sexta-feira, março 27, 2026

Ken Parker – Os pioneiros

 

Algumas histórias de Ken Parker poderiam facilmente serem adaptadas para o cinema – e com certeza dariam bons filmes.

O episódio Os pioneiros, número 53 da série, é um exemplo. A história tinha toda a estrutura para se transformar num bom filme.

A trama começa com Ken Parker salvando um fazendeiro no meio de uma tempestade areia. O homem havia tentando ir para a cidade chamar um médico para o filho, que arde em febre. Pioneiro da região, ele viu o rio secar e toda a sua fazenda se transformar num verdadeiro deserto.

Trevisan dominava perfeitamente a narrativa visual. 


Essa história tem um enredo muito parecido com o de um filme famoso, Os brutos também amam: um desconhecido chega a uma fazenda com sérios problemas, passa a ser idolatrado pelo filho do casal e desperta a paixão da esposa do fazendeiro.

Mas Giancarlo Berardi traz questões e dilemas que vão muito além de Os brutos também amam. Uma das mais interessantes é caracterizar o fazendeiro como um pacifista, que jogou fora a única arma que tinha em casa. A trama toda gira em torno desse dilema: pode alguém pacifista continuar íntegro no meio de um ambiente bruto como o velho oeste?

A sequência em que Parker ensina o garoto a caçar é memorável.


A edição traz momentos memoráveis: Ken Parker ensinando o menino a caçar; a esposa enlouquecida com a morte do filho mais novo; a própria tempestade de areia. Essas sequências são destacadas pelo ótimo desenho de Trevisan, com traços soltos e rápidos e ótima narrativa visual. 

Homem-Aranha – A volta do Dr. Octopus

 

No número 11 da revista do Homem-aranha, Stan Lee E Steve Ditko trouxeram de volta um vilão que se tornaria um dos mais importantes do panteão do personagem e inauguraram algo que seria uma das marcas da série: a identidade secreta interferindo na vida amorosa de peter Parker.

A splash page inicial, genial por sua capacidade narrativa, já dava o tom da história. Betty Brand soca o peito do homem-aranha e diz: “Eu te odeio, Homem-aranha! Vou te odiar até o dia da minha morte!”. A legenda, acondicionada dentro de um ponto de interrogação: “Estará o Homem-aranha fadado a perder sua amada Betty Brand? Como isso aconteceu e por quê?”. Ao fundo, a sombra do doutor Octopus estende seus tentáculos sobre os dois. A legenda afirma no melhor estilo marqueteiro da Marvel: “Ninguém a não ser Stan Lee, poderia ter escrito essa história épica! Ninguém menos que Steve Ditko poderia ter desenhado cenas tão arrebatadoras”.

Uma aula narrativa numa única página. 


Na história, o Dr. Octopus termina de cumprir sua sentença e vai ser libertado. O Homem-aranha resolve visitar o presídio para tentar convencer o diretor a não libertar o vilão, o que mostra que Peter Parker poderia ser um gênio da ciência, mas não entendia nada de direito.

Claro que o diretor não aceita a sugestão e Parker resolve monitorar o vilão criando o rastreador aranha, que aparece pela primeira vez nessa história, embora ainda não tivesse esse nome.

Homem-aranha, seu desastrado. 


Para provar que o Homem-aranha era um personagem diferente até mesmo dos diferentões da Marvel, temos uma situação inusitada: à certa altura, ele cai de mal jeito e machuca o tornozelo. Quem poderia imaginar o Thor passando por algo semelhante?

Até o último homem

 

Até o último homem conta a história real do herói de guerra Desmond Doss, interpretado por Andrew Garfield. Objetor de consciência, Doss se recusava a pegar em armas, ou matar. Mesmo assim foi para a guerra para ajudar os soldados como médico. Chamado de covarde e quase levado à corte marcial, Doss conseguiu salvar 70 soldados feridos. Depois de uma investida fracassada, todas as forças recuaram e descem o despenhadeiro, e só ele fica lá no alto de uma montanha, resgatando os soldados feriados em meio ao bombardeios e patrulhas de soldados inimigos.
Até o último homem é a história de um homem que coloca suas convicções e princípios acima do grupo. A maioria das pessoas se adequa ao grupo, mesmo que isso vá contra aquilo que eles acreditam como certo. Cristão adventista, Doss acredita que matar é pecado e não se deve revidar uma agressão. Isso o faz enfrentar agressões dos colegas e todo o comando do exército para, ao final, ir para a guerra sem nada além de gaze, morfina e outros medicamentos.  
O diretor, Mel Gibson, consegue equilibrar perfeitamente a narrativa, o conflito interno do personagem (que é acusado por todos de covarde) é tão interessante quanto o conflito externo. O expectador sabe que ao final ele irá se revelar um herói (está na sinopse do filme), mas ainda assim fica hipnotizado pela narrativa. Gibson sabe filmar cenas de guerra, mas é ainda mais certeiro ao filmar as cenas de salvamento. Todo o esforço do soldado que passa a noite inteira andando pelo campo inimigo rezando para salvar mais um é sentido na pele pelo telespectador. E não tirá-los do campo inimigo: ele precisa descê-los pelo despenhadeiro com uma corda. A atuação de Andrew Garfield, aliás, ajuda muito.
Ao terminar, ficamos nos perguntando como seria o mundo se tivéssemos mais cristãos como Desmond Doss.

A criatividade é o oposto da burocracia

 

O conceituado sociólogo italiano Domenico De Masi afirma que o século XXI será o século da criatividade. De fato, mais que qualquer bem material, a criatividade é um dos bens mais valiosos da atualidade.


Vejam, por exemplo, Bill Gates. O que fez dele o homem mais rico do mundo? Terras? Ouro? Fábricas? Não. O que ele tinha era uma idéia que facilitava o uso dos computadores.

A primeira e mais importante coisa para se dizer a respeito da criatividade é que ela é o oposto da burocracia.

O burocrata faz sempre as mesmas coisas, do mesmo jeito, e nunca erra, mas também não cria nada.

Você já reparou que quando um time está sendo incapaz de inovar, de surpreender o adversário, o locutor diz que a equipe está jogando um "futebol burocrático" ? E é isso mesmo: o burocrata é aquela pessoa incapaz de encontrar soluções novas para os problemas, seja um jogador de futebol ou um político.

A burocracia surge onde há o medo de errar.

Há chefes que dizem aos seus subordinados: "Não admito erros!". Se alguém lhe mostra um trabalho que apresenta algum problema, ele a repreende severamente.

Outros dizem: "Tenho sempre razão e demito qualquer funcionário que me disser o contrário".

Chefes assim são criadores de burocratas, pois seus subordinados, com medo da bronca, vão sempre fazer as mesmas coisas que já deram certo anteriormente e vão sempre concordar com ele. Ou seja, serão incapazes de criar.

Santos Dumont errou muito antes de inventar o avião. 



Os exemplos de invenções que começaram com erros são inúmeros. Santos Dumont, por exemplo, passou por vários vexames antes de conseguir criar um avião capaz de voar.

Muitas vezes o novo surge justamente do erro. O Champagne foi um vinho que fermentou. Cristóvão Colombo achava que chegaria às Índias navegando para o oeste. Errou feio, mas descobriu a América.

E quantas outras invenções e descobertas não surgiram em decorrência do erro?

Mas quem tem medo de errar, e incute esse medo em seus funcionários, fica parado, não evolui, e leva a breca.

Há algum tempo a revista Exame publicou uma matéria intitulada "A excelência mata". Nela, temos contato com vários casos de empresas que fracassaram por serem certinhas demais, em outras palavras, burocráticas.

Um ótimo exemplo é a Olivetti. Ela durante muito tempo dominou completamente o mercado de equipamentos para escritórios, fabricando máquinas de escrever.

Quando surgiram os primeiros computadores pessoais, os PCs, ela resolveu não investir. Afinal, os computadores eram caros e na época só os nerds pareciam se interessar por eles.

A Olivetti teve medo de errar e hoje está com um mercado que em breve não terá mais demanda.

Claro que passar o resto da vida se conformando com os próprios erros não vai tornar ninguém mais criativo, mas compreender que o erro é um risco quando se quer ser criativo, já é bom caminho.

Nas palavras de Domenico de Masi: "Enquanto o burocrata tem razão nove vezes em dez, o criativo, erra nove vezes, mas quando acerta uma vez, está abrindo novos caminhos para a humanidade. Na sociedade pós-industrial haverá cada vez menos lugar para burocratas".

Perry Rhodan – Comboio para o desconhecido

 


K.H. Scheer é um dos criadores da série Perry Rhodan e também um de seus melhores autores. Somente ele poderia salvar o volume número 238, no qual não acontece praticamente nada.

A história gira em torno da tentativa de descobrir um planeta que possa servir de base e esconderijo para os terranos no sistema Andro-Beta. Há, no começo, um conflito entre Atlan e Perry Rhodan, já que o primeiro autorizou que uma das naves saísse em busca de um planeta apropriado quando a Crest ainda estava presa em uma armadilha dos Duas Trombas. Nessa, como em todas as outras situações, Atlan tem razão. Aliás, é incrível a quantidade de enrascadas nas quais Rhodan se envolve por não escutar o arcônida, uma situação que vai se repetir diversas vezes durante o quinto ciclo.

A nave pesquisadora inclusive introduz um disfarce, com várias aletas que modificam seu formato, o que será fundamental mais tarde para disfarçar a presença dos humanos no sistema.

A capa original alemã. 


Mais da metade do livro é dedicada aos preparativos para ocupar o planeta gelado. O que salva são as ótimas descrições, a exemplo de: “Um monstro atravessava velozmente os grandes espaços cintilantes da nebulosa Andro-Beta. A cauda de mil e duzentos metros de comprimento e quatrocentos metros de diâmetro fazia chicotear as ondas de impulsos energeticamente condensadas e expelidas em alta densidade”.

A ação só começa mesmo no penúltimo capítulo, quando uma frota inimiga aparece nas proximidades do local escolhido e a nave de Atlan precisa afastá-la dali. Atlan cria todo um estratagema: uma nave menor, pilotada por piloto automático, é maquiada e colocada no espaço para simular uma perseguição, dando a entender que a nave maior apenas passara pelo local em busca de outra.

Scheer demora muito para começar a ação, mas quando começa, o faz com maestria. Na Segunda Guerra Mundial, ele tinha sido tripulante de submarino alemão, e isso fazia dele a pessoa certa para narrar o combate entre naves.

O escritor chega ao detalhismo de se preocupar até mesmo com a questão do barulho provocado pelos canhões e pelos impactos dos tiros das naves inimigas. “Os novatos quase chegavam ao ponto de enlouquecer. Não era por nada que o regulamento de combate exigia o uso de trajes espaciais que incluíam capacetes de isolamento acústico e grossos tapa-ouvidos.”

quinta-feira, março 26, 2026

O processo de elaboração da capa do livro Cabanagem

 

O ilustração da capa elaborada por Chris Ciuffi para meu livro Cabanagem está recebendo os mais diversos elogios. De fato, é uma ilustração poderosa, belíssima, que conseguiu reunir os diversos elementos do livro, em especial o histórico e o mitológico. É uma capa que "conta a história".
Mas para chegar a esse resultado realmente fenomenal foi necessário todo um processo. Entenda quais foram os passos desse processo. 
Esse foi o primeiro esboço do desenhista, só com os elementos básicos, mostrando como seria a composição da ilustração. 

Aprovado o esboço, Chris produziu uma imagem mais detalhada de como seria a capa. Eu considerei que o personagem dentro da água deixaria a cena mais emocionante. Além disso, na imagem final, o personagem trocou o facão e a arma de fogo de mão. Um problema deste desenho que foi consertado foi justamente a arma de fogo: Chris desenhou um revólver, que não existia na época, e foi substituído por uma garrucha no desenho seguinte. 

Aqui o lápis definitivo. Eu gostei muito da imagem, mas o rosto do personagem me incomodou, pois os traços davam um ar de maldade, deixando a impressão de que ele era o vilão da história. .Nessa imagem já aparecem sombras ao fundo, que representam os seres da floresta. A ideia aí não era mostrar diretamente esses seres mitológicos, mas apenas sugeri-los, algo que faço muito no próprio livro. O desenhista inclui aqui uma cobra vindo na direção do cabano. Embora essa cena não exista no romance, ela deu dramaticidade à imagem e a impressão de perigo ininente.  
Essa foi a versão definitiva do lápis. A imagem ficou tão boa que bastou colorir. A versão colorida dessa imagem se tornou a capa definitiva, sendo necessários apenas alguns ajustes.
 Essa é a versão colorida do último desenho. Ficou muito boa, mas foi necessário uma pequena mudança: o facão estava confundindo com o fundo e sugeri que fosse dado um brilho de metal nele, destacando sua lâmina.
O livro já pode ser comprado no site da editora: https://aveceditora.com.br/produto/cabanagem

Os trabalhos de Hércules: um caso de Herculie Poirot

 

Os trabalhos de Hércules é um livro de contos de Agatha Christie em que todas as histórias são protagonizadas pelo seu famoso personagem, Hercule Poirot. 
A autora aproveita o fato de seu personagem ter o mesmo nome do herói grego e a ironia disso, já que Poirot parece o oposto do brutamontes Hércules.
Assim, o detetive se propõe, como forma de encerrar sua carreira com chave de ouro, 12 trabalhos, mas trabalhos intelectuais, que exijam astúcia, ao invés de músculos. 
Uma das curiosidades do livro é a forma como a autora consegue criar metáforas atuais para os trabalhos de Hércules. Assim, o Leão da Nemeia vira um cachorrinho pequinês, a Hidra de lerna uma fofoca (que se espalha como as cabeças da Hidra), a corça da Arcádia uma bailarina etc.
Apesar desse aspecto curioso, o livro prende pouco no início, afinal algumas das histórias parecem pueris (como descobrir quem sequestrou o cachorro pequinês). O Javali de Erimanto é o primeiro conto a mostrar a autora policial em toda a sua forma: um famoso bandido está em um hotel afastado e isolado do resto do mundo pela neve e Poirot precisa descobrir qual dos hóspedes é ele.
Em comum a todos os contos a incrível capacidade de Agatha Christie de sempre imaginar um final surpreendente. Até quando a história parece muito simples e seguir um único caminho, ela consegue pensar em uma abordagem diferente, que surpreende o leitor. Atenção para o conto "O cinto de Hipólita": o final é absolutamente genial. 

A carpa e o dragão

 

 


Uma das características do roteirista Giancarlo Berardi (criador tanto de ken Parker quanto da criminóloga Júlia) é a sutileza com que ele consegue colocar informações em suas histórias de maneira absolutamente natural.
Exemplo disso é a história “A carpa e o dragão” publicado no volume J. Kendall – as aventuras de uma criminóloga especial, da editora Mythos.
A HQ se passa no passado da personagem, quando ela ainda era uma estudante e acompanha o professor à cena de um crime, um massacre realizado pela gangue Yakusa. À certa altura o professor dá uma bronca na aluna, advertindo-a que ela não conhece nada sobre o Japão. Isso a leva ao bairro japonês de Garden City e uma verdadeira aula sobre o oriente. Em sua pesquisa, Júlia entra em uma loja de livros e gravuras e acaba fazendo amizade com o jovem e elegante dono (pelo qual ela irá eventualmente se apaixonar).
Os diálogos inserem informações históricas de forma natural. 


Mestre absoluto do diálogo, Berardi (aqui com a ajuda de Lorenzo Calza) recheia de informações a conversa entre os dois sem parecer didático. Uma das técnicas, por exemplo, é a questão do presente histórico, em que eles falam dos autores das gravuras no presente, como se estivessem vivos, o que acaba se tornando uma anedota.
Por outro lado, um sonho de Júlia é usado para referir à famosa xilografia A onda, de Katsushiko Hokusai e, ao mesmo tempo, revelar os sentimentos da protagonista pelo dono da loja.
O roteiro ainda acerta ao mostrar as reuniões da Yakusa acontecendo num açougue, com os porcos dependurados refletindo os cadáveres da luta entre facções. Aliás, esse uso inteligente do cenário é usado, por exemplo, no momento em que o dono da loja conversa com Júlia e vemos em primeiro plano uma e um dragão, com os dois personagens no meio, revelando o conflito entre a paixão dos dois e a tradição.

Jornada nas estrelas – Um lobo entre cordeiros

 


Robert Bloch, autor do livro que daria origem ao filme Psicose, escreveu três roteiros para Jornada nas estrelas. Depois do fraco dia das bruxas, ele finalmente acertou com Um lobo entre cordeiros, episódio da segunda temporada.

Na trama, Kirk, Scott e MaCoy estão no agradável planeta Argelius II, um local habitado por pessoas pacíficas cujo único objetivo na vida parece ser o prazer. A folga faz parte do processo de recuperação de Scott, que sofreu um golpe na cabeça durante seu serviço na Enterprise.

No café onde estão apresenta-se uma bailarina de dança do ventre (em uma longa e belíssimas sequência inicial) e o engenheiro-chefe da Entreprise fica apaixonado por ela, convidando-a para um passeio pelas ruas enevoadas. Mas a garota é morta e Scott é o principal suspeito. Ele não se lembra de nada e uma tripulante da nave desce com um tricorder para ler a mente de Scott, mas também é morta quando está sozinha com ele num cômodo da casa do prefeito. A esposa do prefeito é especialista em uma técnica chamada “contato Empático Argeliano” e também é morta quando tenta usar a técnica no engenheiro – em uma ótima sequência em que estão várias pessoas em círculo, as luzes apagam e quando acendem, Scott está ao lado da moça, as mãos sujas de sangue.

Esse episódio é uma trama policial que vai do noir à Agatha Christie e, ao mesmo tempo, leva o gênero para a ficção científico e até para a fantasia, quando surge a suspeita de que os crimes poderiam estar de alguma forma relacionados aos assassinatos cometidos por Jack, o estripador. E faz isso muito bem, mantendo o expectador no suspense sobre a culpa de Scott. Além disso, o episódio consegue incluir deliciosas cenas de humor que fazem todo o sentido dentro da trama.

Tropa Alfa – Que o tempo vá em seu encalço

 


No número 18 da revista da Tropa Alfa uma parte do grupo enfrentou uma ameaça ancestral chamada Ranaq. No número 19 o grupo resolve voltar 100 anos ao passado para deter a aquela mesma ameaça.

Antes de partirem, Shaman pede que a filha vasculhe a bolsa de medicina em busca de algo. “Se o que estou dizendo for verdade, você vai encontrar a coroa do encantamento!”. De fato, a garota encontra uma tiara que, uma vez colocada em sua cabeça, faz com que ela ganhe um uniforme e um nome: Talismã.

Byrne introduz uma nova personagem no grupo: Talismã. 


O grupo retorna para Calgary a tempo de presenciar um acordo inusitado: um cowboy força um feiticeiro indígena a trazer para nosso plano o demônio Ranaq. Seu objetivo é conseguir riquezas. “Então tente fazer aquilo que ninguém jamais conseguiu... controlar uma grande fera!”, diz o feiticeiro.

De fato, o demônio só não mata o cowboy e seu ajudante porque eles estão usando colares indígenas, mas Ranaq é esperto e faz com que o cowboy tire o colar para desfrutar de uma bela mulher. A mulher, no entanto, se revela um monstro.

O grupo volta ao passado para fazer... nada. 


No final, apesar da intervenção da Tropa Alfa, quem acaba resolvendo tudo é o ajudante do cowboy, como, aliás, ele teria feito, se o grupo de heróis não tivesse aparecido. Ele, no entanto, fica cativo de uma promessa de que um dia alguém querido a ele seria usado para trazer a fera de volta, o que faz com que ele viva uma vida de isolamento.

Talismã argumenta que eles podem interferir para que não seja assim, ao que o pai responde: “É preciso, filha. Sempre foi assim. O fato de viajarmos no tempo não nos permite inteferferir nos eventos! Seria muito perigoso!”.

Um demônio é revivido. 


Sério, ao ler isso, pensei: então por que cargas d´água eles viajaram no tempo já que a viagem não mudaria nada?

Afinal, a história toda não tinha importância nenhuma.

Uma linda garota se revela um monstro. 


Os editores da Abril devem ter pensando algo semelhante, tanto que retalharam a história, cortando nada menos que três páginas. Curiosamente, o corte não atrapalhou a compreensão da HQ.

quarta-feira, março 25, 2026

Elric de Melniboné – a traição ao imperador

 


Elric, criação do escritor inglês Michael Moorcock, é um personagem de espada e magia totalmente diferente do padrão do gênero. Estamos acostumados a heróis (ou anti-heróis) no estilo Conan: homens fortes, enormes, meio brutos e valentes. O gênero, aliás, surgiu como uma ode à barbárie em contraste com a decadente civilização. Já Elric é o oposto de tudo isso.

A descrição do personagem, logo no início do primeiro livro A traição ao imperador já destaca boa parte dessas diferenças: “Sua pele tem a cor de um crânio esbranquiçado; e o longo cabelo que escorre abaixo dos ombros é branco como leite. Da cabeça afilada, dois olhos oblíquos observam, rubros e taciturnos, e das mangas largas do seu manto amarelo emergem duas mãos esguias, também da cor de ossos, descansando cada uma em um braço de uma cadeira esculpida em um único e enorme rubi”.

Elric é frágil, de saúde debilitada, imperador de um povo decadente, mas não é arrogante. Aliás, é constantemente censurado pelos seus súditos por ser excessivamente misericordioso. Além disso, prefere ler a batalhar. Quando finalmente batalha, o faz arrastado pelos acontecimentos e o destino quando seu primo Yrkoon tenta ocupar o trono de rubi. Mas, seja pela magia ou seja por sua força de vontade, ele consegue vencer os obstáculos

Moorcock revolucionou o gênero não só ao apresentar um herói totalmente diferente dos outros, mas também por escrever histórias repletas de discussões filosóficas, questões morais e simbologias – à certa altura, por exemplo, Elric entra numa caverna, onde renasce. E a caverna é uma clara metáfora do útero de uma mãe.

Provavelmente por suas características, Elric permitiu uma grande identificação com os jovens leitores desde que surgiu, em 1972. Neil Gaiman, por exemplo, diz que se deliciava com as aventuras do rei e que sonhava ser como ele.

Embora tivessem uma legião de leitores mundo a fora (e o personagem fosse conhecido entre nós pelos quadrinhos da Marvel), os livros da saga de Elric ainda eram praticamente inéditos no Braisl. A editora Generale corrigiu essa lacuna em 2014 com a publicação de A traição ao imperador em uma bela edição em capa dura e vem publicando aos poucos outros volumes da série.

Alan Moore, o mago supremo

 


Alan Moore, o mago supremo é uma publicação de Caio Oliveira (da editora Quinta capa) que satiriza o universo dos quadrinhos, mais especificamente o relacionado ao bardo Alan Moore, representado no gibi como uma espécie de Dr. Estranho barbudo (vale lembrar que Moore é um auto-nomeado Bruxo). A piada já inicia pela capa: seu ajudante é ninguém menos que Grant Morrison, que na verdade quer ser o mago supremo no lugar do mago supremo. 
Neil Gaiman aparece como Pesadelo 


Quem entende de quadrinhos vai rir da primeira à última página com sacadas geniais, como colocar Neil Gaiman como Pesadelo e Rob Liefield como Loky ("Morrisowong, esconda a prataria, Loki Liefield, deus da trapaça, materializou-se").
Rob Liefield é Loki. 


Para quem não é tão fã provavelmente será necessário dar uma lida no texto final, que explica algumas das piadas. Ou seja: é uma revista de um fã de quadrinhos para outros fãs.

Jornada nas estrelas – Missão de misericórdia

 


A mitologia de Jornada nas Estrelas foi sendo elaborada aos poucos, conforme os episódios isolados iam sendo escritos e produzidos. Mesmo assim, é de uma riqueza única. Exemplo disso é o episódio Missão de Misericórdia, da primeira temporada da série clássica.
Esse episódio introduz os principais inimigos da federação, o império Klingon. Uma guerra entre ambos parece iminente e um planeta ocupado por fazendeiros, Orgânia, torna-se essencial nessa guerra graças à sua localização estratégica. A Enterprise é enviada para o local para tentar convencer os líderes do planeta a se aliarem à Federação. Enquanto Kirk tenta convencer os habitantes locais de como será útil essa aliança (e como seria terrível ficar sob jugo de uma ditadura militar klingon), uma frota Klingon se aproxima e a Entreprise é obrigada a se evadir, deixando Kirk e Spock no planeta.
A história é interessante por contrastar a Federação e seus métodos democráticos e os Klingons e sua sociedade militar (e, nesse sentido, é bem óbvia a crítica do roteirista Gene L. Com). Mas nem tudo é preto e branco: afinal, a federação quer o planeta exatamente para ganhar a guerra.
A dinâmica entre os dois comandantes, Kor (interpretado por John Colicos) de um lado e Kirk do outro é um dos pontos altos do episódio (Aliás, temos a impressão de que sempre ótimos atores eram escalados para vilões de Jornada). Kor é mostrado com alguém tão capaz e inteligente quanto Kirk, embora seus métodos sejam muito diferentes.
Vale destacar também a inteligência do roteiro, que dribla a falta de recursos com criatividade. À certa altura, por exemplo, Kor resolve fuzilar 200 organianos, uma cena que, se filmada, seria proibitiva. O roteiro resolve isso apenas com o anúncio de que essas pessoas foram mortas.
O final é outro grande momento desse episódio memorável, no qual fica claro, que, embora a Entreprise tenha uma estrutura militar, Jornadas é definitivamente um seriado pacifista.

Maria atrás das grades

 


No início da década de 1970, auge da ditadura militar, a vida não era nada fácil para quem fazia quadrinhos eróticos (ênfase no erótico, em que as situações só poderiam ser insinuadas). Os militares consideravam que o erotismo era uma forma do comunismo internacional destruir a família brasileira.
Na época, um dos maiores sucessos era Maria Erótica, criação de Cláudio Seto e publicada pela editora Edrel. Apesar de ser assediada por todos os homens, Maria era virgem - a ênfase das histórias, com forte influência do mangá, era exatamente o fato do ato consumar (na época Maria nem sequer ficava realmente nua).
A Liga das Mulheres Católicas achou que Maria era comunista (afinal, apesar de ser virgem, ela deixava os homens doidos por ela) e a denunciou aos militares.
Os militares invadiram a editora, em busca do autor, Cláudio Seto, mas este morava no interior de São Paulo e só ia à capital para entregar os originais. Sem poder prender o autor e dar uma satisfação às mulheres católicas, os militares resolverem por uma situação surreal: levaram a própria Maria Erótica presa! Os originais da história foram confiscados e levados para a sede da polícia. 
Maria, presa, coitada, só queria amar.
História retirada do meu livro Grafipar, a editora que saiu do Eixo. 

A arte magnífica de Eddie Ferreira

 


Edson Ferreira de Macena, mais conhecido como "Eddie Ferreira" é um quadrinista e ilustrador brasileiros  natural de Serra da Raiz no interior da Paraíba.

Entre o final dos anos 90 até o ano 2010 por influencia de terceiros,
começou a pintar telas, mas sua paixão eram os desenhos de super heróis

Foi nessa época que conheceu Januncio Neto, e a galera do HQPB, e começou a fazer trabalhos como  colorista digital. Um marco na sua carreira foi a parceria com Fabio Alves, fazia quadrinhos pra autores independentes do mercado americano. 
Entre os trabalhos da dupla estão 
"Banjax" criado pelo roteirista Rylend Grant, e atualmente estão trabalhando no quadrinho "The Jump" do mesmo autor.O trabalho da dulpla rendeu mais de uma indicação ao prêmio Ringo Awards. 

Atualmente Eddie também faze ilustrações freelancer. Também tem feito pin-ups em mídia tradicional que podem ser conferidas no endereço https://www.deviantart.com/eddie-ferreira/gallery