quinta-feira, maio 28, 2026

Amapaenses conquistam o troféu Mapinguari

 


Seu nome é Vito Cantuaria. Mas nos meio quadrinístico ele é conhecido como Icehito. Arista e designer da Universidade Estadual do Amapá, Icehito é também o ganhador do troféu Mapinguari na categoria Webquadrinho.

O artista conseguiu essa façanha com sua série Meio Período, que acompanha uma estagiária preguiçosa e esperta que sempre tenta se dar bem, mas acaba quebrando a cara por conta de seus chefes rígidos e de seus colegas excêntricos. “É feita no formato de tiras de quatro quadros fixos, algo feito tanto para acelerar a produção, pela rigidez do layout, quando como desafio pessoal, já que eu sempre peco em fazer histórias curtas, e manter Meio Período como tirinha ajuda a pensar como contar histórias em um espaço tão pequeno”, explica Icehito.



O quadrinista desenha desde criança e começou a se interessar por quadrinhos muito jovem como uma forma acessível de contar histórias. Influenciado pro animes e mangás, ele criou a série baseado nas próprias experiência e na dos colegas durante o estágio na Eletronorte.

As aventuras e desventuras acabaram encantando os jurados o prêmio Mapinguari, o que garantiu a Icehito a premiação na categoria.



“Um amigo meu, Nauta, me falou sobre o prêmio perguntando se eu ia me inscrever e eu disse que não sabia. Fui checar e, por impulso, acabei inscrevendo, mas completamente sem pretensão”, lembra o artista. “E aqui estou eu, podendo dizer que tenho um quadrinho premiado”.

Essa é a segunda vez que o Amapá leva o prêmio Mapinguari na categoria webquadrinhos. Em 2025, Thai Rodrigues foi premiada com a série Os desenhos da Thai.



Biblioteca de zines

Outra premiada com o troféu é Luana Góes. Ela ganhou como melhor subproduto graças à Bibliteca de Zines. A Biblioteca de Zines é uma plataforma código aberto que surge para oferecer um espaço para zines independentes do Brasil de forma digital. O projeto funciona através de um acervo gratuito e digital, com diversas produções disponíveis para leitura.

Idealizadora do projeto, Luana Góes é uma designer e multiartista de Macapá que tem gosto por misturar materiais e mídias para criar arte e narrativas em diferentes formatos, como zines, quadrinhos, ilustrações, pinturas e mais.. Em seu trabalho, explora a cultura, memória, textura, cores e mais do que vê e sente, a partir da sua perspectiva individual e coletiva, também como autista nível 1 de suporte.

“Esse prêmio marca a importância da valorização de projetos independentes, gratuitos e para comunidade”, garante Luana. .”Esse reconhecimento é um marco na nossa história, que mostra que estamos no caminho certo e valida que nosso trabalho tem alcançado lugares que nunca pensamos. Por isso, fiquei muito feliz e grata por todas as pessoas, aos votantes e ao público que abraçou o projeto. Me motiva muito a continuar juntando arte, zines, design e tecnologia em coisas legais, e continuar alcançando novos lugares com essa ideia!”. 

O prêmio

O prêmio Mapinguari foi criado em 2022 e organizado pelo portal Mapingua Nerd com o objetivo de  valorizar e dar visibilidade à produção de HQs no Norte do país, premiando o esforço de artistas independentes e editoras que narram as pluralidades da região.

“Alcançar todos os estados da Região Norte e mobilizar uma centena de artistas mostra que o Prêmio Mapinguari cumpre seu papel de descentralizar a produção nacional e dar voz aos criadores da Amazônia", afirma Sâmela Hidalgo, uma das organizadoras do prêmio.

Demolidor – Profecia

 


O número 215 da revista Daredevil trouxe uma versão curiosa do homem sem medo.

A história inicia com um xamã em frente a uma fogueira, aparentemente invocando algo. Ele diz: “Estas são as palavras dos espíritos de nossos antepassados... dois homens destemidos virão... serão guerreiros e homens da lei! Cem invernos separarão a vinda de cada um deles... mas unidos, eles combaterão a injustiça e devolverão a terra a nosso povo!”.

A splash page inicial é uma obra-prima. 


Da fogueira, sai a imagem de dois heróis. Um deles é o demolidor, o outro é uma figura vestida com uma roupa que lembra o primeiro uniforme do herói, mas com pistolas e chapéu.

A história mostra o cowboy misterioso salvando um garoto indígena, que está sendo atacado por vários cowboys. O garoto explica que os malfeitores estavam atrás de um mapa, que indicava o local onde estaria guardado um documento no qual o presidente dos EUA transformava o local numa reserva indígena. Mas um inescrupuloso empresário quer as terras para si. Quando chegam na cidade, uma surpresa: o garoto é preso pelo xerife acusado de atirar no malfeitor. É nesse ponto que o herói sob a máscara aparece: trata-se do advogado Matt Hawk, que defende o garoto e prova que a versão do fazendeiro é falsa.

A coloração monocromática ajuda a distinguir o passado do presente. 


A história dá um salto e vemos Matta Murdock acordando, o que nos leva a crer que tudo que foi mostrado antes era um sonho.

Em seguida ele é contratado por um empresário que é nada menos que o descendente do vilão do sonho. Mas, ao invés de ajuda-lo, Matt Murdock e o Demolidor irão, na verdade, ajuda a provar que a terra pertence aos índios.

Escrita por Denny O´Neil e desenhada por David Mazzucchelli, a história, intitulada Profecia é uma tremenda sacada.

O Demolidor acorda. Teria sido tudo um sonho? 


Existiu realmente um herói da Marvel chamado Defensor Mascarado que, em sua identidade secreta era advogado e de fato se chamava Matt Hawk.


Criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1948, é muito provável que ele tenha servido de inspiração para a criação do Demolidor. Afinal até os nomes dos alter-egos eram parecidos (Matt Hawk e Matt Murdock). Além disso, o uniforme do herói do faroeste tinha a mesa cor do primeiro uniforme do demolidor: preto e amarelo (embora invertido – no Defensor mascarado o amarelo era um colete).


O Demolidor e o Defensor: uniformes parecidos. 



O roteirista usa isso para criar uma teoria interessante: de que, de alguma forma os dois heróis, Defensor Mascarado e Demolidor, estavam interligados. Talvez um fosse a reencarnação do outro? Ambos são mitos que surgem a partir de algum tipo de inconsciente coletivo junguiano? Pena que isso não foi desenvolvido posteriormente.

Se o roteiro é interessante, o desenho é o que mais chama atenção. Mazzucchelli faz as sequências do passado com um traço repleto de retículas, em sequencias muitas vezes sem quadros, e coloração com tons de amarelo. O resultado é impressionante e diferencia completamente o passado do presente.

No Brasil essa história foi publicada pela editora Abril em Capitão América 90.

O alimento dos deuses

 


O alimento dos deuses é, injustamente, um dos livros menos conhecidos de H. G. Wells.

A trama gira em torno de dois cientistas que elaboram uma fórmula de crescimento (o tal alimento dos deuses) e das consequências dessa descoberta. Inicialmente eles criam uma fazenda modelo, onde pretendem experimentar a fórmula em frangos. Ocorre que os empregados contratados são relapsos, deixam o alimento aberto e a localidade sofre uma infestação de ratos e vespas gigantes, além das próprias galinhas, que se soltam do viveiro e ivadem a cidade.

Esse enredo original é a base de uma infinidade de obras, com destaque para os filmes com animais gigantes e pessoas gigantes e a destruição que eles provocam. Contando que Wells também é o pai das viagens no tempo através de mecanismos e das histórias de invasão alienígena, boa parte da ficção do século XX deriva de sua obra.

Mas O alimento dos deuses vai muito além. Algumas pessoas começam a dar o alimento para os filhos e surge uma geração de gigantes, com aproximadamente 12 metros de altura. É nesse ponto que o livro se torna uma vigorosa crítica social. Wells usa o enredo para refletir como as pessoas reagem ao novo e como o instinto reacionário é baseado no medo daquilo que é diferente.

Esse ponto já é entrevisto no trecho em que o prédio em que mora um dos inventores do alimento é depredado por uma multidão furiosa, mas ganha corpo quando foca nos filhos do alimento, os gigantes e a reação da sociedade a eles. “Reacionário? Quem não seria reacionário?”, diz um personagem à certa altura.

Esse ponto de vista é representado por um vigário de uma pequena localidade: “Pois estavam falando, ele e seu amigo, dos horrores da época, da democracia, da educação secular, dos arranha-céus, dos carros a motor, da invasão americana, da literatura barata popular e do desaparecimento de todo gosto”.

O ódio reacionário volta-se, no livro, contra os filhos do alimento, os gigantes. Ou estes são simplesmente subjugados, como acontece com o jovem Caddles, tornado gigante por conta do alimento levado pela empregada da fazenda, sua tia. Wells dá a entender que o garoto tem inteligência acima do normal, mas esta é sufocada pela situação em que é criado, sob a tirania do Vigário e e de Lady Wondershot. Os que não subjugados são simplesmente vítimas do ódio do normal a tudo que é diferente. “O grosso do povo está conosco. A lei está conosco, a constituição e ordem da sociedade, o espírito das religiões estabelecidas, os costumes e hábitos da sociedade estão conosco”, diz certo personagem.

Nesse sentido, o livro pode ser visto até mesmo como uma metáfora de todas as dificuldades que mentes revolucionárias, mentes que ousam agigantar cima do normal, encontram. Talvez fosse um desabafo do próprio H.G. Wells, ele mesmo um gigante de sua época.

Um lugar silencioso

 

 Todo filme de suspense depende sobremaneira da sonoplastia. Experimente assistir qualquer clássico do gênero sem som e verá o quanto a obra perde em impacto. Mas nenhum outro filme levou a questão da sonoplastia ao nível narrativo como Um lugar silencioso.

Na história, os humanos são perseguidos e mortos por seres praticamente invencíveis (não fica clara a origem deles). Mas as criaturas são cegas, orientando-se apenas pela audição.
Assim, acompanhamos a vida de uma família de sobreviventes e as estratégias usadas por eles para evitar qualquer tipo de barulho que possa aproximar chamar atenção das criaturas. Por essa razão, o silêncio domina quase toda a película – até mesmo os diálogos são em linguagem de sinais. Não há trilha sonora – exceto quando o casal de protagonistas está ouvindo música com fones de ouvido em um breve interlúdio romântico em meio à constante tensão.
O silêncio destaca ainda mais a sonoplastia a ponto do expectador se sentir tenso a qualquer mínimo barulho – e o que faz com que os sustos tenham efeito ainda mais aterrador.
O filme é tenso da primeira à última tomada e quando mal percebemos chegar ao fim tão envolvidos estamos com a história.
PS: Algumas pessoas que leram meu livro O uivo da górgona compararam as duas histórias – no meu livro o som tem papel semelhante, embora ali os monstros sejam os nossos já conhecidos zumbis.

Ajuricaba

 


Ajuricaba foi um líder indígena que, em pleno século XVIII, combateu os portugueses, chegando a dominar a região do Amazonas a ponto de se declarar governador do Rio Negro. Sua importância história é tão grande que sua tribo, os manao, deu origem à capital do Amazonas, Manaus.

É a história desse personagem histórico que Ademar Vieira (roteiro), Jucylande Júnior (desenhos) e Tiê Santos (arte-final) contam no álbum Ajuricaba lançado pelo selo Black Eye em 2020.

O que impressiona na história é a qualidade do roteiro. A história é fluída, magnética, do tipo que só largamos na última das 130 páginas do álbum. Os desenhos, simples, mas expressivos, se destacam principalmente pela força narrativa. É a arte a serviço da história.

Os portugueses faziam incursões pela floresta para escravizar índios. Isso provoca a ira de Ajuricaba. 


E história é o que não falta. A vida de Ajuricaba é interessantíssima. Seu pai, líder dos manaó, era aliado dos portugueses, mas quando vai cobrar destes o fato de terem atacado uma tribo aliada para prender escravos, acabou sendo mortos por esses. Da mesma forma, também filho de Ajuricaba foi morto durante um ataque poruguês – o que levou o herói indígena a sua jornada de vingança e libertação.

O Ajuricaba da história em quadrinho não é apenas um personagem histórico. O roteiro o humaniza, mostrando sua relação meiga com o filho e a esposa e o forte impacto da visão dos índios sendo levado escravizados exercia sobre ele. Além disso, o roteiro explora seu lado de estrategista militar em sequências empolgantes de guerra.

A história humaniza o herói indígena. 


Mas a HQ não o trata apenas como herói. Aspectos controversos do personagem, como o fato dele ter escravizado tribos rivais para trocá-las por armas com os holandese também são mostrados.

Os portugueses empreenderam uma dura repressão, que levou ao extermínio total da tribo manao, de modo que toda a sua cultura e até sua língua se perdeu. Mas Ademar Vieira resgata algumas das poucas palavras das quais sobraram registros para usá-las na história, dando um ar ainda mais verossímil à HQ.

O lado controverso de Ajuricaba também é mostrado. 


Outro acerto foi introduzir uma trama paralela com o garoto Teodósio, um índio cristianizado que era tiranizado por um padre. A última página da história o mostra tirando as roupas europeias e entrando na floresta. Dessa forma, o álbum linka a revolta de Ajurucaba com a revolta liderada por Teodósio, um personagem real.

Ajuricaba é um dos melhores quadrinhos nacionais que li recentemente. O tipo de história que merecia leituras e releituras e por isso mesmo merecia também uma edição especial, com capa dura. Há tantas histórias ruins por aí sendo publicadas em capa dura, papel especial que não valem metade desse álbum nacional.


Onde comprar: 

Manaus-AM @banca_do_largo  @dontpanicgeekshop 


São Paulo-SP @ugra_press  @lojamonstra 


Rio de Janeiro-RJ @lazaruscomicshop 


Curitiba-PR @itibancomicshop 


Belém-PA @kryptonitabelem9

quarta-feira, maio 27, 2026

Valerian: os pássaros do senhor

 


A ficção científica é o gênero perfeito para metáforas sociais. Ao simular locais e tempos distantes, os autores conseguem refletir com perfeição sobre os tempos em que vivemos. Nenhuma série explorou tão bem esses recursos quanto Valerian, de Christin e Meziéres. E um dos álbuns mais felizes nessa representão foi “Os pássaros do mestre’, publicada no volume dois da edição brasileira.
Na história, Valerian e Laureline caem um asteroide. Lá encontram diversas outras naves atraídas pela armadilha. Ao serem socorridos por um barco descobrem o fim de todos os náufragos estelares: tornam-se escravos de uma figura misteriosa chamada O mestre. A população intereira do astro trabalha todo o tempo possível para produzir alimentos para O mestre. De todos os cantos surgem pessoas com frutas, verduras, animais, algas para o mestre. Os esfomeados escravos comem as sobras do mestre.
Valerian e Laureline caem num planeta onde são transformados em escravos. 


Os que ousam desafiar esse estado de coisas são chamados de loucos e apartados dos outros no fundo de um poço.
Claro que Valerian e Laureline não se conformam e vão empreender uma jornada para descobrir quem é o mestre e como derrotá-lo.
Christin e Meziéres misturam essa viva crítica social com uma aventura repleta de ação e de sense of wonder. Uma obra-prima numa série repleta de obras-primas.

O álbum traz uma forte crítica social. 


As críticas, aliás, surgem em diversos momentos, a exemplo da fala final de Laureline. Após derrotar o mestre, ela diz: “Como seu poder se alimenta da resignação dos outros, ele não vai ter nenhuma dificuldade em encontrar lugares onde amem a autoridade! Astucioso, esse glutão!”. De fato, parece que em todos os locais as pessoas estão loucas por encontrarem um mestre, uma autoridade que lhes diga o que fazer. Esse álbum é mais atual do que nunca. 

Garfield e a Jornada do Herói

 


É impressionante como a jornada do herói se tornou uma estrutura narrativa tão onipresente que é usada até mesmo na versão cinematográfica de Garfield, o gato comilão das tiras de jornais.

O filme, dirigido por Mark Dindal mostra Garfield sendo sequestrado por uma inimiga de seu pai. Garfield, na trama, acredita que o pai o abandonou quando ainda era um bebê (a sequência, na qual ele conhece seu tutor, é contada no início da narrativa).

Apesar de toda a relutância inicial, ele é obrigado a embarcar numa missão arriscada: roubar um caminhão de leite como forma de compensar a gata inimiga pelo fato dela ter sido presa.

Nessa jornada, ele encontrará um mentor (um boi apaixonado por uma vaca usada como atração turística na fazenda) e finalmente irá fazer as pazes com o pai.

Toda a estrutura da jornada do herói está ali: o chamado à aventura, a recusa da aventura, o mentor, o ventre da baleia, o encontro com a figura paterna e redenção final, com o personagem trazendo para sua comunidade o resultado de seu aprendizado.

Confesso que estranhei ver essa estrutura em uma história que associo às tiras humorísticas sobre o gato preguiçoso e comilão. Mas parece ter feito sucesso, a julgar pela reação das crianças na sessão.

A arte espetacular de Dave Hoover

 


Dave Hoover foi um ilustrador, animador e quadrinista norte-americano. Ele é mais conhecido nos quadrinhos por seu trabalho nas séries Wanderes (DC) e Capitão América (Marvel). Também desenhou histórias do personagem Tarzan. Uma de suas características mais fortes é a sua haibilidade para desenhar mulheres. 









Super powers 3 - Liga da Justiça

 

Quando a revista da Liga da Justiça chegou ao seu número 200, a DC publicou uma edição especial com mais páginas e uma história completa escrita pelo renomado roteirista Gerry Conway.
Para comemorar, o roteirista bolou uma trama que remetia diretamente à primeira aventura da Liga, quando eles enfrentavam alienígenas que usavam a Terra como arena de guerra para decidir quem governaria seu planeta natal. Na história, os membros clássicos da Liga são vítimas de sugestão hipnótica para reunir os meteoros, liberando novamente os extraterrestres.
Isso, claro, acaba sendo uma desculpa para que os novos membros enfrentem os clássicos, numa história tipicamente Marvel (vale lembrar que Conway foi um dos principais roteiristas da Marvel).
O roteiro é ok, eficiente, embora não se compare a trabalhos melhores de Conway, como Esquadrão Atari. Mas a grande atração da revista é o incrível time de artistas reunidos nesta única edição. A história principal fica por conta de George Perez, mas o time de convidados inclui Jim Amparo, Dick Giordano, Brian Bolland, Carmine Infantino, Joe Kubert. Um verdadeiro show de grandes talentos da DC.

Essa história foi publicada na revista Super-powers 3, da editora Abril, em novembro de 1986. A Abril reduziu a belíssima capa dupla para uma capa simples e tirou o fundo, prejudicando em muito o impacto da capa.

Perry Rhodan – Cilada cósmica

 


O volume 28 da série Perry Rhodan marca a saga da terceira potência contra os saltadores, uma raça de comerciantes predadores, que consideram um direito adquirido o monopólio de todo o comércio efetuado na galáxia. Como os terranos estabeleceram comércio com o sistema vega, entram na mira desse grupo.

Cilada cósmica é um volume de preparação, que apenas coloca as peças no tabuleiro antes de começar o jogo: Perry Rhodan simula o envio de uma mensagem secreta para Vega, mas seu objetivo é descobrir quem é o inimigo secreto que já desapareceu com duas naves da terceira potência. E o cadete Julian Tifflor é o homem que Rhoda é usado como chamariz.

A capa original alemã. 


Como livro de introdução a uma trama maior, torna-lo agradável é uma tarefa ingrata, já que o volume praticamente não apresenta nenhuma ação (só começa a acontecer algo de fato a parti da página 100, de um total de 180). Mas K. H. Scheer se sai bem ao focar sua narrativa no cadete Tifflor. Vale destacar a sequência em que o cadete vai falar com Rhodan. O nervosismo do mesmo torna a cena hilária: “Tiff cambaleou em direção à poltrona. Quando caiu na mesma, o capacete-rádio adquiriu independência, deixando-se levar pela força da gravidade. O impacto produziu um ruído tremendo nos ouvidos de Tiff. Apavorado e preparado para tudo, lançou um olhar para o homem sentado do outro lado da mesa-painel”.

Enigma na Televisão, de Marcos Rey

 


Marcos Rey, antes de se tornar um fenômeno da literatura infantojuvenil, exerceu várias profissões ligadas à escrita, entre elas a de roteirista de novelas e séries (chegando a escrever, por exemplo, para o Sítio do Picapau Amarelo). Ele trouxe essa bagagem da produção audiovisual para o livro O Enigma na Televisão, publicado pela icônica Coleção Vaga-Lume.

Na trama, um assassino misterioso está matando atores da TV Mundial (uma referência direta à Rede Globo). Quando um repórter acredita ter descoberto o padrão dos crimes graças a um livro, ele também é executado. Cabe, então, ao seu irmão mais novo, Ivo, a missão de desmascarar o culpado.

Marcos Rey nitidamente se divertiu ao escrever sobre um ambiente que conhecia tão bem. A obra começa, por exemplo, com uma lista de personagens apresentada como se fosse o elenco de uma novela. Além disso, o texto utiliza uma linguagem "telegráfica", quase como um roteiro, o que confere uma agilidade incrível ao romance. Um exemplo marcante dessa objetividade é o trecho: “Paulo estava sentado diante dum espelho. Às costas, uma enorme e crescente mancha de sangue. Morto”.

O autor também esbanja talento no humor, criando diálogos inusitados como: “Meu coração aguenta. Só tive três enfartes”. Essa comicidade estende-se até os títulos dos capítulos, frequentemente metalinguísticos, como: “Nem eu, que escrevi este livro, esperava por esta”.

O humor, aliás, não serve apenas para entreter, mas como ferramenta de crítica social. Rey inventa uma sociedade conservadora chamada "Sentinelas", cuja líder cronometra beijos na TV com o objetivo de proibir cenas românticas. A passagem em que essa fanática leva sua campanha para as praias, cronometrando o afeto de namorados na areia, é um dos momentos mais hilários e perspicazes da obra.

Foi graças a livros como este que Marcos Rey formou gerações de leitores e consolidou o gênero policial para o público jovem no Brasil.

terça-feira, maio 26, 2026

Condorito

 


Embora seja pouco conhecido no Brasil, Condorito é um dos personagens de histórias em quadrinhos mais populares da América Latina. Criado em 1949, pelo cartunista René Rios, conhecido como Pepo, o personagem surgiu como uma reação ao desenho animado Saludo amigos, que trazia um representante do Brasil (Zé Carioca), um do México (o galo Tribilín) e um dos EUA (o Pato Donald). Indignado por não ver seu país representado na película, Pepo resolveu bolar um personagem que fosse o símbolo do Chile.
Para isso ele se baseou no condor, uma ave símbolo dos andes.
Com o tempo, as aventuras do personagem foram ultrapassando as fronteiras do Chile e se tornaram populares em outros países da América do Sul, como Peru e Argentina. No Chile ainda hoje ele reina sozinho:  suas revistas são mais presentes nas bancas que as dos heróis americanos da Marvel e DC. Nos locais turísticos são vendidos imãs de geladeira com a figura do personagem no seu traje típico, com camisa vermelha (numa referência à camisa da seleção chinela), calça preta de campesino, boina e sandálias.
Condorito vive na cidade fictícia de Pelotillehue (que poderia ser traduzido como lugar de gente tonta).
Uma característica curiosa é que, embora a maioria dos personagens masculinos sejam mostrados de forma caricata, as mulheres jovens são sempre muito belas e atraentes, reflexo do talento de Pepo para desenhar beldades.
A estrutura das histórias é simples, com piadas que raramente ultrapassam uma página (algumas são de meia página) e sem continuidade. Embora haja personagens fixos, eles mudam de uma história para outra. O próprio Condorito sofre grandes transformações de uma tira para outra, em especial com relação às profissões: em algumas é padre, em outras é mecânico, em outras é militar. Em algumas histórias ele é esperto, em outras, atrapalhado ou simplesmente tonto.
Uma característica curiosa é que normalmente as tiras terminam com algum personagem caindo para trás, assustado com a situação cômica – e o desenho mostra apenas seus sapatos, como forma de destacar o humor da cena.

Corra, Lola, corra!

 


Corra, Lola, corra é um filme alemão dirigido por Tom Tykwer cujo roteiro é todo construído a partir de conceitos da teoria do caos.
O princípio básico da teoria do caos é a dependência sensível das condições iniciais. Ou seja, pequenas alterações no início de um processo podem provocar grandes alterações lá na frente. A história é toda construída, nos mínimos detalhes a partir desse conceito.
No filme, Lola entra em uma loja para comprar cigarros e tem sua motoneta roubada. Isso faz com que ela se atrase para um encontro com o namorado, que está transportando dinheiro de um traficante. Esse atraso faz com que ele decida pegar o metrô, onde acaba esquecendo o saco com o dinheiro, que é roubado por um mendigo.
Agora Lola tem 20 minutos para conseguir 100 mil marcos antes que o namorado seja morto. A trama acompanha a correria da personagem tentando resolver a situação: ela quase é atropelada, passa por diversas pessoas (e vemos em flashs como será o futuro de cada uma dessas pessoas).
O plano não dá certo e o filme volta ao início, ao momento em que Lola está recebendo a ligação do namorado.
Esse roteiro em looping permite observar como pequenas alterações vão provocando mudanças: é a mulher que, na versão anterior iria enveredar pela bebedeira e perder o filho e agora ganha na loteria e se torna rica, é o homem que bateu o carro na primeira versão e não bate... a corrida de Lola agora vai provocando alterações por onde passa como se ela fosse um efeito borboleta.
Há um outro filme sobre o assunto, com o título óbvio de Efeito borboleta, mas Corra Lola é muito mais interessante pela complexidade da trama e por mostrar como as alterações vão ocorrendo em diversas escalas (no filme Efeito borboleta as alterações ocorrem de maneira limitada, geralmente centradas no protagonista).
Além disso, a linguagem do filme é caótica, com corte rápidos, misturando cenas live action com animações, flashs fotográficos até jogos eletrônicos.
Corra Lola é um dos melhores exemplos de como teorias científicas podem ser usadas como base para filmes.