terça-feira, março 10, 2026

A estrada da noite

 

 A estrada da noite conta a história de um astro do rock (Jude) que, ao comprar o paletó de um morto, começa a ser perseguido por seu fantasma, que o culpa pelo suicídio da filha (uma ex-namorada de Jude). O título se refere tanto à morte quanto à fuga do personagem principal, que pega a estrada com Georgia, sua atual namorada, e seus cachorros.

Joe Hill é o pseudônimo do escritor Joseph Hillstrom King, filho do mestre do terror Stephen King. Faz sentido: o sobrenome King traz, inevitavelmente, comparações com o pai, o que pode comprometer a avaliação de um escritor iniciante. Mas, mesmo feitas essas comparações, Hill se sai bem. Seu estilo é um mistura do estilo do pai com o de outros autores, como Neil Gaiman. Ele inclusive cita Alan Moore na epígrafe.
Do pai, Hill herdou a capacidade de criar personagens com os quais o leitor simpatiza. No início, todos os personagens parecem marionetes, chavões: Jude é um roqueiro barra-pesada e grosseiro e Georgia é uma menina desmiolada e fútil. Conforme passam pelas atribulações do enredo, os personagens crescem, ou nós os conhecemos melhor, e aprendemos a gostar e a torcer por eles. 
Por outro lado, o autor mostra uma incrível habilidade para esticar a tensão e o suspense sem deixar que a linha se rompa. A forma como ele faz isso lembra mais Hitchock do que King.
Na comparação, Hill perde em um ponto: ao contrário do pai, ele não se preocupa em criar um clima para suas histórias antes de introduzir o fantástico. Em poucas páginas o primeiro ato acaba e os protagonistas já estão envolvidos no conflito. Em King, na página 10 você já gosta dos personagens, mas não sabe exatamente no que eles estão envolvidos. Com Hill é o contrário.
Por outro lado, o crescimento dos personagens é um ponto positivo. Numa visão mais metafórica, podemos dizer que os protagonistas estão sendo perseguidos não só pelo fantasma do paletó, mas por todos os fantasmas de seus passados.

Capitão América: o novo pacto

 


Ao ser perguntando sobre sua atuação na saga  O novo pacto na revista do Capitão América, o roteirista  John Ney Rieber declarou: “Eu falhei. Não vou dizer que totalmente, mas eu falhei... em vários níveis. Isso não quer dizer que não acredito que seja uma boa revista. No mínimo, a arte de Cassaday é maravilhosa”.
Essa é uma ótima definição a respeito da história que ocupou o número 27 da coleção de graphic novels Marvel da Salvat.
A história foi a estreia do sentinela da liberdade no selo Marvel Knights. O roteirista estava começando a escrever os primeiros argumentos quando aconteceram os ataques terroristas de 11 de setembro. Isso mudou toda a trama, que passou a focar em ataques terroristas. Poderia se transformar em algo interessante, mas o fato de ser escrito no calor da emoção fez com que se tornasse uma trama manca, que não se sustenta em pé.
Parece que o roteirista não pensou o plot como um todo, de modo coisas acontecem sem uma explicação palpável e sem uma costura.
A história vale principalmente pelas belíssimas sequências de ação. 


O Capitão América vai para um local e depois para o outro e o leitor não sabe porque.
Em determinado ponto, o vilão diz que plantou pistas que levaram o herói para Dresden, mas essas pistas não aparecem para o leitor.
No final, a história parece uma colagem de situações: o Capitão ajudando a salvar vítimas do atentado; o Capitão salvando um islâmico de um ataque de americanos; o Capitão salvando uma cidade ocupada por terroristas; o Capitão no meio de uma represa impedindo um atentado terrorista; o Capitão no avião jogando xadrez em uma metáfora que acaba não funcionando; o Capitão em Dresden fazendo sabe-se lá o que.
A revista acaba valendo principalmente por abrir caminho para outras abordagens mais adultas (em especial a fase de Ed Brubaker) e pelas ótimas sequências de ação de John Cassaday.

Jornada nas Estrelas: A cidade à beira da eternidade

 


Não é por acaso que A cidade à beira da eternidade é considerado por muitos o melhor episódio de Jornada nas Estrelas. É um daqueles exemplos de episódio em que tudo funciona, a começar pelo roteiro de Harlan Ellison.
Na história, McCoy recebe, acidentalmente, uma dose massiva de cordrazina, uma droga que provoca paranoia, e desce até um planeta inexplorado onde se encontra um portal temporal, chamado Guardião da Eternidade. Kirk, Spock e um grupo descem para procurá-lo. Enlouquecido pela dose excessiva do remédio, McCoy entra no portal, voltando no tempo. E isso muda completamente a história da humanidade, a ponto de Enterprise não existir mais. Assim, Kirk e Spock precisam voltar ao tempo e impedir essa mudança temporal.
Só por isso esse episódio já seria memorável. Ellison introduz um conceito que posteriormente seria conhecido como efeito borboleta (uma pequena mudança pode provocar grandes alterações), mas na época nem mesmo a ciência havia elaborado esse princípio. Justiça seja feita, Ray Bradbury já tinha lançado o conceito no conto "O som do trovão”, mas certamente esse episódio é pioneiro ao lançar o conceito numa série de TV. Além disso, o roteirista tem a inteligência de explicar exatamente como a morte de uma pessoa pode mudar toda a história da humanidade.
Mas Ellison acrescenta um elemento dramático: Spock descobre que para salvar o mundo como o conhecem, precisam evitar que McCoy salve uma assistente social pela qual Kirk se apaixona ao longo do episódio. Isso introduz um elemento emocional e um dilema ético que elevam o drama do episódio a um nível dramático poucas vezes visto na série. Dificil não se emocionar.
Uma curiosidade é que a assistente social, que ajuda necessitados na época da crise de 1930, em determinado momento faz uma exortação aos necessitados enquanto eles comem a sopa. Pela lógica, espera-se que ela faça um discurso religioso, mas seu discurso é uma utopia científica e tecnológica, em consonância com a ideologia de Jornada nas Estrelas.

Não existe pré-projeto de pesquisa

 


A palavra projeto vem do latim “projectu”, que significa lançar para a frente. Ou seja, é algo que ainda não existe, é algo que está sendo projetado, que só existirá concretamente no futuro.
Em ciência, projeto significa um planejamento da pesquisa, com tema, delimitação, problema, hipótese, metodologia etc. O futuro do projeto dará origema algo pronto, seja um artigo, uma monografia, uma dissertação de mestrado, uma tese.
No entanto, de uns tempos para cá tornou-se comum usar a expressão ‘pré-projeto” de pesquisa. Como é necessário nomear o projeto final, passaram a usar projeto para o resultado da pesquisa. Assim, a monografia vira um projeto, subvertendo completamente o sentido da palavra “projeto”. Se está pronto, não pode ser projeto.
A situação é tão bizarra que dia desses um amigo arquiteto disse que ia me mostrar o projeto de um prédio. Achei que fosse uma maquete, ou uma planta baixa. Cheguei lá era o prédio pronto.
Provavelmente, em algum momento alguém leu um projeto de pesquisa e comentou que estava tão ruim que não era nem um projeto, mas um pré-projeto, ou seja um esboço. Alguém ouviu, achou a palavra bonita e pensou que fosse um elogio. E aí começou a confusão de se chamar o produto final de projeto e o que vem antes de “pré-projeto”.
Então, crianças: não existe pré-projeto. Se ainda não está pronto, se é apenas um planejamento, é projeto. E o produto final é o produto final, não um projeto, seja uma monografia, uma dissertação ou um edifício. 

Roteiro de quadrinhos: a construção de personagens

 


A construção de personagens tem sido tema de teóricos teatrais, cinematográficos, etc... sem que se chegue a uma conclusão decisiva. De modo que não pretendo dar a última palavra sobre o assunto. Longe de mim. Mas posso dar alguma dicas.
                A primeira delas é aprender a observar as pessoas. Da mesma forma que um desenhista precisa precisa ver um anão para desenhar um anão, um roteirista precisa conhecer e entender um neurótico para poder escrever sobre um personagem neurótico.
                Há um exercício muito útil : observar as pessoas no ônibus. Escolha uma pessoa e comece a observá-la, dando uma de Sherlock Holmes. Através da aparência externa, tente descobrir quem é aquela pessoa, como ela pensa, de onde vem... 
                Por exemplo, se, de noite, você encontra no ônibus uma  garota muito bem vestida, é provável que ela esteja indo para uma festa. Se ela estiver levando cadernos ou uma bolsa grande, essa teoria estará furada, pois pessoas normais não costumam levar cadernos para festas. Pelo tipo de roupa é possível imaginar para que festa ela está indo. Se ela olhar insistentemente no relógio, é provável que a tal festa signifique muito para ela. É provável que nessa festa esteja alguém importante. Um ex-namorado do qual ela ainda gosta, por exemplo. Ela sabe que a festa será uma grande chance para a reconciliação e por isso se sente ansiosa...
                Você pode compor todo um perfil psicológico baseado  nessas especulações. Essa  garota poderá ficar numa espécie de "arquivo mental" para ser usada posteriormente em uma história.
                Outra grande dica é pesquisar livros de linguagem corporal. Na maioria das vezes o corpo fala mais do que as palavras. O escritor policial Dashiel Hammett era um especialista no assunto. Suas descrições detalhadas dos gestos dos personagens muitas vezes indicavam ligações insuspeitas entre estes  que iriam influenciar no final da história...
                Um exemplo quadrinístico. Quem tiver conhecimentos mínimos de linguagem corporal vai percerber que o personagem Rorschach, de Watchmen, é um homossexual e nutre uma paixão platônica pelo amigo Nite Owl.
                Ainda sobre a criação de personagens, é importante ter em mente o que ele significa, o que ele representa. Batman é um homem obcecado pela idéia de ordem. "O mundo só faz sentido se você o força a ter", ele diz em Cavaleiro das Trevas. Batman é o protetor de Gothan e, para cumprir a missão que ele mesmo se incubiu, vale qualquer coisa, até mesmo recrutar uma criança (no caso, o Robin).

                A história Para um Homem que Tem Tudo é um interessante estudo de personagem. Nela, descobrimos que o maior sonho de Super-homem é que Kripton não tivesse sido destruído. O maior sonho de Batman é que seus pais não tivessem morrido. Portanto, se seus sonhos tivessem se realizado, eles jamais seriam super-heróis. Super-homem sente-se um alienígena em nosso planeta, um órfão completo. Já Bruce Waine talvez se sinta culpado pela morte dos pais. Moore expõe sua opinião de que só pessoas neuróticas e infelizes se tornariam super-heróis.
                Os personagens normalmente podem ser divididos em categorias, de acordo com o grau de importância dos mesmos na trama. Assim, temos:

                Protagonista – é o personagem principal, aquele que o leitor irá acompanhar. A história será vista do ponto de vista do protagonista.

                Antagonista – é o vilão, muito comum em histórias de super-heróis e filmes.

                Personagens secundários – são aqueles personagens que convivem com o protagonista e com o protagonista. Boas histórias costumam ter personagens secundários bem desenvolvidos, com uma personalidade e uma história de vida.
                Personagem bucha-de-canhão – essa categoria é uma brincadeira feita entre roteiristas e se refere àqueles personagens que não têm importância nenhuma na trama. Eles surgem na história só para dar o gancho de alguma situação. Pode ser, por exemplo, o assaltante que rouba o dinheiro do protagonista, fazendo com que ele caia numa maré de azar que será o tempero da trama.
                Do ponto de vista da personalidade, os personagens podem ser divididos em:

                Personagem unidimensional – é o personagem que tem uma dimensão, uma só característica que domina seu comportamento. Por exemplo, a Magali é comilona, o Cascão é sujo, a Mônica é brava. No começo dos quadrinhos de super-heróis a maioria dos personagens eram unidimensionais. Na década de 1990, na era Image, também predominaram personagens unidimensionais.

                Personagem bidimensional – são personagens mais elaborados. Nos quadrinhos de super-heróis, um grande responsável por tornar mais bidimensionais os heróis foi Stan Lee. Seus heróis sempre tinham um pé de barro, algo que os fazia mais humanos. Assim, Thor é um ser extremamente poderoso, mas também é Don Blake, um médico aleijado; Demolidor é o homem sem medo, mas também é cego; Homem de ferro é invencível, mas sofre com problemas no coração; o Hulk é um herói, mas também é um monstro incontrolável e irracional.

                Personagem tridimensional – São personagens muito parecidos com pessoas normais, que têm uma personalidade complexa e não podem ser definidos apenas por uma ou duas características. Personagens tridimensionais têm motivações inconscientes, e estudar um pouco de psicologia ajuda a criá-los. Frank Miller, por exemplo, transformou o Demolidor em um personagem tridimensional. Ele acrescentou mais uma camada ao herói ao mostrar que, além de corajoso e cego, ele também tinha ódio do pai por este tê-lo obrigado a estudar ao invés de seguir a carreira de lutador.

segunda-feira, março 09, 2026

Azazel: cuidado com o que deseja

 


Azazel é uma coletânea de contos de fantasia de Isaac Asimov sobre um homem que encontra um demônio ancestral e o usa para resolver situações. Para quem está acostumado com o Asimov escritor de ficção científica, essa coletânea irá surpreender. O autor mostra que sabe lidar com o humor como poucos.
Todas as histórias são narradas por George Bimnut, um falastrão metido a esperto, que as conta diretamente para Asimov, enquanto se aproveita do escritor, fazendo-o pagar a conta do almoço.
Há uma estrutura básica nos contos: George percebe uma situação em que algo precisa ser resolvido e faz uso do demônio, que resolve a situação a seu jeito – com resultados sempre catastróficos.
A obra pode ser resumida a um lema, que resume perfeitamente seu conteúdo: cuidado com o que deseja. Seu desejo pode sair do controle.

Uma visita com o Quarteto Fantástico

 

 

No início da década de 1960, Stan Lee e Jack Kirby pareciam dispostos a transformar Fantastic Four no título mais revolucionário do mercado norte-americano. A cada número a dupla se superava, mas poucas vezes eles saíram tanto da curva quanto no número 11 da revista.

A primeira história da edição tem uma trama que gira toda em torno das cartas recebidas pela família de heróis!


Muitas cartas para o Quarteto Fantástico. 


A história começa com um grupo de pessoas fazendo fila na frente de uma loja. Uma pessoa pergunta o motivo. “Se liga, meu chapa! Hoje é o do em que o gibi do Quarteto Fantástico sai!”.  

Lá atrás aparece o verdadeiro quarteto, que resolve deixar para comprar o número mais recente depois diante da aglomeração. Era Stan Lee numa estratégia descarada de marketing.

A primeira pegadinha da gangue da rua Yancy.

O grupo pouco depois encontra o carteiro Lumpkin, em sua primeira aparição na série. Ele traz um verdadeiro saco repleto de correspondência para os heróis. Correspondência que inclui uma pegadinha com o Coisa, na primeira referência à gangue da rua Yancy.

Stan Lee aproveita para responder cartas de alguns leitores, que queriam a Mulher Invisível fora da equipe. “Vários leitores disseram que eu não colaboro muito... que vocês estariam... melhor sem mim!”, diz a heroína, refletindo sobre as cartas reais recebidas pela Marvel. Stan Lee usa o Senhor Fantástico para expressar sua opinião sobre a importância das mulheres e sobre como Sue salvou o grupo várias vezes.

Os leitores não gostam de Sue. 


A segunda parte da revista é menos inspirada. Focada num alienígena capaz de mudar de forma, a história parece só mais uma das muitas que eram publicadas na década de 1960, inclusive pela DC.

Blueberry – O homem do punho de aço

 


O oitavo álbum da série Blueberry é um dos melhores que tive a oportunidade de ler do personagem.

Na trama, sabotadores conseguiram provocar uma guerra indígena, paralisando o trabalho da Union Pacific, que está construindo a ferrovia na direção do oeste para o leste. Pior: o posto pode ser a qualquer momento atacado.

Guffie é uma personagem carismática. 


É nesse ponto que o roteirista Charlier introduz uma personagem carismática a ponto de rivalizar com o garimpeiro Jim McLure: Guffie, a dona de uma trupe teatral que percorre o oeste se apresentando. O primeiro encontro entre os dois, aliás, já é memorável.

“O que foi, mocinho?! Não conhece a grande e incomparável Guffie Palmer, cujo charme só se equipara ao próprio talento?! Diretora da mais célebre trupe teatral entre Nova York e Frisco?”, diz ela.

“Ah, é? E onde está essa dama?”, pergunta McLure, pouco antes de ser golpeado nos fundilhos com uma bolsa de mão.

Jethro monta uma armadilha para a locomotiva. 


Guffie quer sair do acampamento, se aventurado no meio dos índios e consegue. Blueberry é enviado atrás dela, mas sua verdadeira missão é enviar uma mensagem pendindo um carregamento de viveres, munição e dinheiro para pagar os trabalhadores.

Mas, graças a Guffie, o vilão Jethro Stellfingers fica sabendo do comboio e monta uma armadilha, o que gera uma das sequências mais arrebatadoras que já tive oportunidade de ler em uma história em quadrinhos.

O trem fica paralisado no meio de uma ponte, sem poder seguir em frente ou voltar. 


A locomotiva fica presa sobre uma ponte destruída, impossibilitada de seguir em frente ou mesmo voltar atrás em uma situação em que a única saída possível parece ser a morte. No entanto, Blueberry e seus amigos não só conseguem se salvar como ainda frustam os planos do vilão ao explodir o vagão de munição e fugir com o dinheiro – e tudo isso é feito maneira tão verossímil que o leitor pensa que não poderia acontecer de outra forma.

A sequência é tão eletrizante da locomotiva que até hoje me pergunto como ninguém teve a ideia de transformá-la em um filme.

Bom desenvolvimento de personagens, ação empolgante e um roteiro que prima pela verossimilhança, O homem do punho de aço é uma daquelas histórias que você não consegue soltar antes de ler a última página. 

A forma da água

 


Guilhermo del Toro é um cineasta famoso por filmes de fantasia, com uso intensivo de efeitos especiais (a exemplo de Hell Boy). Embora sempre tenha feito um sucesso relativo, em especial entre os fãs do gênero, nunca o vimos arrebatando prêmios, como no caso de A forma da água, sua mais recente película.
Por um lado, o óscar de melhor filme mostra que a academia está mais aberta a esse tipo de obra. Por outro lado, mostra uma evolução do diretor: A forma da água é muito mais que um filme de fantasia com ótimo uso de efeitos especiais. É uma fábula muito bem construída em que diversos elementos – da fotografia à trilha sonora.
Na história acompanhamos a rotina solitária de uma faxineira muda que trabalha em um laboratório do governo. Tudo muda com a chegada de uma criatura capturada no rio Amazonas, um ser meio homem – meio peixe, que era considerado um deus pelos indígenas. Em plena guerra fria, a criatura passa a ser disputada pelos dois lados do conflito – seu pulmão capaz de respirar na água e na superfície pode ser fundamental na corrida espacial. A trama gira em torno da relação da faxineira com a criatura e a inusitada história de amor que surge desse encontro.
A Forma da água é uma história sobre desajustados, seres que vivem à margem da sociedade. A história da criatura incompreendida e da faxineira muda são uma metáfora de outros excluídos (no filme há referências diretas aos negros e gays, ambos vítimas de forte preconceito, em uma época em que uma pessoa podia perder o emprego apenas por descobrirem que ela era homossexual).
Em suma: um filme bonito, sensível (que lembra, por exemplo, Edward Mãos de tesoura), em que tudo se encaixa inclusive nos pequenos detalhes, como na gelatinha verde servida pela esposa ao chefe de segurança.
Pena que uma história tão bem construída tenha uma falha de roteiro tão gritante: a criatura foi capturada no rio Amazonas, portanto em um rio de águas doces, distante centenas de quilômetros do mar – mas na história precisa ficar imerso em água salgada para não morrer.

A arte fantástica de Cláudio Dutra

 


Nascido em 1969, em Anápolis, Goiás, Cláudio Dutra é um professor, quadrinista e a artista plástico. Fortemente influenciado por artistas espanhóis, como Esteban Maroto ele se destaca pelo domínio técnico e pela estética detalhista., Entre os seus trabalhos mais conhecidos estão quadrinhos e capas para revistas como Spektro, Metal Fantasia, Calafrio, Adriana – a agente laranja, Mestres do Terror, entre outras.














domingo, março 08, 2026

Somos todos canibais

 

A figura acima é o quadro Abapuru, obra de Tarsila de Amaral pintada como presente para seu esposo Oswadl de Andade. Abapuru significa "home comedor de gente", em tupi. A imagem levou Oswald a escrever o famoso Manifesto Antropofágico. 
Os dois - quadro e manifesto - eram uma resposta a uma questão antiga, que até hoje ainda gera debates: o que é a cultura brasileira?
Vale lembrar que o manifesto, e de certa forma o modernismo, surge em protesto contra a arte acadêmica, certinha, neo-clássica.

Aqui entra um parêntese. 
A origem dessa arte era a missão francesa, um grupo de artistas que chegou ao Brasil a convite de D. João VI para ensinar a arte aos brasileiros e trazer as novidades da Europa para nosso país. O discurso era de que o que se fazia no Brasil até então (o barroco de Aleijadinho, como exemplo) não era arte verdadeira. O episódio colocou na cabeça do brasileiro a ideia de que "o que é bom vem lá de fora", que ainda hoje domina a mentalidade local.
Fecha parênteses.
A antropofagia fazia uma referência aos índios canibais que haviam devorado o bispo português Sardinha quando o navio deste afundou na costa brasileira. Para Oswald o episódio mostrava a nossa principal característica: nós deveoramos a cultura que vem de fora, mas não de forma passiva. Nós a transformamos em outra coisa. As festas juninas, por exemplo, foram criadas a partir dos bailes europeus, mas em nosso país se transformaram em outra coisa.
Abaixo algumas frase do manifesto antropofágico:
"Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará"
"Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade"
"Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago"

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.

Buddy longway – Chinook

 


As histórias de faroeste normalmente são centradas em um protagonista solteiro quase infalível por sua mira e suas habilidades físicas e intelectuais. A série buddy longway, criada pelo suíço Derib, diferencia-se muito desse modelo. 

Para começar, o personagem é casado e tanto ele quanto a esposa e os filhos parecem ter muita importância nas tramas a ponto do título da série não fazer muito sentido, já que toda a família parece ser protagonista. Segundo, Buddy é um homem comum, sem grandes habilidades. Aliás, a ideia do suíço Deribe era justamente fugir do modelo dos heróis invencíveis, como Lucky Luke, Blueberry ou Jerry spring (para ficar apenas nos quadrinhos franco belgas). 

Buddy salva uma indígena. 


O primeiro álbum, Chinook, acompanhamos o caçador e sua viagem para um forte onde irá vender peles de animais. Mas ao chegar ao local se depara com dois homens perseguindo uma mulher indígena. Indignado, Buddy consegue fugir com ela para descobrir que a mulher tinha sido sequestrada da tribo Sioux e levada como escrava. Ele promete levá-la de volta à sua tribo. Mas essa jornada é interrompida por dois revezes.

No primeiro deles, os dois captores conseguem interceptar o casal. Aliás, é nessa sequência que percebemos como Buddy é um herói realista. A maioria dos cowboys dos quadrinhos, mesmo estando em inferioridade numérica conseguiria facilmente vencer os opositores. Buddy leva uma surra. 

Buddy não é um herói invencível. 


O segundo contratempo é uma tribo rival dos Sioux, que aprisiona os dois. 

Eles conseguem vencer as adversidades e chegar ao seu local de destino, mas essa jornada faz Buddy perceber que ama Chinook, de modo que os dois acabam juntos.

Derib não elabora tramas complexas ou sequência lá de tirar o fôlego, como Charlier em Blueberry, ou desenhos super elaborados, como de Giraud no mesmo Blueberry, mas constrói uma narrativa deliciosa, envolvente. A indígena Chinook ganha protagonismo desde o início e o leitor logo percebe que ela não é apenas uma mulher a ser salva pelo herói. Buddy também se mostra carismático em sua visão simples e humilde. Nas sequências entre os indígenas, por exemplo ele não é alguém que ensina, mas principalmente alguém que aprende. 

O casal se apaixona. 


Ao ler percebemos que esse é um faroeste para os anos 70. 

Esse álbum foi lançado em Portugal pela Bertrand e chegou a várias livrarias do Brasil. Atualmente deve estar disponível apenas em sebos. É uma pena que com esse revival de material europeu ninguém tenha pensado em lançar esses álbuns no Brasil.