quarta-feira, agosto 26, 2026

O casamento do Fantasma

 

 

Entre as histórias mais famosas do Fantasma estão duas que fogem completamente do modelo de HQs de heróis, trazendo pouquíssima ação. Trata-se do casamento e da lua-de-mel do personagem. 

Desenhada pelo haitiano brasileira André LeBlanc (mas assinada por Sy Barry), a história começa com pedido de casamento. 

Lee falk é um roteirista habilidoso e estica ao máximo o suspense, fazendo com que o Fantasma não consiga pedir a amada em casamento. É alguém que interrompe o casal, é uma carta que chega, ou a simples insegurança. É curioso ver um personagem tão onipotente mostrar essa faceta fragilizada e insegura. 

Diana realiza um trabalho de direitos humanos em uma ditadura militar. 


Quando finalmente ele ganha coragem para fazer o pedido, surge um empecilho. Nesse meio tempoDiana foi escalada para participar de uma comissão de diretoria humanos da ONU para inspecionar as prisões de um país que vive uma ditadura militar, um local em que, para falar com o ditador local, só é possível se a pessoa entrar na sala arrastando pelo chão (LeBlanc acentua esse aspecto ao mostrar apenas os pés do ditador). Diana tenta descobrir o que há realmente por trás das masmorra e acaba sendo presa - e o Fantasma vai em seu auxílio. 

Se lembrarmos que na década de 70 havia várias ditaduras militares espalhas pela America Latina, inclusive no Brasil, é uma opção corajosa de Lee Falk trazer o tema para a trama do casamento.

A cerimônia tem diversos convidados. 


(É irônico, aliás, que a maioria dos fãs do Fantasma, que vibraram com essa aventura, hoje em dia bradem contra os direitos humanos e peçam ditadura militar)

Aliás, Lee falk parece muito avançado para sua época. O Fantasma nunca mata e mesmo quando é atacado por animais, como acontece com leões durante a lua de mel, faz de tudo para não feri-los. 

O casamento se torna grandioso por resgatarem toda a mitologia do personagem através dos convidados. Comparecem os presidente de Luaga e de Ivory-Lana, os chefes tribais, os príncipes das Montanhas da Neblina, Hzz, um ser humanoide e peludo, e muitos outros. Uma curiosidade é que Mandrake é apresentado apenas como o amigo de Lothar, príncipe das sete nações em uma curiosa inversão das tiras clássicas, em que Lothar era o criado do mágico – e demonstra a preocupação de Lee Falk em atualizar suas séries. Aliás, o próprio fato da esposa do Fantasma não largar o emprego ao se casar mostra essa preocupação.

A lua-de-mel acontece em uma praia paradisíaca. 


Mesmo durante a comemoração, vamos descobrindo aspectos culturais. Por exemplo, o brinde é feito com água da nascente, pois o Fantasma proíbe bebidas alcóolicas na Floresta Negra.

A lua-de-mel se passa na praia dourada de Keela-Wee. “Esta cabana de jade foi presente do imperador Joonkoor ao 7º Fantasma”, explica o herói. “Desde então, todo Fantasma passa aqui sua noite de núpcias”.

Quando aparecem bandidos, parece que eles fazem parte da diversão. 


A sequência, claro, não mostra nada de sexo (eles nem mesmo se beijam), mas encanta por mostrá-los se divertindo em meio à natureza. Quando aparecem alguns bandidos, eles são derrotados com tanta facilidade que parece que tudo faz parte do pacote de diversão.

A história foi lançada em formatinho em 1978 pela RGE, dividida em duas partes. Mas os editores logo perceberam que aquela história merecia uma edição especial e lançaram em formato maior, juntanto o casamento e a lua-de-mel em um único volume. A belíssima capa, de Walmir Amaral, mostrava o Fantasma e Diana sobre o cavalo Herói, tendo a caverna da caveira ao fundo. Uma edição histórica, disputada por fãs do espírito que anda.  

Demolidor contra o Hulk

 


No número 163 do Demolidor, o roteirista Roger Mckenzie colocou o Demolidor em rota de colisão com um dos personagens mais poderosos da Marvel: o Hulk.

Na história, Matt Mudock está numa festa quando ouve um batimento cardíaco único, como um bate-estacas e percebe que o gigante esmeralda está nas proximidades. Apesar do perigo, ele vai até o local com o objetivo de acalmar a fera. Não há conflito: o advogado consegue fazer com que o monstro volte a ser Bruce Banner e o leva para casa. Depois dá dinheiro para que consiga sair de nova York.

Miller era um especialista em mostrar caos urbano... 


Entrentanto, quando Bannner pega o metrô, o stress provocado pelo local faz com que ele volte a se transformar no monstro. Com os Vingadores e o Quarteto fora da cidade, só resta ao Demolidor tentar deter o Hulk.

Apesar de ser uma típica história de super-heróis, a edição tem algumas características interessantes que a diferenciam de outras obras. Para começar, o dom de Frank Miller para mostrar ambientes urbanos e todo o caos relacionado. A sequência do metrô, embora curta, é primorosa e reflete diretamente a claustrofobia sentida pelo personagem.

Outro aspecto essencial é o fato de McKenzie mostrar o Demolidor voltando a atacar o monstro, mesmo depois de seriamente ferido: “Eu não posso detê-lo! O monstro é forte demais! Eu fiz tudo que estava ao meu alcance! Se eu for embora, ninguém poderá me culpar... ninguém, exceto eu mesmo!”.

... sem falar das cenas de ação. 


Estava ali, muito bem caracterizada a principal característica do personagem, que seria explorada ao extremo por Frank Miller: o Demolidor é alguém que nunca desiste, como um lutador que sempre se levanta por mais que tenha apanhado. Essa característica será, inclusive, a base da saga A queda de Matt Murdock.

Outro aspecto relevante é quando a noiva do Matt Murdock se aproxima do local e grita pelo amado. Esse pequeno fato irá ser a peça que encaixava no quebra-cabeça que o jornalista Bem Hurich vinha montando, e que o levará a descobrir a identidade secreta do Demolidor. Essa será a base para a história seguinte.

As montanhas da Lua

 


Uma vez eu e Bené Nascimento (Joe Bennett) conversávamos sobre cinema e ele defendia que, num bom filme de aventura, era impossível aprofundar os personagens. Para provar o contrário, eu citei o filme As Montanhas da Lua, de Bob Rafelson.
O filme conta a história de Richard Burton e sua busca da fonte do Nilo, uma das descobertas científicas mais importantes do século XIX. O filme é uma grande aventura, mas o ponto alto é a relação de Burton com John Speke, que oscila entre a amizade e a inimizade, passando por uma possível relação homossexual, apenas insinuada.
Bob Rafelson foi um dos diretores que abriram caminho para a geração anos 70, que revolucionou Hollywood e a escolha do tema e do protagonista certamente não foi por acaso. Hippie, Rafelson devia se sentir entre os executivos da indústria como o revolucionário Burton na sociedade vitoriana.
Diplomata, explorador, espião, escritor e tradutor, Burton foi responsável, por exemplo, por uma polêmica tradução das Mil e uma noites (com notas  de rodapé sobre sexo) outro da Kama Sutra, que escandalizou a sociedade da época. 
Ou seja: é um personagem que por si só vale um filme. Feito por um grande diretor como Rafelson, torna-se obrigatório.
A propósito, sobre aquela discussão, o Bené acabou concordando comigo: É possível sim fazer um grande filme de aventura e aprofundar os personagens.

A arte detalhista de George Perez

 

Poucos artistas estão tão associados ao gênero super-heróis quanto George Perez. Ele iniciou sua carreira na Marvel na década de 1970 e chegou a desenhar os Vingadores em uma fase muito elogiada. Mas seu talento só iria se mostrar em seu auge criativo na década de 1980, trabalhando para a rival DC Comics. Na DC, Perez foi responsável pelo desenho da série Novos Titãs, um dos maiores sucessos da década, rivalizando com os X-men. Sua habilidade de fazer mil detalhes numa cena e de desenhar dezenas de personagens em um único quadro fez dele o artista ideal para crossovers, a exemplo de Crise nas Infinitas Terras, até hoje considerado o melhor crossover de todos de heróis de todos os tempos.









Dr. Estranho - Em um mundo enlouquecido

 



No segundo número da revista Superaventuras Marvel foi publicada uma das melhores história do Doutor Estranho. Apresentada originalmente na revista Marvel Premiere 3, a HQ “Em um mundo enlouquecido” contava com uma dupla de peso na criação: Barry Windsor-Smith (argumento e desenhos) e
Stan Lee (roteiro).
Na história, o mestre das artes místicas está caminhando por Nova York quando quase é atropelado por um caminhão. A partir desse ponto começam a ocorrer coisas estranhas, surreais, que testam a sanidade do personagem.

É uma história que explora muito bem as melhores características do personagem: o Dr. Estranho é um ponto fora da curva dos heróis Marvel que se notabilizam principalmente pela pancadaria. Aqui quase não há conflito, além do conflito interno do personagem, que tenta a todo custo dar algum sentido ao que está ocorrendo. É um conto intimista e psicológico, característica destacada ainda mais pela arte de Barry Windsor-Smith, que, aliás, se sai muito bem nas sequências surreais.
O texto de Lee, por outro lado, mantém a atenção do leitor mesmo sem muita ação, ao lidar com o senso de desconhecido e o suspense sobre o que realmente está acontecendo.
É uma pena que a dupla não tenha sido responsável por toda uma saga do personagem. Seria épico.

Coluna de fogo, de Ken Follett

 


O reinado da Rainha Elizabeth foi um dos mais importantes  e também um dos mais conturbados períodos da história da Inglaterra. A Rainha virgem criou as condições para que a Ingaterra se tornasse a maior potência mundial e centro cultural do mundo. Mas ela sofreu várias tentativas de golpes, assassinatos, uma quase guerra civil e a invasão da maior armada do mundo.
É esse período conturbado que Ken Follett narra em seu livro Coluna de fogo, terceira parte da trilogia inicada em Os pilares da terra.
A história inicia em 1558, dois séculos depois da construção da Catedral de Kingsbridge (que era o fio condutor de Os pilares da terra). A rainha Elizabeth chega ao poder depois da morte de sua irmã. O país vinha sendo dilacerado por conflitos religiosos. O pai de Elizabeth, Henrique VIII, havia rompido com a igreja católica e transformado a Inglaterra num país protestante e passara a perseguir católicos, muitas vezes enviando-os à fogueira. Já sua filha, Maria, era católica e passou a perseguir protestantes, enviando-os à fogueira. Quando Elizabeth ascende ao trono sua promessa é tornar o país uma terra de tolerância, em que ninguém seria morto por sua fé.
Essa trama é contada do ponto de vista de Ned Willard, descendente dos constrututores da catedral e da ponte (narrada em Mundo sem fim). Mas, ao contrário de seus ancestrais, negociantes e engenheiros, Ned torna-se um político. Ao ver um dos cidadãos de Kingsbridge ser morto na fogueira por ser protestante, e após sua mãe perder tudo num julgamento manipulado por um bispo católico, ele decide se colocar a serviço de Elizaberth e ajudá-la a construir um país de tolerância e no qual cada um possa viver sua vida, ganhar seu dinheiro, sem ser incomodado por questões religiosas. Para isso ele acabará se tornando uma peça-chave de seu sistema de espionagem inglês – um dos primeiros do mundo e com agentes em todos os países da Europa.
Por outro lado, seu irmão, Barney, é perseguido pela inquisição na Espanha e, depois de várias peripécias, acaba embarcando em um navio e se tornando um pirata – a pirataria, embora ilegal, era tolerada pela rainha Elizabeth.
De todos os livros da trilogia esse é, sem dúvida, o mais interessante e o que apresenta uma trama mais envolvente. Um dos acertos foi tirar a ação de Kingsbridge. Como tanto Pilares da terra quanto Mundo sem fim se passavam na cidade, centrar os acontecimentos ali num terceiro livro o tornaria cansativo para os leitores. E essa ampliação da ambientação permitiu a Ken Follett contar boa parte da história do período. Temos núcleos nos países baixos, na Espanha, na França, na Inglaterra e até no novo mundo. O autor, por outro lado, aproveita muito bem os eventos históricos para compor uma trama irresistível, repleta de suspense e de ação. São 800 páginas que passam muito rápido.

Duelos – Em Oeste Bravio

 


Um gênero que descobri tarde, mas do qual acabei virando fã, foi o faroeste. No início dos anos 80, quando comecei a ler quadrinhos não infantis, os cowboys estavam em decadência e as bancas eram dominadas pelos super-heróis (e pelo terror, no caso das revistas nacionais). A primeira série do gênero a chamar minha atenção foi Blueberry, publicada pela editora Abril (lembro que estava lendo uma das histórias no ônibus, indo para a universidade, e, quando cheguei lá, estava tão envolvido com a trama que sentei no corredor e só entrei na sala quando terminei de ler tudo).

Algum tempo depois, descobri Ken Parker e, mais recentemente, Buddy Longway, só para citar algumas das séries que mais me marcaram. Entretanto, até há pouco tempo, eu não tinha produzido nenhum roteiro de faroeste. Minha primeira história em uma publicação do gênero saiu no número 3 da revista Oeste Bravio, da editora Ink&Blood (a mesma da revista Calafrio).



Para minha sorte, o editor Daniel Saks escolheu para desenhar a história Duelos ninguém menos que Jairo Moreno, um dos melhores artistas da publicação — com um traço tão bom que já colaborou até mesmo com a editora Bonelli. Na história, um garimpeiro chega a uma cidade depois de um longo tempo isolado, mas a encontra aparentemente abandonada. Para sua surpresa, duas mulheres, uma professorinha e uma dançarina do saloon, saem à rua e começam um duelo que termina com a morte de ambas, em uma cena totalmente improvável. Como se vê, a HQ, embora seja de faroeste, tem um toque de Além da Imaginação.

Uma curiosidade é que, embora o faroeste seja um gênero eminentemente armamentista, a história é uma crítica exatamente à proliferação desordenada de armas.

A revista custa 20 reais e pode ser comprada pelo e-mail revistacalafrio@gmail.com . 

A revista custa 20 reais e pode ser comprada pelo e-mail 

terça-feira, agosto 25, 2026

Fantasmogênese – Em busca da loira fantasma

 


A Loira fantasma é uma das principais lendas urbanas de Curitiba. Na versão local, uma loira pede uma corrida de taxi para um cemitério. Chegando lá, desaparece.

Essa é a história por trás do álbum Fantasmogênese – em busca da loira fantasma, de Antonio Eder e André Stahlschmidt.

A dupla não faz uma simples dramatização ou reconstituição da história. Ao contrário. O álbum de 134 páginas é resultado de uma extensa pesquisa sobre o assunto. Antonio eder, responsável pelo roteiro, pesquisou exaustivamente em jornais da época, revistas, sites e livros, construindo uma verdadeira reportagem em quadrinhos sobre o tema.

A pesquisa de dois alunos de jornalismo é o fio condutor da HQ. 


O roteiro usa como moldura a história de uma dupla de estudantes que pesquisa o assunto em uma biblioteca pública. Esse pano de fundo serve inclusive para introduzir comentários sobre o caso.

A lenda curitibana surge 20 de maio de 1975. Nesse dia, o taxista Walmir Siqueira pega uma passageira na rua Matheus Leme, no centro de Curitiba. A mulher, loira, usa um casaco de peles de cor preta e um colar de pérolas que dá várias voltas no pescoço. Ela pede uma corrida até o cemitério dos Abranches. Ao chegar ao local, simplesmente desaparece do carro e aparece na rua. Assustado, o homem pede ajuda para dois policiais que passam pelo local. A loira reaparece dentro do carro e tenta matar o motorista esganado, sendo impedida por um dos policiais, que atira três vezes. Ela some.

O fantasma da loira aterrorizou os taxistas de Curitiba. 


No dia seguinte a história aparece nos jornais, nos programas de rádio. Na cidade não se fala de outra coisa. Como resultado, loiras não conseguem mais pegar taxi e até prostitutas loiras vêm seus ganhos minguarem: “Não consegui clientes desde terça-feira. Só posso atribuir ao fato de ser loira”, relatou uma garota a um jornalista.

O álbum segue essa história e a repercussão na mídia, acompanhando inclusive a trajetória do carro, do motorista e do dono do veículo. O carro foi destruído num acidente, o dono assassinado e o motorista provavelmente cometeu suicídio. 

O álbum acompanha também as tentativas da imprensa de explicar quem seria a mulher fantasma, sempre com toques de sensacionalismo.

Além de relatar os fatos, a HQ também reflete sobre eles, numa análise muitas vezes sociológica e histórica.

Ao final, o álbum traz um mapeamento das aparições da loira fantasma na produção cultural de Curitiba e até reproduções de matérias de jornais da época.

Tudo isso faz de Fantasmogênese uma das melhores publicações nacionais de 2022. 

A diferença invisível: autismo em quadrinhos

 


Segundo algumas estimativas, uma em cada 100 pessoas está dentro do espectro autista. Entretanto, a maioria das pessoas tem a visão do autista como alguém que vive babando e batendo a cabeça na parede. Esse estereótipo do autismo dificulta inclusive o diagnóstico. Por outro lado, as características de pessoas do espectro, como a hiper-sensibilidade ao som, são vistas apenas como frescura pela maioria das pessoas. Esses foram os desafios enfretados pela francesa Jule Dachez relatados na história em quadrinhos A diferença invisível, com desenhos de Mademoislle Caroline e publicado no Brasil em 2017 pela Nemo.
A HQ narra o cotidiano da personagem fictícia Marguerite e sua vida repleta de rotinas: as idas diárias à panificadora para comprar sempre pão de espeita; as dificuldades com os mais diversos sons dentro da empresa, de pessoas falando ao som de sapatos de salto alto; as dificuldades de socialização a ponto do momento do intervalo ser considerado o mais cansativo de toda a jornada. Relata também sua dificuldade de enteder subetextos e sua honestidade absoluta, a ponto de dizer que a blusa de uma colega parecer ter cor de “cocô de ganso”. E as pressões, inclusive dos chefes, para que ela seja mais sociável e que use roupas “mais adequadas” – ou seja, nada de roupas largas.
Os autistas costuma ser muito sensíveis a barulhos.

A angústia da personagem é óbvia e começa a se transformar em depressão até que, em uma busca na internet, ela descobre o transtorno de espectro autista e sua forma menos conhecida, a Síndrome de Asperger.
Aí começa mais uma odisseia: encontrar alguém que entenda seus sintomas. Um psicanalista acha que pode ter relação com a mãe. O médico diz que ela não pode ser autista porque ela olha nos olhos – e autistas, segundo ele, não olham nos olhos. Uma amiga lhe diz que ela não pode ser autista porque ela consegue falar, é inteligente e não vive eternamente com meleca no nariz.
Quando finalmente a personagem encontra um local específico para diagnóstico de autistas, é uma libertação: ela percebe que todas as “manias”, como sempre falar dos mesmos assunto, eram na verdade características do espectro.
Toda essa jornada é narrada de forma muito sensível e sutil, com os desenhos simples, mas muito expressivos de Mademoiselle Caroline. O roteiro é bem arranjado para detalhar alguns aspectos do autismo e da incompreensão das pessoas sobre o fenômeno sem decair no didatismo. Em mais de um momento, ao longo do álbum, por exemplo, alguém diz à protagonista que ela não pode ser autista por olhar nos olhos das pessoas – e isso acaba se tornando um elemento de humor. O leitor ri da falta de compreensão das pessoas com o transtorno.
Aliás, o título é muito apropriado: o autismo parece muitas vezes invisível para a sociedade e até para a medicina.
O volume ainda inclui um texto final que explica o que é autismo, características e até estratégias de adaptação.
Enfim, uma leitura deliciosa e obrigatória.

O falcão maltês

 


No final da década de 1930, John Huston já era um roteirista de prestígio em Hollywood e resolveu que iria dirigir um filme. O todo poderoso da Warner, Jack Warner, deu carta branca, mas impôs uma condição: teria que ser um filme barato.

Huston escolheu fazer uma adaptação do livro O falcão Maltês, do escritor noir Dashiell Hammet, o que era um mau sinal. A obra já tinha sido adaptada duas vezes para o cinema e nenhuma das duas tinha sido um grande sucesso nem de crítica nem de público.

Além disso, o ator George Raft, escolhido para interpretar o personagem Sam Spade, recusou. Ele alegou que o contrato lhe garantia fazer apenas filmes importantes e, portanto, ele não faria um filme B destinado a ser um fracasso.

O orçamento de 375 mil dólares era tão baixo que Humphrey Bogart, o ator escolhido para substituir George Ralf, teve que comprar os próprios ternos. Huston tinha só seis semanas para terminar as filmagens e o contrato tinha uma cláusula de demissão caso ele extrapolasse o orçamento.

Bogart convence como o detetive cínico e durão. 


Mas há males que vêm para o bem. Bogart deu ao detetive Sam Spade um tom de cinismo único que gerou boa parte do sucesso do filme, alguém capaz de desmascarar uma mentira só com uma risada.

Na história, uma mulher, Brigid O'Shaughnessy, contrata um escritório de detetives para descobrir sua irmã, que estaria desaparecida depois de se envolver com um gangster. Mas, ao investigar o caso, o detetive Miles Archer acaba sendo morto. O mafioso é morto na mesma noite, de modo que a suspeita de seu assassinato recai sobre o sócio de Archer, Sam Spade, que, segundo a polícia, teria cometido um ato de vingança. Spade precisa descobrir o que está acontecendo para provar que é inocente e, ao mesmo tempo, levar para a cadeia o assassino de seu amigo.

Como era comum nas histórias de Dashiell Hammett, a história que começa de uma maneira acaba tomando rumos inesperados. Assim, Spade descobre que tudo gira em torno de uma estatueta, o falcão maltês, que é disputada por várias pessoas.

Lançado em 1941, O falcão maltês é considerado o primeiro do gênero noir e gerou uma infinidade de obras parecidas. A trama de uma pessoa acusada de um assassinato que deve descobrir o que está acontecendo para provar sua inocência foi imitada à exaustão em novelas, filmes  e seriados.

Mary Astor faz o papel de uma mulher mentirosa e manipuladora.


Surpreendentemente, é um filme barato. Os cenários são pouquíssimos, com destaque para a casa e o escritório de Sam Spade. Não há uma única cena de externa. Essa escolha poderia tornar o filme limitado se não fosse a atuação gloriosa do elenco, que mimetiza o público, seja a femme fatale dúbia Mary Astor que parece estar mentido o tempo todo, mas ao mesmo tempo parece uma mulher em perigo que precisa seja protegida seja o gordo mafioso (Sydney Greenstreet) que fala o tempo todo ou o histérico Joel Cairo (Peter Lorre), ajudante do mafioso.

Mas o destaque vai mesmo para o Sam Spade de Humphrey Bogart. Muito longe dos heróis hollywoodianos, ele tem uma ética própria, mas é capaz de mentir, fingir se aliar a bandidos e ao mesmo tempo ser implacável em sua busca de vingança. Como um adicional, temos o fato de que ele de fato consegue nos convencer quando, por exemplo, puxa o sobretudo de um bandido para se apoderar das duas armas dele. Sam Spade de bogart  era um cara durão e cínico.

As estatuetas usadas no filme são disputadas por colecionadores.


O grande segredo dessa versão cinematográfica da história não são arroubos estilísticos. O segredo do diretor John Huston é simplesmente sua fidelidade à bora original e sua direção focada em privilegiar a atuação dos atores.

O resultado foi um sucesso absoluto, arrecadando 1,8 milhão de dólares.

Uma curiosidade é que foram gastos menos de 700 dólares para fazer as estatuetas usadas no filme (duas de chumbo e seis de gesso). Hoje em dia, cada uma delas vale três vezes o valor do orçamento do filme.

Dylan Dog – O Inquisidor

 


O Inquisidor-geral  foi um dos mais famosos e aclamados filmes de Michael Reeves, diretor de cinema inglês que morreu jovem, mas deixou obras fundamentais para o terror.

O filme de Reeves é a linha mestra do volume 15 da nova série de Dylan Dog da Mythos. Escrita por Fabrízio Accatino e desenhada por Luca Casalanguida, a história cria uma trama que une um grupo de psicopatas que sequestram, torturam e matam mulheres com uma investigação de Dylan a respeito da morte de Michael Reeves. E a união dessas duas tramas, aparentemente díspares é feita com uma competência impressionante. Até mesmo cenas do filme de Reeves e cenas de um documentário a respeito do diretor se encaixam com perfeição na trama.

Cenas do filme de Reeves são entremeadas com a trama principal. 


A história começa com um rapaz tomando banho, vestindo terno e gravata, pegando um maço de flores e convidando uma moça para sair, convite que ela rejeita. Logo depois, ela recebe a visita do namorado.

A história pula para o mesmo rapaz entrando numa mansão vitoriana e denunciando a vizinha: “Devo informar que Rebecca Morris, a minha vizinha, é uma bruxa! Ela tem relações carnais com o demônio!”.

Pesquisando sobre o diretor, Dylan conhece seu interesse romântico dessa edição. 


A história pula para Dylan Dog assistindo, com a namorada, o filme de Reeves, para revolta da moça, que esperava um filme romântico. Logo depois de ser abandonado pela moça, o detetive do pesadelo é abordado por um dos atores do filme, que lhe conta sobre como o diretor inglês mudou depois do Inquisidor-geral e como isso o levou ao suicídio.

Em busca de respostas, Dog busca o BFI (British Film Institute), onde conhece a garota que será seu par romântico durante a história. As investigações colocarão os dois em rota de colisão com o homem que se considera o novo inquisidor geral.

A cena mais chocante do volume surge do contraste entre o diálogo e o que de fato está acontecendo. 


Uma das melhores sequências tem como protagonista o rapaz tímido do início. Ele está do lado de fora da casa conversando com outro homem e não entende porque é rejeitado: “Eu a cumprimento com gentileza todos os dias, convidei para minha casa, pro cinema, pro teatro! Levei flores e bombons! Por que ela sempre diz não?”. O homem o aconselha a se jogar: “Vá e arrase!”. Quando ele abre a porta, descobrimos que a mulher pela qual ele está apaixonado está pendurar no teto, sendo torturada. O contraste entre as duas sequências, assim como a forma romântica e sensível com a qual o rapaz fala enquanto a moça é torturada e tem seu cabelo cortado reflete bem o terror desse volume espetacular de DD. Um terror que não nasce de demônios e os verdadeiros monstros são seres humanos.

Em tempo: no Brasil o filme de reeves é chamado de O caçador de bruxas e pode ser visto aqui: https://www.youtube.com/watch?v=UhuQqDgO-Fs.