quinta-feira, abril 23, 2026

Lupin

 


Em 1907, Pierre Lafitte, editor da revista francesa  Je sais tout encomendou ao escritor  Maurice Leblanc uma versão francesa do famoso detetive inglês Sherlock Holmes. Leblanc, ao invés de criar um detetive, criou um ladrão anarquista, Arsène Lupin, cuja principal ocupação é enganar a polícia, socorrer os fracos e debochar dos burgueses.

Esse personagem, que se tornou extremamente popular na frança, é a base da série Lupin, da Netflix.

Na história, Assane Diop é um fã inventerado de Lupin que embarca numa jornada com o objetivo de provar a inocência de seu pai, que morreu na prisão ao ser acusado de roubar um colar.

Para conseguir seu objetivo, ele empreende diversos roubos, incluindo o colar da rainha – numa sequencia que toma todo o primeiro episódio. Ali, nessa primeira parte, vemos o novo Lupin em todo o seu esplendor: um ladrão que consegue enganar a todos (inclusive o expectador), roubando um item extremamente valioso na frente de uma multidão. Um ladrão que ao invés de armas ou violência usa a inteligência e a habilidade.

Assane é interpretado pelo ator francês Omar Sy, conhecido entre nós pelo filme Intocáveis, e que é um dos grandes responsáveis pelo sucesso da série (ela chegou a ficar em primeiro lugar na Netflix brasileira). A ousadia de colocar um ator negro como protagonista da história em si já foi uma escolha corajosa, e ajuda a refletir questões sociais, como a exploração colonial e a imigração. Mas Omar Sy surpreende ao entregar uma atuação inspirada, que vai do humor à ação e à astúcia com muita facilidade.

Ajuda muito também a trilha sonora, que casada com a direção, torna empolgantes as sequencias de golpes.

O problema é que o Lupin da literatura é um ladrão que nunca é pego e que parece estar sempre um passo à frente de seus inimigos. Na série, o protagonista age dessa forma nos primeiros capítulos, mas tudo escapa do controle nos últimos capítulos. Com a segunda temporada está confirmada, esperamos que isso seja apenas um gancho para uma reviravolta no melhor estilo do ladrão de casaca.

O dia em que a espada e magia nasceu

 


O gênero espada e magia tem uma data de nascimento: agosto de 1929. Foi nesse mês que a revista Weird Tales, publicou a história “The Shadow Kigdon”, de Robert E. Howard.

A história, protagonizada pelo Rei Kull, fazia parte de um conjunto de oito histórias enviadas por Howard para o o editor Farnsworth Wright e era protagonizada por um personagem chamado Rei Kull. A história era “robusta, violenta, sanguinária, repleta de ação, mistério e descobertas sensacionais. É uma das mais vigorosas e bem-sucedidas histórias de Howard”, afirma Lin Carter em texto publicado em Savage Sword of Conan 3.

Howard inovara fundindo três diferentes estilos em um só. Segundo Carter, “ele pegou o tipo de história que Clark Ashton Smith passada nos fabulosos e cintilantes reinos da alvorada de magia e feitiçaria, os contos de terror lovecraftiano sobre o mal sobrenatural e pré-humano e enxertou tudo com as novelas heróicas de espadachins escritas por Harold Lamb, Rafael Sabatini e Talbot Mundy”, resume Carter.

Era de se esperar, portanto, que essa fosse uma edição antológica. 

Nada mais distante da realidade. Ninguém, nem mesmo o editor, parecia ter noção de que estava nascendo ali um dos gêneros mais famosos da literatura de gênero.

A capa era bem fraquinha, mostrando uma mulher nua e acorrentada. Havia uma única chamada na capa, destacando a história “The inn of Terror” (A estalagem do terror), do escritor francês Gaston Leroux – autor de O fantasma da ópera (informação que aparecia com enorme destaque).

Além da história de Howard, nenhum dos contos publicados naquela edição ganhou qualquer destaque posterior (tinha até uma história de uma tal de Lois Lane).

Na edição seguinte, as cartas elogiavam efusivamente as histórias de Gaston Leroux e de E. F. Benson. A história de Howard recebeu apenas algumas palavras elogiosas em uma das cartas.

“The shadow Kigndon” foi um conto que passou despercebido na época, mas iria ter grande impacto no futuro.

A Arte Estupenda de Henry Clive

 


Henry Clive foi um artista australiano multifacetado, atuando como ator, ilusionista e pintor.

Nascido em 1883, Clive iniciou sua carreira na Austrália como mágico. Foi durante uma turnê pelos Estados Unidos que a pintura, inicialmente um hobby, rapidamente se transformou em profissão.

Ao se mudar para Hollywood, ele se destacou ao atuar em filmes mudos e, posteriormente, tornando-se diretor de arte da First National Pictures. Seu trabalho também incluiu colaborações em produções de Charlie Chaplin, notavelmente no clássico Luzes da Cidade.

Como ilustrador, Clive ganhou grande reconhecimento por suas contribuições para a revista The American Weekly e pela criação de capas de livros marcantes.













quarta-feira, abril 22, 2026

Perry Rhodan – Duelo de mutantes

 


Clark Darlton era conhecido entre os autores da série Perry Rhodan por humanizar seus relatos. E é exatamente isso que ele faz no número 26 da série.

Na trama, Perry Rhodan encontra um adversário à altura: um super-mutante apelidado de supercrânio, que usando suas capacidades hipnóticas, formara seu próprio exército de mutantes e, com eles, pretendia conquistar o poder mundial através de assassinatos, greves, guerras e atentados. O volume trata do ponto em que dois exércitos de mutantes entram em rota de colisão.

A história inicia no espaço, com um dos destróiers roubados pelo Supercrânio atacando uma nave-escola da terceira potência. O texto de Darlton foca em um dos recrutas: “Julian Tifflor, que seus amigos e colegas chamavam apenas de Tiff, enganava os que o cervavam. Atrás daqueles olhos sonhadores escondia-se a energia de uma pequena bomba atômica. Apesar de seus vinte anos, Tiff era um gênio matemático e um exemplar de coragem e resolução”.

Mais à frente, quando o Supercrânio usa uma unidade do exército da terceira potência para atacar a própria terceira potência, a narrativa é toda focada em um dos soldados, o sargento Harras, que vai do cansaço e do desejo era tirar o uniforme suado e dar um salto na piscina à necessidade irracional de guerrear.

O volume é um pouco decepcionante para quem se deixa levar pelo título. Não há de fato um duelo entre mutantes uma vez que assim que os mutantes do exército do supercrânio são tirados de sua influência hipnótica, eles aderem à terceira potência. Além disso, o mais poderoso dos mutantes, Gucky, acaba não participando do duelo, embora tenha uma atuação importante em outro momento da trama.

Ao contrário da capa americana, a capa alemã mostra uma cena que existe no livro. 


No volume há algumas frase que parecem estranhas. Quando é tirado da influência do Supercranio, é dito que um dos mutantes mudou de dono. Sobre outro é dito que mudou de mestre, o que vai na contramão da ideia de que Rhodan representa uma visão não-autoritária.

Ainda assim, com todos os volumes escritos por Darlton, esse é uma leitura deliciosa.

Em tempo: a capa da Ediouro, baseada na edição americanda, não tem mínima relação com a trama. Aparentemente o desenhista Gray Morrow sequer lia o volume, ou recebia um resumo. Assim, seguia o padrão de desenhar uma imagem de um homem com “roupa futurista” e uma mulher loura em apuros.

Buddy longway – O inimigo

 

 

O caráter diferenciado de Buddy Longway, de ser um faroeste familiar, fica claro já no segundo álbum, O inimigo.

Na história, Buddy e Chinook se casam e procuram um lugar para morar. Eles encontram um vale pelo qual passa um riacho, um local verdadeiramente paradisíaco. A sequência bucólica mostra os dois construindo a casa com troncos de abetos. Mas, no meio da felicidade conjugal, há algo errado. Uma refeição desaparece, a corda é cortada enquanto o cavalo carrega um tronco por uma subida, provocando um quase acidente.

Buddy e Chinook encontram um paraíso... 


Já depois de construída a casa, os incidentes continuam: algo afugenta os cavalos do estábulo. Aparentemente é um carcaju, mas como um carcaju conseguiria cortar uma corda enquanto ela está sendo puxada? E porque ele faria isso?

Com o tempo, a vida paradisíaca torna-se um inferno e o mistério só aumenta quando Slim, o caolho, visita o casal e eles descobrem que foi ali que ele perdeu um dos olhos. 

... mas vários acontecimentos estranhos transformam esse paraíso num inferno. 


O final consegue resolver bem esse mistério, sem deixar pontas soltas ou explicações absurdas.

Homem-animal – Espelho, espelho meu

 


Uma das características da fase de Grant Morrison à frente do Homem-animal é a forma inusitada com que ele abordou os personagens da DC Comics, a começar pelo próprio protagonista, que antes só fazia um uso óbvio dos seus poderes, captando habilidades de animais como pássaros (nenhum roteirista antes de Morrison tinha pensando em colocar o personagem para captar as habilidades de uma minhoca para provocar regeneração de membros).

No número 8 da revista, foi a vez de Morrison abordar um vilão, o Mestre dos Espelhos. Aqui a inovação não está exatamente no uso dos poderes, mas na forma como esses poderes são apresentados.

Uma splash page de impacto. 


Na história, o protagonista acorda, vai ao banheiro lavar o rosto e, quando olha no espelho, vê refletido o Homem-animal. “Sabe o que realmente anda errado com nosso relacionamento?”, pergunta a imagem no espelho. “É que a gente não se vê mais cara a cara”, responde a mesma imagem, agora saindo do espelho, em uma tremenda imagem de impacto.

Logo a situação fica clara: o vilão foi contratado por pessoas poderosas, que estão incomodadas com a atuação ecológica do Homem-animal. “Eu tô trabalhando para pessoas que querem te dar uma liçãozinha. Que querem que você saiba que podem te pegar, não importa o que faça ou onde esteja. O que também vale para a sua família.”.

A esposa do herói dá um chute no vilão...


É uma história simples, de luta de herói e vilão, mas lembro que quando li pela primeira vez, na DC 2000 número 14, ela parecia muito descolada e divertida. Também destacava o fato de que Morrison não carregava no texto, ao contrário de outros autores da época, como Chris Claremont. Ali o que contava era a qualidade e não a quantidade. Atualmente, lendo na edição da Panini, percebo que a quantidade de textos e diálogos era de fato bem menor que a média da época. 

... mas quem é atingido é o marido. 


Apesar das qualidades, a história tem um erro de continuidade. Em certo momento, a esposa do Homem-animal dá um chute nos fundilhos do vilão e, no quadro seguinte, aparece o herói caindo em uma poltrona, como se ele tivesse sido atingido pelo chute. Detalhe: não há nenhum motivo para o herói ter caído assim, já que ele não fora golpeado uma única vez na página anterior. Pode ter sido um erro do roteirista, ou do desenhista Chas Truog, vá saber. Em todo caso, foi algo que escapou à editora Karen Berger.

Os quadrinhos e o castelo do Graal

     No livro HE, o psicólogo norte-americano Robert Johson explica a psicologia masculina através do mito da busca do Santo Graal. O personagem principal é o jovem Percival, um cavaleiro da Távola redonda.


Certo dia, durante suas andanças, ele entrou em um castelo belíssimo e imponente. Era ali que estava o Santo Graal, o cálice usado por Jesus durante a última ceia.
Todos o recepcionaram muito bem e ele se sentiu feliz e maravilhado com os poderes do Graal. O cálice podia, por exemplo, fazer surgir a comida que o convidado desejasse. E podia também curar qualquer ferida.

Na manhã seguinte, quando acordou, ele não encontrou mais ninguém no castelo. Estava completamente abandonado, e ele teve de ir embora.
Percival passaria o resto de sua vida tentando encontrar novamente o castelo do Graal.
Para Robert Johnson, o episódio é uma metáfora de algo que ocorre com todos os jovens durante a fase da pré-adolescência.
Essa é uma fase particularmente difícil, pois o menino não é mais uma criança, mas ainda não é adulto.
Todos os meninos entram no castelo do Graal ao menos uma vez na vida e essa experiência irá marcá-los pelo resto da vida. Assim como Percival, eles passarão o resto da existência tentando voltar para o castelo.
O que tudo isso tem a ver com quadrinhos?
Pare para pensar. Se tem mais de vinte anos e continua gostando de quadrinhos é porque há uma boa lembrança associada a eles.
Em outras palavras: muitas pessoas - e eu entre elas - entraram no castelo do Graal graças aos quadrinhos.
Tenho conversado leitores de gibis e todos eles têm algum episódio semelhante ao de Percival.
José Aguiar, desenhista da Manticore, saía de casa todos os dias de manhãzinha com sua bicicleta e ia direto para um sebo próximo de sua casa, onde ele comprava ou trocava gibis.
Essa experiência o marcou profundamente e eu não tenho dúvida nenhuma de que esse foi um dos fatores que o influenciaram a se tornar desenhista.

Lembro que quando estávamos na sétima série a revista preferida de todos era a Superaventuras Marvel. Nós sabíamos a data em que ela chegava nas bancas e saíamos correndo para ver quem chegava primeiro.
Como tinha pouco dinheiro para comprar gibis, eu usava de um estratagema. Eu conhecia um sebo que ficava próximo da Igreja e que vendia revistas a preço de banana. Eu passava lá todo Domingo e comprava as Heróis da TV, que uma amigo da escola colecionava. Depois eu vendia para ele, pelo dobro do preço, mas antes eu lia e relia a revista e esses momentos eram tão sagrados que me faziam esquecer a chateação que era ser obrigado a ir à igreja.
Aquela experiência - comprar a revista e nem esperar chegar em casa para começar a lê-la - era uma verdadeira entrada no castelo do Graal.
Só com a saga da Fênix foram centenas de entradas no castelo do Graal, até porque os X-Men, assim como a busca do Cálice Sagrado, são um mito sobre o fim da infância (prometo falar sobre isso em outro artigo).
Cada vez que eu leio uma HQ é como se eu estivesse voltando àquela época mágica da pré-adolescência.
E quando escrevo histórias, fico imaginando que talvez eu esteja proporcionando a outros garotos as mesmas sensações que eu sentia lendo quadrinhos.
É interessante notar que o tipo de quadrinho que você lê na pré-adolescência vai influenciar seu gosto pelo resto da vida.
O desenhista Antonio Eder odeia super-heróis. Também, pudera: ele passou toda a pré-adolescência lendo revistas Kripta e nesse período nunca botou os olhos num gibi de super-heróis.
O desenhista Bené Nascimento (Joe Bennet) passou essa fase lendo HQs do Jack Kirby. Hoje ele compra qualquer coisa sobre o velho Jack, até caríssimos fanzines importados.
Pare um instante e pense. Se você gosta de quadrinhos, é bastante provável que você tenha, em algum momento, entrado num castelo do Graal feito todinho de histórias em quadrinhos.

Dicas de criatividade

 

 


Para ser uma pessoa criativa, você precisará viver  de forma criativa.. Uma pessoa avessa a novas idéias, novos conceitos, jamais terá uma idéia criativa.

Além disso, é necessário ver as coisas com olhos de criança, ou de filósofo: como se cada coisa fosse diferente a cada dia.

Dessa percepção podem surgir ótimas idéias. Quer um exemplo? Todo mundo que olhava
para garrafas plásticas de refrigerante via apenas uma garrafa. Mas, de repente alguém olhou para uma garrafa e viu uma flor. Outra olhou e viu um coelho de páscoa.

Hoje é comum usar garrafas de refrigerante usadas para fazer enfeites, mas isso não teria acontecido se uma primeira pessoa não tivesse olhado de maneira diferente para uma garrafa.

Para ser criativo também é importante reservar um tempo livre. Pessoas muito atarefadas dificilmente conseguem ser criativas. É o que Domenico de Masi chama de ócio criativo. Brincar com os filhos, ouvir uma música, ler tranquilamente um livro... são atividades que despertam a criatividade.  Às vezes temos ótimas idéias até quando estamos tomando banho.

O governo norte-americano pagava Von Newman, um dos criadores da cibernética, por cada idéia que ele tivesse enquanto estivesse se barbeando...

Outra maneira de ser criativo é fazer conexões. Pessoas criativas fazem conexões inesperadas. Os exemplos são muitos. Os inventores do radar, por exemplo, basearam-se no radar do morcego. Da constatação de que o morcego usa o radar para se movimentar sem bater em obstáculos, alguém teve a idéia:e se usássemos esse mesmo princípio para aviões?

Nós já sabemos que criatividade é a capacidade de resolver problemas. Imagine, então, que você tem um problema. Imagine, por exemplo, que você é um publicitário  encarregado de fazer uma
propaganda de uma panificadora Y.

Comece associando a idéia de panificadora com outras idéias, inclusive as mais absurdas.

Um exemplo absurdo: panificadora e vacas.

Aparentemente padarias e vacas não têm qualquer relação. Pense, então, na expressão e se... . E se uma manada de vacas entrasse na padaria à procura de pães?
- Mas vacas não comem pão!
- Para ver como são gostosos os pães da panificadora Y!

Claro que qualquer coisa criada com esse método deve passar, depois, pela fase da avaliação. Mas na fase inicial não descarte nenhuma idéia, mesmo uma absurda como a exposta acima.

Uma das propagandas mais famosas do Brasil foi claramente criada com esse método. Todo mundo conhece a propaganda da Bombril, com seu simpático garoto-propaganda.

Os anúncios da Bombril sempre faziam conexões inesperadas. 


O primeira dessa série de anúncios aconteceu numa época de eleições. O publicitário relacionou propaganda política com propaganda da Bombril.Ele se perguntou: E se eu fizesse uma propaganda mostrando o Bombril como um político?

O resultado foi uma peça publicitária que mostrava um homem em um palanque, dizendo: "Amiga eleitora, chegou a hora de escolher quem sempre foi eleito pela maioria... quem sempre colocou tudo em pratos limpos, talheres limpos, panelas limpas... chegou a hora de escolher quem tem
um passado brilhante. Chegou a hora de eleger mais uma vez Bombril".

O anúncio fez tanto sucesso que a fórmula foi usada por décadas.

Um outro exemplo.

Agora uma propaganda sobre óleo para motor. Relacione com algo que aparentemente não tem nada a ver com carros. Um tigre, por exemplo. O que um tigre tem de semelhante a um carro? A velocidade. O anúncio poderia mostrar um tigre correndo ao lado do carro e o texto: "Ponha um tigre no seu motor. Use óleo X..."

Certa vez desafiei meus alunos a fazerem uma propaganda relacionando postes com salsichas Sadia.

Um dos grupos teve uma idéia muito criativa: um homem estava preso por longo período em um local no qual não se servia salsichas. Ao ser liberto, a primeira coisa que ele vê é um poste e a fome faz com que ele tenha uma alucinação em que o poste se transforma em uma enorme salsicha, que abocanha com grande fome.

A arte clássica de Alex Raymond

 


Alex Raymond foi um ilustrador e quadrinista norte-americano, amplamente reconhecido como o homem que revolucionou os quadrinhos de aventura. Nascido em 1909, no estado de Nova York, iniciou sua trajetória na década de 1920 como assistente nas tiras Tim Tyler's Luck e Tillie the Toiler. No entanto, a notoriedade veio em 1934, quando foi escolhido para desenhar Flash Gordon, a grande aposta da King Features Syndicate para concorrer com o herói espacial Buck Rogers, que era o maior sucesso da época.

Para completar a página dominical, Raymond criou simultaneamente o personagem Jim das Selvas (Jungle Jim), concebido para rivalizar com Tarzan. No mesmo período, surgiu Agente Secreto X-9, outra de suas criações (escrita originalmente por Dashiell Hammett), para competir com o fenômeno Dick Tracy. Assim, de forma meteórica, Alex Raymond passou a desenhar séries sobre os três gêneros mais populares do período: ficção científica, aventuras na selva e tramas policiais.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o desenhista alistou-se nos fuzileiros navais e foi lutar no Pacífico. Ao retornar do conflito, criou uma nova série policial sobre um ex-militar que desvendava crimes com extrema elegância e inteligência: o sofisticado Rip Kirby.

O impacto de seu trabalho na cultura pop é imensurável; o universo de Flash Gordon foi uma das principais fontes de inspiração para George Lucas ao criar Star Wars. Seu traço clássico e detalhista influenciou milhares de artistas e, durante muito tempo, estabeleceu o paradigma visual da ficção científica nos quadrinhos.














Fahrenheit 451

 

Finalmente assisti ao filme Fahrenheit 451, de François Truffaut, baseado na obra de Ray Bradbury (comprei por 12 reais no Submarino). O livro é uma das minhas obras prediletas e tinha muita curiosidade de ver o filme, já que o texto de Bradbury é muito poético, difícil mesmo de transpor para as telas.
Para quem não sabe, Fahrenheit é sobre uma sociedade na qual é proibido ler. Como as casas agora são à prova de fogo, a função dos bombeiros é queimar os livros. O personagem principal é justamente um bombeiro, Montag, que, perigosamente, começa a se interessar pelos livros que queima.
Há toda uma contextualização para a obra. Bradbury viu o movimento marcathista nos EUA, em que livros de escritores tidos como de esquerda eram queimados em praça pública. Viu também a perseguição aos quadrinhos, em especial à editora EC Comics, com a qual ele colaborava, perseguição que começou com queima de gibis em praça pública e terminou com a criação de um código que engessou os comics americanos. Bradbury também odiava a televisão, um aparelho que, na sua opinião, deixava as pessoas ocas, incapazes de refletir, em um estado de felicidade vazia e conformista.
Farenheit é um resultado de tudo isso: da perseguição aos livros e quadrinhos e da emergência da TV como mídia de massa.
Para além do conteúdo, o livro prende pela narrativa extremanete poética. Bradbury é um daqueles escritores que prendem mesmo que não estejam contando nada, de tão gostoso é seu texto.
Truffaut conseguiu o que parecia impossível: fez uma bela adaptação de uma obra quase inadaptável. Fez muitas mudanças, mas todas necessárias e adequadas ao espírito da obra original. Por exemplo, no livro há um cachorro mecânico com o qual Mantag tem problemas quando começa a se interessar por livros. Sem contar com os efeitos necessários, Truffaut fez Montag ter problemas com a barra pela qual os bombeiros descem. Do ponto de vista metafórico ficou ainda melhor, já que a cena indica que ele já não é mais um bombeiro.
O cineasta também aproveita para fazer uma homenagem a grandes obras da literatura. Aparece até mesmo uma MAD sendo queimada, numa referência direta à perseguição aos quadrinhos da EC Comics. Em outro momento, ele faz uma homenagem a Crônicas Marcianas, outro grande livro de Bradbury.
Ou seja: um filme de cabeceira.
Uma questão interessante, levantada pelo filme é: se você pudesse ser um livro, se você pudesse decorar um livro para guardá-lo para a posteridade, que livro você seria?
Eu adoro muitos livros, mas provavelmente seria O nome da Rosa, uma obra que reúne o que há de melhor em muitas outras obras que aprecio.

terça-feira, abril 21, 2026

A origem de Thanos

 


A Marvel sempre teve um pé na ficção científica. Quarteto Fantástico, o principal gibi da era de prata da editora, era uma série de FC. Mas nenhum autor explorou tão bem as sagas cósmicas quanto Jim Starlin, o autor que levou a editora ao infinito.
O primeiro trabalho de Starlin para a Marvel foi uma edição do Homem de Ferro, personagem que seu colega de quarto, Mike Friedrich, escrevia. Starlin aproveitou a oportunidade para colocar ali vários personagens que haviam surgido para ele em sonho quando estudava psicologia na faculdade. Stan Lee viu a história, achou o resultado péssimo e afastou Starlin da série.
Mas Roy Thomas achava que o artista tinha futuro e lhe passou a revista do Capitão Marvel, que ele mesmo escrevera. A revista vendia mal, o personagem era praticamente uma página em branco, com uma personalidade insípida. Se não desse certo, era só cancelar a publicações.
Starlin reformulou completamente o personagem e o transformou em um sucesso entre a geração hippie. A história metamorfose, publicada na edição 29 da revista marcou os quadrinhos da Marvel para sempre e mostrou o quanto Starlin poderia ser revolucionário.
Nela, o herói é transportado para uma realidade onde é confrontado por uma criatura chamada Eon. Starlin encheu a história de cenas de luta, mas os leitores mais espertos perceberam que toda aquela ação era na verdade uma grande metáfora para um processo de transformação do personagem que, a partir dessa experiência iria adquirir consciência cósmica.
As vendas não paravam de subir e a redação da Marvel começou a receber cartas destinadas a Starlin que vinham com cigarrinhos de maconha.
Starlin trouxe para a série um conjunto de personagens que havia testado na história do Homem de Ferro, entre eles aquele que viria a se tornar o maior vilão cósmico da Marvel: o titã Thanos, um personagem poderosíssimo, apaixonado pela morte. Dizem que Starlin queria copiar um dos personagens que Jack Kirby tinha criado para a DC, Metron. Ao saber disso, Roy Thomas teria lhe dito: já que vai copiar, copie logo o Darside! Thanos se destaca não só pelo seu poder, mas principalmente por sua motivação: ele é apaixonado pela Morte e pretende destruir planetas inteiros para agradá-la. Essa motivação torna o personagem complexo: embora seu objetivo seja o assassinato em massa, ele o faz movido pelo amor.
Se o Capitão Marvel serviu para testar os conceitos lisérgicos e cósmicos de Starlin, foi outro personagem, Warlock, que lhe rendeu seus momentos mais inspirados (e mais “viajantes”).
Warlock havia sido criado como personagem secundário do Quarteto Fantástico pela dupla Stan Lee e Jack Kirby e teve uma revista própria escrita por Roy Thomas com arte de Gil Kane, sem muito destaque.
Starlin introduziu na série um novo vilão, o poderoso Magus, que é, na verdade, o Warlock do futuro. Magus dominou a galáxia, impondo um regime totalitário baseado na sua igreja, a Irmandade Universal e uma espécie de inquisição, que arrasa mundos que não seguem seu credo. O artista começou aí a abordar um dos seus temas mais caros: os perigos do fanatismo religioso e a religião como forma de alienação e totalitarismo. Uma das primeiras histórias produzidas por Starlin já aborda o assunto, com o personagem sendo submetido a uma lavagem cerebral para se adaptar aos sistema.
A série ganhou dois personagens secundários que conquistaram os fãs: Gamorra, a mulher mais perigosa da galáxia e o troll Pip, e trouxe de volta o grande vilão criado por Starlin: Thanos.
O gibi fez tanto sucesso que o capítulo final, o confronto definitivo com Thanos, teve a participação dos Vingadores e do Homem-aranha, duas das séries mais populares da Marvel – e até hoje essa história está entre as melhores dos Vingadores.