domingo, abril 19, 2026

Fundo do baú - Bibo Pai e Bob Filho

 



Bibo Pai e Bob Filho é uma das mais célebres animações da Hanna-Barbera. Criado em 1959, a série era caracterizada pelos ótimos roteiros escritos por Michael Maltese, célebre com os episódios do coyote e Papa léguas, da Warner.

O tema do seriado é a admiração mútua entre pai e filho e a relação entre eles. Os personagens ficaram famosos pelas frases de carinho, como: “Meu querido filho” e “Meu querido e velho pai”.

As histórias geralmente giram em torno de algum conflito de gerações que é resolvido no final de forma muito carinhosa (geralmente com o pai cedendo). Os episódios normalmente começavam com Bob sendo contrariado e dizendo frases como: “Oh, que vergonha! Meu próprio pai...”.

No primeiro episódio, Bibo Pai dá de presente de aniversário para o filho uma raposa de brinquedo, mas o pequeno cachorro quer caçar uma raposa de verdade “Oh, estou muito envergonhado, um cachorro como eu caçando uma raposa de brinquedo quando deveria estar caçando uma cachorra de verdade”. O pai aceita, o que dá margem a uma infinidade de sequências do cachorrinho tentando caçar a raposa, que no começo o ignora solenemente. O episódio usa o humor de repetição como forma de transformar em piada uma limitação das animações para TV: assim, a cena de Bob mordendo a perna da raposa é repetida à exaustão.

Em outro episódio, Bob promete de ser amigo de um gambá, para horror do pai, que faz de tudo para separar o filho do novo amigo. “Meu pai me ensinou a cumprir sempre as promessas”, argumenta o cachorrinho. No final, Bibo dá um conselho: “Se vocês educarem um menino e alguma vez não puderem dar-lhe um sova, juntem-se a ele”.

Curiosamente a mãe de Bob nunca aparece, o que transforma Bibo num dos primeiros, senão o primeiro, pai solteiro dos desenhos animados.

O gerente que leu a Manticore

 


Eu nunca ganhei muito dinheiro com quadrinhos. Em alguns casos não recebi pagamento nenhum.

Entretanto, de vez em quando tinha algumas compensações.

Certa vez precisava abrir uma conta na Caixa para facilitar o recebimento de um acerto de contas. Me indicaram uma agência que estava sempre vazia. Fui lá e o gerente me informou que aquela agência era só para servidores de determinada secretaria. Mas, enquanto falava comigo, olhava intrigado para meus documentos. À certa altura pegou minha identidade, olhou o nome e piscou três vezes.

- Ei, estou reconhecendo esse nome. Você não é o Gian Danton?

- Isso mesmo, esse é o meu pseudônimo. – respondi espantando.

- Não acredito! Cara, eu adorei a Manticore!

E começamos uma longa conversa sobre quadrinhos.

No final, ele abriu a conta, com a condição de que eu fosse outro dia lá para autografar os exemplares dele da Manticore – algo que fiz pouco tempo depois.

Foi, provavelmente, a situação mais inusitada em que encontrei um fã dos meus roteiros. 

O Gralha – o herói, o pinhão, o louco e a morte

 


O Gralha é o personagem símbolo de Curitiba. Criado por mim e mais 8 artistas em 1997, ele se tornou bastante popular na capital paranaense a ponto de até mesmo que não curte quadrinhos conhece-lo. E tem toda a história do Capitão Gralha, que seria o personagem original e avô do herói.
Além de ter sido publicado por mais de um ano no jornal Gazeta do Povo, o Gralha ganhou três álbuns. O herói, o pinhão, o louco e a morte é o terceiro.
Neste eu colaborei com o roteiro de duas histórias. O que acho interessante no personagem é seu ecletismo. É um herói que você pode usar para histórias mais densas, mais de aventura, mais cotidianas ou até histórias de humor.

Na HQ Encontros e desencontros eu explorei o lado pouco convencional do personagem: ele vai fazer compras em um supermercado e encontra o vilão Bagre humano também fazendo compras. Começa um diálogo aparentemente pueril, mas recheado de suspeitas e sentidos ocultos (o vilão estaria apenas fazendo compras ou planejando um assalto ou um atentando?). O tom aí é de humor, acentuado pelo divertido traço de Paulo Gerloff.

Ainda nessa edição colaboro com a história final, Dias Duvidosos, que introduz na cronologia do Gralha o grande vilão do Capitão Gralha, o Doutor Destruição. A história começa metalinguística, com o herói lendo um gibi com as aventuras do avô. Uma curiosidade: o que é mostrado no gibi é a parte final da trama que aparece no livro Francisco Iwerten, a biografia de uma lenda, mas na forma de radionovela. Sim, o Gralha é um personagem intertextual e transmídia! Os desenhos de Edson Kohatsu, que consegue ir do vintage ao contemporâneo, dão todo o charme da história. 
O álbum está à venda na loja da Quadrinhópole: https://quadrinhopole.com/loja/

Ken Parker: Terras brancas

 


Confesso que tinha o maior preconceito contra os quadrinhos Bonelli e mais ainda com relação aos quadrinhos de faroeste. Certo dia, eu o mestre Antonio Eder estávamos ministrando uma oficina de quadrinhos em Curitiba e, naquela aula, falei especificamente da ambientação e da importância de se pesquisar para escrever uma história. Quando terminamos, o Antonio me disse: você precisa ler Ken Parker. Torci o nariz.
No dia seguinte, ele me trouxe dois volumes, segundo ele ótimos exemplos do bom uso da pesquisa e do uso da ambientação como motor da história. Eram os números 10 e 11 de Ken Parker, “Terras brancas” e “A nação dos homens”. Todo o preconceito que eu pudesse ter se desfez logo nas primeiras páginas.
A história se passava no Alaska, logo após um naufrágil que colocara um esquimó, o herói, o capitão e sua esposa perdidos e sem comida na imensidão branca. Era nítido como Berardi pesquisara sobre o Alasca e suas características e usara isso com genialidade na história. A história mostrava o processo de caça e armazenamento da foca, a forma como os esquimós caçam ursos sem armas de fogo, como sobreviviam a temperaturas abaixo de 30 graus negativos construindo iglus... toda a pesquisa se encaixava com a trama e fazia a história fluir. O ápice disso foi o momento em que o esquimó conta sua poética versão para a origem da humanidade.
Terra dos homens mostra os sobreviventes de um naufrágio tentando sobreviver no frio do Alaska. 


Se a pesquisa tinha sido importante no volume “Terras Brancas”, em “A nação dos homens” é o motor de toda a história, a começar pelo próprio título, que remete à maneira como poderia ser traduzido "inuit", a forma como os esquimós se referem a si mesmos.
Essa edição é uma verdadeira aula sobre os costumes desse povo.
Em um local com tão pouca disponibilidade de alimento, a capacidade de caçar se torna fundamental. Um rapaz que se mostra bom caçador tem grandes chances de conseguir uma moça bonita. Mas isso leva a uma inversão interessante: ter sorte com mulheres é um sinal de que o homem é um bom caçador, como se as focas se deixassem abater pelo galanteador, de modo que se acredita que se o rapaz deixar de ter sucesso com mulheres, também deixará se ser um bom caçador.
Berardi pesquisou até como é feito e funciona um iglu. 


Um outro exemplo:  uma esposa cujo marido não consegue caçar o suficiente para sustento da família pode conseguir um segundo marido.
Berardi não coloca essas informações de maneira didática no roteiro. Ele vai construindo a trama a partir disso de forma que o leitor que não tem muita noção de como é construído um roteiro mal percebe a pesquisa.
Se não bastasse tudo isso para me fazer perceber que o meu preconceito contra quadrinhos Bonelli era apenas um pré-conceito, ainda havia o fato de que essas histórias não se passavam no velho oeste, mostrando o quanto o gênero tinha uma amplitude de abordagens.

1983 - Campeões do mundo de críquete

 

Até o ano de 1983 o time da Índia só havia ganhado uma única partida no campeonato mundial de críquete. Mas, naquele ano, indo contra todas as expectativas, a Índia não só ganhou partidas como se tornou campeã mundial com um time de desconhecidos.

 É a história desse milagre esportivo que o diretor Kabir Khan conta em 1983 – Os campeões do mundo de críquete, filme disponível na Netflix.

 O críquete é um esporte muito estranho, especialmente para nós brasileiros. É uma espécie de baseball no qual os jogadores usam calça e camisa social. Além disso, o placar não é a pontuação de um time versos a pontuação de outro time, o que, para quem não está acotumado, dificulta perceber quem está ganhando.

 Esses aspectos podem afastar muitos expectadores, mas quem persistir encontrará uma obra divertida e emocionante ao mesmo tempo.

 Acompanhamos o time comandado pelo esforçado capitão desde a saída da Índia, quando são escarnecidos pelos próprios indianos, a chegada na Inglaterra, onde são ridicularizados pelos ingleses, até as primerias vitórias. A direção e o roteiro transformam todas essas dificuldades em humor, dando leveza ao filme. Outras oportunidades de humor surgem a partir das diferenças culturais entre ingleses e indianos – em especial os vegetarianos.

 O filme tem outro mérito: ele mostra como o esporte pode ser um elemento de integração nacional e promoção da paz.

 Na época a Índia vivia um violento conflito interno entre indus e mulçumanos, no que estava se transformando praticamente numa guerra civil. Quando a seleção de críquete avança para a semi-final, os conflitos cessam.

 Uma sequência é representativa disso. Um velhinho e seus filhos sofrem para conseguir consertar a antena e ver o jogo, evitando uma patrulha de inimigos que passa na rua. No meio do jogo, os soldados batem na porta. O medo na expressão dos moradores é visível. Mas os soldados só querem saber qual era a pontuação da Índia. No final, todos estão ali, juntos, assistindo ao jogo.

 1983 é uma grata surpresa. 

Super-homem – um amigo em apuros

 


Para comemorar os 50 anos do Homem de aço, a DC fez uma edição especial da revista Action Comics. A primeira parte dessa edição foi um encontro do personagem com a Mulher Maravilha, cortesia da dupla Byrn-Perez. A segunda parte ganhou roteiro de John Byrne e Roger Stern desenhos de dois clássicos desenhistas da DC (Kurt Schaffenberger e Curt Swan) e um novo talento que estava depontando, Mike Mignola.


Curt Swan foi o mais importante desenhista do Super-homem na era de prata. 

Na primeira parte da história, Lois Lane está, como sempre, se arriscando para conseguir uma matéria e, ao chegar na redação, descobre que seu furo de reportagem não será manchete porque a atenção de todos está no suposto romance entre o Super-homem e a Mulher Maravilha (uma referência à primeira história do especial). Clark Kent sabe a verdade e tenta apaziguar a jornalista, mas é obrigado a socorrer o amigo Jimmy Olsen, envolvido, como sempre, em um grande perigo.

Até aí o roteiro parece uma bela homenagem às aventuras clássicas do personagem, com situações que se repetiram à exaustão durante décadas.

O Super-homem embarca numa jornada psicológica. 


A reviravolta acontece quando o herói começa a passar mal diante de uma onda de radiação de kriptonita que parece estar banhando o planeta. Olsen o ajuda a entrar em uma caverna, onde ele teria alguma proteção contra a radição e é quando a história se torna um delírio e uma jornada de auto-realização que envolverá desde uma briga com o Morcego humano até uma ida ao que sobrou de Kripton e um delírio no qual todos os kriptonianos tiveram tempo de se salvar indo para o planeta terra (bem ao estilo da revista Marvel “O que aconteceria se...”).

Apesar de todo o conteúdo psicológico subjacente, Byrne consegue contar uma história simples, fácil de ser entendida, com uma narrativa fluída – algo que talvez tenha se perdido nos últimos tempos.

Mignola é o grande destaque da história. 


É sempre um prazer ver Curt Swan desenhando o superman, mas o destaque da história sem dúvida é Mignola, especialmente quando este desenha Gavião Negro e sua esposa. O traço limpo, repleto de contrastes e elegante funciona muito bem aqui.

Além disso, a história fecha com uma bela reflexão: “Talvez eu precise de kriptonita para nunca esquecer da minha própria mortalidade. Um importante lembrete de que ser um homem é muito importante do que ser... um super-homem”.

No Brasil essa história foi publicada em Super-powers 16.

Perry Rhodan - Cinco Homens da Crest

 


Nove em cada dez fãs consideram os números 241 e 242 como alguns dos melhores volumes da série Perry Rhodan. Curiosamente, ambos os livros não se concentram em histórias grandiosas ou personagens importantes. O sucesso se deve ao talento do escritor William Voltz e à sua capacidade de criar descrições poéticas, desenvolver personagens e demonstrar que uma armadilha aparentemente inofensiva pode ser o maior perigo de todos.

Na trama, os Senhores da Galáxia identificaram a presença dos humanos no sistema de Andro-Beta e colocaram em marcha um plano de extermínio com mobys (seres do tamanho de planetas) devastando a região com bombas nucleares. Rhodan envia oito grupos para tentar descobrir o transmissor que está despertando os mobys. A história desses volumes é focada em um desses grupos, chefiado pelo Capitão Don Redhorse.

A peculiaridade é que Redhorse escolhe os tipos mais “imprestáveis” da Crest: “Pode-se sair com um grupo de astronautas bem-comportados; nesse caso, a gente tem de contentar-se com as brincadeiras sem graça e sua imaginação subdesenvolvida. Ou então, a gente se cerca de tudo quanto é patife encontrado em uma nave e espera que surjam os problemas”, pensa o Capitão em certa altura.

A capa original alemã. 


Entre os “patifes” escolhidos encontra-se Brazos Surfat, um cabo que chegou ao posto de sargento pelo menos dez vezes, mas foi rebaixado em todas elas.

A primeira aparição de Surfat já é memorável. O sargento tinha sido preso em seu camarote por ter aprontado algo: “A luz acendeu, e Redhorse viu um homem incrivelmente gordo deitado na cama. Estava com a barba por fazer. Parecia ter dormido com o uniforme do corpo. O homem piscou os olhos e seu rosto assumiu uma expressão de contrariedade”.

Surfat é um fanfarrão que conta histórias impossíveis a respeito de glórias imaginárias. “Lembro de uma missão semelhante desempenhada no Cinturão das Plêiades”, conta ele em certa altura. “Estava trancado sozinho em um carro voador e tive que defender-me contra cem nativos amotinados”. Ao que é corrigido por Redhorse: “Brazos, pare de contar mentiras. O único combate que o senhor travou no Cinturão das Plêiades aconteceu na cantina de uma nave de abastecimento, quando o senhor entrou em luta com o cozinheiro para conseguir mais uma refeição”.

A equipe inclui um aspirante a oficial obcecado por um ovo recolhido no planeta Horror, que ele tenta, a todo custo, chocar para descobrir qual é o animal que dele sairá.

O grupo, contrariando ordens, acaba pousando em um planeta onde desconfiam estar o transmissor, iniciando uma jornada bizarra que inclui desde ameaças típicas de uma space opera, como seres gigantescos que atacam os astronautas, até situações surreais, como robôs de segurança que fazem um duelo e se autodestroem.

William Voltz acrescenta a essa mistura descrições poéticas e vivas, que fazem o leitor visualizar com perfeição o planeta dos pântanos: “Ouviu o farfalhar fraco do vento que descia das montanhas e atravessava o vale. Se prestasse muita atenção, chegava a ouvir o estalo fino do musgo esmagado por suas botas, e que voltava a erguer-se aos poucos. Para Redhorse, a noite estava cheia de ruídos abafados. Era um zunido, um vozerio e um farfalhar ininterruptos.”

Ao final do volume, surgem os habitantes do planeta – e com eles, uma ameaça totalmente inusitada, mas muito mais perigosa.

Eu tive a sorte de este ter sido o primeiro livro que li da série, em 1986, o que provavelmente foi a razão pela qual me tornei fã. Eu o comprei em um sebo de rua e anotei a data e o número 23. Era o 23º livro da minha biblioteca.

sábado, abril 18, 2026

Monteiro Lobato: Adeus

 

Em 1943 Emília encasquetou de conhecer a história da América “auto-contadamente”. Queria ouvir a história da boca do vulcão Aconcagua!
            Esse livro, que provavelmente se chamaria História da América para Crianças, nunca foi escrito por Lobato. Isso porque, além de pesquisar muito, o autor precisaria fazer uma viagem pela costa do Pacífico, beirando os Andes - um velho sonho. Não teve tempo. A partir de 1943 ele começou uma série de livros sobre os trabalhos de Hércules. E eram 12!
            Depois precisou fazer uma viagem à Argentina para tratar da edição de seus livros por lá. Foi recebido como uma celebridade e ficou um ano naquele país. Voltou ao Brasil apenas em 1947. Nessa época seus livros já eram traduzidos para as mais variadas línguas, todos com muito sucesso, em especial os infantis.
            Mas nem todo esse sucesso agradava tanto Lobato quanto as cartas que recebia de crianças.
            Uma vez uma menina, desesperada com o pedantismo dos programas oficiais, escreveu-lhe, pedindo para que Dona Benta explicasse a “regência dos verbos mais freqüentes”. Lobato, que não sabia nada do assunto, foi obrigado a recorrer a uma gramática e estudou até que pudesse explicar de forma compreensível o ponto.
            Certa vez um pai escreveu-lhe: “Com meus agradecimentos pela cartinha que o senhor mandou em resposta à do meu filho Lindenberg, dou-lhe notícia de que essa missiva está concorrendo enormemente para a cura do rapaz. Diz ele que ontem foi o dia mais feliz de sua vida”.
            Em outra carta, uma moça dizia que reprimida por todos da família, refugiava-se no Sítio do Pica Pau Amarelo, único lugar em que era realmente livre. “Cartas assim constituem os verdadeiros prêmios que possa ter um escritor no fim da vida”, admitia Lobato.
            E o escritor ia morrendo. “Sinto, às vezes, à noite, umas coisas que só posso definir como tentativas de fuga de um prisioneiro. Até agora todas as tentativas fracassaram, como têm fracassado todas as tentativas de fuga do Piantadino: mas de repente o consegue e os jornalistas no dia seguinte vêm com aquele trololó fúnebre: ‘Faleceu ontem, de síncope cardíaca o ilustre escritor Monteiro Lobato, um dos mais’, etc, etc, etc e lá vem toda a tropa de lugares comuns dos necrológios. Mas eu, o Ego que não morre porque não pode morrer, porque nada morre, nem o mais miserável átomo, estarei a rir da inópia dos jornalistas”.
            Lobato nessa época já acreditava na teoria espírita da sobrevivência da alma. Mas e se não fosse assim? E se, ao invés da continuação da vida, a morte trouxesse a extinção total do ser? “Nesse caso, vis-ótimo! Entro já de cara no Nirvana, nas delícias do não-ser! De modo que me agrada muito o que vem aí: ou a continuação da vida, mas sem os órgãos já velhos e perros, cada dia com pior funcionamento, ou NADA!”.
            No dia 28 de abril de 1948, 10 dias depois de seu aniversário, o escritor teve um espasmo vascular que deixou completamente cego. Pior dos martírios para um escritor: não podia ler uma única linha.
            Melhorou algum tempo depois, mas não tinha mais ânimo para viver. Seus dois filhos homens, Edgard e Guilherme, haviam morrido. Acrescentava-se a isso o fato de ter sido preso. A morte ia se aproximando e Lobato a aceitava como um alvará de soltura.
            “Adeus, Rangel! Nossa viagem a dois está chegando perto do fim. Continuaremos do além? Tenho planos logo que lá chegar, de contratar o Chico Xavier para psicógrafo particular, só meu - e a primeira comunicação vai ser dirigida justamente a você. Quero remover todas as tuas dúvidas”, escreveu ele ao amigo, poucos dias antes de morrer.
            Lobato faleceu no dia 04 de julho de 1948. Ao que se saiba, Chico Xavier nunca recebeu qualquer mensagem do escritor...
Em homenagem a ele, o dia 18 de abril passou a ser considerado o Dia do livro infantil

Riding the Bullet, de Stephen King

 


No final do ano de 2000 a internet nos EUA foi abalada por um fenômeno sem precedentes: o lançamento do e-book Riding the Bullet (Montando na bala), de Stephen King. O interesse foi tamanho que os sites envolvidos chegaram a travar.

A história é aparentemente prosaica. Alan Parker é um estudante da Universidade do Maine quando recebe uma ligação dizendo que sua mãe teve um derrame e foi internada. Desesperado, ele pega uma mochila e sai pela estrada pedindo carona. E acaba descobrindo, tarde demais, que a pessoa que lhe deu carona na verdade já está morta.

Por trás dessa trama fantasmagórica se esconde uma história de forte teor humano. Riding nos faz pensar sobre nossa relação com as pessoas queridas e o que elas representam para nós. É muito mais uma história sobre a morte e a vida. Não por acaso, King a escreveu quando estava em uma cama de hospital, vítima de atropelamento quase fatal.

Em Riding vemos o autor de Carrie em sua plena forma, com um terror que se encontra nos detalhes. King não precisa de monstros para provocar medo. A tensão pode estar na forma de alguém puxar a calça, ou em um cheiro de morte. Detalhes assim nos fazem entrar na história.

A única falha tem relação justamente com a mídia encontrada para divulgar o volume. São aproximadamente 60 páginas e King escreveu direto, sem fazer sequer capítulos. A tendência dos e-books são capítulos curtos, que permitem ao leitor interromper a leitura na tela no momento em que quiser.  Ou seja, Riding é um livro virtual que não tem característica de livros virtuais.

Futuramente, esse conto lançado de forma virtual foi incluído na coletânea Tudo é eventual, lançado aqui em 2005 pela editora Objetiva. A tradução ficou como Andando na bala.

Conan – A ira de Anu

 

A ira de anu, história publicada no volume 10 da revista Conan the barbarian é um exemplo das qualidades de Roy Thomas como grande narrador. Ele estava preparando a adaptação de uma história original de Conan, Inimigos em casa, quando percebeu que o primeiro parágrafo da história já dava uma outra HQ. Nesse parágrafo, Robert E. Howard informa que Conan estava preso e condenado à morte após ter imposto uma vingança a um corrupto sacerdote de Anu, que ordenara a morte de um ladrão amigo do cimério.

Thomas imaginou toda uma situação a partir desse pequeno resumo. Na história, Conan se associa a um ladrão Gunderlandês para roubar diversos tesouros que são entregues para o sacerdote de Anu, que os revende.

Conan enfrenta um homem-touro sobrenatural. 


O templo, um local onde os soldados não podem entrar, é guardado por um homem-touro que pode ser invocado pelo sacerdote.

Quando este trai a dupla e ajuda a armar uma tocaia, Conan decide vingar o colega enforcado em praça pública e acaba enfrentando o homem-touro – e é nesse ponto que temos uma típica história do cimério, com ele enfrentando uma ameaça sobrenatural.

Na sequência, a força do texto de Thomas se destaca: “Eis outro momento capaz de congelar a alma... monstro e bárbaro fitam um ao outro. Em seu quase paralisado corpo, Conan sente o bafo ardente da perdição”.



Outro que se destaca é Barry Smith, que à essa altura se sentia cada vez mais à vontade no título. A sequência do enforcamento do ladrão é um primor narrativo. Smith contorna a censura da época mostrando apenas as pernas do ladrão, mas nos cinco quadros conseguimos perceber claramente o que está acontecendo, além de acompanhar a reação do cimério.

O experimento de aprisionamento de Stanford

 

Em 1971 o psicólogo Philip Zimbardo conduziu uma experiência para entender como uma prisão afeita o comportamento dos prisioneiros. Para isso, ele selecionou 24 estudantes, considerados os mais equilibrados psicologicamente entre 70 voluntários. Como era época da impopular Guerra do Vietnã, ninguém queria ser guarda – de modo que tiveram que sortear quem seria prisioneiro e quem seria guarda.
 A experiência logo saiu do controle. Os guardas abusavam repetidamente de seu poder, humilhando e torturando psicologicamente os prisioneiros, que eram muitas vezes acordados de madrugada para contagens que duravam horas ou sessões de humilhação – que incluíam desde humilhação sexual até obrigar um estudante religioso a proferir palavrões. Até mesmo Zimbardo e seus assistentes saíram do controle, estimulando o comportamento dos guardas.
A experiência, que deveria durar duas semanas, foi abortada no sexto dia, quando o nível de descontrole dos guardas chegou ao seu auge.
O que começou como uma pesquisa sobre o comportamento dos prisioneiros terminou com um dos maiores alertas já feitos sobre os perigos do poder e do abuso de autoridade.
O episódio ganhou um filme dirigido por Kyle Patrick Alvarez e lançado pela Netflix em janeiro de 2018. O diretor busca fazer uma reconstrução o mais próxima possível dos acontecimentos reais, inclusive do ponto de vista visual (a experiência foi filmada, por isso há muitas imagens disponíveis). Além disso, o uso inteligente de closes torna tudo ainda mais pungente e assustador . As expressões faciais destacam a reação dos presos, de repente imersos em algo que não compreendem e a espiral de sadismo dos guardas, cada vez mais fascinados com as delícias do poder.
O experimento de aprisionamento de Stanford é um filme assustador sobre como pessoas normais podem se tornar psicopatas e deixar aflorar toda a sua maldade  numa situação de poder e de grupo – e sobre como essa sensação de poder vai contaminando a todos, inclusive os pesquisadores. E um grande alerta sobre os perigos do poder.

Roteiro de quadrinhos: como construir um estilo

 

O Nome da Rosa, de Umberto Eco, é o resultado de diversas influências

Na prática da escrita não existem gênios que surgem do nada, com um estilo próprio e revolucionário. Todo grande escritor é fruto de suas leituras. Todo grande escritor se assenta sobre os ombros dos que vieram antes dele. Só para citar um exemplo mais famoso: O nome da Rosa, de Umberto Eco é o resultado de uma série de influências, entre elas, principalmente Conan Doyle (o nome do protagonista, Guilherme de Barskerville, é uma referência direta aos romances de Sherlock Holmes) e Jorge Luís Borges (o nome do vilão, Jorge, é uma referência direta ao escritor argetino).
Na verdade, o estilo de um escritor é o resultado de suas influências literárias em conjunto com sua experiência de vida. Essa sopa, bem temperada, dá origem às grandes obras.
Isso não significa copiar um autor, mas absorver um pouco de vários e digerir essas influências. Com um autor você pode aprender narrativa, com outro diálogo, com outro a forma de lidar com as elipses quadrinísticas, outros sobre a estrutura da trama... cada um tem algo a nos ensinar.
Quando comecei a escrever quadrinhos durante algum tempo tive uma produção prolixa, já que a editora Nova Sampa, para a qual eu trabalhava, comprava praticamente tudo que eu escrevia. Isso me permitiu fazer um exercício que recomendo a todos novos autores: fazia histórias imitando o estilo deste ou daquele roteirista. Em uma HQ seguia o modo de escrever de Neil Gaiman, em outro, o de Grant Morrison e em outro, o de Alan Moore (só para citar os que mais me influenciaram). Para fazer isso eu precisava estudar o estilo de cada um para fazer a “história homenagem”.
Miracleman foi uma das obras que mais me influenciaram no início de carreira

Acabei gostando da brincadeira e produzi um fanzine literário, Ideias de Jeca-tatu em que, a cada número publicava a biografia de um escritor e um conto-homenagem no estilo dele. Foram homenageados Monteiro Lobato, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, entre outros. Com cada um eu aprendia algo, fosse o humor lobatiano, o clima poético de Poe, o sarcasmo sutil de Machado.

Ao final, meu próprio estilo foi se definindo. Um estilo que não era uma imitação de nenhum desses escritores ou roteiristas, mas uma mistura de todos eles, uma sopa antropofágica da qual emergiu minha própria maneira de escrever e bolar tramas. 

O traço fascinante de Wilson McCoy

 

 

Wilson McCoy é um desenhista norte-americano mais conhecido pelo seu trabalho em O Fantasma.

Nascido em 1902, ele vinha de uma família pobre cuja situação financeira piorou quando o patriarca morreu. McCoy começou a trabalhar em uma farmácia. Quando estava no ensino médio, conseguiu emprego como mensageiro em uma agência de publicidade. Como seu sonho era se tornar artista, ele treinava o desenho nas horas vagas, até que começou a conseguir alguns trabalhos de ilustração publicitária.

Já na década de 1940 ele dividiu estúdio com Ray Moore, o primeiro desenhista do Fantasma e passou a colaborar com ele no desenho da tira. Quando Moore foi convocado para lutar na II Guerra Mundial, McCoy assumiu a tira, sem assinar. Moore voltou da guerra com um ferimento que o impedia de continuar desenhando, o que fez com que o sócio se tornasse o desenhista regular do herói.

McCoy desenhou O Fantasma por todo final da década de 1940, por toda a década de 1950. Com a sua morte, em 1961, Sy Barry assumiu a tira.

McCoy começou seu trabalho no Fantasma imitando o traço noir de Ray Moore, mas logo revelou seu traço estilizado quase caricato, mas charmoso. Por ter desenhado um dos personagens mais queridos dos quadrinhos durante mais de uma década, ele angariou muitos fãs.