sexta-feira, maio 08, 2026

Quarteto Fantástico – A Volta do Toupeira

 


O Toupeira foi o primeiro inimigo do Quarteto Fantástico e voltou no número 22 do título. No melhor estilo marketeiro de Stan Lee, a situação é apresentada como um evento memorável: “Comemore conosco o retorno do primeiro supervilão que o enfrentou! Veja como o Toupeira é apresentado agora, no novo e tão comentado jeito Marvel!”, dizia a chamada de capa. Como se isso já não fosse suficiente, Lee acrescentava: “Mais uma façanha do poderoso Grupo Marvel!”. Considerando que o “Poderoso Grupo Marvel” era Stan Lee e uma secretária, era um texto brilhante pela cara de pau.

Mas o vilão só vai aparecer lá pelo meio da revista. Antes disso, temos muitas cenas familiares, afinal, o Quarteto se diferenciava por ser uma família.

Sue descobre novos poderes. 


A história começa com as brigas entre o Coisa e o Tocha enquanto Reed Richards testa os poderes de Sue, que são ampliados. Isso provavelmente era uma resposta de Stan Lee aos haters, que viviam escrevendo para a editora pedindo a retirada da Mulher Invisível, que, segundo eles, tinha pouca utilidade nas tramas. Nessa nova versão, Sue consegue criar um escudo invisível moldável e até tornar outras coisas invisíveis. Posteriormente, John Byrne exploraria essas possibilidades ao máximo, transformando a personagem na mais poderosa do grupo.

O Quarteto enfrenta problemas com vizinhos...


Além de brigas, o que mais caracteriza uma família? Brigas com vizinhos, é claro! E é isso que vemos na sequência, quando vários vizinhos começam a fazer suas reclamações, incluindo uma alfinetada na paranoia anticomunista que dominava os EUA na época: “Eu sei que vocês guardam armas aí! Vou ligar para o FBI! Vocês devem ser comunistas! Mas não vão se safar desta!”.

A solução, que surge através de um anúncio, é alugar uma ilha. No entanto, a oferta é uma armadilha do Toupeira.

... e cai numa armadilha do Toupeira.


Por incrível que pareça, é justamente quando começa a ação que a história se torna menos interessante e mais formulaica, destacando-se apenas pelas sequências em que a Mulher Invisível usa seus novos poderes.

O mundo perdido dos pulp fiction

   Há uma idéia generalizada de que os pulp fiction são uma forma menor de literatura. Muitos, inclusive, traduzem o termo como literatura barata. Nada mais falso. Em mais de um século de existência, os pulp publicaram alguns dos grandes autores de sua época e revelaram grandes nomes da literatura.

                A história dos pulps começa em 1896, quando o editor Frank Monsey resolveu transformar uma revista para meninos, The Argosy, numa revista de ficção adulta com formato de 17 por 25 cm. O papel, de péssima qualidade e altamente descartável, era feito da polpa da árvore, daí o nome pulp. A publicação custava apenas um centavo. Mais tarde, alguns pulps chegariam a custar até 20 centavos.

                Os pulps surgiam como uma opção de leitura e diversão para uma grande massa de trabalhadores que emigrava do campo para a cidade, formando o que seria chamado de sociedade de massas. O salário médio de um operário era de 7 dólares semanais e o preço dos pulps não pesavam no bolso. Em 1907 The Argosy já vendia 500 mil exemplares. Preço baixo e grandes tiragens seriam a receita de sucesso dos pulps até meados do século passado.
                O mesmo Munsey iria lançar uma das mais célebres publicações no gênero: All-Story Magazine. Foi nessa revista que Edgar Rice Burroughs lançou em 1912 a história “Sob as luas de Marte”, com o personagem John Carter de Marte. Pouco depois ele criou, para a mesma revista, um personagem que se tornaria uma lenda do século XX: Tarzan.

                A partir da década de 20 os pulps entraram em decadência devido à concorrência do rádio e do cinema. A reação dos editores deu origem a uma das eras mais prolíferas do gênero: as revistas passaram a ser temáticas. Surgiram revistas sobre crimes, ficção científica, terror, faroeste e até revistas sobre submarinos e zepelins.
As revistas de crime revelaram um dos maiores escritores norte-americanos: Dashiell Hammett, autor de O Falcão Maltes e criador do romance noir. Esse novo tipo de história mudava a ótica das histórias policiais, tornando-as mais realistas. A linguagem seca e rápida de Hammett teria grande influência sobre escritores badalados, como o brasileiro Ruben Fonseca.

                As revistas de ficção-científica revelaram nomes como Isaac Assim e Ray Bradbury. Posteriormente essas revistas passariam por uma reformulação editorial e se tornariam mais elitistas, como o são hoje.
                Mas o que ficou marcado na mente das pessoas foram os personagens criados para essas revistas. Além de Tarzã, muitos outros desfilaram pelas páginas dos pulp fictions: O Sombra, Doc Savage, Capitão Futuro, Conan, Buck Rogers, Fu Manchu e muitos outros.
                Esses personagens seriam uma virada nos pulps e talvez sem eles esse tipo de revista não teria alcançado tanto sucesso numa época em que a crise econômica arrasava o mundo inteiro.

                O Sombra é um bom exemplo dessa nova perpectiva. O personagem surgiu em um programa de rádio. Ele era o apresentador de um programa baseado nas narrativas da revista Histórias de Detetive. No dia 31 de julho os norte-americanos se espantaram com um voz cavernosa que ria e dizia: “Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens? O Sombra sabe”.
                O editores esperavam que o programa alavancasse as vendas da revista. Mas as pessoas iam às bancas procurando justamente as aventuras daquele personagem misterioso. Daí para que o personagem se tornasse uma estrela dos pulps foi um pulo. O escritor  Walter Gibson, sob o pseudônimo de Maxwell Grant escreveu nada menos que 283 histórias do personagem, transformando-o num fenômeno mundial. Até no Brasil o Sombra chegou a ter um programa de rádio.
                O Sombra daria a tônica do que seriam os heróis dos pulps: um herói destemido e misterioso que combate o mal ajudado por uma equipe de especialistas.

                Esse seria o mesmo mote de Doc Savage. Desde sua infância Savage cultivou o corpo e o intelecto, tornando-se um gênio e ao mesmo tempo um atleta. Além disso, sua pele tem uma coloração bronzeada que lhe valeu o apelido de Homem de Bronze. Em suas aventuras ele contava com a ajuda de cinco amigos e juntos combatiam o mal com muita coragem e os mais avançados aparelhos tecnológicos.
                Savage migrou para o cinema, e para os quadrinhos, sempre com muito sucesso.
                Capitão Futuro, criado por Edmond Hamilton, é outro personagem que fez história, agora num cenário de ficção científica.
                A história se passa na década de 1990.

                Capitão Futuro é um verdadeiro um super-homem, com visão esplendida, reflexos super-desenvolvidos e gênio super-desenvolvido. De sua base na Lua ele vive as mais extraordinárias aventuras ao lado de seus três companheiros: Um robô pensante feito à sua própria semelhança; Simon Wright, a enciclopédia viva, um cientista que para se livrar de uma doença fatal, teve seu cérebro transplantado para um tanque e Otho um guerreiro de cristal que muda de forma quando é necessário.       
A primeira história começa com um parágrafo que dá o tom épico do personagem: “O nome e a fama do Capitão Futuro são conhecidos por todo homem e mulher viventes. As incríveis façanhas do mais assombroso aventureiro da história serão narrados enquanto existir a humanidade”.
                A mitologia criada pelos pulps é tão forte que impregnou o cinema, os quadrinhos e a imaginação de milhões de pessoas no mundo todo. De Indiana Jones ao Super-homem, a cultura pop deste século deve muito aos pulp fictions.

Fundo do baú - A grande família

 


Grande Família foi uma série de televisão brasileira exibida de março de 2001 a setembro de 2014. Foram 485 episódios. É a série  cômica de maior sucesso da TV brasileira. O curioso é que ela nasceu como um especial para homenagear a versão original de 1972, escrita por Oduvaldo Vianna Filho e Armando Costa. Mas o sucesso foi tão grande que acabou virando uma série.
O segredo do sucesso está nos personagens carismáticos, interpretados por ótimos atores e o texto inspirado.
Tudo funciona bem na Grande Família, do figurino brega do Agostinho ao cenário da casa de Dona Neném com garrafa de abacaxi.
Já na fase final do seriado, Tuco conseguiu emprego em um programa de humor, onde interpretava um rapaz assediado por mulheres, que eram sempre dispensadas. O quadro sempre terminava com as garotas dizendo: “Sai do armário, Serginho”, ao que ele respondia: “Papai não deixa”.

quinta-feira, maio 07, 2026

Marvels

 



Em meados da década de 1990 os quadrinhos americanos estavam dominados por revistas sem roteiro, desenhos sem preocupação anatômica, cores digitais e personagens raivosos, como Wolverine e Justiceiro. Foi quando uma minissérie surgiu, criada por dois desconhecidos. Marvels, de Kurt Buziek (roteiro) e Alex Ross (desenho) era em tudo o oposto disso, mas mesmo assim fez enorme sucesso, provocando uma guinada no mercado dos comics.
O primeiro embrião da minissérie surgiu quando Alex Ross apresentou à Buziek a ideia de fazer uma minissérie pintada com histórias fechadas dos principais heróis da Casa da Ideias. Ross não havia imaginado nada em comum que ligasse as dez histórias.
Buziek trouxe uma inovação para a proposta: mostrar o impacto que os super-heróis teriam sobre a vida de pessoas reais. Quando dois super-seres lutavam nos céus de Nova York, o que acontecia com as pessoas lá embaixo? Com os pedestres, taxistas e motoristas e ônibus? Como suas vidas seriam afetadas? Isso se deve ao fato de Buziek ter começado a ler quadrinhos já adolescente, o que o levava pensar em coisas que não eram mostradas nos gibis, tais como imaginar se as garotas tinham em seus quartos pôsteres de Johnny Storm vestindo nada mais que calças jeans.
Os dois artistas apresentaram a proposta para vários editores da Marvel, mas embora a maioria tivesse adorado a arte de Ross, ninguém se interessou em publicar. Até que o projeto caiu na mesa do editor-chefe da editora, Tom DeFalco, que fez uma sugestão que mudaria os rumos da série: que tal, ao invés de contar histórias inéditas dos heróis a partir da perspectiva de pessoas normais, a história focasse em recontar os principais eventos dos quadrinhos Marvel, mostrando-o sob essa perspectiva inovadora?
O diferencial da série já aparecia logo nas primeiras páginas, na sequencia que mostrava o embate entre o Príncipe Submarino e o Tocha Humana original. A arte maravilhosa de Ross mostrava os dois através de um plano inferior, como e alguém os estivesse vendo de baixo para cima e o texto de Buziek afirmava: “Deve ter sido como ler sobre um balé aéreo, maravilhoso e emocionante. E talvez fosse. Mas não para nós. O que nós vimos foi carnificina, destruição e confusão”.
O departamento de Marketing da Marvel ainda tentou incluir o Justiceiro, ou Wolverine na história como forma de ajudar nas vendas. Mas os autores bateram os pés: sua história seria uma homenagem à Marvel Clássica. E fizeram bem: Marvels foi um sucesso absoluto, de público e de crítica. E revolucionou os quadrinhos americanos. 

Super-homem – Quem eu sou, afinal?

 


Quando reformulou o homem de aço, John Byrne foi aos poucos costurando as pontas soltas a respeito dessa nova versão desse personagem.

Um desses pontos obscuros era: como ele descobria que tinha vindo de Kripto?

O personagem acha que é humano. 


Essa questão foi solucionada no número 6 revista The man of steel. Na história, o herói volta para Pequenópolis, a cidade na qual passou a sua infância.

Nessa mesma história descobrimos que o homem de aço, equivocadamente, acha que é humano: “O Super-homem não existe! Ele é só um disfarce pra proteger minha privacidade! Clark Kent é o homem real!”.

A solução encontrada por Byrne é forçada. 


A solução encontrada por Byrne é forçada: Jor-el aparece para o herói na cozinha dos Kent e depois no local em que foi encontrada a nave que o trouxe para a Terra. E transmite para o filho tudo sobre Kripton. Mas a narrativa é tão fluída, o desenho de Byrne tão competente, que esquecemos assim a situação forçada, assim como esquecemos o fato de que essa história simplesmente não tem nenhuma ação.

El Greco - Cristo carregando a cruz

 


El grego é o mais importante nome do maneirismo na pintura.
O maneirismo é um movimento intermediário entre o racional renascimento e o emocional barroco.
No maneirismo, o tema principal deixa de ocupar o centro do quadro, quebrando com a estrutura certinha e rígida do renascimento. Além disso, a imagem deixa de ser delineada de maneira clara, abrindo espaço para a linha esfumaçada do barroco.
El Grego usou as características do movimento para imprimir uma qualidade transcendental aos seus quadros religiosos. E acrescentou mais um item: a proporção anatômica distorcida. Suas figuras santas eram alongadas, mostrando que estavam mais próximas do mundo espiritual que do mundo material.
Nesta imagem de Cristo carregando a cruz, embora não seja possível ver seu corpo, é possível advinhar sua estatura elevada pelas mãos de dedos alongados. Além disso, o rosto de Jesus, que em obras do renascimento teriam ocupado o centro do quadro, aqui se desloca para a parte superior.

Fome de sucesso

 


O filme tailandês Fome de sucesso, dirigido por Sitisiri Mongkolsiri se distingue de todos os outros filmes do gênero por sua abordagem de crítica social.

Na história, uma jovem cozinheira (interpretada por Chutimon Chuengcharoensukying) de uma restaurante familiar é descoberta por um olheiro e convidada a integrar a equipe do mais famoso chef da Tailândia, um homem tão famoso que pessoas pagam fortunas para terem a honra de colocá-lo como atração em suas festas.

A garota terá que conviver com um chef autoritário ao mesmo tempo em que tenta aprender a cozinhar alta gastronomia, numa jornada que a levará ao topo da profissão.

Mas, por trás dessa jornada da heroína, o filme apresenta uma análise sobre o significado da comida. Como explica o chef, pobres comem para sobreviver, para continuarem vivas. Pessoas ricas comem por status. Contratar um grande chef, assim, é muito menos um ato de apreciação do paladar do que uma forma de demonstrar riqueza e poder.

Duas cenas mostram isso em destaque. Na primeira delas, um grupo de rapazes que enriqueceu com criptomoedas contrata o chef. Fica nítido, pela forma embrutecida com que eles devoram a comida em meio às bebidas que não há qualquer preocupação ali em apreciar a comida.

Em outra cena, eles vão atender uma família e o chef descobre, apenas cheirando a mistura, que a sopa tem vestígios de camarão. Como a filha do casal tem alergia grave a camarão, ele joga a sopa na pia, pega água da torneira e prepara uma sopa com temperos de miojo – e a família aprecia o resultado como uma iguaria.

Em outra cena, o chef impressiona pela forma espetaculosa com que prepara metade de um boi, incluindo jogar ouro em pó sobre a carne.

Ou seja: não importa realmente a qualidade da comida, mas quem o faz, pois a comida representa ali apenas status.

Claro que isso contamina também quem cozinha, de modo que o chef se torna uma homem arrogante e autoritário – e sua aprendiz segue pelo mesmo caminho, até o final apoteótico, no qual ela retorna ao princípio e a ideia da comida como apreciação e satisfazação de necessidades afetivas e fisiológicas.

Fome de sucesso certamente agradará os aficionados por filmes de culinária, mas agradará mais ainda os que apreciam filmes inteligentes e críticos.

A arte multifacetada de Silvio Ribeiro


Silvio Ribeiro é editor de arte, desenhista, pintor, escritor e quadrinista. Com uma sólida carreira como ilustrador e editor, desenvolveu projetos para grandes empresas nacionais e multinacionais, tendo seus trabalhos publicados tanto no Brasil quanto na Europa.

Nascido em 1961, em Porto Alegre, Silvio manifestou sua vocação para o desenho ainda na infância. Aos 17 anos, formalizou seus estudos ao ingressar no curso de Desenho Artístico do Centro Gaúcho de Desenho. No início de sua trajetória profissional, conciliou a produção de quadrinhos com a atuação em editoras, onde trabalhava com design gráfico e ilustrações.

Entre as suas publicações de maior destaque, estão as coletâneas Histórias Fantásticas (2015) e Quadrinhos Fantásticos (2018), sendo esta última uma reunião de trabalhos próprios e colaborações de artistas brasileiros e estrangeiros.

No gênero de super-heróis, criou o personagem Guardião Sigma, cujas aventuras foram compiladas na edição Quadrinhos Nostalgia-1, em 2021. Silvio também explorou o universo de espada e feitiçaria com o personagem Haaghnor, O Caçador de Bruxos, lançado originalmente em 2025.

Além das narrativas gráficas, o artista dedica-se à produção de material didático. Entre suas obras teóricas, destacam-se Arte Digital - Silvio Ribeiro (2009) e o Curso Completo de Desenho Artístico, lançado em 2014 e republicado em 2021.

Acompanhe os trabalhos do artista no Instagram: @silvioeribeiro.


















Quarteto Fantástico e o mortífero mestre do som

 


Garra sônica é um vilão que surgiu em Fantastic Four 53, como um mercenário que tenta a todo custo se apoderar do vibranium de Wakanda. Quando está prestes a ser derrotado pelo Quarteto Fantástico e pelo Pantera Negra, ele entra no transformador sonoro.

O personagem iria ressurgir em Fantastic Four 56, agora transformado na sua forma definitiva: um vilão que não só é capaz de controlar o som, mas é ele mesmo uma espécie de som solidificado. Ele ataca a aprisiona o Quarteto como forma de conseguir sua vingança contra o Pantera Negra.

O que não faltava no Quarteto era ação. 


A história é uma sequencia initerrupta de ação, com o Senhor Fantástico, o Coisa e a Mulher Invisível tentando romper a prisão criada pelo vilão, mas é também um bom exemplo de como Stan Lee e Jack Kirby tinham sempre cartas na manga. À certa altura, o prédio é invadido por um mini-foguete vindo de Wakanda. O pequeno veículo traz um presente: faixas de vibranium, o único metal capaz e absorver energia sônica. De posse dessas faixas, fica fácil derrotar o vilão.

É uma história que mostra como Kirby e Lee planejavam as histórias a longo prazo (algo que acontece no número 53 vai ter consequências no número 56) e como sabiam manejar a narrativa misturando desenvolvimento de personagens, muita ação, truques visuais, como os pontinhos Kirby, e reviravoltas empolgantes.

Perry Rhodan – A partida dos oldtimers

 

 

Embora fosse uma série que tinha um pé na ficção científica hard, Perry Rhodan às vezes forçava a mão nos fatos inacreditáveis. Exemplo disso é o número 216, A partida dos oldtimers.

Na história, os terranos estão presos no planeta Horror, sob o efeito de um aparelho que os miniaturizou assim como a nave que foi ao seu auxílio. Uma nova nave terrana está chegando e precisa ser avisada do perigo, mas como, se o aparelho de comunicação da Crest também foi miniaturizado e não tem potência para tal? A solução encontra é resgatar uma nave deixada no interior do planeta. O problema é que a nave tem dez metros de comprimento e os personagens têm 2 milímeros. Mesmo com todas as explicações sobre talhadeiras e roldanas, é difícil engolir a história. Seria como micróbios pilotando uma nave espacial.  

O volume é escrito por William Voltz, o melhor escritor da série e ele faz de tudo para tornar esse livro interessante. Inventa, por exemplo, que uma das naves está sendo disputada por soldados e uma fera de vários braços – o que nos traz os melhores momentos da história e permite a Voltz exercitar sua versão humanista da ficção científica.

A capa original alemã. 

Depois, quando soldados tentam destruir a nave terrana, o livro volta a se tornar interessante.

O problema é que a trama básica desse livro era pouco verossímil e, além disso, a história já girava há tanto tempo ao redor de Horror, que o leitor não aguentava mais. Pelo menos eu, quando lia, pensava: “Caramba, eles nunca vão sair desse planeta?”. O fato dos terranos terem sido miniaturizados por uma atitude burra e impensada de Rhodan, fazendo algo que parece contra o que conhecemos do personagem, também não ajuda.

quarta-feira, maio 06, 2026

Quarteto Fantástico contra o Fantasma Vermelho

 

 

Jack Kirby e Steve Ditko eram os dois grandes gênios da Marvel, dois desenhistas e narradores visuais incomparáveis, que criaram visualmente a Marvel como a conhecemos hoje. Os dois se esncontraram em Fantastic Four 13, que teve lápis de Kirby e arte-final de Ditko.

Na história, Reed Richards está testando um novo composto, tirado de meteoros, que permitiria finalmente a viagem à lua. Vale lembrar que isso acontece em plena guerra fria, de modo que um grupo soviético também está planejando a viagem. O cientista Ivan Krakoff treinou três macacos (um gorila, um babuíno e um orangotango) e viaja com eles numa nave desprotegida para que os passageiros sejam bombardeados pelos raios cósmicos e assim possam conseguir poderes da mesma forma que o Quarteto.

A primeira aparição do Vigia. 


Claro que cada um deles vai conseguir algum tipo de poder e, no auge da trama, os dois grupos que chegaram praticamente ao mesmo tempo ao satélite terrestre vão entrar em conflito.

Mas essa história, além de apresentar um novo grupo de vilões, tornou-se famosa por ser a primeira aparição do Vigia, uma vez que os dois grupos desembarcam exatamente na cidadela desse ser ancestral. Era Kirby colocando no papel toda a sua paixão pela ficção científica, em cenários deslumbrantes e grandiosos. Aqui o grupo parece encontrar sua verdadeira vocação, que a diferenciava de outras agremiações de heróis: a primeira família parecia mais à vontade no espaço do que na terra.

A união Kirby - Ditko criou belas cenas, como essa. 


A arte-final refinada de Ditko dá um ar elegante para o traço de Kirby, a exemplo da página de abertura do capítulo 2, com os personagens olhando a Lua pela eclusa. De forma inteligente, Kirby coloca O Coisa, o personagem mais pesado, flutuando no espaço, o que aumenta ainda mais a impressão de falta de gravidade. Embora aqui o equipamento não seja tão detalhado como Kirby faria posteriormente, a imagem é belíssima e impressionante.

O texto traz algumas curiosidades, típicas das HQs dessa época, em que os comunistas eram mostrados como vilões auto-declarados. À certa altura, por exemplo, o Vigia diz que quebrou o silêncio de séculos para salvar o povo da terra da selvageria, ao que o Fantasma Vermelho responde: “Você ousa pensar que pode parar a marcha de conquista comunista?!”.

A divulgação científica nos quadrinhos

 

Em dezembro de 1997 defendi, no programa de pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo, a dissertação de Mestrado A divulgação científica nos quadrinhos: análise do caso Watchmen, um trabalho inovador não só por mostrar que Watchmen foi baseado na teoria do caos (algo que eu já havia feito em meu TCC, defendido em 1993), como em analisar a relação entre a ciência e os quadrinhos, algo que serviu de base de muitos trabalhos, em especial sobre o uso de quadrinhos nas aulas de ciência. 
Essa dissertação foi disponibilizada durante muitos anos no site da Virtual Books, que acabou saindo do ar. Assim, resolvi disponibilizá-la através de um blog.  Para conhecê-lo, clique aqui

MAD 13 – Rephorma hortográfica

 




Na MAD 13 eu estava em minha terceira participação na antológica revista de humor da qual eu era fã desde criança. Na época estava entrando em vigor a reforma ortográfica e o editor Raphael Fernandes teve a ideia fazer piada com isso. Para isso, colocamos o professor Pasquale (devidamente renomeado como Pasquase) explicando a rephorma hortográfica. Uma das mudanças se daria no trânsito, onde os palavrões agora seriam politicamente corretos. FDP, por exemplo, passaria a ser “Faça o dispor de passar”. Os desenhos ficaram a cargo de Juarez Ricci. 

Feitiço do tempo

 

 

Assisti, finalmente, Feitiço do tempo (roteiro de Danny Rubin e Harold Ramis, direção de Harold Ramis). Na verdade, o interesse maior foi na interessante narrativa em elipse, que era sempre citada por alunos quando eu falava de narrativas não-lineares. Trata-se de um jornalista arrogante e egocêntrico, que, ao fazer uma matéria numa cidadezinha sobre uma marmota capaz de prever o fim do inverno, fica preso em um lapso temporal de um dia que sempre volta. Assim, os mesmos fatos vão se repetindo várias vezes e o protagonista passa várias vezes pelos mesmos fatos. Já tinha visto outros exemplo, como um episódio de O Arquivo X. Eu mesmo já escrevi um texto nessa estrutura, num e-book dos Exploradores do Desconhecido. O interesante é que o mesmo dia não se repete 3 ou 4 vezes, mas centenas, talvez milhares de vezes, o que traz algumas oportunidades interessantes para o roteiro, como, por exemplo, repetir uma cena várias vezes (o receptor acaba sacando que cada repetição é um dia diferente).
Apesar da preocupação maior ser com a questão narrativa, foi impossível não reparar em algo que muitos textos espíritas falam: Feitiço do Tempo é uma ótima metáfora do processo reencarnatório, segundo a visão espírita. 
A cada vez que o protagonista volta, é como se ele estivesse em outra encarnação e tivesse outra chance de consertar os erros do passado e evoluir espiritualmente.
Arrogante e egocêntrico, Phil usa a volta eterna inicialmente para questões duvidosas do ponto de vista ético, como, por exemplo, descobrir algo sobre uma mulher para depois seduzi-la, ou cometer crimes sabendo que sua ação não teria consequências (como, por exemplo, quando ele rouba dinheiro do carro forte).
Com o tempo, esse tipo de coisa perde a graça e ele passa a se suicidar. Faz isso dezenas de vezes, tentando escapar do dia que sempre retorna. Em vão. Sua vida só começa a fazer sentido quando ele melhora espiritualmente e começa a ajudar as pessoas à sua volta. A máxima de Chico Xavier (Não há salvação fora da caridade) fica bem exemplificada no filme.
Em suma, um ótimo filme: pelo estrutura do roteiro, pela mensagem, pelo humor e pela ótima atuação de Bill Murray.

A guerra dos mundos

 

H.G. Wells é um dos fundadores da ficção científica. Alguns dos temas mais caros do gênero surgiram de sua imaginação, assim como algumas das obras mais perturbadoras. Dentre elas, merece destaque A guerra dos mundos, lançado no Brasil pela Suma.

A edição, em capa dura, tem prefácio de Bráulio Tavares, introdução de Brian Aldiss e ilustrações de 1906, de Henrique Alvim Corrêa. Além disso, traz uma entrevista com Wells e Orson Welles, o diretor que comandou a versão radiofônica do livro, tida por muitos como verdadeira e que provocou verdadeiro pânico ao ser transmitida nos EUA, em 1939. Tudo isso fazem dessa uma edição imperdível.
Mas mesmo sem tudo isso, já valeria a pena. Wells não escreveu um simples relato de invasão extraterrestre: ele fez uma obra que nos faz pensar: da denúncia do imperialismo ao futuro da humanidade.
Wells constrói sua obra em capítulos curtos e maneja bem o suspense, viciando o leitor que vira página após página seja para descobrir o destino do protagonista, seja para acompanhar uma explicação sobre os extraterrestres (a maior parte das quais amparada na teoria da evolução). A narrativa de Wells é simples, sem floreios, mas poderosa. A cada frase percebemos que estamos diante de uma mente brilhante.
Como muitas outras obras de ficção ou fantasia, A guerra dos mundos é uma metáfora: neste caso do colonialismo europeu. Os marcianos que lançam seus ataques, destruindo cidades inteiras e matando indiscriminadamente são como os europeus, sedentos por riquezas devastando os países conquistados e reduzindo sua população à escravidão (vale lembrar o domínio da Bélgica sobre o Congo, em que os trabalhadores que não cumpriam sua cota tinham suas mãos cortadas). Para tornar essa metáfora ainda mais poderosa e impactante, Wells faz com que seus marcianos se alimentassem do sangue humano.
O momento em que a invasão de fato ocorre, com os marcianos saindo de suas naves em seus mecanismos tripoides são o grande momento do livro – e o ponto em que o autor mostra o poder de suas palavras: “Ao ver aquelas estranhas, velozes e terríveis criaturas, a multidão à beira do rio pareceu por um momento paralisada de terror. Não houve gritos ou berros, mas silêncio. Em seguida, um murmúrio rouco, um movimento de pés, um jorro d´água”.
Outro grande trunfo é a narrativa em mosaico, em que um acontecimento grande é mostrado através de pequenos fatos. Wells usa esse recurso para humanizar a narrativa, mostrar que são pessoas reais ali, no meio da confusão e da carnificina: na fuga um homem com uma perna enrolada em trapos é ajudado por amigos, um velho com bigode militar sai mancando, depois para, senta-se ao lado de um sifão, tira a bota manchada de sangue, remove uma pedrinha e sai de novo capengando, uma criança grita: “Não consigo continuar, não consigo!”.
Filosofia, ciência, crítica social e uma imaginação poderosa de um homem a frente de seu tempo. O resultado é um clássico absoluto da ficção científica, uma obra que demonstra o quanto o gênero pode ir muito além da simples diversão.