sexta-feira, julho 03, 2026

Em nome de Deus

 


João de Deus era uma unanimidade nacional, visto como um homem santo, que não cobrava por suas curas e vivia uma vida humilde. Parecia ser alguém acima de qualquer suspeita, até que a equipe do programa Conversa com Bial, da Rede Globo, resolvesse entrevistá-lo. Ao assistir um documentário sobre ele, o apresentador desconfiou de algo e colocou sua equipe para investigar.  Com o tempo se revelou uma história de horror, que envolvia o estupro de centenas de mulheres, homicícios, tentativas de homicícios, contrabando, tráfico de drogas, armas e muito, muito dinheiro.
A história se tornou tão grande que levou a equipe produzir um documentário em seis partes, “Em nome de Deus”, disponível na plataforma GloboPlay.  
O documentário se debruça sobre o programa que denunciou o médium e fez com que toda a história fosse revelada. Mas vai muito além.
O médium já tinha sido denunciado por estupro e foi inocentado pela juíza. Os casos remontam até a década de 1970, quando ele, após violentar uma jovem, tentou matá-la com vários tiros.
Mas nada disso vinha público porque havia uma extensa rede de proteção, que envolvia policiais, juízes e até jagunços, que ameaçavam quem tentasse denunciá-lo.
Como um Al Capone moderno, João de Deus cobrava uma mesada de todos os empreendimentos na pequena cidade de Abadiania: de taxistas a donos de pousadas, todos pagavam, ou recaiam em sua fúria.
O programa também esmiúça o surgimento do médium, desde a infância pobre até a fama internacional. Nesses trechos, inclusive, fica muito clara a psicopatia do mesmo: a cada vez que contava como iniciou sua mediunidade, ele mudava a versão, como se quisesse aperfeiçoar a história.
Em nome de Deus é um documentário chocante e relevante, atrapalhado apenas pelo artificialismo do padrão Globo em algumas sequências.

Perry Rhodan – Atenção, teleportadores!

 


Uma das maiores ameaças enfrentadas pelos terranos no quinto ciclo é a fortaleza dos maahks, uma nave espacial no formato de roda gigante tão monstruosamente grande que se configurava um verdadeiro planeta, com centenas de quilômetros de extensão. Para derrotar um artefato tão inexpugnável, Rhodan recruta seus mutantes teleportadores Tako Kakuta, Ras Tschubal e Gucky. Esse é o mote do número 219 da série, escrito por Kurt Mahr.

Este volume apresenta o mesmo problema da maioria dos livros da série Perry Rhodan: o escritor precisava cumprir um determinado número de páginas e, para isso, enrolava o mais que podia.

Boa parte dessa enrolação acontece no planeta Kahalo, cujas pirâmides coordenam o transmissor estrelar, capaz de transportar naves até galáxias distantes. No meio de tudo isso, os terranos encontram, vagando no espaço, corpos de astronautas amarrados. Isso poderia ser uma antecipação de algo futuro, um flash foward, como se diz em roteiro, mas parece fazer parte da narrativa linear, de modo que a descoberta desses corpos fica jogada apenas como uma ponta solta. Nos números seguintes isso teria alguma explicação?

A capa alemã. 


Um aspecto interessante na missão dos mutantes é o fato de que, quando se teleportam para a fortaleza, eles encontrarem uma criança maahk, o que poderia ser usado para humanizar o inimigo. Mas o escritor não se aprofunda muito e quando a criança reaparece, lá na frente, é mostrada de forma estereotipada e odiosa.

Do ponto de vista técnico, o volume traz uma informação interessante sobre a tecnologia dos maahks: eles usam, para decolar suas naves, uma tecnologia de “campos catapulta”, que pode ser usada também para impedir a ação de teleportadores – o que garante os momentos de maior suspense da história. Vale lembrar que Kurt Mahr era, entre os autores, o que tinha mais conhecimento técnico e científico, servindo muitas vezes como consultor para a série.

O volume termina com um gancho, deixando os mutantes em uma situação de extremo perigo, de modo a provocar no leitor o interesse em ler o número seguinte.

No final, Atenção, teleportadores poderia ser um volume interessante... se tivesse pelo menos 30% a menos de páginas.

Uma curiosidade é com relação à capa. Ela representaria os mutantes perdidos no espaço ou os corpos encontrados logo no início da história?

O curupira

 


O curupira foi o primeiro ser encantado brasileiro registrado pelos europeus. Em uma carta de 1560, José de Anchieta já o citava. Em 1663, o padre Simão de Vasconcelas referia-se a ele como um gênio de pensamento “num exótico de mentiras e enganos”.
Esse ser mitológico mudava de local para local, chegando mesmo a mudar de nome: Curupira na Amazônia e Caipora ou Caapora no sul. Em comum, a característica de ser o protetor da floresta, que castiga quem mata caça pequena ou fêmeas ou prejudica a floresta de alguma forma.
Segundo Câmara Cascudo, “Vigiando árvores, dirigindo manadas de porcos-do-mato, arracadas de veados e pacas, assobiando estridentemente, passa a figura esguia e torta do Curupira, o mais vivo dos deuses da floresta tropical, presente às histórias infantis aos episódios de caça, aos acidentes da luta do homem n´Amazônia. É o eplicador dos mistérios, passando seus cabelos de fogo, seus pés virados como Enotocetos de Mégasthènes, registrados em Estrabão, seus dentes azuis, seus assobios açoitantes, na memória de todas as recordações”.
O maestro paraense Waldemar Henrique eternizou-o numa canção:

“Já andei três dias e três noites pelo mato
Sem parar
E no meu caminho não encontrei nenhuma
Caça pra matar
Só escuto pela frente pelo lado o Curupira
Me chamar
Ora aqui, ora ali, se escondendo sem
Parar num só lugar
Por esse danado muitas vezes me perdi
Na caminhada
E nem padre nosso me livrou desse
Danado da estrada”

O curupira aparece no meu romance Cabanagem desenhado pelo grande quadrinista Laudo numa imagem que representa bem o caráter do mestre do engano.

Compre o livro Cabanagem no site da editora: https://aveceditora.com.br/produto/cabanagem

Fundo do baú - Matraca Trica e Fofoquinha

 


Matraca Trica e Fofoquinha (Breezly and Sneezly no original) é mais um dos desenhos animados da Hanna-Barbera que junta um personagem alto supostamente esperto e um ajudante baixinho que o idolatra. No caso temo um urso polar, Matraca Trica e uma foca que vive gripada e espirrando, Fofoquinha.

A maioria das histórias gira em torno das tentativas de Matraca de entrar no quartel comandado pelo coronel Mandragão. As tentativas sempre terminam em muita confusão, para desespero do coronel.

Em um dos episódios, Matraca compra uma geladeira (“Não consigo resistir à lábia de um vendedor”) e quer entrar no quartel para ligar o aparelho. Claro que o coronel descobre o plano e coloca os dois para correr – e eles vão se esconder exatamente no campo de tiro para tanques, quase sempre se posicionando dentro ou atrás de algum alvo.

Lançado no ano de 1964, o desenho teve 23 episódios produzidos.

X-men – fuja para sobreviver!

 


Em The Uncanny X-men 131 a saga da Fênix Negra, que começara tímida, estava no que parecia o auge da ação e do drama.

A edição começa com Kitty Pryde fugindo dos homens do Clube do Inferno, numa splash page impressionante com a menina desesperada em primeiro plano enquanto, sem segundo plano, as luzes dos faróis de um carro rompem a escuridão da noite. Nas laterais, os rostos dos X-men no estilo que só John Byrne sabia fazer. O texto de Chris Claremont é igualmente impactante: “A hora: madrugada de sábada para domingo. O lugar: um beco deserto do centro de Chicago. Por várias vezes Kitty Pryde pensou ter despistado seus perseguidores...mas eles sempre a reencontram!”.



Na página seguinte, Kitty cai, mas antes que seja aprisionada aparece a Fênix. A imagem é impressionante e antecipa os rumos funestos que a série teria. A heroína simplesmente destroça o carro, seus cabelos ruivos esvoaçantes desenhados como fogo flamejante. Byrne também fazia uma aura de poder com uma camada branca em volta do corpo rodeada por um fluxo amarelo. O efeito era de uma chama. Cristal espanta-se: “Perto disso, minha habilidade mutante de criar luzes não é nada!”.



Na sequência, Fênix lê a mente de um dos homens do Clube do Inferno e descobre onde os outros X-men estão mantidos prisioneiros.

A sequência mais incrível dessa história acontece quando os mutantes já invadiram o local e a Fênix e a Rainha branca duelam. Byrne manipulava perfeitamente os elementos visuais e coloca um fundo branco com a Fênix encoberta pelo pássaro defogo atacando enquanto a vilã se defende com um raio verde. Ororo olha espantada: “O efeito Fênix é tão lindo... e tão terrível! Como a própria Jean”.



No final, parece que tudo acabou. Mal sabia o leitor que era só o começo. O que parecia o auge da saga era apenas uma pequena amostra do que viria pela frente.

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 26.

Demolidor - Por Deus e pela pátria

 


A sexta e sétima parte da saga a queda de murdock gira todo em torno de Bazuca, um agente norte-americano usado pelo governo na América Latina. A história começa com ele em ação na Nicaragua. Em sua arma há uma contagem de corpos: 162 e ele promete superar esse número. Uma versão acéfala do Capitão América, com a bandeira norte-americana tatuada no rosto, ele toma drogas o tempo todo e repete que está salvando “nossos soldados”.

A referência é óbvia: o personagem Rambo, que, depois de um ótimo filme sobre um veterano da guerra que não conseguia se adaptar nos EUA, tornara-se apenas uma bandeira ambulante nos filmes seguintes, como no segundo, em que ele, sozinho, vence a guerra do Vietnã para salvar soldados norte-americanos presos.

Bazuca é uma referência ao Rambo. 


E é esse homem que o Rei pretende colocar em ação em Nova York, mais precisamente na Cozinha do Inferno, lar de Matt Murdock. A ideia é fazer com que o herói seja atraído pela mortandade e, ao tentar impedir o Bazuca, morra no processo.

Frank Miller estava num crescendo tão grande em termos de narrativa que o leitor fica sem fôlego. Ele introduz até uma trama paralela, focada no repórter Bem Urich, que visita na cadeia a enfermeira que quebrou seu dedo, quase matou sua esposa e assassinou o policial que poderia denunciar o esquema do rei. Mas um dos policiais que o acompanha é um agente do rei, com ordens de matar todos ali.

Uma aula de narrativa. 


Aqui vale destacar o talento do desenhista David Mazzucchelli, que à essa altura havia simplificado o seu traço (eliminando quase completamente a hachura), tornando-o ainda mais expressivo. Mazzucchelli consegue passar com perfeição a sensação de uma ação ocorrendo em um lugar apertado ao mostrar os personagens sempre cortados, como se imagem precisasse ser espremida para caber no quadrinho.

A própria luta do Demolidor contra Bazuca, que ocupa várias páginas, é um exemplo da habilidade de Miller e Mazzucchelli.

Um final feliz sintetizado em uma imagem. 


Curiosamente, apesar de todas as desgraças, a série termina com um final feliz, com Matt e Karen passeando pelas ruas da Cozinha do Inferno. Mazzucchelli desenha Page como uma moça bonita e sorridente, num contraste total com a viciada de olhos fundos e olhar perdido da maior parte da história. Só por essa imagem sabemos que a moça conseguiu superar o vício.

quinta-feira, julho 02, 2026

Tarzan: a aventura chega aos quadrinhos

 

 

Além de Buck Rogers, outro grande expoente da fase aventura foi Tarzan. O personagem foi criado por Edgar Rice Burroughs em 1912, numa revista pulp. O primeiro livro foi vendido para a editora por apenas 700 dólares. Um ano depois já tinha se tornado um dos maiores best sellers da literatura universal.
Com o tempo o rei dos macacos tornou-se o mais consagrado personagem do século XX e legou ao seu criador uma fortuna de 20 milhões de dólares.
Ao contrário da versão cinematográfica, em que Tarzan era um selvagem monossilábico, na literatura ele era um Lord inglês, que fora criado pelos macacos e, de tão inteligente, aprendera a ler sozinho. Seu nome, na linguagem dos macacos criada por Burroughs, significa pele branca (Tar – branca, zan – pele).
     Dizem que quando se deparou com o original de um livro de Tarzan, o editor teria dito: “É a história mais excitante que já conheci!”.
Logo cartas de fãs começaram a chegar na editora exigindo uma segunda aventura. Os livros, 26 ao todo, foram traduzidos em 31 línguas, incluindo o mandarim e o esperanto. Até os soviéticos se renderam ao carisma do rei dos macacos.
O personagem estreou no cinema em 1918, com Tarzan dos Macacos, sendo o primeiro filme da história a arrecadar mais de um milhão de dólares.
Com o dinheiro que ganhou, Burroughs montou uma fazenda em homenagem ao personagem e deu-lhe o nome de Tarzana.
No início da década de 1930 a marca Tarzan estava em tudo. Além do cinema, o personagem estrelava propagandas de cremes dentais, sorvetes e até gasolina (“Dirija com o poder de Tarzan!”). Eram vendidos a faca de tarzan, estatuetas de Tarzan e calções de Tarzan.
Com tanto sucesso, não foi surpresa quando o personagem apareceu nas tiras de quadrinhos. Mas, com medo de que seu personagem fosse mais uma vez deturpado, como foi no cinema, Burroughs exigiu que a versão fosse a mais fiel possível.  
Para ilustrá-la foi chamado Harold Foster, um desenhista publicitário de talento.
Foster, antes de se tornar desenhista, fizera de tudo um pouco. Passara a infância nas florestas do Canadá, caçando, pescando. Depois trabalhara como guarda-florestal. Depois disso, vendeu jornais, foi boxeador profissional e  garimpeiro. Chegou a descobrir uma mina no valor de um milhão de dólares, que lhe foi usurpada.
Em 1921 foi de bicicleta a Chicago, onde estudou desenho de noite enquanto trabalhava de dia.
Embora o tempo de execução fosse muito curto, Foster acabou aceitando desenhar as tiras diárias de Tarzan, mas se recusou a usar balões. O texto e os diálogos eram colocados abaixo dos quadros, um recurso que lhe dava a certeza de que seu desenho não sofreria perdas.
A primeira tira de Tarzan surgiu no dia 7 de janeiro de 1929 e foi um sucesso imediato. Além da popularidade do personagem, a história ganhava muito com o ótimo traço de Hall Foster, um dos mais perfeitos desenhistas de quadrinhos de todos os tempos.
Depois de 60 tiras, Foster completou a história do primeiro livro e abandonou o personagem. Fazer uma tira por dia era um sufoco grande demais. Mas, como Burroughs gostava muito de seu traço, ele foi chamado para fazer páginas dominicais, um novo formato no qual ele se tornaria mestre.
Em 1937 ele abandona Tarzan para se dedicar ao Príncipe Valente, uma criação sua, e é substituído por Burne Hogarth. Hogarth era considerado um mestre da anatomia e levou o personagem ao seu ponto alto. Depois dele vieram outros nomes igualmente importantes, como Russ Manning e Joe Kubert.
Realista somente no desenho, o Tarzan dos quadrinhos era, acima de tu­do, um aventureiro. Encontrando cida­des perdidas (parece que havia muitas naquela época), lutando com gorilas gigantes­cos, enfrentando dinossauros e salvan­do lindas princesas, o único limite para suas aventuras era a imaginação dos ro­teiristas... e esse limite era tão elástico quanto o interesse dos leitores.

O menino que adivinhava, de Marcos Rey

 


Marcos Rey era um grande escritor policial. Sua especialidade era captar os tipos e vozes urbanas em deliciosas tramas de crimes. Quando foi convidado para a coleção Vaga-lume, duvidou que fosse capaz de adaptar seu estilo para adolescentes. O sucesso de livros como “O mistério do cinco estrelas” mostra o quanto ele foi bem-sucedido. Mas seria ele capaz de escrever para crianças?
O volume O menino que adivinhava, da coleção Vaga-lume Júnior, mostra que sim.
A história trata de um menino, José, que descobre ter o dom da adivinhação. Esse dom se manifesta primeiro em coisas cotidianas, como descobrir quais assuntos irão cair na prova, ou qual o resultado de um jogo de futebol. Mas quando ele chuta que um astro de TV irá se envolver em um acidente de helicóptero e acerta a previsão, acaba se tornando uma celebridade – contra a própria vontade. A fama irá levá-lo até mesmo a ser sequestrado – e aí entra a história policial.
Tudo isso é contado de maneira suave, com uma quase ingenuidade infantil. Marcos Rey faz com que a história se torne extremamente agradável com sua prosa rápida e fluída, com expressões que dão um sabor especial ao texto, como “saindo em passo de urubu-malandro”.
A edição também tem um atrativo a mais para os pequenos leitores: as lindas ilustrações coloridas de Célia Kofuji.

Tropa Alfa – Sombras do passado

 

 

No número 2, 3 e 4 do gibi da Tropa Alfa, John Byrne desenvolveu toda uma saga centrada na personagem Marina. 

Na história, ela fere quase mortalmente o Pigmeu e desaparece no mar. Ao procurá-la, os heróis encontram uma estrutura alienígena embricada no gelo do ártico. A estrutura é também uma armadilha, que aprisiona Estrela polar e Aurora 


O vilão tem pouca profundidade. 

O fato da saga se estender por três edições permite a Byrne desenvolver os personagens, em especial Marina. Descobrimos, por exemplo, que ela é uma alienígena de uma nave de colonização que teve uma pane e caiu na Terra. Com o seu casulo jogado no mar, ela se tornou uma anfíbia e desenvolveu habilidades aquáticas. 

Descobrimos também que a nave foi dominada por um homem das cavernas capturado pela nave e que, milhares de anos depois de ser aprisionado, conseguiu o controle da mesma e pretende usá-la para dominar o mundo. 


A dupla personalidade de Aurora torna-se um problema para a equipe. 

Apesar da boa qualidade da trama, há problemas. O vilão tem pouquíssima profundidade. Não é revelado como ele conseguiu dominar a nave e nem por que razão ele atraiu Marina para a nave e nem como prender e torturar ela vai ajudar no plano de dominar o mundo. 

Ou seja: para Byrne, o vilão é apenas uma motivação para o herói. Considerando-se que Claremont tinha uma grande preocupação em desenvolver os vilões em X-men, é possível imaginar como seus a tropa Alfa caso a dupla ainda existisse. 

A Mulher Invisível e Namor fazem uma participação especial na história. 


Aliás, nessa segunda história é possível perceber como os novos personagens são parecidos com os mutantes. Pigmeu obviamente é uma versão do Wolverine, inclusive em termos de altura e personalidade. Sasquatch é Colossus. Embora Pássaro da Neve lembre Tempestade, é Aurora que vai revelar um paralelo com ororo em termos de personalidade, especialmente quando ela reverte para sua outra personalidade durante a batalha. Vale lembrar que muitas vezes a fobia de Tempestade por lugares fechados era o motor de muitas histórias dos X-Men.

Sonja – o preço da traição

 



Pouca gente sabe, mas a icônica vestimenta de Sonja, o biquine de cota de malha, foi criado pelo artista espanhol Esteban Maroto. Ele desenhou a roupa para a revista Comixscene #5, de Jim Steranko, o que chamou a atenção de Roy Thomas e depois se tornaria o padrão para a personagem.

Mas Maroto também desenhou a primeira aventura solo da personagem, publicada em The Savage Sword of Conan 1. A história, escrita por Roy Thomas, contou com a arte-final de dois outros grandes mestres: Neal Adams e o filipino Ernie Chan.

O desenho de Maroto em que aparece pela primeira vez a famosa roupa da personagem.


A página de abertura da história já mostrava a personagem em todo o seu esplendor, cavalgando um alazão. O texto dizia: “Por ordens expressas do rei Ghannif, qundo o último raio de sol desaparece no horizonte, ninguém pode entrar ou sair da cidade-estado de Pah-Dishah! Esta noite, contudo, os gigantescos portões de madeira se abrem para dar passagem a uma deusa ruiva, que cavalga lenta e orgulhosamente para fora da cidade”.

As páginas seguintes são usadas para um flash back que se refere a uma aventura anterior dela com Conan. O rei local prometera a ela os maiores tesouros se ela lhe trouxesse a Tiara da Serpente.  

Aqui Maroto mostra toda a sua habilidade como narrador visual, com sequencias sem requadro, em que a heroína aparece belíssima num close, seus cabelos ruivos esvoaçantes, a boca carnuda. Curiosamente, nesse flash back ela aparece com a roupa anterior, criada por Barry Smith, provavelmente em respeito à cronologia.



A heroína consegue a joia e entrega para o rei, que, num ato de traição, não só não lhe dá um pagamento, como a aprisiona. O objetivo é transformá-la numa de suas comcubinas: “Ela será a favorita de meu harém! Já estou cansado de mulheres submissas e passivas!”.

Sonja é lavada e vestida com belos trajes exóticos e sensuais – ironicamente, esses trajes escondem mais do que o biquine de cota de malha. Mas a sequência do harém é repleta de mulheres, o que deve ter sido uma alegria para Maroto, que era um especialista em ilustrar o sexo feminino.

Claro que sonja não iria se conformar com a vida de comcubina, daí o título: o preço da traição.

No Brasil essa história foi publicada pela primeira vez em superaventuras Marvel 20. 

Novos Titãs – O início do pesadelo

 


Quando Marv Wolfman propôs para a DC sua nova versão da Turma Titã, os executivos gostaram tanto da proposta que resolveram usar uma estratégia de marketing ousada: encartar um número zero da revista na edição 26 da DC Comics Presents.

Para a estratégia dar certo, era necessário que fosse uma história fechada, não fizesse parte da cronologia (afinal, a história do grupo só iria começar de fato no número 1 a revista The New Teen Titans), mas ao mesmo tempo chamasse atenção o suficiente para fazer os leitores comprarem a nova publicação.

Robrin está no meio da ação quando começa o que parece uma alucinação... 


Marv Wolfman resolveu a situação de forma brilhante. A história começa com Robin na frente do prédio de um laboratório, onde terroristas ameaçam explodir um reator solar.

Quando vai entrar no prédio para resolver a situação, o garoto prodígio começa a ter flashs do que parecem delírios, mas na verdade são, vislumbres do futuro.

... e isso vira uma desculpa para apresentar os novos membros dos Titãs. 


Ele encontra com a Moça Maravilha, entra na Torre Titã, encontra com o Rapaz-Fera, que agora se chama Mutano (“Rapaz-fera era fim de carreira! Mutano tem estilo! Ritmo! Emoção!”) e todos os outros integrantes da equipe.

Ravena avisa que uma experiência científica trouxe, inadevertidamente para a Terra, uma criatura unicelular de outra dimensão e os Titãs precisam detê-la antes que ela transforme todo o oxigênio da Terra em metano.

O grupo enfrenta um ser unicelular vindo de outra dimensão. 


Mas, quando o grupo vai enfrentar a criatura, Robin volta para o presente, e a história vai assim, alternando entre o presente e o flash foward.

Quem, como eu, leu essa história em Heróis em Ação 1, empolgou-se com essa trama completamente diferente do que estávamos acostumados, que brilhava não só pelo bom roteiro de Wolfman, mas também pelos desenhos incríveis de George Pérez. A mesma coisa devem ter sentido os leitores norte-americanos, tanto que quando finalmente saiu a revista do grupo, foi um sucesso absoluto.

Veludo Azul

 

Uma cena idílica. Flores, uma cerca de madeira pintada de branco, o céu azul, crianças atravessando na faixa, bombeiros passando e acenando. Parece o retrato perfeito de uma pequena e feliz cidadezinha do interior dos Estados Unidos. Então, a câmera enquadra um homem que rega alegremente o gramado de seu quintal. Ele tem um ataque cardíaco e cai ao chão enquanto a câmera se aproxima do gramado e a música Blue Velvet, de Bobby Vinton dá lugar a um som perturbador unido a imagens de insetos se devorando.

Esse é início de Veludo Azul, filme de David Lynch, de 1986 e representa perfeitamente a proposta da obra: mostrar o que se esconde por trás da aparência de normalidade e felicidade. Mostrar a sombra de uma cidade aparentemente pacata e feliz.

Na trama, o estudante Jeffrey Beaumont volta para casa para visitar o pai internado (o homem que sofre um ataque cardíaco na cena inicial). No caminho de volta do hospital, encontra uma orelha humana num matagal. Ele a entrega para a polícia, mas insatisfeito com os rumos da investigação oficial, resolve investigar o caso por conta própria. Isso faz com que ele vá penetrando cada vez mais fundo num reino sórdido de crimes e abuso sexual.

Sua investigação o leva até uma cantora de boate, Dorothy Vallens, cujo marido e o filho foram sequestrados por um mafioso local, Jack. A cena em que Jeffrey, escondido no armário, vê Jack abusando da cantora enquanto usa drogas é uma das mais marcantes do cinema de todos os tempos.

O filmes só foi feito porque o produtor, Dino DeLaurents, prometeu que daria liberdade total a Lynch em um filme barato se ele aceitasse as mudanças feitas em Duna (o produtor retalhou a obra). Lynch aproveitou bem a liberdade. Não só fez um filme que desnudava uma América que todos queriam encobrir como fez isso usando elementos de surrealismo. O filme todo parece ora um sonho, ora um pesadelo. Do nada surgem cenas gratuitas, como o bombeiro que passa no carro acenando ao lado de um dálmata, ou quando um dos personagens pega uma lâmpada e começa a cantar, sem razão nenhuma. Essa sensação de sonho/pesadelo é ainda mais destacada pelo clima teatral da obra, inclusive do ponto de vista de posicionamento dos atores em cena.

O filme foi ignorado pelo Oscar (só teve uma indicação, de melhor diretor, que Lynch perdeu para Sydney Pollack, de Entre dois amores). Dennis Hopper, que simplesmente encarnou o papel de mafioso depravado sequer foi indicado.

Mas com o tempo se firmou um culto em torno do filme e hoje Veludo Azul é considerado hoje uma das obras mais importantes do anos 80, abrindo caminho para que Lynch revolucionasse os seriados televisivos com Twin Pinks. Houve também uma consequência inesperada: a canção Blue Velvet, interpetada pela atriz Isabella Rossellini se tornou uma das mais tocadas nas rádios.