domingo, maio 03, 2026

Fundo do baú - Wally Gator

 


Com o sucesso de suas animações baseadas em animais antropomorfizados (e a pequena quantidade de animais domésticos), o estúdio Hanna Barbera teve que apelar para animais cada vez menos convencionais. Mas nenhum consegue ultrapassar Wally Gator em termos de estranheza: a animação tinha um jacaré como protagonista.

Wally Gator era um jacaré que vivia uma vida cheia de mordomias no zoológico, num espaço com piscina e cadeira de praia.

Mas, apesar da vida folgada, Wally Gator sempre escapa do zoológico e quase sempre se dá mal, o que faz com que o tratador Sr. Twiddles vá à sua procura e o salve.

O humor do seriado surgia exatamente pelo fato contraste surrealista de um jacaré andando  pela cidade (de chapéu colarinho e gola, simulando uma camisa social) e se metendo em todo tipo de roubada.

Em um dos episódios, por exemplo, o Sr. Twiddles comenta que Wally está gordo, o que faz fugir para procurar um ginásio. Sem querer, ele acaba sendo envolvido num show de luta livre, onde apanha até não poder mais, sendo salvo pelo tratador.

Uma curiosidade é que no Brasil o dublador do personagem foi o ator Lima Duarte.

sábado, maio 02, 2026

Homem-aranha e Destrutor contra o Monolito Vivo

 


No final da década de 70, Chris Claremont e John Byrne fizeram história na revista Marvel Team-Up, que apresentava encontros de personagens Marvel. Toda a sintonia que se tornaria célebre nos X-men já aparecia ali. Mas em 1978, o sucesso da revista dos mutantes (que transformou a revista de bimestral para mensal) fez com que Byrne abandonasse a Marvel Team-Up. A última participação de Byrne foi como desenhista desenhista regular do título foi no número 69, com roteiro de Claremont (Byrne depois voltaria em alguns números, como o 79, que mostra o célebre encontro do aracnídeo com a guerreira Sonja).

O Homem-aranha salva o Destrutor, mas por pouco tempo. 

Na história, o Faraó Vivo sequestra Destrutor, o irmão de Cíclope, com o objetivo de sugar sua energia e assim se tornar extremamente poderoso. Claro que Claremont tinha que encontrar uma maneira de colocar o Homem-aranha na história, então os lacaios do Faraó vão roubar um amuleto místico numa sala da universidade onde Peter Parker estuda, o que faz com que o amigão da vizinhança vá atrás dos ladrões e se veja envolvido com a trama principal.

Aí temos o primeiro problema da história. Há toda uma sequência em que o Aranha salva o Destrutor, apenas para que depois ele seja preso novamente. Como a sequência inteira não ajuda a narrativa a caminhar, dá a impressão de que seu único objetivo é esticar o número de páginas. A história poderia ser muito mais sintética se já pulasse para dentro da embaixada do Egito. Lá, o aracnídeo inadvertidamente transforma o Faraó no Monolito Vivo (por sinal, um dos vilões mais perigosos da Marvel a partir dessa história). Outro ponto falho é Lorna, a namorada do Destrutor, atacada junto com ele e que desaparece da história a partir de certo ponto.

O traço de Byrne muda com a arte-final de Tony de Zuniga e Villamonte.


Mas era uma época em que HQs Marvel tinha uma narrativa fluída, algo ainda mais destacado pelo traço simples e elegante de John Byrne, o que tira a atenção dos problemas.

Uma curiosidade dessa história é que a arte-final ficou por conta do filipino Tony de Zuniga e do sul-americano Ricardo Villamonte, que dão ao traço de Byrne um estilo completamente diferente do que estamos acostumados a ver.

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 61.

Ministério

 


Os quadrinhos argentinos se destacam, entre outras coisas, pelas ótimas HQs de ficção científica. Não por acaso, a mais emblemática HQ argentina, O Eternauta, é uma trama de invasão extraterrestre. Solano López, desenhista de Eternauta, é artista de uma outra HQ digna de atenção: Ministério, com roteiro de Ricardo Barreiro.

Na HQ, após uma gerra nuclear, o vírus da AIDS sofre uma mutação, tornando-se extremamente agressivo. Para sobreviver, um grupo de empresários constrói, na Argentina, um edifício com centenas de andares totalmente livre da praga.

Cada andar é dedicado a uma função: há um andar de contadores, outro de telefonistas e assim em diante.

O edifício funciona como uma estrutura burocrática. 

É uma estrutura burocrática sem sentido, que funciona como uma empresa para um mundo em que não existe mercado, já que todas as pessoas fora do edifício estão mortas.

Então, por que as pessoas continuam trabalhando? Qual o objetivo do sistema burocrático?

Os dois autores são muito competentes ao deixar o leitor com essa dúvida e a explicação posterior, absurdamente aterrorizante, faz todo o sentido. Não vou dar spoiler, mas é possível dizer que toda a estrutura tem a única função de manter a vida e os privilégios dos grandes empresários que se refugiram no local.

Carlos é protagonista da história. 


O protagonista é Carlos, um office boy, apaixonado por uma telefonista, Susana. Os dois estão prestes a engatar um namoro quando a moça é vítima de uma intervenção  brutal: soldados da polícia (todos com a cara do Super-homem) invadem seu andar e sequestram todas moças, levando-as para os andares superiores, onde ficam os hierarquicamente superiores. Lá, algumas delas são usadas para remoçar os executivos enquanto outras servem como escravas sexuais.

É Carlos que irá empreender uma jornada de salvamento, que depois se torna uma jornada revolucionária, à medida que mais e mais fatos aterrorizantes são revelados.

É, portanto, uma boa trama e uma distopia original.

Garotas são sequestradas. 

Há trechos narrativos que, a meu ver, quebram o pacto de verossimilhança ao apresentar relatos explicativos, como em: “É possível que o leitor experiente considere improvável a rapidez com que os acontecimentos de desenrolam. A verdade é que os sequestros de jovens funcionárias se repetiam com cada vez mais frequência... se adicionarmos a isso a péssima e escassa comida, compreendemos que a reação do pessoal não é casual nem exagerada...”.

Apesar disso, os bons desenhos de Solano López e a originalidade da trama prendem a atenção leitor.

Algumas garotas são transformadas em escravas sexuais. 


A metáfora da obra é clara: à certa altura aparecem os ídolos do homem que governa o edifício: Hitler, Gengis-kahn, Ronald Reagan. Torna-se ainda mais clara no final, quando toda a narrativa se mostra uma metáfora da ditadura militar argentina.  Da mesma forma que em o Eternauta, a ficção científica é usada, aqui, para discutir temas políticos.

No Brasil essa história foi lançada pela Comix Zone.   

Mentira de artista e o fake na arte

 

Mentira de artista, de Fabio Fon é um livro fundamental para quem quiser entender a arte contemporânea. 
Fábio se debruça sobre casos em que a arte utilizou o fake como elemento criador - estratégia antecipada na frase de Picasso, segundo o qual a arte é uma mentira que revela a verdade. 
A estratégia não é nova. Edgar Allan Poe, inovador como sempre, a usou no episódio conhecido como A balela do balão, em que criou uma viagem imaginária da França aos EUA a bordo de um balão e provocou furor entre os leitores do jornal The Sun.
Mas Fábio se concentra na arte contemporânea, e não por acaso.
Num mundo de simulacros, em que é cada vez mais difícil separar realidade de ficção, a arte se torna essencial para refletirmos sobre esses processos.
Os capítulos vão desde artistas fakes a robôs que se fazem passar por artistas, passando pelo ótimo filme F for Fake, de Orson Welles, o mesmo que protagonizou o episódio Guerra dos Mundos, em a dramatização do clássico livro de H.G. Wells foi tida como verdade e provocou alvoroço nos EUA (tanto Welles quanto Wells foram processados e ambos absolvidos).
A arte que lida com o fake é algo tão novo e perturbador que mesmo entre os estudiosos da arte, muitos não consideram arte, até porque muitas dessas obras contestam até mesmo as noções atuais do que é arte ou do que legitima uma obra como artística.
Mas arte é exatamente isso. A arte verdadeira não conforma, não nos acomoda em nossas noções cristalizadas, mas nos faz pensar, refletir e colocarmos em cheque nossas convicções. E o livro Mentira de artista apresenta vários casos em que a arte fez exatamente isso.

A arte encantadora de Beatrix Potter

 


Beatrix foi uma das mais importantes e famosas ilustradoras e escritoras infantis de todos os tempos.

Vinda de uma família de novos ricos, sua mãe queria casá-la com um jovem nobre, de modo que Beatrix teve grande dificuldade para conseguir fugir desse papel que lhe era imposto pela sociedade e o fez graças à literatura.

Seu livro Peter Rabbit tornou-a uma celebridade e a enriqueceu, sendo o livro infantil mais vendido da época. Seus livros posteriores, embora de menos sucesso, geraram dinheiro suficiente para torna-la rica, riqueza que ela usou para comprar fazendas e transformá-las em reservas ambientais.

Suas imagens, pintadas em aquarela, quase sempre representavam animais antropomorfizados e revelavam uma magia e encantamento únicos.

A vida da escritora e ilustradora foi retratada no filme Miss Potter, de Chris Noonan.  










Pancadaria – por dentro do épico conflito Marvel vs DC

 


Todo fã de quadrinhos de super-heróis certamente conhece o embate entre as duas maiores editoras norte-americanas. Marvel e DC têm disputado o mercado do comics há décadas, com vitórias e derrotas para um lado e outro ao longo de todo esse tempo. A batalha entre essas duas gigantes é tão monumental quanto as batalhas de seus personagens. O livro Pancadaria, de autoria de Reed Tucker, da editora Fábrica 231 se desbruça sobre esse fenômeno.
Red Tucker é jornalista especializado em cultura pop, tendo trabalhado em várias publicações, como o New York Post, Esquire e USA Today. Ou seja: é um jornalista da área. Isso garante tanto uma linguagem agradável quanto um conhecimento adequado. Mais ainda: como bom jornalista, Tucker vai procurar causos interessantes, curiosidades dessa guerra – que tornam o livro extremamente divertido.
A DC foi a inventora do negócio. Os super-heróis surgiram com a publicação de Super-homem em Action Comics 1, em junho de 1938 (os donos pagaram apenas 130 dólares pelos direitos do personagem). Depois surgiram Batman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde, todo um panteão de personagens. A trindade (Super-homem, Batman, Mulher Maravilha) sobreviveu até mesmo aos difícieis anos 1950, quando os quadrinhos foram acusados de provocar delinquência juvenil e muitas editoras fecharam suas portas.
Mas ser a primeira tem seus problemas. Na DC isso se refletiu na forma de conservadorismo. Os artistas iam trabalhar de terno e gravata e a tríade de editores dos anos 1960, Mort Weisinger, Julie Schwartz e Robert Kanigher se destacava pelo caráter abusivo. Weisinger ligava para o roteirista Jim Shotter, então com 13 anos, para chama-lo de idiota. Dizem que no funeral de Weisinger, em 1978, o rabino convidou os participantes a se levantar e discursar sobre as boas qualidades do falecido. Depois de um longo silêncio, alguém lá no fundo gritou: “O irmão dele era pior!”.
Enquanto no luxuoso prédio da DC imperava o conservadorismo, na discreta Marvel se operava uma revolução. A Marvel surgira pouco depois da DC publicando anti-heróis, como Namor e Tocha Humana e fora responsável pelo grande sucesso da guerra, o Capitão América. Mas assim que terminou o conflito, suas vendas caíram. No final dos anos 1950, a editora se resumia a uma sala e dois funcionários: o editor Stan Lee e uma secretária e se especializava em imitar qualquer coisa que estivesse fazendo sucesso em outra editora.
Stan Lee já estava para chutar o balde e partir para um emprego melhor quando resolveu fazer uma última tentativa. O dono da Marvel ordenara que ele fizesse uma cópia da Liga da Justiça, que estava fazendo sucesso na DC: “Ei, talvez ainda haja mercado para super-heróis. Por que não traz uma equipe como a Liga da Justiça? Podemos chama-la de Liga Correta ou algo do tipo”, disse Martin Goodman para Stan Lee.  
Mas, junto com Jack Kirby, Lee elaborou algo completamente diferente: o Quarteto Fantástico, publicado em agosto de 1961. Até então, a pequena editora nunca apresentara concorrência à DC. Mas Quarteto Fantástico mudou tudo. Era um quadrinho completamente diferente do que se fazia à época. Antes dele, os heróis de quadrinhos eram monodimensionais e, reflexo disso, todos falavam da mesma maneira. Tucker conta que era possível trocar os balões dos heróis da Liga da Justiça sem qualquer prejuízo para a história.  No Quarteto Fantástico, cada um tinha uma personalidade, um modo de falar e de encarar o mundo.
Se na DC os heróis pareciam muito felizes com seus poderes, no Quarteto, eles eram fontes de problemas, em especial para o monstruoso Coisa. E eles brigavam. Na primeira edição há pelo menos três pontos de conflitos entre os heróis. Na edição 2, a Mulher Invisível diz: “Nós vamos nos destruir se ficarmos pulando no pescoço um do outro!”.
Além disso, as histórias dos vários personagens faziam parte de um universo único, interconectado. Dizia-se que se estivesse trovoando em um gibi, estaria chovendo no outro. E, a cereja do bolo: a arte extremamente dinâmica de Jack Kirby, perfeita para as inúmeras cenas de luta.
O resultado disso é que logo as revistas da Marvel estavam superando as da Dc em percentual de vendas. Enquanto revistas como Super-homem vendiam 50% da tiragem, as da Marvel vendiam mais de 70%.
Os donos e editores da DC não se dignaram a ler as revistas para saber o que estava fazendo com que elas fossem especiais. Não podia ser as histórias, já que se imaginava que o público de quadrinho fossem crianças semi-alfabatizada. Também não podia ser a arte de Jack Kirby, muito “inferior” ao que se fazia na DC. A solução só poderia estar nas capas.
Reed Tucker conta os bastidores de uma hoje hilária reunião da DC em que os figurões da editora tentavam descobrir o que havia nas capas da Marvel que fazia as revistas venderem. Podiam ser o vermelho? As logos inúteis? Os balões prolixos? A arte “ruim” de Jack Kirby, que provocava uma associação com as crianças?
O resultado dessa cegueira nós conhecemos: a Marvel logo se tornou a maior editora de quadrinhos dos EUA. Por breves períodos a DC conseguiu suplantá-la. Tucker conta em detalhes essa saga, do início do gênero à explosão dos super-heróis no cinema. Isso numa linguagem divertida, fluída. Mal se percebe que o volume tem quase 300 páginas. 

Farrapo humano, de Billy Wilder

 

Billy Wilder é considerado um cineasta eclético pela sua incrível capacidade de transitar em gêneros que vão da comédia ao drama. Farrapo humano (1945) é um ótimo exemplo dessa versatilidade. O filme conta a história de um escritor (Ray Milland) que se vê em crise de abstinência ao ser privado de beber durante um final de semana. Ele faz de tudo para conseguir a bebida, até mesmo roubar a bolsa de uma moça. 
Acompanhamos sua decadência até ao ponto em que ele começa a ter delírios e pensa em se matar.
Esse parece ser o filme de Wilder mais influenciado por Cidadão kane. É, por exemplo, o que mais usa profundidade de campo, aliás, com ótimos resultados. A cena em que o protagonista procura a última garrafa de bebida é mostrada de cima para baixo, e vemos a garrafa, que estava escondida no lustre, como se fosse um fantasma pairando sobre ele. 
Algo curioso sobre o estilo de Wilder é que ele parece ser um cineasta da tela grande. Seus filmes só começam a empolgar lá pelo meio, pois há um grande respeito pelo primeiro ato, que muitas vezes parece arrastado e até desinteressante. Em Quanto mais quente melhor, por exemplo, o humor só se instala a partir da cena do trem e é só quando o receptor é fisgado. O mesmo acontece com Farrapo humano, de começo pouco interessante, com uma longa caracterização do personagem, mas que fisga o leitor do meio para a frente, a ponto de não se conseguir parar de assistir. 
Isso só era possível porque naquela época os filmes eram assistidos exclusivamente no cinema e raramente alguém saia no meio da sessão. Nos tempos do video-cassete, que pode ser desligado a qualquer momento, foi necessário fisgar o expectador desde o primeiro momento, daí o sucesso de George Lucas e Spielberg. 
Por sua denúncia crua do alcoolismo, o filme botou medo na indústria de bebidas, que chegou a oferecer 5 milhões de dólares para que o estúdio não o lançasse. 
Uma curiosidade é que Farrapo Humano fez tanto sucesso que gerou uma versão nacional, chamada O ébrio (1946), com direção de Gilda de Abreu e Vicente Celestino no papel principal.

sexta-feira, maio 01, 2026

Bom-bom e Mau-mau

 


Bom-bom e Mau-mau é o desenho símbolo da geração paz e amor. Bom-bom é um jovem bonito e simpático, que vive para apreciar as belezas da vida e difundir o amor, numa referência direta aos hippies. Já Mau-mau é alguém dominado pelo ódio e pelo rancor.

Um dos episódios mais emblemáticos nesse sentido é aquele no qual Mau-Mau ataca o protagonista de todas as formas, que sempre responde oferecendo uma flor para ele, da mesma forma que os hippies protestando contra a guerra do Vietnã colocavam flores nas armas dos soldados.

O desenho, que se chamava originalmente Roland and Rattfink foi produzido David H. DePatie e Friz Freleng entre 1967 e 1972, num total de 17 episódios.

Os episódios normalmente giravam em torno de Mau-mau fazendo maldades e tentando a todo custo provocar uma guerra, enquanto Bom-bom tentava assegurar a paz (muitas vezes protestando com uma placa com a palavra Paz).

Um episódio diferente é uma adaptação de Robin Hood, em que Bom-bom faz o papel do arqueiro que roubava dos ricos para dar aos pobres. O episódio é mostrado como se isso fosse um trabalho, com cada um saíndo de casa e se despedindo de suas mães, Mau-mau cobrando impostos dos pobres, Bom-bom roubando o dinheiro (aos gritos de “Para os pobres!”) e Mau-mau pegando o dinheiro de volta (Aos gritos de “Para os ricos!”). No episódio, eles chegam a parar essa correria porque chegou a hora do almoço.  

Conan - A maldição da lua crescente

 


A maldição da lua crescente, publicada originalmente em The savage sword of conan 5,  é uma das melhores histórias de Conan de todos os tempos e uma das que melhor encarnam todas as características das histórias do cimério: mulheres bonitas, magia, monstros e Conan mais fodão do que nunca.
Na história, Taramis, rainha de Khauran tem uma irmã gêmea desconhecida, uma feiticeira maligna, que surge um dia e toma seu lugar, aprisionando a verdadeira rainha nas masmorras. Seu aliado é um mercenário que, com seu exército, toma a cidade. Os soldados da guarda ficam atônitos com as ordens da rainha de obedecer o mercenário até que Conan percebe que aquela não é Taramis, o que faz com que ele seja preso em uma cruz no deserto para ser comido pelos abutres.
A sequência do deserto é antológica.

Essa sequência do deserto é uma das melhores de toda a trajetória do cimério. São dez páginas em que Roy Thomas e John Buscema mostram porque são considerados mestres absolutos do gênero. Desenho e texto se unem perfeitamente em uma cena brutal, cujo melhor momento é quando um dos abutres tenta comer os olhos de Conan:
“Por fim, o sol mergulha como uma bola sinistra num ardente mar de sangue... ele próprio parece ser rubro como sangue... e as sombras do leste, negras feito ébano. Há outras sombras também... e o bater cada vez mais alto de asas em seus ouvidos... Conan sabe que seus gritos não vão afugentar os abutres. E o maior deles está voando cada vez mais baixo... subitamente, o pássaro investe com determinação, seu bico afiado cintila... e rasga a face de Conan, que vira sua cabeça... e, sem oferecer tempo para reação, fecha seus dentes poderosos... que se cravam como as mandíbulas de um lobo no pescoço da criatura! Imediatamente o abutre explode em guinchos de dor e histeria”. 
Essa sequência ficou tão boa que foi incluída no primeiro filme de Conan quase que imagem a imagem. 
Com poucas linhas, John Buscema conseguia desenhar mulheres lindas.

Se sabe ser brutal, John Buscena sabe também ser delicado. As cenas que mostram as rainhas são verdadeiras obras de arte. Enquanto os homens são mostrados com uma arte-final pesada, as mulheres são desenhadas com poucas e sinuosas linhas. A primeria vez em que vemos Salomé, a rainha má, por completo, é uma obra-prima da beleza. Mas, ao mesmo tempo, o desenhista consegue imprimir a seu rosto um ar de maldade, que não existe na irmã boa.
Em tempo: no Brasil essa história foi publicada no volume 5 de A espada selvagem de Conan e no terceiro volume da coleção da Salvat.
Embora as duas rainhas fossem gêmeas, o desenho permitia distingui-las. 

Jornada nas estrelas – dia das bruxas

 


Robert Bloch é um dos grandes autores norte-americanos de terror. Discípulo de H.P. Lovecraft, ele foi autor do livro que deu origem ao filme Psicose, de Alfred Hitchcock, até hoje um dos mais assustadores da história do cinema. Ao ser convidado a escrever para Jornada nas Estrelas, era de se esperar que ele trouxesse seu tema predileto para o seriado. O resultado disso foi o episódio “O dia das bruxas”.
Nos seriado, Scotty e Sulu descem para investigar um planeta desconhecido e somem. McCoy, Spock e Kirk descem para resgatá-los e são aprisionados em um castelo medieval – em uma masmorra repleta de esqueletos.
Kirk acaba descobrindo que são prisioneiros de dois seres extraterrestres que aparecem para eles como magos – a mulher pode se transformar em gata e o capitão usa seu charme para descobrir a informação que irá ajudá-los a sair da enrascada.
É um episódio divertido, mas não chega aos pés dos bons episódios da série por uma série de razões, desde a produção pobre até o roteiro (que, afinal de contas não explica o que querem os dois alienígenas). Mas deixou frutos. A mistura de terror e ficção científica aparece em vários outros seriados, inclusive o distópico Logan´s run.
É curioso, no entanto, imaginar se Robert Bloch tivesse ousado trazer a mitologia lovecraftiana para o seriado, mesmo que disfarçada. O horror de Lovecraft é cósmico e se encaixaria bem na proposta de Jornadas. Já imaginaram a Enterprise se deparando com um dos deuses antigos? 

Livro resgata a história dos quadrinhos paranaenses

 


 A Biblioteca Pública do Paraná (BPP), por meio do selo Biblioteca Paraná, acaba de lançar o livro Narrativas Gráficas Curitibanas: 210 Anos de Charges, Cartuns e Quadrinhos, do quadrinista, curador e pesquisador José Aguiar. Com 360 páginas e centenas de ilustrações, a obra de referência resgata a memória gráfica local e seus reflexos na cultura nacional, por meio de documentos, biografias e depoimentos.

A edição impressa, com tiragem de mil exemplares, será distribuída para bibliotecas públicas de todos os municípios paranaenses, além de universidades, gibitecas e pontos de cultura do Paraná e de outros estados. Uma versão digitalizada também está disponível para download gratuito aqui . No dia 4 de junho, Aguiar e os pesquisadores Maria Clara Carneiro (Universidade Federal de Santa Maria) e Rodrigo Scama (Uninter) participam de uma live de lançamento para discutir o projeto. O evento acontece às 19h, com transmissão pelo canal youtube.com/BibliotecaPR. Leia mais


Em tempo: O livro me cita em diversos trechos e ainda traz a minha biografia, destacando meu trabalho na criação do Gralha e do Capitão Gralha e da graphic novel Manticore

Perry Rhodan – Escola de guerra Naator

 


Existem algumas histórias, inclusive de ficção científica cuja trama não se sustentaria diante do avanço tecnológico do mundo atual. O número 85 de Perry Rhodan se encaixa nessa categoria. 

Na história, iniciada no número anterior, os terranos resolvem eliminar o computador supremo e para isso um grupo se disfarça de zalitas, um povo que está sendo recrutado em peso para a guerra. O objetivo é, dessa forma, chegar perto o suficiente do computador para desativá-lo. 

Ocorre que quando Rhodan e seu grupo chegam no planeta Naator, local de treinamento dos novos recrutas, descobrem que todos os recruta possam por rigorosos exames médicos exatamente para evitar a presença de infiltrados. 

A capa original alemã. 


A única solução possível é o mutante John Marshall sugestionar os médicos aras para quer eles não percebam as diferenças fisiológica do grupo terrano. Para isso, ele é teletransportafo por Ras Tschubai . Mas é impossível fazer isso e em uma única noite, então é preciso atrasar os exames médicos. Para isso, Ras empreende vários atentados terroristas cujo objetivo é dar a entender que os ciclopes habitantes do planeta se revoltaram. 

Claro que isso só daria certo se ninguém visse o mutante teletransportador. Na década de 60, quando a história foi escrita isso poderia parecer fácil. Mas hoje em dia, como vivemos em um mundo repleto de câmeras por todos os lados, é impossível deixar de pensar que o mutante inevitavelmente seria filmado durante um dos seus teletransportes, o que daria ao computador gigante a pista dos terranos. 

É curioso que um grande autor de ficção científica, como Clark Darlton, não tenha pensado na possibilidade de um futuro em que as câmeras estivessem espalhadas por todos os lugares.

Em tempo: embora o título do volume seja Escola de guerra Naator, os personagens não têm qualquer treinamento além de uma palestra sobre o poderio arcônida, o que parece no mínimo estranho.

Karatê Kid – O desafio final

 

 O primeiro Karatê Kid apresentara a jornada do herói Daniel Larusso em seu aprendizado das artes marciais sob a orientação do pacifista Senhor Miyagi. O segundo filme explorara o passado de Miyagi e as origens do Miyagi-dô. O que fazer num terceiro filme? O diretor John G. Avildsen e o roteirista Robert Mark Kamen resolveram modificar a dinâmica da série, colocando Daniel sob a tutela do Cobra Kai.

A trama apresenta um novo personagem, Terry, sócio de Kreese, que resolve se vingar de Daniel e seu mestre pela derrota e humilhação no campeonato de karatê -  o que, acrescido da atitude intransigente de Kreese com seus discípulos, fez com que o Cobra Kai perdesse todos os alunos.

 Para isso, eles conseguem convencer Daniel a lutar o campeonato de karatê e a ser treinado por Terry, o que leva o protagonista para o lado sombrio da força.

 O grande problema é que todo o plano dependia de que o senhor Miyagi se recusasse a treinar Daniel. Aliás, a recusa em treinar o garoto parece mais um roteirismo do que algo orgânico, que tenha uma razão real para acontecer, tanto que posteriormente ele aceita fazê-lo. Além disso, a atuação de Thomas Ian Griffith como Terry é exagerada, como um vilão de matinê. Quem viu a quarta temporada de Cobra Kai percebeu que o ator consegue ser sutil e maquiavélico, o que leva a crer que o exagero foi o diretor John G. Avildsen errando a mão. Além disso, exceto pela última cena do filme, Daniel Larusso parece totalmente desprovido de habilidades de karatê – o que faz o expectador se perguntar se, afinal de contas, ele não aprendeu nada nos dois filmes anteriores.

 Esses aspectos fazem com que esse seja o filme mais fraco da franquia original e o de menor bilheteria. Mas hoje, 30 anos depois, parece estar sendo redescoberto como um filme divertido, que, apesar de todos os problemas, ainda mantém a tradição da série, ao contrário de Karatê Kid a nova aventura, que, só pelo trailer, já é nitidamente uma total deformação da filosofia e da narrativa inaugurada pelo primeiro karatê kid.