segunda-feira, outubro 12, 2026

Mineiroca - Recanto dos buritis

 


Mineiroca é um balneário nas proximidades de Macapá, no quilômetro 32 da BR 210. A viagem é rápida e o ramal é pequeno, de modo que é uma ótima opção para quem quer ir e voltar para Macapá no mesmo dia. O local tem um tablado, redes, topogã e área reservada pra crianças pequenas. Também é possível alugar caiaques. Existem duas opções para o almoço: a comida a quilo (110 reais o quilo) ou a la carte, com as opções de galinha caipira (220 reais) e caldeirada de peixe (200 reais). Ao contrário de outros balneários em que a música é muito alta, aqui a música é ambiente, voltada principalmente para rock e MPB. Recentemente o local mudou de nome para Recanto dos Buritis. A entrada do ramal fica logo depois do cruzamento para Cutias e existem várias placas na estrada. Ou seja: é fácil chegar. 













Perry Rhodan 66 – Os escravos cósmicos

 

No número 66 da série Perry Rhodan, o planeta Fera Cinzenta já se tornara importante o bastante para se tornar uma narrativa paralela às histórias centradas nos protagonistas.

Nos números anteriores o leitor havia acompanhado como uma tentativa de assassinar Rhodan havia fracassado e como os integrantes dos dois grupos envolvidos tinham sido enviados para outro planeta e como uma revolta tinha feito com que a astronave caísse no planeta desconhecido apelidado de Fera Cinzenta. Duas facções haviam se estabelecido em torno de dois líderes: o despótico Hollander e o democrata Mullon. Uma vez neutralizada a ameaça de Hollander, surge uma nova ameaça: o planeta é invadido por alienígenas dispostos a transformar os colonos em escravos, fazendo com que eles plantem cereais em centenas de milhares de quilômetros.

A capa original alemã. 


Os invasores são chamados de peepsies e descritos dessa forma por Kurt Mahr, autor do volume: “Tinham pelo menos dois metros de comprimento e eram tão magros que não se compreendia como não quebravam ao meio quando andavam eretos. Não tinham cabelos na cabeça e a caixa craniana brilhava como se tivesse sido coberta de açúcar de confeiteiro. Os olhos pareciam muito grandes. O nariz era ossudo e abria-se de forma grotesca na metade inferior”.  

O livro gira todo em torno de uma situação de suspense: os terranos conseguirão se livrar do jugo dos peepsies sem que seja necessário o auxílio dos homens de Rhodan (uma nave terra foi enviada ao local para monitorar a colônia, mas só intervir em último caso)?

Mahr, que à essa altura já tinha se tornado um autor competente, consegue estabelecer uma narrativa interessante e verossímil, em que os métodos de resistência criado pelos humanos parecem óbvios e fazem todo o sentido considerando-se as fraquezas dos peepsies.

Uma curiosidade do volume é que este é, provavelmente, o primeiro da série em que se fala de pena de morte. É mencionado que ela foi proibida na Terra após a unifacação e alguns argumentam que voltar a aplicá-la seria um retorno à barbárie. Entretanto, ela é executada duas vezes. Nas duas Mahr evita descrições detalhadas. Não sabemos nem mesmo com que método a pena foi executada. 

Jornada nas estrelas – O Dia da paz

 

Embora teoricamente a Enterprise tenha uma hierarquia militar, Jornada nas Estrelas é um seriado eminemente pacifista. Nenhum episódio deixou isso tão claro quanto O dia da paz, da terceira temporada.

Escrito por Jerome Bixby, o episódio mostra a Enterprise atendendo a um pedido de socorro de uma colônia terrestre. Mas quando chega lá, não há sequer vestígio da colônia. Nesse entremeio, uma nave klingon chega ao local também atendendo a um pedido de socorro e é destruída. Apenas o capitão e alguns homens sobrevivem e passam a culpar os humanos pelo ataque.

Levados para a nave, como prisioneiros, os klingons conseguem escapar quando os feisers da tripulação humana é transformada em espadas. A partir desse ponto instala-se uma guerra nas dependências da nave.

Por trás disso está um alienígena que se alimenta de situações de ódio e violência.

Para evitar que a nave seja destruída, Kirk precisa convencer o comandante klingon, Kang, de que as hostilidades devem cessar.

O episódio é repleto de fala emblemáticas de Kirk, entre elas: “Para o resto de nossas vidas, mil existências, numa luta sem sentido, enquanto um alienígena tem total controle sobre nós. O bom e velho jogo de guerra, peão contra peão, enquanto em algum lugar, uma coisa fica observando, rindo e começa tudo outra vez”. A fala, critica a guerra ao mostrar que os que que lutam são fantoches enquanto que os que lucram com a guerra se divertem e não correm nenhum risco.

O dia da paz faz o que Jornada faz de melhor: transformar um mote de ficção científica numa metáfora de nosso mundo.  

Buddy Longway – O segredo

 


O quinto álbum da série Buddy Longway começa com uma perseguição implacável e uma dúvida. Dois indígenas caçam um homem chamado Corvo Branco. O homem perseguido é astuto, tanto que faz o indígena mais novo perseguir um cavalo sozinho enquanto usa esse tempo para se esconder. Mas fica uma dúvida, que aflige o leitor e garante o interesse pela história: quem é Corvo Branco e porque ele está sendo caçado?

Essa dúvida é resolvida quando a família de Buddy entra na história. No álbum anterior, o patriarca havia sofrido um acidente e nessa história ainda estava com o pé engessado (uma preocupação cronológica que não era comum nos álbuns europeus da época). Assim, é sua esposa e seu filho, Jeremie, que saem para caçar.

Corvo Branco despista os perseguidores... 


O garoto é atacado por um puma e acaba sendo salvo exatamente pelo homem que está sendo perseguido pelos indígenas e faz amizade com ele, levando comida e água para o local onde ele está escondido.

Assim, a narrativa se equilibra entre esses dois elementos de suspense: Jeremie conseguirá despistar os dois indígenas e qual o crime cometido por corvo branco? Para tornar a situação ainda mais interessante, Corvo Branco não parece um criminoso.

... e faz amizade com o filho de Buddy. 


No final descobrimos que a perseguição se deve a um equívoco e tem muito mais a ver com preconceito contra mestiços (vale lembrar que Jeremie também é um mestiço, de modo que o tema ecoa diretamente na sua realidade).

Unindo temas sociais, suspense e uma narrativa fluída, o álbum prende a atenção do leitor.

Liga da Justiça contra Starro

 


Justice League of America 1 foi uma revista marcante. Primeiro por consolidar o retorno dos super-heróis no período que ficaria conhecido como era de prata dos quadrinhos. segundo porque suas boas vendas fizeram com que o dono da Atlas encomendasse para Stan Lee uma revista parecida, o que deu origem ao Quarteto Fantástico, revista que deu início à era Marvel.

As histórias da Liga eram escritas por Gardner Fox e normalmente desenhadas por Mike Sekowsky, um artista hoje quase desconhecido, mas que na época era um dos melhores da DC.

Starro se apresenta e conta seus planos. 


No primeiro número eles enfrentam Starro, uma estrela do mar alienígena super-poderosa.  Há várias situações nessa história que hoje em dia resvalam no humor involuntário. Um exemplo disso é como Aquaman descobre a ameaça: um baiacu boiando de ponta cabeça vê o alienígena voando no céu e descendo no mar.

Os diálogos são descritivos. Starro não só se apresenta como ainda revela suas intenções para que todos no mar o ouçam: “Sou Starro! Selecionei a vocês, três estrelas do mar, que devem ser minhas parentes distantes, para me ajudar a conquistar este planeta. Meus poderes agora são seus poderes! Irão aonde eu mandar e seguirão minhas ordens!”.

Os diálogos são expositivos.


Em outra sequência, uma das estrelas do mar empodeiradas por Starro sequestra um prédio e diz: “Minha missão é roubar o intelecto dos cientistas que estão dentro do prédio!”.

Facilitava muito para os heróis o fato dos vilões sempre revelarem suas intenções.

Além disso, a principal característica do vilão, de dominar pessoas, é mal aproveitada, aparecendo apenas no final da trama.  

Um capítulo para cada herói.


Apesar desses problemas e do tom infantil, é uma história divertida com uma estrutura narrativa interessante. Como são vários heróis e várias ameaças, cada capítulo foca numa estrela do mar e em um  mais heróis que a combatem. Só no final a equipe se junta para combater a ameaça maior, Starro.

Uma curiosidade é que dois dos mais famosos heróis da DC, Super-homem e Batman, não participam da trama, embora sejam mencionados na história (o Homem de aço está ocupado com cometas que ameaçam a Terra e Batman está seguindo um vilão). É possível que eles não tenham sido liberados pelos respectivos editores. Outra curiosidade é que, embora seja a primeira história da Liga da Justiça, ela foi publicada em outro título, The Brave and the Bold, número 28.  

domingo, outubro 11, 2026

Fundo do baú - Galaxy trio

 


No final da década de 1960 a Hanna Barbera decidiu investir em super-heróis. Para isso ela criou duas séries, que deveriam ser exibidas juntas: Homem-pássaro e Galaxy Trio. Mas, quando foi exibi-los, a emissora NBC preferiu colocá-los em dias diferentes.
Galaxy Trio mostrava um grupo de patrulheiros espaciais que percorria o espaço a bordo da nave Condor 1. O grupo era formado pelo Homem-vapor, o Homem-meteoro e a Garota-Flutuadora. Como se pode ver, os roteiristas não eram originais ao denominar os heróis, já que os nomes refletiam os poderes dos mesmos.
O homem-vapor podia ficar em forma gasosa, podendo assim voar ou escapar de locais apertados.
O Homem-Meteoro era um nativo do planeta Meteorus e  podia aumentar e diminuir de tamanho, ganhando uma força sobre-humana.
Já a garota flutuadora era capaz de manipular a gravidade, conseguindo erguer objetos pesados só com a força da mente.
O grupo foi criado pelo gênio do design de personagens Alex Toth, o mesmo que trabalhou em Johnny Quest e Superamigos.

O início da Marvel

 



A Marvel sempre foi uma editora diferenciada. Na era de ouro, enquanto a DC faturava alto com heróis  certinhos como Superman, Flash, Mulher Maravilha e outros, a Marvel se destacava com anti-heróis como Namor, o príncipe submarino e o Tocha Humana. Enquanto na DC a linha que demarcava os heróis dos vilões era muito clara, na Marvel, era um limite tênue.
Na década de 1960, quando Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko renovaram a Marvel, transformando-a num sucesso absoluto, essas características foram ampliadas ao invés de atenuadas. Eram heróis estranhos, que poderiam se tornar vilões em determinado momento e até vilões que viravam heróis.
Essa característica é plenamente visível na graphic Origens – a década de 1960, da coleção Salvat. O volume reúne alguns das primeiras histórias de diversos herói da casa das ideias.
A primeira HQ, de origem do Quarteto Fantástico – o grupo que comandou a virada da Marvel – mostra todas essas características. A narrativa é genial. Ao invés de mostrar os heróis logo de cara, Lee joga com a curiosidade dos leitores ao mostrar um sinal dos céus, chamando o Quarteto. Então vemos uma mulher em uma loja se tornando invisível. Invisível, ela saí nas ruas, assustando a todos.


O mesmo ocorre com o Coisa e o Tocha Humana (mostrado nessa primeira HQ com um visual que não permitia ver seu rosto). Imagino a garotada da época, lendo e se perguntando: quem são essas pessoas?
Depois, quando se reúnem e um perigo é anunciado, a origem do grupo é contada em flash back. Red Ricards decide fazer um voo espacial sem autorização do governo para garantir a primazia dos EUA na corrida espacial. Bem Grinn se recusa devido aos riscos, mas aceita ao ser desafiado. Depois, quando se transformam, culpa Red Richards e tenta atacá-lo com uma árvore. Durante essa primeira história há diversos momentos assim, de conflito no conflito e conflito dos heróis com eles mesmos.
Na comparação com os amistosos encontros da sociedade da justiça, em que os membros se reuniam para confraternizar, comer e contar histórias divertidas, o Quarteto Fantástico deve ter sido uma revolução imensa. O quarteto parecia ser composto por pessoas reais. Uma curiosidade: o grupo nessa primeira história vivia em Central City. Nova York só surgiria depois.
É curioso também perceber como essa primeira história do Quarteto é só uma releitura das histórias de monstros da Marvel da década de 1950. Uma pequena mudança na narrativa fez com que as histórias chavões e passadas se tornassem revolucionárias. É como pegar um jogo de montar, modificar uma ou duas peças de lugar e no final conseguir um resultado completamente diferente.
Esse aspecto de pegar algo já padronizado, mudar um pouco e fazer algo revolucionário é igualmente percebida na hq seguinte, com a origem do Homem-formiga. Era só mais uma hq sobre cientista que desenvolve uma fórmula que o faz encolher e suas arguras num formigueiro, mas já havia ali a gênese do heroísmo Marvel – tanto que depois o personagem, que era para uma única HQ (no final, ele joga fora a fórmula) foi resgatado, se tornando um herói.
Nas primeiras histórias o Professor Xavier era nitidamente autoritário. 


O volume permite entender, também, por que razão os X-men, um dos quadrinhos Marvel de maior sucesso de todos os tempos, não teve vendas baixas à época. Imagino que deve ter sido difícil para os jovens da década de 1960 se identificarem com heróis que viviam sob domínio de um professor autoritário. “Venham imediatamente! Atrasos serão punidos”, diz ele, em mais de um momento da história. A figura do professor Xavier seria suavizada na década de 1970 e, nas vezes em que ele tentava ser autoritário, isso gerava conflito com os alunos, o que certamente contribuiu para o sucesso da revista no final dos anos 1970.
É interessante notar como Jack Kirby era de fato o rei no início da Marvel. Das 10  histórias do volume, apenas três não são desenhadas por ele. Mais interessante ainda perceber como seu traço muda de acordo com o arte-finalista.

A livraria que escolhe seus livros a dedo

 

Dia desses deixei alguns livros meus numa livraria-café e estranhei quando a proprietária me disse que ia ficar com os livros, mas não ia colocar em exposição, pois os livros que eles vendiam eram "escolhidos a dedo".

Na saída, um amigo me apontou uma prateleira repleta de livros de Olavo de Carvalho e seguidores. Eu havia achado estranho ter visto nas paredes da livraria-café uma bandeira do Brasil império.
Fiquei encucado: seria uma livraria bolsonarista-olavista? Seriam monarquistas? Isso iria interferir na aceitação dos meus livros?
Pesquisando, acabei descobrindo que não só são uma livraria bolsonarista-olavista, como a expressão "livros escolhidos a dedo" significa livros alinhados ideologicamente.
Mais: descobri que dois livros de contos de um grande escritor amapaense, Fernando Canto, tinham sido devolvidos ao autor porque não se encaixavam na proposta da livraria. A desculpa, esfarrapada, era que a leitura não era adequada para jovens, comos e todos os livros constantes numa livraria fossem direcionados para jovens. Mesmo entre os livros que vi na prateleira, a grande maioria não era recomendada para jovens.
Não eram livros políticos ou com discurso esquerdista. São livros de contos, ficção. E o autor passa longe de ser um militante político. A maioria dos contos é sobre o folclore e mitologia amazônica.
Esta semana volto lá para pegar minhas obras. Imagina: meu último romance se passa durante a cabanagem, uma revolta popular. Mesmo que eu ainda quisesse deixar meus livros lá, eles não passariam pela seleção "a dedo" da li.
Para quem quiser conhecer melhor a história, é possível ler o relato do próprio Fernando Canto aqui.

A máquina do tempo, de H.G. Wells

 


H.G. Wells foi um dos maiores gênios da ficção científica. Ele antecipou alguns dos principais temas do gênero, entre eles a viagem no tempo.

Escrito em 1895, o livro de Wells pode não ter sido o primeiro sobre viagens no tempo, mas certamente foi o primeiro a mostrar isso sob ação de uma máquina, que poderia ser controlada por um ser humano.

O livro começa, aliás, como uma discussão científica. O protagonista (simplesmente chamado de Viajante do Tempo) explica que todo objeto é normalmente visto como existente na altura, largura e profundidade, as três dimensões. Mas ele também existe no tempo, a quarta dimensão. E levanta a hipótese de que, da mesma forma que é possível viajar no espaço, também seja possível viajar pela quarta dimensão. E mostra para sua plateia o protótipo de um mecanismo, que desaparece ao ser acionado.

Tempos depois, o narrador volta à casa do Viajante do Tempo, que aparece totalmente andrajoso e, após tomar um banho, se vestir com roupas novas e comer, finalmente conta sua história.

Ele teria viajado no tempo, até o ano de 802701, uma era em que a humanidade havia sido completamente transformada (inteligente, Wells situou sua história muitos séculos além de sua época).

A engenhosa descrição da própria viagem em si já vale o volume: “A imagem ofuscada do laboratório pareceu sumir, e vi o sol saltando com rapidez pelo céu, pulando a cada minuto e cada minuto marcava um dia (...) A lesma mais lenta que já se arrastou corria muito rápido para mim”.

Mas o que é narrado após a chegada ao ano de 802701 é uma história empolgante que envolve mistério, ação, suspense, entremeados com várias reflexões filosóficas.

O que o viajante encontra no futuro são pessoas pequenas e bonitas, mas frágeis, os eloi, que vivem vidas despreocupadas, de puro prazer, comendo apenas frutas e aparentemente incapazes de manusear qualquer mecanismo. Além disso, são indivíduos preguiçosos, que cansam muito rápido. Quando uma das mulheres se afoga no rio, ninguém faz o menor esforço de tentar salvá-la e cabe ao viajante do tempo essa incumbência – o que gera um bizarro interesse romântico, já que Weena é mostrada praticamente como uma criança em sua alegria despreocupada.

Mas, se o mundo da superfície é povoado pelos belos e frágeis eloi, no subterrâneo viem os Morlock, uma raça de seres repugnantes de pele branca.

A explicação dada por Wells ecoa uma forte crítica social: à certa altura a classe dominante se estabelecera na superfície, relegante as galerias subterrâneas para a classe trabalhadora, que produzia tudo o necessário para a burguesia em diversas máquinas. Mas a evolução fez com que os operários se tornassem seres totalmente noturnos e, numa curiosa inversão, passassem a se alimentar dois eloi, mostrados como gado que vive alegremente e engorda para finalmente ser devorado.

Wells reflete que esse modelo de sociedade tirou das classes dominantes qualquer traço de inteligência, pois a inteligência e a inventividade são originárias da necessidade. Séculos de uma vida de puro prazer fez com que os seres da superfície perdessem até mesmo a capacidade de ler.

A máquina do tempo mistura essa crítica social e reflexão filosófica com uma trama muito bem elaborada e repleta de ação e suspense – uma vez que a máquina do tempo é roubada, ameaçando deixar o viajante preso para sempre no futuro. É um verdadeiro triller, que deixa o leitor primeiro curioso para entender o que está acontecendo e depois tentando imaginar como o Viajante conseguirá se salvar.

Um clássico absoluto em pouco mais de 100 páginas.  

Entre facas e segredos

 


Entre facas e segredos, filme de Rian Johnson disponível na Amazon Vídeo, é uma homenagem e sátira às tramas policiais de Agatha Christie.

Na trama, um escritor policial é encontrado morto no dia seguinte ao seu aniversário de 85 anos. Aparentemente cometeu suicídio, mas um detetive particular, contratado por um cliente não identificado, desconfia que ele pode ter sido assassinado. Conforme vai entrevistando as várias pessoas que estiveram presente à festa de aniversário, o detetive percebe que muitas teriam motivos para matar o escritor. É o filho cuja diretoria da editora será tirada de suas mãos, é a nora que desviava dinheiro da faculdade da filha e perderá a boquinha, é o genro que tem um caso extraconjugal descoberto pelo sogro...

No centro de toda essa trama, a enfermeira que cuidava do escritor e que vomita toda vez que conta uma mentira.

Difícil contar detalhes sem estragar as muitas reviravoltas do roteiro. Mesmo mostrando em flash back todos os acontecimentos Rian Johnson sempre guarda um segredo – o que o expectador vê pode ter acontecido, mas ter outro significado. Assim, o diretor faz um jogo com o receptor, surpreendendo-o a todo instante.

Essa trama poderia ser facilmente uma adaptação de um livro de Agatha Christie não fosse o toque de humor e o exagero proposital em algumas atuações e na própria direção. O detetive particular interpretado por Daniel Craig é prolixo, excessivamente auto-confiante, mas muitas vezes parece estar perdido na trama – e a solução sobre o caso surge de insight no último momento. Acrescente a isso uma edição rápida, ângulos e movimentos de câmera pouco convencionais e temos um filme policial realmente diferente.

Reflexões sobre o tempo na revista Causos do meio do mundo

 


Reflexões sobre o tempo foi uma das minhas colaborações para o número 2 da revista Causos do meio do mundo. A proposta era fazer histórias sobre o Tempo (algo refletido na capa, com uma figura com a cabeça de relógio sendo despedaçado).

Meu parceiro criativo seria o Kaic (que assinou como Claudinho do Metal) e a primeira providência foi conversar com ele sobre a história. Ele já tinha feito um esboço com algumas reflexões soltas sobre a questão do tempo, uma ideia que não tinha ido em frente. Estudando seu estilo, percebi a pegada de mangá e uma tendência para diagramação não-convencional.



Juntando tudo isso, fiz uma história em que um rapaz não identificado conversa com uma fada e ela, usando seus poderes, reflete sobre a questão do tempo, desde a entropia até a relatividade temporal. Eu adoro a segunda página, na qual o Kaic usa toda a sua criatividade em uma diagramação na qual os personagens parecem passear pela página, indo além dos requadros.

Em tempo: a revista pode ser adiquirida ao preço de 25 reais pelo e-mail jvggaia@hotmail.com.

Batman: Ano Um – Como Eu Sou e Como Vim a Ser



Frank Miller foi o responsável por O Cavaleiro das Trevas, a minissérie que revolucionou o Batman nos anos 1980 e transformou-se em um fenômeno absoluto de vendas. Assim, após conceber um Homem-Morcego decadente e aposentado em um futuro distópico, foi natural que o autor decidisse fazer o movimento inverso, narrando os primeiros dias do herói na ativa. Essa proposta deu origem a Batman: Ano Um, publicada originalmente em 1987 nas páginas da revista Batman (edições #404 a #407).

Para dar vida à arte, Miller convocou um parceiro com quem já havia trabalhado na clássica fase do Demolidor: David Mazzucchelli. O desenhista refinou drasticamente o seu estilo nesta obra, criando uma estética que ecoaria por décadas na indústria dos quadrinhos. A arte de Mazzucchelli em Ano Um caracteriza-se por uma cirúrgica economia de traços, abrindo mão de hachuras excessivas em prol de uma síntese expressionista de luz e sombra. Esse realismo noir e minimalista casou perfeitamente com a atmosfera degradada e violenta da Gotham City proposta pela série.

Wayne e Gordon chegam a Gothan. 


Em termos narrativos, a grande engrenagem da história é como Miller desenvolve a figura de James Gordon, então um tenente da polícia recém-transferido para a cidade mais corrompida do país. Gordon chega de trem, mas fez questão de pagar uma passagem de avião para a esposa grávida. “Num avião, lá de cima, a gente só vê casas e prédios. A cidade parece até civilizada”, reflete ele.

Em uma narrativa paralela e simétrica, Bruce Wayne desembarca em Gotham de avião, após anos de treinamento no exterior, mas com o pensamento oposto: “Devia ter pegado o trem. Eu precisava estar mais perto. Precisava ver o inimigo”.

Flass é síntese dos policiais de Gothan: violento com pequenos marginais, mas recebe dinheiro da máfia.


Durante todo o arco, Gordon e Wayne alternam-se como os eixos condutores da narrativa por meio de diários de bordo paralelos. O roteiro constrói os dois como extremos que se espelham: Gordon busca uma vida pacífica e justa para proteger sua nova família, enquanto Wayne busca, simbolicamente, canalizar o trauma do assassinato de seus pais em uma guerra declarada contra o crime. Inevitavelmente, ao longo das quatro edições, os caminhos desses dois homens honestos em uma terra sem lei vão se cruzar.

Gordon depara-se com uma corporação inteiramente degenerada, onde os policiais são violentos, corruptos ou ambos, e as principais autoridades políticas estão no bolso do crime organizado liderado por Carmine Falcone. A podridão da polícia de Gotham é perfeitamente sintetizada na figura do brutamontes Detetive Flass, que espanca pequenos infratores para demonstrar poder ao mesmo tempo em que garante a segurança dos esquemas de tráfico de drogas.

A série se detaca pela narrativa visual. 


Naturalmente, a conduta ética do Tenente Gordon torna-se um estorvo para seus colegas de farda. Por isso, a primeira edição foca majoritariamente na sobrevivência de Gordon aos ataques de seus próprios parceiros de distintivo.

Paralelamente, Bruce Wayne tenta uma incursão inicial de vigilantismo disfarçado no bairro mais violento e marginalizado de Gotham, a Zona Leste. Sem o traje ou a identidade do morcego, o resultado é um desastre: ele acaba esfaqueado, baleado e preso por policiais corruptos pagos por cafetões. Sua subsequente fuga da viatura e o retorno sangrento para a Mansão Wayne são conduzidos em uma sequência que esbanja destreza narrativa e economia visual — um dinamismo cru que apenas a dupla Miller e Mazzucchelli saberia dosar com tanta crueza.

Wayne percebe que precisa se transformar em Batman para provocar medo. 


No clímax do primeiro capítulo, temos a antológica e expressionista cena em que um morcego ensanguentado atravessa o vitral da biblioteca da mansão, pousando sobre o busto de Thomas Wayne. Trata-se de uma releitura direta da clássica cena criada por Bob Kane e Bill Finger em 1939, mas que aqui ganha todo um novo peso psicológico e mítico. É o instante em que Bruce finalmente compreende o elemento que faltava para assustar os criminosos, selando o seu destino.