sexta-feira, setembro 11, 2026

Viúva negra – A mais fria das guerras

 

Gerry Conway é um caso interessante de roteirista. Ele consegue ser muito bom quando trabalha com grandes artistas, como Garcia-Lopez. Vide a obra-prima Esquadrão Atari. Mas é totalmente mediano quando é ilustrado por desenhistas menos eficientes. Um exemplo dessa última categoria é a graphic novel Viúva negra – a mais fria das guerras, desenhada por George Freeman. A história começa bem, com a espiã impedindo a venda de um disquete com informações secretas do departamento de defesa dos EUA.
Ela é então abordada por agentes da KGB que lhe revelam que Alexei Shostakov está vivo. Paixão da vida de Natasha Romanov, ele era também o herói russo Guardião Vermelho. O personagem havia aparentemente morrido em uma aventura antiga dos Vingadores, quando a base onde estava foi destruída. Os agentes usam essa informação para chantagear a viúva e obrigá-la conseguir informações secretas da SHIELD – se ela não o fizer, ele será morto. Vindo da escola Stan Lee de roteiro, Conway dependia demais da narrativa visual do desenhista e a de Freeman não era das melhores, com muitos quadros por página e pouco uso de quadros de impacto. Ou seja: a história não tinha o ritmo narrativo adequado, mas mesmo assim se sustenta. O final, entretanto, é forçado, com uma solução praticamente tirada da cartola e pouco condizente com a personagem conhecida por sua astúcia. Entretanto, embora não seja uma grande obra, é uma leitura divertida e descomprometida. Essa história foi publicada no número 7 da coleção Graphic Marvel, da editora Abril.

Jornada nas estrelas - Por qualquer outro nome

 


O título do episódio “Por qualquer outro nome”, da série clássica de Jornada nas Estrelas se refere a uma frase de Shakespeare: uma rosa teria o mesmo perfume por qualquer outro nome que a chamassemos.

Embora essa relação não fique explícita no episódio, é possível imaginar porque essa frase era tão importante a ponto de se tornar o título.

Na história, a Enterprise recebe um pedido de socorro de uma nave num planeta desconhecido nos limites do espaço ocupado pela Federação.

Lá o grupo de descida é imobilizado e desarmado. O líder dos atacantes explica a Kirk que o pequeno grupo faz parte de uma tropa de invasão que perdeu a nave ao atravessar uma barreira que cerca a galáxia. Conquistadores, os kelvan precisam invadir uma nova galáxia em razão da galáxia ocupada pro eles estar repleta de radiação.

Enquanto fala, os outros intregrantes do grupo invadem e tomam o controle da Enterprise.

Assim que atravessam a barreira, os kelvans transformam a maioria da tripulação em estruturas calcárias. Parece que tudo está perdido e que a Enterprise servirá agora aos invasores até que Spock descobre um segredo sobre eles: para conseguir uma maior produtividade e eficiência, os kelvan abdicaram das sensações e sentimentos que poderiam distrai-los. Cabe agora a Kirk e os poucos oficiais que restauram explorar isso.

É aí que entra a citação do título, que remete diretamente ao mundo das sensações. Uma flor irá ter o mesmo perfume (sensação-sentimento), independente do nome que usarmos para designá-la (razão). É mais um dos muitos episódios de Jornada que exploram a essência da humanidade.

Embora tenha uma construção lenta e tenha uma resolução abrupta, é um bom episódio, que se encaixa muito bem naquilo que Jornadas tem de melhor: refletir sobre o que nos torna humanos.

Demolidor – Desmascarado

 


No número 163 da revista do Demolidor, o herói enfrentou o Hulk e ficou gravemente ferido. O número 164 mostraria a convalescência do personagem. Seria uma edição morna, desinteressante, mas o talento de Roger McKenzie e Frank Miller transformou essa hq numa das mais memoráveis do personagem, lembrada com carinho pelos leitores que a leram em superaventuras Marvel 3.

A história começa com vários heróis, como os Vingadores, fazendo uma visita ao enfermo no hospital. É quando um homem irrompe no quarto, apesar dos protestos dos enfermeiros. É o repórter Ben Urich, que pede para falar em particular com o Demolidor.

Aqui temos uma daquelas sequências geniais de Miller.

Da negação à confissão. 


O repórter diz que quer ajuda com uma história, a história de um garoto cego que superou suas deficiências para se tornar um advogado famoso e um herói, um homem sem medo.

O Demolidor nega imeditamente a relação, mas Ben coloca diante dele uma foto: “Se você não é matt murdock nem é cego, descreva essa foto para mim”.

Então vemos seis quadros verticais em tanto as falas quanto os gestos do personagem vão mudando. “Ora, bem, deixe de brincadeiras. É claro que não sou matt murdock! Além do mais, eu não tenho que provar nada para você. Isso tudo é um absurdo! Isso tudo é... verdade!”

A edição reconta a origem do personagem. 


Texto e imagem se unem numa sequência que funciona perfeitamente e mostra como o herói muda da negação inicial à confissão.

Essa trama é usada como desculpa para recontar a história do surgimento do Demolidor, que se tornou cego num acidente de trânsito e se transformou em herói para vingar seu pai boxeador assassinado pela máfia após se recusar a perder uma luta.

A estratégia não era novidade. A Marvel tinha como prática de tempos em tempos fazer uma edição apresentando os personagens para novos leitores. A novidade aí está na forma como isso foi feito.

Miller presta uma homenagem... 


Provavelmente a sequência de maior destaque dessa história seja de quando o Demolidor, em sua primeira aparição, persegue o mafioso responsável pela morte de seu pai. Miller presta uma homenagem a um dos seus ídolos, Bernie Krigstein, que, na década de 1950 publicou na DC comics a antológica história Raça superior, na qual um nazista é perseguido por um judeu sobrevivente de campo de concentração no metrô de Nova York.

... ao ídolo Krigstein. 


Miller não só coloca a sequência no metrô, mas imita, quase quadro a quadro uma das cenas da história de Krgstein, colocando outros elementos, como uma a representação gráfica dos batimentos cardíacos do mafioso, que reflete os sentidos do Demolidor.

Não se trata de cópia, mas de um mestre homenageando outro mestre.

Mestre Giles d´Aldeia, de J.R.R. Tolkien

 


Embora seja mais conhecido pela trilogia O senhor dos anéis, Tolkien tem também uma ampla produção de livros de fantasia com histórias fechadas. Exemplo disso é o volume Mestre Giles d´Aldeia, lançado no Brasil em uma belíssima edição da Harperkids.

O livro conta a história de um pacato fazendeiro que sem querer acaba se tornando um herói ao afugentar um gigante de suas terras. A narrativa une fantasia com humor, como se pode ver na descrição do cachorro do protagonista: “O nome dele era Ganido. Os cães deviam contentar-se com nomes curtos da língua nacional: o latim dos livros era reservado para seus superiores. Ganido não sabia falar nem mesmo um latim grosseiro, mas sabia usar a língua dos plebeus tanto para ameaçar e contar vantagens como para bajular”.

A sequência do gigante é hilária. Giles enche seu bacamarte de pedras e entulhos, mas quando vê o gigante fica tão assustado que, sem querer, dispara a arma. Um prego vai parar no nariz do monstro, que, achando que se trata de insetos gigantes, vai embora, não sem antes levar algumas ovelhas para o jantar.

O episódio tem duas consequências. Primeiro transforma Giles em um herói local a ponto dele receber do rei uma velha espada de presente. Segundo, o gigante passa a espalhar a notícia de aquela região é rica de vacas e ovelhas que podem ser comidos à vontade, o que leva um dragão a se aventura pelo local.

Como herói local, Giles é obrigado a enfrentar a fera. O primeiro diálogo entre os dois é de uma simplicidade e, ao mesmo tempo, de um humor único:

- Desculpe a pergunta, mas você está procurando por mim? – indaga o dragão.

Lá na frente, no segundo encontro entre o fazendeiro e o dragão, será travado o mesmo diálogo, mas com sinal invertido, de modo que o significado se torna oposto, o que mostra que Tolkien tinha pleno controle da obra, planejando muito bem até mesmo os menores falas dos personagens.

No final, Mestre Giles d´Adeia se torna uma parábola sobre como os poderosos usam os pobres a seu próprio benefício. É uma sutil, mas ferina crítica social.

Não bastassem os méritos do próprio livro, a edição da Harperkids é uma verdadeira preciosidade. Em formato 12 x 16 cm, capa dura, com fitilho, a obra também traz as belíssimas ilustrações de Pauline Baynes, que mimetiza com perfeição o estilo das iluminuras medievais. O único defeito é que, ao invés de colocar as ilustrações no meio do livro, elas foram colocadas no final.

Júlia Kendall – Pena de morte

 


O roteirista Giancarlo Berardi, provavelmente um dos melhores em atividade atualmente, consegue criar tramas inovadoras mesmo dentro de um gênero padrão, como o policial.

No policial convencional, alguém comente um crime é o protagonista passa toda a trama tentando descobrir quem é o criminoso.

Em Pena Capital, o desafio é o oposto. Uma garota vai ser executada, depois de ter sido condenada por supostamente ter matado o pai. O tempo é muito curto, e Júlia precisa descobrir algum indício que prove a inocência da personagem antes que ela receba a injeção letal.

Relógios são elementos recorrentes na narrativa... 


Essa trama não só subverte o que a maioria dos leitores espera de uma história policial como acrescenta um aspecto de suspense realmente surpreendente.

A narrativa é divida em três: na primeira vemos o governador, que poderia dar o perdão para a prisioneira, envolvido numa trama doméstica que o fará mudar de ideia e assinar a execução.

A segunda narrativa é a da própria condenada, na prisão, no seu último dia de vida incluindo uma visita da irmã. Acompanhamos sua apreensão, seus temores, suas mudanças bruscas de humor, o desespero.

... eles lembram que a hora da injeção letal se aproxima. 


E, finalmente, na terceira narrativa, acompanhamos Júlia e outra personagem refazendo todo o processo de investigação, entrevistando testemunhas. Nada, no entanto, parece indicar uma reviravolta no processo... e o tempo vai se esgotando. A reviravolta final não é forçada e parece uma consequência direta do que vimos até ali.

Berardi (com a ajuda de Maurizio Mantero) consegue fazer um libelo contra a pena de morte de forma totalmente orgânica, numa trama empolgante.

Em tempo: algo que me incomoda é ver um dos melhores quadrinhos do mercado sendo lançado em formatinho (na Itália o formato é maior) e papel de péssima qualidade enquanto obras totalmente descartáveis estão sendo lançadas com papel luxuoso e capa dura. Parece que o mercado editorial está virado de cabeça para baixo.

Gian Danton é entrevistado em livro sobre processos criativos nos quadrinhos

 


Trabalhar com cultura nunca foi tarefa fácil. Além de toda a dificuldade financeira e do descrédito e desconfiança que a profissão possui no país, o artista começa enfrentando as próprias dúvidas. O que pretendo contar é realmente interessante? Diz algo? Alguém teria algum interesse sincero no que quero dizer? E como dizer? Por onde começar? Como prosseguir? Este é o caminho certo?


Seguem aí as dificuldades de realização. Dificilmente uma obra de arte se faz sozinha. A cultura pede, exige trabalho coletivo. Um cineasta precisa de uma gama de outros artistas para levar um filme à tela. Um roteirista de quadrinhos precisa de um desenhista para passar sua história ao papel. E os dois precisam de um editor para tornar a HQ em algo real.

Filme pronto, gibi impresso. E agora? Como chego ao público? Como converso com ele? Onde distribuo minha obra?

Procurando respostas, Marcelo Engster realizou entre 2016 e 2020 diversas entrevistas com abnegados e corajosos artistas falando sobre seus processos criativos para o finado blog Quadrinhólatra.  Agora essas conversas estão reunidas no livro Processos Criativos nos Quadrinhos.

Quadrinistas entrevistados:
Alice Pereira    
Ana Recalde    
Augusto Paim    
Bier    
Cris Camargo    
Daniel Esteves    
Edgar Franco    
Edgar Vasques    
Fábio Zimbres    
Gian Danton    
Gustavo Machado    
Iaranaika    
Iotti    
Jun Sugiyama    
Louzada    
Mabel Lopes    
Marcatti        
Marcel Ibaldo    
Marcelo D’salete    
Orlandeli    
Ota Assunção    
Raphael Fernandes    
Roberta Cirne    
Rogê Antônio    
Zé Wellington    

O livro está disponível na Amazon e é gratuito com o Kindle Unlimited. Para ler, cliquei aqui

Fundo do baú - Thundarr, o bárbaro

 


Thundarr, o bárbaro é um daqueles casos de séries animadas que parecem ter saído diretamente dos quadrinhos. E praticamente foram: Steve Gerber, seu criador, era roteirista da Marvel, para a qual criou Howard, o Pato, e trouxe para o design de produção o mestre Jack Kirby. Além disso, outros roteiristas de quadrinhos, como Roy Thomas e Gerry Conway escreveram episódios.
A trama mostrava um mundo pós-apocalíptico em que um planeta desconhecido passou entre a terra e a lua, quebrando essa última em dois pedaços. A civilização sobreviveu dividida em feudos governados por feiticeiros, que usam tanto magia quando a tecnologia da velha terra.
Os personagens na versão do amigo JJ Marreiro

O protagonista, Thundarr, era um bárbaro salvo do cativeiro pela princesa Ariel, uma feiticeira de boa índole. Completava o trio Ookla the Mok, um humanoide leonino. Esse último personagem foi adicionado à série por pressão dos produtores, que queriam alguém parecido com os wookiees de Star Wars. A sugestão do nome veio do também roteirista de quadrinhos Martin Pasko. Ele e Gerber estavam passando pelos portões da Universidade da Califórinia em Los Angeles (UCLA) e ele sugeriu usar a sigla como nome do personagem.

A Arte Sofisticada de Robert McGinnis



Robert McGinnis é um renomado ilustrador norte-americano, responsável pelo design de milhares de capas de livros e dezenas de cartazes de filmes, alguns dos quais se tornaram os mais célebres e icônicos da indústria cinematográfica. Ele nasceu em 1926 em Cincinnati, no estado de Ohio. Desde a infância, revelou um talento nato para o desenho e foi profundamente incentivado pelos pais, que chegaram a inscrevê-lo em um curso formal de artes de sua cidade.

Quando ainda cursava o ensino médio, McGinnis conseguiu um estágio no prestigiado estúdio Walt Disney, uma experiência que refinou seu olhar técnico. No final da década de 1940, começou a trabalhar em Cincinnati em um estúdio voltado para a arte publicitária. Pouco tempo depois, mudou-se para Nova York, onde ganhou enorme projeção ao ilustrar capas de livros de bolso para os mais diversos autores e gêneros na prestigiada editora Dell Publishing.

Sua consagração definitiva veio com seu primeiro cartaz de cinema, feito para o clássico Bonequinha de Luxo (1961), que se transformou instantaneamente em um marco cultural e o consagrou como um dos artistas mais disputados e badalados de Hollywood. Ao longo de sua prolífica carreira, ele também assinou as artes promocionais de produções inesquecíveis como Barbarella (1968), A Vida Privada de Sherlock Holmes (1970) e 007: Os Diamantes São Eternos (1971), entre tantos outros sucessos.



















quinta-feira, setembro 10, 2026

Violador, de Alan Moore

 


Em 1994 a Image Comics estava no seu auge e pagando verdadeiras fortunas para seus colaboradores. Foi nesse contexto que Alan Moore foi convidado por Todd McFarlane para produzir uma minissérie de Violador, vilão de Spaw. O resultado foi uma verdadeira obra-prima do humor ácido e da literatura fast food.

Alan Moore percebeu que personagens como aqueles não poderiam ser levados a sério e produziu uma história em que o absurdo é a tônica.

O tom da história é absurdo. 


Na trama, o Violador perdeu seus poderes de demônio e foi transformado em um humano gordo com uma máscara de palhaço. Ele está prestes a ser morto por mafiosos, que prenderam seus pés em um concreto e vão jogá-lo no rio. Mas ele consegue se safar mordendo a gravata de um dos mafiosos e levando-o consigo. Quando o mafioso aparece num banco de areia e os outros vão socorrê-lo, temos o seguinte diálogo:

“Eu tô mal paca... tenho um buraco... na cabeça...”, diz ele. “Um buraco? Nossa! De que tamanho?”, pergunta o outro. “Ah... bem grande”, responde o mafioso enquanto uma mão sai de sua boca com uma arma apontada, prestes a atirar.


O punidor mata tudo que se move. 


Esse início dá o tom de humor absurdo a história.

Não bastasse isso, os acontecimentos são vistos pelos irmãos do demônio, em poças de sangue humano (eles reclamam que o sangue O positivo não permite uma boa imagem). Uma gaiola cheia de humanos garante que a reposição. Entre os irmãos, destaque para o indeciso Vacilador com frases que sempre começam de uma maneira e terminam de outra.

Se tudo isso não parecesse bizarro e absurdo o bastante, o mafioso contrata um assassino profissional para matar o Violador. A primeira aparição dele acontece em duas páginas, cada uma com cinco quatros horizontais sob o ponto de vista do mafioso. “E então, com quem você quer que eu fale?”. “Hm... deixe-me ver... Jake e Larry ali..”... Antes mesmo que o mafioso termine a frase, o Punidor mata os dois para só depois descobrir que eles iam preparar os slides com as fotos do alvo.

Alan Moore fez o roteiro na forma de rafe. 


Quando o mafioso aconselha: “Seja como Teddy Roosevelt... vá devagar e carregue um porrete bem grande”, o assassino começa a achar que Roosevelt é o nome do alvo. E suas frases são do tipo: “Eu sou o Punidor... e estou aqui para te dar um tremendo castigo!”.

O personagem, obviamente, é uma engraçadíssima sátira do Justiceiro, que fazia grande sucesso à época. Alan Moore era muito fã da MAD e podemos perceber aqui toda essa influência. Bart Sears, o desenhista, aproveita muito bem esse aspecto cômico.

O Punidor é uma sátira do Justiceiro. 


Uma curiosidade é que, contrariando seu método comum de escrita, aqui Moore fez o roteiro no formato rafe das páginas. Alguns desses rafes aparecem ao final do volume da edição da Abril, lançada em 1997.

Ou vai ou racha

 

Um dos filmes prediletos da minha infância, campeão absoluto da sessão da tarde era um road movie absolutamente inusitado envolvendo Jerry Lewis, Dean Martin e... um cachorro.

Ou vai ou racha, dirigido por Frank Tashlin e lançado em 1956, foi também o último filme da dupla Lewis-Martin. Na época a relação entre os dois já estava tão estremecida que eles mal se falavam fora das gravações. Ainda assim, na tela, a química entre os dois é perfeita.

Na história, Deam Martin é um malandro que deve dinheiro a um gangster e inventa um ardil para conseguir o dinheiro. Consegue com a gráfica todos os tickets de um sorteio de cinema com objetivo de ganhar um carro, vender e pagar a dívida. Mas, para seu azar, Jerry Lewis também ganha o carro. Apaixonado por cinema, Lewis pretende usar o carango para atravessar o país e visitar Hollywood onde pretende conhecer a atriz Anita Ekberg, pela qual é apaixonado. O trapaceiro aceita viajar com ele, mirando uma possibilidade de sumir com o carro – oportunidade que nunca aparece graças ao cachorro de Lewis.



Juntos os dois atravessam vários estados se envolvendo em situações absurdas, como quando Lewis tenta tirar leite de um touro e quase é morto por este.

No meio do caminho, quando acabam o gasolina, acolhem uma garota que vai para o mesmo caminho – o necessário interesse romântico de Martin, considerado um galã na época. Martin também cantava, então toda as situações eram desculpas para números musicais.

Mas o roteiro de Erna Lazarus e principalmente a direção de Frank Tashlin não deixam que a película se transforme num musical meloso. O tom crítico já aparece na primeira sequência, em que o filme faz uma homenagem aos fãs de cinema. O primeiro, norte-americano é mostrado com uma bandeja com uma quantidade enorme de refrigerantes e pipoca, uma antecipação das críticas sobre a obesidade que viriam em filmes muito posteriores, como A dieta do palhaço. Na cena seguinte, aparece o fã inglês de cinema, cujo mordomo lhe serve três pipocase e ele comenta, fleumático: é muito!

O tom levemente crítico e ácido perspassa todo o filme. Uma das cenas musicais em que eles atravessam vários estados, a ambientação e as garotas soam tão artificiais que expectador não tem como levar a sério.

Agora, tantos anos depois, eu chego à conclusão de que a razão pela qual eu, surpreendentemente, gosto de dirigir na estrada está diretamente ligada a essa pequena obra-prima final da dupla Lewis-Martin.

Obs: É possível ver esse filme no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=wZ-kURB1XGE

Joyland, de Stephen King

 


Stephen King é mais conhecido pelos livros de terror. Entretanto, alguns dos melhores momentos dele foram em textos que pouco tinham do gênero, a exemplo da noveleta O corpo (que deu origem ao filme Conta comigo) ou o romance O corredor da morte (que deu origem ao filme À espera de um milagre). Em Joyland, King mostra que pode ser um mestre em outra modalidade: o policial.
A história se passa em um parque de diversões (o Joyland do título) assombrado por um assassinato: uma garota foi degolada no meio de um brinquedo (conhecido no Brasil como trem fantasma). O assassino nunca foi pego e tudo leva a crer que ele matou outras garotas. A moça assassinada aparece de tempos em tempos para trabalhadores do parque, pedindo ajuda.
O personagem principal é um jovem universitário que acabou de ser chutado pela namorada e aceita um trabalho provisório no parque. Juntam-se a ele dois outros estudantes: uma linda garota ruiva e seu namorado fortão e simpático.
Como o leitor certamente adivinhou, a trama gira em torno da tentativa de se descobrir quem é o assassino (e, numa óbvia contribuição Kingiana, acrescenta-se um garoto doente com dom mediúnico). Mas esse não é o forte de Joyland (embora providencie um final realmente eletrizante). O forte do livro é aquilo que King faz melhor: mostrar personagens cativantes em uma narrativa saudosista. O capítulo em que o garoto doente é levado para passear no parque é um dos pontos altos da obra – algo que só King, com sua narrativa rica e extremamente coloquial conseguiria fazer.
O livro emula os pulp fictions não só na trama, mas também na capa, com o título em fonte vintage, mostrando uma garota Hollywood com sua máquina fotográfica na mão olhando apavorada para alguém que se aproxima, tendo o parque de diversões ao fundo.
Esse estilo saudosista é bem resumido no trecho: “Essas são coisas que aconteceram há muito tempo, em um ano mágico em que o petróleo era vendido por onze dólares o barril. O ano em que meu coração foi partido. O ano em que perdi a virgindidade. O ano em que salvei uma linda garotinha de se engasgar e um velho bem cruel de um ataque cardíaco (...) Também foi o ano em que aprendi a usar uma língua secreta e a dançar o Pop Pop com uma fantasia de cachorro. O ano em que descobri que há coisas piores que perder uma garota”.
Surpreendentemente para King, o livro tem exatas 239 páginas, o que permite ler de uma sentada.