sexta-feira, agosto 07, 2026

Blueberry - O cavaleiro perdido

 

 

Foi no quarto álbum da série Blueberry que apareceu um dos personagens mais carismáticos de toda a saga,o garimpeiro Jim Mclure. 

Mclure deveria participar de apenas parte da história, mas Giraud gostou tanto dele que pediu que Charlier ampliasse sua participação, uma decisão mais do que acertada. 

A história começa com Blueberry salvando o Tenente Craig em uma sequência eletrizante. 


Na história, Blueberry precisa encontrar Crowe, um mestiço que havia desertado do exército, mas que é o único que poderia levá-lo ao chefe Cochise para negociar o fim da guerra. E só quem poderia guiá-lo pelo deserto repleto de apaches é o velho Mclure, alguém que conhece o local como a palma da mãos e tem boas relações com as tribos. 

Já nas primeiras páginas percebemos que aquele é um personagem foge completamente do estereótipo do bom mocinho. Ele vende armas e bebidas para os indígenas e não consegue resistir a um bom trago de uísque. Isso, aliás, coloca a missão em perigo à certa altura. 

McLure já chama atenção desde sua primeira participação. 


Ou seja, Mclure é o parceiro perfeito para o nada convencional Blueberry.

Da mesma forma que em outros álbuns, aqui temos os perigos constantes rondando os protagonista, com soluções sempre criativas para os mesmos. Nisso Charlier era um mestre. 

Considerando que essa característica agora ganha o peso de mais um personagem carismático, a leitura se torna viciante. 

Arte moderna - muito além da pedra no museu

 

Recentemente um vídeo circulou na internet e tem sido muito compartilhado. Mais que isso: seu principal argumento tem sido repetido à exaustão: arte moderna é uma pedra no museu.
O vídeo faz uma distinção clara entre os grandes artistas do passado e os modernos, representados pela pedra no museu.
Mas será isso mesmo? Será que a arte moderna se resume a uma pedra no museu?
Para explicar o assunto, são necessárias algumas definições e explicações. A primeira delas é que o vídeo faz uma confusão, juntando em um só saco de gatos muitos movimentos (dadaísmo, surrealismo, arte conteporânea etc e, do outro lado, renascimento, barroco, neo-clássico etc). Mas, para efeito deste artigo, vamos adotar a definição do vídeo. Assim, haveria a arte moderna e arte não-moderna. Para o autor do vídeo, só poderia ser considerado arte realmente a arte não-moderna.
Então o que seria a arte não-moderna, que o autor do vídeo considera a arte verdadeira? É uma arte que compreende essencialmente duas possibilidades artísticas: a pintura de cavalete e esculturas em mármore. Além disso, era uma arte que seguia rígidas de composição e de tema.
Olympia: nudez provou escândalo

Para explicar o que seriam as regras rígidas de temas, vamos pegar um quadro específico, Olympia, obra de Édouard Manet, de 1863. O quadro foi recusado pelo salão de Paris, foi exposto no salão dos recusados e causou enorme polêmica e escândalo. O quadro mostrava uma prostituta nua deitada na cama. Mas, se há muito tempo o nu já era representado na arte, por que um quadro com nu provocou escândalo? É que na arte não-moderna o nu era aceito desde que fosse com deuses gregos, figuras históricas. Um deus grego ser representado nu era algo normal e até edificante (A arte representava sempre temas considerados edificantes: mitologia grega, história romana, passagens bíblicas). Mas uma mulher normal, e, pior, uma prostituta, era algo inaceitável. Por conta de toda a polêmica envolvendo o quadro, Olympia pode ser considerada a obra fundadora da arte moderna.
A arte moderna, a partir daí, quebrou as regras rígidas de composição e de temas e de suporte. Para ser arte não era necessário representar deuses gregos ou figuras históricas. A arte não precisava ser edificante. Também não era necessário que a obra fosse uma pintura de cavalete ou um escultura feita em mármore.
Feita essa observação, vamos fazer um pequeno tour de arte moderna que vai muito além da pedra no museu. Deixo por conta do leitor a decisão sobre ser arte ou não.

Art nouveau – movimento artístico que foi revolucionado ao mostrar que a arte não era apenas o que estava no museu. Ou algo contemplativo. Você poderia pegar na arte e até usar a arte. O art nouveau podia ser visto na decoração interna das casas, na arquitetura, nos objetos de uso pessoal e até em cartazes, como os anúncios dos espetáculos de Sarah Bernhardt realizados por Alphonse Mucha.

O gabinete do Doutor Caligari, filme de 1919, de Robert Wiene. O filme retrata uma história contada por um louco. Os cenários distorcidos refletiam a mente conturbada do protagonista. Não era um tema edificante, como se esperava de uma obra não-moderna. Os cenários também não seguiam os padrões rígidos de composição. E, principalmente, era cinema, e não pintura de cavalete ou escultura em mármore. Segundo os padrões da arte não-moderna não poderia de forma alguma ser considerado arte.

Salvador Dali pintava em cavalete, mas seus quadros surreais passavam longe de seguir as regras de composição e tema da arte não-moderna. Não era uma pintura edificante, mas reflexos de sonhos. Além disso, em uma de suas obras, ele compôs o rosto de Marilin Monroe com uma estrutura em que o visitante poderia entrar e se sentar em uma poltrona, interagindo com a obra. Passava longe de ser considerado arte pelos padrões da arte não-moderna.

Poty Lazzarotto é um pintor e escultor paranaense. Suas esculturas eram feitas em concreto e raramente ele pintava em cavalete, preferindo grandes painéis, como produzido para o aeroporto de Curitiba. Além disso, suas figuras não seguiam o padrão rígido de composição e anatomia da arte não-moderna, com figuras muitas vezes distorcidas. Também não poderia ser considerado arte.

Vik Muniz – esse artista brasileiro reconstrói obras de arte clássicas usando lixo. Sim, lixo. A obra é realizada em um grande galpão e depois fotografada. O que vai para as galerias são as fotos das mesmas. Embora reproduzam pinturas clássicas, não poderia ser considerado arte de acordo com os padrões da arte não-moderna, em especial em decorrência do suporte.

Ron Mueck – Esse artista australiano usa os mais diversos tipos de materiais, inclusive cabelo humano, para produzir suas obras em tamanho gigantesco ou minúsculo. Seus temas não são edificantes. Ao contrário: mostram pessoas normais, com seus defeitos muitas vezes destacados, com varizes, unhas encravadas e gorduras localizadas. Uma de suas obras é uma galinha morta pendurada no teto. Não poderia ser considerado arte por conta do material utilizado e dos temas abordados.

Orson Welles – Considerado o maior cineasta de todos os tempos. Seu filme Cidadão kane mergulhou fundo na vida e na personalidade de um magnata da imprensa em cenas com profundidade de campo, em que o que estava atrás tinha função fundamental no que era dito em primeiro plano. Na década de 1970, ao dirigir um filme sobre um homem que falsificava obras de arte, promoveu uma profunda reflexão sobre a autenticidade da arte. Era cinema, portanto, não era arte.

Alan Moore – esse britânico é cineasta, faz performances musicais, escreve peças de teatro e escreve quadrinhos. Entre suas obras mais famosas estão V de Vingança e Watchmen. Ele não desenha pinturas de cavaletes ou produz esculturas de mármore. Na verdade, ele desenhou muito pouco, sendo a maior parte de suas obras realizadas com ilustrações de outros artistas. Seus temas também não são edificantes. E são quadrinhos. Não seria considerado arte por qualquer critério da arte não-moderna.

José Loures – Uma das características da arte moderna é a possibilidade de interação com a obra. O público não é apenas um receptor passivo, que fica contemplando a obra a uma distância demarcada com linha vermelha no chão, como ocorria na arte não-moderna. Esse artista de Anápolis faz obras de game arte, em que o visitante não só interage com a obra, mas joga com ela, como num jogo de tabuleiro. Não poderia ser considerado arte sob qualquer prisma de acordo com os padrões da arte não-moderna.

Esses são alguns exemplos que vão muito além da pedra no museu. Nenhum deles seria considerado arte a partir dos padrões da arte não-moderna (pintura de cavalete ou escultura em mármore, temas edificantes, receptor passivo, composição rígida). Se são arte ou não, deixo a decisão ao leitor.

O anel de nibelungo, de Roy Thomas e Gil Kane

 


O anel de nibelungo, de Richard Wagner, é uma das operas mais famosas de todos os tempos e sua influência sobre a literatura de fantasia é inestimável. É também uma das mais grandiosas. A ideia original era escrever apenas uma parte, A morte de Siegfried, mas o autor convenceu-se de que precisava de uma narrativa mais completa. Assim, ele produziu um épico que, de certa forma, resume toda a mitologia nórdica.

Nos quadrinhos, dois grandes fãs de O anel de Nibelungo eram o desenhista Gil  Kane e o roteirista Roy Thomas. Kane, inclusive, foi o responsável por apresentar o material ao amigo, ao levá-lo para assistir a ópera na década de 1970.

A arte ce Gil Kane é grandiosa. 


Na década de 1990, os dois propuseram para a DC Comics adaptar esse épico para os quadrinhos, proposta que foi prontamente aceita. A paixão de Kane pela história era tão grande que, durante a produção da HQ, ele chegou a desenvolver um linfoma, um dos tipos mais agressivos de câncer, e escondeu isso de todos com medo da editora cancelar o projeto.

A história inicia em uma época em que Valhalla acabar de ser construída pelos gigantes. Em pagamento, Woltan prometera aos gigantes a deusa Freia, mas sem a intenção de cumprir o acordo. Quando a situação parece perdida, surge Loge, que convence os gigantes de que o anel de nibelungo, um artefato extremamente poderoso, poderia ser um substituto à altura de uma deusa.

Woltan convenceu os gigantes a construirem Vahalla e em troca ofereceu a deusa Freya.


O nibelungo Alberich era um anão que, ao renunciar ao amor, roubara o tesouro das donzelas de Rhine e com ele forjara o anel e um capacete que concedia a invisiblidade.

O anel é roubado pelos deuses, mas o dono original roga uma maldição cujo resultado já é percebido logo no início, quando um dos gigantes mata o irmão para se apossar do mesmo.

Esse é só o início de uma longa saga construída em torno do artefato, uma saga que terá como principal protagonista o herói sem medo Siegfried.

O anel é amaldiçoado.


A adaptação de Roy Thohoas tem qualidades e problemas. O maior problema está relacionado ao fato de que tentaram condensar uma história grande demais em poucas páginas. Isso faz com que fatos sejam mal explicados e que os personagens simplesmente pulem de um ambiente para o outro de forma abrupta, especialmente no terceiro capítulo.

A edição da Opera Graphica acrescenta um outro problema: a história foi produzida para ser publicada em cores, e aqui saiu em preto e branco. O déficit provocado por essa escolha é óbvio demais.

Fundo do baú - Mundo da Lua

 


Mundo da Lua foi um dos seriados nacionais de maior sucesso da década de 1990. Criado por Flávio de Souza, o programa teve 52 episódios exibidos originalmente entre 1991 e 1992 na TV Cultura.

A série tinha como protagonista o garoto Lucas Silva e Silva, cujo sonho era ser astronauta. O primeiro episódio mostrava o aniversário de dez anos do personagem e as sucessivas frustações com os presentes recebidos: meias, cuecas, sapatos, cintos. Além disso, o bolo foi deixado fora da geladeira e a cobertura derreteu e os salgados foram congelados.

Parece ser o pior aniversário de todos, até que ele ganha do avô um velho gravador e começa a narrar sua versão do aniversário, em que tudo dá certo.

Estabelecia-se aí a estrutura do programa, dividido entre os fatos reais e a imaginação de Lucas. Um recurso que ajudava a criar o clima de fantasia eram os efeitos simples, mas funcionais do gravador, com luzes acendendo e barulhos de ficção científica. Somava-se a isso a fala do personagem: “Alô, alô, planeta terra! Aqui fala Lucas Silva e Silva, falando diretamente do mundo da lua!”.

O seriado também se destacava por retratar a família de classe média da época, com o pai professor tendo dificuldade para pagar as contas, a empregada doméstica que não desgrudava do rádio e parecia falar com o locutor, como se ele a ouvisse e o avô com alma de criança.

O elenco tinha verdadeiras estrelas, como Antônio Fagundes, que interpretava o pai de Lucas, Gianfrancesco Guarnieri, como avô e melhor amigo do garoto. Flávio de Souza, criador do seriado, fazia participações ocasionais como o atrapalhado tio Dudu. Aliás, na vida real, Flávio era casado com Mira Haar, que interpretava a mãe de Lucas.

O filme da dupla Gian-bené nunca realizado

 

Story board do filme do Penumbra.


Em 1991 a TV Manchete realizou um concurso de curta-metragens. Os interessados enviavam o roteiro de um filme e os melhores ganhavam uma câmera para produzirem seus curtas.
Óbvio que quem criou o concurso não imaginou que alguém pudesse apresentar a proposta de um vídeo com super-herói, mas o Bené se empolgou assim mesmo.  Já tinha até mesmo a ideia de como seria: o nosso herói Penumbra salvando reféns dentro de um ônibus. Veio e me contou toda a ideia, do desenvolvimento da trama até o momento apoteótico em que o Penumbra entrava no ônibus quebrando a janela traseira e derrotava os malfeitores.
Eu tinha minhas objeções:
- Mas, Bené, onde é que vamos arranjar um ônibus para filmar isso?
- Compadre, é fácil. A gente vai nas empresas de ônibus. Uma delas vai acabar nos emprestando o ônibus em troca de aparecer como patrocinador.
Eu ainda continuava com dúvidas:
- Tem certeza de que algum dono de empresa vai nos deixar quebrar o ônibus para fazermos esse filme?
- Vai ser só a janela de trás.
- Ah tá... não, espera! Essas janelas são caríssimas!
Mesmo assim Bené conseguiu me convencer a escrever o roteiro. Aliás, ao invés de fazer o roteiro, pulamos direto para o story board! Passamos semanas nisso, discutindo a história, criando as sequências, eu bolando os diálogos.
Ganhamos o prêmio? Nada. Na verdade, nem mandamos. Nesse meio tempo o Bené já não estava tão certo de que um filme de super-heróis seria bem aceito pelos críticos de cinema que iriam julgar os roteiros... e ainda havia a dificuldade de achar um empresário bom samaritano disposto a nos dar um ônibus para destruir durante as filmagens...
No final, acabou ficando só o story board mesmo.
O curioso é que, lendo o roteiro, percebo a forma como contornamos o problema do ônibus. Substituímos ele por algo mais fácil de achar em Belém: uma catedral gótica!

Perry Rhodan - O sol chamejante

 

 

Os volumes finais do segundo ciclo, depois que a ameaça dos druufs já tinha sido debelada e Atlan ocupará o lugar do computador regente de Arcon, foram destinados a costurar as pontas soltas. O volume 94 tinha o objetivo de fazer isso com uma história publicada no volume 81, A nave dos antepassados. Nele, Gucky encontra uma velha nave arconida repleta de colonos que vaga pelo espaço há milhares de anos e parece estar sendo governada por um computador déspota. 

No volume em questão Atlan pede que Rhodan vá atrás dessa nave, pois precisa de arconidas não degenerados para ajudá-lo a administrar o império.

O sol chamejante começa com uma situação que não tem relação nenhuma com a trama. Uma dezena de naves druufs entra na nossa dimensão e Rhodan os persegue e elimina. Essa sequência, que ocupa as 30 primeiras páginas, não tem importância nenhuma no livro e parece ter sido escrita apenas para preencher o total de páginas necessárias para o padrão da série. 


A tarefa de resgatar os arconidas é dificultada por um erro dos que estão acordados. Eles tentam uma transição na direção do sistema solar mais próximo. Mas o salto acaba acordando os 10 mil que estão congelados. Ocorre que a nave não tem espaço, comida ou roupas para tanta gente e como resultado intalase o caos. Nesse ponto a narrativa de Clark Darlton foca na nave desgovernada, que, para piorar ainda mais a situação, está indo na direção de um sol. Como não há nenhum comando, eles chegam a atirar na nave terrana a que vai resgatá-los. Tudo leva a crer que acontecerá um desastre.

É um livro tenso, escrito por um dos melhores autores da série. Pena que o início não seja promissor, o que pode afastar alguns leitores.

Jornada nas Estrelas: A Nova Geração –O Último Adeus

 


Uma das grandes inovações da série A Nova Geração (Star Trek: The Next Generation) para a franquia Jornada nas Estrelas foi o holodeck, uma sala de realidade virtual usada para treinamento e diversão da tripulação. Embora já tenha aparecido no piloto, essa tecnologia só vai ser de fato explorada no episódio "O Último Adeus" (The Big Goodbye), da primeira temporada.

Na história, a Enterprise vai se encontrar com os Jarada, uma raça de seres insetoides, na tentativa de realizar acordos diplomáticos. Mas essa raça, extremamente formal, faz questão de boas-vindas na própria língua, e um erro de pronúncia é considerado uma ofensa que pode resultar em um ataque à nave.

Para relaxar enquanto tenta memorizar a saudação, o Capitão Picard resolve entrar no holodeck em uma simulação na qual ele assume o papel de Dixon Hill, o herói das novelas policiais de pulp fiction. Mas um rastreamento feito pelos alienígenas na Enterprise provoca um mau funcionamento no sistema, de forma que Picard, Data, a Doutora Crusher e um especialista no século XX ficam presos na realidade virtual. Pior: esse bug desativa os protocolos de segurança, fazendo com que os tripulantes possam ser mortos na simulação.

A trama do holodeck é obviamente baseada na estética do Filme Noir e, especificamente, na versão cinematográfica de O Falcão Maltês (1941), realizada por John Huston, com um mafioso querendo um objeto misterioso (um MacGuffin) que, no episódio, nunca aparece.

Este costuma ser o episódio mais festejado da primeira temporada, tendo ganhado inclusive o Prêmio Peabody. De fato, é uma narrativa divertida, com destaque para as situações de suspense (os personagens conseguirão sair do holodeck sem serem mortos e a tempo de Picard fazer a saudação?) e a boa caracterização dos personagens. A trama do mafioso e do objeto misterioso é propositalmente clichê, o que faz sentido, considerando que a situação era apenas uma simulação para diversão de Picard.

Na série clássica, as abordagens em civilizações antigas eram quase sempre forçadas, ou dependiam de soluções únicas, como no clássico "A Cidade à Beira da Eternidade". Este episódio abriu toda uma série de possibilidades narrativas para A Nova Geração, cujos personagens poderiam viver aventuras em qualquer período histórico de maneira verossímil dentro da lógica da série.

quinta-feira, agosto 06, 2026

Juliette Society

 



Sasha Grey era uma garota meio nerd que queria ser atriz pornô, apesar de não se encaixar no gênero gostosona. Conseguiu, depois aposentou-se e tornou-se atriz e escritora.

Juliette Society é seu primeiro livro e mostra que existe sim, vida inteligente no mundo pornô.
O livro é bem escrito, com uma prosa leve, mas nem de longe pobre.
O Julliete Society do título é uma organização secreta da qual participam os homens que mandam no mundo.
O nome é uma referência a um dos romances mais famosos do Marquês de Sade, Justine. Julliete é a irmã devassa da pudica Justine. Na obra de Sade, enquanto Justine é castigada pelo destino, sua inocência sendo constantemente punida, Julliete é brindada com o sucesso quanto menos inocente e mais sexualizada se mostra.
O capítulo que explica o título mostra bem que se trata de um livro diferente da maioria dos eróticos. Sasha Grey (cujo pseudônimo é uma homenagem ao romance O retrato de Dorian Gray) discorre sobre história, filosofia, literatura. E cinema. A protagonista é uma estudante de cinema, o que leva a diversas citações e referências a obras famosas da sétima arte, como A bela da tarde, de Buñuel.
Na verdade, o livro funciona pouco do ponto de vista do erotismo. É mais um triller usando como fundo o conhecimento da autora sobre o meio pornô recheado de filosofia, cinema e literatura.
A parte menos interessante é o final, mal-amarrado, em que o livro, que até então ia em pleno realismo, flerta com o fantástico.
Ainda assim, vale a leitura.

Perry Rhodan – Arrastados pra Andro-Alfa

 


O número 221 da série Perry Rhodan gira em torno de um plano do Marechal Mercant pra descobrir os planos dos alienígenas maahks, cujas naves estão se acumulando em torno do planeta Horror. Eles teriam o objetivo de atacar a Terra? Para descobrir o que está acontecendo, ele recruta um grupo de soldados cuja missão é libertar alguns maahks aprisionados pelos terranos e se infiltrarem como espiões nas linhas inimigas. Como dificilmente eles conseguirão voltar, são escolhidos homens infectados por uma doença que os fará morrer em breve.

A trama já é interessante, mas se torna ainda melhor por ser escrita por William Voltz, o melhor autor da série. Voltz escreve a história do ponto de vista de um dos soldados recrutados, como se fosse um diário que ele estivesse escrevendo. Como resultado, temos trechos deliciosos, como: “A nave Explorer 8080 em que eu viajava pousou num dos pequenos planetas desérticos cujo aspecto é pacato que nem o da cozinha da vovó – e que na verdade são venenosos que nem o cachimbo do vovô”.

Voltz caracteriza muito bem os personagens, mostrando que preferia trabalhar com personagens secundários do que os medalhões da série, como Rhodan. Destaque para o carismático Major Sorlund, cujo comportamento fleumático nos traz alguns dos momentos mais interessantes do livro – alguns muito próximos do humor.

A capa original alemã. 


A missão é mais difícil do que parece, pois todos devem acreditar que eles de fato estão cometendo um ato de traição, o que significa que os soldados precisarão driblar todo o esquema de segurança da base espacial – o que ocupa a maior parte do livro.

Quando eles finalmente conseguem fugir com os alienígenas, o livro entra em outra fase, agora de horror psicológico, pois tudo leva a crer que o plano deu errado e o destino dos personagens será uma morte terrível.

No livro os personagens não são mostrados como heróis imbatíveis. Voltz humaniza-os com frases como: “No interior da cabine eu tive medo. Quando chega a hora em que você encara a morte frente a frente, você acha que cada dia que ainda pode viver é uma grande benção”.

É possível que o escritor já estivesse treinando para elaborar uma equipe de personagens secundários carismática, como a que protagonizaria os números 241 e 242 da série, com a história do Planeta dos Pântanos.

Dylan Dog – Alguém chama do espaço

 


Umberto Eco não só foi um dos mais importantes pensadores do século XX como também um notório fã de quadrinhos. Assim, não é de se admirar que ele se tornasse também um personagem de HQs. Isso aconteceu graças à amizade do escritor com o roteirista Tiziano Sclavi, criador de Dylan Dog.

Na história, publicada no Brasil no número 7 do título (editora Mythos), um observatório recebe uma mensagem extraterrestre. Para decifrá-la é chamado o linguista Humbert Coe (o nome do personagem é um anagrama do nome real do escritor). Ele consegue decifrar uma parte da mensagem, que parece não fazer sentido algum. Quem mata a charada é a faxineira do local, uma imigrante africana: é o nome de uma cidade em Gales.

A história pula para meses depois, quando Dylan é chamado à cidade para investigar o desaparecimento de uma menina (a filha da faxineira).

A trama toda gira em torno da questão da língua universal e dos problemas de linguagem, como a compreensão equivocada do que é dito, algo representado pela torre de Babel – que, aliás, aparece na capa do volume.

A chegada de Dylan e Groucho brinca exatamente com o fenômeno do ruído na comunicação. A mulher que eles buscam tem o sobrenome de Jones, mas várias outras mulheres locais têm o mesmo sobrenome, o que gera uma comédia de erros com maridos querendo saber o que querem com suas mulheres (e Dylan achando que se trata da mesma mulher). Além disso, os dois forasteiros são confundidos com agentes oficiais ingleses, o que gera ainda mais problemas.

Cômico, lírico e filosófico, o volume traz todas as características das melhores histórias de Dylan Dog. E traz uma esperança, refletida nas falas de Umberto Eco: a de que um dia a humanidade possa se comunicar em harmonia. Talvez nesse dia estejamos preparados para nos comunicarmos com inteligências extraterrestres.

Thor – a ameaça de Encantor e Executor

 


Nas primeiras histórias de Thor havia pouca exploração da mitologia nórdica. Thor chegou a enfrentar uma versão moderna de Merlin. Loki, o único elemento da mitologia nórdica recorrente nas histórias, era explorado à exaustão.

Mas com o tempo, e provavelmente por influência de Jack Kirby, que encabeçava a série Contos de Asgard, Stan Lee foi enriquecendo a mitologia nórdica. Um bom acréscimo foram os vilões Encantor e Executor, surgidos em Journey into Mystery 103.

A belíssima Encantor quer conquistar o coração de Don Blake. 


Na história, Loki (sempre ele), sugere que Encantor vá à terra e conquiste o coração de Don Blake, fazendo com que ele esqueça a enfermeira Jane Foster. Para isso ela vai à terra e se disfarça como se fosse uma belíssima mulher da alta sociedade.  

As primeiras aparições da deusa como humana realmente impressionam pela beleza – Jack Kirby estava nitidamente caprichando.

Executor não executa donzelas. 


Mas Don Blake percebe o engodo e a rejeita. “Nunca ninguém se livrou do meu abraço antes”, reclama ela, e parte para o plano B: pedir ajuda de Executor para se livrar de Jane Foster. Mas deve haver algum código de ética entre vilões asgardianos, pois, mesmo se chamando Executor, ao invés de matar a enfermeira, ele usa seu machado para criar um vórtice e enviar a garota para um limbo.

Claro que isso coloca os dois valentões (Thor e Executor) em rota de colisão. A contenda é resolvida com um ardil. Executor promete trazer a garota de volta em troca do martelo de Thor, mas como sabemos só Thor pod erguer o martelo. Apesar das incongruências do roteiro, é uma história divertida, com a marca Kirby-Lee.

Lanterna e Arqueiro Verde – E uma criança os destruirá

 


À certa altura do título do Lanterna e do Arqueiro, fica claro que Denni O´Neil estava tentando levar o título para algo mais próximo de uma revista de super-heróis normais, deixando as questões sociais apenas de fundo (algo que desagradaria Neal Adams).

Nessa história, a Canário Negro resolve trabalhar em uma escola infantil de uma pequena cidade. Assim que eles chegam ao local, no entanto, eles são atacados por pássaros. No momento seguinte, estão os dois heróis vestidos com seus uniformes e Arqueiro usando uma flecha que afeta as aves com seu som.

O vilão é mau, muito mau. 


É estranho ver os personagens em um quadro de roupas civis e no quadro seguinte de uniforme de super-heróis, algo que, embora explicado pelo uso do anel pelo Lanterna, o que não parece inverossímil. Até faria algum sentido ele colocar a roupa no companheiro, mas o anel poderia providenciar também as flechas especiais – e saber qual a habilidade de cada flecha?

Não era mais fácil simplesmente o Lanterna Verde usar seu anel para resolver a situação? Além disso, porque só a Canário não foi transformada? Parece um roteirismo em decorrência da necessidade de ter os dois personagens como super-heróis já nas primeiras páginas.

É preciso mostrar os heróis de uniforme logo no início da história. Mas só os homens. 


A trama gira em torno do cozinheiro da escola, que manipula uma criança com poderes extraordinários (não fica bem claro que poderes são esses) para fazer sua vontade e impor sua visão de mundo, o que gera a situação mostrada na capa da revista, com os dois heróis dizendo que estão sendo atacados por algo que não podem enfrentar (eles não iriam bater em uma menina, não é mesmo?).

As motivações do vilão não são exploradas. Parece que seu único objetivo é fazer o mal, como vemos no prólogo, em que ele manda a menina tornar uma mulher paralítica apenas por ela ter tocado nele na rua. Essa mulher, descobrimos depois, é a namorada do Lanterna – o que mostra que havia o planejamento de deixar a personagem paralítica e era necessário providenciar uma causa.

O melhor momento de Adams na história. 


Se o vilão não é explorado, a menina com poderes é menos ainda. Ela é apenas alguém que impulsiona o roteiro, fazendo a trama girar, e que muda de atitude no último momento para salvar os heróis, sem muita explicação.

Apesar dos problemas, é uma narrativa divertida e fluída. Neal Adams, no entanto, parece não ter gostado. Seu desenho nessa história é quase burocrático, sem nenhum grande momento de destaque - o melhor momento é quando os heróis estão caídos, em agonia e as crianças se aproximam ameaçadoramente deles.