sábado, maio 16, 2026

Homem-Aranha – Desmascarado!

 

O número 65 do título The Amazing Spiderman apresenta uma das cenas de maior impacto e também uma das mais antológicas de toda a revista: o herói está caído no meio da rua, desmaiado, enquanto uma multidão furiosa se aproxima. “Tira a máscara dele!”, grita alguém. “Rápido, antes que ele acorde!”, diz outro. “Finalmente a gente vai saber quem ele é!”, arrisca outro.

Essa única página, com desenho maravilhoso de John Romita, sintetiza todo o suspense de uma das melhores fases do personagem.

Suspense: o herói será desmascarado? 


Será que a identidade secreta do herói será finalmente revelada? A resposta é não. O Capitão Stacy intervém, pois não quer arriscar uma violação dos direitos civis. Mesmo assim, o aracnídeo é preso e será na prisão que ele viverá a aventura deste volume. Quando acorda, na enfermaria, descobre que um grupo de detentos está armando uma fuga e para isso está usando o Capitão Stacy como refém.

O herói acorda na enfermaria da prisão, a tempo de impedir uma fuga. 


Poderia ser uma aventura menor do herói. Afinal, não temos nenhum dos super-vilões envolvidos. Mas o roteiro de Stan Lee consegue se manter atraente, criando situações de suspense. O desenho do Romitão, claro, ajuda muito a fazer com que essa história aparentemente pouco atraente se tornasse um clássico. 

Um estranho em uma terra estranha

 


A primeira coisa a se dizer sobre Um estranho numa terra estranha é que é impossível fazer uma resenha do mesmo sem contar boa parte da história (a não ser que seja um texto apenas com frases genéricas). Portanto, se você não gosta de spoiller, pare aqui mesmo.
Dito isso, vamos aos fatos. Heinlein era um escritor de livros juvenis de FC e pretendia escrever um livro adulto. A sugestão de tema veio de sua esposa Virginía: que tal uma versão ficção científica de Mogli, tendo, no lugar de um menino criado por lobos, um humano criado por seres extraterrestres? Heinlein percebeu que esse mote lhe permitiria avançar muito além de questões juvenis. Alguém criado em outro planeta teria uma visão de mundo completamente diferente dos terráqueos, o que lhe permitiria discutir muitos temas: filosofia, sexo, religião, tabus, comportamentos.
A história ganhou corpo quando o autor soube dos manuscritos coptas do século 2, com evangelhos da heresia gnóstica. Um dos principais autores da gnose era Valentino de Alexandria. Assim, o protagonista ganhou nome: Valentine Michael Smith (ele será normalmente chamado de Mike na maioria das vezes). O título, até então era o Herético.
Henlein levou mais de 10 anos para escrever sua obra e só resolveu lançá-la quando percebeu que a censura aos livros nos EUA havia afrouxado.
Quando publicado, o livro fez sucesso mediano, mas se tornou um best-seller quando foi redescoberto pelos hippies no final da década de 1960, tornando-se um dos principais livros do movimento.
O início do livro é tão divertido quanto uma dor de dente. A narrativa se concentra na fuga do hospital onde o garoto de marte estava incomunicável e nas tratativas com o governo no sentido e garantir sua segurança e liberdade. Em meio a essa trama de pseudo-espionagem e negociações, só o que salva é a figura de Jubal, um advogado-médico-escritor que adota o garoto de marte e negocia por ele. Jubal é uma das figuras mais carismáticas da literatura de ficção científica. Velho, ranzina, irônico, cínico, vive em uma casa cercado por lindas secretárias. Ele é o ponto filosófico da trama. Muito antes que o Homem de marte comece a colocar em dúvidas a filosofia, religião e tabus humanos, Jubal já o faz com sua lógica certeira e desconcertante.
Uma vez livre, Mike e a enfermeira que o salvou, Jill irão percorrer os EUA em um verdadeiro road movie. Mike, por exemplo, usa seus poderes de telecinésia para trabalhar em um circo como mágico, mas o número não faz sucesso porque, embora os truques sejam bons demais, ele não entende da psicologia humana. Isso o leva a devorar livros e se interessar por religiões.
Quando finalmente consegue grokar em plenitude, Mike monta sua própria igreja.
Abre parêteses
O livro introduziu diversas palavras “marcianas”, a mais famosa delas foi grokar, tão popular que chegou a ser dicionarizada.
Fecha parêteses
Um estranho em uma terra estranha é, portanto, a trajetória do personagem, tentando entender a humanidade, a si mesmo.
É uma obra mais focada em discutir questões filosóficas do que realmente contar uma trama (embora ela exista), com longas discussões entre os personagens sobre os mais variados aspectos da existência, em especial as religiões. Como o foco é este, há poucas descrições, ou mesmo trechos narrativos.
Vendo o que ocorreu na década de 1970, com o movimento hippie e seus gurus, é impressionante como o livro de Heinlein antecipou tudo – ou talvez tenha influenciado os acontecimentos. O livro ficou tão famoso entre os hippies, que era muito comum pessoas invadirem a casa de Heinlein querendo compartilhar água (para desgosto do autor, que nunca quis ser um guru).
Aqui vale mais uma discussão, sobre se a arte antecipa o futuro ou cria o futuro, que bem poderia estar presente no livro.
Em suma, não leia Um estranho em uma terra estranha esperando encontrar uma narrativa convencional, uma trama, ou mesmo uma mensagem. Este é, acima de tudo, um livro que sucita perguntas e questionamentos – e que nos deixa olhando para o nada após lê-lo.

Monstro do Pântano – balé de enxofre

 



Quando assumiu o título do Monstro do Pântano, Alan Moore levou o terror a um novo patamar. O horror agora se tornara realmente apavorante, visceral, perturbador. A saga balé de enxofre (publicada em The Saga of The Swamp Thing 29, 30 e 31) foi um dos marcos dessa nova visão do horror.

A sequência inicial é um dos melhores exemplos dessa nova abordagem. Vemos a casa de Abigail Cable, em planos fechados, roupas jogadas no chão, fósforos semi-queimados, vidros de perfume quebrados no chão. O texto diz: “Ela arrancou e rasgou a roupa toda do corpo. Roupa suja, tinha lhe tocado a pele. Não adiantou tentar queimá-las. As mãos apenas gastaram os fósforos. Na verdade, ela já estava levemente ensandecida. Era o cheiro. Ela não conseguia se livrar do cheiro. No banho, gastou tudo que havia de sabonete, xampu, perfume, aditivo, espumante... e nada de o cheiro sair”.

A sequência inaugural mostra o tipo de terror visceral inaugurado por Alan Moore. 



Quando o banho não resolveu, ela foi até a cozinha, pegou a escova de arame usada para esfregar batatas e começou a esfregar no corpo, numa tentativa vã de tirar o cheiro de insetos queimados. Vinte minutos depois ela desmaiou. Mas mesmo assim, ainda sentia o cheiro... em seus sonhos.

E nos deparamos com uma página dupla, de Abby encolhida em posição fetal, o rosto ensandecido, insetos ao seu redor e metade de seu corpo ocupado por uma sombra que reflete esqueletos, numa arte impressionante repleta de hachuras de John Totlebene Stephen Bissette. Mais à frente descobrimos que o cheiro vem do fato dela ter transado com seu tio, que tomara o corpo de seu marido, o que torna a situação ainda mais doentia. Os créditos são colocados logo abaixo do título “Amor e morte” e são entremeados de insetos. Imagens de Abigail em tormento, envolta por insetos emoldura a maioria das páginas desse primeiro capítulo da trama.  

A página dupla é impressionante. 



Quando lhe perguntaram qual o segredo para escrever histórias de terror, Moore respondeu: veja o que lhe provoca medo e use isso nas histórias. É o que vemos aqui. Moore utiliza arquétipos universais de horror, a começar pelos insetos. Mas vai além e flerta com o terror psicológico ao abordar o abuso sexual – ao longo da série ele abordaria mais de uma vez relações abusivas com resultados igualmente surpreendentes.

Então a história sai do pesadelo e vai para um flash back que parece um sonho. Matt, o marido de Abigail, comprou uma bela casa e arranjou um emprego. Quando visitam o novo quarto do casal, o texto avisa: “Foi aqui que o sonho tremelicou. Aqui se escondia a coisa ruim, aqui um acre cheiro de carne fumegante, de insetos subitamente penetrou nas narinas”.

Mas quando visitam o novo emprego (Rio negro recorporações) que o terror se insinua mais forte, já desde a fachada, com espectros sombrios observando da janela. Quando a porta se abre e Abby conhece os colegas do marido por um instante ela consegue vê-los como realmente são, cadáveres de psicopatas.

Moore usa psicopatas na história. 



Essa é, provavelmente, a primeira vez que um psicopata foi mostrada num quadrinho da DC Comics – e talvez a primeira vez em todo o mercado americano. Assassinos em séries já existiam antes. O Cavaleiro da Lua, por exemplo, enfrentara um que matava com uma foice. Mas era sempre psicóticos, loucos, pessoas fora de si ou atormentadas por algum trauma. Pessoas más, que vestem uma máscara de normalidade, mas matam por prazer, são uma primazia de Moore.

Psicopatas voltam a aparecer na história quando Moore, usando a técnica do mosaico, mostra como pessoas más em todos os locais das redondezas de repente se revelam e vão na direção do local onde está se passando a trama.

Alan Moore mostrando que o verdadeiro, o grande terror, era o ser humano e sua maldade.

Homem com H

 


Ney Matogrosso é um dos mais importantes cantores brasileiros. Sua atuação no grupo Secos e Molhados revolucionou as apresentações musicais no Brasil ao introduzir a performance e adereços teatrais nos shows. Essa rica trajetória é muito bem explorada no filme Homem com H, de Esmir Filho.

Algo que me chamou atenção foi a construção do roteiro, a partir da Jornada do herói, uma estrutura inusitada para esse tipo de filme, mas que aqui funciona muito bem.

Nós acompanhamos a jornada do garoto Ney, maltratado pelo pai desde criança e expulso de casa:  a descoberta de que sua voz é especial; sua entrada nos Secos e Molhados e as desavenças que levariam ao final do grupo;  o início de sua carreira solo, com um disco desastroso (único momento em que um trecho musical do filme nitidamente não funciona); a descoberta de um caminho que o tornaria popular, sua relação com Cazuza; o flagelo da AIDS; a reconciliação com o pai...

Está tudo ali: o herói sendo obrigado a embarcar em uma jornada, os perigos enfrentados, o encontro com o pai e finalmente a lição, resumida na dedicatória ao final: “Para Ney Matogrosso, que soube ser livre”.

Essa jornada é entremeada por ótimos clipes musicais, verdadeiramente empolgantes – até porque as músicas são ótimas. Como ponto negativo apenas o excesso de metáforas visuais, como a da cobra na sequência sobre a AIDS, que, pelo excesso, se tornam forçadas.

Uma curiosidade é que Ney Matogrosso relutou muito para gravar a música Homem com H, de Gonzaguinha. O poetinha o convenceu a gravar argumentando que só a sua interpretação daria uma camada diferenciada de significado e tornaria a música transgressora. No final, foi um sucesso tão grande que se tornou o título da cinebiografia do cantor.

A arte aterrorizante de Bernie Wrightson

 

Bernie Wrightson é um artista norte-americano mais conhecido por seu trabalho com terror. Foi co-criador do personagem Monstro do Pântano. Sua versão do clássico Frankstein também se tornou clássica. Seu estilo "sujo" (com arte-final detalhada) teve grande influência sobre outros artistas que trabalharam com o gênero. Confira abaixo alguns de seus desenhos.








Eu, robô

 


Quando era adolescente e começou a ler as revistas pulp fiction, Isaac Asimov se incomodava com o fato dos robôs serem mostrados na história quase invariavelmente de forma negativa – em geral tentando destruir a humanidade. Para tentar mudar esse quadro, ele mesmo começou a escrever suas histórias e enviar para as revistas. O resultado disso foi uma sequência célebre de contos que mudaram completamente o tema e introduziram as três leis da robótica, segundo as quais: 1) um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano seja ferido; 2) um robô deve obedecer as ordens de um ser humano, a não ser que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; 3) um robô deve proteger a sua própria existência, a não ser que isso  entre em conflito com a primeira ou a segunda lei.
Esses contos foram reunidos na antologia Eu, robô, recentemente republicada no Brasil na belíssima edição da Aleph.
O primeiro conto, Robbie, escrito quando o autor tinha 19 anos, é mais uma demonstração de como Isaac Asimov queria trabalhar os robôs: uma menina ganha um robô como babá e se apega tanto a ele que a mãe, preocupada, faz com que o marido devolva a máquina. Mas a menina não irá descansar enquanto não tiver seu amigo de volta. É terno e bem escrito, com um final interessante. Mas não chega nem perto do que o escritor viria fazer com o tema, em especial com relação às três leis.
O segundo conto, “Andando em círculos” já é Asimov em plena forma. Nele, dois pesquisadores, os imortais Powell e Donovan, estão tentando reativar uma velha base em Mercúrio e para isso, mandam um robô, Speed, pegar um mineral essencial para a reativação dos sistemas e, portanto, para a sobrevivência deles no planeta banhado por fortes raios solares. Mas speed, ao invés de pegar o mineral, passa a andar em círculos aparentemente sem razão nenhuma. Os dois devem descobrir o que provocou isso e, principalmente, usar as três leis da robótica para fazer com que ele saia desse círculo vicioso e eles possam salvar a base. É uma típica história asimoviana em que a solução para o problema está totalmente na lógica.
Powell e Donovan voltam “Razão”, o terceiro conto da coletânea. Nesse, eles estão em uma estação espacial responsável por captar energia solar e enviar para a Terra. Mas um novo tipo de robô, racional, é implantado para organizar o trabalho dos outros. E o robô começa a pensar e a duvidar de tenha sido criado por humanos. Para ele, o gerador é o mestre, uma vez que tudo e todos na estação parecem girar ao redor dele e, aparentemente, servi-lo. Asimov brinca com o assunto e usa o conto para criticar o ponto de vista de Descartes segundo o qual a razão é mais importante que os sentidos quando se trata de estabelecer o que é realidade. O  robô chega até mesmo a citar Descartes direta (“Eu existo porque penso”) ou indiretamente (como quando o robô diz que não vai perder seu tempo analisando o que ele considera ilusão de ótica, pois o que é mostrado vai contra a razão). No final, o robô chega até mesmo a estabelecer uma religião (“Não há nenhum mestre senão o mestre e QT-1 é seu profeta!”). Embora as três leis não sejam usadas para resolver o problema, é um divertido e típico conto asimoviano.
Em “É preciso pegar o coelho” Powell e Donovan estão de volta, agora para decifrar um problema com um robô minerador que comanda seis outros robôs em um processo de mineração. Ocorre que, sempre que um dos dois não está olhando, o robô líder parece enlouquecer e coloca todos os outros para marcharem.
Em  “Mentiroso”, um robô tem capacidade de ler os pensamentos dos humanos. É a primeira história com a psicóloga de robôs Susan Calvin, que será figura fundamental nas histórias seguintes.
Em “Um robozinho sumido”, robôs usados pelo governo foram criados sem a primeira lei completa (um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, deixar que ele seja ferido) porque os robôs sempre corriam para salvar os humanos expostos a radiação gama e isso destruía seus cérebros, mesmo que essa radiação com pouca exposição não provocasse danos ao ser humano. Um dos cientista diz a um desses robôs que ele suma e ele de fato some... entrando num local com 62 outros robôs idênticos. Resta agora à psicóloga descobrir entre eles quem é o o robô sumido.
Em “Evasão” uma empresa concorrente propõe um desafio: repassar os dados de uma nave espacial que já destruíram o computador deles. O que fazer: aceitar e correr o risco de perder também o computador da US Robôs?
Em “Evidência”, um candidato concorrente acusa o candidato a prefeito de ser um robô, numa época em que robôs são proibidos na terra. Como provar que ele é humano? Como provar que é um robô? Esse conto tem uma ótima fala de Suzan Calvin segundo a qual, se um humano seguisse as três leis da robótica, seria alguém muito bondoso – e, portanto, um ótimo político.
Finalmente, em “O conflito evitável”, os computadores que governam a economia mundial parecem estar com algum tipo de pane e agindo de forma estranha, levando, por exemplo, fábricas à falência. É o conto mais fraco do volume, mas ainda assim vale a leitura.
Para costurar todas essas histórias, Asimov inventa um repórter que está entrevistando a psicóloga Susan Calvin. Os contos seriam os relatos dela sobre acontecimentos relacionados à história dos robôs.  
No final é interessante perceber como o mundo imaginado por Asimov é muito diferente do mundo real que vivemos. Nas histórias, por exemplo, os robôs pululam, mas existem pouquíssimos computadores – e nenhum pessoal.

Marshal Law

 

Entre os vários artistas que passaram pea revista 2000 AD, dois dos mais anárquicos eram o roteirista Pat Mills e o desenhista Kevin O´Neill.
Em Marshal Law, publicado em 1987 pelo selo Epic da Marvel, os dois mostraram que podiam usar esse espírito para subverter o gênero super-heróis. E o que fizeram lembra muito a hoje famosa série The Boys, da Amazon. Muitos dos principais conceitos, como super-heróis drogados já estava ali.
Na história, um cientista descobre um meio de transformar fetos, dando-lhes poderes. O resultado disso é uma quantidade enorme de superes. Quando explode uma guerra na América do Sul, eles são enviados para ela, e muitos deles retornam completamente malucos.
Imagine veteranos do Vietnã com super-poderes. É por aí.
A coisa se torna ainda pior em São Francisco: um terremoto destrói boa parte da cidade e o local é tomado pelos super-seres, que vêem ali a chance de poderem exercer seus super-poderes para benefício próprio em uma terra sem lei. Para combatê-los surgem policiais especiais, com super-poderes, o mais famoso deles Marshal Law, um homem que se veste com roupas do universo sadomasoquista e que em sua identidade secreta, namora uma garota que considera que os super-heróis, em especial Marshal Law, são fascistas.
Pela sinopse acima dá para perceber o quanto a série virava o universo dos heróis de cabeça para baixo. Mas o quadrinho ia muito além, a começar pelo desenho nada convencional de Kevin O´Neill e as mensagens de fundo, as brincadeiras visuais incluídas por ele na história. Há de tudo: de aviões com Jesus desenhado na lataria a pichações contra pichações.
A série foi pioneira ao mostrar versões não-convencionais de super-heróis, caminho que seria seguido em The Boys e Invencível. 


Os exemplos de heróis mostram o quanto duas mentes criativas e dispostas a virar tudo do avesso poderiam ir. Há, por exemplo, Hitler Hernandez, descendente de criminosos nazistas, que se dedica a eliminar índios. Ou O Traidor, um índio branco que considera a traição uma virtude – quando tiveram contato com o evangelho, passaram a idolatrar Judas ao invés de Jesus. Ou O Bode expiatório, que tem dificuldade para sentir sensações e faz de tudo para sentir dor.
Tudo isso é entremeado com uma trama policial: um dos super-heróis está matando mulheres vestidas como a super-heroina Celeste. Marshal Law acredita que o responsável é Espírito Público, um dos primeiros e mais famosos heróis.
Marshal Law poderia ser apenas um quadrinho que subverte o gênero super-heróis. Mas Mills e O´Neil dominam bem a narrativa e fazem um quadrinho gostoso de ler, fluído, divertido pacas.
A história original foi publicada pela Abril em 1991 em uma minissérie em seis partes e uma edição especial. Este ano a Panini publicou um encadernando, juntando as duas histórias.

sexta-feira, maio 15, 2026

Demolidor – Guerreiros

 


No ano de 1986, Frank Miller estava de volta ao título do Demolidor, substituindo no roteiro o seu tutor Denny O´Neil.

O´Neil fora editor do Demolidor no início de carreira de Miller e convencera a Marvel na época e deixar o desenhista cuidar também dos roteiros. Fora ele também que ensinara ao novato a base da estrutura narrativa.

Os dois escreveram juntos o volume 226 do título, numa espécie de despedida de O´Neil de tributo ao mestre.

O Gladiador tem um bom motivo para voltar a roubar. 


Na história, o Gladiador, um ladrão regenerado, volta a roubar. Mas logo descobrimos que ele tem uma razão para isso: ladrões sequestraram Betsy, a assistente social pela qual o Gladiador é apaixonado, e ameaçam matá-la se ele não conseguir um milhão em jóias.

Enfurecido com o que acredita ser uma recaída, Matt Murdock se veste de Demolidor e percorre a cidade, disposto a dar uma lição no vilão. 

Alguns dos elementos básicos da fase seguinte, A queda de Matt Murdock já estavam ali, entrevistos nessa HQ, entre eles os transtornos psicológicos de Murdock. Mesmo quando o Gladiador nitidamente está pedindo ajuda, o Demolidor o ataca. Quando finalmente descobre o que está acontecendo, ele pensa: “Eu quase pergunto porque não me pediu ajuda... mas estremeço ao perceber que ele fez isso”.

Mazzucchelli consegue fazer com que até um diálogo fique visualmente interessante.


A sintonia entre mestre e discípulo é tão grande que fica difícil imaginar quem fez o que no roteiro (embora seja possível pensar que O´Neil tenha ficado com as partes mais reflexivas e Miller com as sequências de ação).

A arte ficou por conta de David Mazzucchelli e Denis Janke. Os dois têm traços parecidos, embora Janke tenha a tendência a deformar os personagens, especialmente na cena de ação, e Mazzucchelli seja mais contido e consiga tornar interessante até uma sequência de diálogos. Na fase seguinte da revista, Mazzucchelli, sob o roteiro genial de Miller, se revelaria um verdadeiro monstro do desenho.

Hipocondríacos

 


A moça irrompeu, esbaforida, pela porta, enquanto a enfermeira terminava de aplicar o soro.

    - Ei, não pode entrar agora!
    - Rafael, Rafael! Você está bem? Vim correndo quando soube que você estava doente.
    - Por favor, ainda não é o horário de visitas. Como a senhora conseguiu entrar? - perguntou a enfermeira, puxando a moça para fora.
    - Não, não me afaste do meu Rafael! Por favor, me diga: ele está bem?
    Nisso o doente se mexeu no leito, murmurando:
    - Beatriz? Você está aí?
    Foi o bastante. A mulher se desvencilhou dos braços da enfermeira e se jogou aos pés da cama.
    - Rafael, Rafael, você ainda está vivo?
    - Beatriz, você está aí? Eu não consigo vê-la...
    - Mas ele só está... - interveio a enfermeira.
    - Santo Deus, o que fizeram com o meu amado?! Você consegue me ouvir, querido?
    - Beatriz? É você mesmo? Agora que vou morrer, quero que saiba que te amo...
    - Oh, Rafael! Eu também te amo. Do fundo do meu coração...
    - Beatriz, por favor, me dê um último beijo.
    Houve um minuto de silêncio, ao fim do qual Beatriz pulou sobre ele, num último e ardoroso beijo de amor. A enfermeira tentou impedi-la, mas era impossível até mesmo saber quem era quem no meio dos aparelhos, seringas e tubos.
    - Querida, você sabe o quanto eu amo você. - garantiu ele, depois que se desgrudaram. Não chore por mim. Também quero que você arranje outro homem. Não perca sua juventude por mim...
    - Não, não me diga isso, meu amor, você vai sobreviver... E eu jamais terei outro homem...
    Ficaram em silêncio. Beatriz enxugava as lágrimas com um lenço.
    - Querida, agora que estou morrendo, acho que deveria saber de uma coisa. Lembra-se de Ana?
    - A Ana?
    - Sim, aquela estudava com você quando nos conhecemos...
    - Rafael, você não...
    - Eu tive um caso com ela.
    - Não, não acredito... não é possível!
    Ficou repetindo isso, balançando a cabeça em negativa, a enfermeira parada num canto, os olhos arregalados, sem saber o que fazer....
    - Beatriz... agora que estou morrendo, não faz mais sentido esconder meu caso com Maria...
    - A minha melhor amiga? Desgraçada!
    - Calma, foi coisa pequena: durou só dois anos...
    - Dois anos? Seu safado! Cretino!
    - Cretino, eu? Pensa que não sei do Paulo?
    Beatriz ficou estática.
    - Paulo?
    - Pensa que não sei? Tenho até fotos...
    - Seu cretino! - gritou a mulher e pulou no pescoço dele.
    - Gasp, gasp - fez o doente, envolvendo com as mãos o pescoço de Beatriz, que caiu no chão, sob ele.
    Rolaram pelo chão do hospital até perderem as forças e só então caíram nos braços um do outro, jurando:
    - Beatriz, eu te amo.
    - Também te amo, Rafael.
    A enfermeira ficou alguns instantes estarrecida, depois saiu do quarto, murmurando consigo:
    - Esses hipocondríacos... e era só uma infecção intestinal.

Amor com fetiche

 


Amor com fetiche, filme Hyeon-jin Park e estrelado pelos astros do K-pop Seohyun e Lee Jun-young trata do BDSM de forma leve, divertida e respeitosa.

A história é focada em dois personagens de nomes semelhantes, Jung Ji-woo e Jung Ji-hoo.

Ele é sub-gerente do departamento de relações públicas de uma empresa que trabalha com personagens infantis. Ela é funcionária desse mesmo departamento.

Um dia uma encomenda para ele é entregue para ela em decorrência dos nomes parecidos. Quando ela abre, descobre que se trata de uma coleira de BDSM, o que faz com que o rapaz entre em desespero. Num fórum da internet ele lê diversas histórias sobre pessoas que foram demitidas porque se descobriu sua preferência por BDSM. Mas ela não diz nada a ninguém. Ao contrário, ela começa a se interessar por esse mundo e a se apaixonar por Jung Ji-hoo na medida em que os dois jogam. Eles terão que lidar com seus sentimentos ao mesmo tempo em que lidam com os problemas da empresa e com o preconceito social contra a prática.

Apesar de falar de BDSM, ou talvez por isso mesmo, Amor com fetiche é um anti-50 tons e não só porque os papéis são invertidos (no filme ela é dominadora e ele submisso). Aqui não temos personagens idealizados, como um milionário tentando comprar uma submissa com presentes caros. Jung Ji-woo e Jung Ji-hoo parecem pessoas reais, com problemas reais.

O filme também evita explicações simplistas e estereotipadas para os personagens (à certa altura uma antiga namorada de Jung Ji-hoo indaga se ele foi abusado quando criança, numa óbvia crítica a essa visão).

Jung Ji-hoo é um homem inteligente, uma liderença, que exerce com eficiência seu cargo de vice-gerente, e os jogos BDSM são exatamente o momento de não estar no controle. Seu principal dilema é considerar-se um pervertido, principalmente por influência de uma ex-namorada. Já Jung Ji-woo precisa lidar com a paixão por seu parceiro ao mesmo tempo que se descobre dominadora e lida com um chefe machista.

Essa caracterização complexa e ao mesmo tempo “fofa” dos personagens ganha muito com as atuações Seohyun e Lee Jun-young.   

Amor com limites consegue mesclar os temas do preconceito, da auto-aceitação com cenas divertidas e leves, como quando a dominadora leva seu submisso para passear com a mão presa à dela por uma corrente. A cena da lanchonete é memorável por seu humor leve.

Acrescente a isso uma trama bem construída com vários ganchos (reparem na caneta de cenoura, que terá muita importância na história) e temos um filme que deve agradar mesmo quem não se interessa pelo tema. 

Monstro do Pântano – O Jardim das delícias terrenas

 



O número 53 da revista Swamp Thing represtou o auge da guerra do Monstro do Pântano contra Gothan City. Nos números anteriores, Abbe Cable havia sido presa, acusada de “crime contra a natureza” por ter um relacionamento com o Monstro do Pântano. Ela fugira para Gothan e foi é lá que o Monstro do Pântano a encontra, presa. Ao ver recusada sua exigência de que soltem sua namorada, ele decide usar suas habilidades contra a cidade.

A maravilhosa capa de John totleben já antecipava muito que viria no interior. Nela, um monstro do pântano gigante surge no meio da cidade e suas mãos em forma de raízes aproximam-se para agarrar Batman, que se equilibra sobre uma coluna.

Gothan é transformada num paraíso... ou num inferno?


A história começa com uma matéria jornalística sobre o que aconteceu com Gothan.

Uma rede vegetação impede que carros entrem ou saiam da cidade. Com a cidade toda transformada em um jardim, a ordem social é alterada. Alguns enveredam pelo crime, outros se entregam ao prazer idílico no meio da enorme quantidade de frutas.

Muitas pessoas começam uma peregrinação na direção de gothan em busca de respostas ou simplesmente fascinadas com a figura do Monstro do Pântano. Entre elas um hippie que já havia aparecido numa história que mostrava os poderes lisérgicos do tubérculo expelido pelo personagem. Também o rapaz da história do cara de fuça, que abandonara a esposa quando descobrira que ela passara a noite ao lado do mendigo radioativo.

Muitos comem os turbéculos e têm experiências alucinógenas. 


Claro que toda essa mudança não poderia ocorrer sem a intervenção de Batman, o defensor de Gothan, numa das melhores sequências de toda a série. Moore mexe completamente com todos os cânones da DC ao mostrar um cavaleiro das trevas cujos recursos parecem brincadeira diante de um personagem muito mais poderoso.

É Batman, aliás, que protagoniza um diálogo essencial ao falar com o prefeito e aconselhar a libertar Abbe Cable.

O Monstro do Pântano se transforma em objeto de culto. 


“Você não entende”, diz o prefeito. “Aquela mulher teve um relacionamento com uma criatura não-humana. Não podemos abrir exceções à lei”.

“Sem exceções, certo. Nesse caso, sugiro que vocês comecem a prender todos os outros seres não humanos que possam estar mantendo relações fora de suas espécies. Se querem levar isso até o fim, a condição de não-humano não se limita à criatura do pântano. Vejamos... vcoê precisam prender o Gavião negro, o Metamorfo... e a Estelar dos Titãs. A raça dela, creio, evoluiu dos gatos. Sem mencionar o Caçador de Marte e o Capitão Átomo... além de, obviamente, como se chama mesmo? Aquele que mora em Metrópolis”.

Batman conseguirá deter o Monstro do Pântano? 


A fala explicita a metáfora de Moore, que usou a história para refletir sobre como a sociedade julga relações não convencionais. Entretanto, os quadrinhos de super-heróis estão repletos de relações não convencionais, a exemplo do alienígena super-homem que se relaciona com a humana Lois Lane. E vale uma reflexão: como a pessoa que considera normal uma relação entre um alienígena e uma humana pode julgar outros tipos de relações?

A história, que supostamente teria um final feliz, acaba com um dos momentos mais dramáticos de toda a história do título.

Em tempo: o título da história, O jardim das delícias terrenas, é uma referência a uma pintura de tríptico de Hieronymus Bosch, um tríplico (uma imagem dividida em três), que apresenta em uma aba o céu no outro o inferno e no meio uma cena simbolizando os prazeres da carne, com os participantes desinibidos e sem culpa se entregando a atividades sexuais. As pessoas representadas no meio do tríplico estão entre o paraíso e o inferno.

O título da história acrescenta uma camada a mais de significado e permite diversas interpretações sobre a simbologia da roteiro escrito por Alan Moore. Sua história seria uma celebração do prazer idílico ou um alerta de como como esse prazer pode levar à perdição? Sem falar nas interpretações relacionadas ao próprio personagem, mas estas é impossível discutir sem dar um tremendo spoiller sobre o final da história.

Enfim, Alan Moore constrói uma história que parece simples, mas carregada de complexidades e simbologias.