terça-feira, setembro 29, 2020

Monsieur & Madame Adelman



Geralmente quando pensamos em comédia romântica, imaginamos uma trama pueril, com personagens pouco profundos e final feliz. Monsieur & Madame Adelman, filme francês dirigido por Nicolas Bedos e disponível na Netflix vai na contramão dessa imagem.
E essa ruptura já é visível desde a primeira cena. Nela, o famoso escritor Victor Adelman morreu e vemos seu funeral. É quando um jornalista que está produzindo um biografia do famoso autor procura a viúva e ela, surpreendetemente, resolve falar com ele. O jornalista quer uma outra visão sobre a celebridade que acaba de morrer e exatamente isso que Sarah lhe dá: o ponto de vista da mulher que viveu com o premiado autor por 45 anos.
Monsieur & Madame Adelman é um filme repleto de reviravoltas a começar pela profundidade e complexidades de seus personagens. A princípio parece uma comédia leve sobre uma estudante de letras absurdamente apaixonada por um jovem e promissor escritor, a ponto de namorar o melhor amigo dele e até o irmão deste apenas com o objetivo de conquistá-lo. Mas com o tempo vamos percebendo que a situação é muito mais complexa. Nessa fase é interessante acompanhar como a narrativa dela, dita ao jornalista, nem sempre coincide  com os fatos, criando uma espécie de ironia que gera algumas boas cenas de humor.
O filme vai acompanhando 45 anos da vida desse casal, seus mais diversos problemas enfrentandos e a paixão avassaladora de um pelo outro. Entretanto, em nenhum momento parece meloso, melodramático ou mesmo forçado. O humor irônico e muitas vez cínico ajuda muito a tornar a narrativa fluída.
Ao final, o expectador descobre que aquilo que ele achava sobre os personagens era falso, quando a realidade inverte as expectativas, deixando o filme ainda mais instigante.
É uma boa dica para quem pretende assistir  a um filme romântico que foge dos padrões convencionais.

A guerra dos gibis

A campanha do Dr. Fredric Werthan contra os quadrinhos teve um grande impacto no Brasil por causa de uma questão política.
     Segundo Gonçalo Júnior, autor do livro A Guerra dos Gibis, embora existissem iniciativas isoladas desde a década de 30, quando os quadrinhos de aventura chegaram ao Brasil, a campanha contra os quadrinhos só tomou fôlego na década de 40, graças a uma briga entre Roberto Marinho, do Jornal O Globo, e Orlando Dantas, do Diário de Notícias. Dantas estava ganhando mercado ao promover concursos em que os leitores do jornal concorriam a prêmios em dinheiro. Preocupado com a concorrência, Marinho usou sua influência junto ao governo Vargas para fazer com que fossem proibidos os prêmios em dinheiro.
            Dantas, agora sem o principal atrativo de seu jornal, passou a atacar Marinho pelo que considerou o seu ponto fraco: o fato de seu concorrente ser um dos principais editores de histórias em quadrinhos do Brasil (sua publicação Gibi acabou virando sinônimo de quadrinhos). Dantas, ex-repórter de Assis Chateaubrind, sabia que a melhor forma de um jornal sair de uma situação financeira difícil era comprar briga com um concorrente de peso. O Diário de Notícias passou a acusar os gibis de provocarem preguiça mental, inculcarem valores estrangeiros nos jovens e incentivarem a violência. Na verdade, Dantas não tinha nada contra quadrinhos, e, aliás, tinha sido um dos pioneiros a publicar tiras de jornais no Brasil (o humorístico Popeye), mas ele logo descobriu que a melhor forma de chamar atenção para si e alfinetar o rival era fazer acusações aos gibis.
Passou a ser moda falar mal dos gibis. Até mesmo quem nunca tinha lido uma revista se apressava a dar sua opinião. A jornalista Ivone Jean, do Correio da Manhã, por exemplo, escreveu um artigo no qual pedia reconhecimento público por ter roubado um gibi do consultório de um pediatra, impedindo assim, que as crianças tivessem contato com a leitura. Além de se vangloriar do crime, a jornalista admitia que sua birra se devia ao fato dela não compreender o código quadrinístico: “Não sei ler histórias em quadrinhos! Aprendi a ler da esquerda para a direita e linha após linha. As legendas atrapalhadas que ilustram os desenhos são impressas em caracteres estranhos e dançam em todos os sentidos”.
            Mas a campanha contra os gibis teria seu momento mais grave a partir de 1953. Dessa vez, além de Dantas, Roberto Marinho teria contra si Samuel Wainer, do jornal Última Hora. Assim como acontecera com o Diário de Notícias uma década antes, o diário de Wainer estava tomando leitores de O Globo, graças a inovações editoriais. Marinho concentrou sua artilharia no concorrente e descobriu que Wainer não era brasileiro, pois chegara ao Brasil com dois anos de idade. Na época a legislação proibia estrangeiros de terem veículos de comunicação no Brasil.
            Wainer vingou-se empreendendo uma dura campanha contra as histórias em quadrinhos que durou anos. Para isso foi destacado o repórter Pedro Morel. Este percebeu que a estratégia de maior impacto era acusar os gibis de serem responsáveis pela criminalidade infantil. Citando as pesquisas de Fredric Whertan, Morel defendeu que as histórias em quadrinhos ensinavam as crianças como cometerem crimes.
            Para provar o que dizia, Morel foi ao Reformatório de menores Saul de Gusmão atrás do maior criminoso juvenil da época, um tal de Lilico, apelidado de “Terror do subúrbio”. Para sua decepção, encontrou o rapaz jogando futebol, e não lendo gibis. Mas nem por isso achou que seria o futebol o responsável pelos crimes de Lilico. Os responsáveis deviam ser os gibis.
            Apesar da total falta de embasamento e de serem resultados de uma briga de mercado, as denúncias deram resultado. Nas portas das igrejas eram distribuindo panfletos orientando pais a não deixarem seus filhos lerem quadrinhos. Em alguns locais os professores tiravam cinco minutos diários de suas aulas para falarem dos riscos da leitura dos gibis.
            Um dos resultados dessa campanha se vê nos testes escolares. Desacostumados a ler, os estudantes são incapazes de interpretar os textos mais simples. Nos países em que a leitura dos gibis foi estimulada a realidade é outra.

segunda-feira, setembro 28, 2020

O amor trágico de Abelardo e Heloísa

Pedro Abelardo foi um dos mais importantes filósofos da Idade Média. Diante da questão entre realistas (que, influenciados por Platão, acreditavam que as palavras universais, como "homem", tinham existência real) e nominalistas (que acreditavam que os universais eram apenas nomes, não tendo existência nem na natureza, nem na mente), ele apresentou um terceiro caminho, o conceitualismo, que sintetizava elementos dos dois e pregava que os universais são conteúdos da mente derivadas das coisas. Com suas ideias e novas formas de ensinar, ele criou a base do ensino universitário. Mas, para além de suas ideias, Abelardo ficou mais conhecido por ter protagonizado uma das mais famosas histórias de amor de todos os tempos, influenciando o que viria a ser o romantismo. 

Depois de passar por diversas cidades e ser perseguido por sua genialidade e espírito rebelde, Abelardo chegou em Paris em 1113 e começou a lecionar na escola de Notre Dame. Nessa época já era um professor famoso e suas aulas eram concorridas. Sua metodologia revolucionária quebrava com a metodologia platônica, maravilhando os alunos com o jogo de argumentação. 

Foi nesse período que ele conheceu uma jovem de 17 anos que chamava a atenção de todos por sua beleza e inteligência, Heloísa. Interessado em conquistar a moça, o filósofo se aproximou do tio (o cônego Fulberto), com a qual ela vivia e se ofereceu para ensinar à moça gratuitamente, em troca de moradia na casa. O cônego não só aceitou a oferta, como confiou a sobrinha inteiramente à orientação do filósofo, que poderia, inclusive, castigá-la severamente caso esta não se aplicasse nos estudos. 

Inicialmente o tio acompanhava os dois em suas lições, que geralmente aconteciam à noite, quando o filósofo voltava de suas aulas, mas depois, confiando na fama de casto de Abelardo, passou a deixa-los a sós. "Assim, com a desculpa do ensino, nós nos entregávamos inteiramente ao amor, e o estudo da lição nos proporcionava as secretas intimidades que o amor desejava. Enquanto os livros ficavam abertos, introduziam-se mais palavras de amor do que a respeito da lição, e havia mais beijos do que sentenças; minhas mãos transportavam-se mais vezes aos seios do que para os livros e mais frequentemente o amor se refletia nos olhos do que a lição os dirigia para o texto", escreveu Abelardo no livro A história das minhas calamidades. O casal chegou até mesmo a simular surras corretivas para dissimular as atividades românticas e não levantar suspeitas. 

Então começa a tragédia: Fulberto flagra o casal e expulsa Abelardo de casa. Mas nessa época Heloísa já estava grávida. Ainda tremendamente apaixonado por ela, Abelardo a tira às escondidas da casa do tio e a leva para sua terra natal, onde ela fica, na casa de uma irmã do filósofo, até dar à luz ao filho do casal, Astrolábio. 

Nesse meio tempo, Abelardo procura Fulberto e se oferece para se casar com a moça, desde que isso fosse mantido em segredo, a fim de que sua reputação não fosse prejudicada. 

Heloísa, no entanto, não concordava com o plano. Segundo ela, o casamento acabaria com a carreira do amado, pois, na época, acreditava-se que um verdadeiro filósofo deveria ser celibatário. Cícero, por exemplo, ao ser instado a casar com a irmã de Hírcio, respondeu que não podia consagrar-se igualmente a uma mulher e à filosofia. "Quem poderia, aplicando-se às meditações sagradas ou filosóficas, suportar o vagido das crianças, as cantarolas das amas que embalam e a multidão barulhenta da família?", indagava Heloísa. No final, o casal concordou com o casamento, desde que ele fosse totalmente secreto. Unidos pela benção nupcial, foram cada um para lado e se viam apenas às escondidas. O tio, envergonhado com a situação, passou a divulgar o casamento. 

Abelardo, para evitar o falatório, enviou Heloísa para um convento de monjas. Ultrajado, o tio arquitetou uma vingança que se tornaria célebre: mandou castrá-lo. Além da ferida, havia a vergonha: na época os eunucos eram considerados impuros e proibidos até mesmo de entrar nas igrejas. 

Ferido no corpo e na alma, humilhado, Abelardo internou-se no mosteiro de Saint-Denis, tornando-se um monge para o resto da vida. Heloísa, com apenas 20 anos, ingressou definitivamente no convento. Desde então, os dois nunca mais se viram, apenas trocaram cartas nas quais lamentavam a má sorte que os jogara naquela situação.
 

Túmulo do casal></P> Túmulo do casal<BR><BR><BR><BR>
Os dois jamais deixaram de se amar, como atesta uma das cartas de Heloísa:
Túmulo de Abelardo e Heloísa no Cemitério Padre Lachaise.

Abelardo morreu em 1142, com 63 anos. Heloísa conseguiu que se construísse uma sepultura em sua homenagem. Quando ela morreu, em 1162, foi sepultada ao lado de seu amado. Conta-se que ao abrirem a sepultura de Abelardo para enterrar Heloísa, seu copro ainda estava conservado e se mantinha de braços abertos, como se esperasse a chegada de sua amada. Em 1817 os restos mortais dos dois amantes mais famosos da Idade Média foram levados para o cemitério do Padre Lachaise. 
A história dos dois deu origem a um filme, Em nome de Deus, de 1988, de Clive Donner.

Perry Rhodan - 5 décadas de aventuras espaciais

A maior série de ficção científica do mundo. Trata-se de Perry Rhodan, uma space opera alemã que vem sendo publicada ininterruptamente desde 1961. No mundo todo já foram publicados mais de um bilhão de livros nas mais diversas línguas e há fã-clube espalhados por vários países, inclusive em alguns em que o personagem não é mais publicado. É um fenômeno poucas vezes observado na história da literatura de gênero. 

Perry Rhodan surgiu como uma reação à dominação norte-americana no campo da FC. No final da década de 1950, esse mercado era totalmente dominado por material vindo dos EUA e os alemães só conseguiam publicar sob pseudônimo. Foi quando dois autores, Karl-Herbert Scheer e Walter Ernsting (também conhecido pelo pseudônimo de Clark Darlton) apresentaram o projeto de um herói audaz à editora alemã Moewig, que topou publicar depois de algumas alterações. Para fazer a capa foi chamado Johnny Bruck, um dos mais famosos ilustradores alemães de ficção-científica. À equipe criativa juntaram-se mais dois escritores, Klaus Mahn (Kurt Mahr) e Winfried Scholz (que assinava W.W. Shols). Scher escreveu a sinopse dos 10 primeiros volumes e começaram a produzir. 




Para dar ideia de que a série era importada, o personagem principal era o astronauta americano Perry Rhodan. Em viagem à Lua, encontra uma nave de uma civilização super-desenvolvida, mas decadente, os arcônidas, e seus dois ocupantes. Voltando à Terra, ele usa a tecnologia alienígena para impedir uma guerra nuclear e funda a Terceira Potência, unindo a humanidade em torno de um ideal: a conquista do espaço.

Os autores acharam que a série ia fazer, no máximo, um sucesso relativo, e planejaram apenas 30 números. Mas Perry Rhodan vendeu tanto que os primeiros números foram rapidamente republicados e a série foi exportada outros países, inclusive no Brasil. Logo a quantidade de livros publicados era tão grande que ficou difícil explicar como uma pessoa normal vivia tantas aventuras. A solução foi tornar o protagonista praticamente imortal graças a um ativador celular (atualmente Perry Rhodan tem mais de 3 mil anos) e encher a trama de personagens secundários, muitos dos quais vivem aventuras solo. 


Para conseguir contar uma trama tão complexa e cheia de detalhes e personagens secundários, que abarca centenas de anos na história da humanidade, os autores desde o primeiro número fazem um planejamento detalhado. Um dos autores é nomeado líder e escreve um resumo de cada volume semanal por todo um ciclo (que pode durar 50 ou 100 livros). Esse resumo deverá ser seguido à risca pelo autor do volume. Assim, se uma nave parte com uma determinada tripulação em um volume, ela deverá ter a mesma tripulação no volume seguinte. Os livros também são revisados para encontrar incoerências. 

Muitos dos principais conceitos da FC e dos quadrinhos foram antecipados pela série. Os mutantes, por exemplo, já exibiam seus poderes em Perry Rhodan anos antes do surgimento dos X-men. Outra antecipação são os pós-bis, uma raça de robôs que pretendem destruir toda forma de vida orgânica, conceito muito semelhante aos borgs, vilões que surgiriam na série Jornada nas estrelas - nova geração, décadas depois. 

Apesar da enorme quantidade de livros publicados e de alguns escorregões, na média, os autores nunca deixaram cair a qualidade da série e houve momentos em que os livros chegavam a uma qualidade insuspeita para esse tipo de publicação. 



Exemplo disso é o número 50, O Pseudo, escrito por Clark Darlton. O livro é uma adaptação da peça O Inspetor Geral, do dramaturgo russo Nicolai Gógol. Gógol escreveu sua peça como uma crítica ao autoritarismo e à corrupção do Estado Czarista. Darlton atualizou a discussão, transpondo-a para um cenário futurista. 

Pelo menos um dos escritores é considerado um mestre da FC do porte de Isaac Assimov e Ray Bradbury: Willian Voltz. Dono de um estilo poético que lembra Bradbury, Voltz colocou humanismo e filosofia na série. O estilo Voltz ficou muito bem claro desde os primeiros livros desse autor na série. No volume 99, a história era pueril e maniqueísta: um dos arcônidas encontrados por Perry Rhodan na lua, Crest, vai para um planeta longínquo para passar os seus últimos dias, mas recebe a visita inconveniente de seres extraterrestres que querem se apoderar de sua nave, o ápice da tecnologia terrestre até então. Voltz transformou essa sinopse numa parábola sobre a amizade e a lealdade, recheada de poesia. 

Na fase em que liderou os escritores, a humanidade passou a questionar seu papel no universo, percebendo que a evolução espiritual era tão importante quanto a material. As histórias passaram a ser mais filosóficas e contemplativas, fugindo do militarismo da fase anterior. 

Os personagens, mesmo os vilões, começaram a questionar sua própria existência, fugindo do maniqueísmo. Nessa nova fase, mesmo os mais ferozes inimigos tinham motivos que justificavam sua suposta maldade. 



No Brasil a série foi publicada pela editora Tecnoprint S.A. a partir de 1975 e durou até o número 536. No início as histórias eram publicadas em formato livro de bolso pequeno, com borda branca. Posteriormente, o formato aumentou, com livros compridos e estreitos e a borda ficou preta. No início da década de oitenta, amparada por propagandas de TV, a série ganhou popularidade e as edições passaram a ser semanais. 

No início da década de 1990, a era Collor provocou uma crise sem precedentes no mercado editorial e o personagem não resistiu, deixando de ser publicado no número 536. 



Apesar de não ser mais publicada, a série continuou aglutinando fãs que se reuniam em torno de fanzines e tentavam articular a volta do personagem. Como o surgimento da internet, essa articulação foi para as redes sociais. Surgiu o Perry Rhodan Fã Clube do Brasil (PRFCB) e o fã-clube começou a negociar com grande editoras, ao mesmo tempo que organizava uma lista de possíveis assinantes. Embora essa lista aumentasse cada vez mais, nenhuma editora parecia se interessar. 

A solução surgiu de um fã, Rodrigo de Lelis, dono de uma pequena empresa de informática, a SSPG, voltada para a documentação eletrônica e editoração de publicações, que passou a publicar a série em volumes que incluíam duas histórias e vendidas através de assinaturas. 

Infelizmente a nova editora parou a publicação impressa, mas continua vendendo os e-books exemplares avulsos através do site do personagem.

Propostas discordantes no jornalismo


Na história do jornalismo percebemos que nem todos leram pela cartilha da objetividade e da pirâmide invertida.

Alguns movimentos e publicações discordavam abertamente do atual modelo de reportagens e apresentavam propostas de mudanças.

Uns se contentaram em mudar a pauta, realizando publicações sobre assuntos pouco enfocados pela imprensa estabelecida. É o caso da imprensa alternativa.

Outros propuseram uma mudança radical até mesmo no jeito de fazer jornalismo. Eu as chamei de "propostas discordantes". Tais propostas colocaram em xeque nossa idéia de imprensa e nos fizeram perguntar o que realmente caracteriza o jornalismo.
Capote, um dos criadores do novo jornalismo


Novo jornalismo

A proposta de aproximar o jornalismo da literatura não é nova. Muitos escritores transformaram reportagens em obras literárias. Exemplo disso é o livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, um verdadeiro marco tanto da imprensa quanto da literatura brasileira.

Mas o grande mentor dessa relação foi o norte-americano Truman Capote. Ele acreditava que a reportagem poderia ser uma arte tão requintada quanto qualquer outra forma de prosa, tais como o ensaio, o conto e a novela.

Para provar sua tese, ele procurou o tipo mais baixo de matéria jornalística: a entrevista com astros.

Os brasileiros sabem o quanto é descartável esse jornalismo praticado por revistas como Contigo, Caras e Quem.

Capote queria transformar esse tipo de matéria em uma arte autêntica, provando que o jornalismo poderia ser um gênero literário.

Para isso ele procurou o ator Marlon Brando, então no auge da fama. Capote passou uma noite com Brando em um apartamento em Kioto, no Japão, onde o astro estava filmando Sayonara, de Joshua Logan.

Os dois conversaram a noite inteira, sem que Capote gravasse ou fizesse anotações. Ele acreditava que esses recursos criam um clima artificial e destrói a naturalidade por parte do entrevistado.

O resultado foi publicado na revista New Yorker em 1956 com o título de "O Duque em seus domínios".

Estava criado o Novo Jornalismo.

O texto mostrava o ator de maneira até então inédita e antecipava até mesmo a gordura de Brando (que chegou a pesar, nos anos seguintes, 120 quilos). O ator admitiu, entre outras coisas, que se sentia ofuscado pelo sucesso: "Um excesso de êxito pode arruinar um homem tão irremediavelmente quanto um excesso de fracasso".

Brando aceitou seu perfil como fidedigno, mas disse que se sentiu traído: "Aquele pequeno canalha passou a metade da noite me contando seus problemas. Achei que o mínimo que poderia fazer era contar-lhe os meus".

Em 1959, ao saber que quatro membros de uma família de fazendeiros haviam sido assassinados brutalmente (eles foram amarrados, amordaçados e receberam tiros na cabeça), Capote rumou para a cidade em que havia acontecido o crime, Garden City, decidido a chegar ao ápice de seu projeto de narrar a realidade como ficção.

Passou cinco anos pesquisando. Entrevistou, perguntou, levantou os menores pormenores do caso, tornou-se amigo dos policiais e até dos criminosos, dois assaltantes de nome Perry Smith e Dick Hickock.

Antes de publicar o relato, ele passou o texto para checadora da revista, Sandy Campbell, que verificou todas as informações. A história foi publicada em capítulos no New Yorker e depois reunida no livro A Sangue Frio, um marco do Novo Jornalismo.


A idéia dessa proposta discordante era dar ao leitor algo mais do que os fatos: a vida subjetiva e emocional dos personagens. Isso fazia com que os autores incluíssem no texto até mesmo o pensamento dos personagens.

Outra técnica do new journalism era a composição: fundir a história de várias pessoas e apresentá-las em uma personagem só, fictício. Além disso, essa corrente defendia o jornalismo investigativo: as histórias deveriam ser exaustivamente pesquisadas e checadas nos mínimos detalhes.

No Brasil o auge do Novo Jornalismo foi a revista Realidade, da editora Abril, que dourou de meados da década de 60 a meados da década 70 e só acabou por causa da censura.



Jornalismo gonzo

O nome mais importante do gonzo jornalismo é o norte-americano Hunter S. Thompson.

Na década de 70 ele foi mandado pela revista Rolling Stone para cobrir uma corrida de motos. Gastou todo o dinheiro que haviam lhe dado com drogas, carros, fez contas em hotéis e saiu sem pagar, arranjou problemas com a polícia e, para piorar, só chegou na corrida de motos quando esta já havia acabado. Ao invés de ser demitido, virou celebridade e acabou criando uma nova forma de fazer jornalismo: o gonzo. O batismo foi feito pelo repórter Bill Cardoso. Ao ver os textos de Hunter, ele comentou: "Não sei o que está fazendo, mas você mudou tudo. Isso está totalmente gonzo".

Hunter continuou produzindo reportagens, sempre sob o lema: "Quando as coisas ficam bizarras, os bizarros viram profissionais".

O gonzo, por suas próprias características, não é uma fórmula que possa ser aplicada a um texto. É muito mais uma atitude diante do mundo e do jornalismo.

É possível, no entanto, perceber algumas características no gonzo jornalismo.

A primeira delas é um ataque radical à teoria da objetividade jornalística.

Para os adeptos do gonzo, o discurso da objetividade quer criar confiança, convencer o leitor de que é isenta, livre de desejos, ideologias, medos e interesses de quem escreve.

Ou seja, a objetividade é um discurso de mascaramento da ideologia que permeia o jornalismo. Não interessa ao gonzo se essa ideologia é neo-liberal ou marxista. O importante é o princípio da objetividade serve para esconder o fato de que nenhuma linguagem é neutra.

O gonzo tira essa máscara e daí surge sua primeira característica formal: os textos são sempre escritos em primeira pessoa. O objetivo não é apenas narrar fatos, mas relatar a experiência de um determinado indivíduo com eles.

O fator de haver um mediador entre a experiência e o leitor é destacada, e não escondida.

O gonzo também quer ir contra a imagem que os jornalistas fazem de si mesmos, de sérios e respeitáveis (exemplo disso é o âncora da Record, Boris Casoy).

Tal imagem contribui para transformar o jornalismo em "discurso autorizado". O jornal é a expressão da verdade, e não de "uma verdade".

Em contraste, os gonzo-jornalistas não pretendem ser nem sérios nem respeitáveis.
Hunter Thompson, o criador o gonzo jornalismo.


A carta de princípios da irmandade Rauol Duke (pseudônimo utilizado por Hunter para evitar problemas com a polícia) nos diz que o repórter "deve se envolver na história e alterar ao máximo os acontecimentos dentro da media do Impossível, de forma a transformá-la não em um mero RELATO do evento, mas sim em uma história ENGRAÇADA e CÁUSTICA".

Entretanto, a ficção pura e simples não serve ao gonzo. Ainda segundo a mesma carta, "o conteúdo dos textos deve ser JORNALÍSTICO, ou seja: um fato precisa estar acontecendo necessariamente".

Para fazer jornalismo gonzo não é necessário procurar fatos bizarros. Aliás, o ideal é abordar fatos normais, banais, sob ponto de vista bizarro e pessoal.

Exemplos de jornalismo gonzo estão se tornando cada vez mais freqüentes na imprensa brasileira. Arthur Veríssimo, da revista Trip, foi o primeiro a celebrizar esse estilo no Brasil. Em uma de suas matérias mais antológicas, ele passou um dia como animador de festas infantis.

A revista Zero, recentemente lançada pelas editora Pool e Lester, também traz características gonzo.

O número de estréia trouxe uma matéria sobre as deusas-vivas do Nepal. O título e subtítulo deixam claro o distanciamento que a procura manter do jornalismo convencional: "É DURO SER DEUSA - No Nepal, o dom divino já nasce com data de expiração. Luiz Cesar Pimentel passou uma tarde na casa de uma ex-deusa viva e mostra a realidade casca-grossa das divindades locais".

O texto é em primeira pessoa e não esconde o ponto de vista do repórter:

Por mais que eu tenha me esforçado no parágrafo anterior para dar a real dimensão da discrepância de uma deusa dormir em um sofá-cama e possuir um vira-lata (que parece uma mistura de poodle com nada) como campainha, a cena para quem passa um período no país não é tão assombroso assim. No Nepal, todas as situações têm uma forte tendência ou a não funcionar ou a funcionar de um jeito totalmente estapafúrdio. E, como você deve imaginar, dá tudo certo no final. Ou quase.

Até mesmo a grande imprensa tem se rendido à bizarrice do jornalismo gonzo, embora de maneira mais comportada.

É na, até pouco tempo sisuda, revista Superinteressante que encontramos um exemplo típico de jornalismo gonzo.

Na matéria "Puro Rock'n'roll", publicada na Superinteressante, número 8, ano 15 de agosto de 2001, o repórter Dagomir Marquezi se disfarçou de saxofonista do grupo Jota Quest e participou de show em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo. Como uma típica matéria gonzo, o jornalista também é personagem e o texto é em primeira pessoa:

Não bastava tocar: um trio de metais que se preze também dança. Lembrava-me dos muitos shows de James Brown que assistira. "Um passo para a direita, junta os pés. Um passo para a esquerda, junta os pés". Eu operava a coreografia e meus colegas de metais não se agüentavam de vontade de rir da minha picaretagem artística. O baixista PJ e o tecladista Márcio Buzelin, entre risadas disfarçadas, também faziam sinais de que estava me saindo bem.

Coleção Graphic Novel


A coleção Graphic Novel foi lançada em 1988 pela editora Abril aproveitando a onda de valorização dos quadrinhos provocada pela mini Cavaleiro das Trevas. Tinha um tratamento gráfico melhor, com formato álbum e papel couchê. Essa coleção publicou alguns dos grandes nomes dos quadrinhos, entre eles Frank Miller, Alan Moore, Dennis O´Neil, JM De Matteis, Jim Starlin, entre outros. A revista foi publicada até o número 29, lançado em junho de 1992.

Viúva negra – a mais fria das guerras

Gerry Conway é um caso interessante de roteirista. Ele consegue ser muito bom quando trabalha com grandes artistas, como Garcia-Lopez. Vide a obra-prima Esquadrão Atari. Mas é totalmente mediano quando é ilustrado por desenhistas menos eficientes. Um exemplo dessa última categoria é a graphic novel Viúva negra – a mais fria das guerras, desenhada por George Freeman. A história começa bem, com a espiã impedindo a venda de um disquete com informações secretas do departamento de defesa dos EUA.
Ela é então abordada por agentes da KGB que lhe revelam que Alexei Shostakov está vivo. Paixão da vida de Natasha Romanov, ele era também o herói russo Guardião Vermelho. O personagem havia aparentemente morrido em uma aventura antiga dos Vingadores, quando a base onde estava foi destruída. Os agentes usam essa informação para chantagear a viúva e obrigá-la conseguir informações secretas da SHIELD – se ela não o fizer, ele será morto. Vindo da escola Stan Lee de roteiro, Conway dependia demais da narrativa visual do desenhista e a de Freeman não era das melhores, com muitos quadros por página e pouco uso de quadros de impacto. Ou seja: a história não tinha o ritmo narrativo adequado, mas mesmo assim se sustenta. O final, entretanto, é forçado, com uma solução praticamente tirada da cartola e pouco condizente com a personagem conhecida por sua astúcia. Entretanto, embora não seja uma grande obra, é uma leitura divertida e descomprometida. Essa história foi publicada no número 7 da coleção Graphic Marvel, da editora Abril.

domingo, setembro 27, 2020

Quarteto Fantástico: Os amigos de Wendy



Em 1987 a revista do Capitão América completou 100 números e para comemorar a editora Abril fez uma edição especial, de 160 páginas, com histórias clássicas e modernas dos personagens da Marvel. Ironia das ironias, a revista só não tinha histórias do herói do título. Ainda assim, foi uma seleção única, digna de constar em qualquer coleção.
A história do Quarteto Fantástico incluída no volume é um conto que mistura terror, fantasia e ternura infantil chamado “Os amigos de Wendy”, escrita e desenhada por John Byrne.
Na HQ uma jovem desconhecida visita o prédio do Quarteto e, para espanto geral, descobre-se que a é Tia Petúnia, do qual o Coisa tanto fala. Ela leva o Quarteto para uma pequena cidade no Arizona onde estão acontecendo mortes misteriosas: os cadáveres são encontrados com expressões de terror no rosto. De alguma forma a trama toda parece estar relacionada a uma menina, Wendy, vítima de violência doméstica.

A história tem as qualidades e defeitos de uma história John Byrne: boas ideias com um ótimo desenho, mas pouco aprofundamento da trama e dos personagens.
A HQ falha em mostrar o que realmente acontece no clímax da história, tanto que o Senhor Fantástico é obrigado a explicar, num tremendo bife de roteiro. Além disso, a própria Wendy não é tão bem explorada.
Histórias como essa mostram porque a parceria John Byrne e Chris Claremont funcionava tão bem: um entrava com boas ideias, o outro entrava com o aprofundamento das mesmas.

Monstro do Pântano - rio acima


Quando vi o Monstro do Pântano de Grant Morrison e Mark Millar resolvi dar uma chance à dupla. O primeiro número dessa fase me soou insuportável: parecia Grant Morrison tentando desconstruir o personagem que tornou famoso seu maior desafeto.
O volume três, no entanto, traz roteiros apenas de Mark Millar, em história fechadas em universos alternativos saídos de um livro escritos por uma roteirista de quadrinhos suicida.
Bem, vamos lá, vamos dar uma chance ao moço, decidi.
Rio acima é bastante irregular. As páginas iniciais, que mostram a roteirista-escritora, são confusas. Parecem Millar imitando Morrison em seus roteiros complexos e só sendo confuso. Esse clima se mantém no primeiro conto, cidade dos mortos, uma trama noir em uma cidade dominada por seres fantásticos.
Crepúsculo dos deuses se sai melhor, com um mundo em que os nazistas ganharam a guerra, oque não é exatamente uma ideia original, mas se mostra interessante até o final abrupto.
Semente ruim se revela um salto de qualidade na série, com uma trama em um mundo paralelo que inverte totalmente a realidade da série. Nessa história, Mark Millar aparenta ter encontrado o ponto correto de terror da série, em especial no final irônico e aterrador ao mesmo tempo.

O segredo do pântano da matança é consequência lógica do estilo definido no conto anterior. Destaque para a sequencia inicial, que conta a história do pântano maldito onde pessoas têm a tendência de matar outras ou se suicidar. Lembra os melhores momentos dos trabalhos de terror de Moore e Gaiman – com um toque Millar. Aí percebe-se que o roteirista finalmente acertou a mão. 

Fundo do baú - Jerônimo, o herói do sertão


Jerônimo, o Herói do Sertão foi o nome de uma radionovela brasileira criada em 1953 por Moysés Weltman para a rádio nacional. Influenciada pelo faroeste americano, ficou 14 anos no ar e migrou para os quadrinho, o cinema  e televisão.
Em 1957, Jerônimo ganhou uma revista em quadrinhos de sucesso pela Rio Gráfica Editora escrita pelo próprio Moysés Weltman e desenhada por artistas como Edmundo Rodrigues[2] e Flavio Colin. Uma nova versão surgiu na década de 1970, pela Bloch editores, com desenhos de Edmundo Rodrigues, mas foram publicados apenas três números.
Em 1972, Jerônimo é adaptado para a televisão pela TV Tupi. O protagonista foi interpretado por Francisco di Franco, o comediante Canarinho era o Moleque Saci e Eva Christian, Aninha. O roteiro era de Benedito Rui Barbosa, o mesmo que na década de 1990 faria muito sucesso com novelas ambientas no campo, como Pantanal, Rei do Gado e Renascer.
Em 1984, Jerônimo ganhou um remake do SBT. Francisco di Franco interpretou novamente o herói e a atriz Suzy Camacho interpretou Aninha.
O remake não fez tanto sucesso como a versão anterior e foi encerrado em 1985. O SBT ainda o reprisaria em 1991 novamente obtendo pouca audiência.
Em 1972, a radionovela foi adaptada para o cinema, nesse filme Jerônimo foi interpretado por Adolpho Chadler (que além de atuar foi diretor e produtor do filme).

Livro infantil Moira

Eu sempre soube que teria uma filha chamada Moira. Em 1997 (três anos antes da Moira verdadeira nascer) escrevi um texto sobre uma menina chamada Moira e seu gato procurando pelo sentido na vida – em sua busca eles encontram um leão, um palhaço e uma mula sem cabeça.
Sim, era uma história surreal.
Quando a protagonista finalmente nasceu, resolvi publicar o texto na forma de livro. O amigo Jean Okada se ofereceu para fazer as ilustrações, que ficaram belíssimas. Mas publicar livro colorido no Brasil é cilada, Bino. Os custos gráficos são altíssimos para esse tipo de publicação.
Assim, acabei lançando na forma de e-book, disponibilizado pela Virtual Books. O livro foi baixado por milhares de pessoas (em uma estatística que me enviaram na época, o total de leituras de meus livros lançados pela Virtual Books chegou a superar a casa do um milhão). O livro até hoje está disponível no endereço: http://www.virtualbooks.com.br/v2/ebooks/pdf/00841.pdf

sábado, setembro 26, 2020

Como era o bunker de Hitler?


O bunker, um abrigo subterrâneo, foi o local em que Hitler passou os últimos dias da II Guerra Mundial. O bunker tinha 16 ambientes, incluindo dormitórios, salas de lazer e refeitório. Havia também uma ala que servia de hospital militar e outra que servia de refúgio para desabrigadas e grávidas. O projeto original incluia torres de vigia e guaritas, mas em 1945, quando os soviétivos tomaram o abrigo, essas partes ainda não haviam sido construídas.
O local ficava 12 metros abaixo do solo e tinha 250 metros quadrados. Havia tuneis que permitiam chegar ao metrô de Berlim, caso fosse necessário escapar por ali.
Hitler passou seus últimos dias nesse comando, comandando os poucos exércitos que ainda lhe eram fiéis ou que não haviam se entregado aos aliados. Os aliados sabiam da existência do bunker, mas não conheciam detalhes.

Foi no bunker que Hitler cometeu suicidio, com um tiro, no dia 30 de abril de 1945. muitos oficiais seguiram seu exemplo. Os que não queriam morrer fugiram pelos túneis. Logo a notícia da morte do ditador se espalhou entre os soldados alemães que ainda resistiam. No dia 2 de maio o Exército Vermelho ocupou o bunker. O primeiro-tenente Ivan Klimenko foi o primeiro a entrar no local. Por esse gesto, foi nomeado herói da União Soviética. 

Wolverine: escolhas malditas


Na década de 1990, o sucesso da coleção Graphic Novel fez com que a Abril lançasse uma coleção dedicada apenas à casa das idéias: a Graphic Marvel. O número 11 dessa série trouxe uma história do Wolverine com roteiro de Tom DeFalco e desenhos de John Buscema.
A história se passa no Havaí. Um poderoso traficante podófilo cria um harém de meninos. Um deles escapa e tenta matar o traficante. É quando seu caminho se cruza com o carcaju. É uma história de vingança, com Logan tentando vingar o menino, morto pela máfia, e libertar seu irmão, ainda nas garras do traficante. Para complicar as coisas, Nick Fury está na jogada, negociando um acordo de delação premiada (o que vai colocá-lo em rota de colisão com o mutante).
Só o desenho de John Buscema já vale o volume. Mas o roteiro de DeFalco não faz feio. Ao optar por fazer o texto em primeira pessoa, ele aprofunda a personalidade do herói e suas motivações. É também um texto direto, visceral, como o personagem.
A história é de 1991 e foi publicada em 1992. Pena que logo depois os quadrinhos de super-heróis americanos seriam dominados por um período caracterizado por personagens vazios. E pena que o Wolverine tenha se tornado um dos símbolos dessa época. Por isso, histórias como essa graphic sejam tão interessantes – pelo contraste com o que viria depois.

História universal da infâmia


Infâmia, segundo o dicionário: ação ou ato infame. Desonra, ignômia, torpeza.

É justamente casos de desonra, ignômia e torpreza que Jorge Luis Borges pretende coletar no livro “História Universal da Infâmia”, relançado este ano pela editora Globo.

A origem do volume remonta a 1933, quando Natalio Botana, para escândalo dos jornais sérios, lançou o periódico “Crítica”, de orientação sensacionalista. Como os concorrentes tinham seus cadernos literários, o Crítica lançou a revista Multicolor de los Sábados.

A revista, belamente ilustrada, misturava literatura com jornalismo marrom na tentativa de agradar ao paladar da massa.

Borges, convidado a colaborar, teve de adequar sua prosa a essa demanda. O resultado foi uma mistura de jornalismo com literatura, de fatos reais com imaginários, ao estilo do que fazia Edgar Allan Poe.

História universal da Infâmia reúne histórias de ladrões, piratas, assassinos e mentirosos. Mas não se engane: Borges consegue fazer dessas histórias, típicas do jornalismo marrom (que um intelectual brasileiro definiu muito bem com a frase “se espremer sai sangue”) verdadeiras obras de arte da literatura do século XX.

As histórias prendem o leitor pelo inesperado.

É o que ocorre, por exemplo, com “O Atroz Redentor Lazarus Morell”. Morell era um pilantra, líder de uma quadrilha que estendia sua atuação por vários estados dos EUA no século XVIII. Sua riqueza vinha de um estratagema simples: ele e seus comparsas convenciam os negros a fugirem das fazendas e lhes providenciavam os meios para a fuga. Quando o negro fugia, ele o pegava e vendia para outro fazendeiro. Era uma mina de ouro.

Morell era tão infame que costumava fazer pregações religiosas que entretiam toda a população de uma cidade enquanto seus comparsas roubavam os cavalos da audiência.

Outra história absolutamente inesperada e que dá o tom do volume é “O Impostor Inverossímil Tom Castro”.

Em 1854 naufragou no Atlântico o vapor Mermaid, que ia do Rio de Janeiro a Liverpool. Entre seus passageiros estava o militar inglês Roger Charles Tichborne. A mãe, recusando-se a acreditar na morte do filho, passou a publicar nos principais jornais do mundo anúncios pedindo informaçòes sobre o mesmo.

Tom Castro, um marinheiro inglês filho de açougueiro resolveu se passar por Tichborne. Não poderia existir duas pessoas mais diferentes. Enquanto Tichborne era alto, magro, tez morena, cabelo negro muito liso, e falava com sotaque francês, Tom de castro era baixo, gordo, sardento, cabelos encaracolados castanhos e não falava uma vírgula de francês.

Ainda assim, Castro conseguiu enganar a mãe do militar e grande parte da sociedade inglesa da época. O argumento é que a diferença entre os dois era tão grande que ninguém seria tão doido de se passar por outro sem nem ao menos tentar alguma alteração física. Portanto, aquela criatura completamente diferente só poderia mesmo ser Tichborne mudado pelos ares do Brasil.

Histórias como essa triscam no burlesco. Outras são impressionantes, como “O Tintureiro Mascarado Hakin de Merv”. Nela, um profeta aparece com uma cabeça de boi cobrindo o rosto e argumenta que foi visitado pelo anjo Gabriel, que lhe alterou o rosto de tal forma 
que, quem o visse ficava cego com a beleza divina do mesmo.

Hakin arrebanha milhares de fiéis, cria para si um harém de 100 belas mulheres cegas e coloca em perigo o califado.

A cena em que ele é desmascarado está certamente entre as mais chocantes da literatura universal.

Borges acrescenta ao livro um índice de fontes bibliográficas. Mas apenas para enganar o leitor. A fonte do conto sobre o falso profeta simplesmente não existe, dando a entender que Borges inventou a história.

Essa, aliás, era a principal característica de Borges. Ele tinha intenção de fazer o leitor confudir realidade com ficção no que ficou, mais tarde conhecido como realismo fantástico.

Vale destacar nessa edição o cuidado gráfico que a editora Globo dispensou ao volume. O formato, menos largo que o normal, dá uma elegância indiscutível ao livro. Além disso, a capa traz uma ilustração de Will Eisner, um dos maiores desenhistas de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Não há como passar despercebido na livraria. “História Universal da Infâmia”salta ao olhos e chama nossa atenção no meio dos outros livros.

Um cuidado editorial que prestigia a genialidade de Borges, considerado por muitos, inclusive o autor desta resenha, o mais importante escritor do século passado.

Para os leitores brasileiros o livro tem uma atração a mais: o conto “A História dos Dois que Sonharam” que inspirou Paulo Coelho a escrever “O Alquimista”. 

O mundo como relógio

Durante séculos, a visão dominante sobre o universo era de que este se tratava de uma máquina. Essa ótica mecanicista remonta a vários pesnsadores, entre eles Galileu Galilei, Roger Bacon e René Descartes.
O objetivo de Bacon era um conhecimento que pudesse ser usado para dominar e controlar a natureza. Para ele, a natureza tinha de ser acossada, obrigada a servir, escravizada. O cientista deveria extrair da natureza todos os seus segredos.
Já na época de Bacon, o surgimento do relógio mecânico provocava alterações profundas na sociedade. A maioria das cidades tinha um relógio público instalado nas praças, que passava a governar a vida de todos. Antes o tempo era visto como abundante e associado ao ciclo inalterável do solo. Com o deslocamento da economia da agricultura para a atividade comercial, a ênfase deslocou-se para a mobilidade e o tempo do relógio passou a ter grande importância.
À época de Descartes, a fabricação de relógios havia alcançado um alto grau de sofisticação e fascinava a todos por sua perfeição. Isso fez com que o filósofo comparasse o ser humano ao mecanismo do relógio: “Considero o corpo humano uma máquina (...) Meu pensamento (...) compara um homem doente e um relógio mal fabricado com a idéia de um homem saudável e um relógio bem-feito”.
A partir de então, todos os pensadores e cientistas vão utilizar o relógio como modelo da natureza. Newton irá comparar o relógio com o movimento dos planetas. Para ele, o universo era gigantesca máquina, totalmente causal e determinada. Se o mundo físico, era uma máquina, Deus era o relojoeiro, que, no início dos tempos, criou todos os átomos do universo e deu a eles suas características e regras de funcionamento. Dessa forma, a gigantesca máquina cósmica é completamente causal e determinada. Tudo o que aconteceu teria tido uma causa definida e dado origem a um efeito definido,e o futuro de qualquer parte do sistema podia – em princípio – ser previsto com absoluta certeza.
Um aspecto importante da teoria da Newton é a idéia de que o tempo é absoluto: “O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, por si mesmo, e por sua própria natureza, flui de modo igual, sem relação a qualquer coisa externa”. Em outras palavras, o tempo fluiria da mesma maneira em todos os locais do universo.
Posteriormente, com Laplace, a figura do relojoeiro se tornou desnecessária e sobrou apenas a idéia do universo como relógio.
Mas o que é um relógio? Essencialmente, é uma máquina previsível. Qualquer relógio em estado normal irá ter sempre o mesmo comportamento: os ponteiros seguirão sempre no sentido horário, o ponteiro dos segundos andará mais rápido que o ponteiro dos minutos, que andará mais rápido que o ponteiro das horas.
Para entender o relógio, basta desmontá-lo e analisar suas peças. Essa característica do relógio deu origem à idéia de “separar para conhecer”, base do pensamento cartesiano. Assim, qualquer fenômeno poderia ser compreendido pela decomposição e análise de suas partes.
Por outro lado, a visão mecanicista do universo deu origem à idéia da natureza como serva do homem. Essa postura já havia sido antecipada por Francis Bacon, segundo o qual a natureza deveria ser acossada em seus descaminhos, obrigada a servir e reduzida à obediência.Ótimo exemplo dessa visão do mundo é o mapa dos EUA: a separação dos estados é em linha reta, desconsiderando a questão geográfica. Enquanto a maioria dos países utiliza rios e montanhas para fazer essa divisão, os norte-americanos fazem a divisão utilizando a lógica cartesiana de forçar a natureza a se curvar diante de seus desígnios.
Os habitantes de Nova York talvez tenham sido os que mais encarnaram essa postura. Ao saber que o presidente Thomas Jefferson acelerava os negócios com Napoleão Bonaparte para a aquisição do território da Lousiana os habitantes de Nova York perceberam que, com o novo território, o portão da América do Norte passaria a ser a cidade de Nova Orleãs, com clima melhor e melhor localização. Para fazer com que seu porto voltasse a se tornar importante, simplesmente fabricaram um rio ligando o oeste com Nova York.
Os ianques, então, orientados pelo engenheiro-chefe Canvass White, lançaram-se com afinco e com dinheiro na construção do "seu" rio Mississippi. Um imenso conduto, o canal do Erie, com 580 quilômetros de extensão e 72 eclusas, foi escavado a pá e picareta, rasgando a terra da periferia de Nova York - passando por Albany, Syracuse e Rochester - até Búfalo, na margem do lago Erie.
Essa era a idéia por trás dos chamados samsionistas.
O samsionismo é a doutrina originada das idéias do Conde Cláudio Henrique de Saint Simon (1760-1825), que postulava o advento de um mundo dominado pela ciência. Segundo Abbagnano (1970) Saint Simon foi o verdadeiro fundador do positivismo social,a doutrina que queria reorganizar a sociedade baseando-a na ciência e na tecnologia.
Para os samsionistas, a natureza deveria se curvar diante da vontade do homem, exemplos disso são os canais de Suez e do Panamá, realizada por samsionistas, em que a terra foi cortada para permitir a navegação entre áreas antes isoladas.
A idéia de que o homem deveria respeitar a natureza é muito recente e marca a decadência do relógio como modelo de mundo. No novo modelo, as coisas são vistas pelas suas relações entre si e os fenômenos deixam de ser vistos como deterministas. A natureza, e especialmente, a natureza humana, não é um relógio cuja análise das peças permite a previsão de seus movimentos futuros.
Autores como Edgar Morin e Fritjof Capra são alguns dos novos pensadores que combatem a visão mecanicista do mundo, defendendo a idéia de que os fenômenos são partes de sistemas, portanto, inter-relacionados.
Em um exemplo do filme O ponto de mutação (baseado na obra de Capra), a visão sistêmica veria a árvore não de maneira isolada (como o faz a ciência clássica), mas por suas trocas sazonais entre com a terra, o céu e os animais. Um pensador com o novo paradigma veria a árvore em sua relação com toda a floresta. Veria a árvore como lar dos pássaros e habitat de insetos. Para quem analisasse a árvore como algo isolado, não haveria sentido na árvore produzir tantos frutos, já que somente uma mínima parcela deles dá origem a frutos. Mas em uma perspectiva complexa, a abundância de frutos faz sentido, pois esses servem de alimentos para centenas de animais, que por sua vez se encarregam de espalhar as sementes das árvores pela floresta, perpetuando as espécies vegetais.