domingo, maio 10, 2026

Fundo do baú - Space Ghost

 


Pode não parecer, mas Space Ghost foi a resposta da Hanna-Barbera ao sucesso do seriado do Batman de Adam West.

A Hanna-Barbera e a rede de televisão CBS tinham decidido criar um personagem de ficção científica para a programação. No final da discussão, chegaram a um nome: Space Ghost, mas não havia decisão sobre o uniforme. A ideia era fazer um personagem que tivesse o poder de se tornar invisível, daí o título, que pode ser traduzido como Fantasma Espacial.

Quando ainda estava sendo desenvolvido o uniforme, o produtor Freddie Silverman chegou com uma revista Time que mostrava na capa Adam West como Batman de Adam West e o Robin de Burt Ward. Ele queria algo naquele estilo. O responsável por criar o design da série era o lendário Alex Toth, que odiou a ideia. Afinal, a proposta era criar um personagem que se parecesse com um fantasma, portanto totalmente branco. Mesmo assim teve que colocar um capuz preto no personagem e dar-lhe uma capa. Para evitar que a cabeça se confundisse com o fundo preto nas cenas do espaço, a solução foi criar uma espécie de halo de energia em volta do personagem.

O personagem tinha dois ajudantes, o casal de irmãos Jan e Jace, que seguiam o visual de Robin. Completava o grupo um macaco, Blip. O curioso aí é que tanto os irmãos quanto o macaco usavam máscaras. Como o grupo só combatia ameaças de outros planetas, por que proteger suas identidades secretas? E por que um macaco precisaria usar uma máscara? Nada disso foi explicado, assim como a origem dos personagens. Mas o visual criado por Toth se tornou icônico e um dos mais bonitos do gênero super-heroiesco, o que em boa parte garantiu o sucesso da série entre os fãs.

Os roteiros não variavam muito além da ameaça da semana. No primeiro episódio, o grupo enfrentava um monstro feito de lava, em outro combatia um povo alienígena que capturava naves e vendia seus passageiros como escravos.  

O personagem surgiu em 1966 e teve duas temporadas com 42 episódios. Já na década de 1960 teve uma revista em quadrinhos publicada pela Gold Key. Posteriormente a Marvel e a DC fariam suas versões do herói.

Em 1994 o personagem voltou a ter uma série com o inusitado Space Ghost de Costa a Costa, no qual entrevistava personalidades. Alguns vilões da série original, como Zorak, apareciam como show como coadjuvantes.

A tartaruga e a lebre

 


A maioria das pessoas conhece a história da tartaruga que desafiou uma lebre para uma corrida e acabou ganhando após a concorrente parar para dormir.

Embora pareça uma situação atípica e até pouco verossímil, a verdade é que, na maioria das vezes, a tartaruga acaba de fato ganhando a corrida – há vários vídeos do tipo. O coelho para no meio do caminho, volta, se distrai, fareja, enquanto a tartaruga, focada e persistente, segue reto até cruzar a linha de chegada.

Em quase 30 anos de ensino superior tenho visto muitos alunos coelhos e muitos alunos tartarugas. Os coelhos são muito inteligentes e se acham geniais. Em jornalismo são aqueles que já chegam escrevendo muito bem, são comunicativos, falam muito em sala de aula. Quase todos os coelhos que conheci se tornaram péssimos profissionais. Como acham que já são muito bons, estão pouco abertos a aprender. Além disso, a falta de foco faz com que, uma vez no emprego, eles faltem, cheguem atrasados, sejam relapsos.

Já os alunos tartarugas são aqueles que chegam com muitas dificuldades, mas muita vontade de aprender, muita determinação e foco. Apesar das dificuldades iniciais, em pouco tempo eles ultrapassam as lebres, alinhando qualidade de texto com responsabilidade.

sábado, maio 09, 2026

Lanterna e Arqueiro Verde – o mal sucumbirá ante à minha presença

 


Em 1970, o roteirista Dennis O´Neil participava de abaixo-assinados, passeatas e apoiava Martin Luther King. Também era jornalista, fã dos grandes nomes do Novo Jornalismo e do Gonzo, como Tom Wolfe e Hunter Thompson. E ele se perguntava: seria possível fazer nos quadrinhos um equivalente do Novo Jornalismo? Quando o convidaram para renovar o Lanterna Verde, ele resolveu testar essa hipótese. E o melhor de tudo: o título seria desenhado por Neal Adams, o nome mais quente do mercado de quadrinhos à época.  

O resultado foi publicado em Green Lantern 76.

Adams coloca os créditos num caminhão. 


A capa desse número era uma típica imagem do editor "Julie" Schwartz, com uma situação bizarra que seria elucidade ao longo da edição. Nela, o Lanterna está fazendo o seu juramento e recarregando seu anel, mas o Arqueiro atira uma flecha na lanterna e grita: “nunca mais!”.

A história começa com o herói sobrevoando a cidade, num daquelas imagens impressionantes de Neal Adams. O texto, misturado ao título, dizia: "esta não é uma história alegre... nem simples. O que você está prestes a testemunhar talvez seja inevitável. O nome dele, claro, é Lanterna Verde e ele sempre jurou que o mal sucumbirá ante minha presença, mas Hal andou se enganando...”. Detalhe: Adams, além de providenciar uma splash page lindíssima, ainda colocou os créditos na carroceria de um caminhão, numa estratégia que lembrava Will Eisner.

O Lanterna acha que será recebido como herói, mas isso não acontece. 


O herói vê um homem sendo agredido e resolve intervir. Ele coloca o agressor numa jaula e o envia à delegacia. Mas, quando se prepara para receber os aplausos dos circundantes, descobre, espantado, que estão jogando lixo nele e no homem que ele salvou. Antes que o Lanterna revide, aparece o Arqueiro: “Até eu tive vontade de jogar uma lata nessa cabeça oca”. “Não estou entendendo Arqueiro Verde!”, “Não? Então chega mais que eu te mostro como o outro lado vive”.

O que você fez pelo povo negro? 


Eles entram num cortiço e o Arqueiro explica que o homem lá fora é o dono do local e quer despejar todos os inquilos para fazer um estacionamento. Surge um velhinho e sua fala é sintomática: “ Cê trabalha para uns homenzinhos azuis... e ajudou uns sujeitos laranjas em outro planeta. Também deu uma forcinha prum povo roxo! Só que cê andou esquecendo uma cor... por que cê nunca ajudou os negros?”. O herói é incapaz de responder (e aqui o destaque vai para o desenho de Neal Adams que o mostra cabisbaixo, com os ombros caídos).

O Lanterna tenta fazer o homem desistir de vender o cortiço, em vão, e ainda é chamado pelos Guardiões e colocado de castigo quando tenta atacar o vilão.

Neal Adams estava na sua melhor forma. 


No final, os heróis descobrem que o homem tem várias atividades ilícitas e criam uma arapuca para ele se delatar na presença de um promotor. Ele é preso e tudo parece ser resolvido. Se terminasse aí, essa seria mais uma das típicas histórias da DC Comics no final dos anos 60 e início dos 70. Mas O`neil acrescenta um epílogo, em que os guardiões aparecem para dar outra bronca em Hall Jordan, mas acabam ouvindo é uma lição de moral do Arqueiro, que os convence a mandar um representante para ver os problemas da hunidade. No final, eles embarcam numa caminhonete. “O trio viaja junto, passando por cidades, vilarejos e maravilhas da natureza... em busca de um tipo especial de verdade... em busca de si mesmos”, diz o texto.

Perry Rhodan – O domínio do hipno

 


A maior ameaça enfrentanda nas primeiras histórias da série Perry Rhodan foi sem dúvida o mutante Ivã Ivanovitch Goratchim.

Aliado involuntário do Supercrânio, que usara seu poder mental para controlá-lo, Ivã conseguia nada menos que transformar qualquer pessoa ou coisa em uma bomba atômica.

O personagem fez sua estréia no volume 27 da série, escrito por Clark Darlton. No número anterior o Supercrânio fora vencido na terra e fugira para Marte onde estava sua arma secreta, o homem que podia provocar explosões nucleares. Como vencer um inimigo desses?

Darlton detalha o surgimento do mutante como consequência da explosão da primeira bomba atômica russa, em 1949. Segundo Darlon, o acontecimento surpreendeu e apavorou o mundo ocidental, mas também os cientistas soviéticos quando as condições metereológicas desfavoráveis fizeram com que uma nuvem de poeira radioativa se abatesse sobre eles. Como resultado, Ivã e sua jovem esposa Ludmila tiveram um filho que parecia um monstro de duas cabeças.

Isso por si só já era uma novidade. Os mutantes que haviam aparecido até então na série tinham tido apenas mutações positivas. Afinal, quem não quer ganhar um poder especial? Mas todos sabemos que a radiação na maioria das vezes provoca mudanças negativas, então o surgimento de Ivã torna mais verossímil o exército de mutantes.

A capa alemã mostra Ivan Ivanovicthc. 


Mas há uma outra questão interessante no volume. As duas cabeças são chamadas pelo Supercrânio erroneamente de Ivã e Ivanovitch. Segundo Darlton, o vilão “nunca dera a menor atenção ao fato de que os costumes russos exigem dois nomes para cada pessoa;  no caso de Goratchim, Ivã era o nome propriamente dito, enquanto Ivanovitch apenas significava filho de Ivan”.

É bem possível que a sequência fosse uma homenagem ao escritor russo Nicolai Gógol, cujo conto mais famoso, O capote, era protagonizado por um personagem chamado Akaki Akakievitch – e o nome do personagem era usado como elemento de humor, uma piada que só faria sentido na Rússia.

Clark Darlton nitidamente era fã de Gógol, tanto que um dos episódios escritos por ele na série, O pseudo, era quase que uma adaptação espacial da peça O inspetor geral (O título original era O falso inspetor). Desse modo não é estranho pensar que lá no início da saga de Perry Rhodan já tivesse colocado essa referência à obra do escritor russo.

Hércules e Nesso, de Gianbologna

 


Hércules e Nesso é uma escultura pequena, mas que ajudou a mudar a história da arte, estabelecendo um padrão que seria copiado por diversos outros escultores. O autor, Gianbologna, é o principal nome do maneirismo na escultura. Na época, havia um grande debate artístico. 
A pintura era considerada uma arte maior e a escultura apenas um tipo de pintura. Para provar que a escultura tinha possibilidades inexistentes na pintura, Gianbologna começou a produzir peças extremamente dinâmicas, com imagens que podiam ser vistas sob diversos ângulos – ao contrário da pintura – que só pode ser vista de frente. 

Uma das maiores realizações dessa empreitada foi Hércules e Nesso, que mostra o herói grego matando o centauro. Realizada em 1599, no final da vida do artista, a escultura mostra os dois personagens entrelaçados, no momento mais dramático da luta. Um dos artistas mais influenciados por Gianbologna foi Gian Lorenzo Bernini, o mestre do barroco italiano.

A arte espetacular de John Harris

 

John Harris é um artista e ilustrador britânico, conhecido por trabalhar no gênero de ficção científica. Suas pinturas foram usadas em capas de livros para muitos autores, incluindo Orson Scott Card, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov e Frederik Pohl. Uma das suas especialidades são as imaginativas naves espaciais e paisagens aéreas.




A criada

 


A criada é o novo filme do cineasta sul-coreano ParkChan-Wook, conhecido no Brasil por Oldboy. A trama se passa durante a II Guerra Mundial, quando a Coréia foi invadida pelo Japão e trata de um golpe: um falso conde pretende conquistar uma rica moça japonesa, casar com ela e interná-la em hospício, apropriando-se de sua fortuna. Para isso, ele introduz na casa uma criada de confiança, que o ajudará em seus planos. A moça vive em uma mansão construída por seu tio, um pervertido, que treinou a sobrinha para ler contos eróticos para uma plateia seleta e pretende se casar com ela para ficar com sua herança. O golpe, entretanto, se complica quando a criada se apaixona pela patroa.
O filme é construído em três atos, cada um mostrando o ponto de vista de um personagem – e aí está a grande sacada do roteiro: uma mesma cena adquire outros significados de acordo com o olhar de cada personagem. Isso permite ao diretor introduzir viradas na trama, surpreendendo o expectador quando ele parece ter certeza do que está acontecendo.
A única certeza desse filme é: nada é o que aparenta ser.  
Soma-se a isso a ambientação estranha, uma mistura de roupas e arquitetura inglesas, coreanas e japonesas, os personagens bizarros, a sensualidade única, o cuidado apurado com o cenário e suas simbologias e a violência, que finalmente explode no final – tudo é desconcertante nesse filme.
A criada é um daqueles tesouros escondidos da Netflix.

Demolidor – Matador de mulheres

 


O número 173 da revista Daredevil apresentou um respiro, um conto isolado em meio a duas sagas do personagem. No entanto, é uma história tocante e profunda sobre abuso feminino.

Na trama, dois repórteres são atacados na Cozinha do Inferno por um homem forte e mascarado. Embora o atacante esteja usando máscara, Melvin, o Gladiador, é preso porque o físico dele bate com a descrição.

Há um assassino de mulheres à solta...


Acontece que Matt Murdock está representando o antigo vilão e acredita na sua inocência, o que leva o Demolidor a se envolver na trama. Seria apenas mais uma história de super-herói tentando provar a inocência de alguém, não fosse por um detalhe: Becky, a secretária de Matt Murdock desmaia ao ver Melvin. Quando acorda, descobrimos que ela foi violentada quando ainda era estudante de direito e que a violência fez com que ela ficasse paraplégica.

... e o suspeito é um ex-vilão defendido por Murdock. 


Isso não só cria um dilema ético, já que Matt Murdock pode ser responsável pela soltura do homem que violentou sua secretária, mas também reflete sobre como muitas vezes as vítimas não denunciam seus agressores por medo.

Para além da história de super-herói, o que chama atenção é a jornada de Betsy e sua tentativa de superar o trauma.

A história é focada em Betsy e sua tentativa de superar o trauma do abuso. 


Essa é uma história que mostra que Miller não só era bom em narrar ação, mas também se destacava pelo bom desenvolvimento dos personagens, inclusive os secundários.

sexta-feira, maio 08, 2026

A Bíblia do roteiro de quadrinhos

 

Há algum tempo, os roteiristas Alexandre Lobão e Leonardo Santana me convidaram para escrever a seis mãos um livro sobre roteiro para quadrinhos.
Na época eu não poderia imaginar a proporção que isso iria ganhar. O projeto foi aumentando, aumentando, até se transformar no que é, provavelmente, o mais completo livro sobre roteiro já publicado no Brasil.
A obra tem praticamente tudo que um roteirista precisaria saber para escrever boas histórias para qualquer mídia.
Alguns assuntos foram tratados no Brasil apenas nesse livro. Já outros assuntos é a primeira vez que são tratados num livro de roteiro provavelmente no mundo, como a verossimilhança hiper-real.
É uma obra de peso (340 páginas!), tanto que decidimos chamar de A bíblia do roteirio de quadrinhos. Essa obra teve seu lançamento oficial em Curitiba sexta-feira passada e já está vendida no site da editora.
Quem quiser comprar comigo, o valor é 60 reais. Pedidos: profivancarlo@gmail.com

Roteiro de quadrinhos: a narrativa

 

Skreemer apresenta flash backs de vários personagens


Falaremos agora de um dos temas mais fáceis de serem percebidos e mais difíceis de serem usados numa história em quadrinhos.
                Falo da narrativa. O que é a narrativa? É a maneira como a história se desenrola. Com isso não quero me referir aos diálogos e ao texto, assuntos de que trataremos mais tarde e que pertencem ao mundo da FORMA.
                O tipo mais evidente de narrativa é a linear. Ou seja, é aquela história com início, meio e fim muito bem delineados.
                Por exemplo: um bando de assaltantes resolve roubar um banco. Eles chegam de carro, rendem o gerente, pegam o dinheiro e fogem. É quando aparece o Super-homem e prende todos os malfeitores. Termina a história com os meninos maus atrás das grades e um texto do tipo: "Viram, meninos? O crime não compensa".
                Esse é o tipo de narrativa mais comum de se encontrar nos quadrinhos clássicos (claro que não me refiro a algumas pérolas do roteiro, tais como Príncipe Valente, Spirit ou Capitão César). É o que chamamos de roteiro linear. Há um início, um meio e um fim bem delineados. E também não há complicações no miolo da história. As coisas se resolvem facilmente.
                Imaginemos, no entanto, que o roteirista queira tornar esse roteiro um pouco mais complexo. Ele pode, por exemplo, focar o Super-homem. O homem de aço está numa reunião no Planeta Diário e percebe que o banco está sendo assaltado. Como sair da reunião sem ser notado? Isso pode criar algumas situações interessantes, que vão tirar a atenção do leitor do assunto principal (no caso, o assalto ao banco).
                Isso é bom? Isso é ótimo! O roteirista deve ser, antes de tudo, um sádico. O leitor está louco para saber se o assalto vai se concretizar e você fica enrolando, mostrando Clark  Kent tentando se transformar no homem de aço. Chama-se a isso suspense. Toda boa história tem algum tipo de suspense, mesmo aquelas que fogem do esquema comercial.
                Mas voltemos à nossa história. Imaginemos que os bandidos estão em dois carros. O pessoal de um carro vê o Super-homem interceptando o outro veículo. Eles estão desesperados e tentam fugir. Mas... o destino e o roteirista são cruéis. O carro não pega. O motorista tenta, mas não consegue fazer o motor funcionar.
                Isso vai introduzir um pouco mais de suspense na história e, como já disse, todo suspense é bem-vindo. Podemos, inclusive, melhorar as coisas. Um dos bandidos sai correndo desesperadamente. Ele está  fugindo agora. Está entrando em becos escuros, está pisando em latas de lixo e pulando cercas. Tudo o que ele queria agora era estar em algum lugar seguro...
                O que acharam? Nossa história melhorou um pouco, hein? Mas, apesar de todo o suspense, ainda é uma história linear. Os acontecimentos se sucedem em perfeita ordem cronológica.
                Voltemos ao nosso amigo. Ele corre, fugindo do Super-homem e, enquanto pisa o lixo, pula as cercas e entra nos becos escuros, vai se lembrando do que aconteceu antes. A história é toda contada do ponto de vista das lembranças do personagem. Chama-se a isso flash back. Flash back é tudo aquilo que é contado, mas que aconteceu antes do tempo real da história. É o principal recurso para tornar a história não linear.
Em Piada Mortal os flash backs seguem uma ordem cronológica

                Existem vários tipos de flash backs. No simples, as lembranças do personagem seguem uma seqüência cronológica. Assim, nosso amigo vai se lembrar de quando seus comparsas estavam planejando o roubo para depois se lembrar do roubo em si. Um exemplo de flash back simples é Piada Mortal, de Alan Moore.
                Mas as memórias não precisam, necessariamente, seguir uma ordem. Pelo contrário, elas podem vir embaralhadas, como cartas de um baralho. 
                Certa vez, eu e Joe Bennett (Bené Nascimento) fizemos uma história em que usávamos esse recurso. Ela começava com o Puritano, o personagem principal, sobre uma clarabóia de vidro. Lá embaixo uma garota estava sendo sacrificada num rito satânico. Ele pula e quebra a clarabóia. O tempo real da história se passa em alguns segundo: é o tempo de chegar ao chão. Toda a trama é contada pelas lembranças, tanto de Puritano quanto da moça.
                Poderíamos, claro, ter mostrado primeiro os flash backs da moça e depois os do Puritano. Mas não. Preferimos embaralhar tudo. As lembranças eram mostradas intercalada e numa ordem não cronológica... Outro exemplo de narrativa não-linear é a história Belzebu, escrita por mim e desenhada por Joe Bennett. A história começa do final, e os fatos do passado são narrados como uma lembrança da personagem. No caso dessa história há também uma interessante estrutura de elipse, pois a história começa e termina com um cachorro morto.
Watchmen e o flash back não cronológico

                Um ótimo exemplo de flash back embaralhado é o capítulo quatro (dois no Brasil) de Watchmen, quando Dr. Manhathan está em marte e começa a lembrar do seu passado.
                Outro ótimo exemplo é a mini-série Skreemer, de Peter Millingan. Lá existem tantos flash backs não cronológicos e de tantos personagens que o colorista optou por usar tons pastéis nas cenas de passado. Isso para não confundir o leitor. O resultado é que cada  releitura de Skreemer nos revela novos detalhes da trama. E, falando em detalhes, aí vai um: o tempo real da trama é de 15 minutos, o tempo que Skreemer está esperando para soltar seus balões infectados.
                Um recurso interessante de narrativa que Alan Moore diz ter emprestado de Gabriel Garcia Marques é contar a história através das narrativas de vários personagens. Só que nenhum deles tem a história completa, de modo que o leitor é obrigado a montar a trama  mentalmente, como se montasse um quebra-cabeça.
                O filme Cidadão Kane, de Orson Wells, mostra uma técnica narrativa semelhante. A história é construída através do depoimento de várias pessoas que conheceram Kane e muitas vezes os mesmos fatos são mostrados de maneiras bem diferentes.
                Há um livro da coleção Perry Rhodan que leva ao extremo essa possiblidade narrativa. Dois agentes que se odeiam são mandados para realizar, juntos, uma missão em um planeta distante. A aventura é contada através do relatório dos dois. Acontece que os dois documentos são absolutamente discordantes. Um fato é mostrado como heróico em um dos relatórios e patético em outro. O resultado é muito divertido de se ler.

Mister No

 

 

Um dos mais carismáticos – senão o mais carismático – personagem da Bonelli é Mister No. Lançado em 1975 em revista própria, o herói estreou em uma aventura cujo título era o seu próprio nome.

A forma como a história começa mostra a genialidade de Sergio Bonelli (roteirista e criador do personagem, sob o pseudônimo de Guido Nolitta).

Um guia de viagens apresenta o personagem e a ambientação. 


A sequência é focada em um agente de viagens, que tenta vender um pacote de férias para um casal. Ele oferece uma excursão à Itália, à França. Quando ouve que querem conhecer o Brasil, sugere o Rio de Janeiro, mas o casal prefere um local tranquilo, afastado da civilização moderna.

“Nesse caso, tenho o local ideal: um lugar que, pelo clima e sua falta de meios de comunicação, garante um isolamento absoluto. Aqui está senhores: a Amazônia... ou, para ser mais preciso, Manaus... uma sonolenta cidade no coração da selva amazônica, acessível somente por via fluvial, com uma viagem de dez dias!”.

O contraste entre a fala do guia e a realidade de Mister No cria uma ironia narrativa. 


É aqui que entra o herói: “Há seis meses mandei um amigo para lá vindo da guerra, um herói da aviação... um cara tão difícil de contentar, tão ranhento que o tem o apelido de Mister No!”.

Sergio Bonelli consegue, de maneira natural, caracterizar o personagem, explicar seu nome e ainda ambientar a história. E faz isso de maneira que o leitor se sente interessado e curioso em saber quem é o tal Mister No.

Além de jogador compulsivo, Mister No é um beberrão.


A sequência ainda traz uma ironia narrativa. O agente termina sua fala lendo um telegrama do aviador: “Perceberam? Se Mister No diz Ok, significa que tudo lá é perfeito, maravilhoso!”.

E, na página seguinte vemos Mister No em Manaus, apanhando de alguns valentões.

O personagem é contratado para um trabalho... 

O contraste entre o que é dito pelo agente de viagens e a situação em que de fato vemos o herói torna a HQ ainda mais curiosa e interessante.

O leitor descobre que Mister No está apanhando rufiões que não querem mais que ele jogue pôquer com os hospedes do Hotel Amazonas, pois eles querem, eles mesmos, explorá-los com suas cartas marcadas e dados viciados. Em uma surpreendente reviravolta, o herói consegue derrotar os bandidos em uma briga em que quase é quebrada uma garrafa de conhaque. “Eu não me importo de quebrar as caras e as cabeças de vocês... mas quebrar uma garrafa de conhaque quase cheia eu jamais me perdoaria!”.

... mas logo descobre que se trata de uma roubada. 


A sequência termina de completar a caracterização: Mister No não só é ranhento, ele também é um beberrão que adora apostar no pôquer. Ou seja, está muito mais para um anti-herói do que para um herói certinho dos quadrinhos.

Nessa primeira história ele é contratado por um homem que pretende resgatar um tesouro no meio da floresta. Claro que na verdade, o serviço é uma roubada – algo que veríamos continuamente nas histórias do personagem. Mister No nunca sempre se ferra.

Os indígenas são mostrados de forma estereotipada. 


Apesar de todos os aspectos positivos, a história tem um problema: os indígenas são mostrados como ameaças, que atacam os personagens sem que nem porque, da mesma forma que os nos faroestes clássicos. Com o tempo isso seria modificado e as histórias evitariam essa visão estereotipadas dos povos orginários.