sexta-feira, maio 01, 2026

Bom-bom e Mau-mau

 


Bom-bom e Mau-mau é o desenho símbolo da geração paz e amor. Bom-bom é um jovem bonito e simpático, que vive para apreciar as belezas da vida e difundir o amor, numa referência direta aos hippies. Já Mau-mau é alguém dominado pelo ódio e pelo rancor.

Um dos episódios mais emblemáticos nesse sentido é aquele no qual Mau-Mau ataca o protagonista de todas as formas, que sempre responde oferecendo uma flor para ele, da mesma forma que os hippies protestando contra a guerra do Vietnã colocavam flores nas armas dos soldados.

O desenho, que se chamava originalmente Roland and Rattfink foi produzido David H. DePatie e Friz Freleng entre 1967 e 1972, num total de 17 episódios.

Os episódios normalmente giravam em torno de Mau-mau fazendo maldades e tentando a todo custo provocar uma guerra, enquanto Bom-bom tentava assegurar a paz (muitas vezes protestando com uma placa com a palavra Paz).

Um episódio diferente é uma adaptação de Robin Hood, em que Bom-bom faz o papel do arqueiro que roubava dos ricos para dar aos pobres. O episódio é mostrado como se isso fosse um trabalho, com cada um saíndo de casa e se despedindo de suas mães, Mau-mau cobrando impostos dos pobres, Bom-bom roubando o dinheiro (aos gritos de “Para os pobres!”) e Mau-mau pegando o dinheiro de volta (Aos gritos de “Para os ricos!”). No episódio, eles chegam a parar essa correria porque chegou a hora do almoço.  

Conan - A maldição da lua crescente

 


A maldição da lua crescente, publicada originalmente em The savage sword of conan 5,  é uma das melhores histórias de Conan de todos os tempos e uma das que melhor encarnam todas as características das histórias do cimério: mulheres bonitas, magia, monstros e Conan mais fodão do que nunca.
Na história, Taramis, rainha de Khauran tem uma irmã gêmea desconhecida, uma feiticeira maligna, que surge um dia e toma seu lugar, aprisionando a verdadeira rainha nas masmorras. Seu aliado é um mercenário que, com seu exército, toma a cidade. Os soldados da guarda ficam atônitos com as ordens da rainha de obedecer o mercenário até que Conan percebe que aquela não é Taramis, o que faz com que ele seja preso em uma cruz no deserto para ser comido pelos abutres.
A sequência do deserto é antológica.

Essa sequência do deserto é uma das melhores de toda a trajetória do cimério. São dez páginas em que Roy Thomas e John Buscema mostram porque são considerados mestres absolutos do gênero. Desenho e texto se unem perfeitamente em uma cena brutal, cujo melhor momento é quando um dos abutres tenta comer os olhos de Conan:
“Por fim, o sol mergulha como uma bola sinistra num ardente mar de sangue... ele próprio parece ser rubro como sangue... e as sombras do leste, negras feito ébano. Há outras sombras também... e o bater cada vez mais alto de asas em seus ouvidos... Conan sabe que seus gritos não vão afugentar os abutres. E o maior deles está voando cada vez mais baixo... subitamente, o pássaro investe com determinação, seu bico afiado cintila... e rasga a face de Conan, que vira sua cabeça... e, sem oferecer tempo para reação, fecha seus dentes poderosos... que se cravam como as mandíbulas de um lobo no pescoço da criatura! Imediatamente o abutre explode em guinchos de dor e histeria”. 
Essa sequência ficou tão boa que foi incluída no primeiro filme de Conan quase que imagem a imagem. 
Com poucas linhas, John Buscema conseguia desenhar mulheres lindas.

Se sabe ser brutal, John Buscena sabe também ser delicado. As cenas que mostram as rainhas são verdadeiras obras de arte. Enquanto os homens são mostrados com uma arte-final pesada, as mulheres são desenhadas com poucas e sinuosas linhas. A primeria vez em que vemos Salomé, a rainha má, por completo, é uma obra-prima da beleza. Mas, ao mesmo tempo, o desenhista consegue imprimir a seu rosto um ar de maldade, que não existe na irmã boa.
Em tempo: no Brasil essa história foi publicada no volume 5 de A espada selvagem de Conan e no terceiro volume da coleção da Salvat.
Embora as duas rainhas fossem gêmeas, o desenho permitia distingui-las. 

Jornada nas estrelas – dia das bruxas

 


Robert Bloch é um dos grandes autores norte-americanos de terror. Discípulo de H.P. Lovecraft, ele foi autor do livro que deu origem ao filme Psicose, de Alfred Hitchcock, até hoje um dos mais assustadores da história do cinema. Ao ser convidado a escrever para Jornada nas Estrelas, era de se esperar que ele trouxesse seu tema predileto para o seriado. O resultado disso foi o episódio “O dia das bruxas”.
Nos seriado, Scotty e Sulu descem para investigar um planeta desconhecido e somem. McCoy, Spock e Kirk descem para resgatá-los e são aprisionados em um castelo medieval – em uma masmorra repleta de esqueletos.
Kirk acaba descobrindo que são prisioneiros de dois seres extraterrestres que aparecem para eles como magos – a mulher pode se transformar em gata e o capitão usa seu charme para descobrir a informação que irá ajudá-los a sair da enrascada.
É um episódio divertido, mas não chega aos pés dos bons episódios da série por uma série de razões, desde a produção pobre até o roteiro (que, afinal de contas não explica o que querem os dois alienígenas). Mas deixou frutos. A mistura de terror e ficção científica aparece em vários outros seriados, inclusive o distópico Logan´s run.
É curioso, no entanto, imaginar se Robert Bloch tivesse ousado trazer a mitologia lovecraftiana para o seriado, mesmo que disfarçada. O horror de Lovecraft é cósmico e se encaixaria bem na proposta de Jornadas. Já imaginaram a Enterprise se deparando com um dos deuses antigos? 

Livro resgata a história dos quadrinhos paranaenses

 


 A Biblioteca Pública do Paraná (BPP), por meio do selo Biblioteca Paraná, acaba de lançar o livro Narrativas Gráficas Curitibanas: 210 Anos de Charges, Cartuns e Quadrinhos, do quadrinista, curador e pesquisador José Aguiar. Com 360 páginas e centenas de ilustrações, a obra de referência resgata a memória gráfica local e seus reflexos na cultura nacional, por meio de documentos, biografias e depoimentos.

A edição impressa, com tiragem de mil exemplares, será distribuída para bibliotecas públicas de todos os municípios paranaenses, além de universidades, gibitecas e pontos de cultura do Paraná e de outros estados. Uma versão digitalizada também está disponível para download gratuito aqui . No dia 4 de junho, Aguiar e os pesquisadores Maria Clara Carneiro (Universidade Federal de Santa Maria) e Rodrigo Scama (Uninter) participam de uma live de lançamento para discutir o projeto. O evento acontece às 19h, com transmissão pelo canal youtube.com/BibliotecaPR. Leia mais


Em tempo: O livro me cita em diversos trechos e ainda traz a minha biografia, destacando meu trabalho na criação do Gralha e do Capitão Gralha e da graphic novel Manticore

Perry Rhodan – Escola de guerra Naator

 


Existem algumas histórias, inclusive de ficção científica cuja trama não se sustentaria diante do avanço tecnológico do mundo atual. O número 85 de Perry Rhodan se encaixa nessa categoria. 

Na história, iniciada no número anterior, os terranos resolvem eliminar o computador supremo e para isso um grupo se disfarça de zalitas, um povo que está sendo recrutado em peso para a guerra. O objetivo é, dessa forma, chegar perto o suficiente do computador para desativá-lo. 

Ocorre que quando Rhodan e seu grupo chegam no planeta Naator, local de treinamento dos novos recrutas, descobrem que todos os recruta possam por rigorosos exames médicos exatamente para evitar a presença de infiltrados. 

A capa original alemã. 


A única solução possível é o mutante John Marshall sugestionar os médicos aras para quer eles não percebam as diferenças fisiológica do grupo terrano. Para isso, ele é teletransportafo por Ras Tschubai . Mas é impossível fazer isso e em uma única noite, então é preciso atrasar os exames médicos. Para isso, Ras empreende vários atentados terroristas cujo objetivo é dar a entender que os ciclopes habitantes do planeta se revoltaram. 

Claro que isso só daria certo se ninguém visse o mutante teletransportador. Na década de 60, quando a história foi escrita isso poderia parecer fácil. Mas hoje em dia, como vivemos em um mundo repleto de câmeras por todos os lados, é impossível deixar de pensar que o mutante inevitavelmente seria filmado durante um dos seus teletransportes, o que daria ao computador gigante a pista dos terranos. 

É curioso que um grande autor de ficção científica, como Clark Darlton, não tenha pensado na possibilidade de um futuro em que as câmeras estivessem espalhadas por todos os lugares.

Em tempo: embora o título do volume seja Escola de guerra Naator, os personagens não têm qualquer treinamento além de uma palestra sobre o poderio arcônida, o que parece no mínimo estranho.

Karatê Kid – O desafio final

 

 O primeiro Karatê Kid apresentara a jornada do herói Daniel Larusso em seu aprendizado das artes marciais sob a orientação do pacifista Senhor Miyagi. O segundo filme explorara o passado de Miyagi e as origens do Miyagi-dô. O que fazer num terceiro filme? O diretor John G. Avildsen e o roteirista Robert Mark Kamen resolveram modificar a dinâmica da série, colocando Daniel sob a tutela do Cobra Kai.

A trama apresenta um novo personagem, Terry, sócio de Kreese, que resolve se vingar de Daniel e seu mestre pela derrota e humilhação no campeonato de karatê -  o que, acrescido da atitude intransigente de Kreese com seus discípulos, fez com que o Cobra Kai perdesse todos os alunos.

 Para isso, eles conseguem convencer Daniel a lutar o campeonato de karatê e a ser treinado por Terry, o que leva o protagonista para o lado sombrio da força.

 O grande problema é que todo o plano dependia de que o senhor Miyagi se recusasse a treinar Daniel. Aliás, a recusa em treinar o garoto parece mais um roteirismo do que algo orgânico, que tenha uma razão real para acontecer, tanto que posteriormente ele aceita fazê-lo. Além disso, a atuação de Thomas Ian Griffith como Terry é exagerada, como um vilão de matinê. Quem viu a quarta temporada de Cobra Kai percebeu que o ator consegue ser sutil e maquiavélico, o que leva a crer que o exagero foi o diretor John G. Avildsen errando a mão. Além disso, exceto pela última cena do filme, Daniel Larusso parece totalmente desprovido de habilidades de karatê – o que faz o expectador se perguntar se, afinal de contas, ele não aprendeu nada nos dois filmes anteriores.

 Esses aspectos fazem com que esse seja o filme mais fraco da franquia original e o de menor bilheteria. Mas hoje, 30 anos depois, parece estar sendo redescoberto como um filme divertido, que, apesar de todos os problemas, ainda mantém a tradição da série, ao contrário de Karatê Kid a nova aventura, que, só pelo trailer, já é nitidamente uma total deformação da filosofia e da narrativa inaugurada pelo primeiro karatê kid.

Roteiro de quadrinhos: o texto como camada de significado

 O bom texto deve dar uma camada a mais de significado à HQ, indo além daquilo que o desenho mostra.

Um bom exemplo disso é o Surfista Prateado. Ele foi colocado por Jack Kirby na história em que o Quarteto enfrenta Galactus. Para Kirby, Galactus era tão poderoso que deveria ter um arauto, o que não estava na sinopse entregue para por Stan Lee. Para Kirby, o Surfista era um personagem que tinha função apenas decorativa. Mas quando Stan Lee viu o desenho achou que ele se parecia com um filósofo, um profeta, de alma nobre e bons propósitos, que era obrigado a servir Galactus. Stan Lee acrescentou ao desenho de Kirby uma camada a mais de significado que transformou um mero coadjuvante num dos personagens mais interessantes e cults da Marvel.

O mesmo aconteceu com a história A insólita Família Titã escrita por mim e desenhada por Joe Bennett e publicada em diversas revistas eróticas na década de 1990 e finalmente reunida em álbum pela Opera Graphica em 2014.

A história surgiu de um convite do editor Franco de Rosa, que precisava urgente de uma história em quadrinhos de 30 páginas. Nós tínhamos duas semanas para produzir tudo: roteiro, desenho, arte-final, balonamento. Dessa forma, assim que soubemos do pedido, começamos a discutir a trama. A pressa era tanta que nós íamos conversando e o Bené já ia fazendo um esboço das páginas. Ao final, peguei aquele calhamaço e fui colocando texto. Esse processo todo durou menos de uma manhã, pois início da tarde já era necessário dar início à produção do desenho.

A pressa fez com que nós não tivéssemos tempo de discutir sobre a história. O resultado disso foi que eu jurava que o personagem Tribuno era o herói da história. Afinal, ele era o único dos três heróis que queria usar seus poderes para o bem da humanidade. Já para o Bené, ele era o vilão, pois só um vilão  entraria numa jornada de vingança como fez o Tribuno.
Ou seja: o herói estava ali, cometendo as maiores atrocidades, mas eu estava lhe dando motivações, comprando o leitor com meu texto.
A história acabou ficando com uma dualidade ímpar: para alguns leitores, o Tribuno era um tremendo vilão, para outros, era um herói. A mistura de desenho e texto permitiu essa dupla leitura.

O texto e os diálogos, portanto, devem ir muito além da simples narrativa. Devem dar humanidade aos personagens, devem mostrar suas motivações e, principalmente, devem fazer o leitor se sentir dentro da HQ. Os quadrinhos são bidimensionais, mas o leitor deve se sentir dentro de uma história com todas as dimensões possíveis. Deve sentir os cheiros, deve ouvir os sons. Uma boa história é como uma realidade virtual, que transporta os leitores para um mundo em que tudo é possível. 

Buddy Longway – Três homens passaram

 


No terceiro álbum da série Buddy Longway a família já estava formada. É quando o casal tem o primeiro filho, Jeremie.

Ao longo de várias páginas vamos acompanhando a rotina de felicidade conjugal alinhada ao crescimento do garoto, incluindo a situação em que Buddy é obrigado a matar uma loba para salvar seu filho, para logo depois descobrir que ela tem um filhote, que acaba sendo adotado pela família, com o nome de Lobinho.

O álbum mostra a felicidade da família... 


Mas todo esse idílio é rompido com o surgimento de três garimpeiros. Aproveitando-se de que a família Longway vive em um local remoto, distante de todos, eles os transformam em escravos.

É uma premissa interessante, que dá ao álbum um aspecto de suspense contínuo: conseguirá o protagonista e sua família se livrarem do jugo dos invasores?

... mas essa paz é quebrada pela chegada de três estranhos. 


Deribe constrói sua narrativa de forma simples, mas bem amarrada, com um grande destaque para detalhes, alguns que servem muito mais para ambientar a história e caracterizar os personagens, como o garimpeiros que dá um caramelo para Jeremie, e outras que serão fundamentais para o desenlance, como a saída de Lobinho da família.

Buddy Longway é o tipo de história em que, após ler um álbum, queremos ler outro e outro e outro.

Embora não esteja sendo publicada no Brasil, a série pode ser lida completa em scans. Para baixar, clique aqui: https://comics-na-web.blogspot.com/search/label/buddy%20longway.

Guerras Secretas – “Do pó ao pó!”

 


O número 11 da série Guerras secretas começa com uma revelação chocante: Doutor Destino tira sua máscara e seu rosto está curado da terrível ferida que fazia com que ele precisasse esconder seu rosto.

Esse novo Doutor Destino é tão poderoso que não tem interesse em maldades: “Eu poderia destruí-los com apenas um pensamento... e suponho que é o que esperam”, diz ele aos heróis.

Destino usa o poder de Beyonder para restaurar seu rosto. 


A conversa amigável com os heróis faz com que os vilões, e mais especificamente o Homem Molecular, decidam atacar Destino. “Você me deixou zangado o bastante para te destruir”, diz ele. “E eu tenho poder para isso. Eu controlo todas as moléculas... exceto as vivas, claro... mas ainda assim sou muito poderoso”.

No final, não dá em nada. Destino só toca no adversário e ele entra em êxtase. “Eu posso controlar moléculas orgânicas! Posso fazer qualquer coisa”, diz ele, admirado.

O Homem Molecular tem uma epifania. 


Depois disso, o Homem Molecular simplesmente desmonta o bairro de Denver que havia sido transportado por Beyonder e vai embora junto com os outros vilões na direção da terra.

Ainda no planeta, os heróis decidem o que fazer. A sequência é de uma falta de sentido absurda. Os heróis resolvem atacar Destino. O argumento deles é de que ele está fora de controle por ter consertado o seu rosto e por pensar em invadir a dimensão de Mefisto para libertar sua mãe. Sério? Quem no lugar dele faria diferente? Mas, segundo o texto de Shooter, isso significa que ele ainda é um vilão. Sério?

Destino traz Kang de volta. Afinal, a regra é que ninguém morria de fato. 


A história termina...  com um raio exterminando os heróis.

quinta-feira, abril 30, 2026

A era Image

 



No início dos anos 1990, uma nova geração começava a protagonizar sucessos estrondosos na Marvel Comics. O Homem-aranha 1, de Todd McFarlane vendera mais de um milhão de exemplares. X-force 1, de Robb Liefield vendera quatro milhões de exemplares. X-men, de Jim Lee, vendera 8 milhões de exemplares.
Era uma geração espalhafatosa, que fugia completamente do estilo funcional e narrativo dos anos 1980 e tinha pouco apreço pelo roteiro. Rob Liefield desenhava músculos que não existiam e janelas que por fora eram quadradas e por dentro eram redondas. O estilo dessa garotada foi resumido em uma fala de Todd McFarlane para seu editor em Homem-aranha: “Se eu posso entregar 22 páginas em branco e a meninada compra um milhão, quem se importa com os gibis que fizeram nos últimos cinquenta anos? Não me interessa se antes eram imagens e palavras!”.
Mas esses artistas, em especial McFarlane e Liefield estavam insatisfeitos. Queriam ser seus próprios editores e ter direitos sobre seus personagens. Ambos começaram a articular uma debandada em massa. Eles haviam percebido que a saída de um único artista, por mais importante que fosse, não abalaria a casa das ideias. Na década de 1970, por exemplo, Jack Kirby saiu da Marvel e não houve qualquer impacto sobre a editora.
Outros artistas, como Jim Valentino e Eric Larsen decidiram acompanhar o êxodo, mas o fiel da balança foi Jim Lee. Sua adesão ao projeto deu certeza de que a nova editora seria um calo no sapato da Marvel.
A nova editora se chamaria Image e seria um selo da Malibu.
O surgimento da Image coincidiu com a era da especulação, em que pessoas que entendiam pouco do mercado de quadrinhos compravam diversos exemplares da mesma revista esperando que elas valorizassem posteriormente. E as lojas compravam toneladas de quadrinhos esperando que os especuladores continuassem comprando caixas de gibis.
Os artistas da Image embarcaram num mundo de luxos: compravam mansões, carros para os amigos, contratavam animadoras de torcida para serem suas namoradas.
Mas a bolha explodiu: em algum momento de 1993 os especuladores começaram a perceber que talvez houvesse algo errado e começaram a debandar. Nesse meio tempo descobriu-se que muitos dos fãs de quadrinhos também tinham deixado de comprar gibis, cansados dos preços altos e das múltiplas capas variantes. As vendas despencaram.
Em apenas seis meses a indústria foi da euforia à bancarrota: milhares de lojas de quadrinhos fecharam suas portas.
Na Image, os artistas estavam brigando entre si e, especialmente, com Rob Liefield.
A era Image, de quadrinhos sem histórias e vendas astronômicas estava chegando ao fim.
Atualmente, o selo ainda existe, mas publica um material muito diferente do que tornou a editora célebre. Seu quadrinho mais vendido é Walking Dead, focado principalmente no roteiro de Robert Kirkman.

Revista Imaginário traz artigo de Gian Danton sobre a evolução do texto nos quadrinhos americanos

 


 

A revista Imaginário é uma das mais importantes publicações acadêmicas do Brasil sobre quadrinhos e cultura pop. No número 21 ela trouxe um artigo meu, escrito em parceria com Rodrigo Bandeira, sobre como texto evoluiu nos quadrinhos americanos, indo desde a abordagem redundante em que texto e desenhos competiam para transmitir as mesmas informações, até o uso criativo e revolucionário do texto. 

Leia mais sobre essa edição: 

Abrimos esse número mais uma vez com o texto de Daniel Baz dos Santos, em análise aprofundada da obra de Sergio Toppi. Segue com a reflexão de Robson Carlos da Silva sobre a HQ “As aventuras de Machado de Assis, caçador de monstros”, com foco na excepcionalidade do protagonismo de um personagem negro e capoeirista.

Temos ainda estudo sobre “Jessica Jones e o protagonismo feminino: uma narrativa sobre Sororidade e o ‘pseudo-herói’ de gênero”, por Marcelo Bolshaw Gomes; “O arco ‘Corporação Batman’ e as novas relações do sistema do capital”, por Romir de Oliveira Rodrigues.

Fechando a edição, temos “O artista e sua interpretação do mundo”, entrevista com Edgar Vasques proposta por Marcelo Engster; resenha do fanzine QI e prancha com a personagem “Maria”, por Magalhães.

Para acessar a revista clique aqui

Para ir direto ao meu artigo, clique aqui

Dentro da baleia e outros ensaios

 



George Orwell é mais conhecido pelos livros 1984 e Revolução dos bichos. Mas ele tem uma ampla produção que inclui romances, ensaios, artigos e reportagens. Nessa última categoria, uma boa dica é o volume Dentro da baleia e outros ensaios, lançado este ano pela Principis.

O livro reúne nove textos de Orwell sobre os mais variados temas, mas com algo em comum: todos eles falam, de uma forma ou de outra de outra, de política.

Entre os destaques está “O abate do elefante”. O texto narra um episódio da vida de Orwell, quando ele fazia parte do exército colonial na Birmânia. Um elefante enlouquecera numa crise de hormônios e matara um homem. Quando Orwell encontrou o animal, ele, no entanto, pastava calmamente e não parecia mais perigoso que uma vaca. No entanto, a população local o pressionava para matar o animal, o que ele acabou fazendo. “Percebi naquele momento que, quando o homem branco se torna um tirano, é a própria liberdade que ele destrói”. Ele se transformaria, assim, numa marionete dos acontecimentos, pois, a cada crise, ele precisa fazer exatamente o que se espera dele. O dominador se torna, assim, prisioneiro do próprio papel que executa.

No campo do jornalismo, o grande destaque do livro é “Mina abaixo” na qual Orwell relata o cotidiano dos trabalhadores das minas de carvão.

Na época, toda a civilização inglesa era baseada na energia provida pelo carvão, mas a maioria dos ingleses não tinha a menor ideia de como ele era extraído. Ele parecia surgir como mágica em sacos na frente das casas. Mas, por trás desse produto que era a chave da comodidade da maioria das famílias escondia-se um cotidiano que Orwell chama de infernal: “A maior parte das coisas que se imagina existir no inferno está presente: calor, barulho, confusão, escuridão, ar viciado e, acima de tudo, um espaço insuportavelmente apertado”.

O local era tão quente que a maioria dos mineiros trabalhava de cueca, ou nus, durante sete horas ou mais, parando apenas para comer uma refeição de pão encharcado em gordura e chá gelado. Para mitigar a sede, a maioria dos mineiros mascava tabaco.

Orwell, que entrou de fato numa mina e experimentou trabalhar como mineiro, faz uma verdadeira reportagem gonzo, a ponto de narrar até mesmo momentos constrangedores: “Mas quando chega ao fim da sequencia de travas e tenta se levantar de novo, descobre que seus joelhos estão temporariamente travados e se recusam a sustentá-lo. Envergonhado, pede uma pausa e diz que gostaria de descansar por um ou dois minutos”.

Mas, de todo o livro, talvez o texto mais importante seja “A política e a língua inglesa”. Como o próprio título sugere, Orwell se dedica a analisar como a linguagem pode ser usada politicamente. O escritor analisa vários textos publicados em jornais e revistas da época e percebe que todos sofrem dos mesmos males, sendo os principais o mofo das imagens e a falta de precisão. Para a maioria dos autores desses textos, “é totalmente indiferente o fato das palavras significarem alguma coisa ou não”.

Segundo Orwell, o texto moderno no que tem de pior não consite na escolha de palavras com base no que significavam e na criação de imagens que tornem o significado mais claro, mas consiste numa “colagem de longas filas de palavras que já foram postas em ordem por outra pessoa e, em tornar os resultados apresentáveis por meio do mais explícito embuste”.

Essa linguagem empolada, mas totalmente desprovida de significado é uma forma de manipulação política, pois é constantemente usada para defender o indefensável: “Coisas como a continuidade do domínio britânico na Índia, os expurgos e deportações na Rússia, o lançamento das bombas atômicas sobre o Japão”.

O curiso é que, embora Orwell tivesse noção de como um discurso prolixo, empolado e sem significado era a melhor forma de usar a linguagem como forma de dominação política, Orwell escolheu o caminho oposto na distopia 1984, em que o domínio acontece pela redução da linguagem.

A edição da Principis peca pela falta de textos introdutórios, o que é compensado pela boa qualidade gráfica e, principalmente pelo preço, extremamente popular (eu comprei por R$ 9,90). 

Como funciona o método científico?

 


A maioria das pessoas não tem a menor ideia de como funciona o método científico. Para eles, as soluções científicas surgem numa espécie de passe de mágica.
O assunto é complexo, mas vou tentar simplificar aqui, focando em dois aspectos importantes: o controle das variáveis e a verificação pelos pares.
Para exemplificar, vamos usar uma hipótese: “Nióbio cura câncer”.
Como saber se essa hipótese está correta? É necessário testá-la. Como? Claro, aplicando nióbio em pessoas com câncer.
Mas não basta isso. É necessário controlar as variáveis: peso, idade, gênero, alimentação. Essas variáveis são fatores que influenciam no processo de cura.
Por exemplo, alguém pode ter uma melhora porque tem boa alimentação, e outra pode piorar porque se alimenta de forma inadequada. Ou seja, alguém pode melhorar não por causa do nióbio, mas porque se alimenta melhor.
Como evitar que essas variáveis interfiram na pesquisa? Há vários cuidados aí. Para evitar, por exemplo, que a alimentação interfira, coloco todos os pacientes com a mesma dieta. Todo mundo comendo as mesmas refeições, não tem chance da comida interferir nos resultados. A mesma coisa deve ser feita com todas as outras variáveis que possam interferir no resultado: elas devem ser controladas.
E, claro, o paciente deve estar tomando apenas aquele remédio que está sendo testado. Aplicar um coquetel de remédios no paciente esperando que um deles faça efeito é como rezar para diversos santos: no final, não se sabe quem fez o milagre.
Mas há uma variável que não pode ser pesada ou vista: é o fator psicológico. Todo mundo já deve ter passado por uma situação em que melhorou assim que tomou um remédio, mesmo antes dele fazer efeito.
De repente, todo mundo que está tendo melhoras com o uso do nióbio está melhorando só porque acha que vai ser curada.
Como isolar esse fator?
Uma das formas é criar um grupo que acha que está tomando remédio, mas na verdade está tomando só uma pílula de farinha ou açúcar, o famoso placebo.
Ao final da pesquisa, compara-se a evolução da doença no grupo que está tomando o remédio com o grupo que está tomando placebo. E compara-se esses resultados com um outro grupo, que não está tomando nenhum remédio. Esse controle permite que seja possível verificar se o remédio é de fato eficaz.
Mas espere aí, você diz: “o cientista pode simplesmente inventar a pesquisa, dizer que curou centenas de pessoas sem ter feito nada disso”.
De fato, há vários casos registrados de fraudes científicas.
Como evitar isso? Simples: com a verificação pelos pares. O cientista deve apresentar sua pesquisa, seja em uma revista ou em um congresso. E não basta divulgar os resultados. É necessário explicar todo o passo a passo para que outras pessoas possam replicar essa pesquisa e verificar se chegam ao mesmo resultado.
Há inúmeros casos de fraudes que foram descobertas assim: quando tentaram refazer a pesquisa, outros estudiosos chegavam a resultados completamente diferentes.
Pode parecer complexo – e é mesmo. Mas é graças a isso que a ciência consegue alcançar resultados confiáveis.

O melhor lugar do mundo

 


A narração inicial do filme O melhor lugar do mundo, feita pelo protagonista, descreve a Ilha de Santa Maria como um paraíso, um local em que todos vivem felizes com o resultado de sua pesca.

Tudo muda, entanto, quando uma fábrica de peixes se instala em uma cidade próxima. A fábrica tira todo o mercado dos pescadores, fazendo com que a ilha entre em decadência e vá perdendo moradores, alguns para cidades do México, outros para os EUA.

O protagonista é German, interpretado por Guillermo Villegas, que, quando vê sua esposa indo embora, decide fazer algo. Existe a possibildade de uma empresa beneficiadora de pescados se instalar na ilha, mas para isso exigem um médico.

Quando um médico é obrigado pelo hospital a passar um mês na ilha, eles fazem de tudo para que ele decida se instalar definitivamente ali.

As estratégias adotadas pelos habitantes locais geram muitos momentos de humor, como quando eles fingem gostar de futebol americano quando descobrem que o médico é fanático pelo esporte.

No final, além do tom de humor, uma lição: na maioria das vezes a felicidade está em coisas simples.

A direção de Celso García deixa o filme leve e divertido desde a primeira tomada. Colabora para isso o ótimo uso da trilha sonora e as atuações inspiradas.

O melhor lugar do mundo é um daqueles tesouros escondidos da Netflix que certamente agradará quem gosta de comédias leves.  

Quarteto fantástico e o Olho maligno

 

Boa parte do segredo do sucesso do Quarteto Fantástico na fase Stan Lee-Jack Kirby era um ritmo frenético, com várias coisas acontecendo ao mesmo tempo e mais de uma narrativa prendendo a atenção do leitor.

É o que vemos, por exemplo, em Fantastic Four 54.

A história começa com os heróis ainda no reino de Wakanda num torneio de beisebol protagonizado por eles mesmos, depois numa noite de gala com um dos maiores pianistas do mundo – numa sala do trono impressionante que só Jack Kirby conseguia fazer, repleta de detalhes.

Jack Kirby e suas splash pages repletas de detalhes. 



Mas os heróis estão de partida e cada um recebe um presente. Sue recebe vestidos, Reed uma vara de pescar sônica (o que quer que isso seja), Bem ganha um exercitador e Wyatt Wingfoot ganha um livro sobre recordes mundiais. Mas o Tocha Humana está triste e nenhum presente é capaz de alegrá-lo. A razão é a saudade de sua querida Cristalys, que tinha ficado presa junto com os outros Inumanos numa barreira criada por Maximus, o irmão louco de Raio Negro (e, enquanto acompanhamos o Quarteto, acompanhamos também os inumanos tentando se libertar da barreira).

Para ir atrás de sua amada, o Tocha ganha um girocruzador. Aí vai a imaginação prodigiosa de Stan Lee para criar máquinas estranhas e explicações absurdas. O girocruzador, por exemplo, funciona através de um “elemento de tensão magnética energizada por fricção”, o que quer que isso seja.

No meio do caminho até onde os Inumanos estão presos, Tocha e seu amigo Wyatt se deparam com ninguém mesnos que um cavaleiro medieval adormecido. Quando acorda ele se revela como dententor do olho do mal, uma arma praticamente invencível.

O flash back conta uma história alternativa. 


E vemos uma daquelas sequencias de flash back memoráveis, em que a história do mundo é recontada numa espécie de história alternativa, em que os tapetes mágicos da pérsia eram, por exemplo, balões. Então, na mesma história de 20 páginas temos a trama de Wakanda, a trama dos Inumanos e a trama do Olho do mal e no meio disso, muita ação e cenas de tirar o fôlego. Nas mãos dos roteiristas atuais, isso ia se estender por pelo menos 20 edições.

Nessa época, Stan Lee ainda carregava muito de textos os balões, mas com o tempo isso seria mais equilibrado.