domingo, novembro 08, 2026

Argentina 1985

 


Em 1985 um tribunal argentino surpreendeu o mundo ao colocar no banco dos réus os militares que haviam comandado uma ditadura de sete anos, que se acabara dois anos antes. Era algo único, que só poderia ser comparado com o tribunal de Nuremberg. Com uma diferença: no tribunal de Nuremberg os nazistas julgados por crimes de guerra haviam sido plenamente derrotados, enquanto que no chamado Julgamento das juntas militares, os réus ainda continuavam detendo muito poder – a ponto de ameaçar até mesmo o promotor e testemunhas.

O caso era tão assustador que a maioria dos promotores não aceitou ajudar o colega Julio César Strassera, de forma que coube ao iniciante Luis Gabriel Moreno Ocampo e uma equipe de adolescentes reunir em tempo recorde toneladas de provas do mais importante julgamento da história argentina.

É essa história que Santiago Mitre conta em Argentina 1985, filme lançado aqui pela Amazon Prime Video.

O promotor contou com o apoio de equipe jovem. 


Mitre faz mais do que um filme de tribunais. É um triller de suspense, pois nunca sabemos se o julgamento irá de fato até o final ou se alguém da equipe de acusação – ou seus familiares – será morto. Mas é também um drama que encontra seu ponto alto nos depoimentos das testemunhas, incluindo pessoas que eram crianças quando foram sequestradas pelos militares. Nas matérias sobre o filme há declarações dos próprios juízes do caso de que os relatos eram aterradores e é justamente essa sensação de terror que o filme nos passa. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas e centenas de milhares presas e torturadas, inclusive pessoas que haviam sido aprisionadas por engano. Toda a mensagem desse filme impactante (talvez o melhor do ano) pode ser resumida na peça de acusação, lida pelo promotor: “Temos a responsabilidade de estabelecer uma paz baseada não no esquecimento, mas na memória. Não na violência, mas na justiça. Essa é a nossa oportunidade. Talvez seja a última”.

Em tempos sombrios nos quais vivemos, nos quais pessoas se entricheiram na frente dos quartéis pedindo pela retomada de tempos sombrios, em que qualquer pessoa poderia ser presa, tortura e morta por suas opiniões políticas, Argentina 1985 é um filme essencial.

Dylan Dog – Íncubus

 



Uma edição que passou batida pela maioria dos fãs de Dylan Dog no Brasil foi o álbum Incubus, lançado em 1993, um ano depois que a revista de linha já tinha sido descontinuada pela editora Record.

Na história, um famoso escultor procura o detetive do pesadelo para desvendar um mistério: sua vida parece ter sido apagada a partir de uma certa noite. Exceto pelo dono de um bar, ninguém mais parece conhecê-lo antes disso. Foi também nessa noite que ele conheceu e se apaixonou por uma garota chamada Truth e constituiu uma família com ela. Essa não foi a única mudança: sua carreira, de escultor, que antes parecia destinada ao fracasso, teve uma guinada. Agora ele é um homem feliz, casado com uma bela mulher e dono de uma ótima carreira. Mas o passado nebuloso o incomoda e por isso ele procura Dylan.

A capa original. 


O álbum tem 48 páginas, metade das edições de linha. Talvez por isso, fica a impressão de que a trama foi mal construída e as pontas soltas deixadas foram muitas. Várias coisas ficam sem explicação, ou são mal explicadas.

Em tempo: pelo que pesquei, essa história não foi publicada originalmente como álbum. Era uma história menor, dentro da edição 77 italiana. A capa que saiu no Brasil é uma montagem feita pela equipe da record com a capa do original italiana acrescida de trechos da história íncubus.

Livro de Gian Danton vira alegoria do Caprichoso

 

A alegoria de Chico Patuá realizada pelo Boi Caprichoso. 

 Na noite do dia 29 de junho recebi uma mensagem do amigo Romahs, de Manaus: "Parabéns pela homenagem!". Ele estava vendo, ao vivo, o Festival de Parintins, quando se deparou com uma alegoria em referência ao Chico Patuá, personagem do meu livro Cabanagem, publicado em 2020. 

Surpreso, comecei a pesquisar. A alegoria contava toda a história do meu livro: Chico Patuá fugindo dos soldados, o vilão Dom Rodrigo sendo tirado da prisão e perdoado com a condição de que prendesse Chico, as encantarias. 

A descrição da alegoria, na revista do Caprichoso. 


Na semana seguinte, consegui finalmente contato com a diretoria do Caprichoso, que me confirmou que a alegoria foi baseada na minha obra. 

O assunto ganhou grande repercussão na mídia amapaense. O G1 anunciou: "História de escritor do Amapá vira alegoria do 'Boi Caprichoso', tricampeão do Festival de Parintins".

O resumo publicado na contrapa do meu livro Cabanagem. 


Já a manchete da Gazeta do Amapá foi: "Em festival de Parintins, hsitória de escritor do Amapá dá tricampeonato ao Boi Caprichoso. 
O Portal Amazônia colocou a seguinte manchete: "Saiba qual história de escritor do Amapá se tornou alegoria do Boi Caprichoso em 2024".
Também tivemos matéria de TV e na rádio CBN. 
Ao G1, O presidente do Conselho de Artes do Boi Caprichoso, Ericky Nakanome, declarou: "Para gente foi uma alegria imensa receber a ligação dele. Eu acredito que seja a primeira vez que isso aconteça. A gente trabalha com uma referência de quase 200 livros. O livro do Gian foi um achado. A obra aparece na bibliografia como uma das principais e temos o desejo de trazer ele (autor) à Parintins até o final do ano, para lançar o livro aqui com a gente". 
Para quem não conhece, o Festival de Parintins é o mais famoso festival folclórico da Amazônia, sendo transmitido ao vivo para o Amazonas e outros estados. 
Para mim foi uma alegria e honra imensa ver meu livro transposto para o bumbódromo. 

Concepção cognitivista da educação

 


Um dos paradigmas que tiveram grande influência sobre a área da educação é a cognitivista, especialmente de autores como Jean Piaget e Vygotski.
Piaget começou sua carreira trabalhando com dois psicólogos franceses, Binet e Simon, criadores do famoso teste de QI, que mede a inteligência. Analisando as respostas erradas das crianças, ele percebeu que essas respostas eram consideradas erradas por serem analisadas do ponto de vista do adulto. Na verdade, as respostas seguiam uma lógica própria característica de cada idade.
Ponto fundamental da teoria de Piaget é a noção de equilíbrio (chamada de homeostase pela cibernética) segundo a qual todos os organismos, sejam eles uma ameba, uma borboleta ou uma criança procura manter um estado de equilíbrio com seu ambiente.
A construção do conhecimento ocorre quando ações físicas e mentais sobre o objeto provocam desiquilíbrio, que resulta em assimilação ou acomodação. Na assimilação, a realidade do mundo é assimilada às estruturas cognitivas existentes, na acomodação, a estrutura cognitiva é modificada em decorrência das experiências.
Para Piaget, a pessoa passa por fases de desenvolvimento que refletem as fases pelas quais passou a própria humanidade. As fases não são diretamente ligadas a uma idade. É possível que uma criança passe para uma nova fase antes das outras. Mas a seqüência não pode ser pulada.
Na fase sensório-motora, a criança baseia-se exclusivamente nas percepções sensoriais e nos esquemas motores para resolver problemas que são essencialmente práticos: bater em uma bola, pegar um botão, etc.
Presa ao aqui e agora, a criança ainda não tem capacidade de representar eventos, evocar o passado ou se referir ao futuro. Se ela está brincando com uma bola e a bola cai debaixo da coberta, ela deixa de existir. Se a mãe sai de perto do bebê, ele ainda não tem a percepção de que ela irá voltar. Com o tempo a criança começa a perceber que as coisas perduram no tempo e no espaço independente de estarem visíveis ou não e esse tipo de descoberta traz grande prazer à criança. É a fase em que os pais colocam um pano na frente do rosto e depois o descobrem. Ou cobrem um objeto e depois tiram o pano. Essa brincadeira reflete uma mudança na estrutura cognitiva da criança.
Na fase pré-operatória a criança começa a trabalhar com símbolos e representações. Ela compreende que a palavra “papai” se refere a uma pessoa específica e que essa palavra substituí a pessoa real. Nesse período é comum a criança brincar de representação, em que um boneco é tido como um bebê, que come, brinca e faz arte.
É uma fase egocêntrica, em que a criança só consegue analisar os fenômenos tomando a si mesma como referência. O seguinte diálogo é característico dessa idade: “Quantos irmãos você tem?”. “Eu só tenho um irmão”. “E o seu irmão, quantos irmãos ele tem?”. “Nenhum”. O exemplo demonstra que a criança só pode conceber sua família tomando a si mesma como referência.
Embora já seja capaz de trabalhar com signos, a percepção da criança ainda é extremamente dependente da percepção imediata, sofrendo, em decorrência disso, uma série de distorções. A criança não é capaz, por exemplo, de perceber que a massa de uma determinada substância permanece a mesma, independente do formato. Assim, ao fazer uma salsicha com uma massinha, a criança achará que ela tem mais massa que uma bola da mesma substância, pois não é capaz de trabalhar com a reversibilidade, a capacidade de voltar mentalmente a substância ao seu estado anterior. Um outro exemplo seria o caso da água colocada em um copo pequeno, mas largo, passada para um copo estreito, mas alto. A criança nesse estágio acha que houve um aumento da massa.
Na etapa operatório concreta a criança já é capaz de lidar com a reversibilidade e com a lógica, mas ainda depende da percepção do mundo.
Na etapa do operatório formal, que geralmente inicia na adolescência, a pessoa já é capaz de trabalhar com o pensamento puramente abstrato e a utilizar a lógica dedutiva. Na lógica dedutiva, parte-se do todo para a parte. Por exemplo: todas as pessoas que usam uniforme da polícia são policiais. Este homem usa uniforme da polícia, logo este homem é policial. A lógica desse caso funciona por si só.
Na teoria de Piaget, a função da educação é ajudar nesse processo cognitivo. Ao professor cabe oferecer problemas aos alunos, sem ensinar-lhe soluções. Seu papel, essencialmente, é de um orientador. As fases do desenvolvimento do aluno devem ser respeitadas. Não se pode querer, por exemplo, que uma criança de cinco anos seja capaz de trabalhar com o pensamento hipotético-dedutivo.
Vygostski discordou de Piaget ao afirmar que a influência do meio era maior que fatores individuais. Para ele, a criança já nasce num meio social e, desde o nascimento, vai formando sua visão de mundo influenciada pela interação com adultos e crianças mais velhas. Segundo o autor russo, é impossível estabelecer etapas cognitivas que sejam válidas para todas as sociedades. Assim, variando o ambiente social, o desenvolvimento da criança também sofrerá variação.
Cada sociedade fornece aos seus integrantes instrumentos físicos (enxadas, faca, mesa, computadores) e culturais (rituais, valores, costumes, conhecimentos) desenvolvidos pelas gerações anteriores que vão orientar o desenvolvimento cognitivo.
A linguagem e a interação com os mais velhos é essencial nessa abordagem. Pensamento e linguagem são diretamente relacionados. Ao descobrir que todos os objetos têm nomes, a criança verá um objeto desconhecido como algo a ser nomeado e para resolver o problema recorre aos mais velhos. Assim, o processo de desenvolvimento do individuo possui dois níveis. Um, real, corresponde ao que ele pode fazer sozinho, com os conhecimentos já formados. O outro, potencial, refere-se à possibilidade de aprender com indivíduos mais experientes.
Para Vigotski, o aprendizado é o processo de desenvolvimento interno que só ocorre através da interação do indivíduo com o ambiente social no qual vive.

Fundo do báu - Os Simpsons

 

Os Simpsons são o desenho animado de maior longevidade da TV americana. Até o momento são 32 temporadas. A série foi criada de improviso. Matt Groening, o criador, publicava nos jornais a tira Life in Hell (Vida no inferno), protagonizada por dois coelhos.
 A tira chamou atenção dos executivos da Fox, que o contataram para que fizesse animações curtas para o programa The Tracey Ullman Show. Temendo perder os direitos sobre seus personagens, Groening criou uma outra proposta: uma família disfuncional baseada na sua própria família. Ele pegou emprestado o nome dos pais, Homer e Margaret e de suas irmãs mais novas, Lisa e Maggie. O garoto era baseado nele mesmo, mas para que a referência não ficasse óbvia, ele o batizou de Bart. 
 Os simpsons estrearam no programa The Tracey Ullman Show em 1987 e fizeram enorme sucesso. Tanto que três anos depois os executivos da Fox resolveram lhes dar um programa solo, no horário nobre. 
Foi a primeira série da Fox a figurar entre os 30 programas mais assistidos dos EUA. Desde então, produtores e roteiristas foram enriquecendo o universo dos Simpsons, com personagens extremamente carismáticos, como o palhaço Krusty, um apresentador de programas infantis que nos bastidores é mostrado como um bêbado envolvido com a máfia. 
A popularidade junto ao público e crítica é tão grande que a revista Time considerou a série o melhor do século XX.

Atlan – No berço da humanidade

 


Atlan é um dos personagens mais carismáticos da série Perry rhodan, chegando a rivalizar com o próprio protagonista em termos de popularidade.

Assim, não e de espantar que ele ganhasse a própria série, que está sendo publicada como ebook pela editora SSPG.

O primeiro livro, intitulado No berço da humanidade, mostra o herói arconida na Idade da Pedra. Após ver os contemporâneos mortos em Atlândida, Atlan se recolhe a um cúpula no fundo do oceano, mas é acordado quando uma nave se aproxima da Terra. Seu plano é tomar o veículo e usá-lo para voltar para Arcon. Para isso ele conta com a ajuda de caçadores da Idade da Pedra.

A estrutura narrativa criada por Hans Kneif, o autor do volume é inovadora: Atlan está lutando contra a morte no leito de um hospital e rememora fatos do passado. Dessa forma temos um narrador protagonista, algo incomum na série Perry rhodan, caracterizada pelo narrador em terceira pessoa.

O autor também é ótimo em descrições de paisagens, de modo que a Terra da Idade da Pedra se descortina para o leitor, a exemplo do trecho: “Uma manada de cavalos selvagens, atarracados, pardos e castanhos, com longas crinas, movia-se abaixo de mim, do sul para o norte. Muito à frente, algo estava queimando; a fumaça subia diagonalmente. Fiz uma ampla curva larga, desci e uivei trinta metros acima das fogueiras de um bando de caçadores da Idade da Pedra. Por um momento, eu hesitei. O cheiro de carne frita me cativou mais do que eu queria admitir”.

Outro destaque é a boa caracterização dos personagens secundários. À certa altura o robô Rico, que chama Atlan de amo, revela ser capaz até mesmo de sentir saudades, para espanto do arcônida.

Kneif inventa até mesmo uma lenda, narrada pelos caçadores: “Há muito tempo — disse Gard, com os olhos profundos e sérios —, houve uma luta. Uma cobra e um grande pássaro lutaram entre si. Era para decidir se nós, seres humanos, seríamos imortais como a cobra, que muda de pele e vive. Ou como o pássaro, que voa e tem de morrer quando chega seu tempo. — Nós ouvimos calados. — A luta durou muito e foi terrível, do amanhecer ao anoitecer Quando escureceu, o pássaro ganhou e voou para um galho. Desde essa luta, nós, humanos, temos que morrer, caçar e lutar. Nós não somos como a serpente, nós vivemos para a luta e a caça”.

Atlan chega até mesmo a se apaixonar por uma garota da idade das pedras, o que provavelmente desperta sua afeição pela humanidade.

Bem escrito e empolgante, esse primeiro livro abre com mérito a série.

O livro pode ser adquirido na loja da editora SSPG: https://www.perry-rhodan.net.br/loja.

sábado, novembro 07, 2026

Van Gogh – autorretrato de 1889

 


Van Gogh pintou vários autorretratos, mas poucos são tão famosos quanto este, pintado em 1889. O quadro tem todas as características que tornariam o pintor famoso: as pinceladas grossas, as cores vibrantes, mas que chama atenção é o fundo repleto de espirais azuis e verdes, que parece se mover ao olhar do expectador e se misturar com a roupa do artista. Esse quadro atualmente está no Museu D´Orsay, em Paris.

Perry Rhodan – O mundo dos três planetas

 

No volume 38 da série Perry Rhodan, Crest e Thora tentam voltar para Árcon acompanhados dos terranos. Mas quando chegam lá, descobrem que não são bem-vindos e que o império agora é comandado por um robô. Na verdade, eles nem mesmo conseguem chegar à sede do império, ficando presos em um planeta periférico.

No número 39, “O mundo dos três planetas”, Rhodan resolve ir com os arcônidas para Árcon em uma gasela (uma nave menor).

O título é uma referência à característica única de Árcon, um mundo composto por três planetas que compartilham a mesma órbita ao redor do sol – uma demonstração do avanço da tecnologia arcônida. O primeiro mundo é reservado exclusivamente para áreas residenciais. O segundo, para o comércio, indústria e abastecimento alimentar. O terceiro é o planeta da guerra, onde fica a gigantesca frota arcônida.

A passagem do grupo pelo planeta residencial, no qual eles encontram o Imperador (e descobrem que ele não tem poder algum) é um dos momentos mais interessantes do livro ao mostrar a cultura e a arquitetura arcônida. Uma das características desse povo é fugir ao máximo de qualquer coisa que possa lembrar a uniformização. “Nenhum parque se parece com o outro e ninguém criará o mesmo animal doméstico que o vizinho”, explica Thora.

Também é explicado como funcionam as naves esféricas arcônidas, com os jatos montados no anel equatorial.

A capa alemã destacava a gigantesca nave Titã. 


O volume é escrito por K.H. Scheer, um dos melhores autores da franquia, que já demostra sua grande capacidade descritiva logo na primeira página: “Caíram dos céus como um bando de mosquitos gordos e repugnantes. Seus ferrões eram pesados canhões energéticos. As vísceras abrigadas atrás de blindagens resistentes pulsavam num ritmo tão preciso que jamais seria atingido por qualquer combinação orgânica de células vivas”.

O plano de Rhodan e os arcônidas Crest e Thora é temerário: roubar um supercouraçado arcônida, uma nave monstruosa de 1.500 metros. Para isso, eles se fazem passar por voluntários vindos de um dos mundos periféricos do império sob liderança de dois arcônidas da classe superior.  Mas como fazer isso em meio à vigilância do computador regente?

O resultado é uma trama extremamente tensa, repleta de ação militar, no melhor estilo K.H. Scheer.

Uma curiosidade é que o volume traz a atencipação da tecnologia Wi-fi. No caso não para sinal de internet, mas para energia usada pelo  computador que controla as naves arcônidas.

A porta no muro, de HG Wells

 


A fantasia é um gênero que pode gerar desde história do mais puro escapismo até profundas reflexões filosóficas. Nesse último caso se encaixa a noveleta A porta no muro, escrito em 1906 por HG Wells.

Na trama o narrador ouve a história da boca Lionel Wallace, um importante político britânico.

Quando era apenas uma criança, ele se deparara com uma porta verde num muro, entrou e se deparou com um mundo mágico, um jardim que o assombrou pelo resto da vida: "No momento em que entrou, o sentimento foi de uma felicidade intensa… como só acontece em raros momentos e quando se é jovem e cheio de vida e se pode ficar feliz neste mundo. E tudo era lindo lá…".

Nesse mundo de cores espetaculares, de onças inofensivas, o garoto se sente como se estivesse finalmente em casa: “Havia uma sensação clara de volta para o lar na minha mente, e, quando uma garota alta e loura apareceu no caminho e veio falar comigo, sorrindo, e disse ‘E então?’, me pegou no colo, me beijou, me pôs no chão e me pegou pela mão, não houve surpresa, mas só uma impressão de certeza prazerosa, de ser lembrado de coisas felizes que tinham sido, estranhamente, deixadas de lado".

Até aí o texto não traz nada diferente do que estamos acostumados em outros textos de fantasia. O mais interessante é o que vem depois. Wallace passa o resto da vida procurando a porta verde, mas sempre que a encontra há um compromisso, um encontro com um ministro, uma garota, uma lei a ser aprovada.... E ele nunca entra.

Wells traz uma reflexão sobre o perdemos ao sair da infância e sobre como os compromisso da vida adulta podem nos desviar do que é realmente importante.

O texto foi lançado em 2020 como ebook pela editora wish e está disponível na Amazon.

Homem-Aranha – Um cara chamado Joe!

 


A última história desenhada por Steve Ditko foi publicada em The Amazing Spider-man 38 e é uma perfeita demonstração de como o embate do desenhista com o roteirista Stan Lee estava chegando a um ponto crítico.

A história é focada em Joe, um pugilista fracassado a ponto de escorregar e cair fora do ringue durante as lutas. Ele é contratado como ator de um filme de ficção-científica e, enquanto atua destruindo um cenário, um refletor desaba sobre produtos químicos, concedendo ao desconhecido Joe uma força sobre-humana. Mais do que isso, o composto faz com que ele mude de personalidade: “Sempre disseram que eu não sou lutador porque não tenho instinto assassino... Não tenho sangue de lutador! Mas ninguém mais vai repetir isso!”.

O vilão é um pugilista fracassado que ganha poderes. 


Ao sair para a rua, Joe dá de cara com o aranha, que tenta detê-lo e leva uma surra.

Pouco depois vemos a primeira o primeiro ponto de discordância entre Stan Lee e Steve Ditko. Lee queria que o Duende Verde, o mais famoso vilão da franquia fosse Norman Osborn, pai de um dos amigos de Peter Parker. Ditko achava que isso tiraria a verossimilhança da história e defendia que o vilão tinha que ser um desconhecido. Essa foi a gota d´água para que ele saísse da série, sendo essa sua última história.

O pomo da discórdia: Ditko não queria que Osborn fosse o Duende Verde. 


Pois bem, na página 9 Norman Osborn aparece pagando para bandidos se livrem do aracnídeo. A sequência é estranha, como se Ditko pensasse numa coisa e Lee em outra, de modo que desenho e diálogos parecem não se encaixar (na história posterior, já desenhada por John  Romita, Osborn na verdade usa os campangas para lançarem uma substância que tira do herói o seu sentido de aranha).

Mas é na página seguinte que vemos mais claramente a diferença de abordagem. Peter Parker chega ao colégio e dá de cara com uma manifestação. “Outro protesto? O que é dessa vez?”, pergunta. “Estão protestando contra o protesto desta noite”, responde alguém.

Os manifestantes tentam fazer com que Parker pegue uma placa, mas ele se recusa. “Não quer salvar o mundo? E não quer matar aula também?”, pergunta alguém. A sequência inteira era Steve Ditko criticando a juventude norte-americana da década de 1960 – exatamente os jovens que tinham transformado o gibi do aracnídeo num enorme sucesso!

Ditko incluía crítica aos jovens da década de 60 nas histórias. 


Imaginem o desespero de Stan Lee ao colocar texto em sequências com essa, que certamente poderiam impactar nas vendas da revista.

A história tem uma sequência interessante: enquanto enfrenta o adversário, o aranha pergunta diversas vezes o nome dele. Isso poderia ser a deixa para toda uma série de situações de ironias do destino, com o personagem ficando famoso, mas ninguém sabendo seu nome. Mas à essa altura a dupla Ditko – Lee estava tão disfuncional que provavelmente ninguém pensou em aproveitar essa oportunidade narrativa.  

A arte fantástica de Michael C. Hayes

 


Michael C. Hayes é um famoso artista de fantasia conhecido principalmente por suas ilustrações para o jogo de cartas  Magic: The Gathering e para as imagens para o jogo Legends of Norrath. Ele formou em pintura a óleo no prestigiado Watts Atelier of the Arts. Seu trabalho também pode ser visto em inúmeras capas de livros de fantasia.  










Batman: Ano Um – Declaração de Guerra


A imagem de Gotham City como uma metrópole extremamente violenta, opressiva e corrompida — concepção hoje amplamente dominante na cultura pop — foi estabelecida na icônica série Batman: Ano Um, de Frank Miller e David Mazzucchelli, consolidando-se de forma magistral a partir do seu segundo capítulo.

A narrativa já se inicia com uma sequência altamente sintomática: um indivíduo em surto psicológico sequestra duas crianças e ninguém consegue decifrar suas exigências. A equipe da SWAT prepara-se para entrar em ação, uma intervenção que fatalmente provocaria um banho de sangue, de modo que a situação acaba sendo controlada unicamente pelo tenente James Gordon, que avança sozinho e desarmado na direção do sequestrador.

O desenho de Mazzucchelli destaca a sujeira da cidade. 


Frank Miller revela-se um gênio dos roteiros na sequência que traduz o suspense psicológico por meio do texto, sintetizando os pensamentos sufocantes de Gordon: “As escadas rangem demais. O espirro que contive até agora ameaça pôr tudo a perder. Meu nariz escorre. Não tenho coragem de assoar. A menina está chorando”. O impacto dessa série na indústria foi tão avassalador que, a partir de sua publicação, os tradicionais balões de pensamento caíram em desuso na maioria dos quadrinhos de super-heróis, sendo gradativamente substituídos por esses textos-legenda em formato de diário íntimo.

Os balões pensamento são substituídos por legenda em primeira pessoa. 


Contudo, apesar das virtudes literárias do texto, o que realmente magnetiza os olhos do leitor nesta edição é a arte de David Mazzucchelli. Seu estilo minimalista, caracterizado por economia de traços e sombras chapadas, acentua a imundície da cidade — uma prejuízo urbano tão entranhado que nem mesmo a chuva constante é capaz de lavar; ao contrário, parece apenas espalhá-la. Sob o seu pincel, o ambiente projeta-se permanentemente sombrio, decadente e ameaçador.

Gordon salva as meninas e vira herói local. 

Em paralelo, acompanhamos as primeiras incursões do Batman, já paramentado com seu uniforme definitivo, aterrorizando o submundo do crime. Um desses ataques é narrado por meio de um recurso de montagem paralela que evidencia mais uma vez a genialidade dos autores. Enquanto Gordon comanda uma reunião com a corregedoria, a testemunha ouvida é o detetive Flass, o principal contato da máfia infiltrado na polícia. Há um nítido e irônico contraste entre o depoimento falso que ele professa e a realidade crua mostrada nos quadros de recordação.

“Recebi uma informação anônima que me levou até uma entrega de coca. Eu estava efetuando a prisão dos marginais sozinho”, alega Flass em depoimento, enquanto a arte de Mazzucchelli o mostra, na verdade, extorquindo os traficantes e recebendo propina para garantir a segurança do carregamento.

Em constraste com a sujeira de Gothan, o jantar dos poderosos é marcado pelo luxo e limpeza. 

Quando o Batman subitamente ataca o bando de Flass, os quadrinhos são tomados por contrastes expressionistas de luz e sombra, evocando a atmosfera dos melhores filmes noir.

Contudo, a cena mais emblemática deste número reside na opulenta reunião das autoridades municipais corruptas com o chefão do crime organizado, Carmine Falcone. Em contraposição à crueza mostrada até então, esse cenário em particular apresenta-se limpo, fartamente iluminado e luxuoso, estabelecendo um profundo contraste moral e visual com o restante de Gotham. No momento em que o Batman invade o recinto, explodindo a alvenaria e lançando uma bomba de fumaça, a estética do salão se corrompe, tornando-se novamente sombria e claustrofóbica.

Gordon declara guerra aos poderosos: uma das imagens mais icônicas do personagem. 


“Senhoras e senhores. Vocês comeram bem. Comeram a riqueza de Gotham... seu espírito! O banquete acabou! De hoje em diante... nenhum de vocês estará a salvo!”

A imagem do Batman em contraluz, com sua capa desfraldada simulando asas monstruosas e apenas as fendas brancas dos seus olhos destacando-se em meio ao breu, figura com justiça como uma das composições visuais mais poderosas de toda a mitologia do Cavaleiro das Trevas na história da nona arte.

Batman é pego ao salvar uma mendiga. 


Evidentemente, essa audaciosa declaração de guerra transforma o herói na prioridade número um da cúpula política e policial de Gotham. Eles chegam a criar armadilhas nas ruas, utilizando policiais femininas disfarçadas que fingem fugir de estupradores para tentar emboscá-lo. Todavia, o Batman só se expõe ao perigo real quando seu instinto fala mais alto ao salvar uma mendiga de um caminhão desgovernado. Esse ato faz com que ele fique na mira de uma dessas detetives, sendo baleado por ela, o que o força a bater em retirada e se esconder ferido em um prédio abandonado.

O capítulo seguinte, de ritmo eletrizante, seria integralmente focado nos esforços desesperados do herói para subsistir em meio aos escombros desse prédio, lutando isolado contra bombardeios aéreos, desabamentos e o cerco implacável da equipe da SWAT.

Campo do medo

 


 

Campo do medo é uma produção da Netflix lançada em 2019 para aproveitar o dia das bruxas. Dirigido por Vincenzo Natali, é baseado em uma história de Stephen King e seu filho, Joe Hill.

Na história, dois irmãos estão na estrada rumo a San Diego. Becky está grávida e pretende doar o filho para um casal nessa cidade e é acompanhada por seu irmão, Cal.

 No meio do caminho ela necessita parar para vomitar e ouve uma criança implorando por socorro num matagal. Quando entram, descobrem que é impossível sair dali. O matagal é uma espécie de labirinto em que as distâncias mudam de uma hora para outra. Numa das melhores sequências, os irmãos, que se perderam um do outro, resolvem pular para se encontrarem. No primeiro pulo, estão a poucos metros um do outro. No segundo pulo, estão a dezenas de metros. Para piorar, algo parece estar seguindo os dois.

É um plot interessante, que permitiria o desenvolvimento de situações de horror e suspense. A partir de certo ponto, no entanto, há loopings temporais que, embora criem situações interessantes, deixam a história confusa. Além disso, o filme explica demais algumas coisas e deixa de explicar outras. 

Eu não li a obra original de King e Hill, mas conhecendo-os, imagino que deveria haver um profundo desenvolvimento de personagens (King tem uma história maravilhosa sobre uma garotinha perdida numa floresta que segue moldes semelhantes). Aqui, a ênfase na ação deixou essa caracterização para um o outro diálogo.

Ainda assim, O campo do medo é um filme divertido, que vale a pena principalmente por conta da sua primeira parte.

sexta-feira, novembro 06, 2026

O fim da eternidade, de Isaac Asimov

 

Quando pensa em ficção científica, a grande maioria das pessoas costuma lembrar em grandes batalhas espaciais e tramas repletas de ação. Existem obras, no entanto, que se baseiam principalmente nas questões lógicas e científicas relacionadas ao desenvolvimento tecnológico. São obras que têm como principal objetivo desafiar o leitor, estimular sua imaginação e raciocínio. O fim da eternidade, de Isaac Asimov (lançado no Brasil pela editora Aleph), é um ótimo exemplo disso.
Publicado originalmente em 1955, O fim da eternidade trata de viagens no tempo. Mas o enfoque é totalmente original. Imagine se o ser humano, ao descobrir as viagens temporais, não se contentasse em vagar para o passado ou futuro, mas se dedicasse a mudar a história. Pequenas modificações poderiam criar novas realidades, menos danosas ao ser humano. Para isso, é fundada toda uma sociedade de viajantes do tempo, centrada nos observadores, técnicos e computadores (a expressão aqui não é no sentido de pessoas que coordenam todo o processo de mudança da realidade).
Ao contrário do que a maioria das pessoas poderia imaginar, as mudanças na realidade têm como base pequenas, sutis modificações.
Um exemplo:
“Ele havia alterado a realidade. Havia adulterado um mecanismo (a embreagem de um carro) por alguns minutos do século 223 e, como resultado, um jovem não conseguiu assistir a uma palestra sobre mecânica à qual deveria ter comparecido. Nunca estudou engenharia solar e, em consequência, um invento perfeitamente simples teve seu desenvolvimento adiado por dez anos cruciais. Uma guerra no 224, espantosamente, sumiu da realidade como resultado”.
Asimov, muito à frente de seu tempo, antecipa alguns conceitos fundamentais da teoria do caos, como o efeito borboleta, também chamada de dependência sensível das condições iniciais. Esse conceito costuma ser exemplificado com a frase: uma borboleta batendo suas asas na mulhara da China pode provocar uma tempestade em Nova York.
O interessante é que esse fenômeno só foi observado pela primeira vez pelo metereologista Edward Lorenz, em 1963, e só se tornaria popular com o coletivo de sistemas dinâmicos, na década de 1970. Ou seja: Asimov antecipa, na ficção, o que a ciência só viria a observar de fato, quase dez anos depois. Mais, ele lança a ideia, hoje comum nos meios científicos, de que a realidade é feita de diversas bifurcações, pequenas escolhas. Eu vou para o trabalho usando a rua da esquerda ou da direita? O resultado dessa escolha pode provocar grandes alterações na realidade. A cada bifurcação, é como se uma nova realidade estivesse sendo escolhida. Então, o real seria resultado de uma quantidade infinita de bifurcações e, portanto, de uma infinidade de realidades paralelas.
O fim da eternidade, é, portanto, um livro sobre lógica e sobre como o desenvolvimento tecnológico afeta a realidade. O conflito aqui não está na ação, no embate de punhos, mas no embate de ideias, teorias e conceitos. Asimov se aventura até mesmo na teoria da evolução, ao postular que as constantes mudanças na realidade, ao criarem as melhores condições para a humanidade, emperrariam a evolução do ser humano, uma vez que a evolução decorre do ajustamento às situações ambientais desfavoráveis.
Surpreendentemente, o autor consegue transformar essa trama puramente cerebral em um verdadeiro triller de suspense. Passadas as primeiras páginas, dedicadas quase que exclusivamente à descrição da eternidade e seus agentes, o leitor logo se vê em uma trama complexa cheia de reviravoltas.
O fim da eternidade é um daqueles livros que exercitam o cérebro.