segunda-feira, julho 06, 2026

Invasores de corpos

 

Invasores de corpos (ou Vampiros de almas, como também é conhecido no Brasil) é um exemplo de como um orçamento apertado para um filme de ficção científica aliado a um bom roteiro e uma boa direção podem criar um clássico absoluto.
Lançado em 1956, dirigido por Don Siegel, escrito por Daniel Mainwaring, o filme conta a história de um médico que, após voltar de um congresso, depara-se com relatos de seus pacientes segundo os quais seus parentes são impostores.
O filme balança entre o ceticismo do médico e as evidências de que algo de fato pode estar acontecendo. Finalmente, o protagonista acaba encontrando um casulo de onde repousa uma cópia sua incompleta.
O médico e sua namorada fogem da cidade quando fica claro que o local está sendo dominado por uma invasão alienígena, que transforma as pessoas, tirando-lhes a individualidade e humanidade.  Mas em que confiar? Quem está transformado e quem não está?
O terror do filme não está em monstros com garras, ou cenas de carnificina, mas em pequenas ações, como a mãe que coloca no berço um casulo.
Desde que foi lançado, Invasores de corpos tem sido analisado como uma metáfora política. E, de fato, diretor e roteirista haviam colocado ali suas inquietações. O roteirista fizera um roteiro que denunciava o marchastimo. O diretor dirigira um filme que denunciava a ameaça comunista. A genialidade do filme está justamente nessa dubiedade, o que transformou o filme num alerta contra qualquer sistema autoritário, que tire do ser humano a sua individualidade,  transformando as pessoas em mais um na multidão homogênea. 

Batman – Barro mortal

 


Uma das características que fazem de Alan Moore um autor tão celebrado é a abordagem inovadora que ele tem sobre os personagens os quais escreve, a exemplo de que foi feito com o Cara-de-barro em Batman anual 11, de 1987.

Moore já começa inovando ao focar sua história no vilão, e não no herói. Além disso, ele constrói sua trama como uma história de amor de tragédia.

Em história anterior já havia ficado estabelecido que o personagem tinha se apaixonado por uma manequim, que lhe pareceu uma mulher imune ao seu toque mortal (Preston Payne acidentalmente matou sua namorada ao tocá-la).

O vilão apaixona-se por uma manequim... 


Aqui, após escapar de um incêndio no museu de cera, ele encontra refúgio em uma loja de departamentos onde encontra uma manequim que lhe parece ser sua amada Helena. Ele passa os dias escondido e de noite aproveita a loja como se os dois (ele e a manequim) estivessem num interlúdio romântico.

Moore transforma esse plot num estudo psicológico: embora a manequim seja inerte e sequer revele emoções (afinal, é um manequim de plástico), o Cara-de-barro começa a ver nela sinais de traição, destacado principalmente pelo fato dela ter sido levada para a sessão de roupas íntimas durante um dia. “Como um idiota, eu havia me preocupado com sua segurança. Imaginei que tivesse sido levada... que o homem de capa a tivesse raptado! E então eu a encontrei... longe de casa. Em roupas de baixo. Como? Como ela pôde fazer isso comigo?”, pensa ele.

... e Moore usa isso para refletir sobre as origens do ciúme. 


Tomado pelo ciúme, o vilão começa a ver mais e mais “indícios” de que a namorada o trai, o que o leva a uma cruzada assassina.

Todos sabem que os vilões do Batman são conhecidos pelo desequilíbrio psicológico, mas nenhum roteirista tinha explorado tão bem essa abordagem quanto Alan Moore nesta história e em Piada Mortal.

Perry Rhodan – O inimigo oculto

 

 

Na série Perry Rhodan há livros que começam muito bem e nos empolgam, mas depois perdem força. Exemplo disso é o volume 93, escrito por Kurt Mahr.

A trama começa com um robô sendo morto e enviando uma mensagem a Árcon, fazendo com que Atlan peça ajuda dos terranos para investigarem o que está acontecendo. Toda essa parte, embora seja bem narrada, fica meio nebulosa, o leitor só adivinha que Atlan pediu ajuda dos terranos e só supõe que Rhodan mandou uma nave.

Mahr introduz um personagem interessante, que teria tudo para se tornar um dos mais carismáticos da série: o Major Thomea Untcher, com seu jeito brincalhão e seus monólogos disfarçados de diálogos usados para demonstrar suas reflexões e pensamentos, a exemplo de:

- Sargento Loodey, qual a sua opinião?

- Isto quer dizer que.... – respondeu Loodey prontamente – que... que... – e começou a gaguejar.

- Você tem plena razão. Já que os nativos...


A capa original alemã. 

Há também uma ótima descrição do planeta Opghan e de seus nativos, um povo aquático, já que o planeta é composto de 99,5% de água. Segundo Mahr, quando chegava a noite, o frio era tão congelante que os éfogos eram obrigados a fugir: “Corriam sempre para oeste, atrás do sol. Quem ficasse para trás, morreria”. Depois eles inventaram embarcações e, finalmente, conseguiram construir cidades no fundo do mar, onde o frio não os alcançava.

Toda essa narrativa fascinante é entremeada por um acontecimento misterioso, pois a nave é atacada por éfogos que simplesmente se deixam abater e não reagem às agressões. Qual seria o objetivo desse ataque tão sem sentido?, pensa o leitor.

Mas, lá na frente, a narrativa vai se tornando cada  vez mais lenta e arrastada e o livro vai perdendo o encanto.

domingo, julho 05, 2026

A vila dos quadrinistas

 

Os churrascos reuniam alguns dos principais artistas da Grafipar

No final dos anos 1970 e início dos anos 1980 formou-se em Curitiba algo único no mundo: uma vila de quadrinistas. A vila surgiu em decorrência do sucesso da Grafipar, editora cujo sucesso estava calcado principalmente nas revistas eróticas.
Watson e Bonini foram os primeiros a ir  para Curitiba  e dividiram o mesmo caminhão de mudanças. Cláudio Seto, sempre muito amigo, tratou de acomodá-los em uma casa no bairro de Três Marias, parte do bairro São Brás, onde ele morava. As duas famílias ficaram provisoriamente numa casa de três quartos. O Watson com a mulher e três filhas e o Bonini com a mulher e um filho. Logo depois vagou a casa ao lado e o Bonini foi pra lá, acolhendo o Itamar, que era solteiro e chegou logo depois.
                Um mês depois, chega Gustavo Machado e fica provisoriamente na casa de Bonini. "Como eu era solteiro, juntamente com o Itamar alugamos uma casa de fundos no bairro das Mercês. Dois meses depois, vagou uma casa atrás da casa do Watson e nós dois fomos pra lá".
                Cerca de um ano depois, vagou uma casa ao lado e Franco de Rosa, com a mulher e filho foram pra lá. Nesta época, o Bonini se separou da mulher e voltou para o Rio e o Itamar mudou-se, sozinho, para a casa deles. "Assim ficamos até 1983, Franco, Itamar, Watson e eu, formando a vila dos quadrinistas", lembra Gustavo.

              Apesar de trabalharem muito, os artistas também se divertiam. Sempre que ia para Curitiba, Rodval Matias ficava hospedado na casa de Cláudio Seto. Um dia ele o levou para conhecer a vila dos quadrinistas. Rodval, preocupadíssimo em não incomodá-los em seu trabalho, encontrou-os soltando pipa na rua. “Esse era um dos hobbys do Watson e do Itamar”, lembra Gustavo Machado.
                "O clima da ´vila´ era fantástico ( mesmo descontando o saudosismo): o muro entre a minha casa e a do Watson era passagem obrigatória para todos, quase que diariamente", garante Gustavo Machado. "Quantas vezes da janela do meu quarto-estúdio via o Franco pulando com um monte de material pra casa do Watson e vice-versa!"
                Embora o clima frio de Curitiba não fosse favorável, o grupo às vezes fazia churrascos, rodinhas de violão com Watson arranhando Bealtes e Roberto Carlos.
                Certa vez Gustavo e Watson pegaram um gravador estéreo do Franco e fizeram uma fita só com palhaçadas. "Era a ZYV (de viado) Rádio Difusora de Cu Alegre. Franco e Bonini (que havia voltado do Rio) se entusiasmaram e num sábado, passamos o dia todo “produzindo” uma programação da Rádio. Tenho essa gravação até hoje e guardo com o maior carinho.  O Seto estava sempre por lá (morava perto) para trocarmos ideias, ou pra pegar ou levar material e também quebrava nossos galhos porque só ele tinha telefone e carro.  Levava os visitantes que apareciam pra nos conhecer e muitas vezes os hospedamos".
Casa de Gustavo Machado

                Um desses  fãs foi o mineiro João Batista Baldisseri, que ficou hospedado na casa de Gustavo. Aquele contato com o mundo dos quadrinhos fez com que ele se empolgasse para realizar na sua cidade, Araxá um famoso encontro de quadrinhos que fez sucesso.
                A vila estimulou a troca de informações e experiências entre os artistas, unindo-os em torno de um objetivo comum. “A convivência com a turma de Curitiba, que tinha também Paulo Nery (Na época Paulo Lima – médico e quadrinista), Eros Maichrowicz e Toninho Lima, que moravam na cidade ou em cidades próximas, além da freqüente presença de Ataíde, Josmar Fevereiro, Seabra, Rodval Matias, Kimio e Mozart Couto (só por telefone - ele não sai de Juiz de Fora)  era um estímulo muito grande”,  lembra Franco.

                O folclore sobre a vila de quadrinistas era incentivado pelos próprios artistas. No texto “Missão Impossível”, publicado na revista O Exterminador, 1, Franco de Rosa recebe, pelo correio, uma missão: descobrir o que Watson e Itamar estão fazendo. Usando um clima de texto de espionagem, Franco descreve o cotidiano da vila dos quadrinistas:
                "Fui até a casa do Gustavo, meu vizinho do lado esquerdo (sem conotações políticas, por favor). Entrei na cozinha assobiando a senha dos vizinhos, como é de praxe entre nós, quadrinistas da vila. Peguei o Gustavo no flagra, mexendo na bundinha da Malícia, com ecoline amarelo. Papo furado pra pagar pedágio, e prossegui para cumprir minha missão. Saltei o muro do fundo do quintal do Gustavo e sobre os verdes gramados do fundo do quintal do Watson (...) Adentrei no estúdio do Watson e, como sempre, meu narigão ficou enroscado em algumas milhares de folhas de samambaia que existem naquele antro de gibis velhos e móbiles de caças da 2 ª Guerra, a apontar pra gente.
                Dos estúdios de quadrinistas em que entrei, sem dúvida o do Watson é o que perfaz um quociente maior de insanidade mental (...) Na altura do meu umbigo, em uma estante de vidro, dessas que a gente só vê em farmácias, tinha uma fileira de miniaturas de super-heróis, protegendo suas respectivas revistas empilhadas nas estantes (...)

                O pernambucano é todo “cheio de dedo”. Tudo no lugar. Arrumadinho e espanado. Aviões, miniaturas de carrinhos de ferro, réplicas de uma dezena de revólveres do faroeste (...) Watson estava esboçando uma página do Zamor, mas começou a tocar no rádio uma velha canção do Roberto Carlos, e ele largou a prancheta num piparote. Saltou por um puta  vaso que tem no meio do estúdio (eu juro que tem até cobra naquele mocó), e pegou o violão e começou a desafinar junto com as filhas, que entraram saltitando no estúdio.
Contemplei aquela pilha de gibis que rodeavam o ambiente e saquei que o Watson é uma ilha rodeada de gibis por todos os lados.".

Depois da casa de Watson, Franco vai para a casa de Itamar, vizinho pelo lado direito. Eles iniciam uma conversa sobre o personagem Exterminador, que dá título ao volume: “A gente fica o dia inteiro sentado nessa prancheta, pacatão. E essa violência toda que acontece nas ruas... quando eu morava em São Paulo, no Rio, presenciava cada uma! Minha infância, minha vida toda cheia de repressão. Sempre fui meio reprimido. Então preciso me extravasar em alguma coisa, eu me desforro no desenho ou curtindo filmes violentos. Tudo pra limpar a alma”.
De todos os integrantes da vila de quadrinistas, Watson era o mais badalado entre os fãs e muitos deles iam até Curitiba só para conhecê-lo. “Eles vinham achando que o Watson, com esse nome e fazendo aquelas histórias no etilo europeu devia ser alto, loiro, algo como um gentleman inglês”, lembra Seto. “Chegavam aqui e era a maior decepção”.

Histórias brilhantes, de Alan Moore

 

Alan Moore geralmente é reconhecido como autor de histórias grandiosas, como Watchmen e Monstro do Pântano. Entretanto, ele era um exímio autor de histórias curtas. Perfeita demonstração disso é Histórias brilhantes, lançado em 2020 pela editora Myhtos.

O álbum reúne dez histórias curtas escritas por Moore e desenhada por diversos autores e impressa em diversas publicações alternativas. É uma fase diferente do mago de Northampton, com temas frequentemente sociais e subversivos – o tipo de história que ele raramente poderia desenvolver nas grandes editoras, como a DC.
Entre as várias HQs, uma das mais impressionantes é Tapeçarias.
A história, com desenhos de John Totleben e Stan Wach, foi produzida para uma organização pacifista, a CCCO (Comitê Central de opositores conscientes). A entidade havia percebido que seus folhetos eram simplesmente ignorados e não conseguiriam concorrer com a pesada propaganda pró-alistamento militar, que mostrava a guerra como algo heroico.
Assim, surgiu a proposta de fazer uma história em quadrinhos barata, com autores desconhecidos, em preto e branco, mas que mostrasse os verdadeiros horrores da guerra. Entretanto, quando o roteirista Harvey Parker entrou na empreitada, sua esposa sugeriu mudar completamente o projeto: ao invés de uma revista barata, em preto e branco, com autores desconhecidos, por que não fazer uma publicação colorida e convidar os grandes astros do mercado de quadrinhos ? E, surpreendentemente, muita gente aceitou produzir histórias sem necessidade de pagamento.
Tapeçarias mostra de um lado a visão idealizada da guerra e do outro a dura realidade do conflito militar.  


Moore adaptou o livro de W.D Ehrhart, um veterano da guerra do Vietnã. A narrativa da história “Tapeçarias” é genial, explorando perfeitamente as possiblidades dos quadrinhos: do lado esquerdo, mostrava a infância e juventude de Ehrhart, envolvido em quadrinhos, filmes e propaganda que glorificavam a guerra; no lado direito mostrava a dura realidade do implacável treinamento militar e as atrocidades da guerra, com soldados americanos matando civis vietnamitas, destruindo templos budistas e cometendo todo tipo de atrocidade.
Moore se empolgou e fez outra história adaptando dois outros livros de Ehrhart que mostram a experiência do autor na Nicaragua, mostrando que a história se repetia.
“O amor não dura para sempre”, com desenhos de Rick Veitch, é outro destaque. Aparentemente é apenas uma história de ficção científica com final irônico, mas por trás da aparência se revela uma envolvente metáfora sobre a AIDS, produzida na época em que a doença ameaçava se tornar uma pandemia.
O Espelho do amor explora a origem da perseguição à homossexualidade. 


Quase uma continuação deste conto, “O espelho do amor”, com desenhos de Bissette e Veitch, foi escrita no auge da pandemia, quando grupos conservadores aproveitaram a doença para promover um discurso anti-gays que insinuava até mesmo que câmaras de gás seriam uma solução para a pandemia. Moore, que na época vivia uma relação a três, constrói uma bela e poética narrativa que investiga historicamente a origem da homossexualidade e da perseguição.
Outro grande destaque é “Pictopia”, que desnhos de Donald Simpson. Aqui, Moore imagina uma cidade ocupada por personagens de quadrinhos, de desenhos animados e tiras de quadrinhos. A narrativa, altamente metalinguística, é focada numa versão mooreana do mágico Mandrake. Em muitos sentidos, essa HQ é uma atencipação de materiais que o autor desenvolveria em outros trabalhos, a exemplo de Supreme.
Em Histórias brilhantes, Moore mostra que é possível desenvolver temas complexos e relevantes em meras quatro ou seis páginas. 
O álbum tem ainda, extensos textos de Marc Sobel contextualizando as histórias e analisando-os num verdadeiro tratado sobre a obra do mago.
O ponto negativo é realmente o número de histórias: apenas dez.

Escrava romana

 


Oscar Pereira da Silva é hoje pouco conhecido, mas foi um dos grandes pintores brasileiros no final do século XIX e início do século XX. Seu estilo acadêmico foi obscurecido pelo modernismo que eclodiria a partir da década de 1910.
Entre seus trabalhos está a decoração da Igreja de Santa Ifigênia, em São Paulo.
Uma de suas pinturas mais famosas é “Escrava romana”, produzido enquanto o artista estava em Paris. Uma das grandes qualidades do artista era sua habilidade de desenhar a figura humana, o que pode ser visto em plena forma neste quadro. A imagem é totalmente focada na jovem moça que está à venda como escrava sexual. A pintura, embora detalhista e realista em sua técnica, traz uma dubiedade interessante: embora a placa no peito da moça diga “Virgem de 21 anos”, ela parece muito sensual, descontraída e segura para uma garota virgem.
A pintura fez tanto sucesso que Oscar Pereira da Silva  fez uma cópia para poder vender duas vezes. Atualmente a obra consta no acervo da Pinacoteca de São Paulo.

Da criação ao roteiro, de Doc Comparato

 


Durante muitos anos não existia praticamente nenhuma bibliografia sobre roteiro no Brasil. Sobre roteiro para quadrinhos, nenhuma. 
Então, todo mundo que queria escrever HQs em algum momento se deparando e utilizando na prática do livro Da criação ao roteiro, de Doc Comparato. 
Doc Comparato era um dos veteranos da prática do roteiro para cinema no Brasil. Ele escreveu boa parte dos filmes dos Trapalhões (a partir do plot de Renato Aragão) e ministrou as primeiras oficinas de roteiro, das quais saíram inclusive roteiristas de novelas hoje famosos. E seu livro foi um dos primeiros e mais famosos publicados no Brasil sobre o assunto. 
Mas roteiro para quadrinhos é uma coisa, roteiro para cinema é outra. 
Todos os meus amigos roteiristas relatam pelo menos uma situação em que se deram mal usando o livro do Doc Comparato ao esccrever para quadrinhos. 
A minha ocorreu logo no início da carreira. Empolgado com o livro do Doc, resolvi usar um pouco do palavreado técnico que aprendera nele. Assim, em determinado quadro, uma garota invadia o quarto de um homem para espioná-lo. Na descrição da imagem, defini que teríamos uma câmera subjetiva com a personagem principal entrando pela janela de um quarto. 
A câmera subjetiva ocorre no cinema quando a imagem mostra o ponto de vista de um personagem. 
Mas o desenhista não entendeu o que era aquela tal de câmera subjetiva. Resultado: desenhou o quadro da maneira que achou melhor e, para não fugir completamente do roteiro, colocou uma câmera caída no chão do quarto. 
E, de fato, ele não tinha nenhuma obrigação de entender o palavreado técnico de cinema. Afinal, estava fazendo quadrinhos. 
Depois disso usei diversas vezes o recurso de mostrar a imagem do ponto de vista de um personagem. Mas fiz isso explicando na descrição o que eu queria, ao invés de usar um termo técnico de outra mídia.

Casamento

 


Américo só percebeu que se metera numa enrascada quando já estava casado. A esposa era uma megera. Tratava-o por palerma, idiota, desengonçado... Certo dia, como ele encontrasse dificuldade em consertar um chuveiro, a mulher acrescentou um novo adjetivo á coleção:
            - Nem pra isso você serve, seu imprestável!?!
            Imprestável. Parece que gostou do termo, pois passou a usá-lo em todas as frases dirigidas ao marido:
            - Venha jantar, seu imprestável.... faça a barba, imprestável...
            Com o tempo, Américo foi abandonando todos os seus prazeres. Deixou de comprar livros (ela sempre reclamava dos gastos com esse tipo de bobagem...), deixou de visitar os amigos e, por fim, desistiu até de assistir seus programas prediletos na TV. Isso porque, sempre que estava assistindo algo, ela o chamava com o pretexto de trocar uma lâmpada, enxugar a louça do jantar ou fazer qualquer outros desses serviços domésticos.
            - Você lavou a louça e não enxugou, seu imprestável! - arrematava ela, como agradecimento.
            À medida em que o humor da esposa ia piorando, também ia aumentando seu sedentarismo. Até o ponto em que os vizinhos só tomavam conhecimento dela através dos gritos histéricos com que ela recebia o marido todas as noites...
            Depois de muitos anos trabalhando sempre no mesmo serviço burocrático, chegando em casa sempre à mesma hora, Américo teve, finalmente, uma atitude que se poderia chamar de autônoma. Chegou em casa com um belo aparelho de som. A esposa que já o esperava pronta para reclamar do atraso, não se conteve:
            - Para que isso, seu imprestável? Não sabe que eu não gosto de música?!?
            E desatou a reclamar por duas horas inteiras. Américo gravou tudo. E gravou também a reprimenda do dia seguinte, e do outro. Quando achou que já tinha o suficiente, esganou a esposa e enterrou o corpo no porão.
            A partir de então chegava em casa toda a noite e ligava o toca-fitas. Depois ligava a TV, ou pegava um livro, e se divertia pelo resto da noite. Os vizinhos, acostumados a só saberem da mulher pelos seus tremendos gritos, nunca desconfiaram de nada. Pelo contrário. De vez em quando algum vizinho pensava consigo:
            - Coitado do Seu Américo. Agüenta poucas e boas da sua mulher. Se fosse eu, já a tinha matado...


Obs: Este texto foi o vencendor do I concurso de crônicas e contos da editora Geração. 

Homem-aranha - longe de casa

 


O sucesso estrondoso do homem aranha está relacionado a uma fórmula que envolve ação, romance, drama e humor, cada um desses elementos na medida certa. 
É inevitável pensar nisso ao ver o novo filme do herói. 
Nesse filme temos a estreia de Mistério, um vilão menor do panteão de antagonistas do aracnídeo. Afinal, embora seja um dos primeiros antagonistas do aracnídeo, ele nunca teve uma grande história e nunca representou uma grande ameaça. Afinal, o personagem é apenas um ilusionista e, como tal, uma ameaça menor. 
Esse é o grande acerto do filme: transformar Mistério em uma ameaça real.
É um roteiro bem construído, apesar de algumas situações forçadas. O roteiro parece correr para que haja ação o tempo todo. Em determinado ponto, derrotado pelo vilão, perdido e sem dinheiro em um país desconhecido, a situação se resolve apenas com um telefone, usando o celular de um homem que fornece o aparelho sem sequer perguntar para onde será a ligação. Ali é tão óbvio que a solução não fazia parte do roteiro que os roteiristas incluíram uma piada, brincando com a situação.
Lembrando da afirmação inicial: parece haver algo errado na fórmula e no peso dos elementos. O excesso de ação não permite que os os outros elementos sejam devidamente explorados.Longe de casa é um filme melhor que seus antecessores, mas ainda é bastante inferior ao segundo filme de Sam Raimi.

Fundo do baú – A poderosa Isis

 


A Poderosa Ísis foi o segundo seriado americano a ter uma heroína como protagonista, surgindo pouco depois da Mulher Maravilha de Lynda Carter.
O seriado surgiu em 1975 e teve 22 episódios produzidos pela Filmation. A produtora já fazia o herói Shazan e resolveu criar uma super-heroina que faria parceria com ele em alguns episódios. Fez tanto sucesso que acabou virando até quadrinhos, publicados pela editora DC.
A personagem surgiu na TV e acabou sendo adaptada para os quadrinhos

A série conta a história de uma professora de ciências que descobre um amuleto de uma rainha egípcia e se transforma numa super-heroina.
A professora pronunciava as palavras “Poderosa Isis” e ganhava diversos poderes: super-força, reflexos sobre humanos e a capacidade de invocar os elementos deuses egípcios para voar, ver eventos em outros locais, fazer objetos intangíveis, parar o tempo numa área, e até revertê-lo.
Isis era interpretada pela carismática Joanna Cameron.

Crise – Convocação

 


Crise nas infinitas Terras surgiu como uma forma de organizar o universo DC, com tantos universos e tantos personagens que nem mesmo os roteiristas conseguiam entender toda aquela confusão. Mas também tinha o objetivo de ser uma obra grandiosa e isso fica óbvio já nas primeiras páginas, que mostra a destruição da Terra 3.

A terra 3 era uma versão de nosso universo em que os vilões tinham tomado o poder, mais especificamente uma versão vilanesca da Liga da Justiça, com personagens como Relâmpago (equivalente ao Flash), Coruja (equivalente ao Batman) e Ultraman (equivalente ao Superman).

A Terra 3 é destruída. 


É o personagem Coruja que resume o sentimento dos heróis ao observar seu mundo ser destruído: “Por anos usamos nossos poderes para nos tornarmos os senhores da Terra! Nada podia nos deter... nem mesmo o único super-herói do planeta, Luthor. Mas agora, vamos simplesmente morrer como resto do rebanho”.

E os personagens vão sendo tragados um a um pela muralha de antimatéria. Em contraste com Guerras Secretas, da Marvel, em que ninguém morria de fato, esse começo é um divisor de águas e uma demonstração de que Crise elevava os quadrinhos de super-heróis a um outro nível.

Precursora recruta heróis e vilões. 


Em uma sequência que emula a origem do super-homem, Luthor envia seu filho recém-nascido em uma pequena nave para outra dimensão, mas essa nave é sequestrada por algum ser misterioso cujos objetivos nós não conhecemos.

A narrativa pula para Percursora, uma personagem criada para a série, conversando com um ser misterioso (Marv Wolfman vai jogando os ganchos e ao mesmo tempo trabalhando o suspense, provocando o interesse dos leitores). “Nossa maior esperança residente tanto nos heróis quantos vilões lutando uns ao lado dos outros”, diz a figura misteriosa... e a moça é ordenada a percorrer as dimensões, coletando personagens que vão do Besouro Azul a Solovar, o macaco governante de Gorila City, passando pelo Superman da terra 2, um senhor de meia idade – o que nos leva a pensar qual o motivo para reunir figuras tão dispares e que tipo de impacto real eles poderiam ter sobre os acontecimentos.  

Surge o Monitor. 


Esse grupo, reunido no satélite do Monitor, é atacado por figuras fantasmagóricas antes da aparição do próprio Monitor: “Eu os convoquei porque seus universos estão prestes a morrer!”.

Para além do belíssimo desenho de George Perez e sua destreza para desenhar dezenas de personagens em um só quadro, chama atenção o cuidado de Marv Wolfman ao construir o roteiro. Começar com uma sequência de impacto conquista o leitor logo de cara e depois cada elemento vai sendo colocado na história como um quebra cabeça, deixando sempre informações pendentes para o leitor, de modo a criar suspense.   

A arte primorosa de Richard Hescox

 


Richard Hescox é um renomado ilustrador norte-americano, celebrado por suas contribuições aos gêneros de fantasia e ficção científica. Ele destaca-se como um dos principais expoentes do Realismo Imaginativo, estilo que aplica o rigor técnico do realismo clássico para representar cenários fantásticos, bebendo diretamente da fonte da arte pré-rafaelita.

Sua carreira profissional teve início em 1973, quando foi recomendado à Marvel Comics pelo lendário Neal Adams. Para a editora, produziu diversas capas em títulos como Monsters Unleashed e Conan.

Hescox migrou rapidamente para a indústria cinematográfica, onde criou cartazes icônicos para filmes como E.T. O Extraterrestre, A Mosca, O Cristal Encantado e Monstro do Pântano. Além disso, foi escolhido pessoalmente por George R. R. Martin para ilustrar a edição limitada de A Fúria dos Reis (Subterranean Press), projeto para o qual criou mais de 70 ilustrações.