domingo, março 01, 2026

As aventuras de Xisto

 



Quando eu estava no primário, li um livro que me fascinou. Era um trabalho de escola e cada um era sorteado para ler um capítulo em uma aula. Na primeira aula o sorteado admitiu que não tinha lido nada e, portanto, não se sentia capaz de ler para a turma. A professora perguntou se alguém já tinha lido. Silêncio total. Eu levantei a mão. “Você já leu o livro todos?”. “Duas vezes”, respondi. Depois li tantas vezes que decorei a ponto dos colegas me testarem. Liam um trecho e eu dizia em qual página estava.

O nome desse livro era Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, publicado na coleção Vaga Lume.

Além do texto maravilhoso da autora, o livro se destaca pelo trabalho primiroso do ilustrador Mário Cafiero, cujo talento para a fantasia já se revela logo na capa, com o protagonista montado em um cavalo, a espada levantada. O meticuloso trabalho do artista, desenhando cada folhinha nas árvores e cada grama no chão, impressiona. Mas esse detalhismo não está a serviço do realismo. Ela contribui muito mais para tornar a imagem irreal, como num sonho, o que é ampliado pelo fato da proporção entre cavalo e cavaleiro ser estranha, incluindo uma cabeça de cavalo pequena na proporção com o corpo. Essa característica se repete ao longo das ilustrações internas com os bruxos, por exemplo, sendo mostrandos com uma proporção excessivamente alongada (com nove cabeças).

Tudo isso contribui em muito para o clima de fantasia da obra.

O texto de Lúcia Machado de Almeida é singelo e inventivo. Parece simples, mas é cheio de estratégias narrativas, a exemplo da abertura do livro. A autora narra o nascimento no qual o personagem olhou para a mãe e sorriu. E depois:

“Passava o tempo... Quando Xisto fez três anos, morreu-lhe o pai. Aos cinco, teve sarampo, e aos nove ficou de castigo por ter pregado um susto no mestre, que por pouco não endoideceu”.

Misturar em um único parágrafo vários fatos dá a impressão de que esses fatos aconteceram muito rápido. E misturar em uma mesma frase um evento importante, como sarampo e o castigo, dá a dimensão de importância desse último fato ao mesmo tempo em que a história, contada em seguida, destaca a inteligência do personagem.

Na trama, Xisto vê um feiticeiro esconder na parede falsa do fundo de uma gruta um objeto. Ao abrir o local, eles descobre o MANUAL DO SEGREDO DOS BRUXOS.

O manual lista os quatro bruxos ainda existentes no mundo e o ponto fraco de cada um, além de nomear cada um deles de acordo com seus atributos:

Fredegonda – senhora dos que voam, mas não são aves;

Jacomino – o que se alimenta do humo da terra;

Minhoco – o senhor do tempo;

Durga – o que vê sem ser vito.

Como se percebe, a lista só amplia o mistério graças ao texto misterioso (o que seria alguém que vê sem ser visto?), estimulando o leitor a imaginar quais os poderes dessas pessoas.

Para eliminar esses últimos bruxos, Xisto torna-se um cavaleiro andante, acompanhado de seu amigo Bruzo, tão simplório quanto Xisto é inteligente.

Nessa jornada eles ainda enfrentam tiranos. Há tempo até para situações de humor quixotesco, como quando eles acreditam que bruxos estão executando pessoas e acabam descobrindo que são fazendeiros pegando uma galinha para o jantar.

Em suma, um livro mágico, que encantou toda uma geração e abriu as portas para a predileção pela literatura de fantasia.

Thongor, o quase Conan

 

 

Quando a redação da Marvel começou a ser inundada por cartas pedindo uma revista com personagens do gênero espada e magia, Roy Thomas pensou em fazer uma adaptação de Thongor, de Lin Carter. A razão é que o chefão da Marvel, Martin Goodman, tinha reservado apenas 150 dólares para cada edição publicada. Com um valor desses, Thomas achou que seria impossível pagar os direitos de um personagem popular como Conan e optou por um menos conhecido. Além disso, Lin Carter era fã de quadrinhos. Isso certamente facilitari a negociação. 
Não contavam com o empresário do escritor, que emperrou a negociação pedindo mais de 150 dólares. Como bom judeu, Goodman não aceitava pagar um centavo a mais do que o que estava no planejamento. 
Nesse meio tempo, Roy Thomas entrou em contato com o empresário responsável pelos direitos de Conan e conseguiu os direitos do cimério. Se não fosse o empresário ambicioso, hoje milhares de fãs de quadrinhos seriam também fãs de Thongor. Ou não. 

Em tempo: posteriormente, quando a revista do Conan havia se tornado um sucesso e impulsionado a venda dos livros, o agente de Lin Carter aceitou licenciar o personagem para a Marvel. Mas a revista de Thongor durou poucos números: a maioria dos leitores considerou que o personagem era apenas uma imitação barata do cimério.

Clássicos revisitados – Frankstein noir

 


O segundo volume da coleção Clássicos Revisitados uniu dois assuntos diversos: monstros e policial noir. Para quem não conhece, o noir é um gênero policial surgido nos EUA que se diferenciava do tipo dedutivo (característico da Inglaterra) ao apresentar detetives durões, narrativa sarcástica, violência, femmes fatales etc. Eu escrevi a história “Frankstein Noir”, desenhada pelo amigo JJ Marreiro.
O roteiro já era repleto de referências, desde aos romances noir à literatura de H.P.Lovecraft.

Mas o desenhista acrescentou muito mais, a começar pela página de abertura, que emula a capa de um pulp fiction da década de 1930, com chamadas de capa e até preço. Marreiro também recheou a história de easter eggs (novamente, para quem não conhece o termo easter egg significa ovo de páscoa e é a brincadeira de esconder numa histórias referências visuais para serem encontradas pelo leitor da mesma forma que crianças encontram ovos na brincadeira de páscoa), principalmente na sequência da danceteria, na qual aparecem diversos personagens de quadrinhos, cinema e até artistas. 

Confira abaixo alguns previews e easter eggs espalhados pela história: 







Titãs - a série

 


Quando foram divulgadas as primeiras fotos não oficiais da série Titãs, o seriado recebeu uma enxurrada de críticas. Os fãs morderam a língua. Titãs é o melhor seriado de super-heróis de todos os tempos e melhor que 90% de todos os filmes de super-heróis já lançados.
Para quem não conhece quadrinhos, Titãs é baseado no grupo de parceiros mirins da DC Comics. Sim, durante um longo período todo super-herói tinha que ter um parceiro mirim. Batman tinha o Robin, Mulher Maravilha tinha a Moça Maravilha, Flash tinha o Kid Flash e assim por diante.
Na década de 60 a DC teve a ideia de reunir esses heróis mirins em uma revista, Teen Titans. Não deu muito certo. Os personagens usavam gírias da década de 40 ou 50, eram extremamente respeitosos com os heróis principais e tinham a metade do tamanho desses. Ou seja, não agiam como jovens.
Na década de 1980, o roteirista Marv Wolfman, que odiava o gibi quando era jovem, resolveu mostrar como se faz uma série para a juventude. Além de criar novos personagens, como Ravena, Estelar e Mutano, ele mudou a relação dos parceiros com os heróis. Robin, por exemplo, passou a ter uma relação de conflito com o Batman. Foi um sucesso tão grande que levou à criação de três animações (a mais recente voltada ao público infantil) e o live action, criado, entre outros pelo roteirista de quadrinhos Geoff Johns e lançado recentemente pela Netflix.
E o que Titãs tem de revolucionário?
Essencialmente a forma como é estruturado um seriado de super-heróis. Tirando os heróis urbanos da Marvel, como Demolidor, a maioria desses seriados é focada em heróis em uniformes coloridos lutando a cada episódio contra um vilão, em meio a uma grande quantidade de efeitos especiais meia-boca (o orçamento dos seriados é bem menor que o dos filmes).
Titãs quebra com esse esquema ao se estruturar como um seriado de mistério. O expectador não sabe quem são os personagens e, em alguns casos, nem eles mesmos sabem (como é o caso de Estelar e Ravena) e mesmo aqueles heróis que conhecemos como tal desde o início, a exemplo do Robin, têm algo a ser revelado. Além disso, há uma trama maior, que também se revela um mistério - quem quer matar Ravena?
Essa estrutura faz com que o seriado seja interessante não só para os fãs de quadrinhos, mas para os expectadores em geral.
Além disso, muda o foco da trama da ação e os efeitos especiais para o desenvolvimento dos personagens – e esses são muito bem desenvolvidos. Nesse sentido, a escolha de atores foi acertadíssima. Destaque para Teagan Croft, no papel de Ravena e Anna Diop, no papel de Estelar. Aliás, a criticada roupa usada por Anna Diop na série acaba fazendo todo sentido, dentro da proposta do seriado.
Os efeitos especiais, quando aparecem, são em momentos chave, e muitas vezes, nem exigem o famoso CGI. Há uma cena, por exemplo, em que Ravena usa seus poderes que é feita exclusivamente com maquiagem, interpretação e montagem.
Bons diretores já haviam mostrado que para fazer produções sobre seres super-poderosos não é necessário uma fortuna em efeitos especiais – basta uma boa direção, bom roteiro e bons atores. Scanners, filme de 1981, de David Cronenberg, é um exemplo. Mais recentemente, a trilogia de Shyamalan (Corpo Fechado – Fragmentado – Vidro) é outro.
Titãs parece mostrar que a DC aprendeu essa lição: Boa direção, efeitos especiais na medida certa, bons atores, bons roteiros e uma trama que vai num crescendo até o capítulo final.
Se não bastasse tudo isso, há o ótimo capítulo com a Patrulha do Destino (que o tradutor da Netflix rebatizou como Patrulha dos Condenados) e uma visão do Batman muito mais adequada que todos os últimos filmes da DC. A forma como o Homem-morcego - e Gothan - é mostrado na série (ou não é mostrado) é simplesmente genial e lembra grandes obras dos quadrinhos, como Asilo Arkhan.

Super-homem contra Bizarro

 


Bizarro é um dos personagens mais interessantes da mitologia do homem de aço e um dos que mais simbolizam a era de prata. Originalmente ele era o equivalente ao super-homem num planeta em que tudo era o oposto da terra.

Claro que um personagem tão emblemático não poderia ficar de fora da reformulação de John Byrne, mas o quadrinista canadense deu ao personagem uma formulação completamente diferente.

Na versão de byrne, Bizarro é resultado de uma tentativa de Lex Luthor de criar uma versão própria do super-homem.

A história começa com uma referência à armadura de Luthor da era de prata. 


O confronto entre os dois foi publicado em Man of stell 5, com desenhos e texto de John Byrne.

A história já começa com uma referência anedótica à mitologia da era de prata. O Super agarra uma armadura, como as usadas por Lex Luthor na era de prata e diz: Você está ficando descuidado, Luthor! Mas quem está dentro da armadura não é Luthor, mas um lacaio (que irá morrer em breve: “Esse traje foi desenvolvido para a Nasa, mas depois descobrimos que qualquer um dentro dele mais de uma hora vira um vegetal”). Nessa nova versão, Luthor é um empresário ganancioso e frio, que não suja as mãos e, portanto, não iria sair por aí vestindo uma armadura.

Na versão de Byrne, Bizarro é uma criação de Luthor. 


A história pula para várias sequências: um ambulância tem seu pneu furado e não conseguirá chegar a tempo no hospital, mas é transportada pelo que parece o Super-homem, a irmã de lois lane tenta suicidio, mas é salva pelo que parece o homem de aço.

Todas essas boas ações eram, na verdade, de Bizarro.

O quaro em branco mostra a solidão da irmã de Lois Lane. 


Tudo isso é mostrado numa narrativa simples, mas eficiente, assim como o traço de Byrne. Exemplo disso é a sequência que mostra o drama da irmã de Lois Lane, que ficou cega numa história anterior.

Uma pena que a opção foi simplesmente matar Bizarro ao final da história.

Guerras Secretas – Ataque a Galactus

 


O número nove da série Guerras Secretas começa com uma situação extremamente tensa. Galactus terminou seu equipamento e está prestes a devorar o planeta criado por Beyonder.

Aí você percebe porque Galactus foi colocado no meio da disputa, embora sua presença ali desequilibrasse totalmente a balança a favor dos vilões. Era uma estratégia narrativa de Jim Shooter para criar uma ameaça maior do que a própria disputa e garantir um clímax dramático para a história. Ou talvez fosse porque os fabricantes de brinquedo acharam que Galactus ia ficar legal na coleção. Vá saber.

O Senhor Fantástico lidera a luta contra Galactus... 


Quando o Homem de Ferro consegue passar pelos robôs e pelo próprio Galactus, Reed Richards muda de ideia e decide que os heróis não devem mais atacar o deus cósmico.  O argumento do Senhor Fantástico é que se vencer a disputa, Galactus terá seu desejo realizado por Beyonder e deixará de exterminar planetas.

... depois decide não lutar... 


Essa é uma das características mais irritantes do roteiro de Jim Shoooter em Guerras Secretas. Os personagens mudam o tempo todo de opinião, indo de 8 a 80 em segundos, numa total desconexão com o que foi mostrado antes. Quem estava muito disposto a lutar em uma página está tentando convencer os outros a não lutarem na página seguinte. 

... depois decide lutar de novo. 


No caso do senhor fantástico, ele é um dos principais líderes da luta contra Galactus, depois muda de ideia e decide que Galactus deve devorar o planeta, depois se torna um dos mais empolgados na luta contra Galactus. O humor dele vai variando de acordo com as necessidades narrativas do roteirista.

Reed faz uma visita  à nave de Galactus e este o convence a lutar. Roteirismo puro. 


Enquanto isso, o Doutor Destino elabora um plano para roubar todo o poder de Galactus usando para isso o corpo do Garra Sônica, que é fatiado por ele. Isso cria uma boa base de suspense para a história, fazendo com o que o leitor se pergunte se ele sairá vitorioso dessa arriscada empreitada.

sábado, fevereiro 28, 2026

Mulher-Hulk contra os Homens-sapo

 


Em uma das suas primeiras histórias do Hulk (quando nem Stan Lee nem Jack Kirby sabiam exatamente o que fazer com o personagem), o personagem enfrentou uma ridícula invasão alienígena orquestrada por... homens-sapo.

John Byrne caçoa dessa situação logo na capa do segundo número da revista She-Hulk. A personagem come biscoitos, toma leite e lê um gibi enquanto comenta: “Meu, o primo Bruce enfrentava cada bando esquisito no começo da carreira...!”. Enquanto isso, ao fundo, homens-sapo se aproximam ameaçadores.

Homens-sapo? Sério, Byrne? 


Já na primeira edição da revista, Byrne mostrava que a metalinguagem e o humor seria a tônica, algo que é extrapolado neste número com etiquetas do editor-chefe e dos editores nas laterais das páginas, como se fossem comentários sobre a trama. O editor-chefe reclama que falta ação nas primeiras páginas, que mostram a personagem se mudando para um novo apartamento – Byrne chega a usar uma página dupla para mostrar o novo lar.

Quando a ação finalmente explode, é também numa página dupla, com um amontoado de naves sobre o céu de Nova York. “E aí, não tá pra lá de cósmico?”, argumenta o editor, num dos bilhetes laterais. “Nada mal!”, responde o editor-chefe. “Mas eu teria colocado um pouco mais de espaçonaves!”.

Byrne usa bilhetes na laterais para fazer piadas metalinguísticas. 


A invasão parece ter um alvo: a mulher-hulk, tanto que eles invadem o apartamento da heroína, que exclama revoltada: “Homens-sapo, Byrne? Homens-sapo? Pensei que a capa fosse só uma piada!”.

Embora Byrne exagere nas piadas, ele consegue construir uma história simples, divertida e com uma reviravolta muito interessante no final.

O grande segredo, de Fritz Lang

 


O grande segredo é  filme de Fritz Lang, de 1945. Lang é um mestre do suspense e usa todos os seus recursos narrativos nesse triller de espionagem em que um cientista americano tem que levar um físico italiano para os EUA como forma de evitar que os alemães construam a bomba atômica.
Lang usou um argumento super atual na época com maestria. O roteiro é muito bem construído e vai numa espiral em que um fato puxa outro, que puxa outro, que puxa outro. Quando parece que as coisas vão acalmar é exatamente quando elas complicam.
Destaque para a composição das cenas, com uso sempre inteligente de espelhos e da profundidade de campo, como na cena em que os dois cientistas estão conversando e o retrato de Mussolini na parede parece olhar para eles, criando um clima de angústia no expectador. Lang sabia usar como ninguém o cenário como elemento narrativo e as inovações trazidas por Orson Welles em Cidadão Kane cairam como uma luva para esse filme.
Também vale destacar que a película não se limita ao aventuresco. A personagem Gina, de Lili Palmer, por exemplo, acaba ganhando grande profundidade, em oposição ao herói, que pelos padrões da época precisava ser alguém infalível.
Um clássico, sem dúvida.

Amor além da vida

 

Assistimos Amor além da vida, filme dirigido por  Vincent Ward baseado no livro de Richard Matheson. O filme conta a história de Chris (Robin Williams) e Annie (Annabella Sciorra), um casal feliz que é abalado pela morte dos filhos. Quatro anos depois, é Chris que morre e acompanhamos sua jornada no mundo espiritual e sua tentativa de se comunicar com a esposa.
Richard Matheson é um dos grandes mestres da literatura de gênero, autor, entre outros, de Eu sou a lenda. Ele constroi um roteiro que lembra muito as ideias do espiritismo, com as suas devidas liberdades poéticas. Por exemplo, o espiritismo diz que a mente pode moldar a realidade no mundo espiritual e isso fica claro na sequência em que o protagonista se vê no meio de uma pintura da esposa.
Nesse mundo, em que a mente molda a realidade, interessante a versão do inferno: ele não é um local em que demônios espetam e queimam pessoas. A verdadeira tortura é imposta pelas pessoas, fruto de suas próprias consciências pesadas. Exemplo disso são os suicidas, que vivem num inferno particular.
É impossível ver a sequência do inferno sem lembrar do umbral espírita.
Mas, independente de questões religiosas, o filme é uma bela adaptação da Divina Comédia. Recomendo. 

A arte hiper-real de Ron Mueck

 

Ron Mueck é um artista australiano radicado na Gran Bretanha. Seu trabalho reproduz figuras humanas com perfeição hiper-real, mas em escalas estranhas (ou muito pequena ou muito grande), que desconsertam o expectador e o levam a um outro olhar sobre a realidade.









Monstro do Pântano – A saga do Fuça radioativa

 


A partir do momento em que assumiu o título do Monstro do Pântano, Alan Moore o transformou num dos mais revolucionários do mercado dos comics. Inclusive sua reformulação do personagem, mostrando-o como uma planta e não como um ser humano.

Mas o ponto de virada que mostrou que o título estava anos luz à frente de outros do mercado foi a saga do Fuça radioativa, publicada nos número 35 e 36.

Moore construiu a trama em torno dos perigos do lixo nuclear – e a pesquisa feita por ele aparece na história na forma de recortes de jornais sobre o assunto, que surgem das mais variadas formas na HQ.

Um mendigo que bebe resíduos radioativos é o vilão da história. 


A história mostra um mendigo, o tal Fuça Radioativa, que se refugiava nas cavernas de carvão desativadas da Pensilvania. Quando o local passa a ser usado para guardar lixo nuclear, ele começa a abrir os tonéis para beber o líquido e sobrevive, mas torna-se uma ameaça involuntária.

A história começa com ele conversando com um homem que foi expulso da pensão onde morava. Ele lhe oferece a bebida. O resultado, claro, é a morte do homem. No final da história, ele encontra com o Monstro do Pântano e, acreditando que ainda fala com o antigo companheiro, não só toca nele (o que provoca uma ferida radioativa na vegetação que compõe o corpo do herói), como ainda o faz beber o líquido. Isso fará com que o personagem morra.

A morte do personagem provocou grandes mudanças no título. 


Essa primeira parte já valeria a pena por si só, mas o grande destaque vai para a segunda parte.

Numa narrativa que Moore diz ter emprestado de Gabriel Garcia Marques, Moore mostra os mesmos fatos do ponto de vista dos diversos personagens envolvidos na história: o xerife, a dona da pensão, o garoto que viu o monstro radioativo e o apelidou de fuça radioativa.

A história é narrada por diversos personagens, como um quebra-cabeça que deve ser montado pelo leitor.


Mas a parte central são as narrações de Wallace Monroe, funcionário da empresa nuclear, e Theasure, sua esposa grávida. A versão de Wallace o mostra encucado com a possibilidade dos acontecimentos da Pensivania se repetirem na Flórida. Ele sai para tentar esquecer o assunto, penetra no pântano, se perde ali, volta para o hotel e descobre que a esposa desapareceu. Quando finalmente a encontra, foge dela (“Não suporto mais encarar o seu olhar. Dou meia volta e começo a corerr... já sabendo que não devo parar nunca”). Só iremos entender a razão desse comportamento quando lemos a versão da esposa.

A história, assim, é configurada como quebra-cabeças cujas peças precisamos juntar para entender o conjunto.

Não bastasse esse aspecto revolucionário da forma, a história também marcaria uma mudança definitiva nos rumos e até nos poderes do personagem.

Perry Rhodan – Operação aço arcônida

 


Existem volumes de Perry Rhodan que funcionam quase como se fossem contos isolados. Outros nitidamente fazem parte de uma história maior, mas podem ser lidos isolamente. E outros são tão conectados a outros livros que parecem não funcionar sozinhos. Exemplo desse último caso é o volume 46, Projeto aço arcônida, escrito por Kurt Brand.

No volume anterior, Rhodan fizera um ataque inédito aos aras, os médicos estelares que vivem de criar epidemias e vender remédios para elas.

Como vingança, os aras decidem destruir a Terra. Mas como não têm armas, precisam dos saltadores e dos superpesados e para isso marcam uma reunião na lua de um planeta. Rhodan resolve aproveitar a reunião para introduzir seus mutantes na nave de Topthor, a única pessoa que tem a informação sobre a localização da Terra. A ideia é invadir seu computador de bordo e introduzir uma outra localização. Para isso, Rhodan conta com a ajuda de Talamon, um superpesado que se tornara seu amigo.

A capa original alemã. 


A trama é interessante. O problema é a grande quantidade de pontas soltas, ganchos não resolvidos. O próprio título é um exemplo, já que, embora a questão do aço arcônida seja mencionada em vários momentos, não há, de fato, uma operação para resgatar esse aço. Além disso, temos várias outras situações: à certa altura o hipercomunicador da nave de Talamon é ligado quando ele está conversando com Reginald Bell, o que indica que a nave tem um traidor. Além disso, uma força invisível e misteriosa parece ser mais poderosa do que os próprios mutantes; há um gancho sobre um mundo chamado Exsar, onde os aras haviam instalado uma epidemia extremamente mortal, mas que não parece ter muito impacto sobre os acontecimentos. Simplesmente nada é resolvido, explicado ou solucionado nesse volume.  Algumas dessas questões serão resolvidas em livros posteriores. Outras ficariam como pontas soltas.

Eu, assim como muitas pessoas, lia os volumes conforme ia conseguindo os mesmos nos sebos. E esse é um que certamente passaria totalmente batido se tivesse lido antes, quando não tinha todos os números do primeiro ciclo.

Uma curiosidade desse volume é a informação sobre o cérebro regente de Árcon. À certa altura, Kurt Brand informa que o computador ocupa uma área de dez mil quilômetros quadrados. Incrível como o futuro nesse ponto é tão diferente do imaginado pelos autores, que não conseguiram imaginar o processo de miniaturização pelo qual passariam os computadores. Hoje em dia cabe na palma da mão um aparelho com capacidade de computar muito mais informações do que um aparelho que ocupava um prédio inteiro na década de 1950.

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

Os especialistas em Orwell que não leram Orwell

Foto da minha coleção.

 

O escritor inglês George Orwell é a Clarice Linspector das citações políticas. Já vi as mais variadas falas creditadas a ele. Muitas são textos tirados do contextos. Outras são simples invenções. E muitos e muitos são os“especialistas em George Orwell” que nunca leram seus livros, ou quando muito leram os mais famosos, A revolução dos bichos e 1984.

O mais bizarro disso é a apropriação que o fascismo faz de George Orwell.

O escritor deve estar se revirando na cova. Logo ele, que lutou, ao lado dos trotskistas e anarquistas na Espanha contra o fascismo, ver sua obra e seu nome sendo apropriados pelos fascistas, muitas vezes com estratégias que ele mesmo denunciou no livro 1984, como a mudança do passado.

Para se ter uma ideia, agora que os livros do autor entraram em domínio público, uma editora fascista lançou 1984 e A revolução dos bichos. Para divulgar, simplesmente inventou fatos sobre a vida de Orwell. Segundo o texto de divulgação, 1984 foi recusado pela maioria das editoras inglesas por causa da aliança entre Inglaterra e a Rússia stalinista.

Em 1948, quando Orwell escreveu 1984, não existia mais essa aliança – ele ele era um best-seller, razão pela qual as editoras disputaram o livro. O livro A revolução dos bichos chegou a ser recusado por editoras, mas a razão era outra: livros com animais normalmente não vendiam bem e os editores temiam levar prejuízo.

A maioria das pessoas que cita George Orwell nas redes nunca leu qualquer livro dele além dos dois mais famosos (a maioria na verdade não leu nem esses dois e falam por “ouvir dizer”). São pessoas que acham que ele era um lorde inglês conservador que escrevia enquanto o mordomo lhe servia whisky.

O primeiro livro que li de Orwell foi 1984, no início dos anos 90, numa edição comprada em sebo, ao preço de uma passagem de ônibus (naquele dia eu voltei andando para casa). No final, eu tinha entrado em uma loja para comprar algo para minha avó e, quando o vendedor me entregou, fiquei lá, parado, porque não conseguia parar de ler. 

A partir daí fui comprando tudo que encontrava do autor. O que não conseguia comprar, lia de bibliotecas.

Orwell marcou meu estilo principalmente pela narrativa limpa e incisiva, sem firulas, pelo texto jornalístico impecável, com descrições extremamente vivas.

Outra característica de Orwell era a preocupação com temas sociais.

Essa preocupação o levou a escrever A caminho de Wigan, no qual ele denunciava a vida miserável dos mineiros de carvão na Inglaterra e como eles eram explorados.

A inquietação com os oprimidos o levou a se disfarçar para viver como mendigo – depois ele perderia o emprego e se tornaria de fato um mendigo, como relatado em Na pior em Paris e Londres.

O medo do fascismo o levou a se engajar na luta contra os fascistas na Espanha, como relatado no livro Lutando na Espanha. Aliás, foi ali na Espanha que ele percebeu que o fascismo tinha sua contrapartida esquerdista, o stalinismo. Quase foi morto pelos fascistas, quase foi morto pelos stalinistas. Toda a sua obra reverbera uma viva crítica a qualquer tipo de autoritarismo, seja ele de direita ou de esquerda.

Como critica aos conservadores ele escreveu um livro, A filha do reverendo, sobre uma professora que é massacrada pelos pais conservadores ao encenar com as crianças uma peça de Shakespeare, McBeth, que tinha uma referência ao parto.

Para quem, como eu, leu toda a obra de Orwell, é absolutamente lamentável ver a obra e o nome do autor serem apropriados por aqueles que ele mais combateu em vida.

Uma curiosidade é que, por outro lado, há muitos esquerdistas, especialmentes aqueles afeitos ao stalinismo, que chamam Orwell de fascista. Incrível como os extremos se parecem. 

Em tempo, quando ainda estava vivo, Orwell escreveu para um amigo explicando a tese principal do romance que ele estava escrevendo. Essa carta pode ser lida aqui

Um trecho: 
"Para onde quer que se olhe, todos os movimentos nacionalistas, patriotas, mesmo os que surgiram como forma de resistência ao domínio alemão, parecem assumir formas não-democráticas, organizando-se em torno a algum tipo de fuhrer sobre-humano (...). Acrescente-se a isto o horror do nacionalismo exacerbado e uma tendência à descrença na existência das verdades objetivas, já que todos os fatos têm que se adequar às palavras e profecias de algum fuhrer infalível. Na verdade, em certo sentido, a história já deixou de existir, não havendo mais uma história contemporânea que possa ser universalmente aceita, e as ciências exatas também estarão ameaçadas tão logo não se precise mais do exército para manter a ordem. Hitler pode dizer que os judeus começaram a guerra, e se ele sobreviver, isso passará a ser a história oficial. Mas ele não pode dizer que dois mais dois são cinco, porque para os objetivos, digamos, da balística é preciso que essa soma continue sendo quatro". 

Parece que Orwell profetizou o mundo atual, não? 

Ps: Se George Orwell estivesse vivo hoje em dia, os bolsonaristas diriam que Orwell não entendeu a obra de Orwell.