terça-feira, abril 28, 2026

O Coisa contra o Surfista Prateado

 


Um dos grandes segredos da Marvel era o incrível dinamismo que Jack Kirby imprimia às cenas de ação – tanto que todo mundo que ia desenhar para a Marvel primeiro tinha que fazer um “estágio” arte-finalizando as histórias de Kirby, para pegar o jeito.

Kirby não só exagerava nas poses dos personagens, na perspectiva, mas também enchia os quadros de onomatopeias retumbantes, linhas de ação e o recurso gráfico inventado por ele, os Kirby Kracle (pontos kirby), que consistiam em borrões e pequenos pontinhos em volta de um personagem muito poderoso.
Uma mistura de perspectiva forçada, linhas cinéticas e onomatopéias retumbantes dava incrível dinamismo aos quadros. 


Jeffrey J. Kripal, autor do livro Mutants and Mystics: Science Fiction, Superhero Comics, and the Paranormal escreveu sobre os Kirby Kracle: “Para Kirby, o corpo humano é uma manifestação de energias definitivamente inexplicáveis - um super-corpo. O que Mesmer chamou de magnetismo animal se torna em Jack Kirby uma marca registrada energética sinalizada por "linhas de explosão" e um campo de energia único de pontos negros e borrões que passou a ser carinhosamente conhecido como "Kirby Krackle" [...]. O resultado final foi uma visão do ser humano como um corpo de energia congelada que, como uma bomba atômica, poderia ser liberada com efeitos deslumbrantes, para o bem ou para o mal”.
É literalmente isso que acontece na história “Quando ataca o surfista Prateado”, publicada em Fantastic Four 55.
Na trama, o Quarteto voltou de Wakanda e o Coisa resolve visitar Alícia, a artesão cega pela qual é apaixonado. Inseguro, ele teme que ela possa ter arranjado outro amor na sua ausência. Mas ocorre uma coincidência: quando chega lá, ela está sendo visitada pelo Surfista Prateado.
Os pontinhos Kirby em ação. 


O herói pedregoso simplesmente parte para cima dele, chegando a derrubar até mesmo um pequeno prédio no surfista. Reticente no início, o herói prateado perde a paciência e aumenta sua energia a ponto de se tornar pura energia. “Ele está se transformando numa bomba atômica ambulante... e tudo por minha causa! Eu tava tão ocupado dando chilique que esqueci do maior perigo de todos... ele não é humano!! Não sabe o que está fazendo! Provavelmente pode explodir esse pedaço de terra inteiro sem nem tentar!”, reflete um Coisa apavorado com a possibilidade da explosão matar sua querida.
É claro que tudo isso é demonstrado através dos famosos pontos Kirby. E o que deveria ser só uma escaramuça entre fortões acaba virando uma aula de narrativa visual.

segunda-feira, abril 27, 2026

Void Indigo

 

 

Void Indigo surgiu como uma proposta do escritor Steve Gerber de renovar o Gavião Negro. Como a DC não topou a proposta, ele modificou o projeto e procurou editoras indepentes. Após várias recusas, ele procurou a Marvel, que estava lançando a série Épic, nas quais os direitos dos personagens ficavam para criadores. Surpreendentemente a Casa das Ideias aceitou publicar o material na série Graphic Marvel. A proposta era que essa edição especial fosse uma espécie de piloto para uma série em seis capítulos. Infelizmente, a reação da crítica à violência da história foi tão negativa que o editor Archie Goodwin desistiu de levar a série adiante. Essa reação negativa é muito estranha, pois na mesma época estavam sendo lançados trabalhos muito adultos, com violência explícita, a exemplo do Cavaleiro das Trevas.

Feiticeiros fazem sacrifício para manter seu poder, mas não conseguem... 


Curiosamente, a Abril resolveu publicar a história piloto no número 10 da sua série Graphic Novel. Confesso que na época deixando passar, principalmente por conta da capa, que não parecia muito chamativa e contava muito pouco sobre o tipo de história que poderia se encontrar no miolo. A contracapa, aliás, é mais interessante. Quando, anos depois, comprei e li, fiquei surpreso tanto com a qualidade do texto e da trama quando com o desenho de Val Mayerik, que consegue trazer elementos da espada e magia ao mesmo tempo misturando esses elementos com um traço sujo e muitas vezes deformado, que se encaixa perfeitamente na proposta.

A história se passa no período que separava a submersão de Atlântida e a fundação de Jericó. Feiticeiros sobreviventes de Atlântida conquistam um império, impondo um reinado de terror. Mas tribos bárbaras, comandadas por Athagaar avançam sobre o império. Isso ocorre exatamente quandos os feiticeiros estão velhos e com poderes enfraquecidos. A forma de tentar retomar o poder e a juventude é através de sacrifícios precedidos de torturas. A história deixa claro que quanto mais sofrem as vítimas, maior o poder do encantamento. Mas mesmo matando milhares de jovens, o sofrimento deles não é suficiente para renovar os bruxos. “Mesmo ante a face da morte, esses jovens perderam a razão de lutar. Sua apatia enfraquece a vontade de viver. E quando a vida deixa de ter valor, a tortura nada significa”, explica um deles.

... O que os leva a sequestrar e torturar o chefe dos bárbaros. 


A solução encontra é sequestrar o bárbaro Athagaarr e sua amante e submetê-los ao sacrifício.

Essa é a parte em que o texto de Gerber chega ao seu auge e, apesar da qualidade, provavelmente é a razão pela qual a série foi alvo de tantas críticas. Um exemplo: “Seu sofrimento dura dias. Incansavelmente, e com precisão cirúrgica, os lordes negros submetem seu corpo a uma initerrupta série de punições. Ele é queimado com ferro em brasa, açoitado com chicotes farpados, cortado, furado, espancado e retalhado. O estimulante frio do norte, a espada de seu pai, os triunfos da adolescência. Sua iniciação na arte de guerrear... ele se refugia em todas as lembranças, até que cada delas se mistura com as outras e com o presente... tornando-se, sem exceção, dolorosas. A vitória é dolorosa. A tortura é dolorosa. O abraço de Ren é doloroso”.

A cena da totura é visceral e provavelmente a razão pela qual a publicação recebeu críticas negativas.


Embora o desenho não seja explícito, ele funciona muito bem para demonstrar toda a angústia do personagem.

A trama da série começa depois da morte do protagonista. A narrativa pula séculos e o vemos no futuro, como um ser alienígena que cai na terra, descobre seus passado e começa uma jornada de vingança. O último quadro, inclusive, é um gancho para isso.

É uma pena que a série não tenha dado certo.   

Jornada nas Estrelas - Lamento para Adonis

 


Pavel Checkov é um dos personagens mais carismáticos da primeira formação de Jornada nas Estrelas. Sua estréia aconteceu em Lamento para Adonis, segundo episódio da segunda temporada, e desde o primeiro momento ele já se destaca.
Na história, a Enterprise é aprisionada por uma mão de energia. Ao descer para investigar, Kirk descobre que um extraterrestre que diz ser Apolo é o responsável – e tudo leva a crer que a visita de seu povo à Terra fez com que os gregos criassem seus mitos a partir desses viajantes.
Aí entra o jovem russo com cabelo Beatles: no momento em que o extraterrestre diz que é Apolo, este responde que é o Czar da Rússia para, no momento seguinte, se desculpar: “Eu nunca vi um deus antes”.
Lamento por Adonis é o tipo de trama que não funcionaria com um atores que levassem a história sério demais, até por conta dos efeitos especiais toscos da época. Os atores, no entanto, conseguem dar uma leveza à trama que nos faz esquecer o quanto é inverossímil um alienígena usar uma mão para prender a Entreprise apenas para ser idolatrado.

Sargento Rock – O soldado sorvete

 


Muitas das histórias da série Sargento Rock são sobre soldados que encontram forças para feitos extraordinários, superando as expecativas que todos têm a respeito deles. Exemplo disso é a história o soldado sorvete, publicada em Our Arm at war 85.

A história começa com o sargento explicando que o lema de sua companhia é “quando você está na moleza... não há moleza para você!”. Em seguida começa a falar dos vários tipos de aparecem por lá, entre eles alguns que parecem menos aptos, a exemplo do soldado Phil. Em sua missão, o garoto se jogou no chão da trincheira quando começou o fogo inimigo: “Eu tava na cobertura, sargento, quando vi a artilharia pesada do inimigo. Era chumbo quente suficiente para nos derreter!”.

O soldado sorvete não faz nada certo... 


Pronto, o recruta acabara de ganhar um apelido: “Então ele tem medo de derreter... deve ser um soldado sorvete!”.

A história continua com situações e mais situações em que o soldado sorvete parece cada vez mais inapto para o serviço militar, se jogando chão na hora errada, congelando nos momentos mais decididos. Enquanto isso, o tempo vai esfriando e o garoto sofre uma ulceração nos pés. Mas é nesse momento que o soldado sorvete mostra o seu valor, salvando sua companhia.

... mas no final encontrará a redenção. 


Como é comum nas histórias escritas por Robert Kanigher, a história conclui com uma piada sobre o mote da história e ao mesmo tempo, uma lição, quando o rapaz diz: “Lutar no gelo não é difícil... pelo menos para um soldado sorvete, certo?”.

Vale destacar nessa história o desenho espetacular do Joe Kubert, que consegue transmitir tanto a insegurança do personagem no início, quanto sua resolução, no final.

George Orwell e o alerta contra o totalitarismo

 


Até os 30 anos, George Orwell sempre levou consigo a convicção de que nunca seria alguém na vida. Até essa idade, havia sido soldado, mendigo, cozinheiro e professor primário. Quando começou a escrever, seus livros não faziam sucesso - o que o levou a profetizar que nenhum best-seller sairia de sua pena. Viveu na penúria a maior parte da vida. Seu primeiro livro de sucesso, Revolução dos Bichos, foi publicado dois anos antes de sua morte. E sua obra-prima, 1984, só foi publicada depois de sua morte. Contrariando a profecia do próprio autor, os livros de Orwell se tornaram sucessos mundiais e obras como 1984 nos deram uma aterradora antecipação do que seria o mundo se as ideologias totalitárias, como o nazismo e stalinismo tivessem prevalecido.

Eric Arthur Blair (nome verdadeiro de Orwell) nasceu em 25 de junho de 1903, em Bengala, na Índia. Voltando para a Inglaterra, estudou em colégios tão famosos quanto ineficientes, tais como Eton, onde sofria todo tipo de humilhação dos colegas ricos. A infância deixou nele um complexo de feiura de fracasso que marcou toda a sua vida.

Depois do colégio, Orwell alistou-se na Polícia Imperial Indiana. Na Birmânia, para onde foi chamado, ele conheceu o sentimento de culpa que acompanhava os ingleses. Teve, também, duas experiências que o transformariam profundamente.

Na primeira delas, Orwell estava no mercado quando um elefante se perdeu do domador. Desesperado, acabou matando duas pessoas. O animal estava calmo quando o escritor o encontrou. Mas a população não, e exigia a morte do animal. Ele foi obrigado a sacrificar o animal, embora não quisesse fazer isso. Essa foi sua primeira descoberta: o opressor era também oprimido. Os algozes também perdem sua liberdade.

O segundo insight ocorreu durante a execução de um homem. Enquanto caminhava na direção da forca, o prisioneiro birmanês fez um único gesto, que abalou as convicções de Orwell: "Quando vi o prisioneiro ir para o lado a fim de evitar a poça d`água, entendi o mistério, o erro indizível de acabar com uma vida humana em plena força".

Orwell abandonou a polícia cinco anos depois de ter entrado nela. Ele voltou para a Inglaterra, a fim de despencar no abismo, viver na pele o sofrimento dos oprimidos e explorados.

Decidido, vestiu-se de mendigo e passou três anos como um. Seu primeiro livro publicado foi justamente um relato romanceado desse período de mendicância: Na pior em Paris e Londres. Foi quando usou pela primeira vez o pseudônimo de George Orwell. Nesse meio tempo ele trabalhou como professor primário. Seu terceiro livro fala justamente do assunto. A Filha do Reverendo é a história de uma garota oprimida pelo pai, que perde a memória e acaba vagando por Londres como uma mendiga e depois torna-se professora.

Orweel ainda publicou outros livros, como Dias na Birmânia e Keep the Aspidistra Flying (publicado na Brasil com o título absurdo de Depois de 1984), mas os seus livros dessa fase que mais se destacam são duas reportagens: Lutando na Espanha e A Caminho de Wigan.



A Caminho de Wigan fala sobre os trabalhadores das minas de carvão do sul da Inglaterra. Orwell já começa desmoronando as regras do jornalista: o início é a descrição do hotel em que ele ficara hospedado durante a coleta de informações. Ele gasta todo o primeiro capítulo nisso e se mostra um mestre das descrições. Toda a atmosfera de nojo e feiura são brilhantemente descritos. Ao invés de ficar no escritório tomando declarações de pessoas "autorizadas", ou coletando estatísticas, ele se arrasta pelos túneis das minas de carvão, come a comida insossa dos carvoeiros, dorme na cama cheia de pulgas...

Lutando na Guerra Civil é um relato da experiência de Orwell na guerra civil espanhola. Ele batalhou ao lado dos anarquistas e trotkistas. Isso levou muitos de seus biógrafos a considerarem-no anarquista. Embora nunca tenha se declarado como tal, poucas pessoas neste século lutaram tão ferrenhamente contra o autoritarismo.

É na Espanha que Orwell começa a ter contato com o lado negro do socialismo. Em pleno combate contra os fascistas de Franco, os stalinistas se voltaram contra os exércitos revolucionários. Orwell foi atingido por uma bala e teve de escapar secretamente do país em decorrência da perseguição stalinista. Essa experiência iria ser marcante para a formação de 1984, seu principal livro.

A idéia para Revolução dos Bichos veio quando o autor viu um rapazinho chicoteando um cavalo. Fazendo correspondência entre a dominação entre as classes e a que ocorre entre homens e animais, Orwell criou a mais famosa fábula política da atualidade. Apesar da idéia original e do texto conciso, em que cada palavra parece ter sido escolhida para causar o máximo de impacto, os originais foram recusados sistematicamente pelos editores. Um deles alegou que livros sobre animais não vendiam. Eles devem ter arrancado os cabelos quando Revolução dos Bichos se tornou um best-seller. Orwell nem teve tempo de comemorar: sua mulher morreu cinco meses antes do lançamento.

1984 foi escrito em uma cama de hospital, em 1948. O autor sofria de uma tuberculose pulmonar que o mataria um ano depois. Nele, o globo é dominado por três grandes potências que controlam não só os indivíduos, mas também seus pensamentos e desejos. A visão política desenvolvida por Orwell nesse último livro é ímpar. O sexo, por exemplo, é sublimado por marchas, minutos de ódio e outras atividades controladas pelo Estado. Orwell chega a dizer claramente que a união dos corpos nus, a explosão do desejo sexual puro, é um ato político, de rebeldia.

Lembrar também é um ato político. Winston, o personagem principal, passa a história inteira tentando recuperar os fragmentos de uma canção esquecida. Tudo que é passado lhe interessa porque, como diz o lema do Partido, quem controla o passado, controla o presente e quem controla o presente, controla o futuro.

Todo fã de quadrinhos se recordará, inevitavelmente, da minissérie V de Vingança, de Alan Moore. Nela, o personagem principal anda pela cidade recolhendo lembranças de um filme esquecido: Dunas de Sal.

Em 1984 o Estado pretende dominar totalmente a vida do cidadão. Cada pessoa tem em casa uma televisão que ao mesmo tempo é uma câmera. Ela jamais pode ser desligada. A todo momento a pessoa está sendo observada e ouvida. Não há qualquer tipo de privacidade.

A dominação se estende até mesmo à língua. No livro, o inglês começa a ser substituído por algo chamado novilíngua. A idéia é reduzir ao máximo a variedade de palavras. A utilização de uma linguagem totalmente objetiva tornaria impossível qualquer pensamento subversivo.

A teoria política de Orwell também é muito interessante. Para ele, a história, mais que uma luta de classes, é a luta da classe média para alcançar o poder. Como sozinha ela não tem força para derrubar o sistema, ela faz com que os princípios da revolução pareçam abrangentes, atraindo a simpatia dos pobres.

Conseguido o poder, o povo é recolocado em seu lugar e passam a existir somente duas classes: exploradores e explorados. Com o tempo irá surgir entre esses últimos uma nova classe média que fará uma nova revolução. Daí a crença de que a revolução só pode vir do povo. Como diz Orwell: "Eles são o futuro. Nós somos os mortos".

Mais de 50 anos depois de ser escrito, 1984 continua sendo um dos livros mais importantes do século. Para aqueles que o acham um livro pessimista, é importante conhecer um pouco da história de vida de Orwell. Uma análise detalhada demonstra que Orwell não pretendia ser profeta. Ela pretendia, isso sim, avisar sobre como se tornaria o mundo se nós abdicássemos de nossa liberdade e privacidade. O mundo será como em 1984 quando as pessoas deixarem de lutar contra o autoritarismo. Se todas as pessoas se acomodarem, é isso que acontecerá. Essa é a lição do livro.
 

The Witcher

 


The Witcher é a adaptação da Netflix da série de livros de fantasia do polonês Andrzej Sapkowski. O personagem foi criado no início da década de 1980 para um concurso de uma revista de fantasia. O conto ficou em terceiro lugar, mas o autor gostou do resultado e foi ampliando o universo do personagem com outros textos. Na década de 1990 o herói estreiou cinco romances. Depois foi adaptado para os games, que o tornaram realmente famoso fora da Polônia.
A série da Netflix se debruça sobre os contos e romances e a plataforma já anunciou a segunda temporada.
A trama se passa num mundo fantástico dominado por magia e povoado de seres fantásticos, como elfos, dragões e similares. Nesse mundo, feiticeiras são treinadas para se tornarem conselheiras de reis e meninos são treinados para se tornarem bruxos. Há um problema aqui. A palavra escolhida pelo tradutor pode dar a entender que se trata de alguém que lida com magia, o que não é verdade. Embora possam fazer alguns atos mágicos, os witchers são na verdade guerreiros, caçadores de monstros.
O protagonista da história é Geralt de Rivia, um bruxo envolvido com uma trama muito maior, que pode terminar com o fim da civilização. Duas personagens femininas se destacam: a feiticeira Yennefer, uma porqueira vendida pelo padastro por quatro moedas que descobre ser uma das feiticeiras mais poderosas de sua época e Cirila, a herdeira de um reino invadido que procura por Geralt, com o qual tem uma relação de destino.
A série foi anunciada pela Netflix como uma nova Guerra dos Tronos, o que certamente é um exagero, mas não deixa de ser uma boa atração para quem gosta de fantasia.
Henry Cavill surpreende no papel do bruxo. Ou talvez tenha encontrado o papel de sua vida: um caçador de monstros que não tem emoções, e, portanto, não precisa demonstrá-las. Se Henry Cavill no papel de um choroso Superman era vergonhoso, aqui ele parece perfeito.
A trama geral é séria e dramática, no estilo Guerra dos Tronos, mas há capítulos, como o da caça ao dragão, que têm o clima do desenho Caverna do Dragão ou dos seriados de fantasia que passavam na Globo nas tardes dos anos 1990, a exemplo de Xena.
Os roteiristas optaram por fazer uma narrativa não-linear, o que deixa interessante a história, permitindo que seja contada a origem de personagens como a feiticeira sem um longo primeiro ato com praticamente nenhuma ação.
Resumindo: The Witcher pode não ser o novo Game of Thrones, mas agrada. E se tiver um final melhor que o de GOT, já está valendo e muito.

Quarteto Fantástico – Pais e filhos


O arco narrativo publicado nos números 271 a 273 da revista do Quarteto Fantástico é dedicado à busca pelo pai de Reed Richards, que está desaparecido há dez anos.

Na trama, escrita e desenhada por John Byrne, Reed retorna à mansão de seu pai, mantida intacta graças ao mordomo e sua esposa. Lá, eles descobrem uma máquina do tempo e decidem ativá-la, na esperança de encontrar o Senhor Fantástico.

Byrne começa a história com um flash back. Uma desculpa para homenagear as histórias de monstros da Marvel, com direito a traço imitando Jack Kirby. 


Assim como seu ídolo e maior influência, Jack Kirby, Byrne apresenta conceitos interessantes e inovadores, mas peca ao não aprofundá-los ou costurar as pontas soltas. Um exemplo disso é a máquina do tempo que, em vez de viajar no tempo, transporta o Quarteto para outro planeta ou dimensão – e, curiosamente, ninguém se mostra muito espantado com a situação.

Neste novo local, eles se deparam com pistoleiros do Velho Oeste montando cavalos eletrônicos. Sue chega a usar seus poderes para impedir um duelo. Pouco depois, são atacados pelos vaqueiros, que os confundem com capangas de um tal "Senhor da Guerra".

A solução gráfica de Byrne para mostrar a máquina do tempo funcionando é simples e criativa. 


É a suspeita de que o Senhor da Guerra seja o próprio pai de Reed que o leva a invadir a fortaleza do vilão. No caminho, a equipe enfrenta valquírias montadas em aves mecânicas, em uma intensa cena de combate.

Após a batalha, Byrne utiliza a rainha das valquírias para um longo diálogo expositivo, que explica toda a história daquele mundo. Segundo o Senhor Fantástico, a "grande interrupção da ciência, entre os anos 300 e 1.300 na nossa terra, foi preenchida com descobertas que só tivemos no século 19 e 20" naquele planeta. Se isso fosse verdade, o mundo teria se desenvolvido como uma continuidade do mundo antigo, com deuses gregos tecnológicos, por exemplo.

Byrne queria desenhar cowboys... 


No final, a história transmite a impressão de que Byrne simplesmente acordou com o desejo de desenhar cowboys, valquírias e robôs, e encontrou uma maneira de colocar todos esses elementos na mesma aventura, sem grande preocupação com a verossimilhança.

Apesar desses furos, a história é inegavelmente divertida, graças ao traço limpo e à narrativa límpida de Byrne, facilmente compreensível e, por isso mesmo, eficiente.

... mas também queria desenhar valquírias e robôs. 


Essa história foi publicada pela editora Abril em Grandes Heróis Marvel 25. Os editores deixaram só a primeira splash page, cortaram as outras, e deixaram parecendo que era uma história só.

Gian Danton: a origem do pseudônimo

 Algumas pessoas têm me perguntado qual a origem do meu pseudônimo Gian Danton. Essa é uma pergunta comum, mas, olhando para trás, percebo que nunca escrevi sobre o assunto.

Gian Danton surgiu em 1989, quando comecei a publicar minhas primeiras histórias em quadrinhos, em parceria com Bené Nascimento (Joe Bennett). Um amigo de teatro, que já havia tido problemas com a ditadura militar, e vendo que minhas histórias poderiam ser consideradas subversivas, me aconselhou a usar um pseudônimo.
Além disso, na época eu estava inaugurando uma coluna no jornal O Liberal e já havia colunas de uns tais de Ivan Andrade e Ivan Oliveira (eu não havia pensado no Ivan Carlo).
Na época eu era quase obcecado pela revolução francesa. Tinha tudo que saía sobre esse fato histórico: livros, revistas, fascículos. E Dantonera o personagem mais interessante dessa trama que mudou o mundo. Os outros dois grandes revolucionários pareciam mais bidimensionais: Marat era o revolucionário radical e Robespiere era o homem de costumes austeros, que levou a revolução na direção do terror.
Danton era revolucionário radical, mas também era humano, tanto que foi o único a se levantar contra o terror revolucionário, que matou milhares de pessoas (inclusive crianças), apenas porque eram nobres ou porque discordavam de Robespiere. Era também um bom-vivant, um homem divertido e inteligentíssimo, que tinha sacadas geniais. Quando ele foi julgado, tiveram que fazer um julgamento secreto e proibi-lo de falar, senão ele era capaz de convencer até os juizes (o julgamento era uma farsa, pois Danton estava condenado desde o início).
Quando o acusaram de ter se vendido para os nobres, por exemplo, Danton respondeu: ¨Vendido? Eu? Um homem como eu não tem preço!¨.
Adotei o nome Danton para homenagear esse homem interessantíssimo. No começo eu assinava Jean Danton, mas ficava estranho, especialmente na hora de assinar.
Na época eu me interessei pelo Barroco italiano e descobri um artista chamado Gian Lorenzo Bernini. Arquiteto, pintor, teatrólogo, escutor, Bernini foi para o barroco o que Leonardo Da Vinci foi para a Renascença.
Da junção dos dois nomes, um italino e outro francês, surgiu um nome único no mundo (pelo menos ainda não encontrei no google outra pessoa com esse nome) e foi com ele que fiquei conhecido. Mais tarde, quando tentei me livrar do pseudônimo, já era tarde: todo mundo me conhecia apenas como Gian Danton.

domingo, abril 26, 2026

Fundo do baú - Lippy & Hardy

 


Lippy e Hardy, desenho animado da Hanna-Barbera, parte de uma premissa inusitada: uma dupla de amigos composta por um leão e uma hiena depressiva. A piada aí é que as hienas são animais conhecidos pela aparente risada e Hardy é uma hiena que jamais ri e passa a maioria dos episódios se lamentando.

As tramas geralmente giravam em torno de algum plano mirabolante de Lippy, que inevitavelmente dava errado. O leão procurava acalmar o amigo: “Calma, Hardy”, mas a resposta era sempre a mesma, numa voz arrastada e depressiva: "Eu sei que não vai dar certo... Oh, dia, oh, céus, oh, azar..." ou: “Miséria, não sairemos vivos daqui”.

A graça dos episódios era exatamente o humor de repetição: o expectador esperava pela situação complicada em que a dupla iria se meter e pela reação sempre pessimista da hiena.

A abertura dava o tom do desenho: os dois estão sendo perseguidos por aborígenes (que não aparecem na imagem) e várias flechas quase os acertam, indo fincar-se no tronco de uma árvore. Lippy pega o amigo pela gola e sobe com ele pela árvore, usando as flechas como escada. Mas no alto dela encontram com um macaco, que os enrola em um cipó, fazendo com eles um iô iô. A abertura terminava com dois pendurados, tentando se livrar das bocarras de crocodilos.

A série, surgida em 1962, teve duas temporadas e 52 episódios.

Monstro lovecraftiano vira tira de humor

 


Imagine que uma criatura ancestral responsável pelo ressurgimento dos antigos. Agora imagine que esse monstro é um garotinho na escola vivendo todas as dificuldades de todas as crianças normais. Foi essa ideia maluca que Gian Danton e Toninho Lima tiveram ao criar a tira de humor As aventuras do Pequeno Xuxulu.
A tira, publicada em página na internet, é uma referência à obra do escritor norte-americano HP Lovecraft. Lovecraft inovou ao colocar todos os seus contos em um mesmo universo e dessa forma criou uma das mais famosas mitologias modernas de terror incluindo o demônio Cthulhu e o livro maldito Necronomicon.
A ideia da tira surgiu da dificuldade de pronunciar o nome Cthulhu: “O próprio Lovecraft dizia que era um nome impronunciável por seres humanos, de modo que qualquer pronúncia seria possível. E, de brincadeira, eu pronunciava Xuxulu. Uma dia percebi que isso poderia ser uma deixa para fazer algo na linha de humor”.

O humor, aliás, surge exatamente do estranhamento, por misturar o terror das histórias originais com uma narrativa e traços infantis. Assim, Xuxulu enfrenta problemas de crianças normais, como acordar de mal-humor, ter dificuldades para decorar o livro Necronomicon e até ter que dar o dinheiro do lanche para o valentão da escola (no caso, Dagon, outra criatura lovecraftiana).
Gian Danton é roteirista de quadrinhos desde 1989 e ficou famoso por suas histórias de terror em parceria com Bené Nascimento e com a graphic novel Manticore, sobre o chupa-cabras, ganhadora de diversos prêmios. Foi um dos criadores do super-herói curitibano O Gralha. Para desenhar a história chamou o ilustrador Toninho Lima, que tem grande experiência em quadrinhos de terror e, ao mesmo tempo, em quadrinhos infantis.

As aventuras do pequeno Xuxulu podem ser acompanhadas pela página do facebook (https://www.facebook.com/pequenoxuxulu). 

A cidade à beira da eternidade – A versão em quadrinhos

 

 A cidade à beira da eternidade é o mais premiado e aclamado episódio da série clássica de Jornada nas Estrelas. Entretanto, a versão que foi para as telas era muito diferente da versão original, do escritor Harlan Ellison. Ellison, aliás, ficou tão indignado com as alterações que repudiou o episódio e só aceitou que seu nome aparecesse nos créditos porque isso lhe abria caminho para escrever filmes e séries.

Em 2014 a editora IDW resolveu publicar uma versão em quadrinhos dessa história clássica com roteiro de David Tipton e Scott Tipton e arte de J.K. Woodward, mas adaptando à risca o roteiro de Ellison.
O resultado é muito interessante, especialmente para comparar as diferenças entre as duas versões.
Na versão de Ellison a trama gira em torno de tráfico de drogas na Enterprise. 


A primeira coisa que salta à vista é que na versão original a história começava com uma trama de tráfico de drogas. É o traficante que desce ao planeta e volta ao passado, modificando o passado e alterando completamente o futuro. Na versão de Gene Romdemberry, é McCoy, que afetado por uma dose excessiva de remédio, que volta no tempo.
A trama sobre drogas dificilmente seria aceita pela televisão da época. Além disso, ia contra a ideia de Gene Roddenberry de Jornada nas Estrelas como uma espécie de utopia tecnológica.

A sequência do planeta mostra outra alteração necessária: no roteiro de Ellison eles encontram de fato uma cidade, com vários seres que controlam o tempo. Como forma de cortar os custos, rondeberry cortou a cidade e deixou apenas um portal. Funcionou bem, embora o título tivesse perdido o sentido.
A trama na terra também fica mais sintética e mais fluída com a eliminação de alguns personagens e sequências. Colocar a jovem micssionária Edith Keeler como proprietária do local que dá comida aos necessitados funciona muito bem e dá sentido aos seus sermões, que na versão televisiva se interliga com a própria utopia de Jornada.
No roteiro original quem voltava ao passado era o traficante, e não McCoy. 


Por fim, trocar o traficante por McCoy tornou mais coerente o final, uma vez que esse também passa a ter uma relação com a missionária e, assim, tem uma razão concreta para salvá-la.
A conclusão é de que a versão de Ellison é muito boa. Só não é Jornada nas Estrelas.

A casa das mil portas

 


A casa das mil portas foi um projeto idealizado por Nemo Nox e lançado em 2005. O site reunia centenas de microcontos escritos por blogueiros brasileiros e portugueses.
Para quem não conhece,  microconto é (segundo da definição de Nemo Nox),  “uma história em prosa contada em cinqüenta letras ou menos. Se parece pouco é porque é realmente pouco. Fazer um microconto é um desafio literário, uma tentativa extremamente econômica de contar ou sugerir uma história inteira. Um microconto exemplar, e possivelmente o mais famoso de todos, é do escritor guatemalteco Augusto Monterroso: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá."
Eu fui um dos escritores-blogueiros convidados a participar do projeto, que na época ganhou grande destaque na mídia.
O site ainda existe e pode ser acessado aqui: http://www.nemonox.com/1000portas/index.php