terça-feira, setembro 01, 2026

Perry Rhodan – Os anões azuis

 


O número 62 da série Perry Rhodan é uma sequência direta de um número anterior, O atentado, número 57.

Em O atentado, dois grupos tentam matar Perry Rhodan e são condenados ao exílio. Durante a viagem, uma revolta eclode a bordo, danificando a nave, e eles são obrigados a fazer um pouso de emergência num planeta desconhecido. Já naquele número, dois grupos se destacam: os democracatas autênticos, liderados por Horace O. Mullon e os filósofos da natureza, liderados pelo despótico W. S. Hollander.

Em Os anões azuis, escrito por Kurt Mahr, o grupo de Mullon governa a colônia e este resolve fazer uma viagem de reconhecimento aos arredores. Hollander, no entanto, resolve aproveitar a situação para mandar assassinos para eliminar o único obstáculo ao seu poder.

Apesar dessa trama, é um livro parado, que se assemelha muito mais a um livro de viagens, de exploradores em um local desconhecido.

A capa alemã. 

Um aspecto que se destaca na obra é a relação dos terranos com as raças de outros planetas. Os heróis de PR sempre optam por uma abordagem de cooperação com outros povos, ao invés de uma abordagem de colonização, o que nos diz muito sobre a filosofia da série. A moral parece ser que tratar bem e buscar a colaboração com outras espécies traz resultados muito mais efetivos do que tentar dominá-las.

Neste livro os terranos entram em contato com duas espécies: os simpáticos mungos, espécie de macaquinhos que salvam uma das personagens quando esta é atacada por uma cobra e providenciam cura para uma doença que virou uma epidemia na colônia terrana. A outra espécie são os anões azuis, seres parecidos com tecidos azuis que flutuam pelo ar. Um deles é, sem que os terranos saibam, salvo de uma fera, o que garante a amizade com o grupo de Mullon.

O próprio Mahr define as duas espécies: Os mungos “eram uma espécie primitiva e semi-inteligente, cuja única vantagem face aos homens consistia na existência do sexto sentido, que lhe permitia perceber qualquer perigo antes que os cincos sentidos dos humanos pudessem constatar sua presença. Já (no caso dos anões azuis) trata-se de inteligência estranha, mas bastante desenvolvida”. Os anões azuis tinha capacidades telepáticas e telecinéticas, mas individualmente essas características eram muito pouco desenvolvidas. Um anão sozinho mal conseguia levantar uma pedrinha. Dessa forma, eles logo descobriram os benefícios da união estreita entre vários seres. Isso moldou sua cultura, fazendo com que a ideia de que alguém pudesse sentir medo de outra pessoa fosse impossível.

Esse verdadeiro “diário de viagem” é quebrado por algumas situações de perigo, especialmente no final, que nos reserva um otimo plot twist.

Kurt Mahr era um escritor mediano no início da série, mas foi aos poucos melhorando seu texto. Aqui ele consegue transformar uma trama morna em um livro para ser apreciado com prazer.

Demolidor – Demônios Internos

 

 

Desde a primeira história do Demolidor de Miller que li, ficou claro que aquela série era brilhante em termos de narrativa e de ação. Mas só fui pereber que Miller podia ser também um mestre no aprofundamento dos personagens quando li a história originalmente publicada em Daredevil 177 e que saiu aqui em Superaventuras Marvel 17.

Na trama, Matt Murdock perdeu seu radar depois da explosão de uma bomba e procura seu mestre Stick para recuperar essa habilidade.

O arco e flecha é uma metáfora para os conflitos internos do personagem. 


A história começa com o personagem praticando arco e flecha, totalmente exausto. “Nada disso faz sentido. Se ao menos você me deixasse dormir... Stick, já faz três dias!”.

A tentativa de acertar um alvo é uma metáfora e uma forma de dar ação a um conflito interno. Conforme a atividade se desenvolve, Murdock começa a alucinar. Miller reconta a história do personagem, mostrando desde o bullying sofrido por Murdock na infância até o acidente que o tornou cego.

Matt Mudock sente-se atormentado pela promessa feita ao pai. 


As partes mais interessantes, no entanto, são as que mostram o pai. Miller reconstitui até a mesma imagem da história de origem do personagem, mas agora, ao invés do menino sendo aconselhado pelo pai, vemos o Demolidor, já adulto, e já com seu uniforme. O pai o acorrenta a livros e o manda ir para o quarto estudar.

Vale lembrar que, lá naquela história de origem, o pai de Matt o obrigou a prometer que ele não iria lutar, mas, ao invés disso, deveria ser um estudioso e se tornar um médico ou um advogado.

Miller reconta a origem do personagem. 


Em uma das sequências, eles estão em um ringue. “Você me prometeu! Disse que não lutaria! Olha só... você já esteve em mais lutas do que eu! Vai terminar como seu pai... um lutador velho e decadente, com o nariz quebrado e o cérebro moído. Você mentiu para mim, filho. No túmulo de sua mãe. Mentiu para mim!”.

Quando criou o Demolidor, Stan Lee usou sua estratégia de introduzir um pé de barro como tornar o herói bidimensional. Assim, apesar de ser um herói, o Demolidor também era cego. Miller foi além, introduzindo camadas e subtextos que tornaram o personagem tridimensional.

O conflito com o pai e o sentimento de culpa. 


Nessa história descobrimos que Matt Murdock odeia o pai por tê-lo transformado em um escravo de livros, por tê-lo feito prometer que ele jamais lutaria, o que fez com que o garoto se tornasse vítima de bullying de todos os meninos da rua.

Mas, como bom católico, Matt Murdock se sente culpado por esses sentimentos com relação ao pai. Mais ainda: ele se sente culpado por usar seus poderes para lutar contra o crime, o que contraria o juramento feio ao pai de que ele nunca lutaria.

Miller estava introduzindo ali toda a neurose do personagem que seria posteriormente explorada com brilhantismo em A queda de Matt Murdock, em que o herói chega aos limites da insanidade.

Sonja, a guerreira

 

 


Uma das personagens mais queridas pelos fãs de quadrinhos,  a guerreira Sonja teve uma trajetória bastante atribulada.
Para começar, ela não começou como uma guerreira da era hiboriana, nem como parceira de aventuras de Conan.
O conto no qual aparece Sonja foi publicada numa revista sobre o oriente mágico. 

Ela foi criada em 1934 por Robert E. Howard com o nome de Red Sonya de Rogatino publicada na revista The Magic Carpet (e no Brasil no livro A sombra do abutre). Era uma espadachim cuja aventura se passava na renascença italiana.
A primeira aparição de Sonja nas histórias da Marvel. 

Quando a revista de Conan começou a fazer sucesso, o roteirista Roy Thomas teve a ideia de introduzir essa personagem de Howard, situando-a na mesma época que o cimério. A estréia da personagem aconteceu na revista Conan, the barbarian 23, desenhada por Barry Smith. Smith a fez vestida com um shortinho uma camisa de cota de malha. A personagem sequer aparecia na capa, o que mostrava que não o próprio Thomas não acreditava que ela fosse muito longe.
O desenho de Maroto que mostrou pela primeira vezo icônico traje.

A sorte da ruiva mudou quando o desenhista espanhol Esteban Maroto resolveu fazer sua própria versão da heroína. Ele criou um traje estilo biquíni de cota de malha que deu uma personalidade única para Sonja, diferenciando-a de outras personagens que até então haviam aparecido em Conan.
Esse desenho apareceu pela primeira vez no fanzine Comixscene, editado por Jim Steranko. Thomas viu o desenho e publicou a versão de Maroto da heroína em Savage Tales 3. 

No terceiro número da revista Savage Sword of Conan, Maroto iria desenhar uma HQ da personagem em parceria com Neal Adams. Pronto, essa nova versão conquistou os leitores. Quando John Buscema desenhou a personagem em uma história de Conan, usou o visual criado por Maroto.  
História de Maroto e Adams publicada em Savage Sword of Conan 1.

A personagem a essa altura já tinha se tornado tão popular que ganhou um título próprio, em Marvel Feature, de 1975. O primeiro número foi desenhado por Dick Giordano, mas a partir do número 2 a revista contaria com o traço daquele que definiria para sempre seu visual e ficaria eternamente ligado à guerreira ruiva: Frank Thorne. Thorne não só aproveitou a roupa criada por Maroto, como ainda acrescentaria olhos felinos, que davam um encanto especial à personagem. 
As três versões da personagem: a original de Howard, a de Smith e a de Thorne. 

A revista, com roteiros de Bruce Jones, se tornaria uma sensação entre os leitores, mas durou apenas sete números.
A partir daí a personagem faria aparições especiais nas revistas da Marvel. Uma das mais célebres delas publicada no volume 79 da revista Marvel Team-up, em que a personagem se encontra com o Homem-aranha. Desenhada por John Byrne com roteiro de Chirs Claremont, é uma das histórias mais lembradas pelos leitores.

Thorne gostou tanto de Sonja que criou sua própria versão da personagem, a sensual Ghita. 

Escola do Rock

 

Escola de rock é um filme de 2003 dirigido por Richard Linklater, escrito por Mick White, e estrelado por Jack Black. Na história, um roqueiro fracassado se disfarça de professor substituto em uma rígida escola tradicional. Ao perceber o talento das crianças para a música, ele as convence a participar da batalha de bandas argumentando que se trata de uma competição entre escolas. 
Curioso como a maioria dos filmes sobre educação tratam de professores criativos em conflito com a educação tradicional. As crianças desenvolvem seus talentos não só musicais, mas capacidade de organização, liderança e até mesmo matemática (como o garoto que fica responsável por organizar a iluminação do show), mas o professor é repreendido mesmo quando, após ser pego com uma guitarra, usa a música para ensinar matemática para as crianças. Mas, ao contrário de outro filme muito semelhante, Sociedade dos poetas mortos, neste não temos um final depressivo. Ao contrário: o final é realmente empolgante, quando as crianças, após todas as dificuldades, conseguem se apresentar na batalha de bandas. 
Jack Black é alma do filme, com uma atuação espetacular, mas o que chama atenção são as talentosas crianças cujo talento musical fica ainda mais explícito nas cenas de improvisação musical. 
Não por acaso, o filme se tornou um enorme sucesso (Se você tem Netflix, corra para assistir, pois ele irá sair do streaming até o final do ano). 

Miracleman – Nêmesis

 



O ponto culminante da série Miracleman é, inegavelmente, o retorno de Kid Miracleman, arco que se inicia a partir da edição número 10 da revista.

No prelúdio desta história, os alienígenas responsáveis pela tecnologia que conferiu poderes aos Miracleman, visitam a Terra com o objetivo de destruir todos os seres superpoderosos. Nesse ínterim, surge mais um integrante da família: Miraclewoman. A personagem tinha mantido a consciência de seus poderes e se transformara em uma médica, atuando incógnita.

Miraclewoman, personagem criada por Alan Moore, torna-se fundamental na trama. 


A concepção de Winter, a filha de Miracleman, altera fundamentalmente o panorama. Um híbrido superpoderoso eleva a Terra à condição de "planeta inteligente". Como consequência, Miracleman e Miraclewoman são transportados para um planeta distante, onde uma conferência intergaláctica é convocada para decidir o destino de nosso planeta.

Enquanto isso, na Inglaterra, Johnny Bates (a identidade humana de Kid Miracleman) vive seu próprio inferno. Internado em um orfanato, ele sofre bullying constante dos outros garotos e resiste a dizer a palavra secreta que o transforma. Contudo, quando os garotos resolvem abusar sexualmente dele, ele finalmente se transforma, libertando seu lado maligno.

Johnny Bates resiste a se transformar em Kid Miracleman... 


Os agressores são mortos das formas mais cruéis possíveis. Ao sair do local, o vilão encontra uma enfermeira, a única pessoa que o havia tratado com dignidade. Ele finge poupá-la, apenas para voltar e esmagar sua cabeça com um soco. “Lamento. Diriam que eu fiquei frouxo, não?”, diz ele. Essa pequena sequência é simbólica: demonstra que já não há limite algum para a crueldade do personagem, cuja humanidade foi totalmente extinta.

... mas quando diz a palavra, o horror é solto no mundo. 


Quando Miracleman finalmente retorna à Inglaterra, encontra Londres transformada em um campo de extermínio. O texto descreve o horror: 

“As intermináveis horas que o maldito preenchera com séculos de sofrimento humano; as estreitas ruas laterais tomadas por quilômetros de dor. Tendo exaurido todas as crueldades banais conhecidas pelo homem ainda no início daquela tarde, ele havia avançado para inovações inconfundivelmente suas.”

Totleben se esmerou nos detalhes macabros... 


Se o texto de Alan Moore destacava a crueldade dos atos, o desenho de John Totleben torna visual todo esse horror: pessoas amarradas com arame farpado, cabeças empaladas, restos de corpos. Uma mulher com os olhos vazados e sem braços grita de dor enquanto seus filhos a acompanham, chorando.

A luta contra Kid Miracleman emerge como uma sequência visceral, superando em muitos pontos o que qualquer quadrinho de terror norte-americano havia publicado.

O desenho destaca a carnificina provocada por Kid Miracleman. 


No desfecho, para se salvar, Kid Miracleman reverte forçadamente para a forma de Johnny Bates. Resta a Miracleman tomar medidas drásticas para que essa ameaça jamais se repita, culminando em uma sequência pungente e inevitável.

Apesar de toda a popularidade de Watchmen, foi em Miracleman que Alan Moore se mostrou mais radical e foi mais longe em sua visão extrema da mitologia dos super-heróis. É lamentável que essa abordagem tenha sido, posteriormente, totalmente distorcida nos quadrinhos da década de 1990 (e, mais tarde, no cinema), resultando em heróis "realistas" e visões apocalípticas do futuro que parecem inteiramente forçadas.

Superman: Para o homem que tem tudo

 



Alan Moore escreveu três histórias do Superman. Uma delas, “O que aconteceu ao Homem de aço” é uma bela homenagem à era de prata. Uma história nostálgica até a medula. Já “Para o homem que tem tudo” é Alan Moore fazendo aquilo que o notabilizou: uma visão totalmente inovadora sobre um super-herói.
A história se passa durante o aniversário do Superman. Batman, Robin e Mulher Maravilha vão visitá-lo na Fortaleza da Solidão e o encontram paralisado com uma planta alienígena grudada ao seu peito. 
O parasita fornece ao hospedeiro a realização do seu maior sonho... 


O vilão Mongul aparece e explica que se trata da Clemência Negra, um parasita que se alimenta da bioaura de suas vítimas. Em troca, ela concede à vítima seu maior desejo. Assim, imersas em um mundo ilusório, as vítimas não reagem e se deixam sugar. Escapar dessa prisão psíquica seria como arrancar o próprio braço, explica o vilão.
Alan Moore usa o conceito para destrinchar a psicologia do Superman, suas motivações e, ao mesmo tempo, criar uma história imaginária aproveitando muitas das pontas soltas criadas por outros roteiristas.
... e o maior sonho do Superman é ser uma pessoa comum. 



No mundo de sonhos vivido pelo herói, Kripton não explodiu e Kal-El vive uma vida pacata, como cientista, é casado com uma ex-atriz e tem dois filhos.
A sacada de Alan Moore é genial: o maior sonho do Superman é não ser o Superman.
A HQ traz duas tramas paralelas: no mundo real, a Mulher Marvilha enfrenta Mongul (que lhe pergunta se ela seria a “procriadora” do Homem de aço) e Batman tenta retirar a planta.
Enquanto isso, no mundo de sonhos, Kal-El vive uma vida pacata.
Mas o sonho se transforma em pesadelo quando Kripton é tomada por um grupo de extrema direita e fica á beira da guerra civil. 


Mas há algo de podre no paraíso: Kripton está dividido por duas correntes ideológicas e o conflito entre essas duas pode levar a uma guerra civil. De um lado aqueles que acham que a zona fantasma é um tipo de tortura e culpam a família El por isso (Kara, a prima do herói, conhecida como Supermoça é agredida por um grupo). Do outro lado um grupo conservador, liderado por Jor-El, pai do Superman, que culpa imigrantes por uma suposta decadência kriptoniana e prega um retorno à velha Kripton.
Com o desenho do sempre competente Dave Gibbons essa história se tornou instantaneamente em um dos maiores clássicos do Homem de aço.

segunda-feira, agosto 31, 2026

Doutor Estranho - A dimensão das trevas

 

 O Doutor Estranho pode não ser o personagem mais popular da Marvel, mas certamente é um um mais interessantes. Ele teve duas fases memoráveis. Uma na década de 60, sob a batuta de seu criador Steve ditko e outra na década de 70, nas mãos de engelhart e Brunner. Mas na década de 80 o herói ganhou uma nova e simpatica fase com roteiro de Roger Stern.

Stern é aquilo que no cinema chamam de artesão talentoso. Não é genial, mas também não decepciona.

É essa fase que a Salvat reúne no volume dedicado ao Dr estranho vida coleção Os heróis mais poderosos da Marvel.
A vilã é uma feiticeira. 


Stern não resgata as características psicodélica do personagem, mas entrega um herói simpático. Os ótimos desenhos de Paul Smith também contribuem para tornar a história agradável.
Na história o Dr estranho ajuda sua assistente Cléa a lutar contra uma feiticeira que domina a dimensão das trevas. A vilã, alias, é irmã de Dormanu, o eterno inimigo do mago supremo. 
A história começa com uma outra trama, bem regular, focada no Cavaleiro Negro, mas logo ganha fôlego quando Strange vai para a dimensão da feiticeira.
Paul Smith faz um bom trabalho nas sequências de magia. 


Embora Paul Smith não seja tão eficiente em fazer sequências surreais e psicodélica, ele usa bem um recurso que tornou o Dr estranho um personagem diferente de todos os outros magos dos quadrinhos: tornar a magia visual. Os feitiços se tornam imagens geométricas ou fluxos de energia que fluem pela página.
O volume incluí também a primeira história do herói, publicada em strange Tales 110. Uma pérola da síntese: em cinco páginas, Lee e ditko apresentam o personagem, criam e resolvem uma trama repleta de senso de mistério.
E, para fechar a revista, um conto escrito por Peter Gillis no qual o doutor encontra Beyonder em sua forma humana. Embora curta, é um dos melhores momentos do volume, com uma HQ intimista e texto que lembra muito o estilo britânico. Pena que o desenho de Mark badger não ajude. 

Conan – A jóia de Kara Sher

 


Na edição de Conan the barbarian 35, o cimério está no deserto com um amigo (carinhosamente chamado de “cara de macaco”) quando encontram um homem em farrapos sendo atacado por um bando de beduínos.

Qualquer pessoa sensata se afastaria dali o mais rápido possível, mas Conan nunca foi uma pessoa sensata e resolve salvar o homem. Antes de morrer, o pobre coitado murmura: “Você tentou me salvar! Eu agradeço, mas é tarde demais... no momento em que contemplei o olho azul de Kara Sher”.

A belíssima página dupla antecipa os perígos da cidade perdida. 


O tal olho azul é uma pedra muito valiosa e famosa no deserto. A fala do homem desperta a cobiça do cara de macaco e o cimério resolve acompanhá-lo.

O leitor esperto percebe logo que essa é mais uma trama de tesouros amaldiçoados. Pelo jeito havia muitos eles na era hiboriana.

A história gira em torno de uma jóia amaldiçoada. 


A pista sobre isso é dada logo na belíssima página dupla produzida por John Buscema e Ernie Chan na qual os dois personagems encontram a cidade perdida. O texto de Roy Thomas diz: “Sob a fraca iluminação da lua, erguem-se as ruínas de uma gigantesca e portentosa construção, corroída pelo tempo e parcialmente coberta pelas areias do deserto! Súbito, um pensamento ameaçador surge na mente de Conan... Kara Sher significa CIDADE DOS MORTOS!”.

Texto e desenho criam todo um clima de mistério em torno da ameaça. 


Embora seja uma trama manjada, A jóia de Kara sher consegue ser uma grande história graças principalmente, à excelência do trio criativo. A ameaça é apenas um morcego gigante, mas tanto o texto quanto o desenho criam um clima de mistério e terror em cima disso, de tal forma que o leitor sente que está de fato diante de um demônio.

Essa história foi publicada no Brasil em Heróis da TV 54. Aliás, a capa da Abril é melhor que a capa original.

Fahrenheit 451

 

            Em Fahrenheit 451, escrito em 1953, Ray Bradbury nos coloca a interessantíssima questão do futuro e do controle da sociedade por um governo ou uma classe.

            Trata-se de uma distopia (utopia ao contrário), como 1984, de George Orwell. No universo dos dois livros, ler é uma atividade proibida. O título (Fahrenheit 451) se refere justamente à temperatura em que o papel arde e se consome.

            O personagem principal é um bombeiro encarregado não de apagar incêndios, mas de queimar livros.
            É interessante notar que há uma diferença de apenas cinco anos entre um livro e outro. Apesar da proximidade de assunto e tempo, há diferenças básicas entre as duas obras. Diferenças de motivos.
            Orwell escreveu 1984 baseado na sua experiência na Guerra Civil Espanhola, onde foi perseguido pelos stalinistas, enquanto lutava contra os fascistas e via a história ser mudada pelas versões oficiais. Bradury nunca foi à guerra, mas experimentou as agruras de um dos momentos mais terríveis da história americana: o machartismo. No início da década de 50, os EUA foram invadidos por uma febre anti-comunista. Grandes escritores foram perseguidos, Charles Chaplin teve de deixar o país para não ser preso.
            Bradbury, nessa época, já era um escritor famoso e trabalhava esporadicamente para a editora de quadrinhos E.C. Comics.
            A E.C. foi, provavelmente, a primeira editora de HQ a manter uma atitude crítica perante o mundo. Fazia propaganda pacifista em plena Guerra Fria e fazia troça do modo de vida norte-americano.
            Bradbury sentiu o cheiro acre das revistas da EC sendo queimadas em praça pública, viu amigos sendo presos, pessoas de bem sendo humilhadas. Viu toda uma nação se levantar, insana, pedindo a cabeça de homens que nem conheciam.
            É, Bradbury tinha motivos para escrever Fahrenheit 451.
            Além de um protesto, o livro é também um tratado sobre o ato de ler. Bradbury defende que os livros trazem em si três aspectos. O primeiro deles é a vida. Livros devem ser repletos de vivências. E nesse sentido, não é só a vivência do autor, mas também a do leitor, suas tristezas e alegrias, que ficam impregnadas nas páginas dos livros.
            O segundo aspecto é o lazer. Nem o mais pedante dos intelectuais negaria que lê porque se diverte enquanto o faz.
            O terceiro aspecto seria justamente a capacidade de transformação, de ação consciente a partir da reflexão em cima dos dois primeiros aspectos.
            Se o livro representa a libertação, em Fahrenheit, a alienação é representada pela televisão, assim como em 1984. Mas Orwell morreu em 1949, bem antes que a TV tivesse ampla difusão. Bradbury, ao contrário, viveu o período de ascensão da telinha. Talvez por isso, em Farenheith 451 a TV não é imposta às pessoas. Elas a assistem por livre e espontânea vontade.
            Aliás, a proibição de leitura também não foi imposta pelo governo. Foram as próprias pessoas que não só deixaram de ler, como passaram a ter medo de quem lia. Numa sociedade unidimensional, as pessoas devem ser niveladas pela média. Pessoas que lêem, pessoas que escrevem, pessoas que fazem poemas e outras que fazem da sua própria vida um poema... todos esses tipos são perigosos para o cidadão comum, para o pai de família barrigudo, que passa os domingos bebendo cerveja e assistindo futebol...
            É interessante analisar os protagonistas dos dois livros. Montag, de Fahrenheit 451, é um puro instinto, chegando a tomar atitudes quase suicidas. Já Winston, de 1984, é totalmente racional. Sua subversão é testada cuidadosamente, como alguém que anda no escuro, tateando a parede. Mesmo assim, a subversão de Winston, em certo sentido, é maior, já que ele não só lê, como escreve.
            Aliás, o que é proibido aos subordinados, é permitido à classe dominante. Beaty lê, Big Borther escreve. Afinal, informação é poder. Tanto que os escribas do antigo Egito tinham poder equivalente ao Faraós. Seria até de se perguntar se o pessoal do partido interno, em 1984, praticava sexo, já que o sexo também é um ato político...
            As classes dominantes precisam providenciar maneiras de reprimir o instinto de liberdade do ser humano. O povo é continuamente submetido a uma rotina estressante. Além do trabalho, as filas enormes, os ônibus que chegam sempre atrasados e lotados... quando há revolta, ela é uma reação imediata e sem sentido, voltada quase sempre para quem não é responsável pelo sofrimento do povo. Temos aí, então, as portas de vidro quebradas nos hospitais, as pedras jogadas nos ônibus, nos trens destruídos... quando acontece a reação, ela é sempre voltada para os representantes mais inferiores da autoridade, como cobrador de ônibus ou a enfermeira. No dia seguinte, tudo volta ao normal.
            No tempo livre, é necessário ocupar a cabeça das pessoas. Em Fahrenheit 451 o meio mais utilizado para evitar o uso criativo e reflexivo do tempo livre é a televisão. Na obra de Bradbury, mulheres de palha conversam com a TV, repetindo frases escritas previamente. Não há atividade criativa. Em 1984, o povo é mantido sob estrita vigilância, seja através da teletela (uma televisão que também transmite a imagem de quem a está assistindo), dos helicópteros ou da polícia do pensamento.
            Bradbury propõe a leitura como vivência. Para ele, somos o que lemos. Isso fica claro quando o personagem principal de seu romance encontra um grupo de subversivos que vagueia pelas antigas linhas de trem. Como não podiam correr o risco de levar livros consigo, eles simplesmente os decoravam e depois queimavam, esperando pelo dia em que ler não fosse mais proibido. A partir daí, cada um passava a ser responsável pela obra que decorara. Uma tremenda metáfora do ato de ler...