sábado, outubro 31, 2026

A arte saudosista de Norman Rocwell

 

Norman Rocwell foi o mais popular ilustrador norte-americano, em especial por causa das capas que fez para a revista The Saturday Evening Post durante mais de quatro décadas. Seus temas refletiam assuntos da época, como os direitos civis para os negros e a II Guerra Mundial, mas se destacavam principalmente pelos temas saudosistas. Em contraste com uma América que se industrializava e se tornava, aos poucos, a maior potência econômica do mundo, as imagens de Rocwell refletiam a pureza de outros tempos e a inocência das crianças. Quando morreu, milhares de pessoas compareceram ao seu funeral e sua casa foi transformada em museu, deixada exatamente como estava no dia de sua morte. Conheça o trabalho desse grande ilustrador e mergulhe em uma viagem repleta de saudosismo.
















Quase famosos

 


Um fenômeno comum nas bandas de rock eram as pessoas que acompanhavam as bandas em turnês, em especial garotas, fãs das bandas. Elas são o foco do filme Quase famosos, dirigido por Cameron Crowe e lançado em 2000.

A película acompanha a jornada de um garoto de 15 anos contratado pela Rolling Stones para fazer a cobertura de uma banda (a fictícia Stillwater) durante a turnês do grupo. Ele precisa lidar com várias situações, como a mãe superprotetora, a relação com os membros da banda, a descoberta da sexualidade e a paixão por uma das band girls, chamada de Penny Lane.

Esse mote parece pouco verossímil, afinal que revista contrataria um garoto de 15 anos para acompanhar uma turnê de um astros do rock? Mas isso de fato aconteceu com o diretor. Cameron Crowe tinha 15 anos quando começou a escrever para a Rolling Stones e de fato acompanhou a turnês de uma banda da qual era fã, a Led Zepellin.

O filme, então, ganha uma aura autobiográfica. Mas, por outro lado, isso parece ter deixado o diretor em uma situação confortável, fazendo com que a direção fosse comportada e pouco inovadora. Confesso que esperava algo muito mais revolucionário e dinâmico de um filme sobre uma turnê de uma banda de rock.

Há alguns ótimos momentos, como a viagem de avião em que todos acreditam que irão morrer e começam a contar confidências, e o filme no geral não decepciona, apesar de esteticamente comportado.

O roteiro parece ser a grande força por trás dessa obra. A relação do jovem jornalista com um dos vocalistas da banda e com a garota Penny Lane é muito bem desenvolvida, formando um curioso triângulo amoroso.

Homem-Aranha 2099 – O Início

 


Em 1992, a Marvel Comics resolveu lançar uma vertente ousada de seus personagens situando-os em um futuro sombrio, corporativo e tecnológico. Como carro-chefe dessa nova linha editorial, foi escolhido o herói mais popular da casa: o Homem-Aranha. Para o roteiro, a editora escalou Peter David, que vinha de uma aclamada fase à frente do Hulk e já havia assinado histórias marcantes do aracnídeo. Para os desenhos, o escolhido foi Rick Leonardi, muito conhecido dos leitores brasileiros pela cultuada minissérie Manto e Adaga. Na arte-final, a produção contava com Al Williamson, um dos grandes nomes históricos da lendária EC Comics.

A sequência inicial ambienta a história... 


Ou seja, tratava-se de um verdadeiro time dos sonhos que não decepcionou, como fica evidente logo na primeira história do título. A HQ já se inicia com uma sequência eletrizante na qual essa nova versão do herói é perseguida de forma implacável por autoridades em patrulhas aéreas. No mesmo cenário, garotos flutuam em um veículo civil sobre os arranha-céus da cidade. Um deles teme que sejam capturados, enquanto o outro retruca com deboche: “Os voadores nunca vêm tão alto. Eles não gostam dos ventos transversais. São um bando de covardes”. De repente, um dos jovens aponta para o horizonte e questiona: “Que pau é aquilo?”.

A imagem abre então em uma página dupla espetacular, com o protagonista em primeiro plano, sendo caçado por policiais em motos voadoras, sob os olhares atônitos e a admiração dos adolescentes.

... e mostra o personagem de forma espetacular. 


Um dos oficiais esbraveja na direção dos jovens: “Vocês aí, pirralhos no Sussurro 3000... deixem esta área imediatamente! Todos os veículos desse tipo são proibidos no centro da cidade! Seu registro foi anotado! Voltem para casa imediatamente, onde seu veículo será confiscado!”.

O trio de autores consegue, em apenas três páginas de introdução, criar uma imagem de forte impacto plástico, ambientar com precisão o novo universo (estabelecendo que carros e motos flutuantes são elementos corriqueiros daquela sociedade), caracterizar o vigilante como alguém caçado pelo sistema e, ao mesmo tempo, determinar que se trata de um futuro distópico.

Um recado na agenda informa o leitor que o protagonista é viciado em uma droga. 


Seguem-se mais quatro páginas de pura ação, nas quais o herói usa sua agilidade para driblar e subjugar os perseguidores, até que a narrativa finalmente nos conduz à identidade secreta por trás da máscara. Neste ponto, Peter David exibe novamente sua maestria narrativa. Em vez de recorrer ao clichê de interromper o ritmo para contar a origem do personagem por meio de um texto estático, ele cria um contexto orgânico. O herói desta realidade alternativa chama-se Miguel O’Hara, um jovem e brilhante cientista. Ao retornar ao seu apartamento após a caçada policial, um holograma doméstico em formato de uma bela mulher o recepciona e passa a reproduzir os recados recebidos. É a mensagem gravada de sua namorada que serve de gatilho para o flashback que detalha a origem do personagem.

Um recado da namorada é o gancho para o flasblack. 


Miguel trabalhava nos laboratórios de aprimoramento genético da poderosa megacorporação Alchemax. Após uma das cobaias humanas sofrer uma mutação grotesca e falecer, O’Hara decide formalmente abandonar o projeto. Para impedir a demissão do cientista e mantê-lo sob controle, o inescrupuloso dono da empresa o sabota, oferecendo-lhe um vinho batizado com uma droga sintética chamada Êxtase — uma substância altamente viciante cuja produção e distribuição são monopólio exclusivo da própria Alchemax. Desesperado para se livrar da dependência química forçada, Miguel invade os laboratórios e submete-se ao maquinário de recombinação genética que ele mesmo criara, abastecido com seu código biológico original e seguro. Contudo, um cientista rival altera os parâmetros do sistema na tentativa de assassiná-lo, misturando o DNA de Miguel com o código genético de uma aranha. O protagonista não apenas sobrevive ao atentado como emerge da cabine dotado de habilidades aracnídeas ampliadas.

Nessa realidade, Miguel O´Hara é um garoto prodiígio que pretende criar um novo Homem-Aranha.


O título Homem-Aranha 2099 mostrou-se revolucionário e disruptivo em diversos aspectos, destacando-se principalmente por abordar temas melindrosos e densos na época, como o narcotráfico corporativo e até mesmo a violência doméstica — retratada no momento em que Miguel, sob a terrível crise de abstinência e o efeito da droga, reage de forma agressiva contra a própria namorada. Essa coragem temática, aliada à excelência da equipe criativa, garantiu à revista o posto de publicação mais longeva e bem-sucedida de toda a linha Marvel 2099.

sexta-feira, outubro 30, 2026

Comandos em ação

 



As origens do desenho Comando em ação remontam ao ano de 1964, quando a Hasbro lançou um boneco articulado de um soldado, que fez grande sucesso com os garotos durante muito tempo – foi provavelmente o primeiro, senão o primeiro boneco destinado a esse público (antes só existiam bonecas para meninas).

Na década de 1970, a impopularidade da Guerra do Vietnã fez com que a Hasbro pensasse em um universo mais fantástico e ficcional, para distanciar o personagem das guerras reais. Nesse mesmo período a crise do Petróleo fez com que o preço do plástico se tornasse proibitivo para bonecos maiores. Assim, a empresa lançou uma linha de bonecos menores e contratou a Marvel para produzir histórias em quadrinhos com os personagens.

O escolhido para escrever a revista foi Larry Hama, que tinha sido militar e tinha uma ideia sobre um grupo de elite comandado por Nick Fury que combateria terroristas da Hidra. Só foi adaptar o projeto, mudando Hidra para Cobra (ideia de Archie Goodwin) e criar os novos personagens. Assim surgiu G.I. Joe: A Real American Hero. A revista fez um enorme sucesso, chegando a mais de 150 números.

A proposta era lançar também um desenho animado, que ficou sob responsabilidade da Marvel e da Sunbow, uma subsidiária da Sony.

Conhecido no Brasil como Comandos em Ação, o desenho contava com um time misto de personagens carismáticos lutando contra uma organização terrorista composta de vilões extravagantes, a começar pelo próprio líder, Cobra, um homem que jamais tirava a máscara, aparentemente por ter um rosto deformado, ou Destro (conseguem pensar num nome melhor para um vilão?), um homem com pele metálica.

O desenho conseguia superar as limitações, como a proibição de exibição de violência real (o que certamente era um problema num desenho desse tipo) com criatividade e bom humor, produzido episódios que conquistaram a garotada.

Um exemplo disso é o episódio “Luz, câmera, ação”, escrito por Buzz Dixon (que também chegou a escrever algumas histórias do gibi). Na trama, um estúdio está produzindo um filme sobre G.I. Joe, mas o diretor quer dar realismo para as cenas, de modo que chamam alguns dos combatentes do grupo para atuarem nas cenas. Ocorre que os produtores estão usando equipamentos do Comando Cobra confiscados, entre eles um avião que tem um mecanismo que permitira a localização do quartel general do vilão.

Assim, vários personagens do grupo Cobra se infiltram no filme, fazendo-se passar por atores com objetivo de recuperar o avião, o que gera uma verdadeira “comédia de erros”, já que os G.I. Joe não sabem que estão combatendo os verdadeiros vilões.

Em meio à muita pancadaria e tiroteios (nos quais ninguém nunca sai machucado), há cenas de humor, como quando um ataque real dos cobras é festejado pelo diretor como uma ótima cena de ação para seu filme para logo depois descobrir que todas as suas câmeras foram destruídas durante o ataque.

No total, a série teve quase 150 episódios, fora os filmes.  

Minha fama de mau

 


Minha fama de mau é o nome de uma das músicas mais emblemáticas de Erasmo Carlos. É também o título da cinebiografia do cantor, dirigida por Lui Farias, disponível na Netflix.

O início já deixa claro o tom do filme. Alguns amigos vão roubar canos de metal de uma casa abandonada e são pegos pela polícia. Quando estão sendo revistados, se deparam com uma festa onde jovens dançam ao som de rock. A sequência eletrizante inclui desde música da época até desenhos dos personagens. No grupo estavam dois nomes fundamentais para a música brasileira: Erasmo Carlos e Tim Maia.

Além de desenhos, o filme inclui a quebra da quarta parede, com o próprio Erasmo aparecendo diante das câmeras para comentar ou apresentar fatos de sua vida – o que aqui, só contribui para o clima geral de euforia da jovem guarda. Como é uma narrativa do próprio Erasmo, há uma condencedência óbvia. Tudo é visto como maravilhoso, como as lembranças de alguém que viveu seus momentos mais  felizes no ritmo do iê-iê-iê.

Há momentos curiosos, como a relação conflituosa e ao mesmo tempo harmoniosa com Tim Maia, que lhe ensina os três acordes com os quais ele compõe a maioria dos seus sucessos, ou quando ele vê a oportunidade de substituir Carlos Imperial na rádio e usa o espaço para fazer propaganda... de Erasmo Carlos.

A narrativa também inclui inserts do programa de rádio Mexericos da Candinha e uma entrevista em um programa de TV na qual nitidamente os entrevistadores são avessos à jovem guarda.

Chay Suede tem uma boa atuação como Erasmo, mas eu destacaria Gabriel Leone, que faz um Roberto Carlos muito mais simpático do que Roberto Carlos jamais foi. Como essa é uma narrativa feita pelo melhor amigo de Roberto, faz todo o sentido. Não é por acaso que o filme termine exatamente com a reconciliação dos dois após o ocaso da jovem guarda.

Embora seja um bom final, ele acaba deixando de fora uma das fases mais efervecentes do protagonista, a década de 1970.

Minha fama de mau pode não ser um retrato realista da jovem guarda, mas certamente é um filme divertido, com boas cenas musicais.

Entenda por que os comentários estão sendo moderados

 


 - Gian, entrei no seu blog e tentei comentar numa matéria, mas não ele não foi publicado imediatamente 

- Infelizmente eu tive que acionar a moderação de comentários. 

- Mas por quê? 
- Olha o tipo de comentário que os bolsominions estavam postando. 



- Caramba, são dezenas de comentários iguais o cara já começa te chamando de stalinista! 

- Pois é, virei um "extremista de esquerda stalinista"! 
- Caramba! 
- É o culto à personalidade. Como eles consideram o Bolsonaro um semi-deus, qualquer um que não o idolatre é imediatamente chamado de comunsita, petista, stalinista, dentista, skatista, surfista, remista. E pode colocar na conta vários outros "comunistas": Jim Starlin vira marxismo cultural, Raul Seixas vira marxismo cultural, Alan Moore vira marxismo cultural. E, para eles, comunista precisa ser preso ou morto. Para eles a Globo é comunista, a Folha de São Paulo é comunista, o Estadão é comunista. Esse tipo de gente só se informa pelo zap zap e por canais bolsonaristas como o Terça-livre. Qualquer coisa fora disso é comunismo. 
- O cara está te chamando de lulo-petralha?!!!



- Pois é, eu que nunca votei no PT, que sempre critiquei o PT, que na época da faculdade vivia em pé de guerra com os petistas da turma, de repente virei petralha só porque me recuso a idolatrar o mito. 
- E você praticamente nem fala de política no seu blog. 
- Pois é. Mas a estratégia deles é Dart Vader: ou você idolatra o Capitão ou é comunista, stalinista, petista, skatista, surfista, dentista, remista. Teve um "amigo" bolsominions que ameaçou me dar um soco só porque eu disse que político é para ser cobrado não para ser idolatrado. Outro disse que o pior tipo de "comunistas" são os "isentões": isentão aí significa alguém que se recusa a idolatrar o mito deles, mas ao mesmo tempo não idolatra o Lula, que se recusa a tecer elogios à ditadura militar, mas também não elogia a Coréia do norte. Antigamente para ser comunista precisava ser fã do Karl Marx, precisava ler o Manifesto Comunista, precisava acreditar em ditadura do proletariado. Hoje em dia, para ser comunista, basta não idolatrar o mito.
- Ele te acusa de cometer um gesto lulo-petista. Que gesto lulo-petista é esse?
- Me recusar a idolatrar o mito. Para quem escreveu esse comentário, qualquer um que não idolatre o mito está cometendo um gesto lulo-petista. Ou seja, na cabeça dele, está cometendo um crime. São pessoas que só se informam pelo zap zap e por vídeos de teoria da conspiração.
- Caramba, estou lendo aqui. O cara está ameaçando te denuncia... Te denunciar para quem? 
- Para os militres, provavelmente. 




- Estou vendo aqui. Ele te acusa de doutrinar os alunos. Fui seu aluno e você nunca falou de política em sala de aula. 
- Deve ser porque uso camisas da Marvel em sala de aula. Dizem que estou doutrinando os alunos a gostarem da Marvel. Nisso, confesso, sou culpado. Mas em minha defesa posso dizer que gosto da DC quando ela é desenhada pelo Garcia-Lopez.... rsrs... 
- Nossa, o cara diz que vai fazer você perder o emprego! Chega até a te chamar de estelionatário! 
- Só faltou dizer que vai me prender e  torturar pessoalmente para que eu confesse todos os meues crimes...kkkk Tudo isso porque eu me recuso a idolatrar o Capitão. E é esse pessoal que diz que é a favor da liberdade. A liberdade que eles querem é a liberdade de poder denunciar e prender quem pensa diferente deles. E como você pode ver, postaram essas ameaças dezenas de vezes no blog antes que eu bloqueasse os comentários. É por isso que não é mais possível comentar no meu blog. Infelizmente, tive que bloquear essa possibilidade de contato com meus leitores por causa desse tipo de comentário ameaçador.   
- Assustador, melhor manter os comentários do blog moderados mesmo.  
- Pois é. Melhor do que dar voz a gente desse naipe, que só se informa pelo zap zap e acredita em todas as teorias da conspiração possíveis. 

Dylan Dog – Percepções extrassensoriais

 


Dizem que, quando morre, uma pessoa rememora, em poucos minutos, todos os momentos mais importantes de sua vida. Esse é o mote da história Percepções extra-sensoriais, publicada no número 159 da edição italiana de Dylan Dog. Na história, um assassino em série mata para absorver essas memórias.

A sequência inicial é um ótimo exemplo de como o roteirista Pasquale Ruju e o desenhista Ugolino Cossu trabalham magistralmente o tema.

O assassino se alimenta das recordações das vítimas. 


Nela, um homem é morto com uma facada por um personagem misterioso, vestindo um capote, um chapéu e uma máscara com um desenho a la Picasso. O homem pergunta por que está sendo morto. É quando ouve uma voz de sua mãe chamando para o jantar. A sequência pula para o enterro da mãe. Então pula para a primeira relação sexual dele, depois para o primeiro emprego, depois da a esposa reclamando que ele pensa apenas no trabalho. Há uma estratégia aqui que liga todas essas sequências, como se elas estivessem acontecendo uma logo após a outra, apesar de nitidamente se passarem anos: a última palavra de uma sequência é a primeira da sequência anterior. Will agradece à mulher com a qual teve a primeira relação sexual. No quadro seguinte o dono da empresa que o contrata diz que ele não precisa agradecer pelo emprego, pois seu currículo é excelente. Will responde que tem certeza de que gostará do trabalho. A esposa diz: “Do que tem certeza, Will? Do fato de que continuará passando todos os dias e noites em seu maldito trabalho?”.

Estratégia narrativa: a última palavra de uma sequência é a primeira da seguinte. 


Dylan Dog se liga à trama quando conhece, num Museu, uma sensitiva surda, Clarice Anderson. Ela é uma das grandes atrações de um congresso de percepção extra-sensorial. O assassino do início da história está matando os convidados e as mortes parecem ter alguma relação com a moça, já que ele envia e-mails para ela com fotos dos assassinatos. Aliás, tudo indica que ela é seu principal alvo.

Assim, a HQ tem todos os elementos de uma história de DD, incluindo deliciosas sequências de Grouxo fazendo piadas. E prepare-se: a última página apresenta uma reviravolta realmente surpreendente.

De negativo apenas o uso da cor, que em muitos momentos parece desproporsitado. Os quadrinhos bonnelli são tradicionalmente preto e branco e nem sempre acertam quando resolvem fazer uso da cor.

Perry Rhodan – Forças desencadeadas

 

 Depois do fraquíssimo O preço do poder, a série Perry Rhodan precisava de um volume que voltasse a instigar o interesse dos fãs. E isso acontece no número 98.
Na história, Gucky está com saudades do planeta Vagabundo, sua terra natal, e resolve visitá-la. Só que, ao chegar ao local, descobre que uma raça desconhecida realizou algum tipo de experiência bizarra com o mesmo e, como consequência, o planeta está se aproximando do sol. Pior: aparentemente todos os ratos-castores adultos foram mortos e apenas alguns filhotes sobreviveram. Se a situação não fosse complicada o suficiente, uma aterrisagem desastrosa faz com que Gucky não consigo contato com Perry Rhodan, que poderia salvá-lo.

Essa trama vertiginosa é a base do livro Forças desencadeadas, escrito por Kurt Brand. Curiosamente, Brand é também o autor do livro anterior, um dos piores do segundo ciclo talvez da série inteira.

A capa original alemã. 


Kurt Brand se revela um escritor inspirado, com belas descrições de momentos: “Lágrimas lhe correram dos olhos quando as patinhas do animal se agarraram em seu pelo e sua cabeça se encostou nele. O pequeno rato-castor, de um momento para o outro, adormeceu, apesar da sede e da fome”.

O volume não explica quem eram os alienígenas ou quais eram suas intenções, deixando um gancho para volumes futuros.

Lendo Forças desencadeadas, a gente pensa: “É, talvez o problema de O preço do poder não fosse o escritor, mas Thomas Cardiff, um personagem tão ruim que arruinava tudo que tocava”. Pensando bem, esse devia ser seu poder mutante. 

Homem animal - A hora da fera

 



Uma das inovações de Grant Morrison no Homem-Animal foi trazer a política para o título. Não que outros roteiristas não abordassem o assunto na DC, mas era sempre de forma simbólica, não direta, como parábola. 

Morrison meteu o dedo na ferida ao abordar o apartheid sul africano no número 13 da revista. 

A história trata do bárbaro sistema separatista da África do Sul. 


Na trama, um jovem Negro tenta passar para um repórter um rolo com fotos dos abusos perpetrados pelo regime. Ele é pego e torturado e tudo leva a crer que será morto. 

Paralelo a isso, o Homem-Animal encontra no aeroporto o Fera Bwana, que lhe informa que passará o cargo para outra pessoa, escolhida através de um ritual. 

Sempre que soids heróis se encontram, eles brigam. 


A conversa entre os dois traz uma sequência interessante, na qual o roteirista crítica a regra Marvel importada pela DC segundo a qual sempre que dois heróis se encontram pela primeira vez, eles devem brigar.

Só o colo de uma virgem pode aplacar a ira de um unicónio. 


Morrison introduz na trama uma informação relacionada ao unicórnio: “Era uma fera indomável, o unicórnio”, conta o torturador. “Oh, parecia maravilhoso e inocente, mas aquele terrível corno foi feito para matar! A única coisa que podia aplacar o unicórnio era uma virgem! Uma moça imaculada! A fera deitaria a cabeça em seu corpo, iria entregar-se à sua proteção... e então, quando o unicórnio estivesse indefeso, caçadores atacariam!”. Essa citação, aparentemente aleatória, será a base do desfecho.  

Internauta cria perfil em homenagem ao livro Cabanagem, de Gian Danton

Walter Benjamim falava de duas dimensões na arte: a dimensão contemplativa e a dimensão tátil. Na dimensão contemplativa, o receptor é passivo e apenas contempla a obra. Na dimensão tátil, o receptor se sente compelido a participar, o que pode se converter num uso político da arte. Recentemente tive um exemplo disso ao me deparar com um perfil no Twitter com o nome do meu personagem Chico Patuá (na foto, eu e meu filho).

quinta-feira, outubro 29, 2026

X-men – A segunda gênese

 


Na metade da década de 1970 a Marvel resolveu dar mais uma chance para o grupo de mutantes, com uma nova formação composta por integrantes de vários países do mundo. Inicialmente a ideia era colocar heróis de países em que a Marvel vendia bem, mas ao longo do processo a ideia mudou e entraram personagens da África (tempestade) e até Rússia (Colossus).

Essa geração, que de fato levaria o título a se tornar um sucesso surgiria em 1975, em Giant-size X-men 1.

Len Wein, que era o editor a revista, escreveu o primeiro número, já pensando em entregar a bomba para um ex-estagiário da casa, Chris Claremont, e a história foi ilustrada por Dave Cockrum, responsável pelo visual dos novos personagens.

Na trama, os X-men originais vão até uma ilha em busca de um mutante descoberto pelo cérebro. Algo acontece e quando percebe, Cíclope está de volta ao jato. Ele volta para a escola e busca a ajuda do professor, que decide reunir o máximo de mutantes que conseguir para descobrir o que aconteceu com os X-men.

O início, com Noturno sendo perseguido, deixa claro o mote da nova série: os X-men serão párias da sociedade. 


A história começa exatamente com essa busca (as razões da busca são contadas em flash back) em uma sequência que certamente chamou a atenção dos leitores: Noturno sendo perseguido por uma turba que o considera um demônio. Já estava ali, naquela primeira sequência, uma das razões pelas quais essa nova formação se tornaria um sucesso: a ênfase no tema preconceito. O texto de Wein destaca essa esse aspecto. “São capazes de queimar a cidade inteira para me pegar!”, pensa o personagem. “E por quê? Só me aproximei deles para aprender... mas até agora só recebi lições de violência cega e gratuita!”.

Outro momento de destaque é a primeira aparição de Ororo. Africanos se aproximam de um portal e imploram ajuda. Mais uma vez, Wein mostra por que era considerado um dos melhores autores da década de 1970: “Em meio ao troar dos trovões e do lamento de ventos solitários... a deusa da tempestade aparece”.

A primeira aparição de Tempestade é um dos grandes momentos da história. 


Essa nova formação tinha problemas óbvios: Wolverine, Solaris e Pássaro Trovejante são praticamente o mesmo personagem, a ponto de até falarem de forma semelhante. Como uma decisão acertada, Claremont fará com que Solaris saia da equipe logo na segunda aventura e Pássaro Trovejante morre pouco depois, o que irá permitir que Wolverine ganhe destaque.

A trama é bem bolada: os X-men originais haviam sido aprisionado por uma ilha inteira, que, em decorrência de explosões atômicas, havia criado uma consciência coletiva e se alimentava de mutantes (razão pela qual Cíclope fora solto: o objetivo era fazer com que ele trouxesse mais “alimento”), mas, apesar de todo o brilho de seu texto, Wein nitidamente está preguiçoso. No auge da luta dos X-men contra a ilha viva, ele escreve: “Meras palavras não poderiam descrever a selvageria da batalha que se segue... por isso nem vamos tentar!”. Era óbvio que ele estava só cumprindo tabela e pretendia entregar o título para o iniciante Claremont o mais rápido possível.

Os mutantes enfrentam uma ilha viva. 


Ainda assim, foi um início promissor, que chamou atenção finalmente para os X-men. Posteriormente o amor de Chris Claremont pelos personagens faria com que as vendas aumentassem cada vez mais – até a entrada de John Byrne. Juntos, Claremont e Byrne transformariam os mutantes nos personagens mais populares da Marvel.

Um tempo: uma personagem que eu lamentei que Claremont tenha tirado do título é Polaris. Ela tinha um dos visuais mais bacanas de todos os X-men.