domingo, agosto 18, 2019

A Balsa da Medusa



A Balsa da Medusa, de Théodore Géricault, pintura de 1818,  é considerada por muitos como o marco inicial do romantismo nas artes plásticas. Ela retrata um fato real: o naufrágio da barcaça Medusa. O barco, que levava colonos para a África, afundara graças à inabilidade do capitão, que conseguira o cargo graças a indicações políticas.
Embora a Medusa transportasse 400 pessoas, incluindo 160 tripulantes, os barcos só tinham espaço para cerca de 250 pessoas. Os outros 146 homens e uma mulher, amontoaram-se numa jangada feita às pressas. Tinham para comer apenas um saco de biscoitos. Para beber, dois barris de água (que se perderam no mar depois de uma briga) seis barris de vinho. Foram 13 dias à deriva até serem encontrados por acaso por um navio francês que passava pela região. Para sobreviver, tiveram que recorrer até mesmo ao canibalismo. O quadro mostra o momento em que os sobreviventes avistam o barco que os resgataria.
A história na época gerou grande comoção na opinião pública francesa. Gericault pintou o tema com grande emoção e, embora retratasse pessoas normais, a imagem é épica (reforçada pela escolha de colocar a cena no meio de uma tempestade), duas das características do romatismo nas artes, além do tema social. Uma curiosidade: Delacroix, que viria a ser o grande nome do romantismo era amigo de Géricault e pousou para o amigo (é a figura caída em primeiro plano, com o braço estendido).

O dia em que a terra parou

A origem do filme O dia em que a terra parou é o conto “Adeus ao mestre, de Harry Bates, publicado em 1940. No conto, um embaixador extraterrestre é morto e um momento é erigido em sua homenagem ao redor da nave, que não pode ser aberta e, na frente dela, o robô, que não se mexe, e, aparentemente, está inativo. Mas um fotógrafo desconfia que algo está acontecendo e resolve passar a noite próximo ao robô (e acaba se surpreendendo com o que acontece).
Robert Wise pegou essa premissa e transformou num dos filmes mais importantes da ficção científica de todos os tempos. Ao contrário do conto (em que a história do embaixador Klaatu é narrada em flash back), o diretor preferiu trabalhar com uma narrativa linear, o que não tirou da história seu impacto revolucionário, mas de certa forma, ampliou-a.
Muito mais do que um filme de ação, O dia em que a terra parou é um filme filosófico, que reflete sobre a humanidade e a bondade.
Na história, o embaixador traz uma mensagem de paz, mas um aviso: se continuarem se tornando uma ameaça aos outros planetas, a Terra deverá ser exterminada. Mas a chegada da nave é vista pelo governo americano como uma ameaça. Klaatu é alvejado e foge, indo parar em uma pensão, onde conhece uma viúva e seu filho, que o ajudam a encontrar um grande cientista, que poderia ajuda-lo em sua missão de convencer os governos terrestres a cessarem a corrida armamentística.
O filme, lançado em 1951, estreou em plena Guerra Fria, período em que Rússia e EUA disputavam o controle mundial num frágil equilíbrio, que colocou a humanidade diversas vezes próxima do armagedrom (chegou a existir até mesmo um relógio do fim do mundo, criado por cientistas, que mostrava o quanto estávamos próximos do fim – representado pela meia-noite). Tornou-se um símbolo do apelo pela paz e um dos mais pungentes apelos contra a insensatez humana.

O sono da razão produz monstros



A Espanha foi, durante séculos, o país mais conservador da Europa. Não por acaso, foi também o local em que a Inquisição matou mais pessoas. Judeus, ateus, heréticos e pessoas que se desconfiava serem bruxos eram levados pela cidade de Madri em momentosos autos de fé, antes de serem mortos.
O fanatismo religioso parece ser o principal tema da litogravura “O sono da razão produz monstros”, uma das gravuras mais famosas de todos os tempos. Como o próprio título sugere, a mensagem é: quando a razão adormece, surge o terror.

Na tela, o próprio Goya está sentando, adormecendo, em posição incômoda. Sobre a sua cabeça surge uma revoada de seres sombrios: morcegos, corujas e outros animais indefiníveis. Aos pés do artista, um lince observa, olhos esbugalhados, as aparições.
A composição se tornou um símbolo de horrores externos e internos e tem sido objeto das mais diversas análises. Nos quadrinhos a gravura causou impacto ao ser usado por Alan Moore e Steve Bissett em uma história do Monstro do Pântano.
A gravura da foto se encontra no Museu de Belas Artes de Buenos Aires.

sábado, agosto 17, 2019

Processos midiáticos

A apropriação é uma das possibilidades de interação com o produto original.


O interesse no estudo do processo de comunicação surge justamente no período em que, na maior parte do mundo, os meios de comunicação de massa afloraram. As análises passaram de uma visão autoritária, da mídia como toda poderosa, às propostas de meios interativos. Hoje, a linha de pesquisa em processos midiáticos abre a porta para possibilidade de ver todos os meios como interativos, inclusive aqueles que são vistos como de sentido único.
Durante muitos anos, a mídia foi vista como uma flecha, de sentido único e autoritário, a exemplo do que pregava a teoria hipodérmica. Essa visão de uma mídia toda poderosa influenciou muito a corrente apocalíptica, que via as novas mídias, tais como o cinema e o rádio, como estando a serviço do autoritarismo.
Uma tentativa de tirar das novas tecnologias esse caráter autoritário surge com as propostas de interação. Assim, se existem veículos de sentido único, existem também mídias que permite um feedeback ativo, a exemplo do MSN, do chat e do e-mail.
Esse  modelo dialogal de interação será criticado por José Luiz Braga (2006). Para ele, todos os processos midiáticos permitem interação.
Sua proposta de interação não se prende apenas à possibilidade de resposta ao emissor por parte do receptor. Existe também a possibilidade de interação receptor-produto  e receptor-sociedade ou sociedade-produto.
Esse modelo quebra totalmente com a ideia hipodérmica de receptor passivo.
Uma das formas de interação pode ser configurada na apropriação. Se existem pessoas que recebem os produtos da mídia de forma passiva e a-crítica, existe aqueles que reconfiguram sua simbologia, numa atitude que lembra a música Geração Coca-cola, do Legião Urbana (Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês). Utilizar um símbolo da mídia e reconfigurar seu significado, como a Coca-cola, é uma forma de interação.
Mesmo quando não é uma crítica negativa, essa resignificação pode ser uma forma de apropriação. Em um texto eu meu blog, eu faço uma relação do seriado Terra  de Gigantes com paradigmas científicos, uma discussão que provavelmente não estava nos planos dos criadores do mesmo. O fato de não sabermos se os protagonistas diminuíram de tamanho e estão em um mundo de pessoas com estatura normal, ou se estão de fato numa terra de gigantes abre espaço para discutir a teoria da relatividade, a física quântica e o relativismo filosófico.
Formas mais elaboradas de interação podem ser encontradas nos fanfics, em que fãs interagem com a obra original, mostrando outras possibilidades de interpretação. O fanfic O portal das probabilidades, de minha autoria, por exemplo, introduz a teoria do caos no universo da série alemã de ficção científica Perry Rhodan.
Claro que essa possibilidade de interação com os MCM é tanto maior quanto maior for a capacidade crítica dos indivíduos. Daí a importância, levantada por Braga, da criação de um sistema crítico.
Quanto mais preparadas estiverem o indivíduo e a sociedade, melhor a sua capacidade de interação e menores as chances de manipulação ou de recepção ingênua (se está publicado, é porque é verdade). Setores organizados da sociedade podem ter importância fundamental nesse processo.
Exemplo recente dessa possibilidade de interação crítica aconteceu com a publicação de uma reportagem da Veja contrária à demarcação de terras indígenas (A farra da antropologia oportunista). Um antropólogo citado na matéria veio a público denunciar que a revista teria inventado uma entrevista com ele. A revista argumentou que a citação fora tirada de um dos livros do pesquisador. Este contra-argumentou que a citação fora deturpada para  servir aos interesses  da publicação.
O SBPC lançou uma nota pública de repúdio à Veja e de apoio ao antropólogo. No Twiter,  surgiu a tag #boicoteveja, que pretendia aglutinar casos semelhantes de manipulação. Blogs, num processo de apropriação, fizeram capas fictícias da Veja, denunciando o perfil manipulador das matérias da revista. Numa delas, por exemplo, aparecia Darth Vader com o título “Ele salvou você”. Na mesma capa, sob uma imagem do mestre Yoda, a legenda: “Descoberto o líder espiritual dos terroristas rebeldes”.


A arte espetacular de Mike Zeck


Mike Zeck é um desenhista norte-americano conhecido principalmente por seu trabalho na Marvel Comics. Seu primeiro trabalho de sucesso para a editora foi o Mestre do Kung Fu. Fez também Guerras Secretas e desenhou uma das melhores histórias do Homem-aranha de todos os tempos, A última caçada de Kraven.








Inspeção




Inspeção surgiu de uma sugestão minha de fazer uma adaptação da peça O inspetor geral, de Nicolai Gógol para os quadrinhos e o compadre Joe Bennett prontamente acatou. Sempre fui grande fã de Gógol e achava que essa poderia ser uma boa história.
Mas O inspetor geral era uma comédia, como transformar em uma história de terror?
Imaginamos um hospício no século XIX, com um diretor totalitário e presos que querem se vingar. Para isso chamam um demônio que surge como um inspetor de casa de orates.

Essa é uma das histórias em que a influência da obra de Alan Moore fica mais clara. Da mesma forma que em Monólogo, a caraterização deve muito ao Coringa da Piada Mortal. Também adotamos aqui um recurso narrativo muito usado por Alan Moore em Monstro do Pântano: a estrutura em mosaico, em que o todo é mostrado através de pequenos flashs de detalhes. Exemplo disso é a história da moça estuprada pelo ajudante do diretor, que dá o tom da forma desumana como os detentos são tratados.
Essa história foi publicada na revista Calafrio e foi a única da nossa parceria em que a arte-final ficou a cargo de outra pessoa – no caso, o paraense Pedro Vale.

sexta-feira, agosto 16, 2019

Palácio de Versailles



O palácio de Versailles é o mais esplendoroso exemplo de arquitetura rococó. Foi construído a mando de Luís XIV, o rei sol, que pretendia alcançar, “além do suntuoso, o estupendo”. Para isso ele transformou o pavilhão de caça de seu pai no mais luxuoso palácio do mundo.
Os jardins têm duas fontes e um lago artificial. 

O ponto alto do palácio é a galeria dos espelhos, um salão de quase oitenta metros de extensão com 17 janelas, na frente de cada uma das quais há um enorme espelho (os espelhos na época eram caríssimos), que, junto com os candelabros criam um efeito de luz impressionante – fora as belíssimas estatuas.
A galeria dos espelhos é o local mais luxuoso do palácio.

No palácio viviam, além do rei e da rainha, dois mil nobres em eterno luxo e festas.
 O despertar e o recolher do rei eram assistidos por centenas de cortesões, em rituais tão importantes para a corte quanto o nascer do sol. Cada refeição do rei exigia a presença de quase 500 pessoas. 
Foram necessários 30 mil soldados para encher o lago artificial. 

O lago artificial era tão grande que permitia que os nobres passeassem em gôndolas. Era tanta água que para encher o lago foram necessários 30 mil soldados.
Os gastos excessivos de Versailles, aliados às dividas com a guerra, levaram o povo à penúria, provocando a revolução francesa.

No século XVIII uma das maiores manifestações de poder e luxo era encomendar uma escultura do artista italiano Gian Lorenzo Bernini, o mais caro e aclamado da época. Luís XIV encomendou duas. Uma escultura equestre, atualmente no pátio do Museu do Louvre e um busto, no palácio de Versailles. A habilidade incrível de Bernini com o mármore é perceptível nas volutas do cabelo do monarca. Tirar formas arredondadas e tão perfeitas do mármore é algo para mestres absolutos.
Os jardins têm belíssimas esculturas. 
A cama do rei: o despertar do soberano era um espetáculo. 

Histeria - a história do vibrador

No século XIX qualquer mulher que tivesse insônia, irritação ou simplesmente rebeldia era diagnosticada como histérica. Acreditava-se que essa doença era provocada por problemas no útero. Uma das maneiras comuns de tratá-la era massagear a vagina da mulher, o que aliviaria o útero, provocando um "paroxismo histérico". Isso era feito por um médico e supunha-se que não havia nenhum prazer envolvido. Mas os médicos acabavam ficando horas com as mãos ocupadas e sofriam com a hoje famosa LER (lesão por esforço repetitivo). Foi nesse contexto que surgiu o vibrador. Inicialmente movido a vapor, ele permitia ao médico conseguir o tal "paroxismo" em minutos. 
Essa é a história por trás do filme Histeria, a história do vibrador, de . A película conta a história do médico Mortimer Granville (Hugh Dancy), inventor do aparelho. A história mistura fatos históricos com uma comédia romântica (Granville apaixona-se pela filha rebelde de seu sócio). 
As cenas mais engraçadas e que chamam mais atenção, claro, são aquelas em que os médicos, com aparente rigor científico, levam suas pacientes ao orgasmo sem nem mesmo desconfiar disso. 
Mas há muito mais: desde uma discussão sobre a situação do povo numa época em que a Inglaterra era um império, mas seus operários viviam na miséria até a questão da luta entre paradigmas. Médico inovador, Granville só vai parar no consultório do médico que seria seu sócio porque nenhum hospital o aceita por causa de sua crença nos germes como causadores de doenças. Na época, a teoria de Pasteur era vista como fantasia pela maioria dos médicos, que se recusava até mesmo a lavar as mãos. 
Histeria, uma história do vibrador, embora não seja uma obra-prima, certamente vai agradar quem gosta de uma boa comédia e, principalmente, por quem se interessa pela história da ciência. 
Anúncio antigo de vibrador. Os médicos recomendavam.

Livros sobre o futuro espacial

Um exemplo característico de obras hiper-reais eram os livros ilustrados que simulavam o futuro da humanidade. Lançados na década de 1970, no rastro do sucesso de filmes de ficção científica, como Star Wars, eles criavam uma hiper-realidade em que o futuro se transformava em passado. Ou seja: fatos ficcionais, de uma época bem posterior à do leitor era apresentados como passado longínquo.
Dois exemplos merecem destaque: Naves espaciais – de 2000 a 2100, de Stewart Cowley e Seres do Espaço, também de Stewart, sob pseudônimo de Steven Caldwell (um suposto habitante do século XXIV).

O livro Naves Espaciais seria uma espécie de manual publicado pela sociedade do comércio da Terra. Uma nota explicativa no início do livro explica que a STC foi fundada em 1999 (vale lembrar que o livro foi publicado em 1978) com o nome de Sociedade do Comércio Mundial, uma subsidiária do Conselho Mundial, ficando encarregada de todo o comércio global. Com o início da exploração espacial, ela mudou de nome e ampliou suas funções para outros planetas. O livro seria uma espécie de guia para pessoas que pretendem ingressar nesse comércio, indicando não só dados técnicos, mas históricos.
A maior parte da contextualização histórica é dada na introdução, na qual é explicado que no ano de 2036 uma nave de reconhecimento estabeleceu contato com os habitantes de Alpha Centauri e o encontro resultou num esforço de cooperação mútua. Em 2047 outra nave de reconhecimento foi atacada pelos habitantes de Proxima Centauri, iniciando uma guerra estelar de vinte anos durante os quais Alpha Centauri, Terra e Proxima Centauri dedicaram-se à produção de uma ampla variedade de naves militares.
Os fatos, como se percebe, são narrados no passado e, embora o ano de 2036 fosse um futuro longínquo em 1978, o livro narra o passado, envolvendo o leitor em um simulacro hiper-real.
Essa hiper-realidade é destacada pelas ilustrações hiper-realísticas e os detalhes técnicos extremamente específicos do texto. Assim, sabemos, por exemplo, que a CAM 117 Gunship era uma nave extremamente rápida, mas essa rapidez se fazia à custa do raio de ação.
Esse acúmulo de detalhes técnicos e históricos criam essa impressão de hiper-realidade, fazendo com que o leitor acredite que encontrou um livro que, de alguma forma, veio do futuro para narrar fatos que ainda irão acontecer (foi essa a impressão que tive ao lê-lo pela primeira vez, na pré-adolescência).

Cowley ampliou essa experiência ao correlacionar outros livros ao mesmo universo, criando uma mitologia coerente. Exemplo disso é o livro Seres do Espaço, de Steven Caldwell.
Na quarta capa do volume descobrimos que o autor integrou a Força de Segurança da Federação Galática em 2393, logo assumindo o posto de comandante militar do grupo 1 e, ao longo de quinze anos de carreira, viajou pelos mais variados lugares da Federação, o que lhe dá credibilidade para escrever sobre as várias raças que a compõe. Caldwell, claro, não é uma pessoa real. Na verdade, Caldwell é um simulacro criado por Cowley para tornar Seres do espaço ainda mais verossimilhantes.
No livro somos informados, por exemplo, que habitantes de Alpha Centauri (aqueles mesmos que haviam se deparado com uma nave de exploração terrana em 2036) são fisicamente semelhantes aos humanos, embora sejam mais esbeltos, tendo, no entanto, um período de gestação mais lento, o que diminuiu drasticamente o crescimento populacional, em especial após as Guerras Centaurianas.
Tais livros estimulavam a curiosidade e a imaginação e nos fazia pensar como de fato seria o futuro.

Introdução ao jornalismo



Introdução ao jornalismo é um livro escrito por mim, Cláudia Saar e Roberta Scheibe e publicado pela editora da Universidade Federal do Amapá. Na obra nós procuramos dar uma visão geral sobre os aspectos mais importantes do jornalismo.
No meu capítulo eu falo sobre as teorias do jornalismo e apresento o conceito de propostas discordantes – práticas jornalísticas que fogem do modelo padrão, tais como o Infotenimento, o gonzo e o novo jornalismo.
Em seu capítulo, Cláudia Saar apresenta os critérios de noticiabilidade (o que faz com que um fato seja considerado notícia) e, finalmente, Roberta Scheibe discute as características do texto jornalístico.   

quinta-feira, agosto 15, 2019

A tragédia do Brigue Palhaço

Hoje comemora-se 196 anos da adesão do Pará à independência. Não há muito a comemorar. A adesão começa com um massacre. 
Na época, Belém tinha relações muito mais fortes, devido à proximidade geográfica, com Portugal, do que com a corte no Rio de Janeiro. O estado era dominado por uma elite de ricas famílias portuguesas, enquanto a maioria da população vivia na miséria ou na escravidão. Um ano depois o estado não tinha aderido à independência. D. Pedro I mandou um mercenário inglês, John Pascoe Grenfell, garantir a independência. Grenfell negociou com a elite uma adesão que mantinha todos os privilégios às ricas famílias, que continuavam mandando no estado.
O povo, que achava que algo ia mudar, revoltou-se. 

Grenfell foi implacável: mandou recolher quem quer que estivesse na rua. Não houve julgamento ou nada parecido. Quem estivesse na rua naquele momento foi preso.
252 pessoas foram aprisionadas e colocadas no porão de um navio, o Brigue Palhaço. A ideia era matá-los de fome e de sede. O calor paraense transformou aquele local repleto de pessoas num inferno. Os gritos de agonia começaram a incomodar a tripulação. Grenfell mandou atirar. Mesmo assim os gritos de agonia continuavam. Veio a solução final: jogar cal no porão. Sufocados, morreram todos menos um único sobrevivente.

O massacre do Brigue Palhaço marcou a história do Pará e foi um dos principais fatores para a eclosão da Cabanagem, poucos anos mais tarde. 

Superaventuras Marvel 4


Superaventuras Marvel número 4 foi a primeira revista de heróis que eu li, provavelmente no ano de 1982. Eu estava em uma fila de banco do tipo que durava a manhã inteira e parte da tarde (sim, havia uma época em que a única forma de pagar contas era enfrentando a fila do banco). Alguém tinha levado essa revista e, quando terminou de ler, alguém pediu emprestado, mas acabou emprestando para outra pessoa. Assim, a revista foi passando de mãos em mãos até chegar ao local em que eu estava. Ali ela parou. Devorei a revista da primeira à última página. Lembro que gostei do Demolidor do Frank Miller. Mas que o que realmente me chamou atenção foi a história do Doutor Estranho, que tinha um forte toque de horror, e a história de Conan. Em certo ponto o dono pediu a revista de volta e tive que devolver. Nunca mais achei essa edição, nem mesmo em sebo, mas ela foi essencial para que eu me tornasse leitor de quadrinhos.

Livro para baixar: A arte dos quadrinhos

Já está on-line o e-book A arte dos quadrinhos. O livro reúne os artigos apresentados no III FNPAS com as mais variadas temáticas. Eu colaborei com o artigo SIMULACRO E PASTICHE EM 1963, DE ALAN MOORE. Para baixar o e-book clique aqui

Tarzan: a aventura chega aos quadrinhos


Além de Buck Rogers, outro grande expoente da fase aventura foi Tarzan. O personagem foi criado por Edgar Rice Burroughs em 1912, numa revista pulp. O primeiro livro foi vendido para a editora por apenas 700 dólares. Um ano depois já tinha se tornado um dos maiores best sellers da literatura universal.
Com o tempo o rei dos macacos tornou-se o mais consagrado personagem do século XX e legou ao seu criador uma fortuna de 20 milhões de dólares.
Ao contrário da versão cinematográfica, em que Tarzan era um selvagem monossilábico, na literatura ele era um Lord inglês, que fora criado pelos macacos e, de tão inteligente, aprendera a ler sozinho. Seu nome, na linguagem dos macacos criada por Burroughs, significa pele branca (Tar – branca, zan – pele).
     Dizem que quando se deparou com o original de um livro de Tarzan, o editor teria dito: “É a história mais excitante que já conheci!”.
Logo cartas de fãs começaram a chegar na editora exigindo uma segunda aventura. Os livros, 26 ao todo, foram traduzidos em 31 línguas, incluindo o mandarim e o esperanto. Até os soviéticos se renderam ao carisma do rei dos macacos.
O personagem estreou no cinema em 1918, com Tarzan dos Macacos, sendo o primeiro filme da história a arrecadar mais de um milhão de dólares.
Com o dinheiro que ganhou, Burroughs montou uma fazenda em homenagem ao personagem e deu-lhe o nome de Tarzana.
No início da década de 1930 a marca Tarzan estava em tudo. Além do cinema, o personagem estrelava propagandas de cremes dentais, sorvetes e até gasolina (“Dirija com o poder de Tarzan!”). Eram vendidos a faca de tarzan, estatuetas de Tarzan e calções de Tarzan.
Com tanto sucesso, não foi surpresa quando o personagem apareceu nas tiras de quadrinhos. Mas, com medo de que seu personagem fosse mais uma vez deturpado, como foi no cinema, Burroughs exigiu que a versão fosse a mais fiel possível.  
Para ilustrá-la foi chamado Harold Foster, um desenhista publicitário de talento.
Foster, antes de se tornar desenhista, fizera de tudo um pouco. Passara a infância nas florestas do Canadá, caçando, pescando. Depois trabalhara como guarda-florestal. Depois disso, vendeu jornais, foi boxeador profissional e  garimpeiro. Chegou a descobrir uma mina no valor de um milhão de dólares, que lhe foi usurpada.
Em 1921 foi de bicicleta a Chicago, onde estudou desenho de noite enquanto trabalhava de dia.
Embora o tempo de execução fosse muito curto, Foster acabou aceitando desenhar as tiras diárias de Tarzan, mas se recusou a usar balões. O texto e os diálogos eram colocados abaixo dos quadros, um recurso que lhe dava a certeza de que seu desenho não sofreria perdas.
A primeira tira de Tarzan surgiu no dia 7 de janeiro de 1929 e foi um sucesso imediato. Além da popularidade do personagem, a história ganhava muito com o ótimo traço de Hall Foster, um dos mais perfeitos desenhistas de quadrinhos de todos os tempos.
Depois de 60 tiras, Foster completou a história do primeiro livro e abandonou o personagem. Fazer uma tira por dia era um sufoco grande demais. Mas, como Burroughs gostava muito de seu traço, ele foi chamado para fazer páginas dominicais, um novo formato no qual ele se tornaria mestre.
Em 1937 ele abandona Tarzan para se dedicar ao Príncipe Valente, uma criação sua, e é substituído por Burne Hogarth. Hogarth era considerado um mestre da anatomia e levou o personagem ao seu ponto alto. Depois dele vieram outros nomes igualmente importantes, como Russ Manning e Joe Kubert.
Realista somente no desenho, o Tarzan dos quadrinhos era, acima de tu­do, um aventureiro. Encontrando cida­des perdidas (parece que havia muitas naquela época), lutando com gorilas gigantes­cos, enfrentando dinossauros e salvan­do lindas princesas, o único limite para suas aventuras era a imaginação dos ro­teiristas... e esse limite era tão elástico quanto o interesse dos leitores.

quarta-feira, agosto 14, 2019

Gógol - entre risos e lágrimas



Não, você provavelmente nunca leu uma obra de Gogol. Mas certamente conhece alguma de suas histórias. Afinal, são muitas as adaptações para cinema, televisão e quadrinhos. Eu mesmo cheguei fazer duas HQs baseadas em suas histórias: Fobia (baseada em O Nariz) e A Inspeção (baseada na peça O Inspetor Geral), ambas desenhadas por Bené Nascimento (a primeira foi publicada pela Nova Sampa, a segunda pela revista Calafrio). O grande destaque de Gogol se deve ao fato de ter sido o iniciador da moderna literatura russa, que nos legou nomes como Tcheckov, Tolstoi e Gorki.

Nicolai Vassilievitch Gogol nasceu em uma pequena província da Ucrânia, no ano de 1809. Até mesmo a data de seu nascimento é controversa: 19 de março no calendário russo e 31 de março no calendário ocidental. O pai era um fazendeiro que, ao contrário de seus vizinhos, tinha rudimentos de cultura artística. Gostava de ler e usava as horas vagas para escrever peças satíricas. Gogol herdou dele o gosto pela pena. E herdou da mãe a extrema religiosidade que o levaria à morte.

Desde criança, Gogol sempre foi estranho. Na escola era chamado de "anão enigmático" porque falava pouco e tinha dificuldade para se relacionar com colegas e professores. Como o apelido sugere, também era pequeno. Seu grande sonho era ir para São Petesburgo. Imaginava-se com um bom emprego, instalado em um quarto com vista para o rio Nieva. Depois da morte do pai, conseguiu finalmente realizar o seu sonho, que acabou parecendo mais com um pesadelo. Tudo o que conseguiu em São Petesburgo foi um emprego burocrático medíocre, um salário insignificante e um quarto a grande distância do rio Rio Nieva. Para sobreviver, era obrigado a pedir dinheiro à mãe.

Por esses tempos, teve sua primeira decepção literária e revelou uma característica que o acompanharia por toda a vida: Gogol dava mais atenção às críticas que aos elogios. Seu poema Hans Kuchelgarten foi tão mal recebido pela crítica que o escritor recolheu todos os exemplares e os queimou. Só voltaria a escrever mais tarde, empolgado com a efervescência literária da época.

Na Rússia de então, os intelectuais se dividiam em dois grupos. Um deles defendia a aproximação com a cultura ocidental e o outro estava preocupado com a preservação da cultura russa. Gogol era um simpatizante do segundo grupo. No interesse de resgatar as tradições de sua terra, ele escreveu alguns contos sobre a Ucrânia para revistas e publicou uma seleção deles. O livro se tornou extremamente popular, especialmente por seu humor, que fazia rir os funcionários da gráfica que o imprimia.
Foi nessa época que Gogol conheceu Punchin, o maior poeta russo do período. Punchin foi uma espécie de guru para o jovem Gogol. Gogol chegou a dizer que tudo que escrevia o fazia pensando no que Punchin pensaria, e duas de suas principais obras, Almas Mortas e O Inspetor Geral, surgiram a partir de idéias do poeta.

A trama da peça O Inspetor Geral era simples: as autoridades de uma pequena aldeia tomam conhecimento de que um inspetor do governo chegará incógnito em breve para investigar certos abusos. Por acaso, um aventureiro passa por ali e os poderosos do local, achando que ele é o inspetor, fazem de tudo para suborná-lo. Essa história já foi adaptada para a TV, para o cinema, para os quadrinhos e até na série alemã de ficção-científica Perry Rhodan.

A obra mais genial de Gogol, no entanto, foi escrita em 1842. Trata-se de uma novela com o singelo título de O Capote. É a história de um pobre funcionário público que, a grandes custos, conseguia comprar um novo capote e é roubado no mesmo dia em que o inaugura.

Segue-se, então, uma via-crucis pela burocracia russa. Ao invés do capote, ele consegue apenas uma grande bronca de um alto funcionário, interessado em impressionar um amigo. Isso, unido a uma gripe que o pega por estar sem capote, e portanto, desprotegido do terrível frio de São Petersburgo, leva-o à morte. Seu fantasma então, passa a puxar o capote de todas as pessoas que se aventuram a sair à noite.

Como se vê, suas histórias eram simples, bobas até, como contos infantis. Nada de pretensões filosóficas ou pedantismo. Nosso escritor queria apenas contar histórias de seu país natal, o jeito de ser de sua gente, e talvez nisso resida o seu maior encanto. Suas histórias misturavam humor e tragédia naquilo que os críticos chamaram de risos entre lágrimas. Personagens como o funcionário publico de O Capote são ridicularizados, mas ao mesmo tempo, redimidos por sua humanidade.

Gogol se tornou imortal porque suas obras eram repletas de vida. Era a vida dos grandes heróis nacionais, como Taras Bulba, ou dos insignificantes funcionários públicos. Mas, apesar do sucesso, o escritor vivia entre anjos e demônios. Sempre ouvia mais as críticas do que os elogios. Quando a peça O Inspetor Geral estreou, os conservadores pediram a proibição da mesma, acusando o autor de ter caricaturado tanto o país quanto seus dirigentes. Gogol mergulhou em profunda depressão e viajou para a Europa.

Com o tempo, essas crises de depressão foram se tornando mais e mais freqüentes. No dia 11 de fevereiro de 1852, influenciado por um padre fanático, Gogol queimou todos os manuscritos da segunda parte de Almas Mortas e deitou para morrer. Não se alimentava, nem aceitava remédios. A 21 de fevereiro daquele ano, a Rússia perdeu um dos seus escritores mais queridos, o homem que abriu as portas para torná-la uma das capitais mundiais da literatura.

A arte clássica de Jacques-Louis David


Jacques-Louis David foi o principal pintor da revolução francesa. Seus quadros serviam de inspiração para os revolucionários. Posteriormente tornou-se pintor oficial de Napoleão. Seu estilo clássico influenciou diversos outros pintores. Era tão popular na época que as mulheres imitavam o penteado das mulheres de seus quadros. 






Doutor Estranho - a dimensão das trevas


O Doutor Estranho pode não ser o personagem mais popular da Marvel, mas certamente é um um mais interessantes. Ele teve duas fases memoráveis. Uma na década de 60, sob a batuta de seu criador Steve ditko e outra na década de 70, nas mãos de engelhart e Brunner. Mas na década de 80 o herói ganhou uma nova e simpatica fase com roteiro de Roger Stern.
Stern é aquilo que no cinema chamam de artesão talentoso. Não é genial, mas também não decepciona.
É essa fase que a Salvat reúne no volume dedicado ao Dr estranho vida coleção Os heróis mais poderosos da Marvel.
Stern não resgata as características psicodélica do personagem, mas entrega um herói simpático. Os ótimos desenhos de Paul Smith também contribuem para tornar a história agradável.
Na história o Dr estranho ajuda sua assistente Cléa a lutar contra uma feiticeira que domina a dimensão das trevas. A vilã, alias, é irmã de Dormanu, o eterno inimigo do mago supremo. 
A história começa com uma outra trama, bem regular, focada no Cavaleiro Negro, mas logo ganha fôlego quando Strange vai para a dimensão da feiticeira.
Embora Paul Smith não seja tão eficiente em fazer sequências surreais e psicodélica, ele usa bem um recurso que tornou o Dr estranho um personagem diferente de todos os outros magos dos quadrinhos: tornar a magia visual. Os feitiços se tornam imagens geométricas ou fluxos de energia que fluem pela página.
O volume incluí também a primeira história do herói, publicada em strange Tales 110. Uma pérola da síntese: em cinco páginas, Lee e ditko apresentam o personagem, criam e resolvem uma trama repleta de senso de mistério.
E, para fechar a revista, um conto escrito por Peter Gillis no qual o doutor encontra Beyonder em sua forma humana. Embora curta, é um dos melhores momentos do volume, com uma HQ intimista e texto que lembra muito o estilo britânico. Pena que o desenho de Mark badger não ajude. 

terça-feira, agosto 13, 2019

Passando vergonha no jornal



De vez em quando, no auge da produção de quadrinhos da dupla Gian-Bené, alguém nos procurava para fazer matérias de jornais. Era sempre uma roubada. A maioria dos jornalistas não sabia nada sobre HQs além da Turma da Mônica, mas uma das jornalistas que nos entrevistou, na casa do Bené na cidade nova, ganhou todos os recordes.
A moça não conhecia nada de nosso trabalho e sua primeira pergunta foi:
- Então vocês fazem bonequinhos?
- Não, nós não fazemos bonequinhos.
- Não estou entendendo nada. Na pauta diz que vocês fazem quadrinhos!
Por mais que tentássemos explicar, ela não conseguia entender que existiam quadrinhos que não era para crianças. E ela ficava voltando para a primeira pergunta:
- Então vocês fazem bonequinhos?
Se o texto não era dos melhores, a fotografia também não ajudava.  Bené, usava uma camiseta extremamente apertada, especialmente se considerarmos que sempre foi musculoso e eu, magrelo, usava uma camisa super-folgada. Dava a impressão de que tínhamos trocado de roupa um com o outro na hora da foto, ou que o defunto era menor, ou maior, de acordo com o caso. Ao menos aparecíamos sorrindo e folheando nossos quadrinhos.
Em outra matéria fomos entrevistados na própria sede do jornal. Na época, o conceito de foto para caderno de cultura era fotografar os entrevistados com o olhar mais assustado possível – exatamente como se fazia nas matérias policiais. Éramos a perfeita ilustração de dois malacos fugitivos finalmente aprisionados pela polícia.

Psicopatas: mente assassina


Estudos recentes demonstram que psicopatas têm mentes com características especiais.
         Uma das pistas pode estar no lobo frontal.
         O auto-controle, o planejamento, o equilíbrio das necessidades dos indivíduos versus as necessidades sociais são mediadas pela parte frontal do cérebro. O córtex frontal está associado também ao medo condicionado. Quando um rato é punido toda vez que acende uma luz em uma gaiola, ele associa a luz à punição e é essa área do cérebro que é acionada.
         Antônio e Hama Damasio, dois neurologistas da Universidade de Iowa investigaram as bases neurológicas da psicopatia. Eles demonstraram que indivíduos que haviam tido danos no córtex frontal ventromedial desenvolveram conduta social anormal. Eles tomavam decisões inadequadas e tinham pouca habilidade de planejamento a longo prazo.
         Os dois pesquisadores reconstituiram neurologicamente o primeiro caso conhecido de alteração de personalidade em decorrência de um dano cerebral.
         No século XIX, na Inglaterra, Phineas Cage, um supervisor de obras ferroviárias, perdeu uma parte do cérebro quando uma barra de ferro atravessou seu crânio após uma explosão. Ele sobreviveu muitos anos, mas se tornou abusivo e agressivo, irresponsável e mentiroso. Um conterrâneo disso dele: "Phineas não é mais o Phineas".
         Os psicopatas parecem ter dificuldade também de acionar a área do cérebro responsável pela emoção. Eles só teriam as chamadas proto-emoções - sensações de prazer, fúria e dor menos intensas que o normal, o que os leva a sempre buscar novos estímulos, seja matando uma pessoa ou arriscando tudo num golpe.
         Um psicopata entrevistado pelo psicólogo Hare disse: "Quando assaltei um banco, notei que uma caixa começou a tremer e a outra vomitou em cima do dinheiro, mas não consigo entender por quê. Na verdade, não entendo o que as pessoas querem dizer com a palavra medo".
         Em 2001, o psiquiatra Antônio Serafim colocou presos de São Paulo para assistir cenas de corpos decapitados, crianças esquálidas com moscas nos olhos, torturas com eletrochoque e gemidos desesperados. Os criminosos tiveram reações físicas de medo, como aumento das batidas do coração, intensificação da atividade cerebral e enrijecimento dos músculos. Os psicopatas não tiveram sequer variação de batimentos cardíacos.
         Uma pesquisa nos EUA demonstrou que os psicopatas têm dificuldade de identificar reações de tristeza, medo ou reprovação em rostos humanos.
         Um psicopata da Califórnia saiu para comprar cerveja e, ao descobrir que havia esquecido a carteira em casa, pegou um pedaço de pau, bateu em um homem e levou o dinheiro dele.
         Uma mulher deixou a filha de cinco anos ser estuprada pelo namorado. Ao ser perguntada por que deixou aquilo acontecer, ela respondeu simplesmente: "Eu não queria mais transar, então deixei que ele fosse com minha filha".
         A ausência de medo da punição foi demonstrada por um experimento do psicólogo norte-americano Joe Newman, em 1987. No laboratório havia quatro montes de cartas. Sem que os jogadores soubessem, um deles estava premiado com cartas boas. Aos poucos, no entanto, a quantidade de cartas boas ia rareando até que escolher aquele monte passava a dar prejuízo. Pessoas comuns logo percebiam isso e deixavam de apostar naquele monte. Psicopatas, no entanto, continuavam tentando conseguir a recompensa anterior. "Crianças e adultos psicopatas continuam a ação mesmo repetidamente punidos", explica Newman.
         Ou seja, não adianta punir ou ameaçar um psicopata. Se tiver oportunidade, ele fará tudo de novo.
         Quando se fez passar por um famoso e violento policial de Curitiba, Marcelo Nascimento (aquele mesmo que se fez passar por filho do dono da gol) foi descoberto. O policial andou com ele um bom tempo, apontando sua arma para a cabeça do rapaz e fazendo roleta russa. Qualquer pessoa normal nunca mais pensaria em se fazer passar por outra pessoa, mas Marcelo já saiu do encontro pensando no próximo golpe que aplicaria.
         Isso faz com que os psicólogos concordem num ponto: é impossível reabilitar um psicopata. Solto ele voltará aplicar golpes, ou a matar.

Buck Roges: ficção científica nos quadrinhos


Como nem tudo são flores, logo veio a crise de 1929 que acabou com a alegria da classe média americana. Naqueles dias, muita gente dormia ri­ca e acordava pobre — absolutamen­te miserável.
 O clima era de desespero e desânimo e o lance ago­ra não era mais rir futilmente da vi­da. As primeiras histórias em quadrinhos tinham sido todas cômi­cas (tanto que nos EUA, os quadri­nhos são chamados de “comics”), mas já não havia muita razão para rir.
Todos queriam fugir para plane­tas distantes, cidades perdidas ou paí­ses exóticos... todos queriam aventura!
Uma das primeiras séries a captar esse clima de escapismo foi Buck Rogers, criação de Philiph Nowlan. Esse personagem foi publicado originalmente na revista pulp Amazing Stories, em agosto de 1928. O conto, Armagedon 2419 AD contava a história de um piloto (Rogers) preso em uma mina que desabara. Ele, graças a gases radioativos, permanece em estado de dormência, vindo a acordar 500 anos depois.
A América que ele vê é totalmente diferente da que conhecera. Agora o país está totalmente destroçado pelos invasores orientais e os seus habitantes perseguidos em sua própria terra, obrigados a se esconderem nas florestas.
A história fez tanto sucesso que o editor da revista, John Dille, sugeriu a Nowlan que a adaptasse para os quadrinhos. Para realizar essa tarefa foi contratado um desenhista, Richard (Dick) Calkins, que tinha um traço barroco e detalhista.  
Na versão em quadrinhos foram necessárias algumas adaptações. O nome foi mudado para Buck Rogers para aproveitar o sucesso de Buck Jones, famoso cowboy do cinema.
A tira foi publicada pela primeira vez no jornal Courier Press, de 27 de janeiro de 1929 e fez enorme sucesso, abrindo caminho para muitos outros personagens de aventura e ficção-científica.
Para manter o clima pseudo-científico, a equipe de criação contava com consultores especialistas, inclusive um metereologista.
Entre as curiosidades da série está o fato dela ter antecipado o meio pelo qual os astronautas iriam se deslocar no espaço. Logo na terceira tira da história, a heroína Wilma mostra a Rogers uma mochila antigravitacional que lhe permitia flutuar no ar. Para direcionar o vôo, Buck utiliza o recuo da arma.
Quando, em 1984, os primeiros astronautas passearam soltos no espaço, o escritor Isaac Assimov se lembrou imediatamente de Buck Rogers: “ Recentemente dois astronautas flutuaram livremente no espaço, antes de seu ônibus espacial pousar na Flórida. Eles não ficaram ligados à espaçonave. Saíram dela e retornaram. Os mais velhos se lembrarão das histórias em quadrinhos de Buck Rogers, no anos 30 e 40. Tudo isso – o passeio espacial, a espaçonave movida a foguetes, a mochila nas costas – já tinha acontecido nos desenhos”.
A propósito, a forma como os astronautas conseguiram controlar seu deslocamento no espaço foi justamente através do recuo de uma pistola de ar. Como em Buck Rogers.