sábado, agosto 29, 2026

Justiceiro vs Wolverine

 


No final da década de 1980, Justiceiro e Wolverine eram os personagens mais populares da Marvel.

Por que, então, não juntá-los numa mesma aventura?

Foi a ideia que a equipe responsável pela revista do Justiceiro, Carl Potts (roteiro) e Jim Lee (desenhos) teve.

A história foi publicada em The Punisher War Journal 6 e 7 e mostra tanto o Justiceiro quanto o carcaju atrás de uma quadrilha que caça animais em extinção. Claro que, como é regra nos quadrinhos Marvel, uma confusão faz com que os dois entrem em rota de confronto, um achando que o outro faz parte da quadrilha.

Os heróis entram em rota de colisão. 


Carl Potts era um bom roteirista, infelizmente pouco valorizado, e desenvolve bem a história, embora o Justiceiro pareça estranho na ambientação de selva. Talvez uma ligação com a experiência dele na guerra tornasse a trama mais orgânica para o personagem.

Já Wolverine sempre foi mostrado na selva, em sintonia com animais, de modo que sua presença na história parece óbvia.

Jim Lee faz um bom uso de retículas. 


Algo a se notar é que Jim Lee nessa época não tinha os exageros que caracterizariam sua fase Image e aqui usa o desenho a serviço da história. E usa bem. Destaque para as cenas de luta entre os dois anti-heróis e para a sequência em que o Justiceiro cai na água, com o uso inteligente da retícula.

No Brasil essa história foi publicada em Grandes Heróis Marvel 26.

A divulgação científica nos quadrinhos

 

Defendida em 1996, minha dissertação de mestrado A divulgação científica nos quadrinhos - análise do caso Watchmen foi um dos primeiros trabalhos acadêmicos a analisar a relação entre HQs e ciência no Brasil. Tornou-se referência obrigatória inclusive sobre uso de gibis em sala de aula. 
A dissertação pode ser lida online no blog ou baixada em PDF no Repositório da Unifap

Thor – Contos de Asgard

 

 É indubitável que Stan Lee e Jack Kirby criaram uma mitologia moderna.
Nenhum personagem encarnou tão bem isso quanto o Thor. Vindo diretamente da mitologia nórdica, ele permitia a Kirby explorar a grandiosidade e a Lee a nobreza. Mas no início a revista se destacava mais pelas características do gênero super heróis do que por sua herança nórdica.
A série conta a origem dos deuses nórdicos. 


Foi Quando a dupla teve a ideia de lançar uma série derivada, na qual podiam explorar em mais detalhes os aspectos mítico do personagem que Thor se tornou o personagem que conhecemos hoje.
Com apenas cinco páginas, contos de Asgard recontava grande parte das lendas nórdicas e mostrava o melhor da Marvel. Essa série conectou definitivamente o Thor dos quadrinhos com o Thor da mitologia, dando uma identidade única à revista. 
A série introduz personagens mitológicos, como Heimdall...


Talvez em nenhum outro momento da Marvel Jack Kirby se mostrou tão a vontade. Fascinado pelas lendas nórdicas, ele está em seu elemento ao recontar as lendas desde o surgimento do universo até a criação dos deuses e dos homens. 
A dupla também aproveita para apresentar os personagens secundários, como Heimdall, o guardião da ponte do arco íris, ou Balder, e estabelecer o universo das histórias. 
... e Balder. 


Além de contos retirados diretamente da mitologia nórdica, Kirby e Lee criaram também cria contos inéditos, surgidos exclusivamente da imaginação dos dois.
Contos de Asgard é também uma pérola da síntese narrativa. Em apenas cinco páginas a dupla conseguia apresentar os personagens, estabelecer um conflito e resolvê-lo, geralmente de maneira surpreendente.
Kirby podia usar nessa série todo o seu talento para grandiosas cenas de batalha. 


Essa HQs foram reunidas em um volume da coleção de clássicos Marvel da Salvat. A edição tem dois problemas: um problema menor é a capa, que não traz um desenho de Kirby, e a coloração digital, muito escura, que esconde detalhes do traço. Mesmo assim é um item essencial na coleção de qualquer aficionado pela Marvel.

Recordações do futuro

 


Ray Bradbury era um excelente contista. Provavelmente porque livros de contos vendem menos que romances, ao reunir essas histórias em livros, ele dava um jeito de costurar as histórias, de modo que em conjunto elas parecessem uma só história dividida em partes.

Em nenhum livro esses estratégia foi tão bem sucedida quanto em o Homem ilustrado, publicado na década de 70 como Recordações do futuro (no Brasil o livro também ganhou o título de Uma sombra passou por aqui).

Bradbury imagina um homem cujo corpo é todo tatuado. à noite, as imagens se mexem e cada ilustração conta uma história. Mas há um espaço especial nas costas, em que a pessoa que está observando os contos poderá ver a sua própria história... E a forma como irá morrer.

Essa introdução não só é genial, como acaba sendo, surpreendentemente, a melhor parte do livro, graças à prosa poética de Bradbury: "Ali sentado, notei que ele era uma confusão de foguetes, fontes, pessoas, com detalhes e cores tão vívidas, que eu podia escutar as vozes, indistintas e abafadas, murmurando entre as multidões que lhe habitavam o corpo"

As imagens são descritas como se El Greco tivesse pintado miniaturas, com suas imagens detalhadas, cores sulfurosa e anatomia alongada.

Os contos seguem a mesma linha de prosa poética e descrições que provocam ricas mensagens mentais.  

Em “Caleidoscópio” um foguete explode e seus tripulantes ficam a deriva no vácuo. Poderia ser apenas uma ótima história de suspense ambientada no espaço, mas Bradbury vai mais além, transformando a história num poética investigação psicológica. Esse contexto é exemplificado no tripulante que invejava o outro por sua abordagem a respeito da vida: “Eu não tive nada disso. Quando eu vivia, eu o invejava. Quando eu tinha outro dia à minha frente, eu o invejava, suas mulheres e seus prazeres”.

Em “O outro pé”, o autor usa a ficção científica para refletir, de forma poética e alegórica sobre uma das maiores chagas da América: o racismo. Na história, os negros foram enviados para Marte, onde construíram uma civilização. Depois de muitos anos, uma nave de homens brancos se aproxima e muitos querem se vingar pelos anos de linchamentos e segregação. Mas o que sai da nave surpreende a todos. O conto traz uma pérola do estilo Bradbury: "Caiu o silêncio dos silêncios. Um silêncio que se podia agarrar com a mão, um silêncio que descia sobre a multidão como a pressão de uma tempestade distante".

“O foguetista’ é o conto que melhor expressa a característica de Bradbury de prosa saudosista e intimista. Na história, um garoto vive uma eterna tensão a respeito do pai, que pilota um foguete e, a cada viagem, pode não voltar para casa.

O filho e a mãe antecipam o final trágico e tentam aproveitar ao máximo o tempo com o ente querido enquanto o pai tenta resistir a tentação de voltar ao espaço, uma situação exemplificada no trecho: "Lembro me de meu pai naquela tarde, cavando sem cessar no jardim, como um animal em busca de alguma coisa...". A narrativa por si só já valeria a leitura, mas o autor ainda introduz um final surpresa.

Bradbury discute até mesmo teologia, nos tocantes “O homem” e “Os balões ígneos”. O primeiro trata de um comandante que procura um ser iluminado, mas sempre chega a um planeta depois que ele já partiu. Em “Os balões ígneos”,  padres vão a Marte livrar os marcianos do pecado. Mas o que encontram lá é surpreendente e os muda para sempre.

“Os expatriados’ é uma homenagem de Bradbury aos autores que fizeram parte de sua formação: Poe, Dickens, Shakespeare, bran Stocker, Lovecraft... Na história, os livros desses autores foram proibidos na Terra e os autores se refugiaram em Marte. Mas a medida em que o último livro de um autor é queimado, ele desaparece. Um tema recorrente que seria retomado com mais profundidade em Fahrenheit 451

Num livro de contos geniais, que revolucionaram o gênero, é difícil escolher o melhor, mas certamente “A raposa e a floresta” entraria em qualquer lista.

Na história, corre o ano de 2155 e a realidade é uma distopia militarista em guerra eterna. Quando uma empresa resolve ofertar viagens ao passado como forma de entretenimento, um casal de cientistas resolve aproveitar a oportunidade para escapar. Mas eles sabem que serão perseguidos e, se pegos, tortura e morte é tudo que terão. A história se passa na década de 30, no México, e é uma trama de suspense: eles conseguirão despistar seus perseguidores? É surpreendente que Hollywood não tenha aproveitado essa premissa. Poderia dar um ótimo filme.

Outro conto impressionante é “O visitante”. Uma doença incurável chamada ferrugem sangrenta surge e todos que são acometidos por ela são enviados para Marte, como as antigas colônias de leprosos e ficam lá até morrer. Tudo muda quando surge um doente com uma capacidade incrível: criar imagens mentais tão realistas que os doentes conseguem se reimaginar na Terra. Mas essa paraíso se torna um inferno quando os doentes começam a disputar o visitante. O conto ganha muito com a capacidade de Bradbury de criar imagens mentais com seu texto poético: ”Nova York levantou se em torno deles, das pedras, das cavernas, do céu. O sol brilhou nas altas torres. O trem elevado passou como um trovão; rebocadores apitaram no porto. A mulher verde fitou a baía, com uma tocha nas mãos".

São contos e mais contos tão preciosos como pérolas no mar até o seu final curto, mas surpreendente.

Livro para baixar: A arte dos quadrinhos

 

Já está on-line o e-book A arte dos quadrinhos. O livro reúne os artigos apresentados no III FNPAS com as mais variadas temáticas. Eu colaborei com o artigo SIMULACRO E PASTICHE EM 1963, DE ALAN MOORE. Para baixar o e-book clique aqui

A pele de Onagro

 


A pele de Onagro é um filme dirigido por Alain Berliner disponível no Amazon Prime. A película baseia-se num dos principais romances de Horoné de Balsac.

A trama gira em torno de Rafael de Valentin, um jovem romântico que dedica sua vida a escrever um tratado filosófico. Quando sua obra é rejeitada pela editora (logo após uma desilusão amorosa), Rafael pensa em suicídio. Sua tentativa de se jogar de uma ponte se revela infrutífera e ele acaba optando por comprar uma arma. Mas na loja em que entra, acaba se deparando com um homem misterioso que lhe faz uma proposta: se quer mesmo morrer, que aceite a pele de onagro, um couro mágico que, na medida em que realiza desejos, abrevia a vida de seu dono.

É uma trama que poderia facilmente se encaixar num episódio de Além da Imaginação, mas o filme vai mais além, refletindo filosoficamente sobre como os desejos podem ser fortes a ponto de tomar a vida daquele que deseja.

Por mais que realize seus desejos, há sempre um desejo novo, algo a se  querer, algo que parece importante, por mais que isso diminua o tamanho da pele e com ela a vida de seu proprietário. Conforme mergulha nessa armadilha de desejos infinitos, Rafael esquece-se do que realmente importa e, quando percebe, é tarde demais: sua vida está no final.

O filme consegue desenvolver bem esse conceito, com uma fotografia que recria o clima romântico do início do século XIX. Vale também destacar a atuação contida e sensível dos atores, em especial do casal de protagonistas.

A arte fantástica de Charles Vess

 

Charles Vess é um desenhista norte-americano especializado em fantasias. Elfos, duendes e terras mágicas são sua especialidade. Alguns dos seus trabalhos mais conhecidos foram em parceria com Neil Gaiman, como Sandman, Livros da Magia e Stardust.







Rawhide Kid – Duelo Mortal em Solavanco

 


Antes da "Era Marvel", Stan Lee e Jack Kirby já experimentavam algumas das ideias que seriam a base da Casa das Ideias. Exemplo disso é o caubói Rawhide Kid, um verdadeiro ensaio para o que viria a ser o Homem-Aranha.

O personagem teve uma rápida aparição na década de 1950, mas, em 1960, Stan Lee resolveu trazê-lo de volta com uma nova roupagem. Nessa versão (que manteve a numeração anterior), o jovem Johnny Bart, de apenas 18 anos, vê seu tio Ben morrer e decide se tornar um justiceiro. Contudo, ele é acusado de um crime que não cometeu e passa a ser perseguido pelas autoridades, tornando-se o clássico herói incompreendido. Para o arquétipo aracnídeo ficar completo, só faltou um J. Jonah Jameson.

A história começa com o valentão local provocando Kid. 


A edição nº 19 da revista — a terceira desta nova fase — exemplifica bem essas semelhanças. Lançada em dezembro de 1960, ela chegou às bancas 11 meses antes de Fantastic Four nº 1. Apesar de ainda não contar com as chamadas de marketing efusivas que caracterizariam o estilo de Stan Lee anos depois, a capa já sintetizava a trama de forma magnética. Um brutamontes segura os braços de uma moça, puxando-a: “Escuta, gata, ninguém diz não para mim, sacou?”. Enquanto a multidão se afasta, o herói se aproxima, decidido: “Se afasta da moça, coiote ordinário! É o Rawhide Kid quem está mandando!”.

Curiosamente, a história começa de forma invertida, com o valentão no saloon ameaçando o Kid: “Você é um forasteiro em Solavanco, rapaz! Bem, eu sou Big Bill Corbett e não gosto de estranhos!”. O herói mantém-se sentado, de cabeça baixa, temendo ser reconhecido — afinal, é um fugitivo. Ele não reage nem mesmo quando o valentão chuta sua cadeira. Porém, quando o vilão ataca a mocinha em plena rua, o rapaz intervém, mesmo sob o risco de revelação de sua identidade.

Quando o valentão resolve intervir para salvar uma moça. 


Embora o traço de Jack Kirby não enfatizasse esse aspecto — Kirby, inclusive, seria preterido para o Homem-Aranha por não saber desenhar personagens esguios —, o roteiro deixa claro que o Kid é franzino. Isso transparece no quadro em que ele soca o valentão: “Surpreso, o valentão imenso se vira e encontra setenta quilos de fúria incandescente atrás de um punho que parece moldado em puro aço!”.

Como resultado, a jovem se apaixona por ele, mas surge um conflito: ela é filha do xerife. Ao perceber o perigo, Rawhide decide partir, justamente quando um bando de assaltantes invade a cidade para roubar o banco e faz a garota refém. O herói, então, retorna para intervir.

Kid salva a moça, mas depois finge ser um bandido. 


Nesse ponto, emerge um traço de personalidade que se refletiria profundamente em Peter Parker: ao notar que jamais poderia ter um relacionamento estável com a filha da autoridade local, ele simula agir como um bandido, fugindo com o dinheiro para depois devolvê-lo secretamente ao pai dela: “Comigo ela não teria nada além da infelicidade! A vida de um fugitivo não é vida para a mulher que se ama! Se ela pensar que não presto, poderá me esquecer!”.

Quantas vezes não vimos Peter Parker adotar postura semelhante com Gwen Stacy ou Mary Jane?

O personagem é caracterizado pela habilidade no uso da arma. 


Apesar dos méritos e de antecipar conceitos fundamentais do "herói com pés de barro", a história guarda uma inconsistência óbvia: se a garota era realmente filha do xerife, dificilmente um valentão local arriscaria abordá-la de forma tão violenta à luz do dia, correndo o risco imediato de prisão ou morte.

sexta-feira, agosto 28, 2026

Sandman 24 horas - O quadrinho que testou os limites do mercado

 


O seriado de Sandman me fez ter curiosidade de reler o número seis da revista antes do episódio equivalente. Da saga Prelúdio e Noturnos essa foi a história que mais me impactou e teve maior influência sobre meus roteiros de terror.

A releitura tinha um motivo: descobrir se, trinta anos depois, a história ainda tinha o mesmo impacto.

Os números anteriores tinham me chamado atenção lá no início da década de 90 pelo texto competente, puxando para o poético. Mas não era nada muito diferente de outras coisas que eu já tinha lido, incluindo mesmo outros títulos de terror da DC e principalmente as histórias da Kripta, que republicava material da Warren. A primeira saga era, de certa forma até previsível do ponto de vista de roteiro, com um MacGuffin muito claro. Sandman é aprisionado, perde suas ferramentas e precisava recuperá-las.

A história é focada na garçonete-escritora. 


Esse número específico trata do destino da última ferramenta: o rubi, então de posse do transtornado John Dee. Ele está em uma lanchonete 24 horas, mas não o vemos logo.

Na verdade, toda a narrativa é focada em Bette, a garçonete. Embora seja uma garçonete, Bette na verdade se considera uma escritora e a lanchonete um local para recolher histórias. Ela descobriu o segredo dos contos: saber quando terminar. Se você se estender demais, eles inevitavelmente terminam em morte e tragédia. Assim, seus contos sempre têm finais felizes. Mesmo para os clientes que estão ali, naquele momento, ela imagina histórias com finais felizes.

A história tem referência até a suicídio. 


Mas John Dee irá providenciar para esse conto não tenha um final feliz.

Numa mistura de Além da Imaginação com Buñuel, o episódio todo se passa dentro da lanchonete da qual os clientes jamais conseguem sair.

A impressão que tive ao ler a primeira vez – e se tornou ainda mais patente nessa releitura – é de que Gaiman era alguém disposto a testar limites. Ele queria saber até onde poderia ir numa revista de linha da DC. Para começar, ele coloca uma personagem declaradamente lésbica, uma novidade nos comics à época. Mas o limite que seria realmente ultrapassado dizia respeito ao terror.

Ninguém consegue sair da lanchonete. 


E a lista é grande. Uma das mulheres presentes na lanchonete admite que fez sexo com um cadáver e gostou tanto que pedia para o marido não se mexer durante o sexo. Outra personagem prega a mão de um cliente no balcão, dois homens lutam até que um deles morra. Uma moça fura os olhos.

A palavra que me vinha à cabeça enquanto lia era: “Visceral”. Aquela era uma história visceral, tanto do ponto de vista visual quanto do ponto de vista pisicológico, com os personagens desnudados em seus mais íntimos segredos, como se sua psiquê tivesse sido exposta da mesma forma que as vísceras.

Trinta anos depois, a mesma palavra me veio à cabeça: visceral. O impacto ainda é grande e surpreendente ler isso numa revista de linha publicada há três décadas. Era – e ainda é – uma história perturbadora. 

Gógol - entre risos e lágrimas

 

Não, você provavelmente nunca leu uma obra de Gogol. Mas certamente conhece alguma de suas histórias. Afinal, são muitas as adaptações para cinema, televisão e quadrinhos. Eu mesmo cheguei fazer duas HQs baseadas em suas histórias: Fobia (baseada em O Nariz) e A Inspeção (baseada na peça O Inspetor Geral), ambas desenhadas por Bené Nascimento (a primeira foi publicada pela Nova Sampa, a segunda pela revista Calafrio). O grande destaque de Gogol se deve ao fato de ter sido o iniciador da moderna literatura russa, que nos legou nomes como Tcheckov, Tolstoi e Gorki.
Nicolai Vassilievitch Gogol nasceu em uma pequena província da Ucrânia, no ano de 1809. Até mesmo a data de seu nascimento é controversa: 19 de março no calendário russo e 31 de março no calendário ocidental. O pai era um fazendeiro que, ao contrário de seus vizinhos, tinha rudimentos de cultura artística. Gostava de ler e usava as horas vagas para escrever peças satíricas. Gogol herdou dele o gosto pela pena. E herdou da mãe a extrema religiosidade que o levaria à morte.

Desde criança, Gogol sempre foi estranho. Na escola era chamado de "anão enigmático" porque falava pouco e tinha dificuldade para se relacionar com colegas e professores. Como o apelido sugere, também era pequeno. Seu grande sonho era ir para São Petesburgo. Imaginava-se com um bom emprego, instalado em um quarto com vista para o rio Nieva. Depois da morte do pai, conseguiu finalmente realizar o seu sonho, que acabou parecendo mais com um pesadelo. Tudo o que conseguiu em São Petesburgo foi um emprego burocrático medíocre, um salário insignificante e um quarto a grande distância do rio Rio Nieva. Para sobreviver, era obrigado a pedir dinheiro à mãe.
Por esses tempos, teve sua primeira decepção literária e revelou uma característica que o acompanharia por toda a vida: Gogol dava mais atenção às críticas que aos elogios. Seu poema Hans Kuchelgarten foi tão mal recebido pela crítica que o escritor recolheu todos os exemplares e os queimou. Só voltaria a escrever mais tarde, empolgado com a efervescência literária da época.
Na Rússia de então, os intelectuais se dividiam em dois grupos. Um deles defendia a aproximação com a cultura ocidental e o outro estava preocupado com a preservação da cultura russa. Gogol era um simpatizante do segundo grupo. No interesse de resgatar as tradições de sua terra, ele escreveu alguns contos sobre a Ucrânia para revistas e publicou uma seleção deles. O livro se tornou extremamente popular, especialmente por seu humor, que fazia rir os funcionários da gráfica que o imprimia.
Foi nessa época que Gogol conheceu Punchin, o maior poeta russo do período. Punchin foi uma espécie de guru para o jovem Gogol. Gogol chegou a dizer que tudo que escrevia o fazia pensando no que Punchin pensaria, e duas de suas principais obras, Almas Mortas e O Inspetor Geral, surgiram a partir de idéias do poeta.





A trama da peça O Inspetor Geral era simples: as autoridades de uma pequena aldeia tomam conhecimento de que um inspetor do governo chegará incógnito em breve para investigar certos abusos. Por acaso, um aventureiro passa por ali e os poderosos do local, achando que ele é o inspetor, fazem de tudo para suborná-lo. Essa história já foi adaptada para a TV, para o cinema, para os quadrinhos e até na série alemã de ficção-científica Perry Rhodan.

A obra mais genial de Gogol, no entanto, foi escrita em 1842. Trata-se de uma novela com o singelo título de O Capote. É a história de um pobre funcionário público que, a grandes custos, conseguia comprar um novo capote e é roubado no mesmo dia em que o inaugura.

Segue-se, então, uma via-crucis pela burocracia russa. Ao invés do capote, ele consegue apenas uma grande bronca de um alto funcionário, interessado em impressionar um amigo. Isso, unido a uma gripe que o pega por estar sem capote, e portanto, desprotegido do terrível frio de São Petersburgo, leva-o à morte. Seu fantasma então, passa a puxar o capote de todas as pessoas que se aventuram a sair à noite.



Como se vê, suas histórias eram simples, bobas até, como contos infantis. Nada de pretensões filosóficas ou pedantismo. Nosso escritor queria apenas contar histórias de seu país natal, o jeito de ser de sua gente, e talvez nisso resida o seu maior encanto. Suas histórias misturavam humor e tragédia naquilo que os críticos chamaram de risos entre lágrimas. Personagens como o funcionário publico de O Capote são ridicularizados, mas ao mesmo tempo, redimidos por sua humanidade.
Gogol se tornou imortal porque suas obras eram repletas de vida. Era a vida dos grandes heróis nacionais, como Taras Bulba, ou dos insignificantes funcionários públicos. Mas, apesar do sucesso, o escritor vivia entre anjos e demônios. Sempre ouvia mais as críticas do que os elogios. Quando a peça O Inspetor Geral estreou, os conservadores pediram a proibição da mesma, acusando o autor de ter caricaturado tanto o país quanto seus dirigentes. Gogol mergulhou em profunda depressão e viajou para a Europa.
Com o tempo, essas crises de depressão foram se tornando mais e mais freqüentes. No dia 11 de fevereiro de 1852, influenciado por um padre fanático, Gogol queimou todos os manuscritos da segunda parte de Almas Mortas e deitou para morrer. Não se alimentava, nem aceitava remédios. A 21 de fevereiro daquele ano, a Rússia perdeu um dos seus escritores mais queridos, o homem que abriu as portas para torná-la uma das capitais mundiais da literatura.

Quarteto Fantástico - O despertar da Mulher Invisível

 

 

De todos os personagens do Quarteto Fantástico, a de menor destaque sempre foi a Mulher Invisível. Seus poderes pareciam ser apenas defensivos e muitas vezes ela nem participava de fato das tramas. Alan Moore satirizou isso na minissérie 1963. Uma das revistas era uma paródia do Quarteto e a personagem equivalente à Mulher Invisível em determinado momento varria a sala enquanto os meninos liam e respondiam as cartas. E uma das cartas pedia sua saída do grupo: “ela não bate em ninguém e ninguém pode bater nela”.
Essa situação mudou radicamelmente na ótima fase de John Byrne no título (talvez a melhor depois da saída de Lee e Kirby do quarteto). Na história o Barão Ódio, com a ajuda do Homem-psíquico, incendeia Nova York estimulando o ódio entre a população.
A trama por si já seria relevante nos dias atuais, em que discursos de ódio se disseminam facilmente pela internet. Byrne reflete sobre como o ódio ao diferente parece estar sempre encomberto por uma fina camada de gelo, que pode ser facilmente quebrada. Assim, mutantes, judeus, qualquer um que seja diferente passa a ser caçado pela população.
O Barão Ódio provoca o caos em NY estimulando o ódio entre a população. 


E, em meio a isso, o Barão consegue dominar Sue Storm, transformando-a em Malícia, uma perigosa vilã e é quando seu poder é totalmente explorado. É como se a doce garota invisível fosse incapaz de perceber a extensão total de seus poderes – capazes de derrotar até mesmo a Mulher Hulk.
O desenho de Byrne, com arte-final de Jerry Ordway e Al Gordon se encaixa perfeitamente no título, seguindo a melhor tradição de Jack Kirby e atualizando-o para a década de 1980: perfeitos nas cenas de ação ou de ficção-científica, com exemplar equilíbrio entre quadros repletos de cenários e quadros minimalistas.
O problema é no roteiro. Byrne aborda aspectos importantes da personagem, como no momento em que o Homem-psíquico explora os medos da Mulher Invisível, mas não os aprofunda.
A manipulação psíquica faz aflorar o lado malígno de Sue. 


 Além disso, em determinado ponto os heróis vão atrás do Homem-psíquico e simplesmente esquecem o Barão Ódio, que foi quem de fato manipulou Sue, tirando dela seu pior lado. Byrne esquece do personagem. Além disso, em uma sequência vemos Nova York destruída e sendo literalmente incendiada pelo ódio e na sequência seguinte tudo pareceu resolvido.
Apesar desses problemas, é uma boa história do Quarteto e merece estar em qualquer coleção. 
No Brasil essas histórias saíram nos formatinhos do Abril e recentemente na coleção Os heróis mais poderosos da Marvel, da Salvat.  

Igreja de Saint-Paul e Saint-Louis

 

A Igreja de Saint-Paul e Saint-Louis foi edificada a partir do ano de 1627, durante o reinado de Luis XIII. O cardel Richelieu rezou a primeira missa e foi doador das belíssimas portas esculpidas. Era nessa igreja que rezava missa o bispo Bossuet, criador da teoria segundo a qual o poder dos reis vem diretamente de Deus – e que seria base do absolutismo francês. Seus sermões eram tão concorridos que os nobres mandavam servos guardarem lugar nos bancos com várias horas de antecedência.

A cúpula, com 50 metros (considerada um grande feito da engenharia da época) é sustentada por pilares visíveis, que dão leveza e beleza ao conjunto. Em 1796, a igreja vizinha, de Saint-Louis, foi demolida pelos revolucionários e a de Saint-Paul adicionou-lhe o nome.
As paredes brancas e os vitrais deixam a igreja naturalmente iluminada.