sábado, outubro 03, 2026

Os quadrinhos e o castelo do Graal

 No livro HE, o psicólogo norte-americano Robert Johson explica a psicologia masculina através do mito da busca do Santo Graal. O personagem principal é o jovem Percival, um cavaleiro da Távola redonda.


Certo dia, durante suas andanças, ele entrou em um castelo belíssimo e imponente. Era ali que estava o Santo Graal, o cálice usado por Jesus durante a última ceia.
Todos o recepcionaram muito bem e ele se sentiu feliz e maravilhado com os poderes do Graal. O cálice podia, por exemplo, fazer surgir a comida que o convidado desejasse. E podia também curar qualquer ferida.

Na manhã seguinte, quando acordou, ele não encontrou mais ninguém no castelo. Estava completamente abandonado, e ele teve de ir embora.
Percival passaria o resto de sua vida tentando encontrar novamente o castelo do Graal.
Para Robert Johnson, o episódio é uma metáfora de algo que ocorre com todos os jovens durante a fase da pré-adolescência.
Essa é uma fase particularmente difícil, pois o menino não é mais uma criança, mas ainda não é adulto.
Todos os meninos entram no castelo do Graal ao menos uma vez na vida e essa experiência irá marcá-los pelo resto da vida. Assim como Percival, eles passarão o resto da existência tentando voltar para o castelo.
O que tudo isso tem a ver com quadrinhos?
Pare para pensar. Se tem mais de vinte anos e continua gostando de quadrinhos é porque há uma boa lembrança associada a eles.
Em outras palavras: muitas pessoas - e eu entre elas - entraram no castelo do Graal graças aos quadrinhos.
Tenho conversado leitores de gibis e todos eles têm algum episódio semelhante ao de Percival.
José Aguiar, desenhista da Manticore, saía de casa todos os dias de manhãzinha com sua bicicleta e ia direto para um sebo próximo de sua casa, onde ele comprava ou trocava gibis.
Essa experiência o marcou profundamente e eu não tenho dúvida nenhuma de que esse foi um dos fatores que o influenciaram a se tornar desenhista.

Lembro que quando estávamos na sétima série a revista preferida de todos era a Superaventuras Marvel. Nós sabíamos a data em que ela chegava nas bancas e saíamos correndo para ver quem chegava primeiro.
Como tinha pouco dinheiro para comprar gibis, eu usava de um estratagema. Eu conhecia um sebo que ficava próximo da Igreja e que vendia revistas a preço de banana. Eu passava lá todo Domingo e comprava as Heróis da TV, que uma amigo da escola colecionava. Depois eu vendia para ele, pelo dobro do preço, mas antes eu lia e relia a revista e esses momentos eram tão sagrados que me faziam esquecer a chateação que era ser obrigado a ir à igreja.
Aquela experiência - comprar a revista e nem esperar chegar em casa para começar a lê-la - era uma verdadeira entrada no castelo do Graal.
Só com a saga da Fênix foram centenas de entradas no castelo do Graal, até porque os X-Men, assim como a busca do Cálice Sagrado, são um mito sobre o fim da infância (prometo falar sobre isso em outro artigo).
Cada vez que eu leio uma HQ é como se eu estivesse voltando àquela época mágica da pré-adolescência.
E quando escrevo histórias, fico imaginando que talvez eu esteja proporcionando a outros garotos as mesmas sensações que eu sentia lendo quadrinhos.
É interessante notar que o tipo de quadrinho que você lê na pré-adolescência vai influenciar seu gosto pelo resto da vida.
O desenhista Antonio Eder odeia super-heróis. Também, pudera: ele passou toda a pré-adolescência lendo revistas Kripta e nesse período nunca botou os olhos num gibi de super-heróis.
O desenhista Bené Nascimento (Joe Bennet) passou essa fase lendo HQs do Jack Kirby. Hoje ele compra qualquer coisa sobre o velho Jack, até caríssimos fanzines importados.
Pare um instante e pense. Se você gosta de quadrinhos, é bastante provável que você tenha, em algum momento, entrado num castelo do Graal feito todinho de histórias em quadrinhos.

A sensação de setembro, de Marcos Rey

 


Confesso que A sensação de setembro foi o único livro de Marcos Rey que pensei em abandonar no meio – logo eu, fã convicto do escritor. Para começar a capa não ajuda e talvez fosse mais adequada para um romance teen. E a trama demora bastante a engrenar. Mas fui feliz em ir até o final, embalado mais pela boa prosa de Rey do que pela trama em si: na terceira parte, o livro dá uma virada e se torna uma interessantíssima comédia de erros ao melhor estilo de grandes cineastas, como Billy Wilder (que aliás, é citado no livro).
A história inicia com a morte de um industrial, alvejado por um vaso de flores caído da janela de um velho maestro que vive sozinho com seu gato. A sequência inicial é primorosa: “O vaso, delicada peça de cerâmica doméstica, verde-musgo, com desenhos incaico, bamboleou no peitoril da janela do 13º andar, no antiquado ritmo de conga, precipitou-se no espaço cinzento da tarde paulistana, e adeus senhore Krememelbein”.
A partir da morte do empresário, a história se concentra na viúva, a gorda Duducha e seu filho super-dotado, Rudi, cujo maior interesse é construir miniatura de navios de guerra, que atiram de verdade. Como personagens secundários, o psicólogo, preocupado com o fato de que o garoto não parece ter interesse pelo sexo oposto (e que elabora uma trama para despertar-se a sexualidade usando uma playmate – a tal sensação de setembro) e uma empregada doméstica negra, Claudete, que acaba incendiando o geniozinho, mas enfrenta a feroz resistência de todos.
A história lembra muito as pornochanchadas, gênero cinematográfico (famoso no Brasil na década de 1980) do qual Marcos Rey foi um dos principais roteiristas. Nas pornochanchadas o erotismo é sempre mais insinuado que mostrado e quase sempre envolto com um toque de humor.

Marcos Rey brinca com o texto, como um craque que faz o que quer com a bola. Faz referências à linguagem de cinema e de quadrinhos (“balõezinhos de histórias em quadrinhos, cheios de exclamações, erguiam-se das mesas vizinhas”) e até mesmo com a auto-censura: “E depois de todo esse baixo calão, e muito mais, que a mãe do autor aconselhou eliminar, a moça Bruna caiu num pranto desesperador”). É esse “brincar com a linguagem” que segura o leitor, prendendo-o até a virada que transforma o livro na comédia de erros já aludida anteriormente.  

As vidas de Chico Xavier

 

 


Chico Xavier é uma das figuras mais importantes e polêmicas do Brasil. Sua popularidade é tão grande que, mesmo depois de morto, continua levando milhares de pessoas para Uberlândia, transformando o turismo religioso na principal fonte de renda da cidade. Não admira, portanto, que a vida do médium fosse transformada em uma biografia.
Ainda assim, o jornalista Marcel Souto Maior teve que vencer vários obstáculos para escrever o livro “As vidas de Chico Xavier”. O primeiro deles veio dos próprios colegas jornalistas. “Chico Xavier? Não é o Chico Buarque, não? Chico Anysio? Chico Mendes?”, ironizavam os amigos do Jornal do Brasil.
Outro obstáculo filho adotivo de Chico, Euripedes. Preocupado com a saúde do pai e em preservá-lo, Euripedes não deixou o jornalista passar nem do portão. Ainda assim, Marcel insistiu: resolveu assistir a uma sessão no Centro Espírita da Prece, fundado por Chico muitos anos antes. Depois que o médium deixara de comparecer, o público minguara e eram apenas 14. Surpreendentemente, naquele dia, ele resolveu reaparecer, com um sorriso largo e um terno mal-ajambrado.
Cético, Marcel não soube explicar as lágrimas que começaram a desabar em borbotões de seu rosto, sem nenhuma razão especial.
Terminada a sessão, o jornalista procurou Chico para pedir autorização para a biografia. Chico respondeu de forma indireta, evitando a palavra não:
- Deus é que autoriza.
- E ele autoriza?
- Autoriza.
Mas a muralha de Euripedes ainda continuava existindo. O jeito foi apelar para o outro filho adotivo de Chico, Vivaldo, que mora nos fundos da casa do pai.  Quando o jornalista o visitava, Chico chamou o filho por um interruptor. Quando Vivaldo saiu, um calor insuportável tomou conta das mãos do jornalista. Sobressaltado, ele largou a caneta, saltou do sofá e correu para o quintal. Ficou lá, sacudindo as mãos na noite fria, até que Vivaldo aparecesse:
- Meu pai disse que sua biografia vai ser um sucesso. Parabéns!
O episódio mostra bem os mistérios e a mística por trás de Chico Xavier. Chico escreveu quase 400 livros, cartas de pessoas desencarnadas, virou celebridade nacional. No entanto, até o final da vida, viveu de forma modesta, sem grandes fortunas, sendo quase um prisioneiro de seu próprio sucesso.
O fato do livro ser escrito por um cético, mas que passou pelas duas experiências acima (do choro descontrolado e das mãos em fogo) faz com que ele tenha a abordagem correta, não caindo nem na armadilha de um livro doutrinário, nem na reportagem sensacionalista que o filho adotivo de Chico tanto temia.
O que se revela é uma figura ímpar, que angariou milhões de fãs no Brasil todo e igual número de detratores. Essa dualidade já se apresentava na infância do médium, quando ao ouvir que ele conversava com os espíritos, a madrinha dizia que ele tinha o diabo no corpo e lhe fincava garfos na barriga na tentativa de espantar o mal. Chico, convencido de que que conversar com espíritos era errado, tentava tudo para se curar. Chegou até a desfilar em uma procissão com uma pedra de 15 quilos na cabeça, repetindo mil vezes a ave-maria. Nada adiantava. Quanto mais rezava, mais via espíritos.
O livro nos revela um Chico sofredor, que não era compreendido na infância e apanhava por causa da mediunidade. Quando finalmente se tornou adulto, sofria com doenças, como a catarata que fazia seus olhos sangrarem. À noite, era atormentado por espíritos baixos, que lhe provocavam pesadelos em, alguns casos, tentavam matá-lo usando para isso pessoas com mediunidade. Ao se queixar com seu guia espiritual, Emmanuel, recebia reprimendas. Tinha que aceitar de bom grado tudo que lhe acontecia, pois servia para expiar culpas de outras encarnações. Quando se tornou uma figura famosa, sofria com o assédio, com pessoas que queriam falar com ele mesmo quando ele estava muito doente. Além disso, Chico nunca ganhou nada com isso, pois todo o dinheiro das vendas dos livros ia para instituições de caridade.
Sua missão espírita parecia mais um castigo do que um prêmio. Por outro lado, havia as tentações. Uma vez Chico entrou no banheiro e encontrou três mulheres tomando banho nuas, jogando água umas nas outras e rindo para ele, convidativas. O médium fechou os olhos e rezou. Quando os abriu, elas haviam desaparecido.
Abnegado, Chico usava a humildade para resistir aos sofrimentos e tentações do mundo. Dizia que era um Cisco Xavier, brincando com o próprio nome. Quando lhe disseram que talvez fosse eleito para a Academia Brasileira de Letras, ele perguntou: “E agora aceitavam cavalos lá?”.
Se a biografia revela esse lado humilde, abnegado e caridoso, revela também um homem carismático e divertido. Chico gostava de contar casos e gostava de rir. Uma vez, convidado pelos amigos a pescar, foi, mas não pescou nada. Passaram a tarde na beira do rio e os amigos pegaram muito peixe. De Chico não se aproximava nem lambari. Ele acabou confessando: não tinha colocado isca no anzol, para não incomodar os bichinhos. Ao ser assediado por uma figura demoníaca, que lhe perguntava se tinha sido chamada, ele saiu-se com essa: “É que a vida anda difícil e queria que o senhor me abençoasse em nome de Deus ou das forças que o senhor crê”. O diabo reclamou: “É só a gente aparecer que você já cai de joelhos!” e sumiu.
Em suma: As vidas de Chico Xavier é um livro que abarca as várias facetas dessa famosa personalidade, num livro leve e gostoso de ler. É tão fascinante que serviu de base para o filme de Daniel Filho sobre a vida do médium mineiro.

Clarabela e o jornalismo

 

 

A primeira lição que eu tive sobre o jornalismo aconteceu muito antes de entrar na faculdade.
Eu era ainda uma criança quando li, numa revista Disney, uma história em que Clarabela era contratada como repórter. A situação era meio surreal, pois ela não era formada em jornalismo, não tinha experiência e nem mesmo pauta. O editor simplesmente mandou que ela fosse a campo em busca de notícias.
 A primeira matéria dela foi sobre coisas que aconteciam com ela: o que ela havia feito durante o dia, etc. Era até informação, mas que só interessava a ela e aos amigos. Quando o editor vê o texto, fica desesperado: "Não, a notícia não pode ser sobre você!".
E lá foi a Clarabela em busca de outra notícia...
Nisso ela passa na frente do banco e acaba sendo tomada como refém.
Apesar do assalto ter  sido algo que atiçara a curiosidade de todos, Clarabela não escreve a notícia, pois o fato havia acontecido com ela e o editor havia dito que ela não era notícia.
O leitor, esperto, descobria que ambos, editor e repórter eram verdadeiras antas e que notícia é informação, mas um tipo específico de informação: a que tem interesse público. O cotidiano de Clarabela não tem interesse público, mas o assalto ao banco tem. 

Homem-aranha: todos os homens do rei

 

Nós estamos acostumados a ver o Rei do Crime como um estrategista cruel, capaz de destruir a vida do Demolidor apenas usando suas conexões políticas. O tipo de pessoa que quebra o pescoço de um chefe mafioso apenas porque este ousou discordar dele. Pouca gente, no entanto, se lembra que ele era um vilão menor do Homem-aranha. Era um vilão fanfarrão, que usava ajudantes uniformizados e criava planos que na grande maioria das vezes eram um fiasco.

Exemplo desse tipo de história é “Todos os homens do rei”, publicada em The Amazing Spider-Man 163 e 164 de 1976 com roteiro de Len Wein e desenhos de Ross Andru. Na história, o filho do Rei está em animação suspensa depois de ter enfrentado o quinto Hibernante e o vilão pretende usar a energia vital do Homem-aranha para revitalizá-lo, algo que ele consegue, momentaneamente, deixando o herói solto, mas totalmente sem forças.



Nessa época, o Rei gostava de botar as mãos na massa. É ele que enfrenta o Homem-aranha (os dezenas de campangas uniformizados se contentam em apertar botões) e é de novo ele que enfrenta o herói quando ele consegue a energia de volta. Era um roteiro divertido, típico dos anos 1970, mas também é interessante ver como um dos grandes roteiristas do período não conseguiu ver algo a mais no Rei. Há algum conflito familiar quando o filho descobre como foi renascido, mas nada muito profundo.

Uma curiosidade é o título dessa história, que remete diretamente ao livro Todos os homens do presidente, de Carl Bernstein e Bob Woodward, sobre o Watergate e os escândalos do governo Nixon. Talvez se tivesse levado o próprio título mais a sério, Len Wein tivesse antecipado o Rei que todos nós amamos odiar.  

No Brasil essa história foi publicada em Homem-aranha 39, da RGE e na Teia do Aranha 34, da Abril.

Aconteceu naquela noite

 

Aconteceu Naquela noite foi o primeiro filme de grande sucesso de Frank Capra (ganhou 5 dos principais prêmios do Oscar), o diretor que seria símbolo da era pós-recessão com suas histórias de caráter otimista. 
Em Aconteceu... uma garota (Claudette Colbert), filha de um milionário, foge de seu pai e passa a ser procurada por todo o país. Numa viagem de ônibus ela conhece um jornalista (Clark Gable) desempregado que vê na fuga uma grande reportagem capaz de fazê-lo conseguir seu emprego de volta. Os dois viajam dias juntos, de ônibus, a pé, de carona, de carro, em situações que oscilam entre o lirismo e o humor. 
Como a censura era forte na época, o diretor e roteirista usa de metáforas visuais, como o cobertor, colocado entre as camas, chamado de Muralha de Jericó. 
Capra não é inovador nem no uso da câmera, nem na montagem, mas, assim como Billy Wilder tem uma característica essencial dos grandes narradores: usa as imagens para contar a história. Não há um único take desnecessário ou mesmo planos abertos. O foco é todo nos atores e na história. Com isso, o diretor consegue criar uma química entre a dupla que só existia na tela. 
Na verdade, Clark Gable havia sido emprestado à Colúmbia como punição por sua constante recusa de roteiros na MGM e Claudette Colbert havia sido igualmente emprestada pela Paramount por medida disciplinar. Dizem que os dois se odiavam e que a atriz simplesmente não queria fazer uma das cenas mais famosas do filme, aquela em que a mocinha mostra as pernas para conseguir uma carona. 
Colbert, sempre de má vontade, acabou se encaixando bem no papel da garota mimada. Aconteceu naquela noite pode não ter a mensagem espiritual de A felicidade não se compra ou o conteúdo crítico de A mulher faz o homem. Ainda assim, é uma ótima comédia de costumes com uma das melhores duplas do cinema. E, convenhamos, o título é muito bom.

A arte marcante de Milton Caniff

 


Milton Caniff nasceu em 1907, no estado norte-americano do Ohio. Em 1932 ele se mudou para Nova York com o objetivo de trabalhar com quadrinhos.

Sua primeira tira foi "The Gay Thirties”, de 1932, mas o sucesso só viria mesmo com Terry e os piratas, distribuída pelo Tribune Syndicate.

Altamente influenciado por Roy Crane, Caniff trazia inovações como a narrativa cinematográfica e o traço limpo e muito expressivo.

Na década de 1940 ele criou, para as forças armadas norte-americanas, a tira Male Call, protagonizada por belíssimas mulheres. A tira foi distribuída no front e se tornou extremamente popular entre os soldados durante a II Guerra Mundial.

Em 1946, descontente por não ter os direitos sobre Terry e os piratas, Caniff se mudou para o Enterprises Syndicate para o qual criou a tira Steve Cannyon, sobre o qual tinha totais direitos.

A influência de Milton Caniff sobre outros artistas é incomensurável. Até mesmo o brasileiro Flávio Colin o apontava como uma de suas principais influências.













Batman – Medo à Venda


O Espantalho é um dos vilões do Batman menos badalados. No entanto, ele é um dos mais interessantes pela possibilidade de introduzir o terror nas histórias. É o que vemos em "Medo à Venda", publicada na revista Detective Comics nº 571, escrita por Mike W. Barr e desenhada por Alan Davis e Paul Neary.

Barr já inicia a trama com uma definição precisa do personagem: “Ele voltou! O faraó das fobias, o duque do pavor. O Espantalho está de volta para lançar terror no coração de Gotham!”.

A origem do vilão é recontada. 


Na história, o vilão cria um composto que, curiosamente, retira o medo das pessoas. Isso faz com que as vítimas se tornem totalmente imprudentes. “Afinal, o que é o bom senso, senão uma forma de medo?”, explica o Espantalho.

Essa situação é exemplificada na cena em que ele oferece o antídoto a um piloto de testes. Como este se recusa a pagar, é desafiado: “Aposto que não pode saltar daqui até o chão e continuar vivo”. “Eu posso”, responde o piloto, saltando do prédio logo em seguida.

O vilão usa tanto o medo quanto a falta de medo como arma. 


O ponto alto da narrativa ocorre quando o Espantalho inocula o composto no Batman, que passa a agir de modo descuidado. O herói precisa superar essa ausência de instinto de preservação para enfrentar uma série de armadilhas e salvar o Robin.

O que se segue é uma sequência de tirar o fôlego, impulsionada pela arte de Davis e Neary, que combinavam elegância e ação de forma magistral — como no momento em que o Cavaleiro das Trevas escapa de caminhões teleguiados como se estivesse em uma tourada.

O desenho é elegante mesmo nas cenas de ação. 


Considerando que o medo é parte essencial da mitologia do Batman (visto que ele criou o uniforme de morcego justamente para infundir terror nos criminosos), a abordagem desta história, ao focar na importância funcional do medo, é no mínimo fascinante. No Brasil, essa história foi originalmente publicada pela editora Abril em Batman nº 14 (2ª série).

sexta-feira, outubro 02, 2026

American Flagg

 


American Flagg é uma mistura de distopia com sátira política criada por Howard Chaykin para a editora First em 1984.

A história se passa no então distante ano de 2031. Os EUA são dominados pela Plex, um conglomerado de empresas que se deslocou para Marte após uma grande crise que desestabilizou os Estados Unidos. Além disso, um terremoto destruiu toda a Califórnia, abrindo caminho para o surgimento de novas potências, como a Organização Brasileira das Américas.

No que sobrou dos EUA, a maioria das pessoas vive dentro de shoppings. Batalhas campais são transmitidas pela TV e se tornam verdadeiros reality shows. Grupos radicais racistas invadem casamentos interaciais e gangues de motoqueiro botam o terror no shopping depois de seu programa favorito, Bob Violence.

A narrativa caótica inclui até mesmo propagandas de sexo cibernético. 


O personagem principal é Reuben Flagg, um ator que foi substituído por uma holografia e se torna ranger na decadente cidade de Chicago onde terá de lidar com a extrema corrupção da cidade (logo na primeira história, o líder de uma gang pede dinheiro para Flagg em troca não atirar nele durante os ataques pós- Bob Violence). Como todo personagem de Chaykin, é também um garanhão, que se envolve com três mulheres apenas nas três primeiras edições.

Essa série foi absolutamente revolucionária na época tanto pelas novidades narrativas quanto pela abordagem radical. A história é entremeada de propagandas de sexo cibernético, emissões de TV e tudo mais que o autor conseguisse imaginar. Isso se refletia na diagramação totalmente não convencional. Além disso, embora não fosse sexualmente explícita, havia várias cenas que transbordavam sensualidade – certamente uma novidade para um personagem dos comics americanos.

O personagem principal é um garanhão. 


No Brasil o personagem causou grande impacto ao ser lançado pela Cedibra no ano de 1987. Foram lançados quatro números (o quarto era bem difícil de achar) junto com outros personagens da First, como Badger e John Sable. Para quem, como eu, que estava aconstumado com as histórias da Marvel e da DC, era algo realmente impactante tanto pela construção do cenário (Alan Moore, no seu texto sobre roteiro cita a série como um dos melhores exemplos de como mostrar a ambientação de maneira natural) quanto pelas inovações narrativas e, claro, a abordagem erótica.

O erotismo era um dos aspectos revolucionários da série. 


A Abril republicou as três primeiras histórias no número 3 da coleção Graphic Album, mas sem o mesmo impacto. Primeiro porque já era outro momento, em que já haviam sido publicados outros trabalhos tão ou mais inovadores. Segundo porque a Abril mudou o formato da publicação. Além disso, alguns exemplares vieram com falha de impressão em algumas páginas (eu fui um dos sorteados).  

Livro A árvore das ideias marca 35 anos de carreira de Gian Danton

 

 

Em 2024 o roteirista de quadrinhos Gian Danton completou 35 anos na área de quadrinhos. Para marcar a data, a editora Marca de Fantasia lança o livro e-book A árvore das ideais – memórias de um roteirista de quadrinhos.

O livro é uma junção de textos e quadrinhos autobiográficos e narra a trajetória do roteirista desde a infância até o momento atual, passando por sua parceria com Bené Nascimento, a criação do grupo Ponto de Fuga e até mesmo a produção literária. Também a atuação na área acadêmica é focada na obra, assim como a descoberta do diagnóstico de autismo.  

A obra traz, na parte visual, a colaboração de três dos principais parceiros de Gian Danton: Bené Nascimento (Joe Bennett) fez a ilustração da capa; Antonio Eder desenhou duas HQs e JJ Marreiro desenhou uma HQ e fez o design da capa. Edgar Franco, orientador de doutorado de Gian, assina o prefácio.

Entre as várias histórias contadas no livro estão os bastidores cômicos da criação da revista Manticore, o falso Gian Danton e o psicopata que fez com que o roteirista começasse a pesquisar sobre serial killers.

O livro tem 184 páginas e pode ser baixado gratuitamente no link https://www.marcadefantasia.com/livros/quiosque/a_arvore_das_ideias/a_arvore_das_ideias.htm.

Dez pessoas que eu seguiria

    Meu filho ainda era pequeno quando isso aconteceu. Estava aprendendo a andar e eu o levava quando íamos comprar pão. Certa vez passamos por um rapaz sentado no meio-fio. Ele estava lá parado, sentado, o olhar perdido no nada, como se até mesmo pensar fosse um esforço grande demais. Com os passos pequenos de meu filho, demoramos a chegar na panificadora, e demoramos a voltar, mas quando voltamos, lá estava o rapaz parado, estático, bobo. Era como se ele estivesse apenas observando a vida passar diante dele.A experiência me marcou. Percebi que existem pessoas e pessoas. Existem aquelas que simplesmente passam pela vida e deixam a vida ir embora, sem fazer qualquer diferença. Por outro lado, existem aquelas que se destacam tanto que mudam o mundo, o nosso jeito de pensar, a nossa percepção das coisas. São os grandes, os gigantes, cujos passos deveriam ser seguidos. Eis a minha lista:



Monteiro Lobato

Ao pensar em alguém que fez a diferença em minha vida e na de muitas outras pessoas, o primeiro nome que me vem à mente é Monteiro Lobato. Lobato é muito mais do que um escritor de literatura infantil, embora ele tenha produzido uma obra genial nessa área. Lobato foi um visionário, alguém muito avançado para sua época. Mesmo sua abordagem da literatura infantil tinha muito de afronta aos pré-conceitos, afinal, na época essa era considerada uma área menor da literatura. Lobato me ensinou o valor da clareza, da importância de compreensão por parte do leitor. Ele escrevia sobre os temas mais difíceis e sempre de maneira agradável. Tenho visto tanta gente que acha que escrever é enrolar o leitor numa teia de dificuldades e palavras difíceis (muitas vezes usadas equivocadamente), e sempre penso: esse pessoal não leu Lobato. E Lobato era de uma sinceridade provocante, embora também fosse muito gentil (quando Mário de Andrade escreveu um texto matando-o, Lobato declarou: "Mário é grande, ele tem o direito de nos matar"). Uma de suas frases prediletas virou meu lema: "Isto acima de tudo: sê fiel a ti mesmo".


Alan Moore


Não há quem leia uma obra de Alan Moore e não passe a ver os quadrinhos de forma diferente. Moore revolucionou a maneira como as pessoas viam os roteiristas. Antes, as grandes estrelas eram os desenhistas, disputados a tapas pelas editoras. Parecia que os leitores só compravam as revistas por causa dos desenhos. Alan Moore produziu obras tão fantásticas que a simples menção de seu nome na capa de uma revista já é indício de boas vendas. Sua genialidade é tal que é muito difícil definir qual é a sua melhor obra. Miracleman, Monstro do Pântano, Watchmen, V de Vingança, Do Inferno, todos esses são obras-primas. E são como cebolas, que descascamos e descobrimos novos sabores, novas interpretações a cada leitura. A melhor obra é aquela que nos surpreende a cada leitura. Eu poderia passar o resto da minha vida lendo e relendo os trabalhos de Alan Moore e uma leitura jamais seria igual à outra.




Gandhi


A ética inabalável, o desprendimento pelo fruto de suas ações e a generosidade mesmo para com os inimigos são exemplos que deveriam ser seguidos por qualquer homem público. Infelizmente, os exemplos são poucos e, por isso mesmo, louváveis. Gandhi é um deles. A todos esses atributos, ele juntou mais outro: a inteligência e a estratégia. Até o início do século XX, os ingleses eram vistos como homens nobres e civilizados, que estariam tirando suas colônias da barbárie. A forma violenta como os ingleses reprimiram as pacíficas manifestações de Gandhi mostraram ao mundo uma situação invertida: o honrado britânico na verdade era um bárbaro, enquanto o pequenino hindu se comportava como um gentleman. Inteligência, acima da violência, essa foi a grande lição de Gandhi.




Hipátia

Entre 370 e 415 viveu em Alexandria uma filósofa chamada Hipátia. Filha do sábio Theon, ela foi criada para ser um exemplo do ideal helênico de mente sã, corpo são. Hipátia dominava a matemática, astronomia, filosofia, religião, poesia, as artes e a retórica. Dizem que andava pelas ruas ensinando Aristóteles, Platão e Sócrates a quem quisesse ouvir. O fato de ser mulher e o fato de estar esclarecendo o povo incomodou os cristãos fanáticos, que a pegaram na rua, tiraram suas vestes, deixando-a nua, e a levaram para uma igreja, onde ela foi retalhada com conchas até a morte. Depois seu corpo e suas obras foram queimadas. Mesmo sabendo que era perigoso, Hipátia foi fiel a si mesma até o último momento.






Chaplin 
A minha ligação com Chaplin é mais que estética. É espiritual. Alguém que tinha as mesmas crenças que eu e o mesmo tipo de inimigo. E Chaplin ensinou ao mundo que havia poesia até mesmo nos momentos mais tristes... Indico um filme menos conhecido, mas genial, que demonstra bem o tipo de história que Chaplin contava: Luzes da ribalta, sobre um palhaço que salva uma bailarina do suicídio.






Lao Tse

Foi o criador do taoísmo e de uma filosofia que valorizava a mudança, muito antes de Pitágoras. Para entender sua importância, é importante lembrar que, para muitos filósofos, existia uma essência imutável e a mudança era apenas aparente. Ao valorizar a mudança, o taoísmo nos dá uma dica sobre como lidar com o mundo e com a nossa própria vida. Também foi uma antecipação do anarquismo, ao dizer que o melhor governo é o que menos governa. DuchampO homem que revolucionou a arte, invertendo a lógica. Antes dele, o artista era visto quase como um artesão, alguém que tinha uma habilidade manual e a usava para criar coisas belas. Duchamp mostrou que artista é o autor da ideia. Fazer arte é idealizar, é pensar sobre o mundo e até sobre a arte. A mudança de foco trazida por ele permite, por exemplo, que Alan Moore, um roteirista de quadrinhos, seja considerado um grande artista.






Danton 
De onde acham que tirei meu nome? Em 1989, comemorava-se os 200 anos da revolução francesa e as bancas foram inundadas de publicações sobre o assunto. Comprei tudo que pude. E fiquei fascinado com a figura de Danton, o único dos revolucionários que se levantou contra o terror revolucionário, mesmo sabendo que isso lhe custaria a cabeça. Como dizia Lobato: seja fiel a ti mesmo. Até o fim. Gian Lorenzo BerniniAntigamente eu assinava Jean Danton. Mas parecia estranho. Não era um bom nome. Então, um dia, folheando um livro na biblioteca, acabei me deparando com um texto sobre Bernini. Fascinante. Ele representou para o barroco o que Leonardo da Vinci representou para a renascença. Era arquiteto, escultor, pintor, cenógrafo. Suas imagens tinham a perfeição dos renascentistas, mas eram mais emocionais, o que era destacado pelo uso da luz. Gostei muito, tanto que peguei dele o nome.


O estudante chinês que parou um tanque


Ninguém sabe seu nome, mas ele fez história. Ficou na frente de um tanque que vinha para reprimir os estudantes em protesto na Praça da Paz Celestial, em Pequim. O motorista tinha permissão de atropelá-lo, mas não o fez, comovido com aquele gesto que muito me lembra Gandhi. Eu vi essa cena quando lia sobre Danton e a revolução francesa. A cena marcou minha adolescência. Se eu morasse na China, estaria ali. E também seria provavelmente morto quando o governo chinês resolveu usar a violência para acabar com o protesto que pedia liberdade e lutava contra a corrupção. Um gesto para ser seguido por todos aqueles que não compactuam com os canalhas e ditadores. Todos aqueles que são fiéis a si mesmos.