quinta-feira, abril 02, 2026

Contos do Loop

 


Contos do Loop, série da Amazon Vídeo que estreou este mês é toda baseada nas incríveis pinturas de Simon Stalenhag. Isso resume as maiores qualidades e os maiores problemas da nova atração da Amazon Video. Trata-se de uma atração com aparência incrível, em que alta tecnologia se associa a um visual retrô e a eventos estranhos. Mas é também uma série de diretor, em que o roteiro parece estar a serviço das imagens.
A história se passa num local no qual está instalada uma empresa misteriosa chamada Loop. Nunca sabemos exatamente o que o Loop faz, mas vislumbramos algumas possibilidades através de pequenos acontecimentos que impactam os moradores locais: uma menina cuja casa desapareceu com a mãe, dois amigos que trocam de corpos, o homem que compra um robô para proteger sua família, a moça que descobre uma forma de congelar o tempo, um rapaz que vai para outra dimensão na qual encontra consigo mesmo. Aliás, deveria haver uma regra básica, sempre ignorada pelos moradores do Loop: jamais mexer em qualquer coisa que encontre na floresta ou em qualquer outro lugar.
Os episódios contam histórias completas, mas que se conectam, são interligadas. O personagen secundário de uma história vira protagonista na história seguinte e assim em diante até que a história de todos seja contada.
Há episódios muito bons, como “Êxtase”, em que uma garota descobre uma maneira de congelar o tempo e usa esse recurso para ter um interlúdio amoroso com seu namorado. Os dois passam um mês vivendo como querem na cidade paralisada. Curioso é que esse episódio vai fazer os moradores acharem que há uma quadrilha de assaltantes agindo, o que vira o gancho para o episódio do homem que compra um robô para proteger sua família.
Uma das ilustrações de Simon Stalenhag que serviram de inspiração para os episódios.
Outro que merece destaque é “Inimigos”: um rapaz é abandonado pelos colegas em uma ilha aparentemente deserta e descobre que há um habitante misterioso. O episódio tem um bom equilíbrio entre terror e poesia e se liga diretamente ao episódio seguinte, “Casa”, com a história do filho do protagonista de “Inimigos”.
Por outro lado, há episóidos como “Ecoesfera” que são decepcionantes. Nele, algo fantástico está acontecendo, mas não existem pistas do que seja. Deixar que o expectador imagine tudo pode ser interessante num quadro de Simon Stalenhag, mas não funciona em um seriado.
Contos do Loop foi anunciado como um anti Black Mirror, o que é uma boa definição. Se em Black Mirror a visão sobre a tecnologia quase sempre é pessimista e o resultado desastroso é quase certo, no seriado da Amazon há um otimismo inerente, mesmo quando tudo parece levar ao desastre.

Senhor das estrelas

 



Em 1977, o roteirista Chris Claremont, o desenhista John Byrne e o arte-finalista Terry Austin eram ilustres desconhecidos. Nesse ano, entretanto, eles produziram juntos uma obra-prima que antecipava em alguns anos os melhores momentos do trio nos X-men. Trata-se de Senhor da Estrelas.
Publicada originalmente na revista Marvel Preview (e republicada aqui em Heróis da Tv 70 e 71), Senhor da Estrelas, como o próprio nome diz, era uma história de ficção-científica: mostra um herói salvando um grupo de pessoas escravizadas.
No meio do salvamento ele descobre que a atividade está sendo usada para gerar dinheiro para um golpe de estado no império galáctico – e, como a ajuda de um garoto e uma garota salvos por ele, irão impedir que isso aconteça.
É uma trama space opera, com direito até mesmo a luta de espadas, mas não soa artificial. A trama se desenvolve de forma verossímil. A história traz inclusive uma inovação interessante: na trama, a nave é um ser vivo apaixonada pelo senhor das galáxias (à certa altura ela chega mesmo a criar uma imagem feminina).
Claremont é conhecido por escrever exageradamente e aqui ele escreve muito, mas o texto não é supérfluo.

Já o desenho é uma atração à parte. Byrne sempre teve um traço elegante, mas nessa HQ se supera, brincando com a diagramação – em certa sequência, um mostro destrói um barco, avançando pelos quadros, junto com o texto. Já o arte-finalista Terry Austin não só torna o traço de Byrne mais refinado como o elabora ainda mais, com o uso, por exemplo, de retículas. Detalhada em alguns momentos e apenas delineada em outros, a arte-final se encaixa perfeitamente no desenho.
Infelizmente essa fase do personagem na época teve poucas histórias. E, sim, esse é o mesmo personagem dos filmes do Guardiões da Galáxia, embora nos filmes ele seja muito diferente. 

Manticore 1 e 2 para baixar

 


Manticore é uma das revistas mais premiadas dos quadrinhos nacionais. Foi graças a ela que ganhei o Angelo Agostini de melhor roteirista. A publicação está fora de catálogo há anos e dificilmente será republicada. A boa notícia é que eu consegui scan dos dois números. Clique aqui para baixar o número 1 e aqui para baixar o número 2.

Emergência Radioativa: O Brilho da tragédia em Goiânia

 


Em setembro de 1987, Goiânia foi palco do maior incidente radioativo do mundo ocorrido fora de uma usina nuclear. O desastre começou quando dois homens retiraram uma cápsula de chumbo de uma clínica de radiologia abandonada e a venderam para um dono de ferro-velho. Ao abrir o artefato, o homem encantou-se com um pó azul brilhante em seu interior e o distribuiu para familiares e amigos. Era o Césio-137, um material altamente radioativo. A série Emergência Radioativa, dirigida por Fernando Coimbra e Iberê Carvalho para a Netflix, reconta essa tragédia.

A obra se destaca por um roteiro e uma direção que privilegiam a tensão e o impacto emocional. A criação do personagem Márcio (Johnny Massaro) — que sintetiza vários físicos goianos que atuaram no episódio real — ajuda a costurar os acontecimentos de forma fluida. Na trama, Márcio está em Goiânia para o aniversário do pai quando um médico amigo da família o informa sobre diversos pacientes com sintomas estranhos, pedindo que ele investigue um objeto deixado na Vigilância Sanitária.

Antes mesmo da confirmação da contaminação, a série utiliza a linguagem visual para alertar que algo terrível está à espreita. Um exemplo marcante é quando Antônia, esposa do dono do ferro-velho, transporta a cápsula em um saco de estopa dentro de um ônibus; a câmera se aproxima do objeto no chão, antecipando visualmente a tragédia de um veículo radioativo circulando pela capital.

A partir da descoberta, o que era antecipação se torna caos iminente. Os fatos desenrolam-se rapidamente em sequências de suspense que esboçam o risco de uma contaminação ainda maior — como o momento em que bombeiros consideram jogar a cápsula no rio que abastece a cidade, ou quando se descobre um caminhão repleto de papel contaminado a caminho de São Paulo.

Esse clima de tensão constante gera uma imersão profunda, fazendo o espectador sofrer ao lado de figuras reais, como a menina Leide das Neves, que ingeriu o césio e luta pela vida. Relembrar esse assunto é fundamental para evitar que negligências semelhantes se repitam.

Em tempo: é revoltante constatar que os donos da clínica, responsáveis diretos por abandonar material letal em um prédio desprotegido, foram condenados apenas a prestar serviços comunitários.

O Super-homem de Garcia-López e Gerry Conway

 


No início da década de 1970, Garcia-López era apenas um espanhol criado na argentina recém-chegado aos EUA e procurando um espaço no mercado dos comics. E Gerry Conway era um roteirista iniciante, chegando na DC depois de uma fase memorável na Marvel, escrevendo o Homem-aranha. 
É o início da parceria dessa dupla (que se tornaria uma das mais afinadas dos comics, principalmente na obra-prima Esquadrão Atari) que podemos acompanhar no primeiro volume das Lendas do Homem de Aço. É curioso ver como ambos, tanto roteirista quanto desenhista, vão tentando se acostumar com o personagem. Conway demora para dar verossimilhança para o herói (a explicação para Clark Kent continuar apresentando o jornal enquanto o Superman atua é sofrível) e Garcia-Lopez sofre com arte-finalistas que não combinam com seu desenho limpo.
O encontro com a Mulher Maravilha é o ponto alto do volume. 


O confroto com a Mulher-Maravilha é nitidamente o ponto que os dois se acertaram (apesar da arte-final de Dan Adkins muitas vezes sujar o traço limpo de Garcia-López). Conway constrói uma boa trama retrô e o desenhista demonstra toda sua capacidade para anatomia, perspectica e diagramação de página. 
A diagramação pouco convencional de Garcia-López, com os personagens saindo do quadro, chamava a atenção. 


A última história do álbum, "A mensagem do sonhador" é o ponto em que podemos a dupla finalmente afinada, com um contexto de ficção-científica que certamente antecipa Esquadrão Atari e uma trama interessante, sobre um alienígena que deve entregar uma mensagem de paz, mas tem sua nave atingida por um meteoro.
A mensagem do sonhador antecipa do cenário de FC de Esquadrão Atari. 


Infelizmente, Garcia-López ficou pouco tempo no título. Logo ficou claro que seu traço vendia e ele era chamado para desenhar os primeiros números de novas revistas, como forma de alavancar as vendas, ou fazer capas de outras.
Posteriormente o desenhista foi chamado para fazer o guia de estilo dos personagens da DC, ficando também responsável pelas imagens promocionais - trabalhos belíssimos, que passaram a estampar lancheiras, camisas e tudo mais que tivesse personagens da DC.

quarta-feira, abril 01, 2026

Livro infantil Os gatos

 

Os gatos foi meu primeiro livro publicado, no ano de 1998, pela editora Módulo com ilustrações de Antonio EderLuciano Lagares e José Aguiar.. É a história de uma menina cujo gato desaparece e vai procurá-lo e, claro, se envolve em muitas aventuras. As situações nas quais ela se envolve foram pensadas a partir de quadros famosos da história da arte. Entre os artistas homenageados estavam: Klint, Norman Rockwell, Matisse, Leonardo da Vinci, Lautrec, Van Gogh, Escher, Munch, Renoir. A capa mostrava a menina e seu gato dentro de um quadro de Miró. 


Mundo sem fim

 


Mundo sem fim é a continuação de Os pilares da terra, clássico da literatura histórica de autoria de Ken Follett. Da mesma forma que Os pilares da terra, Mundo sem fim se passa na Idade Média, na imaginária cidade de Kingsbridge, mas pouco mais de um século depois.
Follett é aquilo que no cinema chamam de artesão competente: não é genial e nem de longe de propõe a fazer alta literatura, mas tem uma incrível capacidade de engendrar tramas bem elaboradas, construir bons personagens e produzir livros em que tudo se encaixa com perfeição, com um quebra-cabeça.
Se Os pilares da terra já mostravam todas essas características, elas ficam ainda mais destacadas em Mundo sem fim. A isso acrescenta-se uma mais elaborada pesquisa histórica e um pano de fundo que por si só chama a atenção do leitor: a nova história se passar no período da guerra dos 100 anos entre França e Inglaterra e da peste negra (ou peste bubônica).
Follett conta em detalhes vivos o efeito da devastação da guerra e evolui para a mortandade absoluta da peste, que dizimou quase metade da população de algumas cidades. Ninguém sabia o que provocava a doença.
A peste negra colocou em cheque o conhecimento médico da época, baseado na ideia dos humores, e criou uma cisão entre conservadores e progressistas (os que acreditavam que a melhor forma de entender as doenças era observar os doentes e, assim, tentar identificar formas de evitar que doenças se espalhassem). Mundo sem fim mostra esse conflito, exemplificado entre uma das personagens, uma freira, que usa máscara para atender os pacientes e lavava as mãos com vinagre, e os médicos tradicionais que consideravam isso besteira (e morriam como moscas). Curiosidade: Hoje sabe-se que o vinagre na verdade afastava as pulgas, que eram provavelmente os vetores da doença.
Aliás, todo o livro, assim como o anterior, parece se equilibrar na relação conservadores x progressistas ou teóricos x práticos. Tanto em Os pilares da terra quanto em Mundo sem fim, o foco é a catedral e os homens visionários que estiveram por trás dela, homens muito além de seu tempo.

Livro Ciência e quadrinhos - edição digital

 



Publicado em 2005, meu livro Ciência e Quadrinhos se tornou bibliografia básica sobre o assunto, inclusive por estudos sobre o uso de quadrinhos nas aulas de ciência. Agora, 18 anos depois, ganha uma edição digital revisada alterada. Para baixar, clique aqui: https://www.marcadefantasia.com/livros/quiosque/ciencia_e_quadrinhos/ciencia_e_quadrinhos.pdf

Homem-aranha – Asas mortíferas

 


No final dos anos 1960 os leitores achavam que o vilão Abutre havia morrido. Nos números anteriores ele havia sido substituído por um prisioneiro chamado Blackie Drago e tudo levava a crer que ele morrera num incêndio no hospital da prisão.

Mas no número 63 de The Amazing Spider-man ele volta mais mortal do que nunca.

A belíssima splash page inicial é um exemplo do talento de Romita. 


A história já inicia com uma splash page realmente memorável, com o personagem no alto de um prédio. O uso inteligente da luz e sombra e a composição com as asas dominando o quadro são uma boa amostra de como John Romita era um mestre do desenho.

Na história, o vilão rouba o uniforme usado por Drago, que estava em exposição no Museu da cidade. Depois solta Drago da prisão. Seu objetivo é enfrentar Drago vestido com o uniforme verde num combate alado e, assim, mostrar para a cidade que ele é o verdadeiro Abutre.

Vida sofrida: Parker tem dores no ombro e problemas com a namorada. 


Enquanto isso, Peter Parker sofre com mais um de seus infinitos problemas: seu ombro está dolorido em decorrência de uma história anterior. Mas quando os dois abutres se engalfinham nos céus da cidade, o rapaz é chamado por JJ Jameson para fotografar o combate do século.

Um garotinho cai da sacada do prédio destruída pelo combate e o aracnídeo é obrigado a intervir. Mas com o ombro machucado ele não é páreo para o Abutre.

O combate dos abutres coloca em risco a vida de um garotinho. 


A história termina numa daquelas situações de suspense típicas de Stan Lee: o personagem caído no meio da rua, desmaiado e à mercê da população.

A dinâmica da história não permite que Stan Lee introduza uma cena de encontro de jovens, na qual ele brilhava com diálogos certeiros e divertidos. Mas a história compensa pelas cenas de ação e pelo equilíbrio do texto. Nas primeiras histórias do aranha, Lee escrevia demais. Nessa fase, seu texto já tinha

encontrado o tamanho certo, encaixando perfeitamente no desenho elegante de John Romita.

A fantástica fábrica de chocolate

 

A Fantástica fábrica de chocolate é um filme de 2005, de Tim Burton, com Johnny Depp no papel principal. Eu me lembrava da versão original e era uma péssima imagem. Quando criança, eu odiava essa versão, especialmente por causa  dos musicais.

Os musicais continuam presentes na versão de Tim Burton, mas já não são aquela coisa quebrada que era até a década de 80: o filme pára e começa um número musical que não tem nada a ver com o que está acontecendo. Esse estilo perdurou durante décadas nos desenhos da Disney, até vir Toy Story, que revolucionou o gênero.

Tim Burton percebeu que A fábrica é uma fábula e trabalhou o filme todo nesse sentido. Algo perfeito para quem já tinha feito a grande fábula da década de 90: Eduard mãos de tesoura. Aliás, há até uma cena em que o diretor homenageia a si mesmo fazendo referência ao personagem com mãos de tesoura (no momento em que Wonka está inaugurando a fábrica).

Portanto, A FÁBRICA é uma fábula sobre a família. É um resgate da família verdadeira, um item raro hoje. Numa época em que os pais não têm controle nenhum sobre seus filhos, que crescem como ditadores interessados unicamente em consumir, consumir e consumir, o filme resgata a família unida por laços de amor. Pessoas que, mesmo na mais absurda miséria, ainda assim são felizes por terem umas às outras. De quantas famílias podemos dizer isso hoje? São cada vez mais comuns os casos de filhos que chegam a matar os pais no primeiro momento em que esses lhes dizem não.

A FÁBRICA desfila as possibilidades de deturpação da infância: uma é mimada excessivamente, outro come demais, outra é educada apenas para vencer, outro é um craque dos vídeo-games e da internet, mas não usa toda essa informação de maneira saudável. De todos, apenas o garoto Charlie Bucket tem uma relação saudável com os pais.

Se não bastasse a ótima mensagem, o filme conta com a cenografia expressionista, típica dos filmes de Burton, com a fantástica música de Danny Elfman e com uma das melhores e criativas aberturas que já vi. Além, é claro, de contar com Johnny Depp, um ator capaz de transformar até uma bomba, como Piratas do Caribe, em um filme sensacional, e que brilha como nunca nesta refilmagem. Um programa para toda a família.

A arte espetacular de Joe Kubert

 


Joe Kubert é um dos mais importantes desenhistas dos comics norte-americanos. Nascido na Polônia em 1926, naturalizou-se norte-americano. Começou a trabalhar com quadrinhos na Era de Ouro, mas notabilizou-se na Era de Prata da DC com personagens como Gavião Negro e Sargento Rock. Criou o personagem Tor. Na década de 1970 desenhou o personagem clássico Tarzan em uma série de revistas antológicas da DC - um trabalho tão bom que até hoje é um dos mais lembrados pelos fãs dos personagem. Sua influência na indústria foi enorme em especial por ter criado a Joe Kubert School of Cartoon and Graphic Art pela qual passaram alguns dos talentos mais relevantes dos comics. 








Guerras Secretas – Morte ao Beyonder

 


Após roubar os poderes de Galactus, no número 10 da série Gerras Secretas, o Doutor Destino se torna um deus.

“Eu sinto cada célula... cada átomo! A sua textura! Seus movimentos frenéticos! A dança do infinito... Nenhuma barreira física pode conter meus sentidos! Eu vejo... não, está muito além da visão... eu cubro tudo que existe ao meu redor! Possuo mais sentidos que antes!”, diz ele, num momento em que Shooter mostra que, apesar de tudo, pode ser um bom escritor.

Destino delicia-se com o poder de Galactus...


Mas o vilão não está satisfeito. Ele não admite que alguém tenha mais poder que ele e decide atacar Beyonder e roubar seu poder.

O ataque a Beyonder faz com que o planeta seja sacudido por terremotos terríveis, criando mais uma linha de tensão narrativa, já que vários personagens se machucam gravemente (embora ninguém vá morrer – algo que fica muito claro em Guerras Secretas desde o início é que ninguém nunca vai morrer de fato).

... e resolve atacar Beyonder. 


A narrativa mostra o Doutor destino perdendo nitidamente, tanto que ele busca a ajuda dos heróis que poderiam unir sua energia à dele.

“O último plano desesperado fracassou... agora, como se fosse um aviso, o ataque furioso recomeça e desta vez não há defesa”, diz o texto. O vilão é literalmente retalhado.

A derrota é certa. Ou não depende do humor do roteirista. 


Aí, na sequência seguinte, ele aparece monstruosamente grande, depois de ter roubado o poder de Beyonder. Em nenhum momento é explicado como isso aconteceu, até porque o texto deixava bem claro que a derrota do mesmo era certa. Vai ver Jim Shooter esqueceu de colocar essa parte na história, uma das muitas coisas que ele esqueceu ao elaborar o roteiro.

Ebook sobre Teorias da Comunicação

 


O livro Teorias da comunicação: correntes de pensamento e metodologia de ensino reúne artigos de diversos professores do Brasil. É provavelmente uma das melhores obras sobre o assunto já publicadas em nosso país. Eu colaboro com dois artigos, um sobre a teoria hipodérmica e outro sobre a cibernética e a teoria do caos. O ebook pode ser baixado gratuitamente no site do Congresso Intercom:http://www.portcom.intercom.org.br/ebooks/detalheEbook.php?id=55845

terça-feira, março 31, 2026

Esquadrão Atari - Paco Rato, o ladrão

 



O terceiro número do Esquadrão Atari foi o primeiro a ter algum tipo de ação não diretamente relacionada à dupla Dart – Blackjack.

Nessa história, Paco Rato é uma estrela desde a capa. Na história, ele é preso pelo seu irmão Ridente que revela um pouco sobre a história do personagem: “Você é uma vergonha para nossa família! Todos somos soldados ou agentes de segurança, menos você. Ao se tornar um ladrão, você maculou nossa honra!”.



Claro que o carismático personagem consegue fugir e aqui descobrimos uma característica dele que era apenas entrevista nas histórias anteriores: ao se sentir encurralado, Paco Rato se torna simplesmente uma fera.



O tom divertido dessa sequência contrasta com a trama da dupla Dart e Blackjack. Essa é a história em que o anti-herói supostamente morre ao tentar consertar a nave do casal. Garcia reforça esse clima opressivo fazendo sequências escuras, com grandes massas de preto. A maioria das cenas do casal são monocromáticas, realçando a ideia de que o perigo é real.

Mary Shelley, o filme

 


A maioria dos fãs de literatura de ficção científica conhece a escritora Mary Shelley e sua obra mais famosa, Frankstein. Poucas pessoas, entretanto, conhecem detalhes da vida da autora. O filme Mary Shelley, dirigido por Haifaa Al Mansour e recentemente lançado na Netflix preenche essa lacuna.
Shelley vinha de uma família de gênios. Seu pai, William Goldwin, foi um autor reconhecido em sua época e um dos precursores do anarquismo. Sua mãe, Mary Wollstonecraft, foi uma das primeiras escritoras britânicas e é considerada a fundadora do movimento feminista. Aliás, a mãe vinha de dois relacionamentos conturbados, com homens com os quais ela não se casou e morreu poucas semanas após o nascimento da filha.
Assim, o filme acompanha a jovem Mary Wollstonecraft Godwin sonhando em ser escritora, inebriada pelo legado da mãe quando uma viagem à Escócia a leva a conhecer o jovem poeta radical Percy Shelley, pelo qual se apaixona. Posteriormente Shelley se torna uma espécie de aluno de William Godwin e o relacionamento entre os dois se concretiza. É quando se descobre que o poeta é casado com uma outra jovem e tem até mesmo um filho com ela. Desconsiderando o conselho paterno, ela foge com o poeta e passa viver com ele, para grande escândalo da sociedade da época.
O breve resumo acima mostra o quanto a vida da autora de Frankstein é tão interessante e romântica quanto o próprio livro a tornou célebre.
A diretora explora bem o clima da época, a personalidade de Mary, as contradições dos personagens e detalha o surgimento do livro, resultado de uma série de experiências pessoais da autora que a inspiraram, incluindo a perda da filha.
Frankstein não é só a obra fundadora da ficção científica. É também um livro genial, de grandesa literária única e forte aspecto filosófico (que nunca foi de fato captado pelas suas versões cinematográficas). E é mais surpreendente ainda considerando-se que a autora só tinha 18 anos quando ele foi publicado. Portanto, é inacreditável que uma cinebiografia da autora só tenha surgido dois séculos depois da publicação de Frankstein, uma falha que é corrigida agora, com louvor.  

A divulgação científica nos quadrinhos

 

Defendida em 1996, minha dissertação de mestrado A divulgação científica nos quadrinhos - análise do caso Watchmen foi um dos primeiros trabalhos acadêmicos a analisar a relação entre HQs e ciência no Brasil. Tornou-se referência obrigatória inclusive sobre uso de gibis em sala de aula. Para ler, clique aqui.

O cortiço

 


Publicado em 1890, O Cortiço, de Aluizio de Azevedo, é um romance baseado na ideia equivocada do determinismo social, segundo o qual o caráter de uma pessoa e seu comportamento é determinado pelo meio. E, para o português Azevedo, um cortiço carioca era o pior dos meios, um local que corrompia todos que entrassem em contato com o mesmo.

Assim, O Cortiço é uma história de degradação moral, em que personagens desfilam diante do leitor, alguns até íntegros, como o português Jerônimo, mas vão sendo aos poucos tomados pela lubricidade do local e acabam contaminados.
O romance guarda forte conteúdo racista certamente influenciado por teorias em voga na época: o europeu é bom, íntegro, o brasileiro é uma raça degradada.
É curioso e irônico, no entanto, que de todos os personagens, o mais corrupto é justamente um português, João Romão, o dono do Cortiço. Perto de suas maldades e de seu egoísmo os moradores do cortiço parecem inocentes.
Muito além de sua mensagem determinista, O Cortiço é um dos melhores livros entre os clássicos da literatura brasileira. A forma como o autor lida com uma infinidade de personagens, caracterizando-os perfeitamente, dando a cada um deles uma uma história, um modo de reagir às alegrias e adversidades, tudo isso é genial.
É fácil aprofundar a personalidade de um único personagem. Mas lidar com uma galeria tão grande sem perder a mão é coisa para grandes autores.
Outro aspecto interessante é a inventividade na criação de situações. No cortiço sempre está acontecendo algo numa espiral vertiginosa de traições, brigas, intrigas.
Acrescente-se a isso afinadas descrições da psicologia dos personagens que lembram muito Eça de Queiros. Como exemplo, um trecho em que o autor descreve a descoberta da inveja por parte de João Romão: “E em volta de seu espírito, pela primeira vez alucinado, um turbilhão de grandezas, que ele mal conhecia e mal podia imaginar, perpassou vertiginosamente, em ondas de sedas e rendas, veludos e pérolas, colos e braços de mulheres seminuas, num fremir de risos e espumar aljofrado de vinhos cor de ouro”.