sexta-feira, setembro 18, 2026

Jonah Hex – Promessa a uma princesa

 


Embora fosse uma série essencialmente pessimista, Jonah Hex tinha seus momentos de ternura, a exemplo da história “Promessa a uma princesa”, publicada em Weird Western Tales 12.

Essa história, uma das mais críticas de uma série repleta de críticas sociais, começa com Hex no saloon comendo quando chegam dois homens dispostos a matá-lo. Ambos são imediatamente mortos antes mesmo que possam pegar suas armas.

A sequência é irônica: os ditos homens civilizados agem como marginais. 


Na página seguinte vemos o povo da cidade revoltado: “Aquele louco do Jonah Hex não tá na cidade nem há uma hora e já despachou dois. Vamos deixar que ele continue?”. “Sr. Craig tem razão! Não temos xerife e nós vamos cuidar desse selvagem incivilizado!”. Toda a sequência é repleta de ironia. Os cidadãos de bem afirmam que Hex não está preparado para viver entre pessoas que obedecem a lei... enquanto se preparam para enforcá-lo sem julgamento!

Mas antes que os cidadãos de bem invadam o salão, Hex foge pelos fundos. Quando o vemos de novo, ele está tomando banho num rio quando é surpreendido por uma menina índia, a Pequena Corça, que pega seu revólver e o “Leva como prisioneiro” para a tribo. No meio do caminho, eles atravessam uma ponte que desaba é a vez do cowboy salvar a menina e levá-la para a aldeia. 

Um fato histórico aparece na história: cobertores contaminados com varíola foram usados como guerra biológica contra os índios. 


Nesse ponto, o roteirista John Albano traz um fato histórico real: Hex encontra a aldeia com vários guerreiros mortos, vítimas de varíola. Os homens brancos haviam dado cobertores contaminados como forma de exterminar os índios, como de fato aconteceu na história dos EUA. A Pequena Corça acaba também adoecendo e o anti-herói precisa encontrar um médico para ela.

Uma das sequências da história é exemplar ao mostrar o quanto essa série se diferenciava de outros gibis de faroeste: Jonah Hex avança atirando na direção dos homens brancos enquanto grita: “Vamo, bando de *%*! Heróis da civilização... vô dá um pouco de ação pra vocês!”.

A comédia dos pecados

 


A comédia dos pecados, filme de Jeff Baena de 2017, é uma adaptação de um dos contos de Decamerão, livro de Boccaccio escrito no final da Idade Média.

Na história original, um rapaz chamado Masetto fige ser surdo e mudo para se tornar hortelão de um convento e torna-se alvo da paixão das freiras. No conto, o humor surge do fato das mulheres acharem que ele é um idiota e não percebe o que está acontecendo mesmo quando chegam às vias de fato (o que, evidentemente, é uma estratégia dele).

O conto tem apenas cinco páginas. Como adaptar isso para  um filme?

A estratégia de Baema foi manter apenas a base do texto de Boccaccio (um homem que se finge de surdo-mudo para trabalhar em um convento e passar a ser disputado pelas freiras) e acrescentar um contexto maior. Essa estratégia envolveu um método pouco ortodoxo: o roteiro não tinha diálogos, apenas descrição das cenas, de modo que os atores deveriam improvisar as falas.

Na história, Masetto é um criado de um castelo e tem um caso com a esposa do senhor. Quando este descobre, Masetto é jurado de morte e, para não ser morto, esconde-se no convento com a conveniência do Padre local. O jardineiro anterior havia pedido demissão depois de ter sido agredido e ofendido pelas freiras histéricas, assim a chegada de Masetto é bem vinda.

Acontece que a maioria das freiras não está ali por vocação, mas obrigadas pelas famílias, e estão com os hormônios à flor da pele (o que explica a forma violenta com que elas tratavam o jardineiro). Quando o belo rapaz assume o serviço, a violência dá lugar à paixão e Alessandra (Alison Brie), Fernanda (Aubrey Plaza) e Ginevra (Kate Micucci) disputam Masetto, cada uma à sua maneira.

Há ainda uma história paralela envolvendo uma mula, que no final cruza-se com a história principal num final tão caótico quando engraçado.

Não espere gargalhar com A comédia dos pecados. O humor surge de pequenos detalhes e muitas vezes é sutil. A estratégia de deixar que os atores improvisassem os diálogos ajuda nesse sentido.

Lançado em 2017, o filme foi praticamente ignorado à época, mas agora, com o lançamento na Netflix, foi redescoberto e chegou a ficar entre os mais assistidos da plataforma.

Buddy Longway – Sozinho

 


O quarto álbum da série Buddy Longway é um ponto fora da curva. Enquanto os outros são focados na família Longway (algo incomum no faroeste), este tem como personagem apenas Buddy.

Buddy está indo comercializar suas peles quando, ao passar por um despenhadeiro, pedras se soltam e o atingem. Ele cai do penhasco e quebra a perna, em um local totalmente deserto. Sobreviver a essa situação extrema é o desafio apresentado pela trama.

Buddy sofre um acidente no meio do deserto. 


Esse álbum se diferencia também por ser o primeiro em que a narrativa é não linear. A história começa com o acidente e só depois vemos a despedida do herói de sua esposa e de seu filho, uma estratégia de Derib para tornar a leitura mais interessante.

Contar uma história toda focada em um personagem sozinho é um desafio, mas se bem contada pode ser fascinante. Esse é o caso. Derib sabe explorar as situações desesperadoras do personagem e as formas extremas como ele consegue se sair delas.

Para sobreviver ele adota medidas extremas, como matar e comer um abutre. 


Por exemplo, ao perceber que iria morrer de fome, ele finge de morto para que os abutres se aproximem e mata um deles para devorar sua carne.

Sem arroubos estilísticos, quase como se estivesse apenas narrando um causo, o álbum se torna uma leitura hipnótica. Nós nos desesperamos com a situação do carismático personagem e torcemos por ele.

Fundo do baú - Brave Star

 


Se há um desenho animado que soube explorar a associação entre a ficção científica e o velho Oeste, foi Brave Star.

Lançado em 1987, o desenho se passava no planeta Novo Texas, no século XXII. Brave Star, o xerife do local,  é um índio americano que protege o local usando os poderes dos “animais-espíritos”: Olhos de Falcão; os ouvidos de Lobo; a força do Urso e a velocidade do Puma. O seu companheiro é um cavalo cibernético que, quando não está transportando o xerife, fica sob duas patas, fala e atira com uma arma de energia. No original o cavalo se chamava Thirty e a arma Sarah Jane. No Brasil o nome do cavalo foi traduzido como Furacão e sua arma como Trabuco.

Último desenho produzido pela Filmation, a atração se destacava principalmente pelos cenários, que remetiam diretamente aos melhores ilustradores de ficção-científica. Se os cenários eram reproduzidos com técnica realista, os personagens, com exceção do protagonista, eram no geral caricatos. A história era bem escrita, com bom aproveitamento do cenário de faroeste sci-fi.

O personagem só teve uma temporada, com 65 episódios, apesar do sucesso. A razão foi o fechamento da produtora Filmation.

No Brasil o herói fez tanto sucesso que ganhou um gibi, publicado pela editora Abril. No começo a revista publicava material da revista italiana Masters of The Universe e Il Team Dell´avventura, mas a partir do número 3 começou a publicar HQs produzidas no Brasil, pela equipe da Abril. Até mesmo Mozart Couto chegou a desenhar histórias.

Desespero, de Stephen King

 

Acabei de ler Desespero, de Stephen King. Não é o melhor do mestre, mas King, mesmo que quando é ruim, é muito melhor que a maioria dos escritores comerciais.
A trajetória desse autor é interessante: na década de 1970 ele escreveu alguns romances bons, como O Iluminado, Zona Morta e Carrie. Essa fase terror teve seu auge no livro Cemitério, que provavelmente é o livro mais apavorante já escrito. Mas o auge mesmo foi no início dos anos 1990, com o livro Corredor da Morte, hoje chamado de À espera de um milagre por causa do filme, um belo livro cujos elementos fantásticos só servem para destacar a humanidade dos personagens.
Dali em diante, ele parece estar pendendo mais e mais para a fantasia e perdeu muito do charme que tinha antes. Seu enredos se tornaram fantasiosos demais, no meu entender. O que poderia ser uma história de violência doméstica com toques de terror, em Insônia, vira uma batalha campal entre o bem e o mau.
Desespero segue essa linha mais fantasiosa, em que o fantástico toma mais espaço que a caracterização dos personagens (o que dificulta ao leitor criar empatia com os mesmos). Mas ainda assim é um livro gostoso de ler. Impossível de parar de ler parece ser um adjetivo que foi grudado na testa de King e esse livro não foge à regra.
Desespero é uma pequena cidade mineira nos EUA. Quando um casal passa por um placa onde há um gato morto pregado, esse é apenas o prenúncio que virá. Eles são em seguida parados por um policial imenso, que mata o homem e prende a mulher. Para quem começa a ler, parece apenas uma história de psicopata, mas depois se percebe que há muito mais coisas em jogo, com entidades ancestrais e malignas envolvidas. A narrativa vai retornando no tempo e contando a história de todas as outras pessoas que estão presas com Mary. Entres eles a família Carver, cujo garoto David é o personagem mais consistente de todo o livro, embora seja também o mais fantástico. David encontrou Deus ao rezar para um colega que sofreu um acidente, e esse encontro vai ser fundamental na trama.

Desespero não é só um livro de terror, é também uma obra sobre crença e descrença, sobre como as pessoas deixaram de acreditar em algo maior e o vazio que isso deixou em suas vidas.

Mesmo quando escreve algo puramente comercial, King ainda tem algo a dizer.

Capitão América – Motim no pavilhão 10

 



A história do Capitão América publicada em Tales of Suspense 62 começa com uma cena impressionante do personagem pulando sobre vários malfeitores e desviando das balas, uma daquelas splash pages impressionante de Jack Kirby.
Capitão, você precisa parar de se meter nessas roubadas. 


Na trama, o herói é chamado para uma penitenciária a pedido do diretor da prisão para demonstrar como se defenderia caso os prisioneiros fugissem. Não faz o menor sentido.
Na verdade, isso é uma estratégia de um dos prisioneiros, Deacon, que aprisionou o diretor da prisão, mas não consegue fugir pois é necessário passar por um portão blindado que opera por magnetismo. A ideia deles é usar o escudo do Capitão para abrir o portão, já que, segundo notícias, Tony Stark instalou um equipamento magnético no escudo.
Uma aula de narrativa. 


Alguém precisa dizer para o Capitão parar de se meter nessas roubadas, mas provavelmente a história deve ter surgido de uma imagem ou de uma ideia de Kirby. Imagino o diálogo:
Jack Kirby: Estou com vontade de fazer uma história com o Capitão enfrentando bandidos numa prisão.
Stan Lee: Tudo bem, faça aí, eu dou um jeito de justificar isso.
A história em si não faz muito sentido, pois, se o Capitão entrou na prisão, ele entrou pelo portão blindado e não teria como ele surpreender ao descobrir no final, como mecanismo funciona.
Entre mortos e feridos, salva-se uma história que é pura ação, com cenas divertidas e verdadeiras aulas de narrativa visual – em uma sequência, por exemplo, o herói joga seu escudo e vemos apenas bonés, sapatos, armas usadas pelos presos, voando pelo espaço em meio às linhas de ação. 

quinta-feira, setembro 17, 2026

Quarteto Fantástico: Os amigos de Wendy

 



Em 1987 a revista do Capitão América completou 100 números e para comemorar a editora Abril fez uma edição especial, de 160 páginas, com histórias clássicas e modernas dos personagens da Marvel. Ironia das ironias, a revista só não tinha histórias do herói do título. Ainda assim, foi uma seleção única, digna de constar em qualquer coleção.
A história do Quarteto Fantástico incluída no volume é um conto que mistura terror, fantasia e ternura infantil chamado “Os amigos de Wendy”, escrita e desenhada por John Byrne.
Na HQ uma jovem desconhecida visita o prédio do Quarteto e, para espanto geral, descobre-se que a é Tia Petúnia, do qual o Coisa tanto fala. Ela leva o Quarteto para uma pequena cidade no Arizona onde estão acontecendo mortes misteriosas: os cadáveres são encontrados com expressões de terror no rosto. De alguma forma a trama toda parece estar relacionada a uma menina, Wendy, vítima de violência doméstica.

A história tem as qualidades e defeitos de uma história John Byrne: boas ideias com um ótimo desenho, mas pouco aprofundamento da trama e dos personagens.
A HQ falha em mostrar o que realmente acontece no clímax da história, tanto que o Senhor Fantástico é obrigado a explicar, num tremendo bife de roteiro. Além disso, a própria Wendy não é tão bem explorada.
Histórias como essa mostram porque a parceria John Byrne e Chris Claremont funcionava tão bem: um entrava com boas ideias, o outro entrava com o aprofundamento das mesmas.

Coringa - mergulho em uma mente ensandecida

 


Coringa é um filme perturbador. Um mergulho profundo na mente do mais perigoso vilão de Gothan.
Alan Moore já havia introduzido a ideia de que a personalidade louca havia surgido após um dia difícil. Frank Miller havia sugerido que ele era tão perigoso justamente por ser imprevisível: ao contrário de outros vilões que querem dinheiro ou poder, o Coringa só quer o caos.
Mas nenhum dois aprofundou tanto o  personagem quanto o diretor Todd Phillips.
O diretor explora o processo de transformação de Arthur Fleck, um palhaço e humorista fracassado  que aos poucos se torna um louco e imprevisível assassino.
E esse processo é um acúmulo de acertos, a começar pela ambientação nos anos 1970, que ecoa diretamente a Nova York de Taxi Drive, de Martin Scorsese. Mas Gothan do filme é uma uma Nova York ampliada à quinta potência. Uma greve de lixeiros faz com que o lixo se espalhe pelas ruas, a economia está em frangalhos, uma revolta está prestes a eclodir.
Nessa panela de pressão, o programa de maior audiência é um talk show apresentado por Murray Franklin, interpretado por Robert De Niro. A referência é óbvia: na década de 1970, De Niro fez o papel de um comediante fracasso que sequestra Jerry Lewis para aparecer em seu programa.    
Há diversas outras referências: o visual final do personagem é parcialmente inspirado na maquiagem de John Wayne Gacy, o palhaço psicopata, que quando não estava matando garotos, estava se apresentando para crianças em um hospital infantil (em uma das cenas Arthur Fleck  também se apresenta em um hospital infantil). Há, óbvio, a referência à Piada Mortal, de Alan Moore e o conceito de que o vilão era inicialmente um humorista fracassado que só conseguia fazer a esposa rir (mas o filme eleva ainda mais o nível de tensão ao mostrar qual é a verdadeira natureza da relação entre Fleck e sua namorada).
Outro grande acerto é conectar a origem do Coringa à origem do Batman, inclusive a suspeita do personagem de que ele poderia ser filho de Thomas Wayne.
Soma-se a isso a atuação de Joaquim Fênix, simplesmente antológica. Dizem que todos os atores que aturam como o Coringa teriam sido abalados por ele. Conta-se que Heath Ledger teria praticamente enlouquecido durante as filmagens do Cavaleiro das Trevas. Difícil não acreditar que Fênix também não tenha sido afetado. Sua atuação é perturbadora, em especial a risada, que no filme tem uma história: seria um problema neurológico, fruto de maus tratos na infância, que o fariam rir nos momentos mais inoportunos ou quando está nervoso.
Some a isso a trilha sonora, tensa, nervosa, pesada que faz com que uma simples cena de dança se torne assustadora. Aliás, o filme brinca com o expectador, fazendo-o ficar tenso em momentos cotidianos e levando-o a rir durante um assassinato.
De tudo, apenas uma coisa a lamentar: que esse filme não tenha conexões com futuras da produção da DC. Adoraria ver esse Coringa já totalmente desenvolvido  em outras produções.

Belém, Pará, Brasil

 

Se há uma música que representa com perfeição a situação da região norte é “Belém, Pará, Brasil”, do grupo paraense Mosaico de Ravena.

Misturando rock e carimbó e Lançada no início da década de 1990, essa música se tornou um fenômeno local. Tocava o tempo todo nas rádios no Pará. Na época, eu participava da diretoria de um centro comunitário (na Cidade Nova) e realizávamos, todo domingo, um concurso com cantores. O fechamento do evento era sempre a música do Mosaico de Ravena e, quando começava a tocar a parte final, que puxava para o carimbo, a galeria simplesmente ia à loucura: começava todo mundo a dançar no salão.

Além do ritmo, o segredo do sucesso da música estava diretamente ligado ao sentimento geral de isolamento e invisibilidade (curiosamente, esse mesmo sentimento parecia predominante no outro extremo do Brasil, representado pela música dos Engenheiros Longe demais das capitais).

A primeira estrofe já tocada em assuntos com a exploração da região, os projetos criados pelo governo central que teoricamente deveriam trazer progresso, mas que só agravaram a situação:

 

Região Norte

Ferida aberta pelo progresso

Sugada pelos sulistas

E amputada pela consciência nacional

 

A segunda estrofe se refere ao apagamento da cultura regional, algo que já vem de longe e que na época era muito evidente. Felizmente, muito dessa mentalidade mudou. Hoje o Palacete Pinho e o Ver-o-peso tornaram-se pontos turísticos.  

 

Vão destruir o Ver-o-Peso

Pra construir um shopping center

Vão derrubar o Palacete Pinho

Pra fazer um condomínio

Coitada da Cidade Velha

Que foi vendida pra Hollywood

Pra ser usada como albergue

No novo filme do Spielberg

 

As estrofes seguintes referem-se à imagem equivocada e distorcida que se tinha sobre a região, algo que senti na pele quando minha família se mudou para Belém, lá no início da década de 1980. As pessoas, quando sabiam que eu iria me mudar para Belém, perguntavam se eu não tinha medo de índios ou jacarés. Sério. A letra, irônica, brinca com isso.

 

Quem quiser venha ver

Mas só um de cada vez

Não queremos nossos jacarés

Tropeçando em vocês

 

A culpa é da mentalidade

Criada sobre a região

Por que que tanta gente teme?

Norte não é com M

Nossos índios não comem ninguém

Agora é só hambúrguer

Por que ninguém nos leva a sério?

Só o nosso minério

 

Na verdade, o processo de apagento cultural era tão forte que mesmo as pessoas da região na grande maioria das vezes não valorizavam o que era local, visto por elas como atrasado ou inferior. Daí o “aqui a gente toma guaraná quando não tem Coca-cola”. Ou seja: era um problema que só começaria a se resolvido quando os próprios amazônida tomassem consciência da importância de sua cultura. E, de fato, a ideia de que a região norte não tem cultura ou tem uma cultura atrasada é mais do que equivocada, algo que percebemos, por exemplo, na área da fantasia. Enquanto muita gente paga pau para o folclore inglês que deu origem a livros como O senhor dos anéis, na Amazônia há um folclore igualmente rico muitas vezes ignorado justamente por quem faz literatura de fantasia.  

 

Aqui a gente toma guaraná

Quando não tem Coca-Cola

Chega das coisas da terra

Que o que é bom vem lá de fora

Transformados até a alma

Sem cultura e opinião

O nortista só queria fazer

Parte da nação

 

Ah! Chega de malfeituras

Ah! Chega de triste rima

Devolvam a nossa cultura

Queremos o Norte lá em cima!

Por quê? Onde já se viu?

Isso é Belém!

Isso é Pará!

Isso é Brasil!

Vingadores contra o Fantasma do Espaço

 



O lançamento da revista dos Vingadores foi uma verdadeira sensação entre os fãs. Afinal, eram alguns dos principais heróis da Marvel reunidos. Mas depois da edição de estreia, em que o grupo lutou contra Loki, Stan e Jack Kirby precisavam de um inimigo à altura.

No número dois de The Avengers o grupo enfrenta um extraterrestre chamado Fantasma do Espaço, dono de um poder realmente impressionante: tomar o lugar de qualquer pessoa, enquanto essa pessoa é enviada para o vácuo. Ele pretende usar esse poder para derrotar os Vingadores colocando um contra o outro e, assim, abrir caminho para uma futura invasão extraterrestre.

O Fantasma pode se transformar em qualquer pessoa. 


Mas o fantasma do espaço é muito burro. Logo no início da história ele diz que sabe que Tony Stark é na verdade o Homem de Ferro. “Eu sei o segredo de todos eles, afinal, estou observando-os há meses!”.

Chegando à mansão, ele toma o corpo do Hulk e ataca os outros, com a intenção de causar desunião no grupo de heróis.

O problema é quando ele sai e encontra com Rick Jones e não o reconhece. “Sou eu, Rick Jones, o garoto que salvou a sua vida. O cara que se certifica que você consiga voltar a ser o Dr. Bruce Banner”. Ao que o alienígena pensa: “Então... o Hulk tem outra identidade?”. Ele estava observando o grupo há meses, mas não sabia que Bruce Banner era o Hulk? Não sabia da amizade com Rick Jones?

Hulk não gosta de reuniões. 



Não bastasse isso, ele também se revela como um alienígena que tomou o corpo do Hulk e faz até uma demonstração – o que inclusive vai provocar sua derrota lá na frente.

Parecia que o vilão tinha algum tipo de compulsão suicida que fazia com que ele criasse as situações de seu próprio fracasso.

Além disso, é muito curioso, hoje em dia, ver o Hulk soltando esse tipo de péroloa: “Agora que a turma toda tá aqui, o que a gente faz? Não tô no clima pra brincar de beijo, abraço, aperto de mão!”.

Era uma época de quadrinhos mais ingênuos, mas divertidos. 

A guerra dos gibis

 

 

A campanha do Dr. Fredric Werthan contra os quadrinhos teve um grande impacto no Brasil por causa de uma questão política.
     Segundo Gonçalo Júnior, autor do livro A Guerra dos Gibis, embora existissem iniciativas isoladas desde a década de 30, quando os quadrinhos de aventura chegaram ao Brasil, a campanha contra os quadrinhos só tomou fôlego na década de 40, graças a uma briga entre Roberto Marinho, do Jornal O Globo, e Orlando Dantas, do Diário de Notícias. Dantas estava ganhando mercado ao promover concursos em que os leitores do jornal concorriam a prêmios em dinheiro. Preocupado com a concorrência, Marinho usou sua influência junto ao governo Vargas para fazer com que fossem proibidos os prêmios em dinheiro.
            Dantas, agora sem o principal atrativo de seu jornal, passou a atacar Marinho pelo que considerou o seu ponto fraco: o fato de seu concorrente ser um dos principais editores de histórias em quadrinhos do Brasil (sua publicação Gibi acabou virando sinônimo de quadrinhos). Dantas, ex-repórter de Assis Chateaubrind, sabia que a melhor forma de um jornal sair de uma situação financeira difícil era comprar briga com um concorrente de peso. O Diário de Notícias passou a acusar os gibis de provocarem preguiça mental, inculcarem valores estrangeiros nos jovens e incentivarem a violência. Na verdade, Dantas não tinha nada contra quadrinhos, e, aliás, tinha sido um dos pioneiros a publicar tiras de jornais no Brasil (o humorístico Popeye), mas ele logo descobriu que a melhor forma de chamar atenção para si e alfinetar o rival era fazer acusações aos gibis.
Passou a ser moda falar mal dos gibis. Até mesmo quem nunca tinha lido uma revista se apressava a dar sua opinião. A jornalista Ivone Jean, do Correio da Manhã, por exemplo, escreveu um artigo no qual pedia reconhecimento público por ter roubado um gibi do consultório de um pediatra, impedindo assim, que as crianças tivessem contato com a leitura. Além de se vangloriar do crime, a jornalista admitia que sua birra se devia ao fato dela não compreender o código quadrinístico: “Não sei ler histórias em quadrinhos! Aprendi a ler da esquerda para a direita e linha após linha. As legendas atrapalhadas que ilustram os desenhos são impressas em caracteres estranhos e dançam em todos os sentidos”.
            Mas a campanha contra os gibis teria seu momento mais grave a partir de 1953. Dessa vez, além de Dantas, Roberto Marinho teria contra si Samuel Wainer, do jornal Última Hora. Assim como acontecera com o Diário de Notícias uma década antes, o diário de Wainer estava tomando leitores de O Globo, graças a inovações editoriais. Marinho concentrou sua artilharia no concorrente e descobriu que Wainer não era brasileiro, pois chegara ao Brasil com dois anos de idade. Na época a legislação proibia estrangeiros de terem veículos de comunicação no Brasil.
            Wainer vingou-se empreendendo uma dura campanha contra as histórias em quadrinhos que durou anos. Para isso foi destacado o repórter Pedro Morel. Este percebeu que a estratégia de maior impacto era acusar os gibis de serem responsáveis pela criminalidade infantil. Citando as pesquisas de Fredric Whertan, Morel defendeu que as histórias em quadrinhos ensinavam as crianças como cometerem crimes.
            Para provar o que dizia, Morel foi ao Reformatório de menores Saul de Gusmão atrás do maior criminoso juvenil da época, um tal de Lilico, apelidado de “Terror do subúrbio”. Para sua decepção, encontrou o rapaz jogando futebol, e não lendo gibis. Mas nem por isso achou que seria o futebol o responsável pelos crimes de Lilico. Os responsáveis deviam ser os gibis.
            Apesar da total falta de embasamento e de serem resultados de uma briga de mercado, as denúncias deram resultado. Nas portas das igrejas eram distribuindo panfletos orientando pais a não deixarem seus filhos lerem quadrinhos. Em alguns locais os professores tiravam cinco minutos diários de suas aulas para falarem dos riscos da leitura dos gibis.
            Um dos resultados dessa campanha se vê nos testes escolares. Desacostumados a ler, os estudantes são incapazes de interpretar os textos mais simples. Nos países em que a leitura dos gibis foi estimulada a realidade é outra.

Bom dia, Verônica – Segunda temporada

 


A primeira temporada do seriado Bom dia, Verônica parecia tão redondinha, tão fechada, que uma segunda temporada tinha tudo para ser forçada. Afinal, o psicopata Brandão, vilão da trama, havia morrido no final. Continuar a história, portanto, era uma aposta arriscada. No entanto, o roteiro acabou sendo amarrado de tal forma que a continuação consegue ser tão boa quanto.

Na segunda temporada o vilão é Matias Carneiro, um líder religioso que usa sua posição para abusar de mulheres, praticar tráfico humano e criar uma milícia que se infiltra em todas as instâncias do poder, em especial na polícia.

Se na primeira tempora o grande destaque era Camila Morgado, no papel de esposa do psicopata Brandão, aqui o destaque fica por conta de Klara Castanho, que interpreta a filha de Matias Carneiro.

A relação pai e filha é marcada por uma superfície de amor e carinho, representada pela cena inicial, em que Matias acorda a filha com a caixa de música de bailarina. O que vemos ali é um pai apaixonado pela filha criança, que parece dedicar toda a sua atenção e compreensão a ela.

Mas, por trás dessa superfície, existe uma história de abusos que fica o tempo todo implícita.

As cenas entre os dois parece sempre oscilar entre dois momentos, um de carinho paterno e outro de violência, violência que aparentemente nunca se revela, mas sempre está ali, em olhares, em pequenas expressões, sempre implícita. Para isso contribui muito a atuação de Reynaldo Gianecchini no papel de Matias, que com seu olhar calmo e sua voz doce consegue ser capaz de manipular qualquer um.

É curioso como os roteiristas Raphael Montes e Ilana Casoy conseguem costurar essa trama quase caseira com a história de Verônica, que continua investigando as conexões do psicopata da primeira temporada. A relação entre as duas histórias vai se tornando cada vez mais estreita até os episódios finais, que são simplesmente hipnotizantes.

Vale destacar também como o contexto religioso é muito bem aproveitado, com destaque para a cena em que Matias e sua filha cantam a música “Quando o sol bater na janela do seu quarto”, do Legião Urbana. A cena resume toda a base de aparente carinho e, ao mesmo tempo, tensão.

Em tempo: Matias Carneiro é evidentemente inspirado em João de Deus, o curandeiro envolvido em diversos crimes, entre eles estupros e assassinatos. 

Integralismo: o fascismo tupiniquim

 


O integralismo foi o equivalente brasileiro das doutrinas fascistas de Mussolini e Hitler.
O movimento inspirava-se na Doutrina Social da Igreja Católica, que se opunha ao socialismo e acreditava que a sociedade só pode funcionar em ordem e paz através de uma hierarquia social rígida e da harmonia social.
Entre os valores defendidos pelo integralismo estão o nacionalismo e a cooperação entre diferentes classes sociais para atingir a harmonia. O passado histórico, a tradição, a cultura, os costumes e a religião são elementos essenciais na doutrina integralista.
No Brasil o maior representante do integralismo foi Plínio Salgado, criador da Ação Integralista Brasileira.
O lema dos fascistas era "Deu, pátria, família". 


O lema dos integralistas era “Deus, pátria e família”. Seus militantes usavam camisas verdes e cumprimentavam-se aos gritos de “Anauê”, palavra tupi que significa algo como “salve”.
Os integralistas receberam a simpatia de vários setores conservadores, incluindo militares, empresários e religiosos. Em 1938 Plínio Salgado pretendia lançar-se candidato à presidência, mas a eleição foi cancelada com a instalação do Estado Novo, de Getúlio Vargas. O ditador acabou com os partidos, incluindo o Integralista, o que fez com que os seus militantes tentassem um golpe para a tomada do poder, que acabou fracassando.
Os integralistas foram, então, perseguidos, seus líderes presos e exiliados. 

Roteiro de quadrinhos: construindo um estilo

 

Sandman foi um dos quadrinhos que mais me influenciaram no início de carreira. 

Na prática da escrita não existem gênios que surgem do nada, com um estilo próprio e revolucionário. Todo grande escritor é fruto de suas leituras. Todo grande escritor se assenta sobre os ombros dos que vieram antes dele. Só para citar um exemplo mais famoso: O nome da Rosa, de Umberto Eco é o resultado de uma série de influências, entre elas, principalmente Conan Doyle (o nome do protagonista, Guilherme de Barskerville, é uma referência direta a um dos romances de Sherlock Holmes) e Jorge Luís Borges (o nome do vilão, Jorge, é uma homenagem direta ao escritor argetino).

Na verdade, o estilo de um escritor é o resultado de suas influências literárias em conjunto com sua experiência de vida. Essa sopa, bem temperada, dá origem às grandes obras.
Isso não significa copiar um autor, mas absorver um pouco de vários e digerir essas influências misturando-as com suas próprias experiências pessoais. Com um autor você pode aprender narrativa, com outro diálogo, com outro a forma de lidar com as elipses quadrinísticas, com outro a estrutura da trama... cada um tem algo a nos ensinar.
Quando comecei a escrever quadrinhos durante algum tempo tive uma produção prolixa, já que a editora Nova Sampa, para a qual eu trabalhava, comprava praticamente tudo que eu escrevia. Isso me permitiu fazer um exercício que recomendo a todos novos autores: fazia histórias imitando o estilo deste ou daquele roteirista. Em uma HQ seguia o modo de escrever de Neil Gaiman, em outro, o de Grant Morrison e em outro, o de Alan Moore (só para citar os que mais me influenciaram). Para fazer isso eu precisava estudar o estilo de cada um para fazer a “história homenagem”.
Acabei gostando da brincadeira e produzi um fanzine literário, Ideias de Jeca-tatu em que, a cada número publicava a biografia de um escritor e um conto-homenagem no estilo dele. Foram homenageados Monteiro Lobato, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, entre outros. Com cada um eu aprendia algo, fosse o humor lobatiano, o clima poético de Poe, o sarcasmo sutil de Machado.
Ao final, meu próprio estilo foi se definindo. Um estilo que não era uma imitação de nenhum desses escritores ou roteiristas, mas uma mistura de todos eles, uma sopa antropofágica da qual emergiu minha própria maneira de escrever e bolar tramas. 

Perry Rhodan – O sol fantasma

 


O número 254 da série Perry Rhodan é uma continuação direta do volume anterior, no qual Rhodan e seu grupo de desembarque encontram-se presos em um mundo vegetal, prestes a serem transformados em zumbis pelos seres locais.

Como o livro anterior, Avanço no Mundo das Trevas, havia sido marcado por confusão e pura enrolação, minha expectativa era de que, apesar de manterem o mesmo escritor, H. G. Ewers, as coisas melhorassem. Afinal, aqui teríamos os personagens em plena ação, imersos em uma situação extremamente intrigante e criativa.

Infelizmente, o livro não corresponde às expectativas. Ewers justifica a ausência de socorro por parte da nave Crest III através da ação de um tal de Bluul — um ser que se alimenta de energia e gera ilusões, fazendo os terranos acreditarem que estão em outro lugar. O problema é a falta de profundidade: quem é Bluul? Qual a sua origem? Qual sua ligação com o planeta das plantas ou a extensão de seus poderes? H. G. Ewers parece ter todas as respostas, mas se esquece de compartilhá-las com o leitor.

A capa original alemã. 


A lógica narrativa falha novamente quando os terranos, ao perceberem a farsa, tentam se libertar usando uma bomba atômica. O Bluul, em vez de ser afetado, simplesmente "engole" a energia liberada. Para resolver o impasse, os protagonistas detonam uma Bomba de Arcon (capaz de destruir um planeta inteiro) e conseguem escapar. Ewers, contudo, falha em explicar por que o Bluul não absorveria também essa carga massiva de energia, tornando a solução incoerente.

O mesmo padrão se repete no núcleo do planeta vegetal. Em determinado momento, Rhodan, já em processo de transformação, pede um "cristal de ilusões". A narrativa chega ao ponto em que o ser modular, Baar Lun, recebe a mensagem: “A grande vida submete-se ao poderoso”. Apesar de soar como um tremendo deus ex machina, o recurso poderia ter gerado um desfecho interessante se o conflito fosse resolvido de forma pacífica e diplomática. No entanto, a ideia morre como uma ponta solta, sem qualquer explicação posterior.

Curiosamente, este volume publicado pela Ediouro traz uma carta do leitor Tomás Rafaeli, de Curitiba, que critica a tendência imperialista da série: “Por que uma figura glorificada como Perry Rhodan tem que invadir uma galáxia estranha? Não acham que é um mau exemplo?”. A crítica de Tomás se aplica perfeitamente a este volume, no qual o roteiro ignora nuances criativas e resolve todos os dilemas através de ações puramente agressivas.