quarta-feira, julho 22, 2026

O cão da meia-noite, de Marcos Rey

 


No final do século XIX e início do século XX a literatura brasileira era dominada pelos parnasianos. Um dos princípios dessa corrente literária era a linguagem empolada, difícil, afastada do populacho. Monteiro Lobato foi o primeiro a se revoltar contra essa maneira de escrever - a ponto de se recusar a ser chamado de escritor, pois associava o nome à "alta literatura" e, por tabela, aos parnasianos. Para Lobato, a literatura devia falar a língua do povo, repetir suas gírias e modos de dizer. Posteriormente, essa proposta seria levada a cabo pelos modernistas, mas ninguém conseguiu encarnar a proposta de Lobato de maneira tão completa e perfeita como Marcos Rey. O grande autor de livros juvenis, cujo pai era encadernador na gráfica lobatiana, conseguiu como ninguém apanhar o jeito de falar de toda gente e transformá-lo em palavra impressa. Ótimo exemplo disso é o livro de contos O cão da meia-noite (Global editora, 216 páginas). 
No volume, Rey conta histórias de pessoas normais que acabam sendo envolvidas em algum tipo de drama. Algo em comum em todos eles é iniciar com um episódio cotidiano, pitoresco (como amigos que se encontram num bar, ou um homem que resolve adotar um cachorro), que vai se tornado mais e mais complexo ao correr das páginas. 

No primeiro conto, "Eu e meu fusca", vemos o que parece ser o relato apenas de um garoto viciado em seu carro, mas que logo se torna uma história policial no melhor estilo serial killer (provavelmente um dos primeiros textos ficcionais sobre o assunto escritos no Brasil). Todo narrado em primeira pessoa, o texto repete as gírias das ruas da década de 1960.

Em "O bar dos cento e tantos dias" um redator publicitário desempregado conhece um boêmio que lhe dá dicas de empregos (quase sempre furadas) enquanto lhe ensina a "observar o espetáculo da cidade" e seus personagens - um exercício que certamente o autor fez à exaustão, a se tirar pela fauna presente nesse livro. 

No conto que dá título ao livro vemos um homem que encontra um cachorro de rua e resolve leva-lo para casa e cuidar dele. Ocorre que se trata de um cão de rua, incapaz de viver preso. O que começa como um simples gesto de carinho acaba se tornando uma obsessão assassina e acabamos tendo mais uma história policial. Para entender "A escalação" é interessante saber que Marcos Rey foi roteirista de cinema, mais especificamente da pornochanchada, o que lhe permite falar com muita propriedade do assunto. No texto, um produtor cinematográfico reúne o elenco de seu novo filme, mas joga psicologicamente com cada um deles de modo a sempre ganhar. Ali temos desde o roteirista que aceita qualquer salário porque é perseguido pela ditadura e ninguém quer lhe dar emprego até a atriz decadente em busca de um papel que a traga de volta à cena. 

Muito difícil escolher o melhor conto num livro de pérolas como esse, mas se fosse necessário, eu escolheria "O adhemarista". O mote é simples, quase irrisório: um taxista que faz campanha para Adhemar de Barros num texto narrado por um amigo igualmente taxista. Nada demais. Mas Marcos Rey nos revela neste conto uma verve psicológica, um talento para coletar tipos e a capacidade de escrever como as pessoas de determinada época falavam de maneira ímpar. Saca só: 

"Aquela foi a semana mais quente que o Moa (Moacir) viveu na puta da vida. Nós, do ponto, é que sabíamos. Quente, digo, em toda parte. No carro, na rua, na sede do partido, na Lila, em casa. O homem estava envenenado, com fé em Deus e pé na tábua, dormindo só uma três horas por noite. Foi também a semana do papo, da lábia, da saliva, dia e noite de campanha, amarrando votos, aliciando os indecisos. Nunca vi na life um cabo eleitoral com tanta corda, tanta garra, tanto embalo".

Não bastasse a ótima análise do tipo fanático, que transforma política em torcida de futebol e coloca a eleição acima de tudo, Marcos Rey ainda constrói sua narrativa como um verdadeiro suspense policial, em que o mistério não é saber quem é o assassino, mas quem irá ganhar a eleição. 

"Soy loco por ti, América!", repete o tema de "A escalação". Nele, vemos uma festa de granfinos e estrelas do cinema e da televisão no dia anterior ao golpe militar. Regada a lança-perfumes, a festa, que começa tímida, torna-se um verdadeiro circo, com direito a gay enrustido, que de repente se interessa por uma atriz, para desespero de seu parceiro assumido, a atriz que humilha o produtor que a recusou antes da fama e anfitrião que filma tudo. 

Em "Traje de rigor" encontram-se no bar quatro homens muito diferentes: um publicitário (cujos slogans, como "Mil a vista e o resto a perder de vista", lhe renderam um ótimo salário), um jornalista decadente, que parece interessado unicamente em vender um revólver para qualquer um que encontre, um velho cantor igualmente decadente e um homem de família, com filho doente em casa, que quer apenas levar uma lata de leite em pó para casa. Esses quatro juntam-se numa inesperada jornada pela noite de São Paulo que a vai se revelando mais e mais surpreendente a capa página (o homem de família, por exemplo, acaba se mostrando o mais bôemio). 
Finalmente, em "Mustangue cor-de-sangue" acompanhamos o relato de um redator de um programa infantil estrelado por um anão que no dia-a-dia é um devasso e, na ocasião, resolve transar justamente com a vedete pela qual o escriba é apaixonado. O conto oscila entre as tentativas do anão e as fugas da moça, interessada em um contrato na TV e os planos do intelectual para salvá-la e, ao mesmo tempo, tirar sua casquinha da moça. Daria uma ótima pornochanchada, como muitas das que foram escritas por Marcos Rey para a boca do lixo na década de 1970. Aqueles que, quando crianças e adolescentes se deliciaram com as histórias de Marcos Rey para a coleção Vaga-lume irão se deliciar ao descobrir esse outro lado do escritor. 

Quando a Marvel era a casa das Ideias

 

Revistas como a do Doutor Estranho refletiam a criatividade da Marvel na década de 70. 


Quando Alan Moore, Steve Bissett e John Totleben assumiram o Monstro do Pântano, muitos se surpreenderam com a diagramação inovadora e o texto poético e revolucionário. Mas a diagramação psicodélica, assim como o texto poético não eram novidade: o Doutor Estranho de Englehart e Frank Brunner já tinha essa característica.
A Marvel na década de 1970 era pura inovação.
Alguns fatores contribuíram para tornar isso possível.
Um deles foi o fato da Marvel não ser uma grande empresa, como a DC, mas que ter uma grande produção de revistas. Então eles precisavam urgente de profissionais e não podiam pagar tanto quanto a DC. Compensavam com liberdade criativa.
Por outro lado, a maioria dos roteiristas eram também editores, de forma que tinham controle do processo criativo, uma tradição que começara com Stan Lee e se tornara norma com Roy Thomas.
Por último, o lema de Stan Lee que foi regra até a entrada de Jim Shoter como editor-chefe da Marvel no final década de 1970: "se uma revista está vendendo bem, não interfira".
Todos esses fatores juntos faziam com que Marvel fosse o local ideal para quem queria inovar. E a lista dos que que aproveitaram isso é enorme: Steve Englehart, Frank Brunner no Doutor Estranho, Jim Starlin na saga de Thanos, Bill Mantlo no Hulk e Micronautas, Steve Gerber em Howard, o pato, Don McGregor no Pantera Negra...
Na década de 1980 a DC se tornou mais inovadora. Monstro do Pântano é um exemplo disso. 

Na década de 1980 essa situação muda completamente: a Marvel se torna uma grande empresa, a primeira em vendas, os roteiristas deixam de ser editores e o editor-chefe se pedia modificações nas revistas, mesmo que ela estivessem vendendo bem (há uma caso famoso de uma capa de quadrinhos que Shoter mandou redesenhar três vezes porque não gostou do tênis que um personagem usava).
O ápice desse processo foi a série Guerras Secretas. Tudo ali foi decidido pelo departamento de marketing, inclusive o nome da série (uma pesquisa mostrou que essas eram as palavras que mais chamavam a atenção dos meninos). A partir daí passou a ser o departamento de marketing - e não os criadores - que decidiam os rumos das histórias. 
Resultado: foi exatamente nessa época em que a DC se tornou mais criativa que a Marvel. Foi exatamente nessa época que Alan Moore Steve Bissett e John Totleben fizeram o Monstro do Pântano para a DC.

Quarteto Fantástico contra o Milagroso

 


No começo, o Quarteto Fantástico não tinha uniformes e o Tocha Humana era desenhado como o da era de ouro, com labaredas no meio do corpo. A forma defitiva do grupo, com os uniformes e o Tocha sendo desenhado como se seu corpo fosse feito de brasas rodeadas de chamas, só vai surgir no número 3 da revista, quando o grupo enfrenta o mágico Milagroso.

Esse número, aliás, também se destaca pela primeira aparição do Fantasticarro, que já surge na capa, numa daquelas imagens impressionantes que só Jack Kirby conseguia fazer. Dentro, descobrimos inclusive que o fantasticarro pode ser dividido em quatro partes, permitindo que o grupo possa se separar.

O Milagroso parece mais forte que o Coisa. 


Nessa história, o quarteto enfrenta um mágico chamado Milagroso, que, ao ver o grupo na plateia, os desafia: “Aí está o Quarteto Fantástico! Supostamente eles são o grupo mais poderoso e sensacional da história, mas eu digo... bah! Comparado ao meu poder, eles não são nada!”.
Para provar isso, ele desafia o coisa a quebrar uma tora de madeira. O coisa consegue, depois de vários socos, mas o Milagroso consegue usando só o mindinho.

“É muito bom para nós e para o mundo que o milagroso não seja um criminoso! Porque se fosse... ele seria o único adversário que jamais conseguiríamos derrotar!”, vaticina o Senhor Fantástico.

A primeira aparição do Fantasticarro. 

Ocorre que o Milagroso é sim um criminoso e para isso ele faz com que um boneco gigante de um alienígena (que era usado no anúncio de um filme) aterrorize a cidade enquanto ele rouba um tanque nuclear.

Para uma ameaça tão grande, Milagroso acaba sendo um vilão pífio, como descobrimos no final (no qual ele se revela quase um plágio de Mandrake). Aliás, boa parte do poder de Milagroso não faz sentido. Como ele consegue, por exemplo, hipnotizar as pessoas para acharem que o boneco do monstro saiu do lugar e o boneco ser destruído pelo Tocha no local em que as pessoas achavam que o boneco estava?

Todo mundo gostou dos uniformes, menos o Coisa. 


Mas a história, apesar do vilão pouco interessante, se destaca pelas inovações narrativas e temáticas. Para começar, é um grupo que literalmente briga o tempo todo. À certa altura, o Coisa diz que quer voltar à forma humana para que Sue olhe para ele da mesma forma que olha para Reed Richards. “Minha irmã? Não se engane, coisa. Ela não se apaixonaria por ti, nem que você fosse a cara do Rock Hudson”, o que gera uma briga efetiva, com o Coisa destruindo uma parede e o Tocha se incendiando e saindo de casa.

O interessante aí é que apesar de brigarem o tempo todos, eles são unidos, como uma família.

Essa característica, somada ao fato de que as histórias, na grande maioria, uniam super-heróis e ficção científica, explica porque o gibi do Quarteto foi durante muitos anos a vaca leiteira da Marvel – aquela publicação que vendia tanto que sustentava a editora. O Quarteto só começaria a perder o posto com o Homem-Aranha da fase John Romita. 

A arte incrível de Bilquis Evely

 

 

Bilquis Evely é uma desenhista brasileira de histórias em quadrinhos. ela começou a se interessar por quadrinhos quando viu uma revista da Supermoça na banca, quando tinha apenas 14 anos.

Seu primeiro trabalho profissional como desenhista foi na série Luluzinha Teen, da editora Pixel.

Pouco depois começou a trabalhar para os EUA, ilustrando revistas da Dynamite, como Doc Savage.

Seus primeiros trabalhos na DC foram com capas variantes e títulos menos famosos, como Plastic Man. Mas sua grande chance viria mesmo em 2016 quando foi convidada para assumir os desenhos do título da Mulher Maravilha. Pouco depois ela trabalhou em The Sandman Universe - The Dreaming, com personagens criados por Neil Gaiman. Outro trabalho de destaque foi Supergirl: Woman of Tomorrow.









terça-feira, julho 21, 2026

Quarteto Fantástico – Primeiros Passos

 


Eu sempre tive um fascínio pelo Quarteto Fantástico que não sei explicar de onde veio. Eu assisti uma outra coisa do desenho animado com o robozinho e provavelmente achei os roteiros sofríveis. Mas, como costumo dizer, quando eu era criança, nunca assistia o que estava passando na TV. Assistia o que estava passando na minha mente. E aquela mistura de ficção científica, super-heróis e família parecia prometer aventuras incríveis e fascinantes. Depois de adulto, quando comecei a ler quadrinhos Marvel, só as melhores histórias de Stan Lee e Jack Kirby se igualavam àquilo que eu esperava desses personagens – a exemplo da saga de Galactus. Foi essa impressão que eu tive ao ver o filme Quarteto Fantástico – primeiros passos.

O filme de Matt Shakman não tem vergonha de ser uma obra baseada em quadrinhos. Estão ali os uniformes coloridos, o clima divertido de família, as soluções malucas de Reed Richards.

A produção acerta ao situar a obra na década de 1960, com um visual futurista retrô. O roteiro, aliás, é descomplicado e otimista: O Quarteto se transformou após uma viagem ao espaço e os astronautas se tornaram ídolos mundiais. Usar um programa de auditório para introduzir os personagens foi uma boa sacada para narrar tudo que o expectador precisa saber a respeito desses personagens.

Tudo muda quando a terra recebe a arauto de Galactus, a Surfista Prateada, que avisa que a terra será a próxima vítima do devorador de mundos. A coisa se complica quando Galactus resolve tomar para si o filho de Reed e Sue, um garoto, segundo ele, detentor de grande poder.

Quem conhece os quadrinhos sabe que a história foi modificada. Mas essas modificações mantiveram a essência da história. E, na verdade, promoveram um motivador a mais. Agora o Quarteto não luta apenas pela humanidade, mas também pelo bebê. Pode parecer paradoxal, mas funciona. Ao colocar uma criança em perigo, o filme humaniza a narrativa, torna mais palpável o perigo e menos abstrato.

Outra mudança foi com relação ao final – e essa também é positiva. Nos quadrinhos, a humanidade é salva por um deus ex machina (uma arma do Vigia). Aqui a ameaça é debelada graças a um plano do Senhor Fantástico.

Quando o Quarteto surgiu, sue era a personagem menos poderosa (alguns leitores mandavam cartas sugerindo a retirada dela do grupo, cartas que eram respondidas por Stan Lee com verdadeiros sermões sobre a importância das mulheres). Aqui, ela é a mais poderosa, e aquela cujo poder acaba sendo fundamental no momento mais crucial do filme.

É um filme empolgante. Não por acaso, a plateia da sessão que assisti vibrava e chegava até a falar com os personagens.

PS1 - O filme reverencia os quadrinhos a ponto de mostrar o que seriam Jack Kirby e Stan Lee, com páginas de quadrinhos de Kirby penduradas nas paredes de uma editora.

PS2 – Adorei os uniformes.

PS3 - Não perca a cena pós-crédito.   

Superman – A múmia ataca

 


O número 5 a revista Superman na fase de Byrne começa de uma forma curiosa: com um sonho erótico do Superman. Sim! E como seria um sonho erótico de super-herói? Lutar ao lado de uma heroína (no caso a Mulher Maravilha), claro.

Toda essa sequência do sonho é totalmente aleatória e tem pouco ou nada a ver com a trama da história, tendo como única consequência o fato de Clark Kent se atrasar e não conseguir fazer a barba.

Como é o sonho erótico de um super-herói? 


Na trama, Lois Lane vai para os Andes acompanhar escavações e a transmissão falha no meio, quando ela estava falando com o dono do Planeta, Perry White. Preocupado, Clark Kent vai até o local (teoricamente pegando uma “carona com o Superman”).

Lá os arqueólogos encontram um cidade evoluída e, sem querer despertam um ser monstruoso, que está enrolado como uma múmia. Clark Kent deverá salvar a todos sem revelar sua identidade – segundo o personagem, se ele aparecer como Superman com a barba por fazer, isso revelará para Lois Lane que ele e o superman são a mesma pessoa, o que mostra que Byrne não deixou solto o gancho do início.

Resposta: Lutar ao lado de uma super-heroina. 


Algo a se perceber é que o superman pensa ou fala o tempo todo. Considerando-se que na época autores como Frank Miller e Alan Moore estavam colocando em desuso esse expediente de usar a fala ou os pensamentos do personagens para narrar ou explicar os fatos, histórias como essa parecem anacrônicas, embora divertidas.

Providence: Alan Moore explora do universo de Lovecraft

 


Providence é um dos trabalhos mais recentes de Alan Moore e a terceira investida do autor inglês na obra de H.P. Lovecraft (a primeira foi no Monstro do Pântano, a segunda em Neonomicon).

O plano de Moore é ousado: não só costurar todo o universo lovecraftiando em uma única história, mas interliga-lo com quase toda a literatura do século XX, tendo como pano de fundo a ideia de que a arte é um tipo de magia: quando, por exemplo, escrevemos sobre algo, estamos tornando aquilo real. Moore tem dissertado bastante sobre sua tese de que ficção e realidade são instâncias que se tocam e influenciam, de modo que a linha entre elas é tênue e nebulosa. Esse é o mote de Providence.
Moore transforma Lovecraft em personagem de sua série. 


A história, lançada aqui em três volumes encadernados pela Panini, acompanha um jornalista gay nova-iorquino e sua saga pela nova Inglaterra em busca de tradições locais. Com isso ele se depara com um estranho culto. A narrativa é lenta e se torna necessário conhecer a obra de Lovecraft para entende-la em plenitude: os personagens de diversas histórias de Lovecraft vão surgindo.

Príncipe Valente: a Idade Média nos quadrinhos

 

O Príncipe Valente surgiu no do­mingo de 13 de fevereiro de 1937. O seu criador, Hall Foster, entretanto, o havia imaginado desde 1934, quando fazia as historias de Tarzan para a United Features Syndicate. Em 1936 ele ofereceu à distribuidora seu personagem medieval. Mas United queria que ele fizesse uma tira diária e, caso tivesse sucesso, passaria a uma página dominical colorida. Foster, de traço muito detalhado para tiras diárias, preferiu apresentar seu personagem à concorrente King Features Syndi­cate , a mesma que publicava o Flash Gordon de Raymond.
    A KFS aceitou na hora e, fevereiro de 1937 saia a primeira prancha de Príncipe Valente. O personagem deveria se chamar Arn, mas a distribuidora achou que Valente teria um maior impacto nas vendas. Foster aceitou, mas posteriormente deu o nome de Arn ao filho do protagonista.
    Príncipe Valente se passava numa Idade Média romântica, dos tempos do Rei Arthur. Assim, o jovem príncipe, descendente de um trono que foi tomado pelos bárbaros, vive várias aventuras até chegar a Camelot, tornando-se um dos membros da Távola Redonda. A pesquisa histórica é impressionante. Foster comprava livros e percorria museus, coletando informações sobre as roupas, costumes e arquitetura da época. Apesar de, visualmente, a história ser uma reprodução fiel do período histórico, Foster não se prendia à cronologia. Cavaleiros medievais conviviam com soldados romanos e até com dinossauros.
    Para não perder nada de seus desenhos detalhistas, Foster não usava balões. A narrativa e os diálogos eram acomodados abaixo dos quadros. Apesar disso, o autor explorou bem a linguagem dos quadrinhos, com seqüências dinâmicas poucas vezes vistas. Se o desenho está entre os melhores já surgidos nas histórias em quadrinhos, o texto não ficava atrás. Sem cair na redundância, eles complementavam perfeitamente as imagens.
A qualidade da historieta era tão notória (tanto em termos de desenho, quan­to de texto) que Príncipe Va­lente foi uma das poucas HQs poupadas pela caça aos quadrinhos da década de 50.
Príncipe Valente foi o primeiro personagem de quadrinhos a envelhecer, na proporção de um ano para cada dois anos dos leitores. Ele se casou, teve filhos e o príncipe Arn já é, hoje, mais velho do que seu pai era quando começaram as aventuras.
As pranchas de Príncipe Valente foram publicadas em álbuns luxuosos pela Editora Brasil-América – Ebal – com grande sucesso e essa coleção está sendo relançada pela Opera Graphica. Não existe colecionar sério de quadrinhos que não tenha pelo menos um livro dessa obra-prima em sua estante.

A Arca dos Marechais, de Marcos Rey


Imagine receber de herança uma mala cheia de dinheiro falso. Esse é o mote de A Arca dos Marechais, romance de Marcos Rey publicado em 1983.

Para maior contraste, Rey imagina o herdeiro como um homem absolutamente normal e insuspeito, alguém que nunca havia recebido sequer uma multa de trânsito. Assim, o humilde trabalhador do aquário público recebe do tio alemão uma gráfica capaz de fazer dinheiro tão perfeito que ninguém consegue identificar como falso. Com essa máquina, foi produzida uma mala repleta do dinheiro mais valorizado à época: a nota de 5.000 cruzeiros, em homenagem ao Marechal Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura militar.

Marcos Rey já conquista o leitor no primeiro capítulo, em que o protagonista resolve gastar o seu primeiro "marechal" em um restaurante do Brás, em São Paulo. O personagem cria toda uma alegoria para passar a nota sem levantar suspeitas, mas, depois de várias situações tensas, acaba pagando a conta com uma nota verdadeira. Ironia das ironias: quem troca para ele o primeiro marechal falso é uma florista de rua.

O autor usa a trama para criar uma mistura de humor, suspense, policial, estudo psicológico e crônica urbana, em um texto delicioso permeado por frases críticas e cínicas,  como: “Dinheiro novo é tão suspeito como a virtude de uma virgem velha” ou “O que me causava estranheza, isso sim, era que aqueles fregueses pagassem com dinheiro verdadeiro uísque e emoções falsificadas”.

Emerich, o herói da história, desenvolve uma jornada que vai das estratégias para trocar dinheiro sem levantar suspeitas até a emoção de gastar e a paixão por uma prostituta. Ironicamente, no final, com medo de ser pego, ele acaba se recolhendo a uma vida que era muito próxima da que ele vivia no início.

Finalmente, ele acaba sendo pego — e o livro se torna uma trama policialialesca. Quem o teria delatado? No final, como nos melhores romances policiais ele cometera um erro pueril que passa despercebido pelo leitor, mas que será sua perdição.

segunda-feira, julho 20, 2026

Estúdio Maurício de Sousa Produções

 


Em 2010 eu fui um dos convidados para participar do álbum MSP+50 em homenagem aos 50 anos de Maurício de Sousa. Foi um verdadeiro sonho trabalhar com um personagem do Maurício, meu ídolo desde a infância. Aproveitamos para ir para São Paulo, eu, o desenhista da minha história, JJ Marreiro e o amigo Antonio Eder, que também participou do álbum. E fomos convidados a conhecer o estúdio do Maurício, uma verdadeira fábrica de sonhos, um local onde são feitas as histórias em quadrinhos, os desenhos animados e criados os materiais de licenciamento. Fomos ciceroneados pelo amigo Sidney Gusman, editor do Maurício e pelo próprio Maurício, uma das pessoas mais simpáticas que já conheci no meio. Compartilho com vocês um pouco dessa visita.

O local onde é feita a dublagem dos desenhos animados. 

Estúdio de animação. 

O salão onde ficam os desenhistas. 

Bonecos dos personagens MSP.

Sidney Guman nos mostrando uma das tiras mais antigas do Astronauta. 

Na sala do roteirista Flávio Teixeira, responsável pela maioria das sátiras de filmes. 

Sidney Guman mostrando a mesa do Maurício: ele desenha até durante as reuniões. 

A sala do Maurício. 

Até os elevadores são caracterizados. 


Demolidor – O homem sem medo

 

 

A infância de Matt Murdock é um dos momentos mais importantes da história do Demolidor, mas também um dos menos explorados. Antes de Frank Miller, o que existia, era, essencialmente, a versão de Stan Lee e Bill Everett. Miller inovou, por exemplo, ao mostrar que o garoto teve um mestre, Stick, mas ali pela década de 1990 ele achou que era hora de explicar melhor como Matt Murdock virou o Demolidor, da mesma forma que já havia feito no Batman. O resultado, um verdadeiro Demolidor ano 1, foi a minissérie Demolidor – homem sem medo, publicada em 1991, com desenhos de John Romita Jr e Al Williamson.

Na história, Matt Murdock oscila entre a obediência ao pai e a vontade de realizar traquinagens – e resolve o conflito usando uma máscara. Assim, por exemplo, o vemos, na sequência inicial, roubando o cassetete de um policial por pura brincadeira, o mesmo policial que pouco antes estava dizendo para os garotos: “Por que vocês não são como o filho de Murdock? Ele nunca causa problemas...”.

A história começa com uma traquinagem do garoto Matt. 


Na história descobrimos também que o pai de Matt era, a contragosto, um capanga do mafioso chamado Manipulador, providenciando para que todos os comerciantes locais pagassem proteção.

Fortemente influenciado por Jack Kirby, John Romita Jr usa com perfeição quadros de impacto, a começar pela imagem de Matt Murdock após o acidente que o deixou cego, as feições infantis, a expressão de desalento.

A sequência do acidente é recontada. 


Em contraste, ainda no primeiro número, temos uma página dupla do jovem Murdock, já depois de treinado por Stick, percorrendo os telhados da cozinha do inferno em uma cena grandiosa.

Talvez o aspecto mais interessante da série seja a parte focada em Elektra, uma personagem pela qual Miller nitidamente era apaixonado e que se tornou um ponto fulcral da série ao se tornar uma mistura de heroína e vilã. A história mostra como ela e Matt Murdock se conheceram, a forma irresponsável e atrevida como Elektra vivia e a forma como ela manipulou o rapaz para se aproximar dele.

Boa parte da história é focada em Matt e Elektra. 


Mas a sequência mais impactante é aquela em que Elektra vai até o centro de Nova York e chama atenção de uma gang. “Ela não é louca. As vozes são reais”, diz o texto. “As vozes lhe falam de seu destino. Elektra não aprecia esse destino... mas elas fazem algo com sua mente, algo que a jovem mal pode controlar. Por isso ela escolhe as vítimas”. Estava ali, em toda a sua essência, a assassina comandada por forças das trevas, a mulher que oscila entre o amor por Matt Murdock e a necessidade de matar.

Elektra precisa matar. 


A série também nos mostra como o Rei chegou ao controle do crime organizado e como ele estabeleceu uma rede de sequestro de crianças para filmes sexuais – o que nos dá uma sequência eletrizante quando o Demolidor, ainda sem uniforme e usando apenas roupa e máscara preta, vai salvá-las.

O herói, ainda sem uniforme, salva crianças: sequência eletrizante. 


A união de Miller e Romitinha fez com que essa série se tornasse um clássico obrigatório para os fãs do Demolidor, tão relevante que nitidamente serviu de base para a série da Netflix (série, aliás, que não conseguiu manter o mesmo nível de qualidade).