não consigo continuar, não consigo!”.
Filosofia, ciência, crítica social e uma imaginação poderosa de um homem a frente de seu tempo. O resultado é um clássico absoluto da ficção científica, uma obra que demonstra o quanto o gênero pode ir muito além da simples diversão. 

Dylan Dog – A caligrafia da dor

 


“A pena é mais poderosa que a espada”. Esse adágio popular é o moto da história “A caligrafia da dor”, publicada em Dylan Dog 14, da Mythos.

Na história, escrita por Andrea Cavaletto e desenhada por Luigi Piccatto, Riccio e Santaniello, Dylan é convidado par uma festa em uma mansão. O convite veio por parte da proprietária do local, Diane, uma antiga paquera do protagonista. Ela quer que ele investigue se a mansão é mal assombrada.

Dylan é chamado para investigar um caso de casa mal-assombrada. 

Essa situação é seguida de uma tragédia na qual o investigador do desconhecido quase é vitimado.

Isso, somado a um acidente em uma oficina, no qual morrem várias pessoas, faz com que Dylan Dog resolva investigar o que há por trás desses fatos.

Receita DD: belas mulheres e monstros. 

A história parte de uma premissa interessante, mas a trama é mal resolvida e cheia de situações convenientes, como por exemplo, Dylan chegar em determinado local exatamente na hora em que o vilão está confessando seus crimes. Aliás, a motivação do vilão não parece ir além da loucura, o que contrasta com a forma comedida e fria com que ele é mostrado antes. Além disso, o funcionamento da caneta, item fundamental do roteiro, não é devidamente explicado.

Provavelmente não existem histórias ruins de Dylan Dog. Mas certamente a caligrafia do terror está entre as mais fracas.

A arte espiritual de El Grego

 


El grego com um pintor maneirista apelidado assim em decorrência de seu país de origem (seu nome verdadeiro era Doménikos Theotokópoulos). Ele se destacou principalmente por conta das imagens com temas religiosos e figuras alongadas, com uma anatomia distorcida, que refletiam o conteúdo espiritual do quadro. Em oposição ao renascimento, ele tirava a atenção do receptor do centro do quadro, deixando o mais importante nas laterais. 





Demolidor – O arauto da morte

 


Até o final da década de 1970 o Demolidor era um dos personagens da Marvel que pareciam que nunca iam decolar. O personagem já passara por várias fases: do herói galhofeiro da fase Stan Lee a parceiro da Viúva Negra na fase de Gerry Conway. Mas nada conseguia alavancar as vendas que iam tão mal que o título passou a bimestral. A razão disso parecia estar ligada ao fato de que o herói não parecia ter uma identidade própria, que o distinguisse dos outros personagens da Marvel. Isso só iria mudar em 1979, quando um jovem talento foi agregado ao título. Seu nome? Frank Miller.

Miller estreou em Daredevil 158, de maio de 1979.

A história em questão era uma continuação do número anterior, com plot de Roger McKenzie, texto de Mary Jo Duffy e desenhos de Gene Colan e Klaus Jason (imaginem a responsabilidade de Miller ao substituir Colan!). Nessa história o Demolidor enfrentava o Araúto da Morte, que depois mandava os Homens-animais para sequestrarem Matt Murdock.

Miller foi anunciado com grande alarde. 


A história do numero 158 começa no escritório de advocacia: o local está destruído, com uma mesa derrubada, papeis espalhados, Foggy Nelson caído no chão, a Viúva Negra enxugando o sangue que escorre de sua boca enquanto os Homens-animais tentam capturar o advogado cego. A cena é construída de modo que não vemos o que está acontecendo de fato (a tentativa de sequestro), mas apenas suas consequências e já ali tinha um pouco da genialidade de Miller.

Os editores pareciam adivinhar o futuro, pois anunciaram Miller com todas as honras. Num grande balão de splash, toda a equipe criativa dá boas-vindas à chegada daquele que é anunciado como desenhista sensação. Talvez fosse apenas mais uma daquelas jogadas de marketing que Stan Lee usava tanto, mas com hoje em dia parece profético.

Miller inovou ao mostrar o radar do herói. 



Os antagonistas não são nem de longe relevantes (tanto que um deles, o Homem-pássaro, é derrubado por um objeto jogado pela secretária de Matt Murdock). Embora o vilão principal, o tal do Arauto da Morte, fosse um adversário perigoso, era apenas mais um dos muitos vilões da Marvel. 

Miller dava um show nas sequências de ação. 


O que faz com que essa trama insossa ganhe relevância é a narrativa de Miller, em especial quando começa o confronto entre herói e antagonista. Na primeira página dessa sequencia, Matt Murdock se transforma em demolidor em cinco quadros que são um exemplo perfeito de como miller era um narrador nato que sabia usar muito bem ângulos e planos. Na mesma página vemos também a solução gráfica de Miller para o radar, com círculos concêntricos  que funcionam perfeitamente.   

Uma história boba, que com o tempo seria vista como um clássico.

terça-feira, maio 05, 2026

Watchmen

 



Watchmen surgiu de um pedido que Dick Giordano, editor da D.C., Comics fez a Alan Moore. A editora do Super-homem adquirira os direitos sobre os heróis da extinta Charlton Comics e a idéia era fazer uma minissérie em 12 partes com eles. Mas a proposta apresentada pelo roteirista era tão revolucionária que Giordano resolveu dissociá-la dos heróis da Charlton. Assim, o Capitão Atómo tornou-se o Dr. Manhattan, o Pacificador tornou-se o Comediante e o Besouro Azul contentou-se com o título de Nite Owl.
 O enfoque básico de Watchmen partia de uma idéia que Moore já havia experimentado em Miracleman: o que aconteceria se os super-heróis realmente existissem?
Moore havia pensado nessa possiblidade quando ainda era criança e lia as paródias de Harvey Kurtzman na revista Mad, que mostrava, por exemplo, o Super-homem fazendo compras num supermercado. Mas Kurtzman usava o recurso para causar um efeito cômico e Moore pretendia, girando o parafuso, alcançar um efeito dramático.
Assim, Moore faz a pergunta: como seria um mundo sobre o qual os super-heróis realmente caminhassem? Como eles se relacionariam com os seres humanos normais, quais seriam suas angústias, que consequências isso teria?
Para responder a essas perguntas, Moore lançou mão de um dos princípios da teoria do caos: o efeito borboleta. Esse conceito foi elaborado a partir da grande dependência das condições iniciais apresentadas pelos fractais. A mudança de um único número pode transformar completamente o formato de um desenho fractal.  A mesma regra vale para alguns eventos não lineares. Assim, o bater de asas de uma borboleta em Pequim pode modificar o sistema de chuvas em Nova York.
                Moore transpôs o conceito para os quadrinhos. Se o bater de asas de uma borboleta pode ter consequências tão imprevistas, imagine-se o surgimento de super-heróis... Para Moore, o mundo jamais seria o mesmo.
                Até então, os avanços tecnológicos conseguidos pelos super-heróis não afetavam em absoluto o mundo em que viviam. Um exemplo disso são as histórias do Quarteto Fantástico, no qual apareciam foguetes estelares e computadores capazes de criar realidade virtual, mas isso não mudava em nada a vida das pessoas comuns.
 O mundo de Watchmen que, até a década de 60 era semelhante ao nosso, transforma-se com o surgimento do primeiro herói com superpoderes de verdade, o Dr. Manhathan, um ser tão poderoso que um cientista teria dito sobre ele: “Deus existe, e é americano!”.
Assim, no mundo de Watchmen, carros elétricos são realidade, assim como perus com quatro coxas. Os EUA ganharam a guerra do Vietnã e Nixon permaneceu no poder, se reelegendo vezes seguidas. Tudo mudou, do micro ao macro.
Isso tudo é contado de forma realista, com heróis que morrem porque a capa enganchou na porta giratória do banco ou vilões que fogem porque o herói precisou parar a perseguição para ir ao banheiro.
Outra inovação foi a forma narrativa: Watchmen é repleto de flash-backs que vão destrinchando os personagens, suas motivações e os acontecimentos que, como um efeito borboleta, mudaram tudo. Moore inovou também ao colocar anexos às HQs, que ajudam a contar a história: prontuários médicos, trechos de livros, artigos científicos. Tudo isso forma um quebra-cabeça que precisa ser montado pelo leitor.
Watchmen é tão complexo que foi alvo de diversos estudos acadêmicos, que destrincham seus aspectos filosóficos, científicos, sociológicos. Ou seja: uma obra com múltiplas leituras.

Silenciadas

 


Silenciadas, filme espanhol dirigido por Pablo Agüero e lançado aqui pela Netflix parte de um fato histórico: a perseguição às “bruxas” pela inquisição na região dos países bascos.

No século XVII o juiz francês Pierre de Rosteguy de Lancre promoveu o massacre de centenas de mulheres. Ele vangloriava-se de ter queimado mais de 600 pessoas. A perseguição se estendeu até a Espanha e no final, entre os anos de 1609 e 1614, 6 mil pessoas foram queimadas na fogueira e outras 5 mil morreram na prisão.

No filme, um grupo de mulheres é presas depois de serem vistas dançando na floresta. O filme detalha a forma como aconteciam os processos contra as mulheres suspeitas de feitiçaria: não era permitido a elas sequer saber quem as havia denunciado. Na verdade, nem mesmo a acusação era conhecida (inicialmente elas acreditam que estão sendo presas por terem roubado uma cabra).

Era um jogo impossível de ser vencido: ao recusassem a confessar que eram bruxas as mulheres eram torturadas até a confissão, e se no fim isso não acontecesse, queimadas vivas da mesma forma. O processo para descobrir “provas físicas” demonstra bem isso. Pelo que acreditavam os inquisidores, o diabo havia colocado em mulheres uma marca na pele que se tornava insensível à dor. Esse processo de descoberta da marca era feito furando a pele da mulher. Se ela demonstrasse dor, partia-se para outro ponto (e os locais poderiam ir dos olhos ao órgão sexual). A única forma de parar a tortura era tentar demonstrar que não sentia dor em algum local – e o carrasco conseguia a prova da marca do diabo.

Só por demonstrar esse processo, o filme já valeria a pena – até pela ótima atuação das atrizes. A trama, no entanto, traz um elemento que faz toda a diferença: percebendo que os homens da aldeia vão voltar do mar, onde estão pescando, e podem salvá-las, a protagonista resolve ganhar tempo convencendo o inquisidor a fazer o ritual do Sabbath das bruxas.

É quando o filme engrena, ao demonstrar o quanto das acusações envolviam na verdade, fantasias sexuais dos inquisidores. Ana, a protagonista, vai criando sua versão do sabbath a partir das sugestões do inquisidor Rostegui. Enquanto ela fala, ele nitidamente parece estar chegando à beira do paroxismo sexual.

O ritual é outro ponto alto do filme, com as moças dançando e cantando uma canção folclórica enquanto o inquisidor mostra-se extasiado.

Uma curiosidade: pesquisando sobre o filme encontrei algumas pequenas resenhas de usuários do site Adoro Cinema. Uma delas reclamava que o filme não deixava claro se elas eram bruxas ou não! Provavelmente a pessoa tinha assistido Silenciadas achando que se tratava de um filme de terror sobre bruxas. Mal sabe ele que muitas vezes a maior fonte de terror é o próprio ser humano. 

Conan – Sombras de ferro ao luar

 


O trio de criadores Roy Thomas, John Buscema e Alfredo Alcala é provavelmente o mais célebre do personagem Conan. Entre as muitas histórias magníficas que fizeram, Sombras de ferro ao luar com certeza entraria em qualquer lista das melhores.

Publicada em Savage Sword of Conan 4, de fevereiro de 1975, a história começa com Shah Amurath perseguindo uma escrava, Olívia, pelos pântanos. A garota fugiu de seu cativeiro, mas foi alcançada pelo amo. Indomável, ela arranha do rosto do seu perseguidor, o que faz com ele decida matá-la, não sem antes estuprá-la.

É quando aparece pela primeira vez o cimério, numa splash page impressionante. A garota, em primeiro plano, tem a boca aberta num grito abafado, os olhos desesperados. O capitão agarra os braços frágeis da moça enquanto olha por cima do ombro e vê Conan surgindo no meio dos juncos ocupando quase metade da página. Não há aqui nada do elegante guerreiro de Barry Windson Smith. O que vemos é um selvagem grosseiro, o rosto tomado pelo ódio. A composição é impressionante.

A primeira aparição do templo é uma imagem impressionante. Mérito de Alfredo Alcala.


Ficamos sabendo que Conan fazia parte de um grupo de salteadores chamados Kozak, que havia sido dizimado pelas tropas de Shah Amurath. Só Conan sobrevivera, escondendo-se no pântano. E a fúria vingativa deste é mortal. Ele mata o comandante e para não ser pego pelos guardas, foge num barco – e a garota pede para ir com ele. Eles vão parar numa ilha aparentemente desabitada, mas coisas estranhas acontecem. Uma pedra imensa é lançada contra eles. Uma pedra tão pesada que até Conan tem dificuldade de levantar.

Buscando refúgio, eles entram na floresta e encontram um templo com estátuas que parecem vivas. A primeira vez que vemos esse templo a imagem é impressionante. Alcala capricha ao máximo, introduzindo centenas de detalhes para dar ao local uma impressão de abandono, mistério e terror. O mais impressionante ainda é saber que ele conseguia fazer várias dessas páginas por dia.

A sequência do sonho de Olívia é uma amostra da qualidade literária de Thomas. 


Claro que a situação vai gerar muita ação, violência e um ser gigantesco e ancestral, como é padrão nas histórias do cimério. Mas isso é feito com maestria absoluta tanto em termos de desenho quanto de roteiro. Enquanto Roy Thomas parece preguiçoso em outras histórias da mesma época, aqui ele parece inspirado. A sequência em que Olívia dorme e sonha com a explicação a respeito do templo é um exemplo de como o texto desse roteirista pode alcançar verdadeiros picos de qualidade literária: “Olívia sonha... e o mal rasteja em seus sonhos... seus sonhos são migalhas exóticas e pitorescas... fragmentos de sinais desconhecidos, estilhaçados... e ela flutua entre eles como uma felina ágil corre por jardins floridos... até que, de repente, eles se cristalizam numa imagem de horror e loucura!”.

Embora essa história seja uma adaptação de um conto de Robert E. Howard, esse texto não consta na obra original, o que mostra como Roy Thomas era capaz não só de adaptar bem Howard, mas de ainda acrescentar algo ao material original.

Uma curiosidade sobre essa história é que Olívia não tem nada cobrindo os seios durante toda ela. Mas os cabelos longos repousam cautelosamente sobre eles em todos os quadros.  

Homem-Animal – Deus Ex Machina

 

  

Toda a fase final do Homem-Animal sob a batuta de Grant Morrison parecia se guiar na direção de uma metalinguagem cada vez maior. Assim, não é espantoso que o personagem acabasse encontrando com seu roteirista.

Isso acontece nos números 25 e 26 do título.

No começo, o Homem-Animal vai parar em um limbo de personagens onde um macaco está escrevendo em uma máquina datilográfica e, segundo a lenda, um dia haverá de escrever uma história que irá tirar todos dali. Isso, obviamente, é uma referência direta ao famoso teorema do macaco, segundo o qual um macaco datilografando eternamente, em algum momento irá escrever uma obra prima, como uma peça do William Shakespeare.

Morrison homenageia personagens esquecidos da DC. 


O grupo de personagens encontrados pelo herói inclui alguns dos mais obscuros da DC Comics, como o Bobo da Corte, o Quinteto Inferior e o Abelha Vermelha. Os personagens imploraram para que o Homem-animal os tire de lá e um deles chega a dizer que ninguém se importa com eles. Vemos, então, uma imagem de Grant Morrison digitando no teclado e a legenda: “Eu me importo. Todas as coisas que significaram tanto quando éramos jovens estão perdidas... ou então esquecidas”.

É curiosa uma declaração como essa numa época de descontrução dos super-heróis, uma época em que era chique escrever super-heróis e dizer que não gostava deles. Fica óbvio que Morrison é apaixonado por esses personagens obscuros da DC e usa a história para homenageá-los.

A trama do macaco não dá em nada. 


A trama não vai muito além disso, no entanto.

O outros personagens avisam que o macaco está morrendo e o herói o pega no colo e anda com ele por páginas e páginas procurando uma tal cidade que nunca é encontrada.

No final dessa primeria parte, o Homem-Animal encontra com Morrison. “Eu sou o gênio maligno por trás dos bastidores. O marionetista que move os fios para você dançar. Eu sou seu roteirista”.

A história inclui Morrison fazendo uma auto-crítica.

Você matou minha família só para conseguir apelo emocional barato? 


“Por que eu tenho vagado por uma série de eventos não-relacionados, com pessoas me dizendo que tudo é relacionado?”, pergunta o personagem.

“Bom, esse é o problema com as minhas histórias... elas parecem avançar rumo a coisas que nunca acontecem de verdade!”.

Apesar da auto-crítica, muito justa por sinal, fica óbvio também que Morrison está usando a história para se auto-promover, algo no qual o roteirista sempre se mostrou um mestre.

Morrison usa a história para se auto-promover. 


Há um outro problema: o final dessa trama faz com que toda a saga da morte da família de Buddy Barker, assim como o ciclo de vingaça, perca todo o sentido. “É fácil obter choque emocional barato matando personagens populares”, admite Morrison.

A história é inovadora no meio dos super-heróis (Maurício de Sousa já usava o recurso, de aparecer nas histórias, muitos anos antes, na Turma da Mônica) e chega a ser até divertida, mas no final fica mesmo a impressão de que é apenas uma peça de marketing pessoal.