quinta-feira, setembro 17, 2026

Quarteto Fantástico: Os amigos de Wendy

 



Em 1987 a revista do Capitão América completou 100 números e para comemorar a editora Abril fez uma edição especial, de 160 páginas, com histórias clássicas e modernas dos personagens da Marvel. Ironia das ironias, a revista só não tinha histórias do herói do título. Ainda assim, foi uma seleção única, digna de constar em qualquer coleção.
A história do Quarteto Fantástico incluída no volume é um conto que mistura terror, fantasia e ternura infantil chamado “Os amigos de Wendy”, escrita e desenhada por John Byrne.
Na HQ uma jovem desconhecida visita o prédio do Quarteto e, para espanto geral, descobre-se que a é Tia Petúnia, do qual o Coisa tanto fala. Ela leva o Quarteto para uma pequena cidade no Arizona onde estão acontecendo mortes misteriosas: os cadáveres são encontrados com expressões de terror no rosto. De alguma forma a trama toda parece estar relacionada a uma menina, Wendy, vítima de violência doméstica.

A história tem as qualidades e defeitos de uma história John Byrne: boas ideias com um ótimo desenho, mas pouco aprofundamento da trama e dos personagens.
A HQ falha em mostrar o que realmente acontece no clímax da história, tanto que o Senhor Fantástico é obrigado a explicar, num tremendo bife de roteiro. Além disso, a própria Wendy não é tão bem explorada.
Histórias como essa mostram porque a parceria John Byrne e Chris Claremont funcionava tão bem: um entrava com boas ideias, o outro entrava com o aprofundamento das mesmas.

Coringa - mergulho em uma mente ensandecida

 


Coringa é um filme perturbador. Um mergulho profundo na mente do mais perigoso vilão de Gothan.
Alan Moore já havia introduzido a ideia de que a personalidade louca havia surgido após um dia difícil. Frank Miller havia sugerido que ele era tão perigoso justamente por ser imprevisível: ao contrário de outros vilões que querem dinheiro ou poder, o Coringa só quer o caos.
Mas nenhum dois aprofundou tanto o  personagem quanto o diretor Todd Phillips.
O diretor explora o processo de transformação de Arthur Fleck, um palhaço e humorista fracassado  que aos poucos se torna um louco e imprevisível assassino.
E esse processo é um acúmulo de acertos, a começar pela ambientação nos anos 1970, que ecoa diretamente a Nova York de Taxi Drive, de Martin Scorsese. Mas Gothan do filme é uma uma Nova York ampliada à quinta potência. Uma greve de lixeiros faz com que o lixo se espalhe pelas ruas, a economia está em frangalhos, uma revolta está prestes a eclodir.
Nessa panela de pressão, o programa de maior audiência é um talk show apresentado por Murray Franklin, interpretado por Robert De Niro. A referência é óbvia: na década de 1970, De Niro fez o papel de um comediante fracasso que sequestra Jerry Lewis para aparecer em seu programa.    
Há diversas outras referências: o visual final do personagem é parcialmente inspirado na maquiagem de John Wayne Gacy, o palhaço psicopata, que quando não estava matando garotos, estava se apresentando para crianças em um hospital infantil (em uma das cenas Arthur Fleck  também se apresenta em um hospital infantil). Há, óbvio, a referência à Piada Mortal, de Alan Moore e o conceito de que o vilão era inicialmente um humorista fracassado que só conseguia fazer a esposa rir (mas o filme eleva ainda mais o nível de tensão ao mostrar qual é a verdadeira natureza da relação entre Fleck e sua namorada).
Outro grande acerto é conectar a origem do Coringa à origem do Batman, inclusive a suspeita do personagem de que ele poderia ser filho de Thomas Wayne.
Soma-se a isso a atuação de Joaquim Fênix, simplesmente antológica. Dizem que todos os atores que aturam como o Coringa teriam sido abalados por ele. Conta-se que Heath Ledger teria praticamente enlouquecido durante as filmagens do Cavaleiro das Trevas. Difícil não acreditar que Fênix também não tenha sido afetado. Sua atuação é perturbadora, em especial a risada, que no filme tem uma história: seria um problema neurológico, fruto de maus tratos na infância, que o fariam rir nos momentos mais inoportunos ou quando está nervoso.
Some a isso a trilha sonora, tensa, nervosa, pesada que faz com que uma simples cena de dança se torne assustadora. Aliás, o filme brinca com o expectador, fazendo-o ficar tenso em momentos cotidianos e levando-o a rir durante um assassinato.
De tudo, apenas uma coisa a lamentar: que esse filme não tenha conexões com futuras da produção da DC. Adoraria ver esse Coringa já totalmente desenvolvido  em outras produções.

Belém, Pará, Brasil

 

Se há uma música que representa com perfeição a situação da região norte é “Belém, Pará, Brasil”, do grupo paraense Mosaico de Ravena.

Misturando rock e carimbó e Lançada no início da década de 1990, essa música se tornou um fenômeno local. Tocava o tempo todo nas rádios no Pará. Na época, eu participava da diretoria de um centro comunitário (na Cidade Nova) e realizávamos, todo domingo, um concurso com cantores. O fechamento do evento era sempre a música do Mosaico de Ravena e, quando começava a tocar a parte final, que puxava para o carimbo, a galeria simplesmente ia à loucura: começava todo mundo a dançar no salão.

Além do ritmo, o segredo do sucesso da música estava diretamente ligado ao sentimento geral de isolamento e invisibilidade (curiosamente, esse mesmo sentimento parecia predominante no outro extremo do Brasil, representado pela música dos Engenheiros Longe demais das capitais).

A primeira estrofe já tocada em assuntos com a exploração da região, os projetos criados pelo governo central que teoricamente deveriam trazer progresso, mas que só agravaram a situação:

 

Região Norte

Ferida aberta pelo progresso

Sugada pelos sulistas

E amputada pela consciência nacional

 

A segunda estrofe se refere ao apagamento da cultura regional, algo que já vem de longe e que na época era muito evidente. Felizmente, muito dessa mentalidade mudou. Hoje o Palacete Pinho e o Ver-o-peso tornaram-se pontos turísticos.  

 

Vão destruir o Ver-o-Peso

Pra construir um shopping center

Vão derrubar o Palacete Pinho

Pra fazer um condomínio

Coitada da Cidade Velha

Que foi vendida pra Hollywood

Pra ser usada como albergue

No novo filme do Spielberg

 

As estrofes seguintes referem-se à imagem equivocada e distorcida que se tinha sobre a região, algo que senti na pele quando minha família se mudou para Belém, lá no início da década de 1980. As pessoas, quando sabiam que eu iria me mudar para Belém, perguntavam se eu não tinha medo de índios ou jacarés. Sério. A letra, irônica, brinca com isso.

 

Quem quiser venha ver

Mas só um de cada vez

Não queremos nossos jacarés

Tropeçando em vocês

 

A culpa é da mentalidade

Criada sobre a região

Por que que tanta gente teme?

Norte não é com M

Nossos índios não comem ninguém

Agora é só hambúrguer

Por que ninguém nos leva a sério?

Só o nosso minério

 

Na verdade, o processo de apagento cultural era tão forte que mesmo as pessoas da região na grande maioria das vezes não valorizavam o que era local, visto por elas como atrasado ou inferior. Daí o “aqui a gente toma guaraná quando não tem Coca-cola”. Ou seja: era um problema que só começaria a se resolvido quando os próprios amazônida tomassem consciência da importância de sua cultura. E, de fato, a ideia de que a região norte não tem cultura ou tem uma cultura atrasada é mais do que equivocada, algo que percebemos, por exemplo, na área da fantasia. Enquanto muita gente paga pau para o folclore inglês que deu origem a livros como O senhor dos anéis, na Amazônia há um folclore igualmente rico muitas vezes ignorado justamente por quem faz literatura de fantasia.  

 

Aqui a gente toma guaraná

Quando não tem Coca-Cola

Chega das coisas da terra

Que o que é bom vem lá de fora

Transformados até a alma

Sem cultura e opinião

O nortista só queria fazer

Parte da nação

 

Ah! Chega de malfeituras

Ah! Chega de triste rima

Devolvam a nossa cultura

Queremos o Norte lá em cima!

Por quê? Onde já se viu?

Isso é Belém!

Isso é Pará!

Isso é Brasil!

Vingadores contra o Fantasma do Espaço

 



O lançamento da revista dos Vingadores foi uma verdadeira sensação entre os fãs. Afinal, eram alguns dos principais heróis da Marvel reunidos. Mas depois da edição de estreia, em que o grupo lutou contra Loki, Stan e Jack Kirby precisavam de um inimigo à altura.

No número dois de The Avengers o grupo enfrenta um extraterrestre chamado Fantasma do Espaço, dono de um poder realmente impressionante: tomar o lugar de qualquer pessoa, enquanto essa pessoa é enviada para o vácuo. Ele pretende usar esse poder para derrotar os Vingadores colocando um contra o outro e, assim, abrir caminho para uma futura invasão extraterrestre.

O Fantasma pode se transformar em qualquer pessoa. 


Mas o fantasma do espaço é muito burro. Logo no início da história ele diz que sabe que Tony Stark é na verdade o Homem de Ferro. “Eu sei o segredo de todos eles, afinal, estou observando-os há meses!”.

Chegando à mansão, ele toma o corpo do Hulk e ataca os outros, com a intenção de causar desunião no grupo de heróis.

O problema é quando ele sai e encontra com Rick Jones e não o reconhece. “Sou eu, Rick Jones, o garoto que salvou a sua vida. O cara que se certifica que você consiga voltar a ser o Dr. Bruce Banner”. Ao que o alienígena pensa: “Então... o Hulk tem outra identidade?”. Ele estava observando o grupo há meses, mas não sabia que Bruce Banner era o Hulk? Não sabia da amizade com Rick Jones?

Hulk não gosta de reuniões. 



Não bastasse isso, ele também se revela como um alienígena que tomou o corpo do Hulk e faz até uma demonstração – o que inclusive vai provocar sua derrota lá na frente.

Parecia que o vilão tinha algum tipo de compulsão suicida que fazia com que ele criasse as situações de seu próprio fracasso.

Além disso, é muito curioso, hoje em dia, ver o Hulk soltando esse tipo de péroloa: “Agora que a turma toda tá aqui, o que a gente faz? Não tô no clima pra brincar de beijo, abraço, aperto de mão!”.

Era uma época de quadrinhos mais ingênuos, mas divertidos. 

A guerra dos gibis

 

 

A campanha do Dr. Fredric Werthan contra os quadrinhos teve um grande impacto no Brasil por causa de uma questão política.
     Segundo Gonçalo Júnior, autor do livro A Guerra dos Gibis, embora existissem iniciativas isoladas desde a década de 30, quando os quadrinhos de aventura chegaram ao Brasil, a campanha contra os quadrinhos só tomou fôlego na década de 40, graças a uma briga entre Roberto Marinho, do Jornal O Globo, e Orlando Dantas, do Diário de Notícias. Dantas estava ganhando mercado ao promover concursos em que os leitores do jornal concorriam a prêmios em dinheiro. Preocupado com a concorrência, Marinho usou sua influência junto ao governo Vargas para fazer com que fossem proibidos os prêmios em dinheiro.
            Dantas, agora sem o principal atrativo de seu jornal, passou a atacar Marinho pelo que considerou o seu ponto fraco: o fato de seu concorrente ser um dos principais editores de histórias em quadrinhos do Brasil (sua publicação Gibi acabou virando sinônimo de quadrinhos). Dantas, ex-repórter de Assis Chateaubrind, sabia que a melhor forma de um jornal sair de uma situação financeira difícil era comprar briga com um concorrente de peso. O Diário de Notícias passou a acusar os gibis de provocarem preguiça mental, inculcarem valores estrangeiros nos jovens e incentivarem a violência. Na verdade, Dantas não tinha nada contra quadrinhos, e, aliás, tinha sido um dos pioneiros a publicar tiras de jornais no Brasil (o humorístico Popeye), mas ele logo descobriu que a melhor forma de chamar atenção para si e alfinetar o rival era fazer acusações aos gibis.
Passou a ser moda falar mal dos gibis. Até mesmo quem nunca tinha lido uma revista se apressava a dar sua opinião. A jornalista Ivone Jean, do Correio da Manhã, por exemplo, escreveu um artigo no qual pedia reconhecimento público por ter roubado um gibi do consultório de um pediatra, impedindo assim, que as crianças tivessem contato com a leitura. Além de se vangloriar do crime, a jornalista admitia que sua birra se devia ao fato dela não compreender o código quadrinístico: “Não sei ler histórias em quadrinhos! Aprendi a ler da esquerda para a direita e linha após linha. As legendas atrapalhadas que ilustram os desenhos são impressas em caracteres estranhos e dançam em todos os sentidos”.
            Mas a campanha contra os gibis teria seu momento mais grave a partir de 1953. Dessa vez, além de Dantas, Roberto Marinho teria contra si Samuel Wainer, do jornal Última Hora. Assim como acontecera com o Diário de Notícias uma década antes, o diário de Wainer estava tomando leitores de O Globo, graças a inovações editoriais. Marinho concentrou sua artilharia no concorrente e descobriu que Wainer não era brasileiro, pois chegara ao Brasil com dois anos de idade. Na época a legislação proibia estrangeiros de terem veículos de comunicação no Brasil.
            Wainer vingou-se empreendendo uma dura campanha contra as histórias em quadrinhos que durou anos. Para isso foi destacado o repórter Pedro Morel. Este percebeu que a estratégia de maior impacto era acusar os gibis de serem responsáveis pela criminalidade infantil. Citando as pesquisas de Fredric Whertan, Morel defendeu que as histórias em quadrinhos ensinavam as crianças como cometerem crimes.
            Para provar o que dizia, Morel foi ao Reformatório de menores Saul de Gusmão atrás do maior criminoso juvenil da época, um tal de Lilico, apelidado de “Terror do subúrbio”. Para sua decepção, encontrou o rapaz jogando futebol, e não lendo gibis. Mas nem por isso achou que seria o futebol o responsável pelos crimes de Lilico. Os responsáveis deviam ser os gibis.
            Apesar da total falta de embasamento e de serem resultados de uma briga de mercado, as denúncias deram resultado. Nas portas das igrejas eram distribuindo panfletos orientando pais a não deixarem seus filhos lerem quadrinhos. Em alguns locais os professores tiravam cinco minutos diários de suas aulas para falarem dos riscos da leitura dos gibis.
            Um dos resultados dessa campanha se vê nos testes escolares. Desacostumados a ler, os estudantes são incapazes de interpretar os textos mais simples. Nos países em que a leitura dos gibis foi estimulada a realidade é outra.

Bom dia, Verônica – Segunda temporada

 


A primeira temporada do seriado Bom dia, Verônica parecia tão redondinha, tão fechada, que uma segunda temporada tinha tudo para ser forçada. Afinal, o psicopata Brandão, vilão da trama, havia morrido no final. Continuar a história, portanto, era uma aposta arriscada. No entanto, o roteiro acabou sendo amarrado de tal forma que a continuação consegue ser tão boa quanto.

Na segunda temporada o vilão é Matias Carneiro, um líder religioso que usa sua posição para abusar de mulheres, praticar tráfico humano e criar uma milícia que se infiltra em todas as instâncias do poder, em especial na polícia.

Se na primeira tempora o grande destaque era Camila Morgado, no papel de esposa do psicopata Brandão, aqui o destaque fica por conta de Klara Castanho, que interpreta a filha de Matias Carneiro.

A relação pai e filha é marcada por uma superfície de amor e carinho, representada pela cena inicial, em que Matias acorda a filha com a caixa de música de bailarina. O que vemos ali é um pai apaixonado pela filha criança, que parece dedicar toda a sua atenção e compreensão a ela.

Mas, por trás dessa superfície, existe uma história de abusos que fica o tempo todo implícita.

As cenas entre os dois parece sempre oscilar entre dois momentos, um de carinho paterno e outro de violência, violência que aparentemente nunca se revela, mas sempre está ali, em olhares, em pequenas expressões, sempre implícita. Para isso contribui muito a atuação de Reynaldo Gianecchini no papel de Matias, que com seu olhar calmo e sua voz doce consegue ser capaz de manipular qualquer um.

É curioso como os roteiristas Raphael Montes e Ilana Casoy conseguem costurar essa trama quase caseira com a história de Verônica, que continua investigando as conexões do psicopata da primeira temporada. A relação entre as duas histórias vai se tornando cada vez mais estreita até os episódios finais, que são simplesmente hipnotizantes.

Vale destacar também como o contexto religioso é muito bem aproveitado, com destaque para a cena em que Matias e sua filha cantam a música “Quando o sol bater na janela do seu quarto”, do Legião Urbana. A cena resume toda a base de aparente carinho e, ao mesmo tempo, tensão.

Em tempo: Matias Carneiro é evidentemente inspirado em João de Deus, o curandeiro envolvido em diversos crimes, entre eles estupros e assassinatos. 

Integralismo: o fascismo tupiniquim

 


O integralismo foi o equivalente brasileiro das doutrinas fascistas de Mussolini e Hitler.
O movimento inspirava-se na Doutrina Social da Igreja Católica, que se opunha ao socialismo e acreditava que a sociedade só pode funcionar em ordem e paz através de uma hierarquia social rígida e da harmonia social.
Entre os valores defendidos pelo integralismo estão o nacionalismo e a cooperação entre diferentes classes sociais para atingir a harmonia. O passado histórico, a tradição, a cultura, os costumes e a religião são elementos essenciais na doutrina integralista.
No Brasil o maior representante do integralismo foi Plínio Salgado, criador da Ação Integralista Brasileira.
O lema dos fascistas era "Deu, pátria, família". 


O lema dos integralistas era “Deus, pátria e família”. Seus militantes usavam camisas verdes e cumprimentavam-se aos gritos de “Anauê”, palavra tupi que significa algo como “salve”.
Os integralistas receberam a simpatia de vários setores conservadores, incluindo militares, empresários e religiosos. Em 1938 Plínio Salgado pretendia lançar-se candidato à presidência, mas a eleição foi cancelada com a instalação do Estado Novo, de Getúlio Vargas. O ditador acabou com os partidos, incluindo o Integralista, o que fez com que os seus militantes tentassem um golpe para a tomada do poder, que acabou fracassando.
Os integralistas foram, então, perseguidos, seus líderes presos e exiliados. 

Roteiro de quadrinhos: construindo um estilo

 

Sandman foi um dos quadrinhos que mais me influenciaram no início de carreira. 

Na prática da escrita não existem gênios que surgem do nada, com um estilo próprio e revolucionário. Todo grande escritor é fruto de suas leituras. Todo grande escritor se assenta sobre os ombros dos que vieram antes dele. Só para citar um exemplo mais famoso: O nome da Rosa, de Umberto Eco é o resultado de uma série de influências, entre elas, principalmente Conan Doyle (o nome do protagonista, Guilherme de Barskerville, é uma referência direta a um dos romances de Sherlock Holmes) e Jorge Luís Borges (o nome do vilão, Jorge, é uma homenagem direta ao escritor argetino).

Na verdade, o estilo de um escritor é o resultado de suas influências literárias em conjunto com sua experiência de vida. Essa sopa, bem temperada, dá origem às grandes obras.
Isso não significa copiar um autor, mas absorver um pouco de vários e digerir essas influências misturando-as com suas próprias experiências pessoais. Com um autor você pode aprender narrativa, com outro diálogo, com outro a forma de lidar com as elipses quadrinísticas, com outro a estrutura da trama... cada um tem algo a nos ensinar.
Quando comecei a escrever quadrinhos durante algum tempo tive uma produção prolixa, já que a editora Nova Sampa, para a qual eu trabalhava, comprava praticamente tudo que eu escrevia. Isso me permitiu fazer um exercício que recomendo a todos novos autores: fazia histórias imitando o estilo deste ou daquele roteirista. Em uma HQ seguia o modo de escrever de Neil Gaiman, em outro, o de Grant Morrison e em outro, o de Alan Moore (só para citar os que mais me influenciaram). Para fazer isso eu precisava estudar o estilo de cada um para fazer a “história homenagem”.
Acabei gostando da brincadeira e produzi um fanzine literário, Ideias de Jeca-tatu em que, a cada número publicava a biografia de um escritor e um conto-homenagem no estilo dele. Foram homenageados Monteiro Lobato, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, entre outros. Com cada um eu aprendia algo, fosse o humor lobatiano, o clima poético de Poe, o sarcasmo sutil de Machado.
Ao final, meu próprio estilo foi se definindo. Um estilo que não era uma imitação de nenhum desses escritores ou roteiristas, mas uma mistura de todos eles, uma sopa antropofágica da qual emergiu minha própria maneira de escrever e bolar tramas. 

Perry Rhodan – O sol fantasma

 


O número 254 da série Perry Rhodan é uma continuação direta do volume anterior, no qual Rhodan e seu grupo de desembarque encontram-se presos em um mundo vegetal, prestes a serem transformados em zumbis pelos seres locais.

Como o livro anterior, Avanço no Mundo das Trevas, havia sido marcado por confusão e pura enrolação, minha expectativa era de que, apesar de manterem o mesmo escritor, H. G. Ewers, as coisas melhorassem. Afinal, aqui teríamos os personagens em plena ação, imersos em uma situação extremamente intrigante e criativa.

Infelizmente, o livro não corresponde às expectativas. Ewers justifica a ausência de socorro por parte da nave Crest III através da ação de um tal de Bluul — um ser que se alimenta de energia e gera ilusões, fazendo os terranos acreditarem que estão em outro lugar. O problema é a falta de profundidade: quem é Bluul? Qual a sua origem? Qual sua ligação com o planeta das plantas ou a extensão de seus poderes? H. G. Ewers parece ter todas as respostas, mas se esquece de compartilhá-las com o leitor.

A capa original alemã. 


A lógica narrativa falha novamente quando os terranos, ao perceberem a farsa, tentam se libertar usando uma bomba atômica. O Bluul, em vez de ser afetado, simplesmente "engole" a energia liberada. Para resolver o impasse, os protagonistas detonam uma Bomba de Arcon (capaz de destruir um planeta inteiro) e conseguem escapar. Ewers, contudo, falha em explicar por que o Bluul não absorveria também essa carga massiva de energia, tornando a solução incoerente.

O mesmo padrão se repete no núcleo do planeta vegetal. Em determinado momento, Rhodan, já em processo de transformação, pede um "cristal de ilusões". A narrativa chega ao ponto em que o ser modular, Baar Lun, recebe a mensagem: “A grande vida submete-se ao poderoso”. Apesar de soar como um tremendo deus ex machina, o recurso poderia ter gerado um desfecho interessante se o conflito fosse resolvido de forma pacífica e diplomática. No entanto, a ideia morre como uma ponta solta, sem qualquer explicação posterior.

Curiosamente, este volume publicado pela Ediouro traz uma carta do leitor Tomás Rafaeli, de Curitiba, que critica a tendência imperialista da série: “Por que uma figura glorificada como Perry Rhodan tem que invadir uma galáxia estranha? Não acham que é um mau exemplo?”. A crítica de Tomás se aplica perfeitamente a este volume, no qual o roteiro ignora nuances criativas e resolve todos os dilemas através de ações puramente agressivas.

quarta-feira, setembro 16, 2026

Homem-aranha e Tigresa

 


Uma das edições mais célebres da dupla Chris Claremont – John Byrne à frente do título Marvel Team-Up foi o encontro do aracnídeo com a Tigresa, no volume 67.

Na história, Kraven, o caçador, captura o Homem-aranha usando dardos paralisantes. Quando o heró acorda, dá de cara com o vilão, tendo ao seu lado Tigresa.

A imagem, uma splah page é impressionante e chamou a atenção de todos que leram a história: O aranha, acorrentado, em primeiro plano, de costas para o leitor. Em segundo plano, Kraven sentado em uma almofada, relaxando e a Tigresa ao seu lado, os cabelos soltos esvoaçantes. Na imagem, ela parece tanto uma gatinha ao lado do dono quanto uma perigosa felina pronta a pular sobre a presa.

Uma splash page de impacto. 


O que acontecera é que Kraven, ao ser perseguido pela heroína, instalara nela uma coleira que controlava seu comportamento, fazendo com que ela obedecesse ordens suas: “Ela anseia pela caçada. Você é a presa, Homem-aranha. Se ela o matar, minha vingança estará completa. Se for o contrário, você conquistará o direito à vida. Seu tem um deus, Homem-aranha, reze para ele!”.

A situação é uma sinuca de bico: o aracnídeo não pode matar Tigresa, mas sabe que se não o fizer será morto por ela. Esse dilema ético é o que torna essa história tão interessante do ponto de vista de roteiro.

A história é simples, mas cheia de ação. 


Quanto ao desenho, Byrne estava em plena forma e conseguia fazer imagens que refletiam a heroína como se ela fosse de fato uma felina.

A história, simples em sua essência, funciona muito bem.

O que fazemos nas sombras

 


Filme neozelandês de 2016, O que fazemos nas sombras é um ótimo exemplo do gênero mocumentário (documentário falso). Na história, uma equipe de documentaristas, devidamente protegidos por crucifixos, acompanha o cotidiano de quatro vampiros centenários moradores de um castelo.
Além disso, como dividem o mesmo local, os personagens enfrentam problemas de convivência, como por exemplo, decidir quem lava a louça.
A excêntrica lista de personagens, que conhecemos logo na primeira cena, dá o toque de humor da história: o engomadinho Viago, o revoltado Deacon, o “sensual” Vladslav e Petyr, que não fala uma única palavra durante todo o filme. As referências aí são óbvias: Viago, por exemplo, é uma versão anedótica dos vampiros do livro Entrevista com vampiro, Vladslav é uma referência direta ao Drácula de Coppola e Petyr é Nosferato, clássico do cinema expressionista alemão.
A dinâmica entre esses quatro (e os outros personagens que vão aparecendo depois) é perfeita. Logo no começo do filme, por exemplo, o engomadinho Viago faz uma reunião para discutir sobre as tarefas da casa e acusa Deacon de não lavar a louça há cinco anos. O humor surge exatamente disso: de vampiros, seres sobrenaturais, tendo que lidar com questões cotidianas, como a limpeza da casa, louça para lavar, contas para pagar, serviçais que insistem em ser transformados em vampiro, a sujeira resultante de quando um deles acerta uma artéria principal de uma vítima etc.
A graça da coisa  está exatamente nisso: em imaginar como seria a vida real de vampiros em uma sociedade morderna. Um exemplo: como não têm reflexo, os vampiros são incapazes de perceber se suas roupas são adequadas ou não à nossa época. Também não podem entrar em uma boate, já que vampiros só podem entrar em um local se forem convidados.
A produção é tosca, com efeitos especiais óbvios para os dias de hoje, mas isso, ao invés de atrapalhar, ajuda, contribuindo para o clima de humor da história.
O que fazemos nas sombras fez tanto sucesso que já se fala em fazer uma série da Fox dirigida por Taika Watiti (Thor: Ragnarok), um dos diretores do longa. Resta saber se conseguirão manter o mesmo ritmo sem que pareça uma piada esticada.

Perry Rhodan – O mistério do Anti

 

 

Quando Atlan chega ao cargo de imperador de Árcon, lá pelo meio do segundo ciclo da série, parece que as ameaças à Terra finalmente foram debeladas. Afinal, os arcônidas são a mais poderosa força militar da galáxia. Para deixar claro que a situação não é tão cômoda assim, K.H.Scheer, escreveu um livro focado em um risco real: a morte de Atlan. Esse personagem era teoricamente imortal graças a um ativador celular no formato de um ovo. Mas e esse equipamento fosse roubado? É isso que acontece no número 96 da série.

Quando comecei a ler, pensei que esse livro teria tudo para ser uma tremenda trama policial, com vários suspeitos no palácio sendo descartados um a um até se chegar ao verdadeiro ladrão. Mas Scheer simplesmente preferiu ignorar essa possibilidade.

Assim, o ladrão é o líder de uma seita fanática que se enquartelou em seu templo guardando ali o artefato que garante a vida do imperador.

Aqui, de novo, a trama trazia várias possibilidades narrativas. Afinal, uma seita de fanáticos é um tema ousado para a época e poderia gerar até mesmo uma saga. George Martin usou esse plot, de uma seita se infiltrando nas estruturas do poder, de forma genial em Guerra dos tronos.

A capa original alemã. 


Mas, de novo, o resultado é decepcionante. A história se limita ao ataque bruto das forças de Atlan e de Rhodan contra o templo uma vez que os mutantes não podem ser usados, pois o líder da seita é um anti, alguém capaz de anular poderes mutantes.

No final, a história se resumiu em um duelo entre personagens, algo que já tínhamos em outras histórias, entre elas a primeira do segundo ciclo.

O mistério do Anti tinha tudo para ser um dos volumes mais inovadores e interessantes do segundo ciclo, mas acabou sendo apenas mais do mesmo.

Em tempo: a capa americana desse volume (reproduzida aqui pela Ediouro) é um daqueles muitos exemplos de como o artista Gray Morrow não fazia a menor questão de se inteirar da série antes de fazer as ilustrações. Aqui Gucky aparece totalmente descaracterizado, com uma cauda pontuda e um rosto que lembra mais um gato que um rato.

Crise – Destruição

 


O terceiro número da série crise é todo focado nas máquinas espalhadas pelo Monitor em vários locais e períodos diferentes da terra e a tentativa dos heróis de defendê-la do inimigo misterioso que ameaça tragar toda a realidade.

O roteirista Marv Wolfman opta por uma estratégia interessante. Ele situa cada uma dessas máquinas em determinados pontos e períodos que lhe permitam aproveitar vários personagens da DC, prestando-lhes uma homenagem.

Um dos artefatos vai parar na II Guerra Mundial... 


Assim, por exemplo, um dos artefatos acaba sendo defendido pelos Novos Titãs e pelos Renegados, um grupo formado pelo Batman.

Outro artefato vai parar na Europa na época da II guerra mundial, o que permite ao roteirista explorar personagens de guerra da DC, como Sargento Rock e a companhia moleza, o Tanque mal assombrado e o Capitão Storm.

... e outro no velho oeste. 


Uma das máquinas vai parar no velho oeste e temos a aparição de Jonah Hex e Johny trovoada, entre outros.

Embora o roteirista tenha recebido a ajuda de um funcionário da DC para fazer a pesquisa, espanta perceber o conhecimento dele sobre os personagens e a forma respeitosa e acertada com que ele retrata os personagens, muitas vezes emulando o estilo das histórias. George Perez, por outro lado, sempre disse que adorava desenhar muitos personagens diferentes e deve ter adorado a experiência.

Precursora pronta para matar o Monitor - um dos momentos mais impactantes da série.


Apesar de toda a reverência, Marv Wolfman não pensa duas vezes na hora de matar personagens – e muita gente morre nessa edição, inclusive personagens importantes, ampliando o ar dramático da história.

No final, a sequência que chocou os leitores: Precursora apontando ameaçadoramente para Monitor e ameaçando matá-lo. O impacto da cena é ampliado pelo belíssimo desenho de George Perez.

Perry Rhodan 97 – O preço do poder

 


O número 97 da série Perry Rhodan apresenta a conclusão da saga envolvendo o filho do protagonista, Thomas Cardif. Criado longe dos pais, Cardif acreditava que Rhodan havia sido responsável pela morte de sua mãe, Thora, e tentava a todo custo se vingar, algo que muitas vezes colocava a segurança da Terra em perigo.

Quem escreveu a primeira aparição de Cardif foi Kurt Brand e provavelmente por essa razão ele foi escolhido para narrar o momento final do personagem. Foi uma péssima escolha de K. H. Scherr, o coordenador da série.

Na trama, Rhodan e os mutantes vão até os planetas dos saltadores para resgatar Cardif. Afinal, ele caíram em desgraça e preso depois que seu plano de matar Atlan havia fracassado. Além disso, se os arcônidas o pegassem, a pena seria a morte. Atlan inclusive chega a dizer que nem mesmo ele conseguiria impedir esse fim.

Para resgatar o filho, Rhodan e os mutantes se disfarçam de uma raça alienígena, e se forem descobertos, isso pode colocar a segurança do Império Solar em risco, de modo que essa missão de resgate não parece fazer o menor sentido do ponto de vista prático e político.

Capa alemã do volume. 


Mas Brand consegue piorar o que já uma trama ruim.

Clark Darlton, por exemplo, teria transformado o volume em uma divertida história de espionagem e humor, cheia de reviravoltas.

Brand parece não saber o que fazer com o material e gasta dois terços do livro simplesmente enrolando.

Os terranos iriam se disfarçar de soltenses, um povo governado por um matriarcado em que os homens são oprimidos com surras literais a qualquer erro.

Brand elabora uma frase, que seria a única informação disponível a respeito daquele povo: “Os soltenses são mentirosos” e gasta páginas e mais páginas ao redor disso para no final, fazer uma piada: “Os soltenses são mentirosos porque dão a entender que o planeta onde vivem é um patriarcado”. Sim, é uma piada e uma piada ruim.

A história mesmo só começa a partir da página 100, em um volume de 167 páginas.

Além disso, embora todo tempo todo seja repetido que a única pena possível para Cardif seja a capital, no final, apenas apagam sua memória e o soltam, sem qualquer explicação de porque os arcônidas optaram por essa pena alternativa.

Tudo bem que Thomas Cardif nunca foi um grande personagem. Mas ele merecia um final um pouco menos pífio.