terça-feira, setembro 15, 2026

Autismo

 

Eu nunca tinha pensado em mim como autista, até que meu neto começou a ter algumas crises inexplicáveis. Do nada, ele começava a fazer algo que parecia uma birra, mas não tinha uma razão de ser. Conversando com uma aluna que era voluntária em uma associação de autistas, ela comentou que ele poderia ser autista. Como resultado, comecei a ler e pesquisar sobre autismo – e quanto mais eu lia, mais eu via em mim características de autismo, aliás, muito mais do que no meu neto.

Algumas das minhas lembranças mais antigas já mostravam indícios de autismo.

Em uma delas, por exemplo, eu estou viajando com minha avó de trem e não consigo prestar atenção à paisagem porque estou muito incomodado com a roupa de frio. Eu tenho muita sensibilidade na pele, o tecido da roupa sempre me incomodou, mas quando a roupa é apertada é quase insuportável. Essa é a razão pela qual sempre usei roupas muito largas, o que inclusive gerou aquelas imagens engraçadas em que estou ao lado do Bené e pareço estar usando a camisa de uma pessoa duas vezes maior.

Também tenho muita sensibilidade a sons. Sons altos não são apenas irritantes. São insuportáveis. Dor de cabeça, irritação, dificuldade de pensar, tontura. Pessoas neurotípicas podem achar que é simplesmente uma frescura, mas para um autista estar em um local com som alto equivale a uma tortura, o que muitas vezes pode até gerar crises equivalentes à epilepsia.

Outra característica que já devia ter levantado um alerta, caso eu já conhecesse sobre autismo é o hiper-foco.  Eu sou do tipo que, quando começo a fazer algo, faço só aquilo. Eu ficava impressionado com a minha esposa, que era professora de Inglês e Filosofia e que conseguia preparar aulas das duas disciplinas na mesma manhã. Eu, quando começo a preparar aulas de uma disciplina, chego a passar uma semana ou até mesmo um mês e dificilmente consigo trocar para outra enquanto estou focado em uma.

(Trecho do livro A árvore das ideias. Para baixar, clique aqui)  

Planeta dos macacos - a origem

 

 


Planeta dos Macacos é uma grata surpresa. Depois dos cinco filmes das décadas de 1960 e 1970 e do fiasco da versão do Tim Burton, eu duvidava muito que ainda se pudesse fazer algo de bom com a franquia. Afinal, o impacto do filme original hoje é impossível: todo mundo sabe que o Planeta dos Macacos é a Terra. E boa parte do apelo dos filmes seguintes também podem se perder nos dias de hoje: na revolucionária década de 1970, muitos jovens que queriam mudar o mundo se identificavam com a revolução símia levada às ruas pelo macaco inteligente César. 
Neste novo filme, os macacos não são usados como escravos, mas a arrogância humana continua sendo o impulso que leva os macacos a se revoltarem. A explicação para César ser tão inteligente é também melhor trabalhada (na série original, ele era um paradoxo temporal, já que era filho de macacos inteligentes que haviam viajado para o passado): agora, ele é resultado de uma pesquisa científica. 
O cientista interpretado por James Franco e seu  pai dão um tom adequado, já que o filho procura a cura do pai, doente de Alzheimer. Depois que uma macaca ataca pessoas, a experiência é suspensa e os macacos mortos, mas o cientista acaba criando o filhote para evitar que ele morra. 
Essa primeira parte do filme, muito bem desenvolvida, trabalha a relação cientísta-pai-macaco com um forte toque humano e comovente. A interpretação de Andy Serkis, que faz o macaco Cesar, é fundamental nessa fase. A nova tecnologia permite que suas expressões faciais sejam capturadas pelo computador e transformadas nas expressões de um símio. Diante dele, a maquiagem ganhadora do Óscar do primeiro Planeta dos Macacos parece uma máscara sem expressão. 
A trama vai se desenvolvendo de forma que o expectador mal percebe e quando a ação irrompe, ela parece uma consequência direta do que veio antes, e não uma simples exibição de efeitos especiais, como temos visto tantas vezes. 

Tropa Alfa – Cegueira branca

 

 

No número 6 da série Tropa Alfa, John Byrne demonstrou que estava disposto a experimentar o máximo possível, testando até onde os editores o deixavam ir.

A história é protagonizada pela heroína Pássaro da Neve, que aparece na capa, em uma belíssima imagem que antecipa uma das soluções visuais do volume. Sua figura surge quase perdida, em meio ao branco total simulando a neve.

Pássaro da Neve sente o perigo... 


A história começa com Anne Mckenzie, a identidade civil da Pássaro da Neve, recebendo uma bronca de seu novo chefe, que exige uma explicação para seus desaparecimentos ocasionais. O chefe anterior sabia que ela fazia parte da Tropa Alfa e a autorizava a sair do serviço, mas esse novo não conhecesse esse segredo, e acaba mandando prendê-la.

A garota está na prisão quando sente uma ameaça e é obrigada  fugir destruindo a parede da prisão: um ser ancestral chamado Kolomaq se libertou graças a uma escavação de um poço de petróleo. Na própria edição descobrimos que Kolomaq é uma das sete feras que num passado remoto quase haviam destruído o mundo em suas guerras intermináveis e que haviam sido aprisionados pelos deuses. Tundra, o primeiro adversário da Tropa Alfa tinha sido um deles – Byrne lança aqui o gancho para histórias futuras, já que existem ainda cinco feras aprisionadas.

... e descobre que uma das feras do passado despertou. 


A grande questão é que Kolomaq governa a neve e, para atacar Pássaro da Neve ele provoca uma nevasca que torna impossível ver qualquer coisa. Byrne demonstra visualmente isso fazendo quadrinhos em branco, apenas com balões e onomatopeias. E ele não faz isso em apenas uma página, mas em cinco páginas e meia!

Dizem que o editor não gostou da ousadia, o que provavelmente explica o aviso que o artista colocou na primeira página: “Cuidado! É o mês dos editores assistentes! Não diga que não avisamos!”.

São mais de cinco páginas apenas de balões e onomatopéias. 


O recurso, aliás, é inovador no início, mas sua repetição torna a narrativa cansativa, até porque, como não está mostrando nada com o desenho, Byrne é obrigado a usar o texto-legenda para literalmente narrar o que está acontecendo.

MAD: a revista mais maluca de todos os tempos

 

A revista Mad foi a única que sobreviveu à caça aos quadrinhos da EC Comics, além de ser uma das publicações mais rentáveis de todos os tempos, chegando a vender mais de um milhão de exemplares, mesmo quando as vendas de outras revistas estavam caindo. O segredo da publicação estava no humor escrachado, que não perdoava ninguém. A Mad era tão irreverente que não conseguia anunciantes, vivendo exclusivamente das vendas em banca.
O criador da revista chamava-se Harvey Kurtzman. Ele trabalhava para as revistas de terror e ficção científica da EC Comics, de Bill Gaines. Um dia, sem dinheiro, Kurtzman procurou o patrão pedindo um empréstimo. Gaines deu um empréstimo, mas em troca pediu que ele editasse uma revista humorística para aproveitar seu talento natural para a sátira.
Kurtzman afirma que criou o nome, mas Gaines garante que o título surgiu numa reunião com All Feldestien, o outro editor da EC. A revista, que tirava sarro de tudo e de todos (inclusive dos leitores) estreou em 1952, em formato comics, colorida e bimestral. Seu humor era ácido e tinha alguns dos melhores desenhistas da época, como Wally Wood, Jack Davis e Bill Elder. Os quadrinhos eram recheados de piadas de fundo, num estilo escrachado.  Não foi um sucesso imediato. O tipo de sátira apresentada ali era tão original que espantou no início, mas as vendas foram aumentando aos poucos. O sucesso só viria mesmo no número 4, com uma sátira do Super-homem, o Superduperman.
Logo a Mad estava vendendo muito bem e satirizando todos os aspectos da cultura pop norte-americana. As vendas estavam muito bem, mas a caça às bruxas estava à porta e a saída foi transformar a Mad em um magazine, com formato maior e em preto e branco. Com essa mudança, ela não era considerada um gibi e, portanto, não tinha que se adequar ao comics code. Em 1956, todas as publicações da EC fecharam suas portas e a editora passou a se sustentar apenas com a Mad.
Nesse período, Kurtzman se desentendeu com Gaines e a revista passou a ser editada por All Feldestein. Este não tinha um humor tão corrosivo quanto o de Kurtzman, mas introduziu mudanças que agradaram, como colocar o mascote da revista, o idiota Alfred E. Newman, em todas as capas.
Aliás, o personagem se tornou tão popular que chegou a ser usado em protestos contra o presidente George Bush (os dois, aliás, são muito parecidos). Algumas frase de Alfred E. Newman se tornaram famosas, como "O importante não é saber, mas sim ter o telefone de quem sabe." ou "Vivemos em uma época em que os sucos de limão são feitos com limões artificiais e que os detergentes são feitos com limões verdadeiros."
Em 1961, Gaines vendeu a revista para o grupo Time-Warner, que passou a publicá-la sob o selo DC Comics. Mesmo concorrendo com gigantes, como o Super-homem, a Mad continuou a ser a revista mais lucrativa do grupo. Gaines continuou no controle da revista até sua morte, em 1992.
No Brasil, a revista chegou só em 1974, vinte anos depois de ser lançada. A razão do atraso é que todos os editores achavam que seria impossível traduzir as piadas. Quem resolveu apostar foi Lotário Vechhi, da editora Vecchi. Para cuidar da edição e adaptação ele colocou o editor Otacílio d´Assunção Barros, o famoso Ota, que se tornaria uma referência absoluta da Mad no Brasil.
A entrevista de emprego para entrar na Vechhi parecia mais uma piada da Mad. Lotário perguntou ao Ota quais eram os nomes dos sobrinhos do Pato Donald e do cachorro do Fantasma. Ao final, ele se levantou, apertou sua mão e disse  ¨Sr. Otacílio, o senhor foi o melhor candidato que apareceu aqui até agora. O emprego é seu!¨. ¨Saí de lá descrente, achando meu futuro patrão completamente imbecil. Qualquer idiota que tivesse dado as mesmas respostas teria sido contratado do mesmo jeito¨, lembra Ota. 
Apesar de tudo, a maioria das pessoas na Vecchi estava relutante quanto ao sucesso da publicação e decidiram lançar apenas 40 mil exemplares, e apenas no Rio e São Paulo. Se não vendesse bem, o encalhe seria mandado para outros estados. Mas Ota fez um trabalho tão bom que a revista esgotou rapidamente, sendo necessária uma segunda tiragem de 30 mil exemplares. E as vendas foram aumentando, até se estabilizarem em 150 exemplares, tornando-se um dos maiores sucessos de vendas da época. A capa desse primeiro número, com os dizeres ¨quebre em caso de fossa¨, tornou-se um clássico.
Com o tempo começou a surgir um problema: a edição americana saía apenas oito vezes por ano, a brasileira, doze. Além disso, muitas das histórias eram referências a seriados ou filmes que não haviam saído aqui. A solução foi contratar artistas nacionais, o que fez com a Mad se tornasse uma reunião do melhor do humor nacional. Gente como Vilmar, Carlos Chagas e Tako fizeram sucesso na revista, além do próprio Ota, que, apesar de ter um traço muito ruim, acabou fazendo sucesso com os relatórios Ota.
Com o fechamento da Vecchi, a revista foi para a Record e mais uma vez surpreendeu, vendendo muito bem. As vendas só caíram a partir de meados da década de 1990. Depois da Record, a revista migrou para Mithos e para a Panini.

Perry Rhodan – O planeta dos deuses

 


O número 35 da série Perry Rhodan é curiosamente chamado de O planeta dos deuses. Esse título dá a entender que se trata de um planeta habitado por deuses. Mas é exatamente o contrário: a trama se passa no planeta Goszul, escravizado pelos saltadores.
O nome se refere ao fato de que os saltadores se apresentam como deuses como forma de exercer seu domínio.

A trama segue a do número anterior: os mutantes John Marshall, Tako Kakuta, Kitai Ishbashi e Tama Yokida se infiltraram na conferência dos anciões com o objetivo de influenciar os saltadores a pensarem que ao atacarem a Terra estariam se defrontando com um planeta fortemente armado. Mas o plano dá errado e os mutantes, após explodirem uma bomba nuclear no local da reunião, fogem para o espaço, mas são abatidos.

O livro começa com os quatro como náufragos do espaço, tentando se esconder enquanto não chega o resgate. Nesse processo eles conhecem melhor a cultura, a história e os costumes do planeta escravizado.

A capa alemã. 


O livro, escrito por Kurt Mahr, nos apresenta até mais detalhes sobre os saltadores, apresentando, por exemplo, a forma como eles se cumprimentam: “Felicidade a cada dia que passa”.

Um dos capítulos mais intrigantes é o que conta a história do planeta Goszul. Os habitantes locais seriam descendentes dos arcônidas, mas teriam degenerado em inteligência a cada geração. Deixaram de dominar a viagem espacial e foram regredindo tecnologicamente até viverem num mundo semelhante à Terra do século XVII. Seria isso possível? Pode acontecer de uma civilização contrariar as leis da evolução e regredir ao invés de progredir intelectualmente? Considerando que o QI médio dos seres humanos está regredindo nos últimos anos, essa é uma pergunta pertinente. Mais uma vez, a ficção científica levantando temas que podem gerar interessantíssimas discussões sobre o mundo atual. 

Fundo do baú - Transformers

 


“Milhares de anos atrás, existia vida no planeta Cybertron. Mas não era a vida como a conhecemos hoje. As cidades eram habitadas por robôs inteligentes, capazes de pensar e sentir. Eles se chamavam Autobots e Decepticons. No entanto, os cruéis Decepticons tinham um único objetivo: a dominação total. Eles decidiram destruir os Autobots, que almejavam a paz. A guerra entre as forças do bem e do mal assolou Cybertron, devastando tudo e esgotando as fontes de energia abundante do planeta.”

Assim começava o primeiro episódio do desenho animado dos Transformers.

A série, que se tornou uma verdadeira febre na década de 1980, teve origem em uma linha de robôs japoneses que podiam se transformar em objetos, principalmente veículos.

A Hasbro adquiriu a linha de brinquedos, mas percebeu que precisava de uma campanha de marketing robusta para impulsioná-los. Como a parceria com a Marvel já havia sido bem-sucedida na linha G.I. Joe, a empresa contatou a "Casa das Ideias" para produzir uma revista em quadrinhos e um desenho anima

Jim Shooter, o então editor-chefe da Marvel, criou o conceito de duas raças alienígenas em guerra. Design de Personagens: O veterano Denny O’Neil foi encarregado de desenvolver os personagens.

Contudo, a Hasbro solicitou tantas revisões que os escritores da Marvel se recusaram em peso a dar continuidade ao projeto. Quem acabou assumindo a responsabilidade pelo roteiro foi o editor Bob Budiansky.

Nessa versão, as duas facções de robôs acabam aterrissando na Terra e são despertadas milhares de anos depois. Eles continuam sua guerra no nosso planeta, mas agora estão disfarçados como veículos terrestres.

Os Autobots: Eram liderados pelo corajoso Optimus Prime, que se transformava em um caminhão. No entanto, o mais carismático, provavelmente, era o pequeno Bumblebee, cuja forma alternativa era um Fusca.

Os Decepticons: Eram comandados pelo maligno Megatron, que podia se transformar em um canhão ou em um veículo de combate. Sua autoridade, porém, era constantemente contestada por Starscream, que se transformava em um caça F-15 Eagle branco.

O design inicial dos personagens ficou a cargo do japonês Shōhei Kohara, que buscou torná-los mais "humanos". A versão final que o público conheceu foi desenvolvida pelo desenhista filipino Floro Dery, que trabalhava para a Marvel.

Originalmente, Transformers foi planejada como uma minissérie em quatro partes e um piloto de TV. O sucesso, porém, foi tão grande que a ideia se expandiu, resultando em uma série em quadrinhos com 80 edições e um desenho animado de quatro temporadas e 98 episódios.

No Brasil, Transformers era exibido nas manhãs da Rede Globo e rapidamente angariou uma legião de fãs devotados.

Júlia Kendall – O ajudante misterioso

 

Historias natalinas são uma tradição nos quadrinhos. Mas misturar natal e policial e conseguir fazer uma boa história é algo reservado apenas aos grandes mestres.

É o que Giancarlo Berardi consegue no episódio 51 do título da criminóloga Júlia Kendall.

Na trama, bandidos vestidos de Papai Noel estão praticando assaltos na cidade. Para tentar achá-los, Júlia procura o local onde são contratados os papais noéis – e acaba pegando um deles como ajudante.

A história começa com uma sequência de ação impressionante. 


A história é desenhada por Giorgio Trevisan, um velho parceiro de Berardi da época de Ken Parker e um ótimo desenhista, que consegue dar o tom perfeitamente intimista à história.

O roteiro humaniza os bandidos, mostrando-os como um senhor de meia idade que assiste TV com o pai ou um pai dedicado e apaixonado por sua filha.

O simpático Papai Noel Mosby rouba a cena. 


Mas quem chama a atenção é o carismático Mosby, o Papai Noel que ajuda Júlia.

A história começa com uma sequência realmente impressionante em que uma corrida de cavalos ocorre ao mesmo tempo que o assalto e as duas narrativas se refletem uma na outra no texto. O tipo de coisa que só grandes autores conseguem. E termina com um toque místico e de mistério digno das melhores histórias natalinas.

segunda-feira, setembro 14, 2026

O Imortal Hulk

 


Nos últimos anos nós temos visto muitas situações nos quadrinhos em que um desenhista era a estrela. Em outras, o roteirista era a estrela. Mas uma boa história em quadrinhos é uma sintonia perfeita entre texto e imagem, entre desenhista e roteirista. Algo que foi alcançado muito poucas vezes: Stan Lee e Jack Kirby, Gerry Conway e Garcia-Lopez. E é exatamente essa sintonia que faz de Imortal Hulk (cujo primeiro álbum foi recentemente lançado pela Panini) uma obra tão importante.
Essa nova fase do Hulk é escrita pelo britânico Al Ewing e ilustrada pelo paraense Joe Bennett (ou Bené Nascimento, para os íntimos) e é impressionante a sintonia entre os dois: o roteiro funciona porque o desenho funciona e o desenho funciona porque o roteiro funciona.
Na trama, Bruce Banner descobre que não pode morrer, pois o corpo do Hulk sempre irá se restaurar.
A trama começa com um assalto a um posto de gasolina, uma sequência cinematográfica com planos que muitas vezes contam a história sem necessitar de palavras – e Ewing foi inteligente o suficiente para perceber que essas sequências muitas vezes não precisavam de uma única palavra.
Toda essa sequência tem apenas um texto-legenda, emblemático, essencial para entender toda a história e que será repetido e resignificado ao longo da trama: “Há sempre duas pessoas no espelho. Há aquela que você vê. E tem aquela outra. A que você não quer ver”. O trecho é de uma genialidade semiótica, pois pode se referir ao garoto que está assaltando o posto de gasolina, a Bruce Banner, ao Sasquatch e até mesmo à repórter que investiga a história.

Al Ewing usa muito bem todo o background psicológico já estabelecido por outros roteiristas, em especial Bill Mantlo – segundo o qual o Hulk já estava ali, no menino Bruce Banner, em resposta aos abusos do pai e apenas aflorou no contato com a radiação gama. Isso dá ao personagem uma profundidade insuspeita nesses tempos de ação desenfreada.
E, enquanto Ewing cuida da alma do monstro, Joe Bennett cuida dos punhos. Suas sequências de ação são magistrais. Além disso, o seu Hulk tem tudo para se tornar o Hulk definitivo: embora nitidamente inspirado na fase de Jack Kirby no personagem, ele aqui se torna muito mais brutal, uma brutalidade que explode nas splash pages.

Há alguns senões. A parte três, por exemplo, é ilustrada por vários desenhistas de acordo com o relato de cada uma das testemunhas. Mas Joe Bennett tem o traço eclético o suficiente para ter feito todas as sequências sem perder a unidade, como acabou acontecendo. Outro senão é a cor de Paul Mounts, escura demais, o que muitas veze esconde detalhes do desenho.
A série foi indicada ao prêmio Einser e no Brasil já esgotou a primeira tiragem. E não é sem razão: Imortal Hulk é um dos trabalhos mais interessantes já surgidos nos últimos anos nos quadrinhos. 

O incrível Steve Ditko

 


Co-criador tanto do Homem-aranha quanto do Dr. Estranho, Steve Ditko é uma das figuras mais importantes dos quadrinhos de super-heróis. É também uma das mais misteriosas a ponto de existirem pouquíssimas fotos dele.

É essa figura reclusa e controversa que Roberto Guedes pretende revelar na biografia O incrível Steve Ditko publicada em 2019 pela Noir.

Guedes acompanha o desenhista desde a infância, quando ele brincava de Batman com a fantasia costurada pela mãe. Seu sonho era ser desenhista de quadrinhos. Ele acabou conseguindo um emprego na agência de Jack Kirby e Joe Simon e começou a fazer um curso com Jerry Robinson, que costumava levar roteiristas, desenhistas e editores para conversar com os alunos. Um dia receberam a visita de um homem sorridente, responsável pelos quadrinhos da editora Atlas. Era stan Lee, que se tornaria seu grande parceiro na criação do Homem-aranha e do Dr. Estranho.

Anos depois, procurou Stan Lee e começou a trabalhar para a Atlas ao mesmo tempo que colaborava com a Charlton, que pagava pouco, mas dava total liberdade criativa. “Steve tinha ética e crenças rígidas, e nunca as abandonava. Ele jamais faria um trabalho ruim só porque estava sendo mal remunerado”, explanou o roteirista Joe Gill, em depoimento no livro.

Stan Lee percebeu que, ao contrário de Jack Kirby, famoso por sua imaginação cósmica, Ditko se saía melhor retratando o homem comum as situações ordinárias da vida. Um dos exemplos dessa capacidade é a história “No mundo dos sonhos”, que se passava todo dentro de um quarto, onde um angustiado protagonista não sabia se estava acordado ou dormindo.

O projeto gráfico torna o livro ainda mais interessante. 


Nessa época o desenhista já usava uma técnica herdada de Mort Meskin, que conhecera no estúdio de Kirby e Simon: as cenas surreais, com cabeças e bocas enormes flutuantes, algo que seria uma de suas características mais marcantes nas histórias do Homem-aranha e do Dr. Estranho.

Embora toda essa parte inicial seja importante para entender a formação do artista, a maioria dos leitores irá se interessar de fato pelo ponto em que Guedes começa a narrar a criação do Homem-aranha, um dos heróis mais populares de todos os tempos.

Segundo o autor, Stan Lee tivera a ideia para o herói ao ver uma aranha dependurarada na teia, no seu escritório. Jack Kirby foi chamado e produziu cinco páginas do novo herói. Steve Ditko seria responsável pela arte-final, mas quando pegou as páginas, viu que aquilo não funcionava.

A história apresentava um adolescente dono um anel mágico que o transformava num herói adulto. O rapaz usava uma arma e morava com os tios (ou seja, já naquela primeira versão ele era um órfão). O tio era um policial.

Ao ver aquelas páginas, Ditko percebeu que o enredo era praticamente o mesmo de O Mosca, personagem criado por Kirby e Joe Simon e publicado pela Archie Comics. “Stan Lee ficou abismado ao ouvir aquilo. Nunca tinha ouvido falar do personagem de Simon. Desabafou com Ditko que também não estava satisfeito com o modo como Kirby havia retratado o Homem-aranha. Mostrava-se heroico e imponente demais, feito o Capitão América. O editor queria que o novo personagem fosse franzino, que permanecesse com sua aparência de adolescente, mesmo após ganhar os poderes aracnídeos”, escreve Roberto Guedes.

A solução foi pedir para Ditko refazer as páginas.

Ditko transformou o herói praticamente num auto-retrato: franzino, de óculos, magro, com o mesmo corte de cabelo. Também mostrou, desde a primeira página, o personagem como um pária (uma das melhores partes do livro é justamente quando o autor analisa como a primeira página da primeira história expressava perfeitamente o sentimento de solidão e exclusão de Peter Parker).  

Anos mais tarde, Jack Kirby argumentou que ele tinha criado o Homem-aranha, incluindo seu visual. As cinco páginas não existiam mais, mas Ditko veio a público e publicou um desenho mostrando as diferenças da versão de Kirby para a sua versão. De fato, a se acreditar nesse desenho, reproduzido no livro de Guedes, o Homem-aranha de Kirby estava muito mais próximo do Capitão América, inclusive com botas.

O livro também conta os bastidores da criação do Dr. Estranho, o herói predileto dos hippies, para ojeriza de Ditko. Quando alguém da redação da Marvel informou a ele que os jovens usavam alucionógenos para apreciar as histórias do personagem, o desenhista ficou horrorizado.

Mas, se por um lado, o traço e a narrativa do Ditko evoluíam a cada história e os heróis co-criados por ele fossem cada vez mais populares, um outro fato acontecia que iria mudar tudo: o mergulho do autor na doutrina do objetivismo.

Isso colocaria Ditko e Lee em rota de colisão. Enquanto Ditko queria um herói bem-sucedido, individualista e implacável com os criminosos, Stan Lee preferia um herói altruísta, cheio de remorsos e qua abria mão da própria felicidade para ajudar o próximo.

Chegou num ponto que a diferença entre os dois era tão grande que nem se falavam mais. Ditko ia na redação, entregava as páginas e Stan Lee colocava o texto. Mesmo assim, a qualidade das histórias evoluía a cada número, até desembocar no clássico absoluto, a trilogia iniciada em Amazing Spider-man 31, no qual Peter Parker ia atrás de um soro para salvar a Tia May e ficava preso debaixo de toneladas de ferro num subterrâneo que se enche de água. Enquanto ditko fazia uma sequencia magistral, incluindo as já famosas cabeças flutuantes, Stan Lee trabalhava no texto as motivações do herói.

Mas enquanto os fãs elegiam aquela a melhor história do aranha de todos os tempos, Ditko percebia que havia participado de um tributo ao coletivo. Logo ele, um individualista. Esse sentimento, somado a várias insatisfações contra a Marvel (Ditko considerava que a editora estava ganhando muito dinheiro às suas custas e ele não estava recebendo retorno) fez com que ele abandonasse a editora no que parecia o auge do sucesso do Homem-aranha.

Na Charlton ele participou da criação ou revitalização de personagens importantes, como o Capitão Átomo, o Besouro Azul e O Questão (curiosamente, todos eles tiveram sua contraparte em Watchmen).

Insatisfeito com as limitações editoriais, ele criou um vigilante do crime ainda mais radical que o Questão, chamado de Mr. A. O “A” vinha da expressão “A  é A”, de Parmênides, o filósofo que acreditava que o mundo não passava por nenhum tipo de mudança (ao contrário de Heráclito, que acreditava que a essência da realidade era a mudança). “Em geral, as histórias terminavam simbolicamente, com o criminoso dependurado em um abismo pedindo clemência e justificando que enveredou pelo crime por culpa da sociedade que o fez assim. Mr. A o ignorava, deixando-o despencar para a morte”, escreve Guedes.

Ditko começou também a colaborar com fanzines e publicações alternativas.

Mas logo sua postura intransigente iria transformá-lo em um grande problema para editores e fanzineiros. Até mesmo amigos, como Dick Giordano, temiam contratá-lo por conta de sua postura que nunca parecia se agradar de nada. Ao mesmo tempo, seu estilo parecia se tornar cada vez mais defasado, agradando muito pouco as novas gerações.

Ditko também desperdiçava chances. Quando Frank Miller estourou com Cavaleiro das Trevas, resolveu procurar seu ídolo com a proposta de fazerem algo em conjunto. Seguiria qualquer condição imposta. O co-criador do Homem-aranha simplesmente desdenhou do convite. Além disso, recusava entrevistas e fugia até de fotos.

Um final melancólico para um dos artistas mais importantes dos quadrinhos.  

A radionovela do Capitão Gralha

 

Homenagem de Iwerten aos pracinhas que lutaram contra os fascistas na II Guerra Mundial. 


Capitão Gralha foi, provavelmente um dos primeiros personagens de quadrinhos criados com intenção multimídia. Francisco Iwerten pensou não só nos quadrinhos, mas em filmes, livros e até música (Canção para gente grande ninar, conhecida como "menino passarinho" é uma homenagem ao personagem - clique aqui para ouvir). 

Entre as várias iniciativas para divulgar o personagem, Iwerten escreveu um roteiro para uma radionovela. Não se sabe se esse roteiro chegou realmente a ir ao ar, uma vez que não restou nenhuma gravação, mas é bem provável, em vista das boas relações do criador com os donos das rádios curitibanas. Transcrevo abaixo o roteiro do primeiro episódio: 


O Capitão Gralha em O raio involutivo!

Técnica: Música de abertura do Capitão Gralha.

Baixa BG.

Locutor: Crianças da Terra dos Pinhões, está começando agora mais uma aventura do Guardião das Araucárias... o invencível, o insuperável Capitão Gralha!

Técnica: Som de raios e trovões.

Mulher: O que está acontecendo? De repente começo a ouvir raios e trovões!

Homem: Não se preocupe, minha querida. Estamos em Curitiba, a capital do grande Paraná!

Mulher: Não, há algo estranho. Veja!

Homem: Sim, agora começo a divisar o que surge no céu até então ensolarado. Parece uma nuvem, mas que nuvem estranha!

Mulher: Não, não é uma nuvem, meu amado! Parece antes uma nave, mas onde estão as asas?

Homem: Veja, a nave está soltando raios sobre as pessoas no passeio público.

Mulher (grita): Oh, meu deus, que horror!

Técnica: Som de supense.

Locutor: De fato, aquela nave estranha pairava sobre o passeio público e agora soltava seus raios. Dentro dela, o maior vilão que o mundo já viu, o Doutor Destruição! É ele que agora solta os raios sobre  as pessoas, com um efeito assustador, capaz de involuir a todos que toca...

Mulher: Oh, meu Deus, que tremendo horror! As pessoas estão involuindo. Posso ver em seus rostos. Já não são humanos! Parecem antes seres pré-históricos!

Homem: Sim, parece que involuiram para quando não existia civilização e as pessoas viviam em estado de pura violência e barbárie. Só um grande vilão poderia ser capaz disso, só mesmo o Doutor Destruição.

Mulher: Oh, e agora? O que poderemos fazer contra tamanho vilão, o que poderemos fazer contra tamanha perfídia? Oh, meu querido, me abrace, estou assustada!

Homem: Querida, não chore! Veja, lá no alto!

Mulher: Parece um homem alado!

Homem: É ele! Chegou para nos defender! É o Capitão Gralha!

Técnica: Toca o hino do Capitão Gralha.

Capitão Gralha: Chegou a hora de dar um fim a essa insensatez! Acabou a brincadeira, vilão!

Locutor: Enquanto isso, dentro da nave, o terrível Doutor Destruição não se deixa abalar.

Doutor Destruição:  Deveras? Deixe de desdita! O destino declama outros devires!

Mulher: Oh, não, querido! Não pode ser!

Homem: Oh, é terrível! Mãos mecânicas saem de dentro da nave e aprisionam com suas garras o herói e o levam para dentro da nave!

Locutor: E agora, crianças? O que acontecerá com o defensor das araucárias? Eles conseguirá frustrar os planos do vilão enlouquecido? Que terríveis perigos aguardam nosso herói? Fique ligado. O Capitão Gralha volta depois dos reclames! 

Omac, de John Byrne

 

 

Omac é uma das melhores e mais obscuras criações de Jack Kirby em sua fase na DC comics. A crítica à desumanização capitalista inerente a esse personagem reverbera alguns dos melhores temas da ficção científica. 

Entretanto, o personagem ficou praticamente esquecido depois de sua fase inicial. Um dos melhores momentos do herói na fase pós Kirby é uma minissérie em quatro partes escrita e desenhada por John Byrne. 

Byrne domina perfeitamente a técnica do papel craftint


A história começa com o personagem em seu confronto final com o senhor Big, o grande vilão da série. 

Mas o senhor Big, um velho encarquilhado, tem um plano: usar uma máquina do tempo para voltar para o passado e, assim, dominar o futuro. E Omac vai atrás dele. Como consequência, o herói surge nos EUA em plena grande depressão, totalmente desmemoriado. 

A história tem sexo... 

Ele agora precisa sobreviver enquanto tenta descobrir o que está acontecendo e o que está fazendo ali. 

A abordagem de Byrne é inovadora não só na história, que tira o personagem do seu ambiente e o coloca em uma situação totalmente nova. Ele também faz a história toda em preto e branco usando papel Craftint, cuja retícula se revela com um líquido especial. É uma técnica que só os grandes mestres, como Roy Crane, conseguem dominar. 

... e violência. 

A história também é ousada ao.mostrar sexo e violência, incluindo sequências inteiras de tortura. 

Mas nem tudo são flores. O desenrolar da história faz o mundo mudar e o futuro apocalíptico imaginado por Kirby não acontecer. Para fazer tudo voltar ao que era antes, Byrne faz mil malabarismos narrativos e argumentativos. Entretanto toda a sequência durante a grande depressão é realmente uma leitura de fôlego. 

As melhores sequências são as da grande depressão. 


Omac se inscreve facilmente em qualquer relação dos melhores trabalhos do John Byrne. Assim, é surpreendente que sua única publicação no Brasil seja a edição da Nova Sampa do início da década de 90.