quinta-feira, novembro 05, 2026

Crise - Três mundos, três mortes

 


O número 6 da série Crise nas Infinitas Terras é baseada toda no processo de junção das terras. Além das terras 1 e 2, que já estavam sendo unidas, havia mais três prestes a serem destruídas. Os heróis da Terra 1 vão para esses locais prestes a serem destruídos supostamente para ajudar, mas que ajuda de fato eles poderiam dar?

Enquanto isso, no mundo do Antimonitor, cujo visual robótico fora finalmente revelado no último número, este decide usar o Pirata Psiquico para manipular o povo dos três planetas que estão sendo sugados pela antimatéria, inclusive os heróis.

O Pirata Psíquico é usado para controlar a população de três mundos.


Não faz muito sentido. Afinal, essa interferência não muda em nada os planos do vilão. No máximo, apressa o resultado fazendo com que algumas pessoas corram na direção da cortina de antimatéria.

Era um roteirismo, uma desculpa do roteirista Marv Wolfman para criar conflito numa edição que, de outra forma, seria morna. E conflito é o que não falta.

Os heróis da Quality ocupam um mundo... 


Durante anos, sempre que a DC comprava uma outra editora, ela alocava seus heróis em um mundo paralelo, como aconteceu com a Charlton. Assim, esses heróis são colocados em conflito com os heróis da Terra 1.

No final, acaba virando uma grande homenagem aos heróis clássicos.

... enquanto os heróis da Charlton são de outro mundo. 


Wolfman vai desde os mais conhecidos, como Besouro Azul e Shazan até os mais obscuros, como Tio Sam ou Safira Estrela.

É tanta coisa acontecendo que fica difícil acompanhar.

A Precursora em retícula e monocromia, unindo os mundos. 


No final, a Precursora usa seus poderes para juntar as Terras S, X e 4 às duas outras que já estavam unidas. George Perez, como sempre, encontra soluções inteligentes para narrar visualmente a sequência, incluindo colocar as imagens da Percursora em monocromia e retícula, vazando os quadros, como se a diagramação refletisse o processo de fusão que estava sendo efetuado.

Surfista Prateado - o herói filósofo

 

Uma das inovações da Marvel era o fato de que vilões poderiam se regenerar e se transformar em heróis, o que de fato, combinava com a proposta de realismo das histórias. A espiã Viúva Negra e o Gavião Arqueiro são exemplos disso, mas o vilão-herói mais famoso da editora seria o Surfista Prateado, um personagem tão bom que virou cult, ganhando a simpatia dos setores mais intelectualizados da população. Afinal, o surfista era um herói filósofo.
            O surfista surgiu na revista Fantastic Four 48, em 1966, no arco conhecido como Trilogia de Galactus. Stan Lee escreveu uma sinopse sobre um ser super-poderoso que vinha à Terra para sugar a energia do planeta e deu para Jack Kirby desenhar. Quando Jack trouxe as páginas para que Lee colocasse os textos e diálogos, havia uma novidade ali, um personagem que não aparecia na sinopse original. Ele justificou dizendo que um ser tão poderoso quanto Galactus deveria ter um arauto, que procurasse mundos a serem devorados. Stan Lee adorou a idéia e o visual do personagem, que parecia ter uma postura nobre: ¨Quando chegou a hora de estabelecer o seu padrão de discurso, comecei a imaginar de que forma um apóstolo das estrelas se expressaria. Parecia haver uma aura biblicamente pura no nosso Surfista Prateado, algo altruísta e magnificamente inocente¨.
            Ao final da trilogia, a editora começou a receber cartas de fãs pedindo uma revista daquele novo personagem, mas Stan Lee e Jack Kirby estavam muito ocupados para pegar mais essa empreitada. Quando Roy Thomas entrou na Marvel como assistente editorial, Lee se viu com tempo para se dedicar ao novo projeto.  A revista estreou em 1968 e foi, aos poucos, contando a história do amargurado herói.
            Assim, o Surfista é Norrin Radd, um jovem cientista do planeta Zenn-La que aceita tornar-se arauto de Galactus afim de que ele poupasse sua terra natal. Ao se voltar contra seu mestre quando ele tentava devorar a Terra, Galactus condena-o a ficar eternamente preso ao nosso planeta. Isso para ele é uma tortura dupla, pois ele não pode voltar ao seu planeta natal, nem rever sua amada Shalla bal. Além disso, vindo de um local mais avançado eticamente e tendo uma alma extremamente nobre, ele sofre ao ser obrigado a conviver com os ambiciosos humanos, que o caçam por ser diferente.
            As aventuras do Surfista permitiram a Stan Lee exercitar o lado humano de seus roteiros ao trabalhar com um personagem angustiado. Para desenhar as histórias ele chamou John Buscema, que era muito influenciado por Jack Kirby, mas tinha uma melhor capacidade para mostrar dramas humanos.
            Os monólogos angustiados do protagonista, geralmente no início das histórias tornaram-se a marca da série. Como esse, publicado no número 6 da revista: ¨Até quando devo continuar aprisionado no selvagem planeta Terra? Não! Este não pode ser meu destino eterno! Não foi para isso que renunciei ao meu mundo, minha vida e meu amor! Por certo, em todo o universo não pode haver ironia mais cruel do destino! Eu, que detenho um poder além da compreensão de qualquer ser humano... estou fadado a viver confinado e sem esperanças... tal qual o mais frágil dos animais! Aqui eu sou odiado... e temido... pelos mesmos seres que meu coração só deseja ajudar! Meu coração! Eu disse... coração? Como poderia ser... se não tenho mais coração? Afinal, eu o abandonei no planeta Zenn-la... a inúmeras galáxias de distância... com aquela a quem amarei para sempre! Zenn-la... onde meu mundo começa e termina... ondeu eu deixei minha amada Shalla Bal!¨. 
            A revista era avançada demais para uma época em que predominavam heróis violentos e fez pouco sucesso, durando poucos números, mas ganhou fãs fervorosos.
            Nos anos 1980 o herói virou cult ao ser citado pelo personagem Richard Gere no filme A Força do amor, refilmagem de Acossado, de Godard. Desde então, críticos e fãs redescobriram o personagem, que acabou sendo a grande estrela do segundo filme do Quarteto Fantástico.  

Batman – O Livro do Juízo Final

 


O Batman sempre foi retratado como o "Maior Detetive do Mundo", e essa essência investigativa foi magistralmente explorada pelo roteirista Mike W. Barr na história publicada em Detective Comics nº 572.

A trama inicia com Slam Bradley, um personagem clássico (e hoje mais obscuro) criado pela dupla Jerry Siegel e Joe Shuster. Bradley é apresentado sob a estética do detetive noir, incluindo a clássica narração cínica em primeira pessoa, como se observa no trecho:

“Não precisava ser um detetive lá muito genial para saber que tinha caroço naquele angu. Eu não era o detetive mais genial, mas soube de cara que havia algo de errado com a história”.

Bradley é um detetive noir, que age na rua. 


Na trama, Bradley é procurado por um homem para encontrar sua noiva, raptada por um grupo misterioso. No desfecho desse arco, mesmo com a intervenção do Batman, o próprio cliente acaba sendo sequestrado.

Mike W. Barr constrói a narrativa em capítulos, cada um ilustrado por artistas distintos. A primeira parte conta com a arte dinâmica de Alan Davis. A segunda, que mergulha na investigação de Bradley, é desenhada por Terry Beatty e pelo veterano Dick Giordano. Como um autêntico detetive hardboiled, Bradley percorre os subúrbios da cidade interrogando informantes. Vale lembrar que um dos precursores desse estilo foi Dashiell Hammett, que foi detetive particular na vida real e começou a escrever justamente por considerar os detetives da ficção pouco verossímeis.

O Homem-elástico também participa da história. 


A terceira parte introduz outro investigador do universo DC, o Homem-Elástico, desta vez desenhado pelo mestre Carmine Infantino e por Al Vey.

Já o quarto capítulo é protagonizado por ninguém menos que Sherlock Holmes, apresentando o detetive vitoriano impedindo uma tentativa de assassinato contra a Rainha Vitória. Este trecho conta com os desenhos detalhistas do filipino E. R. Cruz. Nele, Barr mimetiza perfeitamente o estilo de Arthur Conan Doyle, utilizando a famosa técnica da dedução — como no momento em que Holmes descobre que seu interlocutor é canhoto, recém-casado e que parou de fumar cachimbo, apenas através da observação cuidadosa.

O capítulo focado em Sherlock Holmes é desenhado pelo filipino E.R. Cruz.


No capítulo final, Alan Davis retorna para costurar as diferentes épocas e estilos, integrando-os em uma trama coesa e competente. Não por acaso, essa história histórica foi a escolhida pela editora Abril para estrelar a edição nº 13 da revista Batman (2ª série).

O rei de porcelana

 


O rei de porcelana, série coreana dirigida por Song Hyun-wook, parte de uma situação real: antigamente, em países como Coréia e Japão, o nascimento de gêmeos era visto como mau agouro. Se fosse na nobreza então, a situação era ainda pior.

A história começa com o nascimento do filho do príncipe herdeiro. Quando se descobre que se trata de uma casal de gêmeos, o desespero toma conta de todos. Quem aceitaria ser governado por um homem que dividiu o útero com uma mulher? Assim, o rei decide por matar a menina e esconder a história, matando todos os criados que de alguma forma participaram do parto.

Mas a princesa não quer ver sua filha morrer e convence o médico real a usar acumputura para simular a morte da menina, que depois é levada para local desconhecido.

Anos depois, essa menina reaparece no palácio, como uma dama de companhia e o príncipe, percebendo a semelhança entre ambos, começa a trocar de lugar com ela. Numa dessas trocas, ele acaba sendo morto e quem assume seu lugar é a irmã gêmea. A situação, entretanto, é extremamente perigosa: se um dia descobrirem a troca, todos os envolvidos podem ser mortos.

Esse mote cria a espinha dorsal de uma trama viciante, que envolve romance (a princesa, disfarçada de príncipe, apaixona-se por seu preceptor), aventura, suspense, humor e cenas de ação.

Esse talvez seja o aspecto mais interessante desse dorama (ou, o que seria mais apropriado dizer, k-drama): é uma história de amor misturada com tramas palacianas.

A direção traz algo inusitado para os ocidentais: o uso das mãos como elemento dramático. Em diversas cenas são usados planos detalhes das mãos dos personagens para demonstrar seu estado de espírito (raiva, paixão, medo) ou suas intenções.

Também vale destacar a boa escolha do elenco. Park Eun-bin, que faz o papel principal é extremamente expressiva. Embora visualmente não seja nada parecida com um homem, consegue entregar uma atuação muito diferente de quando não está como mulher. O astro K-pop Rowoon, que faz seu par romântico destaca-se por trazer alívio cômico para diversas cenas.

O rei de porcelana irá agradar diversos públicos e não só quem se interessa por histórias românticas, mas um aviso: cada capítulo tem aproximadamente uma hora e são vinte capítulos. Ou seja, é  necessário um grande comprometimento de tempo para assistir.

quarta-feira, novembro 04, 2026

Jornada nas estrelas - Réquiem para Matusalém

 

 

Nos ultimos dias da série Jornada nas Estrelas  a falta de recursos fazia com que surgissem roteiros muito interessantes que se passavam e um único cenário ou pouquissimos cenários. Nessa categoria se inclui Réquiem para Matusalém, episódio escrito por Jerome Bixby e dirigido por Murray Golden. 

Na história, a tripulação da Enterprise está sendo afetada pela febre rigeliana, cujo unico antídoto é o mineral ryettalyn. kirk, spock e mccoy descem num planeta desabitado em busca da substância, mas são surpreendidos por um robô (na verdade, um mecanismo nitidamente pendurado em um fio) e pelo seu mestre, um homem chamado Flint. Apesar de um estranhamento inicial, Flint acaba aceitando abrigar o grupo enquanto o robô procura e processsa o mineral.

Mas há algo estranho acontecendo. O local onde ele mora é ornamentado por quadros de Leonardo da Vinci que nunca foram pintados por ele, além de outras preciosidades. Além disso, ali habita uma jovem que diz ter abrigado após a morte os pais. A relação entre os dois fica entre o amor paternal e o amor romantico. A situação se complica quando a moça se apaixona por Kirky. 

Esse tema, que parece ter sido levementte inspirado em A tempesttade, de Shakespeare, serve parra diversas reflexões, entre elas, uma das mais importantes da série: o que é a humanidade. 

Alguns críticos têm destacado o comportamento estranho de kirk no episódio, a começar pelo ccomeço agressivo ccom Flint até o final, em que ele faz o papel do apaixonado brigando com outro pelo amor de uma mulher. A mudança no comportamento de flint, que inicialmente nãoo quer os terrestres no local e depois atrasa a entrega do medicamento para segura-los lá também parece estranha. Entretanto, os diálogos e interpretações sãao tão bons que acabamos esquecendo os problemas e nos concentrando nos meandros dessa trama sobre um homem imortal. 

Nova York, de Will Eisner

 


Existem obras tão fundamentais para se compreender a linguagem dos quadrinhos que se transformam em verdadeiras aulas de quadrinhos. Exemplo disso é o álbum Nova York – a vida na grande cidade, de Will Eisner.
O álbum reúne anotações do artista sobre a metrópole e as histórias geradas a partir dessas observações. Nesse sentido a capa, com Eisner desenhando uma multidão é a perfeita síntese da obra.
Eisner não foi só um dos primeiros a refletirem sobre a linguagem característica da nona arte – foi uma das pessoas que estabeleceram essa linguagem e isso fica implícito nas 439 páginas do álbum. Está tudo ali: elipses, tempo narrativo, diálogos, o desenho contando por si só a história, plots e reviravoltas, estudos de personagens. Aliás, a própria metodologia do livro é uma lição: não há nada melhor para criar quadrinhos do que observar o mundo à nossa volta e usar a imaginação para complementar aquilo que não podemos ver.
A obra conta várias histórias de Nova Yokr, em vários cenários. 


O livro é dividido em quatro capítulos: Nova York, a grande cidade; O Edifício; Caderno de tipos urbanos e Pessoas invisíveis.
O primeiro capítulo é dedicado às observações de cenários da cidade e o exercício criativo resultante delas. Em um desses exercícios, Eisner desenha um bueiro e imagina todas os dramas possíveis que poderiam ser protagonizados por esse cenário: a prostituta que joga ali um anel de noivado, o homem que perde uma moeda, o assaltante que se livra da faca, uma mulher que perde ali a chave do apartamento no qual vai se encontrar com o amante e, finalmente, os garotos que tentam resgatar esses tesouros.
Outros cenários vão se sucedendo, cada um com suas histórias e dramas: uma escadaria, o metrô, uma lata de lixo.
O Edífício é provavelmente a parte do livro mais conhecida no Brasil, pois essa parte foi separada e publicada pela editora Abril na coleção Graphic Novel. A história gira em torno de um prédio no cruzamento de duas ruas de Nova York e as histórias que se cruzam com a história do edifício.
A história começa com o local sendo derrubado e substituído por um prédio moderno e os fantasmas de quatro pessoas. Se o capítulo anterior é um ótimo exemplo de exercício criativo, este é uma aula de roteiro: Eisner narra a história de cada um desses fantasmas e amarra seus dramas ao próprio edífício, fazendo com que essas diversas tramas paralelas convirjam no final.
Caderno de tipos urbanos é o que o próprio nome diz: uma galeria de tipos de observações de comportamentos, um verdadeiro exercício antropológico. Eisner observa, por exemplo, que o espaço urbano parece afetar a concentração e o contato visual entre as pessoas, fazendo que até mesmo o tema mais pesado e sério pareça uma conversa casual.
Nessa verdadeira obra-prima de quase 500 páginas, Pessoas invisíveis se destaca, em especial a história Santuário. A HQ narra o drama de Pincus Pleatnik, um homem tão invisível que, quando o jornal por engando publica a informação de que ele morreu, todos passam a acreditar que ele de fato está morto.

A arte espetacular de Vik Muniz

 


Vik Muniz ficou famoso pelo documentário Lixo Extraordinário. Esse brasileiro usa grande quantidade de lixo para reproduzir obras famosas da arte ocidental. Seu trabalho ajuda a mudar a vida de catadores.Confira abaixo algumas de suas obras, todas feitas com produtos recolhidos por catadores. 




Júlia Kendall – férias forçadas

 

 

O gênero policial, embora seja visto normalmente como uma história em que um detetive investiga um assassinato, é muito mais amplo, podendo incluir,por exemplo, o planejamento e a execução de um crime. Férias Forçadas, publicado no número 106 da revista Aventuras de uma criminóloga se encaixa nesse último modelo.

Na história, três homens estão tentando roubar um cofre em um hiper-mercado quando o alarme dispara. Então descobrimos que eles são bandidos presos, que saíram para cometer o roubo, mas não sabemos o que tem dentro do cofre ou porque o policial deixou que saíssem, o que gera interesse no leitor.

A sequência inicial é eletrizante. 


Berardi (que nessa história conta com a colaboração de Alberto Ghê), é um mestre do roteiro, o que contribui muito para a caracterização dos personagens. Isso é unido a cenas de ação realmente empolgantes e verossímeis. Além disso, o suspense sobre o que realmente tem no cofre é muito bem trabalhado.

Os personagens secundários são muito bem trabalhados. 


O foco nos assaltantes é tão grande que Júlia é quase uma personagem secundária na história.

Entretanto, a construção da história, dos personagens e da ambientação é tão tão extensa que o final acontece de maneira abrupta, dando a impressão de que os roteiristas não pesaram bem a quantidade de páginas que tinham disponíveis. Ainda assim, é uma ótima leitura.

Pancadaria – por dentro do épico conflito Marvel vs DC

 

Todo fã de quadrinhos de super-heróis certamente conhece o embate entre as duas maiores editoras norte-americanas. Marvel e DC têm disputado o mercado do comics há décadas, com vitórias e derrotas para um lado e outro ao longo de todo esse tempo. A batalha entre essas duas gigantes é tão monumental quanto as batalhas de seus personagens. O livro Pancadaria, de autoria de Reed Tucker, da editora Fábrica 231 se desbruça sobre esse fenômeno.
Red Tucker é jornalista especializado em cultura pop, tendo trabalhado em várias publicações, como o New York Post, Esquire e USA Today. Ou seja: é um jornalista da área. Isso garante tanto uma linguagem agradável quanto um conhecimento adequado. Mais ainda: como bom jornalista, Tucker vai procurar causos interessantes, curiosidades dessa guerra – que tornam o livro extremamente divertido.
A DC foi a inventora do negócio. Os super-heróis surgiram com a publicação de Super-homem em Action Comics 1, em junho de 1938 (os donos pagaram apenas 130 dólares pelos direitos do personagem). Depois surgiram Batman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde, todo um panteão de personagens. A trindade (Super-homem, Batman, Mulher Maravilha) sobreviveu até mesmo aos difícieis anos 1950, quando os quadrinhos foram acusados de provocar delinquência juvenil e muitas editoras fecharam suas portas.
Mas ser a primeira tem seus problemas. Na DC isso se refletiu na forma de conservadorismo. Os artistas iam trabalhar de terno e gravata e a tríade de editores dos anos 1960, Mort Weisinger, Julie Schwartz e Robert Kanigher se destacava pelo caráter abusivo. Weisinger ligava para o roteirista Jim Shotter, então com 13 anos, para chama-lo de idiota. Dizem que no funeral de Weisinger, em 1978, o rabino convidou os participantes a se levantar e discursar sobre as boas qualidades do falecido. Depois de um longo silêncio, alguém lá no fundo gritou: “O irmão dele era pior!”.
Enquanto no luxuoso prédio da DC imperava o conservadorismo, na discreta Marvel se operava uma revolução. A Marvel surgira pouco depois da DC publicando anti-heróis, como Namor e Tocha Humana e fora responsável pelo grande sucesso da guerra, o Capitão América. Mas assim que terminou o conflito, suas vendas caíram. No final dos anos 1950, a editora se resumia a uma sala e dois funcionários: o editor Stan Lee e uma secretária e se especializava em imitar qualquer coisa que estivesse fazendo sucesso em outra editora.
Stan Lee já estava para chutar o balde e partir para um emprego melhor quando resolveu fazer uma última tentativa. O dono da Marvel ordenara que ele fizesse uma cópia da Liga da Justiça, que estava fazendo sucesso na DC: “Ei, talvez ainda haja mercado para super-heróis. Por que não traz uma equipe como a Liga da Justiça? Podemos chama-la de Liga Correta ou algo do tipo”, disse Martin Goodman para Stan Lee.  
Mas, junto com Jack Kirby, Lee elaborou algo completamente diferente: o Quarteto Fantástico, publicado em agosto de 1961. Até então, a pequena editora nunca apresentara concorrência à DC. Mas Quarteto Fantástico mudou tudo. Era um quadrinho completamente diferente do que se fazia à época. Antes dele, os heróis de quadrinhos eram monodimensionais e, reflexo disso, todos falavam da mesma maneira. Tucker conta que era possível trocar os balões dos heróis da Liga da Justiça sem qualquer prejuízo para a história.  No Quarteto Fantástico, cada um tinha uma personalidade, um modo de falar e de encarar o mundo.
Se na DC os heróis pareciam muito felizes com seus poderes, no Quarteto, eles eram fontes de problemas, em especial para o monstruoso Coisa. E eles brigavam. Na primeira edição há pelo menos três pontos de conflitos entre os heróis. Na edição 2, a Mulher Invisível diz: “Nós vamos nos destruir se ficarmos pulando no pescoço um do outro!”.
Além disso, as histórias dos vários personagens faziam parte de um universo único, interconectado. Dizia-se que se estivesse trovoando em um gibi, estaria chovendo no outro. E, a cereja do bolo: a arte extremamente dinâmica de Jack Kirby, perfeita para as inúmeras cenas de luta.
O resultado disso é que logo as revistas da Marvel estavam superando as da Dc em percentual de vendas. Enquanto revistas como Super-homem vendiam 50% da tiragem, as da Marvel vendiam mais de 70%.
Os donos e editores da DC não se dignaram a ler as revistas para saber o que estava fazendo com que elas fossem especiais. Não podia ser as histórias, já que se imaginava que o público de quadrinho fossem crianças semi-alfabatizada. Também não podia ser a arte de Jack Kirby, muito “inferior” ao que se fazia na DC. A solução só poderia estar nas capas.
Reed Tucker conta os bastidores de uma hoje hilária reunião da DC em que os figurões da editora tentavam descobrir o que havia nas capas da Marvel que fazia as revistas venderem. Podiam ser o vermelho? As logos inúteis? Os balões prolixos? A arte “ruim” de Jack Kirby, que provocava uma associação com as crianças?
O resultado dessa cegueira nós conhecemos: a Marvel logo se tornou a maior editora de quadrinhos dos EUA. Por breves períodos a DC conseguiu suplantá-la. Tucker conta em detalhes essa saga, do início do gênero à explosão dos super-heróis no cinema. Isso numa linguagem divertida, fluída. Mal se percebe que o volume tem quase 300 páginas

terça-feira, novembro 03, 2026

Coleção histórica Marvel: Demolidor

 

Um dos volumes mais interessantes da coleção histórica Marvel é Paladinos Demolidor.

A Coleção histórica Marvel resgata histórias antigas de personagens da editora. Na grande maioria das vezes são histórias relativamente conhecidas, ou sagas famosas, republicadas.
A edição dedicada ao Demolidor, no entanto, é mais interessante. O que conhecemos dele é praticamente o que veio de Frank Miller em diante.  
Este volume faz um apanhado das fases anteriores do personagem, com os diversos desenhistas responsáveis por essas fases.
Demolidor no traço de Joe Orlando. 


E foram muitos.
A começar por Bill Everett, criador visual do personagem. Dizem que Stan Lee bolou o personagem como forma de valorizar Everett, que havia criado Namor na década de 1940 e há tempos não desenhava quadrinhos. Colocá-lo em um título de super-heróis Marvel era uma forma de mostrar o mestre para a nova geração.
Mas Everett, que então trabalhava com publicidade, não deu conta e abandonou o título depois do primeiro número.
Aí veio Joe Orlando, logo substituído por Wallace Wood, que foi substituído por John Romita, que foi relocado para o título do Homem-aranha após a saída de Steve Ditko. Só aí entrou Gene Colan, o desenhista que passou mais tempo com o Homem sem medo.
Wally Wood emprestou seu traço elegante para o personagem. 


A edição de Paladinos reúne histórias desses diversos artistas, numa belíssima amostra do estilo de cada um com o personagem (particularmente gosto muito de Wally Wood, que introduziu o uniforme vermelho, embora nitidamente ele não estivesse fazendo o que gostava e não se esforçou muito).
Do ponto de vista de roteiro, a história mais interessante do volume é “Eis que surge o Gladiador”.
Nessa historia, Stan Lee estava saindo de férias, e, após escrever as sete primeiras páginas, deixou o texto a cargo de um novato, Denny O´Neil. O´Neil (que pouco depois seria responsável por reformular o Batman na DC) mostra que tinha uma visão própria do Demolidor.
O personagem já no traço de Gene Colan numa história que antecipava as inovações de Frank Miller


Na HQ, Foggy Nelson tenta convencer Karen Page de que é o Demolidor como forma de conquista-la e, sem querer, enfrenta um vilão, o Gladiador.
Ao ver os diálogos do amigo, o Demolidor percebe que suas falas parecem ridículas. De fato, Stan Lee parecia ver o Demolidor como uma espécie de Homem-aranha cego (o primeiro número inclusive fazia essa comparação, trazendo a capa do primeiro número do aracnídeo). O Demolidor de Denny O´Neil reflete: “Pareço bobo feito o Foggy! De agora em diante serei um combatente do crime do tipo fortão e calado”.
O roteirista também reflete sobre o vilão, Gladiador, antecipando seus problemas mentais que seriam depois explorados por Miller.
Essa pequena participação de Denny O´Neil teve pouco impacto sobre o personagem. Logo Stan Lee retornou das férias e o Demolidor voltou a ser o herói brincalhão, que fazia piadas com os vilões durante as lutas.
Mas anos depois, Denny O´Neil se tornou o editor do personagem e um jovem inovador chamado Frank Miller teve a oportunidade de reformular o herói. É de se pensar até que ponto as mudanças de Miller foram sugeridas por O´Neil.

Jornada nas Estrelas – A teia dos Tholianos

 


A tripulação da Enterprise investiga o que aconteceu com a USS Defiant. Quando se teleportam para a nave, descobrem que algum tipo de loucura fez com que a tripulação se atacasse até não sobrar ninguém. Pior: a nave está sendo enviada para outra dimensão e o teletransporte só funciona para três pessoas. Kirk fica na nave e quando tentam transportá-lo, não conseguem, de modo que ele fica perdido entre as dimensões.

Spock precisa resgatar Kirk antes que a loucura tome conta da tripulação e todos se matem. Para piorar uma situação, uma nave tholiana aparece e ataca a enterprise. Quando a nave revida, os thlianos criam uma teia de energia em volta da nave terrana que funciona com uma gaiola.

A teia dos tholianos, escrito Judy Burns e Chet Richards é um episódio repleto de suspense, em que várias ameaças ocorrem ao mesmo tempo, criando uma situação de extrema tensão – algo que seria depois reproduzido à exaustão em outras séries da franquia.

O grande problema é que tudo no roteiro é forçado demais. Não há uma explicação plausível nem para a loucura nem para o transporte da Deviant para outra dimensão e fiquei me perguntando porque a enterprise era afetada pela loucura, mas não é impelida para outra dimensão, já que ambos os problemas parecem relacionados àquele lugar no espaço. Por outro lado, a frota tholiana não parece afetada nem por um nem por outro.

Da mesma forma, a solução tanto para a loucura quanto para a teia ocorre com uma explicação forçada.

Pela estrutura de três ameaças simultâneas, esse episódio poderia facilmente ser um dos mais célebres da série clássica, mas os furos do roteiro fazem com que isso não ocorra.

O que salva o episódio, além do elenco, claro, é a direção e suas soluções criativas, como usar a lente grande angular para simular a loucura dos tripulantes da Enterprise.

Xisto no espaço

 


Olhando em retrospecto, percebo que dois livros, lindos na pré-adolescência, foram essenciais pelo meu fascínio pelos gêneros da fantasia e da ficção-científica. O interesse pela fantasia surgiu com As aventuras de Xisto. Já a ficção científica, com Xisto no espaço, ambos lançados na coleção Vaga-Lume e de autoria de Lúcia Machado de Almeida.

Recentemente consegui num sebo o último e o reli agora com um olhar de adulto sobre aquela obra lida no fim da infância.

A história começa num laboratório, onde dois cientistas captam uma mensagem vinda de outro planeta. Os dois são construídos como alívios cômicos, estratégia da escritora para garantir o interesse de crianças.

Protônius é um homem alto, de óculos com aros de tartaruga e cabelos compridos sempre revoltos. “Vivia inventando coisas esquisitas e tinha fama de doido (mas não era)”, explica a autora. Já o professor Van-Van é um homem baixo, de barba enorme, dado a desmaios repentinos e a falas incompreensíveis.

A mensagem captada por eles é estarrecedora: “Caso Xisto não venha até Minos, atacaremos vosso planeta quando este sair de seu eixo. Inútil reagir. (Assinado) Rutus, o que não tem sangue, senhor de Minos”.

Xisto, neste livro, já foi alçado à condição de governante local, apesar da sua pouca idade (17 anos) e continua o mesmo idealista guloso de sempre, louco por pastéis de queijo. Ele resolve enfrentar o desafio de uma viagem espacial e ir para Minos.

Um dos aspectos interessantes do livro é como Lúcia Machado de Almeida descreve a astronave, seus equipamentos e forma de funcionamento. Um exemplo: “Afim de tornar respirável o ar no interior da astronave, o Professor Van-Van preparara um recipiente com soda cáustica, clorato, peróxido de potássio e outros produtos destinados a absorverem o gás carbônico eliminado pela expiração, e a fabricarem o oxigênio necessário à respiração. Além disso, uma espécie de aquário cheio de algas unicelulares foi colocado no mesmo lugar, a fim de reforçar a purificação da atmosfera”. A decolagem se dá em estágios, com foguetes se desprendendo.

O livro foi escrito em 1967, auge da corrida espacial (os americanos chegarima à Lua em 1969) e fica óbvio que a autora acompanhava as notícias sobre o assunto e tentava se inteirar de como seria uma viagem espacial. Ela, aliás, antecipa alguns aspectos, como o passeio no espaço com pistola de pressão, algo que seria de fato usado por astronautas. Ela também usa informações científicas, como a descoberta da penicilina, de forma criativa para eliminar um perigo.

Apesar da imaginação da autora surpreender em muitos pontos do livro, sua percepção da vida em outros planetas é limitada. Xisto e seu amigo Bruzo chegam, por exemplo, em um planeta chamado Nívea em que os habitantes são exatamente iguais aos terrestres e o que muda é apenas a fauna, muito grande ou muito pequena: “Incrível! Animais das selvas reduzidos a cinco centímetros de tamanho! Camelos de um dedo, ursos do tamanho de uma caixa de fósforos... E tudo isso vivo, correndo de um lado para outro”.

A autora, entretanto, consegue fazer uma obra empolgante, mesmo para um leitor adulto, pela trama um tanto ingênua, mas bem bolada, em que, por exemplo, um gancho jogado lá no início do livro, como o lenço encharcado de essência de feno, torna-se fundamental no desfecho da trama.  

O livro encanta também por sua visão pacifista do mundo. No final, a grande ameaça de Rutus é debelada sem o uso de violência. Xisto é um herói que coloca o cérebro acima dos músculos e dos punhos.

O bem amado

 


O bem amado foi a primeira novela em cores da TV brasileira. Foi também a primeira a ser exibida em outras países. Mas a origem dela foi uma peça escrita por Dias Gomes e que ele achou que nunca seria encenada.

Escrita em 1962 e publicada na revista Cláudia, ela só foi encenada em Recife, em 1969. A razão é que os produtores achavam que tinha muitos personagens.

Na trama um político corrupto e oportunista chamado Odorico Paraguaçu se elege prefeito com a promessa de construir um cemitério, já que até então era necessário levar os mortos para outra localidade. Ele tira dinheiro da saúde e educação, mas consegue realizar sua obra. Só que, azar dos azares, ninguém morre, o que ameaça levar o prefeito ao impeachment pelo gasto desnecessário.

A peça deu origem à primeira novela colorida da televisão brasileira. 


No texto, publicado pela editora Bertrand o que chama a atenção é a ótima caracterização dos personagens, em especial Odorico, e o senso de humor refinado de Dias Gomes, que consegue ser, ao mesmo tempo, muito inteligente e extremamente popular.

Odorico se caracteriza principalmente pelos neologismos, como “defuntice compulsória”, “namorismo”, “agoramente” e “Botando de lado os entretantos e partindo para os finalmente”.

O texto é de morrer de rir, com destaque para o quinto quadro, quando um rapaz moribundo é levado por Odorico para Sucupira na intenção de que, uma vez morto, inaugurasse o cemitério. Mas acontece uma tragédia: o rapaz não só sobrevive, como ainda fica mais saudável que antes graças ao ar da cidade. “Ele veio com a condição de morrer aqui! Falta de palavra...”, reclama Odorico.