sexta-feira, agosto 21, 2026

Hulk – Seu execrável coração

 

A série The Imortal Hulk revolucionou completamente o personagem, fazendo com que ele voltasse ao clima de terror que tinha lá nas primeiras histórias de Stan Lee e Jack Kirby.

E, definitivamente, o ponto de virada da série foi o número 8.

Na edição anterior, o golias esmeralda tinha sido derrotado pelos Vingadores.

O Hulk é desmembrado e suas partes estudadas por cientistas. 


O número 8 começa na Base Sombra, com cientistas cortando os órgãos do Hulk. A capa, de Alex Ross, já mostrava uma prateleira repleta de vasilhas de vidro contendo os mais diversos órgãos, com destaque para o rosto do golias esmeralda, a face paralisada num grito interrompido.

Aqui a habilidade de Joe Benett para introduzir detalhes bizarros ajuda muito a história. O mesmo ocorre com o ótimo uso das expressões faciais na sequência em que o cientista conversa com os restos mortais do Hulk e a expressão do monstro vai aos poucos mudando até se transformar num sorriso.

O bom uso das expressões faciais são um dos destaques da história. 


“Você deixou a gente fazer isso. Queria que te testássemos. Porque, se nós soubermos do que você é capaz... você também sabe.”, diz o cientista, aterrorizado.

A sequência em que as partes do Hulk se recompõe, duas páginas duplas arrasadoras, são exemplo impressionante da habilidade de Bennett para o terror. A influência do cineasta David Cronenberg, que já era perceptível antes, aqui se torna gritante.

A sequência em que o personagem volta a se recompor lembra a bizarrice dos filmes de Cronenberg.

Batman – O corsário

 


Na era das grandes navegações, havia os piratas, que atacavam navios de qualquer bandeira – e os corsários, que atuavam com consentimento da coroa de seu país e só atacavam navios inimigos. Chuck Dixon e Enrique Alcatena imaginaram o que aconteceria se Batman fosse um corsário a serviço da marinha inglesa, cujo navio, Raposa Voadora, atacava apenas navios espanhóis.

Esse é um daqueles casos em que a excelência do desenhista se destaca na obra e faz, inclusive, o roteirista se esmerar na qualidade do texto, como já podemos ver logo na primeira página, que mostra dois navios em combate no traço extremamente detalhado do argentino. O texto diz: “Onde quer que piratas se reúnam, onde quer que cãe do mar cantem, eles hão de uivar a canção da Raposa Voadora e do homem chamado Asas de Couro. Foi sob o manto das trevas, no reinado do bom Rei James, que suas vela negras tremularam enquanto canhões ecoavam por toda a extensão do domínio espanhol”.

O traço de Alcatena impressiona pelo detalhismo. 


A parte seguinte, uma página dupla de Batman e seus corsários invadindo o navio inimigo, é ainda mais impressionante pelo detalhismo e traço sujo.

Dixon introduz um Coringa na história, um pirata que tem como objetivo descobrir o esconderijo do Asa de couro e roubar-lhe os tesouros. E, de novo, temos uma cena impressionante com a sua primeira aparição: o rosto transtornado num sorriso demoníaco de dentes irregulares, argolas nas orelhas e no nariz e o cabelo verde tomando todo o quadro.

A primeira aparição do Coringa é impressionante. 


Completam o grupo de personagens uma versão da Mulher-gato, também ela uma pirata, e Robin, um pequeno ladrão das docas que sonha fazer parte da tripulação do Rapousa Voadora. A história é divertida e encaixa bem os elementos, mas a grande atração ali, sem dúvida é o desenho. 

O traço de Alcatena se encaixa tão bem no tema piratas que, enquanto lia, imaginava o tempo todo que ele seria o desenhista ideal para uma revista do contos do cargueiro negro, caso alguém resolvesse lançar um Spin-off.

Ana Terra

 


Ana Terra é uma das personagens mais fortes e interessantes da literatura brasileira. Embora venha sendo publicado como livro solo, o texto dedicado a ela faz parte do primeiro livro da trilogia O tempo e o vento, de Érico Veríssimo.

Veríssimo queria contar a saga do Rio Grande do sul e para isso produziu uma obra monumental tanto em termos de trama quanto de qualidade literária, ao misturar dramas pessoais com acontecimentos históricos.

O capítulo dedicado à Ana Terra tem uma das melhores aberturas da literatura brasileira:

“ ’Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando’ – costumava dizer Ana Terra. Mas entre todos os dias ventosos de sua vida, um havia que lhe ficara para sempre na memória, pois o que sucedera nele tivera força de mudar-lhe a sorte por completo”.

O que acontece naquele dia chuvoso é que, ao levar a roupa para lavar na sanga, ela encontra um homem com traços indígenas, semi-morto. O trecho, que ocupa dois capítulos inteiros, entremeia os fatos do presente com pensamentos e recordações da personagem em verdadeiros flash backs. Ana se lembra de como ela e o restante da família tinham ido de Sorocaba, em São Paulo, para uma região deserta do Rio Grande de São Pedro, de quando o Major Pinto Bandeira, um herói da luta contra os espanhóis tinha almoçado em sua casa etc.

Pedro, o mestiço que ela encontra desacordado na sanga é o protagonista do capítulo anterior do livro, que contara a história dos sete povos das missões, um agrupamento de indígenas arregimentado pelos padres jesuítas. A mãe fora violentada por um bandeirante e morrera no parto, sendo ele criado por padres.

Temos aqui uma das genialidades de Veríssimo ao arquitetar sua trama. Um dos padres mais próximos de Pedro havia entrado para a ordem após tentar matar um homem. Arrependido de seu pecado, ele entra para a ordem jesuíta, mas guarda o punhal que seria usado no crime como uma forma de lembrança de sua fraqueza.

Pedro vai herdar esse punhal, que passará de mão em mão até chegar a um dos meninos de O casarão, capítulo mais distante cronologicamente e que aparece no livro de forma fragmentada, entre os vários outros capítulos. O punhal torna-se assim, um Leitimotiv, o motivo condutor dos homens da saga.

Pedro é resgatado e curado pela família Terra e, apesar da desconfiança inicial, vai conquistando a confiança, especialmente graças ao seu modo servil e prestativo. Tudo muda, no entanto, quando Ana engravida – e esse é o trecho mais chocante da obra, tanto pela violência física quanto pela violência psicólogica e rejeição sofrida por Ana e seu filho.

O capítulo-livro termina com outra mostra da genialidade de Érico Veríssimo:

“Era por isso que muito mais tarde, sendo já mulher feita, Bibiana ouvia a avó dizer quando ventava: Noite de vento, noite dos mortos”.

Essa mesma frase é recordada por Bibiana, neta de Ana, em um dos capítulos de O casarão. Com isso o escritor não só providenciou um leitimotiv para as mulheres da família Terra-Cambará, como ainda costurou a trama, fazendo com que todos os capítulos fossem interligados.

Fuja

 


A primeira cena do filme Fuja, de Aneesh Chaganty (disponibilizado pela Netflix), é emblemática. Em uma reunião de pais que educam seus fihos em casa, uma mulher choraminga sobre o filho que irá para a faculdade e talvez não se lembre de escovar os dentes. A apreensão é compartilhada por outros país presente, algo simbolizado pela caixa de lenços de papeis que circula de mesa em mesa até chegar em  Diane Sherman, que num gesto extremamente simbólico, recusa o lenço: “Minha filha enfrentou mais desafios psicológicos e físicos do que a maioria das pessoas em sua vida. Cloe é a pessoa mais capaz que conheço. Se tem alguém que não me preocupa é ela”.

A trama acompanha sua filha, Cloe, que nasceu prematura e, em consequência disso, desenvolveu diversos problemas de saúde. Ela não consegue andar e só se locomove numa cadeira de rodas. Além disso, tem asma, diabetes, arritimia e diversas outras doenças. Assim, ela vive totalmente dependente de sua mãe amorosa, que parece dedicar a vida a cuidar dela.

Mas uma descoberta feita por Cloe coloca sua vida em risco e para sobreviver ela precisará usar toda a sua inventividade e força de vontade.   

A película é um dos melhores exemplos de cinema de suspense dos últimos tempo e consegue isso focando principalmente na atuação impressionante de Kiera Allen, que é cadeirante na vida real.

As situações pela qual a garota passa são agoniantes tanto pela própria dificuldade de locomoção quanto pela expectativa de que o inimigo poderá chegar a qualquer momento. Não por acaso, Chaganty privilegia os closes, tirando o máximo da atuação da menina. A cena em que ela, presa em seu próprio quarto, se arrasta pelo telhado para chegar a outro cômodo é o ponto alto do filme tanto pelo suspense quanto pela inventividade e força de vontade apresentados pla personagem.

Além disso, roteiro e direção são afinados a ponto de serem necessários diálogos expositivos: a maioria das grandes revelações do filme são feitas exclusivamente através do que Cloe vê.

Fuja é um daqueles filmes em que o suspense vai num crescendo até atingir o seu ápice e tem um dos melhores finais que já vi nesse tipo de obra. Um final que, da mesma forma que todo o filme, surpreende por não ser o que parece.

Fundo do baú - TV Pirata

 



TV Pirata, a série de humor revolucionária da Rede Globo, surgiu de uma atração da concorrente Bandeirantes. No ano de 1987 a Band apresentou o programa de fim de ano Wandergleyson show, escrito pelos integrantes do jornal Planeta Diário e da revista Casseta Popular. As duas publicações vinham revolucionando o humor com seu texto totalmente anárquico e desprovido de amarras. O programa era protagonizado por Pedro Cardoso e Luiz Fernando Guimarães e apresentava esquetes fechados, algo incomum numa época de personagens recorrentes. Boni, o chefão da Globo, assistiu ao especial e contratou imediatamente a trupe de roteiristas.

Para dirigir foi chamado Guel Arraes, que já vinha mostrando grande inventividade na série Armação Ilimitada. O elenco era composto por atores e atrizes na sua maioria novatos na comédia televisiva, como Luiz Fernando Guimarães, Marco Nanini, Ney Latorraca, Guilherme Karan, Cláudia Raia e Débora Bloch.

Com forte inspiração no grupo inglês Monthy Piton, a TV Pirata quebrava com todos os paradigmas do humor televisivo brasileiro (até então baseado na tradição radiofônica) e satirizava tudo, em especial as atrações da própria Rede Globo, como as novelas. A abertura, com um telejornal sendo invadido por um grupo de piratas que colocava sua fita no ar representava perfeitamente esse tipo de humor non-sense.

Era possível, por exemplo, os personagens estarem dirigindo um carro e saírem do mesmo em movimento, mostrando os bastidores da gravação em cromaqui e do veículo cenográfico. Em dos esquetes, soldados na guerra do Vietnã pedem uma pizza enquanto estão sob fogo cruzado.

Alguns quadros beiravam o absurdo, como o Piada em debate, em que “especialistas” discutiam aspectos sociológicos de anedotas. Até mesmo programas como Globo Rural eram satirizados (virou Campo Rural).

Embora o foco da atração não fossem os personagens fixos, pelo menos um ganhou a simpatia do público e se tornou uma verdadeira sensação nacional: o velho Barbosa, interpretado por Ney Latorraca e seu famoso bordão “Barboooosa”, que as pessoas adoravam imitar. O personagem surgiu em Fogo no rabo, sátira da novela Roda de Fogo.

Outro que se tornou famoso foi o Zeca Bordoada, apresentador da TV Macho, versão satírica do TV Mulher.

TV Pirata renovou o humor televisivo e abriu caminho para outros programas, como o Casseta e Planeta Urgente.

Thor: Gigantes Caminham sobre a Terra

 


Na fase clássica da Marvel, Jack Kirby e Stan Lee eram tão prolíficos que personagens que posteriormente se tornariam essenciais para a editora apareciam apenas como "vilões do mês", sendo obliterados logo em seguida. É o caso da edição #104 da revista Journey into Mystery.

A edição já chama a atenção pela capa grandiosa de Kirby, com o herói em primeiro plano e os adversários ao fundo, emoldurados pelas chamadas marketeiras de Stan Lee: “O herói mais dramático de todos os tempos! O orgulho da Marvel!” ou: “Nada que você tenha visto antes pode se equiparar ao espetáculo de tirar o fôlego de 'Gigantes Caminham Sobre a Terra'!”. Nas chamadas da época, tudo era grandioso; todas as histórias eram, obrigatoriamente, as melhores e mais impactantes de todos os tempos.

Odin pede conselhos a Loki. Não parece muito sábio. 


Na trama, Odin está preocupado com Thor, que o desafiou ao se apaixonar pela enfermeira Jane Foster: “A única emoção que não consigo controlar é... o amor! Não posso retirar o que ele sente pela mulher mortal em seu coração! Porém, não posso permitir que ele me desafie!”.

Odin, então, toma a decisão mais questionável possível: pede conselhos a Loki. Isso mostra que o "Pai de Todos" pode ser poderoso, mas nem sempre é o mais astuto. Loki sugere que Odin vá à Terra, o que o torna o governante temporário de Asgard — situação que ele aproveita para libertar dois gigantes: Skagg, o senhor das tempestades, e Surtur, o demônio do fogo, que estava aprisionado no centro da Terra.

Loki liberta dois gigantes. 


Embora Kirby ainda não estivesse no auge técnico com o Deus do Trovão, ele já garantia sequências de ação eletrizantes. No entanto, o desfecho acaba sendo apressado demais para a magnitude do que foi anunciado. Posteriormente, a série introduziria arcos encadeados para permitir um melhor desenvolvimento, mas, naquela fase, a Marvel ainda se prendia ao formato de histórias fechadas.

quinta-feira, agosto 20, 2026

Casamento no Quarteto Fantástico

 


Em 1965 o Quarteto Fantástico era a revista mais popular do mercado de quadrinhos americano. Uma das grandes diferenças do título é que eles eram uma família.
Stan Lee e Jack Kirby resolveram marcar isso casando Sue e Red na terceira edição anual do título. Isso em si era uma ideia revolucionária. Na rival DC nada nunca mudava. Clark Kent namorava Lois Lane há anos e nunca nem se mesmo ficavam noivos. Mesmo nos quadrinhos de forma geral essas mudanças era rara. O Príncipe Valente havia sido um dos poucos heróis de quadrinhos a contrair matrimônio.
O casamento dos heróis foi um dos momentos mais marcantes da história da Marvel.


Um casamento poderia ser um tema monótono nas mãos de quaiquer outros criadores, mas a dupla Lee e Kirby transforma o tema em uma aventura eletrizante, um crossover de vários heróis e vilões.
A grandiosidade da história já era expressa na capa, um amontoado de personagens.  Na história, o Dr Destino cria uma máquina que influencia vilões a atacarem o casamento. O ritmo é alucinante: quando uma ameaça é debelada, surge outra. Lee ainda exagerava no texto e Kirby tornava as sequência grandiosas.
 Uma aventura que marcou época.
Um único porém: a arte final de Vince Colletta, que simplificava em muito o traço de Kirby, muitas vezes até mesmo apagando os cenários.
No Brasil essa história foi publicada pela última vez no volume 4 da coleção de clássicos Marvel Salvat.

Na toca dos leões: a história da mais criativa agência de publicidade do Brasil

 


A W/Brasil é a mais famosa agência de publicidade do Brasil, ganhadora de mais de mil prêmios, nacionais e internacionais. Seu principal acionista, Washington Olivetto, mudou a cara não só da propaganda brasileira, mas até mesmo a própria visão do público a respeito dos publicitários, tornando-se um pop star reconhecido nas ruas e que dá nome a pratos em restaurantes chiques. É a história dessa agência e desse publicitário que Fernando Morais conta em Na toca dos leões (Planeta).
A história começa com jeito de lenda, embora muitos, em especial o protagonista, jurem que é verdade.
No dia 1º de abril de 1971, Washington Olivetto passeava com seu Karmann-Ghia vermelho pela rua Itambé, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, quando o pneu furou. Até então, ele era simplesmente um hippie colorido, de cabelos compridos e tamanco. Um aluno medíocre do curso de Publicidade Propaganda da FAAP, que faltava a quase todas as aulas.
Sem ver nenhum borracheiro por perto, o rapaz de 19 anos entrou no escritório da HGP Publicidade, para usar o telefone e chamar um socorro. No último momento, mudou de ideia.  Pediu para falar com o dono.
- Eu sou o dono. – disse Juvenal Azevedo, um dos sócios.
- Olha, eu queria que o senhor me desse uma oportunidade de trabalho aqui. Eu quero trabalhar em publicidade, estou até estudando isso... Acho que posso bolar uns anúncios geniais para o senhor, tenho certeza de que vou ser muito bom nisso. Só entrei aqui porque furou o pneu do meu carro na sua porta. Acho melhor o senhor me dar esse emprego, porque meu pneu não costuma furar duas vezes no mesmo lugar.
O papo convenceu e ele foi aceito como estagiário. Em pouco tempo se destacaria. Um de seus primeiros anúncios foi para a fábrica de televisores ABC, que lhe valeu como prêmio uma garrafa de licor. O colunista Cícero Silveira, do jornal Shopping News costumava premiar a melhor propaganda da semana com a tal garrafa. Veiculado no dia das mães, mostrava uma simpática velhinha ao lado de uma televisão com a legenda: “Dê um televisor ABC para a primeira mulher de sua vida”. Nas semanas seguintes, ele continuou chamando atenção: “podia até faltar água na casa do publicitário. Cointreau, jamais, tal a profusão de garrafas do licor que ele abiscoitou”, conta Morais.
Em menos de um ano, ficou claro que ele era bom demais para a pequena agência. O patrão chamou-o: “É um pecado um cara como você ficar perdido aqui e nós não vamos ter como te segurar”.
 Já em nova agência, ele conseguiria uma façanha incrível, ganhar O Leão de Bronze em Cannes antes mesmo de completar um ano de profissão. O comercial era sobre uma nova torneira, com um processo revolucionário de vedação. Filmado em macro, o anúncio causava impacto ao mostrar uma torneira pingando com uma narração em off: “A Deca está lançando a sua torneira com MVS, mecanismo de vedação substituível, que faz com que sua torneira esteja sempre nova. Por isso, a partir de agora, se a sua torneira Deca vazar, é porque você esqueceu de fechar” e uma mão fechava a torneira, fazendo com que o último pingo fosse chupado para dentro do cano.
Ao saber que tinha ganhado o prêmio mais importante da propaganda mundial, Washington reagiu com incredulidade:
- Mas é o meu primeiro filme e eu só tenho vinte anos! Quem errou: eu ou o júri?
Um começo mais do que promissor para quem pretendia ser o melhor publicitário do Brasil, e provavelmente conseguiu.
Mas o livro, embora seja focado em Washington, também dá destaque a duas outras pessoas que formaram com ele a W/Brasil: Gabriel Zellmeister e Javier Llussá.
O tímido Gabriel vem de uma família judia marcada por tragédias. Sua primeira irmã morreu na Europa, com um mês de vida, enquanto os pais fugiam tanto dos nazistas quanto dos comunistas. A mãe e a avó materna (escaldadas por décadas de progroms e campos de concentração) o criaram com a constante paranóia de que estavam na iminência de uma nova perseguição: “Não se apeguem”, “Não façam amigos”, “Não se vinculem a ninguém, nós podemos ter de fugir”. Com uma criação dessas, é natural que ele fosse tímido e ficasse muito em casa, onde lia o tempo todo, em português, polonês e alemão. Queria ser artista.
Quando começou a crescer, entrou em uma rotina dura: estudava de noite e de dia ganhava alguns trocados desenhando retratos de pessoas. Depois de tentar ser desenhista de livros didáticos, resolveu que ia entrar na publicidade. Conseguiu um estágio numa agência pequena, a Delta. Duas semanas depois de chegar, viu os diretores de arte desenvolvendo uma nova logo para um cliente e perguntou se podia apresentar também uma proposta. No final, foi a sua proposta que foi aceita. A vida, como sempre, era dura. Para concluir o ginasial, ele precisou aderir ao sistema Madureza, que permitia terminar o segundo grau em menos tempo. Como não tinha tempo para o curso preparatório, se arranjou com uma permuta: desenhou um novo logotipo para a escola. Logo se tornaria um dos diretores de arte mais novos e mais criativos do mercado, sendo contratado pela agência Casabranca, onde conheceu Washington Olivetto. O primeiro contato dos dois não foi dos mais amistosos. Expansivo, Olivetto começou tirando um sarro do rapaz magro, que desenhava sem camisa: “Pô, meu, você é um atleta!”.
O catalão Javier Llussá, outro sócio da W/Brasil tem uma história igualmente conturbada. A família praticamente passava fome na Espanha quando o pai decidiu que iam embora. As cartas de um amigo que morava em Araraquara, interior de São Paulo, o convenceu de que aqui era o paraíso. Vieram de navio, com um bilhete de terceira classe, vomitando a maior parte da viagem. Javier foi trabalhar em um laboratório e nas horas vagas varria o chão da fábrica, pintava móveis e fazia pequenos reparos para ganhar mais alguns trocados. Concluiu que a única forma de sair daquela vida era estudar. Trabalhando de dia, estudando de noite e andando horrores para economizar o dinheiro do ônibus, concluiu o ensino técnico de contabalidade e depois começou a faculdade. Um dia viu um anúncio pedindo alguém para trabalhar com Marketing na multinacional Colgate-Palmolive. Sua única exigência nesse e em outros trabalhos era que as férias fossem divididas em dois momentos de 15 dias para lhe permitir estudar para as provas da faculdade.
Na Colgate, Javier revolucionou o departamento de pesquisa de mercado, mapeando São Paulo e Rio quarteirão por quarteirão, dividindo-os por classes sócio-econômicas e sorteando as áreas que seriam pesquisadas. Hoje esse procedimento é padrão em qualquer pesquisa de mercado, mas na época era uma novidade que permitia resultados muito mais precisos. Seu excelente trabalho o levou para a Kibon, para a área de desenvolvimento de novos produtos. Entre suas inovações estão o Ki-suco e o chiclete em tiras.
Ele ainda iria ser sócio da Gelato, uma empresa pequena, que conseguiu fazer  concorrência à poderosa Kibon e criou sucessos, como o sorvete Cornetto antes de se tornar sócio da W/Brasil.
Na comparação com a biografia dos sócios, Washington Olivetto parece não ter muitos dramas pessoais, o que não é verdade. O drama passado pelo sócio majoritário da W/Brasil é narrado num dos momentos mais fortes do livro de Fernando Morais. Em dezembro de 2001 ele foi vítima de um seqüestro que duraria 53 dias e mobilizaria toda a opinião pública.
Se nos capítulos anteriores a principal atração do livro é acompanhar a trajetória vitoriosa de Olivetto e a forma como ele criava seus comerciais (era como ver Pelé jogando na sua frente, declarou um cliente, referindo-se aos momentos em que Olivetto propunha idéias para propagandas), na parte final, o livro toma ares de romance policial.
Na toca dos leões não desaponta. Deve agradar principalmente profissionais de marketing, ou estudantes da área. Mas é indicado para qualquer um que goste de boas biografias.

O dia em que a terra parou

 

A origem do filme O dia em que a terra parou é o conto “Adeus ao mestre, de Harry Bates, publicado em 1940. No conto, um embaixador extraterrestre é morto e um momento é erigido em sua homenagem ao redor da nave, que não pode ser aberta e, na frente dela, o robô, que não se mexe, e, aparentemente, está inativo. Mas um fotógrafo desconfia que algo está acontecendo e resolve passar a noite próximo ao robô (e acaba se surpreendendo com o que acontece).
Robert Wise pegou essa premissa e transformou num dos filmes mais importantes da ficção científica de todos os tempos. Ao contrário do conto (em que a história do embaixador Klaatu é narrada em flash back), o diretor preferiu trabalhar com uma narrativa linear, o que não tirou da história seu impacto revolucionário, mas de certa forma, ampliou-a.
Muito mais do que um filme de ação, O dia em que a terra parou é um filme filosófico, que reflete sobre a humanidade e a bondade.
Na história, o embaixador traz uma mensagem de paz, mas um aviso: se continuarem se tornando uma ameaça aos outros planetas, a Terra deverá ser exterminada. Mas a chegada da nave é vista pelo governo americano como uma ameaça. Klaatu é alvejado e foge, indo parar em uma pensão, onde conhece uma viúva e seu filho, que o ajudam a encontrar um grande cientista, que poderia ajuda-lo em sua missão de convencer os governos terrestres a cessarem a corrida armamentística.
O filme, lançado em 1951, estreou em plena Guerra Fria, período em que Rússia e EUA disputavam o controle mundial num frágil equilíbrio, que colocou a humanidade diversas vezes próxima do armagedrom (chegou a existir até mesmo um relógio do fim do mundo, criado por cientistas, que mostrava o quanto estávamos próximos do fim – representado pela meia-noite). Tornou-se um símbolo do apelo pela paz e um dos mais pungentes apelos contra a insensatez humana.

Quarteto Fantástico – Kurgo, o senhor do planeta X

 


Um dos grandes diferenciais do gibi do Quarteto Fantástico, mesmo na relação com outros títulos da Marvel, é a pegada de ficção científica do título, dando a ele um sense of wonder que outras publicações da casa das ideias não tinham.

Essa característica, embora já fosse entrevista nos números anteriores, vai se firmar Fantastic Four 7.

Na história, o planeta x está próximo de ser devastado por um asteroide que irá se chocar com ele (lá na frente o asteroide vira um planeta).

O raio de hostilidade é uma loucura. 


Assim, o governante local, Kurrgo, manda uma nave com um robô para a Terra para sequestrar o Quarteto e obrigar Reed Richards a encontrar uma solução.

Para convencer o grupo a embarcar, o robô  solta um tal de “raio de hostilidade”, que faz com que todos se voltem contra os heróis. Eles estão no congresso, recebendo uma homenagem quando um congressista diz: “É hora do povo descobrir que vocês quatro são a maior ameaça que já recaiu sobre este país!” e todo mundo à volta passa a atacar o quarteto.

O planeta X vai ser destruído. 


O robô poderiam simplesmente pedir a ajuda do grupo, mas o despótico Kurrgo não parece muito afeito a convenções sociais.

Quando chega ao planeta, Reed descobre que o asteroide (ou planeta, ou cometa, Stan Lee ainda está decidindo) está prestes a se chocar contra o planeta x e encontra uma solução para colocar toda a população do planeta em uma nave de fuga: encolher todo mundo. A solução funcionaria bem melhor se ele a usasse de outra maneira, encolher o asteroide, mas sem isso não teríamos o final no qual o ditador cai em desgraça em sua sede de poder.

Kirby estreia começa a usar splah pages grandiosas para abrir os capítulos. 


Essa solução deixou uma tremenda ponta solta.  No final o Senhor Fantástico diz que quando chegarem ao novo planeta, todos terão tamanho reduzido, mas então quem pilota a nave, que tem controles para pessoas de tamanho normal?

Essa história em específico tem uma grande inovação narrativa que ia ser um diferencial dos quadrinhos Marvel. De seis em seis páginas, a história apresentava uma abertura de capítulo, com um quadro de impacto e título. Mas nessa história, Jack Kirby resolveu transformou o quadro de impacto numa splah page. A primeira delas não é tão grandiosa, mas a segunda, mostrando os heróis descendo num elevador gravitacional, é de tirar o fôlego, com uma perspectiva incrível e os detalhes tecnológicos expressionistas que eram a especialidade de Kirby.

Tropa Alfa – Pigmeu

 

 

Como parte de sua estratégia de tornar a Tropa Alfa conhecida dos novos leitores, John Byrne focou cada uma das primeiras histórias em um personagem. No número cinco da revista, o protagonista foi Pigmeu, que já aparece na capa fazendo acobracias.

Na saga anterior, ele havia sido praticamente estripado pela Marina e nessa edição já aparece no hospital, sendo tratado por Shaman em sua identidade secreta, o médico Michael Twoyoungmen.

Pigmeu está no hospital, depois de quase ter sido morto. 


Byrne coloca uma sequência das enfermeiras fofocando como forma de mostrar como os heróis são vistos por outras pessoas, mesmo em suas identidades civis.

- Novidades, Maggie? Já descobriu por que é o Dr. Twoyoungmen que cuida de Judd? – pergunta uma das enfermeiras.

- Faz tanta diferença? Eu só queria uma meia dúzia de Judds para levar para casa. – diz outra.

- Ele é encantandor mesmo. Fala como um valentão de boteco, mas lê Shakespeare. – suspira outra.

- Só sei que se me dissessem na escola de enfermagem que eu iria trocar uniróis de hospital para Michael Twoyoungmen.... bom, eu ia ter um piti na hora! – afirma outra.

Byrne usa uma fofoca entre enfermeiras para repasssar informações sobre os personagens.


A sequência mostra a genialidade narrativa de Byrne. Em um único quadro ele revela, de forma natural, informações sobre os personagens, caracterizando-os. Descobrimos, por exemplo, que Shaman, em sua identidade civil, é um médico idolatrado e que o Judd, o pigmeu, é um homem, que, apesar do seu tamanho, é adorado pelas mulheres por sua boa conversa.

O herói enfrenta traficantes.


Mas uma boa história de super-herói não é feita apenas de caraceterização e Byrne dá um jeito de introduzir uma trama policial na HQ quando o Pigmeu começa a sentir dores e encontra uma enfermeira aparentemente se drogando. Isso faz com que ele, mesmo enfermo, inicie uma investigação que revelará uma quadrilha desviando medicamentos do hospital para o tráfico de drogas. E faz isso incluindo até mesmo um plot twist no final.

Byrne cria uma narrativa simples, mas contagiante em uma trama que, surpreendentemente, não apresenta nenhum vilão. 

Nick Holmes, de Alex Raymond

 

Se tivesse apenas criado Flash Gordon, Jim das Selvas e Agente Secreto X-9, Alex Raymond já seria um dos nomes mais importantes dos quadrinhos. Mas ele ainda reservava uma surpresa para os fãs. Em 1946 ele criou Rip Kirby (no Brasil Nick Holmes), elevando sua arte e seu roteiro a um novo patamar. Se em Flash Gordon deslumbrava pela fantasia descontrolada, em Nick Holmes, espantava pelo realismo fotográfico dos personagens. Se em Flash Gordon  era a ação desenfreada, sem tempo para fôlego, em Nick Holmes viria a análise psicológica dos personagens, como trama complexas e bem elaboradas.
Em 1944, Raymond foi convocado pela Marinha Norte-americana e embarcou para o Pacífico Sul, abandonando seus trabalhos em Flash Gordon e Jim das Selvas. A bordo do porta-aviões USS Gilbert Island, ele participou de várias batalhas.
Quando voltou da guerra, estava cheio de idéias. Pensava em fazer uma história policial diferente do que se fazia até então nos quadrinhos. Seu personagem principal seria Nick Holmes, um herói da II Guerra, que se dedicava a resolver crimes envolvendo a alta sociedade norte-americana. Diferente dos detetives anteriores dos quadrinhos (como X 9 e Dick Tracy), ele não é um valentão que resolve as coisas com a força bruta. Ao contrário, é um intelectual sofisticado, que resolvia crimes de maneira calma, fumando seu inseparável cachimbo. Para isso, ele contava com a ajuda do mordomo Desmond.
Nick Holmes refletia a euforia americana no pós-guerra, período em que os EUA se firmava como a grande potência mundial.
Ao lado de lindas mulheres (que Raymond desenhava com perfeição) e o luxo, havia os mais misteriosos crimes. Mas não se trata de uma HQ maniqueista. Constantemente os bandidos entram para o mundo do crime em decorrência de um sistema social excludente. Muitos desses bandidos se regeneram, embora essa regeneração tenha como princípio aceitar o “american way of life”. Por outro lado, mesmo aqueles que se beneficiam da prosperidade americana também cometem crimes.
Raymond desenhava usando modelos e pesquisava as ambientações das histórias, de modo que acabou fazendo um retrato muito fiel da América naquele período. Raymond parecia se sentir finalmente realizado, chegando a declarar: "Estou sinceramente convencido de que a arte dos quadrinhos é uma forma de arte autônoma. Reflete a sua época e a vida em geral com maior realismo, e, graças à sua natureza essencialmente criativa, é artisticamente mais válida do que a mera ilustração. O ilustrador trabalha com máquina fotográfica e modelos; o artista dos quadrinhos começa com uma folha de papel em branco e inventa sozinho uma história inteira - é escritor, diretor de cinema, editor e desenhista ao mesmo tempo".
Em 1952 ele começou a contar com a colaboração do argumentista e ex-repórter policial Fredd Dickenson, deixando os roteiros ainda mais elaborados.
A fase de Raymond no personagem terminaria de forma trágica. Em 06 de setembro de 1956, ele morreu em um acidente de carro. A tira continuou a ser desenhada por John Prentice, que copiou rigorosamente o estilo do mestre, embora nunca tenha alcançado sua qualidade técnica. Ainda assim, Nick Holmes continuou a freqüentar jornais no mundo todo o mundo, muitas vezes tendo suas tiras reunidas em coletâneas.

quarta-feira, agosto 19, 2026

Elizabeth - a era de ouro

 


Elizabeth, a era de ouro, filme recentemente lançado pela Netflix, é um caso curioso de releitura. Em 1998, o cineasta paquistanês Shekhar Kapur realizou um premiado filme sobre a rainha Elizabeth com Cate Blanchett no papel principal. Em 2007 ele fez outro filme sobre o mesmo assunto, tendo de novo Cate Blanchett como rainha da Inglaterra mais velha.
Essa nova película é centrada no momento mais importante do reinado da rainha virgem, quando se descobre uma trama para matá-la ordenada por Mary Stuart, rainha da Escócia e católica fervorosa. Isso leva à execução de Mary. Como consequência, a Espanha declara guerra à Inglaterra e envia a maior armada já construída até então, com centenas de navios.
Esse é um momento-chave na história mundial, um daqueles efeitos borboletas que mudam completamente a relação de forças. Até então, a espanha era a mais rica e poderosa nação do mundo, após o confronto, a Inglaterra começa a galgar os passos que a levarão a construir um dos maiores impérios de todos os tempos – tão vasto que se dizia que no império britânico o sol nunca se punha.
Tudo isso, o atentado contra Elizabeth, a morte de Maria Stuart, a guerra com a Espanha é contado no filme de Shekhar Kapur, mas o foco maior acaba sendo a sua relação com o pirata Walter Raleigh. Esse talvez seja o maior defeito do filme, pois, para aprofundar essa relação ficcional, tira o foco dos fatos históricos reais.
Ainda assim, é um filme belíssimo, que se destaca pelo figurino, pela fotografia, pelos cenários grandiosos e pela atuação marcante de Cate Blanchett. Uma boa dica para quem gosta de história.