domingo, junho 14, 2026

Shazam e a sociedade dos monstros

 


Jeff Smith é um dos grandes nomes do quadrinho alternativo norte-americano. Seu personagem Bone foi publicada por 13 anos e ganhou diversos prêmios. Fortemente influenciado por quadrinistas com uma pegada cartunística, como Walt Kelly, de Pogo, ele parecia a pessoa perfeita para trazer de volta o herói Capitão Marvel, o personagem de maior sucesso da era de ouro dos super-heróis.
Smith simplesmente acerta em tudo: da representação visual dos personagens ao roteiro inteligente e, ao mesmo tempo simples, quase ingênuo.
Na história, Billy Batson recebe os poderes que o transformam no poderoso Capitão Marvel, mas, inadevertidamente, traz para nossa realidade um perigo terrível: o poderoso Cérebro e três robôs gigantes cujo objetivo é destruir a humanidade.
O traço cartunesco de Jeff Smith ajuda no clima da história. 


Smith consegue emular perfeitamente o traço de CC Beck (o desenhista original do Capitão Marvel) em sua simplicidade e elegância. A pegada cartunistica do autor ajuda muito nessa hora, inclusive quando aparecem personagens como crocodilos humanizados.
No roteiro, ele mantém muito dos elementos da história original, mas modifica outros: Malhado passa a ser um homem que tem poder de se transformar em felino, Dr. Silvana torna-se um político corrupto e o Senhor Cérebro deixa de ser uma minhoca para se tornar uma cobra.
A junção de tudo isso é uma HQ terna, divertida e, ao mesmo tempo, empolgante.

Livro para baixar A arte dos quadrinhos

 

Já está on-line o e-book A arte dos quadrinhos. O livro reúne os artigos apresentados no III FNPAS com as mais variadas temáticas. Eu colaborei com o artigo SIMULACRO E PASTICHE EM 1963, DE ALAN MOORE. Para baixar o e-book clique aqui

Buda ou Budai?

 

É comum que as pessoas tenham em suas casas uma estatueta de um monge gordo e sorridente. Essa imagem é normalmente associada a Buda histórico Sidarta Gautama, mas retrata Budai, um monge zen muito popular na China.

 Budai era uma figura excêntrica. Costumava percorrer as ruas das cidades chinesas com sua grande barriga exposta. Ao invés de pregar nos templos, como fazia a maior parte dos monges budistas, preferia ficar brincando com as crianças. Carregava um saco de pano nas costas e quando lhe perguntavam o que tinha lá dentro, respondia: “O mundo inteiro”. Aliás, seu nome advém disso, já que budai significa saco de pano. Muitas vezes ele levava no saco doces e brinquedos, que distribuía para as crianças.

 Era uma pessoa divertida, que constantemente estava rindo e fazendo anedotas, razão pela qual também é chamado de “o Buda que ri”. Ele considerava como sua missão espalhar a alegria e a felicidade por onde quer que fosse.

 Conta a lenda que até após a sua morte ele aprontou uma anedota. Ele pediu para ser cremado, um costume pouco comum entre monges, e esse pedido tinha um motivo: ele tinha escondido fogos de artifício na roupa. Assim, quando seu corpo pegou fogo, começou um verdadeiro espetáculo para os que estavam acompanhando o evento.

 Todas essas características fizeram com que ele se tornasse um verdadeiro personagem folclórico na China. Após sua morte ele passou a ser associado à felicidade e à properidade. É comum no Japão e na China as pessoas terem uma estatueta do Budai com moedas como forma de garantir felicidade e prosperidade.

 É possível que os ocidentais, ao verem essas estatuetas, tenham perguntado de quem se tratava e a aproximação fonética de Budai com Buda tenha criado a confusão entre o monge zen chinês e o fundador do budismo. Entretanto, além de nacionalidades diferentes (Sidarta Gautama Índia), mais de mil anos os separam.

Fundo do baú - Conan, o aventureiro

 


As histórias de Conan, criadas por Rober E. Howard, são repletas de violência e têm como protagonista um anti-herói que vive como ladrão. Se parecia impossível transpor esse mote em um desenho animado para crianças, a versão animada, criada por Christy Marx e exibido entre 1992 e 1993 mostrou que... sim, é impossível!

Na história, Conan está com seu avô na Ciméria quando caem meteoros do céu. Ele pega um deles e percebe que se trata de um metal extremamente duro. Os problemas já começam aí. Os meteoros acabaram de cair, inclusive estão brilhando de calor, e o herói os pega com a mão!

Mas vamos relevar isso e seguir em frente. Ao perceber que aquilo poderia ser aproveitado, Conan recolhe todas as pedras e leva para seu pai ferreiro, que transforma todas as pedras em armas, incluindo uma espada presa em uma espécie de sarcófago que será de Conan quando ele finalmente conseguir levantar a tampa.

Só que mais alguém está atrás do metal estelar: Wrath-Amon, um vilão que adora um deus serpente chamado Set. Set foi, em um passado remoto, enviado para outra dimensão e só o metal das estrelas pode trazê-lo de volta. Como nos desenhos da época era sempre necessário incluir um alívio cômico, o vilão tem um ajudante, um mascote de voz aguda que se assusta com tudo. Quando cai a chuva de meteoros, por exemplo, ele começa a girar em torno de si mesmo e gritar: “Estamos acabados! Estamos acabados!”.

Ao tentar capturar o metal estelar, Wrath-Amon  vai à aldeia de Conan e transforma o pai dele em pedra (mortes em um desenho animado? Nem pensar!) e tem de enfrentar Conan com sua espada. Para evitar a violência gráfica, ao invés de ferir os asseclas de Wrath-Amon , a espada só os manda para outra dimensão.

Agora Conan precisa encontrar o vilão e dar um jeito de transformar seu pai em humano de novo. Para isso ele conta com a ajuda de um feiticeiro que lhe dá um escudo e... uma fênix! Até aí tudo bem, mas a Fênix é outro alívio cômico (pelo jeito, na época, era necessário que tanto o vilão quanto o herói tivessem mascotes alívios cômicos).

Os diálogos em português chegavam ao ponto de serem constrangedores, como: “Então eu vou destruí-lo... e seu anel também!”.

No total foram produzidos 65 episódios de Conan, o aventureiro.

Esquadrão Atari – No limite da vida e da morte

 


Esquadrão Atari inovou em muitos aspectos. Um deles foi a estrutura narrativa. Normalmente, mesmo em sagas que se estendiam por diversos números, os três atos apareciam em cada capítulo. Gerry Conway imaginou a saga inteira como a o concretização dos três atos.

Assim, o número 6 da revista é o início do segundo ato, quando os protagonistas entram em conflito direto com o vilão.

Na edição anterior, os personagens tinham roubado a nave do Esquadrão Atari original, a Scanner III, e rumaram para um universo deserto, onde uma nave monstruosa captou a sonda enviada por Martin Champion. O objetivo do grupo é resgatar a sonda que pode indicar a localização da nova terra.

Uma página dupla como só Garcia-Lopez sabia fazer. 


A trama inicia com Tormenta saltando para dentro da nave inimiga e caindo exatamente no alojamento da tripulação – o que faz com que ele seja atacado por centenas de soldados alienígenas.

Aqui mais uma preciosidade visual de Garcia-Lopez, numa página dupla de tirar o fôlego, com o herói se materializando no meio dos alienígenas, retratados das mais variadas formas.

De volta à nave, Dart sugere uma solução: Tormenta se teleporta novamente para o alojamento levando consigo um tubo de gás do sono, enquanto ela e o ladrão Paco Rato entram na nave para resgatar a sonda.

Uma página com três níveis narrativos. 


Tudo isso acaba se revelando, na verdade, uma armadilha, evento previsto pela própria Dart em uma de suas visões. Mais uma sequência genial de Garcia-Lopez, apresentando três instâncias narrativas: abaixo temos o grupo rindo de Paco Rato, que tomou um banho involuntário; acima temos um close de Dart, os olhos num verde irreal, a expressão de quem está em transe e, acima dela, o vilão torturando Tormenta. Essa mistura poderia resultar em um quadro confuso, mas conseguimos perceber claramente cada um desses elementos inclusive pelo uso inteligente da cor.

Jornada nas estrelas – Missão Terra

 


Já vi gente dizendo que Missão Terra, da segunda temporada de Jornada nas Estrelas, não parece um episódio da série. E, de fato, não é. A história surgiu de uma série criada por Gene Roddenberry. Como nenhuma rede de televisão topou fazer o piloto, o produtor e o roteirista Art Wallace reescreveram a história como um capitulo de Jornada.

Na trama, a Enterprise volta ao ano de 1968 para uma pesquisa histórica, para entender como a humanidade conseguiu sobreviver à era atômica. Nesse meio tempo, a nave intercepta um raio transportador trazendo um homem chamado Gary Seven vestido de terno com uma gata preta. Ele alega que é um humano criado por alienígenas e que sua missão é impedir uma guerra nuclear.

O episódio inteiro gira em torno da tentativa de Spock e Kirky impedir o agente, já que suas intenções não são claras.

Fica muito óbvio que a presença da Enterprise é forçada e que a perseguição ao agente Gary Seven é uma forma de justificar a presença de Kirky e Spock na trama. Tanto que no momento mais dramático, eles acabam deixando-o atuar.

É de destacar a presença de Roberta, a garota típica dos anos 1960, que trabalha como secretária de Seven e traz alívio cômico para o episódio.

Esse é um episódio que sempre me chamou atenção por ser fora da curva e hoje parece lamentável que a série original não tenha dado certo. Seven e Roberta tinham potencial.

sábado, junho 13, 2026

Mulher-Maravilha – a verdadeira amazona

 


Mulher-Maravilha – a verdadeira amazona é uma abordagem diferente da origem da heroína.
Criado por Jill Thompson, conhecida no Brasil por seu trabalho em Sandam, a história do álbum se foca na fase anterior ao surgimento da MM como a conhecemos hoje.
Assim, é mostrada a derrota das amazonas para Hércules, a fuga para a ilha de Themyscira e a forma como diana foi concebida da areia e das lágrimas dos deuses.
A história é totalmente focada na infância e adolescência da personagem. Diana é mostrada como uma menina mimada, arrogante, que é idolatrada e cortejada por todos, menos da cavalariça da rainha, Alethea. Um aspecto interessante da trama é que o roteiro insinua, de forma sutil, que Diana se apaixona por Alethea e passa a fazer de tudo para conquistar sua atenção – o que irá provocar um resultado desastroso.


O álbum se destaca principalmente pela arte refinada e sensível de Thompson, a começar pela belíssima capa. Mas tem problemas de roteiro, em especial quanto à caracterização da protagonista. Diana é mostrada como mimada, arrogante, irresponsável e, de repente, torna-se o oposto de tudo que era. Certo, há um trauma no meio do caminho, mas mesmo o trauma não justificaria uma mudança tão drástica de um momento para o outro.
Entretanto, é uma HQ que vale a pena ter na estante.

Patrulha canina – super filhotes

 


Levei o meu neto para assistir Patrulha Canina – superfilhotes. O filme é baseado em uma série de sucesso entre crianças que tem vários cachorrinhos como protagonistas.
A Patrulha Canina é voltada para crianças de três a seis anos, de modo que não pode ter nada que os assuste (uma das crianças da sessão começou a chorar quando apagaram as luzes) ou vilões de verdade (os vilões do filme são o prefeito e seu sobrinho – e o prefeito é um personagem cômico).
Ao contrário de filmes como Toy Story, que são feitos para agradar pais e filhos, este é feito para agradar crianças realmente pequenas, o que provavelmente é motivo de enfado para os pais. Mas o roteiro do filme é redondinho, bem construído, sem falhas. É uma boa aplicação da jornada do herói, focada em um dos filhotes, Chase. Quando o humano que lidera a patrulha é preso pelo vilão, resta a Chase aprender a liderar – e o filme mostra sua evolução.
É uma história para crianças muito pequenas, que ainda estão aprendendo a prestar atenção, por isso é curto e por isso os personagens são muito demarcados e cada um com um visual muito característico, inclusive em termos de cores: as crianças precisam identificá-los imediatamente. Além do episódio principal há mais dois episódios, pinçados da série.
Na versão nacional colocaram duas crianças para fazer comentários antes e entre os episódios – certamente a parte mais tediosa.
É uma boa dica para quem tem em casa crianças nessa faixa etária. Meu neto de três anos adorou. 

X-men – A qualidade do ódio

 


Algo que caracterizou a parceria entre Chris Claremont e John Byrne nos X-men foi o fato de que, mesmo no auge da mais desenfreada ação, havia sempre espaço para desenvolver os dramas dos personagens. E isso era feito de forma totalmente orgânica na trama, sem parecer que se tratava de pieguice ou pura enrolação.

A edição 127, no ponto alto da saga de Protheus, é um exemplo disso.

Na história anterior, Wolverine e Noturno encontram o mutante X e este tenta se apossar do corpo do baixinho, mas não consegue por causa do esqueleto de adamantiuim. Então, ele distorce a realidade. Quando Ororo chega, nem mesmo uma tempestade parece impedir que eles fiquem à mercê do poderoso mutante.

Moira tenta matar o filho, mas é impedida por Cíclope


Quem salva a pátria é Moira, que atira em Protheus e só não o mata por intervenção de Cíclope.

Finalmente fora de perigo, Cíclope percebe que Wolverine ficou extremamente abalado com a experiência. Como um animal, o carcaju depende muito dos seus sentidos e passar por algo que mudou todo o mundo à sua volta o abalou a ponto de fazê-lo imergir num estado de quase catatonia.

Wolverine fica extremamente abalado após o confronto com Proteus. 


“Seja lá o que aconteceu com Wolverine, o abalou bastante. Ele está à beira de um colapso. Se não sair dessa depressão agora, ficará permanentemente amedrontado”, pensa Cíclope.  

A solução do líder da equipe é no mínimo inusitada: provocar uma briga com o baixinho, mas revela como Claremont, embora pensasse no geral, também tinha uma atenção especial para cada personagem do grupo. Talvez o único que tenha tido essa capacidade tenha sido Marv Wolfman nos Novos Titãs (o que provavelmente explica porque esse era o único título da DC que rivalizava em vendas com os X-men).

Enquanto isso, em uma trama paralela, acompanhamos outro drama.

A HQ tem espaço para o drama de Moira

Moira vai para a capital da Escócia alertar seu ex-marido que o filho dos dois está indo para o local em busca de vingança. E descobrimos que Moira vivia com ele uma relação de abusos e que na última vez que eles se encontraram ele não só a deixou machucada a ponto de ir parar no hospital, como a estuprou – o que gerou o filho mutante. E, em uma crítica ferina, o marido abusador é mostrado um político importante que tem tudo para se tornar primeiro ministro. Surpreendente ver temas tão adultos e uma crítica tão mordaz num simples gibi de super-heróis.

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 22, mesmo número em que o Mercenário matou Elektra.

Perry Rhodan - O perigo vindo do passado

 


Uma coisa que me irrita profundamente em qualquer história é quando o roteirista/escritor força o personagem a fazer algo burro que vai contra as características do mesmo por que não arranjou outra maneira de fazer a história se desenvolver.

Isso vai acontecer durante a fase do planeta Horror. Perry Rhodan, indo contra a recomendação de Atlan, resolve voltar ao planeta e é miniaturizado junto com toda a tripulação da Crest. Quando Atlan vai em seu socorro, acaba sendo miniaturizado também, assim como outra nave terrana. Ou seja, uma decisão burra que provoca uma catástrofe atrás da outra. 

Depois eles voltam ao interior do planeta para regatar uma nave que não foi miniaturizada e pode avisar outras naves para não caírem na armadilha de horror. 

O número 217 começa com outra burrada de Rhodan. Ele começa a transmitir ininterruptamente durante uma hora e com isso chama atenção da fortaleza, uma nave tão monstruosamente grande que a Crest, com um quilômetro e meio de altura, cabe no seu hangar. 

A capa original alemã. 


Os terranos só não são mortos por intervenção de Atlan. 

Ao ler, eu pensava: esse é o herói cuja inteligência alçou a Terra a um dos planetas mais importantes da galáxia? Não parecia a mesma pessoa. 

Apesar desse aspecto irritante, o volume tem o mérito de introduzir os respiradores de metano, seres que aterrorizaram o império de Arcon no passado e pareciam ter sido exterminados.

No final os terranos conseguem voltar ao tamanho normal e escapar da fortaleza, mas isso ocorre mais graças a uma feliz coincidência do que a uma intervenção real dos personagens. 

Para um volume escritopor K. H. Scheer, é uma decepção.

Autismo

 



Eu nunca tinha pensado em mim como autista, até que meu neto começou a ter algumas crises inexplicáveis. Do nada, ele começava a fazer algo que parecia uma birra, mas não tinha uma razão de ser. Conversando com uma aluna que era voluntária em uma associação de autistas, ela comentou que ele poderia ser autista. Como resultado, comecei a ler e pesquisar sobre autismo – e quanto mais eu lia, mais eu via em mim características de autismo, aliás, muito mais do que no meu neto.

Algumas das minhas lembranças mais antigas já mostravam indícios de autismo.

Em uma delas, por exemplo, eu estou viajando com minha avó de trem e não consigo prestar atenção à paisagem porque estou muito incomodado com a roupa de frio. Eu tenho muita sensibilidade na pele, o tecido da roupa sempre me incomodou, mas quando a roupa é apertada é quase insuportável. Essa é a razão pela qual sempre usei roupas muito largas, o que inclusive gerou aquelas imagens engraçadas em que estou ao lado do Bené e pareço estar usando a camisa de uma pessoa duas vezes maior.

Também tenho muita sensibilidade a sons. Sons altos não são apenas irritantes. São insuportáveis. Dor de cabeça, irritação, dificuldade de pensar, tontura. Pessoas neurotípicas podem achar que é simplesmente uma frescura, mas para um autista estar em um local com som alto equivale a uma tortura, o que muitas vezes pode até gerar crises equivalentes à epilepsia.

Outra característica que já devia ter levantado um alerta, caso eu já conhecesse sobre autismo é o hiper-foco.  Eu sou do tipo que, quando começo a fazer algo, faço só aquilo. Eu ficava impressionado com a minha esposa, que era professora de Inglês e Filosofia e que conseguia preparar aulas das duas disciplinas na mesma manhã. Eu, quando começo a preparar aulas de uma disciplina, chego a passar uma semana ou até mesmo um mês e dificilmente consigo trocar para outra enquanto estou focado em uma.

(Trecho do livro A árvore das ideias. Para baixar, clique aqui)  

A arte impressionante de Gian Lorenzo Bernini

 


Bernini foi o grande artista do barroco italiano. Era pintor, escultor, arquiteto, teatrólogo. Seu domínio da técnica da escultura era tamanho que ele parece transformar mármore em pele humana.










Monstro do Pântano – Funeral

 

 
No número 55  da revista Swamp Thing, o protagonista da revista tinha aparentemente morrido. A história gira em torno do funeral do personagem, com direito a uma estátua feita a pedido da prefeitura de Gothan.

A grande questão a que Alan Moore deve ter se colocado é: como fazer uma revista inteira sobre um funeral? Como tornar isso interessante para o leitor?

Gordon e Batman discursam... 


A solução encontrada foi entremear as sequências do funeral (desenhadas por Rich Veitch e Alfredo alcala) e sequências de flash back ou de devaneios (desenhadas por John Totleben).

A história é narrada do ponto de vista de Abbe Cable. “Eles se sentem culpados o bastante para pagar uma estátua e oferecê-la a mim como se fosse uma reparação. Mas, oh, não passa de pedra fria... ao passo que seu musco, Alec, era doce, macio e quentinho ao sol”.

Mas Abe está perdida em suas lembranças... 


Há uma fala do comissário Gordon e outra do Batman, mas a mulher parece prestar pouca atenção a eles, perdida em seus próprios pensamentos. Um deles faz emergir uma lembrança: “Você já começou a desaparecer? Será que uma manhã vou acordar capaz de lembrar do seu cheiro, seus gestos, sua voz? Meu amor... quero que fique nítido e afiado na minha memória, mesmo que doa”.

Na lembrança, ela chega no pântano e encontra o Monstro sentado, em reflexão. Ela fala com ele, conta sobre seu dia no emprego, mas quando resolve abraçá-lo, ele se desfaz, para seu desespero. O verdadeiro monstro do pântano chega e explica que era apenas uma casca, que ele abandonara quando se deslocara de um local para o outro. O episódio faz com que ela reflita sobre como seria se ele morresse: “Meu Deus, Alec... não morra. Não morra jamais!”.

... e devaneios. 


E a história vai assim, pontuando entre o presente e o passado, a realidade e a imaginação.

Se a pergunta era: é possível fazer uma história sobre funeral e mesmo assim ela ser interessante? A resposta é sim, desde que você tenha o talento de Alan Moore.   

Mestre do Kung Fu – O Triunfo do Doutor do Mal

 


Uma das razões que fizeram a série Mestre do Kung Fu se destacar de outras de artes marciais foi a experimentação do desenhista Paul Gulacy. Ótimo exemplo disso é a história publicada em Giant-Size Master of Kung Fu #2, de dezembro de 1974.

A história inicia com um bêbado atacando Shang-Chi. A sequência, totalmente desprovida de propósito, tinha um único objetivo: introduzir uma nova personagem na série. É que ao desviar do homem, o protagonista acaba arremessando-o para dentro de uma academia de artes marciais, onde ele conhece Sandy, uma instrutora do local.

Paul Gulacy estava no auge da experimentação. 


Os dois jantam e depois vão para um parque, namorar. A sequência em que os dois se beijam é um exemplo da maestria de Gulacy na narrativa visual. Temos primeiro uma imagem dos olhos de cada um, depois os lábios, e finalmente o beijo, emoldurado pelos rostos dos dois. Doug Moench, que nessa fase tinha a mania irritante de colocar texto legenda em todos os quadrinhos, teve a inteligência de não colocar nenhum aqui, deixando as imagens falarem por si.

Depois, temos uma imagem dos dois sentados no banco, se beijando e essa imagem, horizontal, é cortada, sendo transformada em quatro, o que dá uma impressão de movimento, como se uma câmera estivesse passeando por um cenário e depois focasse nos dois. Futuramente artistas como Frank Miller tornariam esse recurso uma febre, mas na época isso era novidade ousada por poucos artistas.

O desenhista mandava bem nas cenas de lutas. 


Como na época a série era de espionagem, a trama gira em torno de um cientista chinês que pretende deserdar para o ocidente e Shang-Chi deve protegê-lo e garantir sua fuga. Ocorre que esse cientista é nada menos que o pai de Sandy.

Até chegar ao cientista, temos lutas e mais lutas. Shang-Chi luta contra os homens de seu pai no avião, depois luta contra eles na rua. Quando encontra o cientista, é patético: o herói deixa o homem morrer, o que mostra que como guarda-costas ele é um completo fracasso.

Um exemplo de experimentação: uma página de quadrinhos no formato de labirinto. 


Mas antes de morrer, o homem sussurrou no ouvido de Shang-Chi qual era a sua grande descoberta. E é isso que Fu Manchu quer descobrir, e para isso submete seu filho rebelde a uma maratona de perigos, incluindo uma ampulheta gigante com ácido e espetos de ferro embaixo e até um labirinto repleto de guerreiros assassinos.

É na sequência do labirinto que temos o exemplo mais claro de experimentação. O desenhista fez uma planta baixa do mesmo, que é percorrida pelo protagonista e pelo texto. O texto, aliás, faz curvas, fica de cabeça para baixo... é como se fosse uma HQ experimental em um gibi comercial. Só essa história mostra como a Marvel dessa época era revolucionária na comparação com a DC.

Outro exemplo de experimentação: uma página inteira, mas a ordem de leitura sugere movimento. 


No final, Sandy acaba morrendo, o que é uma pena. A personagem tinha muito potencial e estreou numa história com grande apelo.