sexta-feira, fevereiro 23, 2024

Os marcianos estão chegando

 

Doutor Flávio era uma figura imponente. Do alto de seus um metro e sessenta, entrava nos locais batendo os pés, peito estufado, como um rei que desfila entre súditos. E  à primeira oportunidade anunciava:
- Sou doutor!
Certa vez precisou ir ao médico e lá entrou, altivo, e anunciou:
- Sou doutor!
A recepcionista abaixou os óculos, consultou a agenda, e informou:
- O doutor já vai atendê-lo.
Mas como? Que desrespeito! Que afronta! Chamar o médico de doutor, sendo que doutor era ele!
Nem mesmo se consultou. A doença haveria de se curar sozinha.
Foi direto para o escritório de um advogado. Ia processar o médico. Ora essa: doutor era ele!
Na recepção perguntaram-lhe o nome e do que se tratava, ao que ele respondeu com um:
- Sou doutor!
O rapaz da recepção desculpou-se:
- O doutor advogado está atendendo um cliente, mas já vai recebê-lo.
Foi embora furibundo!  Que maçada! Doutor era ele!
Apesar disso, vivia bem, feliz, e, de tempos em tempos recebia em sua casa seus únicos três amigos. Recebia-as com seu cumprimento familiar:
- Sou doutor!
Mas um dia essa vida pacata e feliz foi abalada por uma notícia terrível: um de seus amigos passara no doutorado!
Era incompreensível essa traição. “De nihilo nihil”, pensou ele, coçando os já ralos cabelos e repuxando a barba grande e grisalha. O que significava aquilo?
Aquela notícia foi sucedida por outra, ainda pior, ainda mais terrível: o segundo amigo agora também estava fazendo doutorado. “Aetatem habet, ipse sibi consulte expertus”, pensou ele, tentando a todo custo desvendar o que significava aquele emaranhado de más notícias: “Mala ultro adsunt”.
Então, quando a terceira má notícia rebentou, ele já mal conseguia dormir à noite: o terceiro amigo também estava no doutorado!
Como era possível? Traição! “Traição...”, lembrou-se o doutor “vem de traditio. Traditio, passar a diante...” mas, claro, porque não pensara nisso antes? Quando estava tudo claro! Agora tudo fazia sentido! “Qui nimium properat serius absolvit”!
Só havia uma explicação possível: o orientador de seu primeiro amigo só poderia ser um marciano! Marciano é um habitante de Marte, o deus da guerra, que viera colocar cizânia onde antes havia amizade.
Só podia ser um marciano. Mas se ele era um marciano, o orientador do segundo também só podia ser um marciano e também o orientador do terceiro!
Mas isso levava a uma conclusão ainda mais terrível. Se os três eram marcianos, também seus orientandos só podiam ser marcianos! Era essa ligação entre esses seis marcianos! “Veritatis simplex oratio”!
O Doutor achou que era sua obrigação alertar a sociedade e foi para a rua.
Ficava nos sinais, avisando a todos sobre os marcianos que estavam dominando a sociedade. Em pouco tempo os marcianos iam acabar com a liberdade e as pessoas iam ter que comer até seus cachorros. 
- Seu maluco, sai da rua! – gritaram de dentro de um carro que quase o atropelou.
- Alea jacta est! – retrucou ele.
Mas não adiantava alertar os outros se ele mesmo estava exposto. Era preciso fazer uma limpeza em casa. Assim, passou dois dias olhando atrás dos móveis procurando algum marciano que estivesse escondido. Felizmente não encontrou nenhum, mas nunca se sabia onde poderia estar um marciano.  
- Optima citissime pereunt. – repetia, a cada cômodo vistoriado.
E havia algo mais grave, um perigo ainda maior: os vizinhos! Quantos deles seriam marcianos?
O Doutor comprou um binóculo e passou a espionar os vizinhos. Qualquer comportamento estranho poderia ser um indício. “Indício, do latim inditium, Amat victoria curam”, raciocinou ele.
E a realidade era assustadora! Um dos vizinhos comia cereal de bolinhas! O outro usava camisa amarela! O outro usava chinelos para tomar banho!
“Abusus non est usus, sed corruptela”, pensou ele “estou cercado de marcianos! Eles estão por todos os lados! Hic tua mercatur quia a te saepe precatur!”.
Quantas outras pessoas estariam envolvidas? Talvez o rapaz do mercadinho fosse um deles e estivesse tentando envenená-lo, o que explicaria a diarreia que tivera na semana passada: “Mammas atque tatas nimium conducit habere”.
A partir deste dia, ficou trancado em casa, vigiando a rua pela janela. Comia o que tinha e bebia água da torneira. Dormia apenas o suficiente e voltava para a janela, um revólver a postos na mão direita. Ninguém ia tirar sua liberdade!!!!
Uma noite eles vieram.
O disco voador pousou na frente de sua casa e de dentro dele saíram pequenos seres verdes vestidos de branco. Tinham bocas grandes, brancas e se comunicavam através de sons estranhos, que ele não conseguia identificar.
Não esperou que se aproximassem e atirou.
Quase acertou um deles e os marcianos se esconderam atrás do disco voador. Logo apareceu outro disco voador e outro.
O Doutor atirou neles, mas quando suas balas acabaram, eles invadiram sua casa e o levaram. Colocaram-no na nave espacial e levantaram vôo. Que tipo de torturas terríveis esperavam por ele em Marte? Audaces fortuna juvat, timidosque repellit!
...
No dia seguinte, a rua acordou alvoroçada com a novidade. Entre as mais excitadas estavam duas velhinhas:
- Amiga, eu vi tudo! Ontem levaram o Doutor Flávio!
- Levaram? Quem levou?
- Os enfermeiros do hospício!
- Eu bem vi que ele andava estranho. Nem saía de casa. Da última vez que o vi ele veio me falar de marcianos...
- Ele atirou nos enfermeiros e tiveram que chamar a polícia.
- Coitado. Parecia uma pessoa tão ajuizada... professor... só tinha aquela mania estranha de obrigar todos a chamarem ele de doutor...
- E de falar aquelas frases estranhas em latim...  
- Estudou muito, amiga. Estudou muito e deu nisso... 

Fundo do baú - Superamigos

 


Na década de 1970 um desenho animado fez as crianças se apaixonarem pelos heróis da DC. Criado em parceria com a Hanna Barbera, a série, baseada na Liga da Justiça, se chamava Superamigos e teve oito temporadas de muito sucesso.
O seriado tinha design do grande artista Alex Toth, o mesmo de Johnny Quest, o que garantia um visual inesquecível.
Mas se o visual era muito bom, não se podia dizer o mesmo dos roteiros. Como sua especialidade era animações humorísticas, a Hanna Barbera colocou no seriado personagens cômicos. A primeira temporada tinha Wendy, Marvin e Marvel, o supercão, que se parecia muito com o Scooby Doo. A partir da segunda temporada eles foram substituídos por uma dupla de heróis, os supergêmeos Zan e Jayna. Jayna podia se transformar em qualquer animal e Zan podia transformar-se em água em seus diversos estados e até mesmo controlar água. Com esse poder ele poderia até criar maremotos, mas na grande maioria das vezes ele só se transformava mesmo em um balde de água. Posteriormente esses personagens foram incorporados à DC Comics.
Outros heróis que surgiram nesse seriado e também acabaram incorporados foram Samurai, Chefe Apache e Eldorado.
Os heróis da Liga usados inicialmente foram Superman, Mulher-Maravilha, Aquaman, Batman e Robin. Aliás, foi graças a esse seriado que o Aquaman ganhou a sua fama de ser pouco útil. O meme dele viajando em cima de dois golfinhos surgiu num dos desenhos.
Outro destaque era a Legião do Mal, um grupo de malfeitores que se reunia num pântano para elaborar planos de dominação mundial.
Mas, apesar dos pesares, a série era diversão garantida e foi para muitos o primeiro contato com os heróis da DC.

Wandinha

 


A Família Adams é sem dúvida um sucesso. História em quadrinhos, série, filme, todos memoráveis. Mas a personagem Wandinha teria carisma para segurar sozinha uma série? Tim Burton provou que sim.

Burton, que produziu a série da netflix e dirigiu os primeiros episódios, percebeu algo que estava apenas implícito antes: wandinha é uma gótica. Para interpretá-la, contratou Jenna Ortega, uma escolha mais do que acertada: sua interpretação fria e aparentente indiferente consegue entregar sentimentos até mesmo num simples olhar. Dificilmente a série teria dado certo com outra pessoa e boa parte do sucesso se deve à atriz. Acrescente a isso uma maquiagem e roupas góticas e temos uma personagem que consegue conquistar a todos curiosamente por, paradoxamente, ser o oposto do carismático.

Burton traz todos os seus elementos expressionistas, a música de Danny Elfman e mistura isso com fortes referências a Edgar Alan Poe.

Na trama, Wandinha foi expulsa de uma escola após soltar piranhas na piscina para se vingar de garotos que praticaram bullying com seu irmão (“Só eu posso torturar meu irmão”, diz ela). Depois de ter passado por várias instituições de ensino, só a resta a ela a escola Nunca Mais, um local sombrio onde se encontram os Excluídos, seres que não se encaixam nos padrões: sereais, lobisomens, esquisitos. Burton usa isso como metáfora para a forma como pessoas que não se encaixam nos padrões da sociedade são normalmente excluídos (um fenômeno que ele sentiu na pele).

Wandinha não quer ficar no local e além disso é rejeitada pela maioria dos outros estudantes. A essa trama adolescente de adaptação se mistura uma trama policial muito bem desenvolvida, cheia de pistas, pistas falsas e reviravoltas: alguém está matando pessoas na região e essas mortes parecem de alguma forma estar conectadas à chegada de Wandinha, de modo que ela toma para si a incumbência de descobrir o que está acontecendo.

A idolatria de Tim Burton por Edgar Alan Poe transparece em vários elementos da série: Nunca mais é uma referência ao poema O corvo (Nunca mais, Nevermore no original é a frase dita por pelo pássaro no poema), um clube secreto chamado beladona teve Poe como fundador e uma competição de barcos é toda baseada na obra do escritor, com os barcos representando seus contos, como O gato negro.

Vale destacar também dois personagens que funcionam perfeitamente na sua interação com a protagonista: o Maõzinha e Enid (interpretada por Emma Myers), a colega de quarto de Wandinha, contrária a ela em tudo. Incrível como a série consegue dar personalidade e emoções a uma mão.

Em tempo: a Netflix brasileira foi muito criticada por deixar a personagem com o nome pela qual ela era conhecida no Brasil, ao invés de usar o original, Wednesday (Quarta-feira). Entretanto, tirando uma ou outra referência nos primeiros episódios, o nome Wandinha funciona.

X-men – chorem pelas crianças

 


The  Uncanny X-Men  122 é uma edição de preparação. Chris claremont usou esse número para lançar os ganchos das grandes tramas que viriam depois, como a saga da fênix e de Protheus,tanto que não há uma trama específica. Mesmo assim, a sintonia entre o time criativo, Claremont-Byrne –Austin estava tão grande que é um número delicioso de se ler.

A história começa com Colossus sendo testado na sala do perigo. Colocado no meio de uma prensa gigantesca, ele tem dificuldade para impedir que ela se feche, mesmo ela estando muito abaixo do limite de sua força.

A sequência é toda focada no dilema do personagem, que não se considera útil na equipe. Esse dilema é resolvido pelo Wolverine, que danifica os controles e entra na prensa. Se colossus não agir ele será esmagado.

Wolverine se arrisca para ajudar o amigo. 


Essa parte da história, embora colocada em uma história secundária (a Abril nunca se interessou em publicar), sintetiza algumas das melhores qualidades da fase Claremont-Byrne.  Primeiro, os personagens se arriscando para ajudar um colega, às vezes de maneira inconsequente. Segundo, a ideia de que o grupo é uma família, algo resumido na frase do Wolverine para o amigo: “A maioria de nós era sozinha no mundo antes dos X-men. A equipe meio que nos deu a família que nunca tivemos”.  De certa forma, a fala reflete também a relação dos leitores com o título. Num processo de identificação-projeção, os leitores também se sentiam parte da família mutante.  

Ororo nunca esteve tão linda quanto no traço de Byrne.


Depois de várias sequências que eram apenas ganchos para histórias futuras, a história pula para Ororo, que visita Nova York em busca do local onde seus pais moravam. Mas o local está decadente e cheio de viciados em heroína. 


Ela é atacada pelos viciados e, ao evitar machucá-los, quase é morta, sendo salva por Luke 



Cage, que faz aquele famoso discurso, compartilhado à profusão nas redes sociais: “Somos super-heróis, Ororo, não Deus. Podemos salvar a humanidade do Doutor Destino ou do Galactus, mas não dela mesma”.

 

Deadpool massacra os clássicos, álbum publicado em 2018 pela Panini, é um projeto absolutamente pirado: na tentativa de descobrir quem comanda o universo ficcional e, ao mesmo tempo, acabar com sua própria existência, o personagem, depois de matar todos os heróis da Marvel, aprisiona os vilões e os convence a fazer uma máquina que o permitiria navegar entre os vários universos ficcionais. Isso, claro, é apenas uma desculpa para o roteirista Cullen Bun revisitar alguns clássicos da literatura, relacionando-os aos personagens da Marvel. Assim, por exemplo, ao acabar com os três mosqueteiros, Deadpool acabaria com o conceito de grupo e, portanto, com o Quarteto Fantástico e os Vingadores.
O personagem mata diversos personagens da literatura. 


A lista de personagens clássicos é imensa: Moby Dick, Scrooge (do conto de Natal), Tom Sawer, Dom Quixote, Adoráveis Mulheres... todos massacrados e estripados das mais diversas maneiras.
No final, Deadpool massacra os clássicos é só uma desculpa para muita violência. Absolutamente infame e insultoso com grandes obras da literatura. Em outras palavras, muito divertido. Como diria um amigo, a mais perfeita definição de leitura fast-food.

A arte lisérgica de Frank Brunner

 


Frank Brunner nasceu em 1949. Seus primeiros trabalhos nos quadrinhos foram para a Warren, desenhando histórias em terror, na década de 1960.

Em 1969 ele fez o seu primeiro trabalho para a Marvel, uma história de back-up do Vigia, na revista do Surfista Prateado.

Sua experiência com quadrinhos de terror, no entanto, logo o levou a ser escalado para o título do Dr. Estranho, personagem que ele o escritor Steve Englehart revolucionaram entre 1973 e 1974.

A dupla trouxe o clima lisérgico da geração hippie para o título (algo que já era entrevisto, de maneira não-intencional, na fase de Steve Ditko). Nessa fase as histórias pareciam totalmente surreais, incluindo personagens de Alice no país das maravilhas.

Se o texto de Englehart levava o personagem a situações psicodélicas, o desenho de Brunner acompanhava plenamente esse clima, incluindo diagramações totalmente inovadoras.

Brunner também participou da criação do personagem Howard, o pato e desenhou histórias de Conan. Em 1979 ele abandonou os quadrinhos, tendo voltado apenas para edições especiais. Nessa época ele começou a trabalhar com animação. Um dos seus trabalhos nessa área foi na antológica série animada dos X-men da década de 1990.











quinta-feira, fevereiro 22, 2024

O Eternauta: o clássico absoluto dos quadrinhos argentinos

 

O Eternauta é uma das mais famosas histórias em quadrinhos argentinas, escrita por Hector Oesterheld e desenhada por Francisco Solano López. Segundo Paulo Ramos (autor do livro Bienvenido, sobre quadrinhos argentinos), o personagem é uma das figuras míticas nacionais, ao lado de Carlos Gardel, Evita Perón e Che Guevara.
A série surgiu em 1957, quando, decidido a lançar uma revista seriada semanal, o roteirista indagou de um dos principais desenhistas de sua editora que tipo de quadrinhos gostaria de fazer, ao que López respondeu que preferia fazer algum tipo de ficção científica realista.
Oesteherld escreveu em decorrência de seu fascínio pela história de Robison Crusue, personagem que, após um naufrágio, se vê sozinho em uma ilha deserta.
Paradoxalmente, o Eternauta quase nunca está só. Embora a história refletisse sobre a solidão do homem preso, cercado não mais pelo mar, mas pela morte, a verdade é que o protagonista sempre está acompanhado de família, amigos. Ele é um herói coletivo, que não age sozinho.
A estreia aconteceu na primeira semana de 1957, no suplemento Hora Cero Semanal. Era a terceira revista publicada pela editora criada por Oesterhedl em sociedade com o irmão, Jorge Mora.
Semana a semana, a história foi evoluindo, mistérios aumentando, personagens aparecendo e se mostrando tridimensionais, a exemplo dos Mãos, usados pelos invasores para coordenar as ações dos alienígenas. E, a cada semana, foi ganhando mais leitores.
Em 1969, a convite da revista Gente, Oesterheld reescreveu a trama numa perspectiva mais adulta e politizada (nessa versão, os países de Primeiro Mundo entregam a América Latina aos invadores, o que explica a invasão a Buenos Aires) e com desenhos de Alberto Breccia. Essa versão foi mal-recebida pelo público e pelos editores, que reclamavam sobretudo do desenho pouco convencional de Breccia – e o roteirista foi obrigado a abreviar o roteiro, apressando a ação para que a história terminasse. 
Em 1976 foi lançado um álbum com a primeira versão, que teve ótima aceitação, o que levou a editora Record a encomendar para o roteirista e para o desenhista original uma continuação da história. O Eternauta II foi publicado em capítulos mensais a partir de dezembro de 1976 e finalizado em abril de 1978. O roteirista não chegou a ver essa versão impressa, pois foi preso pela ditadura argentina em abril de 1977. Provavelmente morreu na prisão, assim como suas quatro filhas, duas delas grávidas.
O Eternauta se tornou um dos símbolos do país. Exemplo dessa importância cultural foi a polêmica, em 2011, quando a campanha da candidata Cristina Kirchner mostrou o ex-presidente Nestor Kirchner caracterizado como o Eternauta, com a roupa isolante e o óculos de mergulho, chamando-o de Nestornauta. A oposição questionou o uso político de um dos símbolos nacionais e a polêmica gerou diversas matérias na imprensa argentina e até no Brasil.

O incrível Hulk contra Talos, o skrull

 


A fase de Peter David no incrível Hulk pode não ter sido genial, mas sempre gerou

boas histórias, que escapavam do senso comum mesmo no período mais negro dos quadrinhos (os anos Image). A história publicada no número 419 do título, desenhada pelo brasileiro Roger Cruz, exemplifica bem isso.

Na história, Rick Jones acabou de se casar e o Hulk (nessa época ele se tornara inteligente) valsa com sua amada Betty Ross.

É quando surge, para estragar a festa, um Skrull, Talos. Até aí tudo dentro do esperado. O diferencial aí é que o vilão quer... ser morto pelo Hulk! A razão é que ele nasceu “defeituoso”, ou seja, sem a capacidade de se transformar. Ao invés disso, é extremamente forte: “Se não pertencesse à família real, teria sido morto ao nascer! Eu supri essa deficiência com força bruta! Conquistei! Chacinei! Ninguém era mais temido e respeitado do que eu! Então veio o dia e que caí numa covarde armadilha Kree! Eu poderia ter mordido a cápsula letal em minha boca... ter sido um cadáver em vez de um prisioneiro! Seria honroso! Mas, pela primeira vez em minha vida... eu tive medo”.

A motivação do antagonista: ser morto pelo Hulk. 


Incapaz de se matar, o srkrull decide provocar o Hulk para que este o mate. Só por essa premissa a história já valeria a pena. Mas, usando e seu pendão natural para o humor, Peter David ainda acresenta um final totalmente irônico.

Os desenhos de Roger Cruz não decepcionam, mas infelizmente naquela época todo mundo era orientado a copiar os desenhistas da Image, inclusive na diagramação. Para um bom desenhista era como piorar seu desenho para acompanhar uma moda.

No Brasil essa história foi publicada em O incrível Hulk 163, da editora Abril.

O Jaguadarte, de Natália Muniz

 


Jaguardarte é um poema de Lewis Carroll publicado originalmente em 1871 no livro Alice no país das maravilhas. A amapaense Natália Muniz não só adaptou o poema para a realidade amazônica como transformou o relato em uma história em quadrinhos publicada em 2022.

Um exemplo de como ficou a versão da amapaense:

 

Mais um dia comum

Na aldeia dos encantados

Subaquática, submersa

Água para todos os lados

 

Na história, os encantandos do fundo de um rio sofrem o ataque de uma cobra grande. Mas uma garota resolve enfrentar a fera, sozinha, e o faz apenas com uma lança.

O traço é simples, mas eficiente e até charmoso e a narrativa é bem encadeada e desenvolvida. Numa época como a nossa, em que todos os novatos querem fazer megas sagas de centenas de páginas, Natália consegue contar toda uma jornada em apenas seis páginas.

E-book A linguagem dos quadrinhos

 


 

Já está disponível em versão digital o livro A linguagem dos quadrinhos. Organizado por mim, pelo Rafael Senra e pelo Matheus Moura reúne seis artigos sobre HQs, entre eles meu artigo O uso de elipse em Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Para baixar, clique aqui. Quem quiser adquirir a versão impressa, só mandar um e-mail para profivancarlo@gmail.com. O valor da versão impressa é dez reais (apenas para pagar o frete).

Lição de humildade

 

Certa vez Jesus estava reparando como os convidados escolhiam os melhores lugares à mesa. Então fez esta comparação:
Quando alguém convidá-lo para uma festa de casamento, não sente no melhor lugar. Porque pode ser que alguém mais importante tenha sido convidado.
Então quem convidou você e o outro poderá dizer a você: “Dê esse lugar para este aqui.” Aí você ficará envergonhado e terá de sentar-se no último lugar.
Pelo contrário, quando você for convidado, sente-se no último lugar. Assim quem o convidou vai dizer a você: “Meu amigo, venha sentar-se aqui num lugar melhor.” E isso será uma grande honra para você diante de todos os convidados. (Lucas 4.7)

Os mitos de Cthulhu, de Esteban Maroto

 


O espanhol Esteban Maroto é um dos grandes quadrinistas da década de 1980. Aqui no Brasil ele ficou particularmente conhecido graças às histórias de terror publicadas na revista Kripta, da RGE (que republicava material da Warren) e à série de FC Cinco por Infinitus, publicada pela Ebal.
H. P. Lovecraft é um dos maiores autores de terror de todos os tempos. Ele renovou o gênero no início do século XX em histórias tão verossímeis que muitos passaram a acreditar que tratavam de eventos reais.
O encontro dos dois só poderia render uma obra-prima: o álbum Os mithos de Cthulhu, lançado recentemente pela editora Pipoca com Nanquim.
A história desse álbum, no entanto, é bastante tortuosa. No início da década de 1980, a editora Bruguera encomendou para Maroto uma adaptação da oba de Lovecraft para uma coleção de adaptações de obras literárias. A ideia era fazer dois volumes dedicados a esse autor, um desenhado por Maroto e outro por Alex Niño.
Entretanto, pouco depois que os primeiros originais foram entregues, a editora decretou falência. Maroto não conseguiu de volta os originais. A história acabou sendo publicada colorida (a concepção original era PB) na revista Capitán Trueno. Posteriormente essas histórias foram publicadas nos EUA com uma tradução de Roy Thomas e capa de Frank Brunner, que chamou pouca atenção. Mais recentemente, a editora Planeta topou publicar o álbum da forma como Maroto o havia planejado e é essa versão publicada pela Pipoca e Nanquim.
Maroto tem uma incrível capacidade de unir uma boa anatomia com cenários de sonhos e esse é o grande mérito do álbum. Em especial as cenas de alucinação ou de monstros são particularmente envolventes, o tipo de página que merecem muito mais que uma simples mirada.


O álbum reúne adaptações de três textos de Lovecraft: A cidade sem nome, O cerimonial e O chamado de Cthulhu. Como toda a obra do autor é interligada, com citações recorrentes, por exemplo, ao livro Necronomicon, as três histórias acabam formando um conjunto coeso. O maior problema do volume é que os editores queriam ainda mais coesão e pediram para Maroto fazer os monstros das três histórias o mais parecido possível. O resultado é que o monstro Cthulhu ficou totalmente descaracterizado e só sabemos que é ele porque o texto assim o diz.
Outro problema é que, em nome da consisão, Maroto reduziu o texto, tornando-o mais fluído, mas perdendo o charme do autor de providence, cuja grande característica era justamente o texto prolixo, repleto de descrições e adjetivos que, no final, não descreviam nada, servindo muito mais para dar uma impressão de terror.
Apesar desses problemas, o álbum é item obrigatório para os fãs de terror. Como escreve José Villarrubia na introdução do volume, Lovecraft é muito conhecido, mas pouco lido. “Seus textos, ao mesmo tempo em que influenciam muitos outros autores, são ignorados. Por isso a reaparição dessas adaptações é um acontecimento importante”.

Além da imaginação – a versão de Jordan Peele

 


Além da imaginação foi um seriado clássico surgido no final dos anos 50 criado apresentado e produzido por Rod Serling (que, aliás, escrevia boa parte dos episódios). Marcou gerações. Suas histórias fantásticas, com roteiros irretocáveis tiveram uma influência duradoura a ponto de quando surgiu Black Mirror muito terem comentado que era o novo Além da imaginação. 
Suas histórias muito bem boladas, com a inevitável ironia do destino no final sedimentaram uma maneira de contar histórias e elevaram o nível da programação televisiva. O que Serling fez não foi só diversão, mas uma série que refletia sobre seu tempo (a guerra fria, o perigo nuclear) usando para isso a ficção científica e fantasia. Programas posteriores, como Jornada nas Estrelas devem muito a Serling. 
Na década de 1980, o seriado ganhou uma versão bastante equivocada, em que a ênfase estava muito mais nos efeitos especiais do que nos roteiros inteligentes. Agora o show retorna sob a batuta de  Jordan Peele, diretor de “Corra!”, que não só trouxe de volta a essência do seriado, como o atualizou o dando uma profundidade sociológica ao discutir temas como tensões raciais, ataques terroristas, imigração e eleições numa época de influenciadores digitais.
A qualidade do que foi apresentado nessa primeira temporada é tão grande que é difícil escolher o melhor episódio. Ainda assim, fiz uma lista dos episódios, do que mais gostei ao que menos gostei.  
Em tempo: a série está em exibição no streaming Amazon vídeo. 


Rebobine
Uma mulher negra está levando o filho para seu primeiro dia na universidade quando descobre que pode voltar o tempo rebobinando uma velha câmera vhs. Mas os dois estão sendo perseguidos por um policial racista. É um belo exemplo de roteiro em looping, com a protagonista tentando se livrar de um destino aparentemente inevitável. O episódio discute racismo, determinismo e a importância de se conciliar com o passado. Mas não traz respostas fáceis, como fica claro no final irônico. É o melhor episódio nova fase de Além da Imaginação e representa bem a proposta de usar a fantasia para falar de temas atuais.




Garoto prodígio
Um marketeiro em desgraça vê a chance de voltar ao topo quando um Youtuber de oito anos resolve lançar se candidato à presidência dos EUA. O episódio Garoto Prodígio reflete sobre os dias atuais, em que pessoas sem conteúdo se tornam celebridade da noite para o dia ganhando grande influência e poder político. Uma situação que é reflexo direto da falta de conteúdo da própria população, que vota em um candidato por ele prometer, por exemplo, vídeo games para todos. É um dos melhores episódios da nova encarnação de além da imaginação não só pelo tema, mas também pela constante tensão entre desejo e desgraça. É também um dos episódios que melhor refletem o modus operandi da série clássica, com seu final totalmente irônico.


Seis graus de liberdade
Seis graus de liberdade é um um dos roteiros mais complexos dessa nova versão de Além da Imaginação. E também um dos que permitem mais discussões filosóficas. Na história, um grupo de astronautas está sendo enviado a Marte. A terra está esgotada graças às mudanças climáticas e essa missão pode ser a última esperança da humanidade. Mas, no momento do lançamento, começa uma guerra nuclear de modo que os astronautas se vêm na situação de serem os últimos representante da humanidade. O episódio é todo construído em cima da teoria segundo a qual a maioria das civilizações tende a se aniquilar antes de desenvolverem tecnologia para viagens espaciais, o que explica o fato de nunca termos tido contatados por extraterrestres. Alguns autores, como Carl Sagan argumentam que se a civilização consegue ultrapassar essa fase e chegar ao espaço, ela tende a se perpetuar. O tema é explorado de forma inteligente, com poucos cenários, foco em closes e truques cinematográficos, como colocar a câmera de lado para simular gravidade zero.



Escorpião azul
Um professor universitário está se separando da esposa e morando com o pai. Um dia chega em casa e descobre que o pai, um hippie que tocou com várias bandas importantes, se matou com um tiro. A arma usada foi a escorpião azul, uma pistola rara que vale cem mil dólares. O episódio é usado para discutir a questão da idólatria das armas e de como elas são apresentadas como solução para todos os males. Mais: é sugerido que as armas se tornaram um novo tipo de religião fetichista. Isso é feito, no entanto, de maneira sútil, sem diálogos óbvios e com bom uso da força das imagens. A cena em que o professor vai a um clube de tiros testar a arma é perfeita. Quase sem diálogos, podemos ver sua transformação e a forma como a arma passa a encantá-lo, no sentido amazônico da expressão, de encantaria, de magia. É um dos episódios que melhor demonstram a força dessa nova encarnação de além da imaginação.



Ponto de origem
Uma dona de casa contrata uma imigrante ilegal como empregada doméstica e vê essa empregada ser presa pela polícia de imigração. Depois ela mesma acaba sendo presa sem saber sequer qual a acusação. O episódio ecoa diretamente o famoso livro O processo, de Kafka, com a protagonista presa em um local desconhecido, perdida em meio à burocracia. O roteiro constrói uma metáfora pesada e pungente a respeito da perseguição aos imigrantes. Destaque para a direção inspirada, em especial na cena da cela, com as luzes sendo usadas como elemento opressivo. Esse é um ótimo exemplo de como essa nova versão de Além da imaginação consegue usar a ficção científica para falar de temas atuais. 


Um viajante
Em uma pequena cidade do Alaska o xerife mantém a tradição de fazer uma festa de Natal no qual perdoa um prisioneiro. Mas naquele ano um desconhecido surge na cela pedindo para ser perdoado. Simpático e dizendo se dono de um canal no YouTube sobre viagens radicais, ele conquista a simpatia de todos e se torna o centro da festa. Mas uma jovem policial desconfia que há algo de errado na história. Esse é o plot do quarto episódio da nova encarnação de além da imaginação. É um daqueles episódios, a exemplos de muitos da série clássica, em que ação acontece toda em um local fechado e a trama se sustenta nós ótimos diálogos e atuações soberbas, com destaque para Steven Yeun  no papel do viajante. Uma trama, aliás, repleta de reviravoltas em que nunca sabemos qual as verdadeiras intenções do estranho. Destaque para o uso inteligente dos efeitos especiais, que surgem apenas nos momentos certos. Destaque também para o final, do mais puro humor ácido no melhor estilo Além da Imaginação. 


O comediante 
Um comediante fracassado descobre que pode fazer rir se usar algo de sua própria vida. Mas tudo que ele cita em suas piadas acaba desaparecendo. Além do ótimo conceito, que discute a questão do poder e seus perigos, vale destacar a ótima atuação de Kumail Nanjiani que consegue, por exemplo, contar uma piada e se mostrar tenso enquanto a plateia ri. A direção, repleta de closes estranhos valoriza a atuação. 


Pesadelo a 30 mil pés
Este foi um dos episódios mais memoráveis da série clássica. Baseado em um conto de Richard Matheson, mostrava um homem em um avião que vê um monstro do lado de fora e precisa convencer a tripulação de que a aeronave corre perigo. Nessa nova versão, um repórter investigativo acha um aparelho no assento e descobre que se trata de um podcast sobre um acidente aéreo. O problema é que ele parece se referir àquele vôo. O repórter deve, então, descobrir como impedir a tragédia usando as pistas do podcast. É incrível, mas esse plot, muito mais pé no chão, consegue ser menos verossímil que o duende da versão clássica principalmente graças ao final, totalmente desnecessário. Se o diretor tivesse a inteligência de terminar a história no momento em que o protagonista descobre o que está acontecendo, seria um dos melhores dessa nova versão de Além da imaginação.



O homem borrado
O episódio O homem borrado é praticamente um manifesto sobre as características de Além da Imaginação. Na história, a roteirista do seriado é assombrada por uma figura borrada que parece ter poderes paranormais. Em determinado ponto a personagem reflete sobre a série: “Além da imaginação não é só sobre monstros numa asa de avião. Se não tem nada de importante para dizer, então são só histórias para assustar. Rod Serling pegou um gênero infantil bobo e o elevou, fazendo arte para adultos”. Esse foi, por exemplo, o problema da maioria dos episódios da década de 1980: eram apenas efeitos especiais para crianças num roteiro que tinha pouco a dizer. É uma pena, no entanto, que o episódio que melhor reflete sobre a alma de Além da imaginação seja também um dos episódios mais fracos dessa nova encarnação liderada por Jordan Peele. (Alerta de spoiller) Por exemplo, o homem borrado, que persegue a roteirista, se revela como Rod Serling recriado digitalmente. A metáfora aí é óbvia: ele está levando a personagem para um mundo onde tudo é possível, um mundo além da imaginação. Entretanto, até esse ponto, parece que ele está muito mais interessado em machucar ou até mesmo matar a personagen do que realmente em introduzi-la em um mundo em que as leis da natureza funcionam de maneira diferente. A situação poderia ser facilmente resolvida mudando as situações para algo surreal, irreal, mas o roteirista parece ter tido preguiça de imaginar tais situações e simplesmente introduziu garrafas que voam na direção na protagonista e outras ameaças.


Nem todos os homens
Um dos grandes méritos da versão atual de Além da Imaginação é usar a fantasia para discutir questões do mundo atual. Isso, entretanto, não funciona quando a metáfora se torna óbvia demais, não deixando margem para interpretações.
Exemplo disso é o episódio Nem todos os homens. Na história, meteoros caem numa cidadezinha norte americana e todos os homens que entram em contato com as pedras se tornam violentos. Esse plot é usado para discutir a questão da violência masculina, mas isso é feito de maneira tão óbvia que descarta qualquer possibilidade de interpretação. Chega um ponto em que uma das personagens explica o que está acontecendo e qual a metáfora envolvida para ter certeza de o expectador tenha apenas uma interpretação. Junte a isso um roteiro ruim , com frases forçadas.
Umberto eco fala da obra aberta, que só se completa quando é interpretada pelo expectador. Já ao contrário, o discurso persuasivo permite uma única interpretação. Ele tende a levar-nos a conclusões definitivas e nos idica como devemos compreender o mundo. Nem todos os homens é um ótimo exemplo de discurso persuasivo.