sexta-feira, junho 19, 2026

O dia em que Loki roubou o martelo de Thor

 


Após criar o poderoso Thor, Stan Lee e Jack Kirby foram cuidar de outros títulos – em especial o Quarteto Fantástico, a vaca leiteira da Marvel à época. Quem ficou responsável pelo deus do trovão foi Robert Bernstein no roteiro (a partir de história de Stan Lee) e Joe Sinott nos desenhos.

Exemplo do trabalho dessa dupla criativa foi a história publicada em Jorney in to Mistery 92. A trama já é resumida na capa, com Loki quebrando grilhões e se vangloriando: “Eu consegui! Roubei o martelo do Thor! Agora o deus do trovão está à minha mercê!”. Caído no chão, o cabeludo herói estica a mão para sua arma e pensa: “Não consigo alcançá-lo! Dentro de alguns segundos, todos os meus superpoderes terão sumido para sempre!”.

Loki desvia o mortelo, fazendo com que ele o liberte. 


Na verdade, o que acontecia no miolo não era exatamente isso. Ao participar das filmagens de um longa metragem, Thor lança seu martelo, mas Loki consegue desviá-lo para Asgard, fazendo com que ele se choque contra os grilhões que o prendem. Isso também faz com que o martelo fique perdido. Mas em nenhum momento o deus do trovão corre o risco de perder seus poderes para sempre, afinal, ele pede ajuda Odin, que o leva de volta a Asgard, local em que a condição na qual ele se transforma no médico aleijado não existe.

A história gira em torno de Thor tentando encontrar o seu martelo e as estratégias usadas por Loki para impedi-lo. Nesse meio tempo, o deus do trovão faz martelos substitutos com madeira e até com rocha, que ele cava com as próprias mãos.

Thor cria um martelo de madeira. 


O curioso é que, embora a ideia fosse de Stan Lee e usasse um dos personagens mais famosos da Marvel, essa parece uma história da DC. O ritmo é lento, arrastado, com enfoque muito maior nas estratégias dos personagens do que na ação. Faltava algo nos diálogos e faltava principalmente o talento de kirby, cujas imagens eram verdadeiras explosões de ação.

Caminha comigo

 


Dirigido por Marc Francis e Max Pugh e lançado em 2017, o filme Caminha comigo registra o cotidiano de uma comunidade zen-budista na frança chamada Plum Village, fundada pelo monge vietnamita Thich Nhat Hanh.

O filme é todo baseado no conceito de atenção plena (Mindfulness). A ideia por trás desse princípio é de que devemos viver o momento presente, sem nos importarmos com o passado ou nos preocuparmos com o futuro.

A atenção plena aparece inclusive em termos de narrativa. São situações do cotidiano dos monges: um monge desconcentrado durante o zazen; dois monges conversando na cozinha; um monge e um voluntário organizando as almofadas de meditação (e descobrindo que se conhecem); uma monja visitando o pai... e caminhadas, muitas cenas silenciosas de caminhadas, o Kinhin, claramente o tipo de meditação predileto de Thich Nhat Hanh.

O documentário mostra também o tocar dos sinos, ao tocar dos quais, todos param tudo que estão fazendo, uma forma de tirar as pessoas do modo automático e fazer com que elas prestem atenção ao momento presente.

A narrativa é tão contemplativa que exige do expectador uma atitude mental de atenção plena. Não há narrador ou mesmo depoimentos dos personagens. Apenas as cenas capatadas e alguns trechos de textos de Thich Nhat Hanh narrados por Benedict Cumberbatch (o Doutor Estranho dos filmes). Isso inclusive cria um problema. Muitas vezes não conseguimos identificar onde está acontecendo a ação.

Curiosamente, até mesmo um filme contemplativo como esse tem seu momento de conflito. Ele aparece quando os monges vão meditar em uma praça e um fanático religioso cristão passa a acusá-los, aos gritos, de terem pacto com satanás. A reação dos monges sintetiza a essência do zen: eles apenas continuam meditando. 

Para assistir, clique aqui:  https://www.youtube.com/watch?v=Cescc684NWI

Demolidor – Marcado para morrer

 


Assim que assumiu os desenhos na revista do Demolidor, Frank Miller chamou atenção por seu senso narrativo e começou a dar sugestões para o título, sugestões que foram acatadas pelo roteirista Roger McKenzie.

Esses pitacos já podem ser observados na segunda história desenhada por Miller, em Daredevil 159. Essa edição já destoa do tom super-heroiesco da revista até então, aproximando-se mais do gênero policial.

Na história um homem misterioso, cujo rosto não vemos em detalhes, contrata um mafioso chamado Slaughter para matar o Demolidor, prometendo um pagamento de meio milhão de dólares.

A página dupla é um exemplo da maestria narrativa de Miller. 


As primeiras páginas já são um ótimo exemplo do estilo narrativo que seria característico de Miller (vale lembrar que na Marvel usa-se o Marvel way, em que o desenhista recebe apenas um resumo, desenvolve visualmente a história e depois o roteirista coloca o texto). A primeira página mostra trechos de uma batalha entre o Demolidor e o Mercenário em quatro imagens com uma variedade de ângulos e planos.

Então o leitor se depara com uma imagem em página dupla. Um homem misterioso apontando para a tela, onde passam as imagens do conflito enquanto o mafioso, em primeiro plano, tem seu cigarro aceso por um lacaio e diz: “Tudo é possível por um preço... até mesmo assassinato!”. O impacto é enorme.

Miller varia planos, ângulos, joga com a luz e a sombra. 


O mafioso manda bandidos ameaçarem Matt Murdock e enviarem uma mensagem para o Demolidor: ele deve comparecer no cais à meia-noite. Claro que o local está infestado de malfeitores, armados até os dentes, prontos para matar o herói.

Mas o Demolidor usa seu sentido de radar e sua audição super-desenvolvida par ir eliminando os adversários um a um em sequências de ação simplesmente magistrais. Miller joga com luz e sombras, varia ângulos e planos, usa a elipse quadrinística com genialidade, faz quadros verticais que se esticam por toda a lateral da página quando o Demolidor cai na água, usando o recurso para mostrar visualmente sua queda.

Uma curiosidade é que Miller introduz aqui um personagem que seria usado à exaustão como alívio cômico na sua fase como roteirista do título: o criminoso Tucão.

No final descobrimos que quem está por trás dessa tentativa de assassinato é um vilão Mercenário. A história termina com a promessa de um grande confronto.

Jornal da BD e os quadrinhos seriados

 

Jornal da BD foi uma publicação semanal portuguesa surgida em 1980 e publicada até 1987, perfazendo um impressionante total de 264 edições (com tiragem de 50 mil exemplares!). Em tempo: o nome se refere à forma como os quadrinhos são chamados em Portugal: Banda Desenhada, portanto, BD.
É uma publicação no estilo europeu, com várias séries publicadas em capítulos de seis ou sete páginas – na França e na Bélgica é comum depois de publicados os capítulos, unir tudo em um álbum. No caso do Jornal da BD, em alguns números eles apresentavam também uma história completa.
A relação de séries publicadas reúne o melhor do quadrinho franco-belga: Asterix, Blueberry, Valerian, Lucky Luke, Iznogoud (só para citar os mais conhecidos no Brasil).
Eu consegui comprar em um sebo de Curitiba um lote que vai do 17 ao 32 e é um dos itens mais queridos da minha coleção.
Curiosamente, as séries que eu mais gostava eram as menos conhecidas aqui: Cori, o grumete, de Bob de Moor, e O filho do Barba Ruiva, de Charlier (roteiro) e Hubinon (desenhos).
Cori, o Grumete se passa na época da expansão marítica dos países europeus e da guerra entre Inglaterra e Espanha (spoiller: embora tivesse a maior armada, a Espanha foi derrota, o que transformou a Inglaterra na maior pontência naval da época). Trabalhando em um barco holandês, Coris se vê envolvido nos principais acontecimentos do período, chegando a ser até mesmo espião da rainha da Inglaterra.
O filho do Barba Ruiva é uma série sobre piratas, tendo como protagonista o filho adotivo de um dos maiores corsários de todos os tempos.
Tanto uma série como outra são exemplos perfeitos do quadrinho franco-belga de aventura e o Jornal da BD permite entender como eles foram inicialmente concebidos. Cada página funciona como um pequeno capítulo que termina em uma situação de supense que só irá se resolver na página seguinte, que, por sua vez, trará, ao final, outro suspense. Isso que permitia o sucesso dessas publicações semanais: os leitores ficavam viciados na narrativa, curiosos para saber o que aconteceria a seguir e, assim, compravam toda semana.
Tanto Bob de Moor quanto Charlier sabiam fazer isso com maestria e, além disso, desenvolver perfeitamente os personagens, com protagonistas e secundários extremamente carismáticos. 
Veja abaixo algumas páginas. 

Essa é a primeira página da série O filho do Barba Ruiva. O protagonista em álbuns anteriores descobriu que é herdeiro de uma grande herança. Para isso ele vai, sem avisar, até a casa de seus parentes. A página ambienta o leitor na história e, ao mesmo tempo apresenta os personagens, com suas características principais: além do protagonista, seus dois escudeiros, o fiel Babá e o esperto Três pernas. O último quadro mostra um homem enforcado: mau sinal. Os donos do local são violentos e poderão não aceitar dividir a herança com Erico. O que acontecerá a seguir? Charlier é habilidoso: ao invés de dizer com o texto que os personagens estão em perigo, ele mostra isso, visualmente com a imagem do homem enforcado e, ao mesmo tempo, deixa o leitor em suspenso, curioso sobre o que acontecerá a seguir.
Na segunda página da história, os personagens são melhor desenvolvidos (percebemos, por exemplo, que Três Pernas é um estrategista). Ao final, mais uma situação de suspense. Muitos acreditam que suspense é colocar o personagem em perigo, o que não é verdade. Suspense significa deixar o leitor curioso para saber o que ocorrerá em seguida. Quando Eric se apresenta no castelo, um serviçal se desespera achando que viu um fantasma. Esse mistério deixa o leitor curioso para continuar lendo a história e entender o que realmente está acontecendo. Repare que a história é montada de tal forma que a situação de suspense fica para o último quadro. Se a história continua na mesma edição, basta virar a página. Se é o fim do capítulo, o leitor irá comprar na próxima semana para saber o que ocorrerá a seguir.
Essa é uma página do meio da história Os espiões da rainha, da série Cori, o grumete. O espião mirim foi descoberto pelo chefe de um bando de vagabundos e corre perigo. Quando o "general" vai bater no rapaz, surge uma voz misteriosa, ameaçando-o. Quem será o salvador do rapaz? Isso o leitor só descobrirá na próxima página (ou na próxima semana, se for final de capítulo).
Nesta página descobrimos que o salvador de Cori é Harm, um personagem que ele acreditava morto. Cori está a salvo. Mas o que acontecerá com Harm? Só na próxima página ou próxima semana!

Fundo do baú - A ilha da fantasia

 


Um local onde pessoas poderiam realizar seus maiores desejos, mas o resultado nem sempre é o esperado. Esse é o mote de A ilha da fantasia, série produzida por Aaaron Speling e Leonard Goldberg para o canal ABC.

O local era gerenciado pelo misterioso Senhor Roarke, interpretado por Ricardo Montalban no seu papel mais famoso. Para auxiliá-lo, o simpático anão Tatoo, interpretado pelo ator francês Hervé Villechaize.

Os episódios sempre iniciavam com o hidroavião chegando em meio ao cenário paradisíaco. Tatoo então tocava um sino e anunciava: “O avião, o avião!”.

A estrutura do programa permitia que eles pudesse ter várias estrelas convidadas a cada episódio, o que era uma das grandes atrações da série.

A origem do senhor Roarke nunca era revelada, mas tudo levava a crer que ele tinha poderes mágicos e poderia até mesmo ser imortal. Constantemente ele interferia no rumo das fantasias afim de ensinar alguma lição moral para seus convidados.

Hervé Villechaize, que interpretava o pequeno Tatoo, foi demitido nos últimos anos do programa. Alguns acreditam que a demissão tivesse relação com questões salariais (ele queria ganhar o mesmo que Montalban), mas acusações de assédio durante as gravações podem ter contribuído para tirá-lo do programa, assim como seu gênio difícil.

No Brasil, A ilha da fantasia foi exibida pela TV Globo, sendo uma das principais atrações do domingo. Depois passou para a TV Manchete.

Confira os lançamentos da editora Ink&blood


 

Calafrio 88 com capa folclórica de Cláudio Dutra apresenta uma história de uma das visagens mais populares do Brasil, a Mula-Sem-Cabeça em Profano, por Oscar Suyama Jr. A dupla de veteranos Franco de Rosa e o desenhista Toninho Lima adaptaram o conto A Adormecida, de Edgar Allan Poe. Gian Danton escreveu Lembranças de Sangue, para ser desenhado de forma definitiva por Andrios Moreira. E o astro do terror Eduardo Cardenas remasterizou o início do apocalipse vampiro em O Sol Negro. As seções contam com as mensagens dos leitores na Mala Direta. Quem é Quem nos Quadrinhos resume a carreira de Toninho Lima. Luiz Antônio Sampaio escreveu artigo sobre os Quadrinhos de Detetive. Um mini pôster colorido de Rubens Lima. E encerra a edição com a resenha de uma edição de Calafrio do passado em Capas Clássicas, e com tema de Copa do Mundo!



A revista de clássicos da HQ nacional também tem um novo número, com duas Hqs de vampiros. Terror Negro 10 começa com uma bela capa do inquieto Marcel Bartholo que anuncia a história O Segredo dos MacKenzie, o quinto desafio de Satã A Alma Penada, por Fernando Ikoma. As mensagens dos leitores são respondidas em Vozes da Tumba. Maicol Cristian escreveu o conto Cuidado com o que Você Deseja, com ilustração de Aurea Chu. A segunda HQ foi produzida por Sebastião Seabra, trata-se de Os Fugitivos, pela primeira vez no formato que ela merece ser publicada. Não faltaria a opinião do editor na coluna O Grito!, dessa vez sobre um tema invisível individualmente e também ilustrada por Aurea. E mais uma edição do passado é comentada em Capas Clássicas, dessa vez com o início de uma série de resenhas.


O alívio cômico da Ink&Blood chega em Terrir 3. A capa é de ninguém menos que Marcatti, que assina os desenhos da primeira HQ, A Mão que Balança o Beiço, com roteiro de André Pijamar. Também, caricaturas por Bira Dantas e Dalcio Machado. Cartuns de Zeppa e Fausto. As tiras dos porquinhos Paranoia por Maicol Cristian e Fabio Maceno. Pinup de um amigo por outro, Mauricio Paraguaçu presta homenagem ao Mestre Makabro Cássio Witt. As mensagens dos leitores em Mordida Banguela, HQs por Vasqs e Rico, matéria e HQ homenagem a Zezo por Toni Rodrigues, Attilio e Bira Dantas. Pôster central por Bira, e uma edição de humor da época em que a Seleção Brasileira ganhava Copa do Mundo em Capas Clássicas.
É gibi pra nenhum de vocês reclamar da monotonia!
Calafrio 88 tem 52 páginas a R$20,00; Terror Negro 10 tem 44 páginas a R$18,00; e Terrir 3 tem 36 páginas a R$18,00. Elas e as demais edições em estoque da Ink&Blood podem ser adquiridas pelo mail revistacalafrio@gmail.com, na página Calafrio e Mestres do Terror no Facebook, em diversos grupos de quadrinhos do WhatsApp, e em breve na sua loja parceira favorita. Quadrinhos de qualidade acessíveis a todos os queridos amigos.

Manual de Roteiro, de Syd Field

 


Durante anos, Syd Field foi leitor de roteiros de cinema para uma empresa especializada. Ao fazer a triagem dos roteiros que poderiam ser apresentados aos parceiros para produção, ele começou a perceber que os melhores textos seguiam um padrão. O resultado dessa percepção, que ele chamou de Paradigma, foi o livro Manual de Roteiro (Screenplay), lançado nos EUA em 1979 e publicado no Brasil pela Objetiva em 2001.

Embora pareça uma grande novidade para alguns, o padrão que ele percebeu era nada mais que a estrutura de Três Atos, uma forma narrativa analisada por Aristóteles em sua Poética há mais de dois mil anos, mas que ainda funciona perfeitamente. Field vai além do óbvio e não só descreve o Paradigma, mas também analisa diversas obras a partir dele, oferecendo dicas valiosas a roteiristas iniciantes e veteranos.

O autor também normatiza esse paradigma para o roteiro de cinema. Normalmente, um roteiro de longa-metragem tem em torno de 120 páginas (seguindo a regra de "um minuto por página"). Assim, o Primeiro Ato (Apresentação) ocorreria até a página 30, onde seriam apresentados os personagens e a ambientação da história. Em torno da página 30, temos o Primeiro Ponto de Virada (Plot Point 1), que leva ao ato seguinte: a Confrontação. Como este é o ato mais longo, que desenvolve o conflito, ele vai da página 31 à 90, quando acontece o Segundo Ponto de Virada (Plot Point 2), levando a história para a sua Resolução (o terceiro ato).

Alguns dos melhores trechos do livro são análises de Chinatown. 


Apaixonado pelo filme Chinatown (1974), dirigido por Roman Polanski e escrito por Robert Towne, Field aborda essa obra em diversos momentos para exemplificar sua teoria — e esses são alguns dos melhores momentos do livro.

Além disso, a obra traz dicas práticas valiosas, como o uso de Cartões com descrições das cenas para planejamento do roteiro: “Os cartões são um método incrível. Você pode arrumar as cenas do jeito que quiser, acrescentar algumas, omitir outras. É um método simples, fácil e eficiente, e que lhe dá a máxima mobilidade na construção do roteiro”. Pelo jeito, esse é um método do qual cineastas como Quentin Tarantino usam e abusam até hoje.

quinta-feira, junho 18, 2026

Os Sobrinhos do Capitão e a era dos syndicates

 

 


Um dos fatores mais importantes para a popularização das histórias em quadrinhos em todo o mundo foi a criação dos syndicates. Acusados pelos nacionalistas de terem sufocado os quadrinhos regionais, impondo a dominação norte-americana, os syndicates são empresas distribuidoras de tiras de páginas dominicais.
     O primeiro syndicate surgiu devido ao problema jurídico com os personagens da série “Os sobrinhos do capitão’.
     Essa HQ foi baseada em uma história infantil alemã, Max e Moritz, de autoria do poeta e cartunista Wilheim Bush. Essa obra, publicada originalmente em 1865, chegou a ser lançada no Brasil com o nome de Juca e Chico, com tradução de Olavo Bilac.
     Ainda menino, William Randolph Hearst viajou para a Europa com sua mãe e lá comprou diversos livros, entre eles Max e Moritz.
     Anos mais tarde, quando já era um magnata da imprensa norte-americana, decidiu incluir quadrinhos infantis em seu periódico, o New York Journal, e lembrou-se daquela história que o encantara quando criança. Assim, ele chamou um talentoso desenhista de origem alemã, Rudolf Dirks para criar personagens baseados em Max e Moritz.
     Dirks criou a série Katzenjammer Kids, algo como os garotos ressaca. Nela, são apresentados dois gêmeos, Hanz, de cabelos escuros, e Fritz, de cabelos claros, que passam o dia fazendo traquinagens. A mãe dos dois pestinhas, Mama Katzenjammer (no Brasil Dona Chucrutz) acha que tem dois anjinhos em casa e passa o dia fazendo deliciosas tortas para os dois.
     As vítimas inevitáveis da arte dos garotos são o capitão e inspetor escolar. Esses dois malandros gostariam de passar o tempo vadiando, mas acabam gastando metade do dia castigando os gêmeos e a outra metade sendo vítimas deles.
     Em 1913, Dirks passou seus personagens para o New York World, de propriedade do Joseph Pulitzer, o maior inimigo de Hearst. Esse considerou a deserção uma ofensa e resolveu brigar nos tribunais pelos personagens (anteriormente, Hearst já havia roubado Yellow Kid de Pulitzer).
     Travou-se uma longa batalha judicial, mas o tribunal decidiu-se por uma solução conciliadora. Dirks poderia continuar desenhando seus personagens para o World, mas teria que trocar o título e Hearst poderia continuar publicando em seu jornal os personagens com o título e personagens originais. Para isso, o dono do New York Journal chamou o talentoso Harold Kner, que manteve o mesmo nível de qualidade da HQ.
     A discussão com os personagens de Dirks teve como resultado o primeiro syndicate: a International News Service - que ficaria conhecida mais tarde como King Features Syndicate.
     A partir daí os artistas deixavam de trabalhar para os jornais e passavam a produzir para os syndicates, que reproduziam suas histórias e vendiam para vários jornais. Isso ba¬rateou muito o preço das HQs, pois a mesma tira era vendida para diversos jornais dos EUA e posteriormente de todo o mundo.
Um dos primeiros personagens a serem internacionalizados foi Pafúncio, de George MacManus. Desenhado em estilo “art-decó”, Pafúncio e Marocas (esse era o nome da série no Brasil) refletia a abastança da classe média americana no início do século. A pompa e a futilidade do norte-americano médio foram muito bem satirizadas nessa tira diária de MacManus.
A onda de quadrinhos humorísticos acabaria com a crise de 1929, que fez com que os leitores preferissem os quadrinhos de aventura.

Filmes que marcam época

 


A série de documentários The Toys – os brinquedos da nossa infância foi uma das novidades mais quentes da Netflix. Com uma linguagem divertida,  piadas e edições criativas, seus documentários criaram uma legião de fãs e deram origem até agora a três temporadas.
Na verdade o sucesso foi tão grande que empolgou a equipe a fazer uma outra série, agora focada em filmes: filmes que marcam época (ou filmes que marcaram a nossa infância).
Para essa primeira temporada foram escolhidos filmes bem diversos entre si, mas igualmente populares nas décadas de 1980 e 1990: Dirty Dancing, Esqueceram de mim, Os caça-fantasmas e Duro de matar. Em comum a todos eles o fato de que quase não foram produzidos, ou quase foram abandonados no meio da produção. Todos eram filmes nos quais ninguém parecia acreditar, exceto seus diretores, roteiristas e produtores.
Com uma linguagem divertida, os episódios se debruçam sobre curiosidades desses filmes, como o fato de parte da cena em que a casa alaga em Esqueceram de mim ter sido filmada dentro de uma piscina. Ou o fato da roteirista de Dirty Dancing ter se apaixonado por Patrick Swayze, ou ainda, o fato do ator ter deslocado o joelho examente durante a gravação da cena final, exatamente a que mais exigiria dele fisicamente.
É curioso saber, hoje em dia, que Esqueceram de mim foi abandonado pela Warner no meio da produção – o que fez com que a Fox assumisse o projeto e ganhasse milhões ou que a produtora de Dirty Dancing chegou a pensar em queimar os negativos. Ou que a produtora de Duro de matar chegou a tirar Bruce Willys do cartaz porque as pessoas riam dele durante o trailer.
Em suma: são documentários divertidíssimos, que tornar ainda mais interessantes clássicos do cinema pipoca moderno. Agora é torcer para que eles tenham várias outras temporadas.

Os herdeiros da caverna

 

Eu me lembro perfeitamente da primeira vez que vi um fã do Fantasma. Claro, eu já conhecia o personagem, e já tinha lido alguma coisa por alto, mas não imaginava toda a mitologia que havia por trás do personagem. E nem de longe podia imaginar a razão de tanto sucesso. Foi naquele dia que, pela primeira vez prestei atenção ao espírito-que-anda e foi naquele dia que tive o insight sobre a razão de seu sucesso.
O dito colecionador era um jovem senhor, na casa dos vinte e poucos anos, já graduado e na época cursando mestrado. Mas naquele dia, limpando e organizando suas revistas, ele parecia uma criança inebriada com um brinquedo novo. Ele sabia de cor tudo sobre o personagem, seus artistas e histórias e inebriava-se contando como o Fantasma havia derrotado os terríveis japoneses em plena II Grande Guerra.
Mais tarde, quando o pai dele chegou, os dois ingressaram juntos na fantasia que incluía Capeto, a caverna da caveira, os pigmeus e tudo o mais. Olhando dois eu percebi o que havia de tão interessante naquela história em quadrinhos: O Fantasma é uma história sobre herança. Sobre pais e filhos, sábios e discípulos. Não é por acaso que tantos pais legam a leitura desses gibis aos seus filhos. Temas como esse sempre calam fundo por falarem dos mitos mais ancestrais.
Não é de estranhar que esse seja o tema da tira. O criador do personagem, o escritor norte-americano Lee Falk, sempre teve um olhar paternal para com suas criações. Tanto que uma única vez o Fantasma fugiu de seu controle: quando foi publicado no Brasil e os editores, sem referencial de cores, trocaram o roxo original pelo vermelho, mais fácil de imprimir.
Lee Falk nasceu em 12 de abril de 1911, na cidade de St. Louis, Missouri. O primeiro personagem imaginado por ele foi o mágico Mandrake, criado aos 19 anos e fruto do fascínio do escritor pelos mágicos e ilusionistas.
Algum tempo depois, ele desenhou algumas tiras do personagem e aproveitou uma viagem que fez com seu pai para Nova York e passou nos escritórios da King Features Sindicate. Passou o dia mofando na ante-sala do chefão da KFS, Joe Conolly, mas quando este viu o material, decidiu-se imediatamente pela história. Era uma época de mudança, em que as antigas tiras cômicas estavam sendo abandonadas pelo público em favor de histórias de aventuras, que os levassem a viajar por mundos imaginários e esquecer as agruras da depressão norte-americana e as histórias do mágico se encaixavam nesse perfil.
Pouco seguro de seus dotes artísticos, Falk encarregou um colega, o desenhista publicitário, Phil Davis, de ilustrar o personagem. Mandrake estreou em 11 de junho de 1934, quando o escritor tinha apenas 23 anos. E foi um sucesso.
Lee Falk tornava-se não só um autor de sucesso, como também o primeiro roteirista de quadrinhos. Antes dele havia outras pessoas que se encarregavam da parte textual, como o criador do romance policial Dashiell Hammett, que assinava o Agente Secreto X9, mas faziam isso como se estivessem envergonhados de se envolverem com algo tão trivial. Falk, ao contrário, assumia seu amor pelo que fazia, o que provavelmente é uma das razões da verdadeira idolatria dos fãs por ele.
O nome do mágico era inspirado na planta mandrágora, usada como medicamento há séculos. Junto com ele, surgia seu fiel escudeiro, Lothar, um negro vestido de maneira exótica. Pouco tempo depois surgiu Narda, uma princesa do reino de Cockaigne que tinha uma curiosa característica: a ausência de umbigo. Inicialmente pensou-se que fosse falha de Phil Davis, mas a conforme a história avançava e o umbigo não aparecia, muitos estudiosos começaram a cogitar que Narda seria apenas mais uma ilusão do mestre das artes mágicas... uma antecipação talvez de temas como os que foram explorados em Matrix.
A história do umbigo demonstra a mitologia que se formou não só em torno da obra, mas também da vida do criador Lee Falk. Na época em que criou seu primeiro personagem, os relações públicas da KFS pediram dele uma biografia para ser apresentada aos jornais. Falk escreveu que era um aventureiro que, em suas viagens pelo mundo, encontrara diversos magos e se inspirara neles para criar Mandrake. Tudo balela, claro, mas convenceu.
Dois anos depois, Falk teve uma idéia para seu segundo personagem e a apresentou à KFS, que comprou de imediato o projeto. Para desenhar, foi chamado o assistente de Davis, Ray Moore, que deu ao personagem um traço elegante e misterioso.
A primeira história mostrava a saga de um lorde inglês, Kit Walker, único sobrevivente de um ataque pirata que jura devotar sua vida à destruição da pirataria, ganância, crueldade e injustiça. E não só isso: também seus filhos e os filhos de seus filhos seguiriam seu caminho. Assim que morria um fantasma, seu filho assumia seu lugar no combate ao mal. Para evitar que os malfeitores percebessem a troca, o herói usava uma máscara, dando a entender que o personagem era imortal.
A idéia inicial era mostrar o personagem como uma espécie de playboy que combatia o crime à noite, assustando malfeitores, um conceito muito próximo de personagens clássicos da literatura, como Zorro ou o Pimpinela Escarlate e certamente uma antecipação de Batman. Mas com o tempo, Falk foi se distanciando dessa idéia e, ao deslocar a ação para o mítico país de Bangala construiu toda a mitologia do personagem.
Falk, fã de Rudyard Kipling, cria a tribo de pigmeus bandar, inspirados na tribo de macacos homônimos de O Livro da Selva. Surgem as crônicas do Fantasma, os anéis, um para amigos, outro para inimigos, a Ilha do Éden, onde leões e tigres convivem harmonicamente com zebras e girafas. Surgem a cabana de Jade, onde os Fantasmas passam sua lua-de-mel, as Montanhas Misteriosas, a plataforma Walker, base de operações do Fantasma na América... a cada nova aventura um novo detalhe é acrescentado.
É essa mitologia que vai fazer com que o Fantasma torne-se eterno e angarie mais fãs que seu irmão mais velho, o Mandrake. A herança passada de pai para filho inclui os diversos itens que foram se acumulando ao longo do tempo e qual era a criança que não sonharia ganhar tudo isso de seu pai? De certa forma, é como se o leitor fosse o XXII Fantasma, lendo as crônicas de seu antecessor e preparando-se para entrar em ação e enfrentar o mal. E quando um pai lega ao filho a velha coleção de revistas do Fantasma, vai com ela todo o resto da mitologia.
Lee Falk podia não saber, mas estava construindo uma das grandes mitologias do século XX, um personagem que, mesmo diante de concorrentes mais modernos, terá seu lugar.
Nos anos 70 o Fantasma migrou para a literatura, numa série de livros publicados pela Avon Books e escritos pelo próprio Lee Falk. Também foi na década de 70 que o escritor ganhou o reconhecimento internacional com o prêmio Yellow Kid recebido em Luca, em 1971.
Aliás, Falk, embora fizesse questão de ser conhecido como escritor de quadrinhos, era também um teatrólogo de sucesso, tendo trabalhado com artistas como Marlon Brando e Charlton Heston.
Falk morreu em 13 de março de 1999. Até os últimos dias ele escreveu as tiras de Mandrake e Fantasma. Um pai preocupado até o último momento com seus dois filhos diletos e com seus milhões de filhos adotivos, leitores ávidos por mais e mais aventuras de seus heróis favoritos
.

Ps: este texto foi publicado na edição especial sobre o Fantasma lançado pela editora Opera Graphica em homenagem aos 60 anos do personagem.

Homem-Aranha e Homem-Coisa

 



Embora tenha tido revista própria durante pouco tempo, o Homem-Coisa fez várias participações em aventuras de outros personagens da Marvel. Ele encontrou, por exemplo, o Homem-Aranha em Marvel Team-up 68 em uma aventura produzida pela dupla mais badalada dos quadrinhos da época: Chris Claremont (roteiro) e John Byrne (desenhos).

Na história, o personagem monstruoso foi aprisionado e colocado como atração em um zoológico – e o aracnídeo resolve ajudá-lo a voltar para o pântano.

O Homem-Coisa atacando o Aranha? Te enganei, leitor! 


A splash page, que abre a história é aquilo que hoje seria chamado de um “engana leitor”: o Homem-Coisa se jogando contra o Homem-Aranha, que recua, apavorado. Na verdade, ele estava apenas caindo contra o vidro da prisão, como descobrimos na página seguinte.

Claremont mimetiza os textos dos quadrinhos de terror da Marvel, o que mostra sua versatilidade: “Inícios: parece a calada da noite, um escuro irreal e estígio interrompido levemente apenas por faixas prateadas de luar que resvalam sobre antigos galhos retorcidos e cobertos de musgo que cobrem o pântano... e a criatura que espreita em seu interior”.

O Homem-Coisa renasce em contato com o pântano. 


O Aranha some com a gaiola de vidro e pega um avião para os pântanos da Flórida (não me pergunte, eu não sei quem são os personagens que lhe dão carona), mas o avião sofre um acidente e por pouco os humanos não morrem. A criatura do pântano, entretanto, fica renascida.

A trama só começa mesmo só quando os dois chegam num casebre e encontram um velho e uma garota amarrados. Na verdade, o velho é um mago de outra dimensão e a garota, Jennifer Kale, sua aprendiz. Quem os aprisionou é um vilão extradimensional chamado Desespero, capaz de fazer até mesmo o Homem-Coisa ter medo (e portanto queimar).

Desespero: pense num vilão fodão. 


Para um vilão tão poderoso, é estranha a forma como o herói o vence, usando, essencialmente a força. É também curioso perceber que a editora escolheu a Marvel Team-up, uma revista do Aranha, para terminar uma trama do monstro, o que mostra que  as coisas não andavam bem para a vida editorial do feioso. 

Monstro do Pântano – Pog

 


Certamente uma das mais estranhas histórias do Monstro do Pântano é Pog, publicada em Swamp Thing 32, com desenhos de Schawn McManus.

Essa história é uma das menos celebradas pelos leitores, a maioria dos quais deixou escapar a referência óbvia. Pog é a versão de Alan Moore para Pogo, de Walt Kelly.Essa tira de quadrinho surgiu inicialmente como um gibi da Dell Comics, mas logo migrou para os jornais, sendo publicada por até 500 periódicos na sua fase áurea.

Walt Kelly usava Pogo para falar de temas políticos e ecológicos. 


Pogo é um gambá antropomorfizado que vive em um pântano com seus amigos, o jacaré Albert, a coruja Howland Owl, a tartaruga Churchy La Femme, o mastim Beauregard Bugleboy e o porco-espinho Porkypine. Inteligentemente, Walt Kelly usava o formato aparentemente inocente de história em quadrinhos com bichinhos para refletir sobre a sociedade em que vivia e fazer forte crítica política. O senador Joseph McCarthy, por exemplo, apareceu na história como um gato selvagem de tendências ditatoriais chamado Simple J. Malarkey. Na HQ o gato desencadeia um reino de terror e intimidação no pântano.

Walt Kelly também usava as tiras e páginas dominicais para difundir ideias ecológicos. Uma frase de uma das histórias tornou-se lema de grupos de ecologistas: “Nós encontramos o inimigo, e ele somos nós”.

Alan Moore faz uma homenagem a Pogo. 


Moore usa todo esse contexto na história com maestria, imaginando um grupo de animais que cruza o universo em busca de um planeta onde poderão viver em paz depois de seu planeta ter sido destruído por uma espécie predadora, que não vivia em harmonia com a natureza.

O protagonista é Pog, e seu amigo (que tem grande importância na história) é um jacaré nitidamente baseado no jacaré Albert. Também é possível perceber na tripulação um equivalente a um porco espinho. Além disso, a nave é uma tartaruga.  

O grupo chega à terra e descem exatamente no pântano onde vive o Monstro do Pântano.  Eles ficam maravilhados com a natureza exuberante e acreditam que finalmente acharam a Dama, a terra prometida. Mas a dura realidade logo se revelará para eles.

Essa é a história mais declaradamente ecológica do Monstro do Pântano


O curioso dessa história é que Moore simplesmente inventou uma língua para os animais alienígenas (o que deve ter dado um trabalho monstruoso para os tradutores). Um exemplo: “Atmosfitos medianamente toleráveis... gravifícos bastantes para manter a água parada no fundo... então, segundo minha calculetagem... vocês podem se desentranhar com plena imunidade diplomática”.

Posteriormente, em uma história em que o Monstro do Pântano visita o planeta Rann, Moore voltou a brincar de criar uma língua, mas dessa vez o fez de forma muito mais ampla.