domingo, junho 07, 2026

A noite do jogo

 


A noite do jogo conta a história de um casal apaixonado por jogos. Eles se conheceram em um jogo, o pedido de casamento foi feito durante um jogo – e o casamento foi um jogo. Mas um dia, quando o marido recebe o convite de seu irmão para participar de um jogo em sua casa, tudo sai errado. O que era para ser apenas um jogo encenado se transforma em um sequestro de verdade – ou não?
É essa dubiedade entre jogo e realidade que permeia A noite do Jogo.
A premissa poderia gerar um belo suspense policial – ou um filme que discutisse as fronteiras entre realidade e ficção no mundo atual.
Mas não era esse o objetivo dos produtores. Desde a primeira cena sabemos que se trata de uma comédia de erros e que todas as situações serão usadas para causar humor – como na cena em que o dono da casa está sendo de fato sequestrado e luta contra seus sequestradores e os demais se deliciam com um queijo e comentam o realismo da encenação.
A noite do jogo é um filme descompromissa cujo objetivo é arrancar risadas – e isso conseguem. Direção-roteiro e atuações formam uma perfeita engrenagem cômica.

DDA - Distúrbio de déficit de atenção

 

O livro Mentes Inquietas, de Ana Beatriz Silva (editora Gente) fala sobre uma doença chamada Distúrbio de Déficit de Atenção – DDA. Poucas vezes eu me vi tão bem retratado em um obra e, conversando com amigos, descobri que esse distúrbio é mais comum do que se imagina.  
A própria autora admite que o termo não é adequado, já que dá a entender que a pessoa jamais consegue se concentrar em algo. Na verdade, um DDA consegue, às vezes, concentrar-se em algo (como ler um livro) de tal forma que a casa pode cair que ele nem mesmo irá perceber. Na verdade, não seria uma falta de atenção, mas uma atenção instável: muita concentração em alguns momentos e nenhuma concentração em outros.
Para um DDA é um suplício concentrar-se em uma atividade obrigatória. A autora compara a situação a um carro desregulado, que gasta mais combustível e submete suas peças a um maior desgaste. Muitos DDAs descrevem, que, após atividades obrigatórias, sofrem um profundo cansaço mental e às vezes físico.
Um DDA  em uma palestra cujo tema não lhe é necessariamente interessante irá “viajar” em pensamentos próprios, desligando do tema da palestra. Ou então ficará se mexendo na cadeira ou mexendo em objetos, seu corpo refletindo sua vontade de sair dali correndo.
Os DDAs costumam ser impulsivos e atirar primeiro e pensar depois. A impulsividade, o fazer sem pensar, é uma das principais características desse distúrbio.
Um DDA está fazendo algo aqui e pensando em algo que deveria estar fazendo ali na frente. Isso às vezes até na leitura. Estou lendo aqui um livro de metodologia e estou pensando em um livro de Relações Públicas que preciso ler ou em um texto que preciso escrever, ou em um roteiro que me foi encomendado, ou em uma transparência que preciso preparar. Meu método de trabalho é o mais desorganizado possível. Estou lendo um livro, no meio dele encontro uma frase que me remete a algo que li em outro livro. Largo aquele primeiro livro de lado e pego o outro. No outro encontro outra frase que me remete a outra obra. Quando vejo, estou com cinco ou seis livros abertos na minha frente.
Um DDA está sempre se envolvendo em muitos projetos e nem sempre consegue terminá-los todos. Até porque, quando as coisas começam a dar errado, ele entra em desespero. Isso ocorre porque o cérebro tem dificuldade para acionar uma parte da memória chamada de funcional, cuja função é encontrar na mente situações semelhantes vividas no passado que possam ajudar no problema presente. Uma maneira de lidar com isso é o que os publicitários chamam de "deixar o problema dormir". Quando não consigo resolver um problema a ponto de entrar em desespero, deixo de lado a situação e vou fazer outra coisa. Aprendi isso com o monge Guilherme, do livro O Nome da Rosa. Quando a situação se tornava insolúvel, ele ia tirar uma soneca. Sherlock Holmes tocava violino. Após algum tempo a solução surge espontaneamente. 
Uma vez uma ex-aluna se espantou quando eu disse que estava lecionando metodologia científica: “Você não parece um professor de metodologia científica”. Mas é justamente isso: você procura conhecimentos que te ajudem a lidar com suas dificuldades. Trabalhar com metodologia é uma forma de me organizar melhor, de colocar em ordens os projetos... foi por essa mesma razão que comecei a me interessar pela teoria do caos...
Ainda assim não é fácil. Ao lado do meu computador, tenho um quadro de avisos. De um lado há o FAZER URGENTE, onde coloco as tarefas urgentes. Do outro o FAZER onde coloco as tarefas que necessitam ser feitas, mas não com urgência. Não fosse esse quadro, eu me perderia no meio de tantos projetos e tantas necessidades. Isso funciona para mim, pois, apesar da instabilidade de atenção, nunca perdi um prazo e felizmente nunca precisei tomar remédios.
Um DDA típico era o meu amigo Alan Noronha. Grande escritor, ele nunca conseguia terminar os trabalhos e cumprir os prazos. Há algum tempo recebi um e-mail dele dizendo que ele admira meu pragmatismo. Mal sabe ele que esse pragmatismo é conseguido às duras penas e graças a uma luta diária contra a instabilidade de atenção....
Para a autora, alguém um DDA leve não precisa necessariamente procurar tratamento médico, desde que isso não atrapalhe suas atividades: “O adulto ‘levemente’ DDA por certo não deve ter muitas reclamações a fazer. Ele é dotado de um alto nível de energia e entusiasmo. Sua ligeira desorganização não é suficiente para atrapalhar o andamento de seus projetos. No trabalho, pode-se dizer que, quando sob pressão e desafio, esta pessoa consegue sair-se melhor ainda

Conto Zen - O tigre e o morango

 


Certa vez um homem andava pela floresta quando foi perseguido por um tigre faminto. Sem outra opção, ele se agarrou a um arbusto e se pendurou num abismo na tentativa de escapar da fera. Quando olhou para baixo, percebeu que havia um outro tigre lá embaixo.

Ou seja: se a queda não o matasse, o felino o faria.

Mas o arbusto não era forte o bastante e a raiz começou a se desprender do solo. Além disso, dois ratos começam a roer a raíz.

A morte era certa.

Nisso, ele olhou para o lado e um viu morango crescendo na parede do penhasco. Largando uma das mãos, ele pegou o morango e comeu.

Foi o morango mais delicioso que ele já comera em toda a sua vida.   

Esse é uma das histórias mais famosas do zen-budismo. Ela reflete sobre assuntos essenciais: o homem pendurado no penhasco, à beira da morte representa todos nós, que em algum momento iremos morrer. Afinal, ninguém é imortal, a morte é inevitável.

Mas sua atitude é extremamente sábia. Ele percebe que a única forma de lidar com isso é viver o momento. Comer o morango representa isso, aproveitar o aqui e agora ao invés de nos preocuparmos com o passado ou o futuro. Isso é chamado no budismo de atenção plena.

Por outro lado, a certeza da morte, da transitoriedade da vida, faz com que cada momento seja especial. Talvez, se saboreasse a fruta em qualquer outra situação, o homem não se espantasse com seu sabor, mas ali, prestes a despencar no abismo, o sabor se torna inigualável. Como dizia Raul Seixas: “Morte morte morte que talvez seja o segredo dessa vida”.

Fundo do baú - Os herculóides

 


Os herculóides é uma série criada pelo desenhista Alex Toth para a Hanna-Barbera e exibida pela primeira vez nos EUA no ano de 1967 num total de 36 episódios. Cada episódio tinham duração de 9 minutos.
O seriado fazia parte de uma iniciativa da Hanna Barbera de investir em desenhos de aventura e ficção-científica e foram provavelmente o primeiro contato de muitas crianças com esses temas.
Os personagens eram o casal Zandor, Tara e o filho Dorno. A equipe ainda incluía alguns seres não humanos, como Zok, o dragão alado, Igoo, um gorila de pedra, Tundro, uma mistura de rinoceronte com um triceratops de dez patas e Gloop e Gleep, duas criaturas de um material elástico capazes de assumir todas as formas imagináveis.

Capitão América de John Byrne

 


No início da década de 1980, a Marvel resolveu trocar a equipe do título do Capitão América. Para desenhar chamaram uma estrela em ascensão na editora, John Byrne. Para escrever, colocaram o próprio editor do título Roger Stern, um estreante nos roteiros.
Essas histórias marcaram época e foram reunidas no volume sete da coleção Os heróis mais poderosos da Marvel.
A dupla começa desfazendo uma cagada de roteiristas anteriores, segundo os quais, na verdade o personagem era descendente de aristocratas, e não um garoto pobre de Nova York na época da recessão.
Um dos pontos altos dessa fase é o confronto com o Homem-Dragão. 


A primeira história é justamente o Capitão achando seu diário na Shield e descobrindo que a história da família aristocrata eram memórias falsas implantadas pelo governo norte-americano para proteger sua verdadeira identidade caso ele fosse aprisionado. Enquanto isso, Barão Strucker foge da prisão e invade a Shield com o objetivo de matar o sentinela da liberdade.
Posteriormente o Capitão enfrenta o Homem-dragão e Mecanus e depois impede que Mister Hyde destrua Nova York. Nesse meio tempo ainda encontra tempo para abdicar de ser candidato à presidência.
Roger Stern exagerava nos diálogos. 


John Byrne parecia à vontade desenhando o Capitão, um personagem criado pelo seu ídolo, Jack Kirby (eu me pergunto porque a Marvel não deu o personagem para o Byrne quando ele já estava famoso). Roger Stern, no entanto, nem sempre se saía bem. Ele exagerava no texto, muitas vezes deixando pouco espaço para os desenhos. Sua caracterização do personagem, no entanto, era perfeita: justo, honrado, democrata, um verdadeiro exemplo a ser seguido. Stern também introduz uma personagem nova, Bernie Rosenthal, uma das primeiras personagens dos quadrinhos declaradamente judias – e que viria a ser melhor desenvolvida por JM DeMatteis na fase seguinte.



O Capitão chega a concorrer à presidência. 

Mas a história realmente engrena quando começa a saga hoje conhecida como “Seu ódio se chama sangue”. Não por acaso, essas histórias são co-roteirizadas por John Byrne, que aqui ganha espaço para mostrar o ótimo narrador gráfico que iria se revelar.
Na trama, o Capitão viaja para a Inglaterra a pedido de Union Jack, um velho amigo dos tempos do grupo Os invasores. Ali estão acontecendo vários assassinatos e o velho herói acha que são obra de seu irmão, o vampiro nazista Barão Sangue. A história é cheia de ação e reviravoltas. E tem John Byrne em ótima forma. A capa que ele faz para o número 254 da revista, com o vampiro pulando sobre o Capitão enquanto o envelhecido Union Jack tenta se levantar da cadeira de rodas é simplesmente memorável e resumia muito bem todas as maiores qualidade da série.
A história do Barão Sangue é o melhor dessa fase. 


Infelizmente, Roger Stern brigou com o chefão da Marvel, Jim Shooter, e saiu da série. A razão é que Stern queria desenvolver tramas mais complexas para o Capitão e Shotter queria que as sagas não se alongassem muito. E, Byrne se concentrou nos X-men, que o tornariam a grande estrela do mercado americano.  
Entretanto, essa série é até hoje apontada como um dos melhores momentos do personagem.

Quarteto Fantástico: O Plano Mestre do Doutor Destino

 


Uma das características marcantes da fase clássica do Quarteto Fantástico é que as histórias quase sempre começavam com um "ato zero": uma sequência sem relação direta com a trama principal que, desconfio, servia mais para Jack Kirby desenhar o que bem entendesse. Um exemplo perfeito disso está na edição número 23 da série.

A história abre com nada menos que um dinossauro invadindo a sede do Quarteto — ou, pelo menos, uma "versão kirbyana" de um dinossauro. Isso gera uma sequência de ação frenética, incluindo uma splash page impressionante com o animal em primeiro plano enquanto os heróis tentam dominá-lo. Após o Tocha Humana e o Coisa quase destruírem o edifício, Reed Richards consegue paralisar a criatura com a ajuda de Sue Storm.

Na tentativa de prender o dinossauro, o Coisa e o Tocha quase destroem o apartamento. 


O incidente, porém, gera uma discussão acalorada sobre o autoritarismo do líder do grupo. O que se segue é uma longa e hilária sequência em que o Tocha, o Coisa e a Mulher Invisível tentam eleger um novo líder: como a votação termina em empate, a decisão é levada para uma disputa física generalizada.

Tudo isso serve apenas como introdução para a trama verdadeira: o Doutor Destino liberta três criminosos da cadeia com o objetivo de transformá-los em vilões capazes de enfrentar o Quarteto. Para isso, ele amplia suas habilidades naturais: um ganha superforça, outro recebe uma audição superdesenvolvida e o terceiro, resistência extrema ao fogo.

A discussão sobre quem será o novo líder quase destrói o apartamento... de novo. 


No desfecho, quem salva o dia é Sue Storm e seus campos de força — provavelmente um esforço consciente de Stan Lee para dar mais relevância e protagonismo à personagem na época.

Alguns detalhes chamam a atenção na obra: a "liberdade criativa" de Lee com fatos científicos (como colocar uma onda solar dentro de uma sala) e a facilidade com que os autores descartavam vilões e conceitos naquela era.

Jack Kirby arranjou uma desculpa para desenhar um carro futurista. 


Um aspecto negativo é  arte-final de George Bell, que parece jogada e sem detalhes, muitas vezes comprometendo o traço de Kirby.

sábado, junho 06, 2026

Piracy - a revista que inspirou Watchmen

 


Piracy foi uma revista publicada pela editora EC em meados da década de 1950. Efêmera, durou apenas sete números, mas marcou época e influenciou Alan Moore a escrever Contos do Cargueiro Negro, o gibi que o garoto lê na banca de revista em Watchmen. No universo de Watchmen, as revistas em quadrinhos não sofreram perseguição na década de 1950 e a revista de Piratas da EC foi um sucesso, levando a DC a lançar uma publicação concorrente.
Piracy contava com alguns dos melhores desenhistas da época. 


A lista de desenhistas que colaborou com a Piracy é impressionante: Wally Wood, Bernard Krigstein, George Evans, Jack Davis. Curiosamente, Joe Orlando, que é mostrado nos anexos de Watchmen como uma das grandes estrelas da Piracy e primeiro desenhista da Contos do Cargueiro Negro, não participou da publicação real.
Se os desenhos eram simplesmente os melhores, os roteiros não decepcionam. O time de roteiristas incluía o escritor Ray Bradbury, Harlan Ellison, Al Feldstein Gardner Fox e Harvey Kurtzman.
As histórias eram caracterizadas pela reviravolta final. 


Embora o gênero fosse outro, todas as histórias tinham a virada final que caracterizou as HQs de terror da EC, geralmente na forma de uma ironia do destino. Exemplo disso é o pirata que consegue roubar uma fortuna, mas não consegue vender o tesouro para ninguém. Ou o bucaneiro sanguinário que se torna um frouxo quando encontra com a ex-sogra.
Essas revistas foram republicadas em 1988 pelo próprio William Gaines (o dono da EC), provavelmente aproveitando o sucesso de Watchmen.
Das sete revistas eu consegui seis, presente inestimável do amigo Antonio Eder.

Surge o Quarteto Fantástico!

 


O lançamento do primeiro número do Quarteto Fanstástico, em novembro de 1961, mudou para sempre o mercado de quadrinhos norte-americanos. De uma editora decadente, que se resumia a Stan Lee e uma secretária, a Marvel (que na época não se chamava Marvel), começou uma caminhada que a transformaria na grande estrela do mercado, superando a gigante DC ainda na década de 60.

A leitura desse primeiro gibi (disponível no número dois da Coleção Clássicos Marvel), permite observar alguns segredos desse sucesso, a começar pela impressionante capa de Jack Kirby com o quarteto envolvido numa luta contra um monstro que surge das profundezas. A capa inteira é um exemplo perfeito de composição em que tudo funciona harmonicamente, com os elementos muito bem distribuídos, incluindo os balões de diálogos. “Eu não consigo ficar invisível rápido o bastante! Como vamos deter essa criatura, Tocha?”, pergunta Sue, enquanto seu irmão responde: “Espere e verá, irmã! O Quarteto Fantástico só começou a lutar!”.

Os autores criam mistério para instigar a imaginação do leitor. 


Aqui temos várias inovações. Entre elas, o sentido de família, que iria ser a principal característica do título em todo esse tempo. Ao contrários de outros grupos de heróis, que se encontram aleatoriamente, os quatro vivem juntos, são uma família e enfrentam todos os problemas relacionados a isso, o que era uma tremenda novidade na época. Dá para imaginar a sensação que essa capa causou entre os garotos do início da década de 60.

O miolo também não deixa por menos. Os personagens são apresentados de forma a instigar a curiosidade do leitor. Reed atira um sinalizador, chamando o restante da família para o edifício Baxter, mas não vemos seu rosto. Então acompanhamos cada membro do quarteto vendo o sinal e respondendo ao chamado. Eles são apresentados de forma a instigar ainda mais o leitor, muitas vezes com toque de humor. Sue, por exemplo, fica invisível para pegar um taxi invisível, deixando o taxista aturdido.

A demonstração dos poderes dos personagens é bem-humorada


Só quando atendem o chamado é que a narrativa paralisa e nos é contada a origem do grupo. E aqui mais uma inovação: a história é dividida em capítulos, sempre iniciados com uma imagem de impacto (posteriormente Jack Kirby usaria splash pages).

A razão pela qual foram chamados: monstros estão surgindo das profundezas e destruindo usinas nucleares, um enredo que remetia diretamente aos gibis de monstros da Atlas na década de 50, versões suaves dos quadrinhos de terror.

Então, o Quarteto não só era uma família, era também um título que unia super-heróis, terror e ficção científica!

Os monstros gigantes eram uma tradição nas histórias da Marvel. 


O vilão, o Toupeira, é apresentado como alguém rejeitado pela sociedade em razão de sua feiúra, que indo para o centro da terra se torna cego. Já ali observamos algo que caracterizaria os vilões da Marvel: nenhum deles era mal por ser. Todos eles tinham uma motivação, uma razão para suas ações.

Tirando um outro deslize (à certa altura o Sr. Fantástico tira de ação, jogado no mar, um monstro que tem asas!), é uma edição deliciosa de ler e totalmente inovadora.

O internato – Las cumbres

 

A série espanhola O internato – Las cumbres, disponibilizada no Brasial pela Amazon vídeo, é uma grata surpresa. O que parecia uma simples série juvenil sobre adolescentes presos em um internato linha dura vivendo os dramas da adolescência se revela uma trama complexa, amedrontadora e cheia de camadas.

A história se passa num internato isolado no alto de uma montanha, na Espanha. O local é repleto de lendas e histórias sobre bruxos. A trama é focada em quatro estudantes que resolvem escapar do local. No processo, três são recapturados, mas um desaparece na floresta, levado por um homem vestido de preto com uma máscara que lembra o bico de um corvo.

Sua namorada e seu melhor amigo tentam, a partir daí, descobrir o que aconteceu com ele. No processo, descobrem que o local onde foi construído o internato era o ponto de culto de um grupo satanista. Ao mesmo tempo, um dos professores descobre que os estudantes estão sendo usados como cobaias no uso de um medicamento. Os dois fatos estão relacionados ou é apenas uma coincidência?

Soma-se aí as relações entre os próprios estudantes, que incluem traições, vinganças, amores e sexo (sim, há muitas cenas quentes).

O ritmo é rápido, com as várias tramas se entrelançado e fatos se sucedendo rapidamente, o que torna a narrativa viciante como nos melhores seriados.

Por sua estrutura, com estudantes lutando contra uma ameaça satânica, O internato lembra Harry Potter, embora seja uma versão muito mais adulta e se aproximar muito mais do horror.

Tropa Alfa – A noite da besta

 


A história mais grandiosa da Tropa Alfa é o confronto com as bestas, seres malignos ancestrais. Essa trama inicia no número 23 da revista. Esse número, aliás, tem uma das melhores capas do título, com Sasquatch enfrentando uma versão de si mesmo, mas totalmente branca. É o tipo de capa que estimula a imaginação do leitor e o faz perguntar: o que está acontecendo aqui?

Na história, durante um confronto com um homem vestindo uma armadura, Sasquatch é ferido. Esse vilão com armadura é o que eu chamo de personagem bucha de canhão. Ele não tem motivação, história de vida, nada, é apenas alguém que vai provocar um ferimento no Sasquatch e desencadear a trama.

Um vilão bucha de canhão: sua única função é provocar o ferimento e, Sasquatch.


Com o ferimento, o personagem é tomado por uma fúria incontrolável, é quando se descobre a verdade a respeito de sua origem. Ao tentar duplicar sob condições controladas o acidente que criou o Hulk, Walter Langkowski na verdade libertou um antigo demônio chamado Tanaraq, permitindo que o cientista o convocasse e controlasse. Assim, Sasquatch era nada mais nada menos que uma fera de outra dimensão sob controle. Mas quando o personagem é ferido, a besta toma o poder do corpo, como acontece nesse número.

A edição inclui uma batalha mortal entre a Tropa Alfa e essa versão maligna de Sasquatch e inclui uma sequência magistral em que Pássaro da Neve se transforma em um Sasquatch branco para combater a besta – daí a imagem de impacto da capa.

O herói é dominado pela besta e se torna uma ameaça. 


No final, Pássaro da Neve vence, mas a um grande custo: matando o amigo.

Entretanto, seu espírito ainda vive e pode ser resgatado em um local assustador chamado O reino das bestas.

Pássaro da Neve se transforma em uma versão branca do Sasquatch.


No número 24, em uma edição com o dobro de páginas, os personagens viajam para outra dimensão, em uma trama realmente impressionante.

Um detalhe dessa história é que aqui Aurora aparece vestindo seu uniforme definitivo: um maiô amarelo e branco com um cachocol azul. Apesar do visual bonito, o cachecol é provavelmente o acessório mais idiota que uma super-heróina poderia usar, pois facilmente poderia se transformar em uma arma contra ela mesma. Bastaria alguém agarrar e puxar para estrangular... e a adeus Aurora!

E de espaço, de Ray Bradbury

 


Há algo de irônico em Ray Bradbury: embora seja um dos mais famosos escritores de ficção científica de todos os tempos, sua obra não é uma ode ao futuro e ao desenvolvimento da tecnologia. Ao contrário, seus livros ecoam diretamente o saudosismo de uma época mais simples.

E de espaço, antologia publicada no Brasil pela editora Hemos em 1978 é um exemplo disso.

O livro reúne 16 contos de Bradbury e demonstram bem o seu estilo de poético tanto nos temas quanto na narrativa.

As histórias vão do condutor de bonde que faz uma última viagem com os meninos antes de seu veículo ser substituído pelos ônibus até o homem que leva sua família para Marte fugindo da guerra nuclear na Terra (tema alias, presente em mais de um conto).

Mas talvez um dos melhores exemplos do estilo do autor seja “Pilar de fogo”.

A história se passa num futuro longíncuo em que as pessoas mortas não são mais enterradas, mas cremadas. E todos os cemitérios são esvaziados e os corpos queimados numa medida de higienização. O protagonista é o último cadáver ainda intacto, que se levanta e passa a andar entre os humanos.

A poesia já aparece nos primeiros parágrafos: “Ele andava sobre a terra, tinha saído da terra. Mas estava morto. Não podia respirar. Era impossível. Andava sobre a terra, tinha saído da terra. Mas estava morto. (...) Queria ter lágrimas, mas não podia fazê-las vir, tampouco. Tudo o que sabia é que estava de pé, estava morto, e não deveria estar andando!”.

Nesse mundo antisséptico, tudo que pudesse assustar ou incomodar  as pessoas havia sido eliminado. Livro de escritores como Edgar Alan Poe e Lovecraft tinham sido queimados.  

Mais do que uma história de zumbi, Bradbury usa o tema para tratar de temas que lhe são caros: o medo de uma sociedade anti-séptica, em que tudo capaz de incomodar deveria ser eliminado e sua visão de que isso seria uma distopia.

O mesmo tema aparece em “Fuga do tempo”, em que um professor leva seus alunos, através de uma máquina do tempo, para observar os costumes bárbaros do passado: “O Dia das Bruxas, o ápice do horror. Esta foi a era da superstição. Mais tarde baniram os irmãos Grimm, fantasmas, esqueletos, e toda essa baboseira. Vocês, crianças, graças a Deus, foram criadas em um mundo anti-séptico, sem sombras e sem fantasmas”.

“O Pedestre” é provavelmente o o conto mais importante da antologia, por ser a história que deu origem ao mais famoso livro de Bradbury, Fahreit 451. Na história, um homem é o último a caminhar pela cidade. Todos os outros passam o dia andando em carros e as noites em casa, assistindo televisão: “Pentrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de novembro, pousar os pés naquela sólida calçada de concreto, pisar nas fendas cheias de mato, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer”.

No final, Mead é abordado por um carro de polícia e preso por seu comportamento anti-social. Resumido nesse conto está toda a filosofia por trás da distopia do autor: um mundo anti-séptico, em que pessoas são hipnotizadas pela tela de TV e comportamentos considerados anti-sociais, como caminhar pelas ruas da cidade é considerado um crime.

Mas, além de um poeta da prosa e um filósofo, Bradbury era tamém um autor que sabia criar boas tramas.

“A mulher gritando” é um exemplo disso.

Na história uma garotinha ouve uma mulher gritando num terreno baldio e imagina que tenha sido enterrada ali. Corre para avisar o pai e mãe, mas estes não acreditam nela e acham que se trata apenas de uma brincadeira. “Está bem”, diz o pai. “Vamos desenterra a mulher depois do almoço” e segue-se uma narrativa extremamente tensa, em que o pai e mãe falam de futulidades enquanto a menina sente que a cada minuto pode ser a diferença entre a vida e a morte da mulher enterrada.

O conto é um primor não só pela trama bem bolada (com um gancho jogado no meio de uma conversa fútil que será fundamental no fecho da história), mas também pela abordagem. Bradbury escreve o conto como se fosse uma redação escrita pela própria menina: “Meu nome é Margaret Leary e tenho dez anos de idade, e estou no quinto ano da escola pública. Não tenho irmãos nem irmãs, mas tenho um bom pai e mãe, só que eles não me dão muita atenção. E de qualquer maneira, nunca pensamos que teríamos algo a ver com a mulher assassinada”.

Filósofo, poeta, criador de narrativas bem elaboradas e inteligentes, Bradbury é daquelas leituras essenciais para qualquer apreciador de ficção científica, como demonstra o livro E de espaço.

A arte incrível de Geraldo Borges

 


Nascido em Fortaleza, Geraldo Borges trabalha com quadrinhos desde 1997, quando desenhou a Revista Capitão Rapadura. Representado pelo Chiaroscuro Studios, maior agência brasileira de artistas para o mercado americano, tem feito trabalhos para a Marvel (Nova), DC Comics (Liga da Justiça, Mulher-Maravilha, Batman, Lanterna Verde, Legião dos Super-heróis, Asa Noturna, Superman, Aquaman), Dark Horse (Ghost) e Dynamite (Pathfinder).
Atualmente é  desenhista regular da série Angel Season 11, adaptação da série de TV criada por Joss Whedon, publicada pela Dark Horse. Além disso, é professor da Universidade Potiguar nos cursos de Design Gráfico e Jogos Digitais.