quarta-feira, setembro 30, 2026

Wolverine: escolhas malditas

 


Na década de 1990, o sucesso da coleção Graphic Novel fez com que a Abril lançasse uma coleção dedicada apenas à casa das idéias: a Graphic Marvel. O número 11 dessa série trouxe uma história do Wolverine com roteiro de Tom DeFalco e desenhos de John Buscema.

A história se passa no Havaí. Um poderoso traficante podófilo cria um harém de meninos. Um deles escapa e tenta matar o traficante. É quando seu caminho se cruza com o carcaju. É uma história de vingança, com Logan tentando vingar o menino, morto pela máfia, e libertar seu irmão, ainda nas garras do traficante. 
O desenho de John Buscema é o grande destaque do álbum. 


Para complicar as coisas, Nick Fury está na jogada, negociando um acordo de delação premiada (o que vai colocá-lo em rota de colisão com o mutante).
Só o desenho de John Buscema já vale o volume. Mas o roteiro de DeFalco não faz feio. Ao optar por fazer o texto em primeira pessoa, ele aprofunda a personalidade do herói e suas motivações. É também um texto direto, visceral, como o personagem.
Logan luta contra uma rede de pedofilia. 


A história é de 1991 e foi publicada em 1992. Pena que logo depois os quadrinhos de super-heróis americanos seriam dominados por um período caracterizado por personagens vazios. E pena que o Wolverine tenha se tornado um dos símbolos dessa época. Por isso, histórias como essa graphic sejam tão interessantes – pelo contraste com o que viria depois.

Perry Rhodan – Agentes contra o império

 


Na série Perry Rhodan há livros fracos, livros razoáveis e livros empolgantes. Nessa última categoria se encontra o número 224, Agentes contra o império.

Escrito por Clark Darlton (um dos melhores autores da série), o livro é focado nos agentes terranos enviados para espionar os maahks, mas que foram clonados pelos alienígenas – e os clones enviados no lugar destes. A história gira em torno da tentativa de Atlan de provar que os agentes são na verdade a quinta coluna do inimigo.

É uma ótima história de suspense, que deixa o leitor no fio da navalha: os agentes infiltrados serão descobertos? Eles conseguirão cumprir sua missão cujo resultado será a destruição da humanidade? E qual é essa missão e como eles conseguirão cumpri-la?

Capa alemã. 


O único aspecto enervante do livro é a estupidez de Perry Rhodan, que mesmo com todas as pistas de que se tratam de traidores, continua acreditando que são os agentes enviados pela Terra. Nem mesmo quando se descobre que eles estão curados de uma doença incurável, e que deveria matá-los há semanas (razão pela qual foram escolhidos para a missão), Rhodan se convence. Parece que toda a inteligência que Rhodan havia demonstrado nos outros ciclos se desvanecera neste.

Se não bastasse todo o suspense durante a história, o livro termina com outro suspense, deixando o leitor curioso pelo volume seguinte. Quem dera todos os outros da série fossem assim.

Quarteto Fantástico – Surge o Dr. Destino!

 



O Dr. Destino, o maior inimigo do Quarteto Fantástico, só surgiu no número 5 do gibi.

A história, seguindo o modelo de outras do grupo naquela fase inicial, começava com um quadro de impacto (que nos números seguines se transformaria numa splash page), com Destino mexendo em peças de xadrez representando os heróis. “O Quarteto Fantástico! Eles nem imaginam que são apenas peões nas mãos de destino”, diz o vilão, fazendo um trocadilho com seu próprio nome. A mesa onde ele brinca com os bonecos contém livros sobre demônios, ciência e magia e... curiosamente contava com um urubu, supostamente o bicho de estimação do vilão.

Um urubu como animal de estimação? 

A narrativa pula para o edifício Baxter, onde Johnny Storm lê o recém lançado gibi do Hulk, numa daquelas sacadas de marketing inventadas por Stan Lee. Já que o gibi do Quarteto era um sucesso, por que não usá-lo para promover outros gibis da editora? Essa iniciativa seria replicada muitas e muitas vezes ao longo dos anos.

Quando o Tocha compara o Coisa com o Hulk ambos começam uma briga, que é interrompida por um acontecimento insólito: um helicóptero surge e lança uma teia indestrutível sobre o edifício. Quando o dono do helicóptero resolve se identificar como Dr. Destino, o Senhor Fantástico se lembra quem era ele. Já naquele início temos a característica do vilão como companheiro de faculdade de Reed Richards que se desgraçou ao usar magia negra. Anos depois, autores como Roger Stern dariam mais profundidade ao personagem, dando uma motivação para Destino buscar a magia negra: salvar a mãe do inferno. Mas naquela história, ele só queria o que todo vilão quer... dominar o mundo!


O Tocha lendo o gibi do Hulk? Isso é marketing, man! 

Para isso ele manda o Quarteto para o passado em busca do tesouro do Barba Negra, uma ótima desculpa para colocar os personagens na época dos piratas.

Tudo é muito conveniente. Eles chegam no passado, encontram piratas disputando um saco cheio de roupas e usam essas roupas para se caracterizarem como pessoas do século XVII. Depois vão para uma taverna, onde são drogados (como se acreditava que o gibi era para crianças, a droga é colocada em “refrescos”) e levados para um navio que vai justamente se encontrar com o navio do Barba Negra.

O Ciusa curtindo uma de pirata. 

Embora ainda não fosse o Quarteto Fantástico em sua plena forma, inclusive do ponto de vista de design (Kirby chega a fazer 9 quadros numa página!), era histórias inovadoras e divertidas.

Um detalhe sobre essa história é que quem acaba salvando o grupo é justamente a Mulher Invisível, fato que Stan Lee iria lembrar quando um leitor reclamou que ela era inútil para a equipe.

O Jeremias

 


Uma agradável surpresa na Netflix é o filme mexicano O Jeremias.

A obra acompanha a trajetória de um garoto de oito anos (o Jeremias do título) que se descobre superdotado e precisa lidar com esssa situação.

O filme é narrado pelo próprio Jeremias, uma estratégia do diretor Anwar Safa que faz com que o expectador já simpatize com o protagonista desde a primeira cena.

A família está assistindo a uma novela mexicana e, no meio de uma sequência de um velório, o garoto pergunta: “Já repararam que ninguém fala mal de um morto?”, ao que é repreendido pelos que querem assistir à atração. “Desde que tenho memória, tive mais perguntas do que respostas”, diz em ele, em off. Segue-se uma deliciosa sequências de flash backs do personagem nas quais ele questionava o mundo ao seu redor (uma delas, por exemplo, mostra o garoto chorando enquanto é acalantado pela mãe, que canta nana neném “Por que achavam que cantar sobre um monstro que come crianças me faria dormir?”).

Essa sequência inicial serve tanto para apresentar o personagem quanto para demarcar a diferença dele para o resto da família, todos com baixo QI. É uma perfeita demonstração de como apresentar os personagens, ambientar e ao mesmo tempo estabelecer o tema de uma obra, tudo de maneira divertida e natural.

A diferença de Jeremias não é apenas com relação à família. Na escola ele é escarnecido pelas outras crianças e alvo de irritação da professora, já que ele questiona tudo. Sua salvação acontece quando ele, correndo de garotos que o perseguiam, vai parar ao lado de dois homens que jogavam xadrez na calçada de uma livraria. Os dois apresentam não só proteção, mas também compreensão. quando Jeremias se revela um gênio do xadrez, o que leva o dono da livraria a pagar para ele um teste de QI. É curioso que isso é feito às escondidas, uma vez que o pai se recusa a acreditar que seu filho seja um gênio.

Embora a vida de Jeremias pudesse ser um drama, afinal ele é um gênio incompreendido, sua forma de ver o mundo faz com que o filme seja suave e divertido. Afinal, é o olhar de uma criança.

Vale destacar a atuação incrível do garoto Martín Castro, que consegue dar vida ao protagonista e, ao mesmo tempo, entregar uma atuação que encaixa perfeitamente no clima da obra.

Em tempo: como logo percebemos no filme, Jeremias é um gênio exatamente por ser alguém que sempre pergunta e não vergonha de dizer que ignora algo. Exemplo disso é quando a professora pergunta algo a ele que não foi ensinado. “Você não é um gênio? Deveria saber?. “Eu sou um gênio, não um adivinho”, retruca ele.

A arte fetichista de Eric Stanton

 


Eric Stanton é um dos mais famosos artistas de fetiche de todos os tempos. Ele nasceu em 1926 e trabalhou em diversos empregos antes de se estabelecer como desenhista. Em 1948, um amigo do softball o apresentou ao tio, o quadrinista Boody Rogers e Stanton se tornou seu assistente, ajudando na revista Babe: Darling of the Hills.

Com o fim da publicação, Stanton se dedicou então a fazer material para Irving Klaw, o chamado “rei das pin-ups”. O artista viu um anúncio numa revista e mandou uma sequência de mulheres lutando – seu tema preferido. Klaus gostou do material, mas pediu que as imagens fossem de BDSM, no que foi prontamente atendido.

Stanton logo se tornou um especialista em mostrar mulheres em situação de dominação, submetendo homens. Logo ele estava fornecendo material para vários outros editores especializados em fetiches.

Em 1951 ele se matriculou na  Cartoonists and Illustrators School, fundada por Burne Hogart, onde conheceria seu grande amigo Steve Ditko. Na década de 1960 os dois montaram um estúdio juntos, dividindo uma pequena sala em que as pranchetas ficam uma de frente para a outra.

Era um encontro curioso: Ditko sempre foi um conservador, e Stanton era especializado em erotismo; Ditko era muito bom em desenhar homens e péssimo em desenhar mulheres, Stanton era ótimo em desenhar mulheres e não gostava de desenhar homens. Ainda assim, os dois estabeleceram uma amizade duradoura que incluía um ajudando o outro ou dando palpites. Ditko chegou a arte-finalizar algumas histórias de Stanton.

Essa amizade fez alguns pesquisadores desconfiarem que Stanton possa ter colaborado de alguma forma na criação do Homem-Aranha. Embora oficialmente tanto Stanton quanto Ditko neguem isso, há alguns indícios nesse sentido.

Stanton, por exemplo, tinha feito uma revista chama Black Widow Sorority em que aparecia uma personagem usando uma roupa com teias de aranha e tinha um cinto com uma aranha. Essa história teve arte-final de Ditko.

A máscara do Homem-Aranha era uma grande inovação, pois foi a primeira a esconder completamente o rosto do herói, dando a ele um ar de mistério. Ela pode ter sido baseada em uma máscara de bondage desenhada por Stanton. Assim, mesmo que Stanton não tenha contribuído diretamente na criação do amigo da vizinha, a convivência dele com Ditko pode ter ajudado a inspirar aspectos do personagem.












Presságios


Em outubro de 1992, fui a Manaus como convidado do I Encontro de Quadrinheiros, evento que impulsionou o surgimento do movimento de quadrinhos no estado. Levei na bagagem um roteiro que misturava um fato histórico real — a Expedição Langsdorff, que percorreu o Brasil do Rio de Janeiro a Belém — com folclores amazônico e terror. Esse roteiro tornou-se uma verdadeira lenda urbana na cidade, passando pelas mãos de vários desenhistas, mas permanecendo inacabado por 28 anos.


No ano passado, Romahs e Gusman resgataram essa história e a desenharam. O resultado, produzido como uma edição especial da revista Contos do Mato, será lançado no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ). A HQ já está em pré-venda com preço especial e pode ser adquirida através dos perfis no Instagram @gusmao_silver e @estudioilustrama.

terça-feira, setembro 29, 2026

Tempo, de M. Night Shyamalan

 


M. Night Shyamalan é um dos poucos cineastas que ainda conseguem fazer filmes autorais no cinema norte-americano numa época tomada por grandes sagas e franquias. Filmes de sucesso, como A visita e Fragmentado dão a ele cafice para contar suas próprias histórias, mas também colocam sobre suas costas uma grande responsabilidade. O expectador sempre espera histórias de suspense com finais surpresa.

Tempo, filme de 2021, segue essa linha e não decepciona.

Na história, um grupo de turistas é deixado numa praia deserta onde o tempo parece correr de maneira muito mais rápida. Em cada uma das famílias parece haver pelo menos uma pessoa com problemas de saúde, o que aumenta ainda mais o mistério sobre a situação.

Tempo não é um filme de terror. Não espere sustos. Mas funciona bem como suspense. O tempo todo está acontecendo algo e a direção privilegia isso. Nesse sentido, o que não é mostrado é mais importante do que o que é mostrado. Um close num personagem pode estar escondendo algo que está acontecendo em outro local, o que deixa o expectador tenso, sem saber o que virá a seguir (mas tendo certeza de algo está acontecendo além do que está sendo mostrado). E as situações provocadas pelo tempo acelerado vão do óbvio ao inusitado.

Como se poderia esperar de Shyamalan, este filme também tem um final surpresa – e talvez daí venha o ponto franco da obra. A trama tem toda uma possibilidade de discussão filosófica sobre o tempo (nesse sentido, o título nacional é bem melhor que o original, Old): como somos afetados pelo tempo? Realmente aproveitamos o tempo? Qual o impacto da morte de entes queridos numa época de pandemia? O final, entretanto, torna todas essas discussões rasas. 

Tempo vale pelas situações de suspense e pelas discussões que podem ser geradas a partir de sua história, e não necessariamente pelo que é estabelecido no final.

Em tempo (desculpem o trocadilho, foi mais forte que eu): muitos não sabem, mas o filme é adaptação da história em quadrinhos "Castelo de areia", de Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters. Ou seja, mais um filme surgido a partir dos quadrinhos. Se antigamente a literatura era a grande força criativa por trás dos cinema, hoje em dia parece que essa força são os quadrinhos.

O amor trágico de Abelardo e Heloísa

 

Pedro Abelardo foi um dos mais importantes filósofos da Idade Média. Diante da questão entre realistas (que, influenciados por Platão, acreditavam que as palavras universais, como "homem", tinham existência real) e nominalistas (que acreditavam que os universais eram apenas nomes, não tendo existência nem na natureza, nem na mente), ele apresentou um terceiro caminho, o conceitualismo, que sintetizava elementos dos dois e pregava que os universais são conteúdos da mente derivadas das coisas. Com suas ideias e novas formas de ensinar, ele criou a base do ensino universitário. Mas, para além de suas ideias, Abelardo ficou mais conhecido por ter protagonizado uma das mais famosas histórias de amor de todos os tempos, influenciando o que viria a ser o romantismo. 

Depois de passar por diversas cidades e ser perseguido por sua genialidade e espírito rebelde, Abelardo chegou em Paris em 1113 e começou a lecionar na escola de Notre Dame. Nessa época já era um professor famoso e suas aulas eram concorridas. Sua metodologia revolucionária quebrava com a metodologia platônica, maravilhando os alunos com o jogo de argumentação. 

Foi nesse período que ele conheceu uma jovem de 17 anos que chamava a atenção de todos por sua beleza e inteligência, Heloísa. Interessado em conquistar a moça, o filósofo se aproximou do tio (o cônego Fulberto), com a qual ela vivia e se ofereceu para ensinar à moça gratuitamente, em troca de moradia na casa. O cônego não só aceitou a oferta, como confiou a sobrinha inteiramente à orientação do filósofo, que poderia, inclusive, castigá-la severamente caso esta não se aplicasse nos estudos. 

Inicialmente o tio acompanhava os dois em suas lições, que geralmente aconteciam à noite, quando o filósofo voltava de suas aulas, mas depois, confiando na fama de casto de Abelardo, passou a deixa-los a sós. "Assim, com a desculpa do ensino, nós nos entregávamos inteiramente ao amor, e o estudo da lição nos proporcionava as secretas intimidades que o amor desejava. Enquanto os livros ficavam abertos, introduziam-se mais palavras de amor do que a respeito da lição, e havia mais beijos do que sentenças; minhas mãos transportavam-se mais vezes aos seios do que para os livros e mais frequentemente o amor se refletia nos olhos do que a lição os dirigia para o texto", escreveu Abelardo no livro A história das minhas calamidades. O casal chegou até mesmo a simular surras corretivas para dissimular as atividades românticas e não levantar suspeitas. 

Então começa a tragédia: Fulberto flagra o casal e expulsa Abelardo de casa. Mas nessa época Heloísa já estava grávida. Ainda tremendamente apaixonado por ela, Abelardo a tira às escondidas da casa do tio e a leva para sua terra natal, onde ela fica, na casa de uma irmã do filósofo, até dar à luz ao filho do casal, Astrolábio. 

Nesse meio tempo, Abelardo procura Fulberto e se oferece para se casar com a moça, desde que isso fosse mantido em segredo, a fim de que sua reputação não fosse prejudicada. 

Heloísa, no entanto, não concordava com o plano. Segundo ela, o casamento acabaria com a carreira do amado, pois, na época, acreditava-se que um verdadeiro filósofo deveria ser celibatário. Cícero, por exemplo, ao ser instado a casar com a irmã de Hírcio, respondeu que não podia consagrar-se igualmente a uma mulher e à filosofia. "Quem poderia, aplicando-se às meditações sagradas ou filosóficas, suportar o vagido das crianças, as cantarolas das amas que embalam e a multidão barulhenta da família?", indagava Heloísa. No final, o casal concordou com o casamento, desde que ele fosse totalmente secreto. Unidos pela benção nupcial, foram cada um para lado e se viam apenas às escondidas. O tio, envergonhado com a situação, passou a divulgar o casamento. 

Abelardo, para evitar o falatório, enviou Heloísa para um convento de monjas. Ultrajado, o tio arquitetou uma vingança que se tornaria célebre: mandou castrá-lo. Além da ferida, havia a vergonha: na época os eunucos eram considerados impuros e proibidos até mesmo de entrar nas igrejas. 

Ferido no corpo e na alma, humilhado, Abelardo internou-se no mosteiro de Saint-Denis, tornando-se um monge para o resto da vida. Heloísa, com apenas 20 anos, ingressou definitivamente no convento. Desde então, os dois nunca mais se viram, apenas trocaram cartas nas quais lamentavam a má sorte que os jogara naquela situação. 

Túmulo do casal></P> Túmulo do casal<BR><BR><BR><BR>
Os dois jamais deixaram de se amar, como atesta uma das cartas de Heloísa:
Túmulo de Abelardo e Heloísa no Cemitério Padre Lachaise.

Abelardo morreu em 1142, com 63 anos. Heloísa conseguiu que se construísse uma sepultura em sua homenagem. Quando ela morreu, em 1162, foi sepultada ao lado de seu amado. Conta-se que ao abrirem a sepultura de Abelardo para enterrar Heloísa, seu copro ainda estava conservado e se mantinha de braços abertos, como se esperasse a chegada de sua amada. Em 1817 os restos mortais dos dois amantes mais famosos da Idade Média foram levados para o cemitério do Padre Lachaise. 
A história dos dois deu origem a um filme, Em nome de Deus, de 1988, de Clive Donner.

A morte do Capitão Marvel

 


Em 1982 a Marvel inaugurou sua linha de graphic novels com uma das histórias mais pungentes e emocionantes já produzidas nos comics americanos: a morte do Capitão Marvel.
A história tinha relação direta com a experiência de seu autor, Jim Starlim. O pai de Starlim tinha morrido de câncer e o quadrinista tentava lidar com a dor da situação. Produzir essa história foi uma forma de terapia para ele e talvez por isso, por refletir algo muito íntimo do autor, a história se tornou tão forte.
Na HQ o capitão Marvel, que enfrentou os maiores vilões do universo e venceu todos agora está morrendo de câncer. Sua fisiologia alienígena faz com que mesmo os maiores cientistas da terra não consigam achar uma cura.
O que Jim Starlin consegue fazer com esse plot é impressionante. A história tem de tudo: ação, conflitos psicológicos, drama e muita, muita emoção. É uma história grandiosa como merecia o personagem.
A edição faz uma retrospectiva da história do personagem. 


A narrativa começa com o personagem gravando uma autobiografia. O conflito já aparece ali, na primeira página quando o personagem diz que espera que ela seja útil para aqueles que deixará após a sua morte. Segue-se uma verdadeira sinopse de anos de história do personagem. Vale lembrar que, embora fosse o personagem que carregava no nome a marca da editora, o capitão Marvel era pouco explorado e nem de longe estava no primeiro escalão. Foi a entrada de Jim starlin no título que o alçou a um dos mais queridos dos leitores. A gravação é interrompida por Eros, que convoca o herói para uma missão: resgatar Thanos, o vilão transformado em pedra e levá-lo para Titã. Lá eles se deparam com vários seguidores de Thanos, que mesmo depois da sua morte continuam ali, esperando sua volta. É Starlin retornando a um dos seus temas prediletos: o fanatismo, que leva pessoas a seguirem cegamente líderes. E, claro, a situação é desculpa para muita ação, no melhor estilo starlim, o cara que conseguia ser filosófico mesmo no meio de muita porrada.
Vários heróis comparecem para prestar sua homenagem ao Capitão Marvel. 

Depois disso, o herói revela que está com a doença. Começa uma peregrinação pela cura e depois, quando a morte se revela inevitável, o herói começa a receber a visita de amigos e até inimigos para prestar homenagens.
Até Thanos ressurge da morte numa batalha repleta de simbologias psicológicas.
A morte do Capitão Marvel é o ponto alto da trajetória de um personagem que trouxe profundas questões psicológicas e filosóficas para os quadrinhos de super-heróis. E é justo que essa última história fosse sobre o significado da morte.
Essa história foi publicada no terceiro número da coleção graphic novel, da abril e relançada recentemente pela Panini.

Mafalda

 

      O grande suces­so da HQ argentina é mesmo a Mafalda. Essa garotinha inteligente e fã dos Beatles surgiu por acaso, em 1962, para uma campanha publicitária de eletrodomésticos. Ela deveria ser a mascote de uma empresa e seu nome deveria começar com as mesmas letras da empresa, M e A.Quino desenhou a personagem e chamou-a de Mafalda, mas a empresa acabou recusando a campanha.
      No ano seguinte, o semanário Primera Plana solicitou a Quino uma tira cômica e ele tirou da gaveta a personagem criada para a campanha publicitária. A personalidade atrevida, já existente na versão anterior foi destacada e, em setembro de 1964 Mafalda estreou no semanário onde passou seis meses.
      Em 1965 a personagem migrou para o diário El mundo, de Buenos Aires, um dos mais lidos da Argentina, e começou sua escalada de sucesso. Logo vários outros jornais estavam republicando as tiras.


      Em 1966, um pequeno editor de Buenos Aires lança um álbum com tiras já publicada em jornal. Apesar de não ter havido um grande divulgação, a publicação se esgota em 12 dias. Logo várias editoras na América latina começam a publicar álbuns com a personagem com grande sucesso. Na Itália, o álbum da personagem ganha prefácio de Umberto Eco, um dos mais importantes intelectuais daquele país, que escreve: ¨O universo de Mafalda não é apenas o de uma América Latina urbana e desenvolvida; é também, de modo geral e em muitos aspectos, um universo latino, o que a torna mais compreensível do que muitos personagens de quadrinhos norte-americanos¨.
      De fato, esse é um dos grandes méritos de Mafalda e é o que a distingue de Peanuts, de Charles Schulz. Charlie Brown reflete a realidade e as neuras do norte-americano típico. Mafalda é a contestadora, revoltada com as injustiças do mundo.



      Se Peanuts está mais para a psicologia, Mafalda está mais para a sociologia. A sociedade latin-americana está lá representada nos personagens da tira. Manolito, por exemplo, é o filho do dono da mercearia. Ele está plenamente integrado ao capitalismo de bairro. De tudo na vida, só o dinheiro tem valor e mesmo uma ação simples como brincar de iô-iô tem como objetivo divulgar a mercearia do pai. Filipe é um sonhador que fantasia com tudo. Suzanita só pensa em casar.
      Quando a ditadura militar se instalou na Argentina, uma nova personagem se agregou à tira: a pequenina Liberdade.
      Algumas das melhores tiras da Mafalda tinham como personagem coadjuvante um globo terrestre, quase sempre doente. Quino sempre foi muito bom em metáforas.

Capitão América – Operação renascimento

 


Capitão América é, certamente um dos melhores personagens da Marvel. É o personagem ideal para histórias repletas de ação. poucas vezes essas características foram bem aproveitadas depois da fase Stan Lee – Jack Kirby.

Uma das vezes em que foram produzidas histórias realmente memoráveis com o personagem sem desvirtuá-lo foi em 2009, quando a dupla Mark Waid e Ron Garney assumiram o título.

Na sequência anterior, o Capitão América começa a morrer graças ao soro do supersoldado, que se transforma em um veneno em seu sangue.

Waid assume no meio dessa trama melodramática e aproveita o gancho para fazer uma história na qual os Vingadores enfrentam um grupo de terroristas que sequestra do presidente dos EUA e exige a presença do sentinela da liberdade. Como ele está desaparecido e aparentemente morto, a equipe terá que resolver o problema sozinho. A trama é principalmente uma desculpa para explorar a importância do personagem e a forma como ele inspira outros heróis muito mais poderosos que ele. O capitão é visto aqui como um líder nato.

Terminado esse prelúdio, Waid simplesmente traz o herói de volta numa trama digna dos melhores filmes de ação.

O Capitão precisa se aliar ao seu maior inimigo. 


Na história, o capitão precisa se aliar ao Caveira Vermelha, seu maior inimigo, para impedir que a realidade seja reconfigurada por Hitler, que está preso dentro do cubo cósmico e passou a controlá-lo. Para ajudá-los ressurge uma personagem do passado do herói: a agente Sharon Carter, que todos achavam ter sido morta.

É Sharon que revela ao capitão que ele foi salvo da morte por seu maior inimigo para fazer aquilo para o qual foi criado: matar Hitler.

É impressionante como a trama consegue unir ação desenfreada com uma trama muito bem elaborada e cheia de reviravolta como só os melhores escritores conseguem produzir.

As cenas de ação são empolgantes. 


Por outro lado, Rona Garney não decepciona. Ele sabe criar cenas de ação e principalmente sequências que mostram o personagem em toda a sua grandiosidade.

Essa trama foi publicada em Captain América 444 até 448, sendo reunida no Brasil no álbum Operação renascimento, da editora Panini.