terça-feira, outubro 27, 2026

Mestre do Kung Fu contra Mordillo

 

Uma série longeva como Mestre do Kung Fu não poderia se ancorar indefinidamente apenas nos embates contra Fu Manchu — as primeiras histórias da revista demonstraram o quanto essa dinâmica poderia se tornar tediosa. Desse modo, era imperativo criar adversários que estivessem à altura do herói. Um dos mais emblemáticos foi Mordillo, antagonista que surgiu na edição #33, em uma saga que se estendeu até o número #35 da publicação norte-americana.

Essa saga marca a introdução de Leiko Wu, que viria a se tornar uma personagem fundamental e o grande interesse romântico na mitologia da série. Na trama, ela é hipnotizada para memorizar o segredo de uma arma letal, um dispositivo capaz de abrir fendas na camada de ozônio e canalizar raios ultravioletas para destruir localizaciones geográficas específicas. Contudo, essa mesma programação mental fez com que ela esquecesse os dados estratégicos, e a única pessoa que detinha a chave psicológica para resgatar tal lembrança acabou sendo morta.

Em sua primeira aparição, Leiko é sequestrada pelo vilão Mordillo. 


Leiko é então sequestrada por um agente infiltrado, Simon Bretnor, que havia se aproximado dela fingindo ser seu namorado. Bretnor, na verdade, é ninguém menos que o próprio Mordillo, um vilão especializado em robótica que construiu uma base em uma ilha isolada nos moldes de um parque temático maluco. O cenário surrealista inclui um domo geodésico, um castelo medieval, uma pirâmide e até um sapato gigante, sendo inteiramente povoado por autômatos que imitam atrações de parque de diversões, como um trenzinho dotado de um rosto humano estilizado e sorridente.

A história tinha tanto texto que não parecia sobrar espaço para o dessenho. 


A ilha de Mordillo, palco onde se desenrola a narrativa, constitui um dos pontos altos de criatividade do roteirista Doug Moench, com especial destaque para o robô Brynocki, cujas feições caricatas lembram um boneco de desenho animado clássico e que profere tiradas bizarras como:

“Sabe o que é, chefia? Eu estava andando pela praia quando te vi entranhado com a mocinha aqui e achei melhor laçar a bezerra e te dar uma mão”.

O desenho de Gulacy parece vazio em alguns quadros. 


Apesar da excelente premissa conceitual e de algumas sequências de ação empolgantes, o resultado final do arco fica um pouco aquém do esperado. O desenhista Paul Gulacy ainda estava em fase de testes com o seu traço e sofria visivelmente para compor imagens de escala grandiosa — como na primeira aparição da ilha, cujos cenários pareciam excessivamente vazios e planos.

Brynocki chama atenção desde sua primeira aparição. 


Por outro lado, o roteiro mostrava-se um tanto capenga, exibindo furos consideráveis de desenvolvimento. A revelação da traição de Simon Bretnor/Mordillo simplesmente não impacta o leitor, pois o personagem já é apresentado desde o primeiro instante sob uma aura suspeita e vilanesca. Um Moench mais maduro saberia introduzir o coadjuvante gradualmente, preparando o público com ganchos sutis antes da grande revelação de que se tratava de um espião inimigo. O mesmo problema de construção afeta Leiko Wu, que carecia de um background mais elaborado para que seu envolvimento emocional com Bretnor fizesse real sentido narrativo.

A vilã Pavane reaparece, mas não faz quase nada. 


Além disso, Moench parecia acreditar que o melhor texto é o texto excessivo. Em algumas sequências, o diálogo é tão carregado que os personagens parecem se espremer no canto dos quadros.

As motivações do vilão também revelam-se consideravelmente fracas. Mordillo ambiciona apenas obter a quantia de um milhão de dólares e, no processo de chantagem global, decide de forma inconsequente destruir até mesmo a sua amada ilha repleta de autômatos.

Brynocki protagoniza a cena mais tocante da história. 


O ponto alto e verdadeiramente memorável da história, no fundo, reside na figura trágica e cômica do robô Brynocki. A cena final, que mostra a criatura abraçada ao esqueleto inerte do vilão prometendo nunca abandoná-lo, consegue ser genuinamente tocante. Brynocki demonstrou tanto carisma que, futuramente, viria a ser resgatado e reaproveitado por Doug Moench em outra trama memorável.

segunda-feira, outubro 26, 2026

Hulk – O terror dos homens sapos

 


Nas primeiras histórias, o Hulk era muito diferente do personagem que todos nós conhecemos. Para começar, na primeira história, o personagem era cinza. Só na segunda edição é que apareceu o verde, mas um verde tímido, muito diferente do golias esmeralda que conhecemos hoje.

Mas o tom das histórias e a personalidade do verdão também eram muito diferentes.

Para começar, havia um clima das histórias de terror da Marvel da década de 50. A segunda edição começa com o Hulk saindo do pântano, como um monstro ameaçador e invadindo uma cidade com um... pedaço de pau! O texto dizia: “Tal qual um monstro selvagem e devastador saído de algum insano mundo abissal, a aterrorizante figura do Hulk emerge repentinamente das lamacentas águas do pântano”. Parecia uma história de terror.

As primeiras histórias tinham clima de terror. 


Só a aparição de Rick Jones impede que o “monstro” destrua a cidade.

Como na época não havia enrolação, tudo acontecia muito rápido. Logo uma raça de homens-sapos resolve invadir a terra e para isso sequestram o maior cientista do planeta... justamente Bruce Banner. Quando anoitece, este se transforma no Hulk e bota o terror na nave (naquela época, Banner se transformava durante as noites).

O golias esmeralda chega a usar uma das armas dos alienígenas contra eles mesmos, enquanto pensa: “Essas armas... perto delas, as nossas parecem estilingues!”. Quem poderia imaginar o Hulk que todos conhecemos usando uma arma e tendo pensamentos como esses? Mas à frente, ele afirma que vai pegar Betty Ross como... refém!

Hulk usando armas e dizendo frases inteligentes? Será que errei de revista? 


A razão disso é que nessa época o personagem era muito baseado na fera do livro O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, sendo muito mais cruel do que embrutecido.

Uma curiosidade: O roteiro era de Stan Lee e os desenhos de Jack Kirby, a dupla de ouro da Marvel, mas a arte-final dessa história contava com três nomes, que dão aspectos completamente diferentes para a arte: Steve Ditko, Dick Ayers, Paul Reinman. Ditko, que tinha um estilo muito pessoal, é perfeitamente reconhecível.

Na terra dos pinhões

 


Eu fui para Curitiba de ônibus, em maio de 1994, levando tudo que podia em uma enorme caixa de papelão que pesava mais do que eu. Ia ali dentro livros, quadrinhos e minha máquina de escrever Remington.

Quando paramos pela primeira vez no Paraná fiz questão de descer e ver os jornais, que ficavam presos em varais ao lado de uma banca de revistas. Fui andando pelos jornais, até parar na frente da Folha de Londrina. Era como se eu pudesse ouvir alguém me dizendo: “Você vai trabalhar nesse jornal”.

Folha de Londrina foi um dos últimos jornais que visitei, pois ficava afastado, no Centro Cívico de Curitiba e eu tive dificuldade de descobrir como se chegava lá. Fui com uma pasta debaixo do braço, com todas as matérias que eu tinha publicado nos jornais de Belém.

Tempos depois eu descobri que fui atendido porque o editor ficou curioso com a minha audácia.

Ao ser informado pela secretária que alguém queria falar com ele, o editor retrucou que estava muito ocupado.

- Pergunte da parte de quem.

Poucos minutos depois a secretária voltou.

- Perguntou da parte de quem?

- Sim, ele disse que da parte dele mesmo.

A resposta foi tão ousada e inusitada que ele resolveu conhecer o engraçadinho. Coincidentemente, eles estavam de fato precisando de jornalistas para a filial de Curitiba.

Apesar de ser um jornal de interior, a Folha de Londrina era um jornal descolado, principalmente se comparado ao jornal da capital, a Gazeta do Povo, até hoje um jornal ultra-conservador. Esse conservadorismo da Gazeta se refletia até mesmo na diagramação pesada e nos textos com parágrafos grandes, pesados. Ao contrário, a Folha de Londrina era um jornal leve, divertido, com uma diagramação bonita, textos menores, parágrafos curtos. Para melhorar, a Folha anunciava na rádio que ouvia, uma rádio rock e seu slogan brincava com o fato de não ser um jornal de Curitiba: “Porque inteligência é capital”.

O editor resolveu fazer um teste comigo e o teste foi exatamente fazer uma matéria sobre um grupo de quadrinistas que estava surgindo em Curitiba e fazendo sua primeira exposição. Era o Núcleo de Quadrinhos de Curitiba.

(Trecho do meu livro A árvore das ideias. Clique aqui para baixar gratuitamente. 

Os sete samurais

 



Se existe um filme que é perfeito do primeiro ao último take este filme é Os sete samurais, de Akira Korosawa.

Lançado em 1954, o filme conta a história de um vilarejo assolado por bandidos, que roubam toda a colheita de arroz. Cansados da situação eles resolvem procurar samurais que possam ajudá-los em troca apenas de três refeições de arroz por dia, o que parece impossível, já que a maioria dos ronins considera a proposta ultrajante.

O filme é nitidamente dividido em três atos: a procura dos samurais, a preparação para o confronto com os bandidos e a guerra em si. Cada um deles tem seu encanto.

Talvez o momento mais impressionante do primeiro ato seja a descoberta de Kambei Shimada, o sábio e experiente samurai que será responsável por recrutar a maior parte dos outros. Um bandido se escondeu em uma casa e tomou uma criança como refém. Ele não deixa que ninguém se aproxime e ameaça matar a criança. Fingindo ser um monge budista oferecendo comida, Kambei consegue entrar na casa, salvar a criança e matar o bandido com a própria espada desse. A sequência inteira é impressionante e mostra como Kurossawa conseguia dar uma impressão de ação única usando praticamente nenhum recurso além da câmera lenta.



Outro momento de destaque é Kyūzō, visto em um duelo no qual mata seu arrogante oponente. O sangue frio e o hiper-foco se destacam aqui, com o samurai eliminando o adversário com um único golpe.

Ao grupo se junta um jovem nobre que pretende se tornar um samurai e ser discípulo de Kambei.

Outra adição é Kikuchiyo, talvez a figura mais carismática do filme.

Kikuchiyo  é um falastrão, que se apresenta como samurai, mas provoca risos quando descobrem que o documento apresentado por ele é de uma criança. Além disso, seu jeito estabanado é o oposto do contido Kyūzō. O grupo inclusive o rejeita em um primeiro momento.

Quando os sete samurais chegam ao vilarejo e todos estão escondidos em suas casa, é que Kikuchiyo mostra seu valor ao tocar o sino que avisa sobre a chegada dos bandidos.



É esse grupo muito diverso e até de certa forma disfuncional que irá defender a aldeia e salvar os lavradores.

Conta-se que Koroswa e os roteiristas Shinobu Hashimoto e Hideo Oguni escreveram a biografia de cada um dos personagens principais, o que de fato aparece na história. O expectador vai aos poucos conhecendo cada um dos samurais (e alguns dos aldeões) e se afeiçando a eles.

O ato da batalha si em faria cada um dos roteiristas de GOT querer se enterrar de vergonha. São 40 bandidos contra apenas sete samurais, mas  Kambei Shimada usa toda as possiblidades a seu favor. Quando um dos samurais pergunta porque ele deixou uma brecha por onde os bandidos poderiam entrar, ele responde que toda boa fortaleza tem um ponto fraco que funciona como isca para os atacantes. Usando da estratégia, eles vão eliminando os bandidos um a um.

Bom desenvolvimento de personagens, ótimas cenas de ação, uma trama realmente envolvente somam-se ao apuro estético de Kurossawa, de modo que cada frame tem uma composição perfeita, como se fossse um quadro.

Os sete samurais é, provavelmente, um dos filmes mais adaptados de todos os tempos. A primeira adaptação foi o faroeste Sete homens e um destino, dirigido por John Sturges e lançado em 1960, mas há uma infinidade de outros, incluindo a animação Vida de Inseto.

Perry Rhodan – O planeta louco

 



O planeta louco, volume 37 da série Perry Rhodan, é um daqueles títulos bizarros que acabam fazendo sentido conforme avançamos na leitura. 

Na história os saltadores enviam os superpesados para recuperar uma gigantesca nave que está sendo construída no planeta Goszul. No número anterior, os mutantes haviam convencido os comerciantes estelares de que o planeta havia sido dominado por uma epidemia que provocava perca de memória. Os mesmos fogem desesperados com medo de serem infectados, mas decidem que não é possível deixar para traz a mais poderosa nave já construída por sua raça.

O planeta louco trata dos eventos ocorridos a partir da chegada dos superpesados. Ao invés de enfrentar os mesmos, Perry Rhodan resolve engendrar um plano para fazê-los abandonar o planeta sem completar a missão. A ideia é simular que todos que ficaram no planeta enlouqueceram em decorrência da pandemia, inclusive os robôs. Um dos grandes momentos do volume é quando um grupo de habitantes locais avança na direção dos superpesados ignorando completamente a ameaça e começam a dançar em volta da nave. Ou quando os robôs dos superpesados são destruídos pelos robôs que estavam no planeta.



A capa original alemã destacava o encontro do Sargento Harnahan com a esfera. 


Embora a trama seja bem bolada – e revele criatividade ao resolver a situação sem o uso da força, há situações forçadas, verdadeiros deus ex machinas. Por exemplo: antes da chegada dos supersoldados, Gucky e os mutantes precisam se apoderar da nave e do estaleiro no qual ela está sendo construída. Mas o local está sendo defendido por uma centena de robôs fortemente armados com ordem de atirar em qualquer pessoa que se aproximar. Como tomar o local  sem destruir os robôs? Como um  mágico, o escritor Clark Darlton tira do chapéu um “radiador de impulsos de reprogramação”, algo que nunca havia sido mencionado na série até então.

Mas esse problema acaba passando batido em decorrência do texto fluente de Darlton. A sequência em que Gucky se faz passar por um coelho para espionar o estaleiro é particularmente divertida.

O livro traz também uma misteriosa e interessante sequência com o Sargento Harnahan, que, enviado ao espaço para espionar as naves dos superpesados, acaba conhecendo uma inteligência alienígena. O sargento pousa sua nave numa lua e, movido pela curiosidade, resolve investigar o local. É quando encontra uma montanha que parece ter sido construída por mãos inteligentes. Na montanha uma porta, com uma chapa de metal. “Na soleira da porta havia uma esfera que brilhava em todas as cores do arco-íris. – Seja bem-vindo, Harnahan. Esperei muito por você”. O texto, bem escrito, mantém o mistério e deixa a entender que aquela descoberta será muito importante no futuro. Essa sequência é tão importante que foi destacada na capa da edição alemã - a capa da edição americana, reproduzida pela Ediouro não destacava nada, era apenas uma imagem genérica de FC. 

A primeira aventura de Elektra

 


Em entrevistas recentes, os editores da Abril explicaram que boas histórias fechadas eram consideradas ouro para quem tinha que montar uma revista mix.

Imagine então encontrar uma história fechada e inédita de Elektra, escrita e desenhada por Frank Miller?

Essa HQ, publicada em Bizarre adventures 28, foi publicada no brasil em homem-aranha 22.

A história é Miller na sua melhor forma.



Na HQ, a anti-heroina é contratada para afundar um navio. Ocorre que ela e o dono da embarcação ficam a deriva no mar, segurando num destroço. O homem quer matá-la, mas sabe que precisa da ajuda dela para chegar em terra firme. Nesse meio tempo, conta a ela que o objetivo de sua equipe era assassinar um criminoso de guerra nazista, atualmente morando numa ilha.



Quando se aproximam da ilha, ele atira e Miller faz uma página inteira de puro brilhantismo narrativo. É um quadro vertical, na lateral direta da personagem levando o tiro, e oito quadros horizontais. O primeiro mostra as bolhas provocadas pela queda do corpo no mar. nos últimos, vendo o corpo sendo levado ao fundo.

É um tipo de história que mostra porque Miller era considerado tão revolucionário.

domingo, outubro 25, 2026

Fundo do baú - Os Jackson Five

 


Entre os vários desenhos antigos exibidos na TV brasileira, Os Jackson five é certamente um dos mais obscuros e lisérgicos.

O desenho foi criado no rastro do sucesso do grupo musical The Jackson 5, que tinha como integrante mais novo, o ainda criança Michael Jackson.

A história era misturada com sequências inteiras de verdadeiros clipes musicais em animação em que os personagens apareciam em meio a imagens psicodélicas, com forte influência da produção Yellow Submarine. Era uma forma economizar na animação, já que o recurso permitia repetir muitos quadros.

Michael Jackson, a estrela do desenho, tinha como animais de estimação dois ratos e uma... cobra. Sim, uma cobra.

Tirando as sequências musicais e fotos que apareciam no início e no final dos episódios, os Jackson 5 não tinha nenhuma outra participação nos desenhos – suas vozes inclusive eram dubladas por atores.

No episódio Cinderelo, uma garota famosa vai estrear um filme e escolherá num baile quem será seu par na produção. Todos os irmãos Jackson vão ao baile, exceto Michael que está gripado. Mas aparece um padrinho cabeludo, que não só o cura como ainda lhe fornece roupas incríveis e um sapato de cristal. A aparição do padrinho é precedida por um clipe de vários minutos do grupo com fundo lisérgico. 

Produzido pela Rankin/Bass, o desenho estreou em 1971 e teve duas temporadas, num total de 23 episódios.

Gian Danton e o livro Árvore de Ideias

  

Perry Rhodan – Encontro no espaço

 


O volume 225 da série Perry Rhodan gira em torno da tentativa dos humanos de encontrar a nave na qual estão os espiões dos maahks. Esses homens eram cópias perfeitas dos humanos que haviam sido enviados para espionar os inimigos e, como tal, haviam conseguido enganar Perry Rhodan e se apoderar de uma nave que os levava para um planeta onde teriam direito a “merecidas férias”. Todos os tripulantes da nave haviam sido envenenados com um gás letal e jogados no espaço ao mesmo tempo que explodia uma bomba atômica para simular que a nave havia sido destruída.

O livro Encontro no espaço começa exatamente com uma nave terrana encontrando um dos cadáveres jogados no espaço, o que provoca um jogo de gato e rato, com os terranos tentando alcançar a nave e desmascarar os espiões e esses sempre um passo a frente, criando estratégias para justificar tudo.

A capa alemã. 


Kurt Mahr foi um dos primeiros escritores da série. No começo era muito técnico, de uma escrita truncada, o que aparece em alguns momentos desse livro. Mas no geral, ele consegue imprimir um ritmo de suspense e espionagem à obra, tornando a leitura interessante.

Uma curiosidade é que, ao final do volume, os editores brasileiros colocaram pequenas curiosidades sobre autores de Perry Rhodan. É dito, por exemplo, que Clark Darlon tinha medo de viajar de avião, de modo que toda vez que acontecia uma conferência de autores da série, ele ia de trem. Sobre Kurt Mahr é dito que ele trabalhou durante anos como físico nos EUA onde prestou colaboração no desenvolvimento da propulsão de foguetes (o que explica sua preocupação em colocar detalhes técnicos nos seus escritos). Mas a curiosidade mais singular é sobre o capista dos volumes, Johnny Buck. O texto diz que ele foi enganado na compra de um cavalo: “Alguém conseguiu vender-lhe um velho malungo, dizendo que se tratava de um excelente cavalo de montaria”.

Curiosidades como essa ajudavam a ampliar a mítica da série.

Uma noite em 67

 


Em 1967 a TV Record exibiu o 3º Festival da Música Popular Brasileira. Poderia ser apenas mais um festival de música, mas se tornou um marco na carreira dos artistas e uma quebra de paradigmas.

Foi essa edição revolucionária do festival que Renato Terra e Ricardo Calil transfomaram no documentário Uma noite em 67.

Com imagens da época e depoimentos de pessoas envolvidas – do diretor da TV Record a artistas como Roberto Carlos, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque, o documentário busca recriar o clima do festival, colocando o expectador no centro dos acontecimentos.

Foi em 1967, no festival, que surgiu a Tropicália, mais especificamente com Domingo no Parque, de Gilberto Gil e Os mutantes e Alegria, alegria, de Caetano Veloso. Era um movimento tão inovador e irreverente que faria com que Chico Buarque, com apenas 23 anos, parecesse um conservador ultrapassado.

O documentário perspassa acontecimentos externos ao festival, como a passeata contra a guitarra, mas que tiveram um impacto direto no evento.

Talvez o momento mais interessante sejam as apresentações de Caetano e de Gil, inicialmente muito vaiadas pela plateia, e a forma como, com seu talento, eles foram conquistando o público até o final apoteótico em que foram aplaudidos de pé. É uma rica demonstração de como a arte pode vencer o preconceito. Também vale muito a pena ver as entrevistas de bastidores em que, por exemplo Gilberto Gil defende a inclusão do pop na arte, chegando a citar as histórias em quadrinhos.

No final, grande ganhadora do festival foi Ponteio, de Edu Lobo, uma música, hoje em dia considerada conservadora. Gil ficou em segundo e Chico em terceiro, com Roda Viva. Apesar de não terem ganhado o festival, Gil e Caetano escreveram seu nome na música popular brasileira e mudaram os rumos dessa mesma música.

Uma noite em 1967 é um daqueles documentários obrigatórios para quem gosta de boa música. Está disponível na Netflix.

A árvore das ideias

 

Eu e Bené Nascimento, hoje Joe Benett, formamos durantes muitos anos uma das mais conhecidas e duradouras duplas dos quadrinhos nacionais. Na verdade, nós só paramos de colaborar um com o outro quando Bené começou a trabalhar para os EUA, e ficou sem tempo para nossos projetos em conjunto. Mesmo assim, de tempos em tempos ele me procurava para fazermos algo em conjunto. Mas quando os prazos da Marvel ou da DC começavam a apertar, ele voltava ao que dava dinheiro.

Nós tínhamos um método próprio de criação que lembra muito a parceria entre Stan Lee e Jack Kirby. O Bené aparecia quase todas as manhãs lá em casa. Como ele é enorme, ocupava quase todo o meu pequeno quarto, de modo que preferíamos ficar na frente da minha casa, debaixo de uma árvore da vizinha. E o Bené lembrava de uma lanchonete em Nova York que ficou famosa por ser o lcal em que Kirby e Lee criaram a maior parte de suas histórias, e dizia: “Um dia essa árvore também vai ficar famosa. Vão colocar uma placa aqui dizendo: Aqui Gian Danton e Bené Nascimento bolaram suas melhores histórias”.

Nós ficávamos lá debaixo da árvore, discutindo detalhes das HQs. Quando terminávamos, Bené ia para casa e depois me trazia um rafe sobre o qual eu colocava o texto e os diálogos. No começo ele, mais experiente, sempre dominava a criação e eu me limitava a dar alguns toques, a pedir algumas modificações. Com o tempo, fui ganhando domínio da linguagem e passei a dar mais idéias. O ponto alto desse processo foi na história “Noir”. Nós estávamos chateados com o conservadorismo dos editores de terror no Brasil. Enquanto o mundo lá fora pegava fogo com as histórias de terror sofisticadas de gente como Alan Moore (Monstro do Pântano) e Neil Gaiman (Sandman), no Brasil ainda se fazia terror nos moldes da década de 1960. Havia até uma regra implícita de que o protagonista sempre deveria virar monstro ao final da HQ de terror. Isso era feito com o objetivo de surpreender o leitor, mas mesmo o leitor mais obtuso, depois de ler três histórias, logo sacava a estrutura.
Outra estrutura era mostrar alguém muito mal, que era castigado por suas vítimas que voltavam do túmulo para se vingar. O quadrinista nordestino Luiz Eduardo já havia feito uma crítica disso na história “Mais do Mesmo”, e nós também queríamos expressar nossa revolta com essa camisa de força.
Decadence era uma homenagem ao terror inaugurado por Alan Moore, que inclusive aparece na história. 


Então um dia eu sonhei com uma história completa: Decadence. Quando acordei fiz um rafe e coloquei o texto. O Bené gostou tanto que seguiu rigorosamente o rafe. Na HQ eu mostrava um personagem que era, obviamente, John Constantine, andando por uma rua. À medida em que ele andava, apareciam monstros clássicos que eram eliminados da forma mais simples possível. Na verdade, para eliminá-los, Constantine usava apenas sua enorme sorte. Um vampiro, por exemplo, era atropelado por um carro. Ao final, ele encontrava com outro personagem, que mostrávamos na penumbra, mas dava para perceber que se tratava de Monstro do Pântano, e eles conversavam num papo que ecoava uma crítica ao terror clássico.
Surpreendetemente, essa história foi publicada na revista Mephisto, terror negro, uma das revistas mais conservadoras da época.


Uma outra exceção ao processo criativo da copa da árvore foi a história “Noir”, coincidentemente publicada também na revista Mephisto. O Bené tinha recebido um roteiro do editor, mas não gostou, achando o desenvolvimento óbvio demais. Estávamos discutindo isso no ônibus, quando o Bené me disse:
- Quer saber? Não vou ilustrar esse roteiro! Vamos criar outra coisa e mandar para eles! E vamos criar agora!
E assim começamos a conversar sobre como seria a história. Bené queria que ela tivesse um clima noir. Eu lembrei de um filme que tinha esse clima e que sempre esteve na minha relação dos 10 melhores: Coração Satânico, de Alan Parker.
Coração satânico tinha uma estrutura na qual um detetive procurava por um homem desaparecido. À medida em que a investigação avança, ele vai vendo todos os seus informantes sendo mortos. No final, ele descobre que o homem que ele procura é ele mesmo e o cliente é na verdade Lúcifer, para quem ele havia vendido a alma.
Imaginamos uma situação assim, mas com um contexto de vampiros, já que vampiros eram um tema clássico e, imaginávamos, iria agradar os editores. Assim, um detetive investigava assassinatos em séries cometidos por um vampiro e, ao final descobre que ele é o assassino.
Essa história foi barrada pelo Diretor de arte, Dagoberto Lemos, assim que chegou na editora. Ele argumentou que o desenho do Bené estava muito sujo e a história era incompreensível. Quem nos salvou foi a editora, Neuza de Castro Luz, que bateu o pé e foi falar com o dono da editora. Sua aposta valeu a pena: a revista, que antes vendia 40% da edição, pulou para 70% naquele número.
É um desses casos explicados pela teoria dos paradigmas: como não era da área, Neuza não percebeu que nossa HQ não se encaixava no terror anos 60, típico de revistas como Calafrio e Mephisto.

Noturno – de Berardi e Milazzo

 


Noturno é um álbum lançado pela Opera Graphica em 2003 que reúne diversas histórias curtas da dupla Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo. Os dois se tornaram famosos e queridos pelos leitores graças ao personagem Ken Parker, que revolucionou o faroeste na década de 1970.

O álbum começa com a história do título, uma HQ muda que exemplifica bem porque Milazzo é considerado um mestre da narrativa visual: um homem encapuzado invade a casa de um desenhista (que tem as feições de Milazzo) e o mata. Uma trama simples, que vale pelo brilhantismo narrativo.



Outro destaque é “Onde está Laura?”:  Um homem está acampando quando é abordado por um desconhecido com um machado, que pretende roubar seu carro. Apesar da ameaça, a grande preocupação da vítima é saber onde está Laura. A HQ  vale pelo final surpreendente.

Mas o melhor momento do volume é “Parker Anderson, o filósofo”. A história se passa durante a guerra civil americana. Parker é um espião da União que acaba sendo pego no acampamento da União. Ele sabe que o destino dos espiões é a morte por enforcamento e, surpreendentemente, não parece se importar com isso. Ao contrário, suas falas estóicas são desconcertantes: “Faço votos que o espetáculo seja bem organizado, já que vai ser em minha honra”.



Se Milazzo brilha na primeira história, aqui o mérito cabe principalmente aos diálogos de Berardi, que, por trás da aparência de humor, criam uma tensão entre o espião e o general confederado.

O plot twist final é surpreendente principalmente por inverter os papéis dos personagens.  

Gian Danton: a origem do pseudônimo

 Algumas pessoas têm me perguntado qual a origem do meu pseudônimo Gian Danton. Essa é uma pergunta comum, mas, olhando para trás, percebo que nunca escrevi sobre o assunto.

Gian Danton surgiu em 1989, quando comecei a publicar minhas primeiras histórias em quadrinhos, em parceria com Bené Nascimento (Joe Bennett). Um amigo de teatro, que já havia tido problemas com a ditadura militar, e vendo que minhas histórias poderiam ser consideradas subversivas, me aconselhou a usar um pseudônimo.
Além disso, na época eu estava inaugurando uma coluna no jornal O Liberal e já havia colunas de uns tais de Ivan Andrade e Ivan Oliveira (eu não havia pensado no Ivan Carlo).
Na época eu era quase obcecado pela revolução francesa. Tinha tudo que saía sobre esse fato histórico: livros, revistas, fascículos. E Dantonera o personagem mais interessante dessa trama que mudou o mundo. Os outros dois grandes revolucionários pareciam mais bidimensionais: Marat era o revolucionário radical e Robespiere era o homem de costumes austeros, que levou a revolução na direção do terror.
Danton era revolucionário radical, mas também era humano, tanto que foi o único a se levantar contra o terror revolucionário, que matou milhares de pessoas (inclusive crianças), apenas porque eram nobres ou porque discordavam de Robespiere. Era também um bom-vivant, um homem divertido e inteligentíssimo, que tinha sacadas geniais. Quando ele foi julgado, tiveram que fazer um julgamento secreto e proibi-lo de falar, senão ele era capaz de convencer até os juizes (o julgamento era uma farsa, pois Danton estava condenado desde o início).
Quando o acusaram de ter se vendido para os nobres, por exemplo, Danton respondeu: ¨Vendido? Eu? Um homem como eu não tem preço!¨.
Adotei o nome Danton para homenagear esse homem interessantíssimo. No começo eu assinava Jean Danton, mas ficava estranho, especialmente na hora de assinar.
Na época eu me interessei pelo Barroco italiano e descobri um artista chamado Gian Lorenzo Bernini. Arquiteto, pintor, teatrólogo, escutor, Bernini foi para o barroco o que Leonardo Da Vinci foi para a Renascença.
Da junção dos dois nomes, um italino e outro francês, surgiu um nome único no mundo (pelo menos ainda não encontrei no google outra pessoa com esse nome) e foi com ele que fiquei conhecido. Mais tarde, quando tentei me livrar do pseudônimo, já era tarde: todo mundo me conhecia apenas como Gian Danton.