quinta-feira, março 05, 2026

Jogador número 1

 

Jogador Número 1 conta a história de um futuro tão desolador que as pessoas vivem a maior do tempo em um jogo, o Oasis, criado por nerd. Ao morrer, ele deixa três chaves que, uma vez descobertas, tornarão seu dono proprietário da rede social. Ocorre que uma empresa rival quer desvendar o segredo para transformar o Oasis numa distopia. 
O filme é uma homenagem de Steven Spielberg à cultura pop, em especial aos jogos, filmes e seriados. São milhares de referências (ou easter eggs) espalhados pela trama, do carro do protagonista a uma das armas usadas por ele (o cubo Zemeckis). Destaque para a sequência-homenagem ao filme O Iluminado. 
É também uma reflexão sobre o mundo hiper-real em que vivemos, em que o virtual se torna mais importante que a realidade concreta. Spielberg consegue manipular com perfeição essas instâncias, a ponto de muitas vezes o expectador não perceber onde começa um e termina outro. O simples fato de que a pessoa que ganhar um jogo virtual se tornará a pessoa mais rica do planeta é o melhor exemplo disso.
Uma aventura divertida, dirigida por um mestre do cinema, um filme homenagem e, principalmente, uma reflexão necessária para os tempos atuais.

E-book A linguagem dos quadrinhos

 


Já está disponível em versão digital o livro A linguagem dos quadrinhos. Organizado por mim, pelo Rafael Senra e pelo Matheus Moura reúne seis artigos sobre HQs, entre eles meu artigo O uso de elipse em Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Para baixar, clique aqui. Quem quiser adquirir a versão impressa, só mandar um e-mail para profivancarlo@gmail.com. O valor da versão impressa é dez reais (apenas para pagar o frete). 

A sangria universitária

 


É comum ouvirmos comentários depreciativos a respeito das universidades da região Norte. As críticas estão geralmente relacionadas à baixa capacitação dos professores, a baixa produção acadêmica e os poucos curso de pós graduação. O que pouca gente sabe, no entanto, é que existe uma verdadeira sangria de vagas das universidades da Amazônia para as universidades do sudeste. 

Funciona da seguinte maneira: professores do sudeste, geralmente mestres, fazem concurso para universidades da região Norte. Nesse meio tempo, fazem doutorado, normalmente com afastamento, já que os cursos de doutorado são raros na região. Quando voltam, já doutores, entram na justiça pedindo a remoção para uma universidade do sudeste. E remoção leva a vaga.E raramente um juíz nega o pedido. 

Praticamente não há curso de universidade da região norte que não tenha passado por algo semelhante, mas há casos extremos. Em um exemplo recente um curso que tinha oito professores perdeu dois professores para um curso de universidade da região sudeste. E o curso da universidade do sudeste, que tinha 32 professores, ficou com 34, enquanto que o da região norte ficou com 6. 

Em outro exemplo, um único curso perdeu metade das vagas para universidades do sudeste.

Com um número tão baixo de professores, provocado por essa sangria, os docentes ficam atolados de aulas e limitados apenas à docência nos cursos de graduação e às atividades administrativas, como coordenação de curso, coordenação de ACC, de estágio e de TCC. Sobra pouco tempo para pesquisa. Abrir um curso de mestrado e doutorado com tão poucos professores? Nem pensar.

Isso acaba gerando uma círculo vicioso. Com poucos programas de pós-graduação na região norte, quem faz concurso para professor das universidades da região norte geralmente são pessoas das outras regiões, em especial o sudeste. E são essas pessoas que depois vão levar as vagas para universidades do sudeste.

Em tempo: o mapa acima mostra a distribuição dos cursos de pós-graduação no Brasil. Os dados são de 2017, mas a situação pouco mudou. O grosso dos cursos se concentra na região sudeste e há pouquíssimos na região norte.

X-men - O inferno de Noturno

 


O inferno de Noturno é uma HQ publicada na revista Uncanny X-Men Annual n° 4 de1980 e republicada aqui em Superaventuras Marvel 35. É uma das histórias injustamente pouco lembradas dos mutantes.
A trama se passa pouco depois da morte da Fênix, quando Kitty Pride ainda era uma novata na escola. Na HQ, com roteiro de Chris Claremont e desenhos de John Romita Jr, Noturno está fazendo aniversário e recebe um presente que, aparentemente, provoca sua morte. Desconfiado de que o episódio tem fundo místico, o professor Xavier chama o Dr. Estranho, que descobre que a alma de Kurt Wagner na verdade foi sequestrada. Ele, Ororo, Wolverine e Colossus são transportados ao local onde se encontra a alma de Noturno, o inferno – e precisam escapar dali.
Para muitos essa história foi o primeiro contato com a obra de Dante.


O interessante aí é que Claremont estruturou o roteiro todo a partir da Divina Comédia, de Dante, inclusive com citações da obra e descida aos círculos do inferno.
Essa é uma história que se diferencia muito da fase Claremont-Byrne, que tinha um enfoque mais realista e até de FC. Aqui é fantasia pura. Mais à frente essa ênfase na fantasia provocoria um esgotamento nos roteiros de claremont, mas funciona bem aqui, apesar de alguns problemas. Por exemplo: onde a feiticeira Margali conseguiu tanto poder a ponto de rivalizar com o Dr Destino? 
A HQ mostrou versões diferenciadas sobre o diabo e os círculos do inferno. 


Um dos pontos positivos da HQ foi apresentar a obra de Dante Aleguiere aos leitores e justificá-la adequadamente dentro do universo dos x-men. Aliás, meu primeiro contato com a divina comédia foi com essa história, publicada quando eu tinha 14 anos.
Os desenhos de Romita funcionam bem. Ele ainda não tinha seu traço pelo qual ficou mais conhecido e na época ainda imitava o pai. Há quem goste só da fase antiga, há quem goste só do traço novo. Eu gosto dos dois, dependendo do trabalho. Neste, o Romitinha mandou bem.

Perry Rhodan – O olho vermelho do sistema Beta

 

O número 48 de Perry Rhodan, escrito por Clark Darlton, é um livro viciante por ser a continuação de uma trama muito bem elaborada, que fechava o primeiro ciclo.

Nos números anteriores, os aras resolvem acabar com a Terra e para isso usam os saltadores e superpesados, mas os mutantes conseguem entrar na nave do único superpesado que sabe a posição de nosso planeta e mudam as informações do computador.

A ideia era enganar os aras, saltadores e superpesados, fazendo-os atacar o terceiro planeta do sistema Beta como se fosse a Terra.

O olho vermelho do sistema Beta é focado nas duas naves terrenas que são envidas para esse sistema com a missão de rechaçar os ataques dos superpesados, simulando uma defesa terrena. Mas o major Deringhouse está curioso com o quarto planeta, onde há registro de vida inteligente e resolve investigar, o que leva à trama do volume e à solução magistral para o conflito que se avizinha.

A capa original alemã. 

É o próprio Deringhouse que batiza o quarto planeta, chamando-o de Aqua.

O planeta é uma incógnita, pois é quase todo tomado por um mar, com uma pequena faixa de terra do tamanho da Europa. No entanto, a única construção que os terrestres encontram é uma construção baixa, com cúpulas, na beira da água. “É uma coisa singular”, pensa o major. “O planeta só tem esse continente e a gente supõe que os habitantes teriam que aproveitar cada metro quadrado. Devia haver lá embaixo um emaranhado de casas e instalações como em nossas capitais. E o que vemos? Nada, absolutamente nada. Onde estão os homens?”.

Essa pergunta estabelece o clima de mistério do volume e é a principal razão pela qual a leitura é interessante no início.

Entretanto, depois, quando os humanos dão de cara com os tópsidas, a trama pega fogo e ganha uma reviravolta inteligentíssima. Os tópsidas foram um dos primeiros adversários siderais dos terranos. Seres reptilianos, eles tentavam invadir o sistema Veja e foram impedidos pelo grupo de Rhodan, que chegou ao ponto de lhes roubar uma nave.

Ao colocar os tópsidas nesse volume, Scheer, o autor da trama geral, costura perfeitamente a história, criando uma situação em que estão no palco todos os principais inimigos dos terranos nesse primeiro ciclo, o que deixa o leitor ainda mais apreensivo para ler o volume seguinte. 

Demolidor – Purgatório

 


A saga da queda de Matt Murdock, de Frank Miller e David Mazzucchelli, é célebre por muitos motivos, mas o principal deles é o estudo psicológico de como as pessoas reagem diante das adversidades. Não por acaso, o número dois começa com Foggy Nelson tentando trocar uma lâmpada e caindo da escada. Glori, ex-namorada de Matt, preocupa-se, mas ele a tranquiliza: “Caí sobre a minha parte mais macia.”. Logo depois a garota recebe uma ligação do ex-namorado e podemos imaginar o que ele está dizendo pela expressão perplexa dessa: “Ele não está dizendo coisa com coisa”.

Como tudo o mais nessa saga impressionante, até mesmo esses pequenos fatos são pensados para refletir aspectos importantes dos personagens: diante da queda, Foggy reage com bom humor e Matt sucumbe à loucura e à paranoia.

Diante da queda, Foggy reage com bom humor, Matt Murdock enlouquece. 


Na imagem seguinte vemos Murdock deitado em uma cama de um hotel barato. A imagem traz um contraste assustador com a página de abertura do número anterior. As duas são vistas de cima, mas se antes víamos Matt em sua cama em sua mansão, agora a precariedade do lugar impressiona. Mazzucchelli contribui com a ambientação ao desenhar um rato embaixo da cama. “Este lugar fede a ratos. Eu preferia ficar com um amigo. Mostre-me um e fico com ele. Mostre-me uma única pessoa no mundo que não tenha me traído...”.

Esse quadro, no contraste com o da edição anterior, mostra a decadência do personagem e reflete sua deterioração mental.  

A splash page de abertura reflete da decadência do personagem. 


Nessa fase, Miller, embora não desenhasse mais, fazia o rafe das páginas e sua narrativa visual é impressionante incluindo o melhor uso da elipse quadrinística que já vi em toda a minha vida.

Na página em questão, Matt reflete sobre quem é o responsável por sua desgraça, O Rei, e decide sair para se vingar. As ações mostradas detalhadas, como se fosse uma câmera lenta. Ele se levanta da cama, aproxima-se da porta, coloca a mão na maçaneta, gira... Na página seguinte, vemos uma imagem do Rei caído ao chão, sua cabeça estourada numa poça de sangue. “Eu esmurro o rei sem dó e ele suplica por clemência e me devolve tudo que me tirou e se entrega à polícia”, pensa Matt Murdock.

A tentativa de sair do quarto é lenta, como uma câmera lenta... 


Mas é apenas a imaginação do personagem. Na imagem seguinte, ele está de volta à cama. A elipse é perfeita ao mostrar o quanto o personagem está quebrado: embora saiba quem é o responsável por sua ruína, ele é incapaz até mesmo de sair da cama. Seu caminho até a porta durou uma eternidade, mas ele voltou rapidamente para a cama e para a incapacidade de lidar com a situação. 

Enquanto isso, o Rei se rejubila como se estivesse jogando com um brinquedo novo, ou como uma criança que tortura uma mosca.

... e a volta para a cama é rápida. 


No final, quando Matt finalmente consegue ir ao seu encontro e enfrentá-lo, o Rei não só o surra, como manda prendê-lo num taxi roubado que é jogado no rio. “A Morte de Murdock não deve ser misteriosa ou suspeita. Não deve haver margem para dúvidas ou motivo para investigação”, diz o texto.

No entanto, no último quadrinhos, vemos o herói entrando em um beco cheio de mendigos, a roupa encharcada.

Matt Murdock é preso em um carro que é jogado no rio, mas sobrevive. 


É difícil explicar, hoje em dia, o impacto que essa sequência teve sobre os leitores da época. Para todos ficava óbvio que depois disso as histórias de super-heróis nunca mais seriam as mesmas.

TJAP divulga campanha 2ª edição da campanha “Leitura que Liberta” nesta quinta-feira (5)



A 2ª Campanha de Doação de Livros “Leitura que Liberta: Doe Livros, Transforme Vidas!”, promovida pela 1ª Vara de Execução Penal da Comarca de Macapá (1ª VEP), será lançada nesta quinta-feira (5), às 8h30, em entrevista coletiva realizada na VEP, no Fórum de Macapá.  A iniciativa busca mobilizar a sociedade para a doação de livros destinados às pessoas privadas de liberdade custodiadas no Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen/AP). O objetivo é incentivar a leitura como ferramenta de transformação, educação e reinserção social.

A campanha é iniciativa do juiz substituto Diogo Sobral, magistrado à frente da 1ª Vara de Execução Penal de Macapá, e está alinhada à Resolução nº 391/2021 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que regulamenta a remição de pena pela leitura no âmbito da execução penal.

A ação reflete a humanização da execução penal ao estimular o acesso ao conhecimento, promover o desenvolvimento intelectual e contribuir para a saúde mental das pessoas privadas de liberdade.

Por meio da leitura e da produção de resenhas avaliadas pela equipe técnica, os internos podem obter remição de parte da pena, conforme os critérios estabelecidos pela legislação e pela normativa do (CNJ).


Serviço:

2ª Campanha de Doação de Livros “Leitura que Liberta: Doe Livros, Transforme Vidas!”

Período de arrecadação: 05 de de março a 5 de abril  2026 

Local de entrega:

1 - Cepar – 1ª Vara de Execução Penal, localizada no térreo do Fórum Leal de Mira, na Avenida Manoel Eudóxio, Macapá/AP. 

2 –  Nos prédios da Defensoria Pública do Amapá ( Eliezer Levy, Procópio Rola  e Raimundo Álvares da Costa )

Tipos de livros: autoajuda e história (em bom estado de conservação).

quarta-feira, março 04, 2026

Dark – segunda temporada

 


Se a primeira temporada mostrava que os produtores de Dark queriam levar o conceito de viagem do tempo ao seu extremo, a segunda temporada consegue ser ainda mais complexa.
Agora, ao invés de três linhas temporais, tempos cinco linhas temporais, com personagens que aparecem mais jovens em uma linha temporal e adultos ou velhos em outra. Personagens mais importantes, como Jonas, Claudia e Noah, chegam a aparecer em versões diferentes na mesma linha temporal.
O grande desafio é que é preciso manter a cronologia não só das linhas temporais, mas também dos personagens que viajam por essas linhas e tudo deve estar conectado.
Dark é um verdadeiro exercício intelectual.

Cobra Norato de Augusto Morbach

 


Uma das grandes influências para a escrita do meu livro Cabanagem foi o pintor Augusto Bastos Morbach.
Nascido em Goiás, ele se mudou ainda criança para Marabá, no Pará onde começou a pintar. O poeta Líbero Luxardo o convidou a ilustrar um livro de poemas escritos por ele e essas ilustrações fizeram com que Morbach ficasse conhecido em Belém, para onde se mudou para trabalhar exclusivamente com pintura, ilustrações e jornalismo. Tornou-se um dos grandes nomes das artes plásticas do Pará.
No dia 1º de abril de 1990 o jornal O Liberal reservou a capa do Caderno Dois para uma história em quadrinhos que o artista tinha produzido em 1964 sobre a cobra Norato. Era um quadrinho estilo Princípe Valente, com os textos separados da imagem, mas me magnetizaram.
O texto era incrível e mágico e as ilustrações capturavam todo o clima de terror e encantamento da lenda. Eu recortei essa página e guardei durante anos, sabendo que um dia eu iria usar em uma história.
Para quem quiser saber mais sobre o artista, existe uma página no Facebook em homenagem a ele: https://www.facebook.com/AugustoBastosMorbach/
Quer comprar meu livro Cabanagem? Clique aqui para comprar no site da editora.

Livro História dos quadrinhos

 


O mais novo lançamento da editora da Unifap é leitura obrigatória para os fãs da nona arte. Trata-se do livro História dos quadrinhos, de autoria do professor  do curso de Jornalismo Ivan Carlo Andrade de Oliveira.

Ivan Carlo também é conhecido como Gian Danton, pseudônimo com o qual assina seus quadrinhos. No início da década de 1990, em decorrência sua experiência na área, ele foi convidado a escrever uma coluna sobre Histórias em quadrinhos no jornal O Liberal. Além das novidades na área, ele começou a introduzir textos sobre clássicos dos quadrinhos, textos esses que fizeram muito sucesso. Com o fim da coluna, o autor continuou escrevendo novos textos, publicando em fanzines e, depois, com o advento da internet, em sites e blogs.

Com o tempo surgiu a ideia de reunir esses textos em uma publicação. Para isso foram selecionados o mais relevantes, revisados e atualizados. Não se pretende que esta obra seja um apanhado de toda a história dos quadrinhos. Essa mídia tem uma história tão ampla, em tantos países, que um volume sobre História dos Quadrinhos que abrangesse tudo seria gigantesco. Mesmo assim, algo ficaria de fora”, explica o autor. Assim, o livro focou nas obras mais conhecidas do público brasileiro e que foram publicadas aqui.

A obra tem prefácio da professora Fernanda Santos, docente do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Amapá (PPGLET/UNIFAP), do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH/UNIFAP) e da Graduação em Letras/Português do Campus Santana da UNIFAP.

O ebook História dos quadrinhos pode ser baixado gratuitamente no site da Editora da Unifap: https://www2.unifap.br/editora/files/2024/03/HISTORIA-DOS-QUADRINHOS-diagramado.pdf

Patrícia Swzen, a pet humana

 


Vivemos em um mundo em que as pessoas acreditam em tudo que encontram nas redes sociais, sem a menor preocupação em pesquisar a validade da informação. Com isso histórias falsas circulam facilmente. Algumas são inocentes. Outras podem até matar, como nos casos de linchamentos provocados por boatos (já tivemos pelo menos três no Brasil).
Assim, quando precisei fazer um trabalho final para a disciplina Arte e novas tecnologias (ministrada por Edgar Franco na FAV-UFG), pensei em fazer uma obra que alertasse sobre os hoax na internet.
Usando como base o universo pós-humano criado por Edgar Franco, eu e José Loures criamos a história de Patrícia Swzen, uma moça catarinense que iria para a China passar por uma cirurgia que a transformaria em uma mistura de humana e animal (nós nunca deixamos claro, mas provavelmente ela seria uma mistura de humano com felino).
Criamos uma carta fake na qual Patrícia contava sua história e soltamos nas redes sociais. Além disso, enviamos essa carta para diversos veículos de imprensa.
Como imaginávamos que algumas pessoas poderiam ficar curiosas a ponto de procurarem pela personagem, criamos seu perfil no Facebook, como se ela fosse uma pessoa real (o perfil existe até hoje e recebe até mesmo felicitações de aniversário).
A história foi criada e espalhada em 2014 e logo se alastrou, com muitas pessoas acreditando na mesma - e chegou a ser destaque no podcast do Omelete.
Também chegamos a fazer um vídeo com uma narrativa visual apresentada em congresso de arte, a partir da história.
Quando estava no auge, revelamos a farsa. O recado era claro: desconfie de tudo que você ver nas redes sociais, sempre pesquise antes de compartilhar.
A página sobre a Pet Humana ainda existe e pode ser acessada aqui https://www.facebook.com/hqpethumana/
Em tempos: o uso de fakes não é novidade na arte. Vários outros artistas já usaram o recurso como forma de refletir sobre os mais variados assuntos, inclusive sobre a própria arte. Existe inclusive um filme de Orson Welles, F for Fake que aborda o tema.

MAD especial quadrinhos

 


De todas as revistas que eu perdi numa das muitas mudanças, a que eu mais me arrependo foi um número especial da MAD dedicado aos quadrinhos da editora Record.

Lembro que ia viajar de ônibus e antes passei na banca do Zé, no São Brás (atualmente o último sebo de rua de Belém) e comprei essa edição. Enquanto esperava para embarcar, lia e gargalhava a ponto de chamar a atenção dos outros passageiros.

Recentemente consegui uma versão em scan dessa revista e me surpreendi em perceber o quanto esse material até hoje parece muito bom.

A reunião de talentos era realmente incrível: Wallace Wood, Don Martin, Sérgio Aragonés... só para citar os mais famosos.

Entre as que eu mais lembrava estava a versão do Superman de Wood, traduzido como Superomi. A história era simplesmente repleta de piadas de fundo, como cartazes pregados nas paredes com mensagens do tipo: “Proibido pregar cartazes”. 



Wood parecia disposto a colocar o máximo de anedotas no menor espaço possível. Fico imaginando o quanto esse tipo de humor influenciou filmes como Apertem os cintos o piloto sumiu. E, olhando em retrospecto, teve influência sobre todos os roteiros de humor que já fiz.  



Outra história desenhada por Wood que me arrancou gargalhadas era uma em que se imaginava o que aconteceria com os personagens de quadrinhos se eles tivesse envelhecido ao invés de se manterem com a mesma idade. Entre as várias sequências, um Super-homem que não tem mais peito ou dentes – e portanto não tem como segurar as balas.



Hoje pode não ser tão conhecido, mas Dom Martin era uma verdeira sensação nas décadas de 70 e 80, a ponto da Mad lançar livros apenas com trabalhos dele. Nessa edição, um trecho de uma história sobre Zorro é digna de nota. Zorro deixa Tonto cuidando dos cavalos e quando volta pergunta se passou muito tempo fora, ao que Tonto responde batendo os pés no chão, como faria um... cavalo! Um humor totalmente visual que só seria possível nos quadrinhos. 



Algo que não lembrava era a quantidade de histórias envolvendo os peanuts. Ao que parece, o sucesso da tira (provavelmente alavancada pelo desenho animado) era estrondoso na época, a ponto de se tornar o personagem mais popular do período. Uma das histórias brinca exatamente com isso, imaginando se o sucesso teria mexido com a cabeça dos personagens.

A mad poderia ser muito boa para falar de política, filmes, seriados, mas era simplesmente insuperável quando falava de quadrinhos. 

A arte de Murphy Anderson, o homem de prata

 


Murphy Anderson foi um dos principais nomes da DC na era de prata dos super-herois. Seu trabalho em personagens como Adam Strange se tornaram antológicos. Confira algumas de suas obras.











Caçador - o anti-herói da DC Comics

 


Embora tenha escrito diversas histórias de super-heróis, o roteirista Archie Goodwin nitidamente gostava mesmo era de histórias policiais e de espionagem (algo que ele fazia com perfeição na tira Agente secreto Corrigan, em parceria com Al Williamson). Em 1973 ele uniu esses gêneros em um dos melhores (e menos conhecidos) personagens da era de bronze: Caçador.
Inspirado em um personagem antigo da DC, o Caçador tinha histórias de oito páginas, desenhadas por Walter Simonson e era publicado na revista Detective Comics (nos dois últimos capítulos tiveram a participação do astro da revista, Batman).
Eram apenas oito páginas, mas chamavam a atenção pelos roteiros bem elaborados e pela arte revolucionária.
Primeira página da primeira história: narrativa em flash back.  

A primeira história já dava o tom da série.
Uma agente da Interpol, Christine St. Clair vai ao Nepal atrás do misterioso personagem chamado Caçador. Ali ela encontra com um ancião que lhe conta tudo que sabe sobre o personagem: sobre como ele invadiu a Seita dos ladrões onde aparentemente foi para matar um revolucionário refugiado, mas no final, descobriu-se que seu objetivo era salvar sua vida. A trama toda é contada em flash backs, de acordo com a narrativa do velho em sequências de ação extremamente dinâmicas e diagramação nada convencional. No final, quando a agente vai embora, descobre-se que o velho, na verdade, é o próprio Caçador.
Hoje, tanto anos depois, é impossível não perceber que Frank Miller bebeu muito dessa série. As sequências, por exemplo, lembram muito a narrativa visual de Miller no Demolidor.
Caçador destoava de outros heróis da época por ser mais parecido com um anti-herói, que matava sem piedade quando necessário.
A narrativa visual lembra o que Frank Miller faria anos depois no Demolidor. 

Seu visual, por outro lado, é icônico: a roupa vermelha com ombreiras que lembram as roupas de samurai; a máscara simples e adereços nas pernas que, se fossem reais, iriam dificultar muito seus movimentos, mas nos quadrinhos davam um visual perfeito e arrojado.
Se Simonson carregava na experimentação visual, Goodwin se esmerava em produzir narrativas pouco convencionais. Uma das histórias, por exemplo, é focada numa família de turistas que visita uma catedral antiga onde o Caçador enfrenta seus inimigos da sociedade secreta, o Conselho. O único da família que consegue perceber o que está acontecendo é o menino, vestido de cowboy, mas nem seu pai, nem sua mãe lhe dão atenção. A história é toda focada no menino, inclusive em sua intervenção essencial na história.

A série teve apenas oito capítulos, mas marcou época, sendo lembrada com carinho pelos fãs.    
Uma curiosidade é que o Caçador, criado um ano antes do Wolverine, já tinha o fator de cura.
No Brasil essas histórias foram publicadas em revistas da editora Abril e reunidas no volume 1 de Lendas do Cavaleiro das Trevas – Archie Goodwin.

Perry Rhodan – Gigantes do polo sul

 


No número 213 da série Perry Rhodan os personagens estão miniaturizados (em uma proporção de um para mil) na superfície do planeta Horror. A única chance de voltar ao normal parece ser destruir a base no polo sul, o que, teoricamente, os devolveria ao tamanho normal.

Mas como seres minúsculos, reduzidos a insetos, poderiam destruir uma base com quilômetros de extensão? E pior: sem poder usar armas atômicas, já que todo o material atômico perdeu sua função durante o processo de miniaturização. Além disso, eles podem contar apenas com aviões dos modelos antigos.

O volume é o relato dessa missão suicida e árdua cujo melhor momento é a escalada pela cúpula que protege a base. Os personagens são tão pequenos que conseguem descansar nas reentrâncias do metal.

Capa alemã. 


Além da própria dificuldade da escalada em si, o grupo ainda precisa levar os explosivos. Apesar de ser um peso enorme para os personagens miniaturizados, tudo junto representa apenas um quilo de explosivos. Seria possível causar algum dano real no equipamento que provocou a miniaturização?

O livro é escrito por H.G. Ewers, que faz um bom trabalho, descrevendo bem todos os obstáculos enfretados pelos personagens, apesar de algumas partes que não fazem sentido ou não estão contextualizadas. À certa altura, por exemplo, o autor solta a frase: “E tudo isso se juntava ao ruído provocado pelos átomos liberados...”, mas não explica o que está provocando isso. Parece que o autor tinha em mente a explicação para essa frase, mas esqueceu de colocar no livro.

Mas o maior problema desse volume é que ele parece totalmente descartável. A missão é um retumbante fracasso e não interfere em nada na situação dos terranos. Eles chegam lá, percebem que o local é grande demais para se procurar um local estratégico, e simplesmente montam a bomba na engrenagem mais próxima e depois saem correndo. E, claro, isso não provoca nenhum dano real, servindo apenas para colocar as defesas da base mecanizada no encalço dos aviões, provocando mais e mais situações de desgaste físico e mental.