segunda-feira, maio 04, 2026

Homem de Ferro enfrenta o Cavaleiro Negro

 

 

Uma das regras básicas dos heróis da Marvel em sua origem era o princípio que Stan Lee chamava de “pés de barro” ou seja, uma deficiência qualquer que os fazia mais humanos e menos perfeitos. A expressão tinha ver com a expressão “ídolo de pés de barro”.

No Homem de Ferro essa falha era o problema do coração, que o fazia usar uma placa peitoral e praticamente o obrigava a usar a armadura. 

O Cavaleiro Negro ataca a fábrica...


Em muitas histórias essa falha era o motivo dramático da trama, como na história publicada em Tales of Suspense 59. 

Na história, o Cavaleiro Negro ataca a fábrica de Tony Stark e justamente nesse momento o dispositivos peitoral falha. Para isso ele precisa recarregar a placa. Ironicamente, é a preocupação dos amigos Happy Hogan e Pepper Pots que coloca sua vida em risco, já que eles insistem em levá-lo para o hospital só invés de deixá-lo entrar no escritório para recarregar. 

...justamente nessa hora o dispositivo peitoral descarrega. 


Comparado com esse drama pessoal, a luta contra o vilão parece menos perigosa ou mesmo urgente. 

Foram tramas como essa que ajudaram a sedimentar o estilo Marvel e fizeram com que até um personagem menor, como o ferroso, vendesse bem.

Camelot 3000 – Cavaleiro Judas

 


No número 8 da série Camelot 3000 o grupo é traído, colocando fora de ação o feiticeiro Merlin, o que os deixa sem a proteção mística.

Mike W. Barr constrói muito bem o roteiro, usando a estratégia de levar o leitor a pensar que algo aconteceu de uma maneira, quando na verdade, aconteceu de outro jeito.

Morgana oferece um acordo. 


Nos números anteriores, Morgana já havia aparecido para Tristão com a promessa de transformá-la e um homem caso ela traísse os companheiros. Essa edição inclusive começa com esse acordo, selado pela entrega de uma gargantilha com o símbolo masculino.

De fato, sob a orientação de Morgana, alguém entra no quarto de Merlin e destrói um amuleto. Ato contínuo, uma mulher misteriosa chamada Nyeve sequestra Merlin e o leva para um destino desconhecido.

Merlim é aprisionado. Quem é o traidor? 


Ao entrar no quarto do feiticeiro, Arthur encontra Tristão, agachado ao lado do amuleto quebrado. Barr constrói a narrativa de modo a fazer o leitor acreditar que Tristão é o traidor, mas quando ele segura Excalibur e jura que não é o traidor, a espada não o mata, provando sua inocência.

Essa estratégia de roteiro tem sido chamada de trapaça Kansas City (ela é citada com esse nome no filme Xeque Mate). A trapaça, que resume a tática usada pelos mágicos, consiste em fazer a plateia olhar para um lado quando o que é realmente importante está acontecendo em outro lugar.

Tom se sacrifica para salvar o Rei Arthur. 


Assim, todas as pistas a respeito de Tristão têm como objetivo esconder do leitor o verdadeiro traidor, que é descoberto logo depois.

Em paralelo a isso, Morgana e o diretor de segurança da ONU aproveitam a ausência de Merlim para efetuar um ataque contra Nova Camelot. Um ataque no qual Arthur quase é morto, sendo salvo pelo seu traidor e por Tom, que sobrevive, mas em estado grave. Esse é o gancho para que os cavaleiros decidam procurar pelo santo Graal, o cálice capaz de curar qualquer ferida ou doença. 

A ilha do Cumbu em Belém

 

Uma das atrações mais incríveis para quem visita Belém é a ilha do Cumbu, a apenas 15 minutos de Belém. Para ir para a ilha é possível pegar um barco na praça Princesa Isabel, na rua Alcindo Cacela, no bairro do Condor. A passagem é uma média de cinco reais a sete reais por pessoa.

A ilha é uma grande produtora de açaí e cacau e tem uma fábrica de chocolate - um dos itens básicos do passeio é visitar a fábrica e comprar o chcolate artesanal.
Há vários restaurantes-balneários, mas o melhor parece ser o Saldosa Maloca. Sim, saldosa com L. Pelo que nos explicaram, a primeira placa foi escrita de maneira errada e para não perdê-la, o dono resolveu deixar esse nome diferenciado.


O restaurante, como fica de frente para o rio, é muito ventilado e ornamentação é um dos diferenciais. Fica uma dica: eles vendem um copo de água por cinco reais. O copo vem caracterizado e já seria uma ótima lembrança, mas tem mais: dá direito a refil. Ou seja, o cliente pode beber água quantas vezes quiser. Ou seja: uma ótima lembrança e água a preço muito baixo. Os pratos são deliciosos, com destaque para o peixe.
Vários barquinhos fazem a travessia para a ilha. 



O chalé da ilha conta com balneário e até rede dentro da água.



Chalé da ilha é uma boa opção para quem busca diversão. 


A ilha permite uma bela vista de Belém. 

O estranho que nós amamos

 


Sexo e morte. Eros e Tanatos. Esses dois conceitos são perfeitos para definir “O estranho que nós amamos”, filme de 2017, de Sofia Coppola.
Na história, um soldado nortista é ferido na perna e encontra abrigo numa antiga mansão sulista que agora funciona como escola feminina. Acolhido pelas mulheres, que em um primeiro momento pensam em entregá-lo aos soldados sulitas, ele se acaba sendo cortejado pelas duas professoras e por todas as alunas.
A casa é tomada pela tensão sexual, explificada pela cena do jantar. Cada uma veste seu melhor vestido e até mesmo uma torta de maçã acaba ganhando contornos de cortejo e os risinhos encobrem o forte desejo sexual de todos os presentes.  
Mas a história, como se tivesse um lado B, logo se torna também uma história de suspense e violência em um plot twist surpreendente, mas totalmente verossímel.
Sofia Coppola tem um olhar sensível, capaz de captar detalhes e nuances que talvez escapassem de um cineasta menos competente, e que ajudam a compor a história e os personagens e mostrar a trama do ponto de vista das mulheres sem a necessidade de longos diálogos. Além disso, a fotografia é dominada por aquilo que Roland Barthes chamava de estetismo: a busca de aproximar a imagem de uma pintura. Dessa forma, a maioria dos takes são verdadeiros quadros, inclusive em termos de enquadramento.

Monstro do Pântano – descida entre os mortos

 


É muito difícil escolher a melhor história do Monstro do Pântano da fase de Alan Moore. Mas se eu fosse fazer uma lista, certamente Descida entre os mortos, publicada em e  Swamp Thing Annual 2 certamente estaria no topo da lista.

Na saga anterior, Arcane havia matado Abigail Cable e enviado sua alma para o inferno. Matt  conseguira regenerar o corpo da donzela, mas sua alma ficaria para sempe nas regiões abissais, a não ser que alguém fosse em seu resgate.

A história é uma versão da Divina Comédia, com o herói descendo ao inferno para salvar a amada.


A história é, obviamente, uma versão em quadrinhos do clássico A divina Comédia, de Dante Alighiere numa versão no mímimo bizarra, já que o herói a descer ao inferno atrás de sua amada é na verdade um monstro.

Assim, o Monstro do Pântano usa sua capacidade de sair do corpo e visitar outras dimensões para alcançar a região dos mortos. Lá ele encontra alguns dos principais personagens místicos da DC Comics, que servem como seus guias: Vingador Fantasma, Desafiador, Etrigan, o demônio e Espectro. Moore aproveita para remodelar alguns desses personagens. Sua abordagem, de poucas páginas acaba sendo muito aprofundada do que muitos autores que assumiram os títulos desses personagens por vários números. O Vingador Fantasma, por exemplo, aparece nessa história como um anjo caído, versão que seria explorada posteriormente pelo próprio Moore.

O Monstro do Pântano encontra vários heróis místicos da DC. 


Os motivos para essa história serem especiais são muitos, a começar por seu aspecto poético. Etrigan, por exemplo, planta uma flor em homenagem a Abigail no próprio inferno. “Ela não vai se lembrar do que quer que seja. Se quiser, conte-lhe que, contra a corrente no inferno, uma flor com seu nome viceja”, rima o demônio. Eu sempre me lembre da tradução que li primeiro, a da Abril: “Agora leve a jovem para outra paragem! Ela nada irá lembrar quando enfim despertar...mas se quiser, você poderá lhe contar... que no inferno uma flor cresce em sua homenagem!”.

Temos a arte sensacional de Steven Bissete e John Totleben, com sua diagramação ousada e certeira. À certa altura, por exemplo, o Monstro do Pântano e Desafiador descem da região dos recém-mortos para o paraíso, e os quadrinhos são diagramados de forma a parecer que eles estão mesmo descendo pela página.

Espectro na versão de Moore, Bissette e Totleben.


Há toda a questão filósofica. O Desafiador acredita que Deus é uma mulher. “Boston Brand é um espírito jovem. Mal viu poucas peças de um quebra-cabeça que se espraia indefinidamente”, rebate o Vingador Fantasma. “Deus não é pai, mãe ou policial mandão dando mimo quando ri e castigo quando azeda. Cada um ascende ou cai pela própria ação. Ele lamenta, mas não pode evitar a queda”, recita Etrigan em outro ponto.

Há sequências impressionantes, como quando surge espectro. Talvez nenhum outro roteirista tenha imaginado uma sequencia que deixasse tão claro a grandiosidade do personagem.

E, finalmente, temos uma narrativa que prende a ponto de não conseguirmos desviar da leitura até os últimos e emocionantes momentos.

O inspetor geral

 

O inspetor geral é uma das mais importantes peças teatrais de todos os tempos. Escrita por Nicolai Gógol, e encenada em 1836, ela foi tão mal recebida pela crítica na época a ponto do escritor ter saído da Rússia. Aliás, ela só foi encenada graças ao apoio do imperador Nicolau I, que foi convencido pelos amigos de Gógol.

Com o tempo, no entanto, ela foi redescoberta e foi se tornando, cada vez mais clássica e mais e mais idolatrada.

Na verdade, Gógol estava muito além de seu tempo. Sua peça só seria reconhecida de fato com a encenação, em 1926 (quase um século depois) dirigida pelo vanguardista Vsévold Emílievitch Meyerhold.

Na trama, as autoridades de uma pequena vila no interior da Rússia ficam aterrorizadas com uma notícia: um inspetor geral, enviado pelo imperador, irá visitar o local. Como todos são extremamente corruptos, o medo de prisão e até da forca é geral. Para piorar, o Inspetor geral, segundo informações, vai aparecer totalmente incógnito como forma de descobrir os podres locais.

Pouco depois da carta, descobre-se que um forasteiro está hospedado na hotelaria e se diz um graduado funcionário de São Petersburgo – e todos acreditam que ele é o Inspetor Geral. Começa uma verdadeira maratona de suborno e regalias na tentativa de impedir que ele reporte ao governo central todos os abusos das autoridades locais. Ocorre que o “inspetor geral” é na verdade um funcionário público pouco graduado que perdeu todo o dinheiro nas cartas e vê na oportunidade uma forma de embolsar dinheiro dos ingênuos e apavorados governantes locais.

É uma comédia de erros, muito bem representada pelo primeiro encontro do trambiqueiro com o prefeito em que este o convida para um passeio pela cidade e aquele acredita que será preso por não pagar a conta do hotel – e cada um, tão apavorado com seus próprios temores, não consegue prestar atenção ao que o outro está falando.

Um aspecto da peça criticado na época é exatamente o que faz dessa obra algo tão interessante: os personagens são todos caricaturas. Ao fazer isso, Gógol transformou sua obra não em uma crítica específica à corrupção e à burocracia do estado russo, mas em uma fábula universal sobre os abusos dos poderosos e sobre como pessoas que se acham tão importantes são na verdade absolutamente risíveis.

Não por acaso, a peça não só foi encenada diversas vezes, em diversos países, mas também ganhou versões inesperadas, como um livro da série Perry Rhodan.

No Brasil, a peça ganhou uma encenação clássica em 1966 no Teatro Arena e outra em 1974, pelo grupo Asdrubal trouxe o trombone. Não por acaso, essas duas versões mais famosas foram encenadas exatamente no período da ditadura militar. Os censores da época devem ter achado que seria interessante uma peça criticando a burocracia russa sem perceber que a mesma se adequava muito bem à realidade brasileira.

Sobre as publicações há uma tradução de Augusto Boal e Gianfracesco Guarniere e outra mais recente, traduzida por Arlete Cavaliere e publicada pela Peixoto Neto em 2007. Essa última se destaca por um longo texto, de autoria da tradutora, sobre Gógol e sua obra teatral. 

domingo, maio 03, 2026

As aventuras de Hans Staden, de Monteiro Lobato

 

Conhecido como Duas viagens ao Brasil, a obra Hans Staden foi o primeiro livro escrito sobre o Brasil e povoou o imaginário europeu à época com sua descrição dos índios antropófagos. Em 1927, Monteiro Lobato resolveu trazer a obra para o público infantil. O interessante da versão de Lobato é que ele recheia o livro de comentários, a maior parte deles na boca da Dona Benta, que narra a história. Muitos desses comentários, aliás, vão de encontro à visão do próprio Hans Staden.  

Hans Staden era um alemão que se encantou pelo mar e pretendia visitar a Índia. Uma série de acontecimentos fez com que ele viesse parar no Brasil onde se tornou responsável pelo forte de Bertioga.

Num dos dias que estava caçando, foi capturado pelos tupinambás, inimigos declarados dos tupiniquins, aliados dos portugueses. Os tupinambás eram canibais e costumavam comer os adversários aprisionados, mas não fizeram isso com Hans por o acharem curioso. Nunca tinham visto um loiro de olhos azuis e resolveram levá-lo para que as mulheres da tribo pudessem se divertir com ele. O alemão vai usando de diversos estratagemas para se manter vivo, inclusive usando uma doença que assolou diversas pessoas da tribo para convencer os indígenas de que seu deus queria se vingar deles por quererem comê-lo.

Lobato era um narrador nato e usa essa qualidade para tornar ainda mais interessante a história. Chega um ponto em que o leitor fica preso na trama, tentando antecipar a forma como Hans conseguiu se libertar (que ele conseguiu sobreviver é óbvio, não?).

Mas talvez o mais interessante da obra sejam os comentários de Lobato, que vão de antropologia a história, passando pela ética. Quando Narizinho diz que o método de preparo do cauim, a bebida indígena, é nojento, Dona Benta retruca: “Para nós que temos outra cultura e outro modo de ver. Se você fosse uma indiazinha daqueles tempos, havia de achar a coisa mais normal do mundo e não deixaria de comparecer a todas as mascações de abati”.

Ao comentar as atrocidades cometidas pelos europeus na América, Lobato diz que “Não há termo de comparação entre o modo pelo qual os índios tratavam os prisioneiros e o que era de uso na Europa. Lá a ‘civilização’ recorria a todos os suplícios, inventava as mais horrendas torturas. Assavam os pés da vítima, arrancava-lhe as unhas, esmagava-lhe os ossos, davam-lhes de beber chumbo derretido, queimavam-no na fogueira. Não há monstruosidade que em nome da lei de Deus  os carrascos civilizados, em nome e por ordem dos papais e reis, não tenham praticado”.

Segundo Lobato, a história da humanidade é uma pirataria sem fim, em que o mais forte sempre tem razão e vai pilhando o mais fraco.

Quando Narizinho pergunta porque esses homens cruéis entraram para a história como gloriosos, dignos de estátuas, Dona Benta responde: “Por que a história é contada por eles. Um pirata quando escreve sua vida dá a impressão de que é um magnânimo herói”.

Curiosamente, enquanto eu lia o livro, Donald Trump tomava posse e seu discurso era a glorificação do mais forte submetendo o mais fraco, justamente aquilo que Lobato critica durante toda a obra, o que mostra como pouca coisa mudou na história da humanidade.

Apesar de toda a crítica, Lobato não escapou da visão colonial. Quando narizinho se espanta com a ingenuidade dos indígenas, que era facilmente enganados pelo alemão, Dona Benta responde: “É que possuíam um grau de inteligência muito inferior ao dos brancos. Daí a facilidade com que os peros (portugueses) e espanhóis, em muito menor número, conseguiram dominá-los”.  

Uma curiosidade é que o título original da obra de Hans Staden é "História Verdadeira e Descrição de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América, Desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas Terras de Hessen até os Dois Últimos Anos, Visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a Conheceu por Experiência Própria e agora a Traz a Público com essa Impressão".

Interestellar

 

Quando bem feita, a ficção científica pode se tornar um gênero absolutamente filosófico. Seu salto para o futuro permite discutir e inferir questões sobre a vida humana e os mistérios do universo. Exemplo disso é o filme Interestelar, de Christopher Nolan, de 2014.
Na história, a humanidade corre o risco de extinção graças a pragas nas lavouras e tempestades de areia. É quando surge nas proximidades de Saturno um buraco de minhoca, que pode levar a planetas habitáveis. Para quem não sabe, o buraco de minhoca é uma dobra no espaço-tempo, que permite pular grandes distâncias em pouco tempo.
Em uma das sequências mais interessantes, os exploradores vão parar em um planeta com gravidade tão forte que o tempo se distoce, de modo que cada hora na superfície do planeta equivale a sete anos na terra.
O filme usa os preceitos da teoria da relatividade e da física quântica a serviço de uma história instigante e complexa. Hollywood ainda é capaz de produzir filmes que nos fazem pensar

Revista polonesa Krakers

 

Zulu é uma história em quadrinhos com texto meu (a partir de uma ideia de Walter Klattu) e arte do grande Will. É um exercício de narrativa paralela: enquanto Zullu enfrenta os perigos para cumprir sua missão de matar a Medusa, eu conto, com o texto. No final, as duas tramas se juntam e fica claro porque só ele seria capaz de matar a Medusa. Essa HQ foi publicada na revista polonesa Krakers no ano de 2015. É curioso ver meu texto em uma língua incompreensível para mim.

As vidas de Chico Xavier

 


Chico Xavier é uma das figuras mais importantes e polêmicas do Brasil. Sua popularidade é tão grande que, mesmo depois de morto, continua levando milhares de pessoas para Uberlândia, transformando o turismo religioso na principal fonte de renda da cidade. Não admira, portanto, que a vida do médium fosse transformada em uma biografia.
Ainda assim, o jornalista Marcel Souto Maior teve que vencer vários obstáculos para escrever o livro “As vidas de Chico Xavier”. O primeiro deles veio dos próprios colegas jornalistas. “Chico Xavier? Não é o Chico Buarque, não? Chico Anysio? Chico Mendes?”, ironizavam os amigos do Jornal do Brasil.
Outro obstáculo filho adotivo de Chico, Euripedes. Preocupado com a saúde do pai e em preservá-lo, Euripedes não deixou o jornalista passar nem do portão. Ainda assim, Marcel insistiu: resolveu assistir a uma sessão no Centro Espírita da Prece, fundado por Chico muitos anos antes. Depois que o médium deixara de comparecer, o público minguara e eram apenas 14. Surpreendentemente, naquele dia, ele resolveu reaparecer, com um sorriso largo e um terno mal-ajambrado.
Cético, Marcel não soube explicar as lágrimas que começaram a desabar em borbotões de seu rosto, sem nenhuma razão especial.
Terminada a sessão, o jornalista procurou Chico para pedir autorização para a biografia. Chico respondeu de forma indireta, evitando a palavra não:
- Deus é que autoriza.
- E ele autoriza?
- Autoriza.
Mas a muralha de Euripedes ainda continuava existindo. O jeito foi apelar para o outro filho adotivo de Chico, Vivaldo, que mora nos fundos da casa do pai.  Quando o jornalista o visitava, Chico chamou o filho por um interruptor. Quando Vivaldo saiu, um calor insuportável tomou conta das mãos do jornalista. Sobressaltado, ele largou a caneta, saltou do sofá e correu para o quintal. Ficou lá, sacudindo as mãos na noite fria, até que Vivaldo aparecesse:
- Meu pai disse que sua biografia vai ser um sucesso. Parabéns!
O episódio mostra bem os mistérios e a mística por trás de Chico Xavier. Chico escreveu quase 400 livros, cartas de pessoas desencarnadas, virou celebridade nacional. No entanto, até o final da vida, viveu de forma modesta, sem grandes fortunas, sendo quase um prisioneiro de seu próprio sucesso.
O fato do livro ser escrito por um cético, mas que passou pelas duas experiências acima (do choro descontrolado e das mãos em fogo) faz com que ele tenha a abordagem correta, não caindo nem na armadilha de um livro doutrinário, nem na reportagem sensacionalista que o filho adotivo de Chico tanto temia.
O que se revela é uma figura ímpar, que angariou milhões de fãs no Brasil todo e igual número de detratores. Essa dualidade já se apresentava na infância do médium, quando ao ouvir que ele conversava com os espíritos, a madrinha dizia que ele tinha o diabo no corpo e lhe fincava garfos na barriga na tentativa de espantar o mal. Chico, convencido de que que conversar com espíritos era errado, tentava tudo para se curar. Chegou até a desfilar em uma procissão com uma pedra de 15 quilos na cabeça, repetindo mil vezes a ave-maria. Nada adiantava. Quanto mais rezava, mais via espíritos.
O livro nos revela um Chico sofredor, que não era compreendido na infância e apanhava por causa da mediunidade. Quando finalmente se tornou adulto, sofria com doenças, como a catarata que fazia seus olhos sangrarem. À noite, era atormentado por espíritos baixos, que lhe provocavam pesadelos em, alguns casos, tentavam matá-lo usando para isso pessoas com mediunidade. Ao se queixar com seu guia espiritual, Emmanuel, recebia reprimendas. Tinha que aceitar de bom grado tudo que lhe acontecia, pois servia para expiar culpas de outras encarnações. Quando se tornou uma figura famosa, sofria com o assédio, com pessoas que queriam falar com ele mesmo quando ele estava muito doente. Além disso, Chico nunca ganhou nada com isso, pois todo o dinheiro das vendas dos livros ia para instituições de caridade.
Sua missão espírita parecia mais um castigo do que um prêmio. Por outro lado, havia as tentações. Uma vez Chico entrou no banheiro e encontrou três mulheres tomando banho nuas, jogando água umas nas outras e rindo para ele, convidativas. O médium fechou os olhos e rezou. Quando os abriu, elas haviam desaparecido.
Abnegado, Chico usava a humildade para resistir aos sofrimentos e tentações do mundo. Dizia que era um Cisco Xavier, brincando com o próprio nome. Quando lhe disseram que talvez fosse eleito para a Academia Brasileira de Letras, ele perguntou: “E agora aceitavam cavalos lá?”.
Se a biografia revela esse lado humilde, abnegado e caridoso, revela também um homem carismático e divertido. Chico gostava de contar casos e gostava de rir. Uma vez, convidado pelos amigos a pescar, foi, mas não pescou nada. Passaram a tarde na beira do rio e os amigos pegaram muito peixe. De Chico não se aproximava nem lambari. Ele acabou confessando: não tinha colocado isca no anzol, para não incomodar os bichinhos. Ao ser assediado por uma figura demoníaca, que lhe perguntava se tinha sido chamada, ele saiu-se com essa: “É que a vida anda difícil e queria que o senhor me abençoasse em nome de Deus ou das forças que o senhor crê”. O diabo reclamou: “É só a gente aparecer que você já cai de joelhos!” e sumiu.
Em suma: As vidas de Chico Xavier é um livro que abarca as várias facetas dessa famosa personalidade, num livro leve e gostoso de ler. É tão fascinante que serviu de base para o filme de Daniel Filho sobre a vida do médium mineiro.

Sargento Rock – Tanque 711

 


Entre as várias fórmulas usadas pelo escritor Robert Kanigher na série Sargento Rock está a do soldado arrogante que aprende uma lição. Exemplo disso é a história Tanque 711 publicada em Our Arm at War 86.

A história começa com o Sargento Rock descrevendo alguns tipos que fizeram parte da companhia moleza, como os preocupados, os especialistas e enrolar... e os que pensam que estão na guerra lutando sozinhos... como Nick Anderson! O quadro equivalente mostra Nick ao lado do superior, reclamando em meio um bombardeio: “Ninguém se importa com a infantaria, sargento! Por que não mandaram a artilharia de campo cuidar desses caras?”. Rock responde, com a maior paciência: “Talvez ela esteja ocupada em outro lugar, Nick! Esta é uma grande guerra!”.

O soldado Nick Anderson nunca está satisfeito. Mas ele irá aprender uma lição.


E a história segue com o personagem se lamuriando por duas páginas, até que surge um tanque para protegê-los (o 711 do título). O veículo chega ao ponto de quase ficar sem combustíel, mas mesmo assim continua cobrindo a companhia moleza, diante de um Nick cada vez mais incrédulo: “Não fez mais do que a obrigação dele! E quanto aos apuros? Por que não chegou antes?”.

Claro que o final da história guarda uma reviravolta na qual o personagem muda completamente de opinião. Bem ao estilo Robert Kanigher.  

Cobra Sofia, de Rafael Senra

 

 

Lançado no ano de 2021, o álbum de quadrinhos Cobra Sofia, de Rafael Senra, teve um percurso curioso. Começou como uma música. Da música, surgiu a ideia de fazer um clipe animado. Ao produzir as imagens para o clipe, o autor pensou: “Por que não uma história em quadrinhos?”.

O resultado foi a obra de 50 páginas lançada pela Marca de Fantasia.

Há alguns problemas ao se adaptar as lendas amazônicas para outras mídias. O primeiro deles é a visão corrente entre a população de que essas lendas são de cunho infantil, uma visão totalmente equivocada. A outra questão diz respeito à narrativa. As lendas em si apresentam histórias curtas. Como desenvolvê-las em um álbum? 



Senra consegue contornar essas situações de forma muito competente. Em nenhum momento, por exemplo, ele tenta infantilizar a lenda, o que tiraria dela muito de sua essência, já que se trata de uma história sobre uma índia engravidada pelo boto tucuxi e que acaba parindo uma cobra.

Há se destacar um possível problema de verossimilhança na lenda original. Por que razão a índia sairia da tribo e viveria fugindo pela floresta durante a gravidez? Para nós parece não fazer sentido, mas Senra consegue justificar a situação.



A questão da brevidade da lenda é resolvida de duas formas. A primeira delas com um bom desenvolvimento da mesma, detalhando todo o processo da gravidez. Vale destacar a cena em que a personagem atravessa um rio e sua imagem repetida, representa saltos no tempo, de modo que, quando entra na água, sua barriga está pequena, e quando saí ela já está próxima de dar a luz, uma grande sacada narrativa.

Outra forma de contornar a brevidade da lenda foi abordar suas consequências atuais, como pessoas cujo desaparecimento é creditado à cobra grande, ou os tremores de terra, que também seriam provocados pela mesma.

A obra pode ser baixada gratuitamente no site da Marca de Fantasia: http://marcadefantasia.com/albuns/repertorio/cobrasofia/cobrasofia.pdf.

Esperamos que em breve possamos ver uma versão impressa. Merece.


Crise – Morte na aurora do tempo

 


Quando li Crise nas infinitas terras nas revistinhas da editora Abril, no final de década de 1980, de longe o que mais me chamou atenção foi o número 10, publicado em Novos Titãs 15.

A razão disso é que Marv Wolfman e George Perez incluíram na história uma narrativa paralela, no rodapé de cada página. Para deixar claro que aquela inserção não fazia parte da narrativa normal, Perez desenhou esses trechos em preto e branco com retícula.

O que mais me chamou atenção foi a narrativa paralela no rodapé. 


Na trama, os vilões tomaram as terras 4, X e S e os heróis voltam para combatê-los. Mas a batalha é interrompida pelo gigantesco Espectro.   

Segundo o poderoso ser místico, o Antimonitor voltou para a aurora do tempo com o objetivo de mudar a história, fazendo com que todos os universos sejam dominados pela antimatéria.

Heróis e vilões lutam pelo controle das Terras. 


A solução é levar todos os heróis e vilões para o passado na tentativa de impedir que isso aconteça.

Marv Wolfman aproveita todo o manancial de personagens da DC, juntando aqueles de poderes elétricos, os de poderes magnéticos e os velocistas para abrir um portal para o passado.

A luta entre heróis e vilões é paralisada por Espectro. 


Mas o roteirista pensou num plot twist: a ida dos heróis ao passado faz parte dos planos do Antimonitor, que pretende usar a energia dos mesmos para realizar seus planos. A última barreira contra a destruição do universo passa a ser, então,  Espectro e os heróis místicos da DC (de novo, um verdadeiro batalhão).

Mas, como eu disse, o que realmente chama atenção é a narrativa paralela, em rodapé. Ela mostra a Precursora registrando suas observações sobre tudo o que está acontecendo.

Velocistas abrem um portal para a aurora do tempo. 


Há momentos de reflexão, como “Quantos mais mundos sucumbiram, Monitor? Mibrannu, um planeta de gás metano racional, talvez o mais pacífico de todo o universo, morto, enquanto os selvagens exércitos  de Kallidrane sobreviveram para destruir novamente. Será isso justo, Monitor?”.

Mas há outros puramente narrativos. No final, esse rodapé serve para situar o leitor, mostrando o pano de fundo dos acontecimentos principais. A leitura das duas instâncias narrativas permite ao leitor juntar as peças, como se montasse um quebra cabeças, para entender toda a história. É uma forma inteligente de tornar inteligível uma trama extremamente complexa, com centenas de personagens e acontecimentos.