quarta-feira, agosto 19, 2026
A arte Steve Ditko, o gênio da narrativa em quadrinhos
Quando criou o Homem-aranha, Stan Lee chamou o desenhista para o título. Originalmente o personagem seria desenhado por Jack Kirby, mas a troca foi mais que acertada: o Peter Parker franzino e inseguro de Ditko foi um das razões pelas quais o título se tornou um campeão de vendas.
Ditko também criou o Dr. Estranho, maravilhando os leitores com as cenas psicodélicas de realidades paralelas. A marca de Ditko no personagem foi tão grande que ele só voltaria a ter uma fase equivalente na década de 1970, mas mãos de Steve Eglehart e Frank Brunner. Para a Charlton Ditko criou uma galeria de personagens que depois dariam origem aos "heróis" de Watchmen. Aliás, não só o Rorschach é baseado no personagem Questão, criado por Ditko como visualmente lembra muito o Mestre do Crime, um vilão criado por Ditko para o Homem-aranha.
Nada melhor para homenagear esse gênio do que apreciarmos sua arte.
terça-feira, agosto 18, 2026
Águia solitária, de Billy Wilder
Charles Lindberg foi um herói dos tempos modernos. Ao fazer o primeiro vôo sem escalas entre Nova York e Paris, ele ultrapassou os limites da natureza usando para isso sua força de vontade, inteligência, a ciência e a tecnologia.
É a história desse herói modern que Billy Wilder conta em Águia Solitária, filme de 1957.
Sabendo que um homem dentro de um avião não sustentaria um longa metragem, Wilder, inteligentemente, dividiu o filme em dois momentos. No primeiro, o aviador está no quarto do hotel, antes da decolagem. Incapaz de dormir, ele relembra os fatos que o levaram até ali, sua experiência como aviador dos correios, sua busca por patrocinadores, a construção do avião, as decisões e indecisões.
No segundo momento, já dentro do aeroplano, Lindberg lida com as adversidades, como o sono, a neve que insiste em se acumular nas asas, as nuvens, entre outros, enquanto relembra passagens de sua vida que ajudarão a compor o personagens.
Wilder joga tanto com o humor - como a passagem de Lindberg comprando um avião sem saber pilotá-lo, como com o suspense, como nos momentos mais tensos da travessia. A decisão de usar flash backs, além de tirar o foco apenas do avião, deu dinamismo à narrativa.
Outro destaque é a genialidade de Wilder de contar a história através de metáforas visuais, como o mapa na lanchonete que o aviador usa para demonstrar seu vôo colocando uma torre Eifel no outro extremo. Esse mapa aparece em dois outros momentos da trama. Quando tudo parece estar dando errado, a torre cai do alfinete e Lindeberg a endireita, numa demonstração visual de sua força de vontade.
Demolidor – Jornada de terror
A fase Denny O´Neil – David Mazzuchelli no título do Demolidor é considerada apenas um intervalo entre as duas fases igualmente geniais de Frank Miller no título. Mas essa fase, pouco valorizada, teve suas obras-primas.
Uma delas foi Jornada de terror, publicada em Daredevil 222.
Na história, Glorianna O´Breen, na época namorada do herói cego, está voltando para os EUA quando um terrorista tenta sequestrar o avião. A intervenção da moça faz com que a arma atire e atinja uma maleta que transportava gás do medo. Com todos a bordo tomados pelo pavor, o avião cai num pântano.
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| Demolidor e Viúva Negra vão atrás dos sobreviventes. |
O Demolidor e a Viúva Negra vão atrás dos sobreviventes. Matt tenta salvar sua namorada e Natasha quer capturar o inventor do gás. Nesse meio tempo, Glorianna e o inventor são aprisionados por uma família dos pântanos. Os bandidos querem casar a moça com um dos irmãos, com problemas mentais. Depois da lua-de-mel, ela será morta, avisam.
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| O desenho explora as expressões de pavor dos personagens. |
O caminho percorrido pelos heróis é cheio de perigos incluindo armadilhas e cobras. Mas o destaque aqui são os perigos psicológicos. O medo é o maior inimigo. Denny O´Neil consegue explorar muito bem isso no texto e o desenho de Mazzuchelli complementa o roteiro ao mostrar os personagens em closes, os olhos com pupilas dilatadas, a expressão de pavor, o gás em volta, numa névoa de terror.
Ao explorar muito bem esses elementos, a dupla consegue fazer uma história que funciona perfeitamente, da splah page de abertura ao final irônico.
As viagens de Gulliver
Embora normalmente seja visto como um livro infantil, As viagens de Gulliver é um dos livros mais críticos que já li, repleto de metáforas políticas. Eu já havia percebido isso quando li pela primeira vez, em uma belíssima edição da Nova Cultural com adaptação de ninguém menos que Clarice Linspector. Mas só fui perceber o alcance e a ferocidade dessa crítica recentemente, quando tive a oportunidade de ler uma edição, também da Nova Cultural, com quase 100 páginas de notas.
Johnathan Swift, o autor, era uma figura proeminente na época e havia caído em desgraça quando o governo Tory, para o qual trabalhava, perdeu o poder para os Whig. Os Tory haviam negociado a paz com a França, após um longo conflito e os whig os havia acusado de traição por terem assinado um tratado de paz, que, embora vantajoso para a Inglaterra, não colocava de joelhos a França. Os Tory foram perseguidos.
Swing se vingou-se escrevendo As viagens de Gulliver. Para publicar a obra sem que o autor fosse perseguido foi montada uma verdadeira operação de guerra. Os amigos transcreveram os originais, para evitar que a letra de Swift fosse usada como prova com ele. Além disso, o livro foi deixado na casa do editor altas horas da noite por uma carruagem de praça. O editor adorou o livro, mas fez várias mudanças para tornar a crítica menos óbvia e publicou como se fosse de fato o livro de um tal Gulliver (só anos depois Swift assumiria a autoria).
O livro foi um sucesso imediato por uma razão simples: ele aliava crítica política a uma narrativa de aventuras empolgante, fazendo dele o melhor exemplo de livros de viagem tão em moda na época.
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| A primeira edição que li tinha texto de Clarice Linspector. |
Na história, Gulliver é cirurgião em um navio cargueiro e quando este naufraga, vai parar em um país, Lilipute, em que todos os habitantes são minúsculos. Inicialmente aprisionado, Gulliver logo se torna um favorito do rei. A sequência tem momentos memoráveis, como quando liliputianos são colocados nos bolsos de Gulliver e devem relatar tudo que viram lá. Lá eles acham, por exemplo, um objeto que é um globo achatado, metade de prata, metade de metal transparente: “Ele aproximou a máquina dos nossos ouvidos e ouvimos um ruído contínuo, como o de uma roda-d´água. Imaginamos que se trata de um animal desconhecido ou de um deus que ele adora. Estamos mais inclinados a essa segunda hipótese, porque ele nos assegurou que não faz nada sem consulta-lo”. Era um relógio.
Mas as melhores partes são as sátiras ácidas de Swift à nobreza europeia e ao governo inglês em específico. Em Lilipute, por exemplo, o esporte nacional são as danças na corda bamba, esporte praticado por todos aqueles que querem um cargo no governo. Aquele que saltar mais alto sem cair ganha o cargo.
A ganância e falta de gratidão dos governantes é outro aspecto abordado pela obra. Um exemplo é quando Gulliver atravessa para a ilha inimiga de Blefescu (que representa a França, enquanto Lilipute representa a Inglaterra) e traz consigo boa parte da frota da marinha daquele país. Ao invés de se sentir agradecido, o rei reclama de Gulliver não ter despojado o inimigo de todas as suas forças e não ter transformado o outro país em uma colônia.
Ainda mais ácida é a metáfora encontrada por Swift para a guerra entre os dois países. Num passado recente, o governante de Lilipute havia ordenado que todos os seus súditos só quebrassem os ovos pela parte menor. Milhares de pessoas foram mortas porque se recusavam a quebrar os ovos pela parte menor e centenas de livros escritos sobre a controvérsia. Os ladograndenses procuraram refúgio na ilha vizinha, gerando a guerra entre os dois. A situação toda é uma metáfora da questão religiosa envolvendo Inglaterra e França, uma vez que a Inglaterra havia criado uma nova religião (a anglicana) e a França permanecia católica, o que, teoricamente, seria o motivo da guerra entre os dois países.
No final, Gulliver acaba sendo perseguido e quase morto (alguns ministros haviam proposto uma pena mais humana: cegá-lo) ao urinar sobre o palácio como forma de apagar um incêndio.
Embora a parte mais famosa seja a que se passa em Lilipute, há uma parte em que Gulliver vai parar em um país em que todos são gigantes e até um capítulo dedicado a uma ilha flutuante. A parte da ilha flutuante é a que a aventura se torna menos visível e a sátira social se torna mais clara. O local, chamado de Laputa, era habitado por matemáticos tão imersos em seus problemas que tinham que contratar servos munidos de bexigas cheias de ervilhas secas para baterem neles para despertá-los de suas elocubrações. Durante uma conversa, por exemplo, o servo batia na boca de quem deveria falar e no ouvido de quem estava ouvindo. É um local de ciência inútil, em que mesmo uma atividade simples como tirar as medidas para fazer uma roupa se transformava em uma desculpa para práticas complexas, o que fazia com que todas as roupas tenham tamanhos errados. A sequência toda é uma óbvia crítica à Royal Society em especial a Isaac Newton, retratado como alguém eternamente preocupado que o sol deixe de dar luz ao mundo ou que um cometa, ao voltar de sua órbita, possa destruir nosso mundo.
Swift chega a ser cruel ao retratar a ilha flutuante como um local em que as mulheres desprezam os maridos e demonstram excessiva gentileza com estrangeiros. Ele estava nada menos que acusando Issac Newton e outros cientistas da época de serem cornos. Não é por acaso que os amigos tinham medo da repercussão do livro e de futuros processos.
Caçador - o anti-herói da DC Comics
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| Primeira página da primeira história: narrativa em flash back. |
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| A narrativa visual lembra o que Frank Miller faria anos depois no Demolidor. |
Conan – A maldição da deusa-gato
Baset era uma deusa egípcia, com cabeça de gato e corpo humano e representava a maternidade e proteção. Mas, nas histórias de Conan, a divindade ganhou um outro significado, como vemos na história A maldição da deusa-gato, publicada Savage Sword of Conan 9.
Com roteiro de Roy Thomas e desenhos do peruano Pablo Marcos, a história já começa com uma sequência memorável, uma splah page impressionante de Conan sobre o cavalo. Ele olha para trás e vê um grupo de lobos do deserto atacando uma caravana.
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| A estatueta da deusa gato irá mudar o comportamento de Conan. |
Temos a seguir uma sequência empolgante de lutas, com Conan trucidando os guardas da caravana. Mas o fim da luta não representa o fim do conflito. O gigante cimério repreende duramente seu segundo em comando, Fazal: “Você não viu que se tratava de uma caravana religiosa, e não de mercadores? Nem mesmo os camelos brancos estígios dizem algo a você?”.
Como se trata de uma caravana religiosa, há poucos espólios, entre eles uma estatueta de uma deusa com cabeça de gato, que Conan acaba pegando para si. É essa estatueta que irá gerar o conflito da história, pois ela desperta o lado mais selvagem de seu portador, fazendo com que Conan leve seus zuagires a ataques cada vez mais ousados, contra inimigos cada vez mais poderosos.
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| Um exemplo do talento de Pablo Marcos. |
O auge dessa história é uma página em que Pablo Marcos une várias imagens sem divisão de quadros, um todo coeso e ao mesmo tempo caótico em que o balão de legenda é usado para dividir as sequências e indicar um caminho para o olhar do leitor.
“Nas semanas seguintes, os zuagires de olhar severo descobrem que uma sutil mudança se apoderou de seu chefe de guerra... tanto que agora ele lidera seus ataques no deserto com uma selvageria e uma ferocidade impiedosa rara até mesmo para um indomado filho das terras geladas do norte”, diz o texto, que mimetiza perfeitamente o estilo de Robert E. Howard.
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| Conan é traído e aprisionado. |
Como sempre, a história se desenvolve no sentido de traições e vemos Conan à beira da morte.
O Super-homem é judeu
Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler, dizia que "Super-Homem é judeu", rebatendo a propaganda aliada feita pelos quadrinhos norte-americanos da época. Referia-se também ao fato de que os dois criadores do personagens, o roteirista Jerry Siegel e o desenhista Joe Shuster, eram judeus. Mas será que o herói é realmente judeu?
The Spirit
segunda-feira, agosto 17, 2026
A catedral do mar
Supermoça, de Peter David e Gary Frank
Homem-Animal - O mito da criação
A revista Secret Origins era uma publicação dedicada a recontar a origem dos personagens da DC Comics. No número 39 o astro foi o Homem-Animal, o que mostra o sucesso que a releitura de Grant Morrison estava fazendo. Afinal, o gibi do personagem estava sendo publicado há menos de um ano.
A história começa com o herói testando seus poderes e descobrindo que estão de fato descontrolado. A certa altura, por exemplo, ele tenta absorver os poderes de um cachorro, mas consegue os de uma pulga.
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| Os poderes do personagem estão descontrolados. |
A cena corta para dois alienígena que observam o personagem e refletem sobre o que está acontecendo com ele.
Acho que devemos rever a criação do Homem-Animal, mas como nos lembramos”, diz um dos alienígenas.
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| Alienigenas teriam criado o herói? |
Maroto, Morrison usa o recurso para trazer, para a sua história, a primeira HQ do personagem (publicada em Strange Adventures 180) ao mesmo tempo em que o redefinia. Vale lembrar que Alan Moore já tinha usado, em Monstro do Pântano, um recurso semelhante.
A editora Abril não só publicou a história como.a colocou em ordem cronológica com relação a revista do personagem, o que mostra o cuidado editorial.









































