sexta-feira, maio 15, 2026

Fundo do baú - Papai sabe nada

 



Quem acha que Simpsons foi a primeira série animada voltada para o público adulto, deveria conhecer Papai sabe nada (em inglês: Wait Till Your Father Gets Home). Produzido pela Hanna-Barbera e levado ao ar nos EUA de 1972 a 1974, o programa satirizava a sociedade da época incluindo forte crítica social.

O protagonista da série é Harry Boyle, um homem de meia-idade, calvo, trabalhador de um atacadista de suprimentos para restaurantes. A maioria das histórias girava em torno do conflito de gerações com os filhos Chet e Jamie, dois adolescentes. Em episódio, por exemplo, Harry ganha será contemplado com uma honraria em uma grande festa, mas o filho compra para a festa uma roupa extremamente colorida, bem ao estilo hippie da época. Já a filha compra um vestido com a parte de cima transparente. “Assim todos vão ver o seu sutiã, querida!”, surpreende-se o pai. “Quem disse que eu vou usar sutião?”, responde ela.

Se por um lado Harry está em constante conflito com a geração hippie, por outro lado, ele tem que aturar o vizinho de extrema direita Ralph Kane, que acha que todos são comunistas. Em um episódio eles passam na frente de um museu de artes onde está sendo exibido o Davi, de Michelangelo. Um protesto, organizado por Kane, traz cartazes do tipo: “Mantenha a América limpa!”; “Condenação à sujeira!”; “Diga não à pornografia!”. Sequências como essa mostram como o seriado, apesar de ter sido feito no início da década de 1970, ainda é muito atual.

Exibido no horário nobre, Papai sabe nada teve três temporadas, com um total de 48 episódios. Foi o primeiro desenho animado exibido no horário nobre a ter mais de uma temporada desde Os Flintstones.

Uma curiosidade é que o título nacional é uma referência a uma série humorística criada por Renato Corte Real e exibido na década de 1960 pela TV Record, com grande sucesso. A série brasileira, por outro lado, era uma referência satírica ao seriado americano Papai sabe tudo.

quinta-feira, maio 14, 2026

Os inumanos

 



 Os Inumamos, como muitas outras coisas na Marvel, surgiram sem planejamento.
Em Fantastic Four 36 o Quarteto enfrentava um grupo de vilões composto por três personagens já conhecidos, Mago, Homem-areia e Pete Pote de Pasta e uma novata com longos cabelos vermelhos que podia movimentar à vontade: a Medusa.
A dupla Kirby Lee percebeu que havia potencial na personagem e resolveram lhe dar uma história: ela fazia parte de uma raça de seres super-desenvolvidos que viviam escondidos da humanidade, os Inumanos. O grupo estreou em Fantastic Four 45 e mostrava, além de Medusa, Dentinho, um cachorro buldogue capaz de teleportar a si e a outros, Gorgon, de cascos poderosos, capazes de produzir terremotos, Karnak, cujos golpes acertavam sempre o ponto fraco do oponente, Cristalys e o rei, Raio Negro, um ser angustiado, que lidera seu povo sem falar, pois uma única palavra pronunciada por ele pode provocar grande destruição. A família real também tinha sua ovelha negra, Máximus, sempre disposto a destronar Raio Negro.
Jack Kirby deu uma origem para os personagens. 


O grupo chamou a atenção dos fãs, que começaram a escrever para a editora pedindo histórias solo dos personagens. Stan Lee percebeu aí uma oportunidade, mas havia um problema: a editora na época estava atrelada a um contrato de distribuição que restringia o número de revistas nas bancas. A solução foi colocar histórias curtas dos Inumanos na revista do Thor.
As histórias foram escritas e desenhadas por Jack Kirby, que aproveitou para rechear as histórias de ficção científica, dando uma origem ao grupo: eles haviam sido fruto de manipulação genética por parte de uma raça extraterrestre, os Krees, por isso desenvolveram grande tecnologia, enquanto a humanidade ainda vivia em cavernas. A capacidade de Kirby, de contar histórias épicas em poucas páginas, associada a seu desenho expressivo fizeram dessa uma das séries mais interessantes da época.
As histórias tinham uma forte pegada de ficção científica. 



Pouco tempo depois, livre do acordo de distribuição que restringia as revistas, Lee criou uma nova publicação, Amazing Adventures, em que Os Inumanos dividiam páginas com a Viúva Negra. Kirby agora tinha mais páginas e podia explorar melhor a ação e narrar seus épicos. Quando o Rei saiu do título, foi substituído pela dupla Roy Thomas e Neal Adams. Adams já era uma estrela na época e aproveitou elementos visuais de Kirby, mas deu à série características próprias, inclusive uma preocupação social, em uma trama que envolvia a questão racial nos EUA. Thomas foi logo substituído por Gerry Conway, que manteve o nível do texto, em perfeita sintonia com o desenho.     
Neal Adms imprimiu seu próprio estilo ao título. 


   
Entretanto, a partir do número 9, Adams foi substituído por Mike Sekowsky. Para uma série que havia sido desenhada por Kirby e Adams era uma queda muito brusca e a revista não sobreviveu. Entretanto, os Inumanos continuaram fazendo parte da cronologia da Marvel e fazendo aparições ocasionais em outros títulos. Na década de 1980 eles voltaram a ter uma forte participação nas histórias do Quarteto, sob a batuta de John Byrne. No início dos anos 2000 eles ganharam uma aclamada série escrita por Paulo Jenkis e arte de Jae Lee.
Mais recentemente o grupo protagonizou uma série de oito episódios exibidos pelo canal ABC.

Mort Cinder, o homem das mil mortes

 

Hector Oesterheld é certamente um dos maiores escritores de quadrinhos de todos os tempos, rivalizando apenas como Alan Moore. Alberto Breccia é um dos mais revolucionários desenhistas de todos os tempos, tendo criado um estilo que influenciou diversos outros artistas, entre eles Frank Miller. A união desses dois grandes talentos só poderia resultar em uma obra-prima. E essa é a melhor expressão para descrever o álbum Mort Cinder, publicado recentemente pela editora Figura após uma campanha no Catarse.

Mort Cinder poderia ser descrito como a história de um homem imortal, mas essa é apenas uma simplificação grosseira. Mort Cinder é uma história de realismo fantástico, um suspense inigualável, uma obra com forte conteúdo político e histórico.
Quando a série começou a ser publicada na revista Misterix, Breccia pediu a Oesterheld que atrasasse  o surgimento do protagonista porque ainda não havia se decidido quanto à sua caracterização. Mestre absoluto da narrativa, Oesterheld transformou essa limitação em um dos maiores méritos da história. Assim, acompanhamos um antiquário, Ezra Winston, e diversos fatos estranhos que ocorrem com ele, fatos que irão se acumulando até o encontro com Mort Cinder, renascido após ser enforcado. Mas para presenciar esse renascimento – e ajudar o herói – Ezra precisará enfrentar os misteriosos olhos de chumbo. Isso introduz um senso de mistério único na história e faz desse senso de mistério o motor da narrativa. Também introduz uma espécie de realismo fantástico, que lembra muito Jorge Luís Borges.
Breccia era um mestre da experimentação. 


Soma-se isso ao texto poderoso de Oesterheld: “A estrada se faz trilha. Os retalhos de neblina se alongaram à minha passagem. Rãs coaxaram e era como avançar por um oceano morto, já decomposto. A sombra ao meu lado se mexeu”. Quantos roteiristas de quadrinhos chegaram a esse nível de refinamento do texto? Quantos conseguiram criar uma atmosfera tão opressiva apenas com algumas palavras?
Por outro lado, a arte de Breccia é tão impactante, tão inovadora em que cada quadro merece ser visto várias e várias vezes. Breccia não tem limites: usa borrões, cortes de gilette, parece não existir nada que ele não experimente para ajudar a criar o clima da HQ.


Então imagine uma HQ em que cada quadro é uma obra de arte a ser vista e deleitada. E no qual cada balão tem a força e o valor de uma poesia inteira. Esse é Mort Cinder.
O álbum tem 232 páginas, em formato em capa dura, formato A4. É uma publicação de luxo, cujo formato permite apreciar melhor a arte de Breccia. Há um inconveniente: como a publicação original da série, a revista Misterix, variou do formato horizontal para o vertical, a leitura de algumas páginas fica prejudicada, obrigando o leitor a virar o volume. Mas é compreensível: isso foi feito para evitar adulterar a arte original.

Os crimes do olho de boi

 


Marcos Rey foi um dos principais roteiristas das pornochanchadas brasileiras da década de 1970. Também foi um autor juvenil de sucesso, escrevendo principalmente histórias policiais. Ele mistura as duas coisas no romance Os crimes do olho de boi, publicado pela editora Global em 2010.
Na história, um detetive amador, sua governanta germânica, uma cantora de boate e um jornalista tentam desvendar um mistério: várias pessoas ricas, com um único herdeiro, morreram recentemente. A suspeita é de que elas foram assassinadas por uma quadrilha, que ficaria com parte da herança.
Rey é um mestre da criação de personagens, dos diálogos inspirados e da narrativa fluída, daquelas que tornam impossível largar um livro pela metade. Todas essas qualidades aparecem em Os crimes do olho de boi acrescidas de mais um deleite: o pendor único para retratar erotismo sem ser pornográfico, com um leve toque de humor.
O protagonista da história é Adão Flores, um empresário que agencia antigos artistas. Ele ficou famoso com um programa de TV chamado “Você é o detetive”, em que vários convidados eram desafiados a descobrir quem era o assassino de uma história policial. Adão participara uma vez e abocanhara o prêmio com tanta segurança e estilo na exposição que se tornou atração fixa, transformando-se em uma celebridade, ainda mais depois um amigo jornalista continuou contando suas peripécias, a maioria delas ficcionais, em sua coluna no jornal.
A história começa quando esse amigo jornalista desafia Adão a descobrir se há uma conexão entre os vários assassinatos de ricaços.
O resultado é um livro de 190 páginas que passam voando, deliciosas não só pela trama policial, mas pelo desfile de personagens secundários carismáticos:a  governanta germânica apaixonada pelo patrão, a contora Diana Bandida, com a qual Adão tem, todo ano, um encontro de dia inteiro em um hotel, no dia 23 de dezembro.
O resultado é como se lêssemos uma pornochanchada policial, e com maravilhosas sequências, como a seguir, de um momento íntimo do detetive com sua partner:
“Diana ergeu-se e sem trilha sonora de streaptease ficou de calcinha e sutiã.
- Acha que ainda estou em forma, Flores?
Saiu fumaça dos ouvidos e narinas de Adão, mas ela não percebeu. O visitante, embora sufocado, pôde pronunciar algumas palavras:
- Ainda está com muito pano, não dá para emitir uma opinião honesta”.

As capas de Perry Rhodan ao redor do mundo

  


Perry Rhodan é a mais extensa série de ficção científia literária de todos os tempos. Na Alemanha, onde surgiu, já foram publicados mais de 3 mil livros. Mas vários outros países publicaram ou ainda publicam a série, da Rússia ao Peru, da República Tcheca à Grécia. Um exercício interessante é observar as capas em cada país. Muitos usaram as ilustrações originais, de Johnny Buck. Outros países usaram as imagens das capas da edição norte-americana, realizados por Gray Morrows. Outros, como é o caso do Japão, fizeram capas totalmente originais, muitas das quais extremamente curiosas. 

Fiz uma seleção dos cinco primeiros livros da série publicados em diversos países. Como a série foi publicada em muitos locais, optei por colocar na seleção apenas aqueles que tiveram pelo menos cinco edições lançadas. 

Algo curioso é perceber que em muitos países os editores preferiram pular histórias, de modo que a ordem desses locais não é a mesma ordem alemã. O Brasil foi um dos poucos locais em que os livros foram publicados exatamente na mesma ordem germânica. 

Confira as capas.

Alemanha

As capas originais eram feitas  Johnny Buck, um artista que ilustrou capas de milhares de exemplares e cuja arte é cultuada pelos fãs alemãs. 



Estados Unidos 
O editor norte-americano preferiu encomendar capas originais para o artista Gray Morrow, que na maioria das vezes fazia imagens que não tinham relação nenhuma com a trama. 
O editor também mudou o formato, publicando Perry Rhodan com livro de bolso. Dá para perceber também que os editores pularam números. 







Brasil 
Os editores brasileiros usaram o formato e a diagramação da edição norte-americana, mas misturou capas americanas e alemães. 







Itália 
Os editores italianos usaram o mesmo formato e diagramação norte-americanos, mas não se contentaram em pular números. A ordem dos livros é totalmente aleatória. Os leitores não devem ter entendido nada. Não por acaso, a série só durou quatro números. 




República Tcheca
A República Tcheca foi um dos países que mais publicou Perry Rhodan. Foram mais de 2 mil exemplares! Eles usaram as ilustrações originais, mas deram um visual mais arrojado para a diagramação. 





Holanda 
O editor holandês preferiu encomendar ilustrações orignais e o resultado foi muito positivo. Infelizmente o impacto das imagens era prejudicado por um capa que privilegiava o título e o resumo da história. 







Grã Bretanha 
Sem dúvida, algumas das mais lindas capas são da edição inglesa, embora todas elas sejam imagens de naves e não tenham relação com as histórias (apenas nos volumes 16,17 e 32 apareciam pessoas). Mais uma vez temos um caso de editor que preferiu pular volumes. 






França 
A edição francesa usou imagens orignais. A diagramação era interessante, embora deixasse perdida toda a parte posterior. Mais uma vez temos um caso em que foram pulados volumes. 






Japão 
Certamente algumas das mais belas - e também das mais loucas - capas são da edição japonesa. Em uma das capas aparece até um jogador de futebol!