sexta-feira, abril 17, 2026

Fundo do baú - Dino Boy

 


Dino Boy (Dino Boy in the Lost Valley) era uma série da Hanna-Barbera produzida entre 1966 e 1968, num total de 18 episódios.

Criado por Alex Toth, o desenho contava a história de um garoto que pulava de paraquedas de um avião em chamas e ia parar num vale onde vivem dinossauros e outras criaturas estranhas. Atacado por um tigre dentes de sabre, o garoto é salvo por um homem das cavernas chamado Ugh.

A maioria das histórias girava em torno de algum animal tentando devorar Dino Boy e Ugh salvando-o.

Em um episódio, por exemplo, Dino é sequestrado por um pterossauros que o leva para seu ninho e logo depois é atacado por outro pterossauros, que também pretende comer o garoto (“Enquanto eles continuarem lutando por mim, estou salvo”, diz Dino Boy). No mesmo episódio ele havia escapado por pouco de ser devorado por tyrannosaurus rex, o que provavelmente o coloca como a iguaria mais cobiçada do vale.

Algo interessante é que, embora fosse um homem das cavernas, Ugh falava de forma correta e parecia inteligente. No episódio acima, por exemplo, ele aprende a usar arco e flecha para salvar o garoto.

O grupo ainda era composto de um pequeno brontossauro, que servia tanto de cachorro quanto animal de montaria.

Monteiro Lobato: a chave do tamanho

 


            Depois da prisão, o escritor publicou aquele que é, provavelmente, o livro mais original do sítio: A Chave do Tamanho. Na história, Emília, enervada com a bestialidade humana, resolve acabar com a Segunda Guerra Mundial. Usando o pó do pirlimpimpin, ela se transporta para a casa das chaves. Sim, porque todas as coisas do mundo têm uma chave, como a chave da eletricidade, e alguém tinha ligado a chave da guerra. . Emília inventou de fechá-la. Mas chegando lá deu com uma sala cheia de chaves sem qualquer identificação. E agora? Qual era a chave da guerra?
            Como não há como saber, Emília puxa a primeira que encontra. E encolhe. Não só ela, mas todas as pessoas do mundo. Em todo caso, acaba-se a guerra. Como iriam continuar os homens guerreando se ficaram menores que formigas? Claro que no final tudo volta ao normal, mas as quase 200 páginas do livro são um grande discurso contra o totalitarismo. Nesse livro Lobato deixa claro sua esperança num mundo melhor. Sua esperança estava nas crianças.
            Até aí nada de realmente estranho. A ditadura militar de 64 vivia propagando que as crianças e os jovens eram o futuro do país. A diferença é que Lobato não achava que as crianças fossem o futuro, mas sim o presente. Os livros do Sítio são os primeiros publicados no Brasil em que as crianças têm voz ativa e liberdade de ação. Pedrinho, Narizinho e Emília (que, embora fosse uma boneca, representava as crianças) não esperam crescer para tomar opiniões a respeito do mundo ou para agir afim de transformá-lo.
            Em que outro lugar do mundo, senão no Sítio, as crianças já tiveram direito de expressão e de voto?
            Um bom exemplo disso é a maneira como é resolvida a questão do tamanho. Todo o pessoal do sítio é convocado para decidir se a humanidade volta ao tamanho normal ou continua como está. As crianças defendem a pequenês. Os adultos, a volta ao tamanho normal. Fazem o plebiscito e a pequenês perde unicamente por causa do voto do Visconde.
            Em todos os seus livros, Lobato mostra que as crianças mais abertas para as novidades, para a mudança; bem ao contrário dos adultos, que já se acostumaram com o mundo como ele está. Entretanto, são justamente as novas idéias que levam ao progresso da humanidade.
            “Os personagens foram nascendo ao sabor do acaso e sem intenções”, dizia Lobato. “Emília começou como uma feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente - cabritinho novo, aos pinotes. Teoria biológica das mutações. E foi adquirindo uma tal independência que, não sei em que livro, quando lhe perguntaram: ‘Mas que você é, afinal de contas, Emília?’, ela respondeu de queixinho empinado: ‘Sou a independência ou a morte’. E é tão independente que nem eu, seu pai, consigo dominá-la. Quando escrevo um desse livros, ela me entra nos dois dedos que batem as teclas e diz o que quer, e não o que eu quero”.

Resgate

 

Na década de 1980 houve uma onda de filmes em que um homem enfrentava um exército – uma onda que surfou no sucesso do primeiro Rambo e teve seu auge nos filmes posteriores da franquia. Mas se o primeiro tinha profundidade psicológica e sequências de ação verossímeis, muitos dos seus derivados eram difíceis de acreditar: em Rambo II, por exemplo, o protagonista vence sozinho a guerra do Vietnã lutando contra vietnamitas que, mesmo com uma metralhadora em punho, não conseguem acertar um único tiro.
Resgate, filme dirigido por Sam Hargrave com roteiro e produção dos irmãos Russo (dos filmes do Capitão América e dos Vingadores) resgata muito daquele primeiro Rambo.
Na história, graças a uma falha na segurança, o filho de um traficante é sequestrado pelo traficante rival. Sem dinheiro para pagar o resgate, o chefe da segurança contrata um grupo de especialistas liderados pelo mercenário interpretado por Chris Hemsworth. Mas, como o dinheiro da quadrilha foi confiscado pela justiça, o chefe da segurança trai o grupo de mercenários na tentativa de salvar ele mesmo o garoto – e evitar pagar pelo serviço.
Enquanto isso, o chefe do tráfego coloca toda a força policial da cidade para caçar o mercenário e o garoto.
É um filme de ação de tirar o fôlego, com perigos a cada esquina. Mas é também verossímil. Não vemos, por exemplo, a câmera nervosa de outros filmes, usada para esconder problemas de coreografia das lutas – um recurso que torna a narrativa confusa. É possível ver e entender tudo que acontece. Além disso, o mocinho não sai incólume: sofre facada, tiro, é atropelado. A impressão que se tem é de ver alguém altamente preparado, mas que não é um super-herói lutando contra indianos incapazes de acertar um único tiro.
Acrescente a isso uma boa caracterização de personagens inclusive secundários, cada um com uma motivação muito clara: o chefe da segurança que precisa resgatar o garoto para que sua família não seja morta, o traficante que manda na cidade, o garoto que quer subir na cadeia do tráfico. 
Em tempo, o filme é adaptação de uma história em quadrinhos ‘Ciudad’ de Ande Parks e dos irmãos Russo.
O filme é baseado na hstória em quadrinhos Ciudad.

Tropa Alfa – Ouro e casos de amor

 


Um dos casais mais curiosos e extravagantes dos quadrinhos de super-heróis são dois membros da Tropa Alfa, Sasquatcht e Aurora.

O relacionamento desses dois personagens é explorado nos números 20 e 21 da série. É nessa história, inclusive, que Aurora estreia seu novo uniforme e o cabelo curto (pessoalmente, achei o uniforme genérico e muito parecido, por exemplo, com o de Talismã, outra heroína do grupo).

O novo uniforme de Aurora. 


O casal vai a uma ilha deserta onde se encontra uma mansão herdada por Walter e onde eles pretendem instalar uma base da Tropa. “Foi construída em 1896 por uma tia-avó da minha mãe. Ela era uma figura e tanto. Casou-se oito ou nove vezes, viuvou cada uma delas sob circunstâncias misteriosas. Sempre foi diferente do resto da família”.

Mas, durante a visita, Sasquatcht some e Aurora se vê em um local totalmente escuro. Não há nenhuma explicação para toda essa escuridão, de modo que desconfio que era só uma desculpa para Byrne duas páginas com quadros totalmente pretos (vale lembrar que na mesma época ele cuidava dos desenhos e roteiros do título do Quarteto Fantástico) nos quais Aurora fala, fala, fala sem parar.

Quadros pretos com diálogos: menos trabalho para Byrne. 


 Por mais que heróis na época tivessem essa mania estranha de falarem sozinhos, aqui nitidamente há um exagero. A situação se justifica em parte, pelo fato da personagem mudar de personalidade no meio da sequência, o que se reflete em sua fala. É um bom recurso, embora exagerado, ainda mais pelo fato de que não existe nenhuma razão real para a personagem estar no escuro total.

A heroína acaba encontrando com uma personagem chamada Lírio Dourado e a galeria de maridos da mesma, transformados em estátuas de ouro. Aliás, ela acaba descobrindo que também Sasquatcht, em sua identidade secreta, foi transformado em ouro.

Uma galeria de estatuas douradas? 


A capa do número seguinte mostrava Sasquatcht e Aurora enfrentando Diablo, um antigo vilão do Quarteto Fantástico, o que era um tremenda enganação, já que o personagem aparece na história apenas em flash back, pois ele era o amante da Lírio Dourado e quem a iniciou nas ciências do mal. Essa capa enganação, uma forma descarada de vincular a Tropa Alfa ao Quarteto, talvez fosse uma antecipação do que Byrne faria, lá na frente com a Mulher Hulk.  

Há um recurso interessante usado no flash back que é o fato de jamais vermos o rosto da vilã, o que cria suspense e abre caminho para a reviravolta final.

 

O rosto da vilã nunca é revelado. 

Uma curiosidade dessa história é que aqui Byrne conta com a arte-final de Keith Williams. Como na época ele estava bastante atarefado, cuidando de mais uma série, deve ter chegado um ponto em que ele não conseguiu continuar fazendo tudo na Tropa Alfa.

Supremo – Oculto pelas nuvens

 

A história é uma crítica de Moore à postura revisionista dos super-heróis. 

Na década de 1990, era famosa a rixa entre os escritores britânicos Alan Moore e Grant Morrison. Uma rixa unilateral, já que os ataques vinham mais da parte de Morrison. No entanto, na terceira história de sua versão de Supremo (publicada no número 43 da revista) Moore resolveu aproveitar que o protagonista era um desenhista de quadrinhos para dar uma resposta.

Na página de abertura, vemos um trecho do personagem Omniman, desenhado por Ethan Crane (o alter-ego do Supremo), com o herói em primeiro plano, arrancando o próprio coração, enquanto um ser monstruoso se aproxima em segundo plano. “Você nunca vai me matar de verdade”, diz o herói. “Da mesma forma que não conseguiu matar Jean Genet, Isidore Ducasse ou Mallarmé! Não enquanto eu puder... unngghhh... arrancar meu próprio coração como um manifesto final que justapõe a arte, o misticismo e o absurdismo!”.

O escritor Bill Friday é uma referência ao roteirista Grant Morrison. 


Era uma forma ácida de dizer que Morrison colocava referências aleatórias a artistas apenas para parecer intelectual e "descolado", por mais que essas referências não contribuíssem em nada para a trama.

Mas o escritor Bill Friday (o personagem que representa Morrison) acha o resultado genial: “Há uma mensagem importante nas palavras aqui e você pegou a ideia”. Em seguida, ele explica que está acabando com toda a mitologia de Omniman.

A história flash back é um passeio pela Cidadela Suprema. 


A sequência também é uma crítica à postura revisionista da década de 1990, que pretendia acabar com todas as mitologias dos personagens, surgidas na Era de Prata, em benefício de uma visão mais “adulta”. Vale lembrar que isso também foi feito pela DC no cinema e foi um desastre, de forma que personagens como o Superman só voltaram a fazer sucesso quando suas mitologias foram resgatadas, já na era James Gunn. Ou seja: mais uma vez, Moore tinha razão.

Além da crítica, a revista se destaca pela HQ flashback, desenhada por Rick Veitch e intitulada A charada do castelo das nuvens. Na trama, Supremo leva Jonas e Judy, seus parceiros jornalistas, para a Cidadela Suprema, escondida no meio das nuvens. Chegando lá, porém, encontram as portas abertas e um bilhete. Ou seja: alguém invadiu o local. A história reflete diretamente as HQs do Superman da Era de Prata, nas quais tudo era desculpa para mostrar em detalhes a Fortaleza da Solidão.

O local foi invadido. Quem é o responsável? 


O local inclui uma dimensão espelhada, onde ficam presos os inimigos do Supremo, entre eles o Supremo Sombrio, com a imagem em negativo, além de um zoológico de criaturas lendárias, incluindo Medusas, dragões e uma bela anjo Luriel. “Poderia ter acontecido algo entre nós no passado, mas Luriel nem existe nesta realidade. Nunca poderia acontecer”.

Passam também pela galeria dos aliados, heróis da Segunda Guerra Mundial, incluindo outra personagem de Rob Liefeld, Glory, para a qual Moore criou uma série fantástica que, infelizmente, ficou inacabada, mas serviu de base para Promethea.

A HQ serve para mostrar a mitologia do personagem. 


No final, a solução para o invasor da cidadela é infantil e, ao mesmo tempo, inteligente.

É sintomático que Alan Moore tenha colocado essa história, que explora toda a mitologia do personagem, exatamente no número em que começa criticando a tendência revisionista e realista dos super-heróis, que inclui apagar toda a sua mitologia. Era uma declaração de princípios.



Em tempo: Na contramão do conteúdo, Rob Liefeld deixou de colocar na capa ilustrações de Joe Bennett emulando quadrinhos clássicos, substituindo-as por pavorosas imagens de Stephen Platt no pior estilo Image.

Perry Rhodan – A morte da Terra

 


A morte da Terra, volume 49 de Perry Rhodan, é o fechamento do primeiro ciclo de aventuras do personagem e, portanto, o ponto alto, no qual se resolvem alguns dos maiores conflitos das primeiras histórias.

Na trama, saltadores, superpesados e aras decretam o fim do planeta Terra, mas Rhodan estabelece um ardil: mudar os dados de navegação da única nave que contém essa informação, fazendo com que o ataque aconteça no terceiro planeta do sistema Beta.

Para dar credibilidade a essa versão, duas naves terrenas são enviadas para o local, mas acabam descobrindo que o quarto planeta contém uma base dos tópsidas, antigos inimigos de Rhodan. O que deveria ser um problema vira a parte mais genial do plano: eles conseguem convencer os répteis de que os mercadores cósmicos pretendem na verdade atacar a base instalada no quarto planeta. Ou seja: colocam os principais inimigos do primeiro ciclo em rota de colisão.



É exatamente isso que acontece em A morte da terra: a luta entre saltadores e tópsidas, que terminará com a destruição do terceiro planeta. Mas há um problema: um dos superpesados já visitou os sistema solar e pode revelar aos outros que o ataque é um engano.

Esse é o fio condutor do enredo: o leitor nunca sabe se Topthor conseguirá fazer sua revelação. Isso inclusive gera diversas ocasiões de suspense.

O livro é escrito por Clark Darlton, que, embora não seja tão bom quanto K. H. Scheer na descrição de batalhas, é alguém que sabe lidar com o suspense. O resultado é um livro com alto nível, digno de fechar um ciclo.

Entrentanto, para quem leu todos os volumes, fica óbvio que vários ganchos lançados no volume 46, escrito por Kurt Brand, ficaram como pontas sotas. Nãos sabemos, por exemplo, quem era o traidor na nave de Talamon. Como o autor da sinopse dos volumes era K. H. Scheer, um autor detalhista, é possível que esses ganchos não estivessem na sinopse e tenham introduzidos por Brand, que se esqueceu de solucioná-los no próprio volume.

quinta-feira, abril 16, 2026

O Homem-Animal

 


Homem-animal foi um super-herói secundário criado na década de 1960 na revista Strange Adventures. Depois de criado, passou anos no limbo até ser resgatado e se tornar um dos quadrinhos mais importantes e revolucionários da década de 1980. O responsável por isso foi um escritor escocês denominado Grant Morrison.
Morrison foi para a DC em 1987. Na época, Alan Moore havia transformado o Monstro do Pântano de uma revista prestes a ser cancelada em um campeão de público e crítica. E a DC despachou editores para a Grã-Bretanha em busca de outros talentos no que viria a ser conhecida como invasão britânica dos comics americanos.
Morrisson, que já vinha se destacando por alguns trabalhos inovadores, como Zenith, foi um dos convidados, mas não tinha a menor ideia de que personagem pegar. A DC não pretendia colocar suas galinhas dos ovos de ouro, como Super-homem e Batman nas mãos de desconhecidos, então só restavam os secundários.
Morrison lembrou-se do Homem-animal, um herói desconhecido e pouco explorado e percebeu que havia potencial ali. E bolou a história de um super-herói de terceira, casado, com filhos, desempregado, que se envolve na defesa dos direitos dos animais.
Na primeira saga, o herói é chamado pelo diretor de um instituto de pesquisas para investigar uma invasão e acaba descobrindo que no local são feitas experiências científicas cruéis com animais.
O trabalho revolucionário de Morrison na série já ficava óbvio no início do terceiro número quando o herói, após perder o braço, consegue acessar uma minhoca e usar sua habilidade de regeneração para fazer nascer um novo braço. Ali ficava claro que a abordagem da série seria totalmente radical e original.
A ideia era fazer uma minissérie em quatro capítulos, mas os editores gostaram do resultado e pediram que a história fosse transformada em uma revista mensal.
Morrison não sabia o que fazer e foi salvo por uma história singela, mas revolucionária, que marcou os quadrinhos da época: O evangelho do Coiote.
A história mostrava o Coiote das histórias do Papa-léguas caindo no deserto e sendo perseguido por um caminhoneiro que acredita que ele é um demônio. Como nos desenhos animados, nada é capaz de matá-lo, nem mesmo tiros, pedras imensas ou quedas. Mas ele sofre cada pseudo-morte, cada dor.
No final, o Coiote entrega ao herói um manuscrito, o “Evangelho segundo o Ardiloso” (ou o Evangelho do Coiote). O que se segue é uma narrativa de fábula sobre um mundo de desenho animado, em que animais matavam animais em mortes cruéis e sem sentido.
Cansado disso, o Coiote vai até Deus, representado como um desenhista. “Deus” decide que manterá os animais em paz, mas em punição o Coiote será transportado para nossa realidade, onde deveria morrer de formas terríveis e dolorosas e sempre voltar. O final, igualmente metalinguístico, mostrava uma mão pintando o último quadro.
A história foi revolucionária ao mesclar o contexto realista comum na época (as mortes do coiote são descritas de maneira extremamente detalhada) com a metalinguagem.
Isso, em conjunto com a questão da defesa dos animais, deu o tom da série e transformou o antes desconhecido Homem-animal em um dos heróis mais queridos da DC Comics (contribuiu também as fantásticas capas de Brian Bolland para a revista).

Monteiro Lobato: O Sítio Do Pica Pau Amarelo

 


            O primeiro livro de Lobato para crianças foi lançado em 1921 e chamava-se Narizinho Arrebitado. Teve a tiragem monstra de 50 mil exemplares. E vendeu tudo. Antes disso praticamente não havia livros para crianças. Quando ele mesmo era pequeno, as leituras se restringiam a dois álbuns coloridos, Menino Verde e João Felpudo. “Pobres crianças daquele tempo! Não tinham nada para ler”, admitia.
            Os livros que exitiam eram cheios de “literatura”, que certamente não agradava Lobato. Ao invés de se dizer céu azul, dizia-se céu azul turqueza, ou cerlea abobada celeste.
            Embora os primeiros livros infantis de Lobato fosse cheios de “literatura”, o escritor foi salvo pelas crianças: “de tanto escrever para elas, simplifiquei-me, aproximei-me do certo (que é o claro, transparente como o céu)”.
            Até meados da década de 20, Lobato ainda não se decidira a realizar a grande obra que viria a ser o Sítio. Mas tinha uma coceiras: “Ando com idéias de entrar por esse caminho: livros para crianças. De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para as crianças um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do Robinson Crusoe do Laemmert. Ainda acabo fazendo livros onde nossas crianças possam morar, como morei no Robinson e n’Os Filhos do Capitão Grant”.
            Coçou-se em 1934. Foi quando a editora Nacional lançou Reinações de Narizinho, reunindo num só volume todas as histórias pequenas do sítio que já haviam sido publicadas. Lobato fez os ajustes, revisou, e entusiasmou-se: “Estou gostando tanto que brigarei com quem não gostar”. E começou a vir a idéia de transformar o Sítio numa série contínua, um “rocambole infantil”, como ele chamava. Os rocamboles eram romances franceses, famosos por estender a história por volumes e mais volumes.
            O escritor pretendia levar a turma do sítio para uma viagem ao céu e se ria, imaginando a tia Nastácia metida no embrulho, sem nada entender.
            Mas Lobato ainda estava envolvido com o petróleo, andava entretido com as gentes grandes. Quando foi preso, desistiu delas. Voltou-se completamente para os pequenos.
            Publicou, então, dezenas de livros. Entre eles, História do Mundo para Crianças, que fez com que um padreco da década de 50 acusasse Lobato de comunista. Tudo isso porque o livro explicava o surgimento do universo e da espécie humana segundo os conceitos científicos. Para o venerável sacerdote, dizer que o homem que conhecemos hoje é resultado de uma evolução milenar era sinônimo de comunismo. O sacerdote também achava comunista e anti-cristão o fato das histórias de Lobato não terem lição de moral..

 


No primeiro semestre de 2025 eu percorri três municípios do Amapá (Macapá, Santana e Mazagão) ministrando cursos de roteiro para audiovisual em um projeto aprovado via Lei Paulo Gustavo. Essa experiência, incluindo as questões levantadas pelos alunos, me estimularam a produzir uma apostila que foi aumentando de tamanho a cada curso ministrado. No final, percebi que tinha aquele material poderia ajudar outras pessoas interessadas em produzir roteiros para audiovisual, daí surgiu a ideia do livro lançado pela Marca de Fantasia. Embora seja um manual objetivo e prático, ele também é também bastante completo, incluindo assuntos que vão da criação de personagens à estruturas narrativas, incluindo dicas de produção, como otimização de cenários. 

O livro é gratuito e pode ser baixado no site da Marca de Fantasia.

Adeus, minha rainha

 

O filme francês Adeus minha rainha, dirigido por Benoît Jacquot e lançado aqui no Brasil pela Amazon Prime é um ótimo contraponto ao seriado Versailles, da Netflix.
Se Versailles mostra a monarquia absolutista no seu auge, representado pela construção do palácio que se tornaria o mais luxuoso da época, o filme de Jacquot se debruça sobre a decadência dessa mesma monarquia. Decadência refletida inclusive no próprio palácio.
Isso, aliás, é simbolizado na primeira cena, quando a protagonista acorda, descabelada, maltrapilha, coçando-se. Ali já temos outra grande diferença com relação à série: enquanto Versailles era focada no rei e na rainha, Adeus minha rainha é focado numa criada que lê para a rainha. A derrocada da realeza é mostrada do ponto de vista dessa menina, que cultiva um amor platônico por Maria Antonieta.
Assim, os principais acontecimentos iniciais da revolução francesa revelam-se pelo olhar dela, um olhar furtivo, como na vez em que ela e uma amiga se espremem numa janela para ver o rei e seus ministros. É algo que uma criada vê, um boato, um panfleto que chega às suas mãos.
Em Paris, o povo toma a bastilha. No palácio, os nobres em pânico passam a noite acordados, criados fogem com relógios de ouro, ratos mortos flutuam no lago. E uma lista de nobres que devem ser guilhotinados, encabeçada por Maria Antonieta e sua amante, a Duquesa de Polignac circula pelos corredores.
O filme talvez decepcione alguns por não mostrar de fato nenhum dos grandes eventos da época, já que sua proposta é focar apenas no que a jovem criada vê, mas não deixa de ser uma perspectiva interessante.
Um enredo como esse exige uma artista de peso e Léa Hélène Seydoux cumpre bem o seu papel, representando bem a paixão da criada pela rainha até mesmo quando isso pode colocar sua vida em risco.
De estranho mesmo só a direção repleta de zoons, que foram muito populares na década de 70, mas não são usados há pelo menos 20 anos. 

ROM contra Firefall

 


Embora a revista do ROM estivesse agradando principalmente graças à mitologia criada para ele por Bill Mantlo e pela personalidade nobre do protagonista, faltava um antagonista à altura para o herói. Até então, ele enfretara, basicamente, soldados humanos manipulados pelos espectros.

Esse adversário à altura surge no terceiro número da revista (embora o confronto entre os dois só aconteça de fato na quarta edição).

Quanto mais usa seus poderes, mais Archie se une à armadura. 


Na edição anterior, ROM havia invadido um laboratório para caçar espectros e lá dera com uma quadrilha liderada por um veterano da guerra da Coréia chamado Archie Strike. Achando que ROM estava matando humanos, Archie jura detê-lo. Os espectros se aproveitam disso e o convencem a vestir a armadura de um dos cavaleiros espaciais morto por eles e assim o personagem se torna o vilão Firefall, alguém com poderes equivalente ao protagonista e perfeitamente capaz de derrotá-lo. O que ele não sabe é que no processo ele se tornou também parte da armadura, perdendo sua humanidade.

Uma trama paralela mostra Brandy Clark sendo sequestrada pelos spectros.  


A história segue o clima Marvel, com um vilão que não é exatamente vilão e que acredita estar fazendo o certo. Algo muito distantes dos ensandecidos vilões clássicos dos quadrinhos, muitos dos quais diziam abertamente que eram malvados. Sinal direto da complexidade das histórias e dos personagens.

Karas, o primeiro a usar a armadura de Firefall, era o melhor amigo de ROM. 


Uma das sequências, em que ROM avança na direção de um labarotório secreto dos espectos é um exemplo da qualidade do texto de Bill Mantlo: “Ele sente o frio subterrâneo agarrando, com dedos gélidos, a armadura ciborgue dele. O próprio subterrâneo da terra foi corrompido. Ele vê a luz nas trevas... luz fria acenando com ódio! A luz também foi corrompida!”. Sequências como essa fizeram com que Rom, um personagem baseado num boneco tosco, se tornasse um dos heróis mais queridos a Marvel.

A origem do livro Cabanagem

 


A ideia para o livro Cabanagem surgiu de uma conversa com o amigo José Ricardo Smith.
Ele me apresentou algumas moedas feitas pelos cabanos (na verdade, moedas da regência “carimbadas” com novos dizeres) e comentou sobre o quanto essa revolta tinha se alastrado pela Amazônia. E no final perguntou: “Por que você não faz um livro sobre a cabanagem no Amapá?”.
Eu nunca tinha ouvido falar que a cabanagem tivesse chegado ao Amapá, mas ao pesquisar, acabei descobrindo que ela se alastrou pela Amazônia praticamente inteira. E os cabanos usavam para isso canoas, na maioria das vezes amarradas umas às outras, que impulsionadas por braços fortes de índios, negros e mestiços, atravessavam rápidas os igarapés da região.
Eu comprei livros, baixei teses, artigos, li muito sobre o assunto, mas a ideia de fazer um livro histórico não me agradava.
Eu queria fazer uma obra de fantasia histórica, um gênero em que o fantástico se mescla aos acontecimentos reais.
Jorge Luís Borges dizia que o estilo do escritor consiste, basicamente, na repetição de temas. Os temas preferidos de Borges eram espelhos, tigres, espadas e mensagens cifradas. A maioria de seus textos tem pelo menos um desses elementos, muitos têm todos.
O que Borges talvez tenha percebido é que, por alguma razão, as histórias só funcionam para escritores se tiverem aqueles elementos que fazem parte do seu estilo.
Assim, a trama de Cabanagem só se estabeleceu quando consegui descobrir uma maneira de colocar nela um psicopata. Meus dois outros livros, Galeão e O uivo da górgona, têm psicopatas assassinos.
A partir desse plot básico (um grupo de cabanos fugindo e sendo perseguidos por soldados chefiados por um psicopata assassino) a história se firmou. Também se tornou mais fácil incluir um outro elemento que me é muito caro: os mitos amazônicos. E se essas lendas tomassem partido de um lado ou do outro do conflito?
Assim surgiu o meu livro Cabanagem. 

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Creepshow

 

Em 1982 dois grandes mestres do horror, o escritor Stephen King e o cineasta George Romero se reuniram para fazer uma homenagem aos quadrinhos da EC Comics. O filme se chamou Creepshow e fez tanto sucesso que teve duas continuações.

Já que se tratava de um filme para homenagear os quadrinhos, por que não transfomar o roteiro em um gibi? Para isso foi chamado um dos desenhistas mais importantes da época, Bernie Wrightson, cujo personagem Monstro do Pântano, criado em parceria com Len Wein, havia sido um dos marcos do terror na década de 1970. Para fazer a capa contrataram um velho mestre da própria EC, Jack Kamen. Aliás, a própria capa já dá o tom da publicação: um garoto lê um exemplar de uma revista de terror enquanto uma figura cadavérica o observa pela janela. Nas paredes, cartazes de filmes de terror: Carrie, Despertar dos Mortos e O iluminado. Aliás, o cartaz do Iluminado é um curiosidade, já que King sempre odiou o filme – talvez Kamen tenha feito a homenagem sem saber disso.

O resultado é bastante divertido, especialmente para aqueles que leram os quadrinhos da EC. King em seu texto satiriza o estilo da EC, inclusive com o apresentador comentando a história e fazendo seus inevitáveis trocadilhos. Bernie Wrightson é Bernie Wrightson e, embora esse não seja seu melhor trabalho (só eu acho que o traço dele fica melhor em PB?), não decepciona.

As histórias seguem a linha do escatológico. 

As histórias são irregulares, primando muito mais pelo escatológico do que para o horror psicológico – que era uma das grandes características da EC. Também é raro encontrar nas histórias a ironia do destino comum em histórias da EC.

King nitidamente volta ao seu tempo de criança nessa homenagem à EC, mas também parece escrever as histórias com um olhar de criança, que não conseguia ver com profundidade as narrativas de terror de revistas como Tales from the Crypt.

Indo com a maré - uma ideia desperdiçada. 

Algumas histórias parecem uma boa ideia desperdiçada, como o caso de “Indo com a Maré”, em que um marido ciumento enterra o amante de sua esposa na beira da praia, deixando apenas sua cabeça do lado de fora. Se fosse uma história da EC, toda a narrativa se concentraria na agonia do homem, que sabe que irá se afogar quando a maré encher. Mas King estica a narrativa para mostrar os dois amantes voltando do mundo dos mortos para se vingar do esposo ciumento – um ponto da história totalmente descartável, que foge do ritmo narrativo já estabelecido na história e serve apenas apenas para aumentar a escatologia da HQ.

Nesse sentido, “Vingança barata” talvez seja o que mais se aproxima do que seria uma história EC Comics. Havia um padrão de histórias EC sobre pessoas com TOC, como do homem que comete um assassinato e passa tanto tempo limpando a cena do crime e de forma tão obsessiva que quando a polícia chega ao local ele ainda está lá, limpando digitais. “Vingança barata” mostra um magnata fanático por limpeza que de repente vê seu apartamento ser dominado por baratas.

Vingança barata: no estilo da EC Comics.

King se destacou por conseguir levar o estilo dos quadrinhos EC para a literatura, criando narrativas envolventes que se aprofundam na psicologia dos personagens. É uma pena que quando ele tentou levar isso de volta para os quadrinhos não tenha mantido o mesmo nível. Ainda assim, Creepshow é um álbum divertido e a edição da DarkSide é caprichada, em capa dura, papel de boa qualidade, boa impressão e só peca pela total ausência de textos explicativos.