terça-feira, setembro 22, 2026
Monsieur & Madame Adelman
Rei Kull – Da Atlândida ao reino das sombras
A maioria dos autores considera que o marco inicial do subgênero espada e feitiçaria foi a publicação do conto O reino das sombras, escrito por Robert E. Howard e publicado na revista Weird Tales de agosto de 1929. Embora Howard tenha se tornado famoso graças ao Conan, o protagonista daquela primeira história era o Rei Kull.
Esse pioneiro é a estrela do volume Rei Kull – Da Atlândida ao reino das sombras, lançado em 2021 pela Skritp. O livro é uma ótima introdução à obra de Howard, em especial graças aos textos complementares. Um deles, de autoria de Dierk Guenter, analisa não só a influência de Kull no nascimento da espada e feitiçaria e as fontes de inspiração para o mundo do personagem, como defende uma curiosa hipótese: a de Kull era, na verdade, um alter-ego de Howard. Afinal, o escritor se sentia tão alienígena na cidadezinha do interior do Texas quanto o atlante se sentia na Valúsia.
Ao contrário do que eu imaginava, não se trata de uma antologia, com vários contos do personagem. São apresentados apenas três textos de Howard: um breve ensaio sobre o mundo de Kull e os contos Exílio em Atlândida e O reino das sombras.
Apesar disso, é uma obra que agrada aos fãs.
Primeiro porque O reino das sombras é de fato um texto espetacular, a começar pela abertura narrando uma parada militar: “O fragor das trombetas ficou mais alto, como uma intensa maré doura, como a suava arrebentação das ondas noturnas contras as praias argênteas da Valúsia”.
Segundo porque é uma edição caprichada, com uma diagramação que simula pergaminhos antigos. Além disso, os incríveis desenhos de J.L. Padilha ajudam a dar o clima da história.
A louca do sagrado coração – de Jodorowsky e Moebius
A louca do sagrado coração, álbum com roteiro de Jodorowsky e desenhos de Moebius, lançado em 2019 pela Veneta, é um daqueles exemplos de HQs que nos surpreendem positivamente.
A história parece apenas uma crítica ácida ao academicismo. Mangel é um professor da Sorbone que carrega ao redor de si uma legião de fãs tão inveterados que todos eles usam roxo, como o mestre, em sinal de concordância com ele.
Mas, se é uma figura eminente, é também um desastre em sua vida pessoal. Sua esposa o troca por outro, depois de oito anos sem atividade sexual, uma vez que ele se transformou em um “monge universitário”. Dono de um controle emocional lendário, ele não sai do sério nem mesmo quando alguns alunos colocam uma réplica de um cervo, com galhos enormes (em referência ao chifre levado por ele). Como sempre, ele responde com citações dos mais diversos filósofos.
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| Uma das alunas engravida do filósofo acreditando que irá gerar o novo profeta João. |
Essa trama, levemente divertida, com alguns toques de erotimo, não parece sustentar um álbum e de fato não sustenta. A trama começa de fato quando uma aluna decide que ele é a reencarnação do profeta Zacarias, e que deve gerar um novo João Batista. Pior: depois de grávida, ela tem uma visão que coloca um traficante de heroína como o novo São José e a filha de um líder de um cartel de drogas como a Maria que irá gerar o novo Jesus (a nova “Maria” está internada num hospício).
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| A história foi publicada originalmente em cores. |
Nesse ponto a trama, que parecia lenta, desinteressante e arrastada, torna-se um turbilhão, com reviravoltas se sobrepondo a reviravoltas. Reviravoltas quase surreais, mas que fazem sentido dentro da trama. Nesse ponto é impossível largar a leitura.
Jodorowsky mistura essa trama non-sense isso com crítica social, crítica política, psicologia junguiana e sua visão mística do mundo.
X-men – Fênix Negra
“O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente”. Essa frase, dita pelo Professor Xavier em The Uncanny X-men 135 representa muito bem a essência da saga da Fênix Negra.
No número anterior, Jean se transformara enquanto o grupo voltava para casa após enfrentar o Clube do Inferno. Sua transformação destruíra o jato dos mutantes.
E é exatamente nesse ponto que encontramos os personagens no início do número 135.
A sequência seguinte mostra os mutantes enfrentando a Fênix. “Não espere clemência da Fênix Negra, meu amor. Vocês não terão nenhuma!”. E, de fato, a personagem revela poderes avassaladores e inimagináveis, derrotando os amigos como se estivesse numa brincadeira. Wolverine e Colossus são soterrados abaixo de uma árvore de ouro. Ororo é golpeada psiquicamente e fica inconsciente. “Imagens... me atingindo pelo elo psíquico que tenho com Jean... chamas negras consumindo sua alma! Alusões místicas incompreensíveis.... sensação de perda... afogamento... solidão”, pensa Cíclope.
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| Ao se transformar no seu lado sombrio, Fênix destrói a nave. |
O psicólogo Carl Gustav Jung dizia que todos nós temos um lado sombra, para onde vai tudo aquilo com o qual não conseguimos lidar. O que Claremont e Byrne mostram é Jean Grey sendo consumida pelo seu lado sombra. A história lança uma questão interessante: se a inocente Garota Marvel tinha dentro de si uma vilã tão terrível, o mesmo não ocorre com cada um de nós?
Se o roteiro eleva a história muito além do nível dos quadrinhos de super-heróis, Byrne e Terry Austin mostram a transformação de Jean de forma magistral. Efeitos de sombras, áuras, hachuras... tudo é usado para demonstrar o lado sombrio de Jean transformada em vilã.
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| A Fênix Negra destroi um sistema solar. |
É nessa história que a Fênix faz o que decretaria sua morte. Ela vai ao espaço e consome uma estrela, matando bilhões de pessoas no processo. Quando viu essa parte da história, Jim Shooter, editor-chefe da Marvel, decidiu que a personagem tinha que morrer.
PEANUTS: a psicanálise chega aos quadrinhos
Hulk no divã
Colocar Bruce Banner, o Hulk e o Hulk cinza numa sessão de psicoterapia. Essa ideia maluca e revolucionária saiu da cabeça de Peter David e poderia ter se transformado num tremendo fiasco, mas se tornou num grande momento do personagem graças ao bom trabalho do roteirista.
A história, publicada em The incredible Hulk 376 e 377 começa com Bruce Banner simplesmente entrando em pane enquanto dentro de sua cabeça o Hulk verde e o Hulk cinza brigam. No mundo real, isso se reflete numa transformação bizarra, um ser que é uma mistura dos três.
Quando a situação se acalma e Banner é levado para um hospital, Doc Sanson, o herói psicólogo, hipnotiza Banner e começa uma sessão de psicoterapia para entender o que realmente está acontecendo dentro da mente do cientista e suas contrapartes monstruosas.
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| O eixo da história é uma sessão de terapia com Banner e os hulks. |
Aí Peter David aproveita um gancho deixado pelo roteirista anterior, Bill Mantlo (que, segundo alguns, teria roubado a ideia do desenhista Barry Smith). Nessa visão, quando era criança, Bruce Banner sofreu abusos por parte do pai e, em consequência disso, desenvolveu múltiplas personalidades. O problema é que a radiação gama transformou essas personalidades em monstros reais: o Hulk e o Hulk cinza. Essas contrapartes já existiam em sua mente, mas não eram exterioriorizadas. Diante dos traumas, o pequeno Banner se fechou em si mesmo, incapaz de revelar emoções. Assim, o Hulk cinza é a sua contraparte extrovertida, mulherenga, grosseira. Já o Hulk verde é o ódio explosivo que ele sente dentro de si – o que explica porque, com quanto mais raiva o personagem fica, mais forte ele se torna.
O interessante aí é que Peter David e o desenhista Dale Keown acharam uma forma visualmente interessante para mostrar esses conflitos internos. Os conflitos de personalidade são mostrados como lutas entre os hulks. O pai é mostrado como um monstro gigante com uma fileira de dentes assustadores.
Quem diria que uma sessão no divã poderia se tornar uma tremenda história de super-herois.
segunda-feira, setembro 21, 2026
Quarteto Fantástico e Inumamos: caos
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| O alienígena tem massa equivalente à da Terra. |
Pigs on the wing - O Batman da dupla Gian-Bené
Thunderbolts - Justiça relâmpago
No ano de 1997, os Vingadores, o Quarteto Fantástico e alguns dos principais heróis da Marvel foram aparentemente mortos ao tentar conter uma ameaça chamada Massacre.
No mesmo ano, para substitui-los, a Marvel lançou uma nova equipe de heróis, os Thunderbolts, com roteiro de Kurt Busiek e arte de Mark Bagley. A equipe estreou numa aventura do Hulk escrita por Peter David e desenhad por Mike Deodato Jr. Era um teste e agradou os leitores.
Quando a revista finalmente foi lançada, o impacto foi enorme, principalmente graças à reviravolta final: os Thunderbolts eram, na verdade, os vilões Mestres do Mal, liderados pelo Barão Zemo. A ideia de Zemo era aproveitar o vácuo deixado pelos heróis, substitui-los e, assim, conseguir informações privilegiadas.
A ideia tinha ocorrido a Busiek anos antes, quando dirigia para visitar os pais. Para se manter acordado, ele bolava histórias para os vingadores e, numa delas, a equipe Mestres do Mal se fazia passar por um novo grupo de heróis para aos poucos substituir os vingadores
A equipe era formada por Zemo, ironicamente rebatizado de Cidadão V (um herói dos anos 40 que foi morto pelo pai nazista de Zemo), Armador (que se tornou Tecno), Besouro (que adotou o nome de MACH-1), Golias (que passou a se chamar Atlas), Rocha Lunar (agora Meteorita) e Colombina (rebatizada de Soprano).
O curioso aí é que esse grupo realmente existia antes de sua versão heroica e os leitores mais antento podiam comparar as versões antigas com suas novas encarnações.
Outro ponto importante é que alguns dos personagens vão aos poucos gostando do seu papel de heróis e começam a ficar contra Zemo.
A melhor história é o anual da equipe de 97, escrito por Busiek e desenhado por vários artistas, incluindo o veterano Gene Colan.
Na história, uma heroína é ajudada pelo grupo e, por sugestão de Meteorita, passa a integrar a equipe. Ela não sabe as reais intenções da equipe, mas quer saber como a equipe se formou. Cabe ao cidadão v explicar como isso ocorreu sem mentir, mas ao mesmo tempo sem dizer a verdade (o que revelaria que eles são vilões). Aí entra a maestria do texto de Busiek, com falas que têm duplo sentido. Dessa forma, a narrativa conta o que parece ser uma história heroica quando o desenho e os diálogos mostram um grupo de malfeitores se reunindo. O momento em que Zemo decide o nome da equipe é um dos mais interessantes. O nome deveria remeter à II Guerra Mundial, como Stormtroppers e Blitzkrieg: “algo criptofascista... porém amigável”.
O roteiro é tão bem elaborado que até mesmo Mark Bagley na sua fase Image fica suportável.
X-men – A filha da luz e das trevas
No número 136 de The Uncanny X-men, a Fênix Negra volta para a terra após destruir um sistema solar e um cruzador do império Shiar.
O capítulo não poderia ter título melhor: “Filha da Luz e das trevas”. O título expressa perfeitamente a dualidade de uma personagem que é, ao mesmo tempo, luz (Jean Grey) e trevas (a Fênix Negra), além de deixar claro que ambas fazem parte do mesmo ser.
Aliás, vale a pena comentar a splash page de abertura, com a fênix envolvendo o planeta Terra em suas garras a terra, transformando-a em uma bola de fogo. A cena, espetacular, mostra como Byrne e Claremont conseguiam manejar a narrativa para criar suspense e gerar ainda mais expectativa dos leitores.
Ao voltar à terra, a Fênix visita seus pais, com os quais tem um diálogo repleto de nuances, que ficam explícitos nos balões de pensamento. Se por um lado, a personagem está feliz em voltar para a família, por outro, a ocasião a aborrece. Essa variação entre uma e outra, a luz e as trevas, é demarcada perfeitamente por John Byrne e Terry Austin não só neste, mas em outro momento, quando ela conversa com Scott. Só de olharmos a imagem sabemos exatamente quem está no comando.
O ponto alto disso é quando Jean fala com Cíclope: “Eu... tenho fome. Sinto falta de uma alegria... de um êxatase incompreensível. Essa necessidade também é parte de mim... ela me consome”. E, na imagem, vemos o rosto de Jean no meio das trevas criadas por sua cabeleira, como se a personagem estivesse perdida em meio ao seu lado sombrio.
O pianista
Como forma de resistência, começou a esconder fugitivos, a fornecer comida e documentos falsos. Salvou tantos quanto pôde. Mesmo as cartas enviadas à família já seriam suficientes para condená-lo à morte, mas mesmo assim ele continuou praticando o bem até ser preso pelos russos. Apesar dos apelos de muitas pessoas que tiveram sua vida salva por ele, Stalin não abrandou sua pena, condenando-o a 25 anos de trabalhos forçados, praticamente uma condenação à morte na União Soviética stalinista. Ele morreu em 1952, num campo de prisioneiros, aos 57.
A Arte Inesquecível de Arantza Sestayo
Arantza Sestayo nasceu em San Sebastián, no País Basco (Espanha), em 1964. Autodidata na essência, iniciou sua trajetória profissional na década de 1980, dedicando-se inicialmente a retratos, design de cerâmicas e produção de cenários para desenhos animados.
Posteriormente, foi contratada pela Prefeitura de Castellón para decorar a fachada do Ateneo, um centro cultural local de prestígio. Teve publicado o livro Duende, uma coletânea de suas obras que inclui, inclusive, esse célebre trabalho de decoração urbana.
Em 2010, seu livro Wicked Kisses foi lançado internacionalmente em vários países, e ela participou da antologia Vampires; ambos os títulos foram publicados pela renomada Norma Comics.
Com influências profundas do Art Nouveau e do movimento pré-rafaelista, Arantza rapidamente se consolidou como uma das artistas mais requisitadas para ilustrações de fantasia no mercado. Suas imagens trazem geralmente mulheres de cabelos longos em ambientes românticos e fantásticos, misturando um clima de contos de fadas com um erotismo sutil.
Entre os seus trabalhos mais importantes estão capas para a revista Heavy Metal e participações em antologias de ilustrações como Reinas de la Ilustración Española del Siglo XXI (Norma Editorial) e Game of Thrones 20th Anniversary. Ela inclusive foi a artista responsável pelas imagens do calendário oficial de Game of Thrones de 2022 (Harper Collins).













































