terça-feira, maio 12, 2026
Sandman - o mestre dos sonhos
Jornada nas estrelas - Os Senhores de Triskelion
O senhores de Triskelion é um episódio da segunda tempora de Jornada nas estrelas que representa bem o lado mais despojado, divertido e trash da série clássica.
No episódio, Capitão Kir, Uhura, e Chekov vão ser transportados para uma inspeção de rotina em uma estação automática quando simplesmente desaparecem, sem explicações. Eles na verdade foram enviados para o planeta Triskelion onde se tornarão servos e serão treinados para serem gladiadores em meio a alienígenas de diversos planetas.
O figurino e algumas atuações são o trash do trash: um dos alienígenas é apenas um homem normal com trajes de homem das cavernas e dentes incômodos. As roupas são outro elemento trash: cheios de prata e cores. À certa altura é ordenado que Kirk vista uma armadura. A armadura consiste apenas em uma tira em volta do peito que não protege nada, como vemos numa cena em que o capitão é chicoteado.
Aparentemente houve uma tentativa por parte da roteirista Margaret Armen de introduzir temas sociológicos com uma cena em que os tripulantes da Enterprise são forçados a chicotear um servo negro e se recusam (lembrando que essa era a época do movimento por direitos civis dos negros e Martin Luther King havia sido assassinado um pouco antes). Há também uma cena em que Uhura aparentemente é violentada, muito mal aproveitada. Mas qualquer discussão não vai muito além disso.
O episódio acaba valendo e sendo muito divertido em decorrência exatamente das atuações exageradas (a famosa cena de Kirk recebendo um choque dos colares vem desse episódio), das lutas exageradas, das cores exageradas e do erotismo, que impregna todo o episódio.
O chamado de Cthulhu
Little Annie Fanny, de Harvey Kurtzman
![]() |
| Aninha levava os homens à loucura. |
Dylan Dog - Almanaque do Pesadelo
Almanaque do Pesadelo é uma revista da editora Mythos que reúne histórias de Dylan Dog. Para quem está acostumado com o personagem, são histórias curtas, de apenas 24 páginas (a média da revista do personagem é de 100 páginas).
Esse número, com 194 páginas, traz oito histórias, com equipes criativas diferentes. O interessante aí é observar como roteiristas diferentes e desenhistas diferentes retratam o detetive do sobrenatural.
E, embora as abordagens sejam muito diferentes, o resultado é incrivelmente equilibrado. Há histórias melhores, claro, mas nenhuma HQ é ruim.
![]() |
| O traço de Daniele Bigliardo se destaca nos closes dos personagens. |
Há artistas muito realistas, como Daniele Bigliardo, uma especialista em rosto humano, com closes muito expressivos. E há arstistas estilizados, como Piero Dall´Agnol, cuja arte final solta combina perfeitamente com a história Por um rosa, adaptação de O pequeno príncipe.
![]() |
| O traço estilizado combina bem com a adaptação de O pequeno príncipe. |
Em comum entre todas as histórias a fronteira borrada entre realidade e ficção. As histórias misturam cenas reais com sonhos, delírios e até um programa de TV. É curioso perceber como os roteiristas brincam com a percepção do leitor de maneira muito eficiente.
Numa seleção com histórias de tão alto nível é difícil escolher a melhor. Mas Call Center, de Gualdoni (roteiro) e Voltolini (desenhos) certamente entraria em qualquer seleção dos melhores.
![]() |
| Call Center, a melhor história do volume. |
Na história, uma jovem operadora de call center precisa convencer Dylan Dog a comprar um jogo de panelas. Acontece que o detetive está com a perna quebrada depois de um acidente automobilístico no qual perseguia um serial killer e precisa se levantar da cama para atender ao telefone toda vez que ele toca. Tudo funciona perfeitamente na HQ, a começar pelo humor ácido e pela visão dos call centers como um inferno.
segunda-feira, maio 11, 2026
O gládio do Gian
No extinto e saudoso fanzine IDÉIAS DE JECA-TATU eu tinha uma coluna de divulgação de outros zines intitulada GLÁDIO DO GIAN na qual eu aproveitava para brincar com as palavras, usando a rima e principalmente a aliteração.
Reparem que nos exemplos abaixo, eu sigo a ordem alfabética, começando com o A e terminando com o B:
A - Os amigos amazonenses abraçam, ainda uma vez, a almejada abandação dos artistas alternativos. Abiscoitaram a minha admiração no fluente Franca Zona. Agora dão mais alguns passos ao apogeu no angustiante Gótic. Apocalípticos é um adjetivo aplicável. A arte é de alta qualidade, assim como a narração. Mas, acalmai, amotinados! Arrisquem arremessar carta ao Daniel, que me enviou e aconselhou.
B - Babai, babacas! O belenense chiquinho acaba de bagunçar a barraca com o lançamento do bem-apessoado Ameba. O beato busca alcançar uma babel de bom-humor bestial através da bombachata das banalidades da vida belenense. O badameco desenha bem e atende no seguinte burgo...
C - O calórico Alex Santos completou 15 anos e já comprou a causa alternativa. Lançou o cândido Garotos Perdidos e cabalou importantes cabeças, como o judicioso Júlio Emílio Braz e o garboso Gian Danton. É cabido dizer que o Garoto é cádimo comumento por casqueteiros, como o cavernoso Chiquinho. Cioso, Alex conseguiu o que carecia, tomou consciência de suas capacidades e caprichou nos números mais calientes. Agora anda à cata de novos colaboradores e cismou de lançar o Garoto em off-set.
Introdução à psicologia junguiana
A obra de Carl Gustav Jung foi, durante muitos anos ignorada, ou quando muito, objeto de críticas na maioria das vezes injustas. Segundo Calvin S. Hall e Vermon J. Nordby, “a responsabilidade por isso cabe em parte ao próprio Jung. Ele foi um escritor discursivo em excesso, o que muitas vezes dificulta a acompalhar-lhe a linha de pensamento. Os seus escritos quase sempre desanimam os leitores devido à erudição que permeia tópicos com os quais poucas pessoas estão suficientemente famialirizadas”.
Para tentar resolver essa situação, os dois autores escreveram, em 1973, o livro Introdução à psicologia junguiana.
A obra, que oscila entre divulgação para o público geral e obra introdutória para psicólogos, se diferencia por não focar apenas em temas atualmente mais populares da teoria de Jung, mas também explorar temas mais difíceis.
O livro começa com uma breve biografia do autor – e com o alerta de que essa biografia foi fundamental para a elaboração de suas teorias.
Jung era filho de um pastor suíço e desde muito pequeno demonstrou grande interesse por assuntos religiosos. Mas sempre que questionava algum preceito religioso, recebia do pai, invariavelmente a mesma resposta: “Deve-se acreditar e ter fé”. A contraposição a esse ponto de vista ajudou a moldar sua personalidade. Apesar de ser o mais pobre do colégio onde estudava, acabou se distinguido como o primeiro da turma. Quando chegou a época de ingressar na faculdade, seus interesses eram muitos: Ciência, História, Filosofia e Arqueologia. Acabou optando pela medicina, seguindo uma tradição familiar – o avô que lhe dera o nome fora professor de Medicina na universidade onde ele iria estudar. Mas ele não seria um médico tradicional e traria para sua prática tudo aquilo que antes lhe interessava. O tema de sua tese de doutorado já revelava boa parte do caminho que iria seguir: ele fez o trabalho sobre uma médium de 15 anos que realizava sessões espíritas. Já estava ali tanto a preocupação com os aspectos psicológicos quanto com os aspectos transcendentais da experiência humana.
Jung estudou com o grande psiquiatra francês Pierre Janet e trabalhou no prestigioso Hospital Burghôlzli, o mais famoso da Europa. Mas o que viria a mudar completamente sua vida foi o encontro com Freud, em 1907. Os dois sentiram uma simpatia imediata e passaram três horas conversando na primeira vez que se encontraram. Mas a amizade entre esses dois gigantes da psicologia duraria pouco. Chegou um ponto em que a diferença entre os dois se tornaria grande demais e ambos romperam, o que levou Jung a uma forte crise, que coinscindiu com a crise da meia idade. Jung emergiu dessa crise com toda uma nova visão da mente humana e com conceitos essenciais, como o insconsciente coletivo.
O estudo do insconsciente não era novidade. Freud já havia percebido que muito de nosso comportamento era governado por motivações inconscientes. Mas a visão freudiana era estritatamente ambiental (o homem sendo resultado de traumas e eventos da infância) e particular. Jung propôs que havia um outro tipo de inconsciente, resultado da evolução e da hereditariedade. Assim, por exemplo, em algum momento da história, os seres humanos aprenderam serpentes são perigosas. Esse conhecimento foi transmitido, via inconsciente coletivo, para todas as gerações subsequentes. Assim, “um medo qualquer pode-se desenvolver com facilidade quando a predisposição para senti-lo já se encontra no inconsciente coletivo”.
Mas o inconsciente coletivo não se resume apenas a alertar os humanos para perigos físicos, como serpentes ou a escuridão. Ele é também reservatório e símbolos e arquétipos. E são também, muitas vezes, a origem de muitos complexos.
Hall e Nordby explicam esses e outros conceitos, como sincronicidade, valores psíquicos e outros, com profundidade, mas com um texto de fácil compreensão. Poderiam, talvez, acrescentar mais exemplos, o que tornaria o livro mais claro. Esse pequeno livro, de 120 páginas, pretende estimular o leitor a conhecer a obra de Jung e demonstrar que essa obra é uma “sementeira de ideias importantes, à espera de que a humanidade as reconheça”.
Demolidor contra o Sonho americano
Substituir Frank Miller no título do Demolidor parecia uma missão impossível, especialmente depois do impressionante arco A queda de Matt Murdock. Mas Ann Nocenti conseguiu isso com louvor desde sua primeira colaboração no título, publicada em Daredevil 236, com arte de Barry Windsor-Smith.
A roteirista aproveita um gancho da fase de Miller, quando o super-soldado Bazuca pira e quase destrói a cozinha do inferno, o que só não ocorre graças à intervenção do Demolidor e do Capitão América.
Um outro agente especial, Jack Hazzard, chamado de Sonho Americano, também está voltando à cozinha do inferno, onde nasceu. E seus empregadores temem que aconteça com ele o mesmo que aconteceu com Bazuca, então mandam a Viúva Negra atrás dele com a missão de matá-lo. Ao adentrar o bairro, a espiã encontra seu antigo namorado, o Demolidor, que se junta a ela.
![]() |
| O Sonho Americano é um super-soldado capaz de matar manipulando os batimentos cardíacos. |
De fato, o soldado está saindo do controle e com ele há um fator agravante: ele tem o poder de provocar ataques cardíacos.
Ann Nocenti transforma esse plot numa ode pacifista e numa crítica ao militarismo.
![]() |
| A roteirista faz uma abordagem pacifista. |
À certa altura, Hazzard volta para casa, onde sua mãe lhe apresenta seu sobrinho, que tem o soldado como herói. O Sonho Americano entrega para o garoto sua arma e faz um discurso enlouquecido, que mistura frases feitas de patriotismo com delírios. O final, em elipse, deixa claro que tudo começará do de novo, mas agora com o garoto.
Ao roteiro bem elaborado e fortemente crítico de Nocenti se junta o belíssimo desenho de Barry Windsor-Smith, absolutamente irretocável.
![]() |
| A Abril usou outra capa. |
No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 70. A Abril tomou a decisão de substituir a capa original Walter Simonson e Bill Sienkiewicz por uma ilustração de Barry Windsor-Smith com o Demolidor e a Viúva Negra (particularmente eu gosto mais da capa da Abril).
Elis – a cinebiografia
Elis Regina foi uma das maiores, senão a maior cantora brasileira de todos os tempos. Não admira, portanto, que houvesse interesse fazer uma cinebiografia dela, numa era em que cinebiografias de músicos proliferam.
Quem aceitou o desafio foi o diretor Hugo Prata, que escalou a atriz Andreia Horta para o papel principal, em filme lançado em 2016 e disponível atualmente na Netflix.
A película segue uma linha cronológica, começando com a chegada da cantora ao Rio de Janeiro, junto com o pai, onde tinha ido gravar seu primeiro disco. Mas ela chega exatamente quando estava se concretizando o golpe militar de 1964, o que faz com que o produtor desista de lançar qualquer coisa naquele momento.
Antes de voltar para casa, Elis participa de um teste para gravar músicas de uma peça estrelada pela musa da boça nova, Nara Leão, é rejeitada (“não queremos cantoras de churrascaria”, diz um dos avaliadores). Depois ela faz questão de ir num show da cantora, onde se espanta com o tom intimista e pouco empolgante.
Esses dois momentos são de fundamental importância narrativa. Eles demarcam a diferença de Elis com o que então era visto como música brasileira e ajudam o expectador a entender porque ela foi tão revolucionária. Elis cantava para fora, era toda expressiva, de corpo, de voz, cantava rindo, fazendo caras e caretas. Como escreve um jornalista, citado no filme, ela surge num momento em que as pessoas precisavam de expressar diante do tom de censura que se instalaria nos anos seguintes. O modo de cantar de Elis abre caminho para outras musas como Gal Costa e Rita Lee, estabelecendo as bases do que viria a ser conhecido como MPB.
Nesse sentido, a atuação de Andreia Horta contribuiu muito para que o filme demonstre a impressão correta. Embora não consiga mimetizar a voz de Elis regina (quem conseguiria?), ela imita perfeitamente as expressões, o jeito de andar, a alegria contagiante no palco.
Nas cinebiografias, um item obrigatório é construir a narrativa a partir de músicas do biografado e Hugo Prata faz isso com perfeição, ajudado principalmente pelo vasto e diversificado repertório da cantora, cujas interpretações vão do mais alegre ao mais depressivo.
Essa sincronia tem seu ápice num dos momentos mais impactantes do filme: a relação de Elis com os militares. Em turnê pela Europa, ela dissera, em entrevista coletiva, que o Brasil era governado por gorilas e que pessoas eram torturadas e desapareciam. Quando volta ao Brasil, ela é levada para um interrogatório, onde ameaçam tirar o filho dela. Depois passam a segui-la a todos os lugares.
A única forma de se livrar da perseguição, segundo os próprios militares, é cantar na Olimpíada do Exército, um gesto de submissão aos militares, o que ela faz de forma altiva. Mas aí a reação vem do extremo oposto: da esquerda. Henfil faz uma caricatura dela saindo de um túmulo e cantando para Hitler. Jovens vaiam ela a ponto de não deixá-la cantar, num espécie de cancelamento da era pré-internet. A música que ela canta durante esse festival de vaias é o tango Cabaré, cuja letra diz: “De tomara-que-caia surge a crooner do norte/Nem aplausos, nem vaias, um silêncio de morte/ Ah, quem sabe de si nesses bares escuros/Quem sabe dos outros, das grades, dos muros”. Unida à ótima interpretação da atriz, percebemos a música como uma resposta de Elis às vaias.
Em tempo, anos depois Elis e Henfil se reconciliariam quando ela grava a belíssima O bêbado e o equilibrista, que traz em sua letra o trecho “Meu Brasil!/ Que sonha com a volta do irmão do Henfil/ Com tanta gente que partiu/Num rabo de foguete”.























