sexta-feira, abril 03, 2026

Eric, de Terry Pratchett

 


O escritor inglês Terry Pratchett revoluciou a literatura de fantasia ao introduzir o humor no gênero, algo parecido com o que Douglas Adams fez com a ficção científica em O guia do mochileiro das galáxias (não por acaso, os dois são inglese).

Pratchett criou um mundo fantático que consite num disco sustentado por elefantes equilibrados nas costas de uma tartaruga. Um local onde ser mago é uma profissão possível e qualquer coisa pode acontecer.

O autor aproveitou a série para satirizar tudo, da vida moderna aos clássicos. Nessa última categoria pode ser incluído o livro Eric, lançado no Brasil pela Conrad em 2005.

Como a capa indica, Eric é uma versão humorística de Fausto, o homem que vendeu sua alma ao diabo (no título Fausto aparecer riscado e Eric aparece escrito em cima com letras infantis).

Na trama, Rincewind, o desastrado mago que fora enviado para o calabouço das dimensões em um livro anterior, volta para Discworld ao ser convocado por um demonólogo. Na verdade, o demonólgo, o garoto Eric Thusley, estava tentando chamar um demônio, mas o que apareceu foi o mago.

Eric faz três exigências: ter o domínio de todos os reinos do mundo, a mulher mais bonita que já existiu e viver para sempre.

Mas, como alerta Terry Pratchett, qualquer mago esperto que sabe o bastante para sobreviver por cinco minutos também é esperto o bastante para perceber que, se há algum poder na demonologia, ele está nas mãos dos demônios: “Usá-los em benefício próprio seria como tentar matar ratos batendo neles com uma cascavel”.   

Ou seja, o lance todo do pacto com demônios consiste em dar tudo que a pessoa pediu e, ao mesmo tempo, tudo que ela não quer. E, embora Rincewind não seja um demônio, é exatamente isso que acontece.

Ao se tornar o senhor do mundo, por exemplo, Eric, juntamente com Rincewind são enviados para um país no meio da selva, Tezuman.

Eric imagina que estar em em misterioso reino amazônico onde lindas princesas submetem seus prisioneiros a ritos de procriação estranhos e exaustivos. E, de fato, há em Discworld alguns desses reinos, onde a maioria dos exploradores são submetidos a tarefas exclusivamente masculinas. A maioria, entretanto, não sobrevive depois de anos instalando tomadas, montando prateleiras, cortando a grama do quintal ou verificando barulhos estranhos no sótão.

Acontece que os tezumanos são o povo mais irratável, pessimista e sombrio desse local. Eles cultuam um deus jibóia enfeitado de plumas que exige sacrifícios.

Eric é recebido com toda a pompa e ganha diversos presentes, para logo depois ser preso, juntamente com o mago, pelos tezumanos que querem finalmente se vingar do dono do mundo por ter colocado eles num país tão ruim, cheio de pântanos, de mosquitos, o fato das rodas de pedra nunca ajudarem a movimentar as coisas por mais que fossem colocadas na horizontal e puxadas com cordas.

Claro, eles se livram dessa enrascada, mas só para cair numa arapuca ainda maior.

A mulher mais bonita do mundo é Helena de tróia, Eleonor na versão de Discoworld, e os dois vão parar em plena guerra de troia só para descobrir que a mulher mais linda de todos os tempos se tornou uma matrona rodeada de crianças. “Ela parece com minha mãe!”, reclama Eric.

E a saga segue pelo início do mundo (afinal, quem quer viver para sempre teria que voltar até a origem dos tempos) e até uma visita ao inferno, que virou uma colônia de férias em que o objetivo é tornar tudo o mais tedioso possível.

Tudo isso misturado com os comentários irônicos de Terry Pratchett que pontuam toda a obra.

Enfim, um livro rápido e divertido.  

São Tomás de Aquino e a vitória do ocidente

 


Lendo sobre São Tomás de Aquino, no livro Viagem na Irrealidade Cotidiana, de Umberto Eco é que percebo a importância imprevista desse pensador para a configuração do mundo em que vivemos hoje. Não fosse ele, talvez fôssemos hoje mulçulmanos e falássemos árabe.
Eco conta que o santo era zombado pelos companheiros por sua vagarozidade, chamado de boi mudo. Era tão gordo que precisava de duas cadeira para acomodar suas gigantescas nádegas. Certa vez os frades brincalhões gritaram que lá fora havia um asno voador. Tomás corre para a janela enquanto os outros se escangalham de rir. Na volta, o futuro santo faz com que se calem argumentando que achou mais verossímil um asno voar que um monge contar uma mentira.
Para surpresa de todos, algum tempo depois ele se torna professor adorado pelos alunos. E tem um objetivo em mente: resgatar a filosofia de Aristóteles. Até então o Ocidente se contetava com Platão e Agostinho os livros de Aristóteles eram proibidos. O grego é conhecido quase que exclusivamente pelos árabes, muito mais adiantados que europeus tanto na filosofia quanto na ciência. Exemplar é a criptografia: enquanto na Europa qualquer mensagem codificada era considera segura, no Islã os pensadores já conheciam os avançados métodos probabilísticos que considera a freqüência da aparição de cada letra em cada língua. Os árabes da Idade Média eram sábios e refinados, comparados com os europeus. 
Agostinho e Platão poderiam dar contar muito bem do mundo espiritual (ou mundo das idéias), mas pouco diziam sobre o mundo físico. Aristóteles, ao contrário, estudava lógica, psicologia, física, classificação de animais e os movimentos dos astros.
As idéias de Aristóteles traziam em seu bojo a razão, o estudo da natureza e a possibilidade de determinar os eventos.
No mundo árabe, Averróis já recuparava as idéias do filósofo grego. Para ele, Deus contruiu a natureza em sua ordem mecânica e em suas leis matemáticas, reguladas pela determinação férrea dos astros. O mundo tem uma ordem, orquestrada por Deus. Para o filósofo/cientista resta achar ordem em meio ao caos.
Antes de Tomás de Aquino, ao copiar um texto antigo o comentador ou copista, ao encontrar algo que não se encaixava com os ditames da religião católica, simplesmente apagavam as frase “errôneas” ou as retiravam para as margens para colocar em guarda o leitor. Tomás utiliza outro método. Primeiro alinha as opiniões divergentes, esclarece o sentido de cada uma, questiona tudo, até o dado da revelação, enumera as objeções possíveis e tenta a mediação final. Tudo feito às claras, sob a ótica da razão.
Com isso podia ser demonstrado que o verdadeiro sentido da filosofia aristotélica era católico apostólico romano. Tomás cristianizou Aristóteles.
Consegue seu intento com rapidez tremenda para a lenta Idade Média européia. Antes dele se afirmava que “O espírito de Cristo não reina onde reina o espírito de Aristóteles”. Em 1210 todos os seus livros estão proibidos. Em 1255 toda a obra de Aristóteles está liberada e Aristóteles é considerado um sábio que deve orientar a fé cristã.
A luta de Tomás permite que entre no espírito da Europa a razão, a pesquisa empírica e o determinismo. Quando alguns séculos depois Descartes vai formatar o pensamento cartesiano, isso só é possível graças à herança aristotélica, resgatada pelo santo católico.
Ao mesmo tempo em que a Europa entrava na modernindade, Descartes e depois Newton dão a base da metodologia científica, desenvolvem-se as grandes navegações, o Islã fecha-se para novidades, enclausurado em uma fé religiosa rígida, como era o catolicismo da Idade Média.
Como os povos árabes, tão sábios e cultos da Idade Média, foram ultrapassados pelos incultos e fanáticos europeus? A resposta pode estar em São Tomás de Aquino. Ele parece ter sido aquilo que os teóricos do caos chamam de efeito borboleta: pequenos eventos que podem provocar grandes alterações. Não fosse ele, talvez hoje estivéssemos falando árabe e rezando na direção de Meca. 

Miracleman – A história oculta

 

 

Uma das reviravoltas mais surpreendentes da série Miracleman é descobrir que o Sr. Cream não só não matara Mike Moran, como ainda mudara de lado, transformando-se em um aliado de Miracleman. É ele que informa o herói que as instalações do Projeto Zarastustra ainda existem.

A história acompanha o herói (mostrando por Moore como um deus) se dirigindo ao local e as tentativas das forças governamentais de detê-lo. É uma sequência tão poderosa que já foi imitadava várias vezes nos quadrinhos.

O texto de Moore é poético. 


Em paralelo a isso, temos um flash back de Cream conversando com Moran e lhe explicando como de fato surgiu Miracleman. Outra sequência paralela é uma conversa de altos funcionários do governo tentando organizar a resistência.

O texto é impressionante. Enquanto Miracleman simplesmente caminha na direção de seu objetivo, soldados jogam bombas, acionam lanças-chamas e herói, impassível, só segue em frente, eliminando os adversários com o mínimo esforço. O texto é impressionante: “Das trevas ele vem... a noite se curva e não consegue ocultá-lo... a noite grita e não consegue sua atenção. A noite e queima e suas chamas não conseguem contê-lo”.

Big Ben já existia, mas Moore o resignifica. 


Como última linha de defesa eles acionam um super com óbvios problemas mentais que foi induzido a acreditar que Miracleman é um agente soviético tentando roubar uma arma secreta.

Big Ben era um personagem que já exisitia na Warrior, mas Moore o reformula completamente, dando-lhe uma narrativa alucinada e diálogos repletos de clichês, em constraste com a feição e a narrativa calma de Miracleman. “Renda-se, açougueiro de Leningrado! Renda-se ou lute como um homem, desgraçado!”.

Mircleman se livra dele com uma tapa. 


Miraclaman apenas dá uma tapa nele, como se estivesse se livrando de um inseto.

Quando eles se aproximam da porta do projeto e Cream tenta colocar uma bomba para abri-la, o herói a arranca usando apenas uma mão, uma porta de aço puro, pesando toneladas. Até então, para mostrar poder, os quadrinistas mostravam os personagens com gestos grandiosos e eloquentes, a exemplo do Hulk quando destruía alguma coisa. Moore gira a chave e consegue ampliar esse efeito de poder a mostrar seu personagem agindo da maneira oposta, de maneira comedida, quase como se fosse um bailarino. O efeito é impressionante. É como se seu poder fosse tão incomensurável que não fosse necessário esforço nenhum para arrombar uma porta de aço.  

Os gestos comedidos de Miracleman destacam a grandiosidade de seu poder. 


Nunca antes um super-herói, nem mesmo os mais poderosos, havia sido mostrado com tamanha grandesa. Nunca antes um super-heroi havia sido mostrado como um deus. 

Crise – Zona de guerra

 


Como deixa clara a capa, abarrotada de vilões, o número 9 da série Crise é totalmente focada nos antagonistas dos heróis.

Liderados por Lex Luthor e Brainac, os vilões resolvem tomar as terras ainda sobreviventes aproveitando-se do fato dos principais heróis terem se deslocado para a Terra 1.

A destruição de Luthor da Terra 2 serve para caracterizar o personagem Brainiac. 


A sequência em que os personagens são convocados é sintetizada pela altercação entre Luthor da Terra 2 e os dois líderes. “Espere um pouco! Quem designou esse rato de laboratório  de quinta categoria como nosso porta-voz? Eu sou o Luthor da Terra 2! Meu gênio é maior que o dele. Você não precisa desse careca!”.

O quadro seguinte mostra o Luthor da Terra 2 sendo fulminado, com uma fala de Brainiac em off (a fala dele é caracterizada por ser mostrada num balão quadrado com uma moldura vermelha: “Você se expressa com lógica, Luthor! No entanto, eu reuni este grupo! A escolha do líder cabe a mim. Mas você tem razão. Não precisamos de dois Luthors! Adeus”. A fala caracteriza o personagem como um ser frio e arrogante (afinal, trata-se de um robô), que não permite contestação para seus planos. A palavra “Adeus” em balão separado, sintetiza toda a caracterização psicológica do personagem.

Os vilões não são mostrados, apenas o resultado de suas ações. 


O roteirista Marv Wolfman e o desenhista George Perez conseguem mostrar o processo de conquista das terras 4, X e S em apenas uma página, sem no entanto, mostrar os vilões, mas apenas as consequências de seus atos, deixando para a imaginação do leitor completar os fatos.

“Aqui, apenas alguns permaneceram para manterem a paz enquanto os mais poderosos viajaram para a Terra 1... num momento em que seus mundos sofriam um surto de trevas”, diz o texto. “A liberdade conquistada em dezenas de guerras é roubada com impossível facilidade... onde estão nossos heróis?, indaga o povo. Derrotados, possivelmente mortos, assassinados por forasteiros ou por outros terrestres... que esperança temos?, pergunta o povo. E é resposta é brutal: nenhuma!”.

Heróis e vilões lutam. 


As imagens mostram um cenário de destruição, com o povo sendo tangido como gado. Em um quadro vemos apenas a bota do Adão Negro. Em outro vemos o Capitão Átomo sendo arrastado, inconsciente. Em outro vemos a nave do Besouro Azul caída no rio, em chamas.

Imagens e textos são como pistas que o leitor deve seguir para entender o que está acontecendo.

Não há honra entre vilões. 


Embora Crise tenha tornando o universo DC muito mais complexo e interessante do ponto de vista de narrativa, em uma coisa a série manteve a tradição: os vilões eram vilões. Eles não demonstram qualquer ética nem mesmo nas relações entre eles. Luthor e Brainiac, por exemplo, monitoram tudo de um satélite enquanto heróis e vilões lutam, esperando que ambos os lados estejam fracos o bastante para não oferecerem resistência ao domínio dos dois.

Seguindo essa lógica, o volume termina com Psimon invadindo o satélite dos dois, destruindo o robô e preparando-se para matar Luthor. Wolfman tanto deixa um gancho de suspense para o número seguinte quanto caracteriza os personagens pela total falta de escrúpulos.

quinta-feira, abril 02, 2026

Perry Rodhan - A luta pelas pirâmides

 


Um planeta essencial no quinto ciclo da série é Kahalo. Descoberto por Rhodan no ciclo anterior, esse planeta contém um conjunto de pirâmides que controlava o transmissor dos seis sóis, capaz de transportar uma nave espacial de uma galáxia para outra. 

No número 214 da série os terrenos e os senhores de Andromeda empreendem uma batalha escarniçada por esse planeta e pelo controle do transmissor. 

Há um problema ético aí. Como as pirâmides foram construídas pelo senhores, os terranos se apoderarem delas seria roubo.



Os autores resolvem esse problema fazendo os senhores matarem todos os habitantes do planeta como forma de preservar o segredo das instalações, o que faz a operação de ocupação parecer um empreendimento moralmente correto. 

Escrito por Kart Mahr, o livro tem boas sacadas, como focar a narrativa em um grupo de sobrevenetes humanos cuja nave foi derrubada e que encontram um simpático robô, o que, aliás, nos garante uma interessante reviravolta no final. 

Além disso há algumas boas descrições de cenas de ação, a exemplo de: “Os canhões pesados lançaram raios ofuscantes ao lançar suas cargas. Numa fração de segundo o inimigo desapareceu atrás de bolas de fogo formadas por explosões nucleares”

Contos do Loop

 


Contos do Loop, série da Amazon Vídeo que estreou este mês é toda baseada nas incríveis pinturas de Simon Stalenhag. Isso resume as maiores qualidades e os maiores problemas da nova atração da Amazon Video. Trata-se de uma atração com aparência incrível, em que alta tecnologia se associa a um visual retrô e a eventos estranhos. Mas é também uma série de diretor, em que o roteiro parece estar a serviço das imagens.
A história se passa num local no qual está instalada uma empresa misteriosa chamada Loop. Nunca sabemos exatamente o que o Loop faz, mas vislumbramos algumas possibilidades através de pequenos acontecimentos que impactam os moradores locais: uma menina cuja casa desapareceu com a mãe, dois amigos que trocam de corpos, o homem que compra um robô para proteger sua família, a moça que descobre uma forma de congelar o tempo, um rapaz que vai para outra dimensão na qual encontra consigo mesmo. Aliás, deveria haver uma regra básica, sempre ignorada pelos moradores do Loop: jamais mexer em qualquer coisa que encontre na floresta ou em qualquer outro lugar.
Os episódios contam histórias completas, mas que se conectam, são interligadas. O personagen secundário de uma história vira protagonista na história seguinte e assim em diante até que a história de todos seja contada.
Há episódios muito bons, como “Êxtase”, em que uma garota descobre uma maneira de congelar o tempo e usa esse recurso para ter um interlúdio amoroso com seu namorado. Os dois passam um mês vivendo como querem na cidade paralisada. Curioso é que esse episódio vai fazer os moradores acharem que há uma quadrilha de assaltantes agindo, o que vira o gancho para o episódio do homem que compra um robô para proteger sua família.
Uma das ilustrações de Simon Stalenhag que serviram de inspiração para os episódios.
Outro que merece destaque é “Inimigos”: um rapaz é abandonado pelos colegas em uma ilha aparentemente deserta e descobre que há um habitante misterioso. O episódio tem um bom equilíbrio entre terror e poesia e se liga diretamente ao episódio seguinte, “Casa”, com a história do filho do protagonista de “Inimigos”.
Por outro lado, há episóidos como “Ecoesfera” que são decepcionantes. Nele, algo fantástico está acontecendo, mas não existem pistas do que seja. Deixar que o expectador imagine tudo pode ser interessante num quadro de Simon Stalenhag, mas não funciona em um seriado.
Contos do Loop foi anunciado como um anti Black Mirror, o que é uma boa definição. Se em Black Mirror a visão sobre a tecnologia quase sempre é pessimista e o resultado desastroso é quase certo, no seriado da Amazon há um otimismo inerente, mesmo quando tudo parece levar ao desastre.

Senhor das estrelas

 



Em 1977, o roteirista Chris Claremont, o desenhista John Byrne e o arte-finalista Terry Austin eram ilustres desconhecidos. Nesse ano, entretanto, eles produziram juntos uma obra-prima que antecipava em alguns anos os melhores momentos do trio nos X-men. Trata-se de Senhor da Estrelas.
Publicada originalmente na revista Marvel Preview (e republicada aqui em Heróis da Tv 70 e 71), Senhor da Estrelas, como o próprio nome diz, era uma história de ficção-científica: mostra um herói salvando um grupo de pessoas escravizadas.
No meio do salvamento ele descobre que a atividade está sendo usada para gerar dinheiro para um golpe de estado no império galáctico – e, como a ajuda de um garoto e uma garota salvos por ele, irão impedir que isso aconteça.
É uma trama space opera, com direito até mesmo a luta de espadas, mas não soa artificial. A trama se desenvolve de forma verossímil. A história traz inclusive uma inovação interessante: na trama, a nave é um ser vivo apaixonada pelo senhor das galáxias (à certa altura ela chega mesmo a criar uma imagem feminina).
Claremont é conhecido por escrever exageradamente e aqui ele escreve muito, mas o texto não é supérfluo.

Já o desenho é uma atração à parte. Byrne sempre teve um traço elegante, mas nessa HQ se supera, brincando com a diagramação – em certa sequência, um mostro destrói um barco, avançando pelos quadros, junto com o texto. Já o arte-finalista Terry Austin não só torna o traço de Byrne mais refinado como o elabora ainda mais, com o uso, por exemplo, de retículas. Detalhada em alguns momentos e apenas delineada em outros, a arte-final se encaixa perfeitamente no desenho.
Infelizmente essa fase do personagem na época teve poucas histórias. E, sim, esse é o mesmo personagem dos filmes do Guardiões da Galáxia, embora nos filmes ele seja muito diferente. 

Manticore 1 e 2 para baixar

 


Manticore é uma das revistas mais premiadas dos quadrinhos nacionais. Foi graças a ela que ganhei o Angelo Agostini de melhor roteirista. A publicação está fora de catálogo há anos e dificilmente será republicada. A boa notícia é que eu consegui scan dos dois números. Clique aqui para baixar o número 1 e aqui para baixar o número 2.

Emergência Radioativa: O Brilho da tragédia em Goiânia

 


Em setembro de 1987, Goiânia foi palco do maior incidente radioativo do mundo ocorrido fora de uma usina nuclear. O desastre começou quando dois homens retiraram uma cápsula de chumbo de uma clínica de radiologia abandonada e a venderam para um dono de ferro-velho. Ao abrir o artefato, o homem encantou-se com um pó azul brilhante em seu interior e o distribuiu para familiares e amigos. Era o Césio-137, um material altamente radioativo. A série Emergência Radioativa, dirigida por Fernando Coimbra e Iberê Carvalho para a Netflix, reconta essa tragédia.

A obra se destaca por um roteiro e uma direção que privilegiam a tensão e o impacto emocional. A criação do personagem Márcio (Johnny Massaro) — que sintetiza vários físicos goianos que atuaram no episódio real — ajuda a costurar os acontecimentos de forma fluida. Na trama, Márcio está em Goiânia para o aniversário do pai quando um médico amigo da família o informa sobre diversos pacientes com sintomas estranhos, pedindo que ele investigue um objeto deixado na Vigilância Sanitária.

Antes mesmo da confirmação da contaminação, a série utiliza a linguagem visual para alertar que algo terrível está à espreita. Um exemplo marcante é quando Antônia, esposa do dono do ferro-velho, transporta a cápsula em um saco de estopa dentro de um ônibus; a câmera se aproxima do objeto no chão, antecipando visualmente a tragédia de um veículo radioativo circulando pela capital.

A partir da descoberta, o que era antecipação se torna caos iminente. Os fatos desenrolam-se rapidamente em sequências de suspense que esboçam o risco de uma contaminação ainda maior — como o momento em que bombeiros consideram jogar a cápsula no rio que abastece a cidade, ou quando se descobre um caminhão repleto de papel contaminado a caminho de São Paulo.

Esse clima de tensão constante gera uma imersão profunda, fazendo o espectador sofrer ao lado de figuras reais, como a menina Leide das Neves, que ingeriu o césio e luta pela vida. Relembrar esse assunto é fundamental para evitar que negligências semelhantes se repitam.

Em tempo: é revoltante constatar que os donos da clínica, responsáveis diretos por abandonar material letal em um prédio desprotegido, foram condenados apenas a prestar serviços comunitários.

O Super-homem de Garcia-López e Gerry Conway

 


No início da década de 1970, Garcia-López era apenas um espanhol criado na argentina recém-chegado aos EUA e procurando um espaço no mercado dos comics. E Gerry Conway era um roteirista iniciante, chegando na DC depois de uma fase memorável na Marvel, escrevendo o Homem-aranha. 
É o início da parceria dessa dupla (que se tornaria uma das mais afinadas dos comics, principalmente na obra-prima Esquadrão Atari) que podemos acompanhar no primeiro volume das Lendas do Homem de Aço. É curioso ver como ambos, tanto roteirista quanto desenhista, vão tentando se acostumar com o personagem. Conway demora para dar verossimilhança para o herói (a explicação para Clark Kent continuar apresentando o jornal enquanto o Superman atua é sofrível) e Garcia-Lopez sofre com arte-finalistas que não combinam com seu desenho limpo.
O encontro com a Mulher Maravilha é o ponto alto do volume. 


O confroto com a Mulher-Maravilha é nitidamente o ponto que os dois se acertaram (apesar da arte-final de Dan Adkins muitas vezes sujar o traço limpo de Garcia-López). Conway constrói uma boa trama retrô e o desenhista demonstra toda sua capacidade para anatomia, perspectica e diagramação de página. 
A diagramação pouco convencional de Garcia-López, com os personagens saindo do quadro, chamava a atenção. 


A última história do álbum, "A mensagem do sonhador" é o ponto em que podemos a dupla finalmente afinada, com um contexto de ficção-científica que certamente antecipa Esquadrão Atari e uma trama interessante, sobre um alienígena que deve entregar uma mensagem de paz, mas tem sua nave atingida por um meteoro.
A mensagem do sonhador antecipa do cenário de FC de Esquadrão Atari. 


Infelizmente, Garcia-López ficou pouco tempo no título. Logo ficou claro que seu traço vendia e ele era chamado para desenhar os primeiros números de novas revistas, como forma de alavancar as vendas, ou fazer capas de outras.
Posteriormente o desenhista foi chamado para fazer o guia de estilo dos personagens da DC, ficando também responsável pelas imagens promocionais - trabalhos belíssimos, que passaram a estampar lancheiras, camisas e tudo mais que tivesse personagens da DC.

quarta-feira, abril 01, 2026

Livro infantil Os gatos

 

Os gatos foi meu primeiro livro publicado, no ano de 1998, pela editora Módulo com ilustrações de Antonio EderLuciano Lagares e José Aguiar.. É a história de uma menina cujo gato desaparece e vai procurá-lo e, claro, se envolve em muitas aventuras. As situações nas quais ela se envolve foram pensadas a partir de quadros famosos da história da arte. Entre os artistas homenageados estavam: Klint, Norman Rockwell, Matisse, Leonardo da Vinci, Lautrec, Van Gogh, Escher, Munch, Renoir. A capa mostrava a menina e seu gato dentro de um quadro de Miró. 


Mundo sem fim

 


Mundo sem fim é a continuação de Os pilares da terra, clássico da literatura histórica de autoria de Ken Follett. Da mesma forma que Os pilares da terra, Mundo sem fim se passa na Idade Média, na imaginária cidade de Kingsbridge, mas pouco mais de um século depois.
Follett é aquilo que no cinema chamam de artesão competente: não é genial e nem de longe de propõe a fazer alta literatura, mas tem uma incrível capacidade de engendrar tramas bem elaboradas, construir bons personagens e produzir livros em que tudo se encaixa com perfeição, com um quebra-cabeça.
Se Os pilares da terra já mostravam todas essas características, elas ficam ainda mais destacadas em Mundo sem fim. A isso acrescenta-se uma mais elaborada pesquisa histórica e um pano de fundo que por si só chama a atenção do leitor: a nova história se passar no período da guerra dos 100 anos entre França e Inglaterra e da peste negra (ou peste bubônica).
Follett conta em detalhes vivos o efeito da devastação da guerra e evolui para a mortandade absoluta da peste, que dizimou quase metade da população de algumas cidades. Ninguém sabia o que provocava a doença.
A peste negra colocou em cheque o conhecimento médico da época, baseado na ideia dos humores, e criou uma cisão entre conservadores e progressistas (os que acreditavam que a melhor forma de entender as doenças era observar os doentes e, assim, tentar identificar formas de evitar que doenças se espalhassem). Mundo sem fim mostra esse conflito, exemplificado entre uma das personagens, uma freira, que usa máscara para atender os pacientes e lavava as mãos com vinagre, e os médicos tradicionais que consideravam isso besteira (e morriam como moscas). Curiosidade: Hoje sabe-se que o vinagre na verdade afastava as pulgas, que eram provavelmente os vetores da doença.
Aliás, todo o livro, assim como o anterior, parece se equilibrar na relação conservadores x progressistas ou teóricos x práticos. Tanto em Os pilares da terra quanto em Mundo sem fim, o foco é a catedral e os homens visionários que estiveram por trás dela, homens muito além de seu tempo.

Livro Ciência e quadrinhos - edição digital

 



Publicado em 2005, meu livro Ciência e Quadrinhos se tornou bibliografia básica sobre o assunto, inclusive por estudos sobre o uso de quadrinhos nas aulas de ciência. Agora, 18 anos depois, ganha uma edição digital revisada alterada. Para baixar, clique aqui: https://www.marcadefantasia.com/livros/quiosque/ciencia_e_quadrinhos/ciencia_e_quadrinhos.pdf

Homem-aranha – Asas mortíferas

 


No final dos anos 1960 os leitores achavam que o vilão Abutre havia morrido. Nos números anteriores ele havia sido substituído por um prisioneiro chamado Blackie Drago e tudo levava a crer que ele morrera num incêndio no hospital da prisão.

Mas no número 63 de The Amazing Spider-man ele volta mais mortal do que nunca.

A belíssima splash page inicial é um exemplo do talento de Romita. 


A história já inicia com uma splash page realmente memorável, com o personagem no alto de um prédio. O uso inteligente da luz e sombra e a composição com as asas dominando o quadro são uma boa amostra de como John Romita era um mestre do desenho.

Na história, o vilão rouba o uniforme usado por Drago, que estava em exposição no Museu da cidade. Depois solta Drago da prisão. Seu objetivo é enfrentar Drago vestido com o uniforme verde num combate alado e, assim, mostrar para a cidade que ele é o verdadeiro Abutre.

Vida sofrida: Parker tem dores no ombro e problemas com a namorada. 


Enquanto isso, Peter Parker sofre com mais um de seus infinitos problemas: seu ombro está dolorido em decorrência de uma história anterior. Mas quando os dois abutres se engalfinham nos céus da cidade, o rapaz é chamado por JJ Jameson para fotografar o combate do século.

Um garotinho cai da sacada do prédio destruída pelo combate e o aracnídeo é obrigado a intervir. Mas com o ombro machucado ele não é páreo para o Abutre.

O combate dos abutres coloca em risco a vida de um garotinho. 


A história termina numa daquelas situações de suspense típicas de Stan Lee: o personagem caído no meio da rua, desmaiado e à mercê da população.

A dinâmica da história não permite que Stan Lee introduza uma cena de encontro de jovens, na qual ele brilhava com diálogos certeiros e divertidos. Mas a história compensa pelas cenas de ação e pelo equilíbrio do texto. Nas primeiras histórias do aranha, Lee escrevia demais. Nessa fase, seu texto já tinha

encontrado o tamanho certo, encaixando perfeitamente no desenho elegante de John Romita.