segunda-feira, julho 27, 2026
Vikings – a série
A chegada dos vingadores!
Em 1963, a Marvel, que pouco tempo antes era uma biboca no fundo do corredor com dois empregados (Stan Lee e uma secretária) se tornara a mais quente editora do mercado de quadrinhos. As cartas de leitores, que raramente chegavam, e quando chegavam eram para reclamar de erros ortográficos ou editoriais, agora inundavam a redação de fãs entusiasmados. E muitas dessas cartas pediam a criação de um supergrupo reunindo os heróis da editora.
A criação dos Vingadores era, portanto, só uma questão de tempo, e isso aconteceu em setembro daquele ano com toda a pompa e estratégia de auto-promoção que caracterizava a Marvel, a começar pela capa que anunciava: “Os super-heróis mais poderosos da Terra!”. O desenho da capa, uma daquelas artes impactantes de Jack Kirby, mostrava Thor, Hulk, Homem de Ferro (ainda coma armadura antiga), Homem-formiga e Vespa avançando contra Loki, que desdenha: “Os Vingadores... bah! Destruirei todos vocês!”. Uma chamada carregava ainda mais na auto-promoção e estimulava o time de fãs: Super-heróis! Super-vilões” Superameaças! Tudo isso apresentado do jeito fabuloso da Marvel!”.
![]() |
| Loki manipula o Hulk. |
Na história, Loki, em mais um dos seus planos contra seu irmão, resolve controlar o Hulk, fazendo com que ele pense que há explosivos numa linha de trem e levando-o a danificar a linha. A ideia era fazer o golias esmeralda parecer um vilão e colocá-lo em rota de colisão contra Thor. Os membros da Brigada Juvenil, grupo liderado por Rick Jones, pedem ajuda pelo rádio para o Quarteto, mas com a intervenção de Loki, quem recebe a mensagem é Thor e, inadvertidamente, os outros membros dos Vingadores.
![]() |
| Uma das especialidades da Marvel era colocaros heróis lutando entre si. |
Claro que tudo isso era uma boa desculpa para o que a Marvel fazia de melhor: colocar vários heróis em rota de colisão uns com os outros (nesse caso, lutando contra o Hulk).
Rosa e Azul, de Renoir
Homem-aranha vs Capitão Britânia
Perry Rhodan - O espírito da máquina
Na série Perry Rhodan, há volumes que funcionam como uma
verdadeira gangorra: alternam ótimos momentos com passagens absolutamente
modorrentas. Um exemplo claro disso é o número 249, escrito por Kurt Mahr.
Nos números anteriores, Rhodan descobre que os Senhores da
Galáxia pretendem inspecionar todos os seus transmissores. Isso coloca em risco
o "Transmissor Chumbo de Caça", tomado pelos humanos em um sistema
que o inimigo considera desabitado. Os terranos podem até repelir as primeiras
patrulhas, mas certamente viriam outras, com frotas cada vez maiores, até que a
resistência local fosse dizimada — o que provavelmente ocorreria já na quarta
expedição.
A única saída é tentar criar um bloqueio no transmissor para
barrar o avanço dos atacantes. Contudo, o surgimento de um estranho ser
energético parece tornar essa missão impossível.
O livro começa muito bem, focando no primeiro contato do
engenheiro Steven Kantor com o ser, que se manifesta como um monstro. Mahr
acerta ao centrar a narrativa em um homem comum e ao detalhar o cotidiano nas
naves, incluindo o processo de recrutamento e até minúcias sobre os
refeitórios.
No entanto, do meio para o fim, o autor — que tinha formação
científica — empolga-se com detalhes técnicos em dezenas de páginas capazes de
dar sono em um sonâmbulo. A história só retoma o fôlego a partir do capítulo
seis, quando a batalha espacial é descrita e a natureza do ser energético é
revelada em um interessante plot twist.
domingo, julho 26, 2026
Quarteto Fantástico – O impiedoso Mestre dos bonecos
Uma das características que faziam do título do Quarteto Fantástico algo completamente diferente do que se fazia à época era o triângulo amoroso Senhor Fantástico – Mulher Invisível – Namor.
Esse triângulo é o mote do número 14 da publicação. Os heróis tinham acabado de voltar da Lua e se tornam ainda mais celebridades, mas a cabeça de Sue parece estar no fundo oceano, tanto que ela coloca um tal de olhoscópio para percorrer o fundo dos mares em busca do Príncipe Submarino. O detalhe é que o aparelho foi criado por Reed Richards. “Embora o mundo me conheça como o Senhor Fantástico, não sou capaz de atingir meu objetivo mais estimado! Sou completamente incapaz de conquistar o coração da mulher que amo”, diz ele, provavelmente o guampudo mais famoso dos quadrinhos.
![]() |
| Todas as mulheres estão apaixonadas pelo Senhor Fantástico... |
Nessa edição, Stan Lee e Jack Kirby pareciam estar carentes de ideias, tanto que resolvem trazer de volta um vilão que havia aparecido no número 5 da revista, o Mestre dos Bonecos. O personagem já não era grande coisa lá naquela primeira revista, mas aqui é totalmente inútil, pois resolve controlar Namor e colocá-lo em rota de colisão com o Quarteto, como se o príncipe dos mares precisasse de alguma desculpa para isso.
A única diferença é que o Mestre dos Bonecos faz com que ele coloque a vida de Sue em perigo.
![]() |
| ... mas Sue parece estar apaixonada por Namor. |
Kirby e Lee pareciam também não estar muito afinados. À certa altura o Coisa vai atrás de Alícia se desperdir, mas ela insiste em ir junto, por mais que isso pareça sem sentido. Ele estaciona sua versão do fantasticarro em um estacionamento público e quando volta, descobre que o veículo está trancado por vários outros. Ele resolve a situação colococando vários carros um em cima do outro. Mas, vejam bem, ele chegou voando. Não poderia ter ido embora também voando, como aliás ele faz? A sequência não faz o menor sentido.
![]() |
| Tudo bem que o Coisa é turrão, mas empilhar vários carros para tirar um carro voador? |
Outra sequência sem sentido é quando o Coisa joga um polvo e ele acerta o submarino do Mestre dos Bonecos. O vilão argumenta que não teria tempo de desviar do monstro gigante e resolve... fazer um boneco do polvo para controlá-lo! O tempo que ele levaria para fazer o boneco daria tempo para ele desviar até de um cardume. Um vilão ridículo deveria ter mesmo um final ridículo.
Antes que a revista acabasse, temos uma daquelas cenas memoráveis com os heróis se lançando contra Namor e a Mulher Invisível se colocando entre eles para defender seu amado. Reed Richards era um cara muito paciente e apaixonado.
Monsieur Verdoux e o sonho com Chaplin
No início da década de 1990 eu e alguns amigos fomos conhecer uma cidade da ilha do marajó chamada Joanes. Inadvertidamente, acabamos montando a barraca na praça da cidade - só percebemos isso quando anoiteceu e a população local apareceu para passear no local. No dia seguinte mudamos a barraca para um outro local, na beira da praia. Mas naquela noite cada um de nós teve algum tipo de epifania.
Eu sonhei com Charles Chaplin. Sonhei que tínhamos uma longa conversa e ele dizia que iria me apresentar aquele que ele considerava o seu melhor filme. E assistimos juntos Monsieur Verdoux.
Naquela época não existia internet e vídeo cassete era um acessório de luxo, de modo que eu só assistia o que passava na TV e, pelo que eu me lembrava, esse filme nunca tinha passado na TV, de modo que era inédito para mim.
Alguns anos depois a Globo apresentou um especial Charles Chaplin e pude finalmente assistir Monsieur Verdoux. E era o mesmo filme que eu tinha visto em meu sonho.
Talvez a explicação tivesse a ver com o inconsciente coletivo. Ou talvez eu tivesse assistido o filme há tanto tempo que não me lembrasse, o que não faz muito sentido, pois uma criança dificilmente se sentiria atraída por esse filme sobre um homem que engana e mata mulheres.
Qualquer que seja a explicação, o fato é que concordo com o Chaplin do meu sonho: esse é um dos melhores, senão o melhor filme dele.
Cabanagem: A miserável revolução das classes infames
Demolidor – Nas mãos de Mercenário
O primeiro grande evento do título do Demolidor na fase Frank Miller foi o confronto com o Mercenário nos números 160 e 161.
Nessa fase o roteirista ainda era Roger Mackenzie, que parecia cada vez mais se adaptar ao estilo e aproveitar ao máximo as potencialidades narrativas de Miller.
![]() |
| O casal na rua era Peter Parker e Mary Jane, mas a Abril suprimiu a referência. |
A história começa com uma sequência eletrizante com a Viúva Negra entrando em seu apartamento e dando de cara com o Mercenário, que pretende usá-la como isca para se vingar do homem sem medo. A espião se revela uma adversária formidável, mas é difícil lutar contra alguém que pode usar qualquer coisa como arma.
Essa sequência inicial é uma demonstração perfeita de como Miller era um narrador visual revolucionário. Ele brinca com a diagramação, fazendo quadros que esticam por todo o sentido vertical ou horizontal da página. E usa isso como elemento para dinamizar a ação. À certa altura, por exemplo, o mercenário derruba um candelabro sobre a heroína e o quadro esticado amplia a impressão de algo caindo.
![]() |
| Miller esqueceu de tirar as luvas do herói. |
A história tem direito até a referências a outras séries da Marvel. Num dos quadros, por exemplo, Matt Murdock vê um casal na rua e pensa: “Como eu gostaria que Heather e eu fôssemos um casal como esse. Não parecem ter nenhuma preocupação na vida”. O casal sorridente, que passa lá embaixo é composto por ninguém menos que Peter Parker e Mary Jane Watson, o que torna a cena irônica, já que o Homem-Aranha é conhecido exatamente por seus problemas pessoais. Em tempo: quando a Abril publicou essa história em superaventuras Marvel, a editora simplesmente cortou a referência.
Há também um erro narrativo, um descuido, provavelmente de Miller. Quando entra no apartamento da Viúva Negra e descobre que a ex-namorada foi sequestrada, o Demolidor percebe que o autor é o mercenário graças a uma foto de Natasha com os círculos concêntricos que caracterizam o Mercenário. Como é cego, ele usa o tato para visualizar a imagem. Mas na cena ele aparece usando... luvas!
![]() |
| A sequência do parque de diversões é simplesmente eletrizante. |
Tirando as referências e pequenos erros, a história se destaca mesmo é pela narrativa frenética, que encontra seu auge na sequência do parque de diversões, onde o mercenário prende a Viúva Negra. O cenário é ideal para os planos e ângulos inusitados nos quais Miller era um mestre.
Infelizmente, toda essa preparação tem um fim pífio, com o Mercenário tendo um surto e sendo facilmente derrotado, algo que foge completamente de tudo que havíamos visto sobre ele até então.
A gramática dos super-heróis
Algo que tenho percebido em muitas pessoas que produzem quadrinhos de super-heróis no Brasil atualmente é um desconhecimento dos elementos que compõe um gibi de super-heróis.
Embora os super-heróis tenham surgido no final da década de 1930, foi na década de 1960 que caras como Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko, John Romita e Joh Buscema definiram a linguagem definitiva dos super-heróis. O jeito Marvel de fazer quadrinhos era tão inovador, tão poderoso, que a partir daí tudo que foi feito rezou pela cartilha Marvel (mesmo a antagonista DC Comics acabou depois acompanhando essa cartilha).Assim, para fazer super-heróis é essencial ler clássicos como o Quarteto Fantástico de Lee e Kirby ou o Homem-aranha de Lee-Ditko-Romita. A linguagem está ali, em estado puro, pronta para ser estudada, aprendida e, se for o caso, revolucionada. Os caras que na década de 1980 revolucionaram o gênero, como Frank Miller e Alan Moore conheciam essa gramática dos super-heróis de cor e só conseguiram fazer algo inovador por causa desse conhecimento.
Então, vamos conhecer um pouco dessa "gramática".
Continuação
A grande inovação da Marvel foi apresentar histórias em sequência, dentro de uma cronologia. Hoje praticamente todo mundo faz isso, mas na época era novidade. Na DC, por exemplo, era raro uma história que não concluísse dentro de um gibi. Mas se a continuação pode ser interessante, pode também ser uma armadilha. Imagine o leitor que vai na banca, compra um gibi que não conhece e, ao lê-lo descobre que a história não termina ali, a história para no meio da ação, às vezes no meio de um diálogo. O que o leitor faz? Ele joga fora o gibi. A sequência pode ser interessante, mas para isso precisa ser bem trabalhada, precisa prender a atenção do leitor e levá-lo a comprar o próximo gibi.
![]() |
| A história termina em uma situação de suspense: gancho para o próximo gibi. |
Uma forma de fazer isso são os famosos ganchos: uma situação de suspense no final do gibi que deixa o leitor curioso para comprar o próximo número. Imagine: o herói está caído e alguém se aproxima para arrancar sua máscara. Sua identidade será descoberta? Compre o próximo gibi e descubra! Isso vicia o leitor. Outra forma é fazer uma mini-conclusão, como se cada gibi fosse um capítulo de um livro. Uma parte do conflito é resolvida no final daquele gibi, mas há algo maior, que o leitor só saberá como acaba lendo os próximos gibis.
![]() |
| O conflito foi resolvido. Mas a história terminou? Isso você só saberá no próximo gibi. |
Stan Lee e Jack Kirby nos seus melhores momentos experimentavam uma união dessas duas estratégias. Uma parte do conflito era resolvida, só para surgir um conflito ainda maior em seguida. Thor estava para ser derrotado por um inimigo invencível. Então surgia um ser poderoso e derrotava o vilão (o que fechava a trama daquele gibi). Mas aí o leitor descobria que o ser poderoso só havia feito isso porque ele mesmo queria ter a honra de matar o herói (e aí temos o gancho para o próximo gibi).
Muitas vezes o gancho desembocava no próximo gibi numa cena impressionante, numa... splash page!
![]() |
| Splash page ocupando a primeira página. |
Splash page
Lee e Kirby sabiam que os quadrinhos são uma mídia visual. Páginas e páginas de diálogos não são nada diante de uma imagem poderosa, de impacto, ação, especialmente para os leitores de super-heróis. Assim, colocar uma splash page no início de cada história era uma forma de agarrar o leitor, conquistá-lo já no começo. A primeira coisa a se dizer sobre splash page é que ela deve ser uma cena de impacto e deve ser relevante para a história. Uma sequência de diálogo, por exemplo, não funciona como splash page (uma vez Kirby fez uma splash page de diálogo, mas eram dois deuses conversando algo grandioso, em um cenário grandioso, de modo que acabou valendo).
![]() |
| Splash page de página dupla, ocupando as páginas 2 e 3. |
Splash page deve concentrar toda a ação, mistério, suspense da história. Ela pode vir na primeira página. Ou na segunda, ou terceira página, sendo consequência direta do que veio antes. Um exemplo nesse sentido: o herói entra no esconderijo do vilão e a primeira página o mostra entrando. Na segunda ou terceira página ele está lá dentro e está sendo atacado por todos os lacaios do vilão numa imagem de tirar o fôlego!
![]() |
| Sequência de ação que desemboca numa splash page. |
Lembrando que a splash page, embora seja normalmente uma página inteira, pode também ocupar duas páginas, tendo ainda mais impacto. Em tempo: é na splash page que são colocados o título da história e os créditos.
Recapitulando
![]() |
| Nas histórias da Marvel a recapitulação sempre é integrada à história. |
Como as revistas da Marvel eram quase todas em continuação e nem sempre o leitor havia comprado o gibi anterior, Stan Lee inventou um estratagema para situá-lo. Era praticamente uma norma que nas primeiras páginas o roteirista situasse o leitor dentro da história. Para isso ele deveria, obrigatoriamente, com o texto, responder a três perguntas: Quem? Onde? O que está acontecendo? Alguns roteiristas chegavam até mesmo a colocar essas perguntas no texto, respondendo-as.
Esses são alguns elementos básicos. Para melhor entendê-los (e perceber outros elementos) vale a dica do início: ler os clássicos. Vale a pena comprar uma antologia de histórias clássicas da Marvel e aprender um pouco como essas histórias eram feitas.
Fundo do baú - Vovô viu a Uva
Vovô viu a uva (These Are the Days) foi uma das três tentativas da Hanna-Barbera de produzir programas “sérios” para o sábado de manhã (as outras foram Korg e Devlin, o motoqueiro) e, apesar de ter sido bem recebida pela crítica, foi um fracasso de audiência, tendo apenas uma temporada, com 16 episódios.
O programa foi criado de olho na popularidade da série Os Waltons, com histórias bucólicas e ingênuas situadas em um pequeno vilarejo na virada do século XIX para o século XX.
Assim, Vovô viu a uva se passa na pequena cidade de Elmsville e é focada na família Day constituída por uma jovem viúva, seus três filhos e o pai, dono da mercearia local. O avô, aliás, acaba se tornando o personagem principal, com suas invenções sempre muito criativas, como um chuveiro movido a um pedal de bicicleta.
As histórias giravam em torno da interação da família Day com os vizinhos, geralmente terminando com uma lição aprendida por todos.
No episódio A fonte hidromineral, ao tirar uma raíz de árvore, vovô descobre uma fonte de água quente capaz de curar pessoas com dores no corpo, o que pode transformar a fazenda em um negócio lucrativo. Um amigo do vovô, Hommer, ajuda no início, chegando inclusive a colocar anúncios nos jornais, mas o vovô se nega a torná-lo sócio da fonte baseando em um axioma que lhe foi dito pelo caixeiro viajante que comprou sua mercearia: “Sentimentos e negócios não se misturam”.
No final, dá tudo errado e quando vai tentar conseguir de volta a mercearia, o vovô descobre que o lema “Sentimentos e negócios não se misturam” afastou todos os fregueses do local.
A lição aprendida é que não se deve colocar o lucro acima das amizades.
Uma curiosidade é que o título nacional, Vovô viu a uva, é uma referência a uma frase usada no passado para ensinar crianças a lerem.


























