quarta-feira, setembro 09, 2026

São Francisco de Assis: o santo relutante

 


Francisco de Assis é um dos santos mais populares do catolicismo. Difícil uma cidade grande que não tenha uma igreja em sua homenagem. No Nordeste, por exemplo, ele batizou o principal rio da região e pintores de rua o reproduzem em telas, na frente dos turistas, da mesma forma que artesãos fazem versões em madeira ou barro para vender, sempre na posição famosa, com ele envolto por passarinhos. No entanto, apesar da popularidade, sua história real é pouco conhecida. Mesmo católicos mais fervorosos desconhecem sua biografia e, quando conhecem, ela está envolta em mitos.
Foi com o objetivo de remediar essa situação que Donald Spoto escreveu Francisco de Assis, o santo relutante, recentemente lançado em uma edição popular da coleção Ponto de Leitura. É uma grande chance de conhecer o lado humano de um homem cuja vida se mistura com lendas baseadas em “idéias românticas sobre a era dos castelos, cavaleiros andantes, damas medievais e honra cavalheiresca, elementos mais adequados às páginas dos manuscritos com iluminuras ou a filmes de Hollywood, mas que não correspondem à vida real”, escreve o autor.

Donald Spoto é PHD em teologia pela Universidade de Fordham e foi professor universitário de estudos religiosos, literatura bíblica e misticismo cristão. Escreveu 18 obras, entre elas as biografias de Alfred Hitchcock, Laurence Olivier e Ingrid Bergman.  
Ou seja, é alguém que transita entre dois pontos: o estudo da religiosidade e a tradição das biografias jornalísticas. Embora o livro penda mais para as modernas biografias, é a veia teológica do autor que cria os momentos mais díspares. Suas tentativas de explicar sob uma ótica católica fatos da vida de São Francisco são os momentos menos interessantes do livro e parecem não encaixar direito na proposta que o próprio autor faz desde as primeiras páginas da biografia.
Felizmente, esses momentos são exceção e na grande maioria das páginas, Spoto consegue aproximar Francisco daquilo que ele mesmo escreve na introdução do livro: o playboy de Assis que resolveu se tornar mendigo não é uma propriedade da Igreja Católica. Afinal, sua primeira grande biografia moderna foi escrita por um protestante Francês. Um dos mais importantes pesquisadores franciscanos foi um bispo anglicano. E, por último, o Dalai Lama, ao visitar Assis, fez questão de ser fotografado no lugar que Francisco mais amava.
Francisco, aliás, não era Francisco. Seu pai estava ausente, em viagem de negócios para a França quando o garoto nasceu e a mãe lhe deu o nome de João, em homenagem a São João Batista, o profeta que pregava no deserto vestido com pele de camelo e se alimentava de mel e gafanhotos. Quando chegou, o rico comerciante de tecidos Pedro Bernardone, ficou furioso. Não convinha que seu filho tivesse o nome de um ermitão pobre e, como não era possível anular o nome, o pai fez questão de que ele fosse conhecido como Francisco, palavra que significava francês e que conotava elegância, já que a França na época ditava moda para o mundo.
Esses dois extremos: a elegância dos ricos e a humildade dos pobres vão ser o pêndulo sobre o qual o jovem Franc isco irá se equilibrar por grande parte de sua vida.
A cidade em que o rapaz vivia era conhecida na Itália como Nova Babilônia, por ser um local de franca libertinagem, onde o sexo se misturava à violência. Garotos de famílias ricas vagavam pelas ruas criando desordem e Francisco foi um deles. A atividade sexual desregrada era regra para os meninos e a maioria das meninas não permanecia casta e monogâmica. O casamento era abençoado pela Igreja, mas o adultério era esperado pela sociedade. Com seus maridos viajando a negócios ou para as guerras, as esposas ficavam acessíveis a amigos e estranhos. A maioria o fazia de bom grado, mas as que se recusavam eram constantemente estupradas.

Embora não haja provas de que Francisco tenha vivido essa dissolução sexual, o autor explica que também não há provas de que ele tenha resistido a ela. Afinal, ele era um líder entre os playboys de Assis, sempre envolvido com ceias tardias nas praças da cidade e piqueniques que reuniam os elementos menos recomendados da cidade. Além de serenatas para moças casadoiras.
Seria importante para a vida de São Francisco o fato de que a Igreja Católica vivia uma crise moral. Muitos padres tinham amantes. Outros  só pensavam em dinheiro e poder.
Na festa de São Nicolau, que acontecia todo ano em Assis, uma criança era  vestida como bispo, levada para uma igreja e participava de uma cerimônia sacrílega. Padres lascivos e mulheres  seminuas se juntava à orgia. Algumas delas eram coroadas com guirlandas e vendidas por uma noite para quem pagasse mais. A cerimônia simbolizava bem o nível de decadência da imagem da igreja católica. E Francisco chegou a ser líder de algumas dessas festas.
Sua vida de alegria, mas vazia, mudou  num dia em que voltava de uma propriedade do pai e parou na pequena e decadente igreja de São Damião para descansar. Um crucifixo sobrevivera ao tempo e lá ainda estava Jesus, que falou com o futuro santo: “Francisco, não vês que minha casa está sendo destruída? Vai, então, e conserta-a para mim”.
O santo, que a partir dali tomaria tudo ao pé da letra (ao ler na Bíblia a passagem em que Jesus dizia que quem o seguisse deveria se livrar das sandálias, ele decidiu andar apenas descalço) se colocou a consertar a igreja. Mas logo ficaria claro que sua verdadeira função seria restaurar a igreja como um todo, não por palavras de reprovação (ele jamais repreendia os padres, por mais corruptos e lascivos que fossem), mas pelo exemplo.
Sua vida de dedicação total a Jesus e aos pobres e excluídos  (entre eles os leprosos) seria o modelo que faria muitos se converterem. Embora posteriormente o movimento franciscano lhe fosse tirado das mãos e muitas vezes se tornasse um meio para conseguir poder, sua herança positiva permanece até hoje.
Da mesma forma que na época de Francisco, hoje vivemos uma crise moral em que dinheiro e poder são mais os valores mais importantes da sociedade. E assim como naquela época , sua biografia pode apontar para um novo tipo de vida. O livrode Spoto é uma boa introdução ao assunto. 

O Fantasma – a série que mudou o personagem

 


No ano de 1989 a editora Globo lançou uma minissérie em quatro partes do Fantasma que se tornou célebre por uma série de razões. A primeira delas é que a partir daí o herói começou a ser publicado no Brasil na sua cor original, azul. Quando o personagem chegou aqui não havia referências de cor e os editores usaram vermelho, que dava menos problemas de impressão. Durante anos o Fantasma foi vermelho. Só a partir de 89 ele começou a usar as cores originais.

Mas as razões iam muito além disso. O roteiro ficou por conta do competente Peter David e os desenhos ficaram a cargo do veterano Joe Orlando e ecoava diretamente a revolucionária série Watchmen. Primeiro porque a história girava inteiramente ao redor de piratas. E Watchmen tinha um gibi dentro da história chamado Contos do Cargueiro Negro que, segundo os textos de Alan Moore, era desenhado por... Joe Orlando! Para aumentar ainda mais a conexão entre as obras, as ótimas capas de Orlando eram arte-finalizadas por Dave Gibbons, desenhista de Watchmen.

Joe Orlando, o desenhista da série, era também o desenhista da imaginária série sobre piratas em Watchmen. 


A narrativa também era revolucionária. Nela,o garoto Rex está lendo, escondido, os diários dos fantasmas, e se depara com as anotações do 14º Fantasma contando como seu pai, o 13º Fantasma, morreu. Enquanto isso, o fantasma que conhecemos, o 21º, enfrenta um grupo de piratas que são descentes daqueles que provocaram a morte de seu antepassado. A narrativa flui de maneira paralela, uma trama refletindo a outra. Era perfeito porque, embora a narrativa refletisse todas as experimentações narrativas da década de 1980, unia isso ao saudosismo.

A história gira em torno de duas tramas paralelas. 


O único problema dessa edição é que as legendas, que reproduzem as crônicas do Fantasma, foram produzidas em letras cursivas. No formatinho, ficou praticamente impossível de ler. É surpreendente que, com tantas republicações, nenhuma editora tenha pensado em publicar esse material no formato original.

A série unia saudosismo com iovações narrativas. 


Em tempo: eu tive o gibi na época, mas acabei perdendo numa das muitas mudanças. Só consegui novamente graças ao amigo Alan Yango, da Banca Planeta, em Belém.

Trent – El Chaval

 


Nas histórias de faroeste é comum os bandidos serem mostrados como malfeitores cruéis e desalmados. A segunda história da série Trent, de Rudolph e Leo, modifica totalmente esse paradigma ao mostrar um garoto que vive de roubos e, com apenas 17 anos já matou dez pessoas… mas é também um apaixonado por poesia.

A história começa com um assalto a um banco de uma pequena cidade efetuado por um garoto de 17 anos e uma menina de 16, sua namorada. Alertado, o xerife consegue matar a garota, mas o seu parceiro foge e Trent é destacado para prendê-lo.

A história começa com um assalto que dá errado. 


O que torna a história interessante é o dilema ético do policial e sua percepção de que o diabo não é tão ruim quanto lhe pintaram. O superior de Trent diz que o fugitivo dispara em tudo que se move, mas, conforme vai seguindo seu rastro, o policial descobre que ele deixou amigos pelo caminho e que a história não é tão preto no branco. Por exemplo, dois rapazes mortos por ele eram o terror da cidade onde moravam e o atormentaram até que ele aceitasse um duelo.

Se esse aspecto psicológico já não fosse interessante o suficiente, ainda temos um plot twist. Trent consegue pegar o fugitivo dormindo e algemá-lo. Mas quando saí para caçar, fugitivos de uma penitenciária chegam ao local e prendem Trent e o prisioneiro na mesma algema, tirando deles todos os pertences, inclusive as botas.

Émile deixa mortos, amigos e poesia por onde passa. 


Sensível e ao mesmo tempo empolgante, Trent é um dos melhores faroestes que já li. Pena que nenhuma editora brasileira se interessou em publicar por aqui. Mas para os que ficarem curiosos, é fácil achar scans.

A arte fenomenal de Watson Portela

 



Waton Portela é um dos mais importantes e festejados desenhistas de quadrinhos do Brasil. Nascido em Recife, em 1950, ele começou sua carreira na década de 1970 colaborando com tiras para o jornal Diário de Pernambuco. Em 1976 ele se mudou para o Rio de Janeiro e começou a longa colaboração com a editora Vecchi, para a qual desenhou histórias de terror e faroeste. Pouco depois começou a colaborar também com a editora Grafipar, de Curitiba. Seu traço, com forte influência de desenhistas franceses como Moebius, chamava a atenção dos leitores e fez com que se criasse um verdadeiro fã-clube. Um dos seus trabalhos mais conhecidos é a série Paralelas, com histórias curtas de ficção-científica. No final da década de 1980 foi contratado pela editora Abril para a qual fez várias revistas e muitas capas para revistas Marvel e DC publicadas por aquela editora.  








É cobra, te juro!

 


 
Quando Natália Muniz me disse que aceitava desenhar mais um conto do meu livro Mazagão, criei uma história especificamente pensando nela e na sua incrível capacidade para desenhar lendas amazônicas e mais especificamente a cobra grande.

Era um conto sobre dois irmãos que se odiavam. Era apenas uma história a mais, toda baseada numa ideia de ilustração, mas quando o escrevi e fui ler, tornou-se um dos meus contos prediletos na antologia.

A história é escrita como se fosse uma reportagem da revista Realidade, talvez a melhor revista jornalística já lançada no Brasil. Meu grande sonho sempre foi trabalhar na Realidade. Um sonho impossível, claro, uma vez que a revista acabou quando eu tinha apenas três anos.

Assim, “É cobra, te juro!”, foi, de certa forma, a realização de um sonho.  E acho que a narrativa se aproximou muito da mistura de literatura e jornalismo característico da Realidade. Pela junção desses dois fatores (a belíssima ilustração da Natália e a narrativa na forma de reportagem), esse é, provavelmente, o meu capítulo predileto em Mazagão.

Para adquirir um exemplar do livro Mazagão, mande um e-mail para profivancarlo@gmail

Thor contra o Cobra e Mister Hyde


Com as histórias de Thor fazendo cada vez mais sucesso na revista Journey into Mystery, o roteirista Stan Lee e o desenhista Jack Kirby precisavam criar situações que sustentassem a narrativa mês a mês. Como nem sempre era possível conceber um vilão inédito, na edição nº 105 eles resolveram trazer uma novidade: dois antagonistas em vez de um.

Na trama, o Cobra, ao fugir de Thor, invade o apartamento de Calvin Zabo no exato momento em que este se transformava em Mister Hyde. Ali, aplicou-se a mesma regra dos heróis: toda vez que dois vilões se encontram, eles precisam brigar. No entanto, a certa altura, percebem que têm um inimigo comum e decidem unir forças.

Os vilões começam brigando, mas logo resolvem unir forças. 


Hyde possui um mecanismo que pretende ser a perdição do Deus do Trovão. Quando apontado para alguém, o aparelho projeta o passado do personagem como se fosse um filme em retrocesso, o que mergulha o leitor em suspense: seria esse o meio pelo qual os vilões descobririam a identidade secreta do herói? Stan Lee resolve esse impasse de maneira astuta: o dispositivo cessa a exibição das imagens no momento em que Thor entra no consultório do Dr. Don Blake, uma vez que, ali, ele assume outra identidade.

Os vilões invadem o consultório e exigem que o médico convoque o Deus do Trovão. Aqui, os autores utilizam um recurso pouco verossímil que repetiriam diversas vezes: Blake se transforma apenas quando os vilões não estão olhando. Nessa cena específica, há um fator que complica ainda mais a situação, já que a enfermeira Jane Foster está presente. Seria possível que todos, inclusive ela, estivessem olhando para outro lugar simultaneamente?

O aparelho reconstitui os últimos passos do herói. 


Contudo, Lee e Kirby não dão tempo para o leitor refletir sobre essas incongruências. Logo tem início o "porradal", que se estende até um pavilhão de máquinas. Na época, havia a premissa de que Don Blake não poderia ficar afastado de seu martelo por mais de um minuto, limitação muito bem explorada na história: os vilões utilizam um robô para afastar a arma do herói que, entretido com a luta, não consegue resgatá-la a tempo.

Surge então, mais uma vez, o recurso do “ninguém está vendo”: Thor entra no meio da multidão e reverte à forma humana sem ser notado. Posteriormente, ele volta a se transformar no Deus do Trovão, novamente sem testemunhas. Um oculista faria fortuna nessa cidade!

Thor se transforma quando ninguém está olhando. Mais de uma vez. 


Stan Lee ainda abusa dos diálogos explicativos. Em certo momento, uma das pessoas presas no galpão alerta: “Olhe! Mr. Hyde conseguiu ligar o pulverizador! Ele pode gerar ar pressurizado suficiente para demolir uma parede!”, ao que o vilão completa: “O propósito desta máquina é expelir tinta suficiente para cobrir o prédio inteiro! Mas, concentrando o jato de ar, ela se torna uma arma poderosa!”.

Apesar desses problemas, o ritmo é tão frenético e o uso do suspense tão eficiente que a leitura se torna inebriante. Um ponto a se destacar é que Stan Lee deve ter percebido que essa trama era grandiosa demais para uma única edição, estendendo-a por dois volumes. Ao quebrar a regra de que cada história deveria ser autocontida, ele abriu caminho para a criação dos grandes clássicos que definiriam o personagem futuramente.

Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime

 


Em 2012 um assassinato chocou o país e chamou atenção de toda a imprensa. Marcos Matsunaga, um dos donos da empresa alimentícia Yoki desapareceu enquanto a família negociava a venda da empresa Yoki para uma multinacional. No começo suspeitou-se de sequestro, mas as investigações mudaram de rumo quando o corpo do empresário foi encontrado, desmembrado, numa mata. A partir daí, a esposa se tornou a principal suspeita.

Presa, Elize Matsunaga confessou o crime. Segundo Elize, Marcos havia sido morto durante uma discussão do casal após ela descobrir que ele tinha uma amante.  

Seu julgamento gerou um enorme interesse na mídia e no público e detalhes sobre a vida do casal foram aparecendo. Descobriu-se, por exemplo, que Elize era uma prostituta de luxo e que Marcos era frequentador assíduo de sites de prostituição, a ponto de ter um perfil fake no qual comentava os encontros e dava nota para as meninas. 

Em 2019 a diretora Eliza Capai conseguiu entrevistar Elize durante uma saída da prisão e assim surgiu o documentário Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime.

O documentário tem sido criticado por pesar a mão a favor de Elize, destacando o machismo e o sensacionalismo por trás do caso (de fato, casos semelhantes em que o assassino é um homem não ganharam tanta repercussão). Esse aspecto é percebido principalmente no terceiro capítulo, que nitidamente tem o objetivo de humanizar Elize.

O documentário é válido principalmente por revelar os meandros da investigação criminal e as estratégias da promotoria e da defesa (à certa altura o advogado de defesa chega a comemorar o sucesso de determinadas estratégias).

Independente de qualquer outra questão, o doc deixa mais perguntas do que respostas. Elize seria uma psicopata? Marcos também seria um psicopata? Os dois pareciam ter uma relação de cumplicidade inusitada. Tinham um verdadeiro arsenal em casa, com os mais variados tipos de armas. A diversão predileta do casal era caçar – e uma grande quantidade de cabeças de animais empalhadas são uma constante no documetário.

E tinham uma cobra. Uma cena, gravada por Elize, tendo Marcos ao lado, parece reveladora. Um ratinho branco é colocado no viveiro da cobra e o casal comenta enquanto a cobra se prepara para atacar. Ambos parecem extremamente frios e se divertem com a situação de desespero do rato. À certa altura, Elize se revolta com o fato do roedor ter se mijado de medo. De todo o documentário, talvez seja esse o trecho que melhor revele quem eram Marcos e Elize Matsunaga.

Em tempo: o documentário está disponível na Netflix.

terça-feira, setembro 08, 2026

Jornada nas estrelas – E as meninas, do que são feitas?

 


No episódio “E as meninas, do que são feitas?” a Enterprise está à procura do arqueólogo Dr. Roger Korby que parece ter desaparecido durante as escavações em um planeta extremamente gelado. Existe uma integrante da equipe particularmente interessada no assunto: a enfermeira Chapel, noiva de Korby. Quando finalmente conseguem comunicação com o mesmo são surpreendidos pela exigência do cientista de que apenas Kirk e sua noiva desçam ao planeta.

Indo contra as exigências, o capitão da Enterprise leva consigo dois seguranças, que, como todos os vermelhinhos, são mortos logo no início do episódio.

Durante o episódio, Kirk descobre que os habitantes do planeta se refugiaram em canais subterrâneas quando a superfície se tornou excessivamente gelada, e criaram para si androides que acabaram se revoltando contra eles. Korby aproveitou essa tecnologia para criar androides, entre eles uma jovem atraente (que, claro, troca beijos com Kirk).

O episódio é um dos muitos da série clássica que tratam da questão da humanidade e do que nos torna humanos, mas faz de forma confusa e sem brilho. O roteiro de Robert Bloch, autor do livro de Psicose, parece não saber onde quer chegar. O plano de Korby, por exemplo, tem um caminho tortuoso, que inclui a criação de uma réplica de Kirk aparentemente apenas com o objetivo de impressioná-lo.

O episódio vale mais pela atuação carismática de William Shatner, em especial na cena em que os dois Kirks conversam entre si.

Em tempo, o nome do episódio, “E as meninas do que são feitas?”, é uma referência a uma canção folclórica inglesa. 

Monstro do Pântano – Bicho Papão

 


Durante muito tempo, assassinos seriais eram mostrados de maneira equivocada nos quadrinhos. Geralmente no final da história eles se revelavam vítimas da sociedade, pessoas em busca de amor ou com boas razões para matar. Talvez a primeira vez em que um psicopata assassino foi mostrado de forma realista nos quadrinhos foi em Swamp Thing 44.

A história, escrita por Alan Moore e desenhada por Stephen Bissette e John Totleben, já se tornava memorável pela capa, com o protagonista andando na direção do leitor e ao fundo uma bandeira dos EUA na qual as listras vermelhas vão se tornando manchas de sangue. A imagem é provavelmente uma referência ao fato de que os EUA são a pátria de alguns dos mais famosos e mortais assassinos seriais de todos os tempos.

A história é contada do ponto de vista de um serial killer. 


A história começa num bar, onde dois homens conversam. “Me teste. Vamos lá, pense num número!”. O outro diz cinquenta e oito. “Cinquenta e oito. Vejamos... ela tinha olhos cinza esverdeados como umas bolinhas de gude que já tive, só com que pintas ocre junto da pupila”.

O leitor, logo perceberá que o autor da frase é um psicopata e cada número se refere a uma de suas vítimas, das quais ele se lembra dos olhos como uma espécie de troféu.

Batman faz uma constrangedora participação especial. 


Há uma jogada narrativa impressionante nessa HQ. De tempos em tempos vemos os olhos das vítimas entremeados à ação, mas nunca vemos os olhos do psicopata. A história toda é mostrada do ponto de vista dele. Normalmente a visão subjetiva é usada para criar uma empatia do leitor com o personagem, mas aqui funciona ao contário. Os olhos representam a humanidade. Ao não mostrarem os olhos do assassino, os autores o identificam como alguém frio, sem sentimentos.

O psicopata tira o homem do bar e o para o pântano, onde pretende mata-lo. Mas, logo depois do crime, ele se depara com o Monstro do Pântano.

Uma curiosidade dessa história é que Batman faz uma participação especial.

Imagens dos olhos das vítimas são entremeadas à trama principal. 


John Constantine está conversando com um desconhecido quando a dupla é inquirida pelo defensor de Gothan: “Aqui fora é perigoso. A maioria já se recolheu para um ambiente fechado”. “Sem problema, parceiro. Meu amigo aqui é de um de vocês. Já ouviu falar de Mento?”. Batman tenta se lembrar: “Espere. Seria aquele Mento ligado à Patrulha do Destino?”. “Isso mesmo. Mais exatamente sou casado com alguém da Patrulha. Você esteve no nosso casamento!”.

A cena é constrangedora. Batman despende-se de maneira desajeitada e sai correndo, como alguém que não consegue lidar com convenções sociais.

Perry Rhodan - 6 décadas de aventuras espaciais

 

A maior série de ficção científica do mundo. Trata-se de Perry Rhodan, uma space opera alemã que vem sendo publicada ininterruptamente desde 1961. No mundo todo já foram publicados mais de um bilhão de livros nas mais diversas línguas e há fã-clube espalhados por vários países, inclusive em alguns em que o personagem não é mais publicado. É um fenômeno poucas vezes observado na história da literatura de gênero. 

Perry Rhodan surgiu como uma reação à dominação norte-americana no campo da FC. No final da década de 1950, esse mercado era totalmente dominado por material vindo dos EUA e os alemães só conseguiam publicar sob pseudônimo. Foi quando dois autores, Karl-Herbert Scheer e Walter Ernsting (também conhecido pelo pseudônimo de Clark Darlton) apresentaram o projeto de um herói audaz à editora alemã Moewig, que topou publicar depois de algumas alterações. Para fazer a capa foi chamado Johnny Bruck, um dos mais famosos ilustradores alemães de ficção-científica. À equipe criativa juntaram-se mais dois escritores, Klaus Mahn (Kurt Mahr) e Winfried Scholz (que assinava W.W. Shols). Scher escreveu a sinopse dos 10 primeiros volumes e começaram a produzir. 




Para dar ideia de que a série era importada, o personagem principal era o astronauta americano Perry Rhodan. Em viagem à Lua, encontra uma nave de uma civilização super-desenvolvida, mas decadente, os arcônidas, e seus dois ocupantes. Voltando à Terra, ele usa a tecnologia alienígena para impedir uma guerra nuclear e funda a Terceira Potência, unindo a humanidade em torno de um ideal: a conquista do espaço.

Os autores acharam que a série ia fazer, no máximo, um sucesso relativo, e planejaram apenas 30 números. Mas Perry Rhodan vendeu tanto que os primeiros números foram rapidamente republicados e a série foi exportada outros países, inclusive no Brasil. Logo a quantidade de livros publicados era tão grande que ficou difícil explicar como uma pessoa normal vivia tantas aventuras. A solução foi tornar o protagonista praticamente imortal graças a um ativador celular (atualmente Perry Rhodan tem mais de 3 mil anos) e encher a trama de personagens secundários, muitos dos quais vivem aventuras solo. 


Para conseguir contar uma trama tão complexa e cheia de detalhes e personagens secundários, que abarca centenas de anos na história da humanidade, os autores desde o primeiro número fazem um planejamento detalhado. Um dos autores é nomeado líder e escreve um resumo de cada volume semanal por todo um ciclo (que pode durar 50 ou 100 livros). Esse resumo deverá ser seguido à risca pelo autor do volume. Assim, se uma nave parte com uma determinada tripulação em um volume, ela deverá ter a mesma tripulação no volume seguinte. Os livros também são revisados para encontrar incoerências. 

Muitos dos principais conceitos da FC e dos quadrinhos foram antecipados pela série. Os mutantes, por exemplo, já exibiam seus poderes em Perry Rhodan anos antes do surgimento dos X-men. Outra antecipação são os pós-bis, uma raça de robôs que pretendem destruir toda forma de vida orgânica, conceito muito semelhante aos borgs, vilões que surgiriam na série Jornada nas estrelas - nova geração, décadas depois. 

Apesar da enorme quantidade de livros publicados e de alguns escorregões, na média, os autores nunca deixaram cair a qualidade da série e houve momentos em que os livros chegavam a uma qualidade insuspeita para esse tipo de publicação. 



Exemplo disso é o número 52, O Pseudo, escrito por Clark Darlton. O livro é uma adaptação da peça O Inspetor Geral, do dramaturgo russo Nicolai Gógol. Gógol escreveu sua peça como uma crítica ao autoritarismo e à corrupção do Estado Czarista. Darlton atualizou a discussão, transpondo-a para um cenário futurista. 

Pelo menos um dos escritores é considerado um mestre da FC do porte de Isaac Assimov e Ray Bradbury: Willian Voltz. Dono de um estilo poético que lembra Bradbury, Voltz colocou humanismo e filosofia na série. O estilo Voltz ficou muito bem claro desde os primeiros livros desse autor na série. No volume 99, a história era pueril e maniqueísta: um dos arcônidas encontrados por Perry Rhodan na lua, Crest, vai para um planeta longínquo para passar os seus últimos dias, mas recebe a visita inconveniente de seres extraterrestres que querem se apoderar de sua nave, o ápice da tecnologia terrestre até então. Voltz transformou essa sinopse numa parábola sobre a amizade e a lealdade, recheada de poesia. 

Na fase em que liderou os escritores, a humanidade passou a questionar seu papel no universo, percebendo que a evolução espiritual era tão importante quanto a material. As histórias passaram a ser mais filosóficas e contemplativas, fugindo do militarismo da fase anterior. 

Os personagens, mesmo os vilões, começaram a questionar sua própria existência, fugindo do maniqueísmo. Nessa nova fase, mesmo os mais ferozes inimigos tinham motivos que justificavam sua suposta maldade. 



No Brasil a série foi publicada pela editora Tecnoprint S.A. a partir de 1975 e durou até o número 536. No início as histórias eram publicadas em formato livro de bolso pequeno, com borda branca. Posteriormente, o formato aumentou, com livros compridos e estreitos e a borda ficou preta. No início da década de oitenta, amparada por propagandas de TV, a série ganhou popularidade e as edições passaram a ser semanais. 

No início da década de 1990, a era Collor provocou uma crise sem precedentes no mercado editorial e o personagem não resistiu, deixando de ser publicado no número 536. 



Apesar de não ser mais publicada, a série continuou aglutinando fãs que se reuniam em torno de fanzines e tentavam articular a volta do personagem. Como o surgimento da internet, essa articulação foi para as redes sociais. Surgiu o Perry Rhodan Fã Clube do Brasil (PRFCB) e o fã-clube começou a negociar com grande editoras, ao mesmo tempo que organizava uma lista de possíveis assinantes. Embora essa lista aumentasse cada vez mais, nenhuma editora parecia se interessar. 

A solução surgiu de um fã, Rodrigo de Lelis, dono de uma pequena empresa de informática, a SSPG, voltada para a documentação eletrônica e editoração de publicações, que passou a publicar a série em volumes que incluíam duas histórias e vendidas através de assinaturas. 
Mais recentemente a editora tem lançado volumes únicos que podem ser comprados como e-book ou impressos. Clique aqui para acessar a loja da SSPG.

Thor contra o Homem-radioativo

 


No início da década de 1960 era muito comuns que os vilões da Marvel fossem ameaças comunistas, a exemplo do Homem-radioativo, surgido Journey into Mystery 93, de 1963.

Na história, Thor interfere na guerra entre a China e Índia e com isso provoca a fúria das autoridades chinesas, que convocam seus melhores cientistas e fazem um ultimato: “Vocês são os nossos maiores estrategistas militares e gênios científicos! Falem! Eu exijo que me deem soluções imediatas para nos livrarmos de Thor!”.

O curioso, nessa época, é que os vilões se diziam literalmente vilões: “Cedo ou tarde teremos que enfrentar a democracia!”.

O cientista ganha super-poderes ao se expor à radiação. Naquela época era muito fácil ganhar super-poderes.


Um dos cientistas resolve se bombardear com radiação, transformando-se no... Homem-radioativo!!!!!! (A justificativa para ele não ter sido torrado pela radiação é que ele vinha aumentando sua imunidade ao se expor continuamente à radiação, o que, ao invés de dar-lhe um câncer, tornou-o resiste!).

A história, com plot de Stan Lee, diálogos de Robert Bernstein e desenhos de Jack Kirby, é um primor daqueles tempos mais ingênuos. O vilão viaja a Nova York para derrotar Thor. Lá o deus do trovão descobre que seu martelo encantando é repelido pela radiação. Pior, o Homem-radioativo cria um redemoinho que hipnotiza o viking.

Um redemoinho de radiação que hipnotiza Thor? Santo roteirismo, Batman! 


Mas o vilão comete um erro: manda que Thor jogue longe seu martelo, mas ele joga longe demais. Enquanto o homem-radioativo vai procurar o mjorn, o herói volta a ser Don Blake.

Curiosamente, o vilão encontra com o médico logo depois da transformação e, claro, fala como um vilão, pois naquela época não bastava agir e pensar como vilão, também era necessário fazer discursos de vilão: “Você, seu verme insignificante... viu para onde foi Thor?”. Blake aponta uma direção qualquer e depois corre para seu consultório, onde fabrica uma máquina capaz de encontrar seu martelo. Mais uma coisa impressionante daquela época: todo herói da Marvel era um grande inventor e inventava coisas com a rapidez das necessidades do roteiro.

Don Blake inventa uma máquina para ajudar a achar o martelo. Tudo é possível quando o roteirista quer.


No final, depois de toda essa trama rocambolesca com um vilão aparentemente invencível, Thor resolve toda a situação em mera meia-página. O vilão invencível no final se revela esquecível.

Para piorar (ou melhorar, dependendo do ponto de vista), o desenho de Kirby não parece muito inspirado. O rei só pareceu voltar a ter interesse por Thor quando começou a ser publicada a série Contos de Asgard.