terça-feira, novembro 03, 2026

Coleção histórica Marvel: Demolidor

 

Um dos volumes mais interessantes da coleção histórica Marvel é Paladinos Demolidor.

A Coleção histórica Marvel resgata histórias antigas de personagens da editora. Na grande maioria das vezes são histórias relativamente conhecidas, ou sagas famosas, republicadas.
A edição dedicada ao Demolidor, no entanto, é mais interessante. O que conhecemos dele é praticamente o que veio de Frank Miller em diante.  
Este volume faz um apanhado das fases anteriores do personagem, com os diversos desenhistas responsáveis por essas fases.
Demolidor no traço de Joe Orlando. 


E foram muitos.
A começar por Bill Everett, criador visual do personagem. Dizem que Stan Lee bolou o personagem como forma de valorizar Everett, que havia criado Namor na década de 1940 e há tempos não desenhava quadrinhos. Colocá-lo em um título de super-heróis Marvel era uma forma de mostrar o mestre para a nova geração.
Mas Everett, que então trabalhava com publicidade, não deu conta e abandonou o título depois do primeiro número.
Aí veio Joe Orlando, logo substituído por Wallace Wood, que foi substituído por John Romita, que foi relocado para o título do Homem-aranha após a saída de Steve Ditko. Só aí entrou Gene Colan, o desenhista que passou mais tempo com o Homem sem medo.
Wally Wood emprestou seu traço elegante para o personagem. 


A edição de Paladinos reúne histórias desses diversos artistas, numa belíssima amostra do estilo de cada um com o personagem (particularmente gosto muito de Wally Wood, que introduziu o uniforme vermelho, embora nitidamente ele não estivesse fazendo o que gostava e não se esforçou muito).
Do ponto de vista de roteiro, a história mais interessante do volume é “Eis que surge o Gladiador”.
Nessa historia, Stan Lee estava saindo de férias, e, após escrever as sete primeiras páginas, deixou o texto a cargo de um novato, Denny O´Neil. O´Neil (que pouco depois seria responsável por reformular o Batman na DC) mostra que tinha uma visão própria do Demolidor.
O personagem já no traço de Gene Colan numa história que antecipava as inovações de Frank Miller


Na HQ, Foggy Nelson tenta convencer Karen Page de que é o Demolidor como forma de conquista-la e, sem querer, enfrenta um vilão, o Gladiador.
Ao ver os diálogos do amigo, o Demolidor percebe que suas falas parecem ridículas. De fato, Stan Lee parecia ver o Demolidor como uma espécie de Homem-aranha cego (o primeiro número inclusive fazia essa comparação, trazendo a capa do primeiro número do aracnídeo). O Demolidor de Denny O´Neil reflete: “Pareço bobo feito o Foggy! De agora em diante serei um combatente do crime do tipo fortão e calado”.
O roteirista também reflete sobre o vilão, Gladiador, antecipando seus problemas mentais que seriam depois explorados por Miller.
Essa pequena participação de Denny O´Neil teve pouco impacto sobre o personagem. Logo Stan Lee retornou das férias e o Demolidor voltou a ser o herói brincalhão, que fazia piadas com os vilões durante as lutas.
Mas anos depois, Denny O´Neil se tornou o editor do personagem e um jovem inovador chamado Frank Miller teve a oportunidade de reformular o herói. É de se pensar até que ponto as mudanças de Miller foram sugeridas por O´Neil.

Jornada nas Estrelas – A teia dos Tholianos

 


A tripulação da Enterprise investiga o que aconteceu com a USS Defiant. Quando se teleportam para a nave, descobrem que algum tipo de loucura fez com que a tripulação se atacasse até não sobrar ninguém. Pior: a nave está sendo enviada para outra dimensão e o teletransporte só funciona para três pessoas. Kirk fica na nave e quando tentam transportá-lo, não conseguem, de modo que ele fica perdido entre as dimensões.

Spock precisa resgatar Kirk antes que a loucura tome conta da tripulação e todos se matem. Para piorar uma situação, uma nave tholiana aparece e ataca a enterprise. Quando a nave revida, os thlianos criam uma teia de energia em volta da nave terrana que funciona com uma gaiola.

A teia dos tholianos, escrito Judy Burns e Chet Richards é um episódio repleto de suspense, em que várias ameaças ocorrem ao mesmo tempo, criando uma situação de extrema tensão – algo que seria depois reproduzido à exaustão em outras séries da franquia.

O grande problema é que tudo no roteiro é forçado demais. Não há uma explicação plausível nem para a loucura nem para o transporte da Deviant para outra dimensão e fiquei me perguntando porque a enterprise era afetada pela loucura, mas não é impelida para outra dimensão, já que ambos os problemas parecem relacionados àquele lugar no espaço. Por outro lado, a frota tholiana não parece afetada nem por um nem por outro.

Da mesma forma, a solução tanto para a loucura quanto para a teia ocorre com uma explicação forçada.

Pela estrutura de três ameaças simultâneas, esse episódio poderia facilmente ser um dos mais célebres da série clássica, mas os furos do roteiro fazem com que isso não ocorra.

O que salva o episódio, além do elenco, claro, é a direção e suas soluções criativas, como usar a lente grande angular para simular a loucura dos tripulantes da Enterprise.

Xisto no espaço

 


Olhando em retrospecto, percebo que dois livros, lindos na pré-adolescência, foram essenciais pelo meu fascínio pelos gêneros da fantasia e da ficção-científica. O interesse pela fantasia surgiu com As aventuras de Xisto. Já a ficção científica, com Xisto no espaço, ambos lançados na coleção Vaga-Lume e de autoria de Lúcia Machado de Almeida.

Recentemente consegui num sebo o último e o reli agora com um olhar de adulto sobre aquela obra lida no fim da infância.

A história começa num laboratório, onde dois cientistas captam uma mensagem vinda de outro planeta. Os dois são construídos como alívios cômicos, estratégia da escritora para garantir o interesse de crianças.

Protônius é um homem alto, de óculos com aros de tartaruga e cabelos compridos sempre revoltos. “Vivia inventando coisas esquisitas e tinha fama de doido (mas não era)”, explica a autora. Já o professor Van-Van é um homem baixo, de barba enorme, dado a desmaios repentinos e a falas incompreensíveis.

A mensagem captada por eles é estarrecedora: “Caso Xisto não venha até Minos, atacaremos vosso planeta quando este sair de seu eixo. Inútil reagir. (Assinado) Rutus, o que não tem sangue, senhor de Minos”.

Xisto, neste livro, já foi alçado à condição de governante local, apesar da sua pouca idade (17 anos) e continua o mesmo idealista guloso de sempre, louco por pastéis de queijo. Ele resolve enfrentar o desafio de uma viagem espacial e ir para Minos.

Um dos aspectos interessantes do livro é como Lúcia Machado de Almeida descreve a astronave, seus equipamentos e forma de funcionamento. Um exemplo: “Afim de tornar respirável o ar no interior da astronave, o Professor Van-Van preparara um recipiente com soda cáustica, clorato, peróxido de potássio e outros produtos destinados a absorverem o gás carbônico eliminado pela expiração, e a fabricarem o oxigênio necessário à respiração. Além disso, uma espécie de aquário cheio de algas unicelulares foi colocado no mesmo lugar, a fim de reforçar a purificação da atmosfera”. A decolagem se dá em estágios, com foguetes se desprendendo.

O livro foi escrito em 1967, auge da corrida espacial (os americanos chegarima à Lua em 1969) e fica óbvio que a autora acompanhava as notícias sobre o assunto e tentava se inteirar de como seria uma viagem espacial. Ela, aliás, antecipa alguns aspectos, como o passeio no espaço com pistola de pressão, algo que seria de fato usado por astronautas. Ela também usa informações científicas, como a descoberta da penicilina, de forma criativa para eliminar um perigo.

Apesar da imaginação da autora surpreender em muitos pontos do livro, sua percepção da vida em outros planetas é limitada. Xisto e seu amigo Bruzo chegam, por exemplo, em um planeta chamado Nívea em que os habitantes são exatamente iguais aos terrestres e o que muda é apenas a fauna, muito grande ou muito pequena: “Incrível! Animais das selvas reduzidos a cinco centímetros de tamanho! Camelos de um dedo, ursos do tamanho de uma caixa de fósforos... E tudo isso vivo, correndo de um lado para outro”.

A autora, entretanto, consegue fazer uma obra empolgante, mesmo para um leitor adulto, pela trama um tanto ingênua, mas bem bolada, em que, por exemplo, um gancho jogado lá no início do livro, como o lenço encharcado de essência de feno, torna-se fundamental no desfecho da trama.  

O livro encanta também por sua visão pacifista do mundo. No final, a grande ameaça de Rutus é debelada sem o uso de violência. Xisto é um herói que coloca o cérebro acima dos músculos e dos punhos.

O bem amado

 


O bem amado foi a primeira novela em cores da TV brasileira. Foi também a primeira a ser exibida em outras países. Mas a origem dela foi uma peça escrita por Dias Gomes e que ele achou que nunca seria encenada.

Escrita em 1962 e publicada na revista Cláudia, ela só foi encenada em Recife, em 1969. A razão é que os produtores achavam que tinha muitos personagens.

Na trama um político corrupto e oportunista chamado Odorico Paraguaçu se elege prefeito com a promessa de construir um cemitério, já que até então era necessário levar os mortos para outra localidade. Ele tira dinheiro da saúde e educação, mas consegue realizar sua obra. Só que, azar dos azares, ninguém morre, o que ameaça levar o prefeito ao impeachment pelo gasto desnecessário.

A peça deu origem à primeira novela colorida da televisão brasileira. 


No texto, publicado pela editora Bertrand o que chama a atenção é a ótima caracterização dos personagens, em especial Odorico, e o senso de humor refinado de Dias Gomes, que consegue ser, ao mesmo tempo, muito inteligente e extremamente popular.

Odorico se caracteriza principalmente pelos neologismos, como “defuntice compulsória”, “namorismo”, “agoramente” e “Botando de lado os entretantos e partindo para os finalmente”.

O texto é de morrer de rir, com destaque para o quinto quadro, quando um rapaz moribundo é levado por Odorico para Sucupira na intenção de que, uma vez morto, inaugurasse o cemitério. Mas acontece uma tragédia: o rapaz não só sobrevive, como ainda fica mais saudável que antes graças ao ar da cidade. “Ele veio com a condição de morrer aqui! Falta de palavra...”, reclama Odorico.  

A origem do O Homem de ferro

 

 

Em 1963, a Marvel vivia o auge da criatividade. Personagens como Homem-aranha, Thor, Hulk e Quarteto Fantástico revolucionavam os quadrinhos de super-heróis. Foi nesse ano que surgiu um dos personagens mais políticos da editora: o Homem de ferro.
            Stan Lee queria fazer um personagem que fosse bilionário e inteligente, um ricaço (talvez em oposição ao pé-rapado Homem-aranha). Mas, como sempre acontecia com os personagens da Marvel, este precisava ter um ponto fraco, um pé de barro. O Demolidor, por exemplo, era cego. Que problema tornaria esse novo personagem frágil? ¨E se o nosso herói tivesse uma falha no coração? E se esse problema o obrigasse a usar um dispositivo metálico para se manter vivo? Ora, esse dispositivo poderia ser o elemento básico numa armadura capaz de lhe dar poderes, e, ao mesmo tempo, esconder sua identidade¨, pensou Stan Lee.
            O personagem surgiu em plena guerra do Vietnã e foi usado como propaganda patriótica.
            Assim, o herói é Tony Stark, um homem que fabrica armas para o exército norte-americano. Em um de suas visitas ao campo de batalha, ele é atingido por estilhaços de granadas e feito prisioneiro pelos vietcongs. O famigerado general comunista Wong Chu o obriga a construir uma arma para derrotar os exércitos da democracia, mas Stark usa o tempo para construir para si uma armadura capaz de mantê-lo vivo e derrotar as tropas comunistas.
            Essa história foi publicada na revista Tales of Suspense 39, com grande sucesso (o que fez com que o personagem ganhasse um desenho animado). Posteriormente o herói metálico iria dividir a revista com o Capitão América, reformulado por Stan Lee e Jack Kirby.
            Embora o uniforme do personagem tenha mudado muito desde aquela primeira aventura, alguns elementos se mantiveram inalterados: o problema de coração e o poder que se esvai quando a energia acaba, obrigando o herói a parar para recarregar... só o fator político que foi esquecido quando a guerra do Vietnã se tornou impopular entre os norte-americanos. Anos depois, escrevendo sobre o herói, Stan Lee fez um mea culpa: ¨Este conto foi escrito em 1963 e, nessa época, nós acreditávamos que o conflito naquela terra sofrida era uma simples questão de confronto entre o bem e o mal. De lá para cá, todos nós crescemos um pouco e, até hoje, estamos tentando nos livrar do trágico envolvimento com a Indochina¨.

Batman – Máscaras

 


Batman está impedindo um arrombamento quando começa a se sentir mal. Ele desmaia e, ao acordar, se vê na cama de um hospital. Médicos, enfermeiros e um psicólogo dizem que ele está ali há meses sendo tratado por alcoolismo. Aparentemente ele foi achado em um beco vestindo uma roupa que é uma versão barata do uniforme do Batman, com luvas de borracha e capa de saco de lixo, o que indica que toda a história de vigilantismo é nada mais que uma fantasia de sua cabeça.

Ao mesmo tempo, ele começa a ter delírios com os pais e com vilões.

Batman existe mesmo ou é só uma fantasia de Bruce Wayne? 


Esse é o mote da minissérie Máscara, de Brian Talbot, publicada na série Contos de Batman. É uma proposta instigante, que deixa o leitor em eterna dúvida, assim como o personagem: aquilo está realmente acontecendo ou é tudo algum tipo de ilusão criada por um vilão?

Os melhores trechos da história são as conversas com o psicólogo da instituição. Segundo ele, o casal Wayne não só foi assassinado, mas também deixou dívidas enormes, deixando Bruce na miséria. “No orfanato, você sofreu Bullying constante. Fugiu aos catorse anos e logo sucumbiu ao alcoolismo”, informa ele.

Bruce Wayne começa a ter alucinações com os pais. 


Brian Talbot faz referências diretas à série Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, mas o faz para refletir sobre o personagem: “Você se refugia na identidade do Batman para tentar controlar seu mundo. A vida real não faz sentido para você. Ela assassinou seus pais e o prejudica desde a infância. Você enxerga o mundo como um caos sem sentido. Sente que precisa impor a ordem”, explica o psicólogo. “Basicamente, é um impulso fascista que muitos compartilham”.

O nome da série refere-se diretamente aos estudos de Jung sobre personalidade. “Sabia que, originalmente, a palavra persona significava máscara?”, diz o psicólogo. “Segundo Jung, trata-se da personalidade assumida por um indivíduo em adaptação ao mundo externo”.

Os melhores trechos são as falas do psicólogo. 


Há também uma sequência em que a Mulher-Gato aparece para o herói em seu delírio. “Sou a sua fantasia sexual”, ela diz. “O seu fetiche em couro”.

No final, quando a situação finalmente é explicada, o resultado parece muito aquém do que se poderia esperar. Máscaras vale principalmente pelo curioso estudo de personagem, pela crítica implícita, e pela forma como o personagem reage a situações extremas.

No Brasil essa história foi publicada pela Panini no álbum Máscaras e outras lendas das trevas. 

Warlock – Julgamento

 


Um dos personagens mais carismáticos da série Warlock era Pip, o Troll. Ele surgiu em Strange Tales nº 179 como um dos seres da Nave da Morte destinados à escravidão pela Igreja da Verdade Universal. Contudo, Pip só ganharia destaque na edição seguinte, ao decidir acompanhar o herói ao Mundo Natal na tentativa de encontrar e destruir o tirano Magus.

Pip é grosseiro e cínico: o traço reforça esse aspecto. 


Cínico, Pip vive arranjando brigas, mas é Warlock quem acaba salvando-o: “Mandou bem, olhos pretos! Dá uma nele por mim!”, comemora o troll. Nessa história, temos também um melhor desenvolvimento da Matriarca, personagem que aparecera brevemente na edição anterior. Aliada de Magus, ela mantém uma relação dúbia com o tirano, pois pretende usar Warlock para consolidar seu próprio poder.


A matriarca é bela e refinada, com o traço destacando seu aspecto dúbio. 

O aspecto mais interessante aqui é como Jim Starlin trabalha seus personagens não apenas através dos diálogos, mas também pelos traços. Enquanto Pip possui um traço grosseiro e formas atarracadas, a Matriarca é desenhada como uma mulher belíssima, com um traço refinado que destoa de todos os outros personagens. Se o estilo de Starlin destaca a personalidade cínica e autêntica de Pip, ele também ressalta a dubiedade da vilã, cuja beleza esconde uma sede insaciável por poder.

Julgamento forjado: crítica à inquisição. 

Na história, a Matriarca aprisiona Warlock e o submete a um julgamento presidido por um inquisidor grotesco: um rosto com pernas e quatro braços. Todo o julgamento é uma farsa: o advogado de defesa é um olho incapaz de falar que passa o tempo todo dormindo; o promotor é uma boca com olhos e as testemunhas são executadas caso não digam o que o juiz deseja ouvir.

É surpreendente que essa sátira ácida ao sistema judiciário — e, em especial, à Inquisição — tenha sido publicada pela Marvel e aprovada pelo Comics Code Authority. Isso demonstra que a estratégia de Starlin de usar a ficção científica como metáfora funcionava perfeitamente para camuflar seus verdadeiros alvos. 

A primeira aparição de Gamora: aliada ou inimiga? 


É também nesta história que surge, pela primeira vez, outra personagem fundamental da série: Gamora. Neste momento inicial, ela é apresentada de maneira enigmática, deixando o leitor em dúvida se ela será uma aliada valiosa ou a assassina de Warlock.

segunda-feira, novembro 02, 2026

13 vidas – O resgate

 

Tailândia. No dia 23 de junho de 2018 de 12 meninos entre 11 e 16 anos resolveram entrar numa caverna para comemorar a vitória numa partida de futebol. O técnico os acompanhou. Quando já estavam adiantados na caverna, começou a chover forte e, na tentativa de fugir do alagamento, eles foram entrando cada vez mais no local, até chegarem o ponto de ficarem totalmente isolados.

Uma equipe de resgate incluindo mergulhadores especializados de diversos países se envolveu na tentativa de resgate. Os garotos e o treinador tinham se refugiado num local a quilômetros da entrada e a operação de salvamento, mesmo para mergulhadores treinados era extremamente difícil. A água era turva, quase impossível de ver (alguns mergulhadores diziam que era como café frio). Além disso, alguns trechos eram tão estreitos que os mergulhadores tinham que tirar os tubos de oxigênio para conseguirem passar. A viagem inteira, quase o tempo todo dentro da água, durava de seis a oito horas.

O local era um labirinto tão difícil que os garotos só foram encontrados nove dias depois.  A travessia era tão árdua que um dos mergulhadores morreu na tentativa de chegar aos garotos. Como resgatar crianças que nunca tinham mergulhado na vida, ainda mais nessas condições? Para piorar, uma chuva ainda mais forte está vindo, o que pode tornar impossível o resgate.



É esse desafio que Ron Howard mostra no filme 13 vidas, recente lançamento do Amazon Prime Vídeo. Diretor de clássicos como Cocoon e Uma mente brilhante, Howard é competente até mesmo quando dirige filmes meramente comerciais, como O código Da Vinci. E aqui ele encontra uma história que reúne todos os elementos para um bom filme. A história real já é repleta de suspense, algo muito bem aproveitado pelo diretor, assim como o elemento humano, outra grande especialidade de Howard. O filme consegue explorar muito bem o quanto parecia impossível o resgate e como era ousada a estratégia usada para o mesmo. Ajuda muito a escolha inteligente do diretor de fazer imagens focadas, dando uma impressão de claustrofobia. O diretor também inclui mapas que ajudam o expectador a entender o desafio.

Tudo é muito bem aproveitado: a apreensão dos parentes das vítimas, as dúvidas dos mergulhadores, o trabalho dos centenas de voluntários, que ajudaram a tirar água da caverna.

Talvez por isso 13 vidas não tenha momentos marcantes. Todos os momentos são marcantes. É um filme linear, que mantém o interesse do expectador durante todos o tempo de 2 horas e 27 minutos.

Em tempo: um momento curioso do filme é quando os garotos são finalmente descobertos e esses dizem que conseguiram sobreviver graças às lições de meditação dadas pelo treinador. Noventa e cinco por cento da Tailândia professa o budismo.

Artigo sobre a revista Herói

 


Meu artigo A revista Herói e o jornalismo infanto-juvenil apresentado no 42o Congresso Intercom de Ciências da Comunicação já está disponível nos anais do evento. Para acessar, clique aqui.

Memórias de um Arqueiro Verde

 


Entre as histórias mais célebres do Arqueiro Verde está a minissérie escrita por Mike W. Barr e desenhada por Trevor Von Edden. 

Na trama, Oliver Queen é convidado para a leitura de um testamento e descobre que se tornou o herdeiro de uma multinacional. A mulher que deixou a herança, Abby Horton, foi a mentora do personagem e tudo indica que ela foi assassinada e caberá ao herói descobrir quem é o culpado e qual foi a motivação. 

A missérie reconta a origem do herói. 


Um dos atrativos da série é recontar a origem do personagem, no estilo que seria feito anos depois em série como Batman ano um. Nessa versão, Oliver Queen é um playboy preocupado apenas com diversão que, jogado no mar por piratas, aprende a sobreviver com o uso de flechas até se tornar um expert nesse tipo de arma. 

Como essa é uma história de super heróis, temos também vilões, como o conde Vertigo e o Capitão Chibata. Mas o atrativo do roteiro realmente é a trama policial bem elaborada, com um bom plot twist final.

O desenho de Trevor Von Eden se destaca. 


Apesar do bom roteiro, o que realmente chama a atenção é o desenho de Trevor Von Edden, cujo maior destaque são as Splash page impressionantes, como aquela em que o Arqueiro e Canário estão descendo de paraquedas no meio da artilharia inimiga. Aliás, o roteirista pecou por não dar mais destaque para a Canário. Trevor desenha ela com perfeição.

Não bastasse a virtuose no desenho, Trevor também se destaca pela diagramação inovadora com quadros divididos meio para criar ideia de sequência ou várias imagens num mesmo quadro. O ápice dessa experimentação é a cena desenhada como uma página de jornal. 

A diagramação era inovadora. 


No Brasil essa história foi publicada pela editora Abril em Superamigos e foi uma das que mais chamaram a atenção dos leitores à época. Até hoje não entendi porque a Panini não republicou.

Esquadrão Atari – Traidor

 


Desde que Blackjack voltou da aparente morte nas mãos do Destruidor Negro, Martin Champion desconfiou de que ele fosse na verdade um espião do vilão.

Isso acabou se revelando verdade no número 11 da série Esquadrão Atari.

A capa já revela essa verdade, numa daquelas cenas impressionantes que só Garcia-Lopez conseguia fazer: Dart está caída no chão, a calça rasgada pelo que parece ser um tiro. Ela olha para cima, assustada e levanta a mão esquerda para se defender. Acima dela, Blackjack sorri e aponta a arma futurista.

Blackjack está a serviço do Destruidor. 


Já no interior, vemos Blackjack acordando no meio da madrugada e acessando o computador da nave para fazer uma ligação para o vilão. “Como estão meus amigos do Esquadrão Atari?”, pergunta o Destruidor. “Espero que Martion Champion e seu filho gozem de boa saúde! Não quero que nada aconteça a eles... ainda!”.

O plano do Destruidor é levar o grupo ao local onde está instalada a bomba de antimátiera que irá destruir todo um universo como forma de se vingar de Champion.

Blackjack seria capaz de matar sua amada? 


Para isso, Blackjack trava os controles da nave, fazendo com que ela se direcione exatamente para o local onde o vilão quer. Nesse meio tempo, a traição de Blackjack é descoberta e a imagem da capa se reproduz na HQ: Dart caída, seu namorado apontando a arma para ela, pronto para mata-la.

Toda essa sequência é uma mostra de como a dupla Gerry Conway e Garcia-Lopez estava sintonizada. O roteiro eleva o suspense ao seu máximo e o desenho destaca ainda isso.

A esposa de Martin Champion morre no parto e ele passa a acreditar que a culpa é do bebê. 


Essa mesma edição traz a explicação da relação conflituosa entre Martin Champion e seu filho.

Numa sequência extramemente dramática, vemos o nascimento da criança. A mulher é envolva por uma luz e grita: “Oh, meu Deus... ele está me matando! Martin, é ele... é ele!”.

Champion a partir daí passa a acreditar que o filho de alguma forma matou a mãe, mas ele entendeu mal a mensagem: o verdadeiro assassino é o Destruidor Negro, que todos pensavam estar morto e estava ali iniciando sua jornada de vingança.  

Mama Guga

 


Fernando Canto é um dos grandes nomes da literatura amapaense. Mais conhecido por suas letras de música – ele foi um dos fundadores do grupo Pilão, que marcou época na MPA, ele também é um contista inspirado, como mostra o livro recém-lançado pela Paka-Tatu, Mama Guga.
O livro traz contos intimistas e emocionantes, como O retrato azul, narrado como um filho falando ao pai: “Agora estou aqui, engolindo este silêncio, sem saber o que dizer para você (...) Agora estamos nós dois sem saber o que fazer... Você aí sentando nesta rede com os olhos brilhosos de lágrimas, olhando fixo o quadro que lhe demos de presente de aniversário”. Além de criativa, a abordagem permite um aprofamento no personagem que talvez não fosse possível de outra maneira.
Há contos que oscilam entre o causo urbano, o humor e o drama, como em “A seringa contaminada de Bambo, o zagueiro do futlama”, no qual um homem com HIV ameaça picar pessoas com uma seringa.
Mas os melhores contos são aqueles em que Fernando Canto se utiliza da mitologia local, entremeando-a muitas vezes de fatos históricos e narrativas cotidianas. Exemplo disso é “As mulheres-peixe do meu garimpo”, sobre um garimpeiro que se enamora de sereias encontradas em uma gruta. Mas são sereais amazônicas, com cor local e sexualidade aflorada: “Tinham a cor dourada e eram largas. Suas barbatanas eram vermelhas, umas gracinhas. Nem de longe pareciam com as sereias que eu tinha visto em revistas. Brincavam com as águas e sorriram quando me viram. Me chamaram pra bem perto delas, e aí pude conhecer o verdadeiro sabor do prazer sexual”.
Desses, o melhor é “A cidade encantada sob a pedra”.
A história se passa em uma cidade fictícia (meio que uma mistura de Macapá e Mazagão), mas mágica, em que seres encantados saem do fundo do rio para defender os negros entre eles o pretinho Chibante, que distribui para a criança bombons trazidos em seu chapéu de casco de tartaruga.
Na história, dois irmãos descem à cidade encantada em busca de um suposto tesouro. O interessante do conto é a forma como o autor mescla fatos históricos, personagens mitológicos e ladrões de marabaixo para construir sua narrativa.
Para quem não é da região, os ladrões são músicas cantadas nas rodas de marabaixo, geralmente sobre fatos ocorridos na comunidade.
Há duas versões sobre o nome. Na primeira delas, os versos são chamados ladrões porque um “rouba” a música do outro, continuando o verso. Na outra, porque a letra “rouba” fatos das vida pessoal das pessoas, tornando-as públicas através da música. Fernando Canto adota essa última explicação e constrói todo o conto a partir de ladrões, entremeando-os à narrativa em prosa. A narrativa é fluída, quase como um causo narrado a um visitante e fantasia, história e ladrões vão se misturando naturalmente.
O conto é um delicioso causo e, ao mesmo tempo, uma curiosa experiência estética.   

É de se destacar o ótimo trabalho editorial da Pakatatu no livro, a começar pela bela capa com ilustração de Maciste Costa. O papel polém e a difamação simples, limpa, mas eficiente fazem com que a leitura do livro se torne leve e agradável. 

Álbum de figurinhas Marvel 80 anos

 


Este ano a Marvel completa 80 anos. Para comemorar, a Panini lançou um álbum de figurinhas que é, desde já, item de colecionador.

Álbuns de figurinhas de quadrinhos não são novidade. Da Marvel muito menos. Lembro de pelo menos dois. Mas a maioria era apenas ilustrações, a maioria contemporâneas, de personagens da editora. O diferencial deste é que ele é praticamente um documento histórico. Embora de maneira bastante sucinta, os textos contam a história da editora, desde Marvel Comics número 1, que trouxe Namor e Tocha Humana, os primeiros heróis da editora, até os dias atuais, passando por fases pouco conhecidas da editora pelos leitores atuais, como quando a editora se especializou em histórias de terror, monstros, faroeste e até românticas.

Uma das atrações é a reprodução das capas originais.

A grande atração aqui são as reproduções das capas originais em figurinhas com borda metalizada.

Ao final há uma história em quadrinhos com quadros que precisam ser completados com figurinhas com o Capitão América, uma escolha mais do que acertada, já que o personagem foi um dos primeiros sucessos da Marvel e continua relevante até os dias atuais. É um pequeno conto sobre uma garota que ajuda o Capitão e precisa de sua ajuda para convencer sua mãe sobre os rumos de sua vida. Infelizmente a HQ não é creditada.

Ah, o álbum traz também cards desenhados por gente do calibre de Alex Ross e Mike Deodato Jr.

É uma boa oportunidade para apresentar a história da Marvel para as novas gerações. Eu comprei para montar com meu neto.