quinta-feira, junho 04, 2026

Perry Rhodan – Gêmeos, o foco dos acontecimentos

 


No número 218 finalmente os terranos entram em combate com os seres que seriam em grande parte os adversários dos mesmos no quinto ciclo. Trata-se dos respiradores de metano, os maahks, a serviço dos senhores da galáxia.

Na história, a fortaleza na forma de roda gigante está atacando o planeta quinta como forma de conquistar o controle sobre o mecanismo de teletransporte entre as galáxias.

A primeira descrição dos maahks aparece lá pela metade do livro: “A figura grotesca era robusta, com mais de dois metros de altura. Tinham ombros largos, pernas de tronco curtas e braços que chegavam até o joelho”. Mas o que mais se destacava é que eles não pareciam ter cabeça. No lugar havia uma protuberância no formato de meia-lua.



Além da aparência estranha, o que os caracteriza é a coragem absoluta. Eles só param de lutar quando estão mortos, o que faz Rhodan sugerir: “Eu gostaria de tê-los como aliados”.

Poderia ser um livro memorável, mas é escrito por H. G. Ewers, um escritor mediano. Ewers inclusive força muito a verossimilhança da narrativa. São muitas coincidências para se acreditar. Por exemplo, quando Rhodan desce no planeta sitiado, acaba indo parar exatamente num lugar que é um centro de controle alternativo que os terranos não conheciam e que está sendo tomado pelos respiradores de metano. Essa feliz coincidência faz com que os terranos consigam debelar os planos do inimigo. Forçado, não?

Depois da longa sequência do planeta Horror, que já estava se tornando insuportável, o livro é um alívio por mudar o palco dos acontecimentos. Mas poderia ser muito melhor.

Homem de Ferro - Suspeito de assassinato

 

  

A dupla identidade de Tony Stark - Homem de Ferro criou situações interessantes, que se tornaram o motor de muitas tramas na era de prata.

Uma das mais curiosas foi a publicada no número 60 da revista Tales of Suspense. Na história, Stark teme tirar a armadura e isso provocar sua morte. Ocorre que isso gera um problema: as pessoas próximas ao empresário e até a polícia começam a achar que o Homem de Ferro matou Stark para se apropriar da sua fábrica. A situação se complica mais ainda quando ele é visto tirando dinheiro do cofre. 

O Homem de Ferro torna-se suspeito de ter assassinado Tony Stark... 


Ironia das ironias: o personagem se torna suspeito de ter matado a si mesmo. 

Claro que uma história de super heróis teria que ter um vilão, e Stan Lee providencia isso fazendo o Gavião Arqueiro, influenciado pela Viúva Negra,invadir a fábrica para roubar segredos militares.

Ei, há um padrão aí: um drama pessoal se mistura com uma ameaça à fábrica!

... enquanto isso, o Gavião Arqueiro invade a fábrica. 


Essa história traz um belo texto final, que reflete toda o dilema do personagem: “E assim nos despedimos do vingador dourado... enquanto ele trabalha sozinho em seu laboratório, desesperadamente tentando encontrar uma maneira segura de retirar sua armadura, que o faz um dos homens mais poderosos do mundo... e um dos mais trágicos!” 

Em tempo, essa história é arte finalizada por Dick ayers, que definitivamente não combinava com o traço refinado de desenho de Don Heck.

Exposição Olá, Maurício

 

A exposição Olá Maurício foi uma homenagem ao universo da Turma da Mônica e seu criador, Maurício de Sousa. Sediada no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo, a exposição fez tanto sucesso que se estendeu de 17 de julho de 2019 a 16 de fevereiro de 2020. Eu a visitei logo no primeiro mês. Confira as imagens.


















 

Livro O roteiro nas histórias em quadrinhos

 


 

Neste livro sobre roteiro para HQ, o neófito pode encontrar todas as dicas para se tornar um roteirista de qualidade. Escrever quadrinhos, ao contrário do que muitos pensam, exige esforço, dedicação e preserverança. Exige também muita leitura. O primeiro passo é ler este livro. 

Valor: 25 reais (frente incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com. 

Estômago - filme une culinária e policial

 


Filmes de culinária são tão comuns que chegam a formar quase um gênero cinematográfico próprio. No entanto, Estômago, longa-metragem dirigido por Marcos Jorge e lançado em 2007, consegue trazer uma abordagem completamente inovadora e provocante para esse tipo de produção.

Na história, acompanhamos a jornada de Raimundo Nonato, um imigrante nordestino que chega à cidade grande sem um tostão no bolso ou um lugar para ficar. Ele acaba parando em um boteco decadente, onde devora duas coxinhas e, por não ter como pagar a conta, é obrigado a lavar a louça para quitar a dívida. É nesse ambiente simples que ele revela um talento nato para a culinária. O bar, antes frequentado apenas por alguns clientes esporádicos, transforma-se em um ponto de encontro movimentado, graças, principalmente, ao tempero e às coxinhas irresistíveis de Raimundo.

A destreza do imigrante na cozinha é tanta que ele logo chama a atenção do dono de um restaurante italiano refinado, sendo convidado a trabalhar no local. Ali, Nonato aprende as técnicas e os segredos da alta gastronomia.

Entremeada a essa trajetória de ascensão, acompanhamos uma linha temporal paralela que se passa no futuro. Ela mostra Raimundo chegando a uma cela de prisão superlotada e tentando sobreviver naquele ambiente hostil. Com inteligência, ele passa a usar seus dotes culinários para seduzir o paladar e conquistar a proteção do carismático chefe do pavilhão, o detento Bujiú.

Além da atuação soberba de João Miguel, o que mais magnetiza o espectador é a habilidade do filme em fundir a gastronomia ao cinema policial. Enquanto assistimos à evolução profissional de Raimundo no passado, somos constantemente instigados a adivinhar qual crime terrível o levou àquele cárcere — um suspense que o roteiro, assinado por Lusa Silvestre, Cláudia da Natividade, Fabrizio Donvito e Marcos Jorge, sustenta com maestria até os minutos finais. O texto consegue costurar tudo por meio da comida, inclusive as paixões viscerais e a motivação do crime.

Se essa premissa já não tornasse a obra interessante o bastante, o filme ainda entrega um dos plot twists mais saborosos e surpreendentes do cinema nacional.

Estômago está disponível no catálogo da Netflix e é um prato cheio para quem busca um cinema inteligente, sarcástico e tipicamente brasileiro.

quarta-feira, junho 03, 2026

Sherlock Holmes e grandes contos de fantasmas, piratas e mistério

 


Embora seja mais conhecido por ter criado Sherlock Holmes, Conan Doyle tem uma ampla produção de contos nos mais variados gêneros. Mostrar essa diversidade literária através de quadrinhos é o objetivo do álbum Sherlock Holmes e grandes contos de fantasmas, piratas e mistério, organizado por Tom Pomplum e lançado aqui pela editora Rai.

O organizador Tom Pomplun foi buscar nos meios alternativos norte-americanos autores para essa antologia, de modo que a maioria dos nomes é desconhecida do público brasileiro.

Geary faz uma ótima adaptação de uma história de Sherlock Holmes. 


Talvez o mais conhecido entre nós seja Rick Geary, que já tinha participado da coleção Clássicos Ilustrados, publicado pela editora Abril e aqui assina uma adaptação de uma história de Sherlock Holmes, A aventura de Copper Beeches. Esta, aliás, é a melhor história do do volume. O traço simples, mas altamente funcional de Geary encaixa perfeitamente nessa história sobre uma governanta envolta com um trabalho cheio de exigências pouco convencionais e mistérios. Geary também assina a ótima capa.  

Capitão Sharkey, adaptado por Tom Pomplun é outro dos destaques do álbum. Conta a história do mais sanguinário e deplorável dos piratas: “Histórias assustadoras eram contadas sobre seu cruel senso de humor e sua inflexível ferocidade”. Mas um dia seus próprios comandados se cansam dele e resolvem deixá-lo numa ilha deserta para ser descoberto pelas autoridades. Preso, Shakey é condenado à forca. Mas ele tem um plano para fugir. A adaptação funciona, apesar do traço de Pomplun ser excessivamente sujo, com hachuras que na maioria das vezes parece não acrescentar nada.

O traço sujo de Poplum funciona na história sobre fantasmas. 


O mesmo Poplum assina Os fantasmas de Goresthorpe Grange, sobre um homem fascinado por fantasmas que compra um castelo medieval e contrata um “agente do mundo dos espíritos” para povoar o local de fantasmas. O traço de Poplum muda para um estilo mais caricato aqui, em consonância com o tom de farsa do conto, o que mostra uma boa visão narrativa. O traço novamente é muito sujo, embora essa característica combine bem com as sequências das aparições dos fantasmas.

Outro destaque do álbum é a história do Brigadeiro Gerard, um personagem pouco conhecido de Doyle. 


Além dessas há histórias curtas, algumas de pouco interesse, como O mestre, ilustrado por Roger Langridge, outras divertidas, como uma parábola de uma página ilustrada por Neale Blanden. Outras são completamentes em sentido, como O fiasco de Los amigos, ilustrado por J. B. Bonivert.

No geral, é um volume divertido, que permite perceber a amplitude da produção de Doyle.

Radioactive – filme conta a vida de Marie Curie

 


Marie Curie é uma das mulheres mais importantes da ciência. Ganhadora de dois prêmios Nobel por suas pesquisas sobre radiação, foi a pessoa que abriu caminho para que as mulheres pudessem ingressar na vida científica, até então um meio dominado praticamente só por homens.

É a vida dessa heroína da ciência que é contada no filme Radioactive. A diretora do longa lançado pelo Netflix é a iraniana Marjane Satrapi, mais conhecida no Brasil pela história em quadrinhos Persépolis. Por sua vez, Satrapi adapta a história em quadrinhos Radioactive: Marie & Pierre Curie: A Tale of Love and Fallout, de Lauren Redniss.

O filme conta a história da cientista desde quando ela conhece seu futuro marido, Pierre Curie. Este não só se apaixona por ela, como consegue perceber que tratava com uma pessoa genial – e geniosa. O casal se envenou com radiação quando fazia suas experiências. Pierre, que adoeceu antes, foi atropelado por uma charrete e morreu. Marie morreu muito tempo depois. Sua trajetória inclui as dificuldades de uma mulher cientista sociedade conservadora e xenófoba e a falta de verbas para pesquisa.

A grande questão por trás da pesquisa de Pierre e Marie é que a descoberta feita por eles representou esperança e saúde, como a radioterapia para câncera e o raio x, que salvou diversas vidas, mas também provocou milhares, talvez milhões de mortes, a exemplo das bombas atômicas sobre o Japão. O filme explora muito bem esse aspecto ao introduzir insertes com cenas futuras, flash fowards, que explicam ao expectar os aspectos nocivos e benéficos da radiação. Mais do que uma biografia, o filme se torna também um comentário sobre como descobertas importantes podem ser apropriadas para o bem e para o mal.

Além da direção segura e realmente competente de Satrapi, o filme conta com a atuação inspirada de Rosamund Pike no papel principal. Difícil pensar em Marie Curie sem lembrar da atuação dessa atriz. Anya TaylorJoy, que faz a filha da cientista, aparece apenas na segunda parte, mas rouba a cena.

Em outras palavras: é um filme em que mulheres, apropriadamente, brilham.

Artigo sobre Cláudio Seto na revista Imaginário!

 

A revista Imaginário, do Núcleo de Arte, Mídia e Informação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual da Paraíba, publicou meu artigo "Shibari: a arte japonesa das cordas nos quadrinhos de Cláudio Seto". Para ler, clique aqui.

Fredric, William e a Amazona – perseguição e censura aos quadrinhos

 


Dois homens fundamentais para a história dos quadrinhos foram William Moulton Marston e Fredric Wertham. O primeiro foi o criador da Mulher Maravilha e o responsável pela introdução do feminismo nos quadrinhos. O segundo foi o psicólogo responsável tanto pela perseguição aos quadrinhos como pela péssima imagem que essa mídia ganhou por muito tempo (qual criança das décadas de 50, 60, 70 e 80 não foi em algum momento repreendida por ler gibis?).

É a história desses dois homens que  Jean-Marc Lainé e Thierry Olivier contam no volume Fredric, William e a Amazona – perseguição e censura aos quadrinhos recentemente lançado pela editora Pipoca e Nanquim.

Os autores usam a técnica da biografia paralela, em que as vidas de duas pessoas são contadas ao mesmo tempo, num narrativa que os compara.

A inspirada capa, exemplifica muito bem isso – e representa o único momento na história em que ambos se encontram: uma banca de revistas (que surge durante toda a história), tendo Wertham e Marston de cada lado, ambos folheando comics books e se observando pelo canto do olho, enquanto, acima da banca, vemos a bota da Mulher Maravilha.

Wertham acreditava que os gibis influenciavam a juventude a cometer crimes. 


É uma narrativa curiosa, poucas vezes vista nos quadrinhos. Não é contada como uma história linear, em que alguns fatos levam a outros que levam a outros que levam a outros. Ao contrário, o que temos são cenas isoladas de um e de outro personagem. Cabe ao leitor completar o que ocorre entre uma cena e outra (num exercício mais extenso daquilo que o leitor de quadrinhos já faz).

Essas cenas normalmente se cruzam em aspectos temáticos. Marston tenta inocentar um homem usando seu detector de mentiras (que não é aceito no tribunal), enquanto Wertham, ao trabalha como consultor psicológico, tenta entender as motivações do psicopata Albert Fish – um caso que o torna ainda mais resoluto em sua hipótese de que os crimes são cometidos não por uma índole genética, mas por influência do ambiente, algo que indiretamente o levaria a sua cruzada contra os quadrinhos. Momentos chaves da trajetória de um e de outro são mostrados, como a roteirista que iria escrever histórias da Mulher Maravilha recebendo um livro feminista ou a diretoria da DC tirando a personagem das mãos da família Marston e a entregando a um roteirista que levaria a personagem totalmente oposta do feminismo que a caracterizou.

O álbum conta os bastidores da criação da Mulher Maravilha.


Ao contrário do que se poderia esperar, Wertham não é mostrado como vilão (sua atuação junto à comunidade negra mostra que ele era bem intencionado), da mesma forma que Marston não é mostrado como herói. São dois homens complexos cujas várias facetas são visíveis no álbum. Wertham talvez tenha sido o mais complexo, pois, apesar de sua boas intensões, o resultado de sua atuação teve resultados desastrosos.

No final, parece que as 92 páginas do álbum foram pouco para dois personagens tão complexos. Pouco também para a história contada.

A arte impressionante de Ken Barr

 


Ken Barr é um artista escocês conhecido por suas pinturas que ilustram capas de quadrinhos, livros e cartazes de cinema.

Ele começou sua carreira na década de 1950 com capas na revista de ficção científica Nebula.

Em 1968 mudou-se para os EUA e começou uma prolífera carreira com capas de fantasia para publicações da Warren, como Creepy e Vampirella.

Nos quadrinhos ele fez trabalhos para a DC e para a Marvel, incluindo Doc Savage e Planeta dos Macacos.

Aos poucos ele foi estabelecendo também uma reputação com pintor de capas de livros. Suas capas para o selvagem Conan se tornaram célebres.

Além disso, ele pintou diversos cartazes de cinema.

Ken Barr morreu  em 2016, aos 83 anos. 
















A Máquina do Tempo, de H. G. Wells

 

Viagens no tempo sempre existiram. Rip van Winkle, de Washington Irving, publicado em 1819, conta a lenda de um homem que dorme na floresta e acorda 20 anos depois. Um conto de Natal, de Dickens, publicado em 1843, conta a história de um homem avaro visitado por três espíritos que o levam ao passado, ao futuro e ao presente. Já Um Yanke na corte do rei Arthur, de 1889, escrito por Mark Twain, mostra as aventuras de um americano que retorna à Idade Média.
Mas as viagens no tempo se tornam um gênero próprio com A máquina do tempo, escrito por HG Wells e publicado em 1895. Até então as viagens eram involuntárias, fruto de acontecimentos fantásticos. Wells trouxe a ciência para a jogada. Seu protagonista não viaja no tempo graças a fantasmas ou seres sobrenaturais, mas com uma máquina construída graças ao progresso técnico.
O escritor britânico também inovou ao introduzir a crítica social e o paradigma evolucionista à trama. Na história, o protagonista viaja até o ano de 802.701 e vê uma Londres decadente, dominada por dois grupos: os Eloi, evoluídos a partir da aristocracia, que se transformam em seres diminutos, frágeis e ocioso e os Murdock, evoluídos a partir das classes trabalhadora, seres monstruosos, canibais, que vivem no subterrâneo.
Ao introduzir a ciência na viagem no tempo e usar o recurso para refletir sobre o mundo em vivemos e como será seu futuro, Wells abriu as portas para diversas outras obras, desde o ingênuo seriado Túnel do Tempo até o complexo filme Os 12 macacos.