segunda-feira, agosto 31, 2026

Doutor Estranho - A dimensão das trevas

 

 O Doutor Estranho pode não ser o personagem mais popular da Marvel, mas certamente é um um mais interessantes. Ele teve duas fases memoráveis. Uma na década de 60, sob a batuta de seu criador Steve ditko e outra na década de 70, nas mãos de engelhart e Brunner. Mas na década de 80 o herói ganhou uma nova e simpatica fase com roteiro de Roger Stern.

Stern é aquilo que no cinema chamam de artesão talentoso. Não é genial, mas também não decepciona.

É essa fase que a Salvat reúne no volume dedicado ao Dr estranho vida coleção Os heróis mais poderosos da Marvel.
A vilã é uma feiticeira. 


Stern não resgata as características psicodélica do personagem, mas entrega um herói simpático. Os ótimos desenhos de Paul Smith também contribuem para tornar a história agradável.
Na história o Dr estranho ajuda sua assistente Cléa a lutar contra uma feiticeira que domina a dimensão das trevas. A vilã, alias, é irmã de Dormanu, o eterno inimigo do mago supremo. 
A história começa com uma outra trama, bem regular, focada no Cavaleiro Negro, mas logo ganha fôlego quando Strange vai para a dimensão da feiticeira.
Paul Smith faz um bom trabalho nas sequências de magia. 


Embora Paul Smith não seja tão eficiente em fazer sequências surreais e psicodélica, ele usa bem um recurso que tornou o Dr estranho um personagem diferente de todos os outros magos dos quadrinhos: tornar a magia visual. Os feitiços se tornam imagens geométricas ou fluxos de energia que fluem pela página.
O volume incluí também a primeira história do herói, publicada em strange Tales 110. Uma pérola da síntese: em cinco páginas, Lee e ditko apresentam o personagem, criam e resolvem uma trama repleta de senso de mistério.
E, para fechar a revista, um conto escrito por Peter Gillis no qual o doutor encontra Beyonder em sua forma humana. Embora curta, é um dos melhores momentos do volume, com uma HQ intimista e texto que lembra muito o estilo britânico. Pena que o desenho de Mark badger não ajude. 

Conan – A jóia de Kara Sher

 


Na edição de Conan the barbarian 35, o cimério está no deserto com um amigo (carinhosamente chamado de “cara de macaco”) quando encontram um homem em farrapos sendo atacado por um bando de beduínos.

Qualquer pessoa sensata se afastaria dali o mais rápido possível, mas Conan nunca foi uma pessoa sensata e resolve salvar o homem. Antes de morrer, o pobre coitado murmura: “Você tentou me salvar! Eu agradeço, mas é tarde demais... no momento em que contemplei o olho azul de Kara Sher”.

A belíssima página dupla antecipa os perígos da cidade perdida. 


O tal olho azul é uma pedra muito valiosa e famosa no deserto. A fala do homem desperta a cobiça do cara de macaco e o cimério resolve acompanhá-lo.

O leitor esperto percebe logo que essa é mais uma trama de tesouros amaldiçoados. Pelo jeito havia muitos eles na era hiboriana.

A história gira em torno de uma jóia amaldiçoada. 


A pista sobre isso é dada logo na belíssima página dupla produzida por John Buscema e Ernie Chan na qual os dois personagems encontram a cidade perdida. O texto de Roy Thomas diz: “Sob a fraca iluminação da lua, erguem-se as ruínas de uma gigantesca e portentosa construção, corroída pelo tempo e parcialmente coberta pelas areias do deserto! Súbito, um pensamento ameaçador surge na mente de Conan... Kara Sher significa CIDADE DOS MORTOS!”.

Texto e desenho criam todo um clima de mistério em torno da ameaça. 


Embora seja uma trama manjada, A jóia de Kara sher consegue ser uma grande história graças principalmente, à excelência do trio criativo. A ameaça é apenas um morcego gigante, mas tanto o texto quanto o desenho criam um clima de mistério e terror em cima disso, de tal forma que o leitor sente que está de fato diante de um demônio.

Essa história foi publicada no Brasil em Heróis da TV 54. Aliás, a capa da Abril é melhor que a capa original.

Fahrenheit 451

 

            Em Fahrenheit 451, escrito em 1953, Ray Bradbury nos coloca a interessantíssima questão do futuro e do controle da sociedade por um governo ou uma classe.

            Trata-se de uma distopia (utopia ao contrário), como 1984, de George Orwell. No universo dos dois livros, ler é uma atividade proibida. O título (Fahrenheit 451) se refere justamente à temperatura em que o papel arde e se consome.

            O personagem principal é um bombeiro encarregado não de apagar incêndios, mas de queimar livros.
            É interessante notar que há uma diferença de apenas cinco anos entre um livro e outro. Apesar da proximidade de assunto e tempo, há diferenças básicas entre as duas obras. Diferenças de motivos.
            Orwell escreveu 1984 baseado na sua experiência na Guerra Civil Espanhola, onde foi perseguido pelos stalinistas, enquanto lutava contra os fascistas e via a história ser mudada pelas versões oficiais. Bradury nunca foi à guerra, mas experimentou as agruras de um dos momentos mais terríveis da história americana: o machartismo. No início da década de 50, os EUA foram invadidos por uma febre anti-comunista. Grandes escritores foram perseguidos, Charles Chaplin teve de deixar o país para não ser preso.
            Bradbury, nessa época, já era um escritor famoso e trabalhava esporadicamente para a editora de quadrinhos E.C. Comics.
            A E.C. foi, provavelmente, a primeira editora de HQ a manter uma atitude crítica perante o mundo. Fazia propaganda pacifista em plena Guerra Fria e fazia troça do modo de vida norte-americano.
            Bradbury sentiu o cheiro acre das revistas da EC sendo queimadas em praça pública, viu amigos sendo presos, pessoas de bem sendo humilhadas. Viu toda uma nação se levantar, insana, pedindo a cabeça de homens que nem conheciam.
            É, Bradbury tinha motivos para escrever Fahrenheit 451.
            Além de um protesto, o livro é também um tratado sobre o ato de ler. Bradbury defende que os livros trazem em si três aspectos. O primeiro deles é a vida. Livros devem ser repletos de vivências. E nesse sentido, não é só a vivência do autor, mas também a do leitor, suas tristezas e alegrias, que ficam impregnadas nas páginas dos livros.
            O segundo aspecto é o lazer. Nem o mais pedante dos intelectuais negaria que lê porque se diverte enquanto o faz.
            O terceiro aspecto seria justamente a capacidade de transformação, de ação consciente a partir da reflexão em cima dos dois primeiros aspectos.
            Se o livro representa a libertação, em Fahrenheit, a alienação é representada pela televisão, assim como em 1984. Mas Orwell morreu em 1949, bem antes que a TV tivesse ampla difusão. Bradbury, ao contrário, viveu o período de ascensão da telinha. Talvez por isso, em Farenheith 451 a TV não é imposta às pessoas. Elas a assistem por livre e espontânea vontade.
            Aliás, a proibição de leitura também não foi imposta pelo governo. Foram as próprias pessoas que não só deixaram de ler, como passaram a ter medo de quem lia. Numa sociedade unidimensional, as pessoas devem ser niveladas pela média. Pessoas que lêem, pessoas que escrevem, pessoas que fazem poemas e outras que fazem da sua própria vida um poema... todos esses tipos são perigosos para o cidadão comum, para o pai de família barrigudo, que passa os domingos bebendo cerveja e assistindo futebol...
            É interessante analisar os protagonistas dos dois livros. Montag, de Fahrenheit 451, é um puro instinto, chegando a tomar atitudes quase suicidas. Já Winston, de 1984, é totalmente racional. Sua subversão é testada cuidadosamente, como alguém que anda no escuro, tateando a parede. Mesmo assim, a subversão de Winston, em certo sentido, é maior, já que ele não só lê, como escreve.
            Aliás, o que é proibido aos subordinados, é permitido à classe dominante. Beaty lê, Big Borther escreve. Afinal, informação é poder. Tanto que os escribas do antigo Egito tinham poder equivalente ao Faraós. Seria até de se perguntar se o pessoal do partido interno, em 1984, praticava sexo, já que o sexo também é um ato político...
            As classes dominantes precisam providenciar maneiras de reprimir o instinto de liberdade do ser humano. O povo é continuamente submetido a uma rotina estressante. Além do trabalho, as filas enormes, os ônibus que chegam sempre atrasados e lotados... quando há revolta, ela é uma reação imediata e sem sentido, voltada quase sempre para quem não é responsável pelo sofrimento do povo. Temos aí, então, as portas de vidro quebradas nos hospitais, as pedras jogadas nos ônibus, nos trens destruídos... quando acontece a reação, ela é sempre voltada para os representantes mais inferiores da autoridade, como cobrador de ônibus ou a enfermeira. No dia seguinte, tudo volta ao normal.
            No tempo livre, é necessário ocupar a cabeça das pessoas. Em Fahrenheit 451 o meio mais utilizado para evitar o uso criativo e reflexivo do tempo livre é a televisão. Na obra de Bradbury, mulheres de palha conversam com a TV, repetindo frases escritas previamente. Não há atividade criativa. Em 1984, o povo é mantido sob estrita vigilância, seja através da teletela (uma televisão que também transmite a imagem de quem a está assistindo), dos helicópteros ou da polícia do pensamento.
            Bradbury propõe a leitura como vivência. Para ele, somos o que lemos. Isso fica claro quando o personagem principal de seu romance encontra um grupo de subversivos que vagueia pelas antigas linhas de trem. Como não podiam correr o risco de levar livros consigo, eles simplesmente os decoravam e depois queimavam, esperando pelo dia em que ler não fosse mais proibido. A partir daí, cada um passava a ser responsável pela obra que decorara. Uma tremenda metáfora do ato de ler...  

Narcos, terceira temporada

 

Narcos chegou à terceira temporada com um desafio monstruoso: sobreviver à morte de Pablo Escobar. A interpretação de Wagner Moura foi tão marcante que parecia que ele estava carregando a série nas costas. Como continuar a série sem ele? Em especial porque os traficantes do Cartel de Cali não pareciam tão interessantes ou dúbios, exceto por Pacho Herrera, magistralmente interpretado por Alberto Ammann (a homossexualidade do personagem faz um contraponto à selvageria do personagem). 
A série, no entanto, conseguiu desenvolver a trama e os personagens de maneira competente. E introduziu um novo personagem: Jorge Salcedo (Matias Varela). Chefe da segurança do Cartel de Cali, ele vive a dubiedade de não se considerar alguém mal e jamais ter matado alguém, mas trabalhar para um cartel de drogas. As melhores cenas de toda a temporada sem dúvida são com esse personagem.
Embora a direção seja segura, o roteiro (de Chris Brancato, criador da ´serie) foi fundamental para que esta temporada desse certo. Trabalhando o tempo todo com narrativas paralelas, a trama deixa o expectador sempre no fio da navalha, em especial nos capítulos finais.
Narcos é uma das melhores séries da atualidade e mostra a que nível chegou a influência do tráfico de drogas: até mesmo governos que dizem combater as drogas, na verdade estão ligados a ele. Em países da América Latina, senadores, ministros e até presidentes parecem comer nas mãos dos carteis de drogas.

Arkanus: a revista da dupla Gian-Bené

 

 


Isso aconteceu no início dos anos 1990, muito antes da internet, e numa época em que os telefones não haviam se popularizado.
As histórias da dupla Gian-Bené faziam tanto sucesso na revista Mephisto que a editora ICEA encomendou uma revista nossa, com o nosso tipo de terror.
Nós conhecíamos alguns artistas que admirávamos, novos talentos, influenciados pelas mesmas obras que nós, e muitos deles fãs da dupla Gian-Bené. Assim, depois de semanas de troca de cartas (e algumas ligações de telefones públicos), conseguimos xerox de algumas histórias para montagem de uma boneca do que seria a revista Arkanus (para quem não sabe, boneca é uma prévia de uma publicação. Hoje em dia é feita no computador, mas na nossa época era na base do corta e cola).
Lembro que passamos um final de semana inteiro trabalhando nessa boneca. Eu fiz alguns textos, o Bené fez uma proposta de capa, colocamos algumas histórias nossas, outras desses novos talentos. Também indicamos como seria a diagramação da revista. Quando saí na casa do Bené, no domingo, parecia tudo perfeito.
No dia seguinte, quando fui lá, perguntei se ele já tinha colocado no correio, ele:
- Ih, compadre, tenho uma notícia ruim.
- Como assim, que notícia ruim?
- Ontem o meu primo veio aqui e levou a boneca para a casa dele.
Entrei em desespero:
- Como assim, compadre? Onde esse primo mora? Vamos imediatamente lá pegar a boneca da revista e enviar pelo correio.
- Compadre, essa não é a notícia ruim.
Olhei-o, desconfiado:
- Como assim, o que pode ser pior?
- Ele perdeu a boneca no ônibus. Não chegou nem na casa dele.
E lá se foi, junto com o protótipo da revista provavelmente jogado no lixo, o sonho de termos uma revista seriada com o nosso jeito de fazer quadrinhos de terror.

Warlock – O início da saga

 


Warlock era um daqueles muitos personagens da Marvel que haviam surgido na fase de Jack Kirby e Stan Lee, mas que ninguém sabia direito como aproveitar.

O personagem apareceu pela primeira vez em Fantastic Four nº 66-67. Era um homem perfeito, gestado dentro de um casulo para dominar o mundo em nome de seus criadores. Ao perceber as intenções deles, o "Ele", como era chamado na época, revolta-se, destrói o laboratório e mata os cientistas.

Um alienígena conversa com o leitor e explica os fatos anteriores. 

Roy Thomas considerou a ideia boa demais para ser desperdiçada e criou uma série própria para o herói. Nela, o personagem, agora batizado de Adam Warlock, tem seu casulo encontrado pelo Alto Evolucionário e recebe uma joia que lhe permite lutar contra o Homem-Fera, impedindo que o vilão transforme a Contra-Terra (um planeta criado pelo próprio Evolucionário) em um local dominado pelo ódio, ganância e preconceito.

Essa versão, mesmo contando com os roteiros de Roy Thomas e os desenhos de Gil Kane, não empolgou o público, e a revista durou poucos números. Foi então que Jim Starlin foi convidado a assumir a série, transformando-a em uma saga cósmica em seu melhor estilo.

Nessa série, Starlin está no seu auge no desenho e roteiro. 

Starlin inicia sua fase na edição Strange Tales nº 178, resumindo toda a trajetória anterior por meio de um alienígena cínico que narra os fatos: “Oi, crianças. Parece que alguns de vocês não sabem quem é Adam Warlock. Que vergonha! Bom, o titio Stan pediu para atualizá-los”. Há, inclusive, referências metalinguísticas, como quando o narrador comenta que dispõe de apenas quatro páginas para esse resumo.

Terminada a introdução, começa a história com o melhor de Starlin, mesclando filosofia, psicologia e ação em meio a uma trama estelar. Uma mulher busca a ajuda do herói, mas três caçadores a perseguem e a executam. Os perseguidores apresentam-se como inquisidores da Igreja da Verdade Universal. O teor da trama explica por que Starlin costumava entregar os originais em cima da hora: sua nova série era uma contundente crítica ao fanatismo religioso e um alerta sobre seus perigos.

A série é uma óbvia crítica às religiões. 

O próprio Magus, o deus da referida religião, revela-se para Warlock e identifica-se: ele é ninguém menos que uma versão futura do próprio herói, dotado de um poder inimaginável. O que teria levado Warlock a se transformar nesse tirano espacial? E como impedir que isso aconteça?

Profundidade psicológica: o vilão é o próprio herói. 

Ao colocar o antagonista como uma variante do próprio protagonista, Jim Starlin reflete verdades espirituais tradicionais, relatadas do Bhagavad Gita ao Tao Te King, nas quais o verdadeiro conflito é interno. Jim Starlin, o mais proeminente representante da geração hippie da Marvel dos anos 1970, atinge seu auge criativo nesta série.

domingo, agosto 30, 2026

Dart Vader foi inspirado nos nazistas?

 


Aparentemente sim. Darth Vader é considerado o maior vilão do cinema. Ele apareceu no primeiro filme da série Guerra nas Estrelas, Uma nova esperança. Era o arquétipo da maldade. Cruel, ele matava sem piedade os subordinados que o desapontavam e estava construindo uma arma capaz de detruir planetas inteiros.
Quando viram aquele vilão de capacete preto e voz cavernosa, muitos perceberam a semelhança com o uniforme nazista. De fato, o capacete é muito parecido. Além disso, a máscara usada por ele lembra muito o visual dos Afrikan Korps, os soldados que lutavam na África. Para se proteger contra as tempestades de areia, eles usavam óculos especiais e cobriam a boca com panos.


Por que George Lucas fez isso? Provavelmente para demonstrar, desde o primeiro momento, que se tratava de um vilão. Na época em que o filme foi feito o nazismo já estava no imaginário popular como sinônimo de maldade. Histórias em quadrinhos, filmes e seriados mostravam nazistas perpetuando crimes cruéis contra a humanidade. Usar a suástica seria óbvio demais, então ele optou por outro símbolo: o capacete dos soldados. 

Guerras Secretas – Prisioneiros de guerra

 


O segundo número de Guerras Secretas já começava com um ataque dos vilões aos heróis. O roteirista Jim Shooter nitidamente queria colocar o máximo de ação em cada número.

Enquanto isso, Doutor Destino, em uma trama paralela, reprogramava Ultron, que no número anterior tinha tentando matar todos os vilões e tinha sido colocado fora de ação por Galactus. A partir desse número, Ultron se transformará em uma espécie de guarda-costas do vilão.

Os vilões estão ganhando a batalha... 


Embora estivesse muito preocupado em mostrar ação, Shooter não parecia muito preocupado em deixar essa ação clara. Do nada os heróis vencem e fazem vários vilões de prisioneiros – e nem sequer sabemos ao certo quem são esses vilões.

Ao mesmo tempo, Magneto invade o QG dos heróis e os vilões entram em conflito entre si.

... e de repente perdem. 


Era tanta porrada ao mesmo tempo que ficava difícil até acompanhar o que estava acontecendo. Assim, a trama, simplória, tornava-se complicada.

Stranger Things – terceira temporada

 


A terceira temporada de Stranger Things é a melhor até agora.
Na história, os russos tentam abrir um portal para o mundo invertido e descobrem que Hawkins é o local ideal para isso. Para camuflar suas atividades, ironia das ironias, os comunistas abrem um shopping na cidade!
Sim, é mirabolante, mas não mais que as temporadas anteriores. Além disso, o ritmo narrativo, os personagens carismáticos e um bom equílbrio entre ação, humor e drama dão verossimilhança ao conjunto – lições bem aprendidas de mestres como Steven Spielberg e Stephn King.
Talvez o mais interessante desta temporada é que desta vez há dois perigos simultâneos: de um lado os russos abrindo o portal, do outro o devorador de mentes, que começa a controlar cidadãos de Hawkins – lembrando muito o clássico Vampiros de almas, filme de 1956, de Don Siegel. É um roteiro com dois McGuffin, o que funciona muito bem em um seriado.
Outro aspecto interessante é o fato grupo de personagens se dividir em três, cada um envolvido com um dos perigos e sem ter conhecimento dos outros.
Destaque para o trio Dustin, Steve e Robin. Steve, que era apenas um playboy no começo, vinha crescendo na série desde a segunda temporada, mas nessa torna-se uma atração por si só e sua dinâmica com Robin (os dois trabalham na sorveteria do shopping) nos traz alguns dos melhores momentos.

A memória vegetal

 


Antes de qualquer coisa, A memória Vegetal, de Umberto Eco, é uma declaração de amor aos livros. O amor pelo objeto feito de papel percorre todas as quase 300 páginas do volume em textos que vão de definições a listas de livros raros, passando por contos fantásticos.
Eco começa a obra definindo o título: no começo, existia uma memória orgânica. Essa memória era composta pelos velhos, que tinham o conhecimento da tribo e repassavam para as novas gerações: “Talvez, antes, eles não tivessem utilidade e fossem descartados, quando já não serviam para encontrar comida. Mas com a linguagem, os velhos se tornaram a memória da espécie: sentavam-se na caverna, ao redor do fogo e contavam o que havia acontecido  antes de os jovens nascerem. Antes de começar a cultivar essa memória social, o homem nascia sem experiência, não tinha tempo de fazê-lo e morria. Depois, um jovem de vinte anos era como se tivesse vivido cinco mil”.
Com a invenção da escrita, surgiu uma memória mineral. O conhecimento era registrado em tabuinhas de argila ou esculpido na pedra. Era uma memória que incluía também a questão arquitetônica, já que grande parte do conhecimento era registrado em monumentos.
Com o tempo, surgiu uma memória vegetal, com o papiro e o papel. Entre outras revoluções, o livro criou uma memória individual, que é  uma versão pessoal das coisas – e a leitura se tornou um diálogo com alguém que não está diante de nós e que, muitas vezes, está morto. O livro aumentou a memória do homem em séculos, milênios. Segundo Eco, o analfabeto vive apenas uma vida, ao passo que o leitor vive diversas vidas.
Um dos maiores méritos dos livros foi nos ensinar a duvidar dos próprios livros, pois eles contradizem-se entre si e aprendemos que são apenas versões de fatos, e não uma verdade universal. A interpretação ingênua (está publicado, é verdade) é típica de quem não está acostumado a ler.
Aprender a identificar as boas obras é um mérito dessa leitura crítica. Se antigamente o problema era encontrar livros, hoje é selecionar os bons entre os milhares que são lançados anualmente. Nessa monstruosidade de informação, o leitor muitas vezes se sente perdido. Para Eco, o processo de escolha é como aquele do namoro. Devemos nos perguntar se o livro que estamos prestes a tomar nas mãos é daqueles que jogaríamos fora depois de lidos. Jogar fora um livro depois de lê-lo é como não desejar rever a pessoa com a qual passamos a noite.
Assim, para um verdadeiro leitor, a relação com o livro deve ser sempre de amor. Cada nova leitura deve ser como cada nova vez em que o apaixonado reencontra a amada.
A memória do livro é a memória da humanidade e até mesmo livros maus, como Os protocolos dos Sábios de Sião, devem ser preservados, como forma de lembrar de um passado ignóbil. Lembrar que um dia um livro foi escrito para promover o racismo contra os judeus é evitar que o nazismo aconteça novamente.
Segundo Eco, devemos salvar não só as baleias, as focas ou os ursos. Devemos salvar também os livros: “Temam aquele que destrói, censura, proíbe os livros: ele quer destruir ou censurar nossa memória (...) Começa-se sempre pelo livro, depois instalam-se as câmaras de gás”.
Como se vê, A memória vegetal é uma carta de amor de um apaixonado. Como tal, há coisas que só interessam a ele e ao objeto de sua paixão, como listas de livros. Mas há outros que interessam a todos, pela universalidade de sentimentos.
Um dos capítulos mais interessantes é “Varia et curiosa” sobre livros curiosos. Eco cita, por exemplo, análises da loucura de Rousseau ou de Maomé, livros sobre transplantes de testículos de macacos para homens, sobre como a masturbação pode provocar cegueira, surdez e demência. Nesse mesmo capítulo são lembradas as obras que se tornariam sucesso de público e de crítica, mas que haviam sido recusados por editores ou detonados por alguns críticos. Moby Dick, por exemplo, foi recusado por um editor com a desculpa de que  não funcionaria no mercado juvenil por ser longo e antiquado. A revolução dos bichos, de George Orwell foi recusado nos EUA com a desculpa de que livros com animais não vendiam. Sobre O  diário de Anne Frank, um analista escreveu: “Essa jovem não parece ter uma percepção especial, ou seja, o sentimento de como se pode levar esse livro acima de um nível de simples curiosidade”. Sobre Lolita, escreveram que o editor, ao invés de publicar o livro, deveria levar o autor a um psicanalista. O livro A máquina do tempo, clássico da ficção-científica de H. G. Wellsm, foi considerado “pouco interessante para o leitor comum e não suficientemente aprofundado para o leitor científico”. A boa terra, de Pearl Buck foi recusado porque, supostamente, o público norte-americano não estava interessado em nada referente à China. Um analista considerou que John Le Carré e seu livro O espião que veio do frio não tinham futuro.
Um crítico escreveu que, felizmente, o livro O morro dos ventos uivantes, de Emily Bronte, nunca seria popular. Outro escreveu que Walt Whitman tinha tanta relação com a arte quanto um porco com a matemática.
O livro ainda contém deliciosos contos fantásticos, no estilo Jorge Luís Borges, como um sobre um mundo em que uma peste dominasse todos os livros de trapo (que são normalmente mais duradouros), o que coloca de cabeça para baixo o mercado livros raros.
Em suma: A memória vegetal é leitura apaixonante para os que são apaixonados por esses objetos de papel. Ou para os que querem se apaixonar.

Casal serial killer

 


Certa vez fui vítima de um psicopata. Felizmente não era um psicopata assassino, mas esse fato me levou a pesquisar sobre o assunto colecionando livros, matérias de jornais, tudo que pudesse coletar sobre o assunto.

Desse interesse surgiu a ideia de fazer uma série para a revista Calafrio focada em psicopatas famosos.

Uma dessas histórias foi Casal Serial Killer, publicada na Calafrio 64 e desenhada pelo Marco Cortez.
A HQ contava a saga de Paul Bernardo e Karla Homolka, uma dupla canadense que, quando não estava frequentando as colunas sociais, estava sequestrando, escravizando e matando garotas. O casal chegou a abusar e matar (acidentalmente) até mesmo a irmã de Karla.
A minha ideia no roteiro era fazer a página como se fosse um convite de casamento. O desenhista aproveitou essa ideia apenas no título.

Capitão América – A força do Sumô

 


Nas primeiras histórias solo do Capitão América na Era Marvel, era comum que o herói enfrentasse comunistas. Isso não durou muito, provavelmente porque Stan Lee percebeu que ter dois personagens enfrentando comunistas na mesma edição (o Homem de Ferro também era publicado em Tales of Suspense) não era uma boa ideia, e o sentinela da liberdade passou a trocar sopapos novamente com os nazistas.

Um dos comunistas que o personagem enfrentou nessa fase inicial é um general vietnamita chamado Sumô, numa história publicada em Tales of suspense 61.

Não havia muita preocupação em pesquisar o uniforme dos vietcongs. 


No melhor estilo Jack Kirby, a história começa com o herói numa grandiosa splash page desviando as balas com seu escudo enquanto soldados vietnamitas com cara de vilões atiram ou preparam granadas. “Suspendam fogo... não vêem que estou desarmado?”, grita o herói.

Esse começo, além da forma estereotipada com que os vietnamitas são mostrados, também demonstra que não havia muita preocupação com pesquisa. Os uniformes dos soldados parecem uma mistura do uniforme russo com o japonês e estão muito longe das roupas que os vietcongs usavam de fato.

"Tenho o dobro do seu tamanho e o triplo do seu peso!" 


O Capitão foi lá resgatar um piloto cujo irmão o salvou durante a II Guerra.

Depois de enfrentar três soldados fortudos como “teste” (incrível como todo mundo resolvia testar o Capitão só para levar uma surra), ele finalmente é recebido pelo general e o homem é um monstro enorme (“Tenho o dobro do seu tamanho e o triplo do seu peso! Para mim, você nada mais é que uma pulga”, afirma o general).

Com menos de meia página para terminar a história, Stan Lee resolveu fazer piada. 


Como Kirby exagerou nas cenas de ação, sobrou apenas meia página para mostrar a resolução da história e Lee resolveu aproveitar esse problema para fazer uma piada usando a elipse. “Capitão, o jato particular do general está logo à frente, vigiado por outro lutador de sumô bem treinado. Acha que passamos por ele?”. “Acho que sim”, responde o herói, num quadro que mostra o soldado caído e o jato indo embora.

Apesar dessas boas sacadas, a história vale mesmo pela ação desenfreada de Kirby.

Fundo do baú - Shazan, Xerife e cia

 


Os personagens Shazan e Xerife surgiram em 1972 na novela Meu primeiro amor, de Walter Negrão. Interpretados por Paulo José e Flávio Migliaccio, os dois mecânicos atrapalhados fizeram tanto sucesso que ganharam uma série própria exibida nas tardes pela rede Globo.

A trama era psicodélica: os dois personagens percorriam o país numa camicicleta (uma mistura de carro com bicicleta) sempre se metendo em confusões. Uma curiosidade é que a tal camicicleta era, na verdade, um Ford antigo modificado e acrescido de vários adereços.

Os dois buscavam uma tal de peça mágica que lhes permitiria construir uma bicicleta voadora, numa clara alusão a “coisas que faziam voar”. A ideia por trás de toda a psicodelia era o anseio pela liberdade, o que fez com que a série se tornasse extremamente popular entre os jovens da geração hippie.

A série era exibida originalmente às quintas-feiras, às 21 horas, mas pouco tempo depois migrou para o horário das 18 horas, sendo exibida de segunda a sexta.

Uma curiosidade que o nome Shazam era uma alusão ao personagem de quadrinhos que usava a palavra para se transformar. Apesar de já naquela época o herói ser propriedade da DC Comics, a Rede Globo não teve nenhum problema de direitos autorais. Imaginem hoje em dia a Globo usando o nome de um personagem da DC ou da Marvel... no dia seguinte os advogados bateriam na porta da emissora.

A série Shazam, Xerife e cia foi exibida de 1972 a 1974, num total de 66 episódios. 

A prisão dos homens que nunca existiram


O universo Intempol nasceu em 1998, no conto Eu matei Paolo Rossi, de Octavio Aragão, publicado na antologia Outras copas, outros mundos. Nesse texto surgiu o conceito de Intempol, uma polícia do tempo. Octavio foi expandindo esse conceito ao longo dos anos, criando um verdadeiro multiverso multimídia, que inclui desde a literatura até os quadrinhos (quem sabe, no futuro, expansão também para o audiovisual).

Uma das atrações desse multiverso é a série de antologias em quadrinhos Intempol, com um time selecionado de artistas. Eu tive a honra de ser convidado para colaborar com o volume 3 dessa série. Para escrever, recebi uma "bíblia" contendo todas as informações sobre esse universo complexo e fascinante. Resolvi criar uma história focada no prisioneiro de uma cadeia temporal — um homem que foi preso por um crime que ainda não cometeu. Achei o conceito interessante especialmente pela possibilidade de explorar paradoxos temporais.

Para ilustrar a história, foi escolhido Alexandre Lancaster, artista com vasta experiência em mangás, que trouxe uma camada de grandiosidade para a trama. As imagens da prisão são deslumbrantes em todos os sentidos — o tipo de ilustração na qual se pode passar horas observando e descobrindo detalhes.

O álbum pode ser adquirido na Amazon.


sábado, agosto 29, 2026

Justiceiro vs Wolverine

 


No final da década de 1980, Justiceiro e Wolverine eram os personagens mais populares da Marvel.

Por que, então, não juntá-los numa mesma aventura?

Foi a ideia que a equipe responsável pela revista do Justiceiro, Carl Potts (roteiro) e Jim Lee (desenhos) teve.

A história foi publicada em The Punisher War Journal 6 e 7 e mostra tanto o Justiceiro quanto o carcaju atrás de uma quadrilha que caça animais em extinção. Claro que, como é regra nos quadrinhos Marvel, uma confusão faz com que os dois entrem em rota de confronto, um achando que o outro faz parte da quadrilha.

Os heróis entram em rota de colisão. 


Carl Potts era um bom roteirista, infelizmente pouco valorizado, e desenvolve bem a história, embora o Justiceiro pareça estranho na ambientação de selva. Talvez uma ligação com a experiência dele na guerra tornasse a trama mais orgânica para o personagem.

Já Wolverine sempre foi mostrado na selva, em sintonia com animais, de modo que sua presença na história parece óbvia.

Jim Lee faz um bom uso de retículas. 


Algo a se notar é que Jim Lee nessa época não tinha os exageros que caracterizariam sua fase Image e aqui usa o desenho a serviço da história. E usa bem. Destaque para as cenas de luta entre os dois anti-heróis e para a sequência em que o Justiceiro cai na água, com o uso inteligente da retícula.

No Brasil essa história foi publicada em Grandes Heróis Marvel 26.