segunda-feira, agosto 10, 2026

Livro A árvore das ideias marca 35 anos de carreira de Gian Danton

 

 

Em 2024 o roteirista de quadrinhos Gian Danton completou 35 anos na área de quadrinhos. Para marcar a data, a editora Marca de Fantasia lançou o livro e-book A árvore das ideais – memórias de um roteirista de quadrinhos.

O livro é uma junção de textos e quadrinhos autobiográficos e narra a trajetória do roteirista desde a infância até o momento atual, passando por sua parceria com Bené Nascimento, a criação do grupo Ponto de Fuga e até mesmo a produção literária. Também a atuação na área acadêmica é focada na obra, assim como a descoberta do diagnóstico de autismo.  

A obra traz, na parte visual, a colaboração de três dos principais parceiros de Gian Danton: Bené Nascimento (Joe Bennett) fez a ilustração da capa; Antonio Eder desenhou duas HQs e JJ Marreiro desenhou uma HQ e fez o design da capa. Edgar Franco, orientador de doutorado de Gian, assina o prefácio.

Entre as várias histórias contadas no livro estão os bastidores cômicos da criação da revista Manticore, o falso Gian Danton e o psicopata que fez com que o roteirista começasse a pesquisar sobre serial killers.

O livro tem 184 páginas e pode ser baixado gratuitamente no link https://www.marcadefantasia.com/livros/quiosque/a_arvore_das_ideias/a_arvore_das_ideias.htm.

Assassinato no Expresso do Oriente

 


A primeira vez que soube da famosa obra de Agatha Christie foi através de um tremendo spoiller. Eu liguei a TV e a parte final da adaptação cinematográfica de Sidney Lumet estava passando. Exatamente a parte em que Poirot desvenda o mistério do assassinato.
Dessa forma, demorei muito para me interessar em ler o livro. Afinal, em uma história policial, o mais importante é o desfecho. Se já conhecemos o final, o livro ainda pode trazer algum atrativo?
Para minha surpresa, sim. O assassinato no Expresso do Oriente é um tremendo livro, uma trama muito bem elaborada, com personagens marcantes e um mistério aparentemente indecifrável: um homem é assassinado em um trem e, embora haja muitas pistas, nenhuma delas parece solucionar o mistério.
O filme foi adaptado para o cinema três vezes, a primeira delas em 1974, por Sidney Lumet


Aliás, para mim, o interessante foi justamente identificar a forma genial como a autora planta pistas falsas ao longo da trama. Mais ainda: em certo ponto no final, a trama sofre uma reviravolta, uma revelação sobre cada um dos suspeitos que, ao invés de facilitar, torna ainda mais difícil destrinchar o mistério. Eu lia e pensava: que sacada!

Para quem não conhece o final, o livro deve ser ainda mais interessante. Um dos obrigatórios de Agatha Christie. 

Livro para baixar: 2021

 


A partir de sete ilustrações de Edgar Franco, sete contos de ficção científica de Edgar Smaniotto, Fábio Fernandes, Fabio Shiva, Gazy Andraus, Gian Danton, Nelson de Oliveira e Octavio Aragão. Os contos têm no máximo 2021 palavras, como referência ao ano de 2021, que para Edgar representa o tempo de um admirável ou abominável mundo novo, em que o velho "normal" segue incólume, em aceleração absoluta tornando-se HIPERNORMAL.

O livro está sendo disponibilizado gratuitamente. 

Para baixar o livro, clique aqui.  

Homem-aranha contra o sexteto sinistro

 

 Uma das fórmulas do sucesso da Marvel eram eletrizantes edições anuais com mais páginas e encontros de heróis e vilões. Um bom exemplo disso é a edição anual do Homem Aranha de 1964, publicada diversas vezes aqui no Brasil. 

Essa HQ reúne o melhor da dupla Lee Ditko. 
Na história, o Dr Octupous sequestra Betty Brant e a tia May e exige que o aracnídeo siga pistas para libertá-las. E cada pista está com um vilão.
Os principais vilões da série se unem para tentar derrotar o herói. 


Poucas vezes o texto descontraído de Lee se adaptou tão bem a um personagem e a narrativa gráfica de Ditko foi tão revolucionária. A ação ocorre em quadrinhos pequeno, apertados, que eclodem em Splash Pages grandiosas, uma para cada vilão. Na década de 90 houve uma banalização das Splash. Está história é um exemplo perfeito de como elas devem ser usadas e como elas podem valorizar a narrativa. 
Por outro lado, o texto de Lee valoriza o humor e a ironia, como a tia May encantada com o Dr Ocpotus e não percebendo o que está acontecendo

Surge Wolverine!

 


The Incredible Hulk 181 é uma das mais famosas edições do golias esmeralda. Não que a edição fosse uma obra-prima. A razão é que nessa edição surge um dos mutantes mais queridos de todos os tempos, Wolverine.

Nessa fase, o verdão era escrito por Len Wein e desenhado por Herb Trimpe. Wein tinha desenvolvido uma trama no Canadá, com um antagonista baseado na lenda de Wendigo.

No número 180 acompanhamos Marie Cartier, irmã do homem que se transformou em Wendigo graças a uma maldição. O plano da garota é transferir a maldição para o Hulk (sabe-se lá que tipo de criatura surgiria dessa mistura). Mas antes que a transformação seja completada, o governo canadense manda seu mais importante agente, o baixinho invocado Wolverine.

Já desde essa primeira aparição o personagem chamou atenção por ser abusado. Afinal, ele está enfrentando o personagem mais poderoso da Marvel, junto com outro ser igualmente forte,  e não titubeia: “Ei, monstrinhos... se vocês estão tão a fim de lutar com alguém... é melhor tentar a sorte com o Wolverine!”. 



Trimpe faz um uniforme que seria aproveitado quase que totalmente pelos artistas posteriores, exceto pela máscara, que perderia os bigodes e ficaria com um ar mais arrojado.

Wein, que escrevia muito bem em títulos de terror, parece não levar muito a sério a história. À certa altura, por exemplo, o carcaju pula sobre o Hulk, que reclama: “Bah! Homenzinho parece coelho pulando!”, ao que o outro responde: “Qualé, verdão... eu ficar parado? Eu a-do-ro pular, sabia?”.

Herb Trimpe divide opiniões. Alguns gostam de seu trabalho. Outros simplesmente odeiam e, de fato, embora fosse capaz de criar algumas sequencias interessantes (a capa da 181 é antológica), dificilmente ele poderia rivalizar com Sal Buscema, por exemplo.



O melhor momento da história, quando Wein revela o grande escritor que de fato era, é o final, quando o verdão consola Marie Cartier: “O Hulk é uma criatura simples... muita coisa ele não consegue entender... mas a mágoa e o desespero são sentimentos que ele conhece... e tenta consolar! Assim, eles ficam juntos. O monstro e a garota... ambos vítimas de circunstâncias que não podem controlar... e ambos terrivelmente sós!”.

Posteriormente, quando surgiu a ideia de reformular os X-men com personagens de diversos países, Len Wein lembrou do personagem secundário dessa história e resolveu colocar Wolverine no novo grupo. O resto é história.

Hulk – Nada de autógrafos

 


Embora fizesse boas histórias desde o início, a parceria Peter David e Dale Keown decolou mesmo com uma trama em duas partes publicadas em The incredible Hulk 374 e 375.

Na história, Rick Jones se tornou escritor e faz grande sucesso com um livro contando suas aventuras com diversos heróis da Marvel. Uma livraria de uma pequena cidade do interior o chama para fazer uma noite de autógrafos. Mas tudo é um plano do Super- skrull para aprisonar o rapaz, submetê-lo a uma lavagem cerebral e aproveitar um poder mental que ele supostamente teria. Claro que Bruce Banner e Betty Ross vão em seu socorro e junto com eles o Hulk cinza.

Há vários momentos memoráveis na história, que demonstram a capacidade de David de trabalhar uma trama psicológica de maneira leve, fazendo com que a leitura fique extremamente fluída.

Rick Jones foi o ajudante mirim de vários heróis da Marvel. 


À certa altura, por exemplo, Rick Jones é confrontado com o Hulk, Capitão Marvel, Rom e Capitão América (na verdade, skrulls metamorfoseados). Rick Jones fez parceria com cada um deles em algum momento de sua vida, o que o transforma no parceiro mirim coringa da Marvel – toda vez que alguém precisava de um sidekick, tiravam Rick Jones da cartola. David aproveita bem essa deixa para elaborar uma cena de tortura psicológica.

Peter David também é um mestres do humor irônico e usa muito bem isso na história, como num momento em que Jones está sendo perseguido por um skrull alado e este diz que será impossível escapar, pois ele conhece a nave como a palma de sua mão – em seguida se estatela contra uma coluna. 

Dale Keown aprendeu rapidamente a desenhar mulheres. 


O estilo de Dale Keown encaixa muito bem nessas cenas, embora ele não faça feio nas cenas de ação. mas o que realmente chama atenção é que nessa história parece que, do nada, ele aprendeu a desenhar mulheres. Até a história anterior, todas as mulheres mostradas eram só ok. Aqui Beth Ross ganha um visual realmente encantandor. E quando aparece Marlo Chamdler, namorada de Rick Jones, ela é simplesmente deslumbrante.

Pssica – triller de suspense nas águas da Amazônia

 


A mais nova sensação da Netflix é a minissérie Pssica, dirigida por Quico Meirelles, filho de Fernando Meirelles (que chega a dirigir um capítulo).

Baseado no romance homônimo de Edyr Augusto, a atração acompanha Janalice (Domithila Cattete), uma garota sequestrada por uma rede de tráfico humano e sua tentativa de escapar do seu destino. Em narrativas paralelas temos Preá (Lucas Galvino), filho do líder de uma gangue de ratos d´água (piratas fluviais que roubam barcos na Amazônia) e Mariangel (Marleyda Soto), uma ex-guerrilheira cuja família foi morta e busca vingança.  O destino dos três vai se entrelaçar ao longo da trama.

O que chama atenção em Pssica é o ritmo frenético da direção e do roteiro, com as ações se acumulado e se sucedendo rapidamente a ponto de não deixar o expectador respirar.

A minissérie é baseada no livro homônimo do escritor paraense Edy Augusto cuja escrita se caracteriza pelas frases curtas. O diretor emula isso tanto nas cenas e nos cortes rápidos quanto na introdução de cartelas, com frases do livro.

A minissérie tem elenco de atores e atrizes nortistas e nordestinos, a maioria dos quais desconhecida do grande público. Apesar de alguns erros geográficos, como mostrar Breves como se fosse Soure (a terra dos búfalos), Pssica reproduz com perfeição o cenário amazônico com destaque para as cenas eletrizantes nos rios, com aquelas em que os ratos d´água cruzam os rios em jet skis que não deixam nada a dever às melhores cenas de perseguição de carros de Hollywood.

Apesar de todas as qualidades, a série tem algo de lamentável: mais uma vez a Amazônia sendo mostrada sob o olhar de um diretor e uma equipe vinda toda de fora. Já é mais do que tempo da região norte começar a ser mostrada sob o olhar dos amazônidas. Nitidamente o diretor queria mostrar tudo que pudesse do norte, mas como não é do norte isso  o levou a criar cenas improváveis, como personagens subindo no pé do açaí para se esconder durante horas ou outra personagem comendo açaí na rua, como se fosse um lanche do meio da manhã. 

Outro aspecto que me incomodou foi a imagem estigmatizada da Amazônia como um local apenas violento. 

Em tempo: Pssica, na linguagem nortista, é um tipo de maldição. Jogar pssica sobre alguém significa desejar azar para ela.

A margem negra

 

Em 1989 eu era estudante de comunicação na Universidade Federal do Pará e procurava material para um trabalho sobre história em quadrinhos. Iríamos apresentar um seminário sobre meios de comunicação e o professor responsabilizara meu grupo para falar sobre HQs. Isso seria impensável em qualquer época que não fosse o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990. Antigamente por conta do enorme preconceito e atualmente porque os quadrinhos se tornaram um nicho, com baixas tiragens e vendas segmentadas. Mas na época todo mundo lia quadrinhos. Séries como V de Vingança eram lidas mensalmente e comentadas nos corredores da universidade da mesma forma como hoje se discute séries de grande impacto, como Guerra dos Tronos.

Todo mundo estava falando de quadrinhos, mas precisávamos de algo diferente para a apresentação. Foi quando alguém me disse que no bloco de Artes, ao lado do nosso, havia um rapaz, Bené Nascimento, que trabalhava profissionalmente como desenhista, publicando em editoras de São Paulo. Um paraense fazendo quadrinhos era a novidade das novidades na época e fiz questão de entrevistá-lo. A entrevista, que deveria durar meia-hora, durou a tarde inteira (e os dois perdendo aula, claro) e, no final, um convite de Bené: que tal fazer um fanzine de quadrinhos? Assim surgiu "Crash!", o primeiro fanzine paraense dedicado exclusivamente aos quadrinhos.

Estávamos na produção do segundo número quando Bené chegou com os originais de uma belíssima história, toda arte-finalizada com pincel. Desenhada no estilo Hall Foster (autor do Príncipe Valente) a HQ mostrava um cavaleiro medieval livrando uma floresta de um demônio.

- Gostou? - perguntou Bené.

- Claro.

- Quer colocar o texto?

Aceitei na hora. "Floresta Negra" foi o primeiro roteiro que escrevi, um caminho bastante curioso, já que não era de fato um roteiro. Foi também o primeiro roteiro publicado, na saudosa revista Calafrio.

A partir dali surgiu uma parceria que se estenderia por vários anos e mexeria com o jeito como se fazia quadrinhos de terror no Brasil.

O quadrinho de terror ganhou grande força no Brasil na década de 1960, quando os gibis da editora EC Comics foram proibidos nos EUA. As revistas que publicavam essas histórias tinham grande público aqui e não havia mais material inédito. A solução foi recorrer aos quadrinistas brasileiros e assim surgiu a era de ouro do terror nacional.

Mas a estrutura narrativa daquela época se tornou uma espécie de camisa de força para os artistas. Tirando alguns quadrinistas mais renomados mais renomados, como Mozart Couto, a maioria seguia os cânones do terror década de 60 que tinha inclusive algumas histórias básicas, como da pessoa má que apronta todas as malvadezas possíveis durante toda a HQ e no final os mortos voltam para se vingar. 


O quadrinho que fazíamos era bem diferente disso. Influenciados por séries como Sandman, Monstro do Pântano e Hellblazer (John Constantine) e autores como Alan Moore e Neil Gaiman, fazíamos um terror pesado. Bené caprichava nas vísceras e, da parte do roteiro, os personagens eram sempre perseguidos por traumas e pavores. Ou seja: era uma mistura de terror trash com horror psicológico. Em uma das histórias, por exemplo (uma adaptação do conto "O nariz", de Gógol), um personagem capaz de despertar os maiores medos das pessoas próximas entra num hospício e ocasiona um surto de pavores secretos.

Essa abordagem visceral inicialmente não agradou os editores da época. A história "Puritano", por exemplo, está até hoje inédita: foi recusada por todos os editores da época, talvez por envolver questões religiosas. Uma das histórias, "Noir", só foi publicada porque a assistente de edição levou o original para o dono da editora e insistiu que saísse na revista. 


Mas com o tempo fomos ganhando público. Uma editora chegou até mesmo a encomendar uma revista com histórias nossas e de quadrinistas que tinham um estilo semelhante. Levamos semanas para conseguir reunir o material para fazer uma boneca (para que não é do meio editorial, boneca é uma prévia de como irá ficar a revista). Não aconteceu por causa da incapacidade de Bené de dizer não: um primo o visitou e pediu a boneca emprestada, levou para casa e... perdeu no ônibus!

A maioria das revistas nas quais publicávamos eram vendidas ensacadas, o que nos criava um problema. Não havia o costume atual de indicar na capa as histórias e os autores, de modo que nunca sabíamos se a revista tinha história nossa ou não. Assim, tivemos a ideia de colocar uma margem negra nas páginas. Isso permitia pudéssemos perceber se havia histórias nossas sem nem mesmo abrir o volume. Inadvertidamente isso se tornou uma estratégia de marketing: os fãs da dupla passaram a também procurar as margens negras nas revistas. 

domingo, agosto 09, 2026

X-men – Wolverine à solta

 


Quando tornou-se co-roteirista dos X-men, John  Byrne começou a dar protagonismo ao Wolverine. A razão é que o desenhista queria chamar atenção para um herói canadense como ele. Mas esse processo logo transformaria o baixinho em um dos personagens mais populares da Marvel.

Em nenhum outro momento o protagonismo do herói foi tão relevante quanto em The Uncanny X-men 133. Na história anterior, todos os X-men tinha sido facilmente derrotados e aprisionados pelo círculo interno do Clube do Inferno, com excessão de Wolverine, que foi jogado no esgoto.



A revista começa exatamente com os capangas do Clube no subsolo do local, procurando pelo Carcaju enquanto ele se equilibra acima deles, no teto. Sem dúvida, uma das cenas mais célebres dos X-men de todos os tempos, assim como toda a sequência seguinte.

Wolverine salta do teto e enfrenta os capangas. No final sobra apenas um. Wolverine se mostra em toda a sua essência, numa perfeita demonstração de como o texto de Claremont encaixava perfeitamente nas imagens criadas por Byrne: “Sei o que está pensando, xará. Ele tá ferido, a cinco metros de distância e meu fuzil está carregado. A pergunta é: eu consigo matar o Wolverine antes que dele me alcançar e me fatiar como um sushi com aquelas garras?”. No final, o homem, apavorado, joga sua arma no chão e se entrega.



Só essa sequencia já valeria a história, mas há duas outras, igualmente antológicas.

Na primeira, a Rainha Negra trata Ororo como escrava, revelando como o lado sombrio se apossara dela.



Na segunda, Ciclope tenta entrar em contato com Jean usando o elo mental que existia entre eles. Byrne desenha a sequência sem cenários, com um fundo branco. Em contraste com as outras cenas, repletas de cenários, fica claro que aquela sequência se desenrola num espaço mental. E é nesse ambiente que Cíclope é derrotado e morto pelo Mestre Mental em um duelo de espadas.

Coração de ferro

 


Há uma quantidade enorme de filmes sobre a II Guerra Mundial, com as mais diversas abordagens. Mas um tema pouco abordado são os tanques. Eles foram essenciais na guerra, mas na maioria das películas aparecem pilotados por nazistas, como em Resgate do Soldado Ryan.

Assim, Coração de Ferro, filme de David Ayer disponibilizado no Brasil pela Netflix se destaca por ter como protagonistas a tripulação de um tanque norte-americano apelidado de Fury.

A história acompanha o sargento linha dura Don "Wardaddy" Collier (Brad Pitt) e sua equipe realizando operações dentro da Alemanha Nazista na fase final da guerra, quando os aliados estavam encurralando as tropas alemães dentro de seu próprio território. É também um período em que os alemães resisitiram obstinadamente, recrutando até mesmo crianças (em uma das sequências, jovens que se recusaram a lutar são enforcados pelos nazistas e pendurados com placas de traidores).

À certa altura, o tanque é avariado e a equipe precisa, sozinha, impedir o avanço de todo um regimento da SS numa verdadeira missão suicida.

A película se destaca pela preocupação com os detalhes históricos, inclusive com uso de tanques que são, de fato remanescentes da II Guerra. Os atores também foram treinados em regime militar, passando noites acordados, molhados e com sono.

Além disso, é interessante o tom realista, com insinuações até mesmo de estupros por parte dos soldados e buylling por parte dos veteranos com o novato Norman "Machine" Ellison.

Mas talvez o que mais chame a atenção seja a atuação de Brad Pitt. Impressionante como ele evoluiu como ator desde seus primeiros trabalhos e aqui ele consegue um perfeito equilíbrio entre o linha-dura grosseirão e até mesmo abusivo e o líder que todos seguem.

O resultado disso é um filme de ação eletrizante que não fica nada a dever a clássicos do gênero.  

Histórias da dupla Gian-Bené: passando vergonha no jornal

 


De vez em quando, no auge da produção de quadrinhos da dupla Gian-Bené, alguém nos procurava para fazer matérias de jornais. Era sempre uma roubada. A maioria dos jornalistas não sabia nada sobre HQs além da Turma da Mônica, mas uma das jornalistas que nos entrevistou, na casa do Bené na cidade nova, ganhou todos os recordes.
A moça não conhecia nada de nosso trabalho e sua primeira pergunta foi:
- Então vocês fazem bonequinhos?
- Não, nós não fazemos bonequinhos.
- Não estou entendendo nada. Na pauta diz que vocês fazem quadrinhos!
Por mais que tentássemos explicar, ela não conseguia entender que existiam quadrinhos que não era para crianças. E ela ficava voltando para a primeira pergunta:
- Então vocês fazem bonequinhos?
Se o texto não era dos melhores, a fotografia também não ajudava.  Bené, usava uma camiseta extremamente apertada, especialmente se considerarmos que sempre foi musculoso e eu, magrelo, usava uma camisa super-folgada. Dava a impressão de que tínhamos trocado de roupa um com o outro na hora da foto, ou que o defunto era menor, ou maior, de acordo com o caso. Ao menos aparecíamos sorrindo e folheando nossos quadrinhos.
Em outra matéria fomos entrevistados na própria sede do jornal. Na época, o conceito de foto para caderno de cultura era fotografar os entrevistados com o olhar mais assustado possível – exatamente como se fazia nas matérias policiais. Éramos a perfeita ilustração de dois malacos fugitivos finalmente aprisionados pela polícia.

Quarteto Fantástico contra o Pensador Louco

 


Hoje em dia é muito óbvio que boa parte das histórias do Quarteto Fantástico eram baseadas em imagens. Exemplo disso pode ser vista no número 15. É possível imaginar que Jack Kirby tenha feito uma ilustração copiando a estátua O pensador, de Rodin, e Stan Lee tenha bolado uma história a partir dessa imagem. A referência é tão óbvia que o personagem, ao longo da história reproduz diversas vezes a pose da estátua de Rodin, com o queixo apoiado na mão.

Na trama, surge em Nova York um vilão cuja inteligência, aliada a um super-computador, faz com que ele consiga prever eventos futuros. “Posso prever tudo que irá acontecer até a última fração de segundo!”, se vangloria ele.

O  vilão nitidamente foi baseado na estátua O pensador, de Rodin. 


Não sei se Stan Lee conhecia o célebre cientista francês, mas nitidamente o vilão reproduz a ideia por trás do Demônio de Laplace. Laplace acreditava que tudo era previsível, determinado. Sendo assim, se uma determinada entidade conhecesse a velocidade e posição de todas as partículas do universo e fosse capaz de realizar todos os cálculos necessários, poderia ter acesso a tudo que já aconteceu, está acontecendo e vai acontecer.

O pensador Louco é exatamente isso. Ele usa os fatos e sua previsibilidade para tirar os membros do quarteto de Nova York e, assim, invadir o prédio do grupo e se apossar de todas as suas maravilhas tecnológicas.

O Pensador Louco consegue prever tudo que vai acontecer. 


Seu plano perfeito, não fosse por um defeito. Ele não contou com a único coisa imponderável, improvisivel, segundo Stan Lee: o ser humano.

Hoje em dia a Teoria do caos demonstrou que há muitos outros fenômenos que são imprevisíveis, mas, considerando a época em que foi escrita, ela era um grande avanço ao que se pensava sobre a natureza e sobre o mundo.

Ele usa essa habilidade para conquistar o edifício Baxter. 


Stan Lee e Jack Kirby poderiam ter apenas o objetivo de fazer um gibi para entreter a garotada, mas muitas vezes, no processo, acabavam acertando em questões filosóficas e científias intrigantes.  

Mano Juan, de Marcos Rey

 

Mano Juan é um lançamento da Global, editora que está publicando as obras completas de Marcos Rey. O livro, escrito na década de 1970 e lançado após a morte do autor, conta a história de um guerrilheiro ferido que chega a são Paulo e, sem ter a quem recorrer, procura um jornalista que escrevera diversos artigos sobre ele. Mas é a época da ditadura militar e o repórter teme se comprometer. Além disso, Dalila, uma atriz de pornochanchadas pela qual se apaixonara, lhe prometera para aquele dia uma noite de amor em troca da publicação de suas fotos no jornal. 
Marcos Rey é um dos grandes roteiristas de cinema do Brasil, tendo escrito diversas pornochanchadas e novelas (experiência que ele conta nos livros O roteirista profissional: televisão e cinema e Esta noite ou nunca. Esse olhar cinematográfico permeia a maior parte de sua obra, inclusive a juvenil, como O Mistério do Cinco Estrelas e O Rapto do Garoto de Ouro, mas é ainda mais visível em Mano Juan. O capítulo de abertura do livro é uma boa amostra desse tino visual: construído emtakes, mostra a chegada de um guerrilheiro a São Paulo e a balbúrdia da rodoviária num feriado prolongado:

"Como era sexta-feira da Paixão parte da população da cidade batia asas. São Paulo, parcialmente deserta, transformava-se numa amplo parque ideal ao adestramento de motoristas de carta nova. (...) O número de mulheres e crianças, superior ao de homens, contribuía para intensificar a irritante sonorização do ambiente, apenas dominada pela voz de uma locutora que anunciava a partida dos ônibus numa robotizada emissão vocal (...) O tumulto maior e mais angustiante concentrava-se nas escadas, a de degraus e a rolante, onde acontecia um massacre de proporções razoáveis. Inúmeros balcões e guichês de transportadoras informavam por escrito: 'Não há mais passagens' (...) Uma mulher grávida, segurando uma criança em cada mão, parecia ter perdido o marido e chorava, um grupo de cabeludos ameaçava destruir um dos balcões de passagens, um estrangeirão, loiro, tentava fazer-se entender".

A história toda parece ter sido escrita como um roteiro de cinema, inclusive com flash backs e e referências diretas a filmes em trechos como: "Batista diante daquela bem-rodada cena do cinema nacional, ficou cabreiro e começou a lançar olhares de pesquisa ao redor", "os seios, que só vira em filmes pornô, saltaram como molas, pagando na boca do caixa o trabalho das fotografias". 

Marcos Rey constrói a trama como um thriller de humor com personagens marcantes: o guerrilheiro saudoso da infância, o jornalista que o tempo todo divide o pensamento entre o medo de ser preso e a possibilidade de conseguir, finalmente, levar a atriz para a cama; a atriz de pornochanchadas que se deslumbra com a possibilidade de fama, mas se apaixona pelo guerrilheiro; o líder sindical que é respeitado pelos trabalhadores, mas em casa é tiranizado pela mulher... O autor apresenta uma verdadeira fauna de tipos que vão desfilando diante do leitor num verdadeiro plano sequência que vai das 19h10 da sexta às 4h05 da madrugada de sábado. 

O livro tem gosto da década de 1970 em que a tensão provocada pela ditadura militar se misturava à revolução sexual, à moda hippie de vestir e à profusão de gírias. Expressões como "cana brava", "manjo seu truque, malandro", "a velha teve outro balacobaco" ajudam a dar o clima do momento histórico.

Mano Juan foi escrito em 1978, mas permaneceu inédito até 2005. Em 2003, quando a Global negociou com a viúva Palma Donato a publicação de toda a obra de Rey, ficou acertado que, além dos títulos já publicados, a editora teria prioridade sobre esse inédito. Cumprindo o acordo, a viúva entregou à editora os originais datilografados. 

A Global fez um verdadeiro trabalho de fã, com uma edição belíssima, que segue o padrão das outras obras da coleção Marcos Rey, uma sugestiva capa Victor Burton, com imagens que simbolizam bem a trama, como uma loira, um revólver, uma garrafa de uísque e um botton de Che Guevara. Além disso, incluiu uma apresentação de Ignácio de Loyola Brandão, que acertadamente escreve: "Ele (Marcos Rey) foi um homem desprezado pela crítica, mas lentamente começa a ser reavaliado, revisado e sua obra reciclada. Era um narrador sutil e fino, e a prova está em cada página deste livro que inclusive é permeado pela mais intensa ironia, pelo sarcasmo. Quem nunca leu Marcos Rey pode começar por este Mano Juan". Bom conselho. 

Fundo do baú - Smurfs

 


Os Smurfs são uma criação do quadrinista francês Peyo. A ideia surgiu durante um jantar com o amigo e também quadrinista André Franquin. Peyo que já tinha bebido um pouco de vinho, queria pedir sal, mas o que acabou saindo foi Schtroump. O amigo respondeu: "Bem, aqui está seu schtroumpf e quando acabar de schtroumpfar, schtroumpfe de volta".

Peyo gostou da brincadeira e resolveu aproveitar na série sobre a Idade Média que fazia na época. Assim, ele introduziu um grupo de duendes azuis chamados Schtroumpfs que falavam de um modo estranho. Esses personagens que deveriam aparecer em uma única história fizeram tanto sucesso que tomaram conta da série.

Quando um produtor comprou os direitos dos para os EUA, o nome foi trocado por algo mais fácil de ser pronunciado: os Smurfs. Em 1981 os personagens já faziam tanto sucesso mundo afora que foi criado um desenho animado, uma produção da Hanna-Barbera, que se transformou numa febre. Foram 256 episódios, fora os especiais. Mais recentemente, os personagens também ganharam filmes com animação em 3D.