segunda-feira, setembro 28, 2026
Surfista Prateado: Parábola
X-men: first class
Mas a falta de dinheiro parece ter trabalhado a favor do filme: a pirotecnia de efeitos especiais e ação contínua foram substituídos por uma ótima história, um grande roteiro e um aprofundamento de personagens poucas vezes visto nos outros X-men.
A relação Xavier - Magneto, por exemplo, só é de fato compreendida nesse filme. Nos outros ela fica implícita, mas jamais é explorada de fato. A relação de amizade e inimizade cria alguns dos melhores momentos do filme.
A falta de dinheiro também contribuiu em outro ponto: sem dinheiro para usar e abusar de efeitos, o diretor deixou-os para o final. Quando finalmente vemos Magneto levantando um submarino, ficamos espantados com isso. O impacto desse tipo de efeito se perde nos filmes de grande orçamento justamente pelo excesso.
O filme também acerta em situar a história nos anos 1960, dando um tom histórico de realismo (especialmente pelo contexto da crise dos mísseis em Cuba). Até mesmo do ponto de vista comportamental: quando os mutantes jovens se divertem dançando rock é inevitável se lembrar da juventude dos anos 1960.
O diretor Matthew Vaughn , o mesmo de Kick Ass, lembrou de algo essencial no gênero super-heróis: todo gibi é uma diversão juvenil e isso se reflete no filme. A sequência em que os mutantes aprendem a lidar com seus poderes é memorável e divertida e prende os telespectadores na cadeira mesmo sem gastar muito com efeitos especiais.
Outro aspecto importante é a forma como o filme consegue costurar vários elementos que depois apareceriam na trilogia X-men, inclusive a forma como Xavier ficou paralítico, o capacete de Magneto, a aparência do Fera, etc.
Pessoalmente, gostei de ver a personagem Moira com um pouco mais de destaque (minha filha adorou).
Finalmente, é possível fazer uma relação interessante do antagonismo entre Xavier e Magneto e os teóricos da comunicação que Umberto Eco chamou de apocalípticos e integrados. Criado numa família rica, nos prósperos EUA, Xavier é um otimista e acredita que a relação entre humanos e mutantes é possível. Vítima de nazistas, Magneto resume sua filosofia na frase: "A paz nunca foi uma opção". Lembra a frase de Adorno: "Não é possível fazer poesia depois de Auschwitz".
A amargura de Magneto reflete a angústia da escola de Frankfurt, enquanto que a visão até certo ponto ingênua, mas bem intencionada do professor X lembra os funcionalistas norte-americanos. Não é uma relação descabida (embora Adorno não fosse gostar de se ver retratado em um filme hollywoodiano): para além da diversão, humor, drama e ação, X-men first class realmente deixa aberto um rico caminho para reflexões dos mais variados tipos.
Um filme para assistir e assistir de novo.
Perry Rhodan – A prisão do tempo
Um dos grandes atrativos da ficção científica é imaginar realidades diferentes, mundos diferentes, usando para isso o conhecimento científico, o que causa todo o maravilhamento do gênero. O volume 64 da série Perry Rhodan, A prisão do tempo, é um ótimo exemplo disso.
Na história, um grupo de terranos atravessa a barreira dos invisíveis (seres que fazem desaparecer populações de planetas inteiros) e vão parar num local em que o tempo decorre de maneira diferente da nossa realidade, sendo 72 mil vezes mais lento que na nossa realidade. Como os terranos se mantém na progressão de tempo de nosso universo, as diferenças que encontram nessa nova realidade são realmente impressionantes e criativas.
À certa altura, por exemplo, eles se deparam com um cristal límpido e transparente, pendurado no ar, do tamanho de um grão de ervilha. Após o espanto inicial, percebem que se trata de... uma gota de chuva! Quando um dos personagens tenta segurar o pingo, descobre que ele está absolutamente imóvel. A explicação, dada pelo escritor Clark Darlton: “A inércia da massa crescera na mesma proporção da alteração do tempo. Para segurar um pingo de chuva, seria necessário despender setenta e duas mil vezes o volume de energia que se gastava na terra”.
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| A capa alemã. |
Essa não é a única situação interessante. Logo em seguida, os personagens descobrem que podem andar sobre a água. A razão disso é que a água não tinha tempo de ceder sob a pressão de seus pés.
Quando eles encontram outros terranos que haviam sido capturados pelos invisíveis e os alinham ao tempo terrano, o maravilhamento dá lugar à apreensão: na Terra se passaram meses, enquanto que para os capturados se passaram apenas minutos. O livro termina numa situação de suspense: se não forem resgatados a tempo, os prisioneiros dessa dimensão poderão voltar à nossa realidade centenas de anos depois de terem partido... ou até milénios!
Superman e a Legião dos Super-heróis
domingo, setembro 27, 2026
Jornada nas estrelas – Pão e circo
A primeira diretriz é um elemento tão importante em Jornada nas Estrelas quanto as três leis da robótica nas histórias de Isaac Asimov. Segundo esse princípio, nenhuma nave da federação deve interferir no desenvolvimento de planetas desconhecidos. Isso inclui o uso da força por qualquer motivo, inclusive salvar membros da tripulação.
O episódio Pão e circo, da segunda temporada gira todo em torno da primeira diretriz.
Na história, a Entreprise está em uma patrulha de rotina quando encontra os destroços de uma nave de pesquisa, a Beagle e segue os rastros até encontrar o planeta ao redor do qual teria acontecido o acidente. Ao captar sinais emitidos pelo planeta, assistem um programa de TV com jogos de gladiadores em que um deles, morto durante combate é chamado de William B. Harrison, um dos tripulantes da Beagle. Kirk, McCoy e Spock descem para investigar.
O que encontram é uma sociedade que reflete o mundo romano, com escravos, senhores e lutas de gladiadores, mas com a tecnologia do século XX, como se o império romano tivesse sobrevivido até nossa época. O trio é aprisionado e Spock e McCoy são forçados a lutar na arena enquanto Kirk é pressionado a dar ordens para a tripulação da Entreprise ir descendo aos poucos, desarmados, de modo que todos se tornariam escravos ou gladiadores.
Apesar de uma cena forçada, em que kirk vive uma noite de amor com uma escrava, feita nitidamente para providenciar o interesse romântico, o episódio é um ótimo exemplo de um roteiro inteligente e criativo. É também um daqueles bons episódios cujo tema são as tiranias.
Mas o grande destaque vai para os ótimos diálogos. Quando estão na cela, McCoy acusa Spock de apenas fingir não ter sentimentos. A cena termina com os dois nitidamente preocupados com Kirk, que aparece na cena seguinte se divertindo com uma loira. O puro suco de Jornada nas Estrelas.
Dan Dare: processo de produção do roteiro
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| Dan Dare e seus amigos, na versão clássica. |
Dan Dare é um dos mais clássicos personagens de quadrinhos da Inglaterra, e certamente um dos mais importantes no gênero ficção cientifica, rivalizando apenas com Jude Dreed. O personagem é da década de 1950 e chegou a ser lançado no Brasil pela Ebal na década de 1970, na revista 2000 AD.
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| Dan Dare na versão da década de 1970. |
Em 2016 fui contatado por um agente local para escrever as aventuras do personagem para uma revista britânica, a Strip Magazine. O esquema era o comum das publicações em série britânicas: histórias em continuidade de seis páginas que formavam um ciclo depois lançado como álbum de luxo.
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| Revista nos moldes da 2000 AD na qual seria publicada a nova versão do personagem. |
Eu escreveria a segunda saga do personagem (a primeira seria escrita pelo editor).
Propus um plot sobre um planeta com uma inteligência vegetal que foi aceito com sugestões do editor para adequar à trama ao plot maior.
Fiz o plot estendido e o roteiro de duas partes da saga. Foi uma experiência interessante por trabalhar com o método inglês, com roteiros detalhados, que incluíam inclusive angulação e planos. Para facilitar para o tradutor, a partir do segundo capítulo, eu comecei a colocar os termos técnicos em inglês, garantindo que eles ficassem corretos na tradução.
Esse material ficou inédito por mais de um ano até que esta semana tive a confirmação do agente de que a revista de fato não terá continuidade, embora tenham pago pelo roteiro.
Assim, publico aqui partes do material produzido, como forma inclusive de mostrar como é o processo de produção de roteiro de uma editora estrangeira.
PLOT
Dan Dare e sua equipe chegam a um planeta desconhecido. A Prof Peabody afirma que há uma forma de vida complexa, grande e possivelmente inteligente no planeta. Dan sai para investigar. Quando volta, a nave desapareceu. Na verdade, o planeta inteiro é um grande ser.Dan come uma fruta e entra em contato com o planeta. Descobre que o planeta está sob ameaça e por isso reagiu. O planeta devolve a nave e Dan promete ajudar.
PLOT DECUPADO DO PRIMEIRO CAPÍTULO
Este capítulo terá menos ação já que ele irá introduzir os personagens. Dan Dare e seu time chegam na Valiant(Design por John Ridgway), uma grande nave de exploração, em um planeta desconhecido fora do nosso sistema solar.
Professora Peabody confirma que existe evidências de vida alienígena no planeta, mas os sinais que ela detectou não indicam quantos nem a quanto tem eles estão ali.Guerras Secretas – Crises internas
A série Guerras Secretas foi criada a partir de uma pesquisa de marketing com garotos americanos que mostrou que as palavras que mais chamavam a atenção deles eram “guerras” e “secreto”. Jim Shooter, o editor-chefe da Marvel e roteirista, fez o roteiro todo baseado nessa ideia sem se preocupar muito com detalhes ou verossimilhança. O importante era ter coisas “secretas” acontecendo e “porrada” o tempo todo. No número 3 isso fica flagrante.
A história começa com Magneto libertando Vespa, que havia sido sequestrada por ele, e entrando em um intercurso romântico com ela.
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| Magneto encontra tempo para namorar. |
Saca o diálogo dos dois:
- Sentiu minha falta? Que animador!
- Não se empolgue...
- Quem sabe isso faz você mudar de ideia!
- Ei! MMMM!
- Um pequeno interlúdio de paz em meio ao caos!
- Não... não
No quadro seguinte os dois já estão aos beijos. Pense numa garota fácil de conquistar.
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| Duas vilãs surgem do nada. Coisa de Jim Shooter. |
Enquanto isso, Doutor Destino transformava duas mulheres em duas novas vilãs, Vulcana, com poderes térmicos, e Titânia, uma mulher super-forte. A questão aí é que não existe explicação nenhuma para isso. De onde o vilão tirou essas mulheres? Parece que o roteirista simplesmente tirou as personagens da cartola. E, se destino pode dar tamanho poder a alguém, porque ele não concede esse poder a si mesmo? Nada fazia muito sentido. Na verdade, não fazia sentido nenhum.
Nesse meio tempo, Thor encontra tempo para paquerar Encantor. Pense num rolê aleatório.
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| Thor encontra tempo para namorar. |
A história termina com os vilões atacando de surpresa o QG dos heróis logo depois de uma tempestade – um ataque que já tinha sido previsto pelo sentinela da liberdade. E isso acontece porque o Hulk “esquece” de avisar o Capitão América, que a tempestade havia acabado.
Verossimilhança hiper-real na revista Cajueiro
A edição, totalmente dedicada aos quadrinhos, tem a colaboração de vários grandes nomes da pesquisa em quadrinhos no Brasil, como Gazy Andraus, Natania A S Nogueira e Valéria Fernandes Da Silva.
Para acessar os artigos, clique no link:https://seer.ufs.br/index.php/Cajueiro/issue/view/1023



















