sábado, setembro 05, 2026

A Geração dos vídeos curtos e o fim da atenção


 Há algum tempo, fizemos uma viagem de navio que durou 24 horas. Ao nosso lado, uma mãe segurava o celular para que a filha assistisse a vídeos curtos e aleatórios por horas intermináveis. Quando a bateria finalmente acabou, a bebê foi tomada por um acesso incontrolável de choro. Em outra ocasião, num restaurante a quilo, uma mãe deixou o filho — de cerca de 6 anos — na mesa, hipnotizado por esses mesmos vídeos (o garoto já havia entrado no recinto com os olhos fixos na tela). Quando ela precisou do aparelho para pagar a conta, o menino começou a gritar e a bater na mesa.

Está sendo criada uma geração de crianças viciada em vídeos curtos, que se tornará incapaz de assistir a qualquer conteúdo com mais de 30 segundos ou de ler um texto com mais de duas linhas.

Um pequeno reflexo desse fenômeno já pode ser visto nos cinemas. Fomos assistir a Coiote vs. ACME e uma mulher à minha esquerda passou a exibição inteira mexendo no celular. Mudei de poltrona e o grupo de adolescentes à direita mantinha o mesmo comportamento. Quando minha esposa reclamou, uma jovem soltou uma desculpa que resume bem essa mentalidade: “Nós não reclamamos quando vocês riem do filme”. Na cabeça dela, rir de uma comédia no cinema é algo absurdo. Essa é a síntese desta nova geração. E a tendência é piorar — e muito — nos próximos anos.

Em tempo: o filme é ótimo. Assistam. Mas desliguem o celular. 

Ajax, o marciano - sonho febril

 


Ajax, o caçador marciano, é um dos personagens mais tradicionais da DC comics, tendo participado da Liga da Justiça desde a sua primeira formação. Entretanto, poucas vezes o personagem ganhou destaque próprio. 

Em 1988, JM Dematteis, escritor da Liga , aproveitou um gancho de uma das histórias para criar uma minissérie em quatro partes que desenvolvia e redefinida o herói marciano. 

O desenho de Mark Badger funciona muito bem na história. 


Na história, Ajax enlouquece após ser infectado por um esporo e começa a ser perseguido por um deus marciano e por recordações de seu planeta natal. Mas as aparições existem mesmo ou são apenas fruto da febre de uma mente paranormal? 

Ajax é atormentado por um deus marciano. 


A série se destaca pelas sequências com ótimo texto com recursos poéticos, a exemplo de: 

 Jamais conheci o medo

(exceto no sono)

Jamais fugi

(exceto em sonhos)

Nunca fui colhido pelo terror

(exceto nos momentos em que algo vago e inominável trilhou por minha mente)

O texto é poético. 

 

Por outro lado, o desenho de Mark bagder se encaixa bem nessa trama lisergica. 

Essa minissérie, profundamente intimista, tinha pouca ação, mas ainda assim era uma leitura cativante. 

No final, a versão de Dematteis para Marte de Ajax é uma bela homenagem a Ray Bradbury.

No Brasil essa minissérie foi publicada na revista Liga da Justiça.

Origens secretas - filme policial explora o universo dos quadrinhos

 


Um homem é encontrado morto numa espécie de academia clandestina. Ao investigar, descobrem que ele era um cientista magro que em poucos meses se transformou num monstro musculoso. E mais: sua pele se tornou cinza. Esse assassinato remete diretamente ao primeiro número do incrível Hulk em que o magrelo cientista Bruce Banner se torna no monstro cinza Hulk. Sim, cinza, pois era essa a cor do personagem no início.
Esse é o primeiro de uma série de assassinatos que deverá ser desvendado pela polícia de Madrid. Para ajudar a solucioná-los, um detetive aposentado indica para o policial que irá substitui-lo seu filho, dono de uma loja de quadrinhos. E é formada uma dupla totalmente disfuncional: de um lado o detetive David, que odeia super-heróis e acha que quadrinhos são para crianças. Do outro, o nerd Jorge Elias, uma enciclopédia sobre quadrinhos, que consegue perceber todas as pistas quadrinísticas deixadas pelo assassino que levarão aos próximos casos. Completa o trio a chefe da polícia, que faz cosplay nas horas vagas e muitas vezes aparece na cena do crime vestida de personagem de anime ou de quadrinhos.
A temática poderia ser abordada em tom dramático, como um Seven quadrinístico, mas a opção do diretor David Galán Galindo preferiu levar o filme "Origens secretas", lançado pela Netflix, na direção da comédia – com uma quantidade enorme de piadas e referências à cultura pop em cada sequência. Como não podiam mostrar os quadrinhos originais, por uma questão de direitos autorais, os produtores criaram algumas peças interessantes. Logo que entra pela primeira vez na loja de quadrinhos, o detetive se deparada com um item raro, o gibi que mostrava a luta de Muhammad Ali contra o Superman. Mas, em decorrência do já citado problema com direitos autorais, aparece um boxeador lutando contra um herói genérico chamado Zinco. O nome do boxeador? Neal O´Neil, uma referência a Neal Adams e Denny O´Neil, respectivamente desenhista e roteirista do gibi original.
A ênfase no humor e a decisão de fazer um filme que começa como policial e termina como super-heroiesco faz com que o filme peque na profundidade dos personagens. Mas é um bom filme, divertido, que irá alegrar a maioria dos fãs e tem a atração de tentar não só adivinhar quais serão os próximos crimes, mas perceber todas as referências.

A voz do fogo, de Alan Moore

 

 

Quem lia quadrinhos na década de 80 espantava-se com a capacidade narrativa do mestre inglês Alan Moore. E surgia sempre a dúvida: ele se sairia tão bem na literatura, sem o auxílio dos desenhos? A voz do fogo, seu livro recentemente lançado no Brasil pela Conrad Editora, prova que quem é bom, é bom em qualquer mídia.
A obra traça a trajetória de Northampton, a cidade natal de Moore, por meio de seus habitantes. A trama tem início quatro mil anos antes de cristo e prossegue até 1995. São vários contos interligados que nos dão um panorama geral da localidade e de sua evolução, mesclando magia, reencarnação e sacrifícios.
O primeiro conto, O porco do bruxo, é provavelmente o mais interessante e também o de leitura mais difícil. Gira em torno do drama de um garoto na Era Neolítica, abandonado pela tribo quando sua mãe morreu. Imagine, então, o desafio de redigir uma aventura em primeira pessoa cujo narrador ainda não domina a linguagem falada. Para tanto, Moore cria uma linguagem estranha, sem tempos verbais e com pouquíssimos pronomes. O resultado é fantástico, mas árduo.
Sinta só este exemplo: Agora olha eu para baixo, para a grama em fundo da colina, vê porcos. Porcos grandes, compridos, um atrás de outro, traçando a fêmea, pelo que parece. Ver faz um osso subir dentro de eu vontade. Eu e barriga de eu, junto, posso descer colina correndo até porcos, acertar pedra em um e fazer ele sem vida, para comer ele todo. Antes é eu juntando isso. Agora é fazendo isso.
O episódio que vem a seguir é igualmente interessante. Os campos de cremação é uma trama policial e de suspense ambientada no ano 2.500 antes de Cristo. Em viagem para conhecer seu pai, um bruxo de uma rica aldeia, uma jovem depara-se com uma esperta andarilha, que já havia feito de tudo, inclusive vender uma criança perdida da mãe como escrava. Ingenuamente, a menina conta-lhe detalhes da fortuna do seu genitor. A mau-caráter, então, mata a incauta e apresenta-se na aldeia, fazendo-se passar por ela. A grande questão é saber se a impostora será descoberta ou não. A todo instante, Alan Moore mantém-nos no fio da navalha, jogando com os nervos da personagem e os nossos.
Neste mesmo episódio, dá-se algo que define bem a atuação do autor. O velho bruxo tatua, no corpo, o mapa de Northampton e assim influencia a cidade, que, por sua vez, exerce influência sobre ele. O mesmo ocorre com Moore. Suas palavras são uma espécie de magia simbólica que molda e se deixa moldar pela cidade. Compreender como isso transcorre e descobrir as coincidências entre as diversas tramas é mais um dos atrativos do livro. Muitas vezes, a conclusão de uma narrativa dá-se apenas em outra. Além disso, há personagens fixas, como arquétipos, que surgem aqui e acolá, permeando os textos. Entalhando as palavras, Moore garante que, se o conteúdo mágico e holístico do livro não for suficiente para atrair o leitor, a poderosa narrativa cuidará de prender sua atenção até o último parágrafo. São, portanto, mais de trezentas páginas, mas que muito facilmente serão lidas num fôlego só.

Um certo capitão Rodrigo

 


Assim como Ana Terra, Rodrigo Cambará se tornou um personagem tão popular da trilogia O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, que, de capítulo, passou a ser publicado como livro solo.

Sua primeira aparição é marcante tanto pela descrição acurada de Veríssimo quanto pelos ótimos diálogos: “Toda gente tinha achado estranha a maneira como o Cap. Rodrigo Cambará entrara na vila de Santa Fé”. Ele tinha vindo ninguém sabia de onde, com seu chapéu puxado para a nuca, a cabeça altivamente erguida, o olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava. Trazia um violão a tiracolo e uma espada apresilhada aos arreios. O lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira.

- Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de malho! – diz ele, ao entrar na venda local.  

O personagem cria ao mesmo tempo estranhamento e fascínio e vai, aos poucos, conquistando todos na cidade, a começar por Juvenal Terra, neto de Ana Terra, que num primeiro momento desafia o recém-chegado, mas logo se torna seu amigo.

Toda a trama do livro se desenvolve a partir de uma mudança no Capitão. Ele se apaixona por Bibiana Terra e resolve ficar na vila, contrariando sua natureza aventureira. Claro que esse romance irá enfrentar muitas dificuldades, a começar pelo pai da moça, Pedro Terra, que o odeia, e pelos Amarais, que mandam no local e cujo mais moço, Bento, quer a mão da moça mais bonita de Santa Fé. A garota, entretanto, é apaixonada pelo forasteiro. “O vício dela era Rodrigo”, escreve Veríssimo.

Apesar da trama relativamente doméstica na maior parte (na parte final, estoura a revolução farroupilha), é um livro que prende o leitor tanto pela personalidae carismática do protagonista quanto pelo texto de Veríssimo, que nos serve uma verdadeira aula de narrativa em que simbologias se sobrepõe.

À certa altura, por exemplo, a filha do casal está doente, mas o Capitão está na mesa de carteado. Vão avisá-lo, mas ele se nega a sair. “Escutou o vento. Sua filha está muito mal”. O vento aqui é uma simbologia feminina, algo que já havia sido explorado desde o capítulo sobre Ana Terra. Quando o capitão resolve finalmente ir para a casa, Veríssimo escreve: “Enfiou o poncho e saiu. A ventania esbofeteou-lhe a cara e ele começou a caminhar lentamente no rumo de casa”.

Se o vento é uma simbologia feminina, o tempo é uma simbologia masculina, assim como a guerra: “Um dia a guerra vem. Tudo se resolve. A guerra e o tempo. Remédio pra tudo”. Enquanto o tempo tudo cura, o vento tudo leva.

Propostas discordantes no jornalismo

 


Na história do jornalismo percebemos que nem todos leram pela cartilha da objetividade e da pirâmide invertida.

Alguns movimentos e publicações discordavam abertamente do atual modelo de reportagens e apresentavam propostas de mudanças.

Uns se contentaram em mudar a pauta, realizando publicações sobre assuntos pouco enfocados pela imprensa estabelecida. É o caso da imprensa alternativa.

Outros propuseram uma mudança radical até mesmo no jeito de fazer jornalismo. Eu as chamei de "propostas discordantes". Tais propostas colocaram em xeque nossa idéia de imprensa e nos fizeram perguntar o que realmente caracteriza o jornalismo.
Capote, um dos criadores do novo jornalismo


Novo jornalismo

A proposta de aproximar o jornalismo da literatura não é nova. Muitos escritores transformaram reportagens em obras literárias. Exemplo disso é o livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, um verdadeiro marco tanto da imprensa quanto da literatura brasileira.

Mas o grande mentor dessa relação foi o norte-americano Truman Capote. Ele acreditava que a reportagem poderia ser uma arte tão requintada quanto qualquer outra forma de prosa, tais como o ensaio, o conto e a novela.

Para provar sua tese, ele procurou o tipo mais baixo de matéria jornalística: a entrevista com astros.

Os brasileiros sabem o quanto é descartável esse jornalismo praticado por revistas como Contigo, Caras e Quem.

Capote queria transformar esse tipo de matéria em uma arte autêntica, provando que o jornalismo poderia ser um gênero literário.

Para isso ele procurou o ator Marlon Brando, então no auge da fama. Capote passou uma noite com Brando em um apartamento em Kioto, no Japão, onde o astro estava filmando Sayonara, de Joshua Logan.

Os dois conversaram a noite inteira, sem que Capote gravasse ou fizesse anotações. Ele acreditava que esses recursos criam um clima artificial e destrói a naturalidade por parte do entrevistado.

O resultado foi publicado na revista New Yorker em 1956 com o título de "O Duque em seus domínios".

Estava criado o Novo Jornalismo.

O texto mostrava o ator de maneira até então inédita e antecipava até mesmo a gordura de Brando (que chegou a pesar, nos anos seguintes, 120 quilos). O ator admitiu, entre outras coisas, que se sentia ofuscado pelo sucesso: "Um excesso de êxito pode arruinar um homem tão irremediavelmente quanto um excesso de fracasso".

Brando aceitou seu perfil como fidedigno, mas disse que se sentiu traído: "Aquele pequeno canalha passou a metade da noite me contando seus problemas. Achei que o mínimo que poderia fazer era contar-lhe os meus".

Em 1959, ao saber que quatro membros de uma família de fazendeiros haviam sido assassinados brutalmente (eles foram amarrados, amordaçados e receberam tiros na cabeça), Capote rumou para a cidade em que havia acontecido o crime, Garden City, decidido a chegar ao ápice de seu projeto de narrar a realidade como ficção.

Passou cinco anos pesquisando. Entrevistou, perguntou, levantou os menores pormenores do caso, tornou-se amigo dos policiais e até dos criminosos, dois assaltantes de nome Perry Smith e Dick Hickock.

Antes de publicar o relato, ele passou o texto para checadora da revista, Sandy Campbell, que verificou todas as informações. A história foi publicada em capítulos no New Yorker e depois reunida no livro A Sangue Frio, um marco do Novo Jornalismo.


A idéia dessa proposta discordante era dar ao leitor algo mais do que os fatos: a vida subjetiva e emocional dos personagens. Isso fazia com que os autores incluíssem no texto até mesmo o pensamento dos personagens.

Outra técnica do new journalism era a composição: fundir a história de várias pessoas e apresentá-las em uma personagem só, fictício. Além disso, essa corrente defendia o jornalismo investigativo: as histórias deveriam ser exaustivamente pesquisadas e checadas nos mínimos detalhes.

No Brasil o auge do Novo Jornalismo foi a revista Realidade, da editora Abril, que dourou de meados da década de 60 a meados da década 70 e só acabou por causa da censura.



Jornalismo gonzo

O nome mais importante do gonzo jornalismo é o norte-americano Hunter S. Thompson.

Na década de 70 ele foi mandado pela revista Rolling Stone para cobrir uma corrida de motos. Gastou todo o dinheiro que haviam lhe dado com drogas, carros, fez contas em hotéis e saiu sem pagar, arranjou problemas com a polícia e, para piorar, só chegou na corrida de motos quando esta já havia acabado. Ao invés de ser demitido, virou celebridade e acabou criando uma nova forma de fazer jornalismo: o gonzo. O batismo foi feito pelo repórter Bill Cardoso. Ao ver os textos de Hunter, ele comentou: "Não sei o que está fazendo, mas você mudou tudo. Isso está totalmente gonzo".

Hunter continuou produzindo reportagens, sempre sob o lema: "Quando as coisas ficam bizarras, os bizarros viram profissionais".

O gonzo, por suas próprias características, não é uma fórmula que possa ser aplicada a um texto. É muito mais uma atitude diante do mundo e do jornalismo.

É possível, no entanto, perceber algumas características no gonzo jornalismo.

A primeira delas é um ataque radical à teoria da objetividade jornalística.

Para os adeptos do gonzo, o discurso da objetividade quer criar confiança, convencer o leitor de que é isenta, livre de desejos, ideologias, medos e interesses de quem escreve.

Ou seja, a objetividade é um discurso de mascaramento da ideologia que permeia o jornalismo. Não interessa ao gonzo se essa ideologia é neo-liberal ou marxista. O importante é o princípio da objetividade serve para esconder o fato de que nenhuma linguagem é neutra.

O gonzo tira essa máscara e daí surge sua primeira característica formal: os textos são sempre escritos em primeira pessoa. O objetivo não é apenas narrar fatos, mas relatar a experiência de um determinado indivíduo com eles.

O fator de haver um mediador entre a experiência e o leitor é destacada, e não escondida.

O gonzo também quer ir contra a imagem que os jornalistas fazem de si mesmos, de sérios e respeitáveis (exemplo disso é o âncora da Record, Boris Casoy).

Tal imagem contribui para transformar o jornalismo em "discurso autorizado". O jornal é a expressão da verdade, e não de "uma verdade".

Em contraste, os gonzo-jornalistas não pretendem ser nem sérios nem respeitáveis.
Hunter Thompson, o criador o gonzo jornalismo.


A carta de princípios da irmandade Rauol Duke (pseudônimo utilizado por Hunter para evitar problemas com a polícia) nos diz que o repórter "deve se envolver na história e alterar ao máximo os acontecimentos dentro da media do Impossível, de forma a transformá-la não em um mero RELATO do evento, mas sim em uma história ENGRAÇADA e CÁUSTICA".

Entretanto, a ficção pura e simples não serve ao gonzo. Ainda segundo a mesma carta, "o conteúdo dos textos deve ser JORNALÍSTICO, ou seja: um fato precisa estar acontecendo necessariamente".

Para fazer jornalismo gonzo não é necessário procurar fatos bizarros. Aliás, o ideal é abordar fatos normais, banais, sob ponto de vista bizarro e pessoal.

Exemplos de jornalismo gonzo estão se tornando cada vez mais freqüentes na imprensa brasileira. Arthur Veríssimo, da revista Trip, foi o primeiro a celebrizar esse estilo no Brasil. Em uma de suas matérias mais antológicas, ele passou um dia como animador de festas infantis.

A revista Zero, recentemente lançada pelas editora Pool e Lester, também traz características gonzo.

O número de estréia trouxe uma matéria sobre as deusas-vivas do Nepal. O título e subtítulo deixam claro o distanciamento que a procura manter do jornalismo convencional: "É DURO SER DEUSA - No Nepal, o dom divino já nasce com data de expiração. Luiz Cesar Pimentel passou uma tarde na casa de uma ex-deusa viva e mostra a realidade casca-grossa das divindades locais".

O texto é em primeira pessoa e não esconde o ponto de vista do repórter:

Por mais que eu tenha me esforçado no parágrafo anterior para dar a real dimensão da discrepância de uma deusa dormir em um sofá-cama e possuir um vira-lata (que parece uma mistura de poodle com nada) como campainha, a cena para quem passa um período no país não é tão assombroso assim. No Nepal, todas as situações têm uma forte tendência ou a não funcionar ou a funcionar de um jeito totalmente estapafúrdio. E, como você deve imaginar, dá tudo certo no final. Ou quase.

Até mesmo a grande imprensa tem se rendido à bizarrice do jornalismo gonzo, embora de maneira mais comportada.

É na, até pouco tempo sisuda, revista Superinteressante que encontramos um exemplo típico de jornalismo gonzo.

Na matéria "Puro Rock'n'roll", publicada na Superinteressante, número 8, ano 15 de agosto de 2001, o repórter Dagomir Marquezi se disfarçou de saxofonista do grupo Jota Quest e participou de show em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo. Como uma típica matéria gonzo, o jornalista também é personagem e o texto é em primeira pessoa:

Não bastava tocar: um trio de metais que se preze também dança. Lembrava-me dos muitos shows de James Brown que assistira. "Um passo para a direita, junta os pés. Um passo para a esquerda, junta os pés". Eu operava a coreografia e meus colegas de metais não se agüentavam de vontade de rir da minha picaretagem artística. O baixista PJ e o tecladista Márcio Buzelin, entre risadas disfarçadas, também faziam sinais de que estava me saindo bem.

Aberto o edital do Profsocio - Mestrado profissional em sociologia


Já estão abertas as inscrições para a turma 2027 do Mestrado Profissional em Sociologia. Eu sou um dos professores do Profsocio na Unifap e oriento trabalhos focados em cultura pop, quadrinhos e fanzines aplicados ao ensino da sociologia. Clique aqui para baixar o edital.

O nazismo é de esquerda?

 


Recentemente alguns políticos brasileiros têm propalado a noção de que o nazismo é de esquerda. Um dos principais argumentos para isso estaria no nome do partido: nacional socialista.
Para entender esse nome é importante entender o contexto histórico de surgimento e ascensão do partido.
Tratava-se de um partido pequeno, sem ideologia certa ou expressão política. Mas chamou a atenção da polícia, que resolveu investigar exatamente por causa do socialismo no nome. Para isso mandaram um espião comparecer a uma das reuniões do partido. O espião foi, voltou e disse aos seus superiores que o partido pretendia agregar trabalhadores (daí o socialismo no nome), mas não tinha ideologia certa e que seria muito mais interessante direcioná-lo para uma vertente mais nacionalista do que perseguir seus membros.
Foi o que fizeram: o espião foi mandado de volta ao partido com esse objetivo e com o tempo se tornou o líder, inicialmente usando uma retórica social, mas procurando afastá-lo da esquerda e aprofundando as raízes nacionalistas da agremiação.
O nome desse espião era Adolf Hitler.
Futuramente, quando seu controle já estava bem estabelecido, a retórica social sumiu de seus discursos, dando lugar a um discurso nacionalista e racista, que viria a ser a base do nazismo.
Ao contrário da esquerda, por exemplo, o nazismo não pregava uma luta de classes, mas uma união de classes (e empresários alemães tiveram grandes lucros com o nazismo – mesmo depois da guerra algumas das maiores empresas do mundo eram alemães).
Há quem argumente que o nazismo era de esquerda porque havia forte intervenção estatal na economia (o Fusca, por exemplo, foi produzido a pedido de Hitler). Mas se economia estatal fosse exemplo de esquerda, os faraós do Egito poderiam ser considerados governantes de esquerda, só para dar um exemplo.
Na verdade, o nazismo se vendia como uma terceira opção, para além a esquerda e da direita. Mas sempre teve o apoio e a simpatia da direita, desde o começo quando a polícia governamental concordou em deixar o partido existir mudando sua ideologia. O movimento neonazista norte-americano tem como lema "Unite the Right" (unir à direita).
Mas por que razão os políticos brasileiros insistem em afirmar que o nazismo é de esquerda, ainda mais quando temos exemplos igualmente assombrosos de ditadores notadamente de esquerda, como Stalin, que governou a Rússia com mão de ferro em um governo que provocou a morte de milhões de pessoas?
Por que é mais importante para esses políticos associar Hitler à esquerda, do que associar Stalin à esquerda?
A razão disso que é todos os donos de estúdios de Hollywood eram judeus. Da mesma forma, todos os donos de editoras de quadrinhos e praticamente todos os artistas nos anos 1940 eram judeus.

Assim, durante décadas, tanto em filmes quanto em quadrinhos, os nazistas foram mostrados como o paradigma dos vilões (vale lembrar que o Capitão América aparece socando o rosto de Hitler na capa de seu primeiro gibi e até Indiana Jones tem os nazistas como vilões). Até Star Wars tem vilões inspirados em nazistas. Assim, para esses políticos brasileiros, é mais fácil fazer todo tipo de malabarismo retórico para convencer que os nazistas eram de esquerda do que explicar quem foi Stalin. 

A arte vintage de Steve Rude

 


Steve Rude é um dos mais apreciados desenhistas dos quadrinhos norte-americanos. Seu traço anatômico, remetendo ao um estilo vintage criou uma geração de fãs. Seu trabalho mais conhecido é Nexus, em parceria com o roteirista Mike Baron, mas ele também diversos trabalhos para a Marvel e para a DC, sempre emprestando um charme clássico aos personagens. Um dos seus trabalhos mais conhecidos é a minissérie Melhores do mundo, com roteiro de Dave Gibbons.





Ken Parker: Homens, Feras e Heróis

 


Entre as várias inovações da série Ken Parker, destaca-se a introdução da metalinguagem nos quadrinhos Bonelli, como ocorreu no número 15 da coleção.

Na história, a garota Pat O'Shane comprou uma partida de gado e precisa levá-la para sua fazenda. Para isso, ela e Ken precisam contratar cowboys. Ao entrar em um saloon, Parker encontra um dandy que se identifica como escritor de histórias de faroeste. Trata-se de ninguém menos que o próprio roteirista, Giancarlo Berardi.

Berardi apresenta vários personagens do faroeste como Kit Carson, Cisco Kid e Pancho. 


O roteirista começa a apresentar os presentes no local, dando início a um desfile de personagens clássicos do gênero: Cisco Kid, Pecos Bill, Sargento Kirk, Zagor e Tex.

Há, inclusive, uma briga entre Tex e o dono do saloon após este se recusar a servir bife para o grupo — uma confusão sem sentido que termina com o proprietário apertando a mão do ranger e prometendo a refeição.

Tex protagoniza uma briga sem sentido, numa crítica sutil do roteirista ao estilo da editora. 


"Viu que coisa? E não pense que é gente apenas de ação. Agora são capazes de sentarem-se ali e falarem por trinta e seis horas!", comenta o autor, ao que Ken Parker retruca: "Provavelmente, no lugar deles, eu teria pulado essa refeição". É uma crítica velada de Berardi ao estilo verborrágico e invencível das séries tradicionais da casa.

A sequência termina com a aparição do desenhista Ivo Milazzo, que anuncia a chegada de um cowboy que é a cara do editor Sergio Bonelli. Berardi "se faz de louco", numa divertida referência ao fato de esperar uma bronca por ter brincado com tantos personagens e com o próprio estilo da editora.

Luke Luke também aparece. 


Pouco depois, Ken e Pat encontram um cowboy solitário indo para o cemitério e comentam que ele parece visivelmente triste — um curioso contraste, já que o personagem é uma versão realista de Lucky Luke, das tiras humorísticas de Morris e Goscinny.

No final, quem consegue os trabalhadores é Pat, ao seguir um velho bêbado. O grupo formado é heterogêneo e disfuncional: inclui, além do próprio velho, um homem negro (que Pat, inicialmente, rejeita por preconceito, num traço de realismo da época), um rapaz obrigado a se integrar devido a uma dívida de jogo e um senhor de meia-idade misterioso.

O desenhista e o editor também aparecem na HQ. 


Assim que a jornada começa, o tom de humor dá lugar ao aspecto humano. O roteiro foca nas características e traumas de cada integrante da trupe. Ao enfrentarem dificuldades como a poeira, ataques indígenas e ladrões de gado, o leitor passa a simpatizar com aquele grupo que, no fim das contas, acaba se tornando uma família.

O grupo de cowboys é disfuncional, mas carismático. 


O desfecho traz um momento de profunda emoção: com a missão cumprida, Ken Parker vai embora. É provável que a despedida tenha sido um drama também para os autores, pois Pat O'Shane era uma personagem carismática que conquistara o público. Contudo, manter Ken fixo na fazenda reduziria as possibilidades narrativas de um personagem que nasceu para ser um andarilho. A separação era a única solução para que Ken Parker continuasse a ser quem era.

A noite dos palhaços mudos

 


Na segunda metade da década de 1980 as bancas brasileiras foram inundadas por uma série de revistas em quadrinhos revolucionárias. Entre as mais revolucionárias estava a Circo, editada por Toninho Lima e Luíz Gê.

O número 4 dessa revista, publicado em 1987, apresentou a história A noite dos palhaços mudos, de Laerte.

Essa HQ explodiu a cabeça de muitos leitores na época e por muitos motivos.

Para começar, era uma história praticamente sem textos ou diálogos. Um ou outro diálogo aqui e ali, mas os protagonistas, como dizia o título, eram mudos, se expressando principalmente graças à linguagem corporal. E o roteiro era incrível, provando que um bom roteiro não precisa de uma imensidade de texto (incrível como, quando critico o roteiro de alguma HQ, sempre aparece alguém perguntando se eu queria mais texto).

Segundo, era uma metáfora muito efetiva e poderosa. O Brasil tinha acabado de sair de uma ditadura militar em que artistas principalmente haviam sido duramente perseguidos. A situação se reflete na HQ na figura do palhaço que será executado por homens engravatados.



Terceiro, Laerte brincava com as sequências, usando desde sequências muito detalhadas até grandes elipses (ou seja, sabia exatamente o que precisva ser mostrado e o que podia ficar por conta da imaginação do leitor), revelando um domínio realmente impressionante da linguagem quadrinística.

Este ano a editora Conrad resolveu lançar essa história num álbum fino, dentro do projeto HQ para todos, com quadrinhos a R$ 9,90. Além da história original, o volume conta com outras HQs curtas feitas por Laerte para outras publicações, inclusive fanzines.

É uma chance de novas gerações terem contato com essa obra seminal do quadrinho nacional.

E não poderia ser lançada em momento mais oportuno.

sexta-feira, setembro 04, 2026

X-men - Dias de um futuro esquecido

 

A capa do número 141 se tornou uma das imagens mais famosas e imitadas dos comics.

Depois da saga da Fênix, parecia que os X-men nunca mais alcançariam o mesmo nível de qualidade ou apresentariam uma saga tão importante quanto. Veio uma história chamada Elegia, que era apenas um resumo de toda a saga dos mutantes e uma saga em duas partes com Wendigo. Nada muito empolgante.

Então John Byrne e Chris Claremont nos trouxeram Dias de um futuro esquecido. Publicada em apenas dois números (The Uncanny X-men 141 e 142), essa história era tão revolucionária do ponto de vista de concepção e se tornou imediatamente um clássico.

Na trama, a morte de um senador cria um imenso sentimento anti-mutantes que leva um candidato radical a conquistar a presidência dos EUA. Para implementar sua plataforma segregacionista e dar uma solução final ao problema mutante, ele reaviva os sentinelas, que, na ânsia de eliminar a ameaça mutante, mata a maior parte dos super-heróis e vilões. Os poucos que sobrevivem são confinados em campos de concentração e obrigados a usarem colares que inibem seus poderes. E agora os sentinelas querem continuar seu plano de eliminação indo para outros países, o que pode provocar uma guerra atômica que irá acabar com a humanidade. É uma visão extramemente sombria do futuro.

A história mostra um futuro distópico. 


A história inicia no ano de 2013, com Kate Pride se encontrando com Wolverine (que faz parte da resistência canadense) e recebendo dele um equipamento que irá desativar os colares. O plano é usar uma telepata para fazer a consciência de Kate voltar para o início dos anos 80 e salvar o senador, evitando que esse futuro distópico se realize.

A trama segue em paralelo: de um lado Kate Pride tentando convencer os X-men a ajudá-la a salvar o senador de um ataque da Irmandade mutante (e depois a batalha que se segue) e os mutantes do futuro tentando um plano B para acabar com os sentinelas e no processo sendo mortos um a um.

O mais assustador é que, embora os x-men consigam impedir a morte do senador, a história não mostra o futuro, deixando em aberto se ele foi mesmo alterado ou não.

Uma curiosidade é que o filme O Exterminador do futuro, que tem premissa muito parecida, é de 1984, três anos depois – o que levou muitos leitores a se perguntarem se os quadrinhos não teriam influenciado o filme.

A página da discórdia. 


Em tempo: essa história foi a pá de cal na relação entre John Byrne e Chris Claremont, que já apresentavam discordâncias criativas há muito tempo. Em determinado trecho do futuro, Wolverine abria a porta do edifício Baxter e entrava. Para dar destaque à personagem Ororo, de quem gostava mais, Claremont mandou Terry Austin redesenhar o quadro – que ficou no mínimo estranho, pois o Wolverine aparece pegando na maçaneta da porta anteriormente e depois aparece na frente dos outros.


 Para se vingar, Byrne fez uma capa em que Wolverine aparece em primeiro plano, sendo morto por um sentinela com uma rajada, num desenho extremamente detalhado. E, na mesma imagem, aparece a Tempestade morta na mão do robô. Mas enquanto o carcaju mereceu todo o capricho do mestre, a heroína parece um boneco.  

Deus salve o trouxa, de Donald Westlake

 


Pouco conhecido no Brasil, Donald E. Westlake é um dos mais importantes escritores policiais de todos os tempos. Seu grande diferencial era a capacidade de introduzir humor nas histórias, algo que pode ser perfeitamente observado no livro Deus salve o trouxa, publicado pela Artenova em 1972.

O protagonista e narrador da história é Fred Fritch, o maior trouxa que jamais existiu. A grande habilidade de Fred é cair em qualquer lorota que lhe contem. “Creio que tudo começou cerca de vinte e cinco anos atrás, quando voltei para casa sem calças no meu primeiro dia no jardim de infância”, conta o personagem “Daquele dia em diante minha vida tem sido uma série interminável de descobertas tardias. Os trapaceiros botam o olho em mim, esfregam as mãos e logo saem alegres a jantar um belo bife, enquanto o pobre Fred Fitch fica sentado em casa e mais uma vez a jantar as unhas”.

O livro inicia, aliás, com as narrativas dos vários golpes da qual ele é vítima. É o inquilino falso do vizinho que quer dinheiro para pagar o frete de uma encomenda que não existe, é a compra de um pule falsificado. Quando o protagonista compra um jornal, um policial o segue alegando que ele passou uma nota falsa. Vistoriando sua carteira, descobre mais várias notas falsas e as confisca para análise. Claro que é apenas um golpe.

Entretanto a vida desse herói azarado e crédulo vira de cabeça para baixo quando ele recebe uma herança de um tio desconhecido. A partir daí ele passa a ser alvo dos mais diversos trapaceiros. Destaque para o vizinho tentando convencê-lo a investir em um livro sobre aviões na época de Júlio César. “Eles usam metralhadoras?, pergunta fred. “Claro que não. A pólvora só foi inventada muito tempo depois. Faço questão de manter a fidelidade histórica!, responde o vizinho.

Mas não são só trapaceiros: alguém está querendo assassiná-lo.

O resultado dessa premissa inusitada é um livro divertido, repleto de ação e com uma surpreendente reviravolta final, no melhor estilo das melhores histórias policiais. Um final, aliás, que já está antecipado nas primeiras páginas.

Eu comprei esse livro em 1996, mas só recentemente peguei para lê-lo. Foi quando descobri que as páginas pulavam da 96 para a 129. Analisando a lombada, percebi que não houve qualquer alteração na encadernação. O livro tinha saído daquele jeito da gráfica e a editora, ao invés de descartar, resolveu colocá-lo à venda.  Pelo jeito, o trouxa não é apenas o protagonista, mas também quem comprou essa edição amputada. Poucas vezes um título fez tanto sentido.  Em tempo: a leitura estava tão divertida que eu continuei mesmo assim até o final.

A era de ouro da DC

 

Em 2010 a DC Comics completou 75 anos. Para comemorar, a Panini lançou no Brasil uma coleção em quatro volumes, cada um reunindo histórias de um período: Era de Ouro, Era de Prata, Era de Bronze, Era Moderna.

O volume Era de Ouro reunia as primeiras histórias de alguns dos personagens mais populares da editora, a começar, claro, pelo Super-homem, o personagem que não só criou a DC como fundou todo um novo gênero nos quadrinhos.
A história que abre o volume é a primeira do Homem de aço, cuja capa se tornou célebre com o herói batendo um carro contra uma pedra enquanto malfeitores fogem apavorados. Essa história havia sido recusada por vários editores – e dá para perceber facilmente as razões. A trama é mal-engendrada, com pulos narrativos estranhos.
Depois de uma pequena introdução, na qual Jerry Siegel, o roteirista, estabelece a verossimilhança da história comparando o personagem às formigas que carregam várias vezes seu peso ou o gafanhoto capaz de dar saltos enormes, a história começa no meio. O Super-homem salta no ar com uma moça nos braços. Ela é a verdadeira culpada de um crime e o herói precisa convencer o governador a perdoar uma moça que será executada em seu lugar. Depois a história pula para outra trama e para outra, sem muita conexão.
A sequência do carro, apesar de famosa, é bizarra. Bandidos sequestram Lois Lane. O Super-homem pega o carro em que estão e o sacode, fazendo os bandidos caírem – o problema é que pela lógica, também a jornalista cairia do carro. Siegel, um garoto na época, estava nos seus primeiros passos como roteiristas e o que acaba se destacando é a arte de Joe Shuster. Seu desenho elegante certamente foi fundamental para o sucesso do personagem.
Flash ganha poderes após fumar no laboratório de química. 


O volume traz também a origem do Flash, escrita por Gardner Fox e desenhada por Harry Lampert. Fox também escreve a história da Sociedade da Justiça. Seu texto estava muito longe do que viria a ser na era de prata, quando ele ajudaria a revolucionar os heróis DC. O roteirista parecia estar convencido de que escrevia exclusivamente para crianças – o que fica óbvio na história da Sociedade da Justiça, mas também pode ser percebida na origem do Flash.
Lendo essas histórias há coisas que parecem estranhas. Flash, por exemplo, se transforma no herói graças a um acidente provocado pelo fato dele estar fumando no laboratório de química! O interesse romântico do personagem, Joan, parece uma patricinha convencida, que se interessa pelo herói apenas quando ele usa suas habilidades recém-adquiridas para ganhar o campeonato de futebol americano. Além disso, o uniforme do Flash surge do nada, no meio da HQ.
As duas melhores HQs do volume são as dedicadas ao Capitão Marvel e à Mulher Maravilha.
O desenho de CC Beck chamava atenção pela elegância. 


O desenho de CC Beck no Capitão Marvel é simplesmente lindo. Com poucos traços, mas eficiente e com sequências que remetem diretamente à art decó, como no quadro em que aparece o metrô. O uniforme do personagem é igualmente bonito. Além disso, o roteiro de Bill Parker já nos apresenta um personagem acabado, e não em construção. Sua origem é bem estabelecida, assim como o clima das histórias, voltado para a magia – em oposição ao Super-homem, que era calcado na pseudo-ciência.
As histórias da Mulher Maravilha tinham uma qualidade muito acima do restante.


A melhor história do volume é a origem da Mulher Maravilha, escrita por Charles Moulton com desenhos de H. G. Peter.
Peter já era um desenhista de experiência quando embarcou no mundo dos quadrinhos e isso é facilmente perceptível pela forma competente como ele cria visualmente a Ilha Paraíso. Seu desenho tem um apelo vintage que o faz interessante até os dias atuais.
Mas o destaque vai mesmo para o texto de Moulton (pseudônimo do psicólogo William Marston). Marston tem pleno domínio da narrativa e cria sua própria versão da mitologia grega, atualizando-a e adequando à personagem.  Até mesmo quando os quadrinhos são substituídos por texto corrido acompanhado de ilustrações, a história não perde o encanto, tal a qualidade do texto.