terça-feira, janeiro 25, 2022

Livro Hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos

 

Vivemos em um mundo hiper-real, em que ficção e fato se misturam. É um mundo de simulacros, de símbolos que existem por si só, sem nenhum referencial. Na arte esse fenômeno se refletiu na forma de obras que confudem real e ficcional. É a verossimilhança hiper-real: obras tão críveis que muitas pessoas acreditam que são reais. 
No livro Hiper-realidade e simulacro nos quadrinhos - a fantástica história de Francisco Iwerten, eu analiso esse fenômeno a partir de um fato específico: o quadrinista fake Francisco Iwerten e seu personagem, o herói Capitão Gralha. Durante 18 anos acreditou-se que Iwerten existia e ele chegou até mesmo a ganhar prêmios. 
Quer conhecer melhor essa história e entender o que é o mundo hiper-real? 
O livro está sendo disponibilizado de graça no site da Marca de Fantasia.  Para baixar, clique aqui

Ágora: a filosofa e a intolerância religiosa

 

Ágora é um filme de 2009, Alejandro Amenábar, sobre a filósofa Hipátia, uma das mentes mais brilhantes de sua época e que acabou morrendo nas mãos dos cristãos depois de ter sido torturada e humilhada por eles.          
A película permite uma reflexão sobre vários assuntos e torna-se, desde já, grande candidato a ser exibido em aulas de história e filosofia, à semelhança de O nome da Rosa. 
Além das questões filosóficas levantadas no filme (curioso ver os filósofos discutindo o sistema de Ptolomeu em que os planetas tinham uma órbita em torno da terra e uma outra órbita em torno de si mesmos), há as questões teológicas e históricas.
Os cristãos daquela época eram o equivalente hoje dos fanáticos islâmicos. A destruição da Biblioteca de Alexandria pelos cristãos foi um crime contra humanidade equivalente ou até maior que a destruição do World Trade Center. Em termos culturais, maior, pois muito do conhecimento acumulado à época se perdeu. Na cena, Amenábar simplesmente inverte a câmera para mostrar que o mundo virou de cabeça para baixo.
O mais triste é perceber que as lições de Ágora ainda não foram aprendidas. Vivemos em um mundo em que cada vez mais a irracionalidade e a intolerância parecem se tornar soberanas, um mundo em que o fanatismo religioso se alastra e chega ao poder. 
Em tempo: a pessoa que me apresentou esse filme (inclusive me mandando uma cópia) hoje em dia diz que o mesmo é marxismo cultural e que Hipátia era comunista. Se a filósofa voltasse nos dias atuais, provavelmente seria uma das pessoas que a matariam. 

X-MEN: revolução nos filhos do átomo

 

Embora já começassem a chamar a atenção desde o início da nova fase, os X-men só se tornaram um sucesso estrondoso a partir da saga de Protheus.
Protheus era um mutante extremamente poderoso, capaz de manipular a realidade. Mas tinha um defeito: para viver, precisava possuir corpos de pessoas, que não sobreviviam muito tempo. Essa necessidade constante de corpos criaria uma verdadeira carnificina por onde ele passava.  
A trama mostrava que a série era revolucionária e estava anos luz à frente da maioria dos quadrinhos publicados na época.
Para começar, havia a violência. Protheus era um vilão de verdade, que matava pessoas friamente e representava um perigo real para a humanidade. A relação dele com o pai, de amor e ódio, mostrava um aspecto psicológico avançado para os gibis de super-heróis. Até mesmo seu poder de alterar a realidade, era algo novo nos quadrinhos.
Diante de um inimigo tão perigoso, só restou uma opção aos X-men: matá-lo usando contra ele sua única fraqueza: o metal.
Na década de 1970, super-heróis não matavam, sob circunstância nenhuma, mas a revista dos X-men estava mudando padrões.
A saga seguinte cairia como uma bomba nos gibis de super-heróis e seria a grande responsável pela popularidade do título nos anos seguintes.
Os autores resolveram trazer a Fênix de novo, mas como lidar com uma personagem que tinha poderes muito maiores do que os dos outros membros? Simples: transformando-a em uma vilã!
A Saga da Fênix mostrava a personagem tendo flashbacks do que parecia ser uma encarnação passada dela, em que ela participava do Clube do Inferno, sendo esposa de um dos seus líderes, Jason Wyngarde. Na verdade, tratava-se de uma trama de um antigo inimigo dos X-men, o Mestre Mental, que pretendia dominar a heroína para usar seus poderes em interesse próprio.
A revista começou a chamar a atenção dos chefões de Marvel e a equipe acabou sofrendo duas interferências editoriais.  A primeira delas é que a Mansão X deveria justificar o nome de Escola para Jovens Superdotados do Professor Xavier e, portanto, deveria ter pelo menos um aluno. A segunda é que a revista deveria ser usada como trampolim para o lançamento de uma personagem baseada na dance music, Cristal.
Claremont e Byrne fizeram Xavier voltar à equipe e pedir para seus pupilos contatarem duas novas mutantes. Uma delas era Cristal, a outra era uma jovem chamada Kitty Pryde que tinha poderes de atravessar a matéria.
Kitty Pride acabou sendo um achado, pois providenciou uma identificação com o público jovem. Além disso, ela foi a primeira heroína declaradamente judia dos quadrinhos.
Em busca das duas novas mutantes, os X-men acabam tendo de enfrentar o Clube do Inferno e uma nova vilã, a Rainha Branca. Essa personagem fez grande sucesso com os leitores. Era loira, linda, e só usava roupas fetichistas.
Os heróis conseguem derrotar os oponentes e decidem entrar na sede do Clube do Inferno para descobrir porque estavam sendo caçados. Ao entrarem na sede do clube, acabam sendo derrotados depois que o Mestre Mental toma o controle da Fênix, que passa a se chamar Rainha Negra.
Um único mutante sobrevive: Wolverine, e a ele resta a missão de libertar os companheiros. As sequências em que ele anda pelos esgotos, derrotando os inimigos é seu ponto máximo. A partir dali, ele se tornaria o herói mais popular dos X-men e um dos mais populares dos gibis de super-heróis.
Wolverine consegue libertar os amigos e Fênix, liberada do domínio do Mestre Mental, vinga-se do Clube do Inferno. Mas a saga estava apenas chegando ao seu ápice. Na sequência, Jean Grey perde o controle e transforma-se na Fênix Negra.
A nova criatura derrotou facilmente os X-men e foi para o espaço alimentar-se. Sua fome de poder era tão grande que ela sugaria a energia de uma estrela. Byrne achou que devorar uma estrela não teria tanto impacto se nas proximidades não tivesse um planeta habitado. Assim, ele retratou um planeta seres inteligentes sendo destruído no processo.
A idéia dos autores para a continuação dessa trama era simples: Fênix voltava para a Terra, derrotava os X-men, mas o Professor Xavier, com a ajuda do lado bom de Jean, acabaria afastando a Fênix Negra e reduzindo os poderes da heroína aos níveis de quando ela se chamava Garota Marvel. Em seguida, a imperatriz Lilandra, do Império Shiar, aparecia e levava os X-men para a Lua, onde eles deveriam combater a Guarda Imperial. Com a vitória da Guarda, Jean passaria por um processo no qual perderia todos os seus poderes e sairia do grupo. Com isso, o problema dos super-poderes da Fênix (que dificultava a elaboração dos roteiros) seria definitivamente resolvido.
Acontece que nesse período a edição que mostrava a Fênix destruindo um planeta habitado caiu nas mãos do editor-chefe da Marvel, Jim Shooter e esse ficou horrorizado. Para ele, não havia a opção final feliz. A personagem tinha que sofrer. Ele exigiu que a personagem fosse enclausurada num asteróide, onde seria torturada por toda a eternidade. Claremont e Byrne, ao ouvir essa exigência, disseram: Por que não a matamos de uma vez? E foi isso que fizeram. A edição, que já estava pronta, foi retrabalhada para que a Fênix acabasse se suicidando para evitar se transformar novamente na Fênix Negra.
A morte da personagem causou uma comoção sem tamanho entre os fãs. Nunca tinha acontecido de uma personagem importante, em plena ascensão, morrer nos gibis de super-heróis. A edição com a morte esgotou rapidamente e, a partir daí o título começaria seu caminho para se tornar o mais vendido do mercado.

Esquadrão Atari – Primórdios


Publicado no início dos anos 1980, Esquadrão Atari mostrou a sintonia perfeita entre o roteirista Gerry Conway e o desenhista José Luís Garcia-Lopez naquela que seria uma história mais celebradas da década.

O primeiro número é um exemplo perfeito de construção narrativa.

A história inicia com uma sequência impressionante de ação protagonizada pelos mercenários Dart e Blackjack. Os dois mercenários tinham ido cobrar o general Ki os serviços prestados e, ao descobrirem que não irão receber, transformam o bar no Planeta das Rocas numa praça de guerra. A página dupla, com os dois em luta corporal enquanto, em primeiro plano, uma mão aponta para eles uma arma futurista, é impressionante. Garcia-Lopez dá um show com sua narrativa visual inovadora e seus personagens que constantemente saem para fora do quadro.

A história inicia com uma sequência impressionante. 


Logo depois, o general Ki foge se encontra com um ser misterioso, que o recrimina por ter deixado Dart escapar e o joga num rio de ácido. Em seguida, pega uma pedra preciosa e mostra para seu ajudante: “Veja, Karg, um dos pequenos tesouros do planeta das rocas. Belíssimo, não? Mas como tudo que é belo... também é frágil! (e destrói a pedra com as próprias mãos) eu quero a jovem dar! Custe o que custar, ela e sua família devem ser destruídas!”.

A história pula para o planeta ovóide, onde dois malandros aprisionam um dos habitantes locais, um bebê de uma raça que se transforma em montanhas ao envelhecer.

Quem é o vilão misterioso? 


Novo pulo, agora para a Nova terra, onde o jovem tormenta está sendo testado num labirinto enquanto é perseguido por um robô. Outra sequência impressionante: a narrativa pula de uma página para outra e volta, desafiando o leitor a acompanhar o jovem enquanto ele se teleporta para a parte traseira do robô.

Novo corte, agora para Lua Alfa, onde Paco Rato comete mais um de seus roubos e, no final, decide ir para Nova Terra.

A primeira aparição de Tormenta é um exemplo perfeito de narrativa visual. 


O impressionante na história, além da narrativa visual de Garcia-Lopez, é a forma como os ganchos são introduzidos na história, assim como os personagens. Nessas poucas páginas sabemos tudo que precisamos saber sobre os heróis da história e mistérios são apresentados (quem é o misterioso vilão?). Tudo isso em meio à ação desenfreada. O que artistas menos competentes levariam várias edições para mostrar, Garcia-Lopez e Gerry Conway fazem em meras 23 páginas. Uma verdadeira aula de quadrinhos.

segunda-feira, janeiro 24, 2022

Caligari: a história de uma adaptação

 



    O sucesso do filme Caligari fez com que ele fosse adaptado mais de uma vez para outras mídias. A obra já foi citada diversas vezes em gibis e ganhou uma adaptação em quadrinhos em 1992, pela editora Monster Comics, numa minissérie em três partes assinada por Ian Carney e Michael Hoffman. Em 1999, os roteiristas Randy e Jean-Marc Lofficer e o ilustrador Ted Mckeever juntaram elementos de Batman, Super-homem, Metrópolis e Caligari no especial Nosferatu. Quando Tim Burton lançou o segundo filme do Batman, em 1992, o visual do Pinguim era inspirado em Caligari, visual que depois foi aproveitado no desenhado animado dirigido por Bruce Tim.
    Curiosamente, embora os quadrinhos de terror sempre tenham feito muito sucesso no Brasil, em nosso país nunca o filme de Wiene havia sido adaptado para a nona arte.
    A idéia para isso surgiu em 1998. Nessa época estava sendo lançada a graphic novel Manticore, em duas partes, com roteiro meu, pela editora Monalisa. O sucesso de crítica (a revista ganhou o HQ Mix, o Angelo Agostini de melhor roteirista e o prêmio da Associação Brasileira de Arte Fantástica) fez crer que a revista teria uma continuidade. A idéia, então, era transformar a Manticore numa revista mix de terror e ficção-científica nos moldes da extinta Kripta. Uma das ideias era fazer histórias sobre mitos urbanos, como O bebê diabo e sobre clássicos de terror, como Caligari.
Uma série de decisões editoriais equivocadas fez com que a revista, apesar do sucesso, não tivesse continuidade, mas algumas dessas histórias seriam de fato produzidas. As duas citadas acima foram lançadas em 2008 pela editora HQM no especial Quadrinhofilia, que reúne trabalhos de José Aguiar.
O processo de adaptação começou com uma análise do filme. Eu e o desenhista assistimos ao Gabinete do Dr. Caligari juntos, fazendo anotações. A ideia era captar as principais características da história, afinal, o segredo de uma adaptação não é ser totalmente fiel à trama, mas ser fiel ao espírito da ideia original. Assim, a deformação dos cenários e a maquiagem exagerada foram os elementos mais facilmente percebidos. Como havia uma limitação de seis páginas, a história precisava ser condensada, mas ainda assim fazer sentido e ser fiel.
Uma das questões discutidas foi com relação ao uso de diálogos e legendas. Como o filme é mudo, o caminho mais fácil seria fazer uma HQ muda. Mas cinema e quadrinhos são mídias completamente diferentes e fazer isso seria um erro. Mesmo em seus primórdios, as HQs não eram mudas, pois não havia limitação técnica ao uso da linguagem falada. Assim, decidiu-se que se teria diálogos e legendas (representando a fala de Alan, em off).
    O passo seguinte, após a estruturação de um argumento-sinopse, foi a elaboração de um roteiro.  O roteiro das duas primeiras páginas é apresentado abaixo, para dar uma ideia dessa fase da adaptação:

Página 1
Q1 – Plano detalhe de folhas secas caídas no chão.
Velho (off): Os espíritos... eles estão em todos os lugares...
Q2 – Plano médio. Francis e o velho estão sentados, lado a lado, conversando.
Velho: Nos amedrontam... eles me afastaram de minha mulher e meus filhos.
Q3 – Os dois estão conversando, mas agora Francis olha para o lado, para Jane, que aparece vestida de branca, quase como um espírito.
Velho: Foi assim que aconteceu, meu rapaz...
Q4 – Jane passa pelos dois, sem notá-los. Quadro mudo. 
Q5 – Quadro horizontal. Créditos. Francis e o velho em primeiro plano, vistos de costas, enquanto Jane afasta-se, em último plano.
Velho: Conhece a jovem?
Francis: Aquela é minha noiva, Jane.
Q6 – Alan e o velho conversando, em plano médio.
Francis: A pobre jamais se recuperou do que nos aconteceu...
Q7 – Agora um plano fechado dos dois, conversando. Francis, agora em segundo plano, sendo observado, com olhar perdido, pelo velho.
Francis: Também tenho uma história...
Q8 – plano fechado de Francis, em gesto amplo, expressionista.
Francis: ... ainda mais extraordinária do que a sua...
Q9 – Close de Francis. Destaque para seu olhar melancólico, ampliado pela “maquiagem pesada”.
Francis: Tudo começou com a chegada da feira de variedades à nossa cidade.


Página 2 Nesta página teremos um quadro grande, o 4, ocupando boa parte da página, num tom expressionista.
Q1 – Quadro geral da feira, com Caligari aproximando-se do leitor.
Texto: E com a feira
Q2 – A continuação da mesma cena, mas agora Caligari já está mais próximo de nós.
Texto: veio
Q3 – Agora o quadro é tomado por Caligari.
Texto: O doutor Caligari.
Q4 – Chegamos ao quadro de impacto da página. Caligari espera o escrivão. Como combinamos, a mesa do escrivão é extraordinariamente alta e distorcida, simbolizando, como no filme, o monstro da burocracia. Caligari é visto como pequenino diante desse monstro.
Texto: Antes de instalar sua feira, o doutor foi pedir permissão ao escrivão. Ele foi duramente humilhado. Teve que esperar por horas para ser atendido.

O exemplo serve para demonstrar como foi o processo de adaptação nessa fase de estruturação do roteiro. Bom lembrar que tal roteiro foi construído a partir das conversas entre desenhista e escritor, e reflete essa conversa. Posto isso, passemos a analisar o texto. 
A fala de Francis, quebrada, nos três primeiros quadros da página 2, revela influência do quadrinho britânico do final dos anos 1980, em especial de autores como Neil Gaiman (Orquídea Negra) e Alan Moore (Monstro do Pântano).
A narrativa, em off, é intencionalmente coerente e racional, como forma de evitar que o leitor perceba que se trata de um conto de um louco, o que já é evidenciado pelo desenho, sendo uma pista de como a trama irá terminar. Assim, o roteiro procurou preservar o final surpresa.
Se o texto parece uma narrativa fantástica contada por um homem racional, o desenho distorce essa narrativa, demonstrando o real estado das coisas.
A segunda página, já descrita no roteiro acima, apresenta o quadro de impacto de Caligari pequeno, numa perspectiva distorcida, diante da enormidade da burocracia.

A página 3 é dominada pela figura esguia de Cesare. A magreza e altura atípica do personagem orientam a leitura, que ganha foco no rosto fantasmagórico do sonâmbulo. Os personagens normais são eclipsados por essa figura distorcida.

A página 4 é centralizada pela figura de Jane, como se os fatos refletissem dela. Ao fitar a página, o leitor tem seu olhar magnetizado pelo olhar assustado de Jane e sua figura, em sépia azul. A tendência do olhar é correr na direção do último quadro, em que Cesare agarra Jane, sequestrando-a.
Esse caos da diagramação reflete o caos interno dos personagens, suas angústias e inquietações, no que poderia ser considerado um equivalente quadrinístico da técnica expressionista.


Avançando, na página 6 temos a prisão de Caligari. Ele se contorce e grita, lutando com os médicos. Vista em oposição à página seguinte, vemos que ela se reflete no quadro 4 da página 7. Ali é o narrador que é preso e repete a mesma posição de Caligari, como se fossem duas faces da mesma moeda: num lado a racionalidade, no outro a loucura. Como o lado racional é na verdade uma narrativa distorcida, uma falsa racionalidade, esse contraste cria uma inquietação no leitor que nos lembra o conceito de obra aberta, de Umberto Eco, que pretende renovar nossa percepção e nosso modo de compreender as coisas.

    Na página 7 há um diálogo, não existente no filme, que pretende destacar exatamente a crítica ideológica do filme, pensada originalmente pelos roteiristas (Janowitz e Carl Mayer). Alan pula sobre Caligari e grita: “Tolos! Não percebem? Ele planeja nosso destino!”.
A fala é uma referência direta à interpretação de Kracauer, segundo o qual Caligari antecipa Hitler e o nazismo. Assim, se por um lado respeitamos a moldura introduzida por Fritz Lang, por outro destacamos a crítica social e política imaginada pelos roteiristas.

A arte estupenda de Mike Deodato Jr.

 


Mike Deodato Jr é um dos mais importantes artistas brasileiros a trabalharem para o mercado de quadrinhos norte-americano. Ele começou sua carreira na década de 1980, publicando entre outros trabalhos a história de ficção-científica 3000 anos depois em parceria com seu pai, o também quadrinista Deodato Borges. Pouco tempo depois começou a trabalhar em editoras do mercado franco-belga.

Foi um dos primeiros artistas da invasão brasileira nos comics americanos, no início dos anos 1990. Seus primeiros trabalhos foram adaptações de seriados televisivos para editoras menores, mas logo ele chegaria às grandes.

Em 1994 ele iniciou sua consagrada fase na Mulher Maravilha, com roteiros de  William Messner-Loebs. Sua versão abrasileirada da personagem o tornou uma verdadeira sensação entre os fãs, transformando-o em um dos desenhistas mais requisitados do mercado.

Outra fase célebre é sua passagem pelo personagem Hulk, com roteiros de Bruce Jones.

Atualmente Deodato desenha uma série autoral, Berserker, com roteiros de Jeff Lemire, publicada pela Dark Horse.














Kull, o conquistador

 

O rei Kull, criação de Robert E. Howard, o mesmo de Conan é um daqueles exemplos de um nome que parece bom no país de origem, mas tem um péssimo significado em outros locais. As piadas com ele, na década de 1980, eram inúmeras, a mais óbvia delas: “Esse rei é um kull!”.
O personagem, no entanto, tinha ótimas história e uma equipe de estrelas. Os roteiro eram de Gerry Conway (o roteirista que Roy Thomas queria originalmente para Conan) e os desenhos dos irmãos John e Mary Severin. John tinha sido um dos melhores desenhistas da EC Comics e seu traço é muito conhecido aqui pelas histórias publicadas na revista Kripta. O trabalho dos irmãos não era tão detalhado nas histórias de Kull (até porque as HQs iam receber cor), mas mesmo assim impressionavam pela qualidade. Já Conway conseguia definir bem o personagem, diferenciando-o de Conan em histórias repletas de intrigas palacianas, monstros e magia (incrível como havia monstros naquela época!).
Um bom exemplo do entrosamento desse trio é a história “Um reino em alto-mar”, publicada no quinto número da revista Kull The Conqueror e no número 23 de Superaventuras Marvel.
A arte dos irmãos Severin era um dos destaques do título. 


Na história, um embaixador de uma ilha distante procura Kull para pedir ajuda numa guerra com os vizinhos de outra ilha. Ao chegar ao local, os valusianos descobrem que ali havia apenas uma ilha que, dividida, deu origem a dois povos inimigos. Por tras disso, claro, há tramas e subtramas e muita traição.
Conway consegue desenvolver bem a HQ, contando uma história longa, repleta de informações, em poucas páginas.   

Contos Zen - A moça da beira do rio

 


Dois monges, um mais velho e outro jovem estavam andando pela floresta quando encontraram uma moça aflita. Ela pretendia atravessar um rio, mas não queria se molhar. O monge mais jovem a pegou nos braços, atravessou com ela e a colocou na outra margem do rio. depois voltou para o caminho.

Passado algum tempo, o monge mais velho começou:

- Você não deveria ter feito isso. Você é um monge e monges não devem tocar em mulheres.

O monge jovem continuava caminhando, em silêncio.

Passado algum tempo, o mais velho voltou à carga:

- O que você fez foi muito errado. Você não deveria ter pegado a moça em seu colo.

O monge jovem continuou andando, em silêncio.

Passado alguns minutos, o mais velho voltou ao assunto:

- Olha, você sabe que é monge e não deveria ter pegado a moça em seu colo...

Foi quando o mais jovem cortou-o:

- Eu deixei a moça na margem do rio. Você está carregando ela até agora?

Essa famosa história zen diz muito sobre um dos maiores problemas das pessoas – e frequente fonte de sofrimento: constantemente estamos carregando coisas conosco. Quase nunca estamos no presente. Estamos carregando frustações, acontecimentos passados, experiências decepcionantes. Muitas vezes, como no caso acima, não é sequer algo que aconteceu conosco. Algumas pessoas não conseguem nem mesmo dormir, rememorando algo que já aconteceu, que já passou, mas que continuam carregando em suas mentes.

A meditação zazen ajuda exatamente nisso, em focar no momento presente, no aqui agora, colaborando para nos libertar dos sofrimentos do passado e da ansiedade pelo futuro.

domingo, janeiro 23, 2022

Bastardos inglórios

 


Bastardos Inglórios é um filme de Quentim Tarantino, de 2009. Tarantino parece ter chegado à maturidade narrativa num filme que junta o que tem de melhor em toda a cinematografia e ainda acrescenta um fundo histórico interessante. Para quem não sabe, a história é sobre um grupo de soldados judeus-americanos (os bastardos do título), que entra na França ocupada pelos alemães com o objetivo de matar o máximo de nazistas possível. Em uma trama paralela, temos uma garota judia cuja família foi morta, que agora tem uma identidade francesa e administra um cinema que acaba sendo escolhido para o lançamento de um filme alemão ao qual irá comparecer toda a elite nazista. As duas tramas paralelas, claro, irão se juntar no final, quando a garota, por um lado, e os bastardos por outro, irão tentar matar os oficiais.

Tarantino faz flash back em cima de flash back, mas a sequência mais memorável do filme é a primeira, em que uma calma conversa de um fazendeiro francês com um oficial nazista termina em um banho de sangue. Nessa cena, duas coisas se destaca: a ótima direção de Tarantino (quando a câmera começa a se movimentar em círculo ao redor dos dois homens, sabemos que algo vai acontecer) e o talento do ator Christoph Waltz, que faz o Coronel da SS Hans Landa. O charme desse personagem é um dos atrativos do filme. Onde Hans Landa aparece, ele rouba a cena.

Já nos créditos percebemos que o filme é uma farsa, quando começa a tocar a música de Ennio Morricone, famoso pelos filmes de faroeste de Sérgio Leone. Muitos cineastas trabalharam muito bem com a trilha sonora, mas Tarantino a transformou em elemento narrativo.

Entre as várias cenas memoráveis está aquela em que Brad Pitt, com forte sotaque americano, tenta convencer Landa de que é um italiano. O cinema todo gargalhou.

MAD 13 – Rephorma hortográfica

 




Na MAD 13 eu estava em minha terceira participação na antológica revista de humor da qual eu era fã desde criança. Na época estava entrando em vigor a reforma ortográfica e o editor Raphael Fernandes teve a ideia fazer piada com isso. Para isso, colocamos o professor Pasquale (devidamente renomeado como Pasquase) explicando a rephorma hortográfica. Uma das mudanças se daria no trânsito, onde os palavrões agora seriam politicamente corretos. FDP, por exemplo, passaria a ser “Faça o dispor de passar”. Os desenhos ficaram a cargo de Juarez Ricci. 

O demônio da mão de vidro

 

O demônio da mão de vidro foi um dos episódios mais emblemáticos do seriado The Outer Limits, conhecido no Brasil como Quinta dimensão. Escrito por Harlan Ellison, ele nele, um homem do futuro volta à década de 1960. Desmemoriado, ele descobre que sua mão de vidro é na verdade um computador, mas faltam três dedos. Ao mesmo tempo, ele está sendo perseguido por extraterrestres que invadiram a terra no futuro. Esse enredo influenciou tanto O Exterminador do futuro que James Cameron foi obrigado a colocar o nome de Harlan Ellison nos créditos. A adaptação para quadrinhos foi publicada no Brasil na série Graphic Globo, n. 2. A adaptação fez algum sucesso, mas passou despercebida principalmente em decorrência do desenho de Marshall Rogers ser comportado na comparação com outras graphics que eram publicadas na época. Ainda assim, é uma ótima leitura.

Fundo do baú - Tarzan, o desenho animado

 


Tarzan é um dos personagens mais populares do século XX e teve diversas versões para quadrinhos, cinema e televisão. Mas poucas foram tão fieis à obra original de Edgar Rice Burroughs quanto o desenho animado Tarzan, o rei das selvas, de 1976. Criado pela Filmation, o desenho usava em algumas cena a técnica da rotoscopia, em que o desenho é realizado em cima de filmagens com atores, o que dava um incrível realismo às sequências. Nessa versão do Tarzan ele é acompanhado pelo macaco Nikima, como nos livros, ao contrário da versão cinematográfica, em que foi criada a macaca Chita.
O estúdio aproveitou bem o fato da animação não necessitar de cenários para colocar na histórias reinos perdidos, o que dava à série um ar de fantasia.
Todos que assistiram esse desenho se lembram da cena de abertura com Tarzan se movimentando em rotoscopia e o texto: "A selva... eu nasci aqui. E aqui meus pais morreram quando eu era pequeno. Eu teria perecido logo se não tivesse sido encontrado por uma bondosa macaca chamada Kala, que me criou como seu filho e me ensinou a viver na selva. Eu aprendia rápido e me fortalecia a cada dia. Agora, compartilho da amizade e a confiança de todos os animais da selva. A selva é cheia de belezas... e perigos e cidades perdidas cheias bondade e maldade. Este é o meu domínio e eu protejo aqueles que aqui veem, pois eu sou Tarzan, o Rei das Selvas!".
No total, foram 36 episódios, em 4 temporadas. O desenho vem sendo exibido pelo SBT desde a década de 1980 e atualmente passa nas manhãs de sábado. 

Dez dicas para roteiristas de quadrinhos

 


1 - Não leia só quadrinhos. Um bom roteirista de quadrinhos lê de tudo: livros, revistas, jornais etc.
2 - Não leia só quadrinho americano ou japonês. Argentina, Inglaterra, França, Itália e Brasil são países que produzem ótimas HQs, que você deve conhecer.
3 - Sempre pesquise. Se sua história é sobre um advogado, pesquise livros jurídicos, pesquise sobre como funciona a justiça. Se for sobre o Egito, procure livros de história. 
4 - Não tente contar a história do universo. Comece com histórias curtas.
5 - Faça com que seu roteiro seja agradável para o desenhista. Se for necessário contar uma piada para que a leitura do roteiro seja mais agradável, conte.
6 - Imagine a cena visualmente antes de escrevê-la. Se houver mais de uma ação, divida em mais de um quadrinho.
7 - Produza. Seu texto só vai melhorar se você produzir continuamente.
8 - Use como referência grandes roteiristas, mas aos poucos busque estabelecer um estilo próprio.
9 - Não seja um colonizado. Esqueça Nova York. Faça histórias sobre sua realidade. Se o leitor viver a mesma realidade que você, a identificação será mais fácil.
10 - Seja objetivo. Não encha os balões de texto desnecessário. Nunca diga com o texto algo que o desenho já está dizendo.

Van Gogh - Quarto em Arles

 


Apesar de toda a beleza e explosão de cores, a pintura que Van Gogh fez do quarto de pensão onde morou no fim da sua vida, em Arles, reflete o estado de espírito conturbado do grande pintor. Os objetos parecem não ter uma relação entre si, a janela está entreaberta, os quadros parecem cair sobre a cama. A obra é, portanto, um bom exemplo de como Van Gogh abriria caminho para o surgimento da arte expressionista. Essa versão do quadro, de 1889, um ano antes da morte do autor, está atualmente no Museu D´Orsay, na França, em uma das salas mais concorridas do local.

Os mini posteres da Abril


 

Em 1985 a editora Abril encartou nas suas revistas da DC e da Marvel uma série de mini posteres com alguns dos personagens publicados pela editora na sua linha de super-heróis. Com um fundo prateado, esses mini posteres se tornaram item de colecionador. 

Algumas curiosidades: 

- Há dois posteres com desenhos de Garcia-Lopez, um do Super-homem e outro da Liga da Justiça. Há dois posteres com desenhos de Mike Zeck, do Capitão América e do Mestre do Kung Fu, o que demostra que Zeck e Garcia-Lopez eram os desenhistas mais populares da época. 

- Aparecem nos posteres pesos pesados da Marvel, como Homem-aranha e Hulk. Mas um personagem hoje pouco conhecido, o Mestre do Kung Fu também teve direito a um posteres apenas dele. Reflexo do sucesso do personagem na época e do bom trabalho da Abril com personagens secundários da Marvel. 









sábado, janeiro 22, 2022

Jack, o estripador

  



            Na segunda metade do século XIX, o bairro de Witechapel era um dos locais mais miseráveis de Londres.

            O príncipe de Gales, certa vez explorara a área acompanhado de amigos. De alameda em alameda, entrou em um quarto sem mobília, onde achou uma mulher deitada sobre farrapos com três crianças nuas, que de tanto frio e fome, não pronunciavam uma única palavra. Quatro dias depois, o príncipe fez um pronunciamento na Câmera dos Pares insistindo para que o governo fizesse algo para melhorar as condições de vida da população. Mas a rígida moralidade vitoriana não permitia uma ajuda real aos necessitados. O reverendo Samuel Barnett, vigário da Igreja de Cristo, argumentava que a caridade indiscriminada era uma das pragas de Londres. Para ele, os pobres passavam fome por causa das esmolas que recebiam.

            E assim, o local deteriorava-se cada vez mais. As pessoas dormiam nas escadas e até nas latas de lixo para fugir do frio. Estima-se que mais das metades das crianças nascidas na área pobre de Londres morria antes de atingir cinco anos de idade.

            A promiscuidade era grande e relatos da época falavam de meninos e meninas de 12 anos fazendo sexo em becos.

            Nesse ambiente de miséria absoluta, a prostituição era um das poucas formas de ganhar a vida. A nobreza, no entanto, preferia ignorar isso e acreditar que as jovens se tornavam prostitutas porque se deixavam atrair por abastados sedutores.

            Foi nessa região miserável de Londres que Jack, o estripador, faria suas vítimas.

            A primeira delas foi Mary Ann Nichols, conhecida como Polly.

            Na noite de 31 de agosto de 1888, ela chegou à pousada Thrawl Street, n. 18, mas o gerente não a deixou entrar, pois ela não tinha os quatro pence para pagar a dormida:

            Ela era baixa, com pouco mais de um metro e meio de altura, cabelos castanhos compridos, quase grisalhos.        Por anos, Polly fora casada com William Nicholls, operador de impressora, com quem tivera cinco filhos. A solidão, porém fizera com que ela começasse a beber e o casamento se rompeu em 1881, com o marido acusando-a de abandonar o lar.      

            Sem pensão, Polly deixou os filhos com seus pais e foi trabalhar como empregada doméstica. Um dia ela roubou três libras dos patrões e desapareceu nas ruas de Londres.

            Pouco depois de ser recusada na pensão, Polly encontrou com outra prostituta, Emily Holland. Polly estava mais bêbada que nunca e, apoiando-se em uma parede, comentou que três vezes naquele dia tivera dinheiro para o pernoite, mas gastara tudo em bebida.

            Foi a última vez em que foi vista.    

            Na madrugada daquela noite, o porteiro George Cross ia para o trabalho quando encontrou o que parecia um encerado jogado no meio da rua. Quando se aproximou, descobriu que era, na verdade, uma mulher.

            Nisso viu aproximar-se um colega de trabalho e chamou-o:

            - Ei, companheiro, venha ajudar aqui. Esta mulher está desmaiada ou bêbada.

            Ao aproximar-se, o homem percebeu que a suposta bêbada estava na verdade morta e os dois desapareceram do local.

            Instantes depois, o guarda John Neil encontrou o corpo de Polly. Ela tinha sinais de estrangulamento, lesões na garganta, abdômen e face.

            Em 8 de setembro daquele ano foi a vez de Annie Chapman.

            Dias antes, Annie brigara com outra prostituta, Liza Copper, por causa de um pedaço de sabão. Liza insultou-a e Annie deu-lhe uma tapa no rosto.

             

            Liza não se amedrontou e bateu em Annie até deixá-la no chão.

            Quando a amiga Amélia Farmer a encontrou no dia seguinte, ela estava com um hematoma no olho e o peito muito machucado. Ela sentia convulsões e dor. O único alimento que ela ingerira naquele dia fora uma xícara de chá.            

            Na noite do assassinato, ela tentara entrar em uma pensão, mas fora barrada por falta de dinheiro.

            No dia seguinte John Davis, idoso morador da hospedaria Hambury Street, levantou-se da cama pouco antes da seis horas e abriu a porta. Deu de cara com o corpo de uma mulher. Ele saiu correndo, chamando alguns trabalhadores que passavam por ali, mas ninguém teve coragem de entrar.

            Um policial ouviu a balbúrdia e, aproximando-se, encontrou a mulher deitada de costas no chão. As mãos estavam esticadas à frente e as palmas estavam abertas para cima. O casaco e a saia estendiam-se por sobre as meias compridas e ensangüentadas.

            O assassino estava aperfeiçoando seu modus operandi e deixando mais clara sua assinatura: a mulher fora eviscerada e seu útero retirado. Ao lado do corpo, vários objetos pessoais foram arrumados como que num ritual. Os anéis da vítima haviam sido arrancados dos dedos e colocados aos pés da vítima, juntamente com algumas moedas.

            A paranóia tomou conta da região e muitos voltaram suas atenções para os judeus. Esse sentimento anti-semita foi aumentado pela prisão de John Pizzer, um judeu polonês de trinta e três anos, que trabalhava em Whitechapel como sapateiro. As provas alegadas por William Thicke, o policial que o prendeu, foram cinco facas afiadas, de cabos longos, objetos absolutamente comuns na casa de um sapateiro.

            Pizer, no entanto, tinha um álibi: estivera em casa, em sua cama, dormindo, durante os assassinatos.

            Mas a prisão teve reflexos terríveis sobre a população judia do bairro. Havia um sentimento geral de que apenas estrangeiros ou pessoas estranhas poderiam cometer tais crimes.  Vários judeus foram agredidos nas ruas.

            Um volante distribuído nas ruas anunciava:

            "Eles agora pegaram o Avental de Couro,

            Que é o culpado, todos concordam;

            Ele vai ter que enfrentar o destino de todo assassino,

            Terá que ser enforcado numa árvore"

            Ao ficar provada a inocência do sapateiro, a população voltou seus olhos para outro judeu de nome Jacobs, que trabalhava no matadouro de Adgate High Street. Depois de interrogado pela polícia, foi apontado como o assassino. Na rua, foi apedrejado e teve que se refugiar na delegacia mais próxima. Acabou louco e teve de ser internado em um asilo.

            Os moradores do local onde morrera Annie montaram um negócio lucrativo. Eles cobravam de curiosos que quisessem ver o pátio onde ocorrera o crime.

            As teorias surgidas na época dão uma visão da forma como a polícia estava perdida. Um fotógrafo propôs que se fotografasse os olhos das vítimas, pois, segundo ele, a retina teria guardado a imagem do assassino. O método foi tentado, sem sucesso.

            Nisso a imprensa começou a receber cartas do suposto assassino. A mais famosa dela era assinada por Jack, o estripador. A carta dizia que ele não iria parar de matar prostitutas até ser pego e prometia enviar uma orelha da próxima vítima para a polícia.

            A próxima vítima seria Elizabeth Stride. Ela dizia que o marido havia morrido no desastre do Princesa Alice, junto com os nove filhos do casal. Ela só escapara porque subira numa corda da qual viu o caçula morrer nos braços do marido. A história verdadeira é que o marido trabalhava como carpinteiro de construção de navios. Ele tinha o dobro de sua idade e eles nunca tiveram filhos.

            A ultima pessoa a ver Liz com vida foi o policial William Smith, às 12:30 do domingo, dia 30 de setembro. Ela estava conversando com um homem jovem, bem barbeado e de aspecto respeitável, que usava sobretudo escuro e chapéu de feltro justo de copa baixa. Sob o braço, o homem trazia um embrulho de jornal de cerca de 20 centímetros.   

            Elizabeth Stride foi encontrada numa viela. Sua garganta tinha sido cortada, mas o corpo não mostrava outras mutilações. Possivelmente o assassino tinha sido interrompido enquanto estripava sua vítima, o que o levou a procurar uma outra vítima: Catherine Eddowes. Segundo o policial que a encontrou, ela tinha sido cortada “como um porco no mercado”. O assassino removera seu rim e sua orelha mostrava sinais de que houvera uma tentativa de arrancá-las.

            No muro, ao lado do cadáver, estava escrito: “Os judeus não serão acusados por nada”.  

            Na mesma manhã, a Agência de Notícias Central recebeu uma carta do suposto assassino: “Não estava blefando, chefe, quando dei-lhe a pista. Você ouvirá sobre o trabalho de Jack amanhã. Um evento duplo desta vez. A número um gritou um pouco. não pude acabar imediatamente. Não tive tempo de pegar as orelhas para a polícia”.

            Uma outra carta, enviada ao chefe do Comitê de Vigilância de Witechapel trazia um pedaço de rim e era endereçada “Do inferno”: “Senhor, enviei metade do rim que tirei de uma mulher preservando-o para você, o outro pedaço cozinhei e comi”.

            Em 9 de novembro Jack cometeu o que seu último assassinato. A vítima era Mary Kelly, uma ex-prostituta. O assassinato acontecera dentro de seu quarto alugado e tudo leva a crer que Jack teve muito tempo para trabalhar.

Mary foi assassinada com um corte profundo na garganta, que quase a decapitou. Seu nariz e orelha foram esfolados. O braço esquerdo foi quase cortado no ombro e as pernas foram esfoladas. Ela foi estripada e sua mão inserida no espaço da barriga. O fígado foi retirado e colocado sobre a coxa. Seus seios foram retirados e deixados sobre o criado mudo junto com o nariz, rins e coração. Tiras de carne foram dependuradas em pregos nas paredes. Ela estava grávida de três meses. O feto e seu útero foram levados pelo assassino.

            A polícia nunca conseguiu descobrir quem era Jack, embora tenham surgido diversas teorias ao longo dos anos, que incluem desde o príncipe Albert até William Gull, o médico da rainha.

            Alguns autores acreditam que Jack matou muito mais do que cinco mulheres. Entre as vítimas não-oficiais estariam Alice Mckenzie, morta em 17 de julho de 1889 e Frances Cole, morta em 13 de fevereiro de 1891.

            Jack, o estripador foi o primeiro assassino serial a se tornar famoso e a ganhar grande cobertura da imprensa – foi também o primeiro a utilizar a mídia como forma de aumentar sua popularidade, se acreditarmos que as cartas sejam verdadeiras.