domingo, maio 16, 2021

Dom Quixote das crianças

 


Dom Quixote é uma das obras mais importantes da literatura universal. Mas é também um livro de linguagem empolada, repleto de frases com orações subordinadas e expressões em desuso. Para apresentar esse clássico às novas gerações, Monteiro Lobato escreveu sua própria versão condensada do clássico.
Dom Quixote das crianças mostra que Lobato não era só alguém com prosa agradável e fluída, mas era também um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos – capaz de condensar uma obra densa e complexa sem perder sua essência ou mesmo suas reflexões.
Para quem não conhece, Dom Quixote é um velho espanhol que, de tanto ler romances de cavalaria, enlouqueceu, achando que era um cavaleiro andante, convenceu um vizinho, Sancho Pança a ser seu escudeiro, e saiu pelo mundo em busca de aventuras, que quase sempre terminam em memoráveis surras.
Lobato inicia a narrativa no sítio do pica-pau amarelo. Emília fica curiosa para ver dois volumes pesados no alto da estante e, ao tentar alcançá-los com o uso de uma alavanca, derruba os livrões em cima de Visconde, que fica achatado. Essa é a dica para que Dona Benta leia o imenso livro ilustrado por Gustave Doré. Mas logo percebe que as crianças não pescam nada da narrativa antiquada e resolve recontar as aventuras do cavaleiro andante com suas próprias palavras. A forma narrativa permite que Lobato, através da voz de Dona Benta, faça comentários sobre a obra e até explique alguns termos usados no romance.
Segundo Lobato, “Cervantes escreveu esse livro para fazer troça da cavalaria andante, querendo demonstrar que tais cavaleiros não passavam de uns loucos. Mas como Cervantes fosse um homem de gênio, sua obra saiu um maravilhoso estudo da natureza humana, ficando por isso imortal”. Por outro lado, o protagonista, Dom Quixote, “não é somente o tipo do maníaco, do louco. É o tipo do sonhador, do homem que vê as coisas erradas, ou as que não existem. É também o tipo do homem generoso, leal, honesto, que quer o bem da humanidade, que vinga os fracos e inocentes, e acaba sempre levando na cabeça, porque a humanidade, que é ruim inteirada, não compreende certas generosidades”.   
Lobato consegue, mesmo em poucas páginas na comparação com o romance original, preservar sua complexidade. Dom Quixote é uma mistura de humor e drama e é impossível não se compadecer do pobre protagonista, constantemente enganado por muitos, em sua ingenuidade e loucura e mesmo cenas que parecem cômicas guardam uma alta dramaticidade. É um riso entre lágrimas.
Em tempo: essa minha edição é de 1967 e trazia um atrativo a mais: as belíssimas ilustrações de André Le Blanc, que ilustrou vários livros de Lobato antes de se mudar para os EUA e trabalhar como assistente do quadrinista Will Eisner.

Fundo do baú - O Homem pássaro

 


Homem-pássaro foi um desenho animado criado pelo lendário Alex Toth para a Hanna-Barbera. Foi exibido entre 1967 e 1969 no canal NBC.
O personagem era um super-herói que combatia o crime a serviço de uma sociedade secreta, com ajuda de seu ajudante Birdboy e da ave Vingador.
O herói tinha os seguintes poderes:
Absorção solar espontânea: capacidade mágica de absorver energia solar e converter em vigor corporal, resistência física a danos físicos, gerar potentes raios de calor concentrado através das mãos e dedos, controlar a temperatura de um ambiente ou equipamento e produzir um “escudo” solar protetor de grande resistência contra ataques.
Voo: por possuir um par de asas é possível alçar grandes alturas e impulsionar-se através do ar em qualquer direção.
Regeneração ou fator de cura solar: capacidade de curar ferimentos e restaurar a própria saúde em alta velocidade desde que exposto à luz solar.
Capacidade de se comunicar com a ave Vingador.

Mundo Monstro: o estranho caso do vampiro assassino

 

Imagine um mundo em que monstros e humanos convivem normalmente, em que Fênix fazem show de pirotecnia e o delegado é uma múmia. Mas a paz desse local é quebrado quando uma moça é morta e o principal suspeito é um vampiro. É quando um detetive lobisomem e seu aprendiz são chamados para ajudar nas investigações. Essa é a premissa de Mundo Monstro, meu livro infanto-juvenil de fantasia. Para baixar o livro, clique aqui. Em tempo: ele está em formato E-pub, caso não tenha o leitor desse formato, baixe aqui o programa de leitura.

Guerra do tronos a Batalha de Winterfell

 



Atenção: contém spoiller

O terceiro episódio da oitava temporada de Guerra dos tronos foi, provavelmente, o mais esperado de toda a série ao mostrar a batalha entre o Rei da noite e os vivos, conflito que vinha sendo construído desde o primeiro episódio.
Vendido como a maior batalha campal já exibida na TV, o episódio agradou alguns e desagradou muitos. Quem tem razão?
De fato, a batalha é grandiosa, com muitos figurantes e muitos efeitos especiais. O episódio é muito bem dirigido, com boas cenas de luta e um bom timming narrativo. A sequência anterior aos primeiros confrontos é habilmente construída para promover o máximo de suspense e tensão.
O grande problema é o roteiro.
A estratégia montada por Jon Snow é tão primariamente equivocada que compromete a verossimilhança do episódio.
Assim que os caminhantes brancos se aproximam, ele envia sua cavalaria, os Dothraki, que são totalmente dizimados (e passam a fazer parte do exército inimigo). Em termos de imagem, foi interessante, pois inicialmente vemos uma verdadeira massa de luzes (as espadas dos guerreiros) se aproximando dos mortos e depois as luzes vão se apagando à medida em que eles vão sendo tomados pela multidão e morrendo. O impacto visual é grande e deixa no expectador a impressão de que tudo está perdido, mas em termos de estratégia militar não faz sentido. Enviar primeiro a cavalaria  sozinha e perde-la nos primeiros minutos de uma batalha é erro crasso (aliás, a origem do termo se refere a um comandante romano que comenteu um erro grave em uma batalha).
Além disso, as catapultas são colocadas antes das tricheiras, que depois seriam incendiadas. Aliás, as tricheiras foram colocadas muito próximas das muralhas. Como resultado, as catapultas praticamente não são usadas, ficando inúteis.
Em uma batalha como aquela, com um inimigo infinitamente superior, o correto seria colocar as trincheiras mais distantes, aproveitar que o inimigo ficaria parado diante delas e exterminá-los ao máximo com os dragões, catapultas e flechas. Além disso, como vimos, os caminhantes só conseguem ultrapassar as trincheiras criando pontes com seus próprios corpos, deixando passar alguns.
Esse seria o momento de atacá-los, quando os que entravam eram poucos, ao invés de enfrentá-los no seu número máximo, como foi a estratégia de Jon Snow.
Aí chegamos à Arya. O fato dela matar o Rei da noite e resolver a situação em si não é algo negativo, uma vez que há vários ganchos nesse sentido, pistas de que seria isso que aconteceria. Mas a forma como aconteceu, sim.
Arya surge do nada, quase como um deus ex machina, para resolver a situação. O expectador se pergunta: como ela chegou ali? Todos estavam tentando e ninguém conseguia. Arya nem mesmo é mostrada tentando. Quando a vemos já é no clímax da cena. Como a personagem tem a capacidade de se disfarçar, isso poderia ser usado como explicação para essa aparição repentina, mas os roteiristas preferiram a supresa pura e simples, ao invés de justificar, dar verossimilhança ao que está acontecendo.

As vidas de Chico Xavier

 


Chico Xavier é uma das figuras mais importantes e polêmicas do Brasil. Sua popularidade é tão grande que, mesmo depois de morto, continua levando milhares de pessoas para Uberlândia, transformando o turismo religioso na principal fonte de renda da cidade. Não admira, portanto, que a vida do médium fosse transformada em uma biografia.
Ainda assim, o jornalista Marcel Souto Maior teve que vencer vários obstáculos para escrever o livro “As vidas de Chico Xavier”. O primeiro deles veio dos próprios colegas jornalistas. “Chico Xavier? Não é o Chico Buarque, não? Chico Anysio? Chico Mendes?”, ironizavam os amigos do Jornal do Brasil.
Outro obstáculo filho adotivo de Chico, Euripedes. Preocupado com a saúde do pai e em preservá-lo, Euripedes não deixou o jornalista passar nem do portão. Ainda assim, Marcel insistiu: resolveu assistir a uma sessão no Centro Espírita da Prece, fundado por Chico muitos anos antes. Depois que o médium deixara de comparecer, o público minguara e eram apenas 14. Surpreendentemente, naquele dia, ele resolveu reaparecer, com um sorriso largo e um terno mal-ajambrado.
Cético, Marcel não soube explicar as lágrimas que começaram a desabar em borbotões de seu rosto, sem nenhuma razão especial.
Terminada a sessão, o jornalista procurou Chico para pedir autorização para a biografia. Chico respondeu de forma indireta, evitando a palavra não:
- Deus é que autoriza.
- E ele autoriza?
- Autoriza.
Mas a muralha de Euripedes ainda continuava existindo. O jeito foi apelar para o outro filho adotivo de Chico, Vivaldo, que mora nos fundos da casa do pai.  Quando o jornalista o visitava, Chico chamou o filho por um interruptor. Quando Vivaldo saiu, um calor insuportável tomou conta das mãos do jornalista. Sobressaltado, ele largou a caneta, saltou do sofá e correu para o quintal. Ficou lá, sacudindo as mãos na noite fria, até que Vivaldo aparecesse:
- Meu pai disse que sua biografia vai ser um sucesso. Parabéns!
O episódio mostra bem os mistérios e a mística por trás de Chico Xavier. Chico escreveu quase 400 livros, cartas de pessoas desencarnadas, virou celebridade nacional. No entanto, até o final da vida, viveu de forma modesta, sem grandes fortunas, sendo quase um prisioneiro de seu próprio sucesso.
O fato do livro ser escrito por um cético, mas que passou pelas duas experiências acima (do choro descontrolado e das mãos em fogo) faz com que ele tenha a abordagem correta, não caindo nem na armadilha de um livro doutrinário, nem na reportagem sensacionalista que o filho adotivo de Chico tanto temia.
O que se revela é uma figura ímpar, que angariou milhões de fãs no Brasil todo e igual número de detratores. Essa dualidade já se apresentava na infância do médium, quando ao ouvir que ele conversava com os espíritos, a madrinha dizia que ele tinha o diabo no corpo e lhe fincava garfos na barriga na tentativa de espantar o mal. Chico, convencido de que que conversar com espíritos era errado, tentava tudo para se curar. Chegou até a desfilar em uma procissão com uma pedra de 15 quilos na cabeça, repetindo mil vezes a ave-maria. Nada adiantava. Quanto mais rezava, mais via espíritos.
O livro nos revela um Chico sofredor, que não era compreendido na infância e apanhava por causa da mediunidade. Quando finalmente se tornou adulto, sofria com doenças, como a catarata que fazia seus olhos sangrarem. À noite, era atormentado por espíritos baixos, que lhe provocavam pesadelos em, alguns casos, tentavam matá-lo usando para isso pessoas com mediunidade. Ao se queixar com seu guia espiritual, Emmanuel, recebia reprimendas. Tinha que aceitar de bom grado tudo que lhe acontecia, pois servia para expiar culpas de outras encarnações. Quando se tornou uma figura famosa, sofria com o assédio, com pessoas que queriam falar com ele mesmo quando ele estava muito doente. Além disso, Chico nunca ganhou nada com isso, pois todo o dinheiro das vendas dos livros ia para instituições de caridade.
Sua missão espírita parecia mais um castigo do que um prêmio. Por outro lado, havia as tentações. Uma vez Chico entrou no banheiro e encontrou três mulheres tomando banho nuas, jogando água umas nas outras e rindo para ele, convidativas. O médium fechou os olhos e rezou. Quando os abriu, elas haviam desaparecido.
Abnegado, Chico usava a humildade para resistir aos sofrimentos e tentações do mundo. Dizia que era um Cisco Xavier, brincando com o próprio nome. Quando lhe disseram que talvez fosse eleito para a Academia Brasileira de Letras, ele perguntou: “E agora aceitavam cavalos lá?”.
Se a biografia revela esse lado humilde, abnegado e caridoso, revela também um homem carismático e divertido. Chico gostava de contar casos e gostava de rir. Uma vez, convidado pelos amigos a pescar, foi, mas não pescou nada. Passaram a tarde na beira do rio e os amigos pegaram muito peixe. De Chico não se aproximava nem lambari. Ele acabou confessando: não tinha colocado isca no anzol, para não incomodar os bichinhos. Ao ser assediado por uma figura demoníaca, que lhe perguntava se tinha sido chamada, ele saiu-se com essa: “É que a vida anda difícil e queria que o senhor me abençoasse em nome de Deus ou das forças que o senhor crê”. O diabo reclamou: “É só a gente aparecer que você já cai de joelhos!” e sumiu.
Em suma: As vidas de Chico Xavier é um livro que abarca as várias facetas dessa famosa personalidade, num livro leve e gostoso de ler. É tão fascinante que serviu de base para o filme de Daniel Filho sobre a vida do médium mineiro.

Marshal Law

 

Entre os vários artistas que passaram pea revista 2000 AD, dois dos mais anárquicos eram o roteirista Pat Mills e o desenhista Kevin O´Neill.
Em Marshal Law, publicado em 1987 pelo selo Epic da Marvel, os dois mostraram que podiam usar esse espírito para subverter o gênero super-heróis. E o que fizeram lembra muito a hoje famosa série The Boys, da Amazon. Muitos dos principais conceitos, como super-heróis drogados já estava ali.
Na história, um cientista descobre um meio de transformar fetos, dando-lhes poderes. O resultado disso é uma quantidade enorme de superes. Quando explode uma guerra na América do Sul, eles são enviados para ela, e muitos deles retornam completamente malucos.
Imagine veteranos do Vietnã com super-poderes. É por aí.
A coisa se torna ainda pior em São Francisco: um terremoto destrói boa parte da cidade e o local é tomado pelos super-seres, que vêem ali a chance de poderem exercer seus super-poderes para benefício próprio em uma terra sem lei. Para combatê-los surgem policiais especiais, com super-poderes, o mais famoso deles Marshal Law, um homem que se veste com roupas do universo sadomasoquista e que em sua identidade secreta, namora uma garota que considera que os super-heróis, em especial Marshal Law, são fascistas.
Pela sinopse acima dá para perceber o quanto a série virava o universo dos heróis de cabeça para baixo. Mas o quadrinho ia muito além, a começar pelo desenho nada convencional de Kevin O´Neill e as mensagens de fundo, as brincadeiras visuais incluídas por ele na história. Há de tudo: de aviões com Jesus desenhado na lataria a pichações contra pichações.
A série foi pioneira ao mostrar versões não-convencionais de super-heróis, caminho que seria seguido em The Boys e Invencível. 


Os exemplos de heróis mostram o quanto duas mentes criativas e dispostas a virar tudo do avesso poderiam ir. Há, por exemplo, Hitler Hernandez, descendente de criminosos nazistas, que se dedica a eliminar índios. Ou O Traidor, um índio branco que considera a traição uma virtude – quando tiveram contato com o evangelho, passaram a idolatrar Judas ao invés de Jesus. Ou O Bode expiatório, que tem dificuldade para sentir sensações e faz de tudo para sentir dor.
Tudo isso é entremeado com uma trama policial: um dos super-heróis está matando mulheres vestidas como a super-heroina Celeste. Marshal Law acredita que o responsável é Espírito Público, um dos primeiros e mais famosos heróis.
Marshal Law poderia ser apenas um quadrinho que subverte o gênero super-heróis. Mas Mills e O´Neil dominam bem a narrativa e fazem um quadrinho gostoso de ler, fluído, divertido pacas.
A história original foi publicada pela Abril em 1991 em uma minissérie em seis partes e uma edição especial. Este ano a Panini publicou um encadernando, juntando as duas histórias.

Xuxulu e o aniversário de Azatoti

 


sábado, maio 15, 2021

Superaventuras Marvel 1

 

Lançada em 1982, a Supervaventuras Marvel se tornou uma das mais celebradas revistas de super-heróis já lançadas no Brasil, principalmente por conta das histórias do Demolidor de Frank Miller e dos X-men de Chris Claremont e John Byrne. Nos primeiros números se destacavam personagens como o Pantera Negra, em ótima fase, Dr. Estranho (igualmente em ótima fase) e Conan. Mas a revista só tomaria uma cara própria a partir do número 16, quando a Abril conseguiu o direito de todos os personagens Marvel (antes esses direitos eram divididos com a editora RGE).

A arte espetacular de Dave Hoover

 


Dave Hoover foi um ilustrador, animador e quadrinista norte-americano. Ele é mais conhecido nos quadrinhos por seu trabalho nas séries Wanderes (DC) e Capitão América (Marvel). Também desenhou histórias do personagem Tarzan. Uma de suas características mais fortes é a sua haibilidade para desenhar mulheres. 












Mãe d´água

 

A mitologia brasileira é uma mistura de tradições índias, negras e europeias. Nenhuma figura mitológica encarna isso tão bem quanto a Iara, a mãe d´água.
Segundo Câmara Cascudo, os índios tinham em suas lendas um ser aquático, o Ipupiara, uma espécie de homem peixe, feroz, bestial, que saía da água para capturar suas presas e matá-las. Na religião indígena também havia a percepção de que tudo na natureza tem uma mãe. Portanto, existia a mãe do rio, sempre presente nos olhos d´água. Também era comum chamar a cobra grande de mãe d´água.
Os africanos tinham vários seres aquáticos: Iemanjá, Anambucuru, Oxum. E tinham um ser parecido com o Ipupiara, os nebéli, um espírito do rio, que, enfurecido, provocava tempestades, virando as pirogas e afogando quem estivesse dentro.
Já os europeus tinham as sereias, que seduziam os navegantes e muitas vezes se casavam com eles, dando-lhes riquezas e filhos e exigindo em troca respeito aos habitantes da água (nas lendas, o marido sempre descumpre essa promessa e acaba sem a esposa e as riquezas).
A mistura de todas essas tradições nos deu a Iara, a mãe d´água, um ser que, ao contrário dos Ipupiara e dos nebéli, é formoso. Trata-se de uma linda mulher, que seduz os os viajantes que passam por olhos d´água.
Olavo Bilac tornou célebre a lenda em um dos seus poemas:

Vive dentro de mim, como num rio,
Uma linda mulher, esquiva e rara,
Num borbulhar de argênteos flocos, Iara
De cabeleira de ouro e corpo frio.

Entre as ninfeias a namoro e espio:
E ela, do espelho móbil da onda clara,
Com os verdes olhos úmidos me encara,
E oferece-me o seio alvo e macio.

Precipito-me, no ímpeto de esposo,
Na desesperação da glória suma,
Para a estreitar, louco de orgulho e gozo...

Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:
E a mãe-d'água, exalando um ai piedoso,
Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

A mãe d´água aparece no meu romance Cabanagem ilustrada pelo grande quadrinista paraense Otoniel Oliveira. A imagem mostra a personagem encontrando com o protagonista, Chico Patuá e se destaca pela representação aquática da personagem, com seu cabelo e sua roupa se confundindo com a água do rio.
O original dessa ilustração é uma das recompensas do projeto.

A terra plana dá voltas

 


Tudo muda, as pessoas mudam. Isso é comum. Mas em alguns casos as mudanças são extremas. Muito extremas. Tenho visto guinadas de uma ponta a outra. Exemplo disso é um ex-amigo. Ele era fã do Raul Seixas, hoje em dia é fã do mito e diz que Raul Seixas é marxismo cultural. Era fã do Alan Moore, hoje em dia é fã do mito e diz que Alan Moore é marxismo cultural. Era professor de universidade pública, hoje em dia diz que universidades são marxismo cultural. Como as pessoas mudam!

O fascínio da ficção científica

 


                Se há um gênero capaz de arrebatar multidões e criar legiões de fãs, esse gênero é a ficção científica. Algumas das maiores bilheterias de todos os tempos são filmes de ficção científica: ET, o Extraterrestre, 2001, uma Odisséia no Espaço, Matrix, Guerra nas Estrelas. Além disso, há os ruidosos fãs de Jornada nas Estrelas, Arquivo X e Perry Rhodan, que nos levam a perguntar: o que a ficção científica tem de tão fascinante?
                Creio que a resposta pode estar em duas palavrinhas básicas da cibernética: informação e redundância. O ser humano busca a informação, a novidade, a originalidade... e foge da redundância, da chatice, da mesmice.
                Prova disso é o processo de hipnose. Ela é um transe provocado pela mente como uma forma de defesa contra um estímulo altamente redundante.
                O hipnotizador repete à exaustão as mesmas palavras, sempre num tom de voz monótono. A mente se nega a continuar a receber o estímulo e simplesmente desliga.
                Nós fazemos isso no nosso dia-a-dia. Quando alguém tenta nos contar algo que para nós é redundante, cortamos logo: “Ei, isso eu já sei!”. Por outro lado, sempre procuramos novidades. Essa busca de novidade é a mãe da fofoca e de seu irmão nobre, o jornalismo.
                A ficção científica nos fascina por apresentar um estímulo altamente informativo. Através dela, temos contato com uma realidade completamente diferente da nossa: roupas inteligentes, carros que voam, viagens espaciais...
                Tudo na ficção científica é informativo, dos equipamentos sofisticados aos hábitos das pessoas. Lembro de uma história da série de livros Perry Rhodan em que os humanos encontram seres que vivem em um planeta alagado. Eles haviam desenvolvido lábios inferiores salientes para coletar cogumelos e usavam saias de madeira que lhes permitiam ir aos locais mais fundos sem afundar.
                Mas nem todo mundo tem a mesma abertura para a novidade. Pessoas de baixo repertório (ou seja, de menor nível cultural) preferem programas, livros e filmes redundantes. O mundo completamente diferente da ficção científica as assusta. Quantas vezes não vemos indivíduos que são absolutamente incapazes de compreender um filme de ficção científica? É informação demais para eles. Não é à toa que algumas pessoas até hoje se recusem a acreditar que o homem chegou à Lua.
                Se formos procurar os fãs de ficção científica, vamos encontrá-los entre os jovens (é notória a abertura para tudo que é novo dessa idade) e entre as pessoas de maior repertório: são elas que têm maior necessidade de informação e a encontram nas viagens espaciais de Jornada nas Estrelas ou nos enigmas insolúveis de Arquivo X.

Monstro do Pântano – balé de enxofre



Quando assumiu o título do Monstro do Pântano, Alan Moore levou o terror a um novo patamar. O horror agora se tornara realmente apavorante, visceral, perturbador. A saga balé de enxofre (publicada em The Saga of The Swamp Thing 29, 30 e 31) foi um dos marcos dessa nova visão do horror.

A sequência inicial é um dos melhores exemplos dessa nova abordagem. Vemos a casa de Abigail Cable, em planos fechados, roupas jogadas no chão, fósforos semi-queimados, vidros de perfume quebrados no chão. O texto diz: “Ela arrancou e rasgou a roupa toda do corpo. Roupa suja, tinha lhe tocado a pele. Não adiantou tentar queimá-las. As mãos apenas gastaram os fósforos. Na verdade, ela já estava levemente ensandecida. Era o cheiro. Ela não conseguia se livrar do cheiro. No banho, gastou tudo que havia de sabonete, xampu, perfume, aditivo, espumante... e nada de o cheiro sair”.

A sequência inaugural mostra o tipo de terror visceral inaugurado por Alan Moore. 


Quando o banho não resolveu, ela foi até a cozinha, pegou a escova de arame usada para esfregar batatas e começou a esfregar no corpo, numa tentativa vã de tirar o cheiro de insetos queimados. Vinte minutos depois ela desmaiou. Mas mesmo assim, ainda sentia o cheiro... em seus sonhos.

E nos deparamos com uma página dupla, de Abby encolhida em posição fetal, o rosto ensandecido, insetos ao seu redor e metade de seu corpo ocupado por uma sombra que reflete esqueletos, numa arte impressionante repleta de hachuras de John Totlebene Stephen Bissette. Mais à frente descobrimos que o cheiro vem do fato dela ter transado com seu tio, que tomara o corpo de seu marido, o que torna a situação ainda mais doentia. Os créditos são colocados logo abaixo do título “Amor e morte” e são entremeados de insetos. Imagens de Abigail em tormento, envolta por insetos emoldura a maioria das páginas desse primeiro capítulo da trama.  

A página dupla é impressionante. 


Quando lhe perguntaram qual o segredo para escrever histórias de terror, Moore respondeu: veja o que lhe provoca medo e use isso nas histórias. É o que vemos aqui. Moore utiliza arquétipos universais de horror, a começar pelos insetos. Mas vai além e flerta com o terror psicológico ao abordar o abuso sexual – ao longo da série ele abordaria mais de uma vez relações abusivas com resultados igualmente surpreendentes.

Então a história sai do pesadelo e vai para um flash back que parece um sonho. Matt, o marido de Abigail, comprou uma bela casa e arranjou um emprego. Quando visitam o novo quarto do casal, o texto avisa: “Foi aqui que o sonho tremelicou. Aqui se escondia a coisa ruim, aqui um acre cheiro de carne fumegante, de insetos subitamente penetrou nas narinas”.

Mas quando visitam o novo emprego (Rio negro recorporações) que o terror se insinua mais forte, já desde a fachada, com espectros sombrios observando da janela. Quando a porta se abre e Abby conhece os colegas do marido por um instante ela consegue vê-los como realmente são, cadáveres de psicopatas.

Moore usa psicopatas na história. 


Essa é, provavelmente, a primeira vez que um psicopata foi mostrada num quadrinho da DC Comics – e talvez a primeira vez em todo o mercado americano. Assassinos em séries já existiam antes. O Cavaleiro da Lua, por exemplo, enfrentara um que matava com uma foice. Mas era sempre psicóticos, loucos, pessoas fora de si ou atormentadas por algum trauma. Pessoas más, que vestem uma máscara de normalidade, mas matam por prazer, são uma primazia de Moore.

Psicopatas voltam a aparecer na história quando Moore, usando a técnica do mosaico, mostra como pessoas más em todos os locais das redondezas de repente se revelam e vão na direção do local onde está se passando a trama.

Alan Moore mostrando que o verdadeiro, o grande terror, era o ser humano e sua maldade.

sexta-feira, maio 14, 2021

Fundo do baú - Thundarr, o bárbaro

 


Thundarr, o bárbaro é um daqueles casos de séries animadas que parecem ter saído diretamente dos quadrinhos. E praticamente foram: Steve Gerber, seu criador, era roteirista da Marvel, para a qual criou Howard, o Pato, e trouxe para o design de produção o mestre Jack Kirby. Além disso, outros roteiristas de quadrinhos, como Roy Thomas e Gerry Conway escreveram episódios.
A trama mostrava um mundo pós-apocalíptico em que um planeta desconhecido passou entre a terra e a lua, quebrando essa última em dois pedaços. A civilização sobreviveu dividida em feudos governados por feiticeiros, que usam tanto magia quando a tecnologia da velha terra.
Os personagens na versão do amigo JJ Marreiro

O protagonista, Thundarr, era um bárbaro salvo do cativeiro pela princesa Ariel, uma feiticeira de boa índole. Completava o trio Ookla the Mok, um humanoide leonino. Esse último personagem foi adicionado à série por pressão dos produtores, que queriam alguém parecido com os wookiees de Star Wars. A sugestão do nome veio do também roteirista de quadrinhos Martin Pasko. Ele e Gerber estavam passando pelos portões da Universidade da Califórinia em Los Angeles (UCLA) e ele sugeriu usar a sigla como nome do personagem.

Conan - Os guardiões da tumba

 


Em 1971, Roy Thomas e Barry Smith estavam em plena forma para transformar a revista do Conan em um grande sucesso da Marvel. O começo tinha sido atribulado, com os dois tentando entender o personagem e as vendas caindo. Mas o número oito salvou tudo. A razão não era só a qualidade da história, muito superior às anteriores, mas também a uma dica de Stan Lee: este percebera que o excesso de animais nas capas da revista estava afastando os leitores. Roy Thomas abandonou a ideia de colocar o dragão na capa e colocou em seu lugar mortos-vivos. Funcionou. A revista a partir daí só aumentou as vendas.
A história começa com Conan fugindo de uma patrulha após ser incriminado pela morte de uma nobre na história anterior e acaba indo parar em uma cidade abandonada e um templo repleto de jóias. Um dos soldados que o está caçando acaba mudando de ideia quando vê tanto ouro e predras preciosas e resolve ajudá-lo a roubar o tesouro, quando são atacados pelos guardiões da tumba, guerreiros mortos-vivos.
O desenho de Barry Smith já tinha evoluído muito na oitava edição


Barry Smith ainda apanhava na figura humana e na sua representação de Conan, mas nessa história dá um verdadeiro show nos detalhes do cenário e principalmente no dragão que ataca o cimério. Já estava ali, naquele dragão, o desenhista que seria venerado pelos fãs de quadrinhos. Novidade também na diagramação: aqui ele abandona completamente o esquema de seis quadros típico dos quadrinhos de super-heróis – sinal de que para ele já estava muito claro que Conan não era uma revista de heróis.
A história ainda tem problemas, como a forma fácil com que o cimério vence os guardiões e a parte final, forçada, em que ele reencontra a prostituta Jenna, mas o plot twist do final compensa essas pequenas falhas.

Jornada nas estrelas – Fruto proibido

 


A expulsão do paraíso – essa é a analogia do episódio Fruto proibido, da segunda temporada de Jornada nas estrelas.
Na história, Kirk, Spock e equipe vão investigar um planeta paradisíaco habitado por pesssoas com pouco conhecimento de tecnologia que, descobre-se depois, são governados por um computador na forma de cobra, que é alimentado continuamente por nativos. Mas o computador está puxando a Enterprise para a atmosfera – e se nada for feito, a nave poderá ser destruída.
O episódio é interessante, divertido  (as participações de Tcheckov são simplesmente antológicas ou a frase de Magro quando descobre que os nativos não conhecem o sexo: lá se vai o paraíso!), mas também reúne alguns dos principais defeitos da série clássica, a começar pelos camisas vermelhas, que são mortos um a um pelo computador-deus Vall, enquanto todos os outros sobrevivem.
No final, o episódio funciona bem como uma crítica à religião. Os nativos fazem seus rituais e obedecem cegamente a Vall sem nem mesmo entender o que estão fazendo. E obedecem até mesmo quando este manda que eles matem os terrestres. E, se por um lado, Vall os alimenta e os mantém totalmente saudáveis, a ponto de ninguém morrer, por outro lado, a sociedade não evolui. Nesse sentido, o episódio ecoa outro: o ótimo “deste lado do paraíso”. Mas em deste lado do paraíso a execução foi muito mais acertada, inclusive em sua profundidade filosófica.