quarta-feira, maio 20, 2026

Universo Alternativo: O Primeiro Fanzine de Quadrinhos do Amapá



Os fanzines são publicações alternativas, geralmente reproduzidas em xerox, que ganharam enorme popularidade nas décadas de 1980 e 1990 como canais de expressão contracultural. No Amapá, esse marco inicial veio com o fanzine Universo Alternativo, lançado no dia 8 de maio de 2002 na Biblioteca Pública Elcy Lacerda.

O idealizador, editor e roteirista da publicação, Samuel, tinha acabado de completar 18 anos. Ao seu lado na empreitada, colaboravam com os desenhos os jovens Josiel Santos e Raoni Holanda, ambos com apenas 14 anos na época.



Tive o privilégio de ser o mentor desses garotos, apoiando-os financeiramente e escrevendo o texto de apresentação do primeiro número. Naquele texto, destaquei que aqueles jovens estavam muito mais preocupados em produzir do que em apenas fazer promessas: “Afinal, são artistas que fazem e têm humildade para perceber suas limitações e ultrapassá-las”.

O lançamento ganhou destaque na imprensa local, merecendo uma matéria no Jornal do Dia, onde o grupo declarou: “A gente quer mostrar que é capaz e, quem sabe, se profissionalizar. Nós queremos mudar a opinião de muitas pessoas que têm aversão às histórias em quadrinhos”.



Infelizmente, uma série de fatores interrompeu a continuidade da publicação. O principal deles foi a necessidade de Samuel pausar a dedicação aos quadrinhos para focar nos estudos para o vestibular — esforço que foi recompensado quando ele passou em primeiro lugar no curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Amapá (Unifap). Embora o fanzine tenha tido vida curta, ele permanece como um capítulo pioneiro na história das HQs amapaenses.

Para baixar o scan completo do fanzine Universo Alternativo e conhecer esse pedaço da nossa história, clique no link abaixo: 👉 Download do Fanzine Universo Alternativo

O Bom professor – Artigo na revista Educação

 



No ano de 2002 eu lecionava em faculdades particulares e uma coisa me incomodava: a ênfase excessiva no cumprimento de prazos acadêmicos.

Nos questionários aplicados aos alunos no final de semestre havia diversas perguntas do tipo: “O professor começa e termina a aula no horário correto?”; “O professor entrega as notas no prazo” etc.

Mas não havia uma única pergunta sobre se o professor dominava o conteúdo ou se tinha didática para ensinar esse conteúdo. O bom professor era, rigorosamente o que cumpria todas as regras burocráticas, por mais que não soubesse nada do assunto ou não tivesse a menor noção de metodologia educacional.

Na época eu vira um ótimo professor ser demitido por, por exemplo, chegar atrasado para a aula. Esse mesmo professor tinha uma produtora e continuamente levava seus alunos para lá e passava muitas vezes a madrugada com eles filmando ou editando. Mas para a direção só o que contava era o que ele fazia na sala e no horário de aula. 



Nessa época, uma das faculdades em que eu trabalhava assinava a revista Educação, da editora Segmento. Resolvi escrever um artigo sobre o assunto e mandei para a publicação. Para minha surpresa, ela foi publicada na última página da edição 68, um espaço privilegiado reservado a artigos de opinião.

O editor escolheu um trecho interessante do artigo para o destaque gráfico: “Aprender também pode significar ter de mudar os modelos mentais preestabelecidos de que só se aprende em sala de aula”.

Igreja de Santo Alexandre em Belém

 

Um dos pontos históricos obrigatórios para quem visita Belém é a Igreja de Santo Alexandre, uma das mais antigas de Belém e um belíssimo exemplo do barroco amazônida. A igreja, na verdade, acabou ganhando esse nome graças ao colégio, que fica ao lado. O nome original era Igreja de São Francisco Xavier. No colégio, em anexo, estão as relíquias de Santo Alexandre, doadas pelo Vaticano, daí o seu nome. Atualmente a igreja abriga o Museu de Arte Sacra de Belém. Em tempo: a igreja fica no centro histórico de Belém, próxima de vários outros prédios antigos.





Dom Quixote das crianças

 


Dom Quixote é uma das obras mais importantes da literatura universal. Mas é também um livro de linguagem empolada, repleto de frases com orações subordinadas e expressões em desuso. Para apresentar esse clássico às novas gerações, Monteiro Lobato escreveu sua própria versão condensada do clássico.
Dom Quixote das crianças mostra que Lobato não era só alguém com prosa agradável e fluída, mas era também um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos – capaz de condensar uma obra densa e complexa sem perder sua essência ou mesmo suas reflexões.
Para quem não conhece, Dom Quixote é um velho espanhol que, de tanto ler romances de cavalaria, enlouqueceu, achando que era um cavaleiro andante, convenceu um vizinho, Sancho Pança a ser seu escudeiro, e saiu pelo mundo em busca de aventuras, que quase sempre terminam em memoráveis surras.
Lobato inicia a narrativa no sítio do pica-pau amarelo. Emília fica curiosa para ver dois volumes pesados no alto da estante e, ao tentar alcançá-los com o uso de uma alavanca, derruba os livrões em cima de Visconde, que fica achatado. Essa é a dica para que Dona Benta leia o imenso livro ilustrado por Gustave Doré. Mas logo percebe que as crianças não pescam nada da narrativa antiquada e resolve recontar as aventuras do cavaleiro andante com suas próprias palavras. A forma narrativa permite que Lobato, através da voz de Dona Benta, faça comentários sobre a obra e até explique alguns termos usados no romance.
Segundo Lobato, “Cervantes escreveu esse livro para fazer troça da cavalaria andante, querendo demonstrar que tais cavaleiros não passavam de uns loucos. Mas como Cervantes fosse um homem de gênio, sua obra saiu um maravilhoso estudo da natureza humana, ficando por isso imortal”. Por outro lado, o protagonista, Dom Quixote, “não é somente o tipo do maníaco, do louco. É o tipo do sonhador, do homem que vê as coisas erradas, ou as que não existem. É também o tipo do homem generoso, leal, honesto, que quer o bem da humanidade, que vinga os fracos e inocentes, e acaba sempre levando na cabeça, porque a humanidade, que é ruim inteirada, não compreende certas generosidades”.   
Lobato consegue, mesmo em poucas páginas na comparação com o romance original, preservar sua complexidade. Dom Quixote é uma mistura de humor e drama e é impossível não se compadecer do pobre protagonista, constantemente enganado por muitos, em sua ingenuidade e loucura e mesmo cenas que parecem cômicas guardam uma alta dramaticidade. É um riso entre lágrimas.
Em tempo: essa minha edição é de 1967 e trazia um atrativo a mais: as belíssimas ilustrações de André Le Blanc, que ilustrou vários livros de Lobato antes de se mudar para os EUA e trabalhar como assistente do quadrinista Will Eisner.

Jornada nas estrelas – Fruto proibido

 


A expulsão do paraíso – essa é a analogia do episódio Fruto proibido, da segunda temporada de Jornada nas estrelas.
Na história, Kirk, Spock e equipe vão investigar um planeta paradisíaco habitado por pesssoas com pouco conhecimento de tecnologia que, descobre-se depois, são governados por um computador na forma de cobra, que é alimentado continuamente por nativos. Mas o computador está puxando a Enterprise para a atmosfera – e se nada for feito, a nave poderá ser destruída.
O episódio é interessante, divertido  (as participações de Tcheckov são simplesmente antológicas ou a frase de Magro quando descobre que os nativos não conhecem o sexo: lá se vai o paraíso!), mas também reúne alguns dos principais defeitos da série clássica, a começar pelos camisas vermelhas, que são mortos um a um pelo computador-deus Vall, enquanto todos os outros sobrevivem.
No final, o episódio funciona bem como uma crítica à religião. Os nativos fazem seus rituais e obedecem cegamente a Vall sem nem mesmo entender o que estão fazendo. E obedecem até mesmo quando este manda que eles matem os terrestres. E, se por um lado, Vall os alimenta e os mantém totalmente saudáveis, a ponto de ninguém morrer, por outro lado, a sociedade não evolui. Nesse sentido, o episódio ecoa outro: o ótimo “deste lado do paraíso”. Mas em deste lado do paraíso a execução foi muito mais acertada, inclusive em sua profundidade filosófica.

A arte exuberante de Rubens

 

Peter Paul Rubens é um dos principais artistas do barroco. Pintou para reis, nobre e igrejas, sempre com uma imagem monumental de exuberante dos acontecimentos. Seus quadros religiosos estão entre os mais famosos do período. Seu ideal de beleza era de mulheres que hoje seriam consideradas gordas. Uma das suas obras mais conhecidas é a série sobre Maria de Médice, Rainha da França. Rubens conseguiu transformar a vida frívola da Rainha em verdadeiras cenas épicas. 





















A Pró

 


Quem acha que Garth Ennis é disruptivo em The Boys deveria ler A pró, história lançada pela Image Comics em 2002, com desenhos de Amanda Conner.

Na história, um alienígena faz uma aposta com um robô de que qualquer ser humano poderia ser transformado em super-herói e, no processo revelar toda a nobreza inerente ao cargo.

A personagem sempre se ferra.


Para isso ele escolhe uma prostituta, daí o nome, que refere tanto a Prostituta quanto a profissional do sexo. A Graphic novel mistura violência gráfica exagerada com humor ácido no melhor estilo Ennis. Na sequência, inicial, a protagonista está fazendo um boquete em um homem num carro quando há uma discordância sobre valores que termina com ela fugindo, sem ter recebido um tostão, em meio a um tiroteio.

Quando chega em casa, encontra a vizinha enlouquecida por ter cuidado do bebê mesmo após a hora combinada e entrega o pimpolho com a frauda suja. O bordão da garota é “eu sempre me ferro”.

A Liga da Honra é uma versão satírica da Liga da Justiça. 


Ao receber poderes ela é acolhida pela Liga da Honra, uma sátira da Liga da Justiça que inclui um velocista vestido com o maiô de Borat e um Super-homem bobão chamado o Santo, além da Dama, versão da Mulher Maravilha nitidamente lésbica (o momento em que, usando todo um discurso empolado para tenta levar Pró para “uma ilha só com mulheres” é um dos melhores momentos da história).

Mas Pró, apesar de ter poderes, parece pouco talhada para o ofício de super-heroína. Suas atitudes como urinar em uma vilã em pleno salão da ONU criam problemas. Além disso, ela começa a misturar as duas vidas, usando seus super-poderes no ofício de prostituta.

Momento constrangedor: A Pró urina na vilã. 


O momento mais marcante da história é quando a protagonista faz sexo oral no Santo, o que acaba quase provocando um acidente aéreo. 

Como se pode ver é uma história debochada que vira de cabeça para baixo o gênero super-herói, brincado com todos os seus princípios. Embora Amana Conner seja apenas ok, aqui seu traço funciona bem.

No Brasil essa história foi publicada pela Devir em 2003. 

Perry Rhodan - Recrutas de Arcon

 

 

No segundo ciclo da série Perry Rhodan, o grande perigo para a humanidade era o computador regente de Arcon. Para se livrar dele, o Administrador do Império Solar resolve empreender um plano arriscado: introduzir-se no exército arconida e aproximar-se o suficiente para desativar o computador. 

São os preparativos para esse plano que Clark Darlton descreve no volume 84. 

Como um volume preparatório, há pouca trama e poucos momentos de ação. 

O livro é todo focado em JeremyToffner, um espião terrano no planeta Zalit, o quarto planeta do sol Voga, distante a pouco mais de três anos luz da sede de império arconida. 



O local é invadido por tropas do computador com o objetivo de recrutar zalitas para as naves de combate. Rhodan pretendo usar isso para se introduzir no exército e assim atacar o robô de dentro. 

Darlton usa um recurso que seria muito comum na série: o planeta futurista em que a população é apaixonada por arenas de gladiadores. O espião terrano, aliás, é um dos principais promotores dessas lutas, o que lhe permite viajar por todo o planeta sem levantar suspeitas.

Embora o plano seja engenhoso, a estratégia de trocar um comandante arconida por um sargento como forma de facilitar a infiltração dos terranos parece pouco verossímil. Por mais que ele fosse disfarçado como tal, pessoas mais próximas facilmente poderiam perceber algo estranho.

Na verdade, o livro inteiro se sustenta apenas na habilitadade narrativa de Clark Darlton. Escrito por alguém menos competente, seria um volume insuportável.

terça-feira, maio 19, 2026

Manto e Adaga

 


A Marvel sempre teve como característica personagens diferentes, que se distinguiam muito da imagem clássica dos super-heróis. Mas nenhum deles eram tão singular quanto Manto e Adaga.
Surgidos em uma história do Homem-aranha, eles ganharam uma minissérie em quatro edições no ano de 1983, publicada aqui na revista Heróis da TV. Foram apenas quatro histórias, mas que chamaram atenção e marcaram os leitores da época.
Vítimas de uma experiência de traficantes, dois jovens ganham poderes opostos: Manto assume as trevas, enquanto Adaga é a luz.
Pode parecer algo simplório, mas o roteirista Bill Mantlo conseguiu dar grande profundidade ao conceito, transformando-os em opostos em tudo, mas complementares como se fossem versões humanas do Yin Yang.
Por viver nas trevas, Manto se alimenta de luz e é a parceira que lhe cede a essa energia, mas isso a afeta, podendo até mesmo matá-la. Esse impasse ético é boa parte do charme das histórias.
A história vai muito além da dicotomia típica das histórias de heróis, em que vilões e heróis são extremamente demarcados: em alguns momentos Manto parece o vilão em sua fome de luz, que o leva a sugar a energia de outras pessoas, matando-as.
Para ilustrar essa história foi chamado Rick Leonardi, um dos mais subestimados desenhistas dos comics americanos. Seu traço era bonito, inovador, dinâmico. E a caracterização dos personagens era perfeita na: Adaga era desenhada num traço limpo, enquanto o traço de Manto era uma massa de sombras. Ajudava muito, claro, a incrível arte-final de Terry Austin, que ajudava a dar leveza para a Adaga e peso para o Manto. 

Perry Rhodan – Os condenados de Isan

 


Em seu início, a série Perry rhodan é toda dominada pelo contexto da guerra fria e pelo medo de uma guerra nuclear – castastrofe que Rhodan impede logo nos primeiros volumes. Mas como seria um mundo devastado por um holocausto atômico? Essa pergunta é respondida no número 53 da série, Os condenados de Isan.

Escrito por Kurt Mahr, este volume apresenta uma inovação: Perry Rhodan e nenhum dos personagens já conhecidos dos leitores aparecem antes que tenha se passado pelo menos um terço da história. Toda a trama é centrada nos sobreviventes, pessoas que se alojaram em bunkers no fundo da terra e agora precisam lidar com o fim da comida.

A capa original alemã. 


A narrativa é focada em Ivsera, uma cientista que descobriu uma maneira de transformar tecido em comida – o que faz com que os sobreviventes do abrigo de Fenomat andem com o mínimo de roupa possível. Mas, além da fome, um outro perigo se impõe: os habitantes do abrigo de Sallon, comandados pelo ganancioso Belal, estão cavando um túnel com o intuito invadir Fenomat.

O objetivo não é só apoderar-se dos recursos, mas também usar os vencidos como alimento. Essa talvez seja uma das mais cruas demonstrações dos terrores da guerra mostradas na série.

Rhodan pousara no planeta depois da aventura no planeta zoológico dos aras e resolve interferir nessa trama política. Com armas muito mais avançada e apoio dos mutantes, essa empreitada parece fácil demais, assim, Kurt Mahr acerta ao descartar Gucky logo no início. Em uma de suas teleportações ele teria ido parar em um local com uma armadilha mecânica e ficara seriamente ferido – o que faz com que ele passe a maior parte do livro fora de ação. Com Gucky, os tiranos seriam facilmente derrotados. Sem ele, o volume guarda uma certa medida de suspense.

É uma aventura interessante, quase um conto, que interfere pouco na trama principal, mas funciona principalmente por sua forte mensagem pacifista.

Demolidor: Terra de perversos

 



No número 87 da revista Almanaque do Capitão América os leitores brasileiros se depararam com uma história estranha para uma revista de super-heróis. Intitulada Terra de perversos, nela não aparecia nenhum herói uniformizado. Era apenas uma história policial muito bem contada. Os editores brasleiros abusaram do suspense e esconderam até o último quadro a verdade: tratava-se de uma história do Demolidor com uma parceria igualmente surpreendente: o roteiro era de Frank Miller e os desenhos eram de ninguém menos que John Buscema.

A história inicia com um forasteiro mistério chegando numa lanchonete de uma pequena cidade: “Cruz quebrada é uma pequena e poluída cidade de Nova Jérsei, situada à sombra de uma refinaria de óleo que, dia e noite, vomita fumaça maculando a região”, diz o texto.

O protagonista da história é um pesonagem misterioso, que não fala uma única palavra durante toda  a trama. 


Lá dentro a lanchonete está sendo assaltada e o assaltante, chamado Castor, resolve dar uma lição no forasteiro, mas este, sem esforço algum, o joga para fora do local. A polícia está do lado de fora, mas, ao invés de prender o ladrão, prefere revistar o forasteiro. O policial dá um ultimato: “Quero ver você longe daqui pela manhã! Pela manhã, está entendendo?”.

O acontecimento revela toda uma rede de corrupção que envolve até mesmo assassinato do antigo xerife, mas tudo isso é revelado aos poucos, em meio a sequências e ação brilhantemente desenhadas por Buscema com texto impactante de Miller, que lembra muito as narrativas noir.

O final antológico. 


Aliás, nada mais noir que o texto final: “Se em algum inverno você se perder nas terras áridas de Nova Jérsei, quando a neve está espessa e suja... e de repente avistar o letreiro do Palácio Olímpico do Poppa, piscando como uma dama da noite, idosa demais para flertar... dê meia volta e siga rumo a outra cidade. Porém, se estiver cansado demais, entre e peça um café. É Katy quem irá servi-lo. Tendo tempo, pergunte a ela sobre Cruz Quebrada. Katy irá lhe falar de antigos ódios e crimes... sobre homens imponentes e de sorriso acolhedor, que trouxeram uma sombra de justiça a este confim de Nova Jérsei. Se você ficar mais, talvez ela comece a falar de fantasmas. Por isso não fique”.

Uma curiosidade a mais sobre essa história tão curiosa é que durante toda a HQ o Demolidor não diz uma única palavra.