sábado, junho 20, 2026

O imperador de Nova York

 


Revoltas de robôs são um tema básico da ficção-científica. Claro que uma série tão ampla como Perry Rhodan deveria em algum momento abordar o assunto. É o que acontece em O imperador de Nova York, número 31 da série, escrito por W.H. Shols.

Na história, os saltadores – adversários que haviam surgido no número 28, Cilada Cósmica – reprogramam os robôs da terceira potência, fazendo com que eles se revoltem contra os humanos. Isso cria uma dificuldade a mais numa situação que já tinha duas outras frentes de batalha (a batalha contra a frota dos saltadores e a batalha no planeta gelado), o que demonstra a competência do organizador da série àquela altura, K. H. Scheer.

Shols, o autor deste volume, tem o irritante hábito de abusar de frases nominais, algo que se repete à exaustão no volume, a começar pelo início do (“Uma transição no hiperespaço”), mas, quando não está insistindo nesse cacoete, escreve bem e sabe trabalhar com o suspense, como no trecho:

- Foi um serviço excelente – disse Rhodan, elogiando o capitão. Faltou alguns segundos antes da hora. No mesmo instante veio a reviravolta.

Shols reforça que aquela é uma ameaça que deixa até mesmo Rhodan receoso. Mas no final, os terranos conseguem debelar a rebelião dos robôs e o leitor não entende exatamente como isso aconteceu, até porque são muitas frentes de batalha e nem todas são abordadas. À certa altura, Rhodan consegue capturar um dos robôs rebelados. A impressão que se tem é de que ele usará aquele para descobrir uma maneira de reprogramar os outros robôs, mas isso não acontece.

A capa original alemã. 


É curioso hoje observar como os escritores daquela época  -  início dos anos 60 – imaginavam o futuro. O que causa mais estranhesa é o momento em que Rhodan precisa introduzir informações no computador e faz isso com cartões perfurados. Os caras imaginaram naves de um quilômetro de diâmetro com uma tecnologia super-avançada, mas não conseguiram pensar nas utilidades de um teclado.

Em tempo: o título O imperador de Nova York se refere a um robô que se auto-denomina imperador (depois se descobre que pelo menos uma dúzia de outros robôs fizera o mesmo). Como o assunto não é muito explorado, a impressão que fica é de que o autor pensou primeiro num título de impacto e depois adaptou o livro a ele.

Os nazistas e a propaganda que não parecia propaganda

 

O filme O jovem hitlerista Quex foi uma das principais peças de propaganda nazista

                Pode parecer terrível, mas quase toda a propaganda atual tem suas origens no nazismo. Um dos assessores de Hitler era  Goebbels, um gênio da propaganda. E a idéia revolucionária de Goebbels era a seguinte: uma propaganda, para funcionar, não pode parecer propaganda.

                Ninguém gosta de assistir propagandas. Você gosta? Ninguém gosta. Então a melhor propaganda é aquela que parece tudo, menos uma propaganda.

                Vamos ver como era isso na prática nazista.

                Um filme sintomático, que fez muito sucesso na Alemanha da década de 30 foi O jovem hitlerista Quex. No filme, Quex é um rapaz bom-caráter e bem-intencionado. O pai, alcoolatra e marxista, bate nele e o obriga a cantar a internacional comunista. Os companheiros nazistas o protegem. O pai, com o tempo deixa de beber e se reabilita, tornando-se um nazista. O final da fita mostra Quex, assassinado por comunistas, agonizando e vislumbrando a imagem de jovens uniformizados sob a proteção da suástica.

                Precisa dizer mais alguma coisa? O filme, embora fosse um drama, era pura propaganda, e por isso fez sucesso. Por outro lado, quando a propaganda era muito óbvia, a rejeição era grande.

O judeu eterno: pessoas saiam do cinema vomitando. 


                Quando Hitler resolveu adotar a solução final para os judeus, ele percebeu que seria necessário preparar o espírito dos alemães para a matança que se seguiria. Ele encomendou a um dos oficiais da SS um filme que tivesse essa função. O resultado foi um fiasco. O filme, O Eterno Judeu, tencionava mostrar como eram verdadeiramente os judeus por trás das máscaras. E era bastante óbvio. Quando falava na sujeira dos judeus, apareciam moscas na tela. O filme compara os judeus a ratos e mostra um fervilhante amontado de roedores avançando contra o espectador.

                O filme foi um fracasso. As pessoas saiam do cinema vomitando e poucos ficavam até o final.

O judeu Suss mostrava uma mocinha ariana sendo assediada por um judeu devasso. 

Goebels resolveu, então, fazer a sua versão. Ele encomendou a um de seus diretores um filme sobre o judeu Suss, um ministro das finanças alemão do século XVIII que seduzia as mulheres e explorava o povo com altos impostos. O filme traz aquela historinha básica de toda novela mexicana: um casal de namorados está apaixonado, mas a moça está prometida ao judeu rico. O rapaz é aprisionado, mas consegue escapar e no final o vilão acaba sendo enforcado em praça pública.

                A fita foi um sucesso, chegando a ter grande bilheteria até mesmo na França. Isso porque, embora fosse pura propaganda, não parecia propaganda.

O violeiro, de Almeida Júnior

 


Monteiro Lobato considerava Almeida Júnior o maior pintor brasileiro de todos os tempos. Para ele, o pintor era o único que havia realmente entendido a alma brasileira. Sobre o quadro O violeiro, o escritor paulista escreveu que era “uma criação soberba da verdade, do sentimento, do colorido exato e de tonalidade local. Dentro daquele corpo sente-se pulsar o coração ingênuo dos nossos musicistas espontâneos, filhos do campo e do ar livre”.
Embora tenha estudado na Europa, Almeida Júnior nunca deixou de ser um caboclo de Itu e, assim que ganhou fama o suficiente para produzir seus próprios temas, dedicou-se a retratar o povo do interior de São Paulo e seus costumes.
O violeiro é um dos melhores exemplos dessa fase. Em uma casa de pau a pique, um sertanejo se senta à janela e toca uma moda de viola para uma mulher (sua esposa?), que o acompanha cantando. A tela revela a influência do realismo francês, corrente artística que deixou de representar reis e deuses do passado para se concentrar no povo comum.

Noção Zero, de Rafael Senra

 

 

Em 2023, o quadrinista Rafael Senra começou a se incomodar com as histórias em quadrinhos que tinha na gaveta, algumas delas incompletas e resolveu publicá-las numa antologia. Essa edição saiu em 2019 com o nome de Noção Zero e reúne três histórias: O super abacaxi; Lincoln, o (in) conveniente e Head Shop, além de algumas tiras de Lincoln. Em comum a todas essas histórias, personagens sem noção, que criam confusões para si mesmo e para os outros.  

Um problema no volume é que as histórias são apresentadas em uma ordem cronológica inversa. O super abacaxi, por exemplo, foi a última ser feita, mas é a primeira a aparecer, o que pode dar ao leitor desavisado (que não leu o prólogo) a impressão de que ela é a mais antiga.

A falta de noção de Lincoln cria problemas para ele, mas principalmente para os amigos. 


Lincoln, o inconveniente é um personagem realmente memorável e tosco, que poderia gerar muitas outras tramas. Na história, um tal de Paulo finalmente tem a chance de se encontrar com Patrícia, uma garota pela qual é apaixonado, mas Lincoln está na mesma praça e, por mais que o outro tente se livrar dele, Lincoln acaba acompanhando o casal até uma sorveteria, transformando o encontro amoroso num pesadelo. O desenho de Rafael Senra aqui está menos desenvolvido, especialmente na comparação com outras histórias, mas o bom roteiro compensa e garante boas risadas.

Head Shope é uma incursão de Senra no underground. 


Head Shop é uma incursão de Rafael Senra no underground, a começar pelo título, que remete diretamente ao estilo psicodélico de histórias de autores como Robert Crumb. Na trama, dois personagens conseguem uma viagem para os EUA e, fascinados, resolvem conhecer uma loja de maconha. Para não serem pegos pela polícia, eles compram vários acessórios, mas nenhuma droga. Ocorre que um deles é confundido com Raul Seixas, o que causa toda a confusão. Feita dois anos depois de Lincoln, é possível perceber a evolução do traço de Senra. Essa é outra história que nos pega pelo humor, especialmente graças ao plot twist do final.

Em Super Abacaxi é nítida a influência de Will Eisner. 


O super abacaxi é a mais recente delas e mostra um autor mais amadurecido em termos de narrativa e desenho. Trata de um roteirista e um desenhista de quadrinhos que criam um super-herói brasileiro e estão (em especial o roteirista) convencidos de que se trata de uma obra de gênio – eu já encontrei muitos desses. O humor aqui não é tão óbvio, mas existe. Destaque para o final, que lembra muito as narrativ as de Will Eisner.

O álbum, de 34 páginas, custa 15 reais. A primeira está esgotada, mas, segundo o autor, em breve teremos uma segunda tiragem.

Jornada nas estrelas – corte marcial

 

Jornada nas estrelas é uma série cuja pluralidade de temas surpreende. Havia histórias de terror, de ação, filosóficas... e até uma trama de tribunal: Corte marcial, da primeira temporada da série clássica.
No episódio, Kirk é acusado de provocar a morte de um tripulante, ejetando sua cápsula antes do alerta vermelho (que seria a dica para que o tripulante abandonasse a cápsula). Para piorar, o computador da nave tem um registro que parece provar que Kirk é culpado.
O episódio tem alguns problemas de verossimilhança, como o fato da cápsula precisar ser operada por um tripulante em uma situação de perigo e o fato de ser possível manipular os registros da nave – incluindo o registro visual, forjando um vídeo. A filha do oficial morto também aparece com um visual que parece saído diretamente de um concurso de cospobre.
Apesar desses problemas, é um episódio que diverte, especialmente graças à atuação de Leonard Nimoy, que tranquilamente joga xadrez com o computador em uma das sequências enquanto seu capitão é julgado (e, como sempre, essa ação será essencial para a solução do episódio) e de William Shatner, que consegue passar diversos nuances da personalidade do Capitão Kirk, do divertido ao arrogante. Shatner era, provavelmente, o melhor canastrão de todos os tempos.
Se esquecermos os exageros e falhas no roteiro, a história consegue prender a atenção do leitor com uma interessante reviravolta final. Talvez atualmente, com os programas de computador capazes de produzir simulacros a trama fizesse mais sentido.

Sonja – O demônio no labirinto

 


Embora sejam contemporâneos e tenham vivido aventuras juntos, Conan e Sonja são muito diferentes, inclusive em termos de estrutura das histórias. Embora seja um personagem de espada e magia, as histórias do cimérios são mais cruas e mais realistas. Sonja, ao contrário, vive histórias mais fantasiosas e algumas vezes chega até mesmo a usar a magia a seu favor.

Exemplo disso é a história O demônio do labirinto, publicada em Red Sonja 2. A história, escrita por Roy Thomas e desenhada pelo sempre fantástico Frank Thorne, começa com a guerreira andando pelo porto e vendo duas caravelas se chocando misteriosamente, o que faz com que toda a tripulação dos dois barcos morra. “Pelos olhos negros de Eruk! Nenhum navio se choca contra outro como dois animais cegos!”, exclama a donzela. “Será que estou sonhando?”.

A história inicia com um fato aleatório: dois navios se chocando. 


Esse início inusitado e aparentemente aleatório, é o começo de uma trama que vai se desenrolar num labirinto no qual a guerreira ruiva vai parar após ser sequestrada por um gigante mesmerizado.

Além da própria dificuldade do labirinto, o local é mágico, e provoca alucinações na guerreira. Mesmo assim, ela consegue sair, apenas para e deparar com um mago caído, que lhe diz que ela é a primeira mulher a conseguir a façanha de sair do local e, como tal, ela poderá libertar um demônio de sua maldição, tornando-se sua noiva. “Eu não tenho a menor intenção de ser mulher de ninguém!”, responde a ruiva.  

Frank Thorne retratava Sonja com cabelos selvagens, olhar felino e lábios decididos. 


O mago a avisa para pegar os ossos dos guerreiros mortos que encontra no caminho e usá-los no momento certo. Quando Sonja encontra um feiticeiro maligno que a ataca com uma horda de demônios, parece o momento certo e os ossos se transformam numa legião de guerreiros esqueléticos. Conseguem imaginar Conan usando um recurso semelhante?

E os barcos que se chocam no início? Lá pelo final da história, aquele fato aleatório acaba tendo uma importância fundamental na trama.

Sonja usa magia para combater o adversário. 


Em tempo: embora o roteiro seja bem elaborado e explore bem as características da personagem, é o desenho de Thorne que chama atenção. Essa era sua segunda colaboração com a personagem e ele já mostrava todas as características que o fariam célebre: o cabelo ruivo em ondas selvagens, o olhar felino, os lábios grossos e decididos...

Pouco tempo depois, Roy Thomas entregaria o roteiro para Bruce Jones, que teria uma parceria ainda mais afinada com Frank Thorne.

A arte única de Brian Bolland

 


Brian Bolland é um desenhista britânico que ficou famoso na revista 2000 AD. Nos EUA seu primeiro trabalho de impacto foi a série Camelot 3000. Outro trabalho marcante dele foi a graphic Piada Mortal, com roteiro de Alan Moore. Na década de 1990 ele se dedicou principalmente a produzir capas para diversas revistas DC. Dizia-se que qualquer revista com uma capa sua venderia.













sexta-feira, junho 19, 2026

Roteiro para quadrinhos: O que é um deus ex-machina?

 

Na Grécia antiga havia um recurso usado pelos maus roteiristas: quando não conseguiam resolver algo na trama, ou explicar o que estava acontecendo, um ator vestido de deus era baixado por um mecanismo  e resolvia a situação. Por exemplo: os personagens estão numa situação em que não há saída possível, o deus desce e os salva. Ou: há um furo monstruoso na trama, o deus descia e tentava explicar.
Isso era chamado de Deus ex machina e é uma falha grave de roteiro.  
Nos quadrinhos o exemplo mais clássico de deus ex machina é Beyonder, um personagem que surge apenas para criar o conflito em Guerras Secretas. 


Um exemplo clássico disso aconteceu em uma das edições da revista Calafrio. Havia um roteiro padrão na Calafrio, segundo o qual alguém muito mal era punido no final. Geralmente eram os mortos que voltavam do túmulo para se vingar. Mas nessa história, o vilão foi morto por um raio que atingiu seu carro. Só que, percebendo o furo, o roteirista colocou uma caveirinha no final, explicando: "Sim, eu sei que os pneus do carro criam um isolamento, protegendo as pessoas de raios, mas lembre-se: no mundo do terror, tudo é possível... hahahhahahahah".
Para explicar o deus ex machina, Jim Shooter usou outro deus ex machina: uma ninfa da água surgida do nada. 


Uma forma mais comum de deus ex machina é tirar a salvação dos heróis da manga. Tipo: eles estão sendo perseguidos e vão ser mortos pelos vilões. De repente aparece a polícia, do nada, e os salva.
Para evitar o deus ex machina, tudo na trama tem que ser amarrado. Em algum ponto lá atrás, alguém deveria ter chamado a polícia, mas, com o desenvolvimento da trama, o expectador esqueceu disso e só lembra na hora que vê a polícia chegando.
No filme Sinais, por exemplo, tínhamos uma menina com uma mania estranha: ela bebia água e deixava o resto em copos espalhados pela casa. No final, quando o ET invade a casa, há água por toda a casa, o que permite ao tio da menina usar isso para derrotá-lo (a água é como ácido para eles). Ou seja: o  roteirista pensou nesse final e providenciou uma explicação. Se os copos de água aparecessem do nada, o expectador iria dizer: ah, isso é mentira, e o pacto de verossimilhança seria destruído junto com os copos de água.

O pacto de verossimilhança pressupõe uma troca com o expectador: você acredita na minha história, em troca eu sou honesto com você. Vou, por exemplo, avisá-lo de quem é o assassino numa história policial (claro que essa pista é jogada no meio de outros fatos, e a tendência é esquecer, mas, quando vê o final, o expectador pensa: ah, mas era óbvio, como eu não percebi isso antes?).
O filme Sexto sentido é um exemplo disso: no final, quando descobrimos o que realmente aconteceu com o psicólogo, pensamos: caramba, era óbvio, porque não pensei nisso?
O filme Testemunha de acusação brinca com essa  situação: de repente aparece uma mulher, do nada, com provas que inocentam o acusado. Parece um deus ex machina, usado apenas para livrar a cara do personagem. Mas depois isso se revela parte de uma trama maior, uma reviravolta muito bem pensada. 

Os estóicos e a felicidade


Um dos principais representantes da corrente filosófica estoicismo, na Grécia antiga, foi o escravo Epíteto.Como escravo, Epíteto deparava-se com um problema que dizia respeito diretamente à sua felicidade. Ao pensarmos na relação senhor-escravo, todos imaginam imediatamente que o senhor será feliz e o escravo infeliz. Afinal, o senhor tem tudo o necessário à felicidade: as melhores comidas, as melhores roupas, os mais variados divertimentos... e não precisa trabalhar. Já o escravo não tem nada, nem mesmo o seu próprio corpo, que pertence ao senhor.

Como o escravo poderia ser mais feliz que o seu dono? Isso seria possível?
O filósofo resolveu a questão através de uma inversão de valores. Para ele, o que nos deixa felizes não são as coisas que temos, mas o significado que damos a elas. Por exemplo, se um belíssimo carro nos lembra uma pessoa querida, que morreu, esse carro será fonte não de alegrias, mas de tristezas.
Para Epíteto, o que nos torna felizes é a forma como encaramos aquilo que nos ocorre. Assim, devemos distinguir entre as coisas que podemos mudar e aquelas que não podemos mudar. Entristecer-se ou preocupar-se com algo que não podemos mudar, é tolice.Esse ponto de vista foi expresso na frase: “Deus me dê paciência para agüentar aquilo que não pode ser mudado, coragem para mudar aquilo que pode ser mudado e principalmente sabedoria para distinguir um do outro”.
Mas os estóicos não só propunham paciência para aquilo que não pode ser mudado. Na verdade, os infortúnios podem ser fonte de felicidade, dependendo do sentido que se dá a isso. Se tudo que tenho é minha roupa do corpo, mas amo essa roupa, ela é fonte de felicidade. Essencialmente, o que importa é a atitude mental. “Se sou forçado a morrer, porém não entre gemidos, a ir para a prisão, mas não em meio a lamentações, a sofrer o exílio, mas o que impede que seja alegremente e de bom humor?”, dizia Epíteto.
Para ele, o que nós realmente possuímos não são os bens, os amigos, a saúde, nem o nosso próprio corpo, mas apenas o uso de nossas representações, o significado que damos às coisas que nos ocorrem, pois ninguém pode nos forçar a um uso que não desejamos.
Assim, para estóicos, devemos passar pelos momentos tristes da mesma forma que passaríamos pelos alegres.É tolo aquele que no dia de sol, reclama de calor e num dia de inverno, reclama do frio. Sábio é aquele que sabe usufruir o melhor tanto do inverno quanto da doença.
Curiosamente, o estoicismo, uma filosofia que tinha como um dos principais representantes um escravo, foi adotado por pessoas ricas e poderosas. O imperador Marco Aurélio (que aparece no filme Gladiador) foi um dos mais importantes adeptos do estoicismo.

O dia em que Loki roubou o martelo de Thor

 


Após criar o poderoso Thor, Stan Lee e Jack Kirby foram cuidar de outros títulos – em especial o Quarteto Fantástico, a vaca leiteira da Marvel à época. Quem ficou responsável pelo deus do trovão foi Robert Bernstein no roteiro (a partir de história de Stan Lee) e Joe Sinott nos desenhos.

Exemplo do trabalho dessa dupla criativa foi a história publicada em Jorney in to Mistery 92. A trama já é resumida na capa, com Loki quebrando grilhões e se vangloriando: “Eu consegui! Roubei o martelo do Thor! Agora o deus do trovão está à minha mercê!”. Caído no chão, o cabeludo herói estica a mão para sua arma e pensa: “Não consigo alcançá-lo! Dentro de alguns segundos, todos os meus superpoderes terão sumido para sempre!”.

Loki desvia o mortelo, fazendo com que ele o liberte. 


Na verdade, o que acontecia no miolo não era exatamente isso. Ao participar das filmagens de um longa metragem, Thor lança seu martelo, mas Loki consegue desviá-lo para Asgard, fazendo com que ele se choque contra os grilhões que o prendem. Isso também faz com que o martelo fique perdido. Mas em nenhum momento o deus do trovão corre o risco de perder seus poderes para sempre, afinal, ele pede ajuda Odin, que o leva de volta a Asgard, local em que a condição na qual ele se transforma no médico aleijado não existe.

A história gira em torno de Thor tentando encontrar o seu martelo e as estratégias usadas por Loki para impedi-lo. Nesse meio tempo, o deus do trovão faz martelos substitutos com madeira e até com rocha, que ele cava com as próprias mãos.

Thor cria um martelo de madeira. 


O curioso é que, embora a ideia fosse de Stan Lee e usasse um dos personagens mais famosos da Marvel, essa parece uma história da DC. O ritmo é lento, arrastado, com enfoque muito maior nas estratégias dos personagens do que na ação. Faltava algo nos diálogos e faltava principalmente o talento de kirby, cujas imagens eram verdadeiras explosões de ação.

Caminha comigo

 


Dirigido por Marc Francis e Max Pugh e lançado em 2017, o filme Caminha comigo registra o cotidiano de uma comunidade zen-budista na frança chamada Plum Village, fundada pelo monge vietnamita Thich Nhat Hanh.

O filme é todo baseado no conceito de atenção plena (Mindfulness). A ideia por trás desse princípio é de que devemos viver o momento presente, sem nos importarmos com o passado ou nos preocuparmos com o futuro.

A atenção plena aparece inclusive em termos de narrativa. São situações do cotidiano dos monges: um monge desconcentrado durante o zazen; dois monges conversando na cozinha; um monge e um voluntário organizando as almofadas de meditação (e descobrindo que se conhecem); uma monja visitando o pai... e caminhadas, muitas cenas silenciosas de caminhadas, o Kinhin, claramente o tipo de meditação predileto de Thich Nhat Hanh.

O documentário mostra também o tocar dos sinos, ao tocar dos quais, todos param tudo que estão fazendo, uma forma de tirar as pessoas do modo automático e fazer com que elas prestem atenção ao momento presente.

A narrativa é tão contemplativa que exige do expectador uma atitude mental de atenção plena. Não há narrador ou mesmo depoimentos dos personagens. Apenas as cenas capatadas e alguns trechos de textos de Thich Nhat Hanh narrados por Benedict Cumberbatch (o Doutor Estranho dos filmes). Isso inclusive cria um problema. Muitas vezes não conseguimos identificar onde está acontecendo a ação.

Curiosamente, até mesmo um filme contemplativo como esse tem seu momento de conflito. Ele aparece quando os monges vão meditar em uma praça e um fanático religioso cristão passa a acusá-los, aos gritos, de terem pacto com satanás. A reação dos monges sintetiza a essência do zen: eles apenas continuam meditando. 

Para assistir, clique aqui:  https://www.youtube.com/watch?v=Cescc684NWI

Demolidor – Marcado para morrer

 


Assim que assumiu os desenhos na revista do Demolidor, Frank Miller chamou atenção por seu senso narrativo e começou a dar sugestões para o título, sugestões que foram acatadas pelo roteirista Roger McKenzie.

Esses pitacos já podem ser observados na segunda história desenhada por Miller, em Daredevil 159. Essa edição já destoa do tom super-heroiesco da revista até então, aproximando-se mais do gênero policial.

Na história um homem misterioso, cujo rosto não vemos em detalhes, contrata um mafioso chamado Slaughter para matar o Demolidor, prometendo um pagamento de meio milhão de dólares.

A página dupla é um exemplo da maestria narrativa de Miller. 


As primeiras páginas já são um ótimo exemplo do estilo narrativo que seria característico de Miller (vale lembrar que na Marvel usa-se o Marvel way, em que o desenhista recebe apenas um resumo, desenvolve visualmente a história e depois o roteirista coloca o texto). A primeira página mostra trechos de uma batalha entre o Demolidor e o Mercenário em quatro imagens com uma variedade de ângulos e planos.

Então o leitor se depara com uma imagem em página dupla. Um homem misterioso apontando para a tela, onde passam as imagens do conflito enquanto o mafioso, em primeiro plano, tem seu cigarro aceso por um lacaio e diz: “Tudo é possível por um preço... até mesmo assassinato!”. O impacto é enorme.

Miller varia planos, ângulos, joga com a luz e a sombra. 


O mafioso manda bandidos ameaçarem Matt Murdock e enviarem uma mensagem para o Demolidor: ele deve comparecer no cais à meia-noite. Claro que o local está infestado de malfeitores, armados até os dentes, prontos para matar o herói.

Mas o Demolidor usa seu sentido de radar e sua audição super-desenvolvida par ir eliminando os adversários um a um em sequências de ação simplesmente magistrais. Miller joga com luz e sombras, varia ângulos e planos, usa a elipse quadrinística com genialidade, faz quadros verticais que se esticam por toda a lateral da página quando o Demolidor cai na água, usando o recurso para mostrar visualmente sua queda.

Uma curiosidade é que Miller introduz aqui um personagem que seria usado à exaustão como alívio cômico na sua fase como roteirista do título: o criminoso Tucão.

No final descobrimos que quem está por trás dessa tentativa de assassinato é um vilão Mercenário. A história termina com a promessa de um grande confronto.