sábado, maio 23, 2026

Monstro do Pântano – Os vampiros de Rosewood

 


O número 38 de Swamp Thing marca o início de fato da saga Gótico Americano, no qual Alan Moore explora histórias clássicas de terror, como casas mal-assombradas ou lobisomem. Nesse número e no seguinte ele explora os vampiros. E, como sempre, inova completamente.

Moore aproveita uma história anterior do personagem, em que ele enfretara vampiros na cidadezinha de Rosewood e inundara a cidade como forma de acabar com os mesmos. O problema começa exatamente aí: os vampiros aproveitam as águas paradas para criar uma comunidade, como explica John Constantine: “O vírus causador do vampirismo é anaeróbico. Não gosta de oxigênio. Impressionante terem passado séculos sem nunca pensar em morar embaixo d´água. Meu chapa, você prestou um tremendo favor a eles”.

As sanguesugas como metáforas dos vampiros. 


A história é repleta de simbologias. Logo no começo alguns garotos vão nadar no lago e se assustam quando descobrem que o local está repleto de sanguessugas. Os animais antecipam o que viria de fato: vampiros.

Em outras sequências, os pais estão procurando dois dos meninos desaparecidos.

O contraste entre humanos e monstros: os monstros cuidam dos filhos. 


O texto descreve a maneira como a comunidade de vampiros lida com as crianças: “Seguros para criar os próprios filhos. Os filhos são o que importa. A vizinhança precisa proteger os filhos... pois são o sangue da comunidade. Estão no cerne de todos os valores locais. Nenhum mal devem sofrer”.

Enquanto isso, um dos homens bate no filho, num curioso contraste com a comunidade de monstros que jamais pensaria em machucar suas crianças.

A filha do Capitão, de Alexandre Pushkin

 


Alexandre Pushkin é considerado por muitos o criador da literatura russa moderna. Foi não só o mestre de Nicolai Gógol como ainda lhe deu a ideia para duas de suas obras mais importantes, O inspetor Geral e Almas Mortas. Mas a sua obra era relativamente desconhecida no Brasil, algo que vem sendo aos poucos revertido, com vários lançamentos.

Uma boa dica para os que querem conhecer esse gigante da literatura é o livro A filha do capitão, lançado em edição popular pela Principis.

Pushkin se notabilizou por misturar humor, aventura e drama, em histórias com fundo romântico e todas essas características podem ser percebidas em A filha do capitão.

A primeira parte da obra, focada na infância e na adolescência do protagonista é um ótimo exemplo de humor refinado, que caracterizaria muitos dos autores russos. O personagem ainda nem nascera e já fora nomeado sargento e considerado sob licença até a conclusão de estudos. “Aos 5 anos de idade fui entregue às mãos do cavalariço Savélitch, condecorado meu preceptor por sua conduta abstênia. Sob sua tutela, ao 12 anos estava alfabetizado em russo, e podia julgar com muito senso as qualidades de um cão borzói”.

É uma vida boa, ainda mais quando o garoto recebe um preceptor francês, encomendado de Moscou junto com o estoque anual de vinho e azeite. Este “não era inimigo da garrafa” e depois de aprender uma ou duas tagarelices em russo com seu aluno, o deixava solto.

Tudo muda quando o pai resolve que é hora do filho assumir suas funções militares. O garoto é enviado para uma fortaleza distante e meio abandonada.

No caminho, conhecemos outro dos trunfos de Pushkin: a habilidade de descrever cenas de tensão e drama. Isso é perceptível quando a carruagem em que está o rapaz é colhida por uma tempestade de neve, que torna impossível encontrar o caminho: “O vento uivava, formara-se uma nevasca. Em um instante, o céu escuro confundiu-se em um mar de neve. Tudo desapareceu”. Quem os salva é um mendigo, que consegue leva-los para uma estalagem – um fato isolado, que passa despercebido pelo leitor, mas que se mostra essencial no decorrer da trama.

Na fortaleza, o garoto apaixona-se pela filha do capitão (daí o título do livro) e passa a viver uma vida monótona, monotonia só quebrada pela descoberta de que outro dos oficiais é apaixonado pela menina. Aliás, o diálogo no qual ele descobre isso é um ótimo exemplo do fino humor do autor russo:

“- Tenho a impressão de que ele gosta de mim.

- Por que tem essa impressão?

- Por que ele me pediu em casamento”.

A trama de fato começa quando eclode uma revolta liderada pelo cossaco Emilian Pugatchov, um personagem real, que de fato liderou uma grande revolta no século XVIII, se auto-proclando Czar.   

A partir daí, o personagem principal precisará não só sobreviver, como ainda salvar sua amada Macha, apelido de Maria Ivánovna.

Não se deixe enganar por essa trama romântica – que certamente agradará adolescentes. A filha do capitão é principalmente um livro muito bem escrito, que em camadas mais profundas pode ser lido como uma sutil crítica à burocracia russa. E sua influência é avassaladora. Outros autores seguiram o caminho de Pushkin e fizeram obras fundamentais que uniam diversos gêneros em um só. O mais brilhante deles, obviamente, é Gógol. Gógol inclusive escreveria uma obra, Taras Bulba, que se assemelha muito ao A filha do capitão. Com uma diferença: enquanto na obra de Pushkin os cossacos eram os vilões, em taras bulba os cossacos são os protagonistas.

Dica de roteiro: deixar o texto dormir

 

A pior estratégia para revisar um texto e fazê-lo logo depois de escrevê-lo. Seu cérebro ainda está com o conteúdo na cabeça e tende a completar o texto, muitas vezes até mesmo corrigindo erros ortográficos. Além disso, é difícil ser crítico a respeito de seu próprio trabalho quando se acabou de escrever. 

Existe uma técnica chamada "deixar o texto dormir". Ou seja: escrever e retornar ao texto apenas no dia seguinte. Se não há urgência, podemos dar um tem
po ainda maior, até mesmo meses.
 
Essa distância faz com que o cérebro de certa forma se esqueça do que foi escrito.

Assim, lemos o texto como se fosse escrito por outra pessoa. Já me aconteceu, por exemplo, de roteiros que eu achava ótimos enquanto estava escrevendo me parecerem horríveis e cheios de falhas com o distanciamento do tempo. Por outro lado, roteiros que eu já desistira, por considerar que não eram bons (ou não conseguia bons finais), acabaram sendo aproveitados depois de ter deixado o texto dormir.

Um exemplo disso foi a história em quadrinhos Turma da Tribo. Eu sempre quis fazer algo no estilo Asterix, história em quadrinhos da qual sempre fui fã. E escrevi algumas páginas, de apresentação dos personagens, e abandonei. Não parecia ter futuro e, apesar de ter os personagens e um foco narrativo, não tinha trama. Anos depois, quando conheci Ricardo manhaes, que tinha um estilo totalmente franco-belga, fui reler aquelas primeiras páginas. A história, que no primeiro momento, parecia difícil de ser escrita, depois de alguns meses praticamente se escreveu sozinha.

A arte extasiante de Frank Thorne

 


Frank Thorne começou sua carreira em 1948, desenhando histórias românticas para a editora Standard Comics. Depois desenharia as tiras do personagem Perry Mason, para a King Features Syndicate.

Na década de 1950 ele faria uma infinidade de histórias para a Dell Comics, incluindo Flash Gordon, Besouro Verde e Tomahawk.

Mas ele se tornaria realmente conhecido quando foi convidado ao desenhar a personagem Sonja para a Marvel.

A personagem, baseada em uma heroína de Robert E. Howard, havia sido adaptada por Roy Thomas para se adequar à cronologia de Conan. Depois de uma breve aparição no traço de Barry Smith, a Marvel reformulou seu visual a partir de um desenho de Esteban Maroto e a personagem ganhou um biquíni de cota de malha.

Com o sucesso de Conan, parecia a hora certa de lançar a personagem em histórias próprias. A primeira aventura foi publicada na revista Marvel Feature, com traço de Dick Giordano. Mas Sonja só se tornaria realmente popular com o traço de Frank Thorne. O desenhista acrescentou, além de sensualidade, um olhar felino, que dava um encanto especial à personagem.

Thorne passou a se vestir de mago e participar de convenções com garotas vestidas como a personagem. Em 1976 ele organizou a SonjaCon, uma convenção dedicada apenas à heroína, na qual foi realizado um concurso de cosplay. A vitoriosa foi Wendy Pini, que depois seria autora do quadrinho de fantasia Elfquest.

Em 1978, Thorne criou sua própria personagem, Ghita de Alizzar, uma versão de Sonja com uma sensualidade mais explícita.













Doutor Estranho no multiverso da loucura

 

O segundo filme do Dr. Estranho gerou grande expectativa. Afinal, esse é um dos melhores personagens da Marvel e um dos que maior influência tiveram nas últimas produções cinematográficas do estúdio.

 O resultado, no entanto, é dúbio. O roteiro é interessante e a direção, de Sam Raimi, competente (é possível ver em algumas sequências a mão autoral do diretor). O elento também ajuda, a começar por Benedict Cumberbatch, que interpreta o protagonista e pela carismática Xochitl Gomez , que interpreta a personagem América.

 A trama já é conhecida: como forma de conseguir seus filhos de volta, a Feiticeira Escarlate pretende roubar as crianças de uma de suas contrapartes no multiverso. E para isso ela precisa de América, que tem o poder de viajar entre as dimensões. O Doutor Estranho tenta impedi-la e, no processo, vai parar em uma dimensão em que o Doutor Estranho morreu e existe um grupo chamado Os illuminati – uma forma inteligente da Marvel de introduzir personagens que estavam com outros estúdios, como os X-men e os Inumanos sem ignorar completamente os filmes que vieram antes. A explicação é simples: eram personagens de outros universos.

 Aliás, a briga entre a Feiticeira e os Illuminati, tão criticada pelos nerdolas, faz todo o sentido dentro da trama. 

 A interligação de histórias e universos são um mérito sem dúvida, mas também são o maior problema de Dr. Estranho no multiverso da loucura. O filme é dependente demais do seriado Vandavision. Quem não assistiu a série não conhece em profundidade as motivações da vilã. É quase como se começássemos a assistir um filme pela metade.

 Alerta de spoiller! Alerta de spoiller!

 Os fãs têm reclamado da facilidade com que a Feiticeira Escarlate vence os Illuminati, mas os próprios Illuminati explicam que o Darkhold é tão poderoso que o Dr. Estranho daquele universo o usou para derrotar Thanos.

 Mas de fato há um problema no roteiro. Uma pessoa se sacrifica para destruir o Darkhold e depois, sem sequer pestanejar, Wong leva a Feiticeira para o local onde ela pode acessar o Darkhold. Aí de fato, foi um roteirismo.

Demolidor – roleta russa

 

 


No ano de 1982, Frank Miller publicou, em Daredevil 191, aquela que é, com certeza uma das melhores, senão a melhor história do Demolidor de todos os tempos.

Chamada de Roleta Russa, a história mostra o Demolidor visitando o Mercenário no hospital. O vilão havia ficado paralítico no confronto com o herói logo após a morte de Elektra.

“Você deve estar se perguntando por que eu vim aqui, não, Mercenário? Por que o Demolidor, o homem-sem-medo, ídolo de milhões, quis passar uma linda noite de outono em companhia de seu maior inimigo. A resposta é muito simples... eu estou aqui para jogar com você. O jogo se chama Roleta Russa”, diz o texto, representando o pensamento do personagem.

O Demolidor joga roleta russa com um de seus maiores inimigos. 


E, na sequência, o Demolidor atira em si e no vilão, alternadamente, testando a sorte (na roleta russa há apenas uma bala no cilindro) e contando a história que o levou até ali.

A trama em flash back é sobre um menino que é fã do Demolidor, o que poderia gerar uma bela história emocionante. Mas Miller transforma isso num conto ácido e violento quando o garoto vê o Demolidor, seu ídolo, atacando o próprio pai (um corrupto sem escrúpulos) e atira num colega de escola.

Tudo nessa história é revolucionário, a começar por fugir do maniqueísmo das histórias de super-heróis. O demolidor é realmente um herói? Suas ações são sempre acertadas? Até mesmo a relação com o pai é colocada em dúvida. Depois de chamar o pai de um homem de verdade, Matt Murdock se lembra de quando este bateu nele após reagir a garotos que rasgaram seu livro de estudos. 

A diagramação era inovadora. 


Do ponto de vista narrativo, a história era ainda mais revolucionária. Miller quebrava uma imagem em vários quadros, simulando o passar do tempo com o texto, alternava closes com planos gerais, fazia quadros enormes com uma imagem pequena. Era um tipo de diagramação muito inovadora para a época (o ápice do estilo que Miller vinha construindo), e que reforçava em muito o forte teor emocional da história.

E tinha os pensamentos do personagem expressos como balão legenda, que davam uma outra dinâmica para os quadrinhos. A influência disso foi tão grande que os balões de pensamento foram praticamente aposentados na década de 80 (vale lembrar que Alan Moore, a outra grande estrela do período também preferia usar balões-legenda ao invés de balões de pensamento, o que reforçava esse novo estilo).



No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 44 e teve um impacto enorme junto aos leitores.

Uma curiosidade sobre essa HQ é que essa foi uma das poucas dessa fase de Miller no Demolidor que não contou com arte-final de Klaus Jason, o eterno parceiro de Miller. A honra coube a Terry Austin.

Amazônia, colônia do Brasil

 


Normalmente, quando pensamos em colonialismo, imaginamos o domínio e a exploração de uma nação sobre outra. Há, no entanto, uma vertente interna desse fenômeno: o colonialismo interno, que ocorre quando uma região de um país é transformada em colônia das demais. É o que demonstra Violeta Loureiro na obra Amazônia: Colônia do Brasil (Valer, 2022).

A autora evidencia como a região sempre foi encarada como um estoque de recursos: desde a escravização indígena até a extração das "drogas do sertão" e da borracha. O ciclo da borracha, inclusive, foi emblemático. Naquela época, Manaus e Belém abrigavam fábricas de manufaturados de látex, como botas e materiais hospitalares. Contudo, quando a demanda global cresceu, o governo federal interrompeu o financiamento dessas indústrias, forçando seu fechamento para que o beneficiamento fosse transferido para São Paulo.

De fato, o capital oriundo da borracha financiou a industrialização paulista. "São Paulo era a locomotiva da época", escreveu Antônio Loureiro, "mas a Amazônia lhe fornecia os trilhos e o combustível necessários às suas caldeiras".

O dinheiro da borracha bancou a industrialização de São Paulo. 


Se a Amazônia sempre foi vista como colônia, essa condição foi institucionalizada durante o regime militar. Diante de uma balança comercial deficitária, o governo federal elegeu a região como fonte de exploração permanente para sanar as contas nacionais.

Técnicos do sudeste elaboraram um plano de desenvolvimento que priorizava hidrelétricas — para abastecer as indústrias do próprio Centro-Sul —, a agropecuária extensiva e a mineração. Para blindar esses projetos de interferências locais ou judiciais, a ditadura consolidou o modelo colonial. Entre 1968 e 1985, 105 municípios do Norte foram declarados Áreas de Segurança Nacional. Sob domínio da União, essas cidades tinham prefeitos nomeados pelo presidente, sem qualquer ingerência dos governadores estaduais.

Além disso, uma faixa de 100 quilômetros ao longo das rodovias federais passou à jurisdição de Brasília. Isso facilitou a expulsão e o extermínio de populações locais, como indígenas e posseiros. No auge desse processo, os governos estaduais administravam apenas 29,7% das terras amazônicas; todo o restante estava sob o controle do governo federal.

O plano dos militares incluía usar os rios da Amazônia para produzir energia para o centro-sul. 


O isolamento dos formuladores desses projetos, que muitas vezes desconheciam a realidade local, gerou situações absurdas.

Na pecuária, a estratégia de financiamento do Banco da Amazônia (Basa) premiava a devastação: quanto mais floresta o fazendeiro derrubasse, mais crédito recebia. Ignorava-se que a criação de gado já existia na região sem necessidade de desmatamento, em campos naturais como os do Curiaú, no Amapá. Para a tecnocracia do Centro-Sul, contudo, a Amazônia era um bloco uniforme de "terra firme" que precisava ser "limpo" para o progresso.

Mesmo após a redemocratização, essa lógica persiste. A Lei Kandir, por exemplo, impede a cobrança de ICMS sobre a exportação de energia elétrica e produtos primários, privando os estados amazônicos de receitas vitais, apesar do impacto socioambiental das hidrelétricas em seus territórios. O ápice dessa contradição ocorreu no apagão do Amapá em 2020: a população ficou um mês sem luz, enquanto a hidrelétrica local continuava a bombear energia para o restante do país.

sexta-feira, maio 22, 2026

Versailles – série histórica da Netflix

 


No século XVIII a França vivia uma grande transformação. O poder, que até então estivera nas mãos da nobreza feudal, começou a ser abocanhado pelo rei no processo que ficaria conhecido como absolutismo francês. O maior exemplo disso foi Luís XIV, o rei-sol, que dizia: “O estado sou eu”. E a maior representação desse poder foi o palácio de Versailles.
Versailles foi construída no antigo pavilhão de caça do pai de Luis XIV e tinha dois objetivos: um deles era sair de Paris, diminuindo as possibilidades de uma revolta por parte dos nobres feudais. O segundo objetivo era abrigar os nobres que se conformavam com a nova situação. Destituídos de seu poder e de suas terras, estes recebiam, em troca, um emprego na corte (podia ser abotoar o sapato do rei, por exemplo), onde viviam em meio ao luxo no maior e mais espetacular palácio da Europa.
A vida na corte era um eterno teatro cujo principal ator era o rei-sol. Nobres se acotovelavam para ver o rei acordar ou se recolher, como se vissem o espetáculo do nascer e do por-do-sol. Ou se amontoavam para vê-lo almoçar – os de mais prestígio eram chamados até mesmo para comer junto com o soberano. E Luis parecia ser também o centro sexual do palácio, com suas várias amantes e várias mulheres que pretendiam cair em sua graça.
Versailles era um local de festas eternas, mas também era um local de intrigas palacianas. Os nobres jamais se conformaram em perder o poder e houve vários complôs contra o rei.
A série Versalhes, lançada no Brasil pela Netflix, se propõe a abordar a construção do castelo, o luxo e as intrigas que envolviam a corte francesa. E não decepciona. O figuro é realmente esplêndido, assim como cenário. Há incongruências, claro. Em algumas cenas, o palácio, filmado atualmente, aparece inteiro, com partes que não existiam na época em que a história decorre. Mas elas passam facilmente despercebidas diante do bom roteiro, da direção inspirada e principalmente das grandes atuações – a começar pelo protagonista, George Blagden (de Vikings). A série tem duas temporadas na plataforma e já se fala em uma terceira. 
Versalhes é perfeito para quem gosta de histórias de intrigas palacianas. É um Guerra dos Tronos sem dragões. E com um final realmente de tirar o fôlego. 

Yuki – vingança na neve

 


Yuki é, imerecidamente, uma obra menos conhecida de Kazuo Koike, o roteirista de Lobo Solitário.
O mangá surgiu em 1972, um ano depois do Lobo Solitário e conta a história de uma moça em uma jornada em busca de vingança. Seu pai e seu irmão foram mortos, sua mãe foi presa e, na prisão, seduziu todos os homens que encontrava com o objetivo de ter um filho e, assim, realizar a vingança contra as pessoas que desgraçaram sua família. A menina é criada desde cedo nas mais diversas artes, inclusive artes marciais e se torna uma assassina de aluguel com o objetivo de arrecadar dinheiro para seu plano de vingança.
Yuki é concebia para efetuar uma vingança. 


Kazuo Kamimura nem de longe é um desenhista tão competente quanto Goseki Kojima, mas o roteiro é tão bom quanto o de Lobo Solitário, especialmente graças aos planos geniais da protagonista para cumprir sua missões. Koike parecia ter uma criatividade infinita para criar situações interessantes para seus personagens e misturá-las com detalhes que vão desde uma planta de edifício até uma o valor de uma prostituta no período. A série é também um passeio pela história do Japão na era Meiji.
Já na primeira história, Yuki se deixa ser presa para matar um chefe da yakusa. Mas ela não usa apenas sua habilidade física para matar suas vítimas. Na maioria das vezes ela se vale da estratégia e é isso que faz desse trabalho algo tão genial. O desafio do leitor é imaginar que golpe brilhante Koike pensou para a sua protagonista.
Koike introduz diversas informaçoes históricas na história. 


Um exemplo (se não gostar de spoiller, pare aqui): ao ser contratada para acabar com o aluguel de rixixás, carruagens para duas pessoas puxadas por homens que eram usadas pelos casais para transar, Yuki se deixa prender por um vigarista que recruta prostituta. Uma vez no local, ela se oferece para pintar as carruagens. A novidade se torna um sucesso, mas também leva o dono do local à ruína: ela pinta a imagem do imperador embaixo de um banco e denuncia à polícia. Como o imperador é considerado um deus, pintá-lo debaixo do banco de um quixixá faz com que o dono do local seja condenado à forca.
Quando achamos que Yuki está perdida, descobrimos que isso faz parte do plano. 


Há um recurso narrativo muito usado em Lobo Solitário, mas que aqui aspectos fantásticos: a história começa no meio da ação, ou de alguma missão, e só depois, através de flash backs é explicado o que está acontecendo. A diferença aqui é que na maioria das vezes as ações de Yuki parecem totalmente sem sentido, ou até mesmo suicidas, até que seja apresentado o flash back.
Além disso, a série é de uma poesia única.

Bebê Rena

 


Perturbadora. Essa é a melhor definição para a série Bebê Rena. Escrita e criada pelo comediante escocês Richard Gadd, a série Bebê Rena conta a história de como ele foi perseguido por uma stalker durante cinco anos.

Na época, Gadd ainda tentava chegar ao sucesso, mas enquanto isso, trabalhava em pub. Um dia uma mulher chamada Martha entra no local e parece entristecida. Para ampará-la, ele lhe oferece uma xícara de chá. A partir daí, Martha desenvolve uma verdadeira obsessão por ele, não só comparecendo ao seu trabalho e aos seus shows, como mandando milhares de e-mails.

Quando o comediante percebe que as coisas estão indo longe demais e tenta dar um fim ao episódio, tudo piora ainda mais, com Martha perseguindo-o até em casa, agredindo sua ex-namorada e namorada atual e até mesmo ligando para os pais do comediante “informando” que ele se acidentou e está internado em um hospital. A vida do personagem se torna um inferno.

O seriado se destaca não só pela história perturbadora, mas também por ser uma espécie de terapia na qual o autor se desnuda diante do expectador, revelando seus segredos mais íntimos, como o fato de ter sido estuprado por um roteirista e produtor ou o fato de ele mesmo ter se tornado tão obcecado por Martha a ponto de ter se masturbado pensando nela. Talvez seja esse o aspecto mais chocante da minissérie: perceber qua a vítima de perseguição ou de um abusador muitas vezes pode se tornar dependente de seu algoz.

Igualmente perturbador é perceber o quanto a polícia, ao ser acionada, mostra-se totalmente inoperante, mesmo se tratando de uma perseguidora serial, que já havia sido presa antes.

À certa altura, os policiais chegam a sugerir que Martha seria a vítima da história, o que mostra que a sociedade ainda não parece estar preparada para lidar com casos como esse, de um homem sendo perseguido por uma mulher. Aliás, com o sucesso do seriado, jornalistas britânicos teriam descoberto a suposta Martha e, na versão dela, ela era a vítima. Contrariando a sua própria versão, ela passou a perseguir e mandar mensagens intimidadoras para o jornalista que entrevistou. Chegou até mesmo a espalhar a notícia falsa de que ele teria abusado de colegas de redação.

Embora a história de Bebê Rena pareça um conto bizarro e estranho, situações como essa são mais comuns do que se pensa, ainda mais em nossa época de redes sociais, em que qualquer um pode ter contato com qualquer pessoa a qualquer momento. Eu mesmo já vivi uma situação parecida com um indivíduo que me perseguiu virtualmente por quase dois anos e chegou a tentar descobrir onde eu trabalhava e onde meus filhos estudavam. Felizmente, não morava na mesma cidade que eu e um processo resolveu tudo.

Por essas e outras que o sucesso do seriado tem um lado muito positivo: alertar para o perigo de perseguidores seriais e a necessidade de leis específicas para casos como esses.

Tarzan - A fera da Lua

 

 

A capa do número 225 da revista do Tarzan publicada pela DC mostra, em uma impressionante imagem de Joe kubert, um poço no qual se amontoam diversas serpentes. O corpo de uma delas são do crânio seco de um homem nos chamando atenção para o fato de que já diversos outros esqueletos ali, indício de que muitas pessoas morreram no local. Logo acima, Tarzan se equilibrar na beirada enquanto um feiticeiro da tribo o empurrar na direção da morte certa. 

A imagem nos apresenta a cena mais dramática da história a fera da Lua, escrita e desenhada por kubert. 

Uma fera está atacando crianças e mulheres de uma tribo e Tarzan terá que enfrentá-la.


Na trama, um monstro está matando pessoas de uma tribo africana. O feiticeiro acusa Tarzan de ser o assassino, mas logo depois descobrimos que é ele que controla a fera. Ou seja: é tudo um plano para se livrar do homem macaco.

No Brasil essa históri foi publicada originalmente pela Ebal e, mais recentemente, pela Devir, no volume Tarzan  - O homem-leão e outras histórias.

Proclamação da república, de Marcos Rey

 


A coleção O cotidiano da história,d a editora Ática, tinha como objetivo contar, de forma agradável e atraente, fatos importantes da história do Brasil. Eram edições ilustradas, com diagramação inovadora e textos de alguns dos grandes autores infanto-juvenis brasileiros. Um dos volumes de destaque é Proclamação da República, escrito por Marcos Rey.
Marcos Rey é um escritor de narrativa fluída, que torna até mesmo um tema pouco atrativo, como a proclamação da república (que foi, essencialmente, uma quartelada sem qualquer ação real) em uma delícia de leitura.
Rey adota como estratégia contar os fatos do ponto de vista de um personagem que teria presenciado os acontecimentos. No caso, um jornalista, Antônio Brotero, o Broteirinho. Trabalhando no jornal republicano O País, Broteirinho resolve abadonar sua coluna de resenhas literárias para se dedicar às notícias políticas exatamente no período em que o Brasil se convulsiona. Com o aval do diretor do jornal, Quintin Bocaiúva, ele invade o clube militar durante uma reunião do alto oficialado, que conspira contra D. Pedro, o baile de ilha fiscal (festa suntuosa que marcaria o fim da monarquia) e acompanha a movimentação dos quarteis que levariam à instalação da república e o exílio de D. Pedro II. A ação é mínima: um combate mequetrefe entre o exército e a marinha que termina com um ferido, mas Marcos Rey conta tudo como se estivesse narrando um folhetim.
O autor também não se furta a alguns comentários sobre o evento. Por exemplo, quando o protagonista ouve as falas na reunião do clube militar, pensa: “A República, sem dúvida, estava próxima, mas não a do moderado Quintino Bocaiúva, nem a do radical Silva Jardim; a julgar por aquela reunião, excluiria as elites civis e a participação popular, correndo o risco de tornar-se uma ditadura, rígida, que talvez fizesse o País ter saudades do Império”. Como dizia o jornalista Silva Jardim, “falta povo nessa revolução”.
Como é um livro para adolescentes e para ser usado em escolas, o autor deixa de fora muitas fofocas históricas (como o fato de que Marechal Deodoro e o Visconde de Ouro Preto (primeiro ministro do Império) tinha disputado a mesma mulher e, portanto, tinham rivalidade antiga. Ainda assim, é um livro que prende a atenção.