segunda-feira, outubro 25, 2021

Quais foram as decobertas da ciência nazista?

 


Até há pouco tempo, achava-se que as experiências nazistas em campos de concentração eram apenas demonstrações de sadismo, sem qualquer tipo de metodologia científica que tornasse os resultados válidos. No entanto, pesquisa recente, realizado pelo Instituto Max Planck, na Alemanha, mostra que os nazistas avançaram em diversas áreas.
As pesquisas sobre hipotermia (efeito do frio sobre o corpo humano), por exemplo, só puderam avançar graças à total falta de ética dos cientistas nazis. Eles colocavam prisioneiros em banheiras repletas de gelo para saber quanto tempo uma pessoa aguentava em frio extremo e o que melhorava a expectativa de vida, uma pesquisa importante em vista dos aviadores alemães que caiam nos mares gelados do norte da Europa. Eles descobriram, por exemplo, que protegendo o pescoço, aumentavam a chance de sobrevivência, razão pela qual os coletes salva-vidas a partir de então passaram a ter uma proteção para o pescoço.
Além disso, os nazistas fizeram pesquisas importantes, relacionando, estatisticamente, o cigarro com o câncer de pulmão.
Na área de anatomia, os alemães eram os únicos que tinham a possibilidade de dissecar pessoas vivas para ver como funcionava o organismo. Sigmund Rascher, responsável pelo campo de concentração de Dachau, dizia que era o único que de fato conhecia a fisiologia humana, pois “fazia experiências com homens, e não com ratos”.

A grande questão é se temos autorização ética para usar os resultados dessas pesquisas.  

A divulgação científica nos quadrinhos

 

Defendida em 1996, minha dissertação de mestrado A divulgação científica nos quadrinhos - análise do caso Watchmen foi um dos primeiros trabalhos acadêmicos a analisar a relação entre HQs e ciência no Brasil. Tornou-se referência obrigatória inclusive sobre uso de gibis em sala de aula. Para ler, clique aqui.

domingo, outubro 24, 2021

Cobra Kay

 

Lançado em 1984, Karatê Kid foi um fenômeno e renovou um gênero, trazendo um novo olhar para filmes de luta. Na história, um garoto, Daniel Larusso se muda para uma nova cidade e se torna vítima dos valentões locais. Para aprender a se defender, ele convence um mestre japonês, o senhor Miyagi, a ensiná-lo karatê. O método de Miyagi é totalmente não convencional, como por exemplo coloca-lo para polir o carro, o que introduzia humor na história. Além disso, o mestre constantemente trazia filosofia oriental para as suas lições e ensinava que o karatê só pode ser usado para se defender.

Era uma quebra com com o que se via até então. O protagonista era um perdedor. A violência era vista como algo negativo e era mostrada a filosofia por trás das artes marciais.

Mais de 30 anos depois, os personagens e atores originais voltam em uma nova história, o seriado Cobra Kay, da Netflix. E, surpreendentemente, o seriado acrescenta camadas a mais na mitologia, mostrando principalmente que nem tudo é preto e branco, bom e mau (o que, aliás, reflete a filosofia taoista).

Na história, o valentão Johnny Lawrence virou um fracassado bêbado, que não consegue parar no emprego e vive de empréstimos de seu padastro. Já Daniel Larusso tornou-se um rico revendedor de carros. Curiosamente, aqui será Lawrence que exercerá o papel de mestre (que no filme original era a função do senhor Miyagi) ao ensinar karatê para um rapaz que é vítima de bullying. A experiência faz com que ele retome o Cobra Kay, a academia dos valentões dos filmes.

Nessa linha de explorar as complexidades dos personagens, ocorre uma curiosa inversão: em alguns momentos, Lawrence parece um herói, enquanto Larusso age como vilão. No fundo, entratanto, os dois são bem-intencionados e pretendem usar o karatê para ajudar seus alunos, cada um a seu modo. Há um episódio em que cada um deles, Lawrence e Larusso estão ensinando seus pupilos, e os métodos são completamente diferentes, mas ambos conseguem os resultados desejados.

É interessante também ver a versão de Johnny sobre os fatos que são mostrados em Karatê Kid. Na sua visão, Daniel era o vilão.

Tudo isso entremeado com flash backs dos filmes da década de 80 entremeados com temas atuais, como o ciberbuyilling e um elenco que convence.

Cobra Kay é uma bela surpresa.

Fundo do baú - Superamigos

 


Na década de 1970 um desenho animado fez as crianças se apaixonarem pelos heróis da DC. Criado em parceria com a Hanna Barbera, a série, baseada na Liga da Justiça, se chamava Superamigos e teve oito temporadas de muito sucesso.
O seriado tinha design do grande artista Alex Toth, o mesmo de Johnny Quest, o que garantia um visual inesquecível.
Mas se o visual era muito bom, não se podia dizer o mesmo dos roteiros. Como sua especialidade era animações humorísticas, a Hanna Barbera colocou no seriado personagens cômicos. A primeira temporada tinha Wendy, Marvin e Marvel, o supercão, que se parecia muito com o Scooby Doo. A partir da segunda temporada eles foram substituídos por uma dupla de heróis, os supergêmeos Zan e Jayna. Jayna podia se transformar em qualquer animal e Zan podia transformar-se em água em seus diversos estados e até mesmo controlar água. Com esse poder ele poderia até criar maremotos, mas na grande maioria das vezes ele só se transformava mesmo em um balde de água. Posteriormente esses personagens foram incorporados à DC Comics.
Outros heróis que surgiram nesse seriado e também acabaram incorporados foram Samurai, Chefe Apache e Eldorado.
Os heróis da Liga usados inicialmente foram Superman, Mulher-Maravilha, Aquaman, Batman e Robin. Aliás, foi graças a esse seriado que o Aquaman ganhou a sua fama de ser pouco útil. O meme dele viajando em cima de dois golfinhos surgiu num dos desenhos.
Outro destaque era a Legião do Mal, um grupo de malfeitores que se reunia num pântano para elaborar planos de dominação mundial.
Mas, apesar dos pesares, a série era diversão garantida e foi para muitos o primeiro contato com os heróis da DC.

Capitão América – o Caveira Vermelha vive!

 

Stan Lee e Jack Kirby fizeram várias histórias curtas para as revistas mix de terror e monstros da Marvel (na época em que ela nem se chamava Marvel). Quando os super-heróis estouraram, eles trouxeram essa expertise para o gênero, produzindo histórias fechadas, que tinha o clima dos contos de fantasia e terror, mas, ao mesmo tempo, continuavam, perfazendo uma trama maior e mais complexa.

Exemplo disso é a história O caveira vermelha vive, publicada em Tales of suspense 79.

Uma das técnicas usadas nessas histórias curtas é apresentar uma situação inusitada, aparentemente incompreensível, que aguça a imagina do leitor e faz com que ele vá até o final para saber o que realmente está acontendo.

Na história em questão, o capitão está enfrentando homens uniformizados numa splash page grandiosa típica de Kirby, com o herói pulando sobre os vilões, que atiraram a esmo, sem conseguir acertá-lo. Mas nas páginas seguintes descobrimos que ninguém mais está vendo os vilões. Para o público que passa na rua, o capitão está lutando contra ele mesmo.

Chega um ponto em que o próprio herói começa a duvidar de sua sanidade – e procura um médico, que aconselha psicanálise, ao que ele retruca: “Mas a psicanálise pode levar meses! Não tenho tanto tempo!”.

Claro que, no final de tudo descobre-se que era tudo um plano do Caveira Vermelha para desacreditar o sentinela da liberdade – um plano que acaba naufragando graças à astúcia do capitão.

Era por esse tipo de história, repletas de ação e suspense, que o Capitão América se tornou um dos melhores personagens da Marvel. 

Guia do mochileiro das galáxias em Clássicos revisitados

 


Clássicos revisitados é uma série de álbuns de quadrinhos da editora Quadrinhópole em que os quadrinistas são desafiados a fazer uma HQ unindo duas obras distintas (na maioria das vezes com pouca relação entre elas).
O quarto volume foi dedicado a unir obras famosas de ficção científica com fatos históricos. Eu acabei fazendo duas histórias. Uma delas unia a extinção dos dinossauros com o livro O guia do mochileiro das galáxias.
Na minha história, dois garotos alienígenas acabam vindo parar numa Terra pré-histórica e, sem querer, provocam a extinção dos dinossauro. E qual a primeira coisa que dois garotos bolsonianos fazem diante de  algo assim? Claro, consultar o Guia para saber se a informação aparece lá.
Eu bolei a HQ como um verbete do Guia, de modo que os textos e até o título aparecem como texto do Guia (mostrado aqui como uma espécie de tablet).
Tempos depois o desenhista da história, Hugo Nanni entrou em contato comigo e me mandou a seguinte mensagem: “Antes de mais nada gostaria de te agradecer por um roteiro teu que tive a honra desenhar e que figurou numa das publicações Clássicos Revisitados. Quero dizer ao senhor que considero um dos meus melhores trabalhos e tenho grande carinho por ela. Grande parte desse apreço pelo resultado final dessa curta e divertida HQ vem da fluidez do roteiro. Sei que o senhor é um mestre, tem livro sobre o assunto e isso me deixa bastante feliz em ter participado desse trabalho e contribuído com sua carreira nessa parceria. Quero deixar aqui meu agradecimento de coração por ter me dado esse roteiro , que pra mim foi um grande presente”.
Em tempo: o álbum está disponível na Amazon
Fiquem com a história






Ópera de sabão, de Marcos Rey

 

Em 1954, após uma crise política gigantesca provocada por um atentado ao jornalista Carlos Lacerda, o presidente Getúlio Vargas suicidou-se. O ato provocou uma grande comoção nacional e fez reascender a chama do getulismo. Marcos Rey situa a ação de seu romance Ópera de Sabão, escrito em 1980, nos três dias após a morte do presidente.
A ação é centrada em uma família de origem italiana, os Manfredi. O pai, ao saber da morte de Getúlio, fecha a transportadora e sai armado de um revólver, disposto a matar Carlos Lacerda, mas na verdade, acaba se encontrando e vivendo dias idílicos e sexuais com uma professora de piano.
A situação mostra bem a ótica do livro: uma mistura de história do Brasil com dramalhão e comédia. Marcos Rey foi redator do rádio e coloca sua experiência no meio a serviço da história, a começar pelo título, Opera de sabão, uma referência direta às soap operas, melodramas radiofônicos quase sempre patrocinados por marcas de sabonete, daí o nome.
Os personagens são impagáveis. Hilda, a esposa, transforma-se na Madame Zohra, conselheira radiofônica cujo programa já foi uma das maiores audiências da agora decandente Rádio Ipiranga. Como Madame Zohra, Hilda é porta voz de uma rigorosa campanha contra o aborto, mas se vê em uma cinuca ética quando seu filho engravida uma menina e esta, sem saber, envia-lhe uma carta pedindo conselhos.
O filho mais velho chama-se Benito, homenagem a Mussoline de quando o pai era fascista. O mais novo, Lenini. “Quando Leinie nasceu, meu pai era comunista”, explica a outra filha do casal, Adriana, à certa altura da história. “E não é mais?” “Não, agora está nos transportes”. Uma sequência que exemplifica o humor afinado de Marcos Rey.
O autor, que foi roteirista de rádio, televisão e cinema, constrói sua mistura de melodrama com comédia de erros como se fosse um roteiro de rádio, a começar pela abertura:
SPEAKER1 – No ar...
SPEAKER2 – sob o alto patrocínio do sabão minerva...
SPEAKER1 - ... a Rádio Ipiranga, PRG-10, 2000 quilociclos, canal exclusivo, apresenta...
TÉCNICA – Sobe o prefixo (La vie em Rose). Cai em bg.
SPEAKER2 - ... sonhos de juventude!
SPEAKER1 – Radionovela de Marcos Rey
Isso soma ao livro mais um aspecto, o metalinguísticos. Há momentos, por exemplo, em que o autor comenta a história, descrevendo a estratégia utilizada pelo roteirista: “Ainda a perigosa criatividade do radioautor. Faça os personagens sofrerem, coloque-os em situações aparentemente sem saída e a audiência se multiplica”.
E como bom roteirista, Marcos Rey nos surpreende no final quando a história dá uma guinada, mudando completamente de tom: sai o humor, a crítica de costumes, a metalinguagem, e entra uma sequência emocionanente e arrebatadora acontecida dez anos depois, quando do golpe militar.

sábado, outubro 23, 2021

Iznogud, que queria ser califa no lugar do califa

 

Como escrever a mesma história várias vezes e mesmo assim não ser chato? Esse é o grande desafio e Iznogud, genial criação de Goscinny (criador de Asterix) com traço de Tabari. Iznogud (um trocadilho com a exprssão It´s no good - não é bom) é o grão vizir de um califado árabe e passa todas as histórias tentando se livrar do califa Harrum ahal Mofadah. 
A história é sempre a mesma: o protagonista tentando se tonar califa e sempre se dando muito mal no final, geralmente sendo vítimas das próprias armadilhas. O leitor sabe disso desde o início e é inclusive informado pelo ajudante do grão-vizir Omar Vadinho. O curioso é descobrir como isso irá acontecer, como um plano teoricamente perfeito acabará sendo um fracasso por pura incopetência ou azar.
Se, por exemplo, Iznogud monta um labirinto para colocar ali o Califa, todo mundo (inclusive ele) acabará entrando no labirinto, menos o Califa. Se ele descobre uma maneira de tornar o Califa invisível, todos à sua volta ficarão invisíveis, menos o Califa. Mesmo que nunca tivesse escrito Asterix, Goscinny já seria um dos maiores roteiristas de todos os tempos, apenas por sua atuação em Iznogud. 
No Brasil foram publicados 8 álbuns pela editora Record: 
O grão-vizir Iznogud
Os complôes do grão-vizir Iznogud
As férias de Iznogud
Iznogud o infame
Iznogud vai pro espaço
O computador das arábias
Primeiro de abril em Bagdá
Uma cenoura para Iznogud

Livro para baixar: 2021 reúne alguns do melhores autores de ficção científica do Brasil

 


A partir de sete ilustrações de Edgar Franco, sete contos de ficção científica de Edgar Smaniotto, Fábio Fernandes, Fabio Shiva, Gazy Andraus, Gian Danton, Nelson de Oliveira e Octavio Aragão. Os contos têm no máximo 2021 palavras, como referência ao ano de 2021, que para Edgar representa o tempo de um admirável ou abominável mundo novo, em que o velho "normal" segue incólume, em aceleração absoluta tornando-se HIPERNORMAL.

O livro está sendo disponibilizado gratuitamente. 

Para baixar o livro, clique aqui.  

A república do Cunani

 


A região amazônica tem uma rica história, muitas vezes desconhecida da própria população local. Exemplo disso é uma república independente surgida no estado do Amapá cuja história é contada no livro “Os selos postais da República do Cunani”, de autoria do alemão Wolfgang Baldus, recentemente lançado pelo Senado Federal.
No segunda metade do século XIX a região entre os rios Araguari e Oiapoque era uma terra de ninguém. A região também chamda de contestado, era reinvindicada tanto pela França quanto pelo Brasil, mas ninguém se animava a gastar pólvora para conquistá-la. A solução foi declarar o local uma região neutra até que se encontrasse uma solução definitiva para o ligítio. Era uma terra de ninguém.
Em 1880 um aventureiro francês, Ferréol Guigues, um suíço, Paul Quartier e dois norte-americanos descobriram ouro na região. Após a morte dos americanos, os dois resolveram criar uma empresa para explorar o ouro.  Guigues foi a Paris em busca de investidores e conheceu Jules Gross, escritor, jornalista e membro da sociedade geográfica. Gros ajudaria os aventureiros a conseguirem dinheiro.
Em algum momento surgiu a ideia de transformar a região em uma república independente como forma de atrair ainda mais os investidores.
O local escolhido para a sede do novo país foi a região do Cunani (a forma como os índios locais chamavam o peixe tucunaré). O localidade consistia em 30 cabanas e 200 almas.
Nessa época a região era dominada por capitanias, cada uma chefiada por um capitão.
O capitão do Cunani era Trajano Supriano Benítez, um ex-escravo que viera de Belém ao ouvir boatos de que havia ouro na região. Ele escolhera o local porque a região era essencialmente habitada por negros e, como eles, queria que a região fosse governada pela França, já que naquele país a escravidão havia sido abolida.
No ano de 1887, Ferréol Guigues e Paul Quartier chegaram ao Cunani com armas e alguns barris de run.
Sentados em um cabaré, eles convidavam todos que passavam a beber com eles. A única condição era assinar um documento. Esse documento era a declaração de independência da região do Cunani. Sessenta pessoas assinaram, o que dá uma boa ideia da quantidade de run oferecida pelos aventureiros.
O documento dava a presidência do novo país para Jules Gross e nomeava um ministério – todo composto por europeus, a maioria dos quais nunca nem soube da honraria, a exemplo do Ministro da Educação Pública e da Cultura, um negociante de selos de Bruxelas.
Qual a primeira coisa que um governante de um novo país faz? Selos, claro! Pode parecer surreal, mas os selos eram uma forma de legitimar um país: se ele tinha selos, tinha Correios e naquela época isso era sinônimo de civilização. Além disso, se o selo era usado em cartas internacionais, significava que outros países reconheciam a existência da república.
Mas esses primeiros selos eram tão primários que pareciam ter sido feitos por uma criança de cinco anos. Além da imagem simples (uma estrela), trazia o preço invertido – o que faz acreditar que quem imprimiu não tinha muita noção do processo de impressão, já que letras e números devem estar invertidos na matriz para ficarem corretos no impresso, o que não aconteceu.  
O trio também cunhou moedas e criou uma bandeira (toda verde com as cores da França num quadrado no canto superior esquerdo). Eles passeava por Paris como se fossem autoridades estrangeiras e a auto-propaganda era tanta que acabou chamando a atenção das autoridades. A república fictícia teve até uma “guerra civil”, quando Guigues depôs Jules Gros do cargo e esse não aceitou a situação.
A coisa se arrastou por anos, teve outro presidente, outros ministros (alguns sabendo, outros não) até que as autoridades resolvessem acabar com a brincadeira. A essa altura, a anedota havia se tornado séria: já haviam sido recrutados 12 mil homens para invadir a região e garantir a existência do da República do Cunani.
Essa não foi a primeira vez que a região se tornou um país fictício. Em 1874 um tal de Prosper Chaton, ex-consul francês no Pará proclamou-se Presidente da República do Cunani. Essa primeira República do Cunani acabou por puro azar: Infelizmente Chaton era um jogador e acabou perdendo o seu país numa mesa de jogo de Caiena.  

A magia da Pixar

 

Com a morte de Steve Jobs, tem se falado muito do criador da Aple e idealizador de equipamentos que revolucionaram o dia-a-dia das pessoas, como o I-Phone e o I-pad. Poucos, no entanto, lembram que Jobs teve um papel fundamental na animação: afinal, a Pixar, empresa que revolucionou a área, era de sua propriedade. O livro A magia da Pixar, de David Price (editora Campus) ajuda a superar esse vácuo.


Os que se aventurarem na leitura, deverão ser firmes para superar os capítulos iniciais, técnicos, de maior interesse apenas para quem é da área. O livro se torna interessante exatamente com a entrada de Jobs na história.

Em meados da década de 1980, a Lucasfilm queria a todo custo vender a sua divisão de computação gráfica. O divórcio de George Lucas e sua esposa havia esvaziado os cofres da empresa e Lucas não via muito futuro na geração de imagens por computador. Os executivos acreditavam que o investimento na computação gráfica só poderia ser recuperado graças a um protótipo de um computador para um público restrito. O equipamento ainda não tinha nome. Alguém sugeriu Picture Maker, mas o nome que acabou emplacando era baseado no verbo espanhol pixer (criar imagens). No final, o equipamento se chamou Pixar Image Computer.

Alan Kay, o criador do mouse, lembrou-se de um possível comprador, um multimilionário de 32 anos chamado Steve Jobs. Jobs acabara de ser enxotado da Aple por um executivo que ele mesmo contratara. Ele saíra da empresa levando consigo cinco empregados para criar uma nova empresa, a Next.

Jobs interessou-se pela compra, mas achou o preço alto. Segundo ele, se a Pixar chegasse a 5 milhões, ele compraria. Nesse meio tempo, o setor de computação da Lucasfilm produziu uma cena do filme O enigma da pirâmide, produzido por Steve Spielberg no qual um cavaleiro sai de um vitral para aterrorizar um padre. Mas mesmo assim o setor dava prejuízo e no final a empresa aceitou vendê-la pelos cinco milhões oferecidos por Jobs.

Jobs não percebeu que estava comprando uma empresa de animação. Para ele, tratava-se de uma companhia de hardware: "Jobs desfrutava da reputação de leitor visionário dos mercados do consumidor, reputação conquistada inúmeras vezes. Entretanto, se ele tivesse o mesmo olhar clínico para ler os seres humanos, teria observado alguma coisa inquietante em relação aos homens que acabara de empregar. Ele deveria ter percebido que Catmull e Smith - diretor técnico executivo e vice-presidente, respectivamente, de sua nova empresa de hardware de computadores - não tinham qualquer interesse em hardware", escreve David Price.

Jobs era influenciado pela visão da contracultura de computadores segundo a qual os pequenos computadores poderiam ser instrumentos para a liberdade pessoal. Ele não se cansava de repetir que a Aple era o lugar para as pessoas que queriam mudar o mundo levando o poder para as pessoas através do acesso à informática. Ele estendeu essa visão à Pixar: segundo ele, a computação gráfica começaria na mão dos primeiros usuários, mas logo ganharia impulso em um grande mercado popular.

Quando falava do assunto, ele criava o que muitos chamaram de "campo de distorção da realidade de Jobs": o dom que ele tinha de fazer as pessoas ao seu redor acreditarem em qualquer coisa. Os empregados da Pixar tinham de ser desprogramados após uma visita do dono, pois a capacidade de avaliação delas caia. Eles se sentavam diante dele e o olhavam para com amor nos olhos. Todos na Pixar sabiam que a renderização 3D ainda não estava pronta para os consumidores comuns - era um grande esforço até para os especialistas da Pixar - e nem se tinha certeza de que os consumidores realmente a queriam. Naquelas visitas, no entanto, os técnicos acreditavam no carismático e extremamente entusiasmado Steve Jobs.

Apesar do entusiasmo, Jobs perdia dinheiro a cada ano com a Pixar. Ele chegou a cogitar fechar o setor de animação da empresa (a desculpa para existir um setor de animação era que estas chamariam atenção para os hardwares da empresa). O Oscar para o curta-metragem Tin Toy (a história de um boneco homem-banda que se assustava com um bebê) salvou o departamento, que logo começou a fazer comerciais para tentar gerar alguma receita.

Pouco depois surgiu a proposta da Disney para realizar um longa-metragem. A primeira sinopse tinha como protagonista o homem-banda de Tin Toy. A ideia básica do que viria a ser Toy Story já estava lá: a coisa mais importante para um brinquedo é a companhia de uma criança para brincar. Mas nesse primeiro tratamento, o brinquedo era esquecido num posto de gasolina, encontrava um boneco de ventríloquo e iam parar numa sala de jardim de infância, onde encontram o paraíso e seu final feliz.

Faltava muita coisa. Os dois personagens principais queriam as mesmas coisas, pelos mesmos motivos. Katzenberg, produtor da Disney, sugeriu que o filme seguisse a linha de "48 horas" e "Acorrentados", filmes em que homens unidos pelas circunstâncias e forçados a cooperar acabam se tornando amigos após uma hostilidade inicial.

Com o tempo, os personagens foram tomando suas formas definitivas. Surgiram Woody e Buzz e uma amostra foi exibida para os executivos da Disney, no que foi chamada de sexta-feira negra. A Disney exigiu que a produção parasse até que fosse feito um novo roteiro.

O principal problema estava em Woody, que era uma espécie de tirano dos brinquedos. Numa cena ele sacudia o cão de mola: "Se não fosse por mim, Andy não prestaria a mínima atenção em você!". Em outra cena, ele jogava intencionalmente Buzz pela janela, fechava a cortina e comentava: "Ei, é um mundo de brinquedo comendo brinquedo". Era um personagem antipático, muito longe do líder sábio que apareceria no filme.

Apesar do roteiro estar se ajustando, a produção não era garantida. A Disney alocou um orçamento muito modesto (17 milhões de dólares) e até Jobs achava que iria perder dinheiro com Toy Story. Ele já desperdiçara 50 milhões de dólares com a empresa e concluiu que o melhor era tentar vender. Quando o negócio já estava quase fechado com a Microsoft, ele mudou radicalmente de ideia e resolveu bancar o prejuízo.

As principais fabricantes de brinquedos não se interessaram por Woody e Buzz e o licenciamento ficou nas mãos da pequena Thinkway Toys.

O resultado todo mundo conhece: Toy Story foi um sucesso estrondoso. Jobs fez uma oferta pública de ações da Pixar pouco depois do lançamento do filme e, no final do processo, estava U$ 1,1 bilhão de dólares mais rico - segundo Price, o erro de arrendondamento nesse valor representava praticamente o total de ações da Aple pertencentes a Jobs quando ele deixou a empresa, dez anos antes.

O livro de David Price percorre esse tortuoso caminho do fiasco à fama, mostrando um amplo painel sobre a Pixar. Embora os primeiros capítulos sejam árduos (e o livro não fale de filmes mais recentes, como Up), a partir de determinado ponto, o livro empolga principalmente por mostrar os bastidores de produções que todos aprendemos a amar.

A arte clássica de Hal Foster

 


Hall Foster foi um dos mais importantes desenhistas de quadrinhos da fase áurea das páginas dominicais dos jornais. Vindo da publicidade, começou sua carreira ilustrando a primeira adaptação para quadrinhos do personagem Tarzan. Seu traço elegante deu vida ao personagem, tornando-o extremamente popular. Mas sua paixão era a Idade Média, o que levou a criar o reverenciado Príncipe Valente. Seu desenho detalhista, que reproduzia com exatidão os trajes, arquitetura e costumes da Idade Média influenciaram centenas de artistas. Confira alguns dos trabalhos desse mestre dos quadrinhos.













Aconteceu naquela noite

 

Aconteceu Naquela noite foi o primeiro filme de grande sucesso de Frank Capra (ganhou 5 dos principais prêmios do Oscar), o diretor que seria símbolo da era pós-recessão com suas histórias de caráter otimista. Em Aconteceu... uma garota (Claudette Colbert), filha de um milionário, foge de seu pai e passa a ser procurada por todo o país. Numa viagem de ônibus ela conhece um jornalista (Clark Gable) desempregado que vê na fuga uma grande reportagem capaz de fazê-lo conseguir seu emprego de volta. Os dois viajam dias juntos, de ônibus, a pé, de carona, de carro, em situações que oscilam entre o lirismo e o humor. Como a censura era forte na época, o diretor e roteirista usa de metáforas visuais, como o cobertor, colocado entre as camas, chamado de Muralha de Jericó. Capra não é inovador nem no uso da câmera, nem na montagem, mas, assim como Billy Wilder tem uma característica essencial dos grandes narradores: usa as imagens para contar a história. Não há um único take desnecessário ou mesmo planos abertos. O foco é todo nos atores e na história. Com isso, o diretor consegue criar uma química entre a dupla que só existia na tela. Na verdade, Clark Gable havia sido emprestado à Colúmbia como punição por sua constante recusa de roteiros na MGM e Claudette Colbert havia sido igualmente emprestada pela Paramount por medida disciplinar. Dizem que os dois se odiavam e que a atriz simplesmente não queria fazer uma das cenas mais famosas do filme, aquela em que a mocinha mostra as pernas para conseguir uma carona. Colbert, sempre de má vontade, acabou se encaixando bem no papel da garota mimada. Aconteceu naquela noite pode não ter a mensagem espiritual de A felicidade não se compra ou o conteúdo crítico de A mulher faz o homem. Ainda assim, é uma ótima comédia de costumes com uma das melhores duplas do cinema. E, convenhamos, o título é muito bom.

Super-homem – a revolução John Byrne

 


Em 1986 a DC Comics tinha acabado de sair do mega-sucesso Crise nas infinitas terras e a ideia era reformular seus principais personagens. Frank miller fez Batman ano 1, George Perez ficou responsável pela Mulher Maravilha e John Byrne foi chamado para fazer uma versão totalmente nova do homem de aço.

Para marcar esse novo momento foi criada uma nova revista, The Man of stell.

Byrne mostra uma versão diferente de Kripton. 


Byrne diminuiu os poderes do personagem e recontou sua origem. Nada muito diferente do que conhecemos: Jor-El percebe que uma pressão no centro do planeta irá destruir Kripton. Ele envia seu único filho dentro de um foguete para ser criado na terra. A versão de Byrne para Kritpon é visualmente muito diferente do que até então se via nos quadrinhos e estava muito mais próxima dos filmes. Também apresenta alguns detalhes sobre a cultura local. Quando Jor-el mostra o local onde seu filho crescerá, a esposa fica horrorizada: “Ele está expondo sua pele ao vento e pisando em solo não processado!”.

Na comparação com a cultura antisséptica de Kritpon, a sequencia seguinte, com Clark Kent jogando futebol americano, é um contraste imenso.



O roteiro de Byrne é como seu desenhos: simples, mas eficiente. Não há grandes ousadias estéticas ou narrativas, só uma boa história de origem com direito a bifes (diálogos explicativos), como quando Jonathan Kent explica ao filho adotivo como ele foi achando e adotado pelo casal. 



A cena em que o super experimenta a roupa é ingênua, mas combina bem com o personagem: na versão de Byrne, a mãe adotiva faz a roupa do personagem e o pai lhe ensina a pentear o cabelo de forma diferente como forma de disfarçar. No final, a história fecha com uma tremenda splah page do personagem voando na direção do leitor no melhor estilo elegante que tornou Byrne célebre.



Hoje é difícil imaginar o impacto que essa história teve sobre os leitores e até sobre quem não era fã. Para se ter uma ideia, a versão de Byrne chegou a ser capa até da revista Time em 1988, época em que o personagem completava 50 anos.

No Brasil essa história foi publicada pela abril em clássicos DC 1 e na revista Super-homem 38.  

 

sexta-feira, outubro 22, 2021

Perry Rhodan - Encontro Online Comemorativo dos 60 Anos da Série

Desafiador - Retorno à eternidade

 


Em 1986 a DC lançou uma minissérie do personagem Desafiador (também conhecido no Brasil como Deadman) escrita por Andrew Helfer e ilustrada por José Luís Garcia-Lopez. Essa série foi merecidamente lançada aqui em edição de luxo pela Panini.
Esse é um daqueles casos em que uma HQ vale essencialmente pelos desenhos. Em 1986 Garcia-López estava na sua melhor forma e cada quadro, cada página dessa HQ é um quadro que um fã de quadrinhos poderia pendurar em sua parede – a começar pela linda capa.


Já o roteiro... o roteiro vai e volta e você não consegue entender muito bem onde se quer chegar. A maioria dos problemas é causado pelo próprio protagonista que, ou está fazendo bobagens ou está se deixando levar pelo destino e tendo pouca participação real na soluções. O personagem provoca a morte do próprio irmão e até a destruição da cidade sagrada mantida pela deusa Rama Kushna (é impressionante que ele não provoque também o fim do mundo!).

A memória vegetal

 

Antes de qualquer coisa, A memória vegetal (Record, 2010, 272 págs.), de Umberto Eco, é uma declaração de amor aos livros. O amor pelo objeto feito de papel percorre todas as quase 300 páginas do volume em textos que vão de definições a listas de livros raros, passando por contos fantásticos. 

Eco começa a obra definindo o título: no começo, existia uma memória orgânica. Essa memória era composta pelos velhos, que tinham o conhecimento da tribo e repassavam para as novas gerações: "Talvez, antes, eles não tivessem utilidade e fossem descartados, quando já não serviam para encontrar comida. Mas com a linguagem, os velhos se tornaram a memória da espécie: sentavam-se na caverna, ao redor do fogo e contavam o que havia acontecido antes de os jovens nascerem. Antes de começar a cultivar essa memória social, o homem nascia sem experiência, não tinha tempo de fazê-lo e morria. Depois, um jovem de vinte anos era como se tivesse vivido cinco mil". 

Com a invenção da escrita, surgiu uma memória mineral. O conhecimento era registrado em tabuinhas de argila ou esculpido na pedra. Era uma memória que incluía também a questão arquitetônica, já que grande parte do conhecimento era registrado em monumentos. 

Com o tempo, surgiu uma memória vegetal, com o papiro e o papel. Entre outras revoluções, o livro criou uma memória individual, que é uma versão pessoal das coisas - e a leitura se tornou um diálogo com alguém que não está diante de nós e que, muitas vezes, está morto. O livro aumentou a memória do homem em séculos, milênios. Segundo Eco, o analfabeto vive apenas uma vida, ao passo que o leitor vive diversas vidas. 

Um dos maiores méritos dos livros foi nos ensinar a duvidar dos próprios livros, pois eles contradizem-se entre si e aprendemos que são apenas versões de fatos, e não uma verdade universal. A interpretação ingênua (está publicado, é verdade) é típica de quem não está acostumado a ler. 

Aprender a identificar as boas obras é um mérito dessa leitura crítica. Se antigamente o problema era encontrar livros, hoje é selecionar os bons entre os milhares que são lançados anualmente. Nessa monstruosidade de informação, o leitor muitas vezes se sente perdido. Para Eco, o processo de escolha é como aquele do namoro. Devemos nos perguntar se o livro que estamos prestes a tomar nas mãos é daqueles que jogaríamos fora depois de lidos. Jogar fora um livro depois de lê-lo é como não desejar rever a pessoa com a qual passamos a noite. 

Assim, para um verdadeiro leitor, a relação com o livro deve ser sempre de amor. Cada nova leitura deve ser como cada nova vez em que o apaixonado reencontra a amada. 

A memória do livro é a memória da humanidade e até mesmo livros maus, como Os protocolos dos Sábios de Sião, devem ser preservados, como forma de lembrar de um passado ignóbil. Lembrar que um dia um livro foi escrito para promover o racismo contra os judeus é evitar que o nazismo aconteça novamente. 

Segundo Eco, devemos salvar não só as baleias, as focas ou os ursos. Devemos salvar também os livros: "Temam aquele que destrói, censura, proíbe os livros: ele quer destruir ou censurar nossa memória (...) Começa-se sempre pelo livro, depois instalam-se as câmaras de gás". 

Como se vê, A memória vegetal é uma carta de amor de um apaixonado. Como tal, há coisas que só interessam a ele e ao objeto de sua paixão, como listas de livros. Mas há outros que interessam a todos, pela universalidade de sentimentos. Um dos capítulos mais interessantes é "Varia et curiosa" sobre livros curiosos. Eco cita, por exemplo, análises da loucura de Rousseau ou de Maomé, livros sobre transplantes de testículos de macacos para homens, sobre como a masturbação pode provocar cegueira, surdez e demência. Nesse mesmo capítulo são lembradas as obras que se tornariam sucesso de público e de crítica, mas que haviam sido recusados por editores ou detonados por alguns críticos. Moby Dick, por exemplo, foi recusado por um editor com a desculpa de que não funcionaria no mercado juvenil por ser longo e antiquado. A revolução dos bichos, de George Orwell foi recusado nos EUA com a desculpa de que livros com animais não vendiam. Sobre O diário de Anne Frank, um analista escreveu: "Essa jovem não parece ter uma percepção especial, ou seja, o sentimento de como se pode levar esse livro acima de um nível de simples curiosidade". Sobre Lolita, escreveram que o editor, ao invés de publicar o livro, deveria levar o autor a um psicanalista. O livro A máquina do tempo, clássico da ficção-científica de H. G. Wellsm, foi considerado "pouco interessante para o leitor comum e não suficientemente aprofundado para o leitor científico". A boa terra, de Pearl Buck foi recusado porque, supostamente, o público norte-americano não estava interessado em nada referente à China. Um analista considerou que John Le Carré e seu livro O espião que veio do frio não tinham futuro. 

Um crítico escreveu que, felizmente, o livro O morro dos ventos uivantes, de Emily Bronte, nunca seria popular. Outro escreveu que Walt Whitman tinha tanta relação com a arte quanto um porco com a matemática. 

O livro ainda contém deliciosos contos fantásticos, no estilo Jorge Luís Borges, como um sobre um mundo em que uma peste dominasse todos os livros de trapo (que são normalmente mais duradouros), o que coloca de cabeça para baixo o mercado livros raros. 

Em suma: A memória vegetal é leitura apaixonante para os que são apaixonados por esses objetos de papel. Ou para os que querem se apaixonar.