sexta-feira, outubro 16, 2026

Disco Ibiza Locomia

 


Praticamente desconhecido hoje em dia, o grupo musical Locomia foi uma verdadeira febre no final dos anos 1980. Mas, por trás do sucesso, havia uma história complexa e é essa história que o diretor Kike Maíllo explora no filme Disco Ibiza Locomia, lançado recentemente pela Netflix.

Locomia surgiu no contexto cultural efevercente da Ibiza dos anos 1980, mais especificamente da cena gay. Seu criador foi o estilista Xavier Font. Os figurinos extravantes e a coreografia com leques chamaram atenção da boate Ku depois que os mesmos a invadiram pulando o muro. O grupo se tornou a principal atração da boate, tendo seu grande momento no aniversário de Fred Mercury.

Eles viviam em um prédio que se tornou o point da comunidade LGBT da ilha. O sucesso era regado com muito sexo e drogas. Uma das cenas mais interessantes e cômicas é aquela em que os pais de um dos rapazes resolvem visitar a casa. Eles acreditam que o filho trabalha como cabeleireiro para a família real. O grupo precisa limpar o local no qual havia acontecido uma orgia na noite anterior antes que o casal entre.  

A reviravolta do filme acontece quando um empresário do ramo musical se encanta com o visual e coreografia e resolve transformar o grupo em... uma boy band! Surge daí a ironia: um grupo ícone do movimento gay que não sabia cantar se tornou uma banda pela qual as meninas eram apaixonadas a ponto de desmaiarem no palco (a única mulher do grupo é expulsa graças à rejeição das fãs).

A narrativa é focada em uma audiência de conciliação que envolve o empresário e os membros do grupo. A história vai sendo contada a partir das falas de cada um durante a audiência, o que, por si só, já gera interesse. O expectador quer saber, por exemplo, o que os levou àquela situação. As cenas que mostram a história do grupo são tão frenéticas quanto as apresentações do Locomia, mantendo o interesse durante os 104 minutos de exibição.

Algo a se destacar é a atuação de Jaime Lorente, que encarna com perfeição do genial e afetado líder do grupo. Para quem o conhece pelo machão de A casa de papel vai ser uma ótima surpresa.

Uma curiosidade é que, mesmo não fazendo tanto sucesso no Brasil, o grupo teve influência na moda da época. Um item obrigatório do visual das garotas no início dos anos 1990 eram os ombreiras, mesmo em roupas despojadas, como camisas de algodão.

quinta-feira, outubro 15, 2026

Astrologia divertida, de Will Eisner

 

Astrologia divertida foi uma graphic novel publicada pela editora Globo no início da década de 1990 assinada por Will Eisner. Ficou pouco conhecida do público de quadrinhos por um equívoco dos donos de bancas: a maioria colocava a obra no meio das revistas de astrologia, e não junto com os quadrinhos.
Independente de acreditar ou não em astrologia, a obra é uma ótima leitura. Eisner dá uma verdadeira aula de quadrinhos, mostrando como é possível repassar qualquer conhecimento de forma divertida.
Deixo com vocês algumas páginas. Quem quiser baixar, basta clicar aqui.
















Homem-aranha – a saga original do clone

 


A saga do clone é um dos momentos mais controversos da história do aracnídeo. Arrastada, complicada, quase incompreensível, era um ótimo exemplo do que de pior a Marvel produziu na década de 1990. Entretanto, ela é baseada em uma ótima HQ, publicada aqui pela editora Salvat na coleção definitiva do Homem-aranha.
Escrita por Gerry Conway e desenhada por Ross Andru, uma das melhores duplas já reunidas no título do Aranha, a saga surgiu para resolver um problema: Gwen Stacy, a namorada do herói, havia morrido em um dos momentos mais dramáticos dos quadrinhos de todos os tempos. Mas Stan Lee, que não tinha sido consultado, não gostou. E exigiu que a equipe trouxesse a personagem de volta. Hoje em dia é comum um herói morrer de manhã e aparecer à tarde tomando café, mas naquela época, na Marvel, quando alguém morria, morria mesmo. Trazer de volta alguém que havia batido as botas era considerado uma quebra do pacto de verossimilhança.
Então, a solução foi trazer Gwen de volta na forma de um clone.
Tia May quase tem um ataque: é Gwen Stacy ou o fantasma da garota? 


A solução poderia parecer forçada nas mãos de uma equipe menos habilidosa. Mas Conway e Andru transformaram isso num verdadeiro clássico dos quadrinhos, a começar por todo o suspense. O clone é apresentado aos poucos, deixando o leitor indeciso sobre o que está vendo.
O álbum da Salvat inicia com uma edição anterior, Spiderman 129, que apresenta o personagem Chacal. Depois pula para uma história em que Peter Parker viaja para Paris e enfrenta um vilão chamado Ciclone. Geralmente essa história em duas partes é pulada e não sem razão: é um ponto fora da curva, com um vilão ridículo, que o aracnídeo derrota usando um ventilador!
Mas na edição seguinte, vemos a dupla Conway-Andruu no seu melhor, a começar pela splash page na qual Peter Parker, ao ver Gwen, acha que enlouqueceu.
Peter Parker finalmente enlouqueceu? 

Andru é um especialista na figura humana e sua composição é perfeita, com Peter Parker no centro, sentado no degrau da escada, os olhos vidrados, em posição fetal, sendo atormentado pela figura espectral do Homem-aranha, que lhe diz coisas como: “Finalmente aconteceu, não é? Depois de todos esses anos, depois de todas essas batalhas que lutou sendo eu... você finalmente surtou”. E, ao fundo, Gwen Stacy estática, como um fantasma assombrando Parker.
O texto de Conway é fluído, parecendo ter sido escrito de maneira automática, e explora bem tanto a ação quanto os aspectos psicológicos do personagem. E a arte de Andru contribui para ainda mais para isso.
Só coloquei essa página porque acho incrível como Andru trabalha com a perspectiva. 


É interessante notar, por exemplo, porque Conway gostava mais de Mary Jane: Gwen Stacy parece uma garota dos anos 1960, enquanto Mary Jane é uma descolada garota dos anos 1970. Essa diferença entre elas fica nítida tanto nas roupas que usam quanto na personalidade.
Lendo esse álbum percebemos porque a revista do aracnídeo se tornou a mais vendida da Marvel. Pena que essa obra-prima tenha dado a origem a um dos momentos mais constrangedores da história do Homem-aranha de todos os tempos. 

Jornada nas estrelas - Onde nenhum homem jamais esteve

 

 

Depois do episódio The Cage ter sido recusado, Gene Roddemberry criou uma nova versão, com William Shatner como capitão, versão essa que se tornaria a mais famosa e conhecida de toda a franquia. 

O episódio onde nenhum homem jamais esteve mostra a transição entre uma versão e outra. 

Na história, a Enterprise encontra a sonda de uma nave desaparecida há dois séculos. Pelos registros, o próprio capitão mandou destruir a nave depois que tripulantes começaram a desenvolver dons paranormais ao passar por uma barreira energética. O mesmo ocorre com a Enterprise: ao passar pela barreira um dos tripulantes se torna um verdadeiro deus e deverá ser detido. 

Apesar do tema do poder absoluto corromper absolutamente, tão abordado no seriado, há muito aqui que não se encaixa no que conhecemos sobre o seriado. Spock, por exemplo, parece mais frio que aquele que conhecemos, e chega a sugerir o assassinato do tripulante. Aliás, a primeira cena é emblemática. Spock e Kirk estão jogando xadrez tridimensional e Kirk ganha ao jogar de maneira ilógica e impulsiva. A caracterização do personagem já aparecia ali 

Há um momento, logo no início do episódio, em que Kirk pede para ver os chefes das sessões e aparece Scott e Sulu, mas apenas como figurantes. E o médico de bordo não é McCoy. 

A falta da interação entre o trio Kirk McCoy Spock se faz sentir aqui. Há também um aspecto mais sério e menos despojado, reflexo da primeira proposta. 

Mas a maior diferença está nos uniformes. Nada das camisas coloridas e todos usam gola rolê. Talvez pelo fatos dessas golas deagastatem muito rápido, esse aspecto foi modificado na versão definitiva.

Nessa versão também as mulheres usam calças ao invés das  minissaias que se tornaram características da série.

Em tempo: há uma atriz, que aparece na ponte e que parece ter grande importância no início, a ponto de personagem principal do episódio segurar na mão dela durante a transição da barreira, sugerindo que há alguma relação entre os dois, mas depois ela é simplesmente esquecida. Coisas de Jornada nessa fase de transição.

E-book Perry Rhodan - o portal das probabilidades

 

O Portal das probabilidades, o mais famoso fanfic brasileiro da série de FC Perry Rhodan, ganhou uma edição, com capa refeita. O e-book foi publicado em formato epub (para tablet) pela Biblioteca do Exilado. O fanfic serve como introdução ao universo da série, pois apresenta os principais personagens e fatos. Para baixar em PDF clique aqui. Para baixar em e-pub clique aqui. 

Mistérios no espaço: a revista de Fc da DC Comics

 

Na década de 1950, com a crise nos quadrinhos de super-heróis, as editoras tentaram vários gêneros alternativos. Um dos gêneros de maior sucesso foi a ficção-científica.
            Embora a FC existisse nas tirs de jornais desde o final da década de 1920, foi só na década de 1950 que os gibis do gênero começaram a fazer grande sucesso nos gibis. Strange adventures (1950) e Mystery in Space (1951), dois lançamentos da National, puxaram a fila. As revistas eram compostas de histórias curtas, sem continuação ou personagens fixos. A ação estourava em qualquer lugar do espaço ou em qualquer período temporal.
            A editora EC Comics, embora fosse especializada em terror, deu uma grande contribuição à FC nos quadrinhos, aproximando-a do que era feito na literatura. Aliás, Ray Bradbury, um dos grandes escritores do gênero, era fã e colaborador da editora.
            As histórias da EC eram instigantes, sempre com finais surpreendentes. Numa história, por exemplo, os terrestres vão ter seu primeiro contato com seres de outro planeta. À medida que se aproximam, contam, pelo rádio, a história da humanidade e de suas guerras. No final, ao descerem, descobre-se que os terrestres são ratos, a única espécie que sobreviveu a uma guerra atômica.
            Com a perseguição aos quadrinhos, os gibis de ficção da EC foram cancelados e os da National se tornaram inócuos, com histórias bobas, como a de um robô que precisa encontrar a cabeça na qual está a informação que salvará a terra.
            Em 1958, o escritor Gardner Fox voltar a dar vitalidade ao gênero, relacionando-o com os super-heróis. Ele recebeu, do editor Julius Schwartz, a missão de criar um herói espacial para estrelar a revista Mystery in Space. Então criou Adan Strange, um norte-americano que era arremessado a 25 trilhões de milhas no espaço ao ser capturado pelo raio zeta, indo parar no planeta Rann. Lá, usando apenas sua esperteza e um par de jatinhos que lhe permite voar, ele se torna o herói local.
            O sucesso de Adan Strange fez com que a DC encarregasse Gardner Fox de ressuscitar um herói da era de ouro, o Gavião Negro. Na versão clássica, ele era Carter Hall, a reencarnação de um príncipe egípcio. Na nova versão, era Katar Hol, um policial do planeta Thanagar que vem à Terra. Com arte de fenomenal de Joe Kubert, a série tornou-se um sucesso.
            Tanto o Gavião negro quanto Thanagar passaram a exercer papel fundamental na cronologia da DC Comics desde então. E uma versão feminina da personagem consta no ótimo desenho animado da Liga da Justiça, atualmente em exibição.

Roteiro para quadrinhos: finalizando a história

 O final de uma história em quadrinhos é um dos momentos mais importantes da trama. Quantas vezes já não ficamos com vontade de jogar o gibi no lixo depois de ler o final de uma história?

Apresento aqui algumas estratégias de finalizar a história.

Uma das possibilidades é terminar com uma ironia do destino.

É um final típico do seriado Além da imaginação, que tornou esse recurso célebre.


Num dos episódios mais famosos, um bancário quer, a todo custo, ler seus adorados livros, mas nunca consegue. É a esposa que manda a todo momento ele fazer algum trabalho doméstico, é o chefe que o flagra lendo em serviço e lhe dá uma bronca. À certa altura ele entra no cofre do banco para finalmente conseguir ler um pouco. Nesse meio tempo, acontece uma guerra nuclear. Quando finalmente ele sai do cofre, descobre que ele é o único sobrevivente, mas que todos os livros da biblioteca foram poupados e entra em êxtase. Finalmente ele teria tempo de ler seus livros prediletos! É quando seus óculos caem e quebram!

Nos quadrinhos, o mais célebre exemplo de final irônico é, provavelmente, Watchmen. Todo o plano ousado de Ozymandias pode ser cair por terra por causa da escolha de um idiota.


Já o final surpresa é típico das histórias de terror. Nesse tipo de estratégia o leitor descobre no final da história que tudo que ele imaginava até ali sobre a trama e até sobre os personagens estava errado. O final surpresa pode ser um verdadeiro desastre, mas, se bem feito, pode se tornar célebre e até levar o leitor a refletir sobre o mundo à sua volta.


No cinema o final surpresa mais famoso de todos os tempos é, provavelmente, o Gabinete do Dr. Caligari. No início da história vemos um rapaz contando a história de um louco chamado Caligari que, usando sonambolismo, fazia um gigante realizar vários assassinatos. No final, descobrimos que o narrador é louco e que Caligari é na verdade o diretor do hospício. Mas já havia indícios de que essa era a verdade: os cenários expressionistas representavam o ponto de vista de um louco.

Nos quadrinhos da EC Comics o final surpresa chegou a pontos realmente antológicos. Em uma história, por exemplo, uma garota é estuprada em uma pequena cidade do interior. Um forasteiro é preso. O xerife finge facilitar sua fuga, mas é só uma estratégia para entregá-lo para uma multidão enfurecida. No final descobrimos aquilo que já deveríamos saber se estivéssemos prestando atenção aos detalhes: o xerife era o verdadeiro estuprador.

Outra maneira engenhosa de terminar uma história é com a elipse: a história começa como terminou.

Essa é uma estratégia particularmente útil em histórias humorísticas. Por exemplo, a história podem mostrar uma família embarcando numa viagem absolutamente desastrosa. Depois, todos dizem: Nunca mais! No final, vemos essa mesma família, um ano depois embarcando numa viagem que pelas pistas visuais será outra roubada.

Em uma das minhas histórias para a série de álbuns Clássicos revisitados eu mostrava uma dupla de garotos extraterrestres provocando, inadvertidamente, a extinção dos dinossauros. No final, após descobrir o que tinham feito, eles resolvem voltar para a terra, na França de 1789 e tudo leva a crer que eles irão provocar a revolução francesa.



O final em elipse pode se dar em termos visuais: Piada Mortal começa com a chuva e depois Batman e Coringa conversando. E termina com Batman e Coringa conversando e depois a chuva.

Aliás, Piada Mortal é exemplo de um outro tipo de final: quando a história trata de um tema, ela deve terminar retornando ao tema. O tema de piada mortal é a relação doentia entre Batman e Coringa e é isso que vemos no início (Batman tentando estabelecer algum diálogo para que não aconteça o final previsível dos dois se matarem) e no final de significado aberto (que alguns interpertam como o Batman matando o vilão).

Finalmente, uma outra maneira de terminar a história pode ser com uma reflexão do protagonista ou mesmo do narrador. Essa reflexão pode ser sobre o impacto dos acontecimentos daquela HQ sobre a vida do personagem, ou pode ser sobre o próprio protagonista.

Praticamente todas as histórias do Homem-aranha da fase de Stan Lee e Joh Romita terminavam assim. No número 46 de The Amazing Spiderman, por exemplo, vemos Peter Parker refletindo: “Naquele dia fatídico em que me tornei o Homem-Aranha talvez tenha havido mais do que uma mudança física. Talvez, ao receber outra identidade, eu tenha me tornado incapaz de ser feliz!”.

Final encadeado é um tipo de final que só pode ser usado em histórias curtas e cujo roteirista tem controle do processo de edição.

Nele, uma história só termina de fato na história seguinte. A primeira tem um final fraco, que deixa no leitor uma impressão ruim, de algo mal acabado. Mas na história seguinte as duas histórias se interligam no mesmo final, deixando o leitor surpreso e maravilhado.

Um exemplo desse tipo foi publicado pela EC Comics e republicado no Brasil na revista Cripta do Terror 1.




Na primeira história, intitulada “Um é pouco...”, uma femme fatale vive de enganar homens e tirar-lhes todo o dinheiro, deixando-os na miséria. Depois de arruinar sua mais recente vítima, ela conhece uma velhinha endinheirada num bar, que lhe propõe morar com ela para lhe fazer companhia. A golpista percebe ali uma chance de se dar bem novamente, mas quando chega na casa da velhinha descobre que ela tem um filho enlouquecido depois de ter sido abandonado por uma mulher que só estava interessada em seu dinheiro. A história termina com o rapaz matando a moça.

Um final fraco, não? Espere a próxima história intitulada “...dois é demais”. Nela um homem de meia idade mata a esposa, a enterra no porão e diz para a polícia que ela fugiu. Mas um detetive resolve investigar e logo voltará com um mandato para revistar a casa. O marido então corta todo o corpo, coloca-o num baú e viaja para outra cidade. Sua ideia é esquecer o baú com o corpo no trem. Mas quando vê o detetive seguindo-o, percebe que ele irá revistar o baú e troca a etiqueta do baú com o corpo de sua esposa por um outro baú igual, que acha no compartimento de cargas. Quando o detetive abre o baú...há um corpo lá dentro! Então vemos um último quadro no qual o rapaz enlouquecido da primeira história pergunta à mãe o que ela fez com o cadáver da garota que ele havia matado. E ela responde que o havia despachado dentro de um baú num trem! O final fecha as duas histórias com uma reviravolta realmente genial.

Essas são algumas possibilidades de finais para histórias. É bom lembrar, no entanto, que o único limite para as possibilidades de finais é a imaginação do roteirista.

Perry Rhodan: No Reino dos Guardiões do Centro

 


A grande engrenagem por trás do quinto ciclo da série Perry Rhodan gira em torno de um mistério central: quem são, afinal, os Senhores da Galáxia? Como esses seres de poder quase divino conseguem controlar múltiplas galáxias e seus incontáveis sistemas solares sem que ninguém jamais os tenha visto ou conheça suas verdadeiras identidades? Essa é a complexa charada que os humanos tentam decifrar no volume 256 da saga.

Escrito por Clark Darlton (pseudônimo de Walter Ernsting), o livro narra a audaciosa incursão dos terranos no planeta Tefrod, o mundo-sede dos seres que atuam como os guardiões da área proibida de Andromeda — região do espaço onde se especula ser o lar dos misteriosos Senhores da Galáxia. Diante do monumental e implacável sistema de defesa do planeta principal, o próprio Perry Rhodan chega a cogitar a hipótese de que os tefrodenses e os Senhores da Galáxia sejam as mesmas criaturas.

Para viabilizar a infiltração em um território tão blindado, os terranos capturam uma nave tefrodense, submetem seu comandante e alguns tripulantes a um processo de sugestão hipnótica e assumem a identidade de parte da tripulação alienígena. Trata-se de uma melindrosa e perigosa missão de espionagem em um mundo intrinsecamente hostil a estrangeiros.

A capa original alemã. 


Darlton utiliza uma estratégia narrativa inteligente para apresentar ao leitor os detalhes do modo de vida, da cultura e do aparato de segurança dos tefrodenses: ele conduz essa exposição por meio dos interrogatórios disfarçados que Rhodan faz ao comandante capturado. Como está sob o efeito da sugestão mental, o oficial alienígena não estranha as perguntas e responde detalhadamente a tudo o que sabe. Essa escolha de roteiro permite fornecer informações cruciais de exposição de cenário de forma orgânica, sem a necessidade de recorrer às intervenções artificiais de um narrador onisciente.

O volume também introduz uma reviravolta tecnológica que eleva drasticamente a tensão da empreitada: os habitantes de Tefrod não apenas dominam habilidades paranormais, como a telepatia e a teleportação, mas também desenvolveram engenhosas "para-armadilhas" projetadas especificamente para neutralizar mutantes. O carismático rato-castor Gucky, inclusive, acaba caindo em uma dessas armadilhas.

Como a presença dos mutantes na tripulação frequentemente solucionava os impasses de forma muito fácil para os terranos, a introdução desse novo contra-ataque tefrodense equilibra as forças no tabuleiro, tornando a atmosfera da história muito mais imprevisível, perigosa e interessante.

Esquadrão Atari - O herói à casa torna

 


O número 10 da série do Esquadrão Atari inicia com uma cena inesquecível: em uma splash page grandiosa como só Garcia-lópez sabia fazer, vemos Blackjack despreocupado, encostado num equipamento, acendendo um cigarro enquanto Dart olha para ele, intrigada. “Oi neném! Sentiu minha falta?”, diz ele.

Blackjack tinho sido aparentemente morto no espaço na edição 3. O mercenário explica que foi resgatado pela nave do Destruidor e que, após vária sessões de tortura, conseguira escapar.

Uma das cenas mais marcantes do Esquadrão é o reencontro de Dart e Blackjack. 

Mas paira uma suspeita, principalmente da parte de Martin Champion: Blackjack não seria um agente infiltrado com o objetivo de destruir o esquadrão?

A história apresenta duas tramas paralelas: em algum lugar do espaço, os lacaios do detruidor coletam o núcleo de um asteroide. “Maravilhoso, não? Um núcleo sólido de antimatéria radioativa! Contido por campos de força, mas repleto de possibilidades”.

O vilão está construindo uma arma capaz de destruir todo um universo. 


Seu objetivo é construir uma bomba capaz de destruir todo um universo como forma de se vingar de Champion e de toda a humanidade.

Na última trama, tormenta pula de um local a outro na Nova Terra, tentando fugir da segurança e, ao mesmo tempo, procurando respostas sobre quem o que é o Destruidor e o porque da relação conflituosa com seu pai (o que será explicado na edição seguinte).

Essa edição sintetiza as razões pelas quais esquadrão atari se tornou um clássico amado pelos leitores: o desenho maravilhoso de Garcia-López, personagens carismáticos e tridimensionais (cujo melhor exemplo é Blackjack), conflitos entre pais e filhos e um grupo de heróis incompreendido pelas autoridades.

quarta-feira, outubro 14, 2026

O assassino profissional

 


Estava decidido. Iam matar o candidato à presidência.
- Precisamos contratar alguém. Alguém que seja realmente competente. Precisa matar bem matado.
- Tem o Adelton.
- Adelton... Adelton... não foi esse que nossa organização contratou para matar o Niemeyer em 1950?
- Esse mesmo. O cara é bom!
- O Niemeyer morreu em 2012! Com 104 anos! De causas naturais!
- Mas morreu, não morreu? E quem disse que foi de causas naturais?
- Nós também contratamos o Adelton para matar o Mick Jagger.
- Isso mesmo. Serviço bem feito.
- O Mick Jagger está vivo até hoje e pelo jeito vai passar dos 100 anos!
- É, nessa o Adelton falhou. Mas ninguém é perfeito. Além disso, ele está em promoção!
No final, acabou sendo o Adelton mesmo pela simples razão de que ele era o melhor assassino de aluguel que eles conheciam.
Adelton foi contratado e recebeu uma arma.
- Quando ele estiver sozinho fazendo cooper na praia, você atira e ponto. Fácil, não?
Não, não era fácil. Adelton foi levado para uma fazenda para melhorar sua pontaria. Deu dois tiros, um em cada pé. No terceiro conseguiu acertar a própria arma.
Desistiram do revólver. O jeito ia ser usar uma faca. Treinando com ela, Adelton se cortou dez vezes. Numa das vezes, em que cortava cebola para a comida, fez um corte tão profundo na própria perna que teve que ser levado para o hospital.
- Bem, pelo menos sabemos que ele é mortal com uma faca. – comentou uma das pessoas que o haviam contratado.
- Só espero que ele não se mate antes de executar o serviço.
No dia do atentando, estava tudo certo. Adelton ia esperar o candidato no banheiro de uma churrascaria. Ia esfaqueá-lo e fugir pela janela do banheiro.
- Adelton, você entendeu o plano? É só ficar escondido aqui, esfaquear o homem e fugir pela janela. Entendeu?
- Entendi.
Mas não tinha entendido nada. Era para ficar parado ou para ficar andando? Era para esfaquear ou para esmurrar? E, afinal, como era mesmo o rosto da pessoa que ele devia esfaquear? Ele simplesmente não lembrava.
Resolveu sair do restaurante e ir para a rua, na tentativa de encontrar alguém que lhe explicasse de novo o plano. Nisso viu uma aglomerado de pessoas. Gritavam, davam vivas e carregavam alguém. Adelton se aproximou, achando que fosse algum jogador de futebol. Se fosse, ia pedir um autógrafo. Na hora se empolgou e resolveu ajudar a carregar o homem. Só esqueceu de guardar a faca. 
O homem foi esfaqueado. Nada grave, mas foi o suficiente para mobilizar a opinião pública. O candidato, que antes era um azarão, se tornou o líderes das pesquisas e acabou ganhando a eleição. Adelton não só não matara o homem, como ainda o elegera. 
Mas isso não era o pior. O pior de tudo é que ele esfaqueara o candidato errado.

Ópera de sabão, de Marcos Rey

 


Em 1954, após uma crise política gigantesca provocada por um atentado ao jornalista Carlos Lacerda, o presidente Getúlio Vargas suicidou-se. O ato provocou uma grande comoção nacional e fez reascender a chama do getulismo. Marcos Rey situa a ação de seu romance Ópera de Sabão, escrito em 1980, nos três dias após a morte do presidente.
A ação é centrada em uma família de origem italiana, os Manfredi. O pai, ao saber da morte de Getúlio, fecha a transportadora e sai armado de um revólver, disposto a matar Carlos Lacerda, mas na verdade, acaba se encontrando e vivendo dias idílicos e sexuais com uma professora de piano.
A situação mostra bem a ótica do livro: uma mistura de história do Brasil com dramalhão e comédia. Marcos Rey foi redator do rádio e coloca sua experiência no meio a serviço da história, a começar pelo título, Opera de sabão, uma referência direta às soap operas, melodramas radiofônicos quase sempre patrocinados por marcas de sabonete, daí o nome.
Os personagens são impagáveis. Hilda, a esposa, transforma-se na Madame Zohra, conselheira radiofônica cujo programa já foi uma das maiores audiências da agora decandente Rádio Ipiranga. Como Madame Zohra, Hilda é porta voz de uma rigorosa campanha contra o aborto, mas se vê em uma cinuca ética quando seu filho engravida uma menina e esta, sem saber, envia-lhe uma carta pedindo conselhos.
O filho mais velho chama-se Benito, homenagem a Mussoline de quando o pai era fascista. O mais novo, Lenini. “Quando Leinie nasceu, meu pai era comunista”, explica a outra filha do casal, Adriana, à certa altura da história. “E não é mais?” “Não, agora está nos transportes”. Uma sequência que exemplifica o humor afinado de Marcos Rey.
O autor, que foi roteirista de rádio, televisão e cinema, constrói sua mistura de melodrama com comédia de erros como se fosse um roteiro de rádio, a começar pela abertura:
SPEAKER1 – No ar...
SPEAKER2 – sob o alto patrocínio do sabão minerva...
SPEAKER1 - ... a Rádio Ipiranga, PRG-10, 2000 quilociclos, canal exclusivo, apresenta...
TÉCNICA – Sobe o prefixo (La vie em Rose). Cai em bg.
SPEAKER2 - ... sonhos de juventude!
SPEAKER1 – Radionovela de Marcos Rey
Isso soma ao livro mais um aspecto, o metalinguísticos. Há momentos, por exemplo, em que o autor comenta a história, descrevendo a estratégia utilizada pelo roteirista: “Ainda a perigosa criatividade do radioautor. Faça os personagens sofrerem, coloque-os em situações aparentemente sem saída e a audiência se multiplica”.
E como bom roteirista, Marcos Rey nos surpreende no final quando a história dá uma guinada, mudando completamente de tom: sai o humor, a crítica de costumes, a metalinguagem, e entra uma sequência emocionante e arrebatadora acontecida dez anos depois, quando do golpe militar.