quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Banzé do oeste

 

Banzé no Oeste é um filme de Mel Brooks de 1974. É uma das obras indicadas no livro 1001 filmes para ver antes de morrer.
A trama é simples: ao saber que a ferrovia vai passar por uma cidade, o assistente do governador resolve usar bandidos para expulsar da cidade os seus moradores e tomar conta do local, vendendo o terreno a peso de ouro para a ferrovia. Mas os moradores da cidade mandam um telegrama ao governador, pedindo a ida de um xerife. Como forma de boicotá-los, ele manda um negro, que ia ser enforcado.
É, portanto, uma trama em que o humor se confunde com a crítica social, em especial o racismo.
O filme tem uma edição lenta, que prejudica o humor, especialmente no início, mas pega um ritmo bom do meio para a frente, com referências a desenhos animados e outros filmes. Particularmente boa a cena em que o político divulga que vai contratar os maiores fascínoras e, na fila, vemos nazistas e membros da Kun-Klus-Klan.
Banzé no oeste é o pai dos fílmes sátiras, como Apertem os cintos, o piloto sumiu e Pânico. Pena que nem todos os imitadores de Mel Brooks conseguem manter o seu nível de qualidade.

O que é uma teoria?

 


É comum ouvir dos detratores da teoria da evolução a frase: "A evolução é apenas uma teoria". Com isso eles querem dizer que a teoria da evolução não é científica, ou é apenas imaginação, ou ainda que é falsa.
Mas o que é uma teoria? Para entender o que é uma teoria é importante entender o que é o método científico. Atualmente um dos guias mais aceitos pela ciência é o hipotético-dedutivo, de Karl Popper. Popper dizia que só é ciência aquilo que pode ser falseável, aquilo que passa pelo teste do falseamento.
O cientista faz uma hipótese qualquer (Todos os cisnes são brancos, por exemplo) e vai a campo testar essa hipótese, procurando provas de que ela é falsa .
Se a hipótese sobrevive a esse teste de falseamento, ela deixa de ser uma hipótese e torna-se uma teoria. Isso significa que aquele conhecimento é para sempre, que uma teoria é uma verdade eterna e incontestável? Não.
Em ciência, nada é para sempre. O que é verdade hoje, pode ser falseado amanhã. Mesmo uma teoria que tenha sobrevivido durante séculos, pode cair diante de um novo dado.
Em outras palavras: na ciência TUDO É TEORIA. Mesmo as chamadas leis, fenômenos regulares que parecem mais do que comprovados (como a gravitação) podem um dia ser falseados (quem sabe um dia descobrimos uma parte do universo que nos mostre que a explicação de Newton estava errada?).
Essa é a diferença entre ciência e religião: a religião trata de um conhecimento eterno, imutável, incontestável, baseado essencialmente na fé. Quem acredita que o universo foi criado por deus em seis dias vai morrer acreditando nisso. Religião não precisa de observação empírica. Você não precisa ver Deus para acreditar em Deus. Ninguém diz: "Ah, claro, eu acredito em Deus. Ontem mesmo encontrei com ele no ônibus".
Já a ciência trata de um conhecimento transitório, mutável, contestável, baseado na observação. Ou seja: a ciência muda o tempo todo. O que é verdade hoje, pode não ser verdade amanhã de acordo com novas observações.
Então: sim, a evolução é apenas uma teoria. Da mesma forma que a teoria dos jogos, que a teoria do caos, que a teoria da gravitação universal. Se você quer ciência, aceite que tudo é teoria, transitório, contestável. Se quiser verdades universais, busque a religião.

Camelot 3000 – A história de Morgana Le Fay

 


A feiticeira Morgana Le Fay é uma das razões do sucesso de camelot 3000. A mistura de vilania e erotismo conquistou os leitores, criando um belo (no sentido literal) contraponto ao Rei Arthur.

A história dessa personagem é contada no número cinco da série em uma conversa dela com o chefe de segurança da ONU. A personagem reconta sua origem, na Idade Média, como meia-irmã de Arthur e a rivalidade entre eles surgida desde o nascimento, uma vez que o pai de Arthur matou o pai de Morgana. Como forma de vingar, ela se dedicou às artes satânicas. “Arthur, no entanto, era sempre capaz soprepujar qualquer cilada física ou mágica, já que tinha a proteção de Merlin”, explica ela.

Morgana reconta sua história... 

Em busca de outra fonte de poder, ela lança sua essência vital para o espaço, onde encontra o décimo planeta e acaba escravizando os habitantes locais (os insetos que os leitores já tinham conhecido nas cenas de invasão) e se apropriando de um poço de poder, que no entanto, desenvolveu-lhe uma doença que provoca pústulas nas costas.

O interessante aí é que na sequência de flash back é usada pela primeira vez a margem negra, que seria a principal característica da série na fase arte-finalizada por Terry Austin.

... e explica como escravizou os habitantes do décimo planeta...


Em uma narrativa paralela, em Camelot, Lancelot e Guinevere se envolvem cada vez mais no romance proibido que foi a causa da ruína da primeira Camelot.  Já Tristão, recebe a visita de Morgana, que promete transformá-lo em um homem caso ele traia a távola redonda.

... onde adquiriu uma doença que deixa sua pele cheia de pústulas.


Embora essa edição não tenha grandes cenas de impacto e de ação, ela se torna uma leitura interessante por mostrar a origem da vilã e jogar ganchos e pistas falsas para tramas futuras. Percebe-se nitidamente que o roteirista Mike W. Barr está tecendo sua trama com a dedicação de um tecelão habilidoso.

Fanzine Crash

 

Crash foi o primeiro fanzine de quadrinhos do Pará (antes havia alguns fazines que tinham quadrinhos, mas Crash foi o primeiro totalmente dedicado a publicar HQs).
Ele surgiu quando fui entrevistar Bené Nascimento para um trabalho de faculdade. O que era para ser uma entrevista virou uma conversa de horas e, ao final, Bené me convidou a produzir com ele um zine.
O número zero saiu em 1989 e publicou uma história do Bené com o Batman – o tipo de história que naquela época só poderia sair em um fanzine. Curioso que nesse primeiro número eu ainda estava definindo o pseudônimo , que em alguns momentos aparecia como Jean Danton e outros Gian Danton.
Foi em um número deste fanzine que publiquei pela primeira vez um texto sobre Watchmen, com desenhos de Bené com todos os personagens da série.
Crash teve quatro número (se contarmos o número zero) e marcou época nos quadrinhos paraenses.

Livro infantil Moira

 

Eu sempre soube que teria uma filha chamada Moira. Em 1997 (três anos antes da Moira verdadeira nascer) escrevi um texto sobre uma menina chamada Moira e seu gato procurando pelo sentido na vida – em sua busca eles encontram um leão, um palhaço e uma mula sem cabeça.
Sim, era uma história surreal.
Quando a protagonista finalmente nasceu, resolvi publicar o texto na forma de livro. O amigo Jean Okada se ofereceu para fazer as ilustrações, que ficaram belíssimas. Mas publicar livro colorido no Brasil é cilada, Bino. Os custos gráficos são altíssimos para esse tipo de publicação.
Assim, acabei lançando na forma de e-book, disponibilizado pela Virtual Books. O livro foi baixado por milhares de pessoas (em uma estatística que me enviaram na época, o total de leituras de meus livros lançados pela Virtual Books chegou a superar a casa do um milhão). O livro até hoje está disponível no endereço: http://www.virtualbooks.com.br/v2/ebooks/pdf/00841.pdf

A arte detalhista de Arthur Adams

 


Arthur Adams nasceu em 1963. Quando viu a primeira edição de Micronautas, desenhada Michael Golden, ele ficou tão impressionado que decidiu que iria se tornar um desenhista de quadrinhos.

Com esse objetivo em mente ele começou a participar de convenções e entregar amostras de trabalhos para editores.

A grande oportunidade de sua carreira surgiu quando o editor Al Migron estava limpando o escritório para dar lugar a Carl Potts e achou uma arte de Adams. Ele percebeu que havia ali um grande potencial e começou a mostrar para outros editores da casa das ideias. Ann Nocenti achou que ele era o artista ideal para uma minissérie que ela tinha bolado, sobre um personagem chamado Longshot.

Em parte por seu detalhismo e em parte por sua inexperiência narrativa, Arthur Adams levou dois anos para desenhar as seis edições da série, mas quando ela saiu, foi uma revolução no mercado.

Sua influência sobre outros artistas da época foi enorme. Adams foi a principal referência dos criadores da Image Comics.

Em decorrência de seu detalhismo, Arthur Adams leva muito tempo para terminar seus quadrinhos, razão pela qual ele tem sido colocado principalmente em séries ou imagens promocionais.













Os mitos de Cthulhu, de Esteban Maroto

 


O espanhol Esteban Maroto é um dos grandes quadrinistas da década de 1980. Aqui no Brasil ele ficou particularmente conhecido graças às histórias de terror publicadas na revista Kripta, da RGE (que republicava material da Warren) e à série de FC Cinco por Infinitus, publicada pela Ebal.
H. P. Lovecraft é um dos maiores autores de terror de todos os tempos. Ele renovou o gênero no início do século XX em histórias tão verossímeis que muitos passaram a acreditar que tratavam de eventos reais.
O encontro dos dois só poderia render uma obra-prima: o álbum Os mithos de Cthulhu, lançado recentemente pela editora Pipoca com Nanquim.
A história desse álbum, no entanto, é bastante tortuosa. No início da década de 1980, a editora Bruguera encomendou para Maroto uma adaptação da oba de Lovecraft para uma coleção de adaptações de obras literárias. A ideia era fazer dois volumes dedicados a esse autor, um desenhado por Maroto e outro por Alex Niño.
Entretanto, pouco depois que os primeiros originais foram entregues, a editora decretou falência. Maroto não conseguiu de volta os originais. A história acabou sendo publicada colorida (a concepção original era PB) na revista Capitán Trueno. Posteriormente essas histórias foram publicadas nos EUA com uma tradução de Roy Thomas e capa de Frank Brunner, que chamou pouca atenção. Mais recentemente, a editora Planeta topou publicar o álbum da forma como Maroto o havia planejado e é essa versão publicada pela Pipoca e Nanquim.
Maroto tem uma incrível capacidade de unir uma boa anatomia com cenários de sonhos e esse é o grande mérito do álbum. Em especial as cenas de alucinação ou de monstros são particularmente envolventes, o tipo de página que merecem muito mais que uma simples mirada.


O álbum reúne adaptações de três textos de Lovecraft: A cidade sem nome, O cerimonial e O chamado de Cthulhu. Como toda a obra do autor é interligada, com citações recorrentes, por exemplo, ao livro Necronomicon, as três histórias acabam formando um conjunto coeso. O maior problema do volume é que os editores queriam ainda mais coesão e pediram para Maroto fazer os monstros das três histórias o mais parecido possível. O resultado é que o monstro Cthulhu ficou totalmente descaracterizado e só sabemos que é ele porque o texto assim o diz.
Outro problema é que, em nome da consisão, Maroto reduziu o texto, tornando-o mais fluído, mas perdendo o charme do autor de providence, cuja grande característica era justamente o texto prolixo, repleto de descrições e adjetivos que, no final, não descreviam nada, servindo muito mais para dar uma impressão de terror.
Apesar desses problemas, o álbum é item obrigatório para os fãs de terror. Como escreve José Villarrubia na introdução do volume, Lovecraft é muito conhecido, mas pouco lido. 

Sozinha no mundo, de Marcos Rey

 


Eu comprei o livro Sozinha no mundo, romance juvenil de Marcos Rey e fui deixando de lado porque a capa parecia infantil. O título também me parecia melodramático demais, assim, fui lendo os outros que tinha do Marcos Rey e adiando a leitura desse.

Quando finalmente peguei para ler, tive uma surpresa. É um típico suspense, no melhor estilo do autor de O mistério do cinco estrelas.

O livro conta a história de Pimpa, uma menina do interior, que viaja com a mãe para São Paulo em busca de um parente desconhecido que poderá ajudá-las. No entanto, a mãe morre durante a viagem e uma falsa assistente social passa a perseguir a menina por toda a cidade. Por que a menina está sendo perseguida tão implacavelmente? Que interesse a mulher tem numa pobre órfã?

Sozinha do mundo é um ótimo exemplo de um romance em que todos os detalhes se encaixam. Essas histórias de suspense fizeram com que Marcos Rey se tornasse um best-seller entre os autores juvenis. Chegou a vender um milhão de exemplares, juntando todos os livros. Se fosse nos EUA, venderia um milhão só de O mistério do cinco estrelas, seu livro mais famoso.

Além do ótimo texto de Marcos Rey, Sozinha no mundo tem mais o charme dos desenhos realistas de Marcus Sant´Anna e a diagramação meio antiquada, mas que lembra as boas leituras da infância (a nova geração, que não teve contato com a coleção Vaga-lume, não sabe o que perdeu).

Gabriela, de Walcyr Carrasco

 


Gabriela é um dos romanes mais populares de Jorge Amado e teve duas versões para TV. A primeira na década de 1970 e a segunda em 1992. Essa segunda versãofoi um grande sucesso, especialmente graças ao roteirista Walcyr Carrasco, que conseguia dosar muito bem o humor e o suspense. . 
A produção contava com um grande elenco, entre os quais se destaca José Wilker, como Coronel Jesuíno e seu já famoso bordão “hoje eu vou lhe usar”, que virou meme na internet.
Uma curiosidade é que algumas das melhores tramas não se encontram no livro, como a da garota desonrada pelo noivo que vai parar no Bataclã.
Como nas outras novelas do autor, há várias situações de travestismos, especialmente de homens que precisam sair da casa de suas amantes ou do Bataclã. Pelo Jeito, Walcyr Carrasco é fã de Quanto mais quente melhor, filme de Billy Wilder no qual dois músicos precisam se vestir de mulher para fugir de mafiosos.
A direção de Mauro Mendonça filho, com super-closes e efeitos de iluminação, valorizava o trabalho dos atores.
A maioria das novelas de Carrasco vinha sendo dirigida pelo fraco Jorge Fernando, que mal e mal sabia dirigir humor - uma direção bem básica, no estilo plano-contraplano, sem qualquer trabalho mais elaborado de fotografia. Embora já fosse possível perceber o ótimo texto, nitidamente influenciado por Marcos Rey, dava a impressão de que o autor só sabia traballhar com humor.
Gabriela provou que se trata de um roteirista completo. 

terça-feira, fevereiro 17, 2026

Pacto sinistro

 

Pacto Sinistro é filme noir tardio de Alfred Hitchock com roteiro de Raymond Chandler, o mestre da literatura noir. Na história, um tenista, Guy Haines , conhece num trem um rapaz, Bruno Anthony, que lhe fala de sua teoria a respeito dos crimes trocados. Bruno gostaria de matar o pai e supõe que Haines gostar que sua esposa fosse morta, já que ela lhe traiu e se recusa a dar o divórcio. Para Bruno, se um cometesse o crime do outro, jamais seriam descobertos. Haines toma a proposta como uma piada, e se espanta ao descobrir que a esposa foi morta. Começa um jogo de gato e rato de Bruno tentando convencer o tenista a matar seu pai. Ao mesmo tempo, Haines tenta impedir que o Bruno o incrimine pela morte da esposa. 
O filme é um ótimo exemplo do que Hitchock faz melhor: suspense, em especial com o uso genial das narrativas paralelas. A corda fica tensa durante toda a última metade do filme, com a história saltando de Haines para Bruno a cada minuto. Até mesmo quando os dois se encontram, o diretor consegue criar uma terceira linha narrativa, aumentando ainda mais o suspense.
Além do uso criativo das narrativas paralelas como elemento de suspense, o filme também se destaca pela ótima direção de atores. Um único olhar do personagem é capaz de transmitir todo o significado de uma cena.

Conan – O vale da morte eterna

 


O volume 12 da série Conan em cores, lançada pela Abril reúne três histórias de J.M.DeMatteis desenhadas por John Buscema. Essas três histórias, lidas em sequência, ajudam a perceber como o escritor foi, aos poucos, imprimindo um estilo próprio ao título do cimério.

Na primeira história, que dá nome ao volume, é nítido que ele está imitando Roy Thomas, inclusive trazendo de volta a prostituta Jenna, da primeira fase de Thomas no título. A história inicia com Conan percorrendo um vale quando ouve gritos. É um homem tentando matar um ser andrajoso. “Por favor”, diz a figura antes do golpe final. “Uma única palavra... mas imbuída de tanto terror que consegue tocar o coração empedernido do cimério... e fazê-lo agir!”.

Conan salva um ser andrajoso... 


Após salvar a figura misteriosa, ele descobre que se trata de Jenna, mas agora ela está corcunda e sua pele está repleta de pústulas. Pior: o cimério também foi infectado. A solução para os dois é seguir para um vale governando por uma figura misteriosa, Myya L´rrasleff. Após um processo de transformação, as pessoas passam por uma mudança espiritual, o que faz com que elas subam a montanha em estado de felicidade absoluta.

A doença que acomete Conan e Jenna poderia ser lepra, mas como essa é uma história de Conan, é um processo provocado por um ser alienígena que, depois de ser expulso de seu planeta, decidira transformar os humanos em réplicas dos seus conterrâneos, mas não contava com os músculos do cimério.

... para depois descobrir que se trata de Jenna. 


É uma típica história de Roy Thomas, inclusive em termos de narrativa.

A segunda história, “A voz de alguém há muito tempo perdido” é muito mais interessante, até por acrescentar algo a mais à mitologia de Conan: um avô, Drogin.

O avô de Conan aparece na história. 


Aqui temos uma narrativa em primeira pessoa que já se aproxima muito mais do que conhecemos do estilo de JM DeMatteis: “Drogin cujo braço era mais forte que aço hyrkaniano. Ele era um ancião quando nasci. Os homens da vila o respeitavam e temiam mais do que qualquer outro. Isso me fazia orgulhoso... pois ele era meu avô”. A recordação termina com o avô de Conan indo para um local deserto para morrer sozinho, mas na história Conan o encontra remoçado, um homem ainda maior e mais forte que Conan. O mistério? Uma aliança com um ser ancestral, que, através dessa aliança, vivia junto as aventuras do avô de Conan.

Há, nessa história, uma sequência de alucinação de Conan no qual DeMatteis revive algumas das melhores histórias da fase de Roy Thomas, incluindo o deus-elefante Yag-Kosha, o macaco Thak e até Belit.

Um delírio rememora algumas das mais importantes histórias do cimério. 


Embora siga o padrão das histórias do cimério de misturar aventura, ação e mistério, há um toque aqui de algo novo e inesperado, incluindo aí o ótimo texto final: “À medida em que a delicadeza dá lugar à paixão... Jenna ouve... ou pensa ouvir... Conan sussurrar algo em seu ouvido... algo breve sobre vida e morte...e a voz de alguém que há muito se foi”.  

A terceira história traz um típico personagem de J.M.DeMatteis... 


Na terceira história temos finalmente um típico roteiro JM DeMatteis, quando um espachim chamado Vonndhar a serviço de um deus da morte aparece para levar Jenna. Em sua primeira aparição, ele aparece sobre o galho de uma árvore, “dedos dançam sobre a flauta de osso polido”.

Tanto seu aspecto quanto seus modos proporcionam um contraste interessante com a figura do cimério. Ele veste uma capa vermelha, botas altas também em vermelho e uma roupa amarela. suas frases são elaboradas, como “Uma idéia esplêndida, bárbaro”; “Já faz muito tempo que não ouço o clangor do aço”.

... um espadachim galante. 


É também a história mais humana das três, mostrando que até mesmo uma figura fantasmagórica a serviço de um deus da morte pode amar.

Matinta Perera

 


O estudioso Câmara Cascudo diz que o mito da Matinta Pereira se confunde com o do Saci. Seu nome na língua indígena era Matin-taperê, mas com o tempo foi aportuguesado para Matinta Pereira. Trata-se de uma mulher que se transforma em pássaro com um canto de mau agouro: “Aparece de noite nas vilas, cidades, povoados, atravessando o espaço com seu grito arrepiante. Os amazonenses e paraenses de hoje apontam velhas como possuindo o condão de mudar-se em Matintas. Ouvindo seu grito, os moradores prometem, em voz alta, fumo. Pela manhã uma velha mendiga aparece esmolando. É a Matinta, que vem cobrar a promessa”.
A Matinta foi a primeira lenda do norte com a qual tive contanto, logo que me mudei para Belém. Quando uma coruja piava, dizia-se que era a Matinta anunciando a morte de alguém.
A Matinta Pereira aparece no meu romance Cabanagem desenhada pelo talentoso paraense Andrei Miralha. O desenho é impressionante, mostrando-a como uma velha bruxa, em meio à floresta e à lua, seus cabelos e seu vestido esfarrapado confundindo-se com as folhas das árvores. 

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Capitão Açaí no equinócio

 

 

Capitão Açaí, criação do cartunista e quadrinista Ronaldo Rony, é um personagem símbolo de Macapá e tem sido protagonista de diversas publicações alternativas. Capitão Açaí no equinócio, lançada em setembro de 2023 é um bom exemplo do humor apurado de Rony.

Na história, uma notícia está se espalhando pela cidade: a de que naquele ano não haverá equinócio. Logo é acionado o Delegado Brocão (broca, na gíria nortista, é fome) e sua providência é chamar algum herói para resolver a situação. Mas o Tocha Humana recusa porque Macapá é quente demais, então o jeito é recorrer o Capitão Açaí.

O herói bebe açaí para ficar forte, mas, como consequência, dorme. 


Aqui entra uma piada recorrente de Ronaldo Rony: o herói, para ganhar força, bebe o açaí com farinha, mas o açaí lhe dá sono  e ele dorme – situação sintetizada pela famosa cena dele deitado na rede e roncando.

As piadas vão se sucedendo: para chegar à delegacia o herói pega um uber que é, na verdade, um caminhão de lixo. Para resolver a situação, ele recorre ao Lamparina Verde, que “traz luz à situação”. E o vilão que está por trás de toda essa história é o Potoqueiro Fantasma (potoca, no linguajar amazônida, é uma palavra que significa lorota, mentira).

A história é usada para explicar o que é o equinócio. 


No final, Ronaldo Rony consegue, em uma história divertida, explicar o que é o equinócio e ainda refletir sobre as fake News. Tudo isso em apenas 16 páginas.

Perry Rhodan – Aralon, o centro das epidemias

 


Nas primeiras histórias de Perry Rhodan, a terceira potência sempre enfrentava ameaças isoladas. Terminado aquele mini-ciclo a ameaça era debelada e muitas vezes não aparecia novamente.

Um aspecto interessante do volume 45, Aralon, o centro de epidemias é o fato de que a história une duas ameaças: os aras e os superpesados.

Nos números anteriores, Perry Rhodan descobrira que os aras, os médicos espaciais, tinham sido responsáveis pela peste da hipereuforia, que vitimara diversos de seus homens, incluindo o exército de mutantes. Aliás, Rhodan descobre que os aras vivem de espalhar doenças pelo universos, doenças para os quais apenas eles têm a cura.

Nesse volume em específico, ele envia o tenente Tiff para o planeta hopistal Aralon com a missão de descobrir se os aras de fato têm a cura para a hipereuforia. Para isso eles levam Thora como paciente.

Logo no início da história, Rhodan diz que conseguirá resolver a situação pela astúcia, mas não é o que acontece. No momento decisivo, ele usa a força de seus robôs e de sua nave Titã para resolver a situação. Isso leva os aras a pedirem socorro para seus parentes, os superpesados, personagens que tinham aparecido no ciclo anterior de aventuras. Embora a forma como o herói lide com isso seja através da diplomacia, a diplomacia só ocorre em decorrência da força da frota fornecida pelo computador regente.

A capa original alemã. 


Sendo um volume escrito por Clark Darlton, confesso que eu esperava mais um clima de espionagem e de fato astúcia. Faltou também o humor, que tanto caracteriza esse autor.

Mas o livro tem pelo menos um diálogo memorável.

Ao acordar e responder que não pretende casar com Tiff, Thora revela o disfarce do rapaz.

- A senhora acaba de pronunciar a sentença de morte do tal Tiff. – diz o ara.

- Como é seu nome? – pergunta Thora.

- Meu nome é Themos. Por que está interessada nisso?

Thora responde sem pestanejar:

- Porque neste instante acaba de ser pronunciada outra sentença de morte. Contra um certo ara chamado Themos. Asseguro-lhe que será executada dentro de vinte e quatro horas.