sexta-feira, julho 10, 2026

Amazing Fantasy 15 - Surge o Homem-aranha!

 


Um dos aspectos interessantes da coleção clássica Marvel é o fato de muitas vezes eles reproduzirem textos da época, que permitem compreender melhor as estratégias editoriais – o que ainda é complementado pelos excelentes estudiosos italianos que escrevem os artigos de apoio.

O volume 1, dedicado ao Homem-aranha, é um exemplo disso. No texto de introdução, Massimiliano Brighel explica que Martin Goodman não havia gostado do herói aracnídeo e Stan Lee usara uma estratégia para convencê-lo a publicar o personagem. A revista Amazing Adult Fantasy ia ser cancelada no número 15 e Lee sugeriu publicar uma história do novo herói naquele último número. 

A capa, de autoria de Jack Kirby, mostra o aracnídeo se balançando numa teia, segurando um malfeitor e dizendo: “Embora o mundo possa zombar de Peter Parker, o adolescente tímido, em breve todos ficarão maravilhados com o incrível poder do Homem-aranha!”. Na mesma capa havia uma caixa com o texto: “Ainda nesta edição: uma mensagem importante do editor para você... sobre a nova revista!”.

A capa com a primeira aparição do personagem foi desenhada por Jack Kirby. 


A capa é um ótimo exemplo de como Stan Lee era um gênio da auto-promoção. O diálogo instiga o leitor a querer conhecer o personagem e a chamada o leva a procurar o tal texto do editor. E o que dizia o texto do editor? Esse texto está presente na edição da Panini e diz mais ou menos o seguinte: que a revista iria perder a palavra Adult porque alguns leitores se sentima constrangidos de comprar uma revista que era para adultos, ia mudar o formato, de magazine para comics e, finalmente, a malandragem de Lee: “Como você verá, apresentamos um dos personagens mais incomuns de todos os tempos, o HOMEM-ARANHA, que continuará a aparecer todos os meses em AMAZING. Talvez se suas cartas exigirem, podemos estender suas histórias, ou incluir DUAS aventuras do Homem-aranha em cada edição”.

O texto é uma tremenda malandragem porque Lee sabia que a revista ia ser cancelada, então sabia que o herói não continuaria a aparecer nela. Mas estimulava os leitores para escreverem cartas para a redação. Essas cartas seriam o seu argumento para convencencer Goodman a continuar publicando a revista, mas agora alterada, tendo apenas histórias do heróis aracnídeo.

Mas toda essa estratégia não daria certo se o material não tivesse qualidade. E o que vemos é uma história em quadrinhos realmente empolgante, muito bem narrada, um exemplo de como contar uma boa história em apenas 11 páginas.



A HQ inicia com uma splash page de Peter Parker olhando, desconsolado para um grupo, que caçoa dele. Na parede, sua sombra emula uma aranha. Aquela primeira página já cria uma identificação imediata. As pessoas a tendem a se identificarem e a simpatizarem com personagens vítimas de injustiças.

Segue-se uma sequência em que vemos que Peter Parker vive com os tios, pelos quais sente enorme carinho e  mais uma vez ele sendo desprezado pelos amigos porque prefere ir para uma feira de ciências a comparecer a uma festa.

Mais do que uma vítima, Peter Parker é um bom rapaz, querido pelos professores e pelos tios. É também muito inteligente, e possivelmente ganhará uma bolsa de estudos.

Em seguida vemos toda a sequencia célebre: o garoto sendo picado pela aranha, descobrindo que ganhou poderes, aproveitando os poderes para ganhar dinheiro e finalmente descobrindo que grandes poderes trazem grandes responsabilidades, quando o tio morre por culpa dele, que não parou um ladrão quando poderia fazê-lo. Tudo isso em pouquíssimas páginas!

Uma curiosidade é que, ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, naquela primeira história, o Tio Ben jamais falou a famos frase sobre poderes e responsabilidades. Ela aparece apenas na caixa de texto final da história.


Fundo do baú - Rambo

 


Na década de 1980, Rambo, estrelado por Silvester Stalone, era uma das franquias que mais levava pessoas ao cinema. Tinha começado com um filme introspectivo sobre um veterano da guerra do Vietnã que surta após ser perseguido por um delegado de uma localidade do interior dos EUA e quase destrói uma cidade inteira. Mas logo se tornou um soldado modelo vencendo sozinho as guerras no Vietnã e no Afeganistão.

Com tamanho sucesso surgiu a ideia de fazer uma animação para crianças, o que por si só era um contrassenso. Afinal, os filmes eram extremamente violentos, mas essa violência não podia ser replicada numa atração para crianças. Assim, embora balas voassem a torto e direito, com todo mundo atirando em todo mundo, nenhuma delas jamais acertava ninguém. No máximo, acertava o pneu de um carro.

Na trama, Rambo é convidado pelo Coronel Trautman para integrar um grupo chamado “Força da Liberdade” cujo principal objetivo era combater o general Warhawk, chefe da  S.A.V.A.G.E., que era uma sigla para Especialistas-Administradores em Vingança, Anarquia e Extorsão Global  (naquela época os vilões faziam questão de dizer que eram vilões).

No desenho Rambo andava o tempo todo sem camisa e constantemente havia closes dos seus músculos, o que podia funcionar nos filmes, mas ficava muito estranho num desenho, já que não se tratava de músculos de verdade.

Os roteiros eram incrivelmente ruins, mesmo para os padrões de Rambo.

No episódio Assalto subterrâneo, o Coronel Trautman informa que o general Warhawk foi visto num barzinho de motoqueiros e Rambo vai lá verificar a informação. Ele é atacado pelos motoqueiros, mas desistem de trabalhar para o general depois de levar uma surra. Então alguém, sem motivo nenhum, liga uma TV e está passando uma matéria sobre o transporte de dinheiro da Reserva Federal e Rambo diz: “Dinheiro da reserva federal? Então é atrás disso que o general Warhawk está”. Um gancho mais aleatório do que isso, impossível.

O plano do general é infiltrar seus homens nas tropas de retaguarda do grupo que está fazendo a escolta do dinheiro. Ninguém desconfia de nada, já que eles estão inclusive usando as roupas do exército. Ninguém, exceto Rambo, que do nada, resolve atacar a tropa de retaguarda.

Lá na frente, ele e os dois outros integrantes da Força de Liberdade descobrem que o objetivo real do general eram as placas, que lhe permitiriam imprimir dinheiro. E ele está escondido em antigos túneis abaixo da cidade. Mas são muitos túneis! Como encontra-los? Um providencial grupo de ratos passa pelo grupo, fugindo de alguma coisa, o que indica o local onde está o general. Mas não é mostrada nenhuma razão para os ratos fugirem. Aparentemente a razão é apenas que o roteirista não conseguiu pensar em uma pista mais inteligente.  Era roteirismo em cima de roterismo.

Cristo abençoador, de Ingres

 


Poucas pinturas são tão conhecidas quanto Cristo abençoador. A razão disso é que a imagem acabou se tornando meme em decorrência da expressão “Não estou nem aí” de Jesus.
Pintado em 1834, o quadro é de autoria de Ingres, um dos maiores nomes do neo-clássico francês.
A imagem mostra Jesus com as mãos abertas e voltadas para cima, como era normalmente representado nos primórdios do cristianismo.
A expressão de Jesus está diretamente relacionada ao estilo de Ingres, que evitava ao máximo expor qualquer tipo de emoção nos seus quadros, o que gerou essa curiosa expressão de indiferença.

Aurora

 


Aurora é um filme clássico de F.W. Murnau (de Nosferatu) com roteiro de Carl Mayer (Caligari) considerado um dos melhores de todos os tempos.


À primeira vista trata-se de um filme muito bem dirigido, com roteiro óbvio: uma mulher da cidade convence um ingênuo rapaz do interior a matar a esposa e fugir com ela para a metrópole. E a trama parece girar em torno da indecisão do homem de cumprir o que prometeu. O que segura é a direção, absolutamente revolucionária para a época, que deve ter um injetado criatividade expressionista alemã no cinema americano. Numa cena, por exemplo, o protagonista é atormentado pela imagem da mulher sedutora, um espectro que inclusive o abraça (num efeito especial impressionante para a época).
Entretanto, perto do final, o filme apresenta uma virada que transforma a história, tirando dela seu ar ingênuo e introduzindo suspense.
A platéia americana parece não ter entedido e o filme foi um fracasso, mas deixou uma marca eterna no cinema americano, em especial o "noir", que teve grande influência do expressionismo.

Perry Rhodan – O regresso do nada

 

No número 59 da série Perry Rhodan os terranos estão às voltas com a ameaça dos invisíveis, inimigos terríveis que fazem desaparecer todos os habitantes de um planeta inteiro.

Nesse número, intitulado O regresso do nada, e escrito por Kurt Mahr, os agentes de Rhodan entram no planeta Mirsal II, que está sendo atacado pelo perigo invisível, com o objetivo de descobrir qualquer pista sobre a ameaça. O grupo é formado pelo tenente Marcel Rous, pela psicóloga Rosita Peres e pelo mutante Fellmer Lloyd.

Esse seria o tipo de volume perfeito para Clark Darlton, um especialista em mostrar as culturas de mundos alienígenas, mas Mahr não faz feio. Nós descobrimos, por exemplo, que em Mirsal II, sair sem se despedir é um sinal de ameaça, tal a importância que os habitantes do planeta dão aos cumprimentos.

A capa original alemã destaca a passagem para o mundo dos invisíveis. 


Mas, fora esses pequenos detalhes sobre a vida local, esse é um volume lento e na maior parte desinteressante – especialmentes se considerarmos que ele vem após O ataque do invisível, um dos volumes mais tensos dos dois primeiros ciclos.

O livro só começa a se tornar realmente interessante lá pelo final, quando os agentes de Rhodan conseguem descobrir uma maneira de visualizar e, finalmente, visitar o planeta dos invisíveis (até que chegie esse momento há várias sequências repletas de termos técnicos que parecem ser puramente fictícios).

A sequência traz um acréscimo: uma interessante explanação sobre as consequências das alterações temporais. À certa altura, por exemplo, Rous percebe que as placas do local onde está são extremamente duras. Mas logo descobre que a aparente dureza do material é decorrente da modificação da dimensão temporal. Talvez as placas fossem de algum material macio, mas como Rous estava rápido demais, o material não tinha tempo de desviar de seu toque. Assim, algo macio parecia extremamente duro. É o tipo de reflexão (ou, melhor dizendo, extrapolação) sobre os limites da realidade que só a ficção científica permite. 

quinta-feira, julho 09, 2026

Mas não se matam cavalos?

 


Na década de 1930 um fenômeno bizarro se espalhou pelos EUA: as maratonas de dança. Elas tinham surgido na década de 1920 e duravam poucas horas. Com a grande depressão, as maratonas passaram a ser buscadas por pessoas desesperadas em busca do prêmio, que variava de 1000 a 1500 dólares, e comida, já que os dançarinos tinham direito a várias refeições diárias.

As maranotas começaram a durar dias, semanas e até meses, com os competidores muitas vezes desmaiando de exaustão. Para o público, o evento era uma forma de se divertir com o sofrimento dos outros e esquecer as agruras da vida. 

O escritor Horace McCoy chegou a participar de uma dessas maratonas durante um período em que estava desempregado. A experiência serviu de base para seu primeiro romance, Mas não se matam cavalos, de 1935. 

O livro é narrado por Robert Syverten, um rapaz que pretende se tornar diretor de cinema. Ao tentar trabalho em um estúdio, ele conhece Gloria Beatty, uma figurante de pouca expressão que o convence a participar da maratona como forma de chamar atenção dos estúdios de cinema. 

McCoy constrói a narrativa de forma envolvente e provavelmente revolucionário à época. Já no primeiro capítulo descobrimos que Robert matou Glória. Ele está no tribunal, sendo julgado por essa morte. Tudo que é narrado no livro são as suas lembranças enquanto ele ouve a sentença, cujas partes são distribuidas ao longo dos capítulos. 

Nitidamente o autor é influenciado pelo estilo noir e isso se reflete na escolha narrativa, que trata o tema como uma história policial. Sabemos que o protagonista matou sua parceira na dança, mas queremos saber por que é em que circunstâncias isso aconteceu. 

A influência do noir aparece também no texto, direto, sem firulas estilisticas. As elocução dia diálogos, por exemplo, limitam-se a “ele disse, ela disse”. 

Essa escolha narrativa pode parecer pobre, mas funciona perfeitamente no livro. 

McCoy traz detalhes sobre como funcionavam as maratonas:

“A maratona começou com 144 pares, mas 61 desistiram na primeira semana. A regra era dançar durante uma hora e cinquenta minutos e depois dez minutos de descanso, quando a gente podia dormir se quisesse. Mas aqueles dez minutos também eram para a gente se barbear, ou tomar banho, ou cuidar dos pés, ou qualquer outra necessidade”.

Depois de um certo tempo, a maioria se mexia apenas o bastante não serem desclassificados.  

Traz também detalhes sobre o nível de crueldade dessas competições. À certa altura, por exemplo, o organizador inventa um tal de Derby, uma corrida em volta de um círculo. Os homens só podiam andar sobre os calcanhares ou nas pontas dos pés. As mulheres os acompanhavam agarradas aos seus cintos. É de se imaginar o quanto pessoas exaustas correndo dessa forma em volta de um círculo poderia gerar um espetáculo bizarro para a plateia. Os ganhadores do Derby recebiam como prêmio de apenas 10 dólares, um valor baixo, mas que podia fazer a diferença numa época de depressão econômica. 

Outra forma de ganhar dinheiro era se exibir para a plateia esperando receber moedas. 

McCoy cria a impressão de que estamos vendo tudo aquilo diante de nossos olhos, impressão ampliada pela estratégia de colocar, no início de cada capítulo as horas transcorridas e os casais restante. 

A personagem Glória, com seu instinto depressivo, tornou-se um dos maiores símbolos dos EUA no período após a queda da bolsa de 1929.

Mas não se mata cavalos agradará tanto quem gosta de histórias policiais ou dramas humanos quanto quem tem interesses em relatos sobre esse momento histórico.

Hulk – consertando cercas

 


Peter David e Dale Keown em sua fase no Hulk mostraram o personagem dividido entre três personalidades – e conseguiam perfeitamente fazer a distinção de cada um tanto visualmente quanto em termos de diálogos e de personalidade.

O início da história “Consertando cercas”, publicada em The incredible Hulk 373 demonstrava muito bem isso.

A história começa com as duas versões do golias na mente de Banner, lutando para ver quem conseguirá assumir o controle. Isso é representado metaforicamente por uma porta de metal. Na splash page inicial, o Hulk verde tenta empurrar a porta e escapar. O Hulk cinza empurra de volta enquanto diz: “Volta pra dentro, sua anta verde!”, ao que o outro responde: “Hulk fracote pensa que pode mandar Hulk de verdade embora, mas...”. O cinza consegue fechar a porta com um estratagema que é uma piada nerd: “Olha atrás de ti! É o Lou Ferrigno!” (o ator que interpretou o Hulk na série de TV). Quando o verde olha para trás, ele fecha a porta e escarnece: “Mané, sempre cai nessa.”.

A consciência de Banner é representada por uma porta. 


A história era continuação de uma história anterior, em que Banner reencontra Beth Ross, mas o que parecia ser um final feliz descamba para pura ação quando aparece o exército e até o FBI para prender Banner.

Aliás, é numa sequência com agentes do FBI que Peter David melhor exercita sua verve para o humor. Um agente diz: “É por isso que os locais precisam de nós em casos assim. Somos observadores treinados”, enquanto Bruce Banner e Betty Ross escapam atrás deles, numa moto.

Demolidor – Desafio

 


No número 175 da revista do Demolidor surge um dos adversários mais mortais já enfrentados tanto por Elektra quando pelo demônio mascarado: o guerreiro Kirigi. Esse personagem surge na esteira de um processo em que Miller foi colocando, aos poucos, elementos da cultura japonesa nos quadrinhos de super-heróis.

Essa influência era perceptível não apenas no tema, com samurais, ninjas e armas orientais, mas também na linguagem, como na impressionante sequência (tão boa que Miller repete neste número) na qual Kirigi mata de um só golpe três ninjas do Tentáculo. A imagem, dividida em três, para dar uma impressão de movimento, mostra o guerreiro em primeiro plano, de costas, a espada acima de sua cabeça, suja de sangue. Os guenins olham estarrecidos e dizem: “Extraordinário.”; “Nós três...” ; “... com um só golpe...”.  No quadro seguinte, os três estão caindo ao chão.

Miller trouxe para os comics a influência dos mangás. 


A sequência demostra uma forte influência dos mangás, em especial de Lobo Solitário, mas também mostra que Miller conseguia misturar essa influência com novos elementos, em especial o seu uso genial da elipse quadrinística.

Há outro ponto em que vemos esse uso inteligente da narrativa e que antecipa inclusive Cavaleiro das Trevas, na qual ele usaria um recurso semelhante em uma cena muito parecida. Foggy está em um taxi quando é atacado por um dos campangas do Tentáculo, sendo salvo pelo Demolidor.

O carro está sendo atacado, mas só percebemos a luta pelas mãos. Miller usaria recurso semelhante em Cavaleiro das Trevas. 


A imagem é focada apenas no sócio de Matt Murdock, de modo que vemos apenas as mãos dos outros personagens. Miller deixa para o leitor imaginar o que está acontecendo acima do capô do carro.

Na história, o Rei do Crime planta em um dos ninjas do Tentáculo um cartão com o endereço em que o grupo se esconde. Isso faz com que Demolidor e Elektra invadam o local. Enquanto o herói enfrenta campanhas menores, Elektra enfrenta Kirigi em uma sequência impressionante. Ela o acerta de todas as formas, mas ele nunca cai. “Dizem que força mortal alguma é capaz de derrubá-lo. Elektra jamais acreditou em tais histórias... até agora.”, diz o texto.

Kirigi não morre? 


Se hoje tudo isso parece impressionante, na época não deveria parecer nada menos que revolucionário.  

Turma da Mônica – Laços

 


A Turma da Mônica marcou a infância de milhões de brasileiros. Gerações se alfabetizaram lendo os gibis da turminha. Fazer um filme que agradasse a todas essas gerações, do avô ao neto, era o grande desafio do filme Turma da Mônica – laços.
Esse desafio já havia sido vencido com mérito na graphic novel Laços dos irmãos Cavaggi. A graphic foi uma das mais vendidas da coleção graphic MSP e recebeu elogios da crítica e do público – tanto o infantil quanto o adulto.
Mas levar a história para o cinema gerava muito mais desafios. Além de agradar adultos e crianças, a equipe precisava adaptar não só o roteiro, mas também o visual e a essência de uma história em quadrinhos querida por milhões.
E o resultado foi realmente digno de aplausos. Os atores mirins são realmente talentosos – com destaque para Giulia Benite, como Mônica, e Kevin Vechiatto, como Cebolinha – a dinâmica entre esses dois personagens é realmente um dos pontos altos do filme. O figurino e a caracterização visual dos personagens impressiona.
O diretor Daniel Rezendo (do ótimo Bingo), consegue transformar cenas essencialmente gráficas, como Mônica correndo atrás do Cebolinha e do Cascão e se preparando para atirar o coelho Sansão, em algo plenamente áudio-visual. O diretor, aliás, se aproveita de uma característica dos quadrinhos, a elipse: a Mônica nunca é mostrada batendo nos meninos. Isso é apenas sugerido. Na sessão em que assisti uma criança menor de cinco anos gritou para a mãe: “A Mônica bateu no Cebolinha!”. Ou seja, da mesma forma que nos quadrinhos qualquer criança consegue completar a ação entre os quadros, no filme até mesmo crianças conseguem entender o que não é mostrado, mas sugerido, o que mostra o quanto o filme foi feliz em sua abordagem.
Vale destacar também a cenografia. O filme leva para as telas como seria o bairro do Limoeiro se ele realmente existisse, bucólico, colorido, inocente, quase como se fosse um local visto pelo olhar de uma criança – ou de um adulto lembrando de sua infância.
Em tempo: o filme tem participações especiais. Na sequência em que as crianças espalham cartazes pelo bairro, em determinado ponto eles conversam com um florista e seus clientes. O florista é Sidney Gusman, editor da Maurício de Sousa Produções, e os clientes são os irmãos Cavaggi, autores da graphic original. A sequência termina com os personagens pedindo para afixar o cartaz em uma banca de revistas... e o dono da banca é Maurício de Sousa. 

Livro O roteiro nas histórias em quadrinhos

 


 

Neste livro sobre roteiro para HQ, o neófito pode encontrar todas as dicas para se tornar um roteirista de qualidade. Escrever quadrinhos, ao contrário do que muitos pensam, exige esforço, dedicação e preserverança. Exige também muita leitura. O primeiro passo é ler este livro. 

Valor: 25 reais (frente incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

Omac – o exército de um homem só

 



Em 1974, Jack Kirby estava na DC Comics e tinha assinado um contrato que o obrigava a fazer 15 páginas de quadrinhos, escritas, desenhadas e editadas por semana. Um número absolutamente bizarro se considerarmos que a maioria dos desenhistas de quadrinhos faz 22 páginas por mês.

Mas outras revistas que ele estava fazendo, como Etrigan, o demônio, tinham sido descontinuadas em decorrência das baixas vendas. O único personagem que vendia relativamente bem era Kamandi, que se passava num futuro distópico. Assim, os executivos da DC pediram que Kirby pensasse num herói futurista para completar a cota de 15 páginas semanais.

O resultado foi, provavelmente, o melhor trabalho de Kirby para a DC e, provavelmente, um dos melhores quadrinhos já feitos pelo rei.

O quadrinho chamava-se Omac e se passava num futuro distópico. Omac é um operativo de paz que combate ditadores e criminosos.

As situações imaginadas por Kirby mostram o quanto ele era visionário e absolutamente criativo.

O mundo de Omac é um local em que ricos podem conseguir tudo, de alugar uma cidade para dar uma festa (e durante a festa tudo que está dentro da cidade pode ser usado por eles) a comprar corpos jovens para transferir suas consciências.

Kirby imagina uma fábrica de bonecas hiper-realistas. 


A primeira história é incrivelmente visionária. Kirby imaginou uma empresa que fabrica “amigas”, bonecas hiper-realistas para consolar pessoas sozinhas (em outras palavras: bonecas sexuais). A situação gira em torno de pessoas dessa empresa que colocam bombas nessas bonecas afim de cometer assassinatos. Hoje em dia bonecas hiper-realistas são uma realidade e podem ser compradas em sites por valores que variam de 2 a 5 mil reais! As mais avançadas já contam até mesmo com inteligência artificial. Se considerarmos que Kirby fez essa história em meados da década de 70, é incrível o quanto ele conseguia antecipar o futuro.  

Kirby imagina a importância que a água teria no futuro e inventa um vilão que manipula átomos para roubar rios e lagos inteiros.

Os milionários podem tudo, inclusive comprar corpos de jovens para transferir suas consciências.


E, quem diria, Kirby, que lutou na segunda Guerra Mundial, é implacável com figuras de autoridades, em especial as militares. Um dos personagens, assistente de um vilão, é o Major Capacho.

Omac é, provavelmente, o melhor exemplo da mente genial e visionária de Jack Kirby, o homem, que, nas palavras de Alan Moore, era capaz de criar um universo antes do café da manhã.

Pena que a capacidade de Kirby com a escrita não acompanhasse toda essa genialidade. Os diálogos são tão impessoais e sem sabor que muitas vezes um personagem completa a fala do outro. Mas a genialidade das histórias aqui é tão grande que esse defeito passa quase batido.

É surpreendente que esse material estivesse inédito no Brasil até este ano de 2021, quando a Panini publicou as histórias num volume de Lendas do Universo DC.

A arte expressiva de Alfonso Font

 


Alfonso Font é um quadrinista espanhol nascido em 1946. Ele começou sua carreira em 1960 como aprendiz no estúdio da Editorial Bruguera, desenhando séries de faroeste, guerra, mistério e terror para editoras estrangeiras.

Na década de 1970 ele começaria trabalhar para editoras inglesas e norte-americanas, como a Warren. Para a revista francesa Pif gadget criou a série de ficção científica Os Robinsons da Terra.

Entre as décadas de 1970 e 1980 criou suas séries mais famosas, incluindo Histórias Sombria , uma coleção de dezoito aventuras curtas e humorísticas, e a ficção científica Contos de um Futuro Imperfeito. Em 1982 criou o hilário  O Prisioneiro das Estrela) e a série com tema ecológico, e Clarke y Kubrick, que homenageava no nome do escritor do livro e o diretor de 2001, uma odisséia no espaço.

Em 1996 ele foi agraciado com o prêmio Yellow Kid no Festival de Luca, na Itália.

Em 1998 ele desenhou para editora Bonelli uma história especial de Tex. Posteriormente ele entraria para a equipe regular da série. Ele também chegou a desenhar uma história de Dylan Dog.















quarta-feira, julho 08, 2026

A festa das astronautas


 

Perry Rhodan - Missão Secreta: Moloque

 

 


Uma das razões que faziam os livros escritos por William Voltz (além da qualidade do texto) se diferenciarem dos outros da série Perry Rhodan era a forma como o autor conseguia manejar o suspense, escrevendo um livro que se tornava interessante da primeira à última página. Isso pode ser visto, por exemplo, no número 91, o terceiro escrito por ele.

Na história, Rhodan resolve tentar contato com os deformadores de matéria com o objetivo de conseguir aliados, afinal, agora todos sabem a localização da Terra, o que faz com que ela seja um alvo preferencial.

Os cálculos indicam que os deformadores podem ser encontrados em planeta chamado Moluque e para lá é enviada uma nave da classe estado comandada pelo coronel Marcus Everson, que já havia tido contato com um deformador de matéria no volume O pavor (também escrito por Voltz).

A capa original alemã 


Mas quando a nave desce no planeta, o sistema antigravitacional falha, fazendo com que ela simplesmente desabe. Isso é só o início de uma série de eventos que vão mostrado aos poucos que os terranos caíram em uma armadilha.

Voltz vai aumentando cada vez mais essa sensação de armadilha ao mesmo tempo em que joga com o suspense, colocando algumas informações sobre eventos futuros, a exemplo de: “Não acreditou nem em Petsteven nem no nativo... até que acontecesse alguma coisa com Edward Bellinger”.

Isso faz com que os suspense se mantenha o tempo todo. Aliás, esse é um dos livros em que o leitor acredita piamente que tudo inevitavelmente vai dar errado, mas literalmente na última página tudo se resolve de maneira lógica.

Se isso não fosse mérito suficiente, em sua visão humanista, Voltz detalha cada um dos personagens do livro, trazendo uma caracterização ou informação sobre ele, a exemplo do próprio Coronel Everson: “Poucos comandantes da frota estelar eram tão estimados como Everson. Seus homens o veneravam. Sabia dar o máximo de liberdade e exigir apenas o mínimo de disciplina, sem que isso afetasse sua autoridade”.

Considerando que Perry Rhodan era uma série de ficção científica produzida de modo quase industrial, o que William Voltz fazia é muito mais do que se poderia esperar.