sexta-feira, agosto 14, 2026

Oliver Twist

 


Já vi gente dizendo que queria ser roteirista de quadrinhos, mas não lia, ou lia apenas quadrinhos e, pior, só lia quadrinhos de super-heróis, ou só manga. Não é possível escrever, o que quer que seja, com o mínimo de competência, sem ser um leitor voraz, inclusive de livros.

E, entre todos os livros, existem aqueles que são leitura obrigatória por terem definido formas de narrativa. Entre eles, Oliver Twist, de Charles Dickens. O livro foi publicado em capítulos em jornais no ano de 1837, quando o autor tinha apenas 25 anos reflete a vida do próprio Dickens, cuja família passou necessidades na época em que seu pai foi preso por dívidas e os filhos tiveram que trabalhar.
O livro se passa em plena era vitoriana, quando o império britânico era o maior e mais poderoso do mundo. Mas todo esse poder e riqueza não se refletia sobre a população, que, em grande parte vivia na miséria. As péssimas condições de vida da época da são demonstradas na figura de um pequeno órfão, Oliver Twist, cuja mãe morreu de seu parto e passou a ser criado em um orfanato onde passava fome e era submetido a maus-tratos. Seguindo a ideologia científica da época, muitos dizem que Oliver, por ser filho de uma mulher sem virtudes, se tornará um ladrão e acabará na forca.
Uma das cenas mais antológicas do livro e certamente a de imagem mais forte, é a do refeitório, no qual as crianças, ao perceberem que vão morrer de fome, sorteiam um deles para pedir mais sopa (uma papa rala de cereais com cebola duas vezes por semana). O pequeno órfão é encarcerado e a reclamação é vista como mais um exemplo de que sua inclinação ao crime o levará à forca.
Depois disso, Oliver é quase colocado como limpador de chaminés (um dos trabalhos mais cruéis executados por crianças na época, já que elas eram descidas de cabeça para baixo e muitas vezes morriam por causa da fumaça ou do fogo) e acaba como aprendiz de um agente funerário, de onde acaba fugindo depois de ser vítima de uma armação.
Em sua fuga, o pequeno Oliver acaba indo parar em Londres e mas garras de um receptador especializado em adestrar crianças na arte do roubo, Fagin, o judeu (um personagem tão forte que posteriormente Dickens teve que escrever um texto tentando desfazer o anti-semitismo que o seu romance involuntariamente provocara).
E, mesmo em meio às desgraças, Oliver mantém-se sempre honesto e bom.
O livro vale tanto pela denúncia das condições sociais da época da Inglaterra à época da revolução industrial quanto pela genialidade do autor em sua narrativa repleta de ironia. Dickens é o mestre absoluto do recurso, como se observa no trecho a seguir: “Nos primeiros seis meses, após a mudança de Oliver Twist, o sistema esteve em pleno funcionamento. Foi um pouco dispendioso, a princípio, em consequência do aumento na conta do agente funerário e da necessidade de apertar as roupas de todos os indigentes, que flutuavam soltas nas suas formas encolhidas, mirradas, depois de uma semana ou duas de papas. Mas o número de inquilinos do asilo tornou-se dessa maneira reduzido; e o conselho muito se alegrou com esse resultado”.
O esquema de folhetins, precursores das atuais telenovelas, e dos quadrinhos, já existia, mas Dickens transformou-o em verdadeira literatura numa trama repleta de reviravoltas e suspense, com um protagonista ingênuo, mas bom, que se vê envolto por um destino cruel, mas triunfa no final graças à sua pureza de caráter. Lembra muito a estrutura das telenovelas clássicas, que lhe devem muito, mas nenhuma telenovela igualou-se a Dickens na crueza das descrições, nos perfis detalhados dos personagens, na crítica social e até mesmo no poder narrativo.
A sequência em que um ladrão assassina sua consorte está entre as páginas mais poderosas já escritas em todos os tempos. Os pequenos gestos, executados instintivamente, desvelam o conflito interno do personagem de forma muito mais efetiva que vários tratados de psicologia.

Existem várias versões reduzidas do livro à venda, inclusive uma da coleção O prazer da leitura, da editora Abril, que foi vendida em bancas e pode ser facilmente encontrada em sebos. Mas se puder, leia a versão integral (é possível conseguir em sebos). A necessidade de reduzir o texto faz com que a maioria das versões condensadas deixe de lado exatamente o que Dickens tem de melhor: sua fina ironia e as descrições detalhadas de personagens e ações. Mas, se não encontrar uma versão integral, leia a versão condensada: o livro é uma aula de como prender o leitor com uma narrativa folhetinesca. 

Fundo do baú - O inspetor

 


O desenho animado O inspetor surgiu no rastro do sucesso fenomenal da Pantera cor de rosa. Produzido pelo mesmo estúdio, DePatie-Freleng Enterprises, a nova atração mostrava um azarado inspetor da polícia francesa. O personagem era parcialmente baseado no Inspetor Clouseau, interpretado por Peter Sellers, do filme A pantera cor de rosa (para quem não sabe, a pantera era uma joia no filme).

Os episódios giravam sempre em torno das trapalhadas e azares do inspetor. Em um episódio, por exemplo, ele deixa escapar um bandido e sabe que ele vai atacar o seu chefe, mas sempre que o Inspetor vai salvar o chefe, este acredita que ele está tentando na verdade matá-lo. Como resultado, toda a polícia da França passa a caçar o Inspetor.

Em outro episódio, eles precisam encontrar um agente secreto e vão parar num bar no cais do porto. A sequência começa com o Inspetor explicando para seu ajudante que aquele local é perigoso para policiais, mas, dentro do bar, ele mesmo acaba deixando escapar que são da polícia. Na sequência eles aparecem fugindo do local.

Os episódios eram todos assim, girando em torno das trapalhadas e vicissitudes do personagem, sempre com a trilha sonora marcante de Henry Mancini, o mesmo da Pantera Cor de Rosa.

O inspetor teve uma temporada com 35 episódios de 7 minutos de duração.

Guia de viagem – A rota das cachoeiras

 


A cachoeira de Santo Antônio, em Laranjal do Jari, é uma das maiores e mais belas cachoeiras do Brasil: um paredão com quedas de 30 metros de altura. Já faz tempo que queríamos conhecer o local e nosso plano era irmos de carro. Felizmente descobrimos uma agência de viagem, a Poroc Turismo, que faz excursões para o local. Um carro como o nosso dificilmente conseguiria resistir à estrada de terra e, além disso, não teríamos tantas opções de passeio.

A excursão sai de Macapá às 7 horas da manhã do sábado e volta no domingo, chegando na capital entre 8 e 9 horas da noite. Os turistas vão acomodados em duas vans e mais um carro de apoio.

A primeira atração é a Cachoeirinha, uma corredeira belíssima, que permite um banho relaxante e ótimas fotos. Vá de roupa de banho e não tire, pois depois é a vez da Cachoeira do Sucuriju. Embora seja muito menor que a Cachoeira de Santo Antônio, ela se destaca pela beleza do seu desenho, com uma pedra dividindo as águas. Também é possível tomar banho e tirar muitas fotos.  

Ainda no primeiro dia há uma visita à comunidade Água Branca do Cajari, produtora de castanha-do-pará na qual é possível comprar produtos de castanhas, como biscoitos, paçoca e doces. Outra atração é a fazenda Ouro Branco, onde há degustação e compra de queijos e iogurtes – destaque para os iogurtes de abacaxi e de coco com pedaços das frutas.

A chegada em Laranjal do Jari acontece aproximadamente às 19 horas. O pacote inclui a hospedagem no hotel. Os quartos são simples, mas confortáveis. O café da manhã é muito bem servido, com uma grande variedade de frutas, cuscuz, bolos, tapiocas, sucos etc.

O segundo dia é todo reservado a conhecer a cachoeira de Santo Antônio. O trajeto até a cachoeira é feito através de voadeiras e dura aproximadamente uma hora e meia.

No caminho há uma parada no chamado “cemitério nazista”. De 1935 a 1937, uma expedição comandada por Otto Schulz-Kampfhenkel, um jovem que agia muito mais como marketeiro do que como cientista. O pouco rigor científico fez com que houvesse a suspeita, baseada inclusive em falas de pessoas da expedição, de que o verdadeiro objetivo era pesquisar o terreno para uma invasão ou transformaria o Amapá na Guiana Alemã. Otto escreveu um livro e lançou um filme, ambos com o título de Mistérios da floresta infernal. Tanto filme quanto livro fizeram grande sucesso na Alemanha. Um dos integrantes da expedição, Joseph Greiner, morreu de malária e foi enterrado no local, onde foi erigida uma cruz. É um importante registro histórico e um aviso sobre uma época em que fascistas cobiçaram a Amazônia.

Pouco depois do cemitério nazista, temos a visita à cachoeira em si. A visão do paredão é impressionante. Até hoje só vi algo semelhante em Foz do Iguaçu. Embora a cachoeira de santo Antônio seja menos alta, ela é muito mais larga, o que torna a paisagem o local perfeito para fotos e o pessoal da excursão ajuda a registrar esse momento.

Por incrível que pareça, é possível tomar banho embaixo da cachoeira, pois um paredão de pedras criou uma piscina natural.

O retorno para Macapá acontece às 14 horas e a chegada é aproximadamente às 20 horas.

De todo o passeio, o único ponto negativo é a estrada de terra, que torna a viagem muito mais lenta e mais sofrida. Isso faz, por exemplo, com que não aconteçam excursões no auge do inverno amazônico, pois a chuva torna a estrada perigosa.

Um ponto a destacar é o guia Claudomir Fagundes, que conhece muito a região. Além de suas informações relevantes e acertadas, ele apresenta uma grande preocupação ambiental, sempre orientando os turistas a não deixarem lixo nos locais visitados e recolhendo o lixo produzido.

Enfim, esse é um passeio por um preço justo, que envolve belezas naturais, banhos e história. Perfeito para quem quer conhecer melhor esse estado tão rico de belezas.   

O passeio custa 597 reais por pessoa e inclui água durante todo o trajeto e a diária do hotel. É oferecido pela Poroc Turismo, que também oferece pacotes para outras atrações no Amapá. O contato é (96) 99118 3818.


A viagem começa com uma parada para fotos no Marco Zero do Equador construído pela Unifap. 
A cachoeirinha é um ótimo local para tomar banho. 
A água da Cachoeirinha é cristalina. 
A Cachoeira do Sucuriju se destaca pelo desenho único. 
Há uma parada na Fazendo Ouro Branco para degustar e comprar iogurtes... 
... e queijos. 
O café do hotel é bem servido. 
A viagem para a Cachoeira de Santo Antônio é feita em voadeiras. 

A viagem inclui uma parada no cemitério nazista. 

A Cachoeira de St. Antônio é um amplo paredão de 30 metros de altura. 

A beleza do local impressiona. 




É possível se banhar em uma piscina natural no pé da cachoeira. 

Conan – A cidadela no centro do tempo

 


A revista Savage Sword of Conan 7 foi totalmente ocupada por uma história longa, escrita por Roy Thomas e desenhada por John Buscema e Alfredo Acala.

A história nitidamente surgiu de uma ideia anterior de Thomas, na primeira adaptação do clássico A torre do elefante. Naquela história, Thomas colocara o deus-elefante lembrando de fatos do passado e do futuro, o que não fazia muito sentido, já que ele não tinha capacidade de vislumbrar fatos posteriores (as lembranças do passado faziam sentido, já que ele era um ser muito antigo, que tinha chegado à Terra na aurora da humanidade).

Conan se encanta com uma dançarina. 


Thomas imaginou um rei feiticeiro da Babilônia, Shamash-Shum-Ukin, que ao ver sua cidade ser conquistada, realiza um encatamento que leva ele e seu castelo para a era hiboriana. Junto com esse feitiço surge um poço no qual o feiticeiro desce coisas de sua era e recebe objetos, animais e humanos de outras eras, como homens da Idade das Pedras ou dinossauros.

Como Conan se encaixa nessa trama? Simples, em visita à cidade (com o objetivo de entrar no castelo do feiticeiro e roubar suas riquezas), Conan se encanta com uma dançarina em um bordel chamada Alhambra (alguns nomes em inglês devem parecer exóticos e interessantes, já em português...). Mas o encanto logo se transforma em decepção quando ela droga sua bebida e o leva para o feiticeiro com o objetivo de colocá-lo no poço como oferenda. Uma trama típica do cimérico, no qual não se podia confiar em pessoas da cidade.

A história traz uma interpretação única sobre eras passadas e futuras. 


Claro que Conan consegue se livrar das amarras, mas é vencido pelos homens das cavernas e logo estão ele e a garota no poço – onde Thomas pode exercitar sua verve, mostrando o passado e o futuro e mesclando épocas históricas com a cronologia de Robert. E. Howard: “A cena muda e ele vê uma terra semelhante à Stygia, mas que, certamente, se encontra do outro lado do abismo temporal. Entao, outro salto para o passado... colossais e grotescas formas de vida enfrentam-se numa batalha pela supremacia e sobrevivência numa terra muito mais jovem... e nem sonham que estão todos condenados à extinção”.

Essa trama grandiosa poderia se tornar banal nas mãos de ilustradores menos habilidosos, mas Buscema e Alcala a tornam ainda mais monumental, com destaque para as cenas em que aparece o dinossauro. 

Cidade de gelo

 


Talvez o que seja mais surpreendente em cidade de gelo, filme de  Michael Lockshin disponibilizado no Brasil pela Netflix seja descobrir que se trata de um filme russo.

Lockshin narra uma história romântica no estilo A dama e o vagabundo no melhor estilo hollywoodiano, inclusive em termos de produção (que é verdadeiramente grandiosa). Mas, no meio do conto de fadas, introduz pontadas de crítica social difíceis de serem imaginadas numa produção norte-americana.

A trama gira em torno de Matvey, um pobre patinador que é demitido de seu trabalho como entregador de tortas ao se atrasar numa entrega em decorrência da passagem da carruagem de uma dama da nobreza. Nesse meio tempo ele conhece Alex, o líder dos batedores de carteira do comércio local e passa a integrar sua gangue. Alex tem um forte discurso marxista: segundo ele, suas ricas vítimas são na verdade nobres e burgueses, pessoas que passam a vida explorando outras – e portanto, a riqueza que possuem não são de fato delas.

A trama se torna romântica quando Matvey conhece Alice, a dama nobre cuja passagem lhe custou o emprego... e os dois se apaixonam. Mas Alice está prometida por um nobre que ocupa cargo de chefia na polícia. Além disso, a moça quer seguir a carreira científica, algo totalmente reprovado por seu pai.

Segue-se uma agitada trama em que os dois tentam ficar juntos mesmo tendo contra si todas as regras da sociedade. Lembra a dama e o vagabundo, mas, pelo ritmo narrativo intenso, lembra Metrópolis, de Fritz Lang.

Cidade do gelo é um filme romântico, um conto de fadas, que funciona perfeitamente como tal. Mas entrega muito mais do que isso. A sequência incial, com o pobre Matvey patinando pela cidade e tentando entregar sua encomenda antes que a torta esfrie reflete diretamente a precarização do trabalho provocada por aplicativos de entregas (não por acaso, sua mochila é muito parecida com a usada por aplicativos). Em outra cena, Alice diz que sua família construiu um palácio, o rapaz pergunta quantos servos eles tinham, ao que ela responde, constrangida: milhares.

quinta-feira, agosto 13, 2026

Camelot 3000 – Vida longa ao rei

 

 

O capítulo 12 da série Camelot 3000 começa desesperador. Os cavaleiros da Távola Redonda haviam invadido o décimo planeta, mas a empreitada parecia destinada ao fracasso. Lancelot havia sido, aparentemente, morto por Mordred, Tristão estava sendo esganado pelo seu antigo noivo e as tentativas de invadir o palácio de Morgana pareciam destinadas ao fracasso.

Tudo parece perdido. 


Como em toda boa história, os heróis vão do fracasso ao sucesso em poucas páginas e de maneira verossímil e empolgante (não, eu não vou dar spoiler de como isso acontece). Tudo que posso dizer é que é um final à altura dessa série, tanto em termos de desenho quanto de roteiro.

Merlim é libertado - uma das cenas mais impactantes da série. 


Mas, para além da qualidade do material original, algo que chama atenção é a forma como a Abril publicou essa história em Superamigos 6, a começar pela capa, que, ao invés de usar a capa original, usa uma colagem de duas cenas internas. Curiosamente, a colagem ficou boa, já que as duas cenas escolhidas estavam entre as mais impactantes da saga.

A história recomeça em um planeta alienígena. 


No entanto, a mudança que mais chama atenção foi a supressão de trechos da história original, mais especificamente do encontro final entre Tristão e Isolda. No final, Tristão aceita seu corpo feminino e ele e Isolda têm uma noite de amor. 

O final entre Tristão e Isolda... 


A cena original já era bastante sutil, mostrando apenas as duas deitadas na cama, de roupa, e abraçadas com alguns quadros menores que insinuavam uma relação sexual, mas os editores da Abril devem ter achado que teriam problemas e simplesmente cortaram o quadro. 

... foi censurado pela Abril. 


Para isso, eles fizeram uma montagem, juntando duas páginas em uma. Posteriormente, quando a série foi lançada em uma série em três partes, a Abril publicou a história sem cortes.

Quem foi Edgar Allan Poe?

 

 

Edgar Allan Poe é um dos mais importantes escritores norte-americanos e considerado pai não só dos relatos de terror, mas principalmente das narrativas policiais. Seu poema O Corvo é considerado um dos mais importantes da literatura norte-americana. Além de ter influenciado decididamente gêneros populares, como a ficção-científica, o terror e o policial, Poe também influenciou grandes escritores, como o argentino Jorge Luís Borges.
Poe nasceu em 19 de janeiro de 1809. Era filho de atores de teatro. O pai abandonou a família e a mãe morreu de tuberculose. O rapaz foi, então, adotado por John Allan, próspero comerciante da cidade de Richmond.
Quando era adolescente, Edgar apaixonou-se pela mãe de um amigo. A paixão era correspondida, mas impossível na sociedade puritana da época. A mulher acabou se matando. Esse fato marcou definitivamente os textos do autor, que sempre tinham algo de mórbida paixão.
Poe tentou a carreira militar, mas foi expulso por indisciplina e passou se dedicar exclusivamente à literatura. A publicação de seu poema O Corvo o transformou em astro literário. Posteriormente, ele escreveu uma análise do processo de criação de seu próprio poema, inaugurando a crítica literária nos EUA.
O escritor chocou o país ao se casar com a prima Virgínia, de apenas 13 anos, que morreu jovem.
Essa sucessão de fatos tristes fez de Poe o maior representante do romantismo mal do século, especialmente nos seus contos de terror.
Poe criou um tipo de terror em que nada de realmente terrível parecia acontecer, senão no interior dos personagens. Nos seus contos não havia monstros ou demônios, exceto os do espírito, como na história O demônio da perversidade. Nesse, um homem comete um crime perfeito. Só uma coisa poderia delatá-lo: o impulso incontrolável de gritar aos quatro ventos a própria culpa.
Os personagens de Poe eram perturbados e românticos como ele mesmo: gente apaixonada e impulsionada por seus delírios depressivos. 

Jornada nas estrelas - Síndrome de imunidade

 


A premissa de jornada permitia a criação de histórias realmente criativas. Uma delas é síndrome de imunidade, episódio da segunda temporada.

Na história, a Enterprise é chamada para verificar a situação de uma nave vulcana desaparecida.

Quando chegam ao local, descobrem que não só a nave foi destruída, mas todo um sistema solar.

O responsável parece ser uma criatura imensa, que começa a puxar a Enterprise rumo à destruição.

Sondas enviadas revelam uma verdade assustadora sobre a criatura: trata se de um ser unicelular que se alimenta da energia de outros seres. Em outras palavras: é um vírus infectando o universo e pronto para se replicar.

O ponto alto do episódio é a disputa entre Spock e McCoy pelo direito de pilotar a nave auxiliar em uma missão suicida para descobrir um ponto fraco na criatura, uma situação que acrescenta uma boa dose de suspense ao episódio.

Entretanto, embora a premissa fosse genial, a solução não está à altura. A forma como eliminam a criatura é mal explicada ou simplesmente não faz sentido dentro do conceito.

Homem-Aranha encontra Kraven, o caçador

 


Kraven, o caçador tornou-se um vilões mais célebres do homem-aranha depois da história A ultima caçada de kraven, de JM De Matteis e Mike Zeck. Mas esse personagem surgiu muito antes. Mais especificamente em The amazing spiderman 15, de 1963.

Na trama, o Camaleão quase é pego pelo Aranha e decide que precisa contratar alguém para eliminá-lo. Se você não sabe quem é o Camaleão, está desculpado. Embora esse fosse um dos principais vilões do aracnídeo nas primeiras histórias, com o tempo ele praticamente desapareceu.

O Camaleão resolve contratar Kraven, que surge em Nova York como celebridade. 


O Camaleão, cujo poder estava relacionado ao disfarce, refletia: “Ele é perigoso demais para mim, e ninguém seria louco para atacá-lo para me ajudar!”. Nesse momento ele lembra de alguém seria louco o bastante: Kraven, o caçador.

Curiosamente, quando o personagem aparece pela primeira vez na história, ele é uma celebridade a ponto de JJ Jameson ter ido pessoalmente ao porto recebê-lo, levando Peter Parker para registrar o momento.

Ditko e Lee aproveitam essa chegada para mostrar as habilidades de Kraven: Jaulas que estavam sendo retiradas no navio desabam, liberando feras selvagens, como cobras e gorilas. Kraven os captura um a um, para delírio da galera. Um acontecimento muito conveniente para o roteirista, eu diria.

Um acidente permite a Kraven mostrar sua habilidades. Isso que chamo de roteirismo. 


Mas a grande fera que o caçador quer capturar é ninguém menos que o Homem-Aranha. Para isso ele coloca na mão e no pé direitos do herói algemas magnéticas, que não só tendem a se aproximar como ainda têm sininhos embutidos que tocam quando ele se mexe.

O herói está em apuros, pois não só as algemas tendem a imobilizá-lo, como ainda alertam o vilão sobre sua posição. Mas as sequências em que o herói está em desvantagem duram pouco. O aranha joga fluído de teia nas algemas anulando os sininhos e a partir daí domina a caçada.

É inevitável pensar no seguinte: como Kraven tivera tecnologia para desenvolver algemas magnéticas, mas não tivera a ideia de fazer algum mecanismo eletrônico de som, ao invés de depender de sininhos que poderiam ser silenciados com teia?

Kraven inventa algemas tecnológicas e coloca sininhos nelas. Sim, sininhos. 


Assim que o aracnídeo consegue prender o caçador em sua teia, aparece a polícia e prende não só ele, como o camaleão: “Eu não fiz nada! É o Kraven que vocês querem! Ele anda caçando seres humanos!”.

De novo fica a pergunta: por que a polícia leva Kraven preso, já que a única prova contra ele era o relato do aranha, que a essa altura já tinha se escondido para tirar fotos? E como o camaleão, que antes parecia um vilão frio, resolve confessar a trama, assim, sem mais nem menos?

Entretanto, a narrativa visual de Ditko e o texto de Lee eram tã divertidos que os leitores tendiam a ignorar essas inconsistências do roteiro.

A origem do Capitão América

 

      Depois da I Guerra Mundial e a cri­se 1929, que outro tipo de catás­trofe poderia se abater sobre o mundo? A II Guerra Mundial.
    O mundo tinha um vilão que, apesar de não ter saído das páginas dos gibis, tinha várias se­melhanças com personagens de quadrinhos: era ridículo e extrema­mente maligno. Chamava-se Hitler e o grande sonho dos garotos da América era ver um herói dando um soco em suas fuças. Foi essa a idéia que o rotei­rista Joe Simon teve. Martin Goodman, chefão da Timely (atual Marvel) gos­tou tanto da idéia que resolveu lançar uma revista às pressas. O artista esco­lhido para ilustrar essas histórias foi Jack Kirby - que logo se tornaria uma lenda, influenciando toda a geração de desenhistas da futura Marvel.
    Simon e Kirby sabiam que tinham ouro nas mãos, tanto que fizeram várias exigências. O personagem deveria estrear em revista própria, e não em uma antologia. Os criadores ficariam com 15% dos lucros e teriam cargos assalariados, como editor e diretor de arte. Goodman concordou com tudo.
      O primeiro número chegou às bancas em fevereiro de 1941 e foi um sucesso. A primeira edição se esgotou em poucos dias. A edição seguinte foi de um milhão de exemplares e também esgotou. O Capitão América tornou-se o gibi mais vendido do período da guerra, mas também provocou muita polêmica. Joe Simon conta que a editora foi inundada por uma torrente de cartas de ódio e telefonemas obscenos cujo teor era: “morte aos judeus!”.  O prefeito de Nova York mandou uma guarnição pa­ra proteger os artistas e telefonou pes­soalmente, felicitando-os pelo seu trabalho na revista.
Os editores incentivavam os leitores a criarem clubes e servirem ao país como bons super-heróis. Essa iniciativa publicitária tomou tons bizarros quando crianças começaram a denunciar colegas ou parentes como espiões apenas por eles terem nomes com pronúncia germânica.
       Os artistas, entretanto, só foram perceber a extensão do sucesso do personagem quando começaram a apare­cer uma porção de imitadores. Surgiram o Capitão Bandeira, o Capitão Liberdade e a Águia Americana. A editora chegou a publicar uma ameaça de ação legal nas páginas da revista: ¨Cuidado, imitadores! Só há um Capitão América!¨.
    Mas Martin Goodman não parecia muito disposto a manter o acordo e, quando Simon e Kirby perceberam que estavam sendo passados para trás, foram para a National (futura DC Comics), onde criaram o último sucesso da guerra: Os Boys Comando.
    Stan Lee tentou conti­nuar as histórias do Capitão América, transformando-o num professor que combatia o crime nas horas vagas.
    Kirby e Simon ficaram tão furiosos com o fato de estarem usando seu personagem que resolveram criar uma paródia: o Fighting Amerícan, um super-herói que enfrentava vilões inap­tos, com nomes ridículos, como Super-Khakalovitch e Hotsky Trotsky.
    Evidentemente, a versão de Stan Lee não deu certo e a própria Marvel passou a desconsiderá-la.
    Lee só iria acertar em 64, quando recriaria o Capitão juntamente com Jack Kirby, tentando explicar toda a bobagem que tinha sido feita até ali com o personagem.
    O     Capitão América foi o primeiro personagem de HQ a assumir um discurso político, mas não foi o único a combater na II Guerra Mundial.
    Quase todos os personagens da época de Tarzã ao Spirit atuaram na guerra, em favor dos aliados.
    O Fantasma passou a enfrentar japoneses que invadiram a sua floresta e até Flash Gordon voltou do planeta Mongo para combater os nazistas.