sábado, julho 04, 2026

O abismo, de Charles Dickens e Wilkie Collins

 


Charles Dickens é autor da mais famosa história de natal de todos os tempos. É também um dos inventores do romance social, com Oliver Twist. Mas o que poucos sabem é que ele foi um dos precursores do gênero policial, uma faceta dele que pode ser vista em O abismo, escrito em parceria com Wilkie Collins.
A história inicia no Hospício dos enjeitados. Era nesse local que as mães solteiras entregavam deixavam seus filhos para serem adotados. Na sociedade vitoriana, ter um filho fora do casamento era uma vergonha tão grande que era providenciada maneira para que as mães pudessem deixar seus filhos sem serem reconhecidos: era a roda, que permitia fazer isso sem que fossem vistas. Isso também era feito para que as mães não pudessem reclamar suas crianças. Uma vez colocadas na roda, a separação deveria ser para sempre.
Mas uma das mães está arrependida, e a grande custo, descobre o nome que deram ao seu bebê: Walter Wilding. Anos mais tarde, subornando uma funcionária da casa, consegue descobrir quem, entre as várias crianças, é Walter Wilding e o adota.
A trama começa com essa criança na casa dos 25 anos, sócia de uma empresa de comércio internacional. A mulher que ele acredita ser sua mãe acabou de morrer. É quando ele descobre que não é quem pensava ser: o verdadeiro Walter Wilding foi adotado que ele chegasse no hospício e resolveram usar o mesmo nome em outra criança.
Isso provoca uma reviravolta na história, que levará a uma trama de crimes e amor. Impossível contar mais do que isso sem dar spoiller dessa intrigante trama policial.
Dickens tinha como uma das suas características mais patentes as coinscidências que provocavam reviravoltas no final e O abismo usa esse recurso talvez de maneira exagerada. Mas, como em outros livros de Dickens, a prosa é tão boa e tão envolvente que esse problema de verossimilhança acaba sendo esquecido pelo leitor.
O livro foi lançado no Brasil em uma belíssima edição da Nova Fronteira, em capa dura. É o tipo de edição que dá gosto de ler. 

Psicopatas: uma mente perversa

 

Psicopatas são pessoas acima de qualquer suspeita.
 Você provavelmente não sabe, mas conhece pelo menos um psicopata. Especialistas acreditam que até 3% da população pode ser composta de pessoas com esse tipo de transtorno de personalidade. Isso significa que a cada trinta pessoas, uma é psicopata. E, o mais importante: é aquele que você menos desconfia.
            A maioria das pessoas quando pensa num psicopata, pensa num louco assassino, de cabelos despenteados e cara de mau. Alguém de quem você certamente fugiria se encontrasse numa rua deserta à noite. As ilustrações de Jack, o estripador, refletem essa idéia. Ele geralmente é mostrado com os olhos esbugalhados, a boca distoricida, uma faca na mão e outra contraída em esgar de raiva e ódio. Na verdade, no caso de Jack e da grande maioria dos psicopatas, essa imagem é a mais distante possível da realidade. As prostitutas que foram vítimas de Jack sabiam dos outros assassinatos e não deixariam se aproximar qualquer pessoa suspeita. Além disso, a situação em que ocorreu os crimes demonstra que as vítimas confiavam no assassino. Uma delas até comeu uvas oferecidas por ele.
            Quando a canadense Leslie Mahaffy chegou em casa depois de uma festa e descobriu que os pais tinham deixado a porta fechada, achou que estava com sorte ao encontrar um rapaz de boa aparência e educado, que se ofereceu para ajudá-la. Ela foi com ele até sua casa, onde acabou trancafiada e serviu de escrava sexual durante duas semanas antes de ser morta, esquartejada e colocada em blocos que concretos que seriam jogados em um lago. 
            A literatura criminal mostra que psicopatas são pessoas simpáticas, acima de qualquer suspeita, pois sabem que se revelarem sua verdadeira face, serão presos imediatamente. Assim, adotam uma máscara social. 
            A grande maioria dos psicopatas nunca vai matar, mas viverá de enganar e destruir a vida de outras pessoas. "Eles andam pela sociedade como predadores sociais, rachando famílias, se aproveitando de pessoas vulneráveis e deixando carteiras vazias por onde passam", diz o psicólogo canadense Robert Hare, uma das maiores autoridades mundiais no assunto.
            Hare começou a se interessar pelo tema quando, recém-formado, arranjou um emprego no presídio de Vancouver. Sua função era atender presos com problemas psicológicos e montar perfis psicológicos para pedidos de condicional. Lá ele conheceu um preso chamado Ray. Era simpático, contava histórias envolventes e tinha um sorriso e que fazia qualquer um confiar nele. E o psicólogo confiou. Certo de que o preso estava dedicado a ter uma vida correta, ele o ajudou a passar para serviços melhores dentro da prisão, como a cozinha. Os dois ficaram amigos, até que Hare descobriu que Ray usava a cozinha para produzir bebidas alcoólicas e vender aos colegas. Os funcionários do presídio alertaram o psicólogo para o fato de que ele não foi o único a cair no golpe. Pouco tempo depois, o psicólogo viu a verdadeira face do psicopata: o gente boa Ray sabotou os freios de seu carro, o que quase provocou sua morte.
            A maioria dos criminosos demonstra uma preocupação responsável por seus amigos e parentes. Os psicopatas não se importam com ninguém e não criam laços afetivos.
Para saber mais sobre o assunto, clique aqui

A arte clássica de Eric Shanower

 


Eric Shanower começou a trabalhar com quadrinhos em 1986 adaptando uma série de livros no mundo de Oz escritas e desenhadas por ele. A série saiu pelas editoras First e Dark Horse.

Já na década de 1990 teve a ideia de contar em quadrinhos a Guerra de Tróia usando não só o relato mitológico, mas principalmente descobertas arqueológicas. Seu relato histórico do episódio ficou conhecido como A era de bronze. O primeiro volume foi lançado em 1998, pela Image Comics. A série já conta com 31 edições lançadas.

A era de bronze foi indicado diversas vezes ao prêmio Eisner, tendo ganhado duas vezes na categoria “Melhor escritor/artista”.

Seu traço na série é nitidamente influenciado pela linha clara dos quadrinhos europeus.










A ilha – uma distopia que derrapa no roteiro

 


A Ilha, filme de 2004, de Michael Bay, tem uma ótima premissa e tinha tudo para ser um verdadeiro clássico do cinema. No entanto, o roterio perde-se na tentativa desesperada de transformar uma distopia num filme de ação.

O grande problema é que o grande segredo do filme acaba se revelando cedo demais e sem impacto nenhum com o objetivo de partir logo para a ação desenfreada. A reviravolta é tão banal que todo mundo, mesmo aqueles que não assistiram o filme, já sabem: um grupo de pessoas é criada em um local afastado, um dos poucos refúgios seguros depois que a Terra foi devastada por uma doença. Todos ali sonham com o dia em que serão sorteados na loteria e terão direito a ir para A Ilha, o último local paradisíaco que sobrou.

Ocorre que a Ilha não existe, nem a doença que exterminou a humanidade. Tudo faz parte de um projeto médico e as pessoas que estão ali são clones de outras, que pagaram para terem clones cujos órgãos precisariam usar quando necessário. As pessoas sorteadas na loteria vão, na verdade, para a mesa de cirurgia, onde seus órgãos são retirados.

Um dos clones descobre a verdade e a partir daí tentar fugir e salvar uma amiga que foi sorteada na loteria.

Como havia uma necessidade tão grande de deixar tempo para a ação, não há tempo para que o telespectador crie uma empatia com os personagens. O expectador não sente, por exemplo, o medo do lado de fora (contaminado).

De resto, o filme sucinta várias discussões (não aprofundadas) e remete a várias outras obras. O mito da caverna, de Platão, em que pessoas vivem presas em uma caverna e tudo que vêm são sombras das coisas verdadeiras do lado de fora, é uma referencia óbvia. Para Platão, tudo que vemos tem a sua contraparte perfeita no mundo das idéias, da mesma forma que todos os clones do filme têm sua contraparte no mundo verdadeiro.

A questão da clonagem também é algo que não passa nem perto de ser aprofundado. No filme, os clones começam a desenvolver habilidades de seus originais. Matéria recente do Fantástico mostrou que pessoas que recebem transplantes começam a desenvolver características dos doadores, como se as células humanas guardassem algum tipo de memória não-genética.

Há algum tempo um cientista norte-americano concentrou suas pesquisas nas planária, um tipo de verme dos pântanos. As planárias têm características interessantes. Por exemplo, se você cortar uma ao meio, terá duas guzanos novas. É assim que ela se reproduz: agarrando-se a uma pedra e puxando o rabo até que cabeça e rabo se separem (convenhamos, o sexo foi uma descoberta bem mais divertida!). Pois bem, esse mesmo cientista descobriu que, se ensinasse um desses bichinhos a percorrer um labirinto, depois o retalhasse e desse de comer aos outros, os comilões aprendiam a percorrer o labirinto.

Tal experiência nos diz que talvez não fosse tão sem sentido a idéia dos índios brasileiros, que comiam a carne dos guerreiros abatidos afim de conseguir dele a sua coragem.

A estarrecedora conclusão de que habilidades e memórias podem ser transmitidas pela comida me faz pensar o que estamos comendo?

Ah, mas nem pense que A Ilha faz esse tipo de discussão: os tiros e perseguições de carro são bem mais importantes...

I-ching, o livro das mutações

 


            As mudanças constantes do universo são representadas nas figuras do Yin Yang. Yang representa a força masculina do universo, violenta, criadora. Yin é a força feminina, receptiva, flexível. Yin é a intuitiva, meditativa e complexa. Yang é racional, criativo e ativo.

            Na filosofia taoista, Yin e Yang são elementos do mesmo processo.  Quando um chega ao seu auge, engendra o outro. Ser sábio é combinar esses dois pólos, harmonizando Yin e Yang.

O estudo do ciclo de Yin Yang, embora seja muito influenciado pelas ideias taoistas, é comum a toda a cultura chinesa e já existia em um livro ancestral, o I-ching.

            A mais antiga forma de adivinhação chinesa era a leitura de sinais nos ossos de bois, surgidos depois que eram expostos ao fogo. Daí foi criada a adivinhação em cascas de tartaruga. Na dinastia Shang, o oráculo era consultado com o uso de varetas. O sábio jogava as varetas e determinava se a linha era inteira ou cortada. Depois de jogar seis vezes, formava-se o hexagrama e era possível interpretar seu significado.

            Em torno do ano 1150 a.C., o imperador Shang Chou Hsin mandou prender o governador da província de Chou, o rei Wen. Na prisão, ele elaborou os julgamentos dos hexagramas. Posteriormente, seu filho tomou o poder, tornando-se imperador e, descobrindo o trabalho do pai, resolveu ampliá-lo, escrevendo os comentários às linhas mutáveis. Posteriormente, o oráculo foi enriquecido com comentários atribuídos a Confúcio e seus discípulos.

            O I-ching não é um livro de adivinhações, pois ele não prevê o futuro, mas estabelece o estado em que as coisas estão, analisando a mudança e a relação entre as forças Yin e Yang.

            Por exemplo, no primeiro hexagrama, todas as linhas são inteiras. A imagem formada representa uma situação apenas de linhas fortes Yang, que significam força, criatividade e liderança, razão pela qual esse hexagrama é normalmente chamado de O criativo. O julgamento diz que as forças do céu impelem o homem e o ajudam a iniciar ou levar adiante um empreendimento. O comentário diz que “as forças da natureza favorecem tudo aquilo que se inicia”.

            O hexagrama oposto, chamado de O receptivo, é formado apenas por linhas cortadas, representando Yin, a passividade, a dedicação e concórdia, a diplomacia, a perseverança e a paz. O julgamento diz que o sucesso está garantido se a pessoa que consulta o oráculo colaborar e se deixar conduzir, mantendo-se sempre flexível e disponível. O comentário diz que “Ser receptivo é muito importante, pois todos os seres lhe devem o nascimento. Como a Terra, cuja função é receber a semente que depois darão os frutos, também obterá muitos benefícios àquele que souber tolerar e compreender as pessoas e as situações”.

Entenda por que os comentários estão sendo moderados

 


 - Gian, entrei no seu blog e tentei comentar numa matéria, mas não ele não foi publicado imediatamente 

- Infelizmente eu tive que acionar a moderação de comentários. 

- Mas por quê? 
- Olha o tipo de comentário que os bolsominions estavam postando. 



- Caramba, são dezenas de comentários iguais o cara já começa te chamando de stalinista! 

- Pois é, virei um "extremista de esquerda stalinista"! 
- Caramba! 
- É o culto à personalidade. Como eles consideram o Bolsonaro um semi-deus, qualquer um que não o idolatre é imediatamente chamado de comunsita, petista, stalinista, dentista, skatista, surfista, remista. E pode colocar na conta vários outros "comunistas": Jim Starlin vira marxismo cultural, Raul Seixas vira marxismo cultural, Alan Moore vira marxismo cultural. E, para eles, comunista precisa ser preso. Para eles a Globo é comunista, a Folha de São Paulo é comunista, o Estadão é comunista. Esse tipo de gente só se informa pelo zap zap e por canais bolsonaristas como o Terça-livre. Qualquer coisa fora disso é comunismo. 
- O cara está te chamando de lulo-petralha?!!!



- Pois é, eu que nunca votei no PT, que sempre critiquei o PT, que na época da faculdade vivia em pé de guerra com os petistas da turma, de repente virei petralha só porque me recuso a idolatrar o mito. 
- E você praticamente nem fala de política no seu blog. 
- Pois é. Mas a estratégia deles é Dart Vader: ou você idolatra o Capitão ou é comunista, stalinista, petista, skatista, surfista, dentista, remista. Teve um "amigo" bolsominions que ameaçou me dar um soco só porque eu disse que político é para ser cobrado não para ser idolatrado. Outro disse que o pior tipo de "comunistas" são os "isentões": isentão aí significa alguém que se recusa a idolatrar o mito deles, mas ao mesmo tempo não idolatra o Lula, que se recusa a tecer elogios à ditadura militar, mas também não elogia a Coréia do norte. Antigamente para ser comunista precisava ser fã do Karl Marx, precisava ler o Manifesto Comunista, precisava acreditar em ditadura do proletariado. Hoje em dia, para ser comunista, basta não idolatrar o mito.
- Ele te acusa de cometer um gesto lulo-petista. Que gesto lulo-petista é esse?
- Me recusar a idolatrar o mito. Para quem escreveu esse comentário, qualquer um que não idolatre o mito está cometendo um gesto lulo-petista. Ou seja, na cabeça dele, está cometendo um crime. São pessoas que só se informam pelo zap zap e por vídeos de teoria da conspiração.
- Caramba, estou lendo aqui. O cara está ameaçando te denuncia... Te denunciar para quem? 
- Para os militres, provavelmente. 




- Estou vendo aqui. Ele te acusa de doutrinar os alunos. Fui seu aluno e você nunca falou de política em sala de aula. 
- Deve ser porque uso camisas da Marvel em sala de aula. Dizem que estou doutrinando os alunos a gostarem da Marvel. Nisso, confesso, sou culpado. Mas em minha defesa posso dizer que gosto da DC quando ela é desenhada pelo Garcia-Lopez.... rsrs... 
- Nossa, o cara diz que vai fazer você perder o emprego! Chega até a te chamar de estelionatário! 
- Só faltou dizer que vai me prender e  torturar pessoalmente para que eu confesse todos os meues crimes...kkkk Tudo isso porque eu me recuso a idolatrar o Capitão. E é esse pessoal que diz que é a favor da liberdade. A liberdade que eles querem é a liberdade de poder denunciar e prender quem pensa diferente deles. E como você pode ver, postaram essas ameaças dezenas de vezes no blog antes que eu bloqueasse os comentários. É por isso que não é mais possível comentar no meu blog. Infelizmente, tive que bloquear essa possibilidade de contato com meus leitores por causa desse tipo de comentário ameaçador.   
- Assustador, melhor manter os comentários do blog moderados mesmo.  
- Pois é. Melhor do que dar voz a gente desse naipe, que só se informa pelo zap zap e acredita em todas as teorias da conspiração possíveis. 

sexta-feira, julho 03, 2026

Thor contra Zarrko, o homem do amanhã

 


Thor era o herói mais poderoso da Marvel, tão poderoso que Stan Lee precisava criar artifícios para produzir algum tipo de suspense e fazer com que a vitória sobre os vilões não fosse tão fácil. Foi o que aconteceu em Journey into Mystery 101, na qual o deus do trovão enfrenta Zarkko, o homem do amanhã.

A história inicia de maneira inusitada, com o personagem atravessando a cidade e destruindo tudo em seu caminho, de latas de lixo a carros (e Homem-de-Ferro indo atrás e pagando os prejuízos). A razão é que ele continua apaixonado pela enfermeira Jane Foster e Odin, seu pai, não autoriza o relacionamento. Como um garoto mimado, o deus do trovão sai destruindo tudo por onde passa.

Irritado, Thor sai destruindo tudo pelo caminho... 


Odin vê o episódio e, instigado por Loki, resolve punir o filho, tirando dele metade de seus poderes.

Acontece que justamente nessa situação surge do futuro um antigo inimigo de Thor, Zarkko. Como no futuro não existem armas ou máquinas de guerra, ele traz um robô de mineração para botar o terror no século XX.

... o que faz com que ele perca metade dos poderes exatamente quando surge uma ameaça do futuro. 


A história é arte-finalizada por George Bell, que parece não entender muito bem o estilo de Jack Kirby, deixando seu desenho sujo e tirando um pouco do impacto. A saga se estenderia até o número 102, que já teria a arte-final de Chic Stone, alguém que se adaptava melhor ao estilo do rei.

Kirby, aliás, parece feliz da vida com esse roteiro, que lhe dá a oportunidade de desenhar robôs e máquinas futuristas (embora não com tanta maestria quanto ele faria mais à frente).

Um enredo perfeito para Kirby usar sua criatividade. 


Uma curiosidade sobre essa história é que pela primeira vez vemos uma menção ao fato do martelo mjorn voltar para as mãos de Thor, um recurso maneiro, que, no entanto, acabava com um expediente de suspense comum até então: o de que o herói voltava a ser Don Blake depois de 60 segundos longe do seu martelo.

Em nome de Deus

 


João de Deus era uma unanimidade nacional, visto como um homem santo, que não cobrava por suas curas e vivia uma vida humilde. Parecia ser alguém acima de qualquer suspeita, até que a equipe do programa Conversa com Bial, da Rede Globo, resolvesse entrevistá-lo. Ao assistir um documentário sobre ele, o apresentador desconfiou de algo e colocou sua equipe para investigar.  Com o tempo se revelou uma história de horror, que envolvia o estupro de centenas de mulheres, homicícios, tentativas de homicícios, contrabando, tráfico de drogas, armas e muito, muito dinheiro.
A história se tornou tão grande que levou a equipe produzir um documentário em seis partes, “Em nome de Deus”, disponível na plataforma GloboPlay.  
O documentário se debruça sobre o programa que denunciou o médium e fez com que toda a história fosse revelada. Mas vai muito além.
O médium já tinha sido denunciado por estupro e foi inocentado pela juíza. Os casos remontam até a década de 1970, quando ele, após violentar uma jovem, tentou matá-la com vários tiros.
Mas nada disso vinha público porque havia uma extensa rede de proteção, que envolvia policiais, juízes e até jagunços, que ameaçavam quem tentasse denunciá-lo.
Como um Al Capone moderno, João de Deus cobrava uma mesada de todos os empreendimentos na pequena cidade de Abadiania: de taxistas a donos de pousadas, todos pagavam, ou recaiam em sua fúria.
O programa também esmiúça o surgimento do médium, desde a infância pobre até a fama internacional. Nesses trechos, inclusive, fica muito clara a psicopatia do mesmo: a cada vez que contava como iniciou sua mediunidade, ele mudava a versão, como se quisesse aperfeiçoar a história.
Em nome de Deus é um documentário chocante e relevante, atrapalhado apenas pelo artificialismo do padrão Globo em algumas sequências.

Perry Rhodan – Atenção, teleportadores!

 


Uma das maiores ameaças enfrentadas pelos terranos no quinto ciclo é a fortaleza dos maahks, uma nave espacial no formato de roda gigante tão monstruosamente grande que se configurava um verdadeiro planeta, com centenas de quilômetros de extensão. Para derrotar um artefato tão inexpugnável, Rhodan recruta seus mutantes teleportadores Tako Kakuta, Ras Tschubal e Gucky. Esse é o mote do número 219 da série, escrito por Kurt Mahr.

Este volume apresenta o mesmo problema da maioria dos livros da série Perry Rhodan: o escritor precisava cumprir um determinado número de páginas e, para isso, enrolava o mais que podia.

Boa parte dessa enrolação acontece no planeta Kahalo, cujas pirâmides coordenam o transmissor estrelar, capaz de transportar naves até galáxias distantes. No meio de tudo isso, os terranos encontram, vagando no espaço, corpos de astronautas amarrados. Isso poderia ser uma antecipação de algo futuro, um flash foward, como se diz em roteiro, mas parece fazer parte da narrativa linear, de modo que a descoberta desses corpos fica jogada apenas como uma ponta solta. Nos números seguintes isso teria alguma explicação?

A capa alemã. 


Um aspecto interessante na missão dos mutantes é o fato de que, quando se teleportam para a fortaleza, eles encontrarem uma criança maahk, o que poderia ser usado para humanizar o inimigo. Mas o escritor não se aprofunda muito e quando a criança reaparece, lá na frente, é mostrada de forma estereotipada e odiosa.

Do ponto de vista técnico, o volume traz uma informação interessante sobre a tecnologia dos maahks: eles usam, para decolar suas naves, uma tecnologia de “campos catapulta”, que pode ser usada também para impedir a ação de teleportadores – o que garante os momentos de maior suspense da história. Vale lembrar que Kurt Mahr era, entre os autores, o que tinha mais conhecimento técnico e científico, servindo muitas vezes como consultor para a série.

O volume termina com um gancho, deixando os mutantes em uma situação de extremo perigo, de modo a provocar no leitor o interesse em ler o número seguinte.

No final, Atenção, teleportadores poderia ser um volume interessante... se tivesse pelo menos 30% a menos de páginas.

Uma curiosidade é com relação à capa. Ela representaria os mutantes perdidos no espaço ou os corpos encontrados logo no início da história?

O curupira

 


O curupira foi o primeiro ser encantado brasileiro registrado pelos europeus. Em uma carta de 1560, José de Anchieta já o citava. Em 1663, o padre Simão de Vasconcelas referia-se a ele como um gênio de pensamento “num exótico de mentiras e enganos”.
Esse ser mitológico mudava de local para local, chegando mesmo a mudar de nome: Curupira na Amazônia e Caipora ou Caapora no sul. Em comum, a característica de ser o protetor da floresta, que castiga quem mata caça pequena ou fêmeas ou prejudica a floresta de alguma forma.
Segundo Câmara Cascudo, “Vigiando árvores, dirigindo manadas de porcos-do-mato, arracadas de veados e pacas, assobiando estridentemente, passa a figura esguia e torta do Curupira, o mais vivo dos deuses da floresta tropical, presente às histórias infantis aos episódios de caça, aos acidentes da luta do homem n´Amazônia. É o eplicador dos mistérios, passando seus cabelos de fogo, seus pés virados como Enotocetos de Mégasthènes, registrados em Estrabão, seus dentes azuis, seus assobios açoitantes, na memória de todas as recordações”.
O maestro paraense Waldemar Henrique eternizou-o numa canção:

“Já andei três dias e três noites pelo mato
Sem parar
E no meu caminho não encontrei nenhuma
Caça pra matar
Só escuto pela frente pelo lado o Curupira
Me chamar
Ora aqui, ora ali, se escondendo sem
Parar num só lugar
Por esse danado muitas vezes me perdi
Na caminhada
E nem padre nosso me livrou desse
Danado da estrada”

O curupira aparece no meu romance Cabanagem desenhado pelo grande quadrinista Laudo numa imagem que representa bem o caráter do mestre do engano.

Compre o livro Cabanagem no site da editora: https://aveceditora.com.br/produto/cabanagem

Fundo do baú - Matraca Trica e Fofoquinha

 


Matraca Trica e Fofoquinha (Breezly and Sneezly no original) é mais um dos desenhos animados da Hanna-Barbera que junta um personagem alto supostamente esperto e um ajudante baixinho que o idolatra. No caso temo um urso polar, Matraca Trica e uma foca que vive gripada e espirrando, Fofoquinha.

A maioria das histórias gira em torno das tentativas de Matraca de entrar no quartel comandado pelo coronel Mandragão. As tentativas sempre terminam em muita confusão, para desespero do coronel.

Em um dos episódios, Matraca compra uma geladeira (“Não consigo resistir à lábia de um vendedor”) e quer entrar no quartel para ligar o aparelho. Claro que o coronel descobre o plano e coloca os dois para correr – e eles vão se esconder exatamente no campo de tiro para tanques, quase sempre se posicionando dentro ou atrás de algum alvo.

Lançado no ano de 1964, o desenho teve 23 episódios produzidos.

X-men – fuja para sobreviver!

 


Em The Uncanny X-men 131 a saga da Fênix Negra, que começara tímida, estava no que parecia o auge da ação e do drama.

A edição começa com Kitty Pryde fugindo dos homens do Clube do Inferno, numa splash page impressionante com a menina desesperada em primeiro plano enquanto, sem segundo plano, as luzes dos faróis de um carro rompem a escuridão da noite. Nas laterais, os rostos dos X-men no estilo que só John Byrne sabia fazer. O texto de Chris Claremont é igualmente impactante: “A hora: madrugada de sábada para domingo. O lugar: um beco deserto do centro de Chicago. Por várias vezes Kitty Pryde pensou ter despistado seus perseguidores...mas eles sempre a reencontram!”.



Na página seguinte, Kitty cai, mas antes que seja aprisionada aparece a Fênix. A imagem é impressionante e antecipa os rumos funestos que a série teria. A heroína simplesmente destroça o carro, seus cabelos ruivos esvoaçantes desenhados como fogo flamejante. Byrne também fazia uma aura de poder com uma camada branca em volta do corpo rodeada por um fluxo amarelo. O efeito era de uma chama. Cristal espanta-se: “Perto disso, minha habilidade mutante de criar luzes não é nada!”.



Na sequência, Fênix lê a mente de um dos homens do Clube do Inferno e descobre onde os outros X-men estão mantidos prisioneiros.

A sequência mais incrível dessa história acontece quando os mutantes já invadiram o local e a Fênix e a Rainha branca duelam. Byrne manipulava perfeitamente os elementos visuais e coloca um fundo branco com a Fênix encoberta pelo pássaro defogo atacando enquanto a vilã se defende com um raio verde. Ororo olha espantada: “O efeito Fênix é tão lindo... e tão terrível! Como a própria Jean”.



No final, parece que tudo acabou. Mal sabia o leitor que era só o começo. O que parecia o auge da saga era apenas uma pequena amostra do que viria pela frente.

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 26.