terça-feira, agosto 03, 2021

Narcos, terceira temporada

 

Narcos chegou à terceira temporada com um desafio monstruoso: sobreviver à morte de Pablo Escobar. A interpretação de Wagner Moura foi tão marcante que parecia que ele estava carregando a série nas costas. Como continuar a série sem ele? Em especial porque os traficantes do Cartel de Cali não pareciam tão interessantes ou dúbios, exceto por Pacho Herrera, magistralmente interpretado por Alberto Ammann (a homossexualidade do personagem faz um contraponto à selvageria do personagem). 
A série, no entanto, conseguiu desenvolver a trama e os personagens de maneira competente. E introduziu um novo personagem: Jorge Salcedo (Matias Varela). Chefe da segurança do Cartel de Cali, ele vive a dubiedade de não se considerar alguém mal e jamais ter matado alguém, mas trabalhar para um cartel de drogas. As melhores cenas de toda a temporada sem dúvida são com esse personagem.
Embora a direção seja segura, o roteiro (de Chris Brancato, criador da ´serie) foi fundamental para que esta temporada desse certo. Trabalhando o tempo todo com narrativas paralelas, a trama deixa o expectador sempre no fio da navalha, em especial nos capítulos finais.
Narcos é uma das melhores séries da atualidade e mostra a que nível chegou a influência do tráfico de drogas: até mesmo governos que dizem combater as drogas, na verdade estão ligados a ele. Em países da América Latina, senadores, ministros e até presidentes parecem comer nas mãos dos carteis de drogas.

O Super-homem

 

Na década de 1930 dois jovens judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster andaram por quase todas as editoras e sindicates da época tentando vender um personagem que haviam criado. Todo mundo achava que o personagem era irreal demais e dificilmente venderia bem. O nome desse personagem era Super-homem, um dos maiores sucessos dos quadrinhos de todos os tempos.

O personagem havia surgido em um fanzine de ficção-científica editado por Siegel, o Science Fiction. Era um homem pobre, escolhido na fila para sopa e submetido a uma experiência científica que lhe dava poderes de ouvir o pensamento das pessoas e comandar seu comportamento. Graças a esses poderes, ele se transforma no governante despótico do mundo. Ou seja, inicialmente, o Super-homem era um vilão.

Com o surgimento das revistas em quadrinhos baratas (que no Brasil foram chamadas de gibis), Siegel percebeu ali um mercado e decidiu transformar seu personagem em um herói, aos moldes de Doc Savage, herói da literatura pulp.

O super-homem unia todos os elementos da cultura pop norte-americana: o valentão bonzinho batendo nos malfeitores (como nos pulp fiction), a malha colante dos fisiculturistas da época e a dupla identidade.

Conta a lenda que numa noite abafada de verão, Siegel não conseguia dormir e passou insone, pensando em seu personagem. De quando em quando ele se levantava, tomava água e fazia anotações. Quando amanheceu, ele já tinha o personagem estruturado, com sete semanas de história.

A história não é bem assim. Na verdade, o Super-homem foi sendo estruturado com o tempo, de acordo com as diversas recusas dos editores. Os dois quadrinistas chegaram até a fazer uma versão mais hard, para uma revista masculina.

Os sindicatos de distribuição, editoras e até estúdios (como o de Will Eisner, que posteriormente iria criar o ótimo Spirit) recusavam a tira com observações do tipo “Trabalho imaturo” ou “Prestem mais atenção ao desenho”.

Quando a National precisou de uma história pronta para colocar em uma nova revista que estavam lançando e que precisava estar nas bancas o quanto antes, Sheldon Mayer se lembrou do Super-homem que estava na pilha de materiais rejeitados. Não se sabe se foi uma antecipação do sucesso ou se era simplesmente a coisa que estava mais à mão, mas o fato é que a editora mandou uma carta com os originais para os dois rapazes dizendo que se eles conseguissem transformar aquelas tiras em uma história de 13 páginas o quanto antes, eles a comprariam.

Assim, Action Comics estreou no dia 1 de junho de 1938, tendo o Super-homem na capa, na sua pose clássica, segurando um carro acima dos ombros, para espanto de bandidos que fogem desesperados. Era um trabalho grosseiro, como se diversas histórias estivessem coladas sem muito nexo, mas mesmo assim provocou uma revolução no mercado. Não era só o heroísmo, mas também o humor. Em uma seqüência, o Super-homem corre por fio de alta tensão, levando um bandido consigo. “Não se preocupe. Os passarinhos ficam nos cabos telefônicos e não são eletrocutados – desde que não toquem num  poste telefônico! Opa! Quase bati naquele ali!”. Era algo novo: um herói fazendo piada. Isso conquistou os garotos.

A revista começou a vender horrores. Os donos da editora National mandaram algumas pessoas perguntarem nas bancas o que estava provocando o sucesso do gibi e o que ouviram foi: “As crianças querem mais desse herói”.

Conforme aumentava a popularidade do herói, aumentavam também seus poderes. No começo, ele apenas dava saltos enormes, mas logo estava voando. No começo ele era imune a balas (famosa a cena em que bandido atiram e as balas ricocheteiam em seu peito), mas logo ele já era capaz de agüentar até uma bala de canhão. Em uma história o herói foi obrigado a entrar telhado a dentro porque suspeitava que numa casa se escondia um bandido. Para evitar que novos telhados fossem danificados, foi inventada a visão de raio x.

Se por um lado ele era o herói mais poderoso da Terra, por outro lado, em sua identidade secreta, ele era Clark Kent, um repórter bobalhão que era sempre passado para trás pela colega Lois Lane. A diferença entre eles era de apenas um óculos, mas mesmo assim Kent conseguia enganar a todos. Alguns roteiristas acreditaram que o alter-ego de Super-homem fosse mesmo um bobalhão, mas trabalhos mais recentes, como de Grant Morrison em All Star Superman mostram que na verdade, ele apenas se faz passar por bobalhão.

Essa falsa dualidade Super-homem x Clark Kent permite um processo de identificação e projeção. O leitor se identifica com Clark Kent, mas se projeta no super-herói e suas realizações.

Com o tempo foram adicionados novos elementos à mitologia do personagem. Surgiu a kriptonita para contrabalancear os poderes cada vez maiores do personagem. A kriptonita verde pode até matar o herói. Já a vermelha tem efeitos imprevisíveis, podendo transformar o herói até mesmo em um monstro. Foi criada uma fortaleza da solidão, no pólo Ártico, um local em que o personagem guarda recordações de seu mundo e de suas aventuras.

Com o tempo, ficou claro também que um personagem tão poderoso não poderia combater reles marginais e surgiram os super-vilões, como Lex Luthor, Bizarro e Brainiac.

Marlene não desiste nunca

 


Marlene é uma série de humor criada pelo cartunista capixaba Alpino. Alaor é famoso pelas suas tiras de humor para a Playboy, mas estorou recentemente na internet com a personagem Marlene.
A primeira aparição da personagem surgiu a pedido de uma leitora, cujo marido não entendia suas insinuações sexuais. Ela queria mostrar para o marido na esperança de que ele se tornasse menos lento em suas interpretações. Deu certo e Alpino começou a produzir diversas outras histórias de Marlene e seu marido Alaor.
A dinâmica das histórias é sempre a mesma: Marlene tentando alguma fantasia sexual ou se insinuando para o marido e o lento Alaor não entendendo o contexto sexual. Curiosamente, Marlene jamais falou nas histórias: só vemos os diálogos de Alaor.
Em tempo: nas postagens com as histórias da personagem, há sempre dezenas de comentários de mulheres dizendo que se identificam com ela. Confira um pouco das tentativas de Marlene.




















Surge Wolverine!

 


The Incredible Hulk 181 é uma das mais famosas edições do golias esmeralda. Não que a edição fosse uma obra-prima. A razão é que nessa edição surge um dos mutantes mais queridos de todos os tempos, Wolverine.

Nessa fase, o verdão era escrito por Len Wein e desenhado por Herb Trimpe. Wein tinha desenvolvido uma trama no Canadá, com um antagonista baseado na lenda de Wendigo.

No número 180 acompanhamos Marie Cartier, irmã do homem que se transformou em Wendigo graças a uma maldição. O plano da garota é transferir a maldição para o Hulk (sabe-se lá que tipo de criatura surgiria dessa mistura). Mas antes que a transformação seja completada, o governo canadense manda seu mais importante agente, o baixinho invocado Wolverine.

Já desde essa primeira aparição o personagem chamou atenção por ser abusado. Afinal, ele está enfrentando o personagem mais poderoso da Marvel, junto com outro ser igualmente forte,  e não titubeia: “Ei, monstrinhos... se vocês estão tão a fim de lutar com alguém... é melhor tentar a sorte com o Wolverine!”. 



Trimpe faz um uniforme que seria aproveitado quase que totalmente pelos artistas posteriores, exceto pela máscara, que perderia os bigodes e ficaria com um ar mais arrojado.

Wein, que escrevia muito bem em títulos de terror, parece não levar muito a sério a história. À certa altura, por exemplo, o carcaju pula sobre o Hulk, que reclama: “Bah! Homenzinho parece coelho pulando!”, ao que o outro responde: “Qualé, verdão... eu ficar parado? Eu a-do-ro pular, sabia?”.

Herb Trimpe divide opiniões. Alguns gostam de seu trabalho. Outros simplesmente odeiam e, de fato, embora fosse capaz de criar algumas sequencias interessantes (a capa da 181 é antológica), dificilmente ele poderia rivalizar com Sal Buscema, por exemplo.



O melhor momento da história, quando Wein revela o grande escritor que de fato era, é o final, quando o verdão consola Marie Cartier: “O Hulk é uma criatura simples... muita coisa ele não consegue entender... mas a mágoa e o desespero são sentimentos que ele conhece... e tenta consolar! Assim, eles ficam juntos. O monstro e a garota... ambos vítimas de circunstâncias que não podem controlar... e ambos terrivelmente sós!”.

Posteriormente, quando surgiu a ideia de reformular os X-men com personagens de diversos países, Len Wein lembrou do personagem secundário dessa história e resolveu colocar Wolverine no novo grupo. O resto é história.

Assassinato no Expresso do Oriente

 


A primeira vez que soube da famosa obra de Agatha Christie foi através de um tremendo spoiller. Eu liguei a TV e a parte final da adaptação cinematográfica estava passando. Exatamente a parte em que Poirot desvenda o mistério do assassinato.
Dessa forma, demorei muito para me interessar em ler o livro. Afinal, em uma história policial, o mais importante é o desfecho. Se já conhecemos o final, o livro ainda pode trazer algum atrativo?
Para minha surpresa, sim. O assassinato no Expresso do Oriente é um tremendo livro, uma trama muito bem elaborada, com personagens marcantes e um mistério aparentemente indecifrável: um homem é assassinado em um trem e, embora haja muitas pistas, nenhuma delas parece solucionar o mistério.
Aliás, para mim, o interessante foi justamente identificar a forma genial como a autora planta pistas falsas ao longo da trama. Mais ainda: em certo ponto no final, a trama sofre uma reviravolta, uma revelação sobre cada um dos suspeitos que, ao invés de facilitar, torna ainda mais difícil destrinchar o mistério. Eu lia e pensava: que sacada!

Para quem não conhece o final, o livro deve ser ainda mais interessante. Um dos obrigatórios de Agatha Christie. 

segunda-feira, agosto 02, 2021

A arte magnífica de Arthur Rackham



Arthur Rackham começou sua carreira na era vitoriana, fazendo ilustrações para revistas enquanto trabalhava como escriturário.

Em 1892 ele pediu demissão e resolveu se dedicar apenas ao trabalho de ilustração. À princípio imitando artistas famosos da época, ele só desenvolveu um estilo um estilo próprio quando começou a ilustrar livros.

A grande virada viria em 1905, quando Rackham colocou suas pinturas numa edição de Rip Van Winkle Washington Irving. Estava encontrado seu caminho: a fantasia. Esse livro já apresentava as características que o tornaram famoso: as linhas sinuosas suavizadas por aquarela, as árvores ameaçadoras, as fadas castas e ao mesmo tempo sensuais, ogros e trolls incrivelmente feios, mas igualmente simpáticos. Suas imagens transmitiam saudosismo, beleza e sensualidade recatada.

Outros trabalhos importantes do pintor foram Peter Pan, Alice no país das maravilhas, Sonhos de uma noite de verão e Contos, de Edgar Alan Poe e O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner.











Capitão América: os hibernantes

 


Junto com o Dr. Estranho, o Capitão América sempre foi o meu personagem predileto na Marvel. Uma das razões foram os desenhos desanimados da década de 1960, decalcados diretamente das histórias de Stan Lee e Jack Kirby, em especial a história dos Hibernantes.
Nesse episódio, o Caveira Vermelha, temendo ver o nazismo derrotado na Segunda Guerra, deixa planejada uma vingança: três monstruosos e invencíveis robôs que vão ser despertados 20 anos depois, fazendo ressurgir o III Reich. Os robôs, que se unem, formando um só, parecem invencíveis e não são detidos nem mesmo por mísseis ou aviões militares. No meio da história, o Capitão descobre que o verdadeiro plano é fazê-los entrar no núcleo terrestre, onde a cabeça-bomba irá explodir com o calor provocando uma reação em cadeia que culminará com a destruição do planeta.
Até assistir a esse episódio, tudo que eu havia visto de super-heróis eram os ingênuos desenhos dos Superamigos, com ameaças que nunca pareciam realmente sérias e heróis que venciam os obstáculos com muita facilidade. Ali tudo parecia uma grande brincadeira em que nada de realmente sério poderia acontecer.
Perto das aventuras da DC, essa história parecia visceral: os Hibernantes eram uma ameça real, grandiosa, com um fundo histórico, um vilão realmente maligno, uma trama bem elaborada... e muita, muita ação. E havia a narrativa em off, que eu simplesmente adorava. Além disso, o herói que parecia ter poucos poderes na comparação com personagens como o Super-homem ou poucos recursos, na comparação com a parafernalha tecnológica de um Batman.  
No entanto, o Capitão consegue frustar os planos do Caveira usando principalmente sua coragem e um plano simples.
Aquilo parecia totalmente revolucionário para um garoto de 8 anos.
Posteriormente consegui ler a história original, no volume da Biblioteca Histórica Marvel e não fique decepcionado.  A história tinha todas as características que eu lembrava, mais a arte pura e explosiva de Jack Kirby. A história dos hibernantes é decididamente um épico. E são apenas três episódios de 10 páginas cada. 30 páginas no total! Bons tempos em que os criadores de quadrinhos conseguiam contar boas histórias de maneira sintética.

As montanhas da Lua

 

Uma vez eu e Bené Nascimento (Joe Bennett) conversávamos sobre cinema e ele defendia que, num bom filme de aventura, era impossível aprofundar os personagens. Para provar o contrário, eu citei o filme As Montanhas da Lua, de Bob Rafelson.
O filme conta a história de Richard Burton e sua busca da fonte do Nilo, uma das descobertas científicas mais importantes do século XIX. O filme é uma grande aventura, mas o ponto alto é a relação de Burton com John Speke, que oscila entre a amizade e a inimizade, passando por uma possível relação homossexual, apenas insinuada.
Bob Rafelson foi um dos diretores que abriram caminho para a geração anos 70, que revolucionou Hollywood e a escolha do tema e do protagonista certamente não foi por acaso. Hippie, Rafelson devia se sentir entre os executivos da indústria como o revolucionário Burton na sociedade vitoriana.
Diplomata, explorador, espião, escritor e tradutor, Burton foi responsável, por exemplo, por uma polêmica tradução das Mil e uma noites (com notas  de rodapé sobre sexo) outro da Kama Sutra, que escandalizou a sociedade da época. 
Ou seja: é um personagem que por si só vale um filme. Feito por um grande diretor como Rafelson, torna-se obrigatório.
A propósito, sobre aquela discussão, o Bené acabou concordando comigo: É possível sim fazer um grande filme de aventura e aprofundar os personagens.

Livros sobre o futuro espacial

 Um exemplo característico de obras hiper-reais eram os livros ilustrados que simulavam o futuro da humanidade. Lançados na década de 1970, no rastro do sucesso de filmes de ficção científica, como Star Wars, eles criavam uma hiper-realidade em que o futuro se transformava em passado. Ou seja: fatos ficcionais, de uma época bem posterior à do leitor era apresentados como passado longínquo.

Dois exemplos merecem destaque: Naves espaciais – de 2000 a 2100, de Stewart Cowley e Seres do Espaço, também de Stewart, sob pseudônimo de Steven Caldwell (um suposto habitante do século XXIV).

O livro Naves Espaciais seria uma espécie de manual publicado pela sociedade do comércio da Terra. Uma nota explicativa no início do livro explica que a STC foi fundada em 1999 (vale lembrar que o livro foi publicado em 1978) com o nome de Sociedade do Comércio Mundial, uma subsidiária do Conselho Mundial, ficando encarregada de todo o comércio global. Com o início da exploração espacial, ela mudou de nome e ampliou suas funções para outros planetas. O livro seria uma espécie de guia para pessoas que pretendem ingressar nesse comércio, indicando não só dados técnicos, mas históricos.
A maior parte da contextualização histórica é dada na introdução, na qual é explicado que no ano de 2036 uma nave de reconhecimento estabeleceu contato com os habitantes de Alpha Centauri e o encontro resultou num esforço de cooperação mútua. Em 2047 outra nave de reconhecimento foi atacada pelos habitantes de Proxima Centauri, iniciando uma guerra estelar de vinte anos durante os quais Alpha Centauri, Terra e Proxima Centauri dedicaram-se à produção de uma ampla variedade de naves militares.
Os fatos, como se percebe, são narrados no passado e, embora o ano de 2036 fosse um futuro longínquo em 1978, o livro narra o passado, envolvendo o leitor em um simulacro hiper-real.
Essa hiper-realidade é destacada pelas ilustrações hiper-realísticas e os detalhes técnicos extremamente específicos do texto. Assim, sabemos, por exemplo, que a CAM 117 Gunship era uma nave extremamente rápida, mas essa rapidez se fazia à custa do raio de ação.
Esse acúmulo de detalhes técnicos e históricos criam essa impressão de hiper-realidade, fazendo com que o leitor acredite que encontrou um livro que, de alguma forma, veio do futuro para narrar fatos que ainda irão acontecer (foi essa a impressão que tive ao lê-lo pela primeira vez, na pré-adolescência).
Cowley ampliou essa experiência ao correlacionar outros livros ao mesmo universo, criando uma mitologia coerente. Exemplo disso é o livro Seres do Espaço, de Steven Caldwell.
Na quarta capa do volume descobrimos que o autor integrou a Força de Segurança da Federação Galática em 2393, logo assumindo o posto de comandante militar do grupo 1 e, ao longo de quinze anos de carreira, viajou pelos mais variados lugares da Federação, o que lhe dá credibilidade para escrever sobre as várias raças que a compõe. Caldwell, claro, não é uma pessoa real. Na verdade, Caldwell é um simulacro criado por Cowley para tornar Seres do espaço ainda mais verossimilhantes.
No livro somos informados, por exemplo, que habitantes de Alpha Centauri (aqueles mesmos que haviam se deparado com uma nave de exploração terrana em 2036) são fisicamente semelhantes aos humanos, embora sejam mais esbeltos, tendo, no entanto, um período de gestação mais lento, o que diminuiu drasticamente o crescimento populacional, em especial após as Guerras Centaurianas.
Tais livros estimulavam a curiosidade e a imaginação e nos fazia pensar como de fato seria o futuro.

Simulacro e hiper-realidade

 

Os desenhos de Alex Ross fazem os super-heróis parecerem hiper-reais.

A noção de simulacro remonta a Platão. Segundo ele, havia o modelo original, perfeito, no mundo das ideias. Em nosso mundo encontrava-se a cópia imperfeita desse modelo original. E, por último, havia a cópia da cópia, o simulacro. No simulacro, as imagens perdem seus referentes, são apenas signos, sem relação com o mundo.
            A relação entre imagem e natureza muda, de forma radical, com as tecnologias digitais. A natureza é substituída por um simulacro. A imagem se descola da realidade física do objeto para se ater ao modelo do objeto. É o que Baudrillard chama de hyper-realité (hiper-realidade). Agora, a modelização do objeto é mais importante que o objeto. Não se trata mais de representar o mundo, mas de simulá-lo, ou até criá-lo.
Essas imagens, mais interessantes e vívidas que as imagens reais, criam uma espécie de hiper-realismo, que Umberto Eco  no livro Viagem na irrealidade cotidian definiu através da comparação com o slogan da Coca-cola The real thing: “a imaginação americana deseja a coisa verdadeira e para atingi-la deve realizar o falso absoluto”.
Exemplo disso é o Museu da Cidade de Nova York com seus pergaminhos vendidos na loja, fac símiles do contrato de compra de Manhattan. A reprodução é cuidadosa, reproduzindo até mesmo o cheiro de papel velho. Ocorre que o contrato original era em holandês e o seu simulacro está em inglês.
O próprio Umberto Eco lembra que os quadrinhos já brincavam com a hiper-realidade, como nas histórias do Super-homem em que aparece a Fortaleza da Solidão com a representação fidedigna, mas ampliada, de lembranças de aventuras do homem de aço. Também ali estão diversos robôs, cópias fidedignas do próprio Homem de aço, simulacros do mesmo.
            Nas palavras de Baudrillard os modelos deixam de ser uma projeção do real, mas tornam-se, eles mesmos, uma antecipação do real.

domingo, agosto 01, 2021

Por que os filmes da Marvel fazem tanto sucesso?

 

Quando abrem os portões do Louvre, é como um estouro de boiada. As pessoas simplesmente saem correndo para ver a Monalisa (um quadro pequeno, com um cordão de isolamento de dois metros ou mais). No caminho, passam sem olhar por algumas das grandes obras da pintura universal. Em alguns casos, grandes de fato, como as enormes pinturas de Delacroix. 
A situação nos revela um pouco sobre como estabelece o sentido de valor: as pessoas valorizam aquilo que conhecem. A Monalisa é muito conhecida não só por todas as referências, citações, ilustração em livros, mas principalmente graças a filmes como o código da Vinci. É a melhor ou o mais importante obra do Louvre? Controverso. É a mais espetacular? Não mesmo. Mas é a mais conhecida e reconhecida e por isso a mais valorizada.
Essa característica humana, de valorizar àquilo que se conhece é muito bem explorado pela Marvel e é boa parte do segredo de seu sucesso no cinema. 
A interconexão dos filmes faz com que todos os personagens sejam conhecidos e reconhecidos. Homem formiga? Não é aquele que apareceu no Guerra Civil? Pantera Negra? Não é aquele que apareceu nos vingadores? Assim, o público de um torna-se o público de outro, um puxando a bilheteria do outro para cima. Fenômeno que ficou patente no sucesso absoluto de Guerra Infinita e Ultimato. Aliás, a própria construção do vilão desses dois filmes foi realizada a partir desse princípio: Thanos já aparece na cena pós-crédito do primeiro filme dos Vingadores.
Isso, claro, é novidade no cinema, mas há era feito pela Marvel nos quadrinhos desde a década de 60.

Mundo Monstro

 

Mundo Monstro é um livro juvenil escrito por sobre um local em que monstros e humanos vivem em harmonia. Fênix, duendes, vampiros, convivem lado a lado com humanos normais. O protagonista é um garoto, Érico, que se torna discípulo de um detetive que se torna lobisomem em noites de lua cheia.
A história é cheia de referências, do nome do protagonista (uma homenagem a Érico Veríssimo) a citações de O nome da Rosa e Sherlock Holmes.

Na história, um vampiro está sendo acusado de matar uma moça e o detetive-lobisomem e seu pupilo precisam descobrir a verdade antes que isso se torne uma guerra entre humanos e monstros.
O livro foi lançado como e-book pela editora Infinitum em 2011 e contou com uma interessante estratégia de marketing.

Fizemos uma gincana, com pistas espalhadas por vários blogs (uma pista jogava a outra e assim sucessivamente). Quem conseguiu seguir todas as pistas até o final ganhou um exemplar gratuito do e-book.
Essa estratégia foi sugerida pelo editor e tive dúvidas de que funcionaria, mas no dia, de fato, várias pessoas seguiram as pistas e chegaram até o final, ganhando o prêmio, fora as que ficaram no meio do caminho.

Clique aqui para baixar o e-book. 

Fundo do baú - He-man

 

O desenho animado He-man é um filho bastardo do Conan. No início dos anos 1980, a Mattel comprou os direitos para fazer os bonecos do cimério, mas considerou que o filme era muito adulto. Assim, criou a série Mestres do Universo e encomendou para a Filmation uma série de desenhos animados para ajudar a alavancar as vendas. Em 1983 foi lançada a série He-man e os mestres do universo tornando-se um enorme sucesso. Foram duas temporadas de 65  episódios cada. Além disso, ainda surgiu uma série irmã, She-ha, a princesa do poder, com 93 episódios.
A Filmation usou a técnica da rotoscopia, em que os desenhos eram feitos em cima de filmagens de atores. O estúdio já havia usado essa técnica em Tarzan e Flash Gordon e costumava repetir os movimentos. Tarzan, Flash Gordon e He-man corriam da mesma maneira.
No Brasil He-man foi uma febre. Surgiu até um álbum de figurinhas que esgotava rapidamente nas bancas.
Uma das curiosidades do seriado são os conselhos de He-man dados ao final de cada episódio, que acabaram de transformando memes na web.

Sonja - caçada mortal

 


Sonja, caçada mortal foi a primeira história produzida pela dupla Bruce Jones (roteiro) e Frank Thorne (desenhos) para a guerreira ruiva. Publicada em Marvel Feature 2, essa história já trazia todos os elementos que fariam da personagem um sucesso, a começar pelo belíssimo traço. Thorne aproveitou o traje criado por Esteban Maroto e deixou a figura da heroína ainda mais imponente, com seus vastos cabelos vermelhos esvoaçando ao vento, como vemos na página de abertura, e olhos felinos.

Na história, a ruiva resolve roubar um saqueador. Para isso, ela coloca uma cobra sobre seu peito enquanto ele está dormindo, o que lhe permite se apropriar de todos os seus bens, incluindo uma chave de ouro pendurada em seu pescoço. Mas o salteador resolve caçá-la e a segue, espalhando um rastro de sangue por onde ela passa, até o final apoteótico, com a guerreira no deserto, morrendo de sede e encontrando apenas riachos envenenados.
Bruce Jones ainda acrescenta à história um rapaz perneta, com um enorme complexo de inferioridade em decorrência de sua deficiência, dando um ar humano para a trama.

O desenho, por outro lado, não era só bonito. A diagramação também era diferenciada, com a personagem vazando para outros quadros. Em uma sequência em que a ruiva luta contra pictos é emoldurada pelo rosto da guerreira, com seus cabelos separando os quadros.
Enfim, uma belíssima aventura que mostra bem porque a personagem se tornou tão popular.
Essa história foi publicada no Brasil em Heróis da TV 53.