terça-feira, junho 30, 2026
Hell´s angels, de Hunter Thompson
Roteiro para quadrinhos: a ambientação
A corrida das vacinas
Dividido em cinco partes, A corrida das vacinas é um documentário da Globo Play disponível inclusive para não-assinantes. É uma obra fundamental para entender os tempos nos quais estamos vivendo.
A narrativa é focada em mostrar como ocorreu o processo de elaboração das vacinas contra covid, como cada uma funciona, e como foi possível fazer vacinas seguras em tão pouco tempo – e como esse incremento de tecnologia vai ajudar no futuro a desenvolver vacinas para outras doenças com um tempo muito menor do que antigamente.
A equipe do documentário acompanha uma enfermeira que participou dos testes da coronavac, uma senhora de 95 que ficou isolada todo o tempo antes de se vacinar, vai até a Rússia, a Inglaterra e a Índia, visitando laboratórios onde são produzidas as vacinas que estão sendo aplicadas no Brasil ou que estão sendo compradas para aplicação.
Há também entrevistas com especialistas que explicam, de maneira muito didática, a doença e a ação das vacinas.
E, como não poderia deixar de ser, mostra também todo o ambiente que permeou a pandemia. Entre os momentos mais bizarros, um protesto em São Paulo, em dezembro do ano passado, contra as vacinas, o uso de máscaras e tentando convecer os idosos a participarem de comemorações de Natal.
A corrida das vacinas é um documentário dinâmico e didático, que explora bem os temas sem cair na chatice de outros documentários.
Defensores – Indefensáveis
Keith Giffen, J. M. De Matteis e Kevin Maguire ficaram famosos por sua versão humorística da Liga da Justiça – conhecida entre nós como Liguinha.
Em 2005 essa turma foi contratada pela Marvel para fazer sua versão do grupo mais disfuncional da editora: os Defensores. Se o estilo humorístico do trio funcionava na Liga, funciona melhor ainda aqui, pois quem realmente levaria a sério um grupo formado pelo Dr. Estranho, Namor, Hulk e Surfista Prateado?
| Maguire é um especialista em expressões faciais. |
Na história, Dormammu se uniu a sua irmã Umar com o objetivo de conquistar e reformular nossa dimensão – e aparentemente só os Defensores podem lidar com esse problema místico.
A história já começa fora da curva, quando Pesadelo encorpora em Wong para dar o aviso da invasão – e aqui temos diversos closes e muitos, muitos diálogos afinadíssimos, com destaque para o talento incrível de Maguire para expressões faciais. A forma grandiloquente com que o mestre das artes místicas fala é objeto de muitas piadas, assim como sua relação com Wong de criado e amo, que na década de 1960 era normal e hoje parece estranha. “Vamos por você num espelho. Quanto antes remover você de Wong melhor”; “Wong. Este é o nome ou sobrenome dele? Você não sabe... né?”; “O espelho”.
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| O Surfista Prateado tenta se enturmar com... surfistas. |
Uma das grandes sacadas da minissérie diz respeito ao Surfista Prateado. Afinal, até então ninguém tinha tido a ideia de fazê-lo se enturmar com surfistas, o que parece óbvio. Só que surfistas não são conhecidos pela eloquência, ao contrário do herói prateado, o que gera momentos memoráveis. À certa altura, por exemplo, ele diz: “O que é a felicidade? Será apenas a satisfação de nossas necessidades animais... ou algo mais profundo? Algo intangível... que mobiliza nossas almas?”. “Você devia falar com uma das minas. Elas se ligam nessa de poesa e tal”. “Se está se referindo às mulheres, sim, eu falarei com uma delas... e talvez possamos penetrar no grande mistério”, ao que uma das garotas responde: “Então... tipo... tá afim de ficar comigo?”.
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| Umar resolve tomar o Hulk como seu amante. |
Umar, a irmã arrogante e hiper-sexualizada de Dormammu, é a grande atração da série – e provavelmente ela nunca foi tão bem representada, inclusive em termos de desenho. Aliás, a sequência dela com o Hulk (ela resolve pegar o gigante esmeralda como amante) é uma das mais memoráveis de todos os tempos.
Mas para além das boas sacadas, das piadas, dos diálogos afinados, Indefensáveis é uma grande história em quadrinhos que sabe ser humorística nos momentos certos e tensa nos momentos certos. Chega num ponto que se transforma numa grande história em quadrinhos, com um perigo realmente impressionante.
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| Para além das piadas, a série mostra uma história com uma ameaça real. |
Lançada em cinco partes nos EUA, essa série foi reunida aqui pela salvat no volume 23 da série Os heróis mais poderosos da Marvel.
segunda-feira, junho 29, 2026
Lugar Nenhum, de Neil Gaiman
Roteiro de quadrinhos: diálogos
Como os textos, há vários tipos de diálogos e várias técnicas. Eis alguns tipos:
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| Frank Miller usou a técnica do diálogo realista em Cavaleiro das Trevas |
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| Neil Gaiman usou a técnica do diálogo literário em Sandman. |
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| Os monólogos do Surfista Prateado se tornaram célebres. |
Capitão América vs Deathlok – futuro sombrio
Publicada em Capitain America 287, a história “Futuro sombrio” é um bom exemplo de como o roteirista J.M. DeMatteis sabia manejar a trama para explora ao máximo a profundidade psicológica.
Na história anterior, um clone de Deathlok é enviado para o passado para encontrar o original – e conta com a ajuda do Capitão América para isso. Mas quando finalmente o encontro acontece, Deathlok dá um tiro no peito do clone. O motivo: a corporação Brand apagara a memória do andróide, transformando-o numa máquina de matar perfeita. Claro que isso o coloca em rota de colisão com o sentinela da liberdade.
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| A splah page inicial mostra porque Zeck era um dos desenhistas mais queridos da época. |
A splash page inicial é um trabalho impressionate da dupla Mike Zeck e JM DeMatteis. A imagem mostrava o clone em primeiro plano, sendo amparado por um Capitão América atônito, enquanto sangue sai de seus lábios e seu peito. Ao fundo, o andróide grita: “Muito bem, seu paspalho. Agora fique de pé se não quiser morrer nas mãos de DEATHLOK!”. Já legenda diz: “Meu nome é Luther Manning! Sejam bem-vindos ao meu pesadelo!”.
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| O encontro dos dois Deathlok é o ponto alto da história. |
Vendo páginas como essa é possível entender porque Zeck era um dos desenhistas mais queridos dos anos 1980, a ponto de ter sido escolhido para desenhar o crossover Guerras Secretas.
A trama é usada para explorar a história e a personalidade do andróide e encontra seu ponto alto quando ele toca na mão de seu clone, o que faz com que uma torrente de lembranças invada sua mente.
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| O Capitão América vai para o futuro e encontra um mundo destruído. |
No final, o capitão acaba indo com Deathlok para o futuro e o que encontra lá é uma verdadeira distopia, que ele tenterá a todo custo evitar que aconteça.
No Brasil essa história foi publicada pela editora abril em Almanaque Do Capitão América 88.
Tom´s bar
Invencível
Parece que a Amazon Prime resolveu investir pesado em super-heróis. Depois da série de sucesso The Boys, baseada nos quadrinhos de Garth Ennis, a plataforma traz Invencível, uma animação baseada nos quadrinhos de Robert Kirkman, criador de Walking Dead.
O fato de se tratar de uma animação pode dar a entender que Invencível seja uma série menor em termos de ousadia, afinal, existe o preconceito de que animações são para crianças.
Não é o caso.
Invencível é uma animação para adultos. É violento, complexo e principalmente desruptivo. Logo no primeiro episódio fica claro que por trás dos uniformes coloridos se escondem segredos obscuros, traições e até indivíduos mau-caráter.
A história é focada em Mark Grayson, um adolescente norte-americano aparentemente comum. Mas ele é filho do Omini-man, um poderoso super-herói alienígena. Quando Grayson sai da adolescência, seus poderes aparecem e ele precisa lidar com super-vilões e, ao mesmo tempo, com os problemas da adolescência, como o namoro.
Mas há algo mais: os principais heróis do planeta, os Guardiões Globais, foram mortos e tudo leva a crer que o responsável é Omini-man.
Em pelo menos um sentido, Invencível é melhor que The Boys: como a animação não exige recursos adicionais, o roteiro pode viajar mais, a ponto do personagem ir, por exemplo, para Marte. E isso é muito bem aproveitado para criar diversos ganchos.
Enfim, Invencível é uma dica para quem gosta de super-heróis, mas está cansado do lugar-comum.
Lanterna e Arqueiro Verde – Bem-vindo a Desolação
Em Green Lantern 77, Denny O´Neil e Neal Adams continuaram em sua empreitada de tirar os heróis verdes da DC do mundo dos super-heróis heróis e colocá-los no mundo real.
Na história, eles estão seguindo por uma estrada nas montanhas quando a caminhonete em que estão começa a ser alvo de disparos. Ao renderem os atacantes o Arqueiro e o Lanterna descobrem que na verdade os homens achavam estarem se defendendo de matadores contratados por um ricaço local.
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| O trio está passando por uma montanha quando são atacados. |
“Esta cidade... toda a montanha... é propriedade do Sr. Slapper Soames. Se existe homem pior, eu não quero conhecer”, informa um dos habitantes locais. “Todo mundo trabalha nas minas dele... principalmente porque ninguém sabe fazer outra coisa”.
Um cantor local, Johnny Walden, resolveu transformar em música o sofrimento do povo, vítima dos abusos do ricaço, e foi preso por isso.
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| Um cantor resolve transformar em música o sofrimento do povo do lugarejo. |
Walden nitidamente é uma referência a Bob Dylan, o cantor que na década de 1960 representava a luta pelos direitos civis e contra a guerra do Vietnã.
A primeira aparição de walden é um exemplo de como Neal Adams conseguia transformar até mesmo uma cena banal, como um homem cantando, em algo monumental. A imagem ocupa uma página dupla, com o jovem dedilhando o violão e várias pessoas ouvindo. A letra da musica que ele canta se espalha pelo quadro.
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| Suspense: o Lanterna perde seus poderes no meio da batalha. |
Claro que a situação será resolvida pelos dois heróis - com direito a uma sequência de suspense em que o Lanterna perde seus poderes. Mas no final, quando o lanterna comemora o final feliz, o arqueiro diz: “No futuro dessas pessoas só tem pobreza e ignorância. Você chama isso de vencer?”.
A arte camaleônica de Guto Dias
Guto Dias nasceu em 1967, na cidade do Rio de Janeiro. Desde a infância, revelou uma aptidão natural para o desenho, sendo constantemente estimulado por sua mãe, que era professora. Na segunda metade dos anos 1980, uniu-se a um grupo de amigos para fundar o fanzine Ponto de Fuga, publicação independente que, embora de vida breve, contando com apenas três números, serviu como importante laboratório inicial.
Nessa mesma época, o jovem artista inscreveu-se em um concurso de novos talentos promovido pela editora D’Arte, do lendário mestre do terror Rodolfo Zalla. Algum tempo após o envio de suas páginas, Guto recebeu uma correspondência de Zalla acompanhada de um cheque, trazendo a excelente notícia de que se sagrara vencedor do certame. Após a premiação, ele ainda roteirizou e ilustrou duas histórias em quadrinhos completas para a editora. Infelizmente, o mercado de revistas de terror da época já perdia o fôlego histórico, e os títulos da casa foram cancelados antes que seus trabalhos pudessem ser publicados.
Em 2002, o artista mudou-se para Curitiba, cidade onde reside até hoje.
Em 2015, já com uma carreira consolidada como ilustrador e cartunista no mercado publicitário e editorial, Guto travou contato com o editor Daniel Saks durante a Bienal de Quadrinhos de Curitiba. Bem recomendado pelo ex-editor Fábio Chibilski e pelo prestigiado artista Antônio Éder, ele apresentou seu portfólio a Saks. A força de seus traços foi suficiente para que ele fosse imediatamente convidado a integrar o catálogo da editora Ink&Blood. Sua estreia oficial ocorreu na histórica edição Calafrio #60, ilustrando a série Psicopatas (com roteiro de Gian Danton), na qual realizou a impactante quadrinização da trajetória do infame assassino em série norte-americano John Wayne Gacy.
Paralelamente ao seu trabalho na Ink&Blood, Guto Dias colaborou como chargista e cartunista para a versão brasileira da revista Mad, publicada pela editora Panini. Em 2023, o autor lançou sua coletânea de cartuns solo, intitulada Carpe Diem, sob o selo Baiuca Editorial. No cenário internacional, ele também produz com regularidade a tira cômica Philosopher’s, que vem sendo publicada ininterruptamente desde 2019 na renomada revista de filosofia britânica Philosophy Now.



























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