domingo, agosto 16, 2026

Homem de ferro – A vingança do mandarim

 


Já desde as primeiras histórias do Homem de Ferro, o Mandarim, já era o grande antagonista. Nas edições 54 e 55 de Tales of Suspense  vemos um dos mais memoráveis embates entre esses dois personagens.

Escrita por Stan Lee e desenhada por Don Heck, a história gira em torno de foguetes espiões fabricados por Stark que, após tirarem algumas fotos de países comunistas, desapareciam misteriosamente.

Quando li a história, achei muito estranho. Como assim? Foguetes? Até que entendi que tratavam na verdade de satélites espiões. Essa não é a única derrapagem científica de Stan Lee na história.

Conseguirá o herói escapar dessa armadilha? 


Imaginem quem está por trás do desaparecimento dos satélites? Ele mesmo: o Mandarim. Como sabe que o Homem de Ferro não passaria pelas defesas anti-aéreas do castelo do vilão, Tony Stark vai como civil pra o local a fim de ser capturado. Quando os guardas do Mandarim abrem a maleta, um gás do sono se espalha pela sala e coloca todos para dormir, menos Stark, que convenientemente levou um lenço tratado quimicamente.

Assim, no quadro seguinte, o Homem de Ferro está frente a frente com seu maior inimigo, mas leva uma surra do poder dos anéis e... de golpes de karatê! Sério, golpes de karatê contra uma armadura de ferro.

O herói e seus vilões. Um bônus imperdível! 


No final da primeira história, no melhor estilo final de seriados matinês, o Homem de Ferro está preso por faixas de aço iquebráveis e os transistores da armadura estão descarregando. Será esse o fim do herói galante? Enquanto se prepara para morrer, o herói pensa na sua amada Pepper Potts e no ajudante Happy Hogan, o triângulo amoroso das primeiras histórias.

Claro que na edição seguinte, o Homem de Ferro consegue se livrar dessa situação aparentemente impossível com um estratagema simples, mas engenhoso. Aliás, outro problema científico. Como a armadura do Homem de Ferro se recarregava sozinha, sem a necessidade de nenhuma fonte externa? Seria como um celular que se recarrega simplesmente por não estar sendo usado. Stan Lee e seus problemas com a ciência.

Por que Happy não sorri? 


No final da aventura, como faltaram páginas para completar o caderno, Stan Lee acrescentou uma série de páginas como “fatos sobre o Homem de Ferro. No seu estilo marqueteiro, ele anunciou essas páginas na capa como se fosse um bônus, um presente para os leitores.

A sequência mostra os vilões do herói. O Derretedor? Alguém sabe quem é o Derretedor? E sr. Boneco?

O anexo mostrava como funcionava a armadura do herói.

Pepper Potts foise tornando mais bonita ao longo das histórias. 


Também explicava uma dúvida levantada por alguns leitores incapazes de compreender uma ironia: “Por que um personagem chamado Happy Hoogan nunca sorria?”. “A expressão de desânimo de Happy Hoogan pode ser um dos maiores mistérios da nossa época!”, escreveu Stan Lee.

O roteirista-editor tenta também explicar uma mudança na personagem Pepper Potts, que se foi se tornando mais elegante e bonita ao longo das histórias, reflexo do talento de Don Heck para desenhar mulheres (em algumas das primeiras histórias em que ela aparece, o desenho era de Steve Ditko, que sempre teve problemas ao desenhar mulheres). “Quando fez sua estreia nas páginas de Tales of suspense, Pepper tinha um nariz mais chato e rosto cheio de sardas, mas, depois que percebeu como Tony Stark se sentia atraído por mulheres glamourosas... Pepper foi ao salão de beleza e mandou ver! Hoje ela é uma das mulheres mais lindas ds quadrinhos... ou de qualquer outro lugar!”.

Naquela época salões de beleza podiam fazer cirurgias estéticas no nariz? Naquele período da Marvel tudo podia.

Cabanagem

 

1836. A cabanagem foi derrotada em Belém e se espalhou pelos rios da Amazônia. Um pequeno grupo de índios, negros e mestiços liderada pelo misterioso Chico Patuá se dirige para o Amapá singrando os pequenos rios da região. No seu encalço, o governo regencial mandou soldados comandados por um psicopata assassino, Dom Rodrigo. Em meio a essa disputa, soma-se outra, quando os seres da floresta (Matinta, Jurupari, Cobra Norato, Mapinguari) resolvem tomar partido na contenda, alguns ficando a favor de Chico e outros se aliando a Dom Rodrigo. Cabanagem é um romance de fantasia histórica que mistura fatos reais com mitologia amazônica e terror no melhor estilo Gian Danton.

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Ivan Carlo ou Ivan Carlos?

 

- Qual é o seu nome?

- Ivan Carlo.

- Ah, tá, Ivan Carlos.

- Não. O meu nome não tem “s”.

- Ah, entendi. Seu nome é Ivan Calo.

- Não, não é Ivan Calo.

- O senhor não disse que não tem “r” no seu nome?

- “R” tem. O que não tem é “s”.

- Ah, então é Ivan Calos.

- Quer saber, coloca aí Gian Danton.

O Retalho

 



Um dos personagens mais visualmente interessantes dos quadrinhos de super-heróis é o Retalho, criação de Joe Kubert (desenhos) e Robert Kanigher (roteiro).

O personagem, um veterano da guerra do Vietnã, é filho de um trapeiro, um negociante de quinquilharias que um dia compra um colchão que estava recheado de dinheiro sem o saber (ele descobre depois). Mas mafiosos estão atrás do dinheiro e, para forçar o homem e seus amigos a falarem, atiram em fios elétricos, fazendo com que eles sejam eletrocutados.

Fios elétricos não são uma forma inteligente de torturar alguém. 


Essa é, provavelmente, a maneira mais idiota de torturar alguém. Para começar, é necessária uma mira absoluta para acertar fios elétricos com tiros. Segundo, que a chance do pistoleiro ser atingido pelos fios elétricos era a mesma das suas vítimas. E, por fim, mesmo que tudo isso desse certo, era quase certo que essa estratégia servisse muito mais para matar do que para torturar.

A história toda, dividida em cinco partes gira em torno da busca do colchão recheado de dinheiro.

O visual criado por Kubert era realmente inovador. 


O protagonista é Rory Regan, o filho do trapeiro, herda do pai uma fantasia feita de retalhos de tecidos e passa a combater os mafiosos.

O leitor simplesmente não é informado como Retalho ganhou seus poderes, que muitas vezes parecem sobre-humanos. À certa altura são mostrados os amigos do pai (que posteriormente irão morrer eletrocutados junto com ele) e cada um revela uma habilidade. Um era um homem-forte de circo, outro era um boxeador e outro era um acrobata – mas em nenhum momento é mostrado ou sugerido que eles repassaram seus conhecimentos para Rory.

Casais interaciais não eram comuns nos quadrinhos. 


Além disso, se os mafiosos sabiam do tesouro na loja, deveriam saber também onde ele foi guardado.

Apesar dos problemas de roteiro, a série tinha muitos méritos, a começar pelo texto de Kanigher. Um exemplo: “Da escuridão salpicada de sol emerge uma figura estranha e impressionante... homem ou lenda? Sombra ou matéria? A máscara tenebrosa ocultará a face de um monstro ou de um ser humano? Terão as balas do criminoso atingido carne e osso? Só os enigmáticos olhos que brilham nas aberturas da máscara poderão revelar a espantosa verdade de... O retalho!”.

Os filipinos irmãos Redondo desenharam as primeiras histórias, emulando o traço de Kubert. 


Além disso, o visual sombrio, com a capa esvoaçante e rasgada dava um ar imponente e assustador para o personagem. Posteriormente alguns artistas iriam representar o Batman dessa forma e Spaw nitidamente tinha influência visual do Retalho.

O protagonista estava envolvido em um triângulo amoroso que incluía uma namorada negra – algo certamente inovador numa época em que casais multirraciais eram incomuns na mídia norte-americana.

O personagem parecia ter poderes sobrenaturais. 


Com tantas potencialidades é uma pena que o título do Retalho tenha tido uma vida tão curta.

A Ebal publicou as cinco partes da história em formatinho e em cores entre 1977 e 1978.

Prelúdio à Fundação

 


Fundação é uma série monumental criada por Isaac Asimov: em um futuro distante os seres humanos se espalharam por milhões de planetas governados por um império. Mas o império está em decadência em breve será esfacelado em milhares de feudos, provocando uma era de trevas, violência e atraso científico que irá durar mil anos. Mas um homem, Hari Seldon, o criador da psico-história (disciplina capaz de prever estatisticamente o futuro da humanidade), tem um plano para diminuir esse tempo: a Fundação.
Essa história deu origem a uma trilogia, escrita na década de 1950. Posteriormente, Asimov escreveu quatro livros no mesmo universo. Prelúdios à Fundação é um deles.
O livro é focado na história de Seldon e como ele decide dar segmento à Psico-história, uma teoria matemática que ele considerava possível, mas impraticável. Ao mesmo tempo, mostra sua fuga pelo planeta Trantor, sede do império, enquanto vários grupos tentam se aproveitar da psico-história para seus próprios fins.
É o livro mais teórico da série, como longos diálogos sobre lógica matemática, história e a possível junção dos dois. Asimov esforça-se para tornar o livro mais palatável – a princípio com a trama de espionagem, mas principalmente com a abordagem antropológica: ao visitar os diversos setores de Trantor, Seldon conhece as diversas culturas ali representadas.
Um dos locais mais interessantes é Mycogen, um bairro cuja população se considera descendente dos habitantes de Aurora, o mundo em que a vida humana teria surgido (segundo eles). Na cultura local, pelos no rosto são considerados indecentes, repulsivos e indecentes. Quando entram na puberdade, tanto homens quanto mulheres são totalmente depilados. Visitantes devem usar toucas que cobrem completamente seus cabelos e faixas que cobrem suas sobrancelhas. Em determinado momento, Seldon é quase linchado em um ônibus quando sua toca se desloca, deixando aparecer parte de seu cabelo.
Asimov mostra assim, através de uma metáfora, como as questões morais podem variar de uma sociedade para outra: como o que é normal em um local pode ser obsceno em outro, como o que é considerado importante em um local pode ser irrelevante em outro.

Só por isso Prelúdio à Fundação já valeria a leitura. Mas estamos falando de Asimov, então temos também uma trama bem elaborada com uma surpreendente virada no final. De negativo apenas a extensão do livro: 450 páginas. Asimov se sai melhor quando é mais conciso.

Fundo do baú – Inumanoides

 


A série animada Inumanóides surgiu quando os executivos da Hasbro receberam uma pesquisa de mercado que mostrava que as crianças adoravam monstros e dinossauros. Perfeito para lançar uma linha de brinquedos com monstros! Na época, a melhor forma de divulgar brinquedos era lançar um desenho animado deles, fazendo com que as crianças reconhecessem os personagens nas lojas.

Assim que os bonecos ficaram prontos, a Hasbro contratou a Sunbow Entertainment e a Marvel Produções para desenvolverem o desenho. A animação ficou por conta do estúdio japonês Toei.

O desenho foi criado a partir de uma linha de bonecos. 


Na trama, os inumanódies são criaturas subterrâneas cthulloides (olha a referência ao Lovecraft!), monstros enormes e antiquíssimos. A história começa quando um deles, Tendrill é despertado acidentalmente e começa a despertar os outros. O objetivo deles é voltar a controlar o mundo.  

Os Earth Corps, humanos vestidos com armaduras, se disponibilizam a combater os monstros.  Ao pesquisarem pistas sobre os inumanóides, eles encontram com os Redwoods, seres vegetais que fazem parte dos Mutores, inimigos mortais dos inumanóides e responsáveis por aprisioná-los num passado longínquo.

A marvel lançou o gibi. 


O desenho na época chamou atenção por seu tom sombrio, com elementos de terror.  Os desenhos eram repletos de sombras e detalhes macabros. Dentre todos os personagens o que mais dialogava com o gênero era D. 'Compor, que transformava as pessoas em monstros ou zumbis. Aliás, em um dos primeiros episódios ele transforma uma das integrantes dos Earth Corps, em uma cena de grande impacto.

A série foi lançada junto com outras no programa "Super Sunday" com a primeira história dividida em cinco partes, que depois foram unidas e transformadas num filme.

A Marvel aproveitou a onda a lançou também o gibi dos personagens com roteiro de Jim Salicrup e arte de James W. Fry Joe Del Beato. O gibi durou apenas quatro números.

sábado, agosto 15, 2026

Jornada nas estrelas - Um pedaço de ação

 


Na década de 60 era muito comum nos seriados de ficção científica episódio que se passavam no passado. Isso geralmente era uma forma de reaproveitar cenários de outras produções.

O episódio um pedaço de ação faz isso, mas com resultados muito mais interessantes.

Na história uma nave espacial num período anterior à primeira diretriz visita um planeta e deixa vários objetos no local. Depois desaparece. Anos depois a Enterprise capta o relatório enviado ao espaço pela nave desaparecida e resolve conferir uma possível contaminação.

Quando descem descobrem que um dos objetos deixados foi um livro sobre gangsters dos anos 20 e que toda a sociedade de moldou a partir das informações ali contidas.

O resultado apresenta uma divertida crítica social exemplificada pela cena em que Kirk, Mcoy e Spock descem no planeta e se vêem numa rua em que todos que passam estão armados: homens com metralhadoras, mulheres com pistolas e crianças com facas. O resultado é ridículo, sinal da verve pacifista dos roteiristas.

Esse episódio é um daqueles em que William shatner rouba a cena, em especial quando decide incorporar o chefão mafioso.

É também curioso como roteiro e direção fazem uma bela homenagem aos filmes de gangsters.

O resultado é tão divertido que até relevamos as lutas mal coreografadas.

Livro discute a Cultura Pop

 


 

Cultura pop, comunicação e linguagem é uma antologia organizada por Ivan Carlo Andrade de Oliveira (Gian Danton) e Rafael Senra. Divididos em artigos e ensaios, os textos abordam os mais diversos temas dentro do leque da cultura pop.

No âmbito dos quadrinhos, começamos com uma análise da adaptação da história de Conan "A torre do elefante", passando pelo conceito de Gynoid no mangá "Hyper future vision", e até uma interpretação da jornada do herói a partir da saga "Estação das brumas" em Sandman. No campo da música, temos uma abordagem semiótica da capa do álbum "Artpop" da cantora Lady Gaga, e, na interface entre literatura e outras mídias, uma análise de adaptações da obra "The Witcher".

Para completar o livro, os ensaios tratam de representações da Grande Depressão em dois quadrinhos, além das obras de Chris Ware e, para concluir, uma reflexão sobre o papel de Jim Shooter no comando da editora Marvel Comics. 

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As aventuras de uma criminóloga: coragem de matar

 


Como repetir a mesma história sem parecer cansativo ou redundante?
Berardi mostra um como fazer isso na série de histórias com Mirna, a psicopata apaixada por Júlia Kendall e sua grande antagonista. A série inclui diversas histórias com a personagem, a maioria delas focada nas tentativas de Mirna de matar a criminóloga. Para que não pareça que está contando sempre a mesma história, o genial roteirista italiano foca nos personagens secundários, sua relação seus encontros com a psicopata.
A história Coragem de matar, publicada na edição 122 da revista é um dos melhores exemplos dessa dinâmica. Na HQ, Mirna fugiu da cadeia, mas ao invés de ir para outra cidade, prefere ficar em Garden City onde acaba conhecendo um cafetão e uma prostituta travesti agenciada por ele. Mirna acaba passa a se prostituir, mas seus clientes terão muito mais do que imaginam.
O destaque aqui vai para a relação de Mirna com a travesti e é escrito com uma candura quase poética. Contribui muito para isso o excelente trabalho de Laura Zuccheri, a desenhista desta história. A artista consegue captar perfeitamente o clima de beleza e morte que a história exigia e a escalada de violência que se sucede. Destaque para a expressão facial de Mirna, que muda completamente quando seu lado psicopata se revela.

Deadman – Amor após a morte

 


Deadman, personagem da DC Comics, significa homem morto. Entretanto, esse personagem normalmente é mostrado como uma pessoa normal, apenas na forma espectral.

A minissérie Deadman, amor após a morte, de Mike W. Baron e Kelley Jones, inovou ao mostrar o personagem como um cadáver, o que se adequava muito ao estilo de Jones.

Na história, Boston Brand descobre que uma determinada casa é assombrada pelo fantasma de uma trapezista. Em todos os anos vagando sobre a Terra, o personagem jamais encontrou outro fantasma, e ele sonha acabar com a solidão. Assim, resolve visitar o local.

A forma como o personagem era retratado lembrava um cadáver. 


Lá ele encontra o que parecem restos de Colby Circus, um show freak com um tigre, palhaços, um esqueleto humano, uma mulher-serpente, uma mulher  baleia e um cara de bode. Para surpresa do herói, ele vê o fantasma da linda trapezistas, mas não só isso: vê também os trapézios se movendo com ela (embora tenha capacidade de incorporar em pessoas, Deadman não consegue interferir no mundo físico quando está na sua forma humana).

Mike W. Baron constrói uma trama complexa na qual algum tipo de força sobrenatural e anscestral deu ao dono do circo poderes extraordinários, que lhe permitiram manter as atrações do circo presas ao local mesmo depois de sua morte. O objetivo do herói, portanto, passa a ser libertar a pobre trapezista. Para isso ele encorpora no corpo atlético de um homem que está à beira da morte.

O herói se apaixona pelo fantasma de uma trapezista. 


É uma boa trama, que consegue reunir elementos interessantes e se encaixar bem no sopro criativo da DC dos anos 1980, com situações adultas e personagens complexos (com o tempo descobrimos que a trapezista não é tão ingênua ou inocente quanto imaginamos). Há, no entanto, alguns problemas com diálogos, que parecem quebrados – e em alguns casos parecem ter sido balonados errados, com a seta indicando para a pessoa errada.

Quem realmente brilha é Kelley Jones, com seu traço expressionista e deformado, que já aparece em toda a sua estranhesa logo na segunda página, que mostra o herói flutuando sobre a cidade: seu corpo esguio ocupa quase toda a página e podemos ver seus ossos se destacando abaixo do uniforme. É o tipo de história que não funcionaria com outro desenhista.

A arte de Janet e Anne Graham Johnstone, as ilustradoras dos contos de fadas

 


É impossível falar de contos de fadas sem citar as irmãs gêmeas Janet e Anne Graham Johnstone. Nascidas na Inglaterra e filhas da bem-sucedida retratista e figurinista britânica Doris Zinkeisen, elas cativaram o público da partir da década de 1950 com sua ilustrações de livros infantis repletas de cenários bonitos e perfeitos e crianças fofas com olhos enormes e bochechas rosadas. 

Elas foram responsáveis por ilustrar vários contos de fadas famosos, em especial de Hans Christian Andersen e livros de mitologia grega. 

Janet gostava mais de pintar animais e Anne preferia os trajes de época. A união dessas duas preferências se revelou perfeita para o tipo de história que elas ilustravam. 

Quando Janet morreu, em 1979, a irmã foi obrigada a aprender a desenhar animais. Foi tão bem sucedida nisso que chegou a ser nomeada para a sociedade de artistas equestres. Confira um pouco do trabalho dessas duas irmãs geniais.













Perry Rhodan – O Exército dos Biodegradadores

 


Uma ameaça aparentemente ridícula pode se tornar mortal. Esse princípio curioso e instigante é o mote do volume 251 da série Perry Rhodan. Escrito pelo célebre William Voltz, o livro cativa o leitor logo no início ao "transcrever" um artigo do jornal Terrania sobre a epopeia humana em Andrômeda:

"Tente fazer desfilar estas imagens diante dos olhos de sua mente, a uma distância de 1.450.000 anos-luz. Você é capaz de fazer isso? O que sente? Pavor? Ou veneração? Medo, entusiasmo ou curiosidade? Ou será que seus pensamentos ficam embotados quando você pensa na distância de 1.450.000 vezes 9,463 trilhões de quilômetros? Será que o destino do homem é superar distâncias que mal consegue imaginar?"

Após essa abertura, que transita entre o filosófico e o poético, a narrativa mergulha no humor ao saltar para a nave dos Biodegradadores — um local que está literalmente caindo aos pedaços. O tom cômico surge, principalmente, do contraste entre a precariedade da embarcação (com peças soltas e computadores que ejetam bancos de memória em meio a explosões) e os pensamentos megalomaníacos de seu comandante, Bitzos, que se vê como um legítimo conquistador do universo.

A capa original alemã não tem relação nenhuma com a trama. 


As três naves dos invasores dirigem-se a KA-Barato, o estaleiro espacial onde está pousada a portentosa Crest III. A situação das naves atacantes é tão deplorável que seus ocupantes sequer conseguem controlar o pouso, resultando em um desastroso impacto contra a pista.

Para espanto de Perry Rhodan, os ocupantes se regeneram e empunham armas com a intenção de subjugar a nave terrana. A visão daqueles "anões espaciais" portando armamentos ultrapassados é tão caricata que Rhodan comete o erro fatal de subestimá-los — o que lhe custa sua mais valiosa espaçonave.

O volume encerra com Rhodan, Atlan, Gucky e Kalak (o dono do estaleiro) em uma tentativa desesperada de retomar a nave, o que parece uma tarefa impossível. É uma obra que começa bem, evolui com fluidez e deixa no leitor aquele "gosto de quero mais". Um roteiro que só poderia ter sido assinado pela genialidade de William Voltz.

sexta-feira, agosto 14, 2026

Roteiro de quadrinhos: a jornada do herói

 

  Publicado em 1949, O herói das mil faces foi um livro que revolucionou o estudo sobre as mitologias e religiões. Influenciado por Freud e Jung, Joseph Campbell vasculhou dezenas de culturas em busca de semelhanças entre seus mitos e os significados dos mesmos. O resultado foi esquematizado em doze passos, seguidos pela maioria dos protagonistas das narrativas analisadas. O resultado, além do impacto sobre o estudo mitológico, teve uma consequência inesperada: esse esquema foi usado por George Lucas para construir o roteiro de Guerra nas Estrelas. Esse fato deixou claro que o livro servia não apenas para explicar mitologias antigas, mas funcionava bem para analisar narrativas contemporâneas.
O primeiro passo do herói é o chamado à aventura. O herói é tirado de sua vida pacata e sem perigos por algum acontecimento que o chama à ação. "Um erro - aparentemente um mero acaso - revela um mundo insuspeito, e o indivíduo entra numa relação de forças que não compreende, que estão acima dele". Esse chamado, que pode ser uma simples aventura, como em 
O Senhor dos Anéis, ou uma busca religiosa, esconde uma verdade sobre o despertar do eu. É também um momento de separação dos pais e de um novo renascimento, que levará à vida adulta. O agente que anuncia a aventura pode ser sombrio ou aterrorizador, ou uma figura misteriosa. Em Promethea, de Alan Moore (talvez a história em quadrinhos que melhor ecoa questões mitológicas), a heroína é atacada por um Smee, uma espécie de demônio, o que a faz se transformar na heroína mitológica. 



Vale lembrar que, de início, o herói recusa o chamado e esse é o segundo passo. Não por acaso, Robinson Crusoé inicia com uma preleção sobre os benefícios de uma vida de classe média, sem aventuras ou dramas. Segundo Campbell, "a recusa é essencialmente uma recusa a renunciar àquilo que a pessoa considera interesse próprio". Vale lembrar, em Guerra nas Estrelas, a indecisão de Luke em seguir a aventura ou permanecer na vida pacata com seus tios. Estes, aliás, o advertem sobre os perigos da jornada. Na maioria dos mitos, o herói adere ao chamado, seja Frodo sendo obrigado a fugir com o anel, seja Luke impulsionado a salvar a princesa, seja Robinson embarcando em um navio. Aceita a aventura, o herói geralmente conta com um auxílio sobrenatural. Os jovens de Caverna do Dragão, por exemplo, contam com o auxílio do misterioso Mestre do Magos. Esse guia fornece os amuletos e os conselhos que o herói precisa para continuar a jornada, mas, como o Mestre dos Magos, não interfere diretamente na aventura. Em Guerra nas Estrelas esse papel é exercido por Obi Wan Kenobi e posteriormente por Yoda. A jornada é do herói e é ele que deve seguir esse caminho. 
  


O quarto passo é a passagem pelo limiar. Em Promethea esse momento é retratado na ida da personagem para a Imatéria. Em Crônicas de Narnia é o guarda-roupa, que dá passagem a todo um universo mágico. "Além desses limites, estão as trevas, o desconhecido e o perigo, da mesma forma como, além do olhar paternal, há perigo para a criança", escreve Campbell. O limiar representa a ida para o inconsciente, repleto de libido e de ameaças de violência. EmPromethea, a protagonista, ao passar para a Imatéria, encontra uma chapeuzinho vermelho que segura uma arma, fala palavrões e um imenso e apavorante lobo. Todos imagens arquetípicas. 

O quinto passo é a entrada no ventre da baleia, as provações e encontro com os inimigos. Nessa fase é comum o autoaniquilação. O corpo do herói pode ser cortado, desmembrado e ter suas partes espalhadas pelo mundo, como Osíris, que é morto por seu irmão Set. Essa fase representa o renascimento espiritual do herói, o desapego do ego, uma vez que essa é uma jornada de transformação. Nessa fase também é comum encontrar metáforas da mãe ou o pai, muitas vezes transformados em vilões. Luke, por exemplo, descobre que Darth Vader é seu pai. Como a jornada é um processo de individuação, o herói precisa matar a influência dos pais sobre ele. 

O passo seguinte é a apoteose, no qual o herói obtém vitórias. Muitas vezes esse passo é representado por um casamento sagrado, como Flash Gordon se casando com Dale Arden, pela sintonia com o pai-criador, pela própria divinização (Osiris sendo recomposto). Se as forças se mantiverem hostis a ele, essa fase é representada pelo roubo por parte do herói daquilo que ele foi buscar, como Prometeu roubando o fogo. 

Terminada essa etapa, cabe ao herói voltar para casa. Pode ser uma volta simples, abençoada pelos deuses, ou uma volta difícil, como a de Ulisses ou a dos protagonistas da Caverna do Dragão (um mito que ficou incompleto, uma vez que eles nunca retornaram). 

Em todo caso, o herói volta transformado e maduro e essa transformação se reflete no mundo, como Promethea provocando o fim do mundo que conhecemos e, com isso, construindo um mundo melhor.

Em suma: o herói das mil faces se torna essencial para os que querem entender melhor as mitologias, antigas e novas, apesar de Campbell nem sempre ser direto e muitas vezes se perder em alguns discussões não diretamente relacionadas ao tema. Apesar disso, o livro se destaca pela leitura intrigante e pela prosa fluída de seu autor, que exemplifica suas ideias com mitos de diversas parte do globo.