quinta-feira, abril 16, 2026

 


No primeiro semestre de 2025 eu percorri três municípios do Amapá (Macapá, Santana e Mazagão) ministrando cursos de roteiro para audiovisual em um projeto aprovado via Lei Paulo Gustavo. Essa experiência, incluindo as questões levantadas pelos alunos, me estimularam a produzir uma apostila que foi aumentando de tamanho a cada curso ministrado. No final, percebi que tinha aquele material poderia ajudar outras pessoas interessadas em produzir roteiros para audiovisual, daí surgiu a ideia do livro lançado pela Marca de Fantasia. Embora seja um manual objetivo e prático, ele também é também bastante completo, incluindo assuntos que vão da criação de personagens à estruturas narrativas, incluindo dicas de produção, como otimização de cenários. 

O livro é gratuito e pode ser baixado no site da Marca de Fantasia.

Adeus, minha rainha

 

O filme francês Adeus minha rainha, dirigido por Benoît Jacquot e lançado aqui no Brasil pela Amazon Prime é um ótimo contraponto ao seriado Versailles, da Netflix.
Se Versailles mostra a monarquia absolutista no seu auge, representado pela construção do palácio que se tornaria o mais luxuoso da época, o filme de Jacquot se debruça sobre a decadência dessa mesma monarquia. Decadência refletida inclusive no próprio palácio.
Isso, aliás, é simbolizado na primeira cena, quando a protagonista acorda, descabelada, maltrapilha, coçando-se. Ali já temos outra grande diferença com relação à série: enquanto Versailles era focada no rei e na rainha, Adeus minha rainha é focado numa criada que lê para a rainha. A derrocada da realeza é mostrada do ponto de vista dessa menina, que cultiva um amor platônico por Maria Antonieta.
Assim, os principais acontecimentos iniciais da revolução francesa revelam-se pelo olhar dela, um olhar furtivo, como na vez em que ela e uma amiga se espremem numa janela para ver o rei e seus ministros. É algo que uma criada vê, um boato, um panfleto que chega às suas mãos.
Em Paris, o povo toma a bastilha. No palácio, os nobres em pânico passam a noite acordados, criados fogem com relógios de ouro, ratos mortos flutuam no lago. E uma lista de nobres que devem ser guilhotinados, encabeçada por Maria Antonieta e sua amante, a Duquesa de Polignac circula pelos corredores.
O filme talvez decepcione alguns por não mostrar de fato nenhum dos grandes eventos da época, já que sua proposta é focar apenas no que a jovem criada vê, mas não deixa de ser uma perspectiva interessante.
Um enredo como esse exige uma artista de peso e Léa Hélène Seydoux cumpre bem o seu papel, representando bem a paixão da criada pela rainha até mesmo quando isso pode colocar sua vida em risco.
De estranho mesmo só a direção repleta de zoons, que foram muito populares na década de 70, mas não são usados há pelo menos 20 anos. 

ROM contra Firefall

 


Embora a revista do ROM estivesse agradando principalmente graças à mitologia criada para ele por Bill Mantlo e pela personalidade nobre do protagonista, faltava um antagonista à altura para o herói. Até então, ele enfretara, basicamente, soldados humanos manipulados pelos espectros.

Esse adversário à altura surge no terceiro número da revista (embora o confronto entre os dois só aconteça de fato na quarta edição).

Quanto mais usa seus poderes, mais Archie se une à armadura. 


Na edição anterior, ROM havia invadido um laboratório para caçar espectros e lá dera com uma quadrilha liderada por um veterano da guerra da Coréia chamado Archie Strike. Achando que ROM estava matando humanos, Archie jura detê-lo. Os espectros se aproveitam disso e o convencem a vestir a armadura de um dos cavaleiros espaciais morto por eles e assim o personagem se torna o vilão Firefall, alguém com poderes equivalente ao protagonista e perfeitamente capaz de derrotá-lo. O que ele não sabe é que no processo ele se tornou também parte da armadura, perdendo sua humanidade.

Uma trama paralela mostra Brandy Clark sendo sequestrada pelos spectros.  


A história segue o clima Marvel, com um vilão que não é exatamente vilão e que acredita estar fazendo o certo. Algo muito distantes dos ensandecidos vilões clássicos dos quadrinhos, muitos dos quais diziam abertamente que eram malvados. Sinal direto da complexidade das histórias e dos personagens.

Karas, o primeiro a usar a armadura de Firefall, era o melhor amigo de ROM. 


Uma das sequências, em que ROM avança na direção de um labarotório secreto dos espectos é um exemplo da qualidade do texto de Bill Mantlo: “Ele sente o frio subterrâneo agarrando, com dedos gélidos, a armadura ciborgue dele. O próprio subterrâneo da terra foi corrompido. Ele vê a luz nas trevas... luz fria acenando com ódio! A luz também foi corrompida!”. Sequências como essa fizeram com que Rom, um personagem baseado num boneco tosco, se tornasse um dos heróis mais queridos a Marvel.

A origem do livro Cabanagem

 


A ideia para o livro Cabanagem surgiu de uma conversa com o amigo José Ricardo Smith.
Ele me apresentou algumas moedas feitas pelos cabanos (na verdade, moedas da regência “carimbadas” com novos dizeres) e comentou sobre o quanto essa revolta tinha se alastrado pela Amazônia. E no final perguntou: “Por que você não faz um livro sobre a cabanagem no Amapá?”.
Eu nunca tinha ouvido falar que a cabanagem tivesse chegado ao Amapá, mas ao pesquisar, acabei descobrindo que ela se alastrou pela Amazônia praticamente inteira. E os cabanos usavam para isso canoas, na maioria das vezes amarradas umas às outras, que impulsionadas por braços fortes de índios, negros e mestiços, atravessavam rápidas os igarapés da região.
Eu comprei livros, baixei teses, artigos, li muito sobre o assunto, mas a ideia de fazer um livro histórico não me agradava.
Eu queria fazer uma obra de fantasia histórica, um gênero em que o fantástico se mescla aos acontecimentos reais.
Jorge Luís Borges dizia que o estilo do escritor consiste, basicamente, na repetição de temas. Os temas preferidos de Borges eram espelhos, tigres, espadas e mensagens cifradas. A maioria de seus textos tem pelo menos um desses elementos, muitos têm todos.
O que Borges talvez tenha percebido é que, por alguma razão, as histórias só funcionam para escritores se tiverem aqueles elementos que fazem parte do seu estilo.
Assim, a trama de Cabanagem só se estabeleceu quando consegui descobrir uma maneira de colocar nela um psicopata. Meus dois outros livros, Galeão e O uivo da górgona, têm psicopatas assassinos.
A partir desse plot básico (um grupo de cabanos fugindo e sendo perseguidos por soldados chefiados por um psicopata assassino) a história se firmou. Também se tornou mais fácil incluir um outro elemento que me é muito caro: os mitos amazônicos. E se essas lendas tomassem partido de um lado ou do outro do conflito?
Assim surgiu o meu livro Cabanagem. 

Para comprar o livro, clique aqui

Creepshow

 

Em 1982 dois grandes mestres do horror, o escritor Stephen King e o cineasta George Romero se reuniram para fazer uma homenagem aos quadrinhos da EC Comics. O filme se chamou Creepshow e fez tanto sucesso que teve duas continuações.

Já que se tratava de um filme para homenagear os quadrinhos, por que não transfomar o roteiro em um gibi? Para isso foi chamado um dos desenhistas mais importantes da época, Bernie Wrightson, cujo personagem Monstro do Pântano, criado em parceria com Len Wein, havia sido um dos marcos do terror na década de 1970. Para fazer a capa contrataram um velho mestre da própria EC, Jack Kamen. Aliás, a própria capa já dá o tom da publicação: um garoto lê um exemplar de uma revista de terror enquanto uma figura cadavérica o observa pela janela. Nas paredes, cartazes de filmes de terror: Carrie, Despertar dos Mortos e O iluminado. Aliás, o cartaz do Iluminado é um curiosidade, já que King sempre odiou o filme – talvez Kamen tenha feito a homenagem sem saber disso.

O resultado é bastante divertido, especialmente para aqueles que leram os quadrinhos da EC. King em seu texto satiriza o estilo da EC, inclusive com o apresentador comentando a história e fazendo seus inevitáveis trocadilhos. Bernie Wrightson é Bernie Wrightson e, embora esse não seja seu melhor trabalho (só eu acho que o traço dele fica melhor em PB?), não decepciona.

As histórias seguem a linha do escatológico. 

As histórias são irregulares, primando muito mais pelo escatológico do que para o horror psicológico – que era uma das grandes características da EC. Também é raro encontrar nas histórias a ironia do destino comum em histórias da EC.

King nitidamente volta ao seu tempo de criança nessa homenagem à EC, mas também parece escrever as histórias com um olhar de criança, que não conseguia ver com profundidade as narrativas de terror de revistas como Tales from the Crypt.

Indo com a maré - uma ideia desperdiçada. 

Algumas histórias parecem uma boa ideia desperdiçada, como o caso de “Indo com a Maré”, em que um marido ciumento enterra o amante de sua esposa na beira da praia, deixando apenas sua cabeça do lado de fora. Se fosse uma história da EC, toda a narrativa se concentraria na agonia do homem, que sabe que irá se afogar quando a maré encher. Mas King estica a narrativa para mostrar os dois amantes voltando do mundo dos mortos para se vingar do esposo ciumento – um ponto da história totalmente descartável, que foge do ritmo narrativo já estabelecido na história e serve apenas apenas para aumentar a escatologia da HQ.

Nesse sentido, “Vingança barata” talvez seja o que mais se aproxima do que seria uma história EC Comics. Havia um padrão de histórias EC sobre pessoas com TOC, como do homem que comete um assassinato e passa tanto tempo limpando a cena do crime e de forma tão obsessiva que quando a polícia chega ao local ele ainda está lá, limpando digitais. “Vingança barata” mostra um magnata fanático por limpeza que de repente vê seu apartamento ser dominado por baratas.

Vingança barata: no estilo da EC Comics.

King se destacou por conseguir levar o estilo dos quadrinhos EC para a literatura, criando narrativas envolventes que se aprofundam na psicologia dos personagens. É uma pena que quando ele tentou levar isso de volta para os quadrinhos não tenha mantido o mesmo nível. Ainda assim, Creepshow é um álbum divertido e a edição da DarkSide é caprichada, em capa dura, papel de boa qualidade, boa impressão e só peca pela total ausência de textos explicativos.

Xisto e o pássaro cósmico

 



O sucesso das aventuras de Xisto levou a escritora Lúcia Machado de Almeida a produzir duas outras obras com o personagem, Xisto no espaço e Xisto e o pássaro cósmico.

Esse último foi inicialmente publicado como Xisto e o saca-rolha. Quando resolveram lançar na coleção Vaga Lume, os editores devem ter percebido que aquele não era um bom título e mudaram, dando ênfase ao pássaro cósmico inclusive na capa.

Na trama, um disco voador explode e cai no mar, próximo ao país governado por Xisto. Dos destroços surge um belíssimo pássaro azul: “Era linda e media cerca de dois metros com as asas abertas. Uma levíssima penugem azul cobria-lhe o corpo todo como se feito de lamê brilhante”, escreve Lúcia Machado de Almeida.

Xisto chega a dar uma festa para mostrar a novidade para a população, mas a ave morre, deixando, no entanto, um ovo.

Algum tempo depois uma plantação é arrasada por algo que parece uma mola e esse mecanismo (ou ser) estranho começa a provocar grande estragos no reino. Ao mesmo tempo, várias fatos estranhos começam a ser observados, como copos que se levantam sozinhos, garrafas de leite que se esvaziam sozinhas e outros fatos semelhantes. Os dois fatos, embora muito diversos, parecem estar de alguma forma relacionados.

De todos os livros da série, esse é o menos interessante. A escritora reutiliza algumas estratégias de outros livros, o que torna relativamente fácil adivinhar o que está acontecendo. Outro problema é que, nos livros anteriores, Xisto enfrentava diversos perigos em sequência, numa verdadeira jornada. Aqui, temos só um perigo (o Saca-rolhas), o que torna a trama menos interessante.

Claro que nada disso tira o charme da obra. Lúcia Machado como sempre consegue misturar vários fatos científicos como forma de construir sua narrativa e o faz de forma natural, sem que pareça forçado ou didático.

quarta-feira, abril 15, 2026

Monteiro Lobato: Prisão

 

      
      Lobato escreveu uma carta ao presidente Getúlio Vargas denunciando as sabotagens do Conselho Nacional de Petróleo e sugerindo uma ação decisiva do governo em favor do petróleo nacional. O que conseguiu com isso? Ser preso por injúria ao presidente.
            Como o escritor havia pedido passaporte para tratar da publicação de seus livros na Argentina, o militar que dirigia o Conselho Nacional de Petróleo concluiu que ele pretendia fugir e, com esse argumento, mandou prendê-lo até o julgamento. Outra acusação era de que a companhia de Lobato era patrocinada por organizações internacionais. Como prova anexaram ao processo duas cartas de estrangeiros. Uma era de um engenheiro uruguaio que felicitava o escritor pelo lançamento do livro O Poço do Visconde. Outra era um cartão de natal assinado por um tal de Merry Christmas (Feliz natal), o que demonstra a burrice dos militares.
            Lobato ficou seis meses na prisão, junto com assassinos e ladrões. Quando saiu, escreveu uma carta ao general Goes Monteiro (que mandara prendê-lo) agradecendo pela estadia: “É profundamente reconhecido que venho agradecer V. Excia. o grande presente que me fez, por intermédio do augusto Tribunal de Segurança, de uns tantos deliciosos e inesquecíveis dias passados na Casa de Detenção desta cidade. Sempre havia sonhado com uma reclusão dessa ordem, durante a qual eu ficasse forçadamente a sós comigo mesmo e pudesse meditar sobre o livro de Walter Pitkin (Uma Pequena Introdução para a História da Estupidez Humana)”.
            Mas, afinal, qual era esse mistério todo que envolvia o petróleo brasileiro? Por que todos que se envolviam com o assunto eram misteriosamente “acidentados”, “suicidados”, ou iam passar uns tempos na prisão? Por que os poços eram sistematicamente boicotados, quando não sabotados pelas entidades governamentais que deveriam apoiá-los?
            Lobato descobriu a resposta quando uma amigo seu foi ao Rio de Janeiro visitar as companhias de petróleo cariocas. Procurando, deu com o endereço de uma companhia desconhecida. Era uma distribuidora de gasolina da Standar Oil. Quem o recebeu foi um diretor, que se alegrou em encontrar alguém das companhias brasileiras, para os quais precisava contar umas verdades:
            - Vocês partem do ponto de vista de que o petróleo é um negócio nacional, de cada país. Não é. O petróleo é um negócio internacional da Standar. Ela criou esse negócio no mundo e o mantém contra tudo e contra todos. Contra a vontade da Standard país nenhum tira petróleo que haja em suas terras.
            Contou também que os melhores campos petrolíferos já estavam sendo estudados e comprados pela Standard. Na época os EUA era um dos principais produtores mundiais de petróleo e o Brasil um grande comprador. Não interessava, portanto, que o petróleo brasileiro fosse descoberto. Era mais negócio ir comprando as terras e esperar até que o petróleo americano acabasse para começar a tirá-lo do Brasil. Todos os principais funcionários do Conselho Nacional de Petróleo recebiam soldo da Standard para evitar que o Brasil descobrisse seu petróleo.
            Com isso, até Lobato desistiu. Estava desconsolado, triste com a vida. Para esquecer, traduzia: “A tradução é minha pinga. Traduzo como o bebedo bebe: para esquecer, para atordoar. Enquanto traduzo, não penso na sabotagem do petróleo”.
            O motivo para continuar vivendo, encontrou-o nas crianças. “Ah, Rangel, que mundos diferentes, o do adulto e o da criança! Por não compreender isso e considerar a criança como ‘um adulto em ponto pequeno’ é que tantos escritores fracassam na literatura infantil e um Andersen fica eterno”, escreveu ele ao amigo.
            Dedicou-se à saga do Sítio do Pica Pau Amarelo.

MAD 17 - Twitter

 

Em 2009 o Twitter estava no seu auge. Todo mundo tinha uma conta no microblog e o editor Raphael Fernandes resolveu fazer uma edição especial sobre o assunto. Eu propus mostrar como seria se o Twitter já existisse desde a antiguidade (e começamos com a Hebe comentando que havia encontrado com Deus e que ele havia criado o mundo). Tínhamos Eva reclamando que os ciúmes de Adão estavam transformando o paraíso num inferno, Nero reclamando que ninguém o entendia (dá vontade de botar fogo em tudo), Napoleão e Hitler anunciando que invadiriam a Rússia etc. O  Raphael acrescentou algumas tags, o que deixou tudo ainda mais engraçado. As imagens de fundo da matéria ficaram por conta do Amorim. 

O homem que batizou o Noturno: entrevista com Luiz Antonio Aguiar

 

 

Se você lê quadrinhos, certamente já teve contato com o trabalho de Luiz Antônio Aguiar, por mais que não saiba. Ele foi o roteirista responsável, por exemplo, pela versão em quadrinhos do Sítio do Pica-Pau Amarelo (lembra? Tinha até chamada na TV!). Além disso, ele escreveu muito tempo para a divisão Disney da Abril e fez histórias que devem ter divertido você.
Luiz também teve a oportunidade de trabalhar com personagens próprios na época em que participou de uma das mais famosas revistas do quadrinho nacional, a Spektro, editada pelo OTA, que hoje é responsável pela MAD.
Luiz tem em seu currículo alguns trabalhos curiosos. Na época em que era assistente na RGE, ele ajudou a batizar alguns dos personagens mais queridos dos fãs. Foi ele que batizou o Noturno  e evitou que o Wolverine fosse chamado de Carcaju.
Nesta entrevistas, feita por e-mail, Luiz, que atualmente é escritor de literatura infantil, fala de sua experiência com quadrinhos, explica porque a RGE deixou de trabalhar com gibis e diz que sente falta dos “CA- POU” e dos “ BUUUMM”.

1) Como começou a sua relação com os quadrinhos? O que vc lia? quais eram seus autores prediletos?
Começo em criança. Aprendi a ler no Tio Patinhas e as histórias de Carl Barks sempre foram a minha fascinação. Entrei na Disney pensando sempre em escrever histórias como aquelas. Consegui, mas só algumas.

2) Você, quando era só um leitor, já imaginava tornar-se um roteirista de quadrinhos?
Nunca, quadrinhos sempre foi curtição para mim. Mesmo hoje, muito afastado do mercado e do ofício, já que me dedico à literatura Infanto Juvenil, continua sendo assim: quero relaxar, pego um Donald.

3) Como você começou a escrever quadrinhos?
Em 77, para pagar minha segunda faculdade. Comecei fazendo roteiros para a Revista do Sítio do Picapau Amarelo, da então Rio Gráfica Editora (que depois virou Globo e foi para São Paulo).


4 – Você começou a escrever a convite de alguém ou foi atrás da editora?
Eu fui atrás. Precisava ganhar dinheiro para pagar o curso de sociologia na PUC (já tinha me formado em Comunicação), até por uma questão de brio. Sabia que o curso não era para valer, era só desculpa para continuar fazendo política estudantil, e não queria descarregar essa em cima do meu pai. Apareci na Editora com um roteiro, que foi comprado, e passei a escrever outros.

5 - O Sítio do Pica-Pau chegou a vender muito, não foi? Pelo que me lembro, tinha até anúncio na TV.... Como era para você essa reação positiva do público? Como foi o seu trabalho na RGE?
Depois, em 79, fui trabalhar como assistente de editora, na RGE. Todas as revistas de lá passaram pela minha mão. Dei nome a um bocado deles, do inglês, inclusive a uns X-Men da vida. O Wolverine, por exemplo, apareceu nas primeiras revistas como Carcaju. Uma aberração. Resolvi apenas deixar como o chamavam em Inglês. Batizei também o Noturno. Trabalhei, sim, com a Kripta, e foi uma belíssima revista que inspirou muita gente. Quanto ao Sítio, caiu muito a vendagem depois que saiu da tevê, mas ainda se sustentaria. Ocorre que a direção da RGE na época, por incrível que parecesse, não tinha a menor boa vontade com quadrinhos. Queriam todos era deixar de ser editores de quadrinhos, coisa de que não entendiam, nem gostavam, e foram desinvestindo no setor, para abrir outras revistas, muitas delas fracassadas, em outras áreas. Quando a galinha dos ovos de ouro foi finalmente estripada, fecharam 12 revistas, das 15 que havia - isso foi em 83 - e demitiram quase toda a redação. Tempos depois, foram para São Paulo e mudaram de nome e de direção, mas aí já é outra história, que inclui até o Maurício de Souza.

6 - O fato de vc ser um escritor de quadrinhos e literatura deve dar-lhe uma perspectiva interessante. Quais são as diferenças de narrativa?
Na literatura há mais espaço para o texto e, de certa forma, mais flexibilidade para composição de personagens e ritmo de trama, coisas que, em quadrinhos, ficam com o desenhista. Mas sinto falta dos CA-POU! e dos BUUUUUMMM!


7-  Como foi a experiência com a Vecchi?
Excelente, pelas pessoas com quem trabalhei, desenhistas como Júlio Shimamoto, que foi meu parceiro favorito por lá. Depois, fizemos um albúm juntos, Nos tempos de Madame Satã. O Shima era fantástico. Foi a minha chance de começar a criar personagens meus. Fizemos umas séries bastante originais, em terror e faroeste. O Otacílio sempre deu força para a gente criar à vontade. Pena que a Editora foi canibalizada de dentro para fora pelo despreparo e falta de profissionalismo da direção.

8 - Quais foram os melhores desenhistas com os quais você trabalhou? Por quê?
Shimamoto, sem dúvida, pela intensidade que ele acabava dando à história, e Guidacci, com quem fiz o Indecências e desmandos do herói Macunaím em sua passagem pela história da terra-Brasil. O Guidacci é uma verdadeira enciclopédia de recursos de desenho. Ambos são fenomenais. Fiz boas histórias com o Mozart Couto, também, uma revista de histórias de futebol muito manêra, com personagens meus, a Futebol e Raça.

9 – Quais foram os seus últimos trabalhos em quadrinhos? Por que parou de fazer HQ?
Não me lembro bem dos últimos trabalhos, mas creio que foram os Disney, ainda, na Abril, e o que fiz no Estúdio Artecômix, inclusive o Futebol e Raça. Larguei HQ porque o mercado de produção nacional de massa se extinguiu. HQ hoje é cult, muito restrito, a produção nacional, bem entendido, e esse nunca foi o meu barato. Produz-se muita coisa boa, mas eu sempre sonhei mesmo é em ver a garotada comprando aos montes minhas histórias, como eu fazia, e se esbaldando, sem mais nem menos.

10 – Já aconteceu de você entregar um roteiro para o desenhista e o desenhista não entender a proposta e estragar a história? O que você fazia para evitar isso?
 O melhor é ir fazendo junto, coisa que existe pouco no circuito comercial. Pelo menos um contato, uma discussão cena a cena, é sempre bom. Mas o que mais aconteceu comigo foi de o desenhista dar belas interpretações que avivaram o roteiro.

11 – Qual é o segredo para escrever um bom roteiro?
Imaginar a coisa passando na cabeça da gente, é óbvio. Se perder de vista o que está fazendo, não funciona. Tem de conseguir ler o próprio roteiro como se estivesse na revista. Assim, a gente vê o que funciona e o que não funciona. E, ah, sim, lembrar que tudo o que a gente faz bem, literatura ou roteiro de quadrinhos, não faz nem por vaidade nem por exercício de virtuosismo, mas para ser lido por outras pessoas. Senão, é sexo solitário.


12 – Você sente vontade de voltar a escrever quadrinhos?
Sim, se houver uma chance de quadrinhos de massa, muito, muito lidos, voltarem a circular. Hoje, além do Maurício e o que ainda tem do Disney, isso não existe mais. Quadrinhos Cult não são a minha praia, apesar de ter feito o Macunaíma e o Madame Satã, citados em antologias e enciclopédias de quadrinhos. Meu barato seria uma revista que todo mundo pudesse ler, e gostasse de ler, não apenas quem é aficionado em quadrinhos.

Super-homem – Paz na Terra

 


O personagem Super-homem em todos esses anos enfrentou os mais terríveis vilões e as maiores ameaças à humanidade. Mas em Super-homem – paz na Terra, Alex Ross e Paul Dini colocam o Homem de Aço para enfrentar um inimigo muito mais terrível e implacável: a fome.
Na história, o herói está colocando a árvore de Natal em Metrópole quando vê uma garota desmaiando. Ao tentar ajudá-la descobre que ela desmaiou de fome o que o faz perceber que nesses anos não havia se dando conta desse problema. Ele percebe que os EUA produzem mais comida do que consomem e grãos apodrecem nos armazéns sem que esse alimento chegue aos necessitados. O homem de aço se oferece para, durante um dia, distribuir comida entre os famintos, em uma atitude simbólica.


Mas nem tudo são flores. Apesar de estar visando o bem comum, ele enfrenta todo tipo de problemas, de deputados americanos que acham que existe uma segunda razão por trás desses atos a ditadores que querem se apropriar dessa comida.
Super-homem – Paz na terra reúne uma dupla de mestres absolutos. Paul Dini, o roteirista, é o homem por trás dos cultuados desenhos animados do Batman, Super-homem e Liga da Justiça. Alex Ross é um dos artistas de quadrinhos mais importantes de todos os tempos.


Juntos, eles conseguem trazer uma aura divina que o Super-homem poucas vezes teve. As belíssimas sequências em página dupla de Ross e o texto sem diálogos de Dini se unem para transformar essa HQ em um trabalho memorável.
A editora Abril lançou aqui em 1999 em formato enorme (25 x 34 cm), que destacava ainda mais a arte fenomenal de Ross. Posteriormente essa história e outras da mesma dupla foi lançada no volume Os maiores super-heróis do mundo, da Panini. 

O caso do filho do encadernador

 

Li O caso do filho do encadernador, autobiografia de Marcos Rey (editora Atual). Li em tempo recorde, como costuma acostecer com texto desse autor paulista. Mas houve uma razão a mais: uma gripe, com garganta inflamada, que me convidava a ficar sentado em uma cadeira espreguiçadeira ou deitado em uma rede.
Marcos Rey é meu escritor brasileiro predileto, depois de Monteiro Lobato, e é muito interessante perceber como as suas vivências serviram de inspiração para os livros infantis. O juvenil O mistério do cinco estrelas, por exemplo, surgiu da admiração que o autor sentia pelos grandes hotéis cariocas e pela convivência com seus funcionários, numa hospedaria.
Interessante também perceber uma coincidência: nós dois consideramos seu melhor romance O último mamífero do Martinelli, no qual um refugiado político esconde-se em um abandonado edíficio paulista no período da ditadura militar (aqui neste blog há uma resenha desse livro, procurem aí, crianças!).
Algumas citações:
“O amor pelos quadrinhos tinha algo a ver com o que senti pelo atlas. Eles me levavam a regiões desconhecidas: florestas habitadas por feras perigosas, pantanais traiçoeiros, desertos percorridos por tribos sanguinárias, geleiras ameaçadoras, territórios vulcânicos eternamente em chamas, mares bravios, tragando embarcações e também Chicago com seus gangsteres empunhando metralhadoras”.

“Descobrir um grande escritor é sempre um estímulo para quem se inicia no ofício, e por Edgar Allan Poe nenhum aprendiz passa indiferente. E, se passar, jamais passará a lugar algum”.

ENCANTARIAS: a lenda da noite

 


 O álbum Encantarias, a lenda da noite é um trabalho conjunto dos integrantes do estúdio Casa Velha, de Belém, entre eles Volney Nazareno (criação e roteiro), Julião Cristo (argumento), Fernando Carvalho (arte-final e pintura), Aline Oliveira (letras) e Otoniel Oliveira (roteiro, desenho e pintura) lançado de forma independente em 2006.

                               A história em quadrinhos conta a origem da noite, segundo a tradição indígena. Com uma premissa dessas, o caminho mais fácil seria fazer uma narrativa tradicional, mas o grupo mistura a tradição com o novo, ao apresentar inovações narrativas.

                               O roteiro é melhor que o de Belém Imaginária, o outro trabalho do grupo, talvez por não ter a obrigação de ser um quadrinho infantil. Isso deixou os artistas mais soltos para experimentar.



                               O desenho se mostra pródigo ao retratar mulheres voluptuosas (um aspecto facilitado pelo fato de serem retratadas índias...), mas também demonstra um grande domínio da narrativa em quadrinhos. Em uma seqüência, por exemplo, os personagens estão subindo um morro. A leitura é feita de baixo para cima e quando os olhos sobem, nós os encontramos lá em cima.

                               Outra seqüência impressionante é quando a cobra Honorato enfrenta sua irmã Caninana. Para quem está lendo, é como se tivesse de repente deparado com duas serpentes imensas. Para isso, os autores exploram os ângulos, mostrando Caninana sempre de baixo para cima, deixando o leitor em posição inferior. A única imagem aérea só é mostrada quando o leitor se acostuma com o tamanho enorme da cobra Canina e então aparece seu irmão Honorato, muito maior.  

                               A história é uma espécie de Senhor dos Anéis tucuju: três guerreiros estão a serviço de tupã e precisam encontrar um alguidar que encerra a noite. Para cumprir sua missão, o trio enfrenta os mais terríveis perigos e encontra com os mais variados elementais amazônicos, da Iara ao Curupira.

                               Uma leitura reconfortante que mostra que não só temos uma cultura rica, como ela pode ser bem aproveitada nos quadrinhos.

                               A história tem um único senão: há um número talvez excessivo de balões-legenda, todos com texto em cor vermelha o que, se por um lado ajuda no visual, atrapalha na leitura.

A arte belíssima de Alphonse Mucha

 

Alphonse Mucha foi um dos principais nomes do art nouveau (um movimento de arte caracterizado por uso de formas orgânicas de maneira decorativa). Os painéis de Mucha geralmente retratavam belíssimas mulheres com contornos suaves e penteados luxuosos e sensuais, geralmente repletos de adornos. Os quadros eram preenchidos por molduras com formas como flores e folhas que contribuíam ainda mais para a beleza do conjunto. Confira algumas de suas belíssimas imagens.