domingo, junho 28, 2026
Os incríveis 2
Gonzo!, de Arthur Veríssimo
Sonja – a chave maldita
A mulher hiper-real
Observe a mulher acima. Parece perfeita mais é mais do é isso. É uma mulher hiper-real. Ela não envelhece, não tem rugas, não tem celulite, não tem estrias. Jamais estará doente ou indisposta. Trata-se de uma boneca de silicone. Até há pouco tempo, era uma curiosidade entre pesquisadores de hiper-realidade e pós-humanide, um produto para poucos, caro e difícil de encontrar. Hoje em dia o produto é ainda mais perfeito do que era há alguns poucos anos e pode ser encontrado com facilidade em sites como Ali Express por preços que variam de 2 a 5 mil reais.
A mulher acima é reflexo direto de um mundo hiper-real em que as ficção, coisas criadas pelo homem, parecem mais reais do que sua contrapartes naturais. Sua perfeição levanta questões sobre a que ponto essa hiper-realidade poderá chegar e até que ponto ela já domina nossas vidas.
Alguns poderiam dizer que a boneca tem dois defeitos: não fala e não se move, o que é verdade.
Mas atualmente, programas de Inteligência Artificial já podem ser facilmente encontrados a preços populares em produtos como o Eco Doth, da Amazon, uma caixa de som que não só toca músicas, mas acende luzes, liga a TV e fala com o usuário (experimente dizer que é seu aniversário e ela cantará parabéns para você; experimente dizer que está com saudade e ela responderá: “Vamos matar essa saudade ouvindo um pouco de música?”). Já existem algumas sendo vendidas com essa tecnologia e não falta muito para que ela se popularize e todas as bonecas do tipo tenha esse tipo de tecnologia.
Por outro lado, pesquisadores têm desenvolvido robôs que se movimentam de forma cada vez mais parecida com a de um ser humano. Também não demorará a essa tecnologia ser incorporada a essas bonecas.
Quando tais bonecas tiverem inteligência artificial e forem capazes de se movimentarem, será difícil distingui-las de um ser humano, exceto por um fato: elas serão mais perfeitas do que qualquer ser humano jamais será.
O seriado pastelão da Mulher Maravilha
seriado tinha pegada de humor pastelão, com a Mulher Maravilha se olhando no espelho por longos minutos antes de entrar em ação ou tendo que discutir com sua mãe, que não quer deixar a heroina sair de casa. Confira a cena resgatada pelos fãs.
Mister No – Amazônia
Embora tenhamos conhecido o personagem Mister No na primeira revista do personagem, só vamos conhecer de fato a filosofia da série a segunda aventura, Amazônia.
Na história, o filho de um magnata que desapareceu próximo a uma tribo indígena resolve procurar o pai. Mas a única pessoa que aceita levá-lo ao local é Mister No.
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| Mister No é o único que aceita acompanhar o rapaz na busca pelo milionário. |
Sérgio Bonelli, o roteirista, de fato visitou Manaus e conhecia a Amazônia, o que se revela em pequenos detalhes. À certa altura, Mister No fala que precisa de dinheiro para resgatar seu “voador”, deixado como garantia de uma dívida de jogo. O rapaz acha que se trata de um avião, mas na verdade, o voador é um bar com motor de popa. “Meu pipper não serviria para esta ocasião. Naquela área não há uma única pista onde pousar!”. De fato, na Amazônia há muitos locais em só é possível chegar pela água, tanto que uma música famosa aqui na região diz: “Esse rio é minha rua”.
Outra curiosidade é que, à certa altura, eles vão parar num bar na beira-rio e o local começa a pegar fogo. Para que o fogo não se alastre para outros locais, Mister No corta a corda que prende a casa às outras. Parece invenção, mas existiu realmente um bairro flutuante em Manaus.
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| Sérgio Bonelli aproveita na HQ um fato real: o bairro flutuante em Manaus. |
Os perigos enfrentados pela dupla vão da formigas-de-fogo a jacarés. Mas o principal perigo é mesmo o homem, entre eles uma dupla que parece ter sido responsável pela morte do empresário, já que um deles é encontrado com o relógio do mesmo.
Apesar de toda ação e de todos os embates, descobrimos que Mister No é um pacifista, uma postura que ele provavelmente adquiriu durante a guerra. “Eu me mostrei tão bom em matar japoneses na primeira, que meu governo não pensou duas vezes em me mandar matar coreanos”. A sequência inteira é, nitidamente, um discurso do roteirista contra as guerras.
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| Formigas de fogo e jacarés: os perigos da selva. |
Posteriormente, quando a dupla encontra um personagem que está vivendo entre os indígenas, temos uma outra parcela da ideologia da série: a da vida na selva em oposição à vida civilizada. Até então nos quadrinhos, os personagens brancos sempre eram o que ensinavam tudo aos povos “Incivilizados”, mas aqui ocorre o oposto: “O fato é que desde que vivo com eles entendi muitas coisas que me ensinaram a respeitá-los... aliás, a amá-los”. O personagem sente-se tão feliz ali que não quer voltar para a “civilização”.
Essa sequência quebra também com a imagem estereotipada dos povos indígenas como ameaças terríveis: “Infelizmente esta pobre gente aprendeu à sua própria custa a ter de se defender dos homens brancos”, diz o personagem.
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| Discurso pacifista. |
Para quem ficou curioso sobre a cidade flutuante, este é um ótimo texto: https://idd.org.br/reportagens/exotica-cidade-flutuante-de-manaus2/
sábado, junho 27, 2026
De porta em porta
De porta em porta é um filme de 2002 dirigido por Steven Schachter com William H. Macy no papel principal.
A película conta a emocionante história de um rapaz, Bill Porter, vítima de paralisia cerebral que decide ser vendendor. Como o gerente não quer contratá-lo, ele pede a pior rota, aquela que nem um outro vendedor quer. Com persistência e paciência, ele não só consegue vender produtos, como ganha a amizade e confiança de todo o bairro.
Um belo filme sobre superação de limites, indicado especialmente para profissionais de marketing. Bill mostra que ninguém vende produtos. Ninguém nunca comprou um sabão ou um amaciante. As pessoas compram a satisfação de suas necessidades... e muitas vezes é uma necessidade mais psicológica que física... a necessidade de ser escutado, de ter alguém que o compreende.
A grande lição do filme: no marketing, geralmente valem mais a percepção e os sentimentos que as qualidades físicas dos produtos.
Angélica acorrentada, de Ingres
Quarteto Fantástico contra os Srkulls
No número dois da revista do Quarteto Fantástico o grupo ainda não usava uniforme e personagens como o Coisa e o Tocha Humana ainda não tinham a aparência definitiva. Apesar disso, ficava muito claro que a publicação era algo revolucionário.
A trama era recauchutada dos quadrinhos de ficção científica da Atlas da década de 1950 sobre invasões alienígenas. Na história, uma nave Skrull (na primeira aparição desse povo no universo Marvel) está próximo à terra, mas antes de começar a invasão, envia ao planeta quatro de seu povo para cometerem crimes se fazendo passar pelo Quarteto Fantástico e assim forçar a prisão do grupo, o que facilitaria a invasão.
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| Os skrulls cometem crimes se fazendo passar pelo Quarteto... |
Assim, o Coisa destrói uma plataforma marinha, a Mulher Invisível rouba uma jóia, o Tocha destrói um monumento e o Senhor Fantástico desliga a energia da cidade.
A reação dos originais é algo totalmente impensável para os heróis da época.
O Coisa fica furioso pela polícia estar caçando eles com se fossem monstros: “Talvez eles estejam certos! Talvez eu seja um monstro! Eu pareço um... e às vezes me sinto um! Mas ninguém vai me pegar sem luta! Se eles dizem que sou uma ameaça, então serei uma!”, diz ele enquanto joga a cabeça empalhada de um urso pela janela de vidro. Alguém consegue imaginar o o Super-homem da era de prata dizendo algo parecido?
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| ... e o Coisa não gostou nada disso. |
Jack Kirby ainda não usava os esquema dos seis quadros (uma página chega a ter 11 quadrinhos!!!) e Stan Lee extrapolava no texto, mas mesmo assim era possível perceber que a dinâmica da dupla criativa refletiva a dinâmica dos personagens: pessoas muito diferentes, mas que funcionavam muito bem juntas. Aliás, um recurso muito usado por eles, que infelizmente caiu em desuso, foi dividir a história em capítulos, de modo que a cada seis ou oito páginas temos uma página de impacto.
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| Não dá para respeitar vilões se usam uniformes parecidos com pijamas. |
Em tempo: nessa história os Skrulls usam uniformes ridículos, que parecem pijamas, com uma gola estrelada e capuz que deixa apenas o rosto e as orelhas enormes do lado de fora. Com o tempo esses personagens ganhariam um pouco mais de dignidade.
A enigmática arte de Escher
Escher foi um artista gráfico holandês especializado em gravuras. Suas imagens desafiavam o olhar com figuras impossíveis ou simplesmente inusitadas. Também gostava de fazer imagens que realizavam transformações geométricas ((isometrias). É um dos mais importantes artistas visuais do século XX.
Bojeffries: a saga, de Alan Moore
Alan Moore não é só um dos melhores – senão o melhor – roteiristas vivos, como é também um dos mais ecléticos. Ele fez horror (Monstro do Pântano), super-heróis (Superman, 1963), ficção-científica (A balada de Halo Jones). Bojeffries: a saga, lançado recentemente pela Devir oferece mais uma face do mago inglês: o humor.
A trama se desenvolve em torno da família Bojeffries, “uma mistura de Família Adams com Monstro com elementos lovecraftianos”, como definie Alexandre Callari na introdução do volume.
É uma família totalmente disfuncional, composta por um lobisomem, um vampiro, um vovô monstro lovecrafiatiano, um bebê capaz de gerar energia termonuclear suficiente para iluminar toda a Inglaterra e dois adolescentes: Reth e Ginda . Ginda é capaz de transformar um bombom de chocolate num diamante e comê-lo e por isso acredita que os homens ficam intimidados ao conhecer alguém poderosa.
Bojeffries: a saga é Alan Moore transportando o humor típico de grupos como o Monty Phyton para os quadrinhos numa história com toques de terror e fortes críticas sociais.
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| A primeira história é centrada num cobrador de impostos. |
A primeira história, por exemplo, é sobre o cobrador de alugueis sociais que passa suas horas de folga lendo relatórios de alugueis atrasados. Ele descobre que a família Bojeffries não paga aluguel desde o século XIX e resolve cobrar os alugueis atrasados. É uma estratégia para apresentar os personagens, a ambientação e, ao mesmo tempo, fazer uma ácida crítica à burocracia inglesa. Junte a isso várias gags que se repetirão ao longo do álbum, como a mania do tio Raoul de comer cachorros.
Mas os melhores capítulos são aqueles focados nos personagens, como “A noite de folga do tio Raoul”, em que o personagem participa de uma festa da empresa e se transforma em lobisomem no meio da comemoração (um episódio com forte crítica social). Ou “festus: madrugada dos mortos”, em que o tio vampiro acorda pouco antes do nascer do sol e precisa comprar sangue de soja antes que o sol surja. Mas em seu caminho há todo tipo de obstáculos, como pãezinhos de sexta-feira santa, pessoas carregando clavas de madeira e entregadores de jornais que decidem puxar conversa. É um capítulo de puro humor visual.
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| Tio Raoul trabalha numa fábrica. |
Mas, em termos de humor, o melhor conto talvez seja “Sexo com Ginda Bojeffries”. O capítulo já começa com uma tremenda inversão de papéis, quando Ginda passa por uma obra e começa a assediar os pedreiros. “Isso é tão degradante! Quer dizer, sou um ser humano... tenho sentimentos e ambições, tenho diploma de pedreiro. Mas para ela eu não passo de um par de nádegas durinhas dentro de um jeans apertado”, reclama um pedreiro enquanto a garota grita: “Qual é, lorinho?! Mostra essa sua ferramenta do amor!”.
Os exemplos mostram o tipo de humor usado por Moore na obra: irônico, inteligente, inquietante e sutil.
Essas histórias começaram a ser publicadas em 1983 na revista Warrior. Depois a saga passou por várias outras publicações até serem finalmente reunidas em álbum.
É uma leitura divertida e obrigatória para os fãs de Moore e de humor ácido, mas tem um problema: fica a impressão de que havia muito mais a ser explorado na família.
Zona Morta, de Stephen King
Zona Morta, publicado em 1979, é certamente um dos
romances mais relevantes e bem-acabados de Stephen King. Na trama, o
protagonista sofre um grave acidente de carro e, ao despertar, descobre ter
adquirido poderes de clarividência e precognição, ativados pelo toque em
objetos ou pessoas.
A maestria de King reside na forma como ele constrói um
universo e um personagem inteiramente críveis antes de introduzir o elemento
fantástico. Um exemplo dessa destreza narrativa é o capítulo de abertura, no
qual Johnny Smith visita uma feira com sua namorada, Sarah. O texto apresenta
uma situação prosaica — um casal se divertindo —, mas, simultaneamente,
instaura uma tensão palpável de que algo terrível está prestes a ocorrer. Esse
presságio é estabelecido logo no primeiro parágrafo:
“As duas coisas de que Sarah se lembrou mais tarde, sobre
aquela noite, foram a sorte dele na roda da fortuna e a máscara. Mas, com o
passar dos anos, era na máscara que ela pensava... quando conseguia forçar-se a
pensar naquela noite horrível.”
King estica ao máximo o fio do suspense; o evento
catastrófico, embora constantemente antecipado, é adiado, permitindo que o
leitor sinta um alívio momentâneo apenas para ser envolvido em uma nova
sequência de tensão... até o fatídico acidente.
Toda a fase da fisioterapia e recuperação é narrada com
detalhes que ampliam a verossimilhança. A paranormalidade é inserida
gradualmente, como no momento em que John prevê o incêndio na casa de sua
fisioterapeuta. Essa estratégia de ancorar o absurdo no realismo cotidiano
tornou-se uma marca registrada do autor, repetida em obras posteriores como O
Cemitério.
É provável que King tenha se inspirado na Síndrome de Savant
Adquirida, na qual pessoas que sobrevivem a traumas cerebrais ou comas
despertam com habilidades extraordinárias. Ele parece ter partido da premissa: “E
se alguém pudesse prever que um político de uma pequena cidade se tornaria
presidente e levaria o mundo a uma guerra nuclear?”. No fundo, o livro é
uma atualização do dilema ético clássico: “O que você faria se pudesse
voltar no tempo e matar Hitler?”.
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| O filme foi adaptado para o cinema por David Cronenberg, em 1983. |
O "herói" da história, contudo, é um homem
atormentado por seu dom, o que facilita a identificação do leitor. Johnny não é
um super-homem, mas uma vítima da própria percepção.
A capacidade de King em tornar interessantes até os momentos
mais triviais é comprovada pela minha própria memória afetiva. Desde que li o
livro, no início dos anos 90, duas passagens ficaram gravadas: a espiral de
loucura da mãe de Johnny, que se afunda em seitas religiosas, e a "lição
de leitura", quando Smith ajuda o filho de um magnata a superar a fobia de
livros. No primeiro caso, o autor cunha uma frase que resume sua visão cética
da fé institucionalizada: “Deus age pelas mãos dos homens”. Na segunda situação,
surpreende a habilidade do autor em empolgar o leitor e fazê-lo torcer
fervorosamente por um rapaz que simplesmente tenta ler um parágrafo.
Em tempo: Naquela mesma década de 90, enquanto eu lia A
Zona Morta, uma amiga comentou que "toda leitura era válida, até mesmo
aquilo que eu estava lendo". O comentário ilustra bem como King era
subestimado na época. Não por acaso, minha edição era popular, de banca,
impressa em papel jornal, o que lhe conferia um ar de
"subliteratura".
Hoje, os livros de King ganham edições de luxo em capa dura
e ele é reverenciado como um dos grandes mestres da narrativa contemporânea.
Isso demonstra não apenas que as novas gerações souberam valorizar sua técnica
literária, mas também o quanto o formato da mensagem influencia a percepção de
valor da obra pelo público.
sexta-feira, junho 26, 2026
Cabanagem: uma continuação da Revolução Francesa
A terrível vida real de Tom Strong
A terrível vida real de Tom Strong é o primeiro volume da série lançada pela Panini escrita e desenhada exclusivamente por convidados. Escritores e artistas receberam uma tarefa inglória: igualar a fase de Alan Moore, explorando aspectos ainda não explorados na série.
O resultado é irregular.
No geral, as histórias seguem uma média. Mas dois se destacam, por motivos diversos.
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| Ed Brubaker imagina uma realidade na qual Tom Strong não é um herói. |
Steve Aylett e Shawn McManus fazem a pior história da revista. Mal-ajambrada, muitas vezes sem sentido e distantes da proposta do personagem. Personagens irreais surgem do nada e não há preocupação em se criar verossimilhança para eles. Parece alguém tentando imitar Grant Morrison na Patrulha do Destino, mas com o personagem errado.
O melhor exemplo é a história que dá título ao volume, escrita por Ed Brubaker e com desenhos Ducan Fegredo. Nela, usando um artefato maia, um vilão consegue criar uma realidade em que Tom Strong não existe - e o herói se torna um simples operário em um mundo decadente, sujo, repleto de políticos corruptos. É o tipo de história que se encaixa no personagem e a sacada irônica do final é realmente genial.


































