quarta-feira, outubro 28, 2026

A arte magnífica de Arthur Rackham

 



Arthur Rackham começou sua carreira na era vitoriana, fazendo ilustrações para revistas enquanto trabalhava como escriturário.

Em 1892 ele pediu demissão e resolveu se dedicar apenas ao trabalho de ilustração. À princípio imitando artistas famosos da época, ele só desenvolveu um estilo um estilo próprio quando começou a ilustrar livros.

A grande virada viria em 1905, quando Rackham colocou suas pinturas numa edição de Rip Van Winkle Washington Irving. Estava encontrado seu caminho: a fantasia. Esse livro já apresentava as características que o tornaram famoso: as linhas sinuosas suavizadas por aquarela, as árvores ameaçadoras, as fadas castas e ao mesmo tempo sensuais, ogros e trolls incrivelmente feios, mas igualmente simpáticos. Suas imagens transmitiam saudosismo, beleza e sensualidade recatada.

Outros trabalhos importantes do pintor foram Peter Pan, Alice no país das maravilhas, Sonhos de uma noite de verão e Contos, de Edgar Alan Poe e O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner.









terça-feira, outubro 27, 2026

Jornada nas estrelas – O último duelo

 


Alguns dos episódios mais interessantes da série clássica de Jornada nas Estrelas são aqueles que ocorrem no passado da Terra. Mas como fazer personagens do futuro viverem situações do passado? A volta no tempo era a estratégia mais óbvia, mas o episódio “O último duelo”, da terceira temporada, trouxe uma solução curiosa.

Na trama, a Enterprise recebe a missão de fazer contato com a civilização melkotiana. No caminho, encontra uma bóia daquela raça avisando que se afastem, mas Kirk ignora o aviso. Quando finalmente uma delegação terrana se teletransporta para o planeta, os melkotianos, temendo tratar-se de uma raça violenta, prendem a equipe numa espécie de realidade virtual que simula a cidade de Tombstone onde ocorreu o célebre duelo do OK Curral, no qual os irmãos Eerps mataram a quadrilha dos Clantons.

Todos na cidade vêem os tripulantes da Entreprise como membros da quadrilha dos Clantons, o que significa que eles serão inevitavelmente mortos ao final do duelo.

Quem brilha nesse episódio é Chekov. Assim que entram num salão uma moça se joga em seus braços, achando que ele é Billy Clanton. A moça beija apaixonadamente o rapaz. Kirk tenta dar uma bronca, no navegador, que responde:  “O que posso fazer, Capitão? Sabe que temos que manter boas relações com os nativos.”. E volta a beijar a moça.  

Um aspecto interessante do episódio é que, como a essa altura o orçamento da série tinha reduzido consideravelmente, a produção não conseguiu construir uma Tombstone completa. O cenário é nitidamente falso, com uma casinha aqui e outra ali, na maioria das vezes só com a fachada. O roteiro, no entanto, aproveita muito bem isso e o que deveria ser um defeito se torna um trunfo.

Ao final, o que poderia ser uma ode a um dos períodos mais violentos da história norte-americana acaba se tornando uma mensagem de paz, bem ao estilo de Jornada.  

Rodval Matias, o melhor desenhista erótico brasileiro

 

Rodval Matias foi um dos principais desenhistas da editora Grafipar. Sua habilidade para desenhar mulheres libidinosas fez dele um dos mais requisitados para histórias eróticas. Posteriormente ele produziu, para a Europa, uma adaptação do livro Os 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade. O roteiro ficou a cargo do Ataíde Braz. Na Europa saiu apenas como Silva. Algumas revistas nacionais publicaram esse material no Brasil, um capítulo em uma revista, outro em outra revista. Mas é um material obrigatório para fãs de erotismo. Rodval não fica nada a dever aos mestres do erotismo, como Manara ou Crepax. Para baixar o álbum em arquivo digital, clique aqui. Para ler on-line clique aqui.

Perry Rhodan – Os microtécnicos

 


O volume 63 da série Perry Rhodan é focado numa grave ameaça à humanidade: os saltadores, em conjunto com o regente robótico de Árcon querem criar um goniômetro, um aparelho capaz de identificar a origem de qualquer nave após o salto, mesmo que esta use os compensadores estruturais. Com isso, a localização do planeta Terra poderá ser descoberta, o que poderá inclusive redundar em sua destruição.

O aparelho está sendo construído no planeta Swoofon e o plano de Rhodan é introduzir agentes no local para copiarem os planos do mesmo com o objetivo de criar um outro mecanismo, que o neutralize.

Para isso, ele cria uma estratégia de distração, pousa no planeta com três grandes naves terrenas e isola o sistema alegando que está procurando um criminoso que estaria, de alguma forma, ligado aos invisíveis.

É uma trama forçada e morosa, que nem mesmo o texto de Clark Darlton consegue salvar.

A capa da edição alemã destacou os habitantes de Swoofon. 


O livro acaba valendo muito mais pelas descrições do mundo Swoofon e seus simpáticos habitantes, pequenos como pepinos, capazes de enxergar em nível quase atômico e dotados de quatro braços com mãos extremamente habilidosas. Os aparelhos fabricados por eles mal podem ser vistos a olho nu. São capazes de construir, por exemplo, transmissores que podem ser guardados no buraco de uma agulha.

A série, que inicialmente apresentava aparelhos cibernéticos imensos, torna-se antecipatória ao prever o surgimento da miniaturização, um fenômeno que vemos nos dias atuais.

Em tempo: o livro fica mais interessante no final, quando o novo plano de Rhodan precisa de um disfarce. Isso gera um impasse ético que é bem aproveitado por Clark Darlton.

Quarteto Fantástico contra o Superskrull

 


Uma das características que faziam do Quarteto Fantástico um grupo único nos quadrinhos era o fato de que eles eram mostrados como celebridades, como provavelmente aconteceria se os super-heróis de fato existissem.

No número 18, por exemplo, vemos a família fazendo compras em uma grande lojas de departamento quando algumas pessoas os reconhecem. O assédio é tão grande que eles acabam envolvidos pela multidão de fãs e precisam de ajuda do coisa para saírem. Quando uma ameaça surge na cidade, eles demoraram para agir porque precisam primeiro se livrar do assédio.

Os heróis do Quarteto são tão populares... 


E a ameaça é ninguém menos que o Superskull, um ser alienígena que tem todos os poderes de cada um dos integrantes do Quarteto, com a diferença de que suas habilidades são ainda mais acentuadas. Assim, ele é mais forte que o Coisa, controla o fogo melhor que o Tocha e se estica mais que o Senhor Fantástico. E, embora os cientistas skrulls afirmem que ele consegue ser melhor que a Mulher Invisível, a verdade é que ele só fica invisível (vale lembrar que, nessa época, esse era o único poder dela).

... que precisam desviar dos fãs para combaterem a ameaça do Superskrull


Como enfrentar um personagem tão poderoso, com tantas habilidades? Stan Lee tira da cartola um deus ex machina, um ponto fraco no vilão descoberto sem mais nem menos por Reed Richards.

Mas a aventura era tão empolgante que a maioria das crianças da época nem deve ter se tocado que a solução encontrada para derrotar o Superskrull era forçada.

O vilão tem os poderes de todos os membros do Quarteto. 


Em tempo: o Superskrull, embora derrotado nessa primeira história, ainda iria voltar outras e outras vezes, como todos os vilões do Quarteto.

Mirza, a mulher vampiro

 

A primeira vampira de sucesso dos quadrinhos surgiu no Brasil. Trata-se de Mirza, criação do desenhista italiano naturalizado brasileiro Eugênio Colonesse e do roteirista Luís Meri. A personagem surgiu na época de ouro dos quadrinhos de terror nacional, na década de 1960.
Nessa época, Colonnese e Rodolfo Zalla tinham um estúdio, o D´Arte, especializado em quadrinhos, no qual chegavam a produzir 300 páginas por mês nos mais diversos gêneros (dos super-heróis aos de guerra). Um dia José Sidekerskis, da editora Jotaesse os procurou e pediu que Colonesse criasse uma personagem vampira.
No dia seguinte surgia Mirza. O nome era uma variação de Mylar, super-herói de sucesso, criado por Colonesse. ¨Não parecia nome de uma mulher, tanto que resolvi acrescentar no título ´a mulher vampiro´ para acentuar mais. Hoje se você pesquisar na lista telefônica, vai encontrar várias Mirzas, mas naquele tempo não existia¨, lembra Colonnese.
A revista foi publicada em 1967 e virou um hit. Dos 35 mil exemplares impressos, sobravam pouco mais de mil. Além disso, a redação da editora começou a receber várias cartas de fãs pedindo a continuidade da personagem. O interessante é que as histórias conseguiam captar muito bem o clima erótico, elemento essencial do terror vampiro. O roteirista Luis Meri escrevia de acordo com as orientações de Colonnese, mas de vez em quando colocava uma inovação, como uma festa de lésbicas.
Apesar do sucesso, o gibi durou apenas 10 números. A razão disso foi a mudança de ramo do desenhista. Um dia Rodolfo Zalla procurou Colonnese com a proposta de desenhar para livros didáticos. Este respondeu que não sabia fazer livros didáticos, pois sua especialidade era quadrinhos. ¨Uma cenoura que você fizer para um livro didático paga mais que cinco páginas de quadrinhos¨, rebateu Zalla. Foi o bastante para convencer o amigo. Dedicando-se apenas às ilustrações didáticas, o criador deixou de lado sua personagem, que ainda seria republicada, no início dos anos 1970, pela Editora Regiart, de forma pirata. Essa publicação manteve o interesse pelos leitores.
Na década de 1980 houve um renascimento dos quadrinhos nacionais e Colonnese acabou voltando à sua personagem mais famosa, pelas editoras Press, D´arte e Vecchi.
Eram outros tempos, de abertura política e a vampira ganhou contornos mais sensuais. Se antes ela usava um vestido longo, que cobria até suas pernas, agora ela usava decotes generosos e vestidos curtos, quando não lingiere sensual. O roteirista Osvaldo Talo colaborou nessa fase dando um passado para a personagem: ela seria uma condessa chamada Mirela Zamanova.  Uma nova história, na revista Metal Pesado, apresentou uma versão totalmente erótica da vampira.
Desde então, Mirza tem voltado em edições especiais, para jubilo dos fãs. E, quando se fala que Vampirella é a primeira vampira dos quadrinhos, ele se lembram que a grande criação de Colonnese é bem anterior.

Mestre do Kung Fu contra Mordillo

 

Uma série longeva como Mestre do Kung Fu não poderia se ancorar indefinidamente apenas nos embates contra Fu Manchu — as primeiras histórias da revista demonstraram o quanto essa dinâmica poderia se tornar tediosa. Desse modo, era imperativo criar adversários que estivessem à altura do herói. Um dos mais emblemáticos foi Mordillo, antagonista que surgiu na edição #33, em uma saga que se estendeu até o número #35 da publicação norte-americana.

Essa saga marca a introdução de Leiko Wu, que viria a se tornar uma personagem fundamental e o grande interesse romântico na mitologia da série. Na trama, ela é hipnotizada para memorizar o segredo de uma arma letal, um dispositivo capaz de abrir fendas na camada de ozônio e canalizar raios ultravioletas para destruir localizaciones geográficas específicas. Contudo, essa mesma programação mental fez com que ela esquecesse os dados estratégicos, e a única pessoa que detinha a chave psicológica para resgatar tal lembrança acabou sendo morta.

Em sua primeira aparição, Leiko é sequestrada pelo vilão Mordillo. 


Leiko é então sequestrada por um agente infiltrado, Simon Bretnor, que havia se aproximado dela fingindo ser seu namorado. Bretnor, na verdade, é ninguém menos que o próprio Mordillo, um vilão especializado em robótica que construiu uma base em uma ilha isolada nos moldes de um parque temático maluco. O cenário surrealista inclui um domo geodésico, um castelo medieval, uma pirâmide e até um sapato gigante, sendo inteiramente povoado por autômatos que imitam atrações de parque de diversões, como um trenzinho dotado de um rosto humano estilizado e sorridente.

A história tinha tanto texto que não parecia sobrar espaço para o dessenho. 


A ilha de Mordillo, palco onde se desenrola a narrativa, constitui um dos pontos altos de criatividade do roteirista Doug Moench, com especial destaque para o robô Brynocki, cujas feições caricatas lembram um boneco de desenho animado clássico e que profere tiradas bizarras como:

“Sabe o que é, chefia? Eu estava andando pela praia quando te vi entranhado com a mocinha aqui e achei melhor laçar a bezerra e te dar uma mão”.

O desenho de Gulacy parece vazio em alguns quadros. 


Apesar da excelente premissa conceitual e de algumas sequências de ação empolgantes, o resultado final do arco fica um pouco aquém do esperado. O desenhista Paul Gulacy ainda estava em fase de testes com o seu traço e sofria visivelmente para compor imagens de escala grandiosa — como na primeira aparição da ilha, cujos cenários pareciam excessivamente vazios e planos.

Brynocki chama atenção desde sua primeira aparição. 


Por outro lado, o roteiro mostrava-se um tanto capenga, exibindo furos consideráveis de desenvolvimento. A revelação da traição de Simon Bretnor/Mordillo simplesmente não impacta o leitor, pois o personagem já é apresentado desde o primeiro instante sob uma aura suspeita e vilanesca. Um Moench mais maduro saberia introduzir o coadjuvante gradualmente, preparando o público com ganchos sutis antes da grande revelação de que se tratava de um espião inimigo. O mesmo problema de construção afeta Leiko Wu, que carecia de um background mais elaborado para que seu envolvimento emocional com Bretnor fizesse real sentido narrativo.

A vilã Pavane reaparece, mas não faz quase nada. 


Além disso, Moench parecia acreditar que o melhor texto é o texto excessivo. Em algumas sequências, o diálogo é tão carregado que os personagens parecem se espremer no canto dos quadros.

As motivações do vilão também revelam-se consideravelmente fracas. Mordillo ambiciona apenas obter a quantia de um milhão de dólares e, no processo de chantagem global, decide de forma inconsequente destruir até mesmo a sua amada ilha repleta de autômatos.

Brynocki protagoniza a cena mais tocante da história. 


O ponto alto e verdadeiramente memorável da história, no fundo, reside na figura trágica e cômica do robô Brynocki. A cena final, que mostra a criatura abraçada ao esqueleto inerte do vilão prometendo nunca abandoná-lo, consegue ser genuinamente tocante. Brynocki demonstrou tanto carisma que, futuramente, viria a ser resgatado e reaproveitado por Doug Moench em outra trama memorável.

segunda-feira, outubro 26, 2026

Hulk – O terror dos homens sapos

 


Nas primeiras histórias, o Hulk era muito diferente do personagem que todos nós conhecemos. Para começar, na primeira história, o personagem era cinza. Só na segunda edição é que apareceu o verde, mas um verde tímido, muito diferente do golias esmeralda que conhecemos hoje.

Mas o tom das histórias e a personalidade do verdão também eram muito diferentes.

Para começar, havia um clima das histórias de terror da Marvel da década de 50. A segunda edição começa com o Hulk saindo do pântano, como um monstro ameaçador e invadindo uma cidade com um... pedaço de pau! O texto dizia: “Tal qual um monstro selvagem e devastador saído de algum insano mundo abissal, a aterrorizante figura do Hulk emerge repentinamente das lamacentas águas do pântano”. Parecia uma história de terror.

As primeiras histórias tinham clima de terror. 


Só a aparição de Rick Jones impede que o “monstro” destrua a cidade.

Como na época não havia enrolação, tudo acontecia muito rápido. Logo uma raça de homens-sapos resolve invadir a terra e para isso sequestram o maior cientista do planeta... justamente Bruce Banner. Quando anoitece, este se transforma no Hulk e bota o terror na nave (naquela época, Banner se transformava durante as noites).

O golias esmeralda chega a usar uma das armas dos alienígenas contra eles mesmos, enquanto pensa: “Essas armas... perto delas, as nossas parecem estilingues!”. Quem poderia imaginar o Hulk que todos conhecemos usando uma arma e tendo pensamentos como esses? Mas à frente, ele afirma que vai pegar Betty Ross como... refém!

Hulk usando armas e dizendo frases inteligentes? Será que errei de revista? 


A razão disso é que nessa época o personagem era muito baseado na fera do livro O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, sendo muito mais cruel do que embrutecido.

Uma curiosidade: O roteiro era de Stan Lee e os desenhos de Jack Kirby, a dupla de ouro da Marvel, mas a arte-final dessa história contava com três nomes, que dão aspectos completamente diferentes para a arte: Steve Ditko, Dick Ayers, Paul Reinman. Ditko, que tinha um estilo muito pessoal, é perfeitamente reconhecível.

Na terra dos pinhões

 


Eu fui para Curitiba de ônibus, em maio de 1994, levando tudo que podia em uma enorme caixa de papelão que pesava mais do que eu. Ia ali dentro livros, quadrinhos e minha máquina de escrever Remington.

Quando paramos pela primeira vez no Paraná fiz questão de descer e ver os jornais, que ficavam presos em varais ao lado de uma banca de revistas. Fui andando pelos jornais, até parar na frente da Folha de Londrina. Era como se eu pudesse ouvir alguém me dizendo: “Você vai trabalhar nesse jornal”.

Folha de Londrina foi um dos últimos jornais que visitei, pois ficava afastado, no Centro Cívico de Curitiba e eu tive dificuldade de descobrir como se chegava lá. Fui com uma pasta debaixo do braço, com todas as matérias que eu tinha publicado nos jornais de Belém.

Tempos depois eu descobri que fui atendido porque o editor ficou curioso com a minha audácia.

Ao ser informado pela secretária que alguém queria falar com ele, o editor retrucou que estava muito ocupado.

- Pergunte da parte de quem.

Poucos minutos depois a secretária voltou.

- Perguntou da parte de quem?

- Sim, ele disse que da parte dele mesmo.

A resposta foi tão ousada e inusitada que ele resolveu conhecer o engraçadinho. Coincidentemente, eles estavam de fato precisando de jornalistas para a filial de Curitiba.

Apesar de ser um jornal de interior, a Folha de Londrina era um jornal descolado, principalmente se comparado ao jornal da capital, a Gazeta do Povo, até hoje um jornal ultra-conservador. Esse conservadorismo da Gazeta se refletia até mesmo na diagramação pesada e nos textos com parágrafos grandes, pesados. Ao contrário, a Folha de Londrina era um jornal leve, divertido, com uma diagramação bonita, textos menores, parágrafos curtos. Para melhorar, a Folha anunciava na rádio que ouvia, uma rádio rock e seu slogan brincava com o fato de não ser um jornal de Curitiba: “Porque inteligência é capital”.

O editor resolveu fazer um teste comigo e o teste foi exatamente fazer uma matéria sobre um grupo de quadrinistas que estava surgindo em Curitiba e fazendo sua primeira exposição. Era o Núcleo de Quadrinhos de Curitiba.

(Trecho do meu livro A árvore das ideias. Clique aqui para baixar gratuitamente. 

Os sete samurais

 



Se existe um filme que é perfeito do primeiro ao último take este filme é Os sete samurais, de Akira Korosawa.

Lançado em 1954, o filme conta a história de um vilarejo assolado por bandidos, que roubam toda a colheita de arroz. Cansados da situação eles resolvem procurar samurais que possam ajudá-los em troca apenas de três refeições de arroz por dia, o que parece impossível, já que a maioria dos ronins considera a proposta ultrajante.

O filme é nitidamente dividido em três atos: a procura dos samurais, a preparação para o confronto com os bandidos e a guerra em si. Cada um deles tem seu encanto.

Talvez o momento mais impressionante do primeiro ato seja a descoberta de Kambei Shimada, o sábio e experiente samurai que será responsável por recrutar a maior parte dos outros. Um bandido se escondeu em uma casa e tomou uma criança como refém. Ele não deixa que ninguém se aproxime e ameaça matar a criança. Fingindo ser um monge budista oferecendo comida, Kambei consegue entrar na casa, salvar a criança e matar o bandido com a própria espada desse. A sequência inteira é impressionante e mostra como Kurossawa conseguia dar uma impressão de ação única usando praticamente nenhum recurso além da câmera lenta.



Outro momento de destaque é Kyūzō, visto em um duelo no qual mata seu arrogante oponente. O sangue frio e o hiper-foco se destacam aqui, com o samurai eliminando o adversário com um único golpe.

Ao grupo se junta um jovem nobre que pretende se tornar um samurai e ser discípulo de Kambei.

Outra adição é Kikuchiyo, talvez a figura mais carismática do filme.

Kikuchiyo  é um falastrão, que se apresenta como samurai, mas provoca risos quando descobrem que o documento apresentado por ele é de uma criança. Além disso, seu jeito estabanado é o oposto do contido Kyūzō. O grupo inclusive o rejeita em um primeiro momento.

Quando os sete samurais chegam ao vilarejo e todos estão escondidos em suas casa, é que Kikuchiyo mostra seu valor ao tocar o sino que avisa sobre a chegada dos bandidos.



É esse grupo muito diverso e até de certa forma disfuncional que irá defender a aldeia e salvar os lavradores.

Conta-se que Koroswa e os roteiristas Shinobu Hashimoto e Hideo Oguni escreveram a biografia de cada um dos personagens principais, o que de fato aparece na história. O expectador vai aos poucos conhecendo cada um dos samurais (e alguns dos aldeões) e se afeiçando a eles.

O ato da batalha si em faria cada um dos roteiristas de GOT querer se enterrar de vergonha. São 40 bandidos contra apenas sete samurais, mas  Kambei Shimada usa toda as possiblidades a seu favor. Quando um dos samurais pergunta porque ele deixou uma brecha por onde os bandidos poderiam entrar, ele responde que toda boa fortaleza tem um ponto fraco que funciona como isca para os atacantes. Usando da estratégia, eles vão eliminando os bandidos um a um.

Bom desenvolvimento de personagens, ótimas cenas de ação, uma trama realmente envolvente somam-se ao apuro estético de Kurossawa, de modo que cada frame tem uma composição perfeita, como se fossse um quadro.

Os sete samurais é, provavelmente, um dos filmes mais adaptados de todos os tempos. A primeira adaptação foi o faroeste Sete homens e um destino, dirigido por John Sturges e lançado em 1960, mas há uma infinidade de outros, incluindo a animação Vida de Inseto.

Perry Rhodan – O planeta louco

 



O planeta louco, volume 37 da série Perry Rhodan, é um daqueles títulos bizarros que acabam fazendo sentido conforme avançamos na leitura. 

Na história os saltadores enviam os superpesados para recuperar uma gigantesca nave que está sendo construída no planeta Goszul. No número anterior, os mutantes haviam convencido os comerciantes estelares de que o planeta havia sido dominado por uma epidemia que provocava perca de memória. Os mesmos fogem desesperados com medo de serem infectados, mas decidem que não é possível deixar para traz a mais poderosa nave já construída por sua raça.

O planeta louco trata dos eventos ocorridos a partir da chegada dos superpesados. Ao invés de enfrentar os mesmos, Perry Rhodan resolve engendrar um plano para fazê-los abandonar o planeta sem completar a missão. A ideia é simular que todos que ficaram no planeta enlouqueceram em decorrência da pandemia, inclusive os robôs. Um dos grandes momentos do volume é quando um grupo de habitantes locais avança na direção dos superpesados ignorando completamente a ameaça e começam a dançar em volta da nave. Ou quando os robôs dos superpesados são destruídos pelos robôs que estavam no planeta.



A capa original alemã destacava o encontro do Sargento Harnahan com a esfera. 


Embora a trama seja bem bolada – e revele criatividade ao resolver a situação sem o uso da força, há situações forçadas, verdadeiros deus ex machinas. Por exemplo: antes da chegada dos supersoldados, Gucky e os mutantes precisam se apoderar da nave e do estaleiro no qual ela está sendo construída. Mas o local está sendo defendido por uma centena de robôs fortemente armados com ordem de atirar em qualquer pessoa que se aproximar. Como tomar o local  sem destruir os robôs? Como um  mágico, o escritor Clark Darlton tira do chapéu um “radiador de impulsos de reprogramação”, algo que nunca havia sido mencionado na série até então.

Mas esse problema acaba passando batido em decorrência do texto fluente de Darlton. A sequência em que Gucky se faz passar por um coelho para espionar o estaleiro é particularmente divertida.

O livro traz também uma misteriosa e interessante sequência com o Sargento Harnahan, que, enviado ao espaço para espionar as naves dos superpesados, acaba conhecendo uma inteligência alienígena. O sargento pousa sua nave numa lua e, movido pela curiosidade, resolve investigar o local. É quando encontra uma montanha que parece ter sido construída por mãos inteligentes. Na montanha uma porta, com uma chapa de metal. “Na soleira da porta havia uma esfera que brilhava em todas as cores do arco-íris. – Seja bem-vindo, Harnahan. Esperei muito por você”. O texto, bem escrito, mantém o mistério e deixa a entender que aquela descoberta será muito importante no futuro. Essa sequência é tão importante que foi destacada na capa da edição alemã - a capa da edição americana, reproduzida pela Ediouro não destacava nada, era apenas uma imagem genérica de FC.