domingo, setembro 06, 2026

Coleção DC 75 anos – A era de prata

 

 


Em 2010 a DC Comics completou 75 anos. Para comemorar, a Panini lançou no Brasil uma coleção em quatro volumes, cada um reunindo histórias de um período: Era de Ouro, Era de Prata, Era de Bronze, Era Moderna.
Há uma polêmica sobre como teria começado a Era de Prata, mas a maioria dos autores concorda que foi com o ressurgimento dos super-heróis devido ao sucesso da nova versão do Flash, em Showcase 4, de 1956. A partir daí a DC voltou a investir em heróis de malha e as revistas começaram a pipocar nas bancas, até culminar na reunião dos heróis na Liga da Justiça.
A revista que deu origem à era de prata dos super-heróis. 


O volume pretende dar uma visão geral do período e, como não poderia deixar de ser, inicia com o ressurgimento do Flash, com roteiro de Robert Kanigher, desenhos de Carmine Infantino e arte-final de Joe Kubert. Dá para perceber porque se tornou um clássico que salvou os heróis do esquecimento: o roteiro é bem amarrado, com uma sacada genial  e irônica (um velocista enfrentando o Tartaruga, o homem mais lento da terra) e os desenhos são lindos, a começar pela splash page inicial com o Flash avançado pela página como se estivesse escapando dos quadrinhos. E, comparado com a versão do personagem da Era de Ouro, essa é muito mais consistente.
A história a seguir, do Superboy, é outro clássico típico da era de ouro. Escrita por Otto Binder e desenhada por Al Plastino, a HQ apresenta a Legião dos Super-heróis. Ainda na coleira do Comics Code, os quadrinhos não poderiam ter nada que parecesse ofensivo aos pais. Então esqueça violência ou conflitos familiares. Os roteiristas tinham se adequar a plots ingênuos e fazer com que eles parecessem interessantes. É o que fazem os autores dessa história. Na HQ, o Superboy tenta ser admitido na Legião, mas falha em todos os testes, pois sempre aparece algo mais urgente para ser resolvido. O plot twist final é ingênuo, mas eficaz dentro da lógica da época.


A origem do Aquaman (com roteiro de Robert Bernstein e desenhos de Ramona Fradon) deixa um ar de incômodo nos leitores mais costumazes. É parecida demais com a origem de Namor. Ambos são filhos de mulheres atlântidas com humanos, só para dar um exemplo. Mas como na época o Príncipe dos Mares não era publicado e a Marvel dependia da DC para a distribuição de suas revistas, isso acabou não dando origem a um óbvio processo judicial por plágio.
Segue-se a famosa história em que o Flash da era de prata encontra o da era de ouro. Famosa por que deu origem ao conceito de que existem vários universos DC em dimensões diferentes, e a história em que a Liga da Justiça encontra a Sociedade da Justiça, aproveitando esse mote.
A história que deu origem ao multiverso DC. 


Depois uma história dos parceiros mirins dos heróis em que Robin, Kid Flash e Aquakid precisam solucionar o mistério do desaparecimento dos jovens de uma cidade do interior dos EUA. É irritante o quanto a HQ consegue ser unidimensional em seu conflito. Adultos não conseguem entender os jovens na cidade e os jovens não conseguem entender os adultos. Entre os heróis, os heróis adultos não conseguem entender suas versões mirins e estes, por sua vez, não conseguem entender os heróis. Mas no final, a solução é simplista. Diante de toda a complexidade de relacionamento que teríamos nos Novos Titãs na fase de Marv Wolfman e George Peres, histórias como essa parecem terrivelmente simplistas.
O volume traz ainda “A montanha do julgamento”, de Jack Kirby – e, independente da qualidade desse material, fico na dúvida se poderia entrar em um volume sobre a era de prata.
Algumas faltas são nítidas na edição. Não há, por exemplo, nenhuma história do Super-homem desenhada por Curt Swan, o desenhista mais emblemático da Era de Prata na DC. Além disso, não há nenhuma HQ do Gavião Negro de Joe Kubert, um dos melhores quadrinhos do período na DC.

A difícil arte de escrever quadrinhos

 


A difícil arte de escrever quadrinhos foi um fanzine publicado no ano de 1997 como edição especial do Sequência, zine editado por mim e pelo Antonio Eder.

O título surgiu de algo que eu já vinha percebendo no meio quadrinístico. Embora houvesse uma preocupação muito grande com o desenvolvimento do desenho nos quadrinhos nacionais, a mesma preocupação não se aplicava aos roteiros. O desenho era visto como algo difícil, que demandavam um longo aprendizado de técnicas que iam da perspectiva à anatomia. Já o roteiro era visto como algo que não demandava “prática nem habilidade” (como se dizia na época).

Essa visão se aplicava inclusive aos editores, a maioria dos quais publicava qualquer HQ cujo desenho estivesse bom e não tivesse erros grosseiros de ortografia. Aspectos como construção de personagens, da trama ou qualidade do texto normalmente eram solenemente ignorados. Tanto que praticamente todo desenhista brasileiro já tinha publicado pelo menos uma história com roteiro próprio (muitas vezes como forma de ganhar um pouco mais de dinheiro, pois acumulava o pagamento de desenho e roteiro). Por consequência, todo desenhista de quadrinhos no Brasil passava a ser visto, automaticamente, também como roteirista.

Assim, escrever quadrinhos não só era difícil por todas as técnicas e habilidades necessárias, mas também porque o roteirista não era valorizado. 

O objetivo do fanzine, portanto, era valorizar os roteiristas e mostrar que sim, para escrever quadrinhos é necessário aprender uma série de técnicas e habilidades. Mas havia também a intenção ajudar as novas gerações, que não precisariam aprender tudo do zero, como foi o meu caso. Quando comecei a escrever quadrinhos eu não sabia nada de nada do assunto e único livro que eu tinha lido sobre roteiro era um do Doc Comparato, sobre roteiro de cinema (quando tentei usar, o resultado foi desastroso, afinal cinema não é quadrinhos). Eu só fui saber como se formatava um roteiro muito tempo depois, quando vi um roteiro do Júlio Emílio Brás.

Esse fanzine foi, portanto, o embrião de obras posteriores, como os livros O roteiro nas histórias em quadrinhos, Como escrever quadrinhos e A bíblia do roteiro de quadrinhos.

Uma curiosidade é que um desenhista de Curitiba pegou ódio de mim graças ao trecho do zine no qual eu insinuava que Rorschach era apaixonado pelo Coruja.

Para baixar o fanzine, clique aqui

Valerian, o filme

 


Gostei de Valerian. O filme tem inegáveis problemas de roteiro (como o envolvimento romântico forçado dos personagens, com Valerian pedindo Laureline em casamento logo nos primeiros minutos), mas nada que realmente comprometa a história ou a verossimilhança do roteiro. 
A série Valerian se destaca pelos protagonistas carismáticos, mas principalmente por ter sido uma das melhores histórias em quadrinhos que desenvolveram o "sense o wonder". 
O roteirista Christin sempre foi um mestre do olhar antropológico futurista: em mostrar raças, situações, culturas e costumes extraterrestres e isso está bem preservado no filme de Luc Bresson.
O mercado que só existe em outra dimensão, a estação espacial que é ponto de centenas de raças, o pequeno mascote capaz de reproduzir tudo o que come, os mais variados tipos de seres com seus costumes estranhos para nós, tudo isso está ali, assim como o humor característico dos quadrinhos. Valerian é uma ótima diversão.

Laboratório Ark II

 


Na década de 1970 a Filmation, famosa pelos desenhos animados, resolveu investir em séries live action. Entre as várias produções, uma merece destaque: Laboratório Ark II.

A atração mostrava um grupo de cientistas em um mundo pós-apocalíptico que percorre a terra devastada. O texto de abertura dava o tom: “”Por milhões de anos, a Terra foi fértil e rica. Então a poluição e o lixo começaram a cobrar seu preço. A civilização caiu em ruínas. Este é o mundo do século 25. Apenas um punhado de cientistas permanece, homens que juraram reconstruir o que foi destruído. Esta é a conquista deles: Ark II, um depósito móvel de conhecimento científico, operado por uma equipe de jovens altamente treinados. Sua missão: levar a esperança de um novo futuro para a humanidade”.

A equipe era composta por pelo comandante Jonah e os adolescentes Ruth e Samuel. Completava a equipe o chimpanzé inteligente Adam, capaz de várias proezas, entre elas jogar xadrez. Os personagens usavam uma roupa branca com uma faixa azul ou vermelha na lateral, assim como botas, o que dava um ar futurista para os mesmos.

Uma das grandes atrações da série eram os veículos, a começar pelo laboratório móvel Ark II, um micro-ônibus adaptado pela produção. A equipe contava também com um veículo auxiliar, o  Roamer, feito a partir de um chassi de fusca, que apresentava uma porta deslizante que até hoje parece um conceito interessante. Outra novidade era um sistema de defesa do Ark II acionado por botão, que se assemelha muito ao que hoje em dia é chamado de alarme de carro. Completava o equipamento de transporte uma mochila voadora, que parecia um truque ou efeito especial, mas era real.

Em contraste com essa equipe super-tecnológica, a maioria da população era composta de pessoas maltrapilhas que lutavam para conseguir o suficiente para comer. É que se pode ver no primeiro episódio, Os moscas, na qual um velho arregimenta várias crianças para coletarem para ele lixo para ser trocado por comida. Numa dessas excursões o grupo encontra garrafas com um gás extremamente venenoso, o que desperta a atenção da equipe do Ark II. Mas a situação sai do controle quando o velho resolve usar o gás venenoso para conseguir poder.

Apesar das histórias interessantes, embora infantilizadas, a série não fez muito sucesso. Foram produzidos apenas 15 episódios de meia hora. Com o cancelamento da série, um episódio já roteirizado, chamado “O mar secreto” não chegou a ser produzido. No Brasil o seriado ficou conhecido ao ser exibido na década de 1980 dentro do programa Silvio Santos.

Capitão Marvel – Quando titãs colidem

 


Quando entrou no título do Capitão Marvel, Jim Starlin foi aos poucos inteferindo nos roteiros levando a história cada vez mais no sentido de transformar o título em uma série com tramas de ficção científica. O número 28 seria o último que ainda tinha texto de Mike Friendrich e mesmo assim apenas em algumas páginas.

Na história, Thanos está em busca do cubo cósmico com o objetivo de conquistar o universo (nessa época ainda não havia a motivação de matar metade do universo como uma oferenda à Morte).  

Os diálogos de Friendrich eram ridículos. 


Enquanto o titã louco busca o artefato, a namorada de Rick Jones busca ajuda com os Vingadores – ela que tinha sido uma das pessoas controladas por um mecanismo de Thanos.

Há alguns diálogos constrangedores de Mike Friendrich, como essa fala do Rick Jones: “Latinha, se a gente tivesse se metido mais, podíamos vender numa promoção leva dois, paga um. A verdade é que aquele Thanos é doido de carteirinha!”.

O confronto entre Thanos de Destruidor é o grande momento da história. 


O melhor momento é o capítulo focado em Thanos e na tentativa do Destruidor de impedi-lo de conseguir o cubo cósmico. O capítulo inteiro é escrito e desenhado por Jim Starlin e representa um salto de qualidade na história. Thanos cria uma “distorção de sincronia mental-temporal” para atacar o adversário, o que vira uma desculpa para Starlin viajar na narrativa, incluindo uma sequência os dois personagens distorcidos e todo tipo de viagem visual. “Primeiro seja atacado por punhos de ilusões destruídas de promessas quebradas. Agora seja ameaçado pelos fantasmas sinistros de proezas passadas... pelos intimidadores espectros sinistros de males futuros”.

Starlin usa desenhos distorcidos... 


O grande momento é uma página com 35 quadrinhos que começa com o rosto do Destruídor sendo aos poucos distorcido e até um close nos seus olhos vermelhos e assustados e termina em Thanos num processo inverso. Era Starlin trazendo toda a ousadia dos quadrinhos underground para os comics de super-heróis.

A sequência termina com uma imagem de enorme impacto de Thanos se aproximando para agarrar o cubo cósmico. Essa é provavelmente a primeira imagem que mostrou o personagem em toda a sua grandiosidade, poder e perigo.

... e uma célebre página com dezenas de quadrinhos. 


Essas seis páginas eram melhores do que tudo que já tinha sido feito com o personagem até então.

A sequência era algo tão genial que na edição seguinte o editor Roy Thomas já colocou roteiro e desenhos nas mãos de Starlin... e o resultado seria a história mais memorável do personagem. 

sábado, setembro 05, 2026

A Geração dos vídeos curtos e o fim da atenção


 Há algum tempo, fizemos uma viagem de navio que durou 24 horas. Ao nosso lado, uma mãe segurava o celular para que a filha assistisse a vídeos curtos e aleatórios por horas intermináveis. Quando a bateria finalmente acabou, a bebê foi tomada por um acesso incontrolável de choro. Em outra ocasião, num restaurante a quilo, uma mãe deixou o filho — de cerca de 6 anos — na mesa, hipnotizado por esses mesmos vídeos (o garoto já havia entrado no recinto com os olhos fixos na tela). Quando ela precisou do aparelho para pagar a conta, o menino começou a gritar e a bater na mesa.

Está sendo criada uma geração de crianças viciada em vídeos curtos, que se tornará incapaz de assistir a qualquer conteúdo com mais de 30 segundos ou de ler um texto com mais de duas linhas.

Um pequeno reflexo desse fenômeno já pode ser visto nos cinemas. Fomos assistir a Coiote vs. ACME e uma mulher à minha esquerda passou a exibição inteira mexendo no celular. Mudei de poltrona e o grupo de adolescentes à direita mantinha o mesmo comportamento. Quando minha esposa reclamou, uma jovem soltou uma desculpa que resume bem essa mentalidade: “Nós não reclamamos quando vocês riem do filme”. Na cabeça dela, rir de uma comédia no cinema é algo absurdo. Essa é a síntese desta nova geração. E a tendência é piorar — e muito — nos próximos anos.

Em tempo: o filme é ótimo. Assistam. Mas desliguem o celular. 

Ajax, o marciano - sonho febril

 


Ajax, o caçador marciano, é um dos personagens mais tradicionais da DC comics, tendo participado da Liga da Justiça desde a sua primeira formação. Entretanto, poucas vezes o personagem ganhou destaque próprio. 

Em 1988, JM Dematteis, escritor da Liga , aproveitou um gancho de uma das histórias para criar uma minissérie em quatro partes que desenvolvia e redefinida o herói marciano. 

O desenho de Mark Badger funciona muito bem na história. 


Na história, Ajax enlouquece após ser infectado por um esporo e começa a ser perseguido por um deus marciano e por recordações de seu planeta natal. Mas as aparições existem mesmo ou são apenas fruto da febre de uma mente paranormal? 

Ajax é atormentado por um deus marciano. 


A série se destaca pelas sequências com ótimo texto com recursos poéticos, a exemplo de: 

 Jamais conheci o medo

(exceto no sono)

Jamais fugi

(exceto em sonhos)

Nunca fui colhido pelo terror

(exceto nos momentos em que algo vago e inominável trilhou por minha mente)

O texto é poético. 

 

Por outro lado, o desenho de Mark bagder se encaixa bem nessa trama lisergica. 

Essa minissérie, profundamente intimista, tinha pouca ação, mas ainda assim era uma leitura cativante. 

No final, a versão de Dematteis para Marte de Ajax é uma bela homenagem a Ray Bradbury.

No Brasil essa minissérie foi publicada na revista Liga da Justiça.

Origens secretas - filme policial explora o universo dos quadrinhos

 


Um homem é encontrado morto numa espécie de academia clandestina. Ao investigar, descobrem que ele era um cientista magro que em poucos meses se transformou num monstro musculoso. E mais: sua pele se tornou cinza. Esse assassinato remete diretamente ao primeiro número do incrível Hulk em que o magrelo cientista Bruce Banner se torna no monstro cinza Hulk. Sim, cinza, pois era essa a cor do personagem no início.
Esse é o primeiro de uma série de assassinatos que deverá ser desvendado pela polícia de Madrid. Para ajudar a solucioná-los, um detetive aposentado indica para o policial que irá substitui-lo seu filho, dono de uma loja de quadrinhos. E é formada uma dupla totalmente disfuncional: de um lado o detetive David, que odeia super-heróis e acha que quadrinhos são para crianças. Do outro, o nerd Jorge Elias, uma enciclopédia sobre quadrinhos, que consegue perceber todas as pistas quadrinísticas deixadas pelo assassino que levarão aos próximos casos. Completa o trio a chefe da polícia, que faz cosplay nas horas vagas e muitas vezes aparece na cena do crime vestida de personagem de anime ou de quadrinhos.
A temática poderia ser abordada em tom dramático, como um Seven quadrinístico, mas a opção do diretor David Galán Galindo preferiu levar o filme "Origens secretas", lançado pela Netflix, na direção da comédia – com uma quantidade enorme de piadas e referências à cultura pop em cada sequência. Como não podiam mostrar os quadrinhos originais, por uma questão de direitos autorais, os produtores criaram algumas peças interessantes. Logo que entra pela primeira vez na loja de quadrinhos, o detetive se deparada com um item raro, o gibi que mostrava a luta de Muhammad Ali contra o Superman. Mas, em decorrência do já citado problema com direitos autorais, aparece um boxeador lutando contra um herói genérico chamado Zinco. O nome do boxeador? Neal O´Neil, uma referência a Neal Adams e Denny O´Neil, respectivamente desenhista e roteirista do gibi original.
A ênfase no humor e a decisão de fazer um filme que começa como policial e termina como super-heroiesco faz com que o filme peque na profundidade dos personagens. Mas é um bom filme, divertido, que irá alegrar a maioria dos fãs e tem a atração de tentar não só adivinhar quais serão os próximos crimes, mas perceber todas as referências.

A voz do fogo, de Alan Moore

 

 

Quem lia quadrinhos na década de 80 espantava-se com a capacidade narrativa do mestre inglês Alan Moore. E surgia sempre a dúvida: ele se sairia tão bem na literatura, sem o auxílio dos desenhos? A voz do fogo, seu livro recentemente lançado no Brasil pela Conrad Editora, prova que quem é bom, é bom em qualquer mídia.
A obra traça a trajetória de Northampton, a cidade natal de Moore, por meio de seus habitantes. A trama tem início quatro mil anos antes de cristo e prossegue até 1995. São vários contos interligados que nos dão um panorama geral da localidade e de sua evolução, mesclando magia, reencarnação e sacrifícios.
O primeiro conto, O porco do bruxo, é provavelmente o mais interessante e também o de leitura mais difícil. Gira em torno do drama de um garoto na Era Neolítica, abandonado pela tribo quando sua mãe morreu. Imagine, então, o desafio de redigir uma aventura em primeira pessoa cujo narrador ainda não domina a linguagem falada. Para tanto, Moore cria uma linguagem estranha, sem tempos verbais e com pouquíssimos pronomes. O resultado é fantástico, mas árduo.
Sinta só este exemplo: Agora olha eu para baixo, para a grama em fundo da colina, vê porcos. Porcos grandes, compridos, um atrás de outro, traçando a fêmea, pelo que parece. Ver faz um osso subir dentro de eu vontade. Eu e barriga de eu, junto, posso descer colina correndo até porcos, acertar pedra em um e fazer ele sem vida, para comer ele todo. Antes é eu juntando isso. Agora é fazendo isso.
O episódio que vem a seguir é igualmente interessante. Os campos de cremação é uma trama policial e de suspense ambientada no ano 2.500 antes de Cristo. Em viagem para conhecer seu pai, um bruxo de uma rica aldeia, uma jovem depara-se com uma esperta andarilha, que já havia feito de tudo, inclusive vender uma criança perdida da mãe como escrava. Ingenuamente, a menina conta-lhe detalhes da fortuna do seu genitor. A mau-caráter, então, mata a incauta e apresenta-se na aldeia, fazendo-se passar por ela. A grande questão é saber se a impostora será descoberta ou não. A todo instante, Alan Moore mantém-nos no fio da navalha, jogando com os nervos da personagem e os nossos.
Neste mesmo episódio, dá-se algo que define bem a atuação do autor. O velho bruxo tatua, no corpo, o mapa de Northampton e assim influencia a cidade, que, por sua vez, exerce influência sobre ele. O mesmo ocorre com Moore. Suas palavras são uma espécie de magia simbólica que molda e se deixa moldar pela cidade. Compreender como isso transcorre e descobrir as coincidências entre as diversas tramas é mais um dos atrativos do livro. Muitas vezes, a conclusão de uma narrativa dá-se apenas em outra. Além disso, há personagens fixas, como arquétipos, que surgem aqui e acolá, permeando os textos. Entalhando as palavras, Moore garante que, se o conteúdo mágico e holístico do livro não for suficiente para atrair o leitor, a poderosa narrativa cuidará de prender sua atenção até o último parágrafo. São, portanto, mais de trezentas páginas, mas que muito facilmente serão lidas num fôlego só.

Um certo capitão Rodrigo

 


Assim como Ana Terra, Rodrigo Cambará se tornou um personagem tão popular da trilogia O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, que, de capítulo, passou a ser publicado como livro solo.

Sua primeira aparição é marcante tanto pela descrição acurada de Veríssimo quanto pelos ótimos diálogos: “Toda gente tinha achado estranha a maneira como o Cap. Rodrigo Cambará entrara na vila de Santa Fé”. Ele tinha vindo ninguém sabia de onde, com seu chapéu puxado para a nuca, a cabeça altivamente erguida, o olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava. Trazia um violão a tiracolo e uma espada apresilhada aos arreios. O lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira.

- Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de malho! – diz ele, ao entrar na venda local.  

O personagem cria ao mesmo tempo estranhamento e fascínio e vai, aos poucos, conquistando todos na cidade, a começar por Juvenal Terra, neto de Ana Terra, que num primeiro momento desafia o recém-chegado, mas logo se torna seu amigo.

Toda a trama do livro se desenvolve a partir de uma mudança no Capitão. Ele se apaixona por Bibiana Terra e resolve ficar na vila, contrariando sua natureza aventureira. Claro que esse romance irá enfrentar muitas dificuldades, a começar pelo pai da moça, Pedro Terra, que o odeia, e pelos Amarais, que mandam no local e cujo mais moço, Bento, quer a mão da moça mais bonita de Santa Fé. A garota, entretanto, é apaixonada pelo forasteiro. “O vício dela era Rodrigo”, escreve Veríssimo.

Apesar da trama relativamente doméstica na maior parte (na parte final, estoura a revolução farroupilha), é um livro que prende o leitor tanto pela personalidae carismática do protagonista quanto pelo texto de Veríssimo, que nos serve uma verdadeira aula de narrativa em que simbologias se sobrepõe.

À certa altura, por exemplo, a filha do casal está doente, mas o Capitão está na mesa de carteado. Vão avisá-lo, mas ele se nega a sair. “Escutou o vento. Sua filha está muito mal”. O vento aqui é uma simbologia feminina, algo que já havia sido explorado desde o capítulo sobre Ana Terra. Quando o capitão resolve finalmente ir para a casa, Veríssimo escreve: “Enfiou o poncho e saiu. A ventania esbofeteou-lhe a cara e ele começou a caminhar lentamente no rumo de casa”.

Se o vento é uma simbologia feminina, o tempo é uma simbologia masculina, assim como a guerra: “Um dia a guerra vem. Tudo se resolve. A guerra e o tempo. Remédio pra tudo”. Enquanto o tempo tudo cura, o vento tudo leva.

Propostas discordantes no jornalismo

 


Na história do jornalismo percebemos que nem todos leram pela cartilha da objetividade e da pirâmide invertida.

Alguns movimentos e publicações discordavam abertamente do atual modelo de reportagens e apresentavam propostas de mudanças.

Uns se contentaram em mudar a pauta, realizando publicações sobre assuntos pouco enfocados pela imprensa estabelecida. É o caso da imprensa alternativa.

Outros propuseram uma mudança radical até mesmo no jeito de fazer jornalismo. Eu as chamei de "propostas discordantes". Tais propostas colocaram em xeque nossa idéia de imprensa e nos fizeram perguntar o que realmente caracteriza o jornalismo.
Capote, um dos criadores do novo jornalismo


Novo jornalismo

A proposta de aproximar o jornalismo da literatura não é nova. Muitos escritores transformaram reportagens em obras literárias. Exemplo disso é o livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, um verdadeiro marco tanto da imprensa quanto da literatura brasileira.

Mas o grande mentor dessa relação foi o norte-americano Truman Capote. Ele acreditava que a reportagem poderia ser uma arte tão requintada quanto qualquer outra forma de prosa, tais como o ensaio, o conto e a novela.

Para provar sua tese, ele procurou o tipo mais baixo de matéria jornalística: a entrevista com astros.

Os brasileiros sabem o quanto é descartável esse jornalismo praticado por revistas como Contigo, Caras e Quem.

Capote queria transformar esse tipo de matéria em uma arte autêntica, provando que o jornalismo poderia ser um gênero literário.

Para isso ele procurou o ator Marlon Brando, então no auge da fama. Capote passou uma noite com Brando em um apartamento em Kioto, no Japão, onde o astro estava filmando Sayonara, de Joshua Logan.

Os dois conversaram a noite inteira, sem que Capote gravasse ou fizesse anotações. Ele acreditava que esses recursos criam um clima artificial e destrói a naturalidade por parte do entrevistado.

O resultado foi publicado na revista New Yorker em 1956 com o título de "O Duque em seus domínios".

Estava criado o Novo Jornalismo.

O texto mostrava o ator de maneira até então inédita e antecipava até mesmo a gordura de Brando (que chegou a pesar, nos anos seguintes, 120 quilos). O ator admitiu, entre outras coisas, que se sentia ofuscado pelo sucesso: "Um excesso de êxito pode arruinar um homem tão irremediavelmente quanto um excesso de fracasso".

Brando aceitou seu perfil como fidedigno, mas disse que se sentiu traído: "Aquele pequeno canalha passou a metade da noite me contando seus problemas. Achei que o mínimo que poderia fazer era contar-lhe os meus".

Em 1959, ao saber que quatro membros de uma família de fazendeiros haviam sido assassinados brutalmente (eles foram amarrados, amordaçados e receberam tiros na cabeça), Capote rumou para a cidade em que havia acontecido o crime, Garden City, decidido a chegar ao ápice de seu projeto de narrar a realidade como ficção.

Passou cinco anos pesquisando. Entrevistou, perguntou, levantou os menores pormenores do caso, tornou-se amigo dos policiais e até dos criminosos, dois assaltantes de nome Perry Smith e Dick Hickock.

Antes de publicar o relato, ele passou o texto para checadora da revista, Sandy Campbell, que verificou todas as informações. A história foi publicada em capítulos no New Yorker e depois reunida no livro A Sangue Frio, um marco do Novo Jornalismo.


A idéia dessa proposta discordante era dar ao leitor algo mais do que os fatos: a vida subjetiva e emocional dos personagens. Isso fazia com que os autores incluíssem no texto até mesmo o pensamento dos personagens.

Outra técnica do new journalism era a composição: fundir a história de várias pessoas e apresentá-las em uma personagem só, fictício. Além disso, essa corrente defendia o jornalismo investigativo: as histórias deveriam ser exaustivamente pesquisadas e checadas nos mínimos detalhes.

No Brasil o auge do Novo Jornalismo foi a revista Realidade, da editora Abril, que dourou de meados da década de 60 a meados da década 70 e só acabou por causa da censura.



Jornalismo gonzo

O nome mais importante do gonzo jornalismo é o norte-americano Hunter S. Thompson.

Na década de 70 ele foi mandado pela revista Rolling Stone para cobrir uma corrida de motos. Gastou todo o dinheiro que haviam lhe dado com drogas, carros, fez contas em hotéis e saiu sem pagar, arranjou problemas com a polícia e, para piorar, só chegou na corrida de motos quando esta já havia acabado. Ao invés de ser demitido, virou celebridade e acabou criando uma nova forma de fazer jornalismo: o gonzo. O batismo foi feito pelo repórter Bill Cardoso. Ao ver os textos de Hunter, ele comentou: "Não sei o que está fazendo, mas você mudou tudo. Isso está totalmente gonzo".

Hunter continuou produzindo reportagens, sempre sob o lema: "Quando as coisas ficam bizarras, os bizarros viram profissionais".

O gonzo, por suas próprias características, não é uma fórmula que possa ser aplicada a um texto. É muito mais uma atitude diante do mundo e do jornalismo.

É possível, no entanto, perceber algumas características no gonzo jornalismo.

A primeira delas é um ataque radical à teoria da objetividade jornalística.

Para os adeptos do gonzo, o discurso da objetividade quer criar confiança, convencer o leitor de que é isenta, livre de desejos, ideologias, medos e interesses de quem escreve.

Ou seja, a objetividade é um discurso de mascaramento da ideologia que permeia o jornalismo. Não interessa ao gonzo se essa ideologia é neo-liberal ou marxista. O importante é o princípio da objetividade serve para esconder o fato de que nenhuma linguagem é neutra.

O gonzo tira essa máscara e daí surge sua primeira característica formal: os textos são sempre escritos em primeira pessoa. O objetivo não é apenas narrar fatos, mas relatar a experiência de um determinado indivíduo com eles.

O fator de haver um mediador entre a experiência e o leitor é destacada, e não escondida.

O gonzo também quer ir contra a imagem que os jornalistas fazem de si mesmos, de sérios e respeitáveis (exemplo disso é o âncora da Record, Boris Casoy).

Tal imagem contribui para transformar o jornalismo em "discurso autorizado". O jornal é a expressão da verdade, e não de "uma verdade".

Em contraste, os gonzo-jornalistas não pretendem ser nem sérios nem respeitáveis.
Hunter Thompson, o criador o gonzo jornalismo.


A carta de princípios da irmandade Rauol Duke (pseudônimo utilizado por Hunter para evitar problemas com a polícia) nos diz que o repórter "deve se envolver na história e alterar ao máximo os acontecimentos dentro da media do Impossível, de forma a transformá-la não em um mero RELATO do evento, mas sim em uma história ENGRAÇADA e CÁUSTICA".

Entretanto, a ficção pura e simples não serve ao gonzo. Ainda segundo a mesma carta, "o conteúdo dos textos deve ser JORNALÍSTICO, ou seja: um fato precisa estar acontecendo necessariamente".

Para fazer jornalismo gonzo não é necessário procurar fatos bizarros. Aliás, o ideal é abordar fatos normais, banais, sob ponto de vista bizarro e pessoal.

Exemplos de jornalismo gonzo estão se tornando cada vez mais freqüentes na imprensa brasileira. Arthur Veríssimo, da revista Trip, foi o primeiro a celebrizar esse estilo no Brasil. Em uma de suas matérias mais antológicas, ele passou um dia como animador de festas infantis.

A revista Zero, recentemente lançada pelas editora Pool e Lester, também traz características gonzo.

O número de estréia trouxe uma matéria sobre as deusas-vivas do Nepal. O título e subtítulo deixam claro o distanciamento que a procura manter do jornalismo convencional: "É DURO SER DEUSA - No Nepal, o dom divino já nasce com data de expiração. Luiz Cesar Pimentel passou uma tarde na casa de uma ex-deusa viva e mostra a realidade casca-grossa das divindades locais".

O texto é em primeira pessoa e não esconde o ponto de vista do repórter:

Por mais que eu tenha me esforçado no parágrafo anterior para dar a real dimensão da discrepância de uma deusa dormir em um sofá-cama e possuir um vira-lata (que parece uma mistura de poodle com nada) como campainha, a cena para quem passa um período no país não é tão assombroso assim. No Nepal, todas as situações têm uma forte tendência ou a não funcionar ou a funcionar de um jeito totalmente estapafúrdio. E, como você deve imaginar, dá tudo certo no final. Ou quase.

Até mesmo a grande imprensa tem se rendido à bizarrice do jornalismo gonzo, embora de maneira mais comportada.

É na, até pouco tempo sisuda, revista Superinteressante que encontramos um exemplo típico de jornalismo gonzo.

Na matéria "Puro Rock'n'roll", publicada na Superinteressante, número 8, ano 15 de agosto de 2001, o repórter Dagomir Marquezi se disfarçou de saxofonista do grupo Jota Quest e participou de show em Mogi das Cruzes, interior de São Paulo. Como uma típica matéria gonzo, o jornalista também é personagem e o texto é em primeira pessoa:

Não bastava tocar: um trio de metais que se preze também dança. Lembrava-me dos muitos shows de James Brown que assistira. "Um passo para a direita, junta os pés. Um passo para a esquerda, junta os pés". Eu operava a coreografia e meus colegas de metais não se agüentavam de vontade de rir da minha picaretagem artística. O baixista PJ e o tecladista Márcio Buzelin, entre risadas disfarçadas, também faziam sinais de que estava me saindo bem.

Aberto o edital do Profsocio - Mestrado profissional em sociologia


Já estão abertas as inscrições para a turma 2027 do Mestrado Profissional em Sociologia. Eu sou um dos professores do Profsocio na Unifap e oriento trabalhos focados em cultura pop, quadrinhos e fanzines aplicados ao ensino da sociologia. Clique aqui para baixar o edital.

O nazismo é de esquerda?

 


Recentemente alguns políticos brasileiros têm propalado a noção de que o nazismo é de esquerda. Um dos principais argumentos para isso estaria no nome do partido: nacional socialista.
Para entender esse nome é importante entender o contexto histórico de surgimento e ascensão do partido.
Tratava-se de um partido pequeno, sem ideologia certa ou expressão política. Mas chamou a atenção da polícia, que resolveu investigar exatamente por causa do socialismo no nome. Para isso mandaram um espião comparecer a uma das reuniões do partido. O espião foi, voltou e disse aos seus superiores que o partido pretendia agregar trabalhadores (daí o socialismo no nome), mas não tinha ideologia certa e que seria muito mais interessante direcioná-lo para uma vertente mais nacionalista do que perseguir seus membros.
Foi o que fizeram: o espião foi mandado de volta ao partido com esse objetivo e com o tempo se tornou o líder, inicialmente usando uma retórica social, mas procurando afastá-lo da esquerda e aprofundando as raízes nacionalistas da agremiação.
O nome desse espião era Adolf Hitler.
Futuramente, quando seu controle já estava bem estabelecido, a retórica social sumiu de seus discursos, dando lugar a um discurso nacionalista e racista, que viria a ser a base do nazismo.
Ao contrário da esquerda, por exemplo, o nazismo não pregava uma luta de classes, mas uma união de classes (e empresários alemães tiveram grandes lucros com o nazismo – mesmo depois da guerra algumas das maiores empresas do mundo eram alemães).
Há quem argumente que o nazismo era de esquerda porque havia forte intervenção estatal na economia (o Fusca, por exemplo, foi produzido a pedido de Hitler). Mas se economia estatal fosse exemplo de esquerda, os faraós do Egito poderiam ser considerados governantes de esquerda, só para dar um exemplo.
Na verdade, o nazismo se vendia como uma terceira opção, para além a esquerda e da direita. Mas sempre teve o apoio e a simpatia da direita, desde o começo quando a polícia governamental concordou em deixar o partido existir mudando sua ideologia. O movimento neonazista norte-americano tem como lema "Unite the Right" (unir à direita).
Mas por que razão os políticos brasileiros insistem em afirmar que o nazismo é de esquerda, ainda mais quando temos exemplos igualmente assombrosos de ditadores notadamente de esquerda, como Stalin, que governou a Rússia com mão de ferro em um governo que provocou a morte de milhões de pessoas?
Por que é mais importante para esses políticos associar Hitler à esquerda, do que associar Stalin à esquerda?
A razão disso que é todos os donos de estúdios de Hollywood eram judeus. Da mesma forma, todos os donos de editoras de quadrinhos e praticamente todos os artistas nos anos 1940 eram judeus.

Assim, durante décadas, tanto em filmes quanto em quadrinhos, os nazistas foram mostrados como o paradigma dos vilões (vale lembrar que o Capitão América aparece socando o rosto de Hitler na capa de seu primeiro gibi e até Indiana Jones tem os nazistas como vilões). Até Star Wars tem vilões inspirados em nazistas. Assim, para esses políticos brasileiros, é mais fácil fazer todo tipo de malabarismo retórico para convencer que os nazistas eram de esquerda do que explicar quem foi Stalin. 

A arte vintage de Steve Rude

 


Steve Rude é um dos mais apreciados desenhistas dos quadrinhos norte-americanos. Seu traço anatômico, remetendo ao um estilo vintage criou uma geração de fãs. Seu trabalho mais conhecido é Nexus, em parceria com o roteirista Mike Baron, mas ele também diversos trabalhos para a Marvel e para a DC, sempre emprestando um charme clássico aos personagens. Um dos seus trabalhos mais conhecidos é a minissérie Melhores do mundo, com roteiro de Dave Gibbons.