domingo, agosto 23, 2026

Demolidor – visões roubadas

 


Quando Frank Miller saiu do título do Demolidor, a Marvel precisava de alguém que o substituísse à altura. Para os roteiros chamaram Denny O´Neil, que tinha sido o tutor de Miller, ensinando a ele muita coisa sobre narrativa. Para desenhar, chamaram David Mazzucchelli, que logo se revelou um dos melhores desenhistas de quadrinhos de todos os tempos.

Essa dupla afinada, embora não tenha conseguido igualar a qualidade da fase Miller, fez algumas histórias inspiradas.

A splash page faz uma referência direta à origem do Demolidor

Exemplo disso é a trama de Visões roubadas, publicada em Daredevil  216 e 217.

A história começa com o vilão Celta fugindo da prisão. O personagem fazia parte do IRA, traíra o movimento e tentara matar Glorianna O'breen (namorada de Matt Murdock à época), mas fora impedido e preso pelo Demolidor.

O vilão é tão maluco que destrói o próprio rosto para escapar da prisão. 

Para escapar da prisão, Celta coloca a cabeça numa máquina na lavanderia, e foge quando está no hospital. Embora consiga fugir, seu rosto fica arruinado. O´neil assim, cria um vilão no melhor estilo pulp, enlouquecido, com rosto desfigurado, uma imagem ainda mais impactante pelo desenho de Mazzucchelli.

Mas, enquanto o Demolidor procura Glori para impedir que ela seja morta pelo vilão, um novo perigo surge: o Cossaco. A grande sacada é a habilidade do mesmo: cegar as pessoas. Considerando-se que o Demolidor é um herói cego, é uma situação irônica, que é muito bem usada pelo roteiro. Em determinado ponto, por exemplo, o vilão acha que o demolidor está... cego!

Mazzucchelli mandava muito bem nas cenas de ação. 


Aliás, a splash page que abre a edição 271 é perfeita. Um garoto avança cego pela rua em primeiro plano, prestes a ser atropelado por um carro enquanto um policial tenta salvá-lo. Se lembrarmos que o demolidor ganhou seus poderes e, ao mesmo tempo, ficou cego em um acidente de trânsito, a cena é extremamente simbólica.

A noite dos desesperados

 


Baseado no livro de Horace McCoy, a noite dos desesperados focaliza sua narrativa em um dos fenômenos mais bizarros da grande depressão: as maratonas de danças em que pessoas passavam dias e até meses dançando em troca de comida e de um prêmio que podia variar de mil a mil e quinhentos dólares. 

O filme é dirigido por Sidney Pollock e foi lançado em 1969 dentro do contexto da chamada Nova Hollywood, em que diretores jovens e idealistas revolucionaram o cinema norte americano, muitas vezes salvando estúdios da falência. 

Uma maratona de pessoas desesperadas é um tema perfeito para Pollock, pois lhe permite abordar diversos assuntos caros à Nova Hollywood, como a verdadeira face dos EUA, a sociedade do espetáculo e a forma como as pessoas se divertem com o sofrimento dos outros para esquecer seus próprios sofrimentos. 

O filme acompanha o casal Glória e Robert, ela uma atriz fracassada, ele uma pessoa que acaba entrando na maratona quase sem querer. 

Pollock faz diversas modificações na história do livro, principalmente retirando as partes mais violentas, provavelmente para adequar o filme à censura da época. Mas em compensação, aprofunda mais os personagens, inclusive os secundários e seus dramas. Mesmo para quem leu o livro, é só no filme que podemos sentir o sofrimento dos personagens após centenas de horas dançando e praticamente sem dormir. 

No livro os participantes têm 10 minutos de intervalo para tudo, inclusive comer e usar o banheiro. No filme as refeições são feitas em pleno palco, com eles dançando,uma ideia acertada, que característiza ainda mais a degradação dos personagens e o fato de que tudo relacionado a eles se tornar um espetáculo.

Mas o grande acerto de Pollock é durante os Derby, momento em que os dançarinos devem correr ao redor do palco e os últimos são eliminados. O diretor foca a câmera nos atores, de modo que não vemos mais nada. É como se estivesse ali no meio deles, sentindo todo o sofrimento e desespero. 

Destaque para as atuações de Jane Fonda e em especial Susannah York, cuja personagem mal aparece no livro, mas ganha muita profundidade no filme, como uma mocinha bonita que deseja ser estrela de cinema vai enlouquecendo ao longo da maratona.

Em uma época de reality shows, A noite dos desesperados parece cada vez mais atual.

Ivanhoé, de Walter Scott

 

A batalha por um trono. Um personagem sem força física, mas inteligente, que consegue se destacar por sua sagacidade e frases de efeito. Parece "As crônicas de Gelo e Fogo", série de fantasia de George Martin, mas trata-se de Ivanhoé, romance histórico escrito pelo Walter Scott e publicado na Inglaterra em 1820. O livro de Scott é um daqueles clássicos que definem um gênero a ponto de influenciar desde obras mais profundas, como os livros de Martin, até os ingênuos filmes matinês. Está tudo ali, desde suas melhores qualidades aos mais irritantes clichês (como da mocinha que acaba sendo salva em cima da hora por um herói adoentado, mas valente).

A obra se passa na Inglaterra da Idade Média. Nesse período, a ilha tinha sido invadida pelos normandos (vindos do norte da Europa e falando a língua francesa), que exerciam sua opressão e desprezo pelos habitantes locais, os saxões. 

O personagem principal, Wilfred, é um jovem nobre saxão deserdado pelo pai após aceitar os costumes cavalheirescos franceses e acompanhar o rei Ricardo Coração de Leão à Terra Santa para participar da Cruzada. Seu pai, Cedric, é um saudosista da época em que a Inglaterra era governada pelos saxões e todos os seus pensamentos parecem voltados para o retorno do domínio de sua raça sobre a ilha.
 
Ao ler a obra, é importante lembrar que ela foi escrita numa época em que o gênero romance (que seria o mais importante da literatura moderna) ainda estava se construindo. Isso provoca, de um lado, algum estranhamento pelo aparente pouco domínio de algumas técnicas narrativas e, por outro, acaba tornado muito previsível alguns acontecimentos para leitores mais atentos, que facilmente conseguem desvendar os segredos escondidos pelo autor, como o fato de que Wilfred é o cavaleiro que luta incógnito na justa ou que o arqueiro vestido de verde na verdade Robin Hood. O leitor desavisado irá estranhar principalmente as elocuções (a forma como o diálogo é introduzido na narrativa) e as descrições, muitas vezes deslocadas ou didáticas demais como se o romance se misturasse com um livro histórico. Exemplo: 

"O chão era composto de terra batida misturada com cal, que se transformava numa substância consistente, como a que é muitas vezes empregada em nossos celeiros modernos". 

Igualmente irritante são as digressões que muitas vezes paralisam a narração comprometendo o ritmo do livro ou frases desnecessárias, como: "No capítulo seguinte, vamos procurar descrever a cena que lhe surgiu diante dos olhos". 

Esses "defeitos", que mais se devem à época em que foram escritos acabam sendo suplantados pelas qualidades do livro. 

O personagem Wamba, por exemplo, um bobo da corte de Cedric, é um proto-Tyrion. Sua atuação na trama é fundamental em vários momentos e suas tiradas são praticamente equivalentes ao do anão Lannister (a ponto de se imaginar que o bobo tenha sido a principal influencia para a criação do famoso personagem de George Martin). Por exemplo, quando viaja sozinho com o rei Ricardo pela floresta e pressente que serão atacados por inimigos e que o rei não fará uso de uma trompa que poderá chamar amigos para auxiliar na luta, diz: "Quando a coragem e a loucura viajam juntas, a loucura deve encarregar-se da trompa, pois sabe tocá-la melhor". 

Outro aspecto interessante da trama é a forma como são retratados os judeus, especialmente se considerarmos que o livro foi publicado em 1820, época em que esse povo era vítima de grande preconceito. Há quem pense que a perseguição aos judeus foi invenção dos nazistas. Nada mais falso. O povo judaico era perseguido por razões religiosas desde a Idade Média e Ivanhoé tem o grande mérito de mostrar essa perseguição, retratando os judeus de maneira positiva:

"Não havia raça alguma na terra, no mar ou nas águas, que fosse objeto, por parte de todos, de tão interrupta e constante perseguição, como os judeus eram nessa mesma época. Sob os mais ligeiros e irrazóaveis pretextos, bem como ante as acusações mais absurdas e infundadas, as suas pessoas e propriedades eram expostas a todos os caprichos da fúria popular, pois os normandos, saxônicos, bretões e dinamarqueses, por mais adversas que essas raças fossem entre si, disputavam a primazia da ferocidade para com esse povo, que eles supunham, baseando-se em suas próprias religiões, dever odiar, insultar, desprezar, saquear e perseguir". 

E essa condição permaneceu por séculos, só sendo encerrada pela divulgação dos horrores dos campos de concentração nazistas. Só para termos de comparação, outro clássico romântico, Taras Bulba, do grande escritor russo Nicolai Gógol mostra com simpatia a perseguição que soldados cossacos realizavam contra os judeus, chegando até mesmo ao ponto de matá-los por pura diversão. Assim, é surpreendente que um livro escrito em 1820 mostre com tanta benesse esse povo, a ponto de colocar uma judia, Rebeca, como protagonista romântica, de caráter extremamente correto, capaz de abdicar de uma paixão por puro amor.Num romance recheado de personagens famosos, como Ricardo Coração de Leão, o princípe usurpador João, Robin Hood e outros, são justamente os que seriam os secundários, como a judia e seu pai, um bobo e um guardador de porcos que acabam se destacando, demonstração mais do que inequívoca de que Walter Scott estava muito além de seu tempo. 

Livro Hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos

 

Vivemos em um mundo hiper-real, em que ficção e fato se misturam. É um mundo de simulacros, de símbolos que existem por si só, sem nenhum referencial. Na arte esse fenômeno se refletiu na forma de obras que confudem real e ficcional. É a verossimilhança hiper-real: obras tão críveis que muitas pessoas acreditam que são reais. 
No livro Hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos - a fantástica história de Francisco Iwerten, eu analiso esse fenômeno a partir de um fato específico: o quadrinista fake Francisco Iwerten e seu personagem, o herói Capitão Gralha. Durante 18 anos acreditou-se que Iwerten existia e ele chegou até mesmo a ganhar prêmios. 
Quer conhecer melhor essa história e entender o que é o mundo hiper-real? 
O livro está sendo disponibilizado de graça no site da Marca de Fantasia.  Para baixar, clique aqui

X-men – Onde nenhum X-men jamais esteve

 


O auge da fase de Dave Cockrum no título dos mutantes foi a saga do império de Xiar. Uma fase tão relevante que a Abril escolheu a splah page de uma das histórias para colocar como capa de superaventuras Marvel 16.

Essa história, embora já estivesse sendo insinuada há vários números, começa de fato no número 105, quando a Imperatriz Lilandra chega à Terra e é sequestrada por Erik Escarlate, que havia manipulado O senhor do fogo para combater os X-men.

Um tapa-buraco antes do final da saga. 


Nesse número começamos a perceber a expansão do poder que Jean Grey adquiriu quando se transformou na Fênix. Ela consegue, por exemplo, voar, algo que não acontecia quando ela era a garota Marvel. Há, aliás, um diálogo dela com o arauto de galactus que mostra que a personalidade dela também já estava se modificando: “Não tenho medo da morte, arauto! Já fomos apresentadas!”.

No final dessa edição, Erik pega Lilandra e atravessa por um portal. Os X-men chegam atrasados e a Fênix reabre o portal, para espanto do Cíclope: “Deus! Jean era a mais fraca dos X-men e agora tem poder para abrir um portal interestelar sem esforço!”.

A Abril usou essa imagem como capa da SAM 16. 


A edição 106 tinha todo um jeito de anti-clímax, já que se focava num flash back de quando o professor Xavier criara involuntariamente réplicas dos X-men originais para lutarem contra os novos X-men, uma história reciclada por Claremont de uma edição anterior escrita por ele mesmo. Além da edição ser ruim, ela simplesmente paralisava uma trama no seu momento mais importante. A história também trazia o reflexo dos atrasos de Dave Cockrum, já que parte dela teve que ser desenhada por Bob Brown e a arte, de forma geral, estava muito abaixo do nível comum da revista. É bem provável que essa fosse uma edição tapa-buraco, produzida enquanto Cockrum terminava a história que sairia na 107.

No número 107 voltamos finalmente à grande saga envolvendo o império Xiar. Além da belíssima splash page aproveitada pela abril, temos uma página dupla impressionante com os x-men frente a frente com os Gladiadores, guardiões do império.  Nessa história são apresentados os piratas siderais, que surgem do nada, para salvar os X-men na batalha, configurando um verdadeiro deus ex machina.

Dave Cockrum gostava de fazer cenas detalhadas, como essa. 


A saga teve sua conclusão no número 108, com John Byrne assumindo os desenhos.  Byrne pega a história no auge, quando o irmão de Lilandra se apossou da pedra denominada “o fim de tudo que existe”.

Há alguns problemas no roteiro. Por exemplo, há guardiões do portal onde está a jóia extremamente poderosos e parece impossível ultrapassar essa barreira e, do nada, os heróis estão lá dentro. Além disso, não fica muito claro como aconteceria a destruição do universo nem como a  Fênix conseguiu impedir isso. Mas, para compensar, o tom geral é épico. Já Byrne mostra toda a sua capacidade expressiva, especialmente na Tempestade e na Fênix. O primeiro close que ele dá na personagem antecipa todo o drama que veríamos a seguir.

Ororo e Fênix alcançaram a representação perfeita no traço de Byrne. 


A partir dessse número Byrne se tornaria o desenhista oficial do título, mas ironicamente, a edição é dedicada a “Dave Cockrum, que ajudou a tornar o sonho realidade”.

Em tempo: o título da história é uma referência direta a Jornada nas Estrelas e seu lema: “Indo até onde nenhum homem jamais esteve”.

MAD 15 - Gripe suína

 

Guia MAD de sintomas da gripe suína foi minha quarta colaboração com a famosa revista de humor. Boa parte do texto, claro, eram piadas com porcos e/ou com o Palmeiras. Alguns dos sintomas também faziam referência ao país de onde se acreditava que vinha a gripe, o México. Hoje em dia se sabe que a gripe nem veio do México nem é proveniente de porcos, mas nas época isso deu uma boa sátira. Os desenhos ficaram por conta de Juarez Ricci e o roteirista Matheus Moura me ajudou no roteiro. 

Palácio de Versailles

 


O palácio de Versailles é o mais esplendoroso exemplo de arquitetura rococó. Foi construído a mando de Luís XIV, o rei sol, que pretendia alcançar, “além do suntuoso, o estupendo”. Para isso ele transformou o pavilhão de caça de seu pai no mais luxuoso palácio do mundo.
Os jardins têm duas fontes e um lago artificial. 

O ponto alto do palácio é a galeria dos espelhos, um salão de quase oitenta metros de extensão com 17 janelas, na frente de cada uma das quais há um enorme espelho (os espelhos na época eram caríssimos), que, junto com os candelabros criam um efeito de luz impressionante – fora as belíssimas estatuas.
A galeria dos espelhos é o local mais luxuoso do palácio.

No palácio viviam, além do rei e da rainha, dois mil nobres em eterno luxo e festas.
 O despertar e o recolher do rei eram assistidos por centenas de cortesãos, em rituais tão importantes para a corte quanto o nascer do sol. Cada refeição do rei exigia a presença de quase 500 pessoas. 
Foram necessários 30 mil soldados para encher o lago artificial. 

O lago artificial era tão grande que permitia que os nobres passeassem em gôndolas. Era tanta água que para encher o lago foram necessários 30 mil soldados.
Os gastos excessivos de Versailles, aliados às dividas com a guerra, levaram o povo à penúria, provocando a revolução francesa.

No século XVIII uma das maiores manifestações de poder e luxo era encomendar uma escultura do artista italiano Gian Lorenzo Bernini, o mais caro e aclamado da época. Luís XIV encomendou duas. Uma escultura equestre, atualmente no pátio do Museu do Louvre e um busto, no palácio de Versailles. A habilidade incrível de Bernini com o mármore é perceptível nas volutas do cabelo do monarca. Tirar formas arredondadas e tão perfeitas do mármore é algo para mestres absolutos.
Os jardins têm belíssimas esculturas. 
A cama do rei: o despertar do soberano era um espetáculo. 

Fundo do baú - Tutubarão

 


Tu tu barão (Jabberjaw) foi um dos muitos desenhos animados surgidos no rastro do sucesso de Scooby-Doo com adolescentes e um animal resolvendo mistérios.

A série foi criada para aproveitar o sucesso do filme Tubarão, de Steven Spielberg. Alguém na Hanna-Barbera deve ter pensando: por que não colocar um tubarão como mascote de um grupo de adolescentes? A ideia era tão absurda que poderia funcionar.

As história se passava em um futuro em que as cidades ficavam no fundo mar (e aparentemente todos sabiam respirar dentro d´água). Os protagonistas eram os componentes de uma banda de rock chamada Os netunos composta por um tubarão branco, Bife, o líder; Leila, uma garota esnobe e ranzinza; Bolha, uma loira burra. Completava o time Linguiça, uma óbvia versão do Salsicha do Scooby-Doo. Até a quantidade de integrantes era a mesma de Scooby-Doo, mudando apenas a caracterização.

No episódio O ladrão gelado, Tutubarão recebe como recompensa, após salvar um velhinho, uma escritura de uma mina de ouro. Mas os garimpeiros locais estão sendo roubados por um ladrão chamado Dedo Frio, que já roubou todas as escrituras de minas da região, como alerta a autoridade local. Curioso que mesmo sabendo que as escrituras são roubadas, as autoridades aceitem.

Ao entrar no hotel, tutubarão disfarça-se de uma morça com medo de ser expulso do local. Mas morças são proibidas no hotel, de modo que ele é jogado na rua: “Tinha que escolher uma cidade onde as morças não merecem nenhum respeito!”, reclama o protagonista.

Os bandidos tentam roubar a escritura com um raio congelador móvel, mas o tutubarão consegue despistá-lo com suas trapalhadas. “Ele é muito esperto”, diz um dos bandidos.

Dedo Frio resolve recorrer a uma tubarão fêmea cantora, que rouba a escritura enquanto o Tutubarão é congelado em um bloco de gelo: “Perdi minha namorada, minha escritura e um bocado de respeito”, reclama ele.

A Arte versátil de Toninho Lima

 


Toninho Lima é um desenhista nacional com uma ampla trajetória nos quadrinhos. Seu traço versátil lhe permitiu desenhar desde o gibi infantil dos Trapalhões quanto quadrinhos de terror.

Ele nasceu em 1961, em Carlóplis, Paraná. No início dos anos 1980 ele começou a sua carreira de desenhista profissional trabalhando para a editora Grafipar, de Curitiba.

Em seguida desenhou terror pra D-Art, Maciota, Press, Bloch (onde desenhou HQs do Lobisomem, Drácula e criou o Último NINJA e o Bárbaro Bukhan). Depois trabalhou na Editora Abril arte finalizando histórias dos Trapalhões e personagens da Disney.

Toninho Lima teve uma ampla produção para a editora Escala, incluindo Street Fighter e Didi  Lili – geração mangá.

Em 2013 ele fez arte-final para a revista Spider da editora norte-americanas Dinamite comics.

No momento trabalha em hqs para estúdios e desenvolvendo vários projetos de hqs com publicações de forma independente.













sábado, agosto 22, 2026

Monstro do Pântano – Fruto Maduro

 


O número 75 da revista Swamp Thing trouxe uma das histórias mais marcantes da fase de Alan Moore à frente do título.

Desenhada por Stan Woch e Ron Randall, a história mostra um hippie, Chess, achando no pântano um turbéculo que caíra do corpo do Monstro do Pântano. Era o mesmo fruto que o personagem dera para Abbe Cable na polêmica edição em que os dois “transam”.

O hippie estuda o turbéculo e conclui que ele é um tipo de alucinógeno. É quando ele recebe a visita de um amigo, Dave, cuja esposa está morrendo de câncer: “Ela sabe que vai partir logo. Disseram que o câncer é inoperável e ela respondeu que preferia estar em casa quando chegasse a hora, mas... o pior são as dores... ela tá sofrendo muito, cara”. Ele quer algo para aliviar as dores dela e acaba recebendo um pedaço do turbéculo.

Mal este sai, Chess recebe mais uma visita: Milo. Este, ao contrário da visita anterior, é um indivíduo abusivo, que simplesmente toma para si um pedaço do tubérculo e vai embora.

A dinâmica da história oscila assim, entre esses dois polos: a experiência da mulher com câncer e seu marido com o alucinógeno em constraste com a experiência de Milo. O próprio Chess, ao ouvir os relatos posteriormente, conclui que o fruto desperta aquilo que a pessoa é. Pessoas boas têm uma ótima viagem, pessoas más têm verdadeiros pesadelos.

Assim, enquanto o casal tem uma experiência transcendental na qual a mulher encontra a paz para aceitar a morte, Milo se vê como um monstro num mundo de monstros (e aqui o desenho aproveita para colocar diversos monstros que já haviam aparecido em fases anteriores da revista).

O alucinógeno desperta o que a pessoa tem no íntimo. Milo vê o mundo como pesadelo. 


Numa das introduções aos encadernados do personagem, Alan Moore escreveu que ninguém mais lia poesia – e os quadrinhos eram uma forma de trazer a poesia de volta para as pessoas.

Essa história é um dos melhores exemplos disso.

“Tá tudo se molhando... enquanto a água muda de sólida para líquida para gasosa no movimento ao redor do planeta. E tem pingentes de gelo separados que derretem e somem, poças separadas que secam e se vão... mas não deixam de existir. Só mudam de estado. Veja, pingentes de gelo, assim como flocos de neve, são únicos, cada um com sua própria bela forma. E, quando derrete, a perde para sempre. É onde estou agora. Ainda tenho minha própria forma. Gosto dela e não quero perdê-la, mas pingentes de gelo têm medo do sol”, diz a mulher, num diálogo que reflete tanto a poesia quando a filosofia de Alan Moore.

Enquanto as sequências de Milo são escuras, as sequências da mulher com câncer são luminosas. 


Enquanto isso, o mau-caráter Milo reflete sobre suas experiência: “Deus, então é assim que o mundo é de verdade. Agora tô vendo, nós todos somos monstros! Coisas deformadas vivendo no inferno. Tudo morre e apodrece. Tudo se enche de insetos...”.

Vale destacar o ótimo trabalho dos desenhistas, que consegue transmitir visualmente cada situação. As sequências com o Milo são escuras, repletas de hachuras, cores vermelha e verde. Já a sequência com o casal é luminosa, com traço limpo e cores azul e amarelo.

Era uma vez em Hollywood

 

Quentin Tarantino é um sacana. Exemplo disso, é seu novo lançamento, “Era uma vez em Hollywood”, um filme feito como uma forma de vingança cinematográfica contra Charles Mason e sua gangue, que, em 1969, assassinaram a atriz Sharon Tate, grávida de oito meses, esposa do diretor Roman Polanski.
O filme é centrado no vizinho de Tate, um ator decadente de seriado de faroeste, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt). Dalton vê o cinema convencional ser eclipsado pelo cinema de contracultura, representado por diretores como Polanski, e a produção de wertern se deslocar dos EUA para a Itália. E, em meio a isso, as tensas cenas com a gangue de Mason, como a visita de Booth ao rancho Spahn, uma fazenda que tinha sido cenário de filmes de faroeste e que na época era dominada pela gangue.
O filme é assim, uma descrição do cenário cinematográfico do final da década de 1960, uma vigança pessoal do diretor, uma homenagem à atriz Sharon Tate. E é óbvio que Tarantino faz de tudo isso uma grande diversão e prazer, a começar pelas várias sequências centradas nos pés das atrizes.
Além disso, o diretor aproveita os flash backs de Dalton e Booth para fazer paródias de filmes e até de comerciais (não percam a cena pós-crédito, com os bastidores da filmagem de uma propaganda de cigarro).
A cena da filmagem do piloto de um faroeste no qual DiCaprio faz o papel de vilão é um dos grandes momentos do filme e uma grande demonstração de como Tarantino consegue tirar o melhor dos atores. Destaque para a atriz mirim Julia Butters, em uma química perfeita com DiCaprio.  
Como é comum em outras obras de Tarantino, Era uma vez em Hollywood é repleto de citações a filmes e seriados reais, a começar pelo próprio título, que faz referência direta à mais famosa película de Sérgio Leoni, Era uma vez no oeste.
A estrutura de flash backs, que tomam metade do tempo do filme, torna o roteiro meio desconjuntado. Mas se você se propor a se divertir tanto quanto o diretor, dificilmente isso será um incômodo.

Doutor Estranho – Doutor, cura-te a ti mesmo!

 


Um aspecto interessante dos personagens da Marvel é que na maioria das vezes eles tinham algum problema na relação com os genitores. Peter Parker não havia conhecido seus pais. Bruce Banner havia sofrido tantos abusos de seu pai que desenvolveu diversas personalidades, uma delas o Hulk. Matt Murdock odiava o pai por obrigá-lo a estudar para se tornar um advogado.

O mestre das artes místicas também tinha uma relação complicada com o genitor, algo que fica explícito na história Doutor, cura-te a ti mesmo, publicada em Uncanny origins 12, de 1997.

A arte de Marcelo Campos explora o tom dramático da história. 


A história escrita por Len Wein e desenhada pelo brasileiro Marcelo Campos inicia com o mestre das artes mágicas olhando triste pela janela de sua mansão.”Ah, meia-noite”, diz ele. “Tem início da hora da verdade! Mais uma vez recai sobre mim o dia fatídico! Finalmente chegou a hora de encarar os meus próprios demônios!”.

Com um gesto ele faz com que a tapeçaria deslize, revelando um quadro com um homem de meia idade. “Olá, mais uma vez, meu pai. Temo que tenha chegado o momento de reviver isso... o momento no qual, de novo, eu tento lidar com aquilo que você fez comigo!”.

O pai de Stephen era um homem que só pensava em dinheiro... 


Essa sequência é magistral tanto pelo texto (que introduz uma boa dose de suspense à história), como pelo desenho de Marcelo Campos, que destaca a expressão lacrimosa de Stephen Strange.

Nas páginas seguintes descobrimos que o pai de Strange era um homem rígido, que só pensava em dinheiro, algo que fica óbvio quando os filhos e a esposa organizam uma festa de aniversário para ele. “A vida é muito curta para ser desperdiçada com essas bobagens!”.

Como resultado, Stephen Strange se torna um médico frio e ganancioso.


Esse trauma muda a personalidade do jovem Stephen, que se torna alguém frio e ganancioso. Um cirurgião que só pensa em dinheiro, como se viu naquela primeira história de Steve Ditko e Stan Lee.

Len Wein explora muito bem esse passado do herói, demonstrando como suas ações estavam diretamente relacionadas ao seu passado, e termina a história com um momento de redenção.