segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Caligari: a história de uma adaptação

 



    O sucesso do filme Caligari fez com que ele fosse adaptado mais de uma vez para outras mídias. A obra já foi citada diversas vezes em gibis e ganhou uma adaptação em quadrinhos em 1992, pela editora Monster Comics, numa minissérie em três partes assinada por Ian Carney e Michael Hoffman. Em 1999, os roteiristas Randy e Jean-Marc Lofficer e o ilustrador Ted Mckeever juntaram elementos de Batman, Super-homem, Metrópolis e Caligari no especial Nosferatu. Quando Tim Burton lançou o segundo filme do Batman, em 1992, o visual do Pinguim era inspirado em Caligari, visual que depois foi aproveitado no desenhado animado dirigido por Bruce Tim.
    Curiosamente, embora os quadrinhos de terror sempre tenham feito muito sucesso no Brasil, em nosso país nunca o filme de Wiene havia sido adaptado para a nona arte.
    A idéia para isso surgiu em 1998. Nessa época estava sendo lançada a graphic novel Manticore, em duas partes, com roteiro meu, pela editora Monalisa. O sucesso de crítica (a revista ganhou o HQ Mix, o Angelo Agostini de melhor roteirista e o prêmio da Associação Brasileira de Arte Fantástica) fez crer que a revista teria uma continuidade. A idéia, então, era transformar a Manticore numa revista mix de terror e ficção-científica nos moldes da extinta Kripta. Uma das ideias era fazer histórias sobre mitos urbanos, como O bebê diabo e sobre clássicos de terror, como Caligari.
Uma série de decisões editoriais equivocadas fez com que a revista, apesar do sucesso, não tivesse continuidade, mas algumas dessas histórias seriam de fato produzidas. As duas citadas acima foram lançadas em 2008 pela editora HQM no especial Quadrinhofilia, que reúne trabalhos de José Aguiar.
O processo de adaptação começou com uma análise do filme. Eu e o desenhista assistimos ao Gabinete do Dr. Caligari juntos, fazendo anotações. A ideia era captar as principais características da história, afinal, o segredo de uma adaptação não é ser totalmente fiel à trama, mas ser fiel ao espírito da ideia original. Assim, a deformação dos cenários e a maquiagem exagerada foram os elementos mais facilmente percebidos. Como havia uma limitação de seis páginas, a história precisava ser condensada, mas ainda assim fazer sentido e ser fiel.
Uma das questões discutidas foi com relação ao uso de diálogos e legendas. Como o filme é mudo, o caminho mais fácil seria fazer uma HQ muda. Mas cinema e quadrinhos são mídias completamente diferentes e fazer isso seria um erro. Mesmo em seus primórdios, as HQs não eram mudas, pois não havia limitação técnica ao uso da linguagem falada. Assim, decidiu-se que se teria diálogos e legendas (representando a fala de Alan, em off).
    O passo seguinte, após a estruturação de um argumento-sinopse, foi a elaboração de um roteiro.  O roteiro das duas primeiras páginas é apresentado abaixo, para dar uma ideia dessa fase da adaptação:

Página 1
Q1 – Plano detalhe de folhas secas caídas no chão.
Velho (off): Os espíritos... eles estão em todos os lugares...
Q2 – Plano médio. Francis e o velho estão sentados, lado a lado, conversando.
Velho: Nos amedrontam... eles me afastaram de minha mulher e meus filhos.
Q3 – Os dois estão conversando, mas agora Francis olha para o lado, para Jane, que aparece vestida de branca, quase como um espírito.
Velho: Foi assim que aconteceu, meu rapaz...
Q4 – Jane passa pelos dois, sem notá-los. Quadro mudo. 
Q5 – Quadro horizontal. Créditos. Francis e o velho em primeiro plano, vistos de costas, enquanto Jane afasta-se, em último plano.
Velho: Conhece a jovem?
Francis: Aquela é minha noiva, Jane.
Q6 – Alan e o velho conversando, em plano médio.
Francis: A pobre jamais se recuperou do que nos aconteceu...
Q7 – Agora um plano fechado dos dois, conversando. Francis, agora em segundo plano, sendo observado, com olhar perdido, pelo velho.
Francis: Também tenho uma história...
Q8 – plano fechado de Francis, em gesto amplo, expressionista.
Francis: ... ainda mais extraordinária do que a sua...
Q9 – Close de Francis. Destaque para seu olhar melancólico, ampliado pela “maquiagem pesada”.
Francis: Tudo começou com a chegada da feira de variedades à nossa cidade.


Página 2 Nesta página teremos um quadro grande, o 4, ocupando boa parte da página, num tom expressionista.
Q1 – Quadro geral da feira, com Caligari aproximando-se do leitor.
Texto: E com a feira
Q2 – A continuação da mesma cena, mas agora Caligari já está mais próximo de nós.
Texto: veio
Q3 – Agora o quadro é tomado por Caligari.
Texto: O doutor Caligari.
Q4 – Chegamos ao quadro de impacto da página. Caligari espera o escrivão. Como combinamos, a mesa do escrivão é extraordinariamente alta e distorcida, simbolizando, como no filme, o monstro da burocracia. Caligari é visto como pequenino diante desse monstro.
Texto: Antes de instalar sua feira, o doutor foi pedir permissão ao escrivão. Ele foi duramente humilhado. Teve que esperar por horas para ser atendido.

O exemplo serve para demonstrar como foi o processo de adaptação nessa fase de estruturação do roteiro. Bom lembrar que tal roteiro foi construído a partir das conversas entre desenhista e escritor, e reflete essa conversa. Posto isso, passemos a analisar o texto. 
A fala de Francis, quebrada, nos três primeiros quadros da página 2, revela influência do quadrinho britânico do final dos anos 1980, em especial de autores como Neil Gaiman (Orquídea Negra) e Alan Moore (Monstro do Pântano).
A narrativa, em off, é intencionalmente coerente e racional, como forma de evitar que o leitor perceba que se trata de um conto de um louco, o que já é evidenciado pelo desenho, sendo uma pista de como a trama irá terminar. Assim, o roteiro procurou preservar o final surpresa.
Se o texto parece uma narrativa fantástica contada por um homem racional, o desenho distorce essa narrativa, demonstrando o real estado das coisas.
A segunda página, já descrita no roteiro acima, apresenta o quadro de impacto de Caligari pequeno, numa perspectiva distorcida, diante da enormidade da burocracia.

A página 3 é dominada pela figura esguia de Cesare. A magreza e altura atípica do personagem orientam a leitura, que ganha foco no rosto fantasmagórico do sonâmbulo. Os personagens normais são eclipsados por essa figura distorcida.

A página 4 é centralizada pela figura de Jane, como se os fatos refletissem dela. Ao fitar a página, o leitor tem seu olhar magnetizado pelo olhar assustado de Jane e sua figura, em sépia azul. A tendência do olhar é correr na direção do último quadro, em que Cesare agarra Jane, sequestrando-a.
Esse caos da diagramação reflete o caos interno dos personagens, suas angústias e inquietações, no que poderia ser considerado um equivalente quadrinístico da técnica expressionista.


Avançando, na página 6 temos a prisão de Caligari. Ele se contorce e grita, lutando com os médicos. Vista em oposição à página seguinte, vemos que ela se reflete no quadro 4 da página 7. Ali é o narrador que é preso e repete a mesma posição de Caligari, como se fossem duas faces da mesma moeda: num lado a racionalidade, no outro a loucura. Como o lado racional é na verdade uma narrativa distorcida, uma falsa racionalidade, esse contraste cria uma inquietação no leitor que nos lembra o conceito de obra aberta, de Umberto Eco, que pretende renovar nossa percepção e nosso modo de compreender as coisas.

    Na página 7 há um diálogo, não existente no filme, que pretende destacar exatamente a crítica ideológica do filme, pensada originalmente pelos roteiristas (Janowitz e Carl Mayer). Alan pula sobre Caligari e grita: “Tolos! Não percebem? Ele planeja nosso destino!”.
A fala é uma referência direta à interpretação de Kracauer, segundo o qual Caligari antecipa Hitler e o nazismo. Assim, se por um lado respeitamos a moldura introduzida por Fritz Lang, por outro destacamos a crítica social e política imaginada pelos roteiristas.

Batman vs Hulk

 

Depois do sucesso do encontro do Super-homem e Homem-aranha surgiu a ideia de realizar mais um crossover entre heróis da Marvel e da DC. Os escolhidos foram Batman e Hulk. Para realizar a história foi chamado o roteirista Len Wein (que já trabalhara na Marvel e estava na DC) e o desenhista José Luís Garcia-Lopez, o mais emblemático ilustrador da DC.
Um encontro entre o homem morcego e o gigante esmeralda é um desafio absoluto de roteiro. A diferença de poder entre os dois é tão gritante que torna qualquer trama difícil, ainda mais uma trama que deixasse os dois personagens com igual nível de protagonismo, como queria a direção das duas editoras.


Wein escolhe como vilões o Coringa e o Figurador, um personagem alienígena capaz de transformar sonhos em realidades, e usa esses dois personagens numa trama bem elaborada e muito mais complexa do que o crossover anterior das duas editoras.
Para começo de conversa, o Figurador não é retratado como um vilão clássico. Enquanto na DC a diferença entre heróis e vilões é uma linha muito clara, na Marvel essa diferença é muitas vezes é apenas de intenção – e outras vezes nem isso. Conhecendo bem a diferença entre as duas abordagens, Wein as explora corretamente. Assim, o Coringa quer transformar o mundo à sua semelhança (nessa época ele ainda não havia se transformado no psicopata que conhecemos atualmente), enquanto o Figurador só quer uma maneira de se salvar.


Na parte dos heróis, tirando um ou outro roteirismo (como Batman chutando a barriga do Hulk e fazendo-o aspirar um gás), temos uma boa dinâmica. Não fica óbvio que a coisa foi pensada milimetricamente para nenhum dos dois ter protagonismo.


Quanto aos desenhos... Garcia-Lopez conta que quando o convidaram para o projeto, mostraram o crossover anterior, desenhado por Ross Andru e ele duvidou que pudesse fazer algo tão bom. Não só fez, como superou o mestre Ross. Com arte final de Dick Giordano, o artista argentino faz com que cada página seja um deleite de dinamismo e perspectiva. Pena que o formatinho da Abril não favoreça a apreciação da arte.

O crítico (ou meu conto de Lobato)

 



Sérgio tinha um sonho: ser ator. Passava os dias modorrentamente numa repartição pública, remoendo essa frustração.

Já não bastasse o sonho não realizado, Sérgio ainda tinha de agüentar chacota dos colegas de repartição. A verdade é que era quase impossível ver aqueles homenzinho de testa larga, cabeça calva, sem esboçar um sorriso. Duas lentes garrafais pendiam de sua protuberância nazal, ocupando a maior parte do rosto, que por sinal afinava no queixo, dando impressão de que faltara massa ao conjunto. A barriga, enorme, era uma exibida e teimava em pular para fora da camisa. Seu andar tinha o rigor quacquacqueano dos patinhos na lagoa: barriga inclinada para a baixo e a região glútea inclinada para cima, com os pezinhos de menina se movimentando lá embaixo.

Já que não tinha coragem de realizar seu sonho, contentava-se em estragar os dos outros. Costumava dizer que era um crítico e estava ali para criticar.

- E criticava?

Desbundava. Nos debates, após as apresentações, bastava que ele abrisse a boca a pronunciasse o fatídico “Eu vejo erros!” para que os atores estremecessem.

Seu olhar de rancor conseguia encontrar erros mínimos, que passavam despercebidos para todos os outros. Sérgio eram também um profundo pensador e havia criado para si uma teoria de teatro tão flexível e ao mesmo tempo tão ortodoxa que lhe permitia criticar qualquer um, dos pobres atores de periferia aos grandes astros nacionais.

Ignora-lo era pior. Quando percebia que não estavam levando a sério suas críticas, entrava em pânico. Não era justo. Aquela era o único momento em que ele brilhava e não podiam, de forma alguma, tirar-lhe essa glória! Recomposto da mágoa, ele se levantava, deslizava seus pezinhos pelo salão, cortava a palavra dos outros, apontava nervosamente o dedo e gritava sua máxima:

_ Isso não é teatro! Vocês estão brincando de fazer teatro! Isso não é teatro!

Pronto! Estava feito. Agora era a Ursa Maior, brilhando intensamente por todo o teatro e cegando com sua luz todos os hereges que ousavam discordar dele. Para melhor efeito, ele se sentava de quando em quando, para, de repente, estourar no meio da frase de alguém:

- Isso não é teatro!

Tumultuar era-lhe uma delícia!

Um dia leu uma frase de Augusto Boal que o deixou particularmente preocupado: “Qualquer um pode fazer teatro, até mesmo os atores”.

Ora, se qualquer um podia fazer teatro, por que ele – justo ele! – não podia? Isso era especialmente irritante.

Nesse dia, Sérgio deslizou seus pezinhos pela repartição, coçando a cabeça e fazendo retângulos imaginários no chão. Pensou primeiro em diminuir a importância de Boal. Bastava para isso recorrer à sua infalível máxima: “Isso não é teatro!” e tudo estaria resolvido. Boal não fazia teatro, não sabia o que era teatro e, portanto, não podia ensinar nada a ele... bom... muito bom... mas nem tanto. Se Augusto Boal não fazia teatro, que fazia? Não, não convinha discordar dele... era famoso demais, respeitado demais... e, quem sabe, talvez Boal tivesse razão e qualquer um podia fazer teatro... até... ele!

Era isso! Ia tomar coragem e realizar seu sonho. Imaginou-se fulgurante no palco, olhando de cima os pobres espectadores, a quem só restaria assistir boquiabertos. Não havia dúvidas: seria um sucesso! Anos e anos de crítica teatral tinham lhe dado experiência o bastante para fazer o melhor espetáculo possível.

O problema era encontrar um grupo. Sérgio dizia que os que os que existiam estavam por demais viciados “pelos erros que se espalhavam como uma peste pelos espaços cênicos”. Não. Ele cortaria o mal pela raiz. Descobriria uma terra ainda virgem para plantar nela os frutos do que considerava o verdadeiro teatro.

A notícia se espalhou. Sérgio, o crítico, estava montando uma peça e a apresentaria à cidade para mostrar a todos o que era um teatro sério. Quanto ao elenco, alguém indicou-lhe um grupinho de colégio, repleto de fedelhos em fraudas.

Convence-los a se deixar dirigir foi moleza. Bastou alguns termos técnicos e uma conversa fiada sobre marcação e expressão corporal para que os pobres coitados tivessem que recolher o queixo do chão.

De posse da trupe, o grande dilema foi escolher a peça a ser encenada. Passou nisso um mês, matutando. Não descobriu, por fim, nenhum autor nacional que estivesse à sua altura. Não montaria nada menor que Shakespeare. Decidiu, então, montar Sonhos de uma noite de verão.

Sérgio nunca pensou que fosse tão difícil e desgastante montar uma peça. Os vinte uma atores dificilmente podiam ser reunidos num só dia; o dinheiro saía aos borbotões de seus bolsos para gastos que iam da passagem dos atores ao lanche que os miseráveis exigiam quando o ensaio se alongava.

O cenário, mandou-o fazer por um cenógrafo paulista de passagem pela terra. Mas acabou não gostando. Foi obrigado a pagar, entre ameaças de prisão e troca de gentilezas de ambas as partes. Jogou tudo fora e se concentrou na tarefa de produzir, ele mesmo, com ajuda de alguns carpinteiros, o cenário. Como não queria cair no mesmo erro da cenografia, desenhou pessoalmente a roupa de cada personagem, acompanhando passo a passo sua confecção.

Mais alguns gastos com pequenos detalhes, e secou a mina. Teve de pedir emprestado a amigos para cobrir a sonoplastia, a iluminação, o frete do caminhão que traria a cenografia... Para pagar a chamada na TV, foi obrigado a recorrer a uma agiota com jeito vampiresco que fazia antever um futuro preocupante.

Finalmente chegou o dia da estréia. Após um ano de árduos ensaios, de noites sem sono, de aborrecimentos sem fim, havia afinal chegado o grande dia.

O teatro lotou. Todos estavam curiosos para ver como seria a grande obra do crítico. Tratava-se de um momento histórico.

Tocaram as três sinetas e Sérgio, que tinha reservado para si o papel de Auberon, entrou. Parou no foco e olhou para a platéia. Então uma revolução começou a acontecer dentro dele, a começar pelas pernas, que bambearam de todo. Ele abriu a boca, gaguejou as primeiras palavras do texto, piscou seis vezes e caiu para trás, completamente fulminado de medo.

Virou mártir. Os amigos inventaram a história de que ele havia tido um ataque cardíaco durante o espetáculo e escreveram nos jornais, louvando a bravura daquele grande herói cênico, e explicando sua contribuição para o teatro regional, nacional e (quem sabe?) internacional. Seu nome foi cantando como de um campeão de Olimpíada, analisaram as possíveis contribuições de seu legado, o apnhado kitch da cenografia, o surrealismo do figurino...

Sérgio, curiosamente, nunca mais pisou num palco. O mais perto que chegava deles era nos debates, aos quais voltou com fúria redobrada:

- Isso não é teatro!

O Jaguadarte, de Natália Muniz

 


Jaguardarte é um poema de Lewis Carroll publicado originalmente em 1871 no livro Alice no país das maravilhas. A amapaense Natália Muniz não só adaptou o poema para a realidade amazônica como transformou o relato em uma história em quadrinhos publicada em 2022.

Um exemplo de como ficou a versão da amapaense:

 

Mais um dia comum

Na aldeia dos encantados

Subaquática, submersa

Água para todos os lados

 

Na história, os encantandos do fundo de um rio sofrem o ataque de uma cobra grande. Mas uma garota resolve enfrentar a fera, sozinha, e o faz apenas com uma lança.

O traço é simples, mas eficiente e até charmoso e a narrativa é bem encadeada e desenvolvida. Numa época como a nossa, em que todos os novatos querem fazer megas sagas de centenas de páginas, Natália consegue contar toda uma jornada em apenas seis páginas.

A arte cinematográfica de Renato Casaro


Renato Casaro foi um dos mais importantes ilustradores de cartazes de filmes de todos os tempos. Ele nasceu em Treviso, na Itália, em 1935. Seu interesse por cartazes de filmes começou quando ele ainda era criança – ele ia todos os dias aos cinemas e pedia os posteres promocionais que tinham sido trocados por novos. Em casa ele reproduzia as imagens.

Aos 18 anos ele conseguiu emprego no Studio Favalli, um famoso estúdio de design e arte da indústria cinematográfica de Roma.  Aos 21 anos ele criou o seu próprio estúdio.

Um marco na carreira do ilustrador aconteceu em 1965, quando o produtor Dino De Laurentiis o contratou para ilustrar o cartaz de um filme bíblico. Seria o início de uma longa parceria que incluiria os filmes Conan, o bárbaro, Duna e Flash Gordon.

Outros filmes famosos cujos cartazes foram ilustrados por ele são Amadeus, História em fim e Rambo.

Renato Casaro também é cultuado pelos fãs da série de ficção científica Perry Rhodan, para o qual produziu uma das imagens mais icônicas do personagem.















Sombras do mal – um noir subestimado

 


Sombras do mal (Night and the City) é , provavelmente, o mais subestimado de todos os filmes noir. Lançado em 1950, foi dirigido por Jules Dassin numa época em que o diretor estava sendo perseguido pelo marcathismo e precisou se refugiar em Londres, razão pela qual a história é situada na capital inglesa.

A trama é centrada em Harry Fabian, um pequeno golpista que vive de conseguir clientes para uma boate. Fabian está sempre envolvido com esquemas para ficar rico, nos quais é sempre fracassado.


Como nos filmes expressionistas, o cenário é um elemento narrativo. 


A sequência inicial, com Fabian correndo pelas ruas de Londres com um homem (um dos sócios de suas empreitadas mal sucedidas) em seu elcalço representa algumas melhores qualidades do filme, além de resumir a a essência do mesmo. O clima é opressivo, denso. Dasin aprendeu todas as lições do expressionismo alemão e de Cidadão Kane e usa todos os truques com maestria: os cenários, o jogo de luz sombra. Tudo é muito bem elaborado para salientar o clima da história.

Na trama, Fabian finalmente descobriu o que parece ser o plano perfeito para controlar a luta livre em Londres e ficar rico. Mas, claro, tudo termina em desastre, no melhor estilo noir.

O filme faz ótimo uso da profundidade de campo. 


Há muitas sequências memoráveis num filme em que cada fotograma é uma obra de arte. Em uma delas, um personagem diz: “Você finalmente conseguiu o que queria Fabian, você finalmente ficou rico. Mas é um homem morto”. E o personagem que diz isso está na luz enquanto o protagonista aparece oprimido pela sombra.

A escolha de elenco é outro ponto forte.

Gene Tierney chama atenção pela beleza. 


Richard  encarna perfeitamente o trambiqueiro. Herbert Loon encarna com perfeição o mafioso grego de olhar frio. A belíssima Gene Tierney rouba a cena como a apaixonada namorada que não abandona Fabian nem mesmo nós momentos de maior desgraça. Aliás, o filme funcionou como uma terapia, já que ela sofria de depressão e o produtor temia que ela se suicidasse.

O fato do diretor ter entrado para a lista negra do marcathismo foi provavelmente a principal razão pela qual o filme fracassou na bilheteria e recebeu péssimas críticas. Com o tempo foi redescoberto pelos críticos, mas mesmo assim nunca alcançou o mesmo status de outras obras-primas do noir.

domingo, fevereiro 22, 2026

Roteiro de quadrinhos: o texto como caracterização dos personagens

 

Os diálogos ajudam a caracterizar os personagens. 


Antes de escrever seja um texto sobre ou uma fala de um personagem, é importante entender quem é ele. O diálogo do personagem é reflexo de sua personalidade, de sua história de vida, do ambiente em que foi criado. Dois exemplos extremos: o Hulk e o Thor têm falas completamente diferentes. A maneira como cada um se expressa nos diz muito sobre eles.

Antes de escrever para o personagem, é importante pensar quem é ele, quais são suas motivações, qual a sua história de vida, quantos anos ele tem, qual a sua profissão, se ele tem algum medo, se tem uma  história de vida que poderia ser lembrada nesse momento, se ele tem família, o que ele está sentindo ou pensando. 

Quanto mais detalhes tiver sobre o personagem, melhor conseguirá caracterizá-lo através da fala ou do texto. Mesmo para personagens secundários o ideal é ter uma noção de sua personalidade e sua história de vida. Algo inclusive que se pode fazer é colocar ganchos sobre esse histórico nos diálogos.

A série Exploradores do Desconhecido, com roteiro meu e arte de Jean Okada mostra exploradores espaciais, cada um com um poder ou habilidade especial, que acabam indo parar em outra realidade através de um salto quântico. Os personagens não são apresentados como detentores dessas habilidades. Elas são indicadas aos leitores através de pequenos ganchos nos diálogos, pequenos detalhes que irão contribuir para que o leitor, posteriormente aceite os poderes. Ou seja: os diálogos também pode ser elementos importantes no pacto de verossimilhança que se estabelece com o leitor.

Exploradores do Desconhecido: Os diálogos dão pistas sobre as características dos personagens.

Sobre o diálogo como característica da personalidade do personagem, observe esse diálogo do Rei na série a queda de Matt Murdock:

Faça o iate voltar a nova York. Localize todos que tocaram neste envelope... Ou que falaram com quem tocou... e aguarde a ordem para matar.

O texto é todo no imperativo, representando alguém que está acostumado a dar ordens e que não admite contestação. A fala também revela alguém objetivo, prático.

Os diálogos demonstram a nobreza do Surfista Prateado. 



Em contraste, observe esse diálogo do Surfista Prateado, na graphic novel Parábola, com roteiro de Stan Lee e arte de Moebius:

Se desistirmos da luta só porque as chances de vitória são pequenas, onde fica o nosso valor? Que nossa motivação seja sempre o que nos leva em frente, e não as chances de sucesso.

Essa fala nos revela um personagem filosófico, poético, mais preocupado com ideais do que com a praticidade da vida.

Veja agora a fala do Monstro do Pântano na fase escrita por Alan Moore:

Não, Arcane. Esta é a nossa primeira batalha... você e eu... nunca nos encontramos... e também nossa última. Você reclama... o planeta para si... Arcane. Mas sem ter... um décimo do poder da terra.

A primeira coisa que chama atenção são as reticências. Elas dão a ideia de alguém que fala de maneira arrastada,  como de fato falaria uma planta tentando se comunicar como humano. Apesar disso, o diálogo demonstra grande auto-confiança. Vale lembrar que nessa fase do personagem ele está descobrindo poderes que não sabia ter, como a capacidade de regenerar o próprio corpo e esse empoderamento do personagem se reflete em sua fala.

Monstro do Pântano: uma planta tentando falar como um humano. 



Aliás, uma forma ideal de escrever diálogos de um personagem é se imaginar sendo ele. Alan Moore conta que andava pela casa como um corcunda quando estava escrevendo as falas de Etrigan no Monstro do Pântano. O resultado foi isso:

A graciosa dama e seu monstro coberto de raízes chegaram para salvar os inocentes de tal crime e do medonho banquete macacal poupar os petizes. Que alma nobre a deles! Que arrojo sublime! E mirem as crianças, com tanto alarido, acordam seus guardiões, raça tão dedicada! Embora ele traia a esposa, e ela o marido, ambos só querem tirar a criança da enrascada.

O diálogo é escrito de forma a mostrar que se trata de alguém diverso dos seres humanos comuns (Etrigan faz parte do grupo de demônio rimadores) e extremamente cínico.

Os vilões, aliás, funcionam melhor quando são bem caracterizados. Ao criar o principal vilão do Capitão Gralha, o Doutor Destruição, imaginei-o como alguém muito letrado, mas enlouquecido. Mas o Doutor não o tipo vilão maluco, desvairado. Ao contrário, é alguém que a todo momento procura mostrar seu refinamento (ele é filho de uma família aristocrática). Devido a um trauma de infância, ele é fascinado pela letra D. Tudo isso se reflete nas falas do personagem:

Débil demagogo, seus desejos defenestraram!  Destruirei Curitiba e depois o mundo. E você descansará desolado a dez palmos sem poder desbaratar meus planos descontrolados!

Tarzan e Balu dos grandes macacos

 


Na fase de Joe Kubert à frente de Tarzan algumas histórias são singelas, mas se destacam principalmente pela narrativa visual e pela arte estupenda.

Exemplo disso é “Balu dos grandes macacos”, publicada no número 213 da revista.

A arte estupenda de Joe Kubert é o destaque da história. 


A história começa com o Homem-macaco voltando de uma caçada e encontrando um macaquinho (o Balu do título). Ele tenta se aproximar do bebê, mas é rechaçado pela mãe histérica e depois pelo pai. Na tentativa de não machucar o amigo, Tarzan o prende no alto de uma árvore e depois tem que evitar que ele seja molestado pelos outros macacos.

Kubert usa a narrativa paralela como elemento de suspense. 


A genialidade da história está no último quadro de cada página. Um quadro horizontal, mostrando dois olhos felinos observando os macacos. Kubert usa esses quadros para criar um clima de suspense, antecipando um perigo que vai eclodir lá na frente, quando o casal de panteras emerge da selva na tentativa de caçar o macaquinho.

No Brasil essa história foi publicada originalmente pela Ebal e depois pela Devir.

Thor contra o Gárgula Cinzento

 


A revista do Thor sempre oscilava entre a mitologia e os super-heróis. Kirby puxava para o mitológico, Stan Lee, como roteirista e editor, trazia para os super-heróis.

Em alguns casos essa tensão levava a resultados divertidos, como na edição de Journey in to Mystery 113.

A história começa com uma splash page grandiosa mostrando Thor e outros deuses nórdicos velejando pelo ar em um navio viking. A ilustração brincava com os sentidos do leitor, com um efeito Escher numa escada impossível na lateral da nave. O texto dizia: “Quando o imperioso Odin comanda, Thor tem que obedecer! Assim, nós o encontramos a bordo da gigantesca nau celeste asgardiana, integrando a legião dos deuses que enfrentará os guerreiros demoníacos de Jotunheim! Isso não tem muito a ver com a parte principal da história, mas você tem de admitir que é um começo para lá de espetacular!”.

Kirby era um especialista das splash pages grandiosas. 


Segue-se uma página com dois quadros igualmente monumentais (e igualmente repletos de elementos) de batalha. O texto metalinguístico de Lee diz: “Nós prometemos a Jack Kirby que ele poderia desenhar algumas dessas cenas de batalha de cair o queixo... então lá vai! Aproveite... pois não cobramos um centavo a mais por isso!”. O texto brincava com a tensão entre os elementos de super-herói e mitologia do título e, ao mesmo tempo, fazia um tremendo marketing do trabalho de Kirby.    

Ao publicar a história, a Ebal tirou do texto todas as referências metalinguísticas.


Terminada essa sequência, Thor volta para a terra, disposto a abdicar de sua condição de imortal em favor do amor pela enfermeira Jane Foster. Enfurecido com essa escolha, Odin retira dele seus poderes. Claro que um vilão iria aparecer exatamente nesse momento: o Gárgula Cinzento, capaz de transformar qualquer pessoa em pedra por uma hora.

O que se segue é uma comédia de erros: Don Blake conta que é o deus do trovão, bate o martelo e nada acontece. A enfermeira acha que ele está enlouquecendo. Logo depois surge o vilão querendo que lhe contem onde está Thor.

Um personagem com asas de pedra capaz de... voar? 


Enquanto persegue os dois, o vilão diz: “Esqueceram que as minhas asas de pedra me dão poder de vôo ilimitado?”. Será que sou só eu que acho estranho um personagem com asas de pedra ser capaz de... voar?

Como era de se esperar, Thor volta a ter seus poderes no momento certo e consegue derrotar o vilão.