quarta-feira, abril 29, 2026

Mister No – Aventura no Equador

 


A série Mister No é tão cativante que até mesmo as histórias menos inspiradas acabam sendo divertidas. É o caso do conto publicado no número 11 da revista.

Escrita por Guido Nolita (pseudônimo do editor Sergio Bonelli) e desenhada por F. Bignotti, a trama leva o aviador Jerry Drake ao Equador. Mister No é contratado por um turista e, contrariando o habitual, recebe um pagamento generoso: 1.500 dólares. Animado com a "bolada", ele se prepara para curtir a noite em Quito. No entanto, o dinheiro revelava-se falso.

Mister No finalmente se dá bem... 


O volume traz uma sequência hilária quando Mister No provoca uma confusão no bar mais chique da cidade ao tentar pagar a conta com as notas falsas. Após nocautear um segurança, o herói depara-se com a polícia na saída e, rapidamente, os engana: “Não perca tempo precioso, general... ali dentro há um passador de dólares falsos! Está armado e ameaça provocar uma tragédia!”, diz ele, antes de sair assobiando tranquilamente.

Outro momento de destaque é sua vingança contra o homem que lhe deu o dinheiro falsificado. Mister No arma um espetáculo no hotel do vigarista, expondo-o publicamente aos hóspedes.

... mas os dólares eram falsos. 


A história principal só se desenvolve a partir do segundo terço da revista. Mister No aceita uma oferta para pilotar um avião e fotografar um mafioso mexicano, Tango Martinez, para uma revista. Como sempre, o trabalho é uma cilada: o verdadeiro objetivo do cliente é matar Martinez, o que lança o aviador diretamente para o meio de uma briga de gangsters.

Infelizmente, essa segunda parte é apagada. Há reviravoltas e muita ação, mas nada que realmente prenda a atenção. Talvez por se afastar do cenário clássico da selva amazônica e da temática de maravilhamento (como civilizações perdidas ou grandes mistérios), a trama se restringe a socos e tiros em profusão.

O novo trabalho também se revela uma roubada. 


Mas, como mencionado inicialmente, mesmo histórias como essa são inegavelmente divertidas de ler.

Liga Extraordinária: século

 

Liga Extraordinária é um dos projetos mais curiosos de Alan Moore, por uma série de motivos. Para começar, como surgiu. O desenhista inglês Kevin O`Neil ouviu o boato de que Alan Moore iria fazer um projeto com ele. Não era verdade, mas quando foi conferir a história com o próprio Moore, os dois tiveram a ideia de realmente fazer uma série. Além disso, a proposta é interessante: reunir heróis da literatura popular do século XIX em uma liga para combater grandes perigos.
A primeira geração tinha o Capitão Nemo (do livro 20 mil léguas submarinas, de Júlio Verne), Nina (de Drácula, de Bran Stock) o aventureiro Allan Quatermain (De As minas do rei Salomão, de Henry Rider Haggard), Dr. Jekyll (de O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson), e Hawley Griffin (de O Homem Invisível, de H.G. Wells).
A história fez grande sucesso e ajudou a popularizar o subgênero steampunk nos quadrinhos. Também deu origem a um filme, absolutamente esquecível.
Liga Extraordinára Século integral, publicado pela editora Devir em 2015 reúne uma história posterior da Liga, ambientada entre os anos 1910 e 2009. É centrado em Nina, Alan e um agregado: o imortal Orlando, que de tempos em tempos se transforma em mulher. Os três investigam um mago que pretende gerar o anti-cristo e as investigações passam da era vitoriana para a era hippie, chegando n a era atual (embora em uma realidade paralela).
Essa saga foi escrita quando Alan Moore já estava em guerra declarada contra a DC, que comprara a editora Widstorm, e, portanto, o universo ABC, criado por ele. Em decorrência disso, Moore resolve literalmente chutar o balde, sendo mais provocativo que nunca. O anti-cristo, por exemplo, é um Harry Potter enlouquecido. À certa altura ele atinge os heróis com um raio saído diretamente de seu... pênis!
Um dos problemas da série é que o clima steampunk, que caracterizava a primeira história aqui se perde completamente, perdendo muito de seu charme. Outro problema: há um intervalo de tempo muito grande na trama, e, no meio dele, um outro álbum, Dossiê Negro. Quem não leu o Dossiê Negro, como eu, fica perdido em muita coisa.
De resto, é uma boa trama, com sequências memoráveis. Destaque para a sequência de alucinação de Nina ou aquela em que o mago troca de corpo pela primeira vez.

terça-feira, abril 28, 2026

A loucura dos quadrinhos

 

Em 1985, quando a Marvel lançou uma minissérie do personagem Longshot, o que chamou atenção não foi tanto o personagem, mas estilo detalhista de seu desenhista, Arthur Adams. Embora não tivesse pique para uma série mensal, Adams acabou deixando sua marca nos quadrinhos, influenciando toda uma nova geração. Seu arte-finalista era Whilce Portacio, que fora colocado na série exatamente para aprender com Adams. Acabada a mini, Portacio foi colocado no título Tropa Alfa, com desenhos do sul-coreano Jim Lee. Os dois se tornaram amigos e definiram um estilo que marcaria os anos 1990.
Enquanto isso, um ex-jogador de beisebol, Todd McFarlane, estava se sentindo insatisfeito com o título do Hulk. Seu editor levou amostras de sua arte para outros editores da Marvel. Sua anatomia distorcida e fetiche por detalhes fizeram com ele ganhasse o título do Homem-aranha.
McFarlane, Lee e Portacio tinham um estilo que destoava completamente do estilo sóbrio e funcional de artistas que haviam feito escola na editora, como John Byrne e se aproximava mais da linguagem de vídeo-clipes e a não-linearidade narrativa.
Em 1989 McFarlane decidiu que queria escrever e desenhar seu próprio título. Achou que o editor lhe daria um título menor, mas se surpreendeu ao descobrir que seria o responsável por um novo título do aracnídeo. Ele mesmo dizia que não era roteirista. Do jornal, só lia o caderno de esportes e nem se lembrava do último livro que tivera em mãos.
Enquanto esperava seu próprio título estrear, McFarlane resolveu ajudar outro novo talento a arte-finalizar as capas de Novos Mutantes: Rob Liefield. Liefield era ainda mais trôpego na arte da narrativa. Seus músculos e artilharia eram absurdos. Cenários de fundo desapareciam e reapareciam, Janelas quadradas logo reapareciam redondas. Segundo sua editora Louise Simonson, ele simplesmente não ligava para o roteiro, fazendo desenhos de gente cool pousando de uniforme para depois vender as páginas por uma boa grana. Ainda assim, as vendas subiam.
Para o lançamento do Homem-aranha, os executivos adotaram uma estratégia que seria a melhor representação da era que se iniciava: colocar a revista dentro de um saquinho plástico. O saco destacava a revista no ponto de venda e fazia com os colecionadores comprassem duas edições, uma para guardar fechada e outra para abrir e ler. Também havia duas capas, uma com tinta normal e outra com tinta prateada, o que levava os colecionadores a comprarem a mesma revista três vezes. Como resultado, a revista vendeu mais de um milhão de exemplares.
Novos artistas escrevendo e desenhando em um estilo pouco narrativo, mas chamativo, capas alternativas e saquinhos pareciam ser a nova moda. Logo viria X-men 1, de Portacio e Lee. A revista tinha diálogos de Chris Claremont e depois de John Byrne (ambos não aguentaram ter de colocar textos em páginas que iam chegando aos poucos e pareciam não fazer sentindo). Vendeu mais que o Homem-aranha de McFarlane. A revista teve cinco capas variantes, fazendo com que os colecionadores comprassem seis vezes a mesma revista – uma para tirar do saco e ler e cinco para guardar na coleção.
Nesse mesmo período a DC decidiu, numa jogada de marketing, matar o Super-homem, o que gerou muitas matérias em jornais e revistas. E as matérias sempre traziam informações sobre pessoas que haviam comprado a Action Comics número 1 por centavos e que agora essas revistas valiam o suficiente para serem trocadas por uma mansão. Então aquele motorista de caminhão que nunca havia lido quadrinhos achou que tinha achado sua mina de ouro: bastava comprar uma daquelas revistas número 1 (talvez X-men de Lee e Portacio ou o Homem-aranha de McFarlane) e guardá-la, esperando que valorizasse o suficiente para garantir a faculdade dos filhos.
Agora já não eram mais só os fãs que compravam. Pessoas que nunca haviam lido quadrinhos compravam caixas de gibis e guardavam. Se o gibi tinha cinco capas variantes, compravam cinco caixas de gibis e guardavam, esperando valorizar. As vendas batiam a casa dos milhões, um número muito superior ao número real de fãs de quadrinhos nos EUA.
Claro, esse era um sistema que tinha tudo para implodir. Logo ia chegar um ponto em que todos (lojistas, especuladores e fãs de quadrinhos) iriam perceber que aquelas revistas nunca se valorizariam tanto – principalmente por um fator simples de economia: se algo existe em grande quantidade, não tem valor (Um ótimo exemplo disso é a edição nacional da morte do super-homem, que hoje pode ser facilmente encontrada em qualquer sebo por preços que variam de 3 a 5 reais, um valor inferior ao que seria o preço de banca se a revista fosse lançada hoje).
Mas antes que a bolha explodisse, a indústria de quadrinhos viu nascer a era Image.

Programação do circuito amazônico de quadrinhos

 







O golpista do Tinder

 


O israelense Shimon Hayut usava o aplicativo de namoro Tinder para aplicar golpes. Usando o nome de Simon Liev, ele se fazia passar por herdeiro de uma família do ramo da exploração de diamantes e enganava mulheres, fazendo-as contrair dívidas que chegavam a um milhão de dólares. Era um esquema de pirâmide, em que ele usava o dinheiro de uma mulher para impressionar outras vítimas. Quando achava que chegara o momento certo, ele aplicava o golpe, dizendo-se perseguido por inimigos e pedindo que as vítimas contraíssem empréstimos e cedessem seus cartões de crédito para ele.

É essa história real que é contada no documentário O golpista do Tinder, dirigido por Felicity Morris e disponível na Netflix.

Morris constrói seu documentário como um triller de suspense. O documentário é todo baseado no depoimento de três vítimas, mas esses depoimentos são entremeados de imagens e vídeos de redes sociais e até mesmo filmes e desenhos animados. Por exemplo, quando uma das vítimas comenta sua busca por um príncipe encantado, cenas de filmes antigos e do desenho A Bela e a Fera são mostrados. Isso somado a uma edição extremamente dinâmica faz com que o expectador pense que está assistindo não a um documentário, mas a um filme.  

Ademais, a própria história é interessante por mostrar a forma de pensar e agir de um psicopata, a maneira como ele seduz suas vítimas, como eles as convence a qualquer coisa e a forma fria com que ele as explora. Psicopatas usam a máscara social para encantarem todos a seu redor, mas quando contrariados, sua verdadeira face se revela. Os áudios de uma das vítimas, com Hayut indo do romântico ao ameaçador, é uma perfeita demonstração disso.

A união de uma história impressionante com uma direção segura e criativa fizeram de O golpista do Tinder um dos filmes mais assistidos da Netflix. 

Cavaleiro da Lua – Um comitê de 5

 

No quarto volume de sua revista, o Cavaleiro da Lua enfrentou um grupo de mercernários: um especialista em explosivos, um especialista em lâminas, um atirador de elite, um campeão de karatê e Touro, um homem enorme e igualmente forte.

Esse grupo havia sido contratado pelo Comitê – e aqui Doug Moench aproveitou para costurar a primeira aventura do personagem com essa nova versão. O personagem tinha surgido como vilão da série do Werewolf, contratado pelo Comitê para aprisonar o Lobisomem, mas se revoltava contra seus empregadores. Na nova versão, o herói e Francês se infiltraram e apenas fingiram trabalhar para o grupo, quando na verdade seu objetivo era desbaratá-lo.

Nessa nova HQ, o Comitê, reestruturado, resolve se vingar e contrata os mercenários.

Cinco mercenários são contratados para matar o Cavaleiro. 

Algo que chama atenção na história é facilidade com que o Cavaleiro da Lua vence cada um dos mercenários – e o fato de que eles preferem atacá-lo individualmente e não em grupo, o que seria mais lógico. Mas o texto e o desenvolvimento da história de Doug Moench é tão eficiente que esse aspecto deve ter passado batido da maioria dos leitores, em especial porque Moech fazia uma parceria realmente memorável com Bill Sienkiewcz. 

A sintonia entre desenhista e roteirista era visível. 

A sintonia da dupla é perceptível desde as primeiras páginas, com o número 5 do título formado pelos mercenários ou o texto introduzido na capa no formato de lua do personagen, na segunda página. Além disso, os personagens vão sendo melhor desenvolvidos, incluindo Marlene, a namorada do herói, que aqui atua como espião ao paquerar um dos espiões.

Um aspecto negativo é a arte-final de Klaus Janson. Jason funcionava muito bem na parceria com Frank Miller, mas não se pode dizer o mesmo na parceria com Bill Sienkiewcz.

Filosofia teen

 



Na época da faculdade, tivemos uma discplina chamda Introdução à filosofia. Eram duas horas de tortura. Ninguém, absolutamente ninguém na turma conseguia entender o que a professora falava. Ela pulava de Platão para Descartes, dele para o taxista da esquina e dele para as eleições presidenciais. Um colega definou filosofia como tentar encontrar uma pedra de gelo num campo de neve. Essa visão aterradora tem acompanhado muitos jovens ao longo de todos esses anos. A filosofia, ou é vista como algo indecifrável, sem qualquer nexo com a realidade, ou é ensinada de maneira totalmente descontextualizada, consistindo apenas em fazer os alunos discutirem determinados assuntos, sem qualquer embasamento.
Assim, qualquer tentativa de trazer a filosofia para o mundo dos jovens deve ser aplaudida. Já houve alguns exemplos notáveis, como o Filosofando (de Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins) , ou O Mundo de Sofia (de Jostein Gaarder), e agora temos mais um exemplo. Trata-se de Filosofia para adolescentes, de Yves Michaud (Escala educacional, 2007, 134 páginas).  
Yves Michaud é filósofo, professor de Filosofia da Universidade de Rouen, ex-diretor da École Nationele de Beaux Arts de Paris. Ele maneja bem o assunto, mas faz abordagem diferente de livros predecessores, como O Mundo de Sofia. Ao invés de apresentar o assunto através de uma história da filosofia, Michaud prefere dividir o livro em temas de interesse dos jovens, em reflexões filosóficas, como ¨Por que precisamos de amor?¨, ¨Será a morte o fim de tudo?¨, ¨Somos livres?¨, ¨Pode a ciência explicar tudo?¨.
Cada capítulo inicia com um diálogo entre o autor e um grupo de adolescentes sobre o assunto em questão. É um ponto positivo, já que o volume parece ser direcionado a objetivos didáticos. A mesma discussão que o filósofo estabelece com os jovens pode ser travada em sala de aula, entre professor e alunos.
Para tornar a leitura mais agradável, o texto é entremeado de ilustrações cômicas (de autoria de Manu Boisteau) e de boxes com notas sobre filosófosos famosos. O recurso dos boxes permite aprofundar os temas, dando um embasamento sobre o que se está lendo. Espera-se que o leitor fique curioso e decida conhecer melhor o filósofo e suas idéias sobre o tema em reflexão no capítulo.
O livro seria todo excelente, uma ótima introdução para quem está dando os primeiros passos no assunto, não fossem por alguns pequenos detalhes. Não há, por exemplo, nenhuma informação biográfica sobre o autor. Além disso, o volume peca na revisão. Há erros bobos de digitação, como ¨engrançada¨ no lugar de ¨engraçada¨.
A capa também não parece muito chamativa para um livro que se pretende direcionado aos jovens.
Colocando na balança, os pontos positivos pesam mais que os pontos negativos. Filosofia para adolescentes pode ser uma boa introdução ao pensar ao mostrar que as a reflexão filosófica pode ser usada em assuntos de interesse dos jovens.

O Coisa contra o Surfista Prateado

 


Um dos grandes segredos da Marvel era o incrível dinamismo que Jack Kirby imprimia às cenas de ação – tanto que todo mundo que ia desenhar para a Marvel primeiro tinha que fazer um “estágio” arte-finalizando as histórias de Kirby, para pegar o jeito.

Kirby não só exagerava nas poses dos personagens, na perspectiva, mas também enchia os quadros de onomatopeias retumbantes, linhas de ação e o recurso gráfico inventado por ele, os Kirby Kracle (pontos kirby), que consistiam em borrões e pequenos pontinhos em volta de um personagem muito poderoso.
Uma mistura de perspectiva forçada, linhas cinéticas e onomatopéias retumbantes dava incrível dinamismo aos quadros. 


Jeffrey J. Kripal, autor do livro Mutants and Mystics: Science Fiction, Superhero Comics, and the Paranormal escreveu sobre os Kirby Kracle: “Para Kirby, o corpo humano é uma manifestação de energias definitivamente inexplicáveis - um super-corpo. O que Mesmer chamou de magnetismo animal se torna em Jack Kirby uma marca registrada energética sinalizada por "linhas de explosão" e um campo de energia único de pontos negros e borrões que passou a ser carinhosamente conhecido como "Kirby Krackle" [...]. O resultado final foi uma visão do ser humano como um corpo de energia congelada que, como uma bomba atômica, poderia ser liberada com efeitos deslumbrantes, para o bem ou para o mal”.
É literalmente isso que acontece na história “Quando ataca o surfista Prateado”, publicada em Fantastic Four 55.
Na trama, o Quarteto voltou de Wakanda e o Coisa resolve visitar Alícia, a artesão cega pela qual é apaixonado. Inseguro, ele teme que ela possa ter arranjado outro amor na sua ausência. Mas ocorre uma coincidência: quando chega lá, ela está sendo visitada pelo Surfista Prateado.
Os pontinhos Kirby em ação. 


O herói pedregoso simplesmente parte para cima dele, chegando a derrubar até mesmo um pequeno prédio no surfista. Reticente no início, o herói prateado perde a paciência e aumenta sua energia a ponto de se tornar pura energia. “Ele está se transformando numa bomba atômica ambulante... e tudo por minha causa! Eu tava tão ocupado dando chilique que esqueci do maior perigo de todos... ele não é humano!! Não sabe o que está fazendo! Provavelmente pode explodir esse pedaço de terra inteiro sem nem tentar!”, reflete um Coisa apavorado com a possibilidade da explosão matar sua querida.
É claro que tudo isso é demonstrado através dos famosos pontos Kirby. E o que deveria ser só uma escaramuça entre fortões acaba virando uma aula de narrativa visual.

segunda-feira, abril 27, 2026

Void Indigo

 

 

Void Indigo surgiu como uma proposta do escritor Steve Gerber de renovar o Gavião Negro. Como a DC não topou a proposta, ele modificou o projeto e procurou editoras indepentes. Após várias recusas, ele procurou a Marvel, que estava lançando a série Épic, nas quais os direitos dos personagens ficavam para criadores. Surpreendentemente a Casa das Ideias aceitou publicar o material na série Graphic Marvel. A proposta era que essa edição especial fosse uma espécie de piloto para uma série em seis capítulos. Infelizmente, a reação da crítica à violência da história foi tão negativa que o editor Archie Goodwin desistiu de levar a série adiante. Essa reação negativa é muito estranha, pois na mesma época estavam sendo lançados trabalhos muito adultos, com violência explícita, a exemplo do Cavaleiro das Trevas.

Feiticeiros fazem sacrifício para manter seu poder, mas não conseguem... 


Curiosamente, a Abril resolveu publicar a história piloto no número 10 da sua série Graphic Novel. Confesso que na época deixando passar, principalmente por conta da capa, que não parecia muito chamativa e contava muito pouco sobre o tipo de história que poderia se encontrar no miolo. A contracapa, aliás, é mais interessante. Quando, anos depois, comprei e li, fiquei surpreso tanto com a qualidade do texto e da trama quando com o desenho de Val Mayerik, que consegue trazer elementos da espada e magia ao mesmo tempo misturando esses elementos com um traço sujo e muitas vezes deformado, que se encaixa perfeitamente na proposta.

A história se passa no período que separava a submersão de Atlântida e a fundação de Jericó. Feiticeiros sobreviventes de Atlântida conquistam um império, impondo um reinado de terror. Mas tribos bárbaras, comandadas por Athagaar avançam sobre o império. Isso ocorre exatamente quandos os feiticeiros estão velhos e com poderes enfraquecidos. A forma de tentar retomar o poder e a juventude é através de sacrifícios precedidos de torturas. A história deixa claro que quanto mais sofrem as vítimas, maior o poder do encantamento. Mas mesmo matando milhares de jovens, o sofrimento deles não é suficiente para renovar os bruxos. “Mesmo ante a face da morte, esses jovens perderam a razão de lutar. Sua apatia enfraquece a vontade de viver. E quando a vida deixa de ter valor, a tortura nada significa”, explica um deles.

... O que os leva a sequestrar e torturar o chefe dos bárbaros. 


A solução encontra é sequestrar o bárbaro Athagaarr e sua amante e submetê-los ao sacrifício.

Essa é a parte em que o texto de Gerber chega ao seu auge e, apesar da qualidade, provavelmente é a razão pela qual a série foi alvo de tantas críticas. Um exemplo: “Seu sofrimento dura dias. Incansavelmente, e com precisão cirúrgica, os lordes negros submetem seu corpo a uma initerrupta série de punições. Ele é queimado com ferro em brasa, açoitado com chicotes farpados, cortado, furado, espancado e retalhado. O estimulante frio do norte, a espada de seu pai, os triunfos da adolescência. Sua iniciação na arte de guerrear... ele se refugia em todas as lembranças, até que cada delas se mistura com as outras e com o presente... tornando-se, sem exceção, dolorosas. A vitória é dolorosa. A tortura é dolorosa. O abraço de Ren é doloroso”.

A cena da totura é visceral e provavelmente a razão pela qual a publicação recebeu críticas negativas.


Embora o desenho não seja explícito, ele funciona muito bem para demonstrar toda a angústia do personagem.

A trama da série começa depois da morte do protagonista. A narrativa pula séculos e o vemos no futuro, como um ser alienígena que cai na terra, descobre seus passado e começa uma jornada de vingança. O último quadro, inclusive, é um gancho para isso.

É uma pena que a série não tenha dado certo.   

Jornada nas Estrelas - Lamento para Adonis

 


Pavel Checkov é um dos personagens mais carismáticos da primeira formação de Jornada nas Estrelas. Sua estréia aconteceu em Lamento para Adonis, segundo episódio da segunda temporada, e desde o primeiro momento ele já se destaca.
Na história, a Enterprise é aprisionada por uma mão de energia. Ao descer para investigar, Kirk descobre que um extraterrestre que diz ser Apolo é o responsável – e tudo leva a crer que a visita de seu povo à Terra fez com que os gregos criassem seus mitos a partir desses viajantes.
Aí entra o jovem russo com cabelo Beatles: no momento em que o extraterrestre diz que é Apolo, este responde que é o Czar da Rússia para, no momento seguinte, se desculpar: “Eu nunca vi um deus antes”.
Lamento por Adonis é o tipo de trama que não funcionaria com um atores que levassem a história sério demais, até por conta dos efeitos especiais toscos da época. Os atores, no entanto, conseguem dar uma leveza à trama que nos faz esquecer o quanto é inverossímil um alienígena usar uma mão para prender a Entreprise apenas para ser idolatrado.

Sargento Rock – O soldado sorvete

 


Muitas das histórias da série Sargento Rock são sobre soldados que encontram forças para feitos extraordinários, superando as expecativas que todos têm a respeito deles. Exemplo disso é a história o soldado sorvete, publicada em Our Arm at war 85.

A história começa com o sargento explicando que o lema de sua companhia é “quando você está na moleza... não há moleza para você!”. Em seguida começa a falar dos vários tipos de aparecem por lá, entre eles alguns que parecem menos aptos, a exemplo do soldado Phil. Em sua missão, o garoto se jogou no chão da trincheira quando começou o fogo inimigo: “Eu tava na cobertura, sargento, quando vi a artilharia pesada do inimigo. Era chumbo quente suficiente para nos derreter!”.

O soldado sorvete não faz nada certo... 


Pronto, o recruta acabara de ganhar um apelido: “Então ele tem medo de derreter... deve ser um soldado sorvete!”.

A história continua com situações e mais situações em que o soldado sorvete parece cada vez mais inapto para o serviço militar, se jogando chão na hora errada, congelando nos momentos mais decididos. Enquanto isso, o tempo vai esfriando e o garoto sofre uma ulceração nos pés. Mas é nesse momento que o soldado sorvete mostra o seu valor, salvando sua companhia.

... mas no final encontrará a redenção. 


Como é comum nas histórias escritas por Robert Kanigher, a história conclui com uma piada sobre o mote da história e ao mesmo tempo, uma lição, quando o rapaz diz: “Lutar no gelo não é difícil... pelo menos para um soldado sorvete, certo?”.

Vale destacar nessa história o desenho espetacular do Joe Kubert, que consegue transmitir tanto a insegurança do personagem no início, quanto sua resolução, no final.

George Orwell e o alerta contra o totalitarismo

 


Até os 30 anos, George Orwell sempre levou consigo a convicção de que nunca seria alguém na vida. Até essa idade, havia sido soldado, mendigo, cozinheiro e professor primário. Quando começou a escrever, seus livros não faziam sucesso - o que o levou a profetizar que nenhum best-seller sairia de sua pena. Viveu na penúria a maior parte da vida. Seu primeiro livro de sucesso, Revolução dos Bichos, foi publicado dois anos antes de sua morte. E sua obra-prima, 1984, só foi publicada depois de sua morte. Contrariando a profecia do próprio autor, os livros de Orwell se tornaram sucessos mundiais e obras como 1984 nos deram uma aterradora antecipação do que seria o mundo se as ideologias totalitárias, como o nazismo e stalinismo tivessem prevalecido.

Eric Arthur Blair (nome verdadeiro de Orwell) nasceu em 25 de junho de 1903, em Bengala, na Índia. Voltando para a Inglaterra, estudou em colégios tão famosos quanto ineficientes, tais como Eton, onde sofria todo tipo de humilhação dos colegas ricos. A infância deixou nele um complexo de feiura de fracasso que marcou toda a sua vida.

Depois do colégio, Orwell alistou-se na Polícia Imperial Indiana. Na Birmânia, para onde foi chamado, ele conheceu o sentimento de culpa que acompanhava os ingleses. Teve, também, duas experiências que o transformariam profundamente.

Na primeira delas, Orwell estava no mercado quando um elefante se perdeu do domador. Desesperado, acabou matando duas pessoas. O animal estava calmo quando o escritor o encontrou. Mas a população não, e exigia a morte do animal. Ele foi obrigado a sacrificar o animal, embora não quisesse fazer isso. Essa foi sua primeira descoberta: o opressor era também oprimido. Os algozes também perdem sua liberdade.

O segundo insight ocorreu durante a execução de um homem. Enquanto caminhava na direção da forca, o prisioneiro birmanês fez um único gesto, que abalou as convicções de Orwell: "Quando vi o prisioneiro ir para o lado a fim de evitar a poça d`água, entendi o mistério, o erro indizível de acabar com uma vida humana em plena força".

Orwell abandonou a polícia cinco anos depois de ter entrado nela. Ele voltou para a Inglaterra, a fim de despencar no abismo, viver na pele o sofrimento dos oprimidos e explorados.

Decidido, vestiu-se de mendigo e passou três anos como um. Seu primeiro livro publicado foi justamente um relato romanceado desse período de mendicância: Na pior em Paris e Londres. Foi quando usou pela primeira vez o pseudônimo de George Orwell. Nesse meio tempo ele trabalhou como professor primário. Seu terceiro livro fala justamente do assunto. A Filha do Reverendo é a história de uma garota oprimida pelo pai, que perde a memória e acaba vagando por Londres como uma mendiga e depois torna-se professora.

Orweel ainda publicou outros livros, como Dias na Birmânia e Keep the Aspidistra Flying (publicado na Brasil com o título absurdo de Depois de 1984), mas os seus livros dessa fase que mais se destacam são duas reportagens: Lutando na Espanha e A Caminho de Wigan.



A Caminho de Wigan fala sobre os trabalhadores das minas de carvão do sul da Inglaterra. Orwell já começa desmoronando as regras do jornalista: o início é a descrição do hotel em que ele ficara hospedado durante a coleta de informações. Ele gasta todo o primeiro capítulo nisso e se mostra um mestre das descrições. Toda a atmosfera de nojo e feiura são brilhantemente descritos. Ao invés de ficar no escritório tomando declarações de pessoas "autorizadas", ou coletando estatísticas, ele se arrasta pelos túneis das minas de carvão, come a comida insossa dos carvoeiros, dorme na cama cheia de pulgas...

Lutando na Guerra Civil é um relato da experiência de Orwell na guerra civil espanhola. Ele batalhou ao lado dos anarquistas e trotkistas. Isso levou muitos de seus biógrafos a considerarem-no anarquista. Embora nunca tenha se declarado como tal, poucas pessoas neste século lutaram tão ferrenhamente contra o autoritarismo.

É na Espanha que Orwell começa a ter contato com o lado negro do socialismo. Em pleno combate contra os fascistas de Franco, os stalinistas se voltaram contra os exércitos revolucionários. Orwell foi atingido por uma bala e teve de escapar secretamente do país em decorrência da perseguição stalinista. Essa experiência iria ser marcante para a formação de 1984, seu principal livro.

A idéia para Revolução dos Bichos veio quando o autor viu um rapazinho chicoteando um cavalo. Fazendo correspondência entre a dominação entre as classes e a que ocorre entre homens e animais, Orwell criou a mais famosa fábula política da atualidade. Apesar da idéia original e do texto conciso, em que cada palavra parece ter sido escolhida para causar o máximo de impacto, os originais foram recusados sistematicamente pelos editores. Um deles alegou que livros sobre animais não vendiam. Eles devem ter arrancado os cabelos quando Revolução dos Bichos se tornou um best-seller. Orwell nem teve tempo de comemorar: sua mulher morreu cinco meses antes do lançamento.

1984 foi escrito em uma cama de hospital, em 1948. O autor sofria de uma tuberculose pulmonar que o mataria um ano depois. Nele, o globo é dominado por três grandes potências que controlam não só os indivíduos, mas também seus pensamentos e desejos. A visão política desenvolvida por Orwell nesse último livro é ímpar. O sexo, por exemplo, é sublimado por marchas, minutos de ódio e outras atividades controladas pelo Estado. Orwell chega a dizer claramente que a união dos corpos nus, a explosão do desejo sexual puro, é um ato político, de rebeldia.

Lembrar também é um ato político. Winston, o personagem principal, passa a história inteira tentando recuperar os fragmentos de uma canção esquecida. Tudo que é passado lhe interessa porque, como diz o lema do Partido, quem controla o passado, controla o presente e quem controla o presente, controla o futuro.

Todo fã de quadrinhos se recordará, inevitavelmente, da minissérie V de Vingança, de Alan Moore. Nela, o personagem principal anda pela cidade recolhendo lembranças de um filme esquecido: Dunas de Sal.

Em 1984 o Estado pretende dominar totalmente a vida do cidadão. Cada pessoa tem em casa uma televisão que ao mesmo tempo é uma câmera. Ela jamais pode ser desligada. A todo momento a pessoa está sendo observada e ouvida. Não há qualquer tipo de privacidade.

A dominação se estende até mesmo à língua. No livro, o inglês começa a ser substituído por algo chamado novilíngua. A idéia é reduzir ao máximo a variedade de palavras. A utilização de uma linguagem totalmente objetiva tornaria impossível qualquer pensamento subversivo.

A teoria política de Orwell também é muito interessante. Para ele, a história, mais que uma luta de classes, é a luta da classe média para alcançar o poder. Como sozinha ela não tem força para derrubar o sistema, ela faz com que os princípios da revolução pareçam abrangentes, atraindo a simpatia dos pobres.

Conseguido o poder, o povo é recolocado em seu lugar e passam a existir somente duas classes: exploradores e explorados. Com o tempo irá surgir entre esses últimos uma nova classe média que fará uma nova revolução. Daí a crença de que a revolução só pode vir do povo. Como diz Orwell: "Eles são o futuro. Nós somos os mortos".

Mais de 50 anos depois de ser escrito, 1984 continua sendo um dos livros mais importantes do século. Para aqueles que o acham um livro pessimista, é importante conhecer um pouco da história de vida de Orwell. Uma análise detalhada demonstra que Orwell não pretendia ser profeta. Ela pretendia, isso sim, avisar sobre como se tornaria o mundo se nós abdicássemos de nossa liberdade e privacidade. O mundo será como em 1984 quando as pessoas deixarem de lutar contra o autoritarismo. Se todas as pessoas se acomodarem, é isso que acontecerá. Essa é a lição do livro.
 

The Witcher

 


The Witcher é a adaptação da Netflix da série de livros de fantasia do polonês Andrzej Sapkowski. O personagem foi criado no início da década de 1980 para um concurso de uma revista de fantasia. O conto ficou em terceiro lugar, mas o autor gostou do resultado e foi ampliando o universo do personagem com outros textos. Na década de 1990 o herói estreiou cinco romances. Depois foi adaptado para os games, que o tornaram realmente famoso fora da Polônia.
A série da Netflix se debruça sobre os contos e romances e a plataforma já anunciou a segunda temporada.
A trama se passa num mundo fantástico dominado por magia e povoado de seres fantásticos, como elfos, dragões e similares. Nesse mundo, feiticeiras são treinadas para se tornarem conselheiras de reis e meninos são treinados para se tornarem bruxos. Há um problema aqui. A palavra escolhida pelo tradutor pode dar a entender que se trata de alguém que lida com magia, o que não é verdade. Embora possam fazer alguns atos mágicos, os witchers são na verdade guerreiros, caçadores de monstros.
O protagonista da história é Geralt de Rivia, um bruxo envolvido com uma trama muito maior, que pode terminar com o fim da civilização. Duas personagens femininas se destacam: a feiticeira Yennefer, uma porqueira vendida pelo padastro por quatro moedas que descobre ser uma das feiticeiras mais poderosas de sua época e Cirila, a herdeira de um reino invadido que procura por Geralt, com o qual tem uma relação de destino.
A série foi anunciada pela Netflix como uma nova Guerra dos Tronos, o que certamente é um exagero, mas não deixa de ser uma boa atração para quem gosta de fantasia.
Henry Cavill surpreende no papel do bruxo. Ou talvez tenha encontrado o papel de sua vida: um caçador de monstros que não tem emoções, e, portanto, não precisa demonstrá-las. Se Henry Cavill no papel de um choroso Superman era vergonhoso, aqui ele parece perfeito.
A trama geral é séria e dramática, no estilo Guerra dos Tronos, mas há capítulos, como o da caça ao dragão, que têm o clima do desenho Caverna do Dragão ou dos seriados de fantasia que passavam na Globo nas tardes dos anos 1990, a exemplo de Xena.
Os roteiristas optaram por fazer uma narrativa não-linear, o que deixa interessante a história, permitindo que seja contada a origem de personagens como a feiticeira sem um longo primeiro ato com praticamente nenhuma ação.
Resumindo: The Witcher pode não ser o novo Game of Thrones, mas agrada. E se tiver um final melhor que o de GOT, já está valendo e muito.