sexta-feira, outubro 09, 2026
A divulgação científica nos quadrinhos
Conan no jardim dos condenados
![]() |
| Conan não pode ver um perigo que já quer se meter. |
![]() |
| A dupla Buscema-Chan mata a pau nessa splash page. |
Artigo sobre a revista Herói
O número 22 da revista Imaginário! traz um artigo do escritor e professor Gian Danton sobre a famosa revista Herói, que revolucionou o jornalismo na década de 1990 ao focar no público infanto-juvenil e nerd. Gian assina o artigo com o nome verdade. A revista Imaginário é publicada pelo Núcleo de Arte, Mídia e Informação, Projeto de Extensão do Departamento de Mídias Digitais da Universidade Federal da Paraíba.
A revista traz também uma entrevista traz também a entrevista“Ciberpajé e as obras artísticas pandêmicas”, concedida por Edgar Franco a Rafael Senra, Professor Doutor de Literatura na Universidade Federal do Amapá.
Para baixar a revista clique aqui.
Homem Aranha encontra Noturno
Em 1976 os novos X-men ainda eram uma novidade. Personagens como Ororo, Colossus, Wolverine e Noturno eram ilustres desconhecidos. Len Wein, que tinha escrito a primeira história do novo grupo – e depois entregou o título nas mãos do estagiário Chris Claremont - aproveitou que estava escrevendo o gibi mais vendido da Marvel para promover os novos personagens.
Assim nasceu a história Vigilante Noturno, publicada em The Amazing Spider-Man 161.
Na história um personagem misterioso está matando pessoas aleatórias na tentativa de incriminar o Justiceiro. O Homem-aranha está num parque quando uma das pessoas é morta e, quando vai investigar, se depara com um personagem misterioso, que parece um demônio. Era Noturno.
Existe uma regra não escrita na Marvel de que a primeira vez que dois heróis se encontram, algum tipo de equívoco faz com que eles lutem entre si e nesse caso não seria diferente. Noturno acha que o homem-aranha é o autor de disparos e o amigo da vizinhança tem a mesma desconfiança com relação ao X-men. Posteriormente, o Justiceiro vai ter essa mesma suspeita com relação aos dois.
E é um encontro inspirado desde a capa, com uma belíssima imagem em perspectiva dos dois lutando num parque, oferecimento do grande Ross Andru, um cara que sabia tudo sobre como usar a perspectiva para dar ação e movimento para uma imagem. E a diagramação dinâmica, como os personagens saindo do quadro, funciona muito bem para dois heróis acrobatas. Não é à toa que Garcia-Lopez diz que aprendeu muito sobre narrativa com Ross Andru.
A história tem seus problemas, como um ou outro deus ex-machina. É incrível a quantidade vezes em que os personagens estão nos locais certos no local certo para que a trama se desenvolva. Além disso, o aracnídeo procura o jornalista Joe Robertson e ele sabe tudo que está acontecendo, inclusive o fato de que estão tentando incriminar o Justiceiro. Muito conveniente para o roteiro.
Ainda assim, é um daqueles encontros memoráveis dos quadrinhos.
| A versão da Abril (acima) e a versão do RGE (abaixo). A REGE ampliava quadros, refazendo a diagramação. |
Uma curiosidade é, embora muitos leitores hoje reclamem muito das alterações na história feitas pela Abril, elas eram pequenas na comparação com as alterações da RGE, que aumentava quadros pequenos, muitas vezes transformando-os em splah page. Nessa história uma cena corriqueira de Peter Parker numa lanchonete ganha destaque a ponto de ocupar metade de uma página. Como resultado, as 17 páginas se transformaram em 20 na versão da RGE.
Cobra Kai
Era uma quebra com com o que se via até então. O protagonista era um perdedor. A violência era vista como algo negativo e era mostrada a filosofia por trás das artes marciais.
Mais de 30 anos depois, os personagens e atores originais voltam em uma nova história, o seriado Cobra Kai, da Netflix. E, surpreendentemente, o seriado acrescenta camadas a mais na mitologia, mostrando principalmente que nem tudo é preto e branco, bom e mau (o que, aliás, reflete a filosofia taoista).
Na história, o valentão Johnny Lawrence virou um fracassado bêbado, que não consegue parar no emprego e vive de empréstimos de seu padastro. Já Daniel Larusso tornou-se um rico revendedor de carros. Curiosamente, aqui será Lawrence que exercerá o papel de mestre (que no filme original era a função do senhor Miyagi) ao ensinar karatê para um rapaz que é vítima de bullying. A experiência faz com que ele retome o Cobra Kai, a academia dos valentões dos filmes.
Nessa linha de explorar as complexidades dos personagens, ocorre uma curiosa inversão: em alguns momentos, Lawrence parece um herói, enquanto Larusso age como vilão. No fundo, entratanto, os dois são bem-intencionados e pretendem usar o karatê para ajudar seus alunos, cada um a seu modo. Há um episódio em que cada um deles, Lawrence e Larusso estão ensinando seus pupilos, e os métodos são completamente diferentes, mas ambos conseguem os resultados desejados.
É interessante também ver a versão de Johnny sobre os fatos que são mostrados em Karatê Kid. Na sua visão, Daniel era o vilão.
Tudo isso entremeado com flash backs dos filmes da década de 80 entremeados com temas atuais, como o ciberbuyilling e um elenco que convence.
Uma breve história dos quadrinhos paraenses
![]() |
| Recebendo meus exemplares das mãos do autor Vince Souza |
O Pará é considerado atualmente como um celeiro de grandes quadrinistas. Os quadrinhos se tornaram uma tradição na capital paraense com grandes talentos - alguns dos quais trabalhando para o mercado americano, outros para o mercado europeu. Até o prêmio Jabuti foi para um paraense. Contar a história dessa tradição foi o desafio enfrentando por Vince Souza e Otoniel Oliveira no livro Uma breve história dos quadrinhos paraenses. Apesar do título, é um volume de respeito. São 155 páginas ricamente ilustradas! E capa dura! Obra obrigatória para qualquer fã de quadrinhos nacionais. Eu fiz parte dessa história - foi a partir de uma oficina ministrada por mim e pelo compadre Bené Nascimento que se formou o Ponto de Fuga, um dos grupos que movimentaram o cenário da 9a arte no Pará. Também fui o primeiro gibitecário da Gibiteca da Biblioteca Pública Elcy Lacerda, que existe até home. Eu ajudei os autores disponibilizando fotos e arquivos de jornais.
![]() |
| O livro é ricamente ilustrado |
![]() |
| A diagramação é um diferencial da obra. |
![]() |
| Na foto no canto superior eu na gibiteca do grupo Ponto de Fuga. Eu era muito magro nessa época. |
Perry Rhodan – Os parasprinters
Atlan é o personagem mais estratégico da série Perry Rhodan. No número 226 da série ele revela uma carta na manga: os sprinters, também chamados de compensadores de ondas. Esses especialistas da USO são capazes de se teletransportar usando ondas de energia. Se a onda fosse grande o bastante, poderiam facilmente percorrer 10 mil anos-luz sem esforço.
Duas pessoas têm essa habilidade: os irmãos Tronar e Rakal Woolver, e são eles que protagonizam o volume. Eles são escalados por Atlan para resolver o mistério dos duplos. Nos volumes anteriores, os terranos haviam enviado espiões para tentar conseguir informações dos maahks, mas estes haviam sido duplicados e os duplos enviados de volta, uma tecnologia nunca imaginada pelos humanos.
Os duplos havia conseguido trazer para nossa galáxia um super-cruzador dos inimigos com um transportador capaz de fazer emergir toda uma frota.
Descobrir quem eram os traidores e qual era a missão deles é o objetivo dos sprinters. Para isso eles se transportam para a nave dos alienígenas em uma sequência de pura ação e suspense.
No final, o livro traz um gancho para a próxima história, fazendo com que a trama vá num crescendo. Não é à toa que muitos consideram esse o melhor ciclo da série.
De brinde, o volume traz um conselho de Atlan para Rhodan: “Seja mais sábio e mais duro, e você conservará seu Império Solar. Se continuar como está, logo dirão que você é um titio bonachão”. Rhodan deveria ouvir mais o amigo.
O budismo é uma negação do mundo?
Há uma visão comum de que o budismo seria um tipo de alienação do mundo. Nessa visão, o budista viveria numa bolha de coisas belas e agradáveis onde não haveria espaço para notícias de mortes, doenças e sofrimento. Nada poderia ser mais equivocado que essa imagem.
Sidarta Gautama, que viria a se tornar o Buda, foi criado num palácio no qual não podia penetrar nada feio ou doloroso. Nada de morte, doença, velhice, sofrimento. Nada que pudesse aflingir o seu espírito. Apenas as belezas da vida numa existência de eterna alegria e tranquilidade.
Quando sai do palácio, Sidarta encontra uma pessoa doente, depois uma pessoa envelhecida e finalmente um enterro. Essa revelação provoca nele uma tremenda crise existencial. Até então vivendo num mundo de felicidade eterna, ele se viu frente a frente com a realidade do mundo, onde o sofrimento não só existia como na maioria das vezes era a regra.
Muitas pessoas voltariam para a fortaleza onde só existiam coisas agradáveis e belas, mas Sidarta Gautama percebeu que aquele castelo de alegrias e paz de espírito era apenas uma ilusão. Para alcançar a verdadeira paz de espírito, o primeiro passo era admitir a existência do sofrimento.
Mais tarde, quando despertou (Buda significa aquele que acordou), Sidarta percebeu que aquilo que ocorrera com ele era apenas um exemplo extremo do que ocorre com a maioria das pessoas. Elas constroem ao redor de si uma fortaleza para se abrigar de todas as tristezas do mundo, um local onde não entram notícias de doenças, mortes, tragédias. E é exatamente essa fortaleza que impede que consigam alcançar a iluminação e a superação do sofrimento. Como dizia Renato Russo, “Tudo é dor, e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”.
Segundo Alan W. Watts, autor do livro O espírito do zen, o homem sofre devido ao seu desejo de possuir e manter para sempre coisas que, por essência, são impermanentes. “Dentre essas coisas, a principal é a sua própria pessoa, pois ela é o meio que serve para se isolar do resto da vida, seu castelo”.
Ainda segundo esse autor, a pessoa acredita que essa posição fortificada e isolada é o melhor meio para obter a felicidade. Mas “Buda ensinou que todas as coisas, incluindo esse castelo, são essencialmente impermanentes e que tão logo o homem tente possuí-las, elas escapam”, explica Alan W. Watts. A frustação de não conseguir manter essa bolha gera o sofrimento.
Assim, o budismo não tem a função de nos isolar do mundo. Ao contrário, ele nos ajuda a entender que o mundo é feito de doenças, sofrimento e morte (essa é a primeira nobre verdade) – e aprender a lidar com esses fatos da vida.
Um exemplo disso são as doenças. Ignorar as notícias sobre o assunto só vai fazer com que fiquemos ainda mais propensos a adoecermos já que não saberemos como nos proteger.
Outro exemplo é a violência urbana. Ao ignorar esse perigo podemos ficar ainda mais propensos a sermos vítimas dessa violência.
Isolar-se do mundo, negando-se a receber qualquer notícia que aflinja nosso espírito é apenas criar para si uma ilusão que irá provocar ainda mais sofrimento, pois, como toda ilusão, ela não pode ser mantida. Só podemos superar o sofrimento se tivermos consciência da existência do sofrimento.
A Arte Sensacional de Ernie Colón
Ernie Colón foi um desenhista porto-riquenho mais conhecido por seu trabalho na DC Comics, em especial na série Ametista, criada por ele. Nascido em 1931, começou sua carreira na Harvey Comics na década de 1950. Seu contrato inicial era como letrista, mas, como ele próprio afirmava, era o "pior letrista do ramo", de modo que acabou sendo remanejado para o departamento de arte para fazer retoques e montagem de arte-final. Enquanto desempenhava essas funções, treinava o próprio desenho.
Sua carreira como desenhista engrenou de fato na década de 1960, período em que desenhou diversos personagens populares na Harvey, incluindo Gasparzinho e Riquinho. Também colaborou com a icônica editora Warren Publishing, ilustrando quadrinhos de terror em preto e branco nas revistas Creepy e Eerie.
Para a Marvel Comics, realizou a adaptação da série de ficção científica Battlestar Galactica, dividindo os roteiros com o escritor Roger McKenzie.
Na década de 1980, chegou à DC Comics. Seu primeiro trabalho de destaque na casa foi Arak, o Filho do Trovão, com roteiros de Roy Thomas — personagem que estreou em um encarte especial na revista The Warlord (O Guerreiro), criada por Mike Grell.
Em 1983, começou a publicar pela DC a obra pela qual é mais lembrado: Ametista, a Princesa do Mundo das Gemas (Amethyst, Princess of Gemworld), lançada no Brasil pela Editora Abril nas páginas da revista do Super-Homem.
quinta-feira, outubro 08, 2026
Batman contra o Cavaleiro Negro
Nos números 393 e 394 da revista Batman, o personagem enfrentou um dos seus adversários mais perigosos numa trama muito bem conduzida pelo roteirista Doug Moench e pelo desenhista Paul Gulacy.
No centro da trama está uma estátua de um cossaco. Como não tem interesse em arte pré-revolucionária, a união soviética pretende leiloar a peça, mas Batman descobre que há algo por trás desse leilão, algo mortal, que poderá resultar em um desastre para Gothan.
![]() |
| A trama gira em torno de uma estátua de um cossaco. |
Por trás de toda a trama está o Cavaleiro Negro, um agente da KGB viciado em endorfinas que pretende provocar a terceira guerra mundial. Para impedi-lo, juntam-se a CIA, o FBI e o cavaleiro das trevas.
A melhor parte da história é quando Batman começa a trabalhar em conjunto com uma agente russa, Kátia, o que rende bons diálogos e uma química única. A relação entre os dois fica entre as faíscas e alfinetadas mútuas e a atração sexual. À certa altura, por exemplo, ela pergunta o que ela achou da suíte que ele reservou para ela. “Se eu gostei, Batman? Estou me sentindo como uma estrela de Hollywood! Sim, Batman... os russos também entendem de cinema americano... a KGB quer que seus agentes sejam bem informados em todos os assuntos!”. “Gozado. A CIA não costuma exibir filmes russos para os seus agentes”, responde o homem-morcego.
![]() |
| As melhores sequências envolvem o relaciomento conturbado de Batman com a agente da KGB. |
Essa é uma boa trama de ação e espionagem, com um Batman que age de maneira racional e não tira deduções da cartola como um mágico. Ponto para Doug Moench e principalmente para Paul Gulacy, que com seu traço fotográfico consegue imprimir o visual perfeito para a história.
![]() |
| Ao publicar a história, a Abril substituiu a belíssima capa de Batman 394 por uma versão muito inferior. |
No Brasil essa história foi publicada pela editora Abril em Batman 5 e 6 (segunda série).
A hora do vampiro
A hora do vampiro também é interessante por antecipar o King da escrita automática, solta, que veríamos em Saco de ossos, por exemplo.
A garotada que hoje curte Crepúsculo deveria ler King para saber o que realmente é trabalhar com vampiros.
Como não poderia deixar de ser, A hora do vampiro virou filme e fez tanto sucesso que surgiram vários outros títulos semelhantes em português. Quando a Sampa resolveu fazer uma copilação de histórias minhas e do Bené, eles a chamaram de A hora do Crepúsculo.
Surfista Prateado – O juízo final
Todo quadrinista tem o seu personagem predileto. O de Stan Lee é, sem dúvida, o Surfista Prateado. Tanto que, em 1982, quando John Buscema resolveu fazer uma graphic novel do personagem, ninguém se atreveu a escrever o texto. Esse só podia ser um trabalho para Stan Lee.
A história traz de novo personagens já conhecidos na saga do surfista, como Galactus e Mefisto. Mas acrescenta outro: Nova, a humana que se candidatou a se tornar arauto de galactus.
![]() |
| A história começa com o Surfista sendo tentado por Mefisto. |
Em certo momento, o Surfista e Nova se encontram e se encantam um com o outro. Nova é descrita como “Tão jovem, tão adorável, tão transbordante de vida”. A atração mútua é consequência das diferenças entre os dois. Em contraste com a natureza melancólica do surfista, Nova parece uma criança despreocupada maravilhada com o poder cósmico. Mas ambos têm algo em comum: a preocupação com a vida. A nova arauta do Galactus escolhe para ele apenas planetas que não têm vida.
![]() |
| O herói se encata pela nova arauta de Galactus |
Mas uma trama de Mefisto faz com que ela mude completamente. Enfeitaçada pelo demônio, ela passa a levar o deus até planetas repleto de espécies vivas e cabe ao Surfista detê-la.
Um dos aspectos interessantes dessa graphic é o fato dela ter sido feita toda com quadro por página. Não é uma novidade, como diz Stan Lee em sua apresentação. No Brasil Carlos Zéfiro já fazia isso décadas antes. Mas funciona muito bem para destacar a arte do incrível John Buscema. E deve ter sido um desafio imenso colocar texto em imagens que por si só já narram a história. Um desafio que Lee supera facilmente, como se observa no trecho: “Como explicar uma batalha onde forças colidem enquanto as próprias galáxias estremecem e se convulsionam num agonizante caos? Não há palavra conhecidas por qualquer ser vivo capazes de exprimir a selvageria de tamanho espetáculo”.
Panteão de Paris
![]() |
| Revolucionários saúdam a deusa da razão (Danton é o último da esquerda) |
![]() |
| Homenagem a Voltaire |
![]() |
| Pêndulo de Foucault |
![]() |
| Túmulo de Voltaire |
![]() |
| Túmulo de Rousseau. |














































