segunda-feira, junho 01, 2026

Perry Rhodan – Os mortos vivem

 


No número 55 da série Perry Rhodan, o telepata Fellmer Lloyd descobrira que dois mutantes terranos haviam se rebelado contra o império solar e se aliado a saltadores. Se revelassem a posição da Terra, o perigo seria extremo. Para piorar, os dois traidores ainda sequestram Thora.

No número 56, Rhodan vai pessoalmente ao planeta Volat acompanhado de Gucky para resolver o problema.

Um outro resenhista já destacou um dos problemas do volume: Thora, até então uma personagem forte e dominante, torna-se nesse volume apenas a donzela a ser salva. O pior, nesse caso, é que o sequestro de Thora não influencia em nada na trama, só acrescenta uma missão romântica para o herói, que, com isso, deve não apenas salvar a humanidade, mas também sua amada.

A capa original alemã. 


O volume tem outros problemas, algumas coinscidências oportunas que se aproximam de verdadeiros deus ex machinas. E isso acontece tanto no sentido de ajudar Rhodan (incrível como o que era tão difícil antes dele chegar se torna tão fácil depois), como outras que jogam contra o personagem. À certa altura, do nada, um saltador do passado, abre uma porta e vê Rhodan e o identifica, o que fará com que o computador regente de Árcon seja avisado que a Terra e seu representante não estão mortos (daí o título do volume, Os mortos vivem). É coincidência demais, num universo tão vasto, com milhares de estrelas povoadas, uma das poucas pessoas que conhecem Rhodan abrir uma porta por engano e descobri-lo. É algo conveniente demais para o roteiro, já que o planejamento indicava que a partir do número 56 o computador já deveria saber da existência da Terra.

Por seus problemas, esse seria um livro menor, não fosse ele escrito por Clark Darlton, um dos melhores autores da série. Seu estilo sóbrio, com frases curtas e alguns toques de humor, fazem toda a diferença.

À certa altura, por exemplo, o administrador de Volat descobre que uma frota está vindo de Árcon para supostamente sufocar uma rebelião no planeta – rebelião que ele não tem a menor ideia de qual seja. O texto:

“A tela apagou-se.

Subitamente Mansrin viu-se só.

Nunca estiver tão só em toda a sua vida”

Em outro trecho, o texto descreve um homem isolado no alto de uma montanha sem poder escapar. Com poucas frases, Darlton consegue expressar todo o seu sentimento de solidão: “Quando olhava para o céu, tinha a impressão de estar sozinho no mundo. Em torno havia apenas o nada e o sopro morno do vento”.

São trechos como esse que fazem esse livro uma ótima leitura.  

A fantástica queda do Lanterna Verde

 

  

No número 5 da coleção Os clássicos da década a editora Ebal publicou uma história no mínimo inusitada com os personagens da DC. A trama começa com Clark Kent e Mirian Lane (essa era a forma como Lois Lane era chamada na Ebal) recebendo um prêmio por sua atuação como jornalistas quando o local é invadido por alguém em queda. Trata-se do herói Lanterna Verde. Antes de desmaiar, ele entrega seu anel a Clark Kent, o que gera uma situação inusitada em que o Super Homem passa a ter também os poderes do Lanterna.

A razão de toda essa confusão é uma vilã chamada Safira, que é também Carol Ferris, interesse romântico de Hall Jordan.

Safira tem umas noções meio estranhas de amor. 


Safira quer o amor do herói, mesmo que para isso precise dar-lhe uma surra.

Escrita por Paul levitz e desenhada por Curt Swan essa história, publicada em DC Comics Presents 6, é na verdade uma preparação para a verdadeira trama, de invasão espacial, publicada no número 7, ainda com roteiro de levitz e desenhos de Dick dillin. 

Na história, extraterrestres querem invadir e dominar a Terra com um raio paralisante. Uma única pessoa não é vítima do tal raio: o Tornado Vermelho. 

A segunda história é sobre uma trama alienígena. 


A trama tanto da parte um quanto da parte dois chega a ser infantil e ingênua. Os extraterrestres, por exemplo, vivem numa dimensão em que cultuam o mau e são governado por leis malignas. 

Numa época em que a Marvel apresentava vilões com motivações muito mais complexas, essa trama parece anacrônica e ganha destaque principalmente graças aos desenhistas.

Dick Dillin era um ótimo desenhista, hoje pouco conhecido. 


Curt Swan é o desenhista definitivo do Super na era de prata e consegue dar um charme a uma trama de briga de casal. 

Hoje pouco conhecido, Dillin era um ótimo desenhista e seu traço encaixava bem numa trama de invasão alienígena. 

Nenhum dos dois, entretanto, tinha a grandiosidade de um Neal admas, um Garcia López ou um George Perez. Até mesmo a diagramação dos mesmos parece muito convencional e contida mesmo para a época em que a história foi publicada.

Nosso Lar

 


Nosso Lar é um dos grandes best-seller brasileiros. Escrito pelo espírito André Luís, através do médium Chico Xavier, popularizou a literatura espírita com a história de um médico em uma colônia espiritual. Publicado em 1944, o livro  já vendeu mais de... e gerou uma versão cinematográffica assinada por Wagner de Assis (A Cartomante).
Bastante conhecido, o enredo do livro inicia com o narrador chegando ao Umbral após a sua morte. O relato lembra muito as descrições do inferno católico, com o protagonista assediado por formas diabólicas, rostos Álvares e expressões animalescas. Ele sofre ali por oito anos, até finalmente ser levado para a colônia espiritual de Nosso Lar. A grande falta do médico, que o leva ao Umbral, é o ceticismo e o orgulho, que fazem com que ele demore tanto a pedir ajuda.
Uma vez na colônia, André Luís é iniciado nos mistérios da vida espiritual, da cura, da comunicação com os vivos, etc.
Há, em todo o livro, um excesso de adjetivos que atrapalham a leitura: o aposento é confortador, as luzes cariciosas. Mas essa característica, hoje considerada um vício de linguagem, era comum na maioria dos autores antigos. Fora isso, o livro passaria tranquilamente por uma boa obra de ficção científica da primeira metade do século 20.
A linguagem antiquada foi facilmente resolvida na versão cinematográfica com uma bem pensada atualização. Mas a história apresentava um outro problema, um certo caráter de"diário de viagem", que torna difícil sua adaptação para a sétima arte. Um filme precisa ter uma trama, com conflitos e uma estrutura narrativa que caminha na direção da resolução do conflito.
Em Nosso Lar, todos são bons demais e não existe uma possível figura de vilão. Da mesma forma, não há um destino que represente o conflito, já que os personagens gozam de livre-arbítrio. Em suma: não há quase nenhum conflito visível na obra original.
Como transportar isso para o cinema sem que o resultado seja duas horas de sono?
O diretor Wagner de Assis optou por focar a narrativa no conflito interno dos personagens (apenas sugerida no livro), especialmente André Luiz e Eloísa, uma moça que aparece rapidamente no livro se lamentando de ter morrido antes de casar e de saber que seu noivo encontrou uma nova esposa.
André Luiz luta contra a arrogância, o egoismo e o ceticismo (e, no final do filme, contra o ciúme), e Eloísa quer a todo momento voltar para seu noivo. Boa parte da narrativa se sustenta nessa sustentação. André será capaz de ultrapassar seus conflitos internos, e, dessa forma, ajudar a moça, fazendo com a que a trama paralela se una à principal num roteiro bem costurado.
Ou seja: o diretor optou por uma inteligente estrutura narrativa, que prende o expectador exatamente pela identificação. Alguns talvez se identifiquem com André, outros com Eloísa.
Se o roteiro é competente e enxuto, a direção é outro ponto forte. Os efeitos especiais são grandiosos (o filme custou 20 milhões de reais, boa parte deles gastos com efeitos), mas usados em favor da narrativa. Não há efeitos apenas pelo efeito, como Hollywood muitas vezes tem feito. Entretanto, muitos que assistiram à fita comentaram que gostaram de ver esse nível de efeitos num filme nacional de FC ou fantasia.
O diretor também trabalha muito bem a imagem, em ótimas cenas sem diálogos, como no reencontro de André Luiz com sua esposa. Com pouquíssimas falas, toda a tensão da situação é repassada aos expectadores.
Há algumas cenas que chamam atenção dos mais atentos: quando começa a II Guerra Mundial, a colônia espiritual recebe centenas de desencarnados. A maioria deles usando a estrela de Davi (judeus), mas há também pessoas com outros símbolos usados em campos de concentração, o que se relaciona com os ensinamento de Chico Xavier de que o sofrimento liberta. A mesma cena traz um conteúdo de tolerância religiosa que se reflete também na cena da sala do governador, cujas paredes ostentam símbolos das principais religiões terrenas.
Sobre a questão da II Guerra, Chico conta, no livro, que os nazistas, ao morrerem na guerra, fugiam dos que iam resgatá-los, chamando-os de "fantasmas da cruz". Esse ponto, no entanto, não foi explorado pelo filme.
Outro aspecto curioso da versão cinematográfica é inverter o paradigma convencional do ser humano com relação à dualidade vida-morte. Em Nosso Lar, vemos personagens chorando e lamentando a partida de entes queridos que vão reencarnar. Nesse ponto o roteiro foi particularmente eficiente ao mostrar que vida e morte são apenas dois lados da mesma moeda em um ciclo de reencarnações. Chega, inclusive, a brincar com isso, como na cena em que uma senhora reclama que o marido estava sempre muito doente, “Mas morrer que é bom, nada!”.
Nosso Lar conta com uma equipe internacional:  o fotógrafo suíço Ueli Steiger (“Dia depois de amanhã”, “Godzilla”, “10.000 a.C”), os canadenses da Intelligent Creatures para os efeitos especiais (“Watchmen”), a diretora de arte brasileira Lia Renha ( “A muralha”, “Hoje é dia de Maria”, “Auto da Compadecida”), e o músico  Philip Glass (“As horas”, “O ilusionista”).
É um filme que irá agradar tanto os espíritas quanto não espíritas ou simples simpatizantes da doutrina. Mesmo aqueles que foram assisitir Nosso Lar apenas como um filme de ficção científica provavelmente irão gostar. Prova disso é que em apenas 5 dias  já ultrapassou a marca de um milhão de expectadores.

Thor contra Mr. Hide

 


Depois de uma sequência deplorável de histórias, o personagem Thor começou a pegar o ritimo em Journey into Mystery 99.

Embora Jack Kirby não tivesse voltado ainda ao título, Stan Lee estava de volta aos roteiros, com desenhos de Don Heck. O vilão da história era Mr. Hide, em sua primeira aparição. Heck não tinha a grandiosidade de um kirby, mas seu traço hachureado funcionou bem na história, dando um tom sombrio ao vilão.

A origem de Mr. Hide: de golpista a gênio da química. 


A origem de Mr. Hide é simplória. Ele vivia de dar golpes em consultórios, conseguindo a confiança dos médicos para depois roubá-los, e tenta esse golpe com Don Blake. Mas o médico manco já recebera informações sobre ele e o dispensa. O que um golpista desses faria? Provavelmente mudaria de cidade, mas essa é uma história da Marvel e ele simplesmente resolve fazer uma fórmula inspirada no livro O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson.

De fato, ele consegue sucesso: sua fórmula o transforma num monstro com a força de doze homens. Não sei como os leitores da época reagira a isso, mas eu pensei: se o indivíduo tem inteligência para criar uma fórmula dessas, por que ele simplesmente não trabalha como químico e ganha muito dinheiro desenvolvendo fórmulas para a indústria? Mas parece que Mr. Hide não gosta de trabalho honesto.



Suspense: Don Blake vai se espatifar no chão antes de se transformar no Thor? 


Uma vez transformado em monstro, ele resolve se vingar do médico que lhe recusou emprego, o que gera uma boa sequência de suspense que lembra muito os matinês (para quem não sabe, os matinês eram seriados, muitos com personagens de quadrinhos, que passavam no cinema e sempre terminavam numa situação de suspense para forçar a pessoa a assistir na semana seguinte): o vilão joga Don Blake do prédio. Se é imortal como Thor, como don blake o protagonista é perfeitamente mortal e pode se esborrachar no chão como qualquer pessoa. Claro que tudo se resolve com surpreendente facilidade.

A história se alongou para o número 100 da revista (sinal de que Stan Lee já estava pensando em tramas maiores) e mais uma vez apresenta situações curiosas.

Supostamente blake foi salvo pelo Thor, de modo que Mr. Hide resolve sequestrá-lo junto com Jane Foster. Ele amarra o médico num mastro, arma uma bomba e diz que ela explodirá caso aconteça algo com ele. Isso gera outra situação de suspense, pois Blake precisa alcançar seu cajado para se transformar no deus do trovão, mas gera também um jogo de erros. Achando que a derrota de Hide irá provocar a morte do seu amado, Jane Foster simplesmente esconde o martelo de Thor. Como o herói volta a ser o médico fraco e manco depois e 60 segundos longe de seu martelo, a situação faz com que ele fique em perigo.

Jane Foster esconde o martelo achando que assim está salvando seu amado. 


Aliás, Stan Lee usava muito bem esse recurso dos 60 segundos longe do martelo como forma de contrabalancear conflitos com vilões que eram nitidamente menos poderosos – mais à frente, quando Jack Kirby voltasse para o título, Thor enfrentaria ameaças realmente ameaçadoras.

Uma curiosidade na história é o trecho em que Hide fala com o médico: “Você representa tudo aquilo que eu odeio, Blake! É honesto, trabalhador, bem-sucedido... enquanto eu... sou o mal personificado!”. Na década de 60, mesmo na Marvel, era comum isso de vilões que se consideravam vilões. Todos nós sabemos que os vilões mais perigosos são justamente aqueles que se consideram heróis.

Guerras Secretas - Nada a temer

 


A editora abril ficou célebre por modificar os quadrinhos de super-heróis publicados por ela. Essas mudanças muitas vezes tinham a ver com a mudança de formato e muitas vezes relação com a cronologia Marvel criada pela editora. Mas em nenhuma outra publicação essas mudanças foram tão infames quanto em Guerras Secretas. E, em toda a série, em nenhum número isso foi tão infame quanto no último número da série.

Anúncio no número 11 resumia os acontecimentos do último capítulo. Depois a Abril mudou tudo. 


As mudanças eram tão óbvias que até eu, no alto dos meus 15 anos e sem nunca ter visto uma revista original da Marvel, percebi que havia alguma coisa errada. Até porque, no número 11 a Abril havia publicado um pequeno resumo do que aconteceria no número seguinte... e o que eu estava lendo era algo completamente diferente! 

A sequência da Ninfa d´água cortada pela Abril: a explicação sobre Beyonder não fazia sentido. 


Para começar, a Abril simplesmente cortou da revista toda a sequência dos vilões no espaço, a sequência em que Encantor invoca uma elemental da água e esta lhe conta o que tinha acontecido. Segundo ela, uma fenda em sua dimensão fez com que Beyonder observasse a Terra e ficasse curioso a respeito dela, o que lhe deu a ideia de coletar cobaias e colocá-las em confronto. Embora isso dê uma explicação para os acontecimentos da série Guerras Secretas, ela não faz sentido para Galactus, afinal ele não é humano, então porque foi levado para o planeta? Era Jim Shooter tentando dar um pouco de verossimilhança para seu deus ex machina, mas esquecendo que isso tinha que combinar com o restante da série.

Depois de serem fulminados, os heróis são ressuscitados. Ninguém morria em Guerras Secretas. 


A sequência com os vilões acaba pela metade, como se o roteirista Jim Shooter tivesse se esquecido de voltar a ela conforme escrevia o roteiro. Mesmo lendo a história original, nós não sabemos nem se os vilões conseguem chegar à Terra. Assim, os editores da Abril devem ter achando que o ideal era deixar apenas o gancho do número anterior, com os personagens indo para a terra através do poder do homem molecular.

Para cortar toda essa sequência, a Abril fez um verdadeiro malabarismo, principalmente porque essa sequência é entremeada com a sequência de Destino, no qual ele discute com o Garra Sônica, dorme e depois acorda. Assim, a edição da Abril mostra os dois conversando, e de repente, sem explicação nenhuma, o doutor Destino está lavando o rosto. Se a história não fazia muito sentido na versão original, aqui faz menos sentido ainda.

O Capitão morre várias vezes só nessa edição. 


Na edição anterior todos os heróis haviam sido fulminados por um raio, mas na explicação do Garra Sônica, Colossus vira aço antes do raio, o que permite à curandeira Zsji trazê-lo de volta à vida. Colossos por sua vez consegue salvar o Senhor Fantástico, que traz todos de volta à vida. Mais forçado, impossível.  

A página original... 


Os caras tinham sido fulminados por um raio, mas mesmo assim Jim Shooter dá um jeito de revivê-los. A Vespa morre duas vezes durante a série e volta à vida. O Capitão América bate as botas três vezes, duas só na última edição e também volta à vida. Fica evidente demais que as mortes na série são apenas um artifício dramático barato que não tem nenhuma efetividade. É um artificio que, de tão usado, perde completamente a eficácia. O leitor vê alguém morrendo e pensa: “Sem problemas, daqui a duas páginas esse aí está vivo de novo”.

A página remontada pela Abril. 


No final, tudo se resolve e Beyonder manda todo mundo de volta à terra. Como a cronologia da Abril estava atrasada e eles queriam que essa história se encaixasse na cronologia deles, eles produziram uma página inteira na qual o Beyonder volta o uniforme do Aranha para a versão clássica, faz o professor Xavier voltar a ser paralítico e faz a tTempestade voltar ao uniforme antigo. “Agora tudo retornou ao que era”, diz o texto. “Nada mais devo a vocês! Voltarei aos meus domínios para meditar sobre o que aconteceu nesses dias!”.

A abril já tinha feito muita coisa, principalmente cortar páginas e mudar texto, mas essa a primeira vez que chegavam ao ponto de incluir uma página inteira feita no Brasil no meio de uma história.

A Abril chegou a criar uma página inteira para adequar o final à sua cronologia. 


Lendo finalmente a versão original, chego à conclusão de que, apesar dos muitos problemas de roteiro e de ser uma indisfarçada propaganda de brinquedos, Guerras Secretas era divertido. Não chegava nem perto de ser um clássico como Crise nas Infinitas Terras, mas era divertido. Já a versão da Abril era heresia total.

domingo, maio 31, 2026

Troia – A queda de uma cidade

 


A guerra de tróia é um dos episódios mais importantes da história ocidental, tendo dado origem aos poemas Ilíada e Odisseia, base da civilização grega e da literatura clássica.

Assim, adaptar a história para uma minissérie é uma responsabilidade imensa. Foi essa responsabilidade que David Farr  assumiu para a BBC britânica. O resultado, Troia, a queda de uma cidade, é um daqueles tesouros escondidos da Netflix.

Lançada em 2018, a série começa com Páris já adulto, sendo criado como pastor. Ainda como pastor, ele recebe a visita de três deusas, Hera, Atena e Afrodite. Páris deve ser o juiz de uma disputa sobre qual a deusa mais linda, que terá direito a uma maçã de ouro. Cada uma delas lhe faz uma oferta. Hera promete que ele será o homem mais poderoso de sua época. Atena promete a ele sabedoria e vitória nas batalhas. Afrodite lhe promete a mulher mais bonita do mundo. Páris escolhe Afrodite.   

Ao visitar a capital do reino, Troia, ele descobre que é o filho do rei, supostamente levado quando criança por lobos. Agora um príncipe, ele vai em missão oficial a Esparta, onde, para sua surpresa, deverá se casar com a filha do rei. Mas ele se apaixona por Helena, a rainha, considerada por ele a mulher mais bela que já existiu, que acaba fugindo com ele. Como resposta por esse ultraje, os principais guerreiros gregos se reúnem para castigar Tróia, numa guerra que irá durar 10 anos.

Confesso que uma das minhas curiosidades ao começar a assistir foi imaginar quem seria a atriz que interpretaria Helena, considerada a mulher mais bonita de sua época. A escolha recaiu sobre a atriz alemã Bella Dayne, tão bela quanto talentosa e desconhecida no Brasil. Dayne consegue dar à personagem todo o peso dramático que não estamos acostumados a ver em representações sobre a guerra de Tróia.

Aliás, esse é um dos pontos positivos da série. Ao mostrar o ponto de vista das mulheres e, ao mesmo tempo dos troianos, ela quebra com a norma de produções anteriores, que são focadas quase que exclusivamente nos homens gregos.

Outro aspecto que merece destaque – e que se diferencia de produções anteriores sobre o mesmo tema – é a forma como os deuses são mostrados, com os atores andando em meio aos mortais sem serem vivos, influenciado as batalhas, por exemplo. Uma solução simples, mas efetiva.   

Há um outro fator curioso na produção: a introdução de atores negros para papéis como Aquiles, Zeus, algumas das amazonas e outros. Nesse sentido, a série peca por não tentar explicar isso. A série Sandman, por exemplo, consegue fazer isso de forma muito orgânica. Não seria difícil explicar esses fatos, considerando-se a proximidade da Grécia com a África. Entretanto, o estranhamento é apenas no início e a boa atuação dos atores negros, a exemplo de David Gyas, que interpreta Aquiles, acaba conquistando o expectador. 

A opção por centrar sua narrativa nos troianos e no casal apaixonado Páris – Helena foca muito mais no drama do que no épico e nas grlórias das batalhas. Ao contrário, a guerra aqui é mostrada em toda a sua crueza, com o massacre de inocentes, pessoas escravizadas, as mulheres violadas. Apesar de ter sido responsável pela estratégia que leva os gregos à vitória (o famoso Cavalo de Tróia), é Odisseu (brilhantemente interpretado por Joseph Mawle) que melhor representa essa percepção sobre o horror da guerra.  Não por acaso, sua primeira aparição na série é exatamente se passando por louco para não ser recrutado para o conflito. Aliás, a impressão que temos ao assistir a série é de que Menelau embarca na guerra muito mais por seu orgulho ferido que por de fato amar Helena, vista por ele muito mais como um prêmio.

Em tempo: eu me senti realmente agoniado com a burrice dos troianos, incapazes de qualquer atitude ou estratégia militar minimamente inteligente. Talvez Páris devesse ter aceitado o presente de Atena...

Artigo sobre Jornalismo em quadrinhos na revista Domínios da Imagem

 



Para quem não é da área acadêmica, uma informação interessante é que as revistas são avaliadas por um fator chamado Qualis, que pode ser A, B ou C (cada um tem sua subcategoria numérica, como A1, A2, A3). As revistas qualis A, obviamente, são as mais rigorosas em suas avaliações, de modo que é muito mas difícil publicar nelas. Minha primeira publicação em uma revista A aconteceu na Domínios da Imagem, com o artigo Histórias em quadrinhos não ficcionais e jornalismo como território do imaginário. 

O artigo foi escrito em parceria com Marcos Dickson, um velho amigo e parceiro da época da faculdade. Todos os trabalhos em grupo nós fazíamos juntos, pois nossa dinâmica, desde aquela época era muito boa. Geralmente dividíamos os capítulos, ficando metade para cada. Depois nos reuniamos para um ler o capítulo do outro e fazer a revisão. Nessa mesma reunião escrevíamos a introdução e a conclusão, um método que sempre funcionou muito bem e garantiu ótimas notas. 



Com o surgimento do Google Docs esse método pôde se tornar mais elaborado, com cada um contribuindo um pouco com cada parte. 

Confira o resumo: 

O presente artigo tem o intuito de explorar os processos híbridos da linguagem jornalística com as histórias em quadrinhos baseadas em fatos reais, não ficcionais, que passaram a ser chamadas de jornalismo em quadrinhos, nas quais vemos a apropriação de técnicas jornalísticas, principalmente dos recursos extraídos do new journalism, para construir seu discurso, indo além da fronteira do real e do ficcional abrindo espaços para novas experiências do consumo da informação jornalística. Propormos analisar esses espaços narrativos não ficcionais instrumentalizando os conceitos de jornalismo de subjetividade (MORAES, 2022), estratégias do sensível (SODRÉ, 2006) e Tecnologias do Imaginário (DURAND, 1988, SILVA, 2006).

Para ler o artigo, clique aqui

Watchmen e a teoria do caos

 

Matéria de jornal de 1994 sobre o meu TCC sobre Watchmen. Hoje em dia todo mundo minimamente informado sabe que Alan Moore e Dave Gibbons usaram os princípios da teoria do caos na elaboração de Watchmen, mas na época essa informação era novidade a ponto de merecer matéria em jornal.

Fundo do baú - A família Ursa

 


Família Ursa (The Beary Family, no original) foi um desenho animado desenvolvido pela Walter Lantz, a mesa produtora do Pica-Pau. A família era composta pelo pai Ursulão, pela esposa, Úrsula, pelo filho Ursulino e pela filha Ursulina. Posteriormente a filha desapareceria das animações.

A trama geralmente começava com a matriarca percebendo que a casa precisava de algum serviço e tentando contratar profissionais especializados. E, invariavelmente, Ursulão decidia que ia ele mesmo fazer o serviço como forma de economizar dinheiro (ao que a esposa respondia batendo na testa e dizendo “Lá vamos nós de novo!”) . Mas tanto ele quanto o filho eram extremamente desastrados e o que era para ser economia virava prejuízo. Os episódios eram geralmente compostos de uma série de gags das trapalhadas da dupla.

Em um dos episódios, por exemplo, a esposa decide comprar um ar-condicionado, mas ursulão decide economizar o dinheiro da entrega e da instalação. No caminho da loja para casa o ar condicionado cai das mais variadas maneiras – na maioria das vezes machucando o próprio Ursulão. Depois, durante a instalação, ele e o filho provocam um grande buraco no chão, na parede e no teto.

Em outro episódio, Úrsula decide colocar um portão automático na garagem. Para economizar dinheiro, Ursulão decide criar ele mesmo um mecanismo. No final, eles acabam perdendo o portão e são obrigados a pagar não só pela instalação do sistema automático como por um portão novo.

O desenho tinha duração de 7 minutos e foi produzido de 1962 a 1972, num total de 28 episódios.

Drácula vs Heróis Marvel

 

Drácula versus Heróis Marvel foi uma publicação da editora Abril que reunia encontros do famoso vampiro com super-heróis. 
Nessa edição temos dois clássicos da década de 1970. "A nau dos condenados", de Len Wein e Ross Andru é uma história de 1974 em que o Homem-aranha, em busca de um remédio para Tia May, vai até um navio onde está um médico que também é procurado por um bandido e pelo vampiro. 
A história do aranha é repleta de diálogos e balões de pensamento. 


"O príncipe dos vampiros" é uma história em que o Dr. Estranho enfrenta Drácula depois que esse mata seu criado. O roteiro de Marv Wolfman e desenhos de Gene Colan.
Os dois desenhistas por si só já valem o volume. Gene Colan, desenhista oficial de Drácula, nasceu para fazer terror.

Mas vale a pena comparar com os dois mestres do roteiro (e grandes amigos) Len Wein e Marv Wolfman trabalham seus textos, adaptando-os ao gênero. A história do Homem-aranha segue o estilo super-heróis. Já a HQ do Dr. Estranho envereda de fato pelo terror. Wein, que co-criaria um dos mais famosos clássicos do terror, o Monstro do Pântano, sabia que sua história do Aranha tinha que ter pouco texto e muitos diálogos e balões de pensamento, estética consagrada por Stan Lee. 
A história do Dr. Estranho é caracterizada pelo texto denso. 

Já Marv Wolfman  recheia seu roteiro de um texto denso, que funciona como a trilha sonora de um filme de terror.
Bons roteiristas não são apenas os que sabem escrever ou criar boas tramas: são também aqueles que conseguem adaptar seu texto a cada gênero.

Quem é o Pantera Negra?

 


Quando o roteirista Reginald Hudlin contou aos amigos que ia escrever a revista do Pantera Negra, eles perguntaram: Quem? Isso o levou a escrever uma história que não só apresenta o personagem, mas também o reino de Wakanda e mas também criou as principais bases do que viria a ser o filme de enorme sucesso de 2018. Essa história, reunida no volume 38 da coleção de graphic novels Marvel chamou-se “Quem é o Pantera Negra?”.
Hudlin avança muito além do que até então tinha sido feito, remontando ao passado longíncuo de Wakanda, mais precisamente no século V, quando uma tribo rival tenta invadir o local e seus guerreiros são dizimados pelo sistema de defesa incluindo balestras gigantes. Depois, no século XIX, um grupo de aventureiros belgas tenta invadir o local com metralhadoras e é igualmente repelido.
A história pula para o presente, quando o rei de Wakanda está enfrentando adversários em uma disputa pela coroa enquanto dois grupos planejam invadir o país: de um lado vilões, chefiados pelo Garra Sônica, e do outro os americanos interessados nas riquezas naturais do país.


A história não só amplia em muito a mitologia do personagem, acrescentando informações (como a de que o Garra Sônica é descendente do belga que foi morto tentando invadir Wakanda no século XIX). E faz isso com muita ação e uma trama envolvente e empolgante. Além disso, acrescenta uma viva crítica social sobre como os países de primeiro mundo sempre viram a África como um quintal do qual poderiam retirar o que quisessem.
Os desenhos ficam por conta de John Romita Jr. Ele é adorado por muitos e odiado por outros (no geral eu gosto muito). Mas mesmo quem odeia dificilmente diria que ele não foi uma boa escolha. Fortemente influenciado por Jack Kirby, ele traz de volta toda a grandiosidade de Wakanda e cria um visual que seria a principal influencia para o design do filme.

Maria Erótica e o clamor do sexo

 


No ano de 2003, o jornalista baiano Gonçalo Júnior chamou atenção com um livro essencial para qualquer que queira entender o mercado editorial brasileiro. Guerra dos Gibis mostrava como alguns dos principais impérios editoriais haviam sido erguidos a partir das vendas astronômicas dos gibis, em especial nos anos 1940 e 1950. Focado na vida de Adolfo Aizen, o livro contava também a perseguição aos gibis, feita por padres, professores e políticos. Mas, como a narrativa terminava na década de 1960, faltava uma segunda parte. É exatamente a segunda parte dessa epopéia que a editora Peixe Grande está lançando agora, com o livro Maria Erótica e o clamor do Sexo (Peixe Grande, 2010, 494 p.).
Se o primeiro livro tinha como personagem principal o editor Adolfo Aizen (dono da Ebal), este segundo é focado em dois outros personagens: Minami Keizi e Cláudio Seto. Ambos viveram a fase mais difícil dos quadrinhos nacionais, quando a perseguição aos gibis nacionais era institucionalizada e fazia parte do programa da ditadura militar. E ambos revolucionaram a linguagem dos quadrinhos ao introduzir os mangás em nosso país.
Minami chegou em São Paulo com pouquíssimo dinheiro no bolso, foi rejeitado pela maioria dos editores da época (que estranharam seu traço com fortíssima influência oriental), mas acabou criando uma das melhores editoras de quadrinhos da década de 1970, a Edrel.
Vindo da mesma cidade que Minami, Lins, no interior paulista, Cláudio Seto foi um dos principais e mais revolucionários artistas da Edrel e, posteriormente, comandou o setor de quadrinhos da Grafipar, a maior trincheira dos quadrinhos nacionais no final da década de 1970 e início da década de 1980.
O livro acompanha ora um, ora outro, oscilando entre as histórias desse personagens tão interessantes quanto as histórias que criaram.
A forma como Minami consegue sair da miséria para se tornar dono de uma editora é digna de nota. Após ter seu trabalho rejeitado, ele investiu seu pouco dinheiro num sistema de venda de livros por reembolso postal (os anúncios do serviço eram conseguidos em publicações em troca de tiras de quadrinhos produzidas por ele) que deu tão certo a ponto de Sebastião Bentivegna, dono da editora Pan-Juvenil convidá-lo a ser supervisor editorial. Com o tempo, afundado em dívidas com agiotas, Sebastião chamou Minami e o dono da gráfica que fazia fotolitos para a editora e ofereceu a Pan-Juvenil, de graça, desde que eles assumissem as dívidas.
Minami investiu em quadrinhos ousados tanto pelo erotismo quanto pelas inovações estéticas, que aproximavam os gibis dos mangás e teve tanto sucesso que a editora, agora chamada Edrel, não só conseguiu quitar seus débitos, como ainda cresceu e chegou a ameaçar as grandes.
Foi nesse momento que começou a calvário de Minami com a ditadura. Felizmente, o editor guardou todo o histórico de correspondências com a censura, o que permitiu a Gonçalo Júnior fazer um raio x da repressão ditatorial, nos brindando com alguns dos momentos mais interessantes do livro.
O argumento da ditadura é que, por trás da liberdade sexual, que se mostrava através das publicações da Edrel, escondia-se o comunismo internacional, que pretendia desestabilizar a família brasileira. Curiosamente, o mesmo fenômeno era também combatido na União Soviética como um vício capitalista.
Gonçalo amplia a investigação sobre a censura na época, abarcando de revistas como Garotas de Piadas da Edrell aos gibis do Pato Donald e Luluzinha, além de revistas de reportagens, como a Realidade.
Mas a perseguição ao Pato Donald nem se comparava à repressão ao erotismo. Sem querer perder o negócio, Minami procurava se informar como continuar publicando sem ter suas revistas apreendidas. Logo descobriu que não havia parâmetros. Tudo dependia muito da cabeça do censor.
O risco maior não era só a apreensão de revistas: as sedes  das editoras poderiam ser invadidas a qualquer momentos e seus funcionários presos.
O esquema da censura era cruel especialmente para os pequenos editores, com poucas ligações com o poder. Na fase mais cruel da ditadura, as bonecas das revistas tinham de enviadas para Brasília, onde muitas vezes demoravam meses para serem analisadas. Se houvesse algum corte ou pedido de mudança, uma nova boneca deveria ser feita e enviada para Brasília para uma análise igualmente demorada.
Se a revista focasse em assuntos do momento, esse esquema era morte certa. No final, a repressão levou ao fechamento tanto da Edrel quanto da editora seguinte de Minami, a M&C.
Para fugir da repressão, Cláudio Seto, escondeu-se no único lugar onde não se esperava encontrar um subversivo: no partido do regime a Arena, pela qual foi eleito vereador em Lins.
Quando se casou, resolveu pegar a estrada e fazer uma viagem pelo sul do país. Ao chegar em Curitiba, encontrou a cidade envolta pela neve e, encantado, resolveu morar lá.
Sua ida para Curitiba parece ter sido arquitetada pelo destino, pois, na mesma época um editor local pretendia entrar no mercado erótico, aproveitando a abertura da censura e o interesse da população pelo tema. Era o início da Grafipar. Deu tão certo que virou uma verdadeira trincheira do quadrinho nacional, a ponto de alguns dos mais importantes artistas da época se mudaram para a capital do Paraná.
Erros editoriais, perseguição política e a crise econômica selaram o fim da editora, o que não a impediu de deixar uma marca poderosa nos quadrinhos brasileiros.
O livro se torna ainda mais importante pelo fato de tanto Minami quanto Seto terem morrido recentemente, quase no esquecimento, em especial Minami. Numa época em que os mangás dominam as bancas, poucos se lembram desses grandes artistas e editores que introduziram a linguagem oriental nos quadrinhos nacionais. Nas palavras de Toninho Mendes, que escreve a orelha da publicação: “Gonçalo Júnior faz ressurgir do limbo um segmento da imprensa nacional quase desconhecido: o dos pequenos editores de revistas e livros de sexo que desafiaram a polícia e os censores com forma criativas de enganar a repressão e fazer o brasileiro participar mais ativamente – em vários sentidos – da revolução sexual, que a ditadura tanto se empenhou por não deixar entrar no país”.