sexta-feira, maio 15, 2026

Demolidor – Guerreiros

 


No ano de 1986, Frank Miller estava de volta ao título do Demolidor, substituindo no roteiro o seu tutor Denny O´Neil.

O´Neil fora editor do Demolidor no início de carreira de Miller e convencera a Marvel na época e deixar o desenhista cuidar também dos roteiros. Fora ele também que ensinara ao novato a base da estrutura narrativa.

Os dois escreveram juntos o volume 226 do título, numa espécie de despedida de O´Neil de tributo ao mestre.

O Gladiador tem um bom motivo para voltar a roubar. 


Na história, o Gladiador, um ladrão regenerado, volta a roubar. Mas logo descobrimos que ele tem uma razão para isso: ladrões sequestraram Betsy, a assistente social pela qual o Gladiador é apaixonado, e ameaçam matá-la se ele não conseguir um milhão em jóias.

Enfurecido com o que acredita ser uma recaída, Matt Murdock se veste de Demolidor e percorre a cidade, disposto a dar uma lição no vilão. 

Alguns dos elementos básicos da fase seguinte, A queda de Matt Murdock já estavam ali, entrevistos nessa HQ, entre eles os transtornos psicológicos de Murdock. Mesmo quando o Gladiador nitidamente está pedindo ajuda, o Demolidor o ataca. Quando finalmente descobre o que está acontecendo, ele pensa: “Eu quase pergunto porque não me pediu ajuda... mas estremeço ao perceber que ele fez isso”.

Mazzucchelli consegue fazer com que até um diálogo fique visualmente interessante.


A sintonia entre mestre e discípulo é tão grande que fica difícil imaginar quem fez o que no roteiro (embora seja possível pensar que O´Neil tenha ficado com as partes mais reflexivas e Miller com as sequências de ação).

A arte ficou por conta de David Mazzucchelli e Denis Janke. Os dois têm traços parecidos, embora Janke tenha a tendência a deformar os personagens, especialmente na cena de ação, e Mazzucchelli seja mais contido e consiga tornar interessante até uma sequência de diálogos. Na fase seguinte da revista, Mazzucchelli, sob o roteiro genial de Miller, se revelaria um verdadeiro monstro do desenho.

Hipocondríacos

 


A moça irrompeu, esbaforida, pela porta, enquanto a enfermeira terminava de aplicar o soro.

    - Ei, não pode entrar agora!
    - Rafael, Rafael! Você está bem? Vim correndo quando soube que você estava doente.
    - Por favor, ainda não é o horário de visitas. Como a senhora conseguiu entrar? - perguntou a enfermeira, puxando a moça para fora.
    - Não, não me afaste do meu Rafael! Por favor, me diga: ele está bem?
    Nisso o doente se mexeu no leito, murmurando:
    - Beatriz? Você está aí?
    Foi o bastante. A mulher se desvencilhou dos braços da enfermeira e se jogou aos pés da cama.
    - Rafael, Rafael, você ainda está vivo?
    - Beatriz, você está aí? Eu não consigo vê-la...
    - Mas ele só está... - interveio a enfermeira.
    - Santo Deus, o que fizeram com o meu amado?! Você consegue me ouvir, querido?
    - Beatriz? É você mesmo? Agora que vou morrer, quero que saiba que te amo...
    - Oh, Rafael! Eu também te amo. Do fundo do meu coração...
    - Beatriz, por favor, me dê um último beijo.
    Houve um minuto de silêncio, ao fim do qual Beatriz pulou sobre ele, num último e ardoroso beijo de amor. A enfermeira tentou impedi-la, mas era impossível até mesmo saber quem era quem no meio dos aparelhos, seringas e tubos.
    - Querida, você sabe o quanto eu amo você. - garantiu ele, depois que se desgrudaram. Não chore por mim. Também quero que você arranje outro homem. Não perca sua juventude por mim...
    - Não, não me diga isso, meu amor, você vai sobreviver... E eu jamais terei outro homem...
    Ficaram em silêncio. Beatriz enxugava as lágrimas com um lenço.
    - Querida, agora que estou morrendo, acho que deveria saber de uma coisa. Lembra-se de Ana?
    - A Ana?
    - Sim, aquela estudava com você quando nos conhecemos...
    - Rafael, você não...
    - Eu tive um caso com ela.
    - Não, não acredito... não é possível!
    Ficou repetindo isso, balançando a cabeça em negativa, a enfermeira parada num canto, os olhos arregalados, sem saber o que fazer....
    - Beatriz... agora que estou morrendo, não faz mais sentido esconder meu caso com Maria...
    - A minha melhor amiga? Desgraçada!
    - Calma, foi coisa pequena: durou só dois anos...
    - Dois anos? Seu safado! Cretino!
    - Cretino, eu? Pensa que não sei do Paulo?
    Beatriz ficou estática.
    - Paulo?
    - Pensa que não sei? Tenho até fotos...
    - Seu cretino! - gritou a mulher e pulou no pescoço dele.
    - Gasp, gasp - fez o doente, envolvendo com as mãos o pescoço de Beatriz, que caiu no chão, sob ele.
    Rolaram pelo chão do hospital até perderem as forças e só então caíram nos braços um do outro, jurando:
    - Beatriz, eu te amo.
    - Também te amo, Rafael.
    A enfermeira ficou alguns instantes estarrecida, depois saiu do quarto, murmurando consigo:
    - Esses hipocondríacos... e era só uma infecção intestinal.

Amor com fetiche

 


Amor com fetiche, filme Hyeon-jin Park e estrelado pelos astros do K-pop Seohyun e Lee Jun-young trata do BDSM de forma leve, divertida e respeitosa.

A história é focada em dois personagens de nomes semelhantes, Jung Ji-woo e Jung Ji-hoo.

Ele é sub-gerente do departamento de relações públicas de uma empresa que trabalha com personagens infantis. Ela é funcionária desse mesmo departamento.

Um dia uma encomenda para ele é entregue para ela em decorrência dos nomes parecidos. Quando ela abre, descobre que se trata de uma coleira de BDSM, o que faz com que o rapaz entre em desespero. Num fórum da internet ele lê diversas histórias sobre pessoas que foram demitidas porque se descobriu sua preferência por BDSM. Mas ela não diz nada a ninguém. Ao contrário, ela começa a se interessar por esse mundo e a se apaixonar por Jung Ji-hoo na medida em que os dois jogam. Eles terão que lidar com seus sentimentos ao mesmo tempo em que lidam com os problemas da empresa e com o preconceito social contra a prática.

Apesar de falar de BDSM, ou talvez por isso mesmo, Amor com fetiche é um anti-50 tons e não só porque os papéis são invertidos (no filme ela é dominadora e ele submisso). Aqui não temos personagens idealizados, como um milionário tentando comprar uma submissa com presentes caros. Jung Ji-woo e Jung Ji-hoo parecem pessoas reais, com problemas reais.

O filme também evita explicações simplistas e estereotipadas para os personagens (à certa altura uma antiga namorada de Jung Ji-hoo indaga se ele foi abusado quando criança, numa óbvia crítica a essa visão).

Jung Ji-hoo é um homem inteligente, uma liderença, que exerce com eficiência seu cargo de vice-gerente, e os jogos BDSM são exatamente o momento de não estar no controle. Seu principal dilema é considerar-se um pervertido, principalmente por influência de uma ex-namorada. Já Jung Ji-woo precisa lidar com a paixão por seu parceiro ao mesmo tempo que se descobre dominadora e lida com um chefe machista.

Essa caracterização complexa e ao mesmo tempo “fofa” dos personagens ganha muito com as atuações Seohyun e Lee Jun-young.   

Amor com limites consegue mesclar os temas do preconceito, da auto-aceitação com cenas divertidas e leves, como quando a dominadora leva seu submisso para passear com a mão presa à dela por uma corrente. A cena da lanchonete é memorável por seu humor leve.

Acrescente a isso uma trama bem construída com vários ganchos (reparem na caneta de cenoura, que terá muita importância na história) e temos um filme que deve agradar mesmo quem não se interessa pelo tema. 

Monstro do Pântano – O Jardim das delícias terrenas

 



O número 53 da revista Swamp Thing represtou o auge da guerra do Monstro do Pântano contra Gothan City. Nos números anteriores, Abbe Cable havia sido presa, acusada de “crime contra a natureza” por ter um relacionamento com o Monstro do Pântano. Ela fugira para Gothan e foi é lá que o Monstro do Pântano a encontra, presa. Ao ver recusada sua exigência de que soltem sua namorada, ele decide usar suas habilidades contra a cidade.

A maravilhosa capa de John totleben já antecipava muito que viria no interior. Nela, um monstro do pântano gigante surge no meio da cidade e suas mãos em forma de raízes aproximam-se para agarrar Batman, que se equilibra sobre uma coluna.

Gothan é transformada num paraíso... ou num inferno?


A história começa com uma matéria jornalística sobre o que aconteceu com Gothan.

Uma rede vegetação impede que carros entrem ou saiam da cidade. Com a cidade toda transformada em um jardim, a ordem social é alterada. Alguns enveredam pelo crime, outros se entregam ao prazer idílico no meio da enorme quantidade de frutas.

Muitas pessoas começam uma peregrinação na direção de gothan em busca de respostas ou simplesmente fascinadas com a figura do Monstro do Pântano. Entre elas um hippie que já havia aparecido numa história que mostrava os poderes lisérgicos do tubérculo expelido pelo personagem. Também o rapaz da história do cara de fuça, que abandonara a esposa quando descobrira que ela passara a noite ao lado do mendigo radioativo.

Muitos comem os turbéculos e têm experiências alucinógenas. 


Claro que toda essa mudança não poderia ocorrer sem a intervenção de Batman, o defensor de Gothan, numa das melhores sequências de toda a série. Moore mexe completamente com todos os cânones da DC ao mostrar um cavaleiro das trevas cujos recursos parecem brincadeira diante de um personagem muito mais poderoso.

É Batman, aliás, que protagoniza um diálogo essencial ao falar com o prefeito e aconselhar a libertar Abbe Cable.

O Monstro do Pântano se transforma em objeto de culto. 


“Você não entende”, diz o prefeito. “Aquela mulher teve um relacionamento com uma criatura não-humana. Não podemos abrir exceções à lei”.

“Sem exceções, certo. Nesse caso, sugiro que vocês comecem a prender todos os outros seres não humanos que possam estar mantendo relações fora de suas espécies. Se querem levar isso até o fim, a condição de não-humano não se limita à criatura do pântano. Vejamos... vcoê precisam prender o Gavião negro, o Metamorfo... e a Estelar dos Titãs. A raça dela, creio, evoluiu dos gatos. Sem mencionar o Caçador de Marte e o Capitão Átomo... além de, obviamente, como se chama mesmo? Aquele que mora em Metrópolis”.

Batman conseguirá deter o Monstro do Pântano? 


A fala explicita a metáfora de Moore, que usou a história para refletir sobre como a sociedade julga relações não convencionais. Entretanto, os quadrinhos de super-heróis estão repletos de relações não convencionais, a exemplo do alienígena super-homem que se relaciona com a humana Lois Lane. E vale uma reflexão: como a pessoa que considera normal uma relação entre um alienígena e uma humana pode julgar outros tipos de relações?

A história, que supostamente teria um final feliz, acaba com um dos momentos mais dramáticos de toda a história do título.

Em tempo: o título da história, O jardim das delícias terrenas, é uma referência a uma pintura de tríptico de Hieronymus Bosch, um tríplico (uma imagem dividida em três), que apresenta em uma aba o céu no outro o inferno e no meio uma cena simbolizando os prazeres da carne, com os participantes desinibidos e sem culpa se entregando a atividades sexuais. As pessoas representadas no meio do tríplico estão entre o paraíso e o inferno.

O título da história acrescenta uma camada a mais de significado e permite diversas interpretações sobre a simbologia da roteiro escrito por Alan Moore. Sua história seria uma celebração do prazer idílico ou um alerta de como como esse prazer pode levar à perdição? Sem falar nas interpretações relacionadas ao próprio personagem, mas estas é impossível discutir sem dar um tremendo spoiller sobre o final da história.

Enfim, Alan Moore constrói uma história que parece simples, mas carregada de complexidades e simbologias.

Revista Imaginário publica artigo de Gian Danton sobre Jornalismo em Quadrinhos

 


 

O número 24 da revista Imaginário publicou um artigo meu e do amigo Rafael Senra intitulado "Jornalismo e quadrinhos - uma relação antiga". No artigo nós fazemos uma abordagem história entre jornais e HQs até chegar o surgimento do Jornalismo em Quadrinhos. 



Imaginário é a principal revista acadêmica brasileira voltada para temas de cultura pop. 

É possível baixar gratuitamente a revista clicando aqui

Perry Rhodan – Nave de Reconhecimento 008


Nos números 241 e 242, um grupo avançado dos Terranos acaba descobrindo que o transmissor que desperta todos os Mobys – seres imensos que se alimentam de energia e são capazes de provocar explosões nucleares destrutivas para um planeta – está situado em uma lua em um sistema triplo. O número 243 gira em torno das tentativas de destruição dessa lua.

Ocorre que seres que protegem Andro-Beta colocaram um cinturão de naves ao redor da lua para protegê-la. Como conseguir destruir um local tão protegido? Esse é o desafio mostrado no volume.

O livro é escrito por Kurt Mahr, um autor mediano, que às vezes acerta e às vezes erra feio. Aqui, ele é simplesmente modorrento. O que poderia ser uma grande aventura torna-se uma narrativa cansativa.

A capa original alemã. 


Em vez de focar nos medalhões da série, Mahr foca num grupo de uma pequena nave, cujos membros acabam sendo aprisionados pelo inimigo – uma estratégia parecida com a de William Voltz nos livros anteriores. Mas, enquanto Voltz desenvolve muito bem todos os personagens e cria um grupo carismático, Mahr mal e mal desenvolve um.

Para piorar, temos, aqui, de novo, as péssimas descrições do autor, que mais confundem do que esclarecem, a exemplo de:

“Um grito abafado saiu da garganta de Bob. Estupefato e incapaz de fazer qualquer movimento, ficou com o corpo ligeiramente inclinado, olhando fixamente para o corpo que jazia imóvel aos seus pés. Dos estranhos olhos, grandes e rígidos, parecia sair uma força magnética que o atraía irresistivelmente. Inclinou-se mais fortemente, e um sino parecia repicar num dos recantos mais afastados de sua inteligência.”

Há um detalhe curioso que reflete diretamente as visões de mundo de cada autor. Enquanto nos volumes 241 e 242, escritos por William Voltz, os protagonistas salvam a humanidade, mas recebem uma reprimenda (reflexo direto da visão pacifista do autor), já neste, Mahr coloca o protagonista sendo promovido a Primeiro-Tenente.

Fundo do baú - Papai sabe nada

 



Quem acha que Simpsons foi a primeira série animada voltada para o público adulto, deveria conhecer Papai sabe nada (em inglês: Wait Till Your Father Gets Home). Produzido pela Hanna-Barbera e levado ao ar nos EUA de 1972 a 1974, o programa satirizava a sociedade da época incluindo forte crítica social.

O protagonista da série é Harry Boyle, um homem de meia-idade, calvo, trabalhador de um atacadista de suprimentos para restaurantes. A maioria das histórias girava em torno do conflito de gerações com os filhos Chet e Jamie, dois adolescentes. Em episódio, por exemplo, Harry ganha será contemplado com uma honraria em uma grande festa, mas o filho compra para a festa uma roupa extremamente colorida, bem ao estilo hippie da época. Já a filha compra um vestido com a parte de cima transparente. “Assim todos vão ver o seu sutiã, querida!”, surpreende-se o pai. “Quem disse que eu vou usar sutião?”, responde ela.

Se por um lado Harry está em constante conflito com a geração hippie, por outro lado, ele tem que aturar o vizinho de extrema direita Ralph Kane, que acha que todos são comunistas. Em um episódio eles passam na frente de um museu de artes onde está sendo exibido o Davi, de Michelangelo. Um protesto, organizado por Kane, traz cartazes do tipo: “Mantenha a América limpa!”; “Condenação à sujeira!”; “Diga não à pornografia!”. Sequências como essa mostram como o seriado, apesar de ter sido feito no início da década de 1970, ainda é muito atual.

Exibido no horário nobre, Papai sabe nada teve três temporadas, com um total de 48 episódios. Foi o primeiro desenho animado exibido no horário nobre a ter mais de uma temporada desde Os Flintstones.

Uma curiosidade é que o título nacional é uma referência a uma série humorística criada por Renato Corte Real e exibido na década de 1960 pela TV Record, com grande sucesso. A série brasileira, por outro lado, era uma referência satírica ao seriado americano Papai sabe tudo.

quinta-feira, maio 14, 2026

Os inumanos

 



 Os Inumamos, como muitas outras coisas na Marvel, surgiram sem planejamento.
Em Fantastic Four 36 o Quarteto enfrentava um grupo de vilões composto por três personagens já conhecidos, Mago, Homem-areia e Pete Pote de Pasta e uma novata com longos cabelos vermelhos que podia movimentar à vontade: a Medusa.
A dupla Kirby Lee percebeu que havia potencial na personagem e resolveram lhe dar uma história: ela fazia parte de uma raça de seres super-desenvolvidos que viviam escondidos da humanidade, os Inumanos. O grupo estreou em Fantastic Four 45 e mostrava, além de Medusa, Dentinho, um cachorro buldogue capaz de teleportar a si e a outros, Gorgon, de cascos poderosos, capazes de produzir terremotos, Karnak, cujos golpes acertavam sempre o ponto fraco do oponente, Cristalys e o rei, Raio Negro, um ser angustiado, que lidera seu povo sem falar, pois uma única palavra pronunciada por ele pode provocar grande destruição. A família real também tinha sua ovelha negra, Máximus, sempre disposto a destronar Raio Negro.
Jack Kirby deu uma origem para os personagens. 


O grupo chamou a atenção dos fãs, que começaram a escrever para a editora pedindo histórias solo dos personagens. Stan Lee percebeu aí uma oportunidade, mas havia um problema: a editora na época estava atrelada a um contrato de distribuição que restringia o número de revistas nas bancas. A solução foi colocar histórias curtas dos Inumanos na revista do Thor.
As histórias foram escritas e desenhadas por Jack Kirby, que aproveitou para rechear as histórias de ficção científica, dando uma origem ao grupo: eles haviam sido fruto de manipulação genética por parte de uma raça extraterrestre, os Krees, por isso desenvolveram grande tecnologia, enquanto a humanidade ainda vivia em cavernas. A capacidade de Kirby, de contar histórias épicas em poucas páginas, associada a seu desenho expressivo fizeram dessa uma das séries mais interessantes da época.
As histórias tinham uma forte pegada de ficção científica. 



Pouco tempo depois, livre do acordo de distribuição que restringia as revistas, Lee criou uma nova publicação, Amazing Adventures, em que Os Inumanos dividiam páginas com a Viúva Negra. Kirby agora tinha mais páginas e podia explorar melhor a ação e narrar seus épicos. Quando o Rei saiu do título, foi substituído pela dupla Roy Thomas e Neal Adams. Adams já era uma estrela na época e aproveitou elementos visuais de Kirby, mas deu à série características próprias, inclusive uma preocupação social, em uma trama que envolvia a questão racial nos EUA. Thomas foi logo substituído por Gerry Conway, que manteve o nível do texto, em perfeita sintonia com o desenho.     
Neal Adms imprimiu seu próprio estilo ao título. 


   
Entretanto, a partir do número 9, Adams foi substituído por Mike Sekowsky. Para uma série que havia sido desenhada por Kirby e Adams era uma queda muito brusca e a revista não sobreviveu. Entretanto, os Inumanos continuaram fazendo parte da cronologia da Marvel e fazendo aparições ocasionais em outros títulos. Na década de 1980 eles voltaram a ter uma forte participação nas histórias do Quarteto, sob a batuta de John Byrne. No início dos anos 2000 eles ganharam uma aclamada série escrita por Paulo Jenkis e arte de Jae Lee.
Mais recentemente o grupo protagonizou uma série de oito episódios exibidos pelo canal ABC.

Mort Cinder, o homem das mil mortes

 

Hector Oesterheld é certamente um dos maiores escritores de quadrinhos de todos os tempos, rivalizando apenas como Alan Moore. Alberto Breccia é um dos mais revolucionários desenhistas de todos os tempos, tendo criado um estilo que influenciou diversos outros artistas, entre eles Frank Miller. A união desses dois grandes talentos só poderia resultar em uma obra-prima. E essa é a melhor expressão para descrever o álbum Mort Cinder, publicado recentemente pela editora Figura após uma campanha no Catarse.

Mort Cinder poderia ser descrito como a história de um homem imortal, mas essa é apenas uma simplificação grosseira. Mort Cinder é uma história de realismo fantástico, um suspense inigualável, uma obra com forte conteúdo político e histórico.
Quando a série começou a ser publicada na revista Misterix, Breccia pediu a Oesterheld que atrasasse  o surgimento do protagonista porque ainda não havia se decidido quanto à sua caracterização. Mestre absoluto da narrativa, Oesterheld transformou essa limitação em um dos maiores méritos da história. Assim, acompanhamos um antiquário, Ezra Winston, e diversos fatos estranhos que ocorrem com ele, fatos que irão se acumulando até o encontro com Mort Cinder, renascido após ser enforcado. Mas para presenciar esse renascimento – e ajudar o herói – Ezra precisará enfrentar os misteriosos olhos de chumbo. Isso introduz um senso de mistério único na história e faz desse senso de mistério o motor da narrativa. Também introduz uma espécie de realismo fantástico, que lembra muito Jorge Luís Borges.
Breccia era um mestre da experimentação. 


Soma-se isso ao texto poderoso de Oesterheld: “A estrada se faz trilha. Os retalhos de neblina se alongaram à minha passagem. Rãs coaxaram e era como avançar por um oceano morto, já decomposto. A sombra ao meu lado se mexeu”. Quantos roteiristas de quadrinhos chegaram a esse nível de refinamento do texto? Quantos conseguiram criar uma atmosfera tão opressiva apenas com algumas palavras?
Por outro lado, a arte de Breccia é tão impactante, tão inovadora em que cada quadro merece ser visto várias e várias vezes. Breccia não tem limites: usa borrões, cortes de gilette, parece não existir nada que ele não experimente para ajudar a criar o clima da HQ.


Então imagine uma HQ em que cada quadro é uma obra de arte a ser vista e deleitada. E no qual cada balão tem a força e o valor de uma poesia inteira. Esse é Mort Cinder.
O álbum tem 232 páginas, em formato em capa dura, formato A4. É uma publicação de luxo, cujo formato permite apreciar melhor a arte de Breccia. Há um inconveniente: como a publicação original da série, a revista Misterix, variou do formato horizontal para o vertical, a leitura de algumas páginas fica prejudicada, obrigando o leitor a virar o volume. Mas é compreensível: isso foi feito para evitar adulterar a arte original.

Os crimes do olho de boi

 


Marcos Rey foi um dos principais roteiristas das pornochanchadas brasileiras da década de 1970. Também foi um autor juvenil de sucesso, escrevendo principalmente histórias policiais. Ele mistura as duas coisas no romance Os crimes do olho de boi, publicado pela editora Global em 2010.
Na história, um detetive amador, sua governanta germânica, uma cantora de boate e um jornalista tentam desvendar um mistério: várias pessoas ricas, com um único herdeiro, morreram recentemente. A suspeita é de que elas foram assassinadas por uma quadrilha, que ficaria com parte da herança.
Rey é um mestre da criação de personagens, dos diálogos inspirados e da narrativa fluída, daquelas que tornam impossível largar um livro pela metade. Todas essas qualidades aparecem em Os crimes do olho de boi acrescidas de mais um deleite: o pendor único para retratar erotismo sem ser pornográfico, com um leve toque de humor.
O protagonista da história é Adão Flores, um empresário que agencia antigos artistas. Ele ficou famoso com um programa de TV chamado “Você é o detetive”, em que vários convidados eram desafiados a descobrir quem era o assassino de uma história policial. Adão participara uma vez e abocanhara o prêmio com tanta segurança e estilo na exposição que se tornou atração fixa, transformando-se em uma celebridade, ainda mais depois um amigo jornalista continuou contando suas peripécias, a maioria delas ficcionais, em sua coluna no jornal.
A história começa quando esse amigo jornalista desafia Adão a descobrir se há uma conexão entre os vários assassinatos de ricaços.
O resultado é um livro de 190 páginas que passam voando, deliciosas não só pela trama policial, mas pelo desfile de personagens secundários carismáticos:a  governanta germânica apaixonada pelo patrão, a contora Diana Bandida, com a qual Adão tem, todo ano, um encontro de dia inteiro em um hotel, no dia 23 de dezembro.
O resultado é como se lêssemos uma pornochanchada policial, e com maravilhosas sequências, como a seguir, de um momento íntimo do detetive com sua partner:
“Diana ergeu-se e sem trilha sonora de streaptease ficou de calcinha e sutiã.
- Acha que ainda estou em forma, Flores?
Saiu fumaça dos ouvidos e narinas de Adão, mas ela não percebeu. O visitante, embora sufocado, pôde pronunciar algumas palavras:
- Ainda está com muito pano, não dá para emitir uma opinião honesta”.

As capas de Perry Rhodan ao redor do mundo

  


Perry Rhodan é a mais extensa série de ficção científia literária de todos os tempos. Na Alemanha, onde surgiu, já foram publicados mais de 3 mil livros. Mas vários outros países publicaram ou ainda publicam a série, da Rússia ao Peru, da República Tcheca à Grécia. Um exercício interessante é observar as capas em cada país. Muitos usaram as ilustrações originais, de Johnny Buck. Outros países usaram as imagens das capas da edição norte-americana, realizados por Gray Morrows. Outros, como é o caso do Japão, fizeram capas totalmente originais, muitas das quais extremamente curiosas. 

Fiz uma seleção dos cinco primeiros livros da série publicados em diversos países. Como a série foi publicada em muitos locais, optei por colocar na seleção apenas aqueles que tiveram pelo menos cinco edições lançadas. 

Algo curioso é perceber que em muitos países os editores preferiram pular histórias, de modo que a ordem desses locais não é a mesma ordem alemã. O Brasil foi um dos poucos locais em que os livros foram publicados exatamente na mesma ordem germânica. 

Confira as capas.

Alemanha

As capas originais eram feitas  Johnny Buck, um artista que ilustrou capas de milhares de exemplares e cuja arte é cultuada pelos fãs alemãs. 



Estados Unidos 
O editor norte-americano preferiu encomendar capas originais para o artista Gray Morrow, que na maioria das vezes fazia imagens que não tinham relação nenhuma com a trama. 
O editor também mudou o formato, publicando Perry Rhodan com livro de bolso. Dá para perceber também que os editores pularam números. 







Brasil 
Os editores brasileiros usaram o formato e a diagramação da edição norte-americana, mas misturou capas americanas e alemães. 







Itália 
Os editores italianos usaram o mesmo formato e diagramação norte-americanos, mas não se contentaram em pular números. A ordem dos livros é totalmente aleatória. Os leitores não devem ter entendido nada. Não por acaso, a série só durou quatro números. 




República Tcheca
A República Tcheca foi um dos países que mais publicou Perry Rhodan. Foram mais de 2 mil exemplares! Eles usaram as ilustrações originais, mas deram um visual mais arrojado para a diagramação. 





Holanda 
O editor holandês preferiu encomendar ilustrações orignais e o resultado foi muito positivo. Infelizmente o impacto das imagens era prejudicado por um capa que privilegiava o título e o resumo da história. 







Grã Bretanha 
Sem dúvida, algumas das mais lindas capas são da edição inglesa, embora todas elas sejam imagens de naves e não tenham relação com as histórias (apenas nos volumes 16,17 e 32 apareciam pessoas). Mais uma vez temos um caso de editor que preferiu pular volumes. 






França 
A edição francesa usou imagens orignais. A diagramação era interessante, embora deixasse perdida toda a parte posterior. Mais uma vez temos um caso em que foram pulados volumes. 






Japão 
Certamente algumas das mais belas - e também das mais loucas - capas são da edição japonesa. Em uma das capas aparece até um jogador de futebol!