terça-feira, junho 30, 2026

Hell´s angels, de Hunter Thompson

 


Em 1965 a cidade de Monterey, nos EUA, foi tomada por centenas de motoqueiros cabeludos, a maioria deles pertencente à gangue Hell´s Angels. A razão da reunião era reunir fundos para mandar para a casa da mãe o corpo de um amigo atropelado por um caminhão. O encontrou teve um tom solene que ganhou o respeito até mesmo da polícia da cidade. Os motoqueiros haviam sido recebidos com certa hospitalidade, mas essa seria a última vez em que isso aconteceria. Em 24 horas a gangue estaria no meio de uma denúncia de estupro que provocaria uma verdadeira paranóia. Em seis meses, todas as pequenas cidades norte-americanas estariam armadas até os dentes esperando a invasão dos motoqueiros.
A situação que chocou o país foi o estupro de duas garotas, de 14 e 15 anos, uma delas grávida. De acordo com os jornais, elas foram arrancadas dos braços de seus namorados e levadas para as dunas, onde seriam violentadas diversas vezes. O senador Fred Farr exigiu uma investigação e o procurador-geral Thomas C. Lynch produziu um relatório a partir de um questionário enviado a mais de 100 delegacias. A procura por esse relatório foi tão grande que tiveram que imprimir uma segunda tiragem.  O jornal New York Times produziu um extenso e tempestuoso comentário sobre o relatório. A Time trouxe na capa: “Os mais selvagens”. A Newsweek contra-atacou com a capa “Os selvagens”.
A maioria da imprensa simplesmente pulou as primeiras partes do relatório, em que se diziam que os motoqueiros acusados do estupro foram soltos por falta de provas e se concentraram nos aspectos mais sensacionalistas. Quase todos se limitaram a repassar as informações fornecidas pelas fontes oficiais e ninguém se preocupou em ouvir a versão dos motoqueiros. A revista Time chegou a inventar um caso para dramatizar a notícia.
A missão de entender o outro lado da história coube ao jornalista Hunter Thompson, que ficaria famoso ao criar o gonzo jornalismo. Hell´s angels não é uma reportagem gonzo, mas é um belo ensaio para o que viria a ser o gonzo, inclusive com um dos elementos importantes dessa variação jornalística: para cobrir o assunto, Thompson passou um ano convivendo com os motoqueiros e chegou até a comprar uma moto (como resultado acumulou uma grande quantidade de multas e foi expulso de sua casa).
A crítica à maneira como a imprensa cobriu o caso é um dos melhores momentos do livro e serviu de base para a prática posterior de Thompson, na qual ele colocou a ideia de objetividade jornalística de cabeça para baixo.
Já no primeiro capítulo, o autor pergunta-se o que as meninas faziam numa praia deserta lotada de motoqueiros e descobre que as garotas haviam passado a tarde no bar, conversando e bebendo com os motoqueiros e depois ido para a praia com eles. “Droga, aquelas garotas não foram para lá cantar uma música”, disse um dos Hells. “Elas estavam afim de agito e queriam uma sacanagenzinha, mas o problema foi que era muitos caras. No começo estava legal para elas. Depois foram chegando cada vez mais caras, se empilhando sobre as dunas”. Nesse ponto, as garotas devem ter se arrependido da aventura, mas era tarde demais.
A versão de que garotas inocentes haviam sido arrancadas dos braços de seus namorados e violentadas por bárbaros selvagens logo desmoronou.
Ao mostrar o outro lado da história, Thompson não pretendeu pintar os motoqueiros como santos. Ao contrário: os Hells Angels são vistos como foras da lei violentos, ressentidos com a sociedade: “Em um mundo cada vez mais adaptado aos especialistas, técnicos e máquinas fantásticas e complicadas, os Hell´s Angels são perdedores óbvios e isso os chateia”.
Um dos princípios básicos da gangue, inscrito no estatuto do clube, é a crença na retaliação total: “Quando pedem para você não voltar mais a um bar, você não apenas bate no dono – você volta com o seu exército e destrói o lugar, quebra a casa inteira e tudo que ela representa. Sem acordo. Se um homem se meter com você, quebre a cara dele. Se uma mulher não quiser nada com você, estupre-a”. O próprio Thompson sentiu esse princípio na prática ao levar uma surra de um grupo de motoqueiros.
Rejeitados pela sociedade e sem ter nada a mais além do companheirismo, os Hell´s Angels se agarram a isso: “A maioria dos outros são fora da lei em meio período, ao passo que os Angels cumprem o papel sete dias por semana: usam o emblema em casa, na rua, e às vezes até no trabalho. Eles vão de moto comprar um litro de leite no mercadinho do bairro. Um Angel sem o seu emblema se sente nu e vulnerável, como um cavaleiro sem armadura”.
Esse tudo ou nada se refletia até mesmo no uniforme usado por eles, pensado para criar o máximo de perigo numa atividade que, por si só, já é perigosa (dirigir motos grandes). Segundo Thompson, os Angels arriscavam a sorte até o limite: não usavam capacete, jaquetas ou calças de couro (que protegem no caso de um tombo). Eles chegavam a usar jaquetas sem manga, para aumentar o perigo: “Os Angels não querem que ninguém pense que eles estão diminuindo os riscos”.  
A chegada do bando de motoqueiros coloca em pânico os postos de gasolina e, na maioria das vezes, é mais barato fazer vista grossa e deixá-los roubar um litro de óleo do que se arriscar a ver o local destruído.
Mas o grupo também sentia um prazer perverso em ser amigável. O dono de um posto de gasolina entrevistado por Thompson lembra de uma vez em que um grupo pediu para usar o local para consertar umas motos. Amedrontado, ele disse que ficassem à vontade e saiu do lugar o mais rápido que podia. Depois de uma hora, finalmente criou coragem para voltar e descobrir se o local ainda estava de pé. Ficou estarrecido ao descobrir que o local estava impecável, mais limpo que antes. Os motoqueiros haviam chegado ao ponto de varrer o chão e limpar as ferramentas.
Esses dois lados dos Hell´s Angels só poderiam ser percebidos por alguém que convivesse com eles. A total honestidade de Hunter Thompson, ao revelar seu método de investigação, e ao mostrar até mesmo suas limitações e dificuldades (inclusive os vexames) abriram caminho para o gonzo jornalismo e para uma crítica devastadora do fazer jornalístico. Um conselho: se você gosta de reportagens e não tem preconceitos, leia Hell´s Angels e depois Medo e delírio em Las Vegas. Na sequência.

Roteiro para quadrinhos: a ambientação

 

Um aspecto importante na construção do roteiro é a ambientação. É necessário imaginar onde o personagem  vive, com quem ele se relaciona, como ganha a vida, etc...A ambientação vai acabar, inclusive, influenciando no modo de pensar e agir dos personagens.  Pessoas que vivem num ambiente árido acabarão tendo um comportamento árido (os tuaregs que o digam). Isso é muito claro, por exemplo, na série de álbuns Aldebaran: os personagens vivem num mundo quase completamente dominado pela água. Quando vão para um mundo desértico, tudo muda, inclusive os aspectos culturais. 
                Uma de minhas histórias chamada Vácuo mostra um tripulante de uma estação espacial que se revolta e acaba explodindo todo o local. A claustrofobia provocada  pelos eternos corredores, pelos ambientes fechados, fizeram com que ele "pirasse". Essa mesma ambientação poderia ter o efeito oposto em outro indivíduo. Sentido-se confortável e seguro dentro de um ambiente fechado, ele poderia se sentir um agorafóbico.

                Um exemplo mais famoso: o Batman de Cavaleiro das Trevas é violento porque a Gothan City criada por Frank Miller é violenta.
                Também é importante saber o máximo possível sobre o local em que se vai passar a história. Antes de começar a escrever o tenente Blueberry, Charlier viajou para os EUA e visitou toda a região em que se passaria a HQ. Se você for escrever uma história sobre o Egito e não tiver dinheiro para a passagem, a melhor alternativa é entocar-se na biblioteca e ler tudo o possível sobre os hábitos, costumes e acidentes geográficos da região. Alan Moore conta que, antes de começar a escrever Monstro do Pântano, leu tanto sobre a Flórida que acabou descobrindo algumas coisas curiosas: "Eu sei, por exemplo, que os crocodilos comem pedras pensando que são tartarugas e depois não conseguem digeri-las e essa deve ser a razão pela qual eles têm um temperamento tão irascível", diz.

                Criar uma história que se passe no futuro, num planeta longínquo, ou em um planeta atualmente desconhecido pode livrar você da visita à biblioteca, mas certamente não vai facilitar as coisas para sua imaginação. É necessário, nesses casos, imaginar todos os aspectos dessa sociedade: quem governa, se é que há governo, como as pessoas vivem, quais são os seus costumes, como elas se alimentam...
                Um exemplo fantástico de criação de ambiente é o álbum A Fonte de Cyann, de Bourgeon e Lacroix. Os autores criaram não só uma história para o planeta em que se passa a HQ como, ainda, se preocuparam com detalhes mínimos. Tipo: o lugar da letra O no nome da pessoa determina a classe social.
                Em Cian, quando pessoas importantes morrem, seus corpos são envoltos em barro e jogados no mar. Quanto mais pessoas se unem para impedir a parte final do ato funerário, mais querido era o defunto. Detalhe: a língua falada pelos personagens, embora muito semelhante ao francês, tem suas próprias regras. Para desespero dos tradutores!
                Portanto, se você quiser escrever boas histórias de Ficção científica, ou de fantasia, comece a ler desde já livros de antropologia...

A corrida das vacinas

 


Dividido em cinco partes, A corrida das vacinas é um documentário da Globo Play disponível inclusive para não-assinantes. É uma obra fundamental para entender os tempos nos quais estamos vivendo.

A narrativa é focada em mostrar como ocorreu o processo de elaboração das vacinas contra covid, como cada uma funciona, e como foi possível fazer vacinas seguras em tão pouco tempo – e como esse incremento de tecnologia vai ajudar no futuro a desenvolver vacinas para outras doenças com um tempo muito menor do que antigamente.

A equipe do documentário acompanha uma enfermeira que participou dos testes da coronavac, uma senhora de 95 que ficou isolada todo o tempo antes de se vacinar, vai até a Rússia, a Inglaterra e a Índia, visitando laboratórios onde são produzidas as vacinas que estão sendo aplicadas no Brasil ou que estão sendo compradas para aplicação.

Há também entrevistas com especialistas que explicam, de maneira muito didática, a doença e a ação das vacinas.

E, como não poderia deixar de ser, mostra também todo o ambiente que permeou a pandemia. Entre os momentos mais bizarros, um protesto em São Paulo, em dezembro do ano passado, contra as vacinas, o uso de máscaras e tentando convecer os idosos a participarem de comemorações de Natal.

A corrida das vacinas é um documentário dinâmico e didático, que explora bem os temas sem cair na chatice de outros documentários.

Defensores – Indefensáveis

 


Keith Giffen, J. M. De Matteis e Kevin Maguire ficaram famosos por sua versão humorística da Liga da Justiça – conhecida entre nós como Liguinha.

Em 2005 essa turma foi contratada pela Marvel para fazer sua versão do grupo mais disfuncional da editora: os Defensores. Se o estilo humorístico do trio funcionava na Liga, funciona melhor ainda aqui, pois quem realmente levaria a sério um grupo formado pelo Dr. Estranho, Namor, Hulk e Surfista Prateado?

Maguire é um especialista em expressões faciais. 


Na história, Dormammu se uniu a sua irmã Umar com o objetivo de conquistar e reformular nossa dimensão – e aparentemente só os Defensores podem lidar com esse problema místico.

A história já começa fora da curva, quando Pesadelo encorpora em Wong para dar o aviso da invasão – e aqui temos diversos closes e muitos, muitos diálogos afinadíssimos, com destaque para o talento incrível de Maguire para expressões faciais. A forma grandiloquente com que o mestre das artes místicas fala é objeto de muitas piadas, assim como sua relação com Wong de criado e amo, que na década de 1960 era normal e hoje parece estranha. “Vamos por você num espelho. Quanto antes remover você de Wong melhor”; “Wong. Este é o nome ou sobrenome dele? Você não sabe... né?”; “O espelho”.

O Surfista Prateado tenta se enturmar com... surfistas. 


Uma das grandes sacadas da minissérie diz respeito ao Surfista Prateado. Afinal, até então ninguém tinha tido a ideia de fazê-lo se enturmar com surfistas, o que parece óbvio. Só que surfistas não são conhecidos pela eloquência, ao contrário do herói prateado, o que gera momentos memoráveis. À certa altura, por exemplo, ele diz: “O que é a felicidade? Será apenas a satisfação de nossas necessidades animais... ou algo mais profundo? Algo intangível... que mobiliza nossas almas?”. “Você devia falar com uma das minas. Elas se ligam nessa de poesa e tal”. “Se está se referindo às mulheres, sim, eu falarei com uma delas... e talvez possamos penetrar no grande mistério”, ao que uma das garotas responde: “Então... tipo... tá afim de ficar comigo?”.

Umar resolve tomar o Hulk como seu amante. 


Umar, a irmã arrogante e hiper-sexualizada de Dormammu, é a grande atração da série – e provavelmente ela nunca foi tão bem representada, inclusive em termos de desenho. Aliás, a sequência dela com o Hulk (ela resolve pegar o gigante esmeralda como amante) é uma das mais memoráveis de todos os tempos.

Mas para além das boas sacadas, das piadas, dos diálogos afinados, Indefensáveis é uma grande história em quadrinhos que sabe ser humorística nos momentos certos e tensa nos momentos certos. Chega num ponto que se transforma numa grande história em quadrinhos, com um perigo realmente impressionante.

Para além das piadas, a série mostra uma história com uma ameaça real. 


Lançada em cinco partes nos EUA, essa série foi reunida aqui pela salvat no volume 23 da série Os heróis mais poderosos da Marvel.

segunda-feira, junho 29, 2026

Lugar Nenhum, de Neil Gaiman

 

Na segunda metade da década de 1980, os comics americanos foram sacudidos por uma geração de quadrinistas britânicos. Vários artistas, entre desenhistas e roteiristas, invadiram a DC Comics e, embora trabalhassem com personagens menores, fizeram com que eles vendessem tão bem quanto as maiores estrelas da casa, como Batman e Superman. Entre esses artistas, dois se destacaram: Alan Moore e Neil Gaiman.
Alan Moore pegou o título do Monstro do Pântano em vias de ser cancelado e o transformou numa revista respeitada, ganhadora dos mais diversos prêmios. Depois escreveu Watchmen, uma das mais revolucionárias histórias de super-heróis de todos os tempos. O sucesso de seu trabalho fez com que ele retomasse a série V de Vingança, publicando-a pela DC Comics.
Neil Gaiman passou de fã a companheiro de Alan Moore. Inicialmente um jornalista especializado em quadrinhos, ele aproveitou a visita dos editores da DC à Inglaterra para mostrar seu trabalho em conjunto com o amigo Dave Mckean. Para isso, ele escolheu uma personagem obscura da década de 1970, que não interessava a nenhum artista famoso na época: a Orquídea Negra. A minissérie de luxo Orquídea Negra se tornaria um sucesso e revolucionaria o mercado com sua arte fotográfica e texto poético; mas, antes que fosse publicada, os editores sugeriram que Gaiman escrevesse um título mensal. Gaiman começou então sua carreira em Sandman, sendo Dave Mckean responsável pelas memoráveis capas. A primeira seqüência delas mostrava uma prateleira de madeira na qual o artista juntava cacarecos, desenhos e colagens. Ninguém nunca tinha visto aquilo numa história em quadrinhos e muitos certamente compraram Sandman pela primeira vez por causa das capas. Mas o que fez com que eles continuassem a comprar foi o texto excelente de Gaiman.
Em Orquídea Negra e Sandman, Neil Gaiman elevou os quadrinhos a um nível literário poucas vezes alcançado. Qualquer um que botasse os olhos naqueles gibis sabia que estava diante de um grande escritor. O autor trazia conceitos, técnicas e abordagem da literatura, fazendo com que intelectuais se tornassem fãs de Sandman. Até mesmo as mulheres, que normalmente são avessas aos comics americanos, acabaram se rendendo a Sandman. Nas filas de autógrafos, especialmente no Brasil, havia geralmente mais mulheres que homens.
Uma pergunta que todos faziam na época: como se sairiam esses artistas em um trabalho realmente literário? Alan Moore respondeu a essa questão com o romance A voz do fogo, um trabalho denso, pesado, até de difícil leitura, uma daquelas obras que permite várias e várias interpretações.
A resposta de Neil Gaiman foi Lugar Nenhum (Conrad, 2007, 336 págs.), romance escrito em 1996 e lançado recentemente pela editora Conrad.
Lugar Nenhum é adaptação de uma série de TV escrita por Gaiman para o canal britânico BBC. O personagem principal é Richard Mayhew, um jovem escocês que leva uma vida normal em Londres. Tem um bom emprego, mas meio chato, e namora uma garota ideal, embora meio chata.
Mas um dia ele encontra uma garota ferida na rua e, após socorrê-la, sua vida muda completamente. Seus colegas e até sua namorada o ignoram, como se ele não existisse, seu apartamento é alugado para estranhos. Ele não consegue nem mesmo pegar um táxi. É que ele passou a fazer parte da Londres de Baixo, onde vivem os tipos mais excêntricos: assassinos letrados, monges negros, nobres decandentes, falantes de ratês e muitos outros. Agora, para recuperar sua vida de volta, Richard precisa ajudar Door, a garota esfaqueada, a descobrir quem matou sua família.
Como se vê, Gaiman preferiu, em seu primeiro romance, seguir a mesma linha fantástica que o caracterizou em Sandman. Ele decidiu pisar em terreno conhecido e que domina como ninguém. Vale lembrar que muitos afirmam que Harry Potter é uma cópia de Os livros da magia, obra em quadrinhos escrita por Neil Gaiman.
Se em Sandman e Orquídea Negra, Gaiman trouxe para os quadrinhos técnicas e temas literários, em Lugar Nenhum ele faz o caminho inverso. Trouxe para a literatura os avanços alcançados por ele nos quadrinhos. As semelhanças narrativas são óbvias. Quando a namorada dá o fora em Richard, ele vai para casa e o texto narra: "ele tomou um demorado e quente banho de banheira, comeu alguns sanduíches e bebeu várias xícaras de chá. Viu um pouco de TV, à tarde, e ensaiou conversas com Jéssica em sua cabeça. Ao término de cada diálogo imaginário, eles se abraçavam e faziam sexo de um jeito selvagem, apaixonado, furioso, cheio de lágrimas, e tudo ficava bem". Em Sandman 17, na história "Calliope", Gaiman escreveu: "E Madoc levou Calliope para sua casa, e trancou-a no quarto mais alto, que havia preparado para ela. Seu primeiro ato foi violentá-la, na velha e mofada cama de armar. Ela nem mesmo é humana, ele disse a si mesmo. Ela tem milhares de anos de idade. Mas sua carne era quente, e seu hálito doce, e ela segurava as lágrimas como uma criança enquanto ele a feria".
Está ali, também, em Lugar Nenhum, os pequenos contos em meio às histórias maiores, que caracterizavam o roteiros de Gaiman. Em Lugar Nenhum acompanhamos, por exemplo, a história de Anaesthesia, uma garota que acompanha Richard pelo perigoso caminho até o Mercado Flutuante, onde ele deverá se encontrar com Door. A mãe de Anaesthesia ficou louca e ela foi mandada para morar com uma tia, que morava com um homem: "Ele me machucava. Fazia outras coisas também. No fim, eu contei pra minha tia e ela começou a me bater. Disse que eu estava mentindo. Disse que ia me entregar para a polícia. Mas eu não estava mentindo. Então eu fugi. Era meu aniversário". Com o tempo a menina foi se tornando invisível às pessoas, e um dia, quando acordou, fazia parte da Londres de Baixo.
A história da menina mostra a preocupação de Gaiman de construir um perfil até mesmo para os personagens menores. Cada um tem sua história de vida, sua personalidade e até seus cacoetes. As descrições detalhadas fazem com que, com o tempo, o leitor comece a ver essa outra Londres como um mundo ainda mais real do que aquele em que vivemos. São poucos os escritores que conseguem nos mergulhar assim em um mundo construído por eles.
Os que não iniciados no mundo das resenhas talvez não saibam, mas a maioria dos resenhistas lêem os livros com olhares críticos, analisando estilos, tramas e tudo o mais com um lupa racional. Confesso que houve um determinado ponto em Lugar Nenhum que foi impossível continuar fazendo isso, de tal forma a história era envolvente. O mesmo deve acontecer com um leitor comum desde os primeiros capítulos.
Se não bastassem os méritos literários, a Conrad (que publica os encadernados de Sandman) fez um ótimo trabalho editorial, ressaltado pela ótima capa de Dave Mckean (que os editores tiveram o bom-senso de preservar).

Roteiro de quadrinhos: diálogos

  Como os textos, há vários tipos de diálogos e várias técnicas. Eis alguns tipos:

Frank Miller usou a técnica do diálogo realista em Cavaleiro das Trevas

Diálogo realista  - um dos principais problemas é como construir um diálogo realista. Alguns roteiristas costumam colocar termos chulos, palavrões, na boca dos personagens.  Howard  Chaykin costuma fazer isso. De fato, isso dá uma impressão de realismo, pois as pessoas normalmente falam palavrões. O problema é que nem todas as pessoas falam palavrão e mesmo as que falam não o fazem o tempo todo. Então, como construir um diálogo realista? Há algumas técnicas. A principal delas é a do corte. Consiste em cortar o diálogo, mudando de assunto.  Isso é muito comum na linguagem do dia-a-dia. Nem mesmo as pessoas mais compenetradas passam mais do que alguns minutos falando de mesmo assunto. O processo natural de um diálogo é feito de cortes: uma idéia puxa outra, que puxa outra, que puxa outra, etc...Assim, começamos falando de vacas e terminamos falando de Platão.

Neil Gaiman usou a técnica do diálogo literário em Sandman. 

Diálogo literário - Um diálogo bom não é necessariamente realista. O diálogo literário é mais trabalhado que o realista, mais pomposo. Certos personagens pedem um diálogo mais literário (ou teatral). O Shakespeare que aparece nas histórias de Sandman fala de uma maneira bastante literária ou teatral porque é assim que se imagina Shakespeare falando.

Os monólogos do Surfista Prateado se tornaram célebres.

Monólogo - O monólogo é quando um personagem detém a palavra durante muito tempo. Há um recurso parecido com o do corte, que se usa para monólogos. É a técnica do aposto. Aposto é quando você coloca uma frase dentro de uma frase (os apostos costumam vir separados do resto da frase por vírgulas). Num monólogo a técnica consiste em aproveitar um detalhe da frase e estendê-lo, voltando só depois para o assunto principal. Monólogos memoráveis eram os do Surfista Prateado, escrito por Stan Lee, como este, retirado do sexto número da revista do personagem: "Até quando devo continuar aprisionado no selvagem planeta Terra? Quanto tempo suportarei até que solidão me destrua? Não, este não pode ser o meu destino eterno! Não foi para isso que renunciei a meu mundo, minha vida e meu amor! Por certo, em todo o universo não pode haver ironia mais cruel do destino! Eu, que detenho um poder além da compreensão... estou fadado a viver confinado e sem esperanças... tal qual o mais frágil dos animais! ".
Benedito Rui Barbosa, autor da novela Renascer um ótimo autor de monólogos. E o principal recurso usado por ele é o do aposto.

Capitão América vs Deathlok – futuro sombrio

 


Publicada em Capitain America 287, a história “Futuro sombrio” é um bom exemplo de como o roteirista J.M. DeMatteis sabia manejar a trama para explora ao máximo a profundidade psicológica.

Na história anterior, um clone de Deathlok é enviado para o passado para encontrar o original – e conta com a ajuda do Capitão América para isso. Mas quando finalmente o encontro acontece, Deathlok dá um tiro no peito do clone. O motivo: a corporação Brand apagara a memória do andróide, transformando-o numa máquina de matar perfeita. Claro que isso o coloca em rota de colisão com o sentinela da liberdade.

A splah page inicial mostra porque Zeck era um dos desenhistas mais queridos da época. 


A splash page inicial é um trabalho impressionate da dupla Mike Zeck e JM DeMatteis. A imagem mostrava o clone em primeiro plano, sendo amparado por um Capitão América atônito, enquanto sangue sai de seus lábios e seu peito. Ao fundo, o andróide grita: “Muito bem, seu paspalho. Agora fique de pé se não quiser morrer nas mãos de DEATHLOK!”. Já legenda diz: “Meu nome é Luther Manning! Sejam bem-vindos ao meu pesadelo!”.

O encontro dos dois Deathlok é o ponto alto da história. 


Vendo páginas como essa é possível entender porque Zeck era um dos desenhistas mais queridos dos anos 1980, a ponto de ter sido escolhido para desenhar o crossover Guerras Secretas.

A trama é usada para explorar a história e a personalidade do andróide e encontra seu ponto alto quando ele toca na mão de seu clone, o que faz com que uma torrente de lembranças invada sua mente.

O Capitão América vai para o futuro e encontra um mundo destruído. 


No final, o capitão acaba indo com Deathlok para o futuro e o que encontra lá é uma verdadeira distopia, que ele tenterá a todo custo evitar que aconteça.  

No Brasil essa história foi publicada pela editora abril em Almanaque Do Capitão América 88.

Tom´s bar

 

Ivo Milazzo e Giancarlo Berardi conquistaram uma fiel legião de fãs brasileiros com o personagem Ken Parker. Lançado aqui no início dos anos 80 pela editora Vecchi, Parker se destacava por ser um herói humano em uma época em que todos os caubóis dos quadrinhos eram estereotipados. O personagem foi publicado por várias outras editoras, inclusive a Mythos, que fechou a série recentemente, publicado a última aventura do chamado "Rifle Comprido". Agora a dupla de autores está de volta com Tom's Bar, editado pela Opera Graphica.

Em Tom's Bar o ambiente é a Chicago dos anos 40. O personagem principal é o Tom do título, um homem já idoso, que guarda segredos sobre seu passado.

O álbum reúne quatro histórias envolvendo Tom e o Bar. Parece monótono, mas não é. Berardi quer nos mostrar que por trás de um homem e um ambiente simples, sem glamour, há grandes histórias.

O primeiro conto, "Quase Sempre" é uma introdução e uma declaração de princípios. Um jornalista visita o bar e reclama de que já não há mais fatos interessantes para os jornais: "Devia aparecer outro Al Capone para aumentar a tiragem". Tom concorda: "É, bons tempos aqueles!".

Enquanto o jornalista toma um drinque, Tom sem que o último veja, se resolve com um gangster que veio cobrar proteção.

Ou seja: os fatos interessantes, assim como as pessoas interessantes, estão debaixo de nossos narizes. Basta ter olhos para ver.



Tom não é um herói bidimensional. Tem coração, mas também tem contradições. Ao mesmo tempo em que vende armas, evita que um garoto se envolva no mundo do crime.

Ler Tom's Bar é como ver um fractal (figura geométrica que representa fenômenos caóticos): à medida em que nos aprofundamos nos personagens, eles nos revelam novas complexidades.

Além do texto de Berardi, vale destacar a arte de Milazzo. Toda realizada, em aguada, a história é um colírio para os olhos cansados de ver histórias pintadas em computador.

A aguada é feita de nanquim misturado com água. Dá um efeito semelhante ao da aquarela, mas em preto e branco. É uma arte perdida. Com a popularização da impressão em cores e a difusão dos computadores, poucos artistas da atualidade sequer sabem o que é uma aguada. Milazzo sabe, e muito bem.

A técnica usada nos desenhos não é gratuita. A aguada dá à história um toque nostálgico de filme noir dos anos 40. Além disso, as angulações usadas por Milazzo também são muito cinematográficas.

Tom's Bar é um álbum indispensável para que gosta de quadrinhos, mas já está cansado de heróis com cuecas do lado de fora das calças.

Invencível

 

Parece que a Amazon Prime resolveu investir pesado em super-heróis. Depois da série de sucesso The Boys, baseada nos quadrinhos de Garth Ennis, a plataforma traz Invencível, uma animação baseada nos quadrinhos de Robert Kirkman, criador de Walking Dead.

O fato de se tratar de uma animação pode dar a entender que Invencível seja uma série menor em termos de ousadia, afinal, existe o preconceito de que animações são para crianças.

Não é o caso.

Invencível é uma animação para adultos. É violento, complexo e principalmente desruptivo. Logo no primeiro episódio fica claro que por trás dos uniformes coloridos se escondem segredos obscuros, traições e até indivíduos mau-caráter.

A história é focada em Mark Grayson, um adolescente norte-americano aparentemente comum. Mas ele é filho do Omini-man, um poderoso super-herói alienígena. Quando Grayson sai da adolescência, seus poderes aparecem e ele precisa lidar com super-vilões e, ao mesmo tempo, com os problemas da adolescência, como o namoro.

Mas há algo mais: os principais heróis do planeta, os Guardiões Globais, foram mortos e tudo leva a crer que o responsável é Omini-man.

Em pelo menos um sentido, Invencível é melhor que The Boys: como a animação não exige recursos adicionais, o roteiro pode viajar mais, a ponto do personagem ir, por exemplo, para Marte. E isso é muito bem aproveitado para criar diversos ganchos.

Enfim, Invencível é uma dica para quem gosta de super-heróis, mas está cansado do lugar-comum.

Lanterna e Arqueiro Verde – Bem-vindo a Desolação

 


Em Green Lantern 77, Denny O´Neil e Neal Adams continuaram em sua empreitada de tirar os heróis verdes da DC do mundo dos super-heróis heróis e colocá-los no mundo real.

Na história, eles estão seguindo por uma estrada nas montanhas quando a caminhonete em que estão começa a ser alvo de disparos. Ao renderem os atacantes o Arqueiro e o Lanterna descobrem que na verdade os homens achavam estarem se defendendo de matadores contratados por um ricaço local.

O trio está passando por uma montanha quando são atacados. 


“Esta cidade... toda a montanha... é propriedade do Sr. Slapper Soames. Se existe homem pior, eu não quero conhecer”, informa um dos habitantes locais. “Todo mundo trabalha nas minas dele... principalmente porque ninguém sabe fazer outra coisa”.

Um cantor local, Johnny Walden, resolveu transformar em música o sofrimento do povo, vítima dos abusos do ricaço, e foi preso por isso.

Um cantor resolve transformar em música o sofrimento do povo do lugarejo. 


Walden nitidamente é uma referência a Bob Dylan, o cantor que na década de 1960 representava a luta pelos direitos civis e contra a guerra do Vietnã.

A primeira aparição de walden é um exemplo de como Neal Adams conseguia transformar até mesmo uma cena banal, como um homem cantando, em algo monumental. A imagem ocupa uma página dupla, com o jovem dedilhando o violão e várias pessoas ouvindo. A letra da musica que ele canta se espalha pelo quadro.

Suspense: o Lanterna perde seus poderes no meio da batalha. 


Claro que a situação será resolvida pelos dois heróis  - com direito a uma sequência de suspense em que o Lanterna perde seus poderes. Mas no final, quando o lanterna comemora o final feliz, o arqueiro diz: “No futuro dessas pessoas só tem pobreza e ignorância. Você chama isso de vencer?”.

A arte camaleônica de Guto Dias


 

Guto Dias nasceu em 1967, na cidade do Rio de Janeiro. Desde a infância, revelou uma aptidão natural para o desenho, sendo constantemente estimulado por sua mãe, que era professora. Na segunda metade dos anos 1980, uniu-se a um grupo de amigos para fundar o fanzine Ponto de Fuga, publicação independente que, embora de vida breve, contando com apenas três números, serviu como importante laboratório inicial.

Nessa mesma época, o jovem artista inscreveu-se em um concurso de novos talentos promovido pela editora D’Arte, do lendário mestre do terror Rodolfo Zalla. Algum tempo após o envio de suas páginas, Guto recebeu uma correspondência de Zalla acompanhada de um cheque, trazendo a excelente notícia de que se sagrara vencedor do certame. Após a premiação, ele ainda roteirizou e ilustrou duas histórias em quadrinhos completas para a editora. Infelizmente, o mercado de revistas de terror da época já perdia o fôlego histórico, e os títulos da casa foram cancelados antes que seus trabalhos pudessem ser publicados.

Em 2002, o artista mudou-se para Curitiba, cidade onde reside até hoje.

Em 2015, já com uma carreira consolidada como ilustrador e cartunista no mercado publicitário e editorial, Guto travou contato com o editor Daniel Saks durante a Bienal de Quadrinhos de Curitiba. Bem recomendado pelo ex-editor Fábio Chibilski e pelo prestigiado artista Antônio Éder, ele apresentou seu portfólio a Saks. A força de seus traços foi suficiente para que ele fosse imediatamente convidado a integrar o catálogo da editora Ink&Blood. Sua estreia oficial ocorreu na histórica edição Calafrio #60, ilustrando a série Psicopatas (com roteiro de Gian Danton), na qual realizou a impactante quadrinização da trajetória do infame assassino em série norte-americano John Wayne Gacy.

Paralelamente ao seu trabalho na Ink&Blood, Guto Dias colaborou como chargista e cartunista para a versão brasileira da revista Mad, publicada pela editora Panini. Em 2023, o autor lançou sua coletânea de cartuns solo, intitulada Carpe Diem, sob o selo Baiuca Editorial. No cenário internacional, ele também produz com regularidade a tira cômica Philosopher’s, que vem sendo publicada ininterruptamente desde 2019 na renomada revista de filosofia britânica Philosophy Now.