sexta-feira, janeiro 22, 2021

O irlandês

 


O que eu mais li nas redes sociais foi gente dizendo que O irlandês, filme de Martin Scorsese produzido pela Netflix era chato. Trata-se de o filme mais longo do diretor de Taxi Driver. São três horas e meia.
E, surpreendentemente, ou, logicamente para quem conhece Scorsese, o filme é delicioso. O irlandês conta boa parte da história da máfia italiana e da história americana em uma narrativa fluída e acronológica que impressiona pelas atuações memoráveis e pelo uso eficiente do recurso digital que envelhece ou rejuvenece o rosto dos atores.
A história começa com Frank “O Irlandês” Sheeran (De Niro) num asilo, contando sua história. Esse monólogo serve de narrativa em off para o filme. Há quem diga que o off é uma muleta de roteiro, mas se bem usada, pode enriquecer a história. No caso, os comentários do irlandês ajudam a dar o tempero das cenas, além de ajudar a entender vários fatos, muitas vezes adiantando a narrativa. Em determinado trecho, por exemplo, um dos assassinos da máfia é visto entrando no prédio da Justiça Federal e, como ele não falou disso com ninguém, existe a suspeita de que ele foi lá fazer uma delação. Só que ele tinha ido responder a um inquérito e falara com alguém, que, no entanto esquecera de contar para os chefões. Todo esse contexto é narrado por Frank enquanto as cenas mostram o rapaz sendo morto.  
O que mais impressiona é como o filme costura toda a história do período, mostrando envolvimento da máfia com todo o resto: a política (tanto Kennedy quanto Nixon foram eleitos com dinheiro da máfia), o judiciário e os sindicatos. Kennedy, inclusive, foi eleito pela máfia com a promessa de que retomaria Cuba e as propriedades dos mafiosos na ilha – razão pela qual muitos acreditam que o fracasso da invasão da baia dos porcos foi a razão do assassinato do presidente.
Ao se envolver com roubo de uma carga de carne e se recusar a delatar os comparsas, Frank chama atenção dos chefes mafiosos. Afinal, ele é um veterano da II Guerra Mundial, acostumado a matar, e parece ser de confiança. Jack passa a pintar paredes (gíria da máfia para assassinato).
A história contada por Jack é entremeada por uma viagem feita por ele e um mafioso, cruzando os EUA e coletando dinheiro de proteção. Esse é um dos pontos mais interessantes do filme: vemos De Niro jovem, em meia idade e velho e todas as encarnação parecem totalmente verossímeis graças aos efeitos especiais digitais (uma das razões pelas quais o filme custou mais que Homem-aranha longe de casa). Mesmo em cenas de close o efeito não deforma o rosto dos atores ou compromete sua atuação.
De Niro por si só já carregaria o filme sozinho. Mas temos também Al Pacino como o sindicalista Jimmy Hoffa e todo um elenco irretocável.
O tempo do filme realmente é um problema, especialmente considerando-se que você irá assisti-lo em casa, onde há todo tipo de distração (ao contrário do cinema). Eu assisti em dois momentos, como se fosse uma série. Funcionou.

Os templários, de Pier Paul Read

 

Os templários protagonizaram um dos momentos mais interessantes da Idade Média. Criada no período das Cruzadas, a ordem dos templários formou um poder religioso, militar e econômico. Depois foram perseguidos pelos próprios cristãos que pretendiam representar. Perseguidos pelo rei Francês Filipe IV, os templários confessaram, sob tortura, blasfêmia, heresia e sodomia. Em 1312 o papa ClementeV extinguiu a ordem.
            De lá para cá, os templários passaram a fazer parte da imaginação do ocidente. Wagner mostrou-os com valorosos defensores do Santo Graal na ópera Parsifal. Walter Scott fez deles os vilões do romance Ivanhoé. Há quem acredite que os Templários ainda existem e engendram um plano para dominar o mundo. Esse é um dos pontos fundamentais da trama de O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco.
            Píer Paul Read pretende, em Os Templários, separar o mito da realidade e mostrar a verdadeira face dessa poderosa ordem medieval. Formado em história pela prestigiada universidade de Cambridge, Read volta ao tempos bíblicos e reconstitui a história, passando por todos os personagens e eventos que, de alguma forma, tiveram importância para as cruzadas.
            A obra inicia com a história de Jerusalém. Todos os mapas da Idade Média mostravam essa cidade como o centro do mundo. Não é para menos. Ela era a cidade sagrada para três religiões: o cristianismo, o judaísmo e o islamismo.
            No século XI, Jerusalém era o principal destino dos peregrinos cristãos. Para muitos, a peregrinação era uma espécie de martírio, que assegurava a salvação a quem fizesse o caminho para  a Terra Santa. Às vezes ela era imposta a algumas pessoas como penitência por pecados graves.
            A Igreja estimulava a peregrinação, vista como o clímax da vida espiritual do homem cristão.
            Mas a viagem era um empreendimento caro e perigoso. A forma mais rápida de chegar à cidade santa era ir pelo mar, de navio, mas havia o perigo dos piratas e dos naufrágios. Por terra, assim que o viajante chegasse penetrasse na Síria islâmica,  corria o risco de ser molestado e de ser obrigado a pagar onerosos pedágios.
            Os problemas enfrentados pelos peregrinos foram o principal motor da Primeira Cruzada. Mas o Papa Urbano II, ao fazer o apelo aos cristãos para que libertassem Jerusalém da influência dos mouros, tinha na mente outro objetivo: dar vazão ao excesso de energia da classe guerreira francesa.
            Na França do século XI a maioria das contendas era resolvida na espada. Eram comuns os ataques às colheitas e aos animais vizinhos.
            Ora, pensou o Papa, já que os Francos brigam tanto entre si, por que não coloca-los para pelejar contra um inimigo comum?
            A comunicação do Papa ao mundo cristão era a verdadeira convocação de uma guerra santa. Ele prometeu que aqueles que se empenhassem na causa com espírito de penitência teriam seus pecados perdoados e obteriam total remissão das penitências terrenas impostas pela igreja.
            O comunicado teve influência avassaladora. O homem da Idade Média vivia com medo real dos tormentos do inferno. Se o Papa oferecia a oportunidade de fugir do inferno matando islâmicos, isso era uma chance para não se perder.
            O resultado imediato foi completamente diferente do esperado pelo vaticano.
            Não foram os cavaleiros que primeiro atenderam ao pedido do Papa, e sim o populacho. Vários pregadores populares inflamaram os pobres e formaram um exército mal armado e sem disciplina que, sem mais nem menos, partiu para subjugar os sarracenos e libertar Jerusalém.
            Piers Paul Read conta que muitas esposas trancavam seus homens para que eles não fossem à cruzada, mas assim que eles ouviam o que estava sendo oferecidos, pulavam pela janela e tomavam a cruz.
            O resultado foi catastrófico. Sem saber exatamente o que faziam, os cruzados iam atacando comunidades judaicas que encontravam pela frente, embora os judeus não tivessem qualquer relação com os acontecimentos de Jerusalém. Pode parecer irracional, mas é um comportamento muito semelhante ao do americano que pega uma caminhonete e se choca contra uma mesquita acreditando que todo islâmico é responsável pelos ataques ao Word Trade Center.
            A cruzada de Pedro o Eremita teve fim em 21 de outubro de 1096 quando, sob ataque dos turcos, os cruzados foram derrotados e os sobreviventes transformados em escravos.
            Melhor sorte teve a cruzada seguinte, que tomou Jerusalém, mas ainda assim a vida dos peregrinos não era fácil. As estradas eram tomadas de salteadores. Para protege-los surgiu a ordem dos Pobres Soldados de Cristo, que mais tarde seria chamada de Os Templários.
            É a partir desse ponto que Read se estende mais. Ele conta a história da ordem, dos seus dias de glória à época da perseguição oficial.
            Em tempos de guerra santa e luta do ocidente contra o Islã, o livro “Os Templários” é essencial. Um livro para se ler e refletir como o homem não evoluiu. Mudam-se as armas, mas as guerras continuam igualmente irracionais.

A pedagogia dialógica

 


Paulo Freire é conhecido nacional e internacionalmente como um dos educadores mais importantes do século XX. Seu método tinha como objetivo não só alfabetizar o aluno, mas desenvolver nele a consciência crítica com relação ao mundo no qual ele estava inserido.
            Paulo Freire se destacar de outros autores anteriores a ele ao destacar a importância da sociedade e da cultura na educação.
Para Freire, o homem o mundo que o rodeia, encontram-se em uma relação permanente e o homem, transformando o mundo, se transforma a si próprio. A prática pedagógica não pode ser separada da realidade na qual está inserida. Um exemplo disso é a famosa frase “Vovô viu a uva”, usada por décadas em livros de alfabetização para crianças que muitas vezes nunca viram uma uva. Eu mesmo me lembro de livros didáticos em que falava de morango, algo que eu nunca tinha visto.
Essa importância de se conhecer o ambiente do aluno ficava claro no chamado “método Paulo Freire de alfabetização”.
Ao invés de alfabetizar utilizando palavras já delimitadas, o trabalho começava com um diálogo com a comunidade para obter dela palavras de uso corrente. Essas palavras, geralmente em número de sete (numa comunidade rural poderiam ser instrumentos de trabalho, como enxada), refletiam a realidade cultural e social na qual o aluno estava inserido. A partir dela eram feitas as discussões e suas sílabas eram divididas e reunidas em composições diferentes, para formar outras palavras.
            Em 1962 o método Paulo Freire conseguiu alfabetizar, no triângulo da miséria nordestino 300 trabalhadores em apenas seis semanas. O sucesso despertou a atenção do governo João Goulart, que pretendia utilizar o método em nível nacional, mas a iniciativa foi abortada pelo golpe militar, que perseguiu Paulo Freire, considerado um agitador comunista. Exilado no Chile e, posteriormente, na África, Freire continuou seu trabalho e tornou-se uma referência mundial na área de educação.
            Além de partir da realidade concreta do aluno, de suas relações sociais e culturais, Paulo Freire acreditava que a educação tinha objetivo formar um homem cada vez mais livre e dono de seu próprio destino. Para Freire, esse objetivo era dificultado pelas relações de opressão e pelo imperialismo cultural.
Nos países periféricos, o homem tornava-se aquilo que os autores da área de comunicação chamaram de massa. Alienado, ele era atraído pelo modo de vida da sociedade dominante e não se comprometia com o mundo real. Sua cultura era desvalorizada e considerada inferior com relação à dos dominadores (pude perceber de perto isso quando dava aulas de quadrinhos e via meus alunos ambientarem seus personagens em Nova York e chamarem seus protagonistas de John e Mary).
O próprio pensamento é alienado e massificador. O indivíduo, tornado massa, apenas repete como papagaio o que ouviu do dominador. A única forma de libertação vista era tornar-se ele também opressor. Assim, o oprimido admira e procura imitar a cultura do opressor.
            A educação tem como objetivo superar esse estado de coisas. A superação da  relação opressor-oprimido é a base do método.
Outro aspecto importante do método é que, nessa abordagem, a relação professor-aluno não é vertical, mas horizontal. Para Paulo Freire, o processo educacional só se realiza quando o educador se torna educando e o educando se torna educador. Por isso a teoria é chamada de dialógica: o aprendizado se estabelece através de um diálogo entre professor e aluno – uma quebra total com a educação tradicional, em que o estudante entrava mudo e saía calado.
Esse aspecto da teoria de Paulo Freire é diretamente influenciado pela cibernética, escola da comunicação segundo a qual uma comunicação saudável é aquela em que o receptor é capaz de estabelecer um feedback com o emissor, trocando de lugar com ele no papel de emissor. Como numa boa conversa.

quinta-feira, janeiro 21, 2021

Thor enfrenta o incrível Hulk

 


Uma das muitas estratégias de marketing de Stan Lee era criar histórias que instigavam ou simplesmente refletiam discussões entre os leitores.

E uma das grandes questões do universo marvelístico sempre foi: quem é mais forte, Thor ou o Hulk?

Stan Lee e Jack Kirby se propuseram a responder essa pergunta em Journey into Mystery 112.

O combate é antecipado já na capa, com uma imagem monumental do deus do trovão e o golias esmeralda em plena contenda.

A história começa com Thor sobrevoando Nova York e vendo dois grupos em acalorada discussão, cada ums segurando um cartaz com seu ídolo. Um diz: “Thor é mais forte que qualquer um!”. “Ah, é? Tira o martelo e sobra o que, palerma?”, replica outro. “Viva o Hulk!”, grita outro. “O Thor bate naquele coió com as mãos nas costas”, retruca outro. Parece até uma discussão na internet nos dias atuais, mas era um embate entre os fãs do Hulk e do Thor.

Stan Lee antecipando as discussões acaloradas da internet.


O deus do trovão, que pelo jeito não tinha nada melhor para fazer, desce junto aos dois grupos e resolve contar a vez em que ele se bateu contra o Hulk sem o uso de seu martelo, como forma de descobrir quem de fato era o mais forte.

Stan Lee aproveita uma aventura anterior, publicada em Vingadores 3, quando o grupo enfrenta Namor e o Hulk e resolve contar “os bastidores” do confronto, um momento em que Thor e Hulk lutaram um contra o outro. Aí, no meio da contenda, o deus do trovão implora para Odin tirar o poder de seu martelo porque quer medir forças com o golias esmeralda. Olha a ideia do indivíduo! O mundo ali, correndo risco e Thor resolve transformar a situação numa disputa de músculos.

A história conta os bastidores de uma aventura anterior.


Aliás, uma disputa de músculos é algo que Kirby sabia fazer muito bem. O seu Hulk é absolutamente monstruoso, uma massa de músculos com a cabeça deformada, em contraste com Thor, que apesar de músculoso, é esbelto.

Claro que, no final, dá empate. Os rapazes que estão ouvindo não aceitam o resultado. “Afinal, quem é mais forte?”, ao que o deus do trovão retruca: “Pode-se apenas advinhar a resposta... mas não tenho como provar. Consequentemente, nada direi, pois o deus do trovão não dispersa palavras ao vento de forma incauta”... e sai voando, como se não tivesse passado meia hora ali conversando à toa com nerds.

Algumas histórias desse período eram tão sem sem sentido que chegavam a ser geniais.  

Super-homem x Homem-aranha – o primeiro crossover Marvel vs. DC

 


Em 1975 um agente literário procurou a direção das duas maiores editoras de quadrinhos dos EUA com uma proposta que considerava um sucesso certo: um encontro entre os heróis mais populares de cada editora. O encontro levou a uma enorme negociação, que delimitava, entre outras coisas, que nenhum herói teria mais protagonismo que outro ou seria mostrado como vilão.
Para escrever a história, a DC escolheu o jovem Gerry Conway, que com apenas 23 anos já era uma estrela dos comics, com uma memorável passagem pela Marvel e na época trabalhando na DC. O desenho ficou por conta de Ross Andru com arte-final de Dick Giordano.
O resultado foi um dos momentos mais clássicos dos quadrinhos de super-heróis. É uma revista totalmente antológica, a começar pela capa, com os heróis prontos a se enfrentar em uma linda composição com a cidade em perspectiva abaixo. Uma capa tão icônica que foi depois imitada e homenageada dezenas de vezes.
Ross Andru se destacava pelas belas splash pages e páginas duplas. 


E o desenho interno é certamente espetacular. Ross Andru é um dos melhores desenhistas de heróis de todos os tempos – e esse certamente é seu melhor trabalho, especialmente nas splash pages. É um trabalho tão bom que quando chamaram Garcia-Lopez para fazer o outro crossover, do Hulk com o Batman, e mostraram o encontro anterior, o desenhista argentino duvidou que conseguiria fazer algo à altura (conseguiu).
O roteiro é competente, divertido e explora muito bem os personagens. Conway havia escrito ambos os heróis e conhecia bem suas características, personagens secundários, estilo das histórias. A trama é simples: dois vilões, Lex Luthor e Dr. Octopus, se unem para derrotar os seus respectivos heróis – e claro que a trama envolve fazer os dois lutarem entre si, o que proporciona os momentos visualmente mais impressionantes da HQ. Pena que no formatinho da Abril muito dessa arte se perca.

Xuxulu anda dormindo na aula

 

Link-se: a mídia mudando a arte

 


Marshall McLuhan dizia que a forma como o ser-humano se comunica molda a sociedade e até o seu o cérebro. E uma das áreas mais influenciadas pelas mudanças nas tecnologias de comunicação é a arte. Exemplo disso foi a invenção da fotografia, que transformou completamente os rumos da pintura, tendo como uma das consequências a criação do Impressionismo. Mais recentemente a invenção do computador, da internet e das redes sócias provocaram mudanças ainda maiores nas artes. É sobre esse fenômeno que Giselle Beiguelman se debruça em Link-se: arte/mídia/política/cibercultura (Peirópolis, 176 páginas).
Giselle Beiguelman é referência obrigatória quando o assunto é arte digital e on-line. Seu trabalho é referência em cursos de pós-graduação de universidades brasileiras, americanas e europeias. É autora dos premiados O livro depois do livro e Egoscópio e Paisagem. Desde 2001 cria projetos que utilizam dispositivos de comunicação móvel, como Poétrica e Esc for escape.
O livro reúne textos publicados em revistas, jornais e sites. Neles, a autora reflete sobre os mais diversos campos da arte e sua relação com a tecnologia.
Um dos autores mais interessantes é Eduardo Kac (http://www.ekac.org) , um artista especializado em bioarte. Um dos seus trabalhos mais famosos é “Gênesis”, exposto no Itaú Cultural no ano de 2000. Kac criou um gene sintético, chamado de gene artístico, com uma frase da Bíblia traduzida para código Morse e depois para código genético. A frase era: “Que o homem domine os peixes do mar e voo no ar e sobre todos os  seres que vivem na Terra”. O resultado foi uma bactéria fosforescente. Através da internet era possível aos expectadores  controlar a iluminação ultravioleta, causando modificações genéticas na bactéria.
Em “O oitavo dia”, uma colônia de  amebas fluorescentes vivem dentro de uma redoma de vidro, funcionando com o cérebro de um robô. A cada vez que as amebas se reproduziam, o robô se movia para cima e para baixo, ou para os lados. Os internautas também podiam interagir, modificando o ecossistema da obra.
Uma outra discussão interessante está relacionado ao fato de que a internet não é apenas um meio de comunicação, mas uma máquina de ler que transforma cada leitor em um editor em potencial. Assim, ela força o receptor a exercer com mais rigor sua faculdade mais exclusiva: a de intérprete. “A responsabilidade pelo conteúdo passa a ser fruto de seu crivo crítico, referendado pela solidez de sua formação cultural e não apenas calçado pela referência a um nome próprio, à logomarca de uma empresa ou o brasão de uma instituição”, escreve Giselle.
Um trabalho que se encaixa dentro dessa discussão é “Assina: do texto ao contexto”, de Cícero Inácio da Silva. Projeto de doutorado, usa a internet para discutir a autenticidade e autenticação, o nome próprio, assinatura, a legibilidade e o reconhecimento.
Cícero criou sites fakes com nomes pomposos, como Instituto Gilles Deleuze, repletos de citações dos autores homenageados. Os textos, no entanto, não fazem nenhum sentido. São gerados por um programa de computador em português e depois traduzidos para o espanhol por tradutores gratuitos na internet.
Os textos passaram a ser citados em dissertações de mestrado por pesquisadores brasileiros, que utilizam o texto em espanhol, convertendo-o para o português.
O projeto também mantém três periódicos internacionais, todos com registro de ISSN. Mas ISSN aqui significa Interstellar Synchronism Setup Noise. A mais famosa delas é “Plato on-line; Nothing, Science and Technology”, que só publica textos gerados por computador e não aceita contribuições a não ser que o autor concorde que seu texto seja modificado pelo algoritmo.
Quando alguém escreve para a revista submetendo um artigo, Cícero escreve em português e converte para o inglês usando um tradutor on-line. Apesar do resultado muitas vezes ser ininteligível, nenhum dos pesquisadores com os quais ele se correspondeu jamais reclamou.
Um ponto ainda mais esclarecedor foram os protestos e ameaças de processos por parte dos intelectuais cujo nome Cícero usa em seus sites. O editor de um dos mais respeitados periódicos sobre novas mídias, depois de “”entender” o projeto , autorizou o uso de seu nome por UM MÊS (em caixa alta), nenhum segundo mais .
Todos os sites trazem um rodapé explicando que se trata de um projeto de pesquisa e um experimento artístico, mas “as pessoas não leem as informações ou os detalhes. Ficam imersas nesse mundo cheio de textos e mais textos e somente se apropriam daquilo que ‘serve’ para elas em determinado momento. Não há mais pensamento ou reflexão sobre o dito”, diz Cícero.
Pelo jeito, nem mesmo nos meios acadêmicos há essa preocupação. Na exigência de se escrever e publicar textos e mais textos científicos, a leitura detalhada é deixada de lado. O que vale é citar muito e citar os autores certos, os autores da moda, como Deleuze.
Nesse sentido, o trabalho de Cícero se insere na mais verdadeira obra de arte: a que reflete sobre o mundo e, nesse sentido, sintetiza o tema de todo o livro de Giselle Beiguelman.
Como a obra é de 2005, ficam de fora vários trabalhos mais recentes dos artistas citados. Assim, vale a pena seguir os links indicados no final de cada capítulo para se inteirar sobre as obras mais recentes dos mesmos. Link-se, portanto, é uma obra que não se fecha no escrito, mas exige que o leitor interaja seguindo as indicações de sites e se atualizando sobre o que está no volume impresso.  

Livro Cabanagem em pré-venda com preço promocional

 


 

A editora AVEC já disponibilizou meu livro Cabanagem para pré-venda. O preço é promocional. Para comprar, clique aqui

Leia a sinopse da história: 

1836. A cabanagem foi derrotada em Belém e se espalhou pelos rios da Amazônia. Um pequeno grupo de índios, negros e mestiços liderada pelo misterioso Chico Patuá se dirige para o Amapá singrando os pequenos rios da região. No seu encalço, o governo regencial mandou soldados comandados por um psicopata assassino, Dom Rodrigo. Em meio a essa disputa, soma-se outra, quando os seres da floresta (Matinta, Jurupari, Cobra Norato, Mapinguari) resolvem tomar partido na contenda, alguns ficando a favor de Chico e outros se aliando a Dom Rodrigo. Cabanagem é um romance de fantasia histórica que mistura fatos reais com mitologia amazônica e terror no melhor estilo Gian Danton.

X-men: os filhos do átomo

 

No final dos anos 1970, uma série de quadrinhos mudou o mercado de super-heróis e, posteriormente, iria mudar a forma como Hollywood via os gibis. Trata-se de X-men.
Esse grupo de heróis foi criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1963 como uma espécie de Quarteto Fantástico adolescente, mas nunca fez muito sucesso. O gibi sempre foi deixado de lado e vivia constantemente de republicações. No início dos anos 1970, o revolucionário desenhista Neal Adams foi contratato pela Marvel para revitalizar os personagens numa série escrita por Roy Thomas. O novo gibi era bom e chegou a fazer algum sucesso, mas os executivos da Marvel não tiveram paciência de esperar e acabaram remanejando os autores para outros personagens.
Assim, os X-men ficaram à deriva, vivendo de republicações ou participações especiais em outras séries até 1975. Nessa época, a empresa dona da Marvel tinha também uma organização que licensiava quadrinhos para diversos países e surgiu a idéia de criar uma série que reunisse heróis dos países em que gibis Marvel eram mais populares. Roy Thomas sugeriu remodelar os X-men, com membros de várias etnias. Para isso, ele chamou o roteirista Len Wein e o desenhista Dave Cockrum, famoso pela facilidade de criar uniformes de personagens.
A idéia original não foi seguida à risca e a nova equipe veio com um herói russo (Colossus), uma africana (Tempestade),  um índio apache (Pássaro Trovejante),  um alemão (Noturno), um japonês (Solaris), um, escocês (Banshee). Um personagem canadense, que havia sido criado como coadjuvante nas histórias do Hulk, chamado Wolverine, foi reaproveitado na nova série, assim como dois personagens da série clássica: Cíclope e a Garota Marvel.
No livro A era de bronze dos super-heróis, Roberto Guedes conta que a criação do grupo partiu de um caderno de Cockrun, no qual ele desenhara várias idéias para uniformes de personagens. Ele e o roteirista misturaram uniformes, poderes, e chegaram a um grupo coeso.
A nova equipe estreou numa história em que eles eram chamados pelo professor Xavier para salvar o mundo de Krakoa, a ilha viva. Essa história fez tanto sucesso que a Marvel resolveu ressuscitar a revista. Mas Len Wein estava ocupado demais com outras séries, e passou a bola para seu assistente, Chris Claremont. Claremont tinha uma facilidade muito grande de trabalhar histórias com grupos grandes e acabou se apaixonando pelos X-men. Tanto que escreveu a revista dos mutantes durante 17 anos, sendo chamado de ¨O senhor X¨.
Com a nova equipe criativa, a revista foi ganhando popularidade, mas estava longe de figurar na relação das mais vendidas. Além disso, havia um problema: embora a revista tivesse apenas 17 páginas (o menor número de páginas que um gibi de super-heróis já teve), Cockrun não conseguia dar conta do serviço. Assim, foi chamado um outro artista, fã da série original, que já havia trabalhado com Claremont na série Punhos de Ferro: John Byrne.
Curiosamente, logo no início o traço de Byrne não agradou, tanto que os editores ainda colocaram Cockrun para fazer as capas. Mas logo ele se tornaria o preferido entre os fãs. Byrne, além de ótimo desenhista, era muito rápido e ajudava nos roteiros, colocando mais ação nas tramas e evitando a tendência de Claremont de transformar a série numa novela de diálogos intermináveis. Para fazer a arte-final foi chamado Terry Austin, dono de um traço muito detalhista, que ressaltava as melhores qualidades do desenho de Byrne. Estava formada a tríade que transformaria  os X-men não só na revista mais vendida do mercado norte-americano, mas também  numa das franquias mais bem sucedidas da indústria do entretenimento, com vários gibis e filmes.
Uma das primeiras mudanças provocadas pela entrada de Byrne na equipe foi a valorização do personagem canadense Wolverine. Como o desenhista também é canadense, ele acabou dando mais ênfase a ele. Na época, o baixinho era tão inexpressivo que a maioria dos leitores nem reparava nele. Com o tempo ele se tornaria o personagem mais popular da equipe.
Byrne chegou no final de uma saga em que a personagem Fênix praticamente salvava o universo sozinha. Essa aventura mostrava a personagem com tantos poderes que parecia impossível continuar fazendo histórias com ela. A solução encontrada durante algum tempo foi simplesmente afastá-la da equipe.
Logo na aventura seguinte, Byrne fez questão de colocar seu conterrâneo em evidência. Nessa história, o governo do Canadá enviava um super-herói local para levar Wolverine de volta para casa. A história chamou a atenção dos leitores para o passado nebuloso do baixinho. Esse seria um dos fatores de sua popularidade: a cada edição os leitores descobriam mais um detalhe sobre o passado desse personagem.
Os X-men viveram uma série de aventuras ao redor do mundo, passando pela Terra Selvagem, Japão e Canadá, para então voltar aos EUA. Aos poucos, os leitores foram percebendo que havia um novo padrão de qualidade sendo estabelecido ali, mas a série só se tornaria um sucesso mesmo com a saga de Protheus.

quarta-feira, janeiro 20, 2021

A arte fantástica de Carl Barks, o homem dos patos

 

Carl Barks foi o quadrinista que melhor sintetizou a magia dos quadrinhos Disney, além de ter sido responsável por criar praticamente toda a família Pato. Ao final da vida ele começou a pintar quadros com os personagens que o tornaram famoso entre os fãs. Confira algumas dessas imagens aqui.







Os bons tempos do capitalismo

 


No século XIX, auge da revolução industrial, os trabalhadores não tinha direito algum. Não havia folga remunerada, férias, 13º, aposentadoria. Crianças eram colocadas para trabalhar 12 horas seguidas em condições totalmente insalubres. Muitas se machucavam, perdiam um braço, uma mão. Eram simplesmente mandadas embora. No país mais rico do mundo, a Inglaterra, a população vivia na miséria absoluta, grande parte das mulheres tendo que se prostituir para conseguir comer. Essa situação de miséria da população no país mais mais industrializado do mundo é muito bem retratada no romance Oliver Twist, de Charles Dickens cuja cena mais pungente é a do menino sendo castigado porque pediu mais uma tigela de sopa.
Educação? Nem pensar. Não só não existia nenhum tipo de educação pública, como qualquer iniciativa de levar educação às camadas mais pobre era duramente combatida. Charles Dickens angariava doações para abrir escolas para crianças pobres e, por conta disso, virou alvo preferencial dos conservadores. Afinal, uma criança que estudava era um braço a menos nas fábricas. Além disso, pessoas com conhecimento eram consideradas mais propensas a se rebelarem contra as condições em que viviam.
Nessas condições, a revolta popular era inevitável. Era uma questão de sobrevivência das classes mais pobres.
Com a vitória da revolução russa, os países capitalistas se alarmaram. Como antídoto, começaram a ceder: surgiram direitos trabalhistas, férias, 13º, aposentadoria.
Com a queda do muro de Berlin, os empresários voltaram a sonhar com aqueles tempos áureos. Afinal, não existia mais a ameaça comunista. Por que não voltar aos tempos áureos do capitalismo?

Vidro

 

M. Night Shyamalan é o diretor de Hollywood que melhor entendeu os quadrinhos. Prova disso é seu novo filme, Vidro, que fecha a trilogia iniciada em Corpo Fechado.
A película é, essencialmente, uma grande homenagem aos quadrinhos.
Tudo é pensado como homenagem e referência. Além das referências óbvias, que são expressas em diálogos entre os personagens, há os nomes de personagens, como Crumb (Robert Crumb foi o papa do quadrinho underground). Mas há mais: a vilã, por exemplo, é uma psicóloga que acredita que os super-heróis são um gênero nocivo (os mais ligados vão se lembrar do psicólogo Fredrick Werthan, que na década de 1950 realizou uma verdadeira cruzada contra os gibis).
Neste filme vemos finalmente o confronto do Senhor Vidro, a Horda e o Vigilante. Mas não espere um filme pipoca. O foco é muito menos nas brigas e muito mais no desenvolvimento dos personagens, na exploração de suas personalidades. Nós descobrimos, por exemplo, porque o vigilante, embora seja invulnerável, pode ser morto com a água. A genialidade de Vidro é muito melhor explorada e exemplificada. Ele é mostrado aqui como alguém frágil apenas fisicamente, mas cujos dotes intelectuais são espantosos, como um grande jogador de xadrez, que antecipa todas as jogadas de seus adversários.
A direção também remete diretamente aos quadrinhos. Shyamalan na maioria das vezes não mostra as ações, mas o resultado delas, como nas elipses quadrinísticas.
O roteiro encaixa os três filmes como um quebra-cabeças muito bem elaborado. E o plot twist final é digno do diretor de Sexto Sentido.
Não vá esperando um filme dos Vingadores. Mas se você gosta de quadrinhos e gosta de filmes inteligentes, Vidro é uma ótima pedida.  

Casal serial killer


Certa vez fui vítima de um psicopata. Felizmente não era um psicopata assassino, mas esse fato me levou a pesquisar sobre o assunto colecionando livros, matérias de jornais, tudo que pudesse coletar sobre o assunto.

Desse interesse surgiu a ideia de fazer uma série para a revista Calafrio focada em psicopatas famosos.

Uma dessas histórias foi Casal Serial Killer, publicada na Calafrio 64 e desenhada pelo Marco Cortez.
A HQ contava a saga de Paul Bernardo e Karla Homolka, uma dupla canadense que, quando não estava frequentando as colunas sociais, estava sequestrando, escravizando e matando garotas. O casal chegou a abusar e matar (acidentalmente) até mesmo a irmã de Karla.
A minha ideia no roteiro era fazer a página como se fosse um convite de casamento. O desenhista aproveitou essa ideia apenas no título.

O composto de marketing

 

Uma coisa importante sobre o marketing é diferenciá-lo das vendas e, principalmente, da propaganda.
Para isso, é importante conhecer o composto de marketing, também chamado de marketing mix ou 4 p.
            Pesquisando o histórico de diversas empresas, os estudiosos de marketing descobriram que algumas se saíam melhor que outras. A razão do sucesso estava em quatro elementos que ele chamou de marketing mix ou composto de marketing.
            Para facilitar a compreensão, esses elementos foram resumidos em quatro Ps: Produto, Ponto de Venda, Preço e Promoção.
            Produto, ou serviço, é o elemento básico do marketing, aquilo que se vende ao cliente. A definição básica é de que produto é tudo aquilo que satisfaz uma necessidade do cliente e que, portanto, pode ser usado num processo de troca.
            Ponto de venda é o local em que esse produto é vendido e pode ser desde uma mercearia a uma sofisticada loja de departamentos, passando por um site como o Submarino ou uma consultora da Avon, que faz da casa do cliente seu ponto de venda.
Durante muitos anos convencionou-se atribuir ao ponto de venda (ou praça) um caráter físico. Alguns teóricos de marketing conceituavam o ponto de venda como o “local onde os produtos são comercializados” já que naquela época não havia nenhuma indicação que algum dia as pessoas poderiam fazer compras sem precisar ir a algum estabelecimento.
            O preço é o valor que o cliente está disposto a pagar. Não é um item puramente matemático. Ao contrário. O preço influencia diretamente na imagem que o consumidor tem do produto. Um preço alto valoriza o produto, enquanto que um preço baixo o torna popular, de forma que as decisões de preço devem seguir uma estratégia de marketing.
            O quarto P, promoção, é dividido em mais elementos, chamados de composto promocional: promoção de vendas, vendas, publicidade e propaganda, merchandising e relações públicas.
            Assim, é possível dizer que a propaganda e as vendas fazem parte do marketing, mas o marketing não se resume somente a elas. Na verdade, o marketing diz respeito a vários fatores que vão da pintura da parede da empresa à qualidade do produto apresentado, passando pela cor do batom da vendedora. 

Por que os comentários do blog estão bloqueados?

 


- Gian, entrei no seu blog e tentei comentar numa matéria, mas não consegui. 
- Infelizmente eu tive que bloquear os comentários. 
- Mas por quê? 
- Olha o tipo de comentário que os bolsominions estavam postando. 
- Caramba, são dezenas de comentários iguais o cara já começa te chamando de stalinista! 
- Pois é, é o culto à personalidade. Como eles consideram o Bolsonaro um semi-deus, qualquer um que não o idolatre só pode ser comunista. E pode colocar na conta vários outros "comunistas": Jim Starlin vira comunista, Raul Seixas vira comunista, Alan Moore vira comunista. E, para eles, comunista precisa ser preso. 
- O cara está te chamando de lulo-petralha?!!!
- Pois é, eu que nunca votei no PT, que sempre critiquei o PT de repente virei petralha só porque me recuso a idolatrar o mito. 
- E você praticamente nem fala de política no seu blog. 
- Pois é. Mas a estratégia deles é Dart Vader: ou você idolatra o Capitão ou é comunista. Teve um "amigo" bolsominions que ameaçou me dar um soco só porque eu disse que político é para ser cobrado não para ser idolatrado. Outro disse que o pior tipo de "comunistas" são os "isentões": isentão aí significa alguém que se recusa a idolatrar o mito deles, mas ao mesmo tempo não idolatra o Lula, que se recusa a tecer elogios à ditadura militar, mas também não elogia a Coréia do norte. Antigamente para ser comunista precisava ser fã do Karl Marx, precisava ler o Manifesto Comunista, precisava acreditar em ditadura do proletariado. Hoje em dia, para ser comunista, basta não idolatrar o mito.
- Ele te acusa de cometer um gesto lulo-petista. Que gesto lulo-petista é esse?
- Me recusar a idolatrar o mito. Para quem escreveu esse comentário, qualquer um que não idolatre o mito está cometendo um gesto lulo-petista. Ou seja, na cabeça dele, está cometendo um crime.
- Caramba, estou lendo aqui. O cara está ameaçando te denuncia... Te denunciar para quem? 
- Para os militres, provavelmente. 
- Estou vendo aqui. Ele te acusa de doutrinar os alunos. Fui seu aluno e você nunca falou de política em sala de aula. 
- Deve ser porque uso camisas da Marvel em sala de aula. Dizem que estou doutrinando os alunos a gostarem da Marvel. Nisso, confesso, sou culpado. Mas em minha defesa posso dizer que gosto da DC quando ela é desenhada pelo Garcia-Lopez.... rsrs... 
- Nossa, o cara diz que vai fazer você perder o emprego! Chega até a te chamar de estelionatário! 
- Só faltou dizer que vai me prender e  torturar pessoalmente para que eu confesse todos os meues crimes...kkkk Tudo isso porque eu me recuso a idolatrar o Capitão. E é esse pessoal que diz que é a favor da liberdade. A liberdade que eles querem é a liberdade de poder denunciar e prender quem pensa diferente deles. E como você pode ver, postaram essas ameaças dezenas de vezes no blog antes que eu bloqueasse os comentários. É por isso que não é mais possível comentar no meu blog. Infelizmente, tive que bloquear essa possibilidade de contato com meus leitores por causa desse tipo de comentário ameaçador.   
- Assustador, melhor manter os comentários do blog fechados mesmo.  

terça-feira, janeiro 19, 2021

Xuxulu está apaixonado

 

Odisséia em quadrinhos

 


Clássicos da Literatura universal é uma coleção europeia lançada com apoio da Unesco com o objetivo de levar obras fundamentais para um público mais jovem.
O volume Odisséia, escrito por Christophe Lemoine e desenhado pelo paraense Miguel Lalor Imbiriba conta a história da volta de Ulisses para sua terra, depois de 10 anos na Guerra de Tróia.
O poema de Omero é um dos textos mais importantes da literatura ocidental e certamente serviu de base para o gênero aventura. O escritor Isaac Asimov adorava a obra e destacava uma de suas características mais interessantes: em oposição a heróis puramente musculosos e valentões, como Hércules, Ulisses é um herói cerebral, alguém que consegue se livrar dos perigos graças à astúcia e inteligência.

Adaptar uma obra tão relevante torna ainda maior e mais arriscada a tarefa dos dois autores responsáveis pela adaptação. E não decepcionam. O desenho de Miguel Lalor se destaca desde as primeiras páginas pelas belas mulheres e pela boa reconstituição de época, assim como a ótima caracterização dos deuses. O roteiro, por outro lado, consegue ser fiel à obra original e, ao mesmo tempo adaptá-la bem à linguagem dos quadrinhos. Há cortes narrativos bem orquestrados, que enxugam a história sem perder sua essência.

O sofisticado erotismo europeu

 

 Enquanto nos EUA os quadrinhos ainda eram vistos ou como uma leitura infantil ou como algo perigoso, na Europa começava um movimento intelectual de pesquisa e valorização das HQs que daria origem a um novo gênero: o erotismo sofisticado, com ares de arte.

            O primeiro trabalho a se encaixar nessa proposta foi Barbarella, do quadrinista francês Jean-Claude Forest. A personagem apareceu pela primeira vez na revista V Magazine, em 1962. Em 1964 foi republicada num álbum de luxo, com grande sucesso. Barbarella era uma heroína espacial que viajava pelo espaço libertando planetas inteiros de tiranos opressores. Símbolo da revolução sexual, ela tinha grande disposição para fazer sexo, fosse com um homem ou um robô. A sensualidade era, para ela, uma arma.
Sônia Luyten, no livro O que é história em quadrinhos, diz que Barbarella é ¨um reflexo da própria evolução da mulher na sociedade moderna¨.
Em 1968 a personagem foi levada às telas com direção de Roger Vadin e tendo Jane Fonda no papel principal.
Outra personagem de grande destaque foi Jodele, criada pelo desenhista Guy Peellaert e pelo roteirista Pierre Bartier. Essa personagem francesa aproveitava o visual e a proposta da pop art com muita cor e onomatopéias (isso foi curioso, pois a pop art foi influenciada pelos quadrinhos e depois acabou influenciando-os). As aventuras de Jodelle aconteciam numa Roma fictícia, com tubos de neon, clubes noturnos e cadilaques.
O sucesso de Jodelle levou Peellaert a publicar um novo álbum, com uma nova personagem, Pravda. Vestida apenas com um colete e um cinto largo, ela viajava pelas estradas com sua moto turbinada.
Em 1967 a França vê a criação de Blanche Epiphanie, do desenhista Georges Pichard. Blanche era uma heroína romântica ingênua. Com um humilde emprego de entregadora de cheques, ela passava as noites remendando os trapos que de dia eram rasgados pelos clientes do banco, que sempre a assediavam. Mas a moça tinha um defensor mascarado, o herói Défendar, identidade secreta de um estudante de ciências, vizinho do quarto da moça.
A história foi publicada com muito sucesso pela V Magazine e depois dela vieram outras heroínas criadas por Pichard, a maioria loiras, rechonchudas e com sardas no rosto. Outra de suas grandes criações foi Paulette, com roteiro de Wolinsky. Paulette era uma herdeira de um império industrial, mas com idéias socialistas. Tudo era desculpa que ela se desnudasse. Seu companheiro de aventuras era um velho de mais de oitenta anos, transformado em uma linda jovem  morena, o que causava situações embaraçosas. A personagem foi publicada em capítulos entre 1970 e 1976 na revista francesa Charlie        O movimento de erotismo elegante francês teve grande influência em outras partes do mundo, especialmente na Itália, inclusive conseguindo a atenção de leitores adultos, que já não se interessavam mais pelos gibis.