segunda-feira, julho 27, 2026

Vikings – a série

 


Durante a maior parte da baixa Idade Média, os nórdicos invadiram e aterrorizaram grande parte da Europa. Em suas viagens chegaram até mesmo à América. É a história desse povo que é contanda na série Vikings, criada pelo produtor e roteirista Michael Hirst para o canal History.
A trama é centrada em Ragnar Lothbrok, um agricultor que sonha encontrar novas terras e, com a ajuda de seu amigo Floki, o construtor de barcos, chega à Inglaterra, onde saqueiam um mosteiro e aprisonam um monge.
Esse fato pequeno irá mudar toda a história do povo nórdico e do próprio Ragnar, que, em decorrência disso acabará se tornando lorde e até mesmo rei. Em geral com a ajuda de sua esposa Lagertha, a escudeira, irá ter tantas conquistas que se tornará um herói mítico. Posteriormente a trama se foca nos filhos de Ragnar.
Ragnar de fato existiu, ou pelo menos assim contam as lendas, assim como sua esposa escudeira Lagertha, Bjorn e a maior parte dos personagens da série. Michael Hirst consegue unir com perfeição realidade e ficção, modificando fatos quando necessário ou completando quando as crônicas não são claras o bastante. Essas mudanças são necessárias para o andamento da trama e o desenvolvimento do roteiro e dos personagens.
Há pequenos erros históricos e muita liberdade poética (em especialmente a partir da quinta temporada), como uma igreja com características góticas em plena baixa idade média. Mas no geral, Vikings é uma aula de história. Uma aula sobre os vikings, sua cultura, modos e costumes, sua religião – nesse sentido é interessante como Hirst sempre introduz algo da mitologia nórdica nas tramas. É alguém que conta alguma lenda, é alguém que faz uma alusão aos deuses, é alguém que faz uma comparação entre o que está acontecendo com o que já aconteceu com um deus.  
Mas é também uma história do mundo na época, com uma trama que percorre locais tão diferentes quanto a França, a Inglaterra e a Rússia e até mesmo a Sicília. E o roteirista  Michael Hirst é extremamente hábil ao trabalhar com intrigas palacianas. De fato na Idade Média, os palácios eram um local em que não se podia confiar em ninguém e quanto mais poder, maior a chance de alguém ser morto ou matar para se manter no cargo.
Traições, envenenamentos, emboscadas, tudo isso é muito bem explorado na série.
As cenas de guerra também impressionam tanto pelo realismo visual quanto pelas estratégias adotadas. O cerco de Paris, por exemplo, é um ótimo exemplo de como defender uma cidade fortificada (e não aquela palhaçada de GOT).
O elenco é igualmente brilhante, encabeçado por Travis Fimmel no papel de Ragnar. Pequenos trejeitos, olhares, um jeito de piscar, tudo contribuiu para construir o personagem com perfeição. Outro grande destaque é Gustaf Skarsgård no papel de Floki. Sua atuação remete diretamente ao deus Loki – e fico imaginando como ele poderia dado um outro ar, mais matreiro e risonho para o personagem da Marvel. Esses são apenas dois de um elenco que merece elogios por completo.
Unida a essas ótimas atuações, um roteiro que caracteriza muito bem cada um dos personagens, em especial Ragnar, visto aqui como uma mistura de aventureiro, estrategista e filósofo – características que serão herdadas individualmente pelos filhos. 
A série tem seis temporadas e, claro, tem altos e baixos, mas no geral os altos são muito mais frequentes e a última temporada está indo num crescendo em termos dramáticos.
Vikings é tudo aquilo que GOT prometia ser.

A chegada dos vingadores!

 


Em 1963, a Marvel, que pouco tempo antes era uma biboca no fundo do corredor com dois empregados (Stan Lee e uma secretária) se tornara a mais quente editora do mercado de quadrinhos. As cartas de leitores, que raramente chegavam, e quando chegavam eram para reclamar de erros ortográficos ou editoriais, agora inundavam a redação de fãs entusiasmados. E muitas dessas cartas pediam a criação de um supergrupo reunindo os heróis da editora.

A criação dos Vingadores era, portanto, só uma questão de tempo, e isso aconteceu em setembro daquele ano com toda a pompa e estratégia de auto-promoção que caracterizava a Marvel, a começar pela capa que anunciava: “Os super-heróis mais poderosos da Terra!”. O desenho da capa, uma daquelas artes impactantes de Jack Kirby, mostrava Thor, Hulk, Homem de Ferro (ainda coma  armadura antiga), Homem-formiga e Vespa avançando contra Loki, que desdenha: “Os Vingadores... bah! Destruirei todos vocês!”. Uma chamada carregava ainda mais na auto-promoção e estimulava o time de fãs: Super-heróis! Super-vilões” Superameaças! Tudo isso apresentado do jeito fabuloso da Marvel!”.

Loki manipula o Hulk. 


Na história, Loki, em mais um dos seus planos contra seu irmão, resolve controlar o Hulk, fazendo com que ele pense que há explosivos numa linha de trem e levando-o a danificar a linha. A ideia era fazer o golias esmeralda parecer um vilão e colocá-lo em rota de colisão contra Thor. Os membros da Brigada Juvenil, grupo liderado por Rick Jones, pedem ajuda pelo rádio para o Quarteto, mas com a intervenção de Loki, quem recebe a mensagem é Thor e, inadvertidamente, os outros membros dos Vingadores.

Uma das especialidades da Marvel era colocaros heróis lutando entre si.

 Claro que tudo isso era uma boa desculpa para o que a Marvel fazia de melhor: colocar vários heróis em rota de colisão uns com os outros (nesse caso, lutando contra o Hulk).

Era muita história para contar, o que fez com que Kirby tivesse pouco espaço para suas grandiosas cenas de ação e splash pages.

Rosa e Azul, de Renoir

 


Ao contrário de outros pintores impressionistas, que se dedicavam essencialmente a pintar paisagens em imagens que antecipavam o abstracionismo, Renoir era também um bom pintor de figuras humanas.
Um de seus quadros mais famosos, Rosa e azul, é o retrato de duas meninas, Alice e Elisabeth, filhas de um banqueiro judeu. As duas meninas pousaram para o pintor com vestidos absolutamente iguais – exceto pela cor: Alice, de cinco anos, veste rosa e Elisabeth, de seis, veste azul. Alice estava nitidamente incomodada ao pousar e parece pronta a rebentar em choro, enquanto sua irmã, mais à vontade, sorri para o pintor. O estilo impressionista, com pinceladas rápidas que procuravam captar a cor em sua essência, aparece principalmente no vestido.
Alice viveu até os 89 anos, mas sua irmã teve destino trágico. Por ser judia, ela foi presa e enviada ao campo de concentração de Auschwitz, mas não chegou lá: acabou morrendo no caminho.
A obra, produzida em 1881, foi redescoberta abandonada em 1990, no apartamento da família e passou por diversos colecionadores até ser adquirida em 1952 pelo MASP.

Homem-aranha vs Capitão Britânia

 

 

Marvel Team UP era uma publicação da Marvel que mostrava encontros entre heróis Marvel. Entre as várias equipes criativas que assumiram o título, sem dúvida a mais célebre foi a do roteirista Chirs Claremont e do desenhista John Byrne.
Ótimo exemplo dessa dupla afinada foi o encontro do Homem-aranha com o Capitão Britânia, publicada no número 65 e 66 da revista, em 1977.
Na história, Peter Parker recebe em sua casa um estudante inglês, Brian Braddock, que é ninguém menos que o herói britânico. Depois de uma luta entre os dois ocasionada por um equívoco (parece haver uma regra na Marvel: toda vez que dois heróis encontram, eles primeiro devem brigar), eles se deparam com uma ameaça terrível: o Mundo assassino do vilão Arcade.


Criado nessa história, Arcade é um jovem rico que, entendiado, resolve criar um parque de diversões para testar vários heróis da Marvel.
Os dois heróis são colocados em bolas transparentes e introduzidos em um fliperama gigantesco. Depois se deparam com os mais diversos tipos de ameaças, todas baseadas na ideia de um parque de diversões mortal.
Era uma ideia que de fato funcionava – tanto que a dupla ia retornar o vilão numa história dos X-men, pois permitia ação initerrupta.
Se Chris Claremont era bom ao trabalhar com diversos personagens, Byrne era ótimo com ação. A junção dos dois fez com que essa história se tornasse um clássico.
No Brasil essa história foi publicada em Homem-aranha 38 e na coleção de Graphic Novels Marvel da Salvat (também no número 38).

Perry Rhodan - O espírito da máquina

 


Na série Perry Rhodan, há volumes que funcionam como uma verdadeira gangorra: alternam ótimos momentos com passagens absolutamente modorrentas. Um exemplo claro disso é o número 249, escrito por Kurt Mahr.

Nos números anteriores, Rhodan descobre que os Senhores da Galáxia pretendem inspecionar todos os seus transmissores. Isso coloca em risco o "Transmissor Chumbo de Caça", tomado pelos humanos em um sistema que o inimigo considera desabitado. Os terranos podem até repelir as primeiras patrulhas, mas certamente viriam outras, com frotas cada vez maiores, até que a resistência local fosse dizimada — o que provavelmente ocorreria já na quarta expedição.

A única saída é tentar criar um bloqueio no transmissor para barrar o avanço dos atacantes. Contudo, o surgimento de um estranho ser energético parece tornar essa missão impossível.

O livro começa muito bem, focando no primeiro contato do engenheiro Steven Kantor com o ser, que se manifesta como um monstro. Mahr acerta ao centrar a narrativa em um homem comum e ao detalhar o cotidiano nas naves, incluindo o processo de recrutamento e até minúcias sobre os refeitórios.

No entanto, do meio para o fim, o autor — que tinha formação científica — empolga-se com detalhes técnicos em dezenas de páginas capazes de dar sono em um sonâmbulo. A história só retoma o fôlego a partir do capítulo seis, quando a batalha espacial é descrita e a natureza do ser energético é revelada em um interessante plot twist.

domingo, julho 26, 2026

Quarteto Fantástico – O impiedoso Mestre dos bonecos

 

 

Uma das características que faziam do título do Quarteto Fantástico algo completamente diferente do que se fazia à época era o triângulo amoroso Senhor Fantástico – Mulher Invisível – Namor.

Esse triângulo é o mote do número 14 da publicação. Os heróis tinham acabado de voltar da Lua e se tornam ainda mais celebridades, mas a cabeça de Sue parece estar no fundo oceano, tanto que ela coloca um tal de olhoscópio para percorrer o fundo dos mares em busca do Príncipe Submarino. O detalhe é que o aparelho foi criado por Reed Richards. “Embora o mundo me conheça como o Senhor Fantástico, não sou capaz de atingir meu objetivo mais estimado! Sou completamente incapaz de conquistar o coração da mulher que amo”, diz ele, provavelmente o guampudo mais famoso dos quadrinhos.

Todas as mulheres estão apaixonadas pelo Senhor Fantástico... 


Nessa edição, Stan Lee e Jack Kirby pareciam estar carentes de ideias, tanto que resolvem trazer de volta um vilão que havia aparecido no número 5 da revista, o Mestre dos Bonecos. O personagem já não era grande coisa lá naquela primeira revista, mas aqui é totalmente inútil, pois resolve controlar Namor e colocá-lo em rota de colisão com o Quarteto, como se o príncipe dos mares precisasse de alguma desculpa para isso.

A única diferença é que o Mestre dos Bonecos faz com que ele coloque a vida de Sue em perigo.

... mas Sue parece estar apaixonada por Namor. 


Kirby e Lee pareciam também não estar muito afinados. À certa altura o Coisa vai atrás de Alícia se desperdir, mas ela insiste em ir junto, por mais que isso pareça sem sentido. Ele estaciona sua versão do fantasticarro em um estacionamento público e quando volta, descobre que o veículo está trancado por vários outros. Ele resolve a situação colococando vários carros um em cima do outro. Mas, vejam bem, ele chegou voando. Não poderia ter ido embora também voando, como aliás ele faz? A sequência não faz o menor sentido.

Tudo bem que o Coisa é turrão, mas empilhar vários carros para tirar um carro voador?


Outra sequência sem sentido é quando o Coisa joga um polvo e ele acerta o submarino do Mestre dos Bonecos. O vilão argumenta que não teria tempo de desviar do monstro gigante e resolve... fazer um boneco do polvo para controlá-lo! O tempo que ele levaria para fazer o boneco daria tempo para ele desviar até de um cardume. Um vilão ridículo deveria ter mesmo um final ridículo.  


Antes que a revista acabasse, temos uma daquelas cenas memoráveis com os heróis se lançando contra Namor e a Mulher Invisível se colocando entre eles para defender seu amado. Reed Richards era um cara muito paciente e apaixonado.

Monsieur Verdoux e o sonho com Chaplin

 


No início da década de 1990 eu e alguns amigos fomos conhecer uma cidade da ilha do marajó chamada Joanes. Inadvertidamente, acabamos montando a barraca na praça da cidade - só percebemos isso quando anoiteceu e a população local apareceu para passear no local. No dia seguinte mudamos a barraca para um outro local, na beira da praia. Mas naquela noite cada um de nós teve algum tipo de epifania. 

Eu sonhei com Charles Chaplin. Sonhei que tínhamos uma longa conversa e ele dizia que iria me apresentar aquele que ele considerava o seu melhor filme. E assistimos juntos Monsieur Verdoux. 

Naquela época não existia internet e vídeo cassete era um acessório de luxo, de modo que eu só assistia o que passava na TV e, pelo que eu me lembrava, esse filme nunca tinha passado na TV, de modo que era inédito para mim.

Alguns anos depois a Globo apresentou um especial Charles Chaplin e pude finalmente assistir Monsieur Verdoux. E era o mesmo filme que eu tinha visto em meu sonho. 

Talvez a explicação tivesse a ver com o inconsciente coletivo. Ou talvez eu tivesse assistido o filme há tanto tempo que não me lembrasse, o que não faz muito sentido, pois uma criança dificilmente se sentiria atraída por esse filme sobre um homem que engana e mata mulheres. 

Qualquer que seja a explicação, o fato é que concordo com o Chaplin do meu sonho: esse é um dos melhores, senão o melhor filme dele.

Cabanagem: A miserável revolução das classes infames

 


A Cabanagem foi a mais sangrenta guerra civil da América Latina. Foram 35 mil mortos, 30% da população da região amazônica. Entretanto, é uma das menos conhecidas revoltas do período regencial. Uma ótima obra para os interessados no assunto é A miserável revolução das classes infames, de Décio Freitas (editora Record).
Décio conta que o livro é baseado em cartas que lhe foram entregues por um amigo espanhol. Escritas meio em francês, meio em bretão, eram redigidas por um revolucionário francês que participara da revolta paraense.
Já nos finais da revolução francesa, muitos indíviduos do grupo que perdia o poder, ao invés de serem guilhotinados, eram simplesmente enviados para a Guiana francesa. Era a “guilhotina seca”.
Quando Napoleão chegou ao poder, continuou a prática e quando este foi derrotado, seus inimigos fizeram o mesmo. Dessa forma, na Guiana Francesa podia-se encontrar desde jacobinos veteranos da revolução francesa a pessoas perseguidas por Napoleão.
Entre os revolucionários enviados para a Guiana está Jean-Jacques Berthier, expulso da França com apenas 14 anos. E este é o autor das cartas que servem de base para o livro. Assim, os principais fatos do conflito amazônico são esmiuçados do ponto de vista desse personagem. As cartas, no entanto, parecem ser só uma estratégia de verossimilhança. Da mesma forma que Umberto Eco inventou que O nome da Rosa não era um romance, mas a tradução de um texto real da Idade Média, Décio aparentemente  inventa que seu livro é resultado das cartas recebidas de um amigo e traduzidas a grande custo do bretão.
Mas se o personagem é fictício, os fatos históricos narrados no livro são reais. O autor pesquisou a fundo o período e lança uma nova luz sobre a revolta.
A começar por algo que fica claro durante toda o obra: a cabanagem foi a nossa revolução francesa. A relação é, de fato, direta.
Quando Napoleão invade Portugual, D. João e a corte portuguesa são obrigados a fugir para o Rio de Janeiro. Mas, em retaliação, D. João manda invadir a Guiana Francesa com o apoio dos ingleses.
A conquista é fácil, mas vai ter grandes consequências. Na época, a colônia francesa estava repleta de revolucionários jacobinos. Como eram inimigos de Napoleão, os portugueses são tolerantes com eles e alguns até são levados a Belém para ajudar na construção de um palacete para o governador. Outros vão por conta própria.
Além disso, os soldados brasileiros que participaram do conflito têm contato direto com as ideias dos revolucionários. Em pouco tempo, Belém não só estava cheia de jacobinos, mas também de soldados brasileiros com ideias revolucionárias.
Décio faz uma descrição ampla de Belém e das condições sociais do Pará à época.
O Pará era dominado pelos portugueses e pelos mestiços de principais famílias. Aos negros restava a escravidão e aos índios, chamados tapuios, a miséria. Era comum, por exemplo o sequestro de meninais tapuias destinadas à lascívia dos endinheirados. São as “índias de corda”: seus captores furam suas orelhas pela qual passam uma corda que prende uma às outras. Se tentarem fugir, provocam dores atrozes nas outras.
O governador, corrupto, pensa em uma só coisa: enriquecer mesmo que à custa de saquear o povo local.
A língua mais falada não é o português, mas a língua geral, o Nheengatu, língua indígena baseada no tupi e criada pelos jesuítas. 
Um fato que antecipou e, de certa forma provocou a revolta da cabanagem, foi o massacre do Brigue Palhaço.
Quando o Brasil se tornou independente, o Pará não aderiu. Afinal, a capital paraense era mais próxima de Portugal do que do Rio e comércio era todo com a Europa.
D. Pedro manda um mercenário inglês, Lorde Greenfell, para providenciar a adesão do estado ao império brasileiro.
Greenfell faz um acordo com as principais famílias, que aceitavam aderir à independência em troca de manter o status quo.
A população pobre se revolta: esperava-se que a adesão do Brasil à independência mudasse alguma coisa na situação política e social do estado, mas continua tudo como estava.
A rebelião estoura: as pessoas saem às ruas saqueando os comércios dos portugueses. A repeensão, efetuada pelo mercenário é cruel e aleatória. Ele envia seus soldados, que recolhem todos que encontram na rua e, sem qualquer julgamento, os aprisiona no porão de um navio, o Brigue Palhaço.
Eram 256 pessoas aprisionadas em um espaço mínimo, num calor extremo, sem água ou comida. A ideia era matá-los de fome e sede, mas quando o gemido agonizante dos aprisionados começou a incomodar os soldados, Greenfell mandou dar tiros a esmo no porão. Não deu certo. Os gritos de agonia continuaram. A solução foi radical: jogar cal no porão, asfixiando os prisioneiros. De todos, apenas uma pessoa sobreviveu.
Essa tragédia marcaria para sempre a história do Pará e seria, anos mais tarde, o estopim para a revolta dos cabanos.
Compre o meu livro Cabanagem no site da editora: https://aveceditora.com.br/produto/cabanagem/

Demolidor – Nas mãos de Mercenário

 


O primeiro grande evento do título do Demolidor na fase Frank Miller foi o confronto com o Mercenário nos números 160 e 161.

Nessa fase o roteirista ainda era Roger Mackenzie, que parecia cada vez mais se adaptar ao estilo e aproveitar ao máximo as potencialidades narrativas de Miller.


O casal na rua era Peter Parker e Mary Jane, mas a Abril suprimiu a referência. 


A história começa com uma sequência eletrizante com a Viúva Negra entrando em seu apartamento e dando de cara com o Mercenário, que pretende usá-la como isca para se vingar do homem sem medo. A espião se revela uma adversária formidável, mas é difícil lutar contra alguém que pode usar qualquer coisa como arma.

Essa sequência inicial é uma demonstração perfeita de como Miller era um narrador visual revolucionário. Ele brinca com a diagramação, fazendo quadros que esticam por todo o sentido vertical ou horizontal da página. E usa isso como elemento para dinamizar a ação. À certa altura, por exemplo, o mercenário derruba um candelabro sobre a heroína e o quadro esticado amplia a impressão de algo caindo.

Miller esqueceu de tirar as luvas do herói. 


A história tem direito até a referências a outras séries da Marvel. Num dos quadros, por exemplo, Matt Murdock vê um casal na rua e pensa: “Como eu gostaria que Heather e eu fôssemos um casal como esse. Não parecem ter nenhuma preocupação na vida”. O casal sorridente, que passa lá embaixo é composto por ninguém menos que Peter Parker e Mary Jane Watson, o que torna a cena irônica, já que o Homem-Aranha é conhecido exatamente por seus problemas pessoais. Em tempo: quando a Abril publicou essa história em superaventuras Marvel, a editora simplesmente cortou a referência.

Há também um erro narrativo, um descuido, provavelmente de Miller. Quando entra no apartamento da Viúva Negra e descobre que a ex-namorada foi sequestrada, o Demolidor percebe que o autor é o mercenário graças a uma foto de Natasha com os círculos concêntricos que caracterizam o Mercenário. Como é cego, ele usa o tato para visualizar a imagem. Mas na cena ele aparece usando... luvas!

A sequência do parque de diversões é simplesmente eletrizante. 


Tirando as referências e pequenos erros, a história se destaca mesmo é pela narrativa frenética, que encontra seu auge na sequência do parque de diversões, onde o mercenário prende a Viúva Negra. O cenário é ideal para os planos e ângulos inusitados nos quais Miller era um mestre.

Infelizmente, toda essa preparação tem um fim pífio, com o Mercenário tendo um surto e sendo facilmente derrotado, algo que foge completamente de tudo que havíamos visto sobre ele até então.

A gramática dos super-heróis

 



 Algo que tenho percebido em muitas pessoas que produzem quadrinhos de super-heróis no Brasil atualmente é um desconhecimento dos elementos que compõe um gibi de super-heróis.

Embora os super-heróis tenham surgido no final da década de 1930, foi na década de 1960 que caras como Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko, John Romita e Joh Buscema definiram a linguagem definitiva dos super-heróis. O jeito Marvel de fazer quadrinhos era tão inovador, tão poderoso, que a partir daí tudo que foi feito rezou pela cartilha Marvel (mesmo a antagonista DC Comics acabou depois acompanhando essa cartilha).
Assim, para fazer super-heróis é essencial ler clássicos como o Quarteto Fantástico de Lee e Kirby ou o Homem-aranha de Lee-Ditko-Romita. A linguagem está ali, em estado puro, pronta para ser estudada, aprendida e, se for o caso, revolucionada. Os caras que na década de 1980 revolucionaram o gênero, como Frank Miller e Alan Moore conheciam essa gramática dos super-heróis de cor e só conseguiram fazer algo inovador por causa desse conhecimento.
Então, vamos conhecer um pouco dessa "gramática".

Continuação 

A grande inovação da Marvel foi apresentar histórias em sequência, dentro de uma cronologia. Hoje praticamente todo mundo faz isso, mas na época era novidade. Na DC, por exemplo, era raro uma história que não concluísse dentro de um gibi.  Mas se a continuação pode ser interessante, pode também ser uma armadilha. Imagine o leitor que vai na banca, compra um gibi que não conhece e, ao lê-lo descobre que a história não termina ali, a história para no meio da ação, às vezes no meio de um diálogo. O que o leitor faz? Ele joga fora o gibi. A sequência pode ser interessante, mas para isso precisa ser bem trabalhada, precisa prender a atenção do leitor e levá-lo a comprar o próximo gibi.

A história termina em uma situação de suspense: gancho para o próximo gibi. 

Uma forma de fazer isso são os famosos ganchos: uma situação de suspense no final do gibi que deixa o leitor curioso para comprar o próximo número. Imagine: o herói está caído e alguém se aproxima para arrancar sua máscara. Sua identidade será descoberta? Compre o próximo gibi e descubra! Isso vicia o leitor. Outra forma é fazer uma mini-conclusão, como se cada gibi fosse um capítulo de um livro. Uma parte do conflito é resolvida no final daquele gibi, mas há algo maior, que o leitor só saberá como acaba lendo os próximos gibis.
O conflito foi resolvido. Mas a história terminou? Isso você só saberá no próximo gibi. 


Stan Lee e Jack Kirby nos seus melhores momentos experimentavam uma união dessas duas estratégias. Uma parte do conflito era resolvida, só para surgir um conflito ainda maior em seguida. Thor estava para ser derrotado por um inimigo invencível. Então surgia um ser poderoso e derrotava o vilão (o que fechava a trama daquele gibi). Mas aí o leitor descobria que o ser poderoso só havia feito isso porque ele mesmo queria ter a honra de matar o herói (e aí temos o gancho para o próximo gibi).

Muitas vezes o gancho desembocava no próximo gibi numa cena impressionante, numa... splash page!



Splash page ocupando a primeira página. 

Splash page

Lee e Kirby sabiam que os quadrinhos são uma mídia visual. Páginas e páginas de diálogos não são nada diante de uma imagem poderosa, de impacto, ação, especialmente para os leitores de super-heróis. Assim, colocar uma splash page no início de cada história era uma forma de agarrar o leitor, conquistá-lo já no começo. A primeira coisa a se dizer sobre  splash page é que ela deve ser uma cena de impacto e deve ser relevante para a história. Uma sequência de diálogo, por exemplo, não funciona como splash page (uma vez Kirby fez uma splash page de diálogo, mas eram dois deuses conversando algo grandioso, em um cenário grandioso, de modo que acabou valendo).

Splash page de página dupla, ocupando as páginas 2 e 3. 

Splash page deve concentrar toda a ação, mistério, suspense da história. Ela pode vir na primeira página. Ou na segunda, ou terceira página, sendo consequência direta do que veio antes. Um exemplo nesse sentido: o herói entra no esconderijo do vilão e a primeira página o mostra entrando. Na segunda ou terceira página ele está lá dentro e está sendo atacado por todos os lacaios do vilão numa imagem de tirar o fôlego!

Sequência de ação que desemboca numa splash page. 

Lembrando que a splash page, embora seja normalmente uma página inteira, pode também ocupar duas páginas, tendo ainda mais impacto. Em tempo: é na splash page que são colocados o título da história e os créditos.

Recapitulando


Nas histórias da Marvel a recapitulação sempre é integrada à história. 

Como as revistas da Marvel eram quase todas em continuação e nem sempre o leitor havia comprado o gibi anterior, Stan Lee inventou um estratagema para situá-lo. Era praticamente uma norma que nas primeiras páginas o roteirista situasse o leitor dentro da história. Para isso ele deveria, obrigatoriamente, com o texto, responder a três perguntas: Quem? Onde? O que está acontecendo? Alguns roteiristas chegavam até mesmo a colocar essas perguntas no texto, respondendo-as.


Esses são alguns elementos básicos. Para melhor entendê-los (e perceber outros elementos) vale a dica do início: ler os clássicos. Vale a pena comprar uma antologia de histórias clássicas da Marvel e aprender um pouco como essas histórias eram feitas.

Fundo do baú - Vovô viu a Uva

 


Vovô viu a uva (These Are the Days) foi uma das três tentativas da Hanna-Barbera de produzir programas “sérios” para o sábado de manhã (as outras foram Korg e Devlin, o motoqueiro) e, apesar de ter sido bem recebida pela crítica, foi um fracasso de audiência, tendo apenas uma temporada, com 16 episódios.

O programa foi criado de olho na popularidade da série Os Waltons, com histórias bucólicas e ingênuas situadas em um pequeno vilarejo na virada do século XIX para o século XX.

Assim, Vovô viu a uva se passa na pequena cidade de Elmsville e é focada na família Day constituída por uma jovem viúva, seus três filhos e o pai, dono da mercearia local. O avô, aliás, acaba se tornando o personagem principal, com suas invenções sempre muito criativas, como um chuveiro movido a um pedal de bicicleta.

As histórias giravam em torno da interação da família Day com os vizinhos, geralmente terminando com uma lição aprendida por todos.

No episódio A fonte hidromineral, ao tirar uma raíz de árvore, vovô descobre uma fonte de água quente capaz de curar pessoas com dores no corpo, o que pode transformar a fazenda em um negócio lucrativo. Um amigo do vovô, Hommer, ajuda no início, chegando inclusive a colocar anúncios nos jornais, mas o vovô se nega a torná-lo sócio da fonte baseando em um axioma que lhe foi dito pelo caixeiro viajante que comprou sua mercearia: “Sentimentos e negócios não se misturam”.

No final, dá tudo errado e quando vai tentar conseguir de volta a mercearia, o vovô descobre que o lema “Sentimentos e negócios não se misturam” afastou todos os fregueses do local.

A lição aprendida é que não se deve colocar o lucro acima das amizades.

Uma curiosidade é que o título nacional, Vovô viu a uva, é uma referência a uma frase usada no passado para ensinar crianças a lerem.