domingo, setembro 13, 2026

Os melhores do mundo

 


Super-homem e Batman são os dois mais famosos heróis da DC. Embora sejam totalmente diferentes um do outro, foram unidos em uma das revistas de maior sucesso da Era de Prata, a Word´s Finest (conhecida aqui como Melhores do Mundo). Um dos fãs dessa revista era o desenhista Dave Gibbons, famoso pela série Watchmen. Gibbons propôs à DC fazer uma série, revivendo a parceria. Para desenhá-la foi escalado Steve Rude O resultado foi uma das melhores publicações da década de 1990.
Em muitos sentidos, Melhores do Mundo é o oposto de Watchmen. Se Watchmen teve como principal mérito a desconstrução dos super-heróis, em uma abordagem extremamente realista, Melhores do Mundo é uma homenagem aos heróis e às suas características mais marcantes.
Pelo que pode-se ler do roteiro no final do volume publicado pela Panini, Gibbons deu total liberdade narrativa a Steve Rude, descrevendo apenas sequências, que o desenhista poderia desenvolver de acordo com sua própria narrativa visual. E, meus amigos, Rude é a grande atração da revista. Seu desenho de linhas simples, limpas, mas repleto de detalhes de fundo, é simplesmente perfeito para o projeto. A sequência em que Bruce Wayne visita o Planeta Diário é um bom exemplo disso. Embora o foco seja a convera de Wayne com Lois Lane, as mulheres que passam por eles e olham maravilhadas para o milionário ajudam a caracterizar o alter-ego do Batman como um galã pelo qual todas as mulhes se apaixonam.
O traço limpo e anatômico de Steve Rude era um alívio numa época em que até os músculos dos heróis tinham músculos.

Na história, os vilões fazem um acordo e trocam de cidade: assim, o Coringa vai para Metrópoles e Lex Luthor tenta dominar Gothan. Esse acordo faz com que o Super-homem e Batman também troquem de cidade.
A caracterização dos dois locais é um dos pontos altos da série: Gothan é uma cidade gótica e sombria, suja, enquanto Metrópolis é uma iluminada e dourada cidade art-decó.
Essa dicotomia se reflete também nos protagonistas. Na primeira vez que se encontram, Bruce Wayne e Clark Kent estão abaixo de um relógio, que marca meia-noite e cinco. Wayne diz: “Boa noite”, ao que o outro retruca: “Bom dia”.
Publicada no início dos anos 1990, Os melhores do mundo era um verdadeiro ponto fora da curva numa época em que os heróis estavam se tornando cada vez mais sombrios e violentos e o desenho se tornava uma atração em si (como se fossem pôsteres), deixando a narrativa em segundo plano. Na década de 1990, até os músculos dos heróis tinham músculos.
A série era uma deliciosa volta aos tempos em que os quadrinhos eram apenas divertidos.

Os Novos Titãs contra o Exterminador

 

Já no número dois da revista, os Novos Titãs conheceram aquele que seria um dos principais inimigos da equipe: o Exterminador.

A história começa com uma splash page antológica, na qual o mercenário é inquirido pelos homens da C.O.L.M.E.I.A., que pretendem contratá-lo para destruir os titãs. O vilão exige pagamento adiantado e recusa a empreitada, o que aparentemente estava nos planos do grupo.

Nota: nessa época era comum os quadrinhos de super-heróis terem grupos misteriosos com nomes que eram acrósticos. C.O.L.M.E.I.A. significava Controle de Lideranças Mundiais para Espionagem, Insurreições e Atentados. Parece ridículo atualmente, mas nos anos 70 e 80 era moda.

A primeira e impressionante aparição do Exterminador. 


A C.O.L.M.E.I.A. ira usar um rapaz que aparece no primeiro número como isca para fazer o exterminador aceitar o trabalho. Para isso, eles amplia seus reflexos e o transformam no Devastador.

Mas o que faz dessa história, a terceira dos Novos Titãs, tão especial, não é necessariamente o arranca-rabo entre mocinhos e vilões, e sim a pegada adolescente do título. Os titãs da década de 1960 tinham sido um fracasso exatamente porque não se comportavam como jovens de verdade. Marv Wolfman e George Perez mostram um grupo que se comporta como qualquer adolescente se comportaria, incluindo um divertido banho de piscina.

Estelar aprende inglês beijando Robin. 

Mas a sequência mais emblemática dessa edição acontece quando o grupo decide que o fato de Estelar não falar a língua do restante do grupo é um problema. A garota parece entender e simplesmente beija o Robin, para logo depois sair falando inglês. “Oi Robin”, diz ela. “Sabia que você é uma gracinha?”. E, para um atordoado Kid Flash, que não entendeu nada do que aconteceu: “Contato físico. Eu simplesmente absorvi a língua de vocês”.

Essa sequência mostrava mais uma diferença da série antiga dos Titãs: essa seria repleta de insinuações sexuais. Considerando-se que o grupo era formado por adolescentes com hormônios à toda, isso era algo óbvio, mas nunca havia passado pela cabeça dos roteiristas anteriores.  

Jornada nas estrelas – a marca de Gideon

 


A marca de Gideon, episódio da terceira temporada escrito por George F. Slavin Stanley Adams, é um daqueles momentos da série clássica de Jornada que prometem muito, e entregam muito pouco.

Na trama, um planeta chamado Gideon pretende entrar na federação, mas são um povo arredio, que não aceita missões diplomáticas. Eles aceitam receber apenas o Capitão Kirk para discutir os termos do acordo. Mas quando Kirk é transportado, acaba se vendo numa entreprise totalmente vazia, apenas com uma garota estranha, que parece ser uma das habitantes de Gideon. Além disso, ele tem um ferimento no braço que indica que aconteceu algo do qual não se lembra.  

Enquanto isso, Spock é informado que Kirk não chegou ao planeta e inicia uma jornada para descobrir o que aconteceu com o capitão.

Como se vê, é um plot instigante, que reúne as características dos melhores episódios da série clássica.

O grande problema ocorre quando surge a explicação sobre o que realmente está acontecendo (a partir daqui, teremos spoiller, então leia por conta e risco).

Gideon era um planeta paradisíaco, em que não existiam doenças. O resultado disso foi uma superpopulação (algo representado por pessoas com roupas iguais, aparecendo apenas o rosto, amontoadas, algo que vemos em várias cenas). Assim, seu governante decide sequestrar Kirk para coletar seu sangue, uma vez que Kirk tivera uma doença extremamente mortal. A ideia é espalhar essa doença entre a população.

O roteiro parece uma peneira de tantos furos.

Para começar, como Kirk é informado, eles não usam métodos contraceptivos porque têm um grande amor à vida. Mas que tipo de amor à vida é esse que os leva a espalhar uma doença mortal entre a população? Além disso, Gideon parece um planeta tecnologicamente evoluído. Por que não colonizar outros mundos, mandando para lá o excesso da população? Outra coisa: seria impossível alimentar a população num mundo tão populoso a ponto das pessoas viverem eternamente numa multidão, de modo que inevitavelmente as pessoas morreriam e a população acabaria equilibrada.

Mas, espere, tem mais. Como disse, o roteiro tem mais furos que uma peneira.

Se o planeta é tão populoso a ponto das pessoas viveram amontoadas umas às outras, para que construir uma enorme réplica da Enterprise, num enorme espaço livre (ainda mais considerando que essa réplica tinha o único objetivo de enganar Kirk, algo totalmente dispensável para o plano)? Além disso, quando aparece a sala do governante, ela é espaçosa. Como a própria filha do governante diz que vivia amontoada entre muitas pessoas, uma sala espaçosa para o que quer que seja não faz o menor sentido num planeta tão populoso a ponto das pessoas viverem amontoadas. 

Mas, espere, ainda tem mais.

Aparententemente Kirk já estava curado da doença, então o que ele tinha em seu sangue não era o vírus, mas os anticorpos. Depois a garota encontrada por Kirk e infectada com a doença é curada e diz que agora ela pode ser o vetor, o que parece indicar que os roteiristas de fato confundiram vírus com anticorpos.

Para piorar, o episódio sequer é divertido como O cérebro de Spock. É apenas ruim.

Mentes únicas

 


Atualmente estima-se que cerca de 1% da população mundial esteja dentro do espectro autista. Até meados da década de 1970 esse transtorno era praticamente desconhecido e normalmente visto como causados por “mães geladeiras”, que rejeitavam a existência do filho. Hoje em dia, o desenvolvimento da neurociência permitiriu descobrir que autismo é provocado por uma série de fatores genéticos e ambientais. Ainda assim, muitos mitos e lugares-comuns ainda persistem e fazem com que pediatras, professores e psicólogos demorem para identificar os sinais, postergando o diagnótico e as intervenções.
É para tentar preencher esse vácuo de informações que Luciana e Clay Brites escreveram Mentes únicas. O casal tem uma história diretamente ligada ao assunto. Ele é neurologista infantil especializado em autismo. Ela é especialista em educação especial.
Essa característica do casal de autores traz para o livro muitas qualidades e alguns problemas.
O principal problema é que o livro não fala sobre autismo em adultos – ou mesmo em adolescentes. Ele é todo focado em crianças dentro do espectro. É quase um manual para pais lidarem com a situação. Para quem busca isso é um livro muito interessante, embora em alguns momentos a linguagem seja um pouco técnica.
O livro inicia fazendo uma verdadeira revisão histórica sobre o assunto, desde Eugen Bleuler, que em 1912 cunhou o termo ao se referir aos pacientes que tinham condições de isolamento tão severas que ficavam totalmente internalizados em si mesmos. O que Bleuler descreveu foram provavelmente casos de autismo severo, ou clássico. Com o tempo a ciência descobriu que havia todo um espectro, com sintomas mais ou menos severos. Descobriu-se também que o autismo tem relação direta do a arquitetura do cérebro, responsável por armazenar, processar e limpar o lixo: “No cérebro do autista, essa arquitetura se encontra desorganizada e apresenta uma modelagem anormal, impedindo que o funcionamento seja pleno. As pontes, as ligações e as ramificações se encontram incompletas, desviadas, ora ativadas, ora desligadas, com conexões que se encontram ora perdidas, ora sobrecarregadas”.
Há um capítulo só de relatos de casos atendidos pelo casal. Desde a mãe que se recusava a aceitar que o filho fosse autista, mesmo ele tendo sintomas de autismo severo, até o professor que indicou a mãe a levar no neuro em decorrência de comportamentos observados em sala de aula.
Há também um capítulo sobre tipos de tratamentos e sobre o tipo de especialista que se deve procurar.
Mas para os pais que começam a observar sinais de autismo em seu filho, o capítulo mais interessante provavelmente será aquele que descreve os sintomas. Os autores explicam que existem sintomas principais e secundários. De forma resumida, os principais são a inadequada interação social, dificuldade de comunicação social, comportamentos repetitivos e interesses restritos. Já os secundários são: preferência excessiva por objetos, distúrbios sensoriais (como hipersensibilidade auditiva), fobias inexplicáveis, manias alimentares, problemas de sono e atraso no desenvolvimento motor e linguístico.

Cabanagem: O terror e a fantasia amazônicos

 

 

Lendo O menino que morava no poste, do manauara Romahs, percebo uma semelhança com meu livro Cabanagem.

Embora o livro de Romahs seja de fantasia e o meu se aproxime do terror, os dois têm algo em comum além do uso das lendas amazônicas, ou, como dizemos aqui, dos encantados.

Um autor paulista, por exemplo, pode escrever uma história envolvendo Mapinguari, boto, Matintaperera. Mas sempre será com um olhar de descrença, de estranhamento, de modo que esses encantados serão vistos como seres exóticos, assim como a sua ambientação e isso vai se refletir inclusive na reação dos personagens ao fantástico quando ele surge na história.

Já os escritores amazônidas, ao abordar os mesmos temas, será com um olhar de naturalidade de quem convive com esse ambiente desde sempre. Um olhar, inclusive, que ecoa nos personagens.  

Eu costumo dizer que não há quem já tenha entrado na mata amazônica que não acredite que ali há algo mais. Não há quem tenha frequentado a floresta que nunca tenha visto ao menos uma visagem.

Eu, durante muito tempo, andei pela floresta do Utinga, em Belém, e lá vi muita coisa. Pessoas que surgiam na floresta do nada e desapareciam atrás de uma árvore, sons estranhos, passos que nos seguem e depois não aparece ninguém.

Certa vez, na ilha de Marajó, fui seguido por um longo tempo por algo cujos passos nas folhagens secas eu conseguia ouvir. Quando dei por mim, estava perdido. Aindei a esmo pela floresta até ser encontrado por um casal que tinha ido buscar açaí. Quando consegui finalmente voltar para a casa do meu sogro, ele foi taxativo: “Foi o Curupira. Tu não devia ter entrado na floresta sem antes pedir permissão”. A partir daí, sempre que entro na floresta, peço permissão. Certa vez, ao me ver ali parado, um amigo perguntou o que eu estava fazendo. “Estou pedindo permissão para entrar na floresta”, esclareci. “Pede para mim também”, pediu ele.

Quando visitávamos o Utinga e atravessávamos de um lado a outro do lago, montados em tronco de madeira, algo enorme passou arrastando pela nossas pernas. Se fosse uma cobra, teria no mínimo dez metros. Ficamos do outro lado um longo tempo criando coragem para atravessarmos de volta.

Esse é o tipo de história que pode parecer pitoresca para alguém do sudeste, mas essa pessoa nunca irá perceber o quanto ela fala sobre alguém que vive no norte e que ou viveu situações semelhantes ou ouviu, desde pequeno, relatos desse tipo.

Para um escritor amazônida, os seres encantados vivem em uma fronteira entre o real e o imaginário, uma fronteira quase sempre impossível de ser definida.

Há muito da minha vivência em Cabanagem, das minhas idas à floresta ou das viagens ao longo dos rios, sim, porque aqui a estrada é o rio. O rio é fonte de alimentos, via de transporte e local de segredos e mistérios, afinal, as águas escuras dos rios amazônicos parecem insondáveis e parecem poder abrigar toda uma variedade de seres, de simples peixes a cobras grandes e mães d´água.

São mistérios que quem não vive não Amazônia dificilmente irá compreender.

Como diz a música de Joãozinho Gomes e Val Milhomem: 

“Quem nunca viu o Amazonas

Jamais irá compreender a crença de um povo

Sua ciência caseira/A reza das benzedeiras

O dom milagroso”.

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Decadence, a HQ manifesto da dupla Gian-Bené

 


Decadence foi produzida para ser uma espécie de manifesto do novo tipo de horror que a dupla Gian Danton - Joe Bennett estava introduzindo no Brasil. Depois de uma rejeição inicial de alguns editores, o sucesso das primeiras histórias da dupla fez com que surgissem pedidos de novas histórias - e aí surgiu a ideia de fazer uma HQ que confrontasse o horror antigo, datado e o novo (não é à toa que o título da história é Decadence). Os dois quebraram a cabeça durante dias para tentar transformar isso numa trama, mas no final, a ideia acabou vindo num sonho de Gian Danton, que acabou sonhando até mesmo com a diagramação da história, logo transformada num rafe, seguido à risca por Joe Bennett. Decadence foi publicada na revisa Mephisto, terror negro. 

Fundo do baú - O Homem pássaro

 


Homem-pássaro foi um desenho animado criado pelo lendário Alex Toth para a Hanna-Barbera. Foi exibido entre 1967 e 1969 no canal NBC.
O personagem era um super-herói que combatia o crime a serviço de uma sociedade secreta, com ajuda de seu ajudante Birdboy e da ave Vingador.
O herói tinha os seguintes poderes:
Absorção solar espontânea: capacidade mágica de absorver energia solar e converter em vigor corporal, resistência física a danos físicos, gerar potentes raios de calor concentrado através das mãos e dedos, controlar a temperatura de um ambiente ou equipamento e produzir um “escudo” solar protetor de grande resistência contra ataques.
Voo: por possuir um par de asas é possível alçar grandes alturas e impulsionar-se através do ar em qualquer direção.
Regeneração ou fator de cura solar: capacidade de curar ferimentos e restaurar a própria saúde em alta velocidade desde que exposto à luz solar.
Capacidade de se comunicar com a ave Vingador.

Batman – A Última Gargalhada


A saga do Batman escrita por Mike W. Barr e desenhada por Alan Davis foi pouco apreciada na época devido a um anacronismo. Ela foi publicada praticamente na sequência de Batman: Ano Um, de Frank Miller e David Mazzucchelli, obra que se destacara pela abordagem profunda e realista do personagem. Já a série escrita por Mike W. Barr e desenhada por Alan Davis e (com Paul Neary na arte-final) focava na diversão, fazendo referências diretas aos quadrinhos dos anos 1970 e alguns casos até ao seriado televisivo dos anos 1960.

Na história de abertura, publicada em Detective Comics nº 569 e 570, o Coringa, ao descobrir que a Mulher-Gato se aliou ao Cavaleiro das Trevas, elabora um plano para transformá-la novamente em criminosa. 

O tom é de humor, incluindo um campanga pedalando um velocípede. 


A trama é repleta de cenas nonsense, como a de um capanga pedalando um velocípede, o Robin vencendo sozinho todos os subordinados do Palhaço do Crime e até um carro usado pelo Coringa no formato de uma risada.

Robin vence sozinhos os campangas do Coringa. 


Os diálogos também apostam no humor, especialmente os do Garoto-Prodígio, como nesta sequência:

— Idiotas! Sua mãe rouba parquímetros e seu pai está na condicional!

Ao que um dos bandidos responde:

— Como sabe da minha mãe, moleque?

Os diálogos do menino prodígio sempre puxam para o cômico. 


Ou seja: é uma grande festa em que nada é levado realmente a sério — um contraste absoluto com o Batman de Miller e Mazzucchelli. Apesar disso, a fase se destaca justamente por ser divertida e, principalmente, pelo primor visual. Um dos pontos altos é a capa da edição nº 570, na qual a Mulher-Gato enfrenta o Batman na traseira do "carro-risada", enquanto o Coringa se diverte ao volante. No Brasil, essa história foi publicada originalmente pela Editora Abril em Batman nº 12 (2ª série).

sábado, setembro 12, 2026

Basílica de Sacré-Cœur

 


A Basílica de Sacré-Cœur (Sagrado Coração) é uma das mais famosas igrejas de Paris. Construída no final do século XIX, ela resgatou a arquitetura romana e bizantina, com paredes sólidas.
A igreja é adornada com belíssimos vitrais, pinturas e esculturas – e uma réplica do santo sudário. E, embora tenha um estilo arquitetônico oposto ao de Notre Dame, também tem várias gárgulas que podem ser vistas na lateral do prédio.

A basília fica no alto do Monte Martre, o local mais alto de Paris e de lá é possível observar toda a cidade. Nos arredores há dezenas de lojas de lembrancinhas, café, restaurantes e quiosques nos quais são vendidos os tradicionais sanduíches parisienses, com pão baguete.

A canção da guerreira Sonja

A personagem Sonja surgiu nos quadrinhos em Conan The barbarian 23, que adaptava uma história de Robert E. Howard,  mas só iria brilhar mesmo no número seguinte da revista, uma história original de Roy Thomas e Barry Smith.

A HQ já inicia com uma splash page da heroína (ou anti-heroina) dançando sobre uma mesa numa taverna durante o cerco a Makalet.

Os presentes aplaudem e entoam em uníssono: “Sou-nia!”. Era Roy Thomas ensinando os leitores como se pronunciava o nome da personagem. Logo depois a própria guerreira ruiva provoca uma luta que acaba envolvendo todos na taverna apenas para sair com Conan para um banho no lago.

Os censores encrencaram com a sensualidade da história. 


 Um dos quadros mostra como Thomas não só era um ótimo escritor de aventura, mas também sabia fazer humor. Quando Conan está brigando com um dos amigos de Sonia, um dos presentes diz: “Aposto dez aspers no cimério! Garanto que ele derruba o porco brituniano!”, ao que o outro responde: “Quê? Eu sou brituniano, filho de uma rameira!” e outro retruca: “Quê? Você ofendeu a nossa mãe?”. E assim a briga se torna generalizada.

Essa história chamou a atenção dos censores do comic code, que pediram, entre outras coisas, que barry Smith levantasse as mãos do cimério para a cintura da moça numa cena do lago. “Ah, e nem sei como não nos forçaram a reformular o quinto quadro! Será que não ocorreu a nenhum dos censores o que significavam os borbulhos e erupções ali na água?”, brincou Roy Thomas, tempos depois.

A tiara transforma-se numa cobra: ação! 


Na sequência ela convence Conan a invadir uma torre do palácio no qual estão os tesouros do rei. A garota ruiva tem a missão de recuperar um bracelete no formato de serpente, mas a peça se torna uma cobra de verdade nas mãos da guerreira.

Essa seria a última colaboração de Smith na revista de Conan, mas se tornaria célebre pelo detalhismo dos desenhos. Não seria a última história dele com o cimério. Pouco depois ele desenhou uma adaptação de Pregos vermelhos, história clássica de Howard, dividida em dois números e publicada na revista Savage Tales. Como a revista só saía de quatro em quatro meses, o desenhista pôde aplicar todo o nível de detalhismo que caracterizaria seu trabalho.

Yesterday - o filme

 


Danny Boyle é um dos maiores diretores da atualidade. E uma de suas principais características é o cuidado na escolha dos roteiros. Seus filmes são irretocáveis quanto a isso, desde o primeiro, Cova Rasa, até o oscarizado “Quem quer ser um milionário”, em que toda a vida do protagonista é contada através dos flash backs provocados por questões de um programa de perguntas e respostas.
Seu novo filme, Yesterday, segue na mesma linha. A trama parte de uma pressima absolutamente original: uma realidade em que os Beatles não existiram e apenas um músico se lembra de suas composições. Boyle (com roteiro de Richard Curtis) usa essa premissa para fazer não só um musical, mas uma belíssima homenagem ao quarteto de Liverpool.
Na história, Jack Malik, um descendente de indianos, sonha em ser um músico famoso, mas sua carreira parece destinada ao fracasso. Após a participação em um festival no qual teve um público insignificante, Malik decide abandonar a música. Mas algo acontece: há um blecaute mundial e ele é atropelado. Quando acorda, descobre que está em uma realidade em que ninguém se lembra dos Beatles e decide lançar as músicas do quarteto como se fossem dele.
O filme usa esse mote para costurar uma biografia, um musical, uma homenagem de forma extremamente divertida.
Por exemplo, em determinado ponto Malik percebe que não consegue lembrar das letras e visita Liverpool, passando pelos locais que foram referências paras as músicas do Beatles. Aliás, esse “processo” é um dos pontos altos do filme, com Malik descobrindo as divergências entre as duas realidades. À certa altura ele diz: “Eu não fumo, mas um cigarro cairia bem agora”, ao que alguém retruca: “O que é um cigarro?”. Em outro ponto ele pergunta sobre o Oasis e ninguém sabe e ele conclui: “Pensando bem, é óbvio” (afinal, se não existirem os Beatles, não existe o Oasis).
Isso tudo é entremeado por apresentações musicais, críticas ácidas à indústria fonográfica (maravilhosa a cena da reunião com os marqueteiros em que eles dizem que Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band é um título grande demais) e por uma história romântica.
No final, apesar da premissa de ficção científica, Yesterday é um filme simples, quase singelo, mas bonito e, ao mesmo tempo profundo. Danny Bolyle é um daqueles caras que nunca decepcionam.

Homem-aranha - aranha no mar

 


Um autor que não costuma ser associado ao Homem-aranha é Denny O´Neil. No entanto, ele chegou a escrever o personagem no início da década de 1990. Uma dessas histórias, “Aranha ao mar”, foi publicada no Brasil em 1985 na revista Homem-aranha 23. O volume tem uma bela capa de John Romita Jr, desenhista da história. O Romitinha estava na fase anterior ao seu estilo atual (amado por muitos, odiado por outros). Na fase dessa história, ainda imitava o pai, Romita Senior. Na trama, o aracnídeo enfrenta Namor (daí a bela capa com os dois em conflito em um navio).

O problema da HQ é que o Aranha é um personagem urbano e o Namor, marítimo. Há uma história clássica do Demolidor, escrita por Stan Lee, em que o homem sem medo enfrenta o rei dos mares, mas este vai até Nova York. O´neil preferiu levar o aranha até alto-mar em uma solução para lá de forçada e pouco verossímil. A conclusão do conflito entre os dois também é apressada e pouco convincente.
O aracnídeo enfrenta Namor no mar. 


O mesmo para a história seguinte, em que surge o Homem hídrico. O Aranha vence-o com jornais e roupas! Considerando que O´Neil foi responsável por uma das melhores fases do Batman, parece que estava de má-vontade quando escreveu as histórias do amigo da vizinhança.
Uma grata surpresa é outra história, do volume, protagonizada pela Mulher Aranha, com roteiro de Chris Claremont e desenhos de Steve Leialoha na qual a personagem enfrente Agar, o gritador. O vilão tem a capacidade de provocar alucinações com seus gritos, o que nos lega as melhores páginas do volume. 
Os dsenhos se destacam na história da Mulher-Aranha. 


Embora seja pouco mais que competente nas cenas normais, o desenhista se solta nas sequencias de alucinação, com um desenho que flui pela página, rompendo os limites da diagramação. Há, claro, todo o novelão característico de Claremont, mas as sequencias de alunciação valem ler até o final. Fico imaginando se esse dom lisérgico fosse melhor aproveitado em uma série em que o desenhista pudesse usar todo o seu potencial. 

A incendiária, de Stephen King

 


A incendiária é um livro de Stephen King escrito em 1980. 
A trama gira em torno de uma experiência governamental com alucinógenos, que provocam poderes paranormais. Duas das cobaias na experiência acabam se casando e gerando uma menina com o poder de provocar incêndios. A menina e os pais passam a ser monitorados por uma agência governamental chamada A oficina, mas tudo foge ao controle quando a menina vai passar alguns dias na casa de uma amiga e a Oficina acha que os pais estão tentando escondê-la. Após assassinarem a mãe, sequestram a menina, que acaba sendo resgatada pelo pai. Começa então uma perseguição que é o eixo da trama. 
Quem está acostumado com os livros mais recentes de King, com uma escrita mais solta, irá estranhar: A incendiária é um livro com narrativa mais técnica, um típico triller de suspense escrito de acordo com a cartilha. Mesmo assim King consegue dar um toque pessoal ao fazer uma narrativa cheia de flash backs e cinematográfica. 
O livro virou filme em 1984, dirigido por Mark L. Lester, com Drew Barrymore no papel principal, e é surpreendente que não tenha se tornado um sucesso, já que o texto é quase um roteiro cinematográfico. Em tempo: no Brasil o filme foi lançado como Chamas da Vingnaça.
Em todo caso, embora A incendiária não seja muito parecido com Carrie (e, na comparação, sai perdendo), é um bom livro, que empolga lá pela metade, mas empolga. Para os fãs de quadrinhos e FC, parece um bom episódio de X-men ou de Perry Rhodan na fase em que os mutantes eram mais relevantes.

Hair – análise do roteiro

 


Hair é um dos filmes musicais mais famosos de todos os tempos. Dirigido por Milos Forman e lançado em 1979, tem uma trilha sonora realmente épica. Mas o filme se destaca também pelo roteiro muito bem amarrado.
A história, baseada num musical homônimo da Brodway, acompanha as aventuras de um rapaz do interior do Texas que vai para Nova York se alistar para a guerra do Vietnã e conhece um grupo de hippies. O filme mostra os bastidores da contracultura da época em meio às críticas à guerra.
A trama inicia com Claude Bukowiski se despedindo do pai e pegando o ônibus para nova York. A imagem foca na pequena cidade e na capela local para depois pular para uma cena em pleno central park, com uma arrebatadora interpretação da música Aquarius.

É quando o protagonista conhece um quarteto hippie liderado por Berger,  e vê se apaixona por uma garota rica, Sheila Franklin, que passa por ali num cavalo.
Os hippies conseguem dinheiro e alugam um cavalo, mas são incapazes de manejá-lo e o perdem. Bukowiski consegue resgatar o cavalo e, estimulado por Berger, vai atrás da moça pela qual se apaixonou, fazendo uma exibição de montaria.
Segue-se uma sequencia em que os personagens consomem haxixe. Nessa cena temos a primeira aparição da música “Manchester England”, cantanda inicialmente por Berger, mas que se refere a Claude: “Eu sou um gênio gênio/Eu acredito em Deus/ E eu acredito que Deus/Acredita em Claude/Que sou eu que sou eu/ Claude Hooper Bukowski”. A letra da música é usada tanto para caracterizar o personagem Claude como alguém ingênuo, como ironia por parte de Claude. No final do filme, essa música voltará com outro significado.  
A famosa cena da festa.

Chegamos finalmente à famosa cena da festa. Berger tem a ideia de invadir uma confraternização da família Franklin para que Claude possa ter a chance de ver Sheila antes de ir para o Vietnã.
Mas o grupo acaba preso.
Quando são finalmente liberados (graças ao dinheiro da mãe de Berger), eles vão para o Central Park, onde Claude experimenta pela primeira vez LSD enquanto Jeannie, uma das hippies, pergunta se ele não gostaria de se casar com ela para escapar da convocação para a guerra.
A “viagem” de Claude mostra o quanto o roteiro é bem amarrado: as imagens são resultado direto dos ganchos do roteiro: a sugestão de Jeannie, a capela que aparece na primeira sequência, os Hare Krishna que passam cantando, Sheila, a festa invadida, está tudo ali, como se todos os acontecimentos mais recentes tivessem se misturado e embaralhado na cabeça do personagem.
Em seguida, Claude vai para o treinamento militar e Berger tem a ideia de visitá-lo. Com uma manobra conseguem o carro da família de Sheila, que vai junto para ver pela última vez o seu amor.
Mas quando chegam na base é impossível entrar: estão todos em alerta e os soldados não podem ter contato com civis. Sheila engana um sargento, rouba-lhe a roupa e o carro e Berger consegue entrar na base para levar Claude para o floresta, onde o grupo de hippies o espera.
Mas claude discorda: há contagens o tempo todo e ele não pode se ausentar.
A solução é sugerida por Berguer: trocar de lugar com Claude.
Aí surge a grande sacada do filme: enquanto Claude visita os hippies, o grupo de soldados é chamado a embarcar para a guerra. Berger tenta escapar, mas não consegue e acaba embarcando no lugar do amigo.
A trilha sonora e a sequência seguinte, em um cemitério deixam claro que ele morre no conflito.
A música "Manchester England" é resignificada no final do filme 

Esse plot twist tem sido celebrado por críticos com o ponto alto do filme. Mas há uma outra sacada genial: enquanto marcha para o avião, Berger canta a música que inventara para Claude logo no início do filme. Mas agora não há nada de alegre nela e a nova situação torna a letra totalmente irônica: “Eu sou um gênio gênio/Eu acredito em Deus/ E eu acredito que Deus/Acredita em Claude/Que sou eu que sou eu/ Claude Hooper Bukowski”.
Se a primeira sequência em que a música aparece, ela se refere a Claude, aqui ela se refere a Berger: sua ideia parecia genial, mas foi um desastre e agora ele é Claude. Ao usar a mesma música em dois momentos chaves do filme, com sentidos completamente opostos, o roteirista mostra que pensou o filme como um todo e foi capaz de brincar com seus significados das letras.