segunda-feira, julho 20, 2026

Estúdio Maurício de Sousa Produções

 


Em 2010 eu fui um dos convidados para participar do álbum MSP+50 em homenagem aos 50 anos de Maurício de Sousa. Foi um verdadeiro sonho trabalhar com um personagem do Maurício, meu ídolo desde a infância. Aproveitamos para ir para São Paulo, eu, o desenhista da minha história, JJ Marreiro e o amigo Antonio Eder, que também participou do álbum. E fomos convidados a conhecer o estúdio do Maurício, uma verdadeira fábrica de sonhos, um local onde são feitas as histórias em quadrinhos, os desenhos animados e criados os materiais de licenciamento. Fomos ciceroneados pelo amigo Sidney Gusman, editor do Maurício e pelo próprio Maurício, uma das pessoas mais simpáticas que já conheci no meio. Compartilho com vocês um pouco dessa visita.

O local onde é feita a dublagem dos desenhos animados. 

Estúdio de animação. 

O salão onde ficam os desenhistas. 

Bonecos dos personagens MSP.

Sidney Guman nos mostrando uma das tiras mais antigas do Astronauta. 

Na sala do roteirista Flávio Teixeira, responsável pela maioria das sátiras de filmes. 

Sidney Guman mostrando a mesa do Maurício: ele desenha até durante as reuniões. 

A sala do Maurício. 

Até os elevadores são caracterizados. 


Demolidor – O homem sem medo

 

 

A infância de Matt Murdock é um dos momentos mais importantes da história do Demolidor, mas também um dos menos explorados. Antes de Frank Miller, o que existia, era, essencialmente, a versão de Stan Lee e Bill Everett. Miller inovou, por exemplo, ao mostrar que o garoto teve um mestre, Stick, mas ali pela década de 1990 ele achou que era hora de explicar melhor como Matt Murdock virou o Demolidor, da mesma forma que já havia feito no Batman. O resultado, um verdadeiro Demolidor ano 1, foi a minissérie Demolidor – homem sem medo, publicada em 1991, com desenhos de John Romita Jr e Al Williamson.

Na história, Matt Murdock oscila entre a obediência ao pai e a vontade de realizar traquinagens – e resolve o conflito usando uma máscara. Assim, por exemplo, o vemos, na sequência inicial, roubando o cassetete de um policial por pura brincadeira, o mesmo policial que pouco antes estava dizendo para os garotos: “Por que vocês não são como o filho de Murdock? Ele nunca causa problemas...”.

A história começa com uma traquinagem do garoto Matt. 


Na história descobrimos também que o pai de Matt era, a contragosto, um capanga do mafioso chamado Manipulador, providenciando para que todos os comerciantes locais pagassem proteção.

Fortemente influenciado por Jack Kirby, John Romita Jr usa com perfeição quadros de impacto, a começar pela imagem de Matt Murdock após o acidente que o deixou cego, as feições infantis, a expressão de desalento.

A sequência do acidente é recontada. 


Em contraste, ainda no primeiro número, temos uma página dupla do jovem Murdock, já depois de treinado por Stick, percorrendo os telhados da cozinha do inferno em uma cena grandiosa.

Talvez o aspecto mais interessante da série seja a parte focada em Elektra, uma personagem pela qual Miller nitidamente era apaixonado e que se tornou um ponto fulcral da série ao se tornar uma mistura de heroína e vilã. A história mostra como ela e Matt Murdock se conheceram, a forma irresponsável e atrevida como Elektra vivia e a forma como ela manipulou o rapaz para se aproximar dele.

Boa parte da história é focada em Matt e Elektra. 


Mas a sequência mais impactante é aquela em que Elektra vai até o centro de Nova York e chama atenção de uma gang. “Ela não é louca. As vozes são reais”, diz o texto. “As vozes lhe falam de seu destino. Elektra não aprecia esse destino... mas elas fazem algo com sua mente, algo que a jovem mal pode controlar. Por isso ela escolhe as vítimas”. Estava ali, em toda a sua essência, a assassina comandada por forças das trevas, a mulher que oscila entre o amor por Matt Murdock e a necessidade de matar.

Elektra precisa matar. 


A série também nos mostra como o Rei chegou ao controle do crime organizado e como ele estabeleceu uma rede de sequestro de crianças para filmes sexuais – o que nos dá uma sequência eletrizante quando o Demolidor, ainda sem uniforme e usando apenas roupa e máscara preta, vai salvá-las.

O herói, ainda sem uniforme, salva crianças: sequência eletrizante. 


A união de Miller e Romitinha fez com que essa série se tornasse um clássico obrigatório para os fãs do Demolidor, tão relevante que nitidamente serviu de base para a série da Netflix (série, aliás, que não conseguiu manter o mesmo nível de qualidade).

Perry Rhodan 90 – Atlan em perigo

 

 


O número 90 da série Perry Rhodan é uma continuação direta do número anterior, inclusive escrita pelo mesmo autor, Kurt Brand. Em A grande hora de Gucky, um patriarca saltador, influenciado pelo filho de Rhodan, Thomas Cardif, tenta tomar o poder no Império Solar. Mas, quando descobre que o computador regente de Árcon perdeu o poder para Atlan, resolve ir atrás do prêmio maior, afinal, o império arcônida é o maior conhecido na galáxia.

O volume tem partes interessantes, como por exemplo, introduzir um novo tipo de mutante, os parasenstivos, cujo primeiro exemplo é um preguiçoso agente do governo: “No caso, de Lemmon (o parasentido) era a capacidade de classificar à primeira vista as notícias recebidas segundo sua importância”.

O volume também se destaca por trazer detalhes até então não conhecidos sobre os mercadores galácticos, como o fato de nascerem e morrerem dentro de naves espaciais.

A capa alemã. 


Confesso que ao ler essa informação, primeira referência ao nascimento de saltadores, fiquei me perguntando como era o processo de procriação, já que até então, embora os saltadores já tivesse aparecido em dezenas de livros, nunca aparecera uma fêmea nas histórias, nem mesmo como uma referencia ocasional. Aparentemente, apesar de terem pensado em muitos detalhes sobre os saltadores, nenhum dos autores pensou em introduzir uma personagem feminina.

Além desses detalhes culturais, Brand introduz parágrafos e mais parágrafos desnecessários, alguns deles resumindo fatos que haviam sido mostrados nesse mesmo volume, além de reflexões óbvias para quem estava lendo a história, como: “Entretanto, no momento, o poder do Império Arcônida andava um tanto abalado e, por conseguinte, caso Árcon ruísse, desmoronaria também o Império Solar”. 

Na trama, Rhodan precisa ajudar o amigo Atlan a se livrar da revolução que surge a partir da revelação de quem realmente está mandando no Império Arcônida. Para isso ele elabora um plano ousado envolvendo os druufs que não haviam sido destruídos, mas também não tinha conseguido voltar para seu plano temporal. A ideia é usá-los para convencer os saltadores de uma invasão.

Há algo que me incomoda, pelo menos nesse ciclo: o fato dos geniais planos de Rhodan darem sempre errado e no entanto o resultado ser sempre positivo – e é isso que acontece aqui.

Para uma trama que prometia tanto, esse é um livro no máximo mediano.

Tempestade e a claustrofobia

 

 


A primeira vez que vi uma história dos X-men foi em Almanaque Marvel 10, da editora RGE. Um colega tinha levado a revista para a escola e me emprestou, mas queria de volta. Devorei a revista no horário do recreio.
Na história, os X-men vão passar férias no castelo de Banshee na Irlanda e lá são surpreendidos pelo primo de Banshee, Black Tom Cassidy, que se aliou com o Fanático para destruir os mutantes.
O que mais me chamou atenção na história, na época, foi a reação de Ororo. Ao entrar no castelo ela se sente claustrofóbica e, paralisada pela sensação, ela fica incapaz de ajudar os amigos, massacrados pelo irrefreável Fanático.
A imagem que me impressionou à época: Ororo paralisada pelo medo. 


A splash page com ela em primeiro plano, em um grito suspenso, as mãos sobre o rosto em pânico, enquanto, ao fundo, Fanático derruba Colossus, Wolverine e Noturno, foi de um impacto tremendo para mim na época.
Enquanto a batalha ocorre, embarcamos num flash back que não só conta a história de Tempestade, como explica a origem de sua fobia – quando criança, sua casa foi atingida por um avião, ela ficou soterrada e seus pais morreram.
Um flash back conta a origem de Tempestade... 



Aquela aventura não era só sobre heróis uniformizados trocando socos. Era, essencialmente, um conflito psicológico, era sobre a odisseia de Ororo para vencer os seus medos mais profundos para conseguir salvar seus amigos.
... e a razão pela qual ela sofre de claustrofobia. 


Essa história, de 1976, escrita por Chris Claremont e desenhada por Dave Cockrun e publicada em X-men 102, é muito anterior à melhor fase do grupo, nas mãos de Claremont e  Byrne, mas já mostrava que aquela era uma série que logo se tornaria uma das mais revolucionárias do mercado de super-heróis.  
Essa história foi publicada pela primeira vez pela RGE. 

 

Em tempo: essa HQ foi publicada pela editora Abril em X-men Classic 2. Lida muito tempo depois, já não tinha o mesmo impacto da primeira vez, mas continuava sendo muito acima da média.

Blade Runner

 

Philip K. Dick era um cara que tinha problemas com a realidade. Ou a realidade tinha um problema com ele. O fato é que parecia haver uma desconfiança mútua e isso se reflete em todas as obras do autor. Há quase sempre um questionamento sobre o que é real.
O livro “Do Androids Dream o Eletric Sheep ?”(“ Sonham os Andróides com Ovelhas Elétricas?”, numa tradução livre), lançado em 1968, é um exemplo disso.
Nele, um ex-policial, agora um caçador de recompensas caça androides renegados para realizar seu sonho de comprar uma ovelha de verdade – no futuro descrito no livro, animais de verdade são extremamente raros e só os ricos os possuem.
O protagonista é contratado para “aposentar” seis androides modelo Os Nexus-6, tão perfeitos que é quase impossível distingui-los dos humanos normais.
Em 1982, Ridley Scott adaptou o livro para as telas sob o título de Blade Runner e tornou a discussão levantada no filme ainda mais óbvia: se androides, seres criados pelos homens são tão perfeitos a ponto de parecerem humanos reais, o que nos difere deles?
No filme, essa questão gira em torno do unicórnio, ser mitológico, que existe apenas na imaginação. Na versão do diretor a cena final, cortada na época do lançamento do livro, o unicórnio é a chave para decifrarmos que talvez o caçador de androides seja também ele um andróide.
Apesar do sucesso relativo na época, Blade Runner foi aos poucos se tornando cultuado, sendo considerado hoje em dia um dos mais importantes filmes de ficção científica de todos os tempos... e certamente um dos que melhor discutem a questão do que é real e do que é humano.

domingo, julho 19, 2026

Homem-aranha e X-men na terra selvagem

 


Para inaugurar a revista Marvel Fanfare, em 1982 a casa das ideias resgatou uma história Chris Claremont, a grande estrela da editora. Junto com John Byrne ele havia transformado os X-men, um título de segundo escalão, em campeão absoluto de vendas. Para a aventura de estreia da nova revista, foi escolhida uma história grandiosa, que unia o Homem-aranha, os X-men e Kazar, mas não tinha sido publicada na época em que deveria e estava fora da cronologia (a Marvel Fanfare havia sido criada especificamente para publicar esse tipo de história). Essa história foi publicada no Brasil em Mavel especial 6, uma revista tão valorizada que me foi roubada duas vezes (foi a partir desse primeiro roubo que comecei a assinar meus exemplares – eu levei para a escola, um amigo roubou, assinou e no dia seguinte apareceu dizendo que tinha comprado).
Na história, Tania Andersen, namorada de Karl Lykos, consegue convencer o Anjo a ir para a terra selvagem procurar por seu amado. Peter Parker vai na expedição como enviado do Clarin (impressionante a disponibilidade de JJ Jameson para pagar viagens internacionais para seus funcionários!). Lá eles se deparam com o vilão Imago e seus comparsas, que usam um aparelho para reverter evolutivamente os prisioneiros. No processo, para salvar sua namorada e os outros, Lykos acaba se transformando no vilão Sauron, um pterodátilo inteligente. 
O desenho de Golden é a grande atração da edição. 


Na segunda parte da história, os X-men enfrentam Sauron com a ajuda de Kazar.
Uma das curiosidades dessa história é que ela foi desenhada por três artistas e tudo muda de um capítulo para o outro, inclusive o ritmo narrativo. Como na Marvel os desenhistas têm mais liberdade para estabelecer a narrativa visual, o texto de Claremont vai se adaptando a cada caso.
A grande estrela dessa edição é Michael Golden, com sua diagramação inovadora e seu traço detalhista – é também quem mais perde com o formatinho. Algumas sequências, como a splash page de Kazar enfrentando o tiranossauro, são um verdadeiro espetáculo visual.Infelizmente Golden deve ter sido a razão da história não ter saído na época correta: ele era famoso por não cumprir os prazos.

Paul Smith se esmera ao desenhar a Ororo. 


A entrada de Dave Cockrum na segunda parte parece um retrocesso diante do verdadeiro espetáculo nos capítulos desenhados por Golden. Cocrkum tinha um traço mais funcional e, curiosamente, isso de alguma forma fazia com que Claremont soltasse mais o seu lado noveleiro, enchendo os balões de pensamento dos personagens, mas sem comprometer a história (futuramente Claremont transformaria essa característica num verdadeiro defeito).
A última parte é desenhada por Paul Smith com arte-final de Terry Austin e é uma volta ao deslumbre visual. A dupla se esmera especialmente ao desenhar Ororo, provavelmente para alegria de Claremont, que adorava a personagem.
No final, essa aventura na Terra selvagem é um daqueles crossover inesquecíveis, numa época em que crossover era algo extremamente raro.

Kinsey - vamos falar de sexo

 


Kinsey - vamos falar de sexo, filme de 2004, dirigido por Bill Condon, é a  cinebiografia do cientista que, no início da década de 1940 sacudiu a América ao mostrar em suas pesquisas que a variedade é mais comum que a uniformidade quando se fala em sexo. Ele entrevistou milhares de norte-americanos e descobriu números que contrariavam tudo que os moralistas diziam. Se a maioria faz uma coisa, isso não pode ser considerado errado, dizia Kinsey. 

Num país que tinha leis proibindo o sexo oral, Kinsey foi perseguido por conservadores e puritanos.

Um detalhe interessante é que o filme quase foi proibido nos EUA, justamente pelos fanáticos religiosos que haviam perseguido Kinsey.

Se há alguma lição em Kinsey é de que os censores estão sempre tentando esconder algo sobre si mesmos. Incapazes de lidar com seus desejos e impulsos, esses censores voltam-se para o externo, censurando tudo que não dominam.

Censores são sempre figuras inseguras, mas que não assumem essa insegurança. Criam para si uma máscara de auto-domínio e segurança, enquanto são açoitados por dentro pela dúvida.

Parece que figuras desse tipo são cada vez muito comuns... 

Roteiro de quarinhos - Menos é mais

 


Um sábio já dizia que escrever é cortar palavras. Em nenhum outro gênero textual isso é tão verdadeiro quanto nos roteiros para quadrinhos.

Quadrinhos são a arte da síntese. Escrever muito com pouquíssimas palavras. Tanto que muitos escritores que se aventuraram a produzir quadrinhos deram com os burros n´água.
Um dos poucos que fizeram obras-primas foi Paulo Leminiski. No começo dos anos 1980, ele escreveu algumas histórias para a editora Grafipar, de Curitiba e, mesmo poucas, entraram para a história dos quadrinhos nacionais. A razão é que Leminski vinha da publicidade, em que a síntese é essencial, e foi muito influenciado pela poesia hai-kai, também muito sintética, além de intimamente relacionada à imagem. Em outras palavras, quando foi para os quadrinhos, o poeta sabia que quadrinhos não são literatura.
Um exercício interessante é observar a evolução do texto de Stan Lee ao longo de histórias como as do Quarteto Fantástico. Nas primeiras HQs o texto parecia transbordar dos balões. Depois foram diminuindo, diminuindo e, ao mesmo tempo, tornaram-se mais poéticos, mas sensíveis. Ou seja: ao mesmo tempo em que os textos diminuíam de tamanho, iam ficando mais elaborados.
Quando comecei a escrever quadrinhos, eu logo descobri algumas dicas básicas: evita-se, por exemplo, orações subordinadas e frases que digam o que o leitor está vendo. Por que dizer “Flash, que corria velozmente, salvou a moça!”? Além de contar algo que o leitor já está vendo, o “que corria velozmente” só serve para entulhar o balão de texto. Além disso, nos quadrinhos, uma única palavra pode dizer muito.
A história Orquídea Negra, de Neil Gaiman mostra bem isso. Em uma sequência genial, o texto diz apenas: “Então o sonho me leva para longe... e/uma/vez/mais/eu/desco/ca/in/do”. Difícil não se sensibilizar com a beleza poética dessa sequência, em que o texto se une perfeitamente aos quadrinhos. Aliás, essa sequência lembra muito a poesia concreta, um movimento literário brasileiro que influenciou muito, adivinhem? Paulo Leminski.

Fundo do baú - Superamigos

 


Na década de 1970 um desenho animado fez as crianças se apaixonarem pelos heróis da DC. Criado em parceria com a Hanna Barbera, a série, baseada na Liga da Justiça, se chamava Superamigos e teve oito temporadas de muito sucesso.
O seriado tinha design do grande artista Alex Toth, o mesmo de Johnny Quest, o que garantia um visual inesquecível.
Mas se o visual era muito bom, não se podia dizer o mesmo dos roteiros. Como sua especialidade era animações humorísticas, a Hanna Barbera colocou no seriado personagens cômicos. A primeira temporada tinha Wendy, Marvin e Marvel, o supercão, que se parecia muito com o Scooby Doo. A partir da segunda temporada eles foram substituídos por uma dupla de heróis, os supergêmeos Zan e Jayna. Jayna podia se transformar em qualquer animal e Zan podia transformar-se em água em seus diversos estados e até mesmo controlar água. Com esse poder ele poderia até criar maremotos, mas na grande maioria das vezes ele só se transformava mesmo em um balde de água. Posteriormente esses personagens foram incorporados à DC Comics.
Outros heróis que surgiram nesse seriado e também acabaram incorporados foram Samurai, Chefe Apache e Eldorado.
Os heróis da Liga usados inicialmente foram Superman, Mulher-Maravilha, Aquaman, Batman e Robin. Aliás, foi graças a esse seriado que o Aquaman ganhou a sua fama de ser pouco útil. O meme dele viajando em cima de dois golfinhos surgiu num dos desenhos.
Outro destaque era a Legião do Mal, um grupo de malfeitores que se reunia num pântano para elaborar planos de dominação mundial.
Mas, apesar dos pesares, a série era diversão garantida e foi para muitos o primeiro contato com os heróis da DC.

Perry Rhodan – O atentado

 


O número 57 apresenta uma história isolada dentro da saga, quase um conto.

Escrito por Kurt Mahr, o volume é centrado em Horace O. Mullon, líder do grupo conhecido como Democratas autênticos. Ele se dirige a Terrânia com um objetivo muito claro: matar Perry Rhodan, que ele considera um ditador. Mas, antes que consiga seu objetivo, ele se depara com outro grupo, os Filósofos da Natureza, liderados por Walter Hollander, que também pretende assassinar Rhodan.

A trama gira em torno das tratativas desse plano de assassinato. Em uma narrativa paralela, o administrador do Império Solar é informado de todos os passos dos dois grupos, o que parece uma estratégia narrativa burra, já que tira todo o suspense da história, já que sabemos de antemão que o atentado irá fracassar (se bem que, qualquer leitor minimamente inteligente desconfiaria que o protagonista da série não seria morto no volume).

A capa original alemã. 


Há também uma atenção muito parca às motivações dos dois grupos. Não fica muito claro porque os democratas autênticos, que parecem um grupo bem intencionado, consideram Rhodan um ditador. Dos filósofos da natureza, temos apenas a impressão que se trata de um grupo que professa uma volta a um passado menos tecnológico, o que de fato não se bate com a realidade, já que os mesmos não fazem qualquer objeção a usar meios tecnológicos.

Essa pouca atenção às motivações e a ausência de suspense da primeira parte do volume são compensadas por um plot twist no final do primeiro ato: a história não é sobre o atentado a Rhodan, mas sobre o que acontece com as pessoas que se envolveram de alguma forma nesse atentado.

Nesse sentido, Mahr consegue escrever uma história envolvente, cheia de ação e suspense, com um final que se não chega a ser surpreendente, é, para dizer o mínimo, engenhoso.

Em outras palavras, O atentado é um daqueles livros que parecem não prometer nada, mas entregam muito.

X-men – Surge Cristal!

 


Em 1980 a Marvel resolveu lançar uma heroína disco – justamente na época em que o disco estava entrando em decadência. Para promover o novo título, os editores pediram que Chris Claremont e John Byrne introduzissem a personagem The Uncanny X-men 130. O que os dois fizeram é um ótimo exemplo de como dois gênios dos quadrinhos conseguem fazer bons trabalhos mesmo sob limitações editoriais.

A dupla estava no meio da saga da Fênix Negra e a forma encontrada de inserir a nova heróina na trama foi colocar os X-men para procurar duas novas mutantes – enquanto são caçados pelo Clube do Inferno. Kity Pride era a primeira mutante, a segunda era Cristal.

Kitty Pride tenta libertar os X-men. 


A edição começa deslumbrante desde a sensacional capa de John Romita Jr, com Cristal no centro, luzes explodindo à sua volta enquanto Cíclope, Fênix e Noturno parecem perturbados pela luminosidade. Era uma capa que por si só já faria um gibi valer a pena – tanto que foi capa de Superaventuras Marvel 26.

A trama mostra Cíclope e Fênix entrando numa danceteria à procura da nova mutante enquanto Noturno fica de guarda, do lado de fora. Noturno recebe uma ligação de Kitty Pride, que avisa que os outros X-men foram capturados.

A Fênix tem uma visão na qual se transforma na Rainha Negra. 


Lá dentro, Jean Grey tem mais uma de suas ilusões com a suposta ancestral e no final acaba beijando um homem que só conhece em sonhos.

Então aparece Cristal, em uma imagem simplesmente impressionante, uma verdadeira overdose de luzes e efeitos visuais. O texto diz: “A boate fica escura e silenciosa, então a banda começa a tocar a vigorosa introdução de uma música... e ela aparece! Uma visão prateada envolvida por um belíssimo show de luzes coloridas que mudam de cor, intensidade e posição para acompanhar suas emoções enquanto canta”.

A primeira aparição de Cristal. 

Eu lembro que vi aquilo e pensei: “Caramba! Essa personagem é simplesmente incrível!”. Depois, quando fui ler as histórias solos da heroína, descobri que os autores não conseguiam chegar nem mesmo perto da grandiosidade daquela pequena participação de Cristal na saga da Fênix Negra.  

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 26. A editora Abril aproveitou, quase sem alterações, a icônica capa de John Romita Jr fazendo com que essa edição fosse uma das mais lembradas e queridas pelos fãs.