quinta-feira, março 12, 2026
A incrível Suzana e o cinema de equívocos
A questão da dupla identidade constantemente foge do controle dos protagonistas e leva a cenas constantemente equívocas, que podem e devem ser lidas de maneira dúbia.
Em Quanto mais quente melhor, uma das melhores cenas é aquela em que Tony Curtis se faz passar por tímido para conquistar Marilyn Monroe, que acredita estar conquisantando um homem traumatizado por um relacionamento ruim. Cada gesto, cada palavra traz em si dois sentidos diferentes. Em determinado momento, o herói finge fugir do beijo da garota, quando na verdade, está extasiado com o mesmo.
Em A incrível Suzana, ao ser descoberta, Suzana (Ginger Rogers) entra na cabine do major Philip Kirby (Ray Milland), que acredita que ela é uma criança (ou finge acreditar) e a trata como se fosse uma sobrinha. A cena em que ela acorda com um raio e ele a conforta é repleta de conteúdo sexual implícito e uma aula de como trabalhar o duplo sentido no cinema.
Claro que isso só era possível graças ao incrível talento de artistas como Ginger Rogers, Ray Milland, Marilyn Monroe e Tony Curtis.
Em uma época em que o cinema podia mostrar muito pouco, mestres como Billy Wilder brilhavam com a genialidade de diálogos equívocos. Assim, uma premissa tola transformava-se em um grande filme.
Capitão América – a escolha
Joyland, de Stephen King
quarta-feira, março 11, 2026
Arqueiro Verde - Olimpíadas noturnas
O ano era 1995 e Alan Moore, após sua passagem pelo Monstro do Pântano, era grande sensação do mercado. Todos os editores da DC queriam que o bardo inglês escrevesse seus personagens.
Len Wein, que havia sido responsável por levar Moore para a DC achou que ele seria a pessoa certa para renovar o interesse dos leitores no Arqueiro Verde, que na época não tinha título próprio. A ideia era publicar uma história secundária nas páginas da Detective Comics e depois tentar lançar um minissérie ou algo do gênero.
Alan Moore teve uma ideia sobre uma olimpíada noturna disputada por heróis e bandidos.
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| O roteiro de Moore aproveita a experiência de Jason com ambientação urbana. |
Para desenhar foi chamado Klaus Jason, famoso arte finalista de Frank Miller que queria sua oportunidade de mostrar seu talento como desenhista. Ele fez as duas histórias no intervalo entre as páginas de Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, que ele estava arte-finalizando à época.
Moore, como sempre, criou uma história específica para o desenhista, aproveitando suas melhores qualidades, como a caracterização urbana.
A história começa como se o texto estivesse narrando uma competição: “Não houve atleta carregando a tocha ou a tradicional queima de fogos. No entanto foi dado um sinal inequívoco. O primeiro evento foi corrida de quatrocentros metros rasos com aparelho de TV e primeira fase de abstinência”.
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| A história tem sequência de humor bem ao estilo do que Miller e Jason faziam no Demolidor. |
A seguir vemos dois bandidos roubando uma TV e um toca discos. O primeiro deles tem um ataque quando vê o Arqueiro. O enfermeiro que atende a ocorrência explica que o homem desenvolveu uma fobia de heróis mascarados depois de ter sido preso pelo Metamorfo. Isso vira inclusive, lá na frente, uma fonte anedota visual bem ao estilo do que Miller fazia no Demolidor.
Publicada nos números 549 e 550 da Detective Comics, essa é uma história singela, despretensiosamente, mas divertida e até emocionante. Não muito tempo depois o personagem ganhou uma série por Mike greel. É possível que essa história tenha ajudado.
Pijama Selvagem - o site das crônicas humorísticas
Homem-Aranha e Viúva Negra – A mulher que nunca existiu
Uma mulher vaga a esmo pelas ruas de Nova York. Quando uma gangue resolve assalta-la, é salva pelo Homem-aranha, mas este escorrega na neve e, quando vai ser acertado por um dos malfeitores, é salvo pela frágil mulher, que, de repente, parece ter aprendido golpes de artes marciais. Mexendo em sua bolsa, o Aranha descobre o uniforme da Viúva Negra, mas a mulher alega ser Nancy Rushman, uma professora primária. Pouco depois eles são atacados pela divisão feminina da SHIELD e até por Nick Fury. Aquela mulher tímida e medrosa seria verdadeiramente a Viúva Negra? Por que todos parecem querer matá-la?
| A arte-final dá um outro aspecto para o desenho de Sal Buscema. |
Essa é a trama da saga “A mulher que nunca existiu”, que ocupou os números 82 a 85 da revista Marvel Team Up.
Escrita por Chris Claremont no auge da forma, com desenhos de Sal Buscema e arte-final de Steve Leilaoha, essa saga reuniu mistérios, espionagens, muita ação e até o mestre do Kung-fu.
| Todos querem matar a mulher misteriosa... |
Algo a destacar é que a arte-final de Leilaoha aproveita a narrativa visual perfeita de Buscema e a boa escolha de ângulos, mas traz um nível de detalhamento e sombreamento que a história exigia.
Claro que por trás de tudo isso precisava haver um vilão, ou uma vilã e está era a Madame Hidra, agora renomeada de Víbora.
Embora bem narrada esse verdadeiro triller de suspense peca por apresentar rápido demais a solução para o enigma. Algo que atiçou a curiosidade dos leitores por edições inteiras é explicado em apenas uma página.
| ... até Nick Fury. |
Uma curiosidade é que na primeira história, a mulher misteriosa passa ao lado de uma banca de revista onde está pendurado um exemplar do Clarin Diário com a manchete: “Homem-aranha destrói museu”. O título é uma referência à Marvel Team Up 79, escrita por Claremont e desenhada por John Byrne, na qual o amigo da vizinhança e Sonja impedem um feiticeiro da era hiboriana de dominar a terra.
No Brasil a saga da mulher que nunca existiu foi publicada originalmente em Homem-aranha 4, da editora abril. Posteriormente a Panini publicou parte da saga em coleção histórica Marvel.
O orgulho da ignorância
Outro exemplo é a questão dos que defendem que o nazismo era comunista. Leandro Karnall, doutor em história e um dos mais importantes historiadores brasileiros, diz que em décadas participando de congressos internacionais, nunca ouviu falar disso. Mas, segundo os defensores do nazismo-comunista, Leandro Karnall é suspeito para falar justamente por ser um historiador.
Eu já escrevi um livro sobre o nazismo e, durante a pesquisa em vários outros livros e sites sérios na época não encontrei nenhuma referência a isso de nazismo-comunista. Mas, segundo alguns comentadores de internet eu sou suspeito para falar sobre assunto justamente por ter escrito um livro sobre o nazismo. Ou seja: o fato de eu ter pesquisado o suficiente para escrever um livro, faz com que eu tenha menos autoridade para falar sobre o assunto do que uma pessoa que viu um meme com uma imagem de uma moeda com a suástica e a foice e o martelo (uma imagem que ninguém sabe dizer a fonte) ou viu um vídeo de dois minutos.
São pessoas que não sabem sequer o que é uma variável independente ou o que é um grupo placebo, mas dizem que entendem mais de remédios do que os pesquisadores que pesquisam o assunto há anos. São as mesmas pessoas que dizem que um remédio que nunca passou por um teste científico é mais seguro do que uma vacina testada em milhões de pessoas em todo o mundo seguindo todos os protocolos de uma pesquisa experimental.
A arte belíssima de Daniel Brandão
O enigma de Andrômeda
A região é isolada e os sobreviventes e o satélite são enviados para um centro de pesquisas onde cientistas lutam contra o tempo para isolar o vírus extraterrestre e encontrar uma cura antes que a doença se espalhe.
Trata-se de um ótimo filme de ficção científica hard, em que os heróis são cientistas e a solução do problema depende mais da inteligência do que dos músculos.
Chricton é um cara antenado com as descobertas científicas mais recentes (em Parque dos Dinossauros ele não só explica muito bem as descobertas sobre os dinos, como ainda dá uma aula sobre teoria do caos) e coloca isso no filme. Até mesmo o processo de esterilização acaba se tornando interessante para quem gosta de ciência (Frase predileta: "O corpo humano é uma das coisas mais sujas do universo").
Perry Rhodan – No campo dos fora-da-lei
No número 235 da série Perry Rhodan, os terranos haviam sido aprisionados e disponibilizados como escravos para os trombas brancas para ajudarem na produção de alimentos. O número 236 é focado na fuga e recuperação da nave Crest.
Embora seja escrito por William Voltz, autor do volume
anterior, esse número é menos inspirado. Enquanto o volume anterior focava em
um personagem carismático (o sargento que se considera um lorde) e desenvolvia
bem a sociedade dos alienígenas, este é mais focado na ação.
Alguns terranos conseguem fugir e se aliar aos criminosos
domésticos, trombas brancas que havia se tornado proscritos. Para conseguir
escapar, os terranos provocam uma guerra entre as castas. Para isso, os gêmeos
sprinters destroem a estação de energia intermediária, fazendo com que os
trombas azuis ataquem os trombas vermelhas. Enquanto isso, Rhodan e um grupo de
criminosos domésticos segue em um trem rumo ao local onde fica as instalações
que geram energia e principalmente calor para o local.
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| A capa original alemã. |
À certa altura o líder dos criminosos domésticos mescla-se
com um grupo de bioparasitas – uma ideia interessante, que poderia levar a
discussões interessantes. Afinal, quem está mandando no corpo? Mas Voltz parece
estar com pressa e não desenvolve esse aspecto, deixando todas as questões
filosóficas apenas sugeridas.
No final, claro, os terranos conseguem fugir e Rhodan ainda
parece construir uma aliança entre as várias castas. Mas ao terminar de ler,
fica a sensação de que o livro poderia ser muito melhor e mais empolgante.
terça-feira, março 10, 2026
Superaventuras Marvel
Superaventuras Marvel foi antológica, uma revista mix de super-herois como jamais existiu ou existirá no Brasil. Vale lembrar que a revista foi criada quando a editora Abril conseguiu os direitos sobre todos os personagens Marvel – até então os principais personagens da editora, como Hulk e Homem-Aranha, estavam com a RGE.
De repente a redação Abril se viu com uma quantidade impressionante de material de muita qualidade.
E foi na SAM (como a revista era carinhosamente chamada) que eles colocaram tudo isso.
Tinha Pantera Negra na até então sua melhor fase (com roteiros Don McGregor e desenhos de Billy Graham) , tinha o Dr. Estranho na melhor fase (com roteiros de Steve Englehart e desenhos de Frank Brunner), Kull, Conan, Sonja... a seleção era impressionante!
Até hoje eu pego as primeiras revistas e fico impressionado: não tinha nada sequer razoável ali, era tudo muito bom.
E a SAM publicou simplesmente as duas melhores séries Marvel dos anos 1980: o Demolidor, de Frank Miller e os X-men de Chris Claremont e John Byrne.
Hoje nenhum leitor conseguiria imaginar o impacto que essas séries tiveram e como foram revolucionárias. As mortes de Elektra e da Fênix foram verdadeiros fenômenos, todo mundo que conhecia estava falando sobre isso.
Pra se ter uma ideia, a ansiedade era tão grande que a gente sabia o dia que a revista chegava às bancas e naquele dia íamos perguntar para o jornaleiro se já tinha chegado – e haja reclamação se não chegava. O fato de ser formatinho também ajudava muito na popularidade. Lembro de muitas vezes voltar a pé para casa e usava o dinheiro da passagem para compra a SAM.
A estrada da noite
A estrada da noite conta a história de um astro do rock (Jude) que, ao comprar o paletó de um morto, começa a ser perseguido por seu fantasma, que o culpa pelo suicídio da filha (uma ex-namorada de Jude). O título se refere tanto à morte quanto à fuga do personagem principal, que pega a estrada com Georgia, sua atual namorada, e seus cachorros.
Joe Hill é o pseudônimo do escritor Joseph Hillstrom King, filho do mestre do terror Stephen King. Faz sentido: o sobrenome King traz, inevitavelmente, comparações com o pai, o que pode comprometer a avaliação de um escritor iniciante. Mas, mesmo feitas essas comparações, Hill se sai bem. Seu estilo é um mistura do estilo do pai com o de outros autores, como Neil Gaiman. Ele inclusive cita Alan Moore na epígrafe.Do pai, Hill herdou a capacidade de criar personagens com os quais o leitor simpatiza. No início, todos os personagens parecem marionetes, chavões: Jude é um roqueiro barra-pesada e grosseiro e Georgia é uma menina desmiolada e fútil. Conforme passam pelas atribulações do enredo, os personagens crescem, ou nós os conhecemos melhor, e aprendemos a gostar e a torcer por eles.
Por outro lado, o autor mostra uma incrível habilidade para esticar a tensão e o suspense sem deixar que a linha se rompa. A forma como ele faz isso lembra mais Hitchock do que King.
Na comparação, Hill perde em um ponto: ao contrário do pai, ele não se preocupa em criar um clima para suas histórias antes de introduzir o fantástico. Em poucas páginas o primeiro ato acaba e os protagonistas já estão envolvidos no conflito. Em King, na página 10 você já gosta dos personagens, mas não sabe exatamente no que eles estão envolvidos. Com Hill é o contrário.
Por outro lado, o crescimento dos personagens é um ponto positivo. Numa visão mais metafórica, podemos dizer que os protagonistas estão sendo perseguidos não só pelo fantasma do paletó, mas por todos os fantasmas de seus passados.

































