domingo, abril 26, 2026

A família Andrade: legado das histórias únicas

 


O homem da foto é José Bernardino Andrade, patriarca da família Andrade. Relata-se que era um homem de grandes posses, proprietário de diversas fazendas. Contudo, após o falecimento de sua primeira esposa, Bernardino tomou uma decisão que romperia com as convenções da época: alforriou uma de suas escravizadas, de nome Maria Lima, e casou-se formalmente com ela. Sou descendente desse segundo núcleo familiar.

Segundo consta, os filhos do primeiro casamento não aceitaram a união nem o novo arranjo familiar. Eles ingressaram na justiça para requerer os bens, o que teria dilapidado a fortuna da família — conta-se, inclusive, que um dos advogados exigiu uma fazenda inteira como pagamento de seus honorários.

Há uma história folclórica que sobrevive através das gerações: indignado com a disputa entre os filhos, o bisavô Bernardino teria ido ao banco, retirado todo o dinheiro restante e ateado fogo às cédulas diante de todos. Portando uma arma, ele teria garantido que ninguém se aproximasse para salvar o que quer que fosse das chamas, preferindo a destruição do patrimônio ao espetáculo da cobiça familiar.

Meu avô é o último à direita. 


Bernardino e Maria Lima eram os avós do meu avô, Olímpio. Entre os irmãos, Olímpio foi quem mais herdou os traços da avó: era negro e muito alto, conforme se nota na outra fotografia em que aparece ao lado de seus irmãos. A mãe dele, em seu leito de morte, teria feito uma recomendação especial aos outros filhos: que cuidassem de Olímpio, pois ela sabia que ele enfrentaria sofrimentos maiores por conta da cor de sua pele.

Cada família guarda em si uma rica história tecida entre anseios, conflitos e sobrevivência. A trajetória do meu ramo dos Andrade não se resume aos inventários e linhagens, mas se concretiza em fatos e mitologias, como do dinheiro queimado ou o cuidado da mãe. Ao resgatar esses fragmentos, compreendo que não herdamos apenas nomes ou traços físicos (no meu caso, altura, herdada de meus antepassados de origem africana), mas herdamos também a memória dessas histórias, que nos dão a medida exata da nossa identidade.

Em tempo: se souber mais informações sobre esse ramo da família Andrade, do sul de Minas, deixe um comentário com uma forma de contato. 

Livro em promoção - Introdução à metodologia científica


 

Meu livro Introdução à Metodologia Científica está em promoção de livro grátis da Amazon. Para baixar, clique aqui. Aproveite, pois a promoção é por tempo limitado. 

Letimotiv: o motivo condutor

 

A cidade de Cartão Postal em Refrão de Bolero muda de significado no final da história. 
A palavra Leitmotiv foi usada inicialmente para analisar a obra de Wagner e pode ser traduzida como "Motivo condutor". 
Em roteiro tem se usado para uma ação ou objeto recorrente que expressa os sentimentos ou estado do personagem, ou até mesmo uma mudança nesse estado.
No filme de Billy Wilder Pacto de sangue, o chefe do protagonista nunca consegue acender o cigarro (e quem acende para ele é o protagonista). No final, quando o protagonista está caído no chão, é o chefe que acende o cigarro para ele. O cigarro aí era a representação primeiro de como o personagem estava conseguindo enganar o chefe, e depois de sua derrota, de sua incapacidade de continuar com a farsa e sua derrota intelectual.
Em Pacto de sangue, o cigarro representa empodeiramento.
Em Refrão de bolero, a expressão "Cidade de Cartão Postal" é usada pela protagonista para se referir a Belém, quando ela está ali como turista. Depois, quando ela foi assaltada e se vê sozinha, sem dinheiro ou documentos numa cidade desconhecida, ela diz: "tudo que tenho é um corte na mão... e uma cidade de cartão postal". A expressão é um Leitmotiv que representa, primeiro, sua impressão de turista sobre a cidade e, depois, sua nova visão sobre ela, o que irá, de certa forma, desencadear o segundo ato.
Os suspensórios representam a ética jornalística no filme A montanha dos sete abutres

No filme A montanha dos sete abutres vemos um jornalista sensacionalista, Tatum, que, depois de se envolver em várias confusões em jornais de capitais, é obrigado a trabalhar em um pequeno jornal de interior. O dono do jornal é um homem ético, que usa cinto e suspensórios (eu sempre chego tudo duas vezes). Tatum passa a usar cinto e suspensórios. Em determinado ponto da narrativa, ele faz de tudo para que um homem preso em uma caverna continue lá para ter uma notícia de repercussão nacional. Nesse ponto de virada - em que ele volta a ser sensacionalista - ele tira os suspensórios e os joga fora. Os suspensórios significam, portanto, a ética jornalística. Jogá-los fora demonstra que a partir daquele momento o protagonista será capaz de qualquer coisa para conseguir seus objetivos. 

A "muralha de Jericó" simbolizava a tensão entre os personagens.


No filme aconteceu naquela noite, de Frank Capra acompanhamos uma moça rica que está fugindo do pai, indo para Nova York incógnita para impedir que seu pai anule seu casamento com um aviador. No meio do caminho ela conhece um jornalista, que se oferece para ajudá-la em troca de exclusividade sobre a história (o desaparecimento da moça virou notícia nos jornais). Quando o ônibus para, os dois, sem dinheiro, alugam um único chalé e o jornalista estende um cobertor no meio do quarto para separá-los e diz que é a muralha de Jericó. Foi uma forma esperta de Capra burlar a censura da época (afinal, um casal não casado dormindo juntos no mesmo quarto não era bem visto pela sociedade americana), mas acabou se tornando um Leitmotiv que expressava exatamente a tensão entre os dois, inclusive a tensão sexual. No final, do filme, a queda a muralha de Jericó simboliza o fim da tensão e a união sexual dos dois.
De uma forma menos sutil e mais geral, podemos usar a expressão Leitmotiv para nos referir a uma ação do personagem que revela suas verdadeiras intenções. No meu romance O uivo da górgona, em determinado ponto uma personagem que o leitor imagina simpática e que em outras ocasiões havia acariciado o cachorrinho da história se abaixa para acariciar o cachorro... e em seguida lhe quebra o pescoço. Esse ato, descrito de maneira seca e sem sentimentos desvela ao leitor a verdadeira natureza da personagem.

sábado, abril 25, 2026

Thor contra o Homem-lava

 


No número 97 da revista Journey into Mystery, a dupla Jack Kirby – Stan Lee voltou, provavelmente para alívio dos leitores, que vinham acompanhando uma sequência sofrível de histórias capitaneadas por outros autores. A HQ desse volume nem longe se compara aos grandes momentos da dupla no título do deus do trovão, mas mesmo assim é divertida e empolgante.

Na trama, um ser de lava sai de um vulcão disposto a expulsar a humanidade da superfície da terra: “Há muito tempo habitamos o subsolo enquanto vocês, fracotes, usufruem os benefícios da superfície!”. É uma trama reciclada, já que tanto o Toupeira quanto Namor tinham motivações semelhantes, mas quem liga?

Kirby devolveu grandiosidade ao título. 


A ameaça parece realmente impressionate. O vilão é capaz de derreter as armas dos soldados, de modo que as pessoas fogem da cidade, apavoradas. Enquanto a cidade pega fogo, Don Blake tem outras preocupações: ele está apaixonado por Jane Foster, mas teme dizer-lhe e depois não ter a autorização de Odin para realizar esse amor (de fato, quando consultado, o soberano de Asgard chama o filho de louco). A moça, ofendida, resolve mudar de clínica.

Jane Foster fica muito mais bonita com a arte-final de Don Heck. 


Quando finalmente resolve deixar de lado suas preocupações românticas, Thor enfrenta o Homem de lava e o leitor se alegra ao perceber que, no traço de Kirby, o personagem voltou a ter a grandiosidade que merecia. A forma como ele derrota o vilão também é verossímil, ao contrário das edições anteriores, em que o roteirismo imperava.  

Uma curiosidade é que essa história é arte-finalizada por Don Heck, que faz um bom trabalho, dando um ar diferente ao traço de Kirby. A enfermeira Jane Foster, por exemplo, fica muito mais bonita. 

Grandes Heróis Marvel 18: Homem-Aranha

 



Frank Miller desenvolveu um traço e um estilo narrativo tão próprios que, para a maioria dos leitores, é difícil identificar suas influências. No entanto, ele deve muito a Steve Ditko. Fica muito fácil perceber isso na história Espiral de ameaças, publicada no Brasil na Grandes Heróis Marvel 18, de dezembro de 1987.
A história, no entanto, é de 1980, ou seja, é anterior à antológica fase de Miller no Demolidor.
O roteiro é de Denny O´Neil, editor do Demolidor e que, segundo Miller, foi quem lhe ensinou muito sobre a narrativa.
Na história, o Doutor Destino contrata um cientista para construir uma máquina que abriria um portal para a dimensão de Dormammu (inimigo do Dr. Estranho). Quando a máquina fica pronta, ele manda o próprio cientista, temendo os perigos da viagem. Lá, o rapaz recebe de Dormammu poderes sobrenaturais como forma de se vingar de Strange. Preso, Strange envia um pedido de ajuda que acaba sendo captado por Peter Parker.
A história une um bom texto com um desenho inspirado, nitidamente influenciado por Steve Ditko (co-criador tanto do Homem-aranha quanto do Dr. Estranho, os dois heróis da história).
Sintonia entre os criadores. 

Mostra também uma sintonia única entre os dois autores. O´Neil escreve as legendas como se fossem trechos de uma obra arcana, o livro de Vishanti, e Miller as coloca no texto com uma diagramação diferenciada, com capitulares e bordas.
A primeira página da história, aliás, é um primor, com um personagem de cada lado, o texto no meio e as bordas formadas por demônios.
A sequência em que o cientista se vê na dimensão de Dormammu é igualmente inspirada: os primeiros quadros sem cenário e o último, de impacto, uma explosão de formas grotescas e psicodélicas no melhor estilo Ditko. Um deleite para os fãs e uma perfeita antecipação do mestre que Miller se tornaria.
Miller mostrava influência de Steve Ditko. 


O volume ainda inclui a história Karma, com roteiro de Chris Claremont, menos inspirada, mas igualmente divertida. Nessa HQ, o Homem-aranha e o Quarteto Fantástico enfrentam uma dupla de órfãos vietnamitas com poder mutante de se apoderar de corpos: um deles é maligno, ou outro benigno, como se fossem reflexo do Yin Yang. Aqui vemos a diagramação inovadora de Miller e sua narrativa revolucionária com forte uso dos contrastes. Mas o texto de Claremont parece estar muito aquém do desenho – além do final abrupto. Além disso, o arte-finalista Bob Wiacek em especial no começo, tenta modificar o desenho de Miller, aproximando-o do traço dos desenhistas do aracnídeo da época, como Jim Money.

Milagre na cela 7

 


Prepare-se para se emocionar. Esse é o melhor conselho para quem for assistir Milagre na cela 7, o filme turco que está fazendo sucesso na Netflix.
A trama conta a história de um homem com deficiência intelectual que é injustamente acusado e preso pela morte de uma garota que escorregou de uma pedra e caiu no mar. Um homem, desertor do exército, viu o que aconteceu e a menina filha do acusado tenta a todo custo encontrá-lo para que ele testemunhe e livre seu pai da pena de morte.
É aquele tipo de filme que não só emociona, como revolta: o homem com nítida deficiência cerebral é torturado e obrigado a assinar, com a impressão digital, uma confissão. Depois, no julgamento, é considerado são e condenado à forca. Quando chega à prisão, é espancado pelos companheiros de cela.
Mas sua docilidade e inocência vão, aos poucos, convencendo todos de que ele seria incapaz de matar alguém – todos, menos o pai da garota morta e juiz, que o condena à forca mesmo com nítidos sinais de que o homem tem deficiência cognitiva.
O ator Aras Bulut Iynemli, que interpreta o protagonista, dá um verdadeiro show de interpretação, encarnando com perfeição o ingênuo Memo, que apesar de tudo ainda acha que pode voltar para casa e reencontrar a filha. Nisa Sofiya Aksongur, que interpreta a filha do protagonista também se destaca.
Milagre na cela 17 é uma refilmagem turca de um filme sul-coreano do mesmo nome. O filme também ganhou uma versão filipina e vai ser refilmado na Indonésia este ano.
Em tempo: esse é um filme indicado para os que pedem a volta do AI 5 e do regime militar. Na Turquia do filme a vontade de um militar de alta patente prevalece sobre a justiça e até sobre a humanidade, condenando um homem nitidamente inocente à pena de morte. Em regimes militares é assim: militares fazem o que querem, quando querem e como querem. Não é por acaso que, embora o filme seja originalmente sul-coreano, ele tem feito sucesso em países com histórico autoritário-militar, como a Turquia, a Indonésia e as Filipinas.

O que é criatividade?

 


Afinal, o que é criatividade? O publicitário Roberto Dualibi a define como "a técnica de resolver problemas". De fato, nós não seríamos criativos se não existissem obstáculos que precisassem ser superados.

Como se diz, a necessidade é a mãe da invenção. Mas a criatividade é também a capacidade de resolver problemas de maneira original, de forma que ninguém havia pensado antes.

Há pessoas que são exímias para resolver problemas, mas não são criativas. O mecânico, por exemplo, que conserta um carro. Ele aprende a resolver os problemas do carro e continua fazendo isso pelo resto da vida, sempre do
mesmo jeito.

A pessoa criativa, ao contrário, pega coisas que todo mundo conhece e que, aparentemente não têm qualquer relação, e faz coisas completamente inesperadas. Um exemplo célebre é aquela cena em que Charles Chaplin pega dois pães, finca em garfos e faz eles dançarem, como se fossem os pés de um bailarino. Pois é. Todo mundo conhece os pães e os garfos, mas ninguém até então havia pensado em juntá-los para fazer um número de sapateado. Isso é criatividade.

A dança dos pãenzinhos de Chaplin é um ótimo exemplo de criação.


O criativo faz conexões absolutamente inesperadas. Essas conexões, fisiologicamente falando, são representadas por ligações entre as células cerebrais, chamadas de sinapses. Os estudos indicam que a maioria das pessoas tem a mesma quantidade de células cerebrais, mas os criativos
têm mais sinapses.

A fase em que a pessoa realiza a maior parte das sinapses é a infância. A criança vê o fogo, aproxima a mão e se queima. Imediatamente cria-se uma sinapse: fogo = queimadura.

Essas sinapses às vezes são tão inesperadas que acabam sendo engraçadas.

Na época da Segunda Guerra, em que eram comuns os apagões para evitar bombardeamento, Monteiro Lobato perguntou a um garoto o que era um blecaute, ao que ele respondeu: "É fechar as cortinas para a guerra não entrar!".Indagado sobre o que era a guerra, o garoto respondeu: "É navio afundado e falar muito em Hitler".

Recentemente o meu filho, de quatro anos, decidiu que eu deveria aprender a dirigir uma locomotiva e se ofereceu como instrutor. Ele me explicou que eu deveria pegar no volante e virar para o lado quando viesse outro trem na mesma linha. Ou seja: ele percebeu uma semelhança entre o carro e o trem, já que os dois são meios de transporte - e concluiu que os dois são dirigidos da mesma forma.

A idéia me pareceu absurda, mas então me lembrei dos ônibus articulados de Curitiba, que transportam mais gente e gastam muito menos combustível. Eles são exatamente uma junção da idéia da locomotiva com a idéia do carro e funcionam muito bem (para aumentar a comparação, eles param em estações, com o os trens).

A pessoa criativa procura sempre novas soluções para os problemas, sejam eles novos ou antigos, e essa solução parte quase sempre de uma lógica bizarra. Uma pessoa certamente muito criativa foi a que inventou as vacinas. Afinal, a lógica da vacina é absolutamente inesperada: injetar um pouco da doença em uma pessoa sã para que seu organismo crie anticorpos...

Ser criativo significa ser também um pouco filósofo: olhar para ascoisas sempre com olhos de criança e ver conexões onde elas parecem não existir.

A arte única de Alex Toth

 


Alex Toth é um desenhista norte-americano mais conhecido pelos seus desenhos de produção para a Hanna Barbera, para animações como Superamigos, Jonny Quest e Herculóides. Mas Toth também tem uma produção memorável nos quadrinhos, com o destaque para o Zorro que ilustrou para Disney. Seu desenho aparentemente simples, mas extremamente funcional e bonito influenciou diversos artistas. 







O Rapto do Garoto de Ouro, de Marcos Rey


Após o estrondoso sucesso de O Mistério do Cinco Estrelas, Marcos Rey consolidou-se como um dos autores mais importantes da renomada coleção Vaga-Lume. Era, portanto, natural que ele concebesse uma segunda trama, trazendo de volta personagens queridos do primeiro livro, como Leo, Gino e Ângela. O resultado dessa iniciativa foi O Rapto do Garoto de Ouro, lançado pela Editora Ática em 1982.

A narrativa é centrada no sequestro de Alfredinho, o "Garoto de Ouro" do título. Aos dezesseis anos, o jovem se tornou uma verdadeira mania nacional, saltando de um completo desconhecido a astro em poucos meses. Para celebrar um ano de sua ascensão, seus familiares organizam uma festa numa tradicional cantina italiana no bairro da Bela Vista, em São Paulo, evento que contaria até com um show particular. No entanto, o garoto é misteriosamente sequestrado antes da celebração.

Na cena do crime, Leo encontra uma caderneta que ele suspeita pertencer ao sequestrador. A missão de investigar os nomes ali anotados recai sobre ele e Ângela, coordenados por Gino, o cadeirante. A eles se junta Jaimão, um antigo ator de radioteatro que foi o responsável por lançar o Garoto de Ouro ao estrelato.

O livro se desenrola, essencialmente, com a ação dos dois grupos (Leo e Ângela de um lado, Jaimão do outro) entrevistando as pessoas cujos contatos estão na caderneta. A trama é repleta de reviravoltas, e todos parecem suspeitos de envolvimento no crime: o fortão com um hematoma na testa, a costureira que nutre ódio pela mãe de Alfredinho, ou o homem gordo que possui uma agenda idêntica. Paralelamente, algumas testemunhas cruciais parecem estar sendo silenciadas – uma é atacada com um golpe na cabeça, e uma ex-miss quase morre após uma overdose de comprimidos.

Marcos Rey é reconhecido por sua literatura rica, marcada por frases inusitadas e um uso criativo de gírias. Neste livro, ele adota um estilo mais contido, embora ainda apresente momentos de grande inspiração, como na descrição:

“No mesmo instante foi atacado por um pavor tão grande que o paralisou. Reagindo, tentou forçar as pernas, cheias de chumbo, na direção da porta salvadora.”

O humor característico do autor também se manifesta em alguns trechos, especialmente na detalhada caracterização dos personagens. Um exemplo vívido é a descrição de Heitor:

“Heitor era um homem de trinta e tantos anos, baixo e encorpado, braçudo e dono duma patola que impunha respeito. Sempre de camisa-de-meia, chamava também atenção pelas sobrancelhas, fartas e cerradas, e pelo nariz, engraçado de tão grande e grosso. Para um caricaturista Heitor seria um prato cheio.”

Não à toa, um dos trechos ilustrados do livro é, justamente, o encontro com Heitor, tão perfeitamente delineado pelo autor.

Em O Rapto do Garoto de Ouro, Marcos Rey constrói uma história policial mais convencional. Diferente de O Mistério do Cinco Estrelas, no qual o protagonista e o leitor já conhecem o bandido e a trama se foca em provar a culpa à polícia, neste segundo livro, o desafio é ativamente descobrir a identidade do sequestrador. O escritor executa isso com grande habilidade, espalhando pistas e pistas falsas ao longo da narrativa, e revelando como culpado alguém totalmente insuspeito.

Em suma, trata-se de uma leitura extremamente agradável e viciante, que prende o leitor do início ao fim.

A Vida e a História de Madam C.J. Walker

 

Imagine nos EUA do início do século XX, uma época em que negros ainda eram enforcados sem qualquer julgamento, uma mulher negra, filha de escravos, se tornar não só uma das pessoas mais ricas dos EUA, mas a primeira mulher norte-americana milionária. Essa é a história contada em A Vida e a
História de Madam C.J. Walker, minissérie em quatro capítulos da Netflix. A trama acompanha a protagonista (brilhantemente interpretada por Octavia Spencer) desde o seu início miserável, quando seu trabalho como lavadeira e a relação abusiva com o marido fez com que seus cabelos caíssem. É quando bate na sua porta Addie (Carmen Ejogo), que, ao tratar de seu cabelo, restaura sua auto-estima, salvando sua vida. O sonho dela então, é se tornar revendendora do produto milagroso vendido por Addie, que recusa terminantemente, pois ela não teria o ideal de beleza para vender um produto para cabelos. É quando Sarah decidei copiar a receita da amiga, melhorá-la e vender seu próprio ungueto para cabelos. Daí para se tornar a mulher mais rica dos Estados Unidos é um longo caminho, com os mais diversos obstáculos. A minissérie é dividida em quatro partes (aparentemente cada uma dirigida por uma pessoa diferente – não consegui informações sobre a direção). A mais inovadora (e também mais complicada é a primeira). No afã de deixar claro a rivalidade entre Sarah e Addie, a série mostra as duas num ringue de box, literalmente trocando sopapos. Parece exagero – e é, até porque, pela história, as duas, embora tenham sido concorrentes, não parece ter sido mais que isso. Mas o exagero fica por conta também do excesso de músicas contemporâneas numa trama de época. Entretanto, vale a pena persistir. A partir do segundo capítulo os exageros são deixados de lado e a produção se preocupa mais em contar as dificuldades encontradas pela protagonista não só por negra, mas também por ser mulher e destacar seu pioneirismo. Madame C J Walker não só apresentava produtos para cabelos de mulheres negras, como se recusava a estabelecer um padrão de beleza, fazendo questão de mostrar que seu produto era para todas as mulheres – algo que outras grandes empresas, como a Dove, só viriam a fazer muito recentemente. No final, vale muito a pena. É uma das boas revelações da Netflix neste ano e uma boa dica para assistir durante esse período de isolamento.

sexta-feira, abril 24, 2026

Fundo do baú - Agente 86

 


Confesso. Agente 86 era um dos meus seriados prediletos quando eu era criança. A mistura de espionagem com humor conquistou mais de uma geração. Criado pelo gênio Mel Brooks (famoso por filmes de humor como A história do mundo e O jovem Frankstein), Agente 86 foi exibido 1965 a 1970. No total, foram 138 episódios.
O programa era protagonizado por Don Adams no papel de Maxwell Smart, um atrapalhado agente secreto que, surpreendentemente, consegue sempre vencer os agentes da K.A.O.S.
A abertura do seriado já dava o tom de humor: o agente 86 entrando nos escritórios da C.O.N.T.R.O.L.E, atravessando várias portas secretas e batendo o nariz na última.
Além da atuação magistral de Dom Adams, uma das principais atrações eram os apetrechos que apareciam no seriado, como o famoso sapatofone ou o cone do silêncio, que Maxwel Smart usa para conversar com o chefe, mas que invariavelmente apresenta algum problema que faz com que um não consiga ouvir o outro. Outra estratégia para conversar sem ser ouvido era aumentar a música, como ocorre num episódio em que dois agentes conversam numa loja – mas a música alta faz com que eles conversem aos gritos, para espanto dos outros cliente

O mecanismo

 

Nenhuma boa série se sustenta sem um bom vilão. Narcos tinha Pablo Escobar, interpretado magistralmente por Wagner Moura. O Mecanismo tem Enrique Díaz, como o doleiro em torno do qual gira a trama.
A série começa bastante irregular (a maioria das pessoas que conheci que não gostaram assistiram apenas os dois primeiros episódios). A começar pelo som, horrível. Tive que colocar no volume máximo para ouvir. Além disso, Selton Melo parecia não se encontrar no personagem. Além disso, a narração do próprio Melo era exagerada nesses primeiros episódios, com diversas repetições da metáfora sobre o câncer.
É a partir do terceiro episódio que as coisas começam a se ajustar: o som melhora, Selton Melo some da trama para só aparecer depois, a narrativa se torna menos redundante.
Mas, desde o primeiro momento, Enrique Díaz parece à vontade no papel: esperto, irônico, sarcástico, cínico. Seu personagem é o homem que aprendeu a se virar, saindo da pobreza para se tornar rico lavando dinheiro. É alguém que sabe como as coisas funcionam e resolveu tirar proveito – em todos os sentidos. Logo no começo ele diz que com o dinheiro gasto para fazer uma refinaria dava para fazer duas. Na boca de qualquer outro personagem pareceria didático, forçado. Na boca dele parece natural.
Aos poucos, no entanto, a série vai tomando forma, torna-se menos arrastada, trabalha melhor o suspense, a narração surge apenas em momentos-chave, os atores vão se adequando melhor ao papel... e Enrique Díaz continua roubando cena. Na verdade, ao contrário do filme sobre a Lavajato, que tem algumas das atuações mais lamentáveis que já vi na minha vida, em O mecanismo a maioria dos atores está muito bem, em especial após o terceiro episódio. Enquanto no filme o personagem de Moro parece apenas um comediante querendo parecer sério, no seriado há toda uma sutileza. Duas cenas destacam essa sutileza de atuação: quando as pessoas começam a bater panela, o juiz vai à sacada, seu sorriso e brilho no olhar são quase imperceptíveis, mas estão ali, demonstrações de seu ego (e provavelmente de seu posicionamento político).
O roteiro oscila bem entre os vários fatos, muitas vezes em narrativas paralelas que destacam o suspense ( recurso que Padilha já havia usado bem em Narcos) e, tirando os dois primeiros episódios, a série pega um bom ritmo.
A série provocou toda uma polêmica, em especial graças à fala de Jucá (precisamos estancar a sangria), colocada na boca de Lula. Deu certo. A polêmica foi enorme, o que levou muita gente a assistir ao seriado por pura curiosidade, as ações da Netflix subiram e a série foi confirmada para uma segunda temporada. 
As revelações da Vasa Jato, no entanto, que mostraram as conversas entre o juiz do caso e os procuradores combinando sentenças, devem ter estimulado o diretor a desistir do projeto. O fato de Moro ter entrado no governo Bolsonaro também não deve ter ajudado. Afinal Padilha teve de fugir do Brasil em decorrência de tentativas de assassinato e ameaças da milícias. 

Super-homem e Mulher Maravilha – Invasão do povo de gelo

 

 

No final da década de 1970 e início da década de 1980, a DC Comics criou a revista DC Comics Presents, que apresentava sempre um herói em parceria com o Homem de Aço. No Brasil essas histórias foram publicadas principalmente na coleção Os clássicos da Década, da editora Ebal. O número 1 dessa coleção trouxe um encontro com a Mulher Maravilha, publicado em DC Comics Presents 9.

Na história, Clark Kent e Lois Lane (que a Ebal chamava de Mirian Lane) vão entrevistar um escultor, mas descobrem que ele está atormentado por uma obsessão: esculpir um gigante de gelo. Na sequência, o gigante de gelo ganha vida, fazendo com que o que o pacato repórter se transforme no Homem de aço para combatê-lo.

Nessa história um avião consegue continuar voando tranquilamente sem uma porta. 


Aí temos o primeiro problema do roteiro de Martin Pasko. Eles estão num local afastado e, na página seguinte, o monstro de gelo está atacando o aeroporto. A quebra narrativa é muito óbvia e fica mais óbvia ainda quando se percebe que essa mudança de cenário tem como objetivo introduzir a Mulher Maravilha, que, disfarçada de Diana Prince, está num avião impedido de pousar em decorrência do ataque.

O que ela faz? Simplesmente pula do avião, num quadro que mostra a porta caindo. No mundo real, arrancar a porta de um avião em pleno vôo seriam muitos, podendo provocar até a queda a aeronava, mas o roteirista não parece ter pensado nisso.

O gigante de gelo é imune aos poderes dos heróis. 


O gigante de gelo, como se descobre lá na frente é apenas o primeiro de uma invasão alienígena, e contra ele tanto o poder da Mulher Maravilha quando do Super-Homem parecem inúteis.

Para vencê-los, a amazona revela um poder que não tem em outras histórias e mesmo assim, a solução não bate com o que tínhamos visto até ali.

No final há uma reviravolta/piadinha, que explica porque uma raça de gigantes de gelo invadiria um planeta na maior parte tropical, como a Terra, mas essa pequena sacada não vale o resultado.

A capa da Ebal. 


Para piorar, o desenho de Joe Staton não parece muito inspirado nessa história.

Considerando-se que essa coleção tinha diversos números desenhados pelo gênio Garcia-Lopez, é curioso que a Ebal tenha escolhido justo essa história para estrear a nova série.

Em tempo: embora os editores brasileiros tivessem à disposição uma belíssima capa de Ross Andru e DICK GIORDANO, a Ebal optou por uma capa nacional.

Blueberry – A pista dos Sioux

 


Embora o nono álbum seja continuação de uma aventura eletrizante Blueberry, ele provavelmente ficou célebre por uma razão visual: é aqui que vemos, pela primeira vez, o traço pelo qual Giraud ficaria conhecido como Moebius.

Na história, o vilão Jethro Stellfingers consegue arranjar as coisas para que todos pensem que Blueberry é responsável pelo roubo do dinheiro da Union Pacific, o que faz com que ele seja preso. Pior: todos no local querem se vingar dele, em um linchamento. Além do alerta do roteirista Charlier a respeito das notícias falsas e da justiça com as próprias mãos, essa sequência se destaca pelo encademamento de ação, com o protagonista conseguindo resistir aos atacantes que tentam botar fogo na prisão.

Finalmente começa a surgir o traço pelo qual Moebius ficaria conhecido. 


Mas é a página 8 que chama atenção do leitor atento. Nela um senhor idoso recebe uma mensagem pelo telégrafo. As suas feições quebram com o estilo que Giraud usava até então na série, usando um traço mais limpo e solto.

Mas o destaque vem na página 41, em que o desenhista abandona o esquema de divisão da página em dois grandes conjuntos de quadros, deixando a diagramação mais orgânica. Há inclusive uma imagem de Blueberry que se sobrepõe aos outros quadros, quebrando com o esquema rígido de diagramação usado até então. A partir daí temos quadros irregulares, quadros só com os personagens em fundo branco, sem delimitação de requadro. É nítido que o desenhista está experimentando e buscando cada vez um estilo próprio, distinto de Jijé, que havia sido seu mestre e mentor e que ele imitara nas primeiras histórias.

Blueberry na prisão tenta se defender dos que querem linchá-lo. 


No final, embora Blueberry tenta costurado um acordo com os indígenas, a chegada de um general fanático que pretende atacar as tribos enquanto os guerreiros caçam, matando mulheres, crianças e idosos, pode colocar tudo a perder e fazer o oeste se tornar um mar de sangue. O texto final diz: “A guerra voltará a manchar o oeste de sangue? Blueberry conseguirá evitá-la? Você ficará sabendo lendo... General Cabeça-Amarela”.

O desenhista começa a inovar também na diagramação. 


Uma curiosidade sobre essa história é que quando ela foi publicada pela primeira vez no Brasil, os editores da Abril sabiam que a revista seria cancelada e quiseram dar aos leitores a ideia de que a trama terminava ali. Assim, o texto final da história foi alterado para: “Confiantes na palavra dos caras-pálidas, e de nariz-quebrado, os peles-vermelhas podem, enfim, retomar suas atividades normais. O oeste está em paz!”.