domingo, junho 28, 2026

Os incríveis 2

 


É irônico que o Quarteto Fantástico nunca tenha tido uma versão digna no cinema e que Os incríveis, uma sátira-homenagem ao Quarteto, tenha gerado dois ótimos filmes.
(Sério? Você nunca percebeu? Os uniformes são semelhantes, há poderes semelhantes, apenas trocados de um personagem para o outro e, da mesma forma que o Quarteto, eles são uma família de heróis - um dos conceitos revolucionários da Marvel de Kirby e Lee).
Na história a família tenta impedir um vilão de roubar um banco e, ao falhar, acabam destruindo parte do prédio da prefeitura, fenômeno que poderá dar um fim definitivo à era dos heróis.
Mas um milionário parece disposto a reverter isso com uma campanha de marketing baseada na ideia de que o público deveria ver o ponto de vista dos heróis. E, como estrela dessa campanha, escolhe a Mulher Elástica.
Aí temos um curiosa inversão: a heroína vai para as ruas enfrentar um misterioso vilão hipnotizador, enquanto o herói fica em casa, cuidando dos filhos - e ambas as tarefas parecem igualmente difíceis, especialmente quando o bebê Zezé começa a revelar seus poderes (o que gera os momentos humorísticos do filme). Sem levantar bandeiras, o filmes consegue discutir a questão do heroísmo e do protagonismo feminino de maneira sutil, mas envolvente.
O roteiro é bem construído, com reviravoltas no momento certo e personagens para lá de carismáticos. E as cenas de ação são de tirar o fôlego e, ao mesmo tempo, únicas: na hora de perseguir o vilão, quem fica com o bebê?
Em tempo: fui assistir com meu neto e ele simplesmente encarnou o Zezé no meio da sessão. Então, melhor acostumar: nesta primeira semana várias crianças devem "encarnar o Zezé".

Gonzo!, de Arthur Veríssimo

 


O gonzo jornalismo foi criado por Hunter Thompson no final da década de 1960. Era um estilo tão pessoal, que parecia único, incapaz de ser imitado, com matérias em primeira pessoa, repletas de sarcasmo e ironias. Entretanto, no Brasil um jornalista chegou muito próximo do estilo de Thompson, adaptando-o ao ares tropicais. Seu nome, Arthur Veríssimo, e as matérias foram publicadas na revista Trip durante anos. É a junção dessas diversas reportagens que compõe a antologia Gonzo!, publicado pela editora Realejo em 2014.
O livro reúne 30 reportagens com temas absolutamente diversos e aleatórios. Arthur Veríssimo embarca em toda as roubadas possíveis, de atirar num campo clandestino de armas no Camboja a ser preso por engano na República Dominicana.
Arthur Veríssimo não é só o jornalista, mas também um personagem dessas reportagens.  Explica-se: o gonzo não acredita na ideia de objetividade jornalística e a proposta é fazer o repórter mergulhar na matéria e não só os bastidores das matérias são contados, mas também os momentos constrangedores.
Aliás, tanto títulos como subtítulos das matérias já dão o tom dos textos e são uma atração à parte. Exemplo: “Bombando Bombaim – de rolê na Índia, o repórter-gonzo visita o Kumb Mela, flerta com atrizes de Bollywood e, no fuzuê sacro do festival de Ganesh, o deus-elefante, quase é abduzido por travestis eunucos”.
Há matérias um pouco mais convencionais, como aquela sobre o edifício Demoiselle, uma favela vertical em pleno centro de São Paulo. Mas a grande maioria é totalmente fora da caixinha.
Uma das mais divertidas é “Deus é grande”, sobre uma cidade repleta de templos eróticos na Índia. Arthur argumenta que as minunciosas esculturas parecem ter vida própria. “Os frisos e laterais possuem aspectos tridimensionais. As cenas de zoofilia e outras bizarrices deixariam o Marquês de Sade espumando de felicidade (...) Passo a mão sobre uma sinuosa estátua e repentinamente sinto uma baita energia rasgando minhas entranhas. Efeito Kundalini. Fico de fallus eretus diante das ninfas e da força magnética de templo”.
Pouco depois, encontra um casal de portugueses aos amassos: “Marília, a noiva sem pudores, destila que nunca na vida havia feito tanto amor com seu adorável Manuel. ‘Ora, pá, isso aqui é orgiástico. Estou correndo para o quarto com meu Casanova de Lisboa’. Na mesma vibe, Manuel exclama: ‘Vamos simbora, Marília, que quero engatar a posição da tarturuga’”.
Ou seja, é um livro divertidíssimo, que mostra muito bem que humor e boas reportagens não são conceitos opostos.

Sonja – a chave maldita

 


Quando as vendas de Conan estouraram, a Marvel ficou louca atrás de outros personagens criados por Robert E. Howard que pudessem repetir o sucesso do cimério. O mais próximo que conseguiram foi Sonja, ou Red Sonja, como é conhecida nos Estados Unidos (por conta do seu cabelo vermelho).
Para desenhar foi chamado Frank Thorne, um ilustrador que se tornou especialista em mulheres guerreiras. Seu desenho pouco convencional destacava o ar de magia da série, com destaque para cenários, roupas e ornamentações extravagantes. Mestre da anatomia, sua Sonja era linda, mas também dúbia. Seu olhar felino conferia à personagem uma característica que ia muito além da simples heroína.
E, entre os roteiristas que abrilhantaram a personagem, estava Bruce Jones, provavelmente um dos mais subestimados da era de bronze.
Bom exemplo do trabalho entrosado dessa dupla é “A chave maldita”, publicada no terceiro número da revista Marvel Feature, de 1975 e no Brasil em Superaventuras Marvel 17.
A página inicial é emoldurada por uma corda com uma chave. 


A história começa com a guerreira montada num cavalo, sendo perseguida e proferindo uma frase icônica: “Soldados malditos! Esses miseráveis estão atrás de mim há horas! Será que não se pode ganhar a vida por aqui roubando honestamente?”.
Essa primeira página, aliás, além do diálogo impagável de Jones, mostra o domínio de Thorne da parte visual: a imagem é emoldurada por uma corda que segura uma... chave!
Encurralada, Sonja é salva por uma bruxa, que cria uma ilusão para os soldados, dando a entender que a guerreira caiu num precipício.
A bruxa conta a história da chave. 


A bruxa está interessada na chave roubada por Sonja (a razão pela qual ela está sendo perseguida) e lhe conta a história da chave: em tempos antigos, dois reis guerreavam. Um deles contrata um artesão que faz uma réplica do rei em tamanho gigantesco, mas seu castelo é invadido e, para se vingar, ele envia o gigante metálico feito à sua semelhança para destruir o local. O mecanismo era controlado por uma chave. Como logo fica óbvio, a bruxa está interessada na chave roubada por Sonja para fazer reviver o autômato.
Assim, mitologia e ação se misturam perfeitamente nessa trama muito bem escrita.

A mulher hiper-real

 


Observe a mulher acima. Parece perfeita mais é mais do é isso. É uma mulher hiper-real. Ela não envelhece, não tem rugas, não tem celulite, não tem estrias. Jamais estará doente ou indisposta. Trata-se de uma boneca de silicone. Até há pouco tempo, era uma curiosidade entre pesquisadores de hiper-realidade e pós-humanide, um produto para poucos, caro e difícil de encontrar. Hoje em dia o produto é ainda mais perfeito do que era há alguns poucos anos e pode ser encontrado com facilidade em sites como Ali Express por preços que variam de 2 a 5 mil reais.

A mulher acima é reflexo direto de um mundo hiper-real em que as ficção, coisas criadas pelo homem, parecem mais reais do que sua contrapartes naturais. Sua perfeição levanta questões sobre a que ponto essa hiper-realidade poderá chegar e até que ponto ela já domina nossas vidas.

Alguns poderiam dizer que a boneca tem dois defeitos: não fala e não se move, o que é verdade.

Mas atualmente, programas de Inteligência Artificial já podem ser facilmente encontrados a preços populares em produtos como o Eco Doth, da Amazon, uma caixa de som que não só toca músicas, mas acende luzes, liga a TV e fala com o usuário (experimente dizer que é seu aniversário e ela cantará parabéns para você; experimente dizer que está com saudade e ela responderá: “Vamos matar essa saudade ouvindo um pouco de música?”). Já existem algumas sendo vendidas com essa tecnologia e não falta muito para que ela se popularize e todas as bonecas do tipo tenha esse tipo de tecnologia.

Por outro lado, pesquisadores têm desenvolvido robôs que se movimentam de forma cada vez mais parecida com a de um ser humano. Também não demorará a essa tecnologia ser incorporada a essas bonecas.

Quando tais bonecas tiverem inteligência artificial e forem capazes de se movimentarem, será difícil distingui-las de um ser humano, exceto por um fato: elas serão mais perfeitas do que qualquer ser humano jamais será.

O seriado pastelão da Mulher Maravilha

 



O seriado da Mulher Maravilha, um dos grandes sucessos televisivos da década de 1970. Foram 59 episódios em 3 temporadas, de 1975 a 1979.  A heroína era protagonizada pela atriz Linda Carter, até hoje idolatrada pelos fãs.
O piloto do seriado mostrava a heroína na II Guerra, combatendo nazistas.
Nos episódios a história pula para a década de 1970 e a Diana Prince é a secretária do diretor da CIA, Steve Trevor Jr (filho do namorado da heroína no piloto). Aliás, ele era apaixonado tanto por Diana quanto pela Mulher Maravilha sem saber que eram a mesma pessoa.
Uma das curiosidades do seriado era o rodopio de bailarina que a personagem usava para se transformar na Mulher Maravilha.
Mas algo que pouca gente sabe é que na década de 1960 houve um piloto da personagem estrelado por Ellie Wood Walker, que foi um fracasso total. Também, pudera. Algumas imagens recuperadas mostram que o
seriado tinha pegada de humor pastelão, com a Mulher Maravilha se olhando no espelho por longos minutos antes de entrar em ação ou tendo que discutir com sua mãe, que não quer deixar a heroina sair de casa. Confira a cena resgatada pelos fãs. 

Mister No – Amazônia

 

 

Embora tenhamos conhecido o personagem Mister No na primeira revista do personagem, só vamos conhecer de fato a filosofia da série a segunda aventura, Amazônia.

Na história, o filho de um magnata que desapareceu próximo a uma tribo indígena resolve procurar o pai. Mas a única pessoa que aceita levá-lo ao local é Mister No.

Mister No é o único que aceita acompanhar o rapaz na busca pelo milionário. 


Sérgio Bonelli, o roteirista, de fato visitou Manaus e conhecia a Amazônia, o que se revela em pequenos detalhes. À certa altura, Mister No fala que precisa de dinheiro para resgatar seu “voador”, deixado como garantia de uma dívida de jogo. O rapaz acha que se trata de um avião, mas na verdade, o voador é um bar com motor de popa. “Meu pipper não serviria para esta ocasião. Naquela área não há uma única pista onde pousar!”. De fato, na Amazônia há muitos locais em só é possível chegar pela água, tanto que uma música famosa aqui na região diz: “Esse rio é minha rua”.

Outra curiosidade é que, à certa altura, eles vão parar num bar na beira-rio e o local começa a pegar fogo. Para que o fogo não se alastre para outros locais, Mister No corta a corda que prende a casa às outras. Parece invenção, mas existiu realmente um bairro flutuante em Manaus.

Sérgio Bonelli aproveita na HQ um fato real: o bairro flutuante em Manaus. 


Os perigos enfrentados pela dupla vão da formigas-de-fogo a jacarés. Mas o principal perigo é mesmo o homem, entre eles uma dupla que parece ter sido responsável pela morte do empresário, já que um deles é encontrado com o relógio do mesmo.

Apesar de toda ação e de todos os embates, descobrimos que Mister No é um pacifista, uma postura que ele provavelmente adquiriu durante a guerra. “Eu me mostrei tão bom em matar japoneses na primeira, que meu governo não pensou duas vezes em me mandar matar coreanos”. A sequência inteira é, nitidamente, um discurso do roteirista contra as guerras.

Formigas de fogo e jacarés: os perigos da selva. 


Posteriormente, quando a dupla encontra um personagem que está vivendo entre os indígenas, temos uma outra parcela da ideologia da série: a da vida na selva em oposição à vida civilizada. Até então nos quadrinhos, os personagens brancos sempre eram o que ensinavam tudo aos povos “Incivilizados”, mas aqui ocorre o oposto: “O fato é que desde que vivo com eles entendi muitas coisas que me ensinaram a respeitá-los... aliás, a amá-los”. O personagem sente-se tão feliz ali que não quer voltar para a “civilização”.

Essa sequência quebra também com a imagem estereotipada dos povos indígenas como ameaças terríveis: “Infelizmente esta pobre gente aprendeu à sua própria custa a ter de se defender dos homens brancos”, diz o personagem.

Discurso pacifista. 


Para quem ficou curioso sobre a cidade flutuante, este é um ótimo texto: https://idd.org.br/reportagens/exotica-cidade-flutuante-de-manaus2/

sábado, junho 27, 2026

De porta em porta

 


De porta em porta é um filme de 2002 dirigido por Steven Schachter com William H. Macy no papel principal.

A película conta a emocionante história de um rapaz, Bill Porter, vítima de paralisia cerebral que decide ser vendendor. Como o gerente não quer contratá-lo, ele pede a pior rota, aquela que nem um outro vendedor quer. Com persistência e paciência, ele não só consegue vender produtos, como ganha a amizade e confiança de todo o bairro.

Um belo filme sobre superação de limites, indicado especialmente para profissionais de marketing. Bill mostra que ninguém vende produtos. Ninguém nunca comprou um sabão ou um amaciante. As pessoas compram a satisfação de suas necessidades... e muitas vezes é uma necessidade mais psicológica que física... a necessidade de ser escutado, de ter alguém que o compreende.

A grande lição do filme: no marketing, geralmente valem mais a percepção e os sentimentos que as qualidades físicas dos produtos.

Angélica acorrentada, de Ingres

 


Jean-August-Dominique Ingres foi um dos maiores representantes do neo-clássico francês. Discípulo de David, ganhou celebridade a ponto de se transformar no pintor oficial de Napoleão.
Ficou famosa também a rivalidade de Ingres e Delacroixs, este último defensor do romantismo, que pregava uma quebra com as rígidas regras de composição do neo-clássico.
Em Angélica acorrentada, Ingres recorre a um tema da Idade Média: o poema Orlando Furioso, de 1516. Na história, Angélica é acorrentada em uma rocha para ser devorada por um monstro marinho. Mas o herói Ruggiero intervem e a criatura é cegada pela luz do sol refletida no escudo do herói. Como consequência, Angélica se apaixona por seu salvador.
Algo curioso é que, embora o tema fosse nitidamente dramático, Ingres, em conformidade com o neo-clássico, não coloca emoção no quadro. Angélica, acorrentada, espera o monstro que irá devorá-la com uma expressão quase displicente.

Quarteto Fantástico contra os Srkulls

 


No número dois da revista do Quarteto Fantástico o grupo ainda não usava uniforme e personagens como o Coisa e o Tocha Humana ainda não tinham a aparência definitiva. Apesar disso, ficava muito claro que a publicação era algo revolucionário.

A trama era recauchutada dos quadrinhos de ficção científica da Atlas da década de 1950 sobre invasões alienígenas. Na história, uma nave Skrull (na primeira aparição desse povo no universo Marvel) está próximo à terra, mas antes de começar a invasão, envia ao planeta quatro de seu povo para cometerem crimes se fazendo passar pelo Quarteto Fantástico e assim forçar a prisão do grupo, o que facilitaria a invasão.

Os skrulls cometem crimes se fazendo passar pelo Quarteto... 


 Assim, o Coisa destrói uma plataforma marinha, a Mulher Invisível rouba uma jóia, o Tocha destrói um monumento e o Senhor Fantástico desliga a energia da cidade.

A reação dos originais é algo totalmente impensável para os heróis da época.

O Coisa fica furioso pela polícia estar caçando eles com se fossem monstros: “Talvez eles estejam certos! Talvez eu seja um monstro! Eu pareço um... e às vezes me sinto um! Mas ninguém vai me pegar sem luta! Se eles dizem que sou uma ameaça, então serei uma!”, diz ele enquanto joga a cabeça empalhada de um urso pela janela de vidro. Alguém consegue imaginar o o Super-homem da era de prata dizendo algo parecido?

... e o Coisa não gostou nada disso.


Jack Kirby ainda não usava os esquema dos seis quadros (uma página chega a ter 11 quadrinhos!!!) e Stan Lee extrapolava no texto, mas mesmo assim era possível perceber que a dinâmica da dupla criativa refletiva a dinâmica dos personagens: pessoas muito diferentes, mas que funcionavam muito bem juntas. Aliás, um recurso muito usado por eles, que infelizmente caiu em desuso, foi dividir a história em capítulos, de modo que a cada seis ou oito páginas temos uma página de impacto.

Não dá para respeitar vilões se usam uniformes parecidos com pijamas. 


Em tempo: nessa história os Skrulls usam uniformes ridículos, que parecem pijamas, com uma gola estrelada e capuz que deixa apenas o rosto e as orelhas enormes do lado de fora. Com o tempo esses personagens ganhariam um pouco mais de dignidade.

A enigmática arte de Escher

 


Escher foi um artista gráfico holandês especializado em gravuras. Suas imagens desafiavam o olhar com figuras impossíveis ou simplesmente inusitadas. Também gostava de fazer imagens que realizavam transformações geométricas ((isometrias). É um dos mais importantes artistas visuais do século XX. 







Bojeffries: a saga, de Alan Moore

 


Alan Moore não é só um dos melhores – senão o melhor – roteiristas vivos, como é também um dos mais ecléticos. Ele fez horror (Monstro do Pântano), super-heróis (Superman, 1963), ficção-científica (A balada de Halo Jones). Bojeffries: a saga, lançado recentemente pela Devir oferece mais uma face do mago inglês: o humor.

A trama se desenvolve em torno da família Bojeffries, “uma mistura de Família Adams com Monstro com elementos lovecraftianos”, como definie Alexandre Callari na introdução do volume.

É uma família totalmente disfuncional, composta por um lobisomem, um vampiro, um vovô monstro lovecrafiatiano, um bebê capaz de gerar energia termonuclear suficiente para iluminar toda a Inglaterra e dois adolescentes: Reth  e Ginda . Ginda é capaz de transformar um bombom de chocolate num diamante e comê-lo e por isso acredita que os homens ficam intimidados ao conhecer alguém poderosa.

Bojeffries: a saga é Alan Moore transportando o humor típico de grupos como o Monty Phyton para os quadrinhos numa história com toques de terror e fortes críticas sociais.

A primeira história é centrada num cobrador de impostos. 


A primeira história, por exemplo, é sobre o cobrador de alugueis sociais que passa suas horas de folga lendo relatórios de alugueis atrasados. Ele descobre que a família Bojeffries não paga aluguel desde o século XIX e resolve cobrar os alugueis atrasados. É uma estratégia para apresentar os personagens, a ambientação e, ao mesmo tempo, fazer uma ácida crítica à burocracia inglesa. Junte a isso várias gags que se repetirão ao longo do álbum, como a mania do tio Raoul de comer cachorros.

Mas os melhores capítulos são aqueles focados nos personagens, como “A noite de folga do tio Raoul”, em que o personagem participa de uma festa da empresa e se transforma em lobisomem no meio da comemoração (um episódio com forte crítica social). Ou “festus: madrugada dos mortos”, em que o tio vampiro acorda pouco antes do nascer do sol e precisa comprar sangue de soja antes que o sol surja. Mas em seu caminho há todo tipo de obstáculos, como pãezinhos de sexta-feira santa, pessoas carregando clavas de madeira e entregadores de jornais que decidem puxar conversa. É um capítulo de puro humor visual.

Tio Raoul trabalha numa fábrica. 


Mas, em termos de humor, o melhor conto talvez seja “Sexo com Ginda Bojeffries”. O capítulo já começa com uma tremenda inversão de papéis, quando Ginda passa por uma obra e começa a assediar os pedreiros. “Isso é tão degradante! Quer dizer, sou um ser humano... tenho sentimentos e ambições, tenho diploma de pedreiro. Mas para ela eu não passo de um par de nádegas durinhas dentro de um jeans apertado”, reclama um pedreiro enquanto a garota grita: “Qual é, lorinho?! Mostra essa sua ferramenta do amor!”.

Os exemplos mostram o tipo de humor usado por Moore na obra: irônico, inteligente, inquietante e sutil.

Essas histórias começaram a ser publicadas em 1983 na revista Warrior. Depois a saga passou por várias outras publicações até serem finalmente reunidas em álbum.  

É uma leitura divertida e obrigatória para os fãs de Moore e de humor ácido, mas tem um problema: fica a impressão de que havia muito mais a ser explorado na família.

Zona Morta, de Stephen King

 


Zona Morta, publicado em 1979, é certamente um dos romances mais relevantes e bem-acabados de Stephen King. Na trama, o protagonista sofre um grave acidente de carro e, ao despertar, descobre ter adquirido poderes de clarividência e precognição, ativados pelo toque em objetos ou pessoas.

A maestria de King reside na forma como ele constrói um universo e um personagem inteiramente críveis antes de introduzir o elemento fantástico. Um exemplo dessa destreza narrativa é o capítulo de abertura, no qual Johnny Smith visita uma feira com sua namorada, Sarah. O texto apresenta uma situação prosaica — um casal se divertindo —, mas, simultaneamente, instaura uma tensão palpável de que algo terrível está prestes a ocorrer. Esse presságio é estabelecido logo no primeiro parágrafo:

“As duas coisas de que Sarah se lembrou mais tarde, sobre aquela noite, foram a sorte dele na roda da fortuna e a máscara. Mas, com o passar dos anos, era na máscara que ela pensava... quando conseguia forçar-se a pensar naquela noite horrível.”

King estica ao máximo o fio do suspense; o evento catastrófico, embora constantemente antecipado, é adiado, permitindo que o leitor sinta um alívio momentâneo apenas para ser envolvido em uma nova sequência de tensão... até o fatídico acidente.

Toda a fase da fisioterapia e recuperação é narrada com detalhes que ampliam a verossimilhança. A paranormalidade é inserida gradualmente, como no momento em que John prevê o incêndio na casa de sua fisioterapeuta. Essa estratégia de ancorar o absurdo no realismo cotidiano tornou-se uma marca registrada do autor, repetida em obras posteriores como O Cemitério.

É provável que King tenha se inspirado na Síndrome de Savant Adquirida, na qual pessoas que sobrevivem a traumas cerebrais ou comas despertam com habilidades extraordinárias. Ele parece ter partido da premissa: “E se alguém pudesse prever que um político de uma pequena cidade se tornaria presidente e levaria o mundo a uma guerra nuclear?”. No fundo, o livro é uma atualização do dilema ético clássico: “O que você faria se pudesse voltar no tempo e matar Hitler?”.

O filme foi adaptado para o cinema por David Cronenberg, em 1983.


O "herói" da história, contudo, é um homem atormentado por seu dom, o que facilita a identificação do leitor. Johnny não é um super-homem, mas uma vítima da própria percepção.

A capacidade de King em tornar interessantes até os momentos mais triviais é comprovada pela minha própria memória afetiva. Desde que li o livro, no início dos anos 90, duas passagens ficaram gravadas: a espiral de loucura da mãe de Johnny, que se afunda em seitas religiosas, e a "lição de leitura", quando Smith ajuda o filho de um magnata a superar a fobia de livros. No primeiro caso, o autor cunha uma frase que resume sua visão cética da fé institucionalizada: “Deus age pelas mãos dos homens”. Na segunda situação, surpreende a habilidade do autor em empolgar o leitor e fazê-lo torcer fervorosamente por um rapaz que simplesmente tenta ler um parágrafo.

Em tempo: Naquela mesma década de 90, enquanto eu lia A Zona Morta, uma amiga comentou que "toda leitura era válida, até mesmo aquilo que eu estava lendo". O comentário ilustra bem como King era subestimado na época. Não por acaso, minha edição era popular, de banca, impressa em papel jornal, o que lhe conferia um ar de "subliteratura".

Hoje, os livros de King ganham edições de luxo em capa dura e ele é reverenciado como um dos grandes mestres da narrativa contemporânea. Isso demonstra não apenas que as novas gerações souberam valorizar sua técnica literária, mas também o quanto o formato da mensagem influencia a percepção de valor da obra pelo público.

sexta-feira, junho 26, 2026

Cabanagem: uma continuação da Revolução Francesa

 


Poucos sabem, mas a Cabanagem foi a única revolta brasileira a ser consequência direta da Revolução Francesa. E tudo por conta de uma vingança de D. João VI.
Todos conhecem a história de como a família real portuguesa fugiu para o Brasil quando Napoleão invadiu Portugal. Mas, chegando aqui, o governante português resolveu revidar. Os ingleses sugeriram invadir a Guiana Francesa. Afinal, as defesas francesas eram quase inexistentes. De fato, quando as tropas, vindas de Belém, chegaram na Guiana, não enfretaram nenhuma resistência. E encontraram lá várias pessoas que estavam ali na condição de deportados, enviados para lá por Napoleão. Era a chamada “guilhontina seca”: ao invés de guilhotinar seus adversários políticos, o corso os mandava para a Guiana.
Os comandantes portugueses pensaram: “se são inimigos de Napoleão, são nossos amigos”. E abriram as portas para eles. Alguns inclusive foram para Belém ajudar a construir o palácio do governador.
Acontece que a maioria desses desterrados eram jacobinos, pessoas que tinham participado ativamente da revolução francesa desde os seus primeiros momentos.
Esses jacobinos influenciaram as tropas brasileiras com as ideias da revolução francesa e alguns deles chegaram até mesmo a participar ativamente da revolta cabana.
Quem poderia imaginar que a revolução francesa iria continuar em um local a milhares de quilômetros de Paris, em plena floresta amazônica?

A terrível vida real de Tom Strong

 

A terrível vida real de Tom Strong é o primeiro volume da série lançada pela Panini escrita e desenhada exclusivamente por convidados. Escritores e artistas receberam uma tarefa inglória: igualar a fase de Alan Moore, explorando aspectos ainda não explorados na série. 
O resultado é irregular. 
No geral, as histórias seguem uma média. Mas dois se destacam, por motivos diversos. 

Ed Brubaker imagina uma realidade na qual Tom Strong não é um herói. 


Steve Aylett e Shawn McManus fazem a pior história da revista. Mal-ajambrada, muitas vezes sem sentido e distantes da proposta do personagem. Personagens irreais surgem do nada e não há preocupação em se criar verossimilhança para eles. Parece alguém tentando imitar Grant Morrison na Patrulha do Destino, mas com o personagem errado.
O melhor exemplo é a história que dá título ao volume, escrita por Ed Brubaker e com desenhos Ducan Fegredo. Nela, usando um artefato maia, um vilão consegue criar uma realidade em que Tom Strong não existe - e o herói se torna um simples operário em um mundo decadente, sujo, repleto de políticos corruptos. É o tipo de história que se encaixa no personagem e a sacada irônica do final é realmente genial.