sexta-feira, junho 26, 2026

A terrível vida real de Tom Strong

 

A terrível vida real de Tom Strong é o primeiro volume da série lançada pela Panini escrita e desenhada exclusivamente por convidados. Escritores e artistas receberam uma tarefa inglória: igualar a fase de Alan Moore, explorando aspectos ainda não explorados na série. 
O resultado é irregular. 
No geral, as histórias seguem uma média. Mas dois se destacam, por motivos diversos. 

Ed Brubaker imagina uma realidade na qual Tom Strong não é um herói. 


Steve Aylett e Shawn McManus fazem a pior história da revista. Mal-ajambrada, muitas vezes sem sentido e distantes da proposta do personagem. Personagens irreais surgem do nada e não há preocupação em se criar verossimilhança para eles. Parece alguém tentando imitar Grant Morrison na Patrulha do Destino, mas com o personagem errado.
O melhor exemplo é a história que dá título ao volume, escrita por Ed Brubaker e com desenhos Ducan Fegredo. Nela, usando um artefato maia, um vilão consegue criar uma realidade em que Tom Strong não existe - e o herói se torna um simples operário em um mundo decadente, sujo, repleto de políticos corruptos. É o tipo de história que se encaixa no personagem e a sacada irônica do final é realmente genial.

Mazagão - Ilustração de Natália Muniz

 


Natáia Muniz, embora ainda seja nova, é um dos grandes nomes dos quadrinhos e das arte plásticas amapaenses.

No livro Mazagão ela ilustrou uma história policial que se passa durante a festa de São Tiago.

Normalmente, nas histórias policiais, o grande desafio é saber quem cometeu o crime. Aqui o leitor já sabe, de cara, quem é o criminoso. O desafio é descobrir porque ele cometeu o assassinato, e como ele conseguiu a arma do crime.

Para desvendar esse mistério, o leitor só conta com os depoimentos das testemunhas ouvidas pela polícia. É um conto quebra-cabeça, em que você precisa ir encaixando as peças não só internas, mas também dos outros contos, para entender tudo que está acontecendo, uma vez que todas as histórias do livro são interligadas.

Natália fez um belíssimo trabalho, capturando com perfeição todo o drama sintetizado no antagonismo entre o soldado moro e o soldado cristão na encenação da festa de São Tiago.



Para adquirir o livro Mazagão, escreva para profivancarlo@gmail.com. O valor é 30 reais mais frete de 9 reais. 

Guia de viagem: Salvaterra e Soure

 

Salvaterra e Soure são duas cidades turísticas da região do Arari, na ilha de Marajó. As duas cidades se destacam principalmente pelas belíssimas praias, destino de turistas do mundo inteiro. 

Outra atração é a culinária: o queijo de leite de búfala produzido nessa região é premiado internacionalmente. Além doce de leite é um dos melhores que já experimentei. Além disso, em todas as praias é possível apreciar deliciosos pratos com peixe.  

A região é próxima de Belém, de modo que a viagem de lancha demora aproximadamente três horas. A lancha sai do terminal hidroviário de Belém e conta com ar condicionado e lanchonete. A passagem custa em média 50 reais o trecho. Para quem vai de moto ou carro, o caminho é pegar a balsa no porto de Icoaraci, pela empresa Banave. 

Nós já fomos três vezes e nas três ficamos em Salvaterra, na pousada Açaí, um dos que têm preço mais em conta. O taxista que nos levou disse que era o mais distante da praia, mas como a maior parte da praia é composta de pedras, inviável para banho, a distância do Açaí para a parte boa da praia é praticamente a mesma dos outros hoteis. 

Em Salvaterra, além da praia da orla da cidade, conta com as praias de Joanes e de Água Boa. 

Em Soure, as atrações são as praias do Pesqueiro e Barra Velha. Se decidir se hospedar em Salvaterra, a travessia para Soure é feita através de pequenos barquinhos que saem o tempo todo. É necessário pegar um taxi até o porto e depois do centro de Soure para as praias. Quando fomos, o próprio pessoal do hotel fez o translado até o porto e em Soure combinamos com um taxista, que nos levou até a praia do Pesqueiro, combinamos o horário, ele foi nos buscar e nos levou até a praia da Barra Velha, indo nos pegar de volta no final do dia. É um roteiro que vale a pena, pois as praias são muito bonitas. 

Logo que chegamos, um taxista de Salvaterra ofereceu nos levar para as praias de Soure e cobrou 300 reais. Não vale a pena. Esse foi o valor total que gastamos, incluindo comida. 


Salvaterra


Um passeio obrigatório é no lombo do búfalo. 


A praia da Água Boa tem paisagens belíssimas. 
Uma dica na praia da Água Boa é comer o peixe com queijo do marajó. O prato individual custa 40 reais. 

Salvaterra tem uma particularidade: uma rua com uma árvore no meio. 


Retrô café é um bom local para lanchar. Eles também servem refeições. Fica no centro da cidade. 


Soure 


A travessia de Salvaterra para Soure é feita em pequenos barcos. 

A praia do Pesqueiro é uma das mais frequentadas da região. 


A Praia do Pesqueiro é caracterizada pelas barraquinhas com telhado de palha. 
Peixe frito é a especialidade dos restaurantes. 


A praia da Barra Velha é caracterizada por árvores com raízes expostas. 


Na cidade de Soure uma boa dica é a Fazendinha Buba. Não deixe de experimentar a tapioca ou pão com queijo do marajó. 

The Rain, a série

 


Uma chuva espalha uma doença mortal. Dois irmãos sobrevivem em um bunker durante seis anos. Quando saem encontram um mundo devastado, em que pessoas são capazes de matar por um pouco de comida. Essa é a premissa da série original Netflix dinamarquesa The Rain, uma das mais instigantes da atualidade.
Confesso que comecei a assistir pela semelhança com a história em quadrinhos El eternauta, do roteirista argentino Hector Oesterheld (na HQ é a neve que mata as pessoas), mas logo ficou claro que a série tinha vida e estilo próprios, embora reverbere muitos outros trabalhos.
Há uma série pouco conhecida da década de 1970 chamada Logan´s run, no qual sobreviventes de uma guerra nuclear vivem em uma redoma governada por robôs. Os protagonistas são um casal que descobre que a comida fornecida na redoma é, na verdade, a carne das pessoas que completam 30 anos que eram “renovadas” em um ritual. A série é um road movie com o casal à procura de um local paradisíaco enquanto é perseguido por guardas enviados pelos robôs. Cada episódio apresentava uma situação enigmática, estranha, que, ao final se revelava um terrível perigo para os protagonistas. Era uma espécie de “sendo de msitério” aplicado a um mundo pós-apocalíptico. 
The Rain tem exatamente essa pegada de “senso de mistério”, como nas séries da década de 1970. Mas ao contrário daquela época, agora o mistério de cada episódio se une a outro, em um grande quebra-cabeças. Outras séries já usaram recurso semelhante, como Lost, mas aqui parece que os roteiristas sabem onde querem chegar.
Além disso, o grupo de sobreviventes é cativante por sua variedade e até mesmo anormalidade, um grupo que jamais estaria unido se não fosse naquela situação.
Embora possa parecer pouco empolgante no início, The Rain vai conquistando o expectador. Quando ele chega ao sexto episódio, Tenha Fé, já está viciado. Esse é o episódio de maturidade do seriado, o mais instigante, com a pegada de seriado da década de 1970, aquele em que o “senso de mistério” alcança seu auge. É também o mais cruel ao mostrar o que pode se tornar o ser humano numa situação extrema.
Dificilmente The Rain vai ser uma série de grande sucesso, como La Casa e Papel, mas certamente vai se tornar cult. Espera-se, no entanto, que tenha expectadores o suficiente para uma segunda temporada na Netflix.

Fundo do baú - Capitão Planeta

 


Capitão Planeta (Captain Planet And The Planeteers, no original) surgiu em 1990 com o objetivo de trazer uma consciência ecológica às crianças e jovens. Criado pelo produtor  Ted Turner, o desenho mostrava cinco jovens, cada um de uma etnia diferente, e cada um dos quais dotado de um anel que lhe dava um poder. Assim, tínhamos Kwame, originário da África, que dominava os poderes da terra; o norte-americano Joey Wheeler, que dominava o poder do fogo; Linka, da União Soviética, que dominava o vento; Gi , da Ásia, que dominava a água e o índio caiapó Ma-Ti, dono do anel do coração (cujo poder incluía, por exemplo, tornar as pessoas mais bondosas).

As crianças haviam recebido seus anéis de Gaia, um espírito da Terra e protetora do planeta. Gaia estava preocupada com a devastação da floresta, a poluição e tudo que pudesse causar estragos naturais.

Ao juntarem seus anéis as crianças podiam invocar um super-herói, o Capitão Planeta, que geralmente aparecia nos momentos mais decisivos. A cena em que eles evocavam o herói era antológica, com os garotos erguendo os punhos e gritando: “Terra, fogo, vento, água, coração... pela união dos seus poderes, eu sou o capitão planeta!”.

O grupo chamado de Protetores enfrentava inimigos que representavam os perigos enfretados pela natureza, como o Porco Greedly, que adora consumir recursos essenciais, Drª. Blight, que criava novos meios de poluir o meio ambiente ou Dr. Duke Nukem, um homem revestido com pedras que usava roupas de turista havaiano e se alimentava de radiação.

Embora tivesse objetivo educativo, o desenho muitas vezes mostrava situações pouco verossímeis cientificamente falando, o que muitas vezes gerava humor involuntário. 

O episódio 14, O acidente da Usina nuclear é um bom exemplo do clima dos episódios. A história inicia numa usina nuclear e um cientista lidando com um vazamento de radiação. Ao invés de fugir do local ou tentar consertar o vazamento, ele simplesmente desliga dos alarmes porque tem que receber uma repórter e não quer que ela desconfie do problema (pouco depois ele conserta um vazamento com fita adesiva!). Mas o Duke Nukem percebe a situação e vai ao local se alimentar de radiação, o que pode provocar a explosão da usina.

Gaia chama os Protetores e pede que eles resolvam o problema. Os diálogos são usados para explicar os perigos envolvendo as usinas nucleares: “A radiação causa doenças horríveis, como por exemplo o câncer”; “O problema com a radioatividade é que você não pode vê-la ou senti-la até ser tarde demais”.

O ajudante do vilão, Roupa-de-chumbo, chega a dizer que tem medo de escuro ao ser preso dentro de uma sala escura pelos protetores e depois ainda derruba o chefe quando ele está correndo atrás dos heróis. “Não me prenda!”, grita o vilão à certa altura.  

Mistura de super-herói, humor involuntário e mensagem ambiental, Capitão Planeta agradou. Foram produzidas 6 temporadas, com 113 episódios.

Homem-aranha – As asas do Abutre

 


Quando pensamos no Abutre, o que nos vem à mente é a imagem de um idoso com asas. Mas um outro personagem empunhou o uniforme do vilão. Seu nome era Blackie Drago.

Nessa época o vilão estava preso. Drago faz com que ele sofra um acidente na oficina. Achando que irá morrer, ele aceita a proposta do companheiro de prisão e explica o local onde deixou seu uniforme reserva e lhe pede que se vingue do Homem-aranha.

O novo vilão chega a derrotar o Homem-Aranha. 


A história é um bom exemplo de como Stan Lee entremeava tramas e subtramas, garantido que os leitores se mantivessem sempre interessados no título. Blackie Drago surge no número 48 de The Amazing Spiderman, mas a história era continuação de uma trama anterior, centrada em Kraven, que se iniciaria no número 47.

Os dois vilões, Kraven e o novo Abutre acabam se encontrando e ambos lutam contra o aranha, Kraven por glória e o abutre para se livrar de alguém que pode impedir sua vida de crimes.

No final o herói enfrenta Kraven e o novo Abutre. 


Essas duas tramas vão se fechar no apoteótico número 49, quando os dois vilões e o herói aracnídeo se enfrentam numa exposição que simula a selva africana.

Além dos antagonistas humanos, o herói enfrenta um antagonista microscópico: uma virose, que faz com que ele fique febril e perca boa parte das forças. Mais uma vez Stan Lee usando a velha fórmula de colocar o protagonista em maus lençóis como forma de manter o interesse do leitor. 

Roteiro para quadrinhos: Análise da história Castelos de areia

   A revista Kripta foi uma das melhores já lançadas no Brasil. Lançada pela RGE na década de 1970, ela reformulou a forma como se via o terror e fantasia até então. Antes dela, a principal referência eram as ótimas, mas já defasadas, histórias da EC Comics. Embora a revista origina (Eerie)l tenha surgido nos EUA imitando as histórias da EC, logo ela encontraria o seu próprio caminho ao publicar trabalhos mais autorais. O auge foi quando entraram os artistas espanhois e filipinos. As histórias inclusive se tornaram mais filosóficas e texto e desenho alcançaram um nível poucas vezes igualado nos quadrinhos.

Exemplo disso é a história Castelos de Areia, de Gerry Boubreau e José Ortiz (publicada na Kripta especial 1), que analiso abaixo.
Em tempo: essas histórias estão sendo relançadas em álbuns pela editora Mithos.
Castelos de areia é uma típica narrativa paralela. Nessa primeira página acompanhamos o primeiro nível dessa narrativa. Uma mulher foge para dentro de uma caverna. O texto está em terceira pessoa e tem como objetivo criar a sensação de terror, medo, angústia. Reparem nas metáforas: O túnel é frio como o útero de uma mãe morta, as paredes são enrugadas como as de um velho índio. A referência a ratos e vermes tem o mesmo objetivo. Trata-se aqui de um texto de ambientação, cuja função é colocar o leitor dentro da história, situá-lo tanto geográficamente quanto em nível de percepção que se espera dele. Nessa mesma página conhecemos um pouco mais sobre a personagem que corre e suas motivações: Ela é uma crente e está indo para o lugar onde se escondem os últimos crentes.
Nessa segunda página chegamos ao segundo nível da narrativa, agora num mundo que aparentemente é espiritual. Uma figura que logo descobriremos ser Deus constroi castelos de areia na praia enquanto a narrativa conta um pouco de sua história. É também uma narrativa de ambientação, que avisa o leitor que o cenário mudou. Estamos agora nos domínios da fábula ou da metáfora. Como a própria narrativa é metafórica (percebemos que Deus tem vários rostos e que morre a cada vez que morre um crente), o texto evita as metáforas, sendo mais objetivo.

Essa terceira página, intitulada "Lição rápida de história antiga" tem exatamente esse objetivo: situar historicamente o leitor, explicando como e porque começou a perseguição aos crentes. O leitor poderia ter começado por aí, já que esse é o ponto cronologicamente mais antigo, mas optou por um flash back para tornar a história menos linear. Uma estratégia interessante foi colocar o singular no meio do universal: no meio da narrativa mais geral, é contada  a história da jornalista que acusa o guarda de segurança. Essa é uma tática muito usada por Alan Moore, em Monstro do Pântano por exemplo, e ajuda o leitor a entender melhor os fatos mostrados.  Apenas com esse quadro sabemos que o nível de paranoia chegou a tal ponto que qualquer acusação poderia levar uma pessoa à morte. Aliás, um curioso paralelo com a inquisição espanhola. 

Voltamos para a narrativa da caverna da crente Marti. Destaque agora para o aprofundamento de relações entre Marti e Loz. O desenho ajuda muito nesse sentido. Quando o texto fala dos sentimentos de Marti, ela está em primeiro plano e Loz em segundo. Quando descobrimos os sentimentos de Loz, ele está em primeiro plano e Marti em segundo plano. Detalhes como o fato de Loz gostar de fazer amor ao ar livre dão mais verossimilhança à trama e são um ponto a mais para que o leitor acredite na história. 


Chegamos a mais um nível de narrativa (até agora já são 4 narrativas paralelas). Agora acompanhamos os policiais que irão exterminar os crentes. O texto fala sobre os personagens traidores diferenciando-os em termos de personalidade. Bosco trai os crentes por dinheiro, Reutman por ambições políticas. Interessante a metáfora no último quadrinho: as pegadas de Reutman são como pústulas na neve virgem. Como os quadrinhos são a arte da síntese, a boa escolha de palavras, de forte impacto, é de importância fundamental.
Voltamos para o nível de narrativa do planeta de deus, chamado na história de Janus Kah. Interessante que o texto procura  explorar o lado humano de Deus. Na mesma página, temos a quinta narrativa, sobre o presidente e a ironia aí é que o Presidente é mostrado como menos humano do que Deus. Mais uma ironia: a morte do último teísta pode ser o fim do Presidente.  

No primeiro quadro o texto repete duas vezes a palavra "leite": "A polícia se espalhou como leite derramado e Reutman parecia leite...". Não sei se foi erro de tradução, já que o roteirista até então havia sido bastante cuidadoso com o uso de palavras. Usar leite duas vezes como metáfora parece ser o ponto mais fraco da história. Em compensação, no quarto quadrinho, um texto bastante criativo: "Mais tarde, Marti estava rezando e Reutman atirou a faca. A prece e a lâmina ficaram em sua garganta". No final, a narrativa volta para o Presidente, agora apreensivo e torcendo para que pelo menos dois crentes escapem.

Última página da história. Com a morte da última crente, morre a última face de Deus. Interessante que a posição de Marti é parecida com a de Janus Kah para deixar bem clara essa relação. No último quadro, mais uma metáfora interessante: "Tudo que resta da passagem de Deus é a marca de sua mão. Terminados os castelos, o mar olha para ela, sofregamente". Castelos de areia é uma metáfora conhecida de sonhos (Fulano vive fazendo castelos de areia) e essa relação fica bem clara nesse último quadro. No trecho "O mar olha para ela..." temos a personificação, uma figura de estilo em que coisas ganham sentimentos ou características humanas e mostra o domínio que o roteirista tem da uso da linguagem. 
Domínio da linguagem e domínio da narrativa: Gerry Boubreau transformou uma história simples sobre uma perseguição em uma trama interessante, complexa, pela alternância de pontos de vista e narrativas. E fez isso sem prejudicar a compreensão da história.

Cobra Norato de Augusto Morbach

 


Uma das grandes influências para a escrita do meu livro Cabanagem foi o pintor Augusto Bastos Morbach.
Nascido em Goiás, ele se mudou ainda criança para Marabá, no Pará onde começou a pintar. O poeta Líbero Luxardo o convidou a ilustrar um livro de poemas escritos por ele e essas ilustrações fizeram com que Morbach ficasse conhecido em Belém, para onde se mudou para trabalhar exclusivamente com pintura, ilustrações e jornalismo. Tornou-se um dos grandes nomes das artes plásticas do Pará.
No dia 1º de abril de 1990 o jornal O Liberal reservou a capa do Caderno Dois para uma história em quadrinhos que o artista tinha produzido em 1964 sobre a cobra Norato. Era um quadrinho estilo Princípe Valente, com os textos separados da imagem, mas me magnetizaram.
O texto era incrível e mágico e as ilustrações capturavam todo o clima de terror e encantamento da lenda. Eu recortei essa página e guardei durante anos, sabendo que um dia eu iria usar em uma história.
Para quem quiser saber mais sobre o artista, existe uma página no Facebook em homenagem a ele: https://www.facebook.com/AugustoBastosMorbach/

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Perry Rhodan 247 – O Senhor dos Androides

 


Existem alguns números da série Perry Rhodan que apresentam premissas fascinantes e teriam tudo para ser leituras memoráveis, mas que acabam naufragando pela falta de habilidade do autor. É exatamente o que ocorre no volume 247, escrito por H.G. Ewers.

Ewers acerta ao focar boa parte da narração no alienígena Baar Lun. Sequestrado pelos Senhores da Galáxia, Lun é obrigado a produzir androides semivivos, armas biológicas usadas para aniquilar planetas inteiros. O dilema é cruel: se ele não obedecer, seu povo será exterminado.

O planeta Módulo é o centro de produção desses monstros. Por puro instinto, Rhodan decide não destruí-lo de imediato, optando por enviar uma equipe de reconhecimento que, previsivelmente, acaba ficando isolada e presa no local. A partir daí, a história se divide em duas frentes: os terranos tentando sobreviver a ataques de milhares de androides e a narrativa de Baar Lun. É por meio deste alienígena que conhecemos a história de seu povo, banido pelos Senhores de Andrômeda e dividido entre o Mundo dos Cantos (Gleam) e o planeta gelado Módulo.

A capa original alemã. 

Gucky é enviado com a missão de resgatar os terranos, mas decide também convencer o Senhor dos Androides a colaborar com Rhodan. Aqui, a narrativa se torna excessivamente providencial: Ewers decide que todo o povo de Lun foi exterminado pelos Senhores da Galáxia sem qualquer explicação lógica. Esse recurso soa como puro deus ex machina, servindo apenas para vilanizar ainda mais os antagonistas e dar a Baar Lun um motivo imediato para mudar de lado.

Nesta fase da série, K.H. Scheer era o responsável por planejar o ciclo e fornecer resumos estruturais para cada volume. O problema é que Ewers parece ter pego esses resumos e simplesmente despejado os fatos no papel, sem preparo ou transição.

Um exemplo gritante é o conhecimento de Gucky: o rato-castor precisa saber que o produtor dos androides age sob coação? Ewers o apresenta já munido dessa informação, sem mostrar o processo de leitura mental ou a investigação necessária. Da mesma forma, se a sinopse previa que um membro da expedição teria alucinações com um cristal, o autor o lança diretamente no delírio, sem explicar a origem do objeto ou como ele levou o personagem a alucinar.

Essa negligência em preparar o leitor para os acontecimentos retira o impacto emocional da obra. O resultado é uma leitura em que nos sentimos perdidos, transformando o que deveria ser uma aventura prazerosa em um amontoado de fatos desconexos.

quinta-feira, junho 25, 2026

O Super-homem

 

Na década de 1930 dois jovens judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster andaram por quase todas as editoras e sindicates da época tentando vender um personagem que haviam criado. Todo mundo achava que o personagem era irreal demais e dificilmente venderia bem. O nome desse personagem era Super-homem, um dos maiores sucessos dos quadrinhos de todos os tempos.

O personagem havia surgido em um fanzine de ficção-científica editado por Siegel, o Science Fiction. Era um homem pobre, escolhido na fila para sopa e submetido a uma experiência científica que lhe dava poderes de ouvir o pensamento das pessoas e comandar seu comportamento. Graças a esses poderes, ele se transforma no governante despótico do mundo. Ou seja, inicialmente, o Super-homem era um vilão.

Com o surgimento das revistas em quadrinhos baratas (que no Brasil foram chamadas de gibis), Siegel percebeu ali um mercado e decidiu transformar seu personagem em um herói, aos moldes de Doc Savage, herói da literatura pulp.

O super-homem unia todos os elementos da cultura pop norte-americana: o valentão bonzinho batendo nos malfeitores (como nos pulp fiction), a malha colante dos fisiculturistas da época e a dupla identidade.

Conta a lenda que numa noite abafada de verão, Siegel não conseguia dormir e passou insone, pensando em seu personagem. De quando em quando ele se levantava, tomava água e fazia anotações. Quando amanheceu, ele já tinha o personagem estruturado, com sete semanas de história.

A história não é bem assim. Na verdade, o Super-homem foi sendo estruturado com o tempo, de acordo com as diversas recusas dos editores. Os dois quadrinistas chegaram até a fazer uma versão mais hard, para uma revista masculina.

Os sindicatos de distribuição, editoras e até estúdios (como o de Will Eisner, que posteriormente iria criar o ótimo Spirit) recusavam a tira com observações do tipo “Trabalho imaturo” ou “Prestem mais atenção ao desenho”.

Quando a National precisou de uma história pronta para colocar em uma nova revista que estavam lançando e que precisava estar nas bancas o quanto antes, Sheldon Mayer se lembrou do Super-homem que estava na pilha de materiais rejeitados. Não se sabe se foi uma antecipação do sucesso ou se era simplesmente a coisa que estava mais à mão, mas o fato é que a editora mandou uma carta com os originais para os dois rapazes dizendo que se eles conseguissem transformar aquelas tiras em uma história de 13 páginas o quanto antes, eles a comprariam.

Assim, Action Comics estreou no dia 1 de junho de 1938, tendo o Super-homem na capa, na sua pose clássica, segurando um carro acima dos ombros, para espanto de bandidos que fogem desesperados. Era um trabalho grosseiro, como se diversas histórias estivessem coladas sem muito nexo, mas mesmo assim provocou uma revolução no mercado. Não era só o heroísmo, mas também o humor. Em uma seqüência, o Super-homem corre por fio de alta tensão, levando um bandido consigo. “Não se preocupe. Os passarinhos ficam nos cabos telefônicos e não são eletrocutados – desde que não toquem num  poste telefônico! Opa! Quase bati naquele ali!”. Era algo novo: um herói fazendo piada. Isso conquistou os garotos.

A revista começou a vender horrores. Os donos da editora National mandaram algumas pessoas perguntarem nas bancas o que estava provocando o sucesso do gibi e o que ouviram foi: “As crianças querem mais desse herói”.

Conforme aumentava a popularidade do herói, aumentavam também seus poderes. No começo, ele apenas dava saltos enormes, mas logo estava voando. No começo ele era imune a balas (famosa a cena em que bandido atiram e as balas ricocheteiam em seu peito), mas logo ele já era capaz de agüentar até uma bala de canhão. Em uma história o herói foi obrigado a entrar telhado a dentro porque suspeitava que numa casa se escondia um bandido. Para evitar que novos telhados fossem danificados, foi inventada a visão de raio x.

Se por um lado ele era o herói mais poderoso da Terra, por outro lado, em sua identidade secreta, ele era Clark Kent, um repórter bobalhão que era sempre passado para trás pela colega Lois Lane. A diferença entre eles era de apenas um óculos, mas mesmo assim Kent conseguia enganar a todos. Alguns roteiristas acreditaram que o alter-ego de Super-homem fosse mesmo um bobalhão, mas trabalhos mais recentes, como de Grant Morrison em All Star Superman mostram que na verdade, ele apenas se faz passar por bobalhão.

Essa falsa dualidade Super-homem x Clark Kent permite um processo de identificação e projeção. O leitor se identifica com Clark Kent, mas se projeta no super-herói e suas realizações.

Com o tempo foram adicionados novos elementos à mitologia do personagem. Surgiu a kriptonita para contrabalancear os poderes cada vez maiores do personagem. A kriptonita verde pode até matar o herói. Já a vermelha tem efeitos imprevisíveis, podendo transformar o herói até mesmo em um monstro. Foi criada uma fortaleza da solidão, no pólo Ártico, um local em que o personagem guarda recordações de seu mundo e de suas aventuras.

Com o tempo, ficou claro também que um personagem tão poderoso não poderia combater reles marginais e surgiram os super-vilões, como Lex Luthor, Bizarro e Brainiac.

Hulk – Ele voltou!

 


Um dos aspectos mais interessantes da fase de Peter David no golias esmeralda é a noção de que o Hulk é uma das facetas da personalidade de Bruce Banner, que, graças a traumas de infância desenvolveu múltipla personalidade. A capa de The incredible Hulk 372 exemplifica bem isso, ao mostrar o Hulk verde irrompendo uma imagem composta por Banner de um lado e pelo Hulk cinza do outro.

Na história, Bruce Banner está à procura de Betty Ross, que se recolheu a um convento ao ser informada que seu amado aparentemente morreu.

O Hulk verde aparecendo pela prmeira vez no traço de Dale Keown.


O roteirista Peter David manipula bem todos os elementos do roteiro e cria uma “comédia de erros” que serve aqui ao drama. Banner entra no convento e faz-se passar por um padre num confessionário para ouvir a confissão de Betty. A confissão é interrompida pela descoberta de que o padre verdadeiro sofreu um acidente e a confissão fica pela metade, fazendo o herói acreditar que sua amada está feliz no convento e não quer mais a vida ao lado de um monstro. Na verdade, o que ela iria dizer é que, embora estivesse feliz no convento, seu lugar não era ali.

Enquanto isso, o carro extremamente tecnológico caça Bruce Banner, o que torna tudo ainda mais eletrizante.

Um dos aspectos destaque dessa história é que nela Dale Keown desenha o Hulk verde pela primeira vez. O personagem aparece em toda a sua ferocidade numa belíssima e impressionante splash page.

No Brasil essa história foi publicada pela editora Abril em O incrível Hulk 130.