quarta-feira, outubro 28, 2026

Guerras Secretas – Situação desesperadora

 


O número quatro da série Guerras Secretas começa com o Homem Molecular destruindo a fortaleza dos heróis e recebendo afagos apaixonados de Vulcana (a personagem que Jim Shooter tirou da cartola ao escrever a série):

- Incrível! Você destruiu esse lugar só com um gesto, Homem Molecular.

- Ora, para alguém quem controla moléculas, isso não é nada!

O Homem-Molecular garante a vitória dos vilões. 


Mesmo assim, com a fortaleza sendo dizimada molécula por molécula, os heróis sobrevivem – o roteirista não se preocupa em explicar como.

Ao perceber que os heróis se salvaram, o Homem Molecular joga uma montanha em cima deles (mesmo assim eles sobrevivem graças ao Hulk, que segura a montanha, gerando uma bela capa). Logo depois, Thor e Encantor aparecem por ali depois do interlúdio romântico e os vilões resolvem matar o deus do trovão, algo que é feito por Ultron com um raio desintegrador. Depois descobrimos que Thor sobreviveu ao invocar um trovão e sumir dali.

Os heróis morrem... mas não morrem. 


É tanto morre-não-morre-morre-não morre que começa a incomodar. Fica óbvio que as aparentes mortes são apenas um artifício dramático barato – o que tiraria o impacto de qualquer morte real. Numa comparação com Crise nas infinitas terras: na série da DC todo mundo que morria, morria de fato (pelo menos ali, naquela publicação).

Em uma narrativa paralela, os X-men se refugiam na fortaleza de Magneto, onde encontram o moço no interlúdio romântico com Vespa.  Magneto argumenta que o grupo de mutantes deve assumir um papel agressivo: “Se Destino triunfar, Beyonder realizará todos os seus desejos egoístas! Porém nós, com a ajuda de um ser tão poderoso, criaríamos uma nova era, onde humanos normais e mutantes viveriam em paz”.

Thor morre... mas não morre. 


Surpreendentemente, a Vespa, que até então parecia apaixonada pelo rei do magnetismo passa a atacá-lo. Qual a parte de “Humanos normais e mutantes vivendo em paz” que a fez se tornar tão agressiva, do nada?

Os personagens pareciam agir de acordo com as necessidades narrativas do roteirista, que precisava ali de um conflito para ter mais algumas páginas de porrada.

Aliás, todos os personagens parecem agir assim. Ninguém tem uma ação que seja fruto da sua jornada e da lógica interna da história – são todos escravos das necessidades da roteirista.

A curiosa experiência de Thomas Dumbar

 

  

O segundo e-book da série Sci-fi Tropical é também focado no tema super-humanos (o Primeiro foi O reinado do Super-homem, de Jerry Siegel).

Escrito por Gertrude M. Barrows,  A curiosa experiência de Thomas Dumbar foi publicado na revista Argosy em março de 1904, o que faz dessa obra senão o primeiro, certamente uma das primeiras obras a abordarem o tem “humano com super-poderes”. Uma curiosidade é que o editor considerou que os leitores não aceitariam bem o texto de uma mulher, de modo que creditou a história como G. M. Barrows.

O conto narra a história de um homem, vítima de um acidente de automóvel que acaba sendo levado pelo responsável pelo acidente para sua casa, onde é tratado. Pode parecer um mote estranho, mas considerando-se que nos EUA não existe serviço público de saúde, nesse contexto parece verossimilhante alguém aceitar ser levado para a casa de alguém ao invés de para um hospital.

Ocorre que o homem que o socorreu é um cientista cuja experiência, inadvertidamente, irá transformar o acidentado em uma pessoa com poderes extraordinários.

Gertrude Barrows é uma escritora de talento, como já podemos perceber pela primeira frase: “Voltei à existência consciente ouvindo um suspiro nos meus ouvidos, como a respiração profunda de um grande monstro”.

Embora a autora seja muito hábil ao descrever situações, ela parece usar essa habilidade mais para esconder o que está acontecendo do que para revelar – uma estratégia que ela usa como elemento de suspense. Talvez se tornasse cansativo, mas funciona em um conto. Não por acaso, ela posteriormente se tornaria uma discípula de H.P. Lovecraft.

Por ser sobre o mesmo tema, é impossível não comparar com a obra de Jerry Siegel, publicada na mesma coleção. Enquanto a narrativa de Siegel seja capenga, quase infantil, a de Barrows é bem elaborada, mas perde justamente naquilo que Siegel se dá bem: falta uma trama. Todo o conto, narrado em minúcias, revela apenas o processo que levará o homem a adquirir seus poderes. Não há qualquer revelação sobre os desdobramentos futuros: como ele usará esses poderes?

A coleção foca em textos inéditos ou pouco conhecidos no Brasil. Para adquiri-los, basta fazer um pix de três reais por exemplar para a chave PIX: rubensangelo@yahoo.com.br e enviar o comprovante para o Rubens Angelo: rubensgrafico@gmail.com.

Duplex

 


Um casal recém casado realiza o sonho de comprar uma apartamento em Nova York. O local parece perfeito, especialmente para o marido, que é escritor e precisa terminar o seu livro. É um duplex e o apartamento de cima está alugado para uma velhinha. Eles são impedidos pela lei de coloca-la para fora, mas tudo leva a crer que ela tem poucos dias de vida.

Essa trama simples e até caseira é o mote do filme Duplex, de Danny DeVito lançado em 2003 e atualmente disponível na Netflix.

A reviravolta da história é que a gentil e doente velhinha transforma a vida o casal em um inferno: ela bate o tempo todo na porta pedindo favores, liga a TV no volume máximo durante a noite, impedindo que eles durmam, liga para a esposa no trabalho fazendo que ela cometa um erro que leva à sua demissão...

Diante de uma situação insuportável, chega um ponto em que o casal pensa em matar a inquilina.

O filme na época foi um fracasso de bilheteria, tendo custado 40 milhões de dólares e faturado 9 milhões nos EUA, mas vem sendo resgatado com o tempo. Obviamente não se trata de uma comédia inteligente.

Esse é um típico besteirol repleto de situações absurdas, mas mesmo assim gera boas gargalhadas. É um filme perfeito para relaxar e rir um pouco sem precisar usar os neurônios.

Capitão América e o Cubo Cósmico

 

 A volta do Capitão América na década de 1960 foi a oportunidade ideal para Stan Lee e Jack Kirby contarem histórias repletas de grandiosidade e ação desenfreada.

Exemplo disso é a saga do Cubo Cósmico, publicada em Tales of Suspense 80 e 81.

A história começa com uma splash page grandiosa, um close do Capitão América, espantando com uma explosão nos céus de Nova York. Vamos ser sinceros: só Jack Kirby conseguiria fazer com que um close se tornasse grandioso.

A história começa com um close grandioso. 

O capitão segue a cápsula de fuga da nave que explodiu e salva seu tripulante, um dos integrantes da I.M.A – ideias mecânicas avançadas (é, na década de 60 eles adoravam essas siglas), que balbucia sobre um grande perigo, o cubo cósmico, que foi roubado pelo Caveira Vermelha: “O cubo cósmico... mortífero... é a arma definitiva! Foi a maior realização da IMA... nas mãos erradas... pode causar o fim da humanidade”.

O cubo cósmico é um instrumento que realiza todos os seus desejos de quem o segura... e esse objeto terrível está sendo levado para o caveira pelo piloto do avião, dominado mentalmente pelo vilão.

Como o Capitão América é o Capitão América, ele pega um foguete da Shield para alcançar o avião, pula sobre ele, entra na cabine e aciona o assento injetor.

Kirby usa planos apertados para criar suspense e tensão. 

Interessante aí como Kirby consegue encher a sequência de suspense e tensão ao fazer as imagens apertadas nos quadros, como se o leitor tivesse vendo as ação de dentro da pequena cabine, algo que contrasta totalmente com os planos abertos e monumentais repletos de splahs a partir do momento em que o Caveira se apodera do artefato e se torna extremamente poderoso.

Aí o leitor se pergunta: como o capitão américa, um homem forte e bem treinado, mas sem grandes podereses poderia vencer a maior ameaça que o mundo já conheceu? Só para ter uma ideia, o cubo cósmico é tão poderoso que depois vai se tornar uma das joias recolhidas por Thanos para sua manopla.

Como o Capitão América poderá derrotar alguém com poder absoluto? 

Mas o herói não desiste e derrota o vilão usando para isso a própria astúcia e coragem: “Não posso entrar em pânico! Não me renderei ao desespero! Não importa a dificuldade... lutarei como vivi... sem nunca perder a espença!”.

O Capitão América que era um herói de verdade.

A arte magnífica de Arthur Rackham

 



Arthur Rackham começou sua carreira na era vitoriana, fazendo ilustrações para revistas enquanto trabalhava como escriturário.

Em 1892 ele pediu demissão e resolveu se dedicar apenas ao trabalho de ilustração. À princípio imitando artistas famosos da época, ele só desenvolveu um estilo um estilo próprio quando começou a ilustrar livros.

A grande virada viria em 1905, quando Rackham colocou suas pinturas numa edição de Rip Van Winkle Washington Irving. Estava encontrado seu caminho: a fantasia. Esse livro já apresentava as características que o tornaram famoso: as linhas sinuosas suavizadas por aquarela, as árvores ameaçadoras, as fadas castas e ao mesmo tempo sensuais, ogros e trolls incrivelmente feios, mas igualmente simpáticos. Suas imagens transmitiam saudosismo, beleza e sensualidade recatada.

Outros trabalhos importantes do pintor foram Peter Pan, Alice no país das maravilhas, Sonhos de uma noite de verão e Contos, de Edgar Alan Poe e O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner.









terça-feira, outubro 27, 2026

Jornada nas estrelas – O último duelo

 


Alguns dos episódios mais interessantes da série clássica de Jornada nas Estrelas são aqueles que ocorrem no passado da Terra. Mas como fazer personagens do futuro viverem situações do passado? A volta no tempo era a estratégia mais óbvia, mas o episódio “O último duelo”, da terceira temporada, trouxe uma solução curiosa.

Na trama, a Enterprise recebe a missão de fazer contato com a civilização melkotiana. No caminho, encontra uma bóia daquela raça avisando que se afastem, mas Kirk ignora o aviso. Quando finalmente uma delegação terrana se teletransporta para o planeta, os melkotianos, temendo tratar-se de uma raça violenta, prendem a equipe numa espécie de realidade virtual que simula a cidade de Tombstone onde ocorreu o célebre duelo do OK Curral, no qual os irmãos Eerps mataram a quadrilha dos Clantons.

Todos na cidade vêem os tripulantes da Entreprise como membros da quadrilha dos Clantons, o que significa que eles serão inevitavelmente mortos ao final do duelo.

Quem brilha nesse episódio é Chekov. Assim que entram num salão uma moça se joga em seus braços, achando que ele é Billy Clanton. A moça beija apaixonadamente o rapaz. Kirk tenta dar uma bronca, no navegador, que responde:  “O que posso fazer, Capitão? Sabe que temos que manter boas relações com os nativos.”. E volta a beijar a moça.  

Um aspecto interessante do episódio é que, como a essa altura o orçamento da série tinha reduzido consideravelmente, a produção não conseguiu construir uma Tombstone completa. O cenário é nitidamente falso, com uma casinha aqui e outra ali, na maioria das vezes só com a fachada. O roteiro, no entanto, aproveita muito bem isso e o que deveria ser um defeito se torna um trunfo.

Ao final, o que poderia ser uma ode a um dos períodos mais violentos da história norte-americana acaba se tornando uma mensagem de paz, bem ao estilo de Jornada.  

Rodval Matias, o melhor desenhista erótico brasileiro

 

Rodval Matias foi um dos principais desenhistas da editora Grafipar. Sua habilidade para desenhar mulheres libidinosas fez dele um dos mais requisitados para histórias eróticas. Posteriormente ele produziu, para a Europa, uma adaptação do livro Os 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade. O roteiro ficou a cargo do Ataíde Braz. Na Europa saiu apenas como Silva. Algumas revistas nacionais publicaram esse material no Brasil, um capítulo em uma revista, outro em outra revista. Mas é um material obrigatório para fãs de erotismo. Rodval não fica nada a dever aos mestres do erotismo, como Manara ou Crepax. Para baixar o álbum em arquivo digital, clique aqui. Para ler on-line clique aqui.

Perry Rhodan – Os microtécnicos

 


O volume 63 da série Perry Rhodan é focado numa grave ameaça à humanidade: os saltadores, em conjunto com o regente robótico de Árcon querem criar um goniômetro, um aparelho capaz de identificar a origem de qualquer nave após o salto, mesmo que esta use os compensadores estruturais. Com isso, a localização do planeta Terra poderá ser descoberta, o que poderá inclusive redundar em sua destruição.

O aparelho está sendo construído no planeta Swoofon e o plano de Rhodan é introduzir agentes no local para copiarem os planos do mesmo com o objetivo de criar um outro mecanismo, que o neutralize.

Para isso, ele cria uma estratégia de distração, pousa no planeta com três grandes naves terrenas e isola o sistema alegando que está procurando um criminoso que estaria, de alguma forma, ligado aos invisíveis.

É uma trama forçada e morosa, que nem mesmo o texto de Clark Darlton consegue salvar.

A capa da edição alemã destacou os habitantes de Swoofon. 


O livro acaba valendo muito mais pelas descrições do mundo Swoofon e seus simpáticos habitantes, pequenos como pepinos, capazes de enxergar em nível quase atômico e dotados de quatro braços com mãos extremamente habilidosas. Os aparelhos fabricados por eles mal podem ser vistos a olho nu. São capazes de construir, por exemplo, transmissores que podem ser guardados no buraco de uma agulha.

A série, que inicialmente apresentava aparelhos cibernéticos imensos, torna-se antecipatória ao prever o surgimento da miniaturização, um fenômeno que vemos nos dias atuais.

Em tempo: o livro fica mais interessante no final, quando o novo plano de Rhodan precisa de um disfarce. Isso gera um impasse ético que é bem aproveitado por Clark Darlton.

Quarteto Fantástico contra o Superskrull

 


Uma das características que faziam do Quarteto Fantástico um grupo único nos quadrinhos era o fato de que eles eram mostrados como celebridades, como provavelmente aconteceria se os super-heróis de fato existissem.

No número 18, por exemplo, vemos a família fazendo compras em uma grande lojas de departamento quando algumas pessoas os reconhecem. O assédio é tão grande que eles acabam envolvidos pela multidão de fãs e precisam de ajuda do coisa para saírem. Quando uma ameaça surge na cidade, eles demoraram para agir porque precisam primeiro se livrar do assédio.

Os heróis do Quarteto são tão populares... 


E a ameaça é ninguém menos que o Superskull, um ser alienígena que tem todos os poderes de cada um dos integrantes do Quarteto, com a diferença de que suas habilidades são ainda mais acentuadas. Assim, ele é mais forte que o Coisa, controla o fogo melhor que o Tocha e se estica mais que o Senhor Fantástico. E, embora os cientistas skrulls afirmem que ele consegue ser melhor que a Mulher Invisível, a verdade é que ele só fica invisível (vale lembrar que, nessa época, esse era o único poder dela).

... que precisam desviar dos fãs para combaterem a ameaça do Superskrull


Como enfrentar um personagem tão poderoso, com tantas habilidades? Stan Lee tira da cartola um deus ex machina, um ponto fraco no vilão descoberto sem mais nem menos por Reed Richards.

Mas a aventura era tão empolgante que a maioria das crianças da época nem deve ter se tocado que a solução encontrada para derrotar o Superskrull era forçada.

O vilão tem os poderes de todos os membros do Quarteto. 


Em tempo: o Superskrull, embora derrotado nessa primeira história, ainda iria voltar outras e outras vezes, como todos os vilões do Quarteto.

Mirza, a mulher vampiro

 

A primeira vampira de sucesso dos quadrinhos surgiu no Brasil. Trata-se de Mirza, criação do desenhista italiano naturalizado brasileiro Eugênio Colonesse e do roteirista Luís Meri. A personagem surgiu na época de ouro dos quadrinhos de terror nacional, na década de 1960.
Nessa época, Colonnese e Rodolfo Zalla tinham um estúdio, o D´Arte, especializado em quadrinhos, no qual chegavam a produzir 300 páginas por mês nos mais diversos gêneros (dos super-heróis aos de guerra). Um dia José Sidekerskis, da editora Jotaesse os procurou e pediu que Colonesse criasse uma personagem vampira.
No dia seguinte surgia Mirza. O nome era uma variação de Mylar, super-herói de sucesso, criado por Colonesse. ¨Não parecia nome de uma mulher, tanto que resolvi acrescentar no título ´a mulher vampiro´ para acentuar mais. Hoje se você pesquisar na lista telefônica, vai encontrar várias Mirzas, mas naquele tempo não existia¨, lembra Colonnese.
A revista foi publicada em 1967 e virou um hit. Dos 35 mil exemplares impressos, sobravam pouco mais de mil. Além disso, a redação da editora começou a receber várias cartas de fãs pedindo a continuidade da personagem. O interessante é que as histórias conseguiam captar muito bem o clima erótico, elemento essencial do terror vampiro. O roteirista Luis Meri escrevia de acordo com as orientações de Colonnese, mas de vez em quando colocava uma inovação, como uma festa de lésbicas.
Apesar do sucesso, o gibi durou apenas 10 números. A razão disso foi a mudança de ramo do desenhista. Um dia Rodolfo Zalla procurou Colonnese com a proposta de desenhar para livros didáticos. Este respondeu que não sabia fazer livros didáticos, pois sua especialidade era quadrinhos. ¨Uma cenoura que você fizer para um livro didático paga mais que cinco páginas de quadrinhos¨, rebateu Zalla. Foi o bastante para convencer o amigo. Dedicando-se apenas às ilustrações didáticas, o criador deixou de lado sua personagem, que ainda seria republicada, no início dos anos 1970, pela Editora Regiart, de forma pirata. Essa publicação manteve o interesse pelos leitores.
Na década de 1980 houve um renascimento dos quadrinhos nacionais e Colonnese acabou voltando à sua personagem mais famosa, pelas editoras Press, D´arte e Vecchi.
Eram outros tempos, de abertura política e a vampira ganhou contornos mais sensuais. Se antes ela usava um vestido longo, que cobria até suas pernas, agora ela usava decotes generosos e vestidos curtos, quando não lingiere sensual. O roteirista Osvaldo Talo colaborou nessa fase dando um passado para a personagem: ela seria uma condessa chamada Mirela Zamanova.  Uma nova história, na revista Metal Pesado, apresentou uma versão totalmente erótica da vampira.
Desde então, Mirza tem voltado em edições especiais, para jubilo dos fãs. E, quando se fala que Vampirella é a primeira vampira dos quadrinhos, ele se lembram que a grande criação de Colonnese é bem anterior.

Mestre do Kung Fu contra Mordillo

 

Uma série longeva como Mestre do Kung Fu não poderia se ancorar indefinidamente apenas nos embates contra Fu Manchu — as primeiras histórias da revista demonstraram o quanto essa dinâmica poderia se tornar tediosa. Desse modo, era imperativo criar adversários que estivessem à altura do herói. Um dos mais emblemáticos foi Mordillo, antagonista que surgiu na edição #33, em uma saga que se estendeu até o número #35 da publicação norte-americana.

Essa saga marca a introdução de Leiko Wu, que viria a se tornar uma personagem fundamental e o grande interesse romântico na mitologia da série. Na trama, ela é hipnotizada para memorizar o segredo de uma arma letal, um dispositivo capaz de abrir fendas na camada de ozônio e canalizar raios ultravioletas para destruir localizaciones geográficas específicas. Contudo, essa mesma programação mental fez com que ela esquecesse os dados estratégicos, e a única pessoa que detinha a chave psicológica para resgatar tal lembrança acabou sendo morta.

Em sua primeira aparição, Leiko é sequestrada pelo vilão Mordillo. 


Leiko é então sequestrada por um agente infiltrado, Simon Bretnor, que havia se aproximado dela fingindo ser seu namorado. Bretnor, na verdade, é ninguém menos que o próprio Mordillo, um vilão especializado em robótica que construiu uma base em uma ilha isolada nos moldes de um parque temático maluco. O cenário surrealista inclui um domo geodésico, um castelo medieval, uma pirâmide e até um sapato gigante, sendo inteiramente povoado por autômatos que imitam atrações de parque de diversões, como um trenzinho dotado de um rosto humano estilizado e sorridente.

A história tinha tanto texto que não parecia sobrar espaço para o dessenho. 


A ilha de Mordillo, palco onde se desenrola a narrativa, constitui um dos pontos altos de criatividade do roteirista Doug Moench, com especial destaque para o robô Brynocki, cujas feições caricatas lembram um boneco de desenho animado clássico e que profere tiradas bizarras como:

“Sabe o que é, chefia? Eu estava andando pela praia quando te vi entranhado com a mocinha aqui e achei melhor laçar a bezerra e te dar uma mão”.

O desenho de Gulacy parece vazio em alguns quadros. 


Apesar da excelente premissa conceitual e de algumas sequências de ação empolgantes, o resultado final do arco fica um pouco aquém do esperado. O desenhista Paul Gulacy ainda estava em fase de testes com o seu traço e sofria visivelmente para compor imagens de escala grandiosa — como na primeira aparição da ilha, cujos cenários pareciam excessivamente vazios e planos.

Brynocki chama atenção desde sua primeira aparição. 


Por outro lado, o roteiro mostrava-se um tanto capenga, exibindo furos consideráveis de desenvolvimento. A revelação da traição de Simon Bretnor/Mordillo simplesmente não impacta o leitor, pois o personagem já é apresentado desde o primeiro instante sob uma aura suspeita e vilanesca. Um Moench mais maduro saberia introduzir o coadjuvante gradualmente, preparando o público com ganchos sutis antes da grande revelação de que se tratava de um espião inimigo. O mesmo problema de construção afeta Leiko Wu, que carecia de um background mais elaborado para que seu envolvimento emocional com Bretnor fizesse real sentido narrativo.

A vilã Pavane reaparece, mas não faz quase nada. 


Além disso, Moench parecia acreditar que o melhor texto é o texto excessivo. Em algumas sequências, o diálogo é tão carregado que os personagens parecem se espremer no canto dos quadros.

As motivações do vilão também revelam-se consideravelmente fracas. Mordillo ambiciona apenas obter a quantia de um milhão de dólares e, no processo de chantagem global, decide de forma inconsequente destruir até mesmo a sua amada ilha repleta de autômatos.

Brynocki protagoniza a cena mais tocante da história. 


O ponto alto e verdadeiramente memorável da história, no fundo, reside na figura trágica e cômica do robô Brynocki. A cena final, que mostra a criatura abraçada ao esqueleto inerte do vilão prometendo nunca abandoná-lo, consegue ser genuinamente tocante. Brynocki demonstrou tanto carisma que, futuramente, viria a ser resgatado e reaproveitado por Doug Moench em outra trama memorável.

segunda-feira, outubro 26, 2026

Hulk – O terror dos homens sapos

 


Nas primeiras histórias, o Hulk era muito diferente do personagem que todos nós conhecemos. Para começar, na primeira história, o personagem era cinza. Só na segunda edição é que apareceu o verde, mas um verde tímido, muito diferente do golias esmeralda que conhecemos hoje.

Mas o tom das histórias e a personalidade do verdão também eram muito diferentes.

Para começar, havia um clima das histórias de terror da Marvel da década de 50. A segunda edição começa com o Hulk saindo do pântano, como um monstro ameaçador e invadindo uma cidade com um... pedaço de pau! O texto dizia: “Tal qual um monstro selvagem e devastador saído de algum insano mundo abissal, a aterrorizante figura do Hulk emerge repentinamente das lamacentas águas do pântano”. Parecia uma história de terror.

As primeiras histórias tinham clima de terror. 


Só a aparição de Rick Jones impede que o “monstro” destrua a cidade.

Como na época não havia enrolação, tudo acontecia muito rápido. Logo uma raça de homens-sapos resolve invadir a terra e para isso sequestram o maior cientista do planeta... justamente Bruce Banner. Quando anoitece, este se transforma no Hulk e bota o terror na nave (naquela época, Banner se transformava durante as noites).

O golias esmeralda chega a usar uma das armas dos alienígenas contra eles mesmos, enquanto pensa: “Essas armas... perto delas, as nossas parecem estilingues!”. Quem poderia imaginar o Hulk que todos conhecemos usando uma arma e tendo pensamentos como esses? Mas à frente, ele afirma que vai pegar Betty Ross como... refém!

Hulk usando armas e dizendo frases inteligentes? Será que errei de revista? 


A razão disso é que nessa época o personagem era muito baseado na fera do livro O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, sendo muito mais cruel do que embrutecido.

Uma curiosidade: O roteiro era de Stan Lee e os desenhos de Jack Kirby, a dupla de ouro da Marvel, mas a arte-final dessa história contava com três nomes, que dão aspectos completamente diferentes para a arte: Steve Ditko, Dick Ayers, Paul Reinman. Ditko, que tinha um estilo muito pessoal, é perfeitamente reconhecível.

Na terra dos pinhões

 


Eu fui para Curitiba de ônibus, em maio de 1994, levando tudo que podia em uma enorme caixa de papelão que pesava mais do que eu. Ia ali dentro livros, quadrinhos e minha máquina de escrever Remington.

Quando paramos pela primeira vez no Paraná fiz questão de descer e ver os jornais, que ficavam presos em varais ao lado de uma banca de revistas. Fui andando pelos jornais, até parar na frente da Folha de Londrina. Era como se eu pudesse ouvir alguém me dizendo: “Você vai trabalhar nesse jornal”.

Folha de Londrina foi um dos últimos jornais que visitei, pois ficava afastado, no Centro Cívico de Curitiba e eu tive dificuldade de descobrir como se chegava lá. Fui com uma pasta debaixo do braço, com todas as matérias que eu tinha publicado nos jornais de Belém.

Tempos depois eu descobri que fui atendido porque o editor ficou curioso com a minha audácia.

Ao ser informado pela secretária que alguém queria falar com ele, o editor retrucou que estava muito ocupado.

- Pergunte da parte de quem.

Poucos minutos depois a secretária voltou.

- Perguntou da parte de quem?

- Sim, ele disse que da parte dele mesmo.

A resposta foi tão ousada e inusitada que ele resolveu conhecer o engraçadinho. Coincidentemente, eles estavam de fato precisando de jornalistas para a filial de Curitiba.

Apesar de ser um jornal de interior, a Folha de Londrina era um jornal descolado, principalmente se comparado ao jornal da capital, a Gazeta do Povo, até hoje um jornal ultra-conservador. Esse conservadorismo da Gazeta se refletia até mesmo na diagramação pesada e nos textos com parágrafos grandes, pesados. Ao contrário, a Folha de Londrina era um jornal leve, divertido, com uma diagramação bonita, textos menores, parágrafos curtos. Para melhorar, a Folha anunciava na rádio que ouvia, uma rádio rock e seu slogan brincava com o fato de não ser um jornal de Curitiba: “Porque inteligência é capital”.

O editor resolveu fazer um teste comigo e o teste foi exatamente fazer uma matéria sobre um grupo de quadrinistas que estava surgindo em Curitiba e fazendo sua primeira exposição. Era o Núcleo de Quadrinhos de Curitiba.

(Trecho do meu livro A árvore das ideias. Clique aqui para baixar gratuitamente.