quinta-feira, julho 23, 2026

Uma Advogada extraordinária

 


Há uma série de características que estão fazendo com que as séries sul-coreanas, as K-Drama, se tornem sucessos absolutos: personagens carismáticos, bons atores, romances quase platônicos e uma direção leve e divertida. Uma advogada extraordinária parece reunir todos esses elementos, tanto que se tornou uma das atrações mais assistidas da Netflix.

A história gira em torno de uma advogada Woo Young-woo que tem Transtorno do Espectro Autista. A belíssima abertura, com uma música meiga e cativante consegue passar muito sobre a personagem: ela acordando em um quarto repleto de imagens de baleias, comendo shushi (uma comida confiável, já que ela pode ver todos os ingredientes), colocando os protetores de ouvindo, indo para o trabalho e chegando finalmente ao tribunal. No meio do caminho baleias vão surgindo numa poça d´água ou em nuvens.

Se por um lado, Woo Young-woo tem uma série de dificuldades por ser autista (ela não consegue, por exemplo, atravessar uma porta giratória), por outro lado, ela é um gênio, que sabe de cor toda a legislação coreana.

O autismo, aliás, é a razão pela qual ela é recusada por todos os escritórios de advocacia, mas quando ela é contratada pela Hanbada suas habilidade extraordinárias fazem com que ela se revele. Ela consegue ver ângulos inusitados em casos, brechas legais, usar uma legislação para aplicar a um caso em que ninguém tinha pensado em usar aquela legislação.

Woo Young-woo cativa o expectador desde o primeiro momento, quando se apresenta explicando que seu nome pode ser lido e trás para frente, como catraca, caneca, casaca, cômico, careca. Nisso, contribuiu muito a atuação espetacular de Park Eun-bin. A atriz parece se sentir à vontade exatamente em papéis que a tirem da área de conforto. Em o rei de porcelana ela faz o papel de um homem. Aqui, como autista, ela entrega uma atuação meiga e ao mesmo tempo carismática. É impossível não simpatizar com a personagem e essa simpatia aumenta ainda mais quando percebemos os seus lances de genialidade ao atuar nos casos. Sua relação romântica com um colega de trabalho, fundada principalmente no platonismo (eles trocam um único beijo durante toda a temporada de 16 episódios) também contribuiu para fazer o público simpatizar com a personagem.

Mas Uma advogada extraordinária não fica apenas no meigo, no cômico ou no romântico. A série aborda temas complexos, como o preconceito contra autistas, a falta de ética do meio jurídico e o excesso de trabalho dos advogados coreanos.

Um dos episódios mais interessantes é O flautista, cujo título remete diretamente à história clássica do Flautista de Hamelin. Na história, o filho de uma diretora de escola leva crianças para um dia inteiro de brincadeiras nas montanhas. Ele é acusado de sequestro e Woo Young-woo deve defendê-lo. A história é uma dura crítica à severa educação coreana, em que crianças chegam a passar 12 horas estudando sem direito a se alimentar ou ir ao banheiro.

Uma advogada extraordinária é tão cativante que mal percebemos quando se passaram os 16 longos episódios.

Curve-se ante seu senhor, Super-homem!

 


Na década de 1950 os quadrinhos sofreram uma forte perseguição. Argumentava-se que os quadrinhos estimulavam de crimes à preguiça de ler. Como forma de responder a isso, a DC Comics praticamente aboliu qualquer tipo de violência nas histórias. Essa fórmula se tornou uma marca da Era de Prata na DC, a ponto de ser seguida mesmo na era de bronze.

A história “Curve-se ante seu senhor”, escrita por Leo Dorfman e desenhada por Curt swan e publicada em 1971 na revista Action Comics 404 é um ótimo exemplo disso.

Na história, Clark Kent é enviado para fazer uma matéria sobre um instituto de pesquisa situado à beira da praia. Quando se aproxima do local, o herói percebe que um pequeno terremoto abalou a estrutura do local e que o instituto irá desabar graças a uma caverna situada abaixo dele. Agindo rapidamente, o homem de aço escora o local, impedindo o desastre.

O cientista César é tão fã do Super-homem que mantém um museu em sua homenagem. 


Quando chega ao instituto descobre, espantando, que os cientistas sabiam o que ia acontecer. Afinal, o fato havia sido previsto por César, o mais brilhante cérebro do local. “Cérebro, hein?”, pensa o Super-homem. “Deve ser aquele computador gigante!”. Mas não, era um ser humano. Ele não só era genial, mas também era um grande fã do homem de aço a ponto de fazer um verdadeiro museu dedicado ao herói. Só falta uma coisa ao local: o próprio super-homem!

Uma armadilha faz com que o herói fique paralisado, sendo assim colocado no museu. Mas o cientista quer ir além: quer roubar os poderes do homem de aço, tornando-se ele mesmo um super-herói, o Supercésar, o imperador de toda a terra.

A verdadeira motivação: o cientista quer roubar todos os poderes do herói. 


Esse é o tipo de trama que nas mãos de Jack Kirby e Stan Lee viraria uma trama repleta de ação e porrada. Mas Leo Doroman faz com que toda a situação se resolva sem que o homem de aço precise mover sequer um músculo. Nesse sentido, o desenho de Curt Swan, muito anatômico, mas parado, ajuda o efeito geral.

No final, essa trama inusitada acabou agradando, como podemos perceber pela quantidade de vezes que foi republicada no Brasil. A Ebal publicou quatro vezes e a Abril uma vez, em Super-homem 13.

O Superman de Dennis O´Neil e Curt Swan

 

Dennis O´Neil é um dos poucos roteiristas da era de bronze dos quadrinhos mais ligado à DC que à Marvel. Ele escreveu diversos personagens da editora, com uma passagem memorável pelo título do Lanterna-Aqueiro Verde e outra passagem igualmente memorável pelo Batman. Mas poucos se lembram que ele escreveu também o Homem de aço, com desenhos da dupla Curt Swan-Murphy Anderson.

O´Neil cria um novo antagonista para o herói: um misterioso ser feito de areia que suga os poderes do Superman.
O´Neil inventa um antagonista de areia que pode matar o Super. 


Para quem foi totalmente revolucionário em Batman, o roteirista parece tímido e temeroso ao trabalhar com o primeiro super-herói. As primeiras histórias emulam os roteiros da era de prata. Em uma delas um pianista sem talento descobre uma arpa mágica, veste uma roupa de Pan e desafia o Super-homem. Em outra, o herói enfrenta anjos e demônios que na verdade se revelam serem extraterrestres. São as histórias mais fracas dessa série.
Mas mesmo nas primeiras histórias, O´Neil mostra seu lado revolucionário. Na primeira história, o homem de aço enfrenta um empresário ganancioso que se recusa a deixar os trabalhadores saírem de uma ilha com um vulcão em erupção. Na história sobre anjos e demônios, os anjos se revelam criminosos estelares.
A história sobre anjos e demônios é a mais fraca do volume. 


Mas a história pega fôlego quando O´Neil imprime seu estilo, focando a história no antagonista de areia. Além de dar profundidade psicológia ao herói (ele se sente magoado quando é criticado por não salvar um prédio), o roteirista introduz até mesmo os mitos lovecraftianos na explicação sobre a origem do ser de areia.
Enfim, uma fase obrigatória, não só pelo roteiro, mas também pela arte da dupla Swanderson, a mais clássica do personagem.
No Brasil a publicação mais recente dessa fase foi no volume Lendas do homem de aço dedicado a Curt Swan.

Fantasma, o espírito que anda

 

Lee Falk foi o primeiro roteirista importante dos quadrinhos. Antes dele já existiam outros como Dan Moore e Dashiel Hammett que, no entanto, não assinavam seus trabalhos. Já Lee Falk era um pai coruja: Fazia questão não só de assinar suas criações, como exigia controle to¬tal sobre elas. Uma das poucas vezes em que ele perdeu esse controle foi quando o Fantasma passou a ser publicado no Brasil com a cor vermelha substituindo o azul original — isso aconteceu porque a história chegou ao Brasil sem referência de cor e o vermelho possibilitava uma melhor reprodução para as obsoletas máquinas tupiniquins (aliás, essa mudança de cor aconteceu em diversos países justamente pela falta de referência de cores).
O primeiro personagem de Lee FaIk foi o mágico Mandrake, em 1934. Desenhado por Phil Davis, Mandrake era um mágico racional, inspirado fisicamente no próprio Falk. O personagem, sempre envolvido em aventuras detetivescas, conquistou o público e é publicado até hoje. O grande sucesso de Falk, entretanto, seria o personagem Fantasma, criado em 1936 e desenhado por Ray Moore.
O que diferencia o Fantasma de outros personagens é o seu caráter de mito. Sua história parece uma daquelas remotas lendas passadas de pai para filho: no ano de 1525 o único sobrevivente de um ataque pirata faz um juramento: "Juro que dedicarei toda minha vida à tarefa de destruir a pirataria, a ganância, a crueldade e a injustiça. E meus filhos e os filhos de meus filhos me perpetuarão". Ele passa a usar, então, uma máscara e roupa colante e a perseguir malfeitores. Como o jura¬mento valia também para seus descendentes, o povo da selva começou a pensar que o herói era imortal. Esse aspecto da tira deu um significado maior à história, tornando-a mitológica por excelência.
“O espírito que anda” teve o mérito de ser o primeiro herói de quadrinhos a usar máscara e ma¬lha colada ao corpo. Nesse senti¬do, todos os super-heróis devem a ele o seu visual. Na primeira história o personagem usava também uma luva, que abandonou devido à inconveniência de ter de tirá-la toda vez que quisesse deixar a marca do Fantasma em um malfeitor.
O primeiro desenhista a ilustrar o personagem foi Ray Moore. Seu traço sombrio ajudou a criar o clima de mistério que envolve até hoje o herói mascarado.
Fantasma de Ray Moore era atlético e sensual, com um forte toque “noir” realçado pelo som¬breado pesado. Nenhum outro artista conseguiu manter o nível de Moore, que desenhou o personagem de 1936 a 1942.
A partir de 1942, seu assistente Wilson McCoy pegou o personagem. A princípio, McCoy seguiu a linha de Moore, tentando manter o nível de qualidade, mas com o tempo começou a caricaturar os personagens dando a impressão de que as tiras eram feitas às pressas. Com a morte de McCoy, em 61, o Fantasma passou a ser desenhado por Sy Barry, de traço bastante impessoal. Isso deve ter ajudado para que ele tivesse uma multidão de assistentes - que muitas vezes faziam tudo na história, tendo Sy Barry só o trabalho de assinar, quando muito.
Em 1977 o Fantasma se casou. A história, embora seja assinada por Sy Barry, foi desenhada pelo brasileiro André LeBlanc, que no Brasil foi um dos principais ilustradores dos livros de Monteiro Lobato, mas foi para os EUA, onde se tornou assistente de Will Eisner no Spirit antes de se juntar à equipe que ilustrava o Espírito que anda.
Lee Falk sabia que os detalhes fariam com que seu personagem ganhasse um aspecto de mito e não economizou neles, a começar pelos apelidos que o povo da floresta dão ao personagem, tais O Espírito-que-anda, o Homem que nunca morre, o Guardião das Trevas Orientais e outros. Os ditados referentes ao personagem também ficaram famoso: “O Fantasma é violento com os violentos”, “Dá medo ver o Fantasma enfurecido”, “O Fantasma atira mais rápido que o olhar”. Os símbolos também ajudam a compor a aura do personagem, como a caverna da caveira (local de sua moradia) e os anéis. O anel da caveira, usado na mão direita, marca os malfeitores, enquanto na mão esquerda fica um anel com a marca de proteção. Aqueles que têm essa marca serão sempre protegidos pelo personagem. Outros destaques são os companheiros animais do personagem, o lobo Capeto e cavalo branco Herói.
No Brasil o personagem fez muito sucesso nas década de 1940 e 1950, contribuindo para que seu editor, Roberto Marinho, ficasse rico o suficiente para montar uma emissora de TV, a Rede Globo. Atualmente, no Brasil, ele tem um público pequeno, mas fiel. Entretanto, em outros países, como a Austrália e a Escandinávia, ainda é o herói de quadrinhos de maior sucesso. Recentemente a revista do personagem alcançou o número 1.500, um recorde mundial.

Perry Rhodan: Arriscando a Própria Vida

 


Grek-1 é um dos personagens mais fascinantes do quinto ciclo da série Perry Rhodan. Inicialmente comandante de uma frota destinada a exterminar a humanidade, ele acaba sequestrado e, gradualmente, torna-se um aliado. Grek-1 passa a enxergar nos terranos a única esperança de libertar seu povo, os maahks, da escravidão imposta pelos Senhores da Galáxia. O volume 248 representa o ápice desse personagem na série.

Na trama, os Senhores da Galáxia reúnem as frotas de seus povos servos em um sistema planetário para uma conferência estratégica. Rhodan precisa descobrir os planos dos tiranos, e Grek-1 se oferece para a missão de espionagem, infiltrando-se no planeta ao assumir o posto de comandante de uma nave. Para viabilizar o plano, uma nave dos Twoonosers é capturada e equipada com um compartimento secreto para transportar Grek-1 e um grupo de mutantes. O objetivo é colher informações e usar o teletransporte para uma fuga rápida, mas o comandante maahk possui planos próprios e secretos.

A capa original alemã. 


Escrito por Clark Darlton, este é um volume extremamente agradável, ancorado em uma narrativa tensa que se sustenta em duas frentes: o sucesso da missão de reconhecimento e a real intenção de Grek-1.

É verdade que o roteiro se apoia em conveniências típicas da época, como a utilização dos mutantes como verdadeiros deus ex machina para resolver impasses técnicos a exemplo do uso de um "sugestor" para apagar a memória da tripulação de Twoonosers. Entretanto, Darlton maneja a escrita com tal habilidade que essas facilidades raramente incomodam o leitor imerso na ação.

Um detalhe histórico relevante: uma reclamação comum nas cartas dos leitores da época era o foco excessivo em táticas militares, o que deixava os personagens sem vida privada ou preocupações existenciais. Este livro traz uma ruptura curiosa nesse sentido: em um trecho marcante, o próprio Perry Rhodan sugere uma oração por Grek-1. Salvo engano, esta é uma das primeiras referências explícitas à espiritualidade ou religião no universo estritamente tecnológico e racional de Perry Rhodan.

quarta-feira, julho 22, 2026

Dylan Dog – A carta em branco

 



As cores do medo é uma coleção da Bonnelli na qual são publicadas histórias coloridas de Dylan Dog. Em a carta em branco, publicada no número 6 da série, Dylan recebe uma carta de um antigo professor. A missiva traz dois mistérios: o endereço é de um hospital e a carta está em branco. 

O desenho se destaca pelos ótimos closes, fundamentais para a história. 


Ao visitar o professor, ele ouve uma história inacreditável: o velho sábio tem sido vítima de traças monstruosas, que, no começo desapareciam com coisas banais, como uma anotação na agenda. Depois, ponteiros dos relógios começaram a desaparecer. Então, pessoas em retratos.

O roteirista Giovanni Gualdoni constrói uma história sensível e emocionante que mistura terror e drama pessoal, criando uma metáfora poderosa (é impossível falar mais do que isso sem dar spoiller do final).

O horror é usado como uma metáfora. 

Para completar essa HQ realmente memorável, temos o desenho de Corrado Mastantuono. Mastantuono é mais conhecido por seu trabalho na Disney italiana, mas nitidamente tem uma paixão pelos personagens bonellianos, tanto que desenhou sátiras de Tex e Mister No. Mesmo com seu traço puxado para o humor, ele imprime emoção na história. Cenas com os monstros atacando são um destaque, mas o que chama atenção de fato são os closes, em especial do velho professor – poucas vezes um close falou tanto.  

Kardec – o filme

 


Kardec foi o codificador da doutrina espírita, o homem que tornou o espiritismo famoso mundialmente. Mas sua vida em si não teve grandes atrativos, sendo sua jornada muito mais espiritual e intelectual. Transformar essa jornada em algo interessante era o objetivo de Wagner Assis. O diretor já tem uma relação com o tema: foi o responsável por transpor para as telas o livro Nosso Lar, de Chico Xavier.
Hypolite Leon Denizard Rivail era um revolucionário professor francês. Influenciado por Pestalozzi, propunha uma relação de afeto entre alunos e professores e uma educação que despertasse a curiosidade científica nos estudantes. Quando, por ordem de Napoleão III, as escolas foram obrigadas a ter aulas de religião começou seu primeiro grande combate. Seu método de ensino ia na contramão da catequese em que se transformaram as escolas. A solução foi se aposentar.
O filme inicia exatamente nesse momento, em que, desempregado, o célebre professor, autor de vários livros sobre educação, se vê numa situação de crise. Entremeada a essa crise, uma moda, inicialmente rechaçada por ele: a das mesas girantes. Pessoas lotavam teatros onde faziam perguntas a mesas que flutuavam no ar.
Como bom cientista, Hypolite rechaçou o fenômeno, imaginando que se tratava apenas de truques de ilusão.
De fato eram, como ele logo descobriu – mas havia também fenômenos autênticos, em grupos que envolviam até mesmo cientistas renomados. Aos poucos ele foi se deixando convencer pelos fatos, como mensagens para ele com informações que só ele ou sua esposa conheciam, ou um conto escrito por um autor falecido, mas cuja letra era absolutamente idêntica à letra do autor original.
O filme explora bem essa trajetória – do rejeição inicial ao momento em que o professor elabora um método para evitar fraudes: fazer a mesma pergunta a vários médiuns e comparar as respostas. Até que ele as codifica em uma obra – o Livro dos Espíritos.
Como foi dito, é uma jornada espiritual e intelectual – portanto há quase nenhuma ação ou conflito.
O momento de maior conflito ocorre quando a igreja católica bane o livro (Houve inclusive uma queima pública da obra, em Barcelona) e consegue a proibição das reuniões espíritas.
Entretanto, o filme consegue se sustentar bem com esse material, mantendo o interesse do expectador.
Como o orçamento é nitidamente baixo, os cenários de Paris do século XIX são recriados digitalmente e o filme todo tem um tom excessivamente teatral, o que barateia bastante os custos, mas torna um pouco forçada algumas cenas.

O cão da meia-noite, de Marcos Rey

 


No final do século XIX e início do século XX a literatura brasileira era dominada pelos parnasianos. Um dos princípios dessa corrente literária era a linguagem empolada, difícil, afastada do populacho. Monteiro Lobato foi o primeiro a se revoltar contra essa maneira de escrever - a ponto de se recusar a ser chamado de escritor, pois associava o nome à "alta literatura" e, por tabela, aos parnasianos. Para Lobato, a literatura devia falar a língua do povo, repetir suas gírias e modos de dizer. Posteriormente, essa proposta seria levada a cabo pelos modernistas, mas ninguém conseguiu encarnar a proposta de Lobato de maneira tão completa e perfeita como Marcos Rey. O grande autor de livros juvenis, cujo pai era encadernador na gráfica lobatiana, conseguiu como ninguém apanhar o jeito de falar de toda gente e transformá-lo em palavra impressa. Ótimo exemplo disso é o livro de contos O cão da meia-noite (Global editora, 216 páginas). 
No volume, Rey conta histórias de pessoas normais que acabam sendo envolvidas em algum tipo de drama. Algo em comum em todos eles é iniciar com um episódio cotidiano, pitoresco (como amigos que se encontram num bar, ou um homem que resolve adotar um cachorro), que vai se tornado mais e mais complexo ao correr das páginas. 

No primeiro conto, "Eu e meu fusca", vemos o que parece ser o relato apenas de um garoto viciado em seu carro, mas que logo se torna uma história policial no melhor estilo serial killer (provavelmente um dos primeiros textos ficcionais sobre o assunto escritos no Brasil). Todo narrado em primeira pessoa, o texto repete as gírias das ruas da década de 1960.

Em "O bar dos cento e tantos dias" um redator publicitário desempregado conhece um boêmio que lhe dá dicas de empregos (quase sempre furadas) enquanto lhe ensina a "observar o espetáculo da cidade" e seus personagens - um exercício que certamente o autor fez à exaustão, a se tirar pela fauna presente nesse livro. 

No conto que dá título ao livro vemos um homem que encontra um cachorro de rua e resolve leva-lo para casa e cuidar dele. Ocorre que se trata de um cão de rua, incapaz de viver preso. O que começa como um simples gesto de carinho acaba se tornando uma obsessão assassina e acabamos tendo mais uma história policial. Para entender "A escalação" é interessante saber que Marcos Rey foi roteirista de cinema, mais especificamente da pornochanchada, o que lhe permite falar com muita propriedade do assunto. No texto, um produtor cinematográfico reúne o elenco de seu novo filme, mas joga psicologicamente com cada um deles de modo a sempre ganhar. Ali temos desde o roteirista que aceita qualquer salário porque é perseguido pela ditadura e ninguém quer lhe dar emprego até a atriz decadente em busca de um papel que a traga de volta à cena. 

Muito difícil escolher o melhor conto num livro de pérolas como esse, mas se fosse necessário, eu escolheria "O adhemarista". O mote é simples, quase irrisório: um taxista que faz campanha para Adhemar de Barros num texto narrado por um amigo igualmente taxista. Nada demais. Mas Marcos Rey nos revela neste conto uma verve psicológica, um talento para coletar tipos e a capacidade de escrever como as pessoas de determinada época falavam de maneira ímpar. Saca só: 

"Aquela foi a semana mais quente que o Moa (Moacir) viveu na puta da vida. Nós, do ponto, é que sabíamos. Quente, digo, em toda parte. No carro, na rua, na sede do partido, na Lila, em casa. O homem estava envenenado, com fé em Deus e pé na tábua, dormindo só uma três horas por noite. Foi também a semana do papo, da lábia, da saliva, dia e noite de campanha, amarrando votos, aliciando os indecisos. Nunca vi na life um cabo eleitoral com tanta corda, tanta garra, tanto embalo".

Não bastasse a ótima análise do tipo fanático, que transforma política em torcida de futebol e coloca a eleição acima de tudo, Marcos Rey ainda constrói sua narrativa como um verdadeiro suspense policial, em que o mistério não é saber quem é o assassino, mas quem irá ganhar a eleição. 

"Soy loco por ti, América!", repete o tema de "A escalação". Nele, vemos uma festa de granfinos e estrelas do cinema e da televisão no dia anterior ao golpe militar. Regada a lança-perfumes, a festa, que começa tímida, torna-se um verdadeiro circo, com direito a gay enrustido, que de repente se interessa por uma atriz, para desespero de seu parceiro assumido, a atriz que humilha o produtor que a recusou antes da fama e anfitrião que filma tudo. 

Em "Traje de rigor" encontram-se no bar quatro homens muito diferentes: um publicitário (cujos slogans, como "Mil a vista e o resto a perder de vista", lhe renderam um ótimo salário), um jornalista decadente, que parece interessado unicamente em vender um revólver para qualquer um que encontre, um velho cantor igualmente decadente e um homem de família, com filho doente em casa, que quer apenas levar uma lata de leite em pó para casa. Esses quatro juntam-se numa inesperada jornada pela noite de São Paulo que a vai se revelando mais e mais surpreendente a capa página (o homem de família, por exemplo, acaba se mostrando o mais bôemio). 
Finalmente, em "Mustangue cor-de-sangue" acompanhamos o relato de um redator de um programa infantil estrelado por um anão que no dia-a-dia é um devasso e, na ocasião, resolve transar justamente com a vedete pela qual o escriba é apaixonado. O conto oscila entre as tentativas do anão e as fugas da moça, interessada em um contrato na TV e os planos do intelectual para salvá-la e, ao mesmo tempo, tirar sua casquinha da moça. Daria uma ótima pornochanchada, como muitas das que foram escritas por Marcos Rey para a boca do lixo na década de 1970. Aqueles que, quando crianças e adolescentes se deliciaram com as histórias de Marcos Rey para a coleção Vaga-lume irão se deliciar ao descobrir esse outro lado do escritor. 

Quando a Marvel era a casa das Ideias

 

Revistas como a do Doutor Estranho refletiam a criatividade da Marvel na década de 70. 


Quando Alan Moore, Steve Bissett e John Totleben assumiram o Monstro do Pântano, muitos se surpreenderam com a diagramação inovadora e o texto poético e revolucionário. Mas a diagramação psicodélica, assim como o texto poético não eram novidade: o Doutor Estranho de Englehart e Frank Brunner já tinha essa característica.
A Marvel na década de 1970 era pura inovação.
Alguns fatores contribuíram para tornar isso possível.
Um deles foi o fato da Marvel não ser uma grande empresa, como a DC, mas que ter uma grande produção de revistas. Então eles precisavam urgente de profissionais e não podiam pagar tanto quanto a DC. Compensavam com liberdade criativa.
Por outro lado, a maioria dos roteiristas eram também editores, de forma que tinham controle do processo criativo, uma tradição que começara com Stan Lee e se tornara norma com Roy Thomas.
Por último, o lema de Stan Lee que foi regra até a entrada de Jim Shoter como editor-chefe da Marvel no final década de 1970: "se uma revista está vendendo bem, não interfira".
Todos esses fatores juntos faziam com que Marvel fosse o local ideal para quem queria inovar. E a lista dos que que aproveitaram isso é enorme: Steve Englehart, Frank Brunner no Doutor Estranho, Jim Starlin na saga de Thanos, Bill Mantlo no Hulk e Micronautas, Steve Gerber em Howard, o pato, Don McGregor no Pantera Negra...
Na década de 1980 a DC se tornou mais inovadora. Monstro do Pântano é um exemplo disso. 

Na década de 1980 essa situação muda completamente: a Marvel se torna uma grande empresa, a primeira em vendas, os roteiristas deixam de ser editores e o editor-chefe se pedia modificações nas revistas, mesmo que ela estivessem vendendo bem (há uma caso famoso de uma capa de quadrinhos que Shoter mandou redesenhar três vezes porque não gostou do tênis que um personagem usava).
O ápice desse processo foi a série Guerras Secretas. Tudo ali foi decidido pelo departamento de marketing, inclusive o nome da série (uma pesquisa mostrou que essas eram as palavras que mais chamavam a atenção dos meninos). A partir daí passou a ser o departamento de marketing - e não os criadores - que decidiam os rumos das histórias. 
Resultado: foi exatamente nessa época em que a DC se tornou mais criativa que a Marvel. Foi exatamente nessa época que Alan Moore Steve Bissett e John Totleben fizeram o Monstro do Pântano para a DC.

Quarteto Fantástico contra o Milagroso

 


No começo, o Quarteto Fantástico não tinha uniformes e o Tocha Humana era desenhado como o da era de ouro, com labaredas no meio do corpo. A forma defitiva do grupo, com os uniformes e o Tocha sendo desenhado como se seu corpo fosse feito de brasas rodeadas de chamas, só vai surgir no número 3 da revista, quando o grupo enfrenta o mágico Milagroso.

Esse número, aliás, também se destaca pela primeira aparição do Fantasticarro, que já surge na capa, numa daquelas imagens impressionantes que só Jack Kirby conseguia fazer. Dentro, descobrimos inclusive que o fantasticarro pode ser dividido em quatro partes, permitindo que o grupo possa se separar.

O Milagroso parece mais forte que o Coisa. 


Nessa história, o quarteto enfrenta um mágico chamado Milagroso, que, ao ver o grupo na plateia, os desafia: “Aí está o Quarteto Fantástico! Supostamente eles são o grupo mais poderoso e sensacional da história, mas eu digo... bah! Comparado ao meu poder, eles não são nada!”.
Para provar isso, ele desafia o coisa a quebrar uma tora de madeira. O coisa consegue, depois de vários socos, mas o Milagroso consegue usando só o mindinho.

“É muito bom para nós e para o mundo que o milagroso não seja um criminoso! Porque se fosse... ele seria o único adversário que jamais conseguiríamos derrotar!”, vaticina o Senhor Fantástico.

A primeira aparição do Fantasticarro. 

Ocorre que o Milagroso é sim um criminoso e para isso ele faz com que um boneco gigante de um alienígena (que era usado no anúncio de um filme) aterrorize a cidade enquanto ele rouba um tanque nuclear.

Para uma ameaça tão grande, Milagroso acaba sendo um vilão pífio, como descobrimos no final (no qual ele se revela quase um plágio de Mandrake). Aliás, boa parte do poder de Milagroso não faz sentido. Como ele consegue, por exemplo, hipnotizar as pessoas para acharem que o boneco do monstro saiu do lugar e o boneco ser destruído pelo Tocha no local em que as pessoas achavam que o boneco estava?

Todo mundo gostou dos uniformes, menos o Coisa. 


Mas a história, apesar do vilão pouco interessante, se destaca pelas inovações narrativas e temáticas. Para começar, é um grupo que literalmente briga o tempo todo. À certa altura, o Coisa diz que quer voltar à forma humana para que Sue olhe para ele da mesma forma que olha para Reed Richards. “Minha irmã? Não se engane, coisa. Ela não se apaixonaria por ti, nem que você fosse a cara do Rock Hudson”, o que gera uma briga efetiva, com o Coisa destruindo uma parede e o Tocha se incendiando e saindo de casa.

O interessante aí é que apesar de brigarem o tempo todos, eles são unidos, como uma família.

Essa característica, somada ao fato de que as histórias, na grande maioria, uniam super-heróis e ficção científica, explica porque o gibi do Quarteto foi durante muitos anos a vaca leiteira da Marvel – aquela publicação que vendia tanto que sustentava a editora. O Quarteto só começaria a perder o posto com o Homem-Aranha da fase John Romita. 

A arte incrível de Bilquis Evely

 

 

Bilquis Evely é uma desenhista brasileira de histórias em quadrinhos. ela começou a se interessar por quadrinhos quando viu uma revista da Supermoça na banca, quando tinha apenas 14 anos.

Seu primeiro trabalho profissional como desenhista foi na série Luluzinha Teen, da editora Pixel.

Pouco depois começou a trabalhar para os EUA, ilustrando revistas da Dynamite, como Doc Savage.

Seus primeiros trabalhos na DC foram com capas variantes e títulos menos famosos, como Plastic Man. Mas sua grande chance viria mesmo em 2016 quando foi convidada para assumir os desenhos do título da Mulher Maravilha. Pouco depois ela trabalhou em The Sandman Universe - The Dreaming, com personagens criados por Neil Gaiman. Outro trabalho de destaque foi Supergirl: Woman of Tomorrow.









terça-feira, julho 21, 2026

Quarteto Fantástico – Primeiros Passos

 


Eu sempre tive um fascínio pelo Quarteto Fantástico que não sei explicar de onde veio. Eu assisti uma outra coisa do desenho animado com o robozinho e provavelmente achei os roteiros sofríveis. Mas, como costumo dizer, quando eu era criança, nunca assistia o que estava passando na TV. Assistia o que estava passando na minha mente. E aquela mistura de ficção científica, super-heróis e família parecia prometer aventuras incríveis e fascinantes. Depois de adulto, quando comecei a ler quadrinhos Marvel, só as melhores histórias de Stan Lee e Jack Kirby se igualavam àquilo que eu esperava desses personagens – a exemplo da saga de Galactus. Foi essa impressão que eu tive ao ver o filme Quarteto Fantástico – primeiros passos.

O filme de Matt Shakman não tem vergonha de ser uma obra baseada em quadrinhos. Estão ali os uniformes coloridos, o clima divertido de família, as soluções malucas de Reed Richards.

A produção acerta ao situar a obra na década de 1960, com um visual futurista retrô. O roteiro, aliás, é descomplicado e otimista: O Quarteto se transformou após uma viagem ao espaço e os astronautas se tornaram ídolos mundiais. Usar um programa de auditório para introduzir os personagens foi uma boa sacada para narrar tudo que o expectador precisa saber a respeito desses personagens.

Tudo muda quando a terra recebe a arauto de Galactus, a Surfista Prateada, que avisa que a terra será a próxima vítima do devorador de mundos. A coisa se complica quando Galactus resolve tomar para si o filho de Reed e Sue, um garoto, segundo ele, detentor de grande poder.

Quem conhece os quadrinhos sabe que a história foi modificada. Mas essas modificações mantiveram a essência da história. E, na verdade, promoveram um motivador a mais. Agora o Quarteto não luta apenas pela humanidade, mas também pelo bebê. Pode parecer paradoxal, mas funciona. Ao colocar uma criança em perigo, o filme humaniza a narrativa, torna mais palpável o perigo e menos abstrato.

Outra mudança foi com relação ao final – e essa também é positiva. Nos quadrinhos, a humanidade é salva por um deus ex machina (uma arma do Vigia). Aqui a ameaça é debelada graças a um plano do Senhor Fantástico.

Quando o Quarteto surgiu, sue era a personagem menos poderosa (alguns leitores mandavam cartas sugerindo a retirada dela do grupo, cartas que eram respondidas por Stan Lee com verdadeiros sermões sobre a importância das mulheres). Aqui, ela é a mais poderosa, e aquela cujo poder acaba sendo fundamental no momento mais crucial do filme.

É um filme empolgante. Não por acaso, a plateia da sessão que assisti vibrava e chegava até a falar com os personagens.

PS1 - O filme reverencia os quadrinhos a ponto de mostrar o que seriam Jack Kirby e Stan Lee, com páginas de quadrinhos de Kirby penduradas nas paredes de uma editora.

PS2 – Adorei os uniformes.

PS3 - Não perca a cena pós-crédito.