sábado, fevereiro 21, 2026

O Namor de John Byrne

 


Em 1990 o Príncipe Submarino, o mais clássico herói da Marvel, foi reformulado por John Byrne. As primeiras histórias dessa nova fase do personagem foram publicadas pela editora Abril em Grandes Heróis Marvel 42.
Byrne aproveitou que o personagem estava “morto” (nos quadrinhos de super-heróis ninguém fica morto muito tempo) para modificar completamente suas histórias. Para começar, tirou totalmente a ambientação atlante. Além disso, mudou a personalidade do herói. Um cientista que aparece convenientemente no mesmo local em que Namor surge descobre que o humor instável do herói se devia a um desequilíbrio sanguíneo provocado por sua origem dupla (humana e atlante) e o submete a uma máquina que corrige o problema.

Algumas situações são totalmente gratuitas. 

Como resultado, Namor se torna um herói de fato, ajuda o cientista a comprar um conglomerado de empresas e as coloca a serviço da preservação da natureza.
Namor vira um super-herói de fato. 

Byrne, que já foi um bom roteirista, parecia já ter perdido a mão nesse trabalho. Tudo é forçado ou mal-explicado. Quando Namor surge, descobre uma tribo que idolatra um avião – e isso não tem a menor explicação. A relação com o cientista é forçada, assim como a explicação para o humor instável do atlante.

Além disso, ao mudar a personalidade e Namor, Byrne tira dele sua característica mais interessante: o fato dele ser um anti-herói e tirar dele toda a mitologia atlante tornou o personagem ainda mais vazio.
De positivo o desenho, simples, mas expressivo, que se encaixava bem com o formatinho da Abril.

X – A marca da morte

 


Existe um subgênero do terror chamado slasher, no qual adolescentes são mortos um a um por um assassino em série. Em X – a marca da morte, Ti West, faz uma homenagem a esse gênero ao mesmo tempo que o revigora e traz a ele camadas a mais de significados e aprofundamento de personagens.

Na trama, um grupo de jovens aluga um galpão em uma fazenda com o objetivo de fazer um filme pornô. Cada um ali tem uma motivação: o produtor acredita que ficará rico com o mercado de filmes caseiros, o diretor acredita que está conseguindo transformar o pornô em um filme artístico, a personagem Maxine, a protagonista, acha que merece ser famosa e pretende usar a repercussão do filme para isso.

Ocorre que os donos do local são um casal de assassinos, que, aproveitando a imagem de fragilidade, vão eliminando cada um dos integrantes da equipe de filmagem.

Há um fator aqui que é totalmente revolucionário. Nos slashers clássicos o sexo é visto quase como um pecado a ser punido. Não por acaso boa parte dos adolescentes que morrem em filmes como sexta-feira 13 acabam sucumbindo durante ou pouco depois de uma relação sexual. Aqui a questão sexual ganha outros contornos. A velhinha Pearl, por exemplo, tem sua sexualidade despertada ao ver as filmagens e a matança final é quase uma preliminar para o reencontro sexual do casal.

Vale destacar o cuidado de Ti West, tanto no roteiro quanto na direção. Tudo é muito bem pensando e muito bem construído, a começar pela cena inicial, em que os policiais encontram os cadáveres. Essa maestria narrativa encontra seu momento mais assustador no momento em que Maxine está tomando banho no lago. O uso de ângulos inusitados e trilha sonora deixa o espectador colado na poltrona, esperando pelo pior.

Também vale destacar o talento de Mia Goth, que faz tanto a mocinha Maxine quanto a vilã Pearl. Para ajudar a atriz a entrar no papel da vilã, o diretor escreveu para ela um texto contando sua história. Ao ler, ela comentou: isso dava um outro filme. O resultado foi Pearl, que narra o início da vida de assassinatos da personagem, um filme ainda melhor que o primeiro.  

Será Ti West o Tarantino dos filmes de terror?

Em tempo: há um terceiro filme, Maxxine, que ainda não consegui assistir.

Verossimilhança hiper-real na revista Cajueiro

 



Meu artigo Verossimilhança hiper-real nos quadrinhos de Alan Moore foi publicado na revista Cajueiro. No artigo, eu analiso uma estratégia, usada por Alan Moore, para fazer com que seus quadrinhos pareçam reais a ponto de alguns leitores acreditarem que aquilo que é narrado aconteceu mesmo. Alguns exemplos: os anexos de Watchmen e a série 1963, que emula perfeitamente as revistas da Marvel na década de 1960.

Para acessar os artigos, clique no link: https://seer.ufs.br/index.php/Cajueiro/article/view/13782

A elegante arte vintage de Darwyn Cooke

 


O canadense Darwyn Cooke começou sua carreira nos quadrinhos em 1985 quando procurou a DC Comics e conseguiu desenhar uma história de cinco páginas para a revista New Talent Showcase  19.

Mas o pagamento era pequeno, 35 dólares, e ele levava uma semana inteira para produzir uma página. Assim, ele desistiu do mundo dos quadrinhos e começou a trabalhar como diretor de arte.

Na década de 1990 ele resolveu voltar aos quadrinhos quando viu um anúncio de Bruce Timm pedindo artistas de story board. Cooke trabalhou produzindo story board para as séries do Batman e Superman.

Pouco tempo depois ele começaria a produzir quadrinhos. Um dos trabalhos que mais chamaram a atenção foi a série A Nova Fronteira, que reimaginava os heróis da DC Comics nas décadas de 50 e 60.

Dono de um traço vintage e muito elegante, Cooke era a pessoa ideal para esse tipo de trabalho, tanto que foi convidado para ser responsável pela minissérie dos Minutemen no selo Antes de Watchmen.

Ele também deixou sua marca na personagem Mulher-Gato e em The Spirit, personagem criado por Will Eisner, citado por Cooke como uma de suas principais influencias.

Cooke morreu em 2016, vítima de um câncer. Tinha apenas 53 anos. 


  







Roteiro de quadrinhos: a narrativa

 

Skreemer apresenta flash backs de vários personagens
Falaremos agora de um dos temas mais fáceis de serem percebidos e mais difíceis de serem usados numa história em quadrinhos.
                Falo da narrativa. O que é a narrativa? É a maneira como a história se desenrola. Com isso não quero me referir aos diálogos e ao texto, assuntos de que trataremos mais tarde e que pertencem ao mundo da FORMA.
                O tipo mais evidente de narrativa é a linear. Ou seja, é aquela história com início, meio e fim muito bem delineados.
                Por exemplo: um bando de assaltantes resolve roubar um banco. Eles chegam de carro, rendem o gerente, pegam o dinheiro e fogem. É quando aparece o Super-homem e prende todos os malfeitores. Termina a história com os meninos maus atrás das grades e um texto do tipo: "Viram, meninos? O crime não compensa".
                Esse é o tipo de narrativa mais comum de se encontrar nos quadrinhos clássicos (claro que não me refiro a algumas pérolas do roteiro, tais como Príncipe Valente, Spirit ou Capitão César). É o que chamamos de roteiro linear. Há um início, um meio e um fim bem delineados. E também não há complicações no miolo da história. As coisas se resolvem facilmente.
                Imaginemos, no entanto, que o roteirista queira tornar esse roteiro um pouco mais complexo. Ele pode, por exemplo, focar o Super-homem. O homem de aço está numa reunião no Planeta Diário e percebe que o banco está sendo assaltado. Como sair da reunião sem ser notado? Isso pode criar algumas situações interessantes, que vão tirar a atenção do leitor do assunto principal (no caso, o assalto ao banco).
                Isso é bom? Isso é ótimo! O roteirista deve ser, antes de tudo, um sádico. O leitor está louco para saber se o assalto vai se concretizar e você fica enrolando, mostrando Clark  Kent tentando se transformar no homem de aço. Chama-se a isso suspense. Toda boa história tem algum tipo de suspense, mesmo aquelas que fogem do esquema comercial.
                Mas voltemos à nossa história. Imaginemos que os bandidos estão em dois carros. O pessoal de um carro vê o Super-homem interceptando o outro veículo. Eles estão desesperados e tentam fugir. Mas... o destino e o roteirista são cruéis. O carro não pega. O motorista tenta, mas não consegue fazer o motor funcionar.
                Isso vai introduzir um pouco mais de suspense na história e, como já disse, todo suspense é bem-vindo. Podemos, inclusive, melhorar as coisas. Um dos bandidos sai correndo desesperadamente. Ele está  fugindo agora. Está entrando em becos escuros, está pisando em latas de lixo e pulando cercas. Tudo o que ele queria agora era estar em algum lugar seguro...
                O que acharam? Nossa história melhorou um pouco, hein? Mas, apesar de todo o suspense, ainda é uma história linear. Os acontecimentos se sucedem em perfeita ordem cronológica.
                Voltemos ao nosso amigo. Ele corre, fugindo do Super-homem e, enquanto pisa o lixo, pula as cercas e entra nos becos escuros, vai se lembrando do que aconteceu antes. A história é toda contada do ponto de vista das lembranças do personagem. Chama-se a isso flash back. Flash back é tudo aquilo que é contado, mas que aconteceu antes do tempo real da história. É o principal recurso para tornar a história não linear.
Em Piada Mortal os flash backs seguem uma ordem cronológica

                Existem vários tipos de flash backs. No simples, as lembranças do personagem seguem uma seqüência cronológica. Assim, nosso amigo vai se lembrar de quando seus comparsas estavam planejando o roubo para depois se lembrar do roubo em si. Um exemplo de flash back simples é Piada Mortal, de Alan Moore.
                Mas as memórias não precisam, necessariamente, seguir uma ordem. Pelo contrário, elas podem vir embaralhadas, como cartas de um baralho. 
                Certa vez, eu e Joe Bennett (Bené Nascimento) fizemos uma história em que usávamos esse recurso. Ela começava com o Puritano, o personagem principal, sobre uma clarabóia de vidro. Lá embaixo uma garota estava sendo sacrificada num rito satânico. Ele pula e quebra a clarabóia. O tempo real da história se passa em alguns segundo: é o tempo de chegar ao chão. Toda a trama é contada pelas lembranças, tanto de Puritano quanto da moça.
                Poderíamos, claro, ter mostrado primeiro os flash backs da moça e depois os do Puritano. Mas não. Preferimos embaralhar tudo. As lembranças eram mostradas intercalada e numa ordem não cronológica... Outro exemplo de narrativa não-linear é a história Belzebu, escrita por mim e desenhada por Joe Bennett. A história começa do final, e os fatos do passado são narrados como uma lembrança da personagem. No caso dessa história há também uma interessante estrutura de elipse, pois a história começa e termina com um cachorro morto.
Watchmen e o flash back não cronológico

                Um ótimo exemplo de flash back embaralhado é o capítulo quatro (dois no Brasil) de Watchmen, quando Dr. Manhathan está em marte e começa a lembrar do seu passado.
                Outro ótimo exemplo é a mini-série Skreemer, de Peter Millingan. Lá existem tantos flash backs não cronológicos e de tantos personagens que o colorista optou por usar tons pastéis nas cenas de passado. Isso para não confundir o leitor. O resultado é que cada  releitura de Skreemer nos revela novos detalhes da trama. E, falando em detalhes, aí vai um: o tempo real da trama é de 15 minutos, o tempo que Skreemer está esperando para soltar seus balões infectados.
                Um recurso interessante de narrativa que Alan Moore diz ter emprestado de Gabriel Garcia Marques é contar a história através das narrativas de vários personagens. Só que nenhum deles tem a história completa, de modo que o leitor é obrigado a montar a trama  mentalmente, como se montasse um quebra-cabeça.
                O filme Cidadão Kane, de Orson Wells, mostra uma técnica narrativa semelhante. A história é construída através do depoimento de várias pessoas que conheceram Kane e muitas vezes os mesmos fatos são mostrados de maneiras bem diferentes.
                Há um livro da coleção Perry Rhodan que leva ao extremo essa possiblidade narrativa. Dois agentes que se odeiam são mandados para realizar, juntos, uma missão em um planeta distante. A aventura é contada através do relatório dos dois. Acontece que os dois documentos são absolutamente discordantes. Um fato é mostrado como heróico em um dos relatórios e patético em outro. O resultado é muito divertido de se ler.

Além da imaginação – a versão de Jordan Peele

 


Além da imaginação foi um seriado clássico surgido no final dos anos 50 criado apresentado e produzido por Rod Serling (que, aliás, escrevia boa parte dos episódios). Marcou gerações. Suas histórias fantásticas, com roteiros irretocáveis tiveram uma influência duradoura a ponto de quando surgiu Black Mirror muito terem comentado que era o novo Além da imaginação. 
Suas histórias muito bem boladas, com a inevitável ironia do destino no final sedimentaram uma maneira de contar histórias e elevaram o nível da programação televisiva. O que Serling fez não foi só diversão, mas uma série que refletia sobre seu tempo (a guerra fria, o perigo nuclear) usando para isso a ficção científica e fantasia. Programas posteriores, como Jornada nas Estrelas devem muito a Serling. 
Na década de 1980, o seriado ganhou uma versão bastante equivocada, em que a ênfase estava muito mais nos efeitos especiais do que nos roteiros inteligentes. Agora o show retorna sob a batuta de  Jordan Peele, diretor de “Corra!”, que não só trouxe de volta a essência do seriado, como o atualizou o dando uma profundidade sociológica ao discutir temas como tensões raciais, ataques terroristas, imigração e eleições numa época de influenciadores digitais.
A qualidade do que foi apresentado nessa primeira temporada é tão grande que é difícil escolher o melhor episódio. Ainda assim, fiz uma lista dos episódios, do que mais gostei ao que menos gostei.  
Em tempo: a série está em exibição no streaming Amazon vídeo. 


Rebobine
Uma mulher negra está levando o filho para seu primeiro dia na universidade quando descobre que pode voltar o tempo rebobinando uma velha câmera vhs. Mas os dois estão sendo perseguidos por um policial racista. É um belo exemplo de roteiro em looping, com a protagonista tentando se livrar de um destino aparentemente inevitável. O episódio discute racismo, determinismo e a importância de se conciliar com o passado. Mas não traz respostas fáceis, como fica claro no final irônico. É o melhor episódio nova fase de Além da Imaginação e representa bem a proposta de usar a fantasia para falar de temas atuais.




Garoto prodígio
Um marketeiro em desgraça vê a chance de voltar ao topo quando um Youtuber de oito anos resolve lançar se candidato à presidência dos EUA. O episódio Garoto Prodígio reflete sobre os dias atuais, em que pessoas sem conteúdo se tornam celebridade da noite para o dia ganhando grande influência e poder político. Uma situação que é reflexo direto da falta de conteúdo da própria população, que vota em um candidato por ele prometer, por exemplo, vídeo games para todos. É um dos melhores episódios da nova encarnação de além da imaginação não só pelo tema, mas também pela constante tensão entre desejo e desgraça. É também um dos episódios que melhor refletem o modus operandi da série clássica, com seu final totalmente irônico.


Seis graus de liberdade
Seis graus de liberdade é um um dos roteiros mais complexos dessa nova versão de Além da Imaginação. E também um dos que permitem mais discussões filosóficas. Na história, um grupo de astronautas está sendo enviado a Marte. A terra está esgotada graças às mudanças climáticas e essa missão pode ser a última esperança da humanidade. Mas, no momento do lançamento, começa uma guerra nuclear de modo que os astronautas se vêm na situação de serem os últimos representante da humanidade. O episódio é todo construído em cima da teoria segundo a qual a maioria das civilizações tende a se aniquilar antes de desenvolverem tecnologia para viagens espaciais, o que explica o fato de nunca termos tido contatados por extraterrestres. Alguns autores, como Carl Sagan argumentam que se a civilização consegue ultrapassar essa fase e chegar ao espaço, ela tende a se perpetuar. O tema é explorado de forma inteligente, com poucos cenários, foco em closes e truques cinematográficos, como colocar a câmera de lado para simular gravidade zero.



Escorpião azul
Um professor universitário está se separando da esposa e morando com o pai. Um dia chega em casa e descobre que o pai, um hippie que tocou com várias bandas importantes, se matou com um tiro. A arma usada foi a escorpião azul, uma pistola rara que vale cem mil dólares. O episódio é usado para discutir a questão da idólatria das armas e de como elas são apresentadas como solução para todos os males. Mais: é sugerido que as armas se tornaram um novo tipo de religião fetichista. Isso é feito, no entanto, de maneira sútil, sem diálogos óbvios e com bom uso da força das imagens. A cena em que o professor vai a um clube de tiros testar a arma é perfeita. Quase sem diálogos, podemos ver sua transformação e a forma como a arma passa a encantá-lo, no sentido amazônico da expressão, de encantaria, de magia. É um dos episódios que melhor demonstram a força dessa nova encarnação de além da imaginação.



Ponto de origem
Uma dona de casa contrata uma imigrante ilegal como empregada doméstica e vê essa empregada ser presa pela polícia de imigração. Depois ela mesma acaba sendo presa sem saber sequer qual a acusação. O episódio ecoa diretamente o famoso livro O processo, de Kafka, com a protagonista presa em um local desconhecido, perdida em meio à burocracia. O roteiro constrói uma metáfora pesada e pungente a respeito da perseguição aos imigrantes. Destaque para a direção inspirada, em especial na cena da cela, com as luzes sendo usadas como elemento opressivo. Esse é um ótimo exemplo de como essa nova versão de Além da imaginação consegue usar a ficção científica para falar de temas atuais. 


Um viajante
Em uma pequena cidade do Alaska o xerife mantém a tradição de fazer uma festa de Natal no qual perdoa um prisioneiro. Mas naquele ano um desconhecido surge na cela pedindo para ser perdoado. Simpático e dizendo se dono de um canal no YouTube sobre viagens radicais, ele conquista a simpatia de todos e se torna o centro da festa. Mas uma jovem policial desconfia que há algo de errado na história. Esse é o plot do quarto episódio da nova encarnação de além da imaginação. É um daqueles episódios, a exemplos de muitos da série clássica, em que ação acontece toda em um local fechado e a trama se sustenta nós ótimos diálogos e atuações soberbas, com destaque para Steven Yeun  no papel do viajante. Uma trama, aliás, repleta de reviravoltas em que nunca sabemos qual as verdadeiras intenções do estranho. Destaque para o uso inteligente dos efeitos especiais, que surgem apenas nos momentos certos. Destaque também para o final, do mais puro humor ácido no melhor estilo Além da Imaginação. 


O comediante 
Um comediante fracassado descobre que pode fazer rir se usar algo de sua própria vida. Mas tudo que ele cita em suas piadas acaba desaparecendo. Além do ótimo conceito, que discute a questão do poder e seus perigos, vale destacar a ótima atuação de Kumail Nanjiani que consegue, por exemplo, contar uma piada e se mostrar tenso enquanto a plateia ri. A direção, repleta de closes estranhos valoriza a atuação. 


Pesadelo a 30 mil pés
Este foi um dos episódios mais memoráveis da série clássica. Baseado em um conto de Richard Matheson, mostrava um homem em um avião que vê um monstro do lado de fora e precisa convencer a tripulação de que a aeronave corre perigo. Nessa nova versão, um repórter investigativo acha um aparelho no assento e descobre que se trata de um podcast sobre um acidente aéreo. O problema é que ele parece se referir àquele vôo. O repórter deve, então, descobrir como impedir a tragédia usando as pistas do podcast. É incrível, mas esse plot, muito mais pé no chão, consegue ser menos verossímil que o duende da versão clássica principalmente graças ao final, totalmente desnecessário. Se o diretor tivesse a inteligência de terminar a história no momento em que o protagonista descobre o que está acontecendo, seria um dos melhores dessa nova versão de Além da imaginação.



O homem borrado
O episódio O homem borrado é praticamente um manifesto sobre as características de Além da Imaginação. Na história, a roteirista do seriado é assombrada por uma figura borrada que parece ter poderes paranormais. Em determinado ponto a personagem reflete sobre a série: “Além da imaginação não é só sobre monstros numa asa de avião. Se não tem nada de importante para dizer, então são só histórias para assustar. Rod Serling pegou um gênero infantil bobo e o elevou, fazendo arte para adultos”. Esse foi, por exemplo, o problema da maioria dos episódios da década de 1980: eram apenas efeitos especiais para crianças num roteiro que tinha pouco a dizer. É uma pena, no entanto, que o episódio que melhor reflete sobre a alma de Além da imaginação seja também um dos episódios mais fracos dessa nova encarnação liderada por Jordan Peele. (Alerta de spoiller) Por exemplo, o homem borrado, que persegue a roteirista, se revela como Rod Serling recriado digitalmente. A metáfora aí é óbvia: ele está levando a personagem para um mundo onde tudo é possível, um mundo além da imaginação. Entretanto, até esse ponto, parece que ele está muito mais interessado em machucar ou até mesmo matar a personagen do que realmente em introduzi-la em um mundo em que as leis da natureza funcionam de maneira diferente. A situação poderia ser facilmente resolvida mudando as situações para algo surreal, irreal, mas o roteirista parece ter tido preguiça de imaginar tais situações e simplesmente introduziu garrafas que voam na direção na protagonista e outras ameaças.


Nem todos os homens
Um dos grandes méritos da versão atual de Além da Imaginação é usar a fantasia para discutir questões do mundo atual. Isso, entretanto, não funciona quando a metáfora se torna óbvia demais, não deixando margem para interpretações.
Exemplo disso é o episódio Nem todos os homens. Na história, meteoros caem numa cidadezinha norte americana e todos os homens que entram em contato com as pedras se tornam violentos. Esse plot é usado para discutir a questão da violência masculina, mas isso é feito de maneira tão óbvia que descarta qualquer possibilidade de interpretação. Chega um ponto em que uma das personagens explica o que está acontecendo e qual a metáfora envolvida para ter certeza de o expectador tenha apenas uma interpretação. Junte a isso um roteiro ruim , com frases forçadas.
Umberto eco fala da obra aberta, que só se completa quando é interpretada pelo expectador. Já ao contrário, o discurso persuasivo permite uma única interpretação. Ele tende a levar-nos a conclusões definitivas e nos idica como devemos compreender o mundo. Nem todos os homens é um ótimo exemplo de discurso persuasivo.

Perry Rhodan – A casta dos trombas brancas

 


Um bom escritor pode escrever um livro interessante mesmo partindo de uma trama fraca. É o que acontece com o volume 235 da série Perry Rhodan, de autoria de  William Voltz.

No livro anterior a nave terrana havia sido puxada para um Moby morto e aprisionados pelos seres de duas trombas. Em tempo: os mobys eram seres tão grandes que se alimentavam de pequenos planetas.

A história do número 235 trata, basicamente, da viagem de trem com eles sendo levados para trabalhar em fazendas de bioparasitas, usados como alimentos pela população local. Ou seja: dois terços do livro é apenas uma viagem de trem, mas Voltz consegue fazer esse mote se tornar interessante com uma boa escrita e principalmente com um bom desenvolvimento de personagens.

A capa original alemã. 


Para isso, ele foca sua narrativa no sargento Kendall Baynes, que diz ser descendente de nobres e é chamado de Lorde pelos colegas em alusão ao seu perfil convencido. Conforme a história – e o trem – avançam, vamos conhecendo cada vez mais desse personagem, até descobrirmos, por exemplo, que ele foi criado em um orfanato, depois de se tornar órfão. Embora o texto não entre em detalhes, ele dá a entender que Baynes foi maltratado lá, o que o levou a criar a persona de um nobre como forma de compensação por todas as humilhações recebidas na adolescência.

Voltz também faz um bom trabalho ao descrever a organização social dos alienígenas, cuja sociedade é dividida em castas. Na base estão os trombas brancas, trabalhadores braçais. Acima deles, os trombas azuis, que exercem a função de vigilância e polícia, e no topo os trombas vermelhas, os governantes. Quando descobre que os trombas azuis e vermelhas apenas pintam seus apêndices, Rhodan comenta com um tromba branca: “Quer dizer que a única coisa que o senhor precisa fazer para subir de casta é pintar sua tromba?”, ao que o outro reage violentamente, ameaçando matá-lo.

Em um trecho extremamente crítico, o escritor pondera que é extremamente difícil libertar uma inteligência dos preconceitos que pairam sobre ela.

Nas mãos de um escritor mediano, A casta dos trombas brancas seria um volume insuportável, mas William Voltz faz dele um boa leitura.

Nick Raider – Uma fita explosiva

 


Nem todas as histórias policiais giram em torno de um crime (geralmente um assassinato) com o policial investigando para descobrir quem é o criminoso. Há um tipo de histórias, geralmente associadas ao gênero noir, em que o leitor sabe tudo que está acontecendo e o suspense surge da expectativa sobre como a situação vai se resolver.

Exemplo disso é a história Uma fita explosiva, publicada no Brasil no número 11 de Nick Raider. Na história, escrita por Cláudio Nizzi e desenhada por Fiorentini e Sgatoni, um juiz está com uma doença grave e se suicida. O problema é que ele deixa uma fita, na qual admite que ao julgar um mafioso, ele e o promotor fizeram de tudo para inocentá-lo em troca de uma ascenção em suas carreiras.

Um juiz se suicida... 


Uma de suas assessoras tenta entregar a fita para Nick Raider e é morta, o que faz com que ele entre de cabeça no caso, que passa a ter um clima noir em que a maioria dos personagens parece ser mal caráter ou simplesme aproveitador.

Nizzi trabalha muito bem esses elementos, criando uma tensão contínua (Raider será morto?). Parece uma situação em que a lei não conseguirá prevalecer.

... e deixa uma pista que compromete um mafioso. 


Se o roteiro se desenvolve muito bem, o mesmo não pode ser dito da ilustração. Fiorentini e Sgatoni oscilam muito. Em alguns momentos o traço é fenomenal, em outros chega próximo do tosco. Algumas opções visuais também não ajudam. Num ângulo de baixo, por exemplo, Raider parece outra pessoa.

Ainda assim é uma boa história.

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

Conan e Elric

 


Quando começou a escrever Conan, Roy Thomas passou a colecionar livros de espada e magia “tão rápido quanto eles eram impressos”. Entre os vários personagens, um dos que mais chamaram sua atenção foi Elric de Melniboné, do autor britânico Michael Moorcock. O roteirista pensou: por que não promover um encontro de Elric com Conan? Os dois eram extremos opostos em tudo. Conan é forte, musculoso, Elric magro e fraco. Conan odeia magia, Elric é um mago.

Munido de uma tremenda cara de pau, Thomas escreveu para Moorcock perguntando se ele topava escrever uma história promovendo o encontro dos dois personagens por um valor irrisório. Surpreendentemente, o autor inglês topou. Na verdade, como Thomas descobriria depois, a história foi escrita por um amigo de moorcock, Jim Catwthorn. Mas mesmo assim era uma oportunidade incrível de unir, numa revista ainda incipiente, que lutava contra o cancelamento, dois dos mais importantes personagens do gênero.

A história começa com uma donzela em perigo. 


Essa história, roteirizada por Thomas e desenhada por Barry Smith foi publicada em Conan the barbarian 14 e 15.

A trama, como uma boa história de espada e magia, começa em plena ação: uma mulher está sendo perseguida por cavaleiros misteriosos e Conan resolve intervir. Ao salvá-la, descobre que se trata de Zephra, filha do feiticeiro Zukhala. Conan havia enfretado o feiticeiro no número 5 da revista e a garota se apaixonara por ele.


Dois heróis se encontram? É briga na certa! 


Mas, depois da desconfiança inicial, Conan descobre que zukhala está mudado. Ele não tem mais seus poderes, que usava para aterrorizar aldeões. E sua índole também mudou. Seu objetivo agora é salvar dois mundos da feitiçaria da Imperatriz Verde, uma antepassada de Elric que aterrorizara Melniboné e fora trancafiada num castelo no fundo de um lago. Em troca de ouro, Conan deverá impedir que ela seja despertada.

Claro que Conan e Zaphira vão se encontrar com Elric, que está indo para o mesmo lugar, o que inicialmente coloca os dois em combate, em consonância com a regra de ouro da Marvel: sempre que dois heróis se encontrem pela primeira vez eles devem lutar. Mas logo eles unem forças para impedir a destruição de dois mundos.

A primeira aparição da Imperatriz. 


O ápice da história é quando eles entram no castelo e encontram o feiticeiro Kulan-Gath promovendo um feitiço que irá despertar a Imperatriz Verde. Thomas joga muito bem com o suspense e Barry Smith cria uma batalha realmente empolgante. A página em que ela surge pela primeira vez é impressionante. Barry Smith consegue fazê-la linda e ao mesmo tempo aterrorizante, os pés delicados, a expressão de ódio, as mãos como garras. O texto de Thomas destaca ainda mais o momento: “Temam como nunca dantes, mortais... pois, em meio ao fulgor verdejante, uma tumba ancestral está desmoronando. Enfim ela ressuscitou! Terhali, a imperatriz verde e melniboné... reviveu!”.

Uma curiosidade é que na época, nas edições de bolso lançadas nos Estados Unidos, elric aparecia um chapéu cônico nas capas e os dois autores colocaram o personagem usando esse chapéu na história. Só anos depois Roy Thomas descobriu que Moorcock odiava esse chapéu, uma invenção dos editores americanos. Mas aí já era tarde demais.