domingo, junho 07, 2026
A noite do jogo
DDA - Distúrbio de déficit de atenção
Conto Zen - O tigre e o morango
Certa vez um homem andava pela floresta quando foi perseguido por um tigre faminto. Sem outra opção, ele se agarrou a um arbusto e se pendurou num abismo na tentativa de escapar da fera. Quando olhou para baixo, percebeu que havia um outro tigre lá embaixo.
Ou seja: se a queda não o matasse, o felino o faria.
Mas o arbusto não era forte o bastante e a raiz começou a se desprender do solo. Além disso, dois ratos começam a roer a raíz.
A morte era certa.
Nisso, ele olhou para o lado e um viu morango crescendo na parede do penhasco. Largando uma das mãos, ele pegou o morango e comeu.
Foi o morango mais delicioso que ele já comera em toda a sua vida.
Esse é uma das histórias mais famosas do zen-budismo. Ela reflete sobre assuntos essenciais: o homem pendurado no penhasco, à beira da morte representa todos nós, que em algum momento iremos morrer. Afinal, ninguém é imortal, a morte é inevitável.
Mas sua atitude é extremamente sábia. Ele percebe que a única forma de lidar com isso é viver o momento. Comer o morango representa isso, aproveitar o aqui e agora ao invés de nos preocuparmos com o passado ou o futuro. Isso é chamado no budismo de atenção plena.
Por outro lado, a certeza da morte, da transitoriedade da vida, faz com que cada momento seja especial. Talvez, se saboreasse a fruta em qualquer outra situação, o homem não se espantasse com seu sabor, mas ali, prestes a despencar no abismo, o sabor se torna inigualável. Como dizia Raul Seixas: “Morte morte morte que talvez seja o segredo dessa vida”.
Fundo do baú - Os herculóides
Capitão América de John Byrne
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| Roger Stern exagerava nos diálogos. |
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| O Capitão chega a concorrer à presidência. |
Quarteto Fantástico: O Plano Mestre do Doutor Destino
Uma das características marcantes da fase clássica do Quarteto
Fantástico é que as histórias quase sempre começavam com um "ato
zero": uma sequência sem relação direta com a trama principal que,
desconfio, servia mais para Jack Kirby desenhar o que bem entendesse. Um
exemplo perfeito disso está na edição número 23 da série.
A história abre com nada menos que um dinossauro invadindo
a sede do Quarteto — ou, pelo menos, uma "versão kirbyana" de um
dinossauro. Isso gera uma sequência de ação frenética, incluindo uma splash
page impressionante com o animal em primeiro plano enquanto os heróis
tentam dominá-lo. Após o Tocha Humana e o Coisa quase destruírem o edifício,
Reed Richards consegue paralisar a criatura com a ajuda de Sue Storm.
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| Na tentativa de prender o dinossauro, o Coisa e o Tocha quase destroem o apartamento. |
O incidente, porém, gera uma discussão acalorada sobre o
autoritarismo do líder do grupo. O que se segue é uma longa e hilária sequência
em que o Tocha, o Coisa e a Mulher Invisível tentam eleger um novo líder: como
a votação termina em empate, a decisão é levada para uma disputa física
generalizada.
Tudo isso serve apenas como introdução para a trama
verdadeira: o Doutor Destino liberta três criminosos da cadeia com o
objetivo de transformá-los em vilões capazes de enfrentar o Quarteto. Para
isso, ele amplia suas habilidades naturais: um ganha superforça, outro recebe
uma audição superdesenvolvida e o terceiro, resistência extrema ao fogo.
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| A discussão sobre quem será o novo líder quase destrói o apartamento... de novo. |
No desfecho, quem salva o dia é Sue Storm e seus campos de
força — provavelmente um esforço consciente de Stan Lee para dar mais
relevância e protagonismo à personagem na época.
Alguns detalhes chamam a atenção na obra: a "liberdade
criativa" de Lee com fatos científicos (como colocar uma onda solar dentro
de uma sala) e a facilidade com que os autores descartavam vilões e conceitos
naquela era.
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| Jack Kirby arranjou uma desculpa para desenhar um carro futurista. |
Um aspecto negativo é
arte-final de George Bell, que parece jogada e sem detalhes, muitas
vezes comprometendo o traço de Kirby.
sábado, junho 06, 2026
Piracy - a revista que inspirou Watchmen
Surge o Quarteto Fantástico!
O lançamento do primeiro número do Quarteto Fanstástico, em novembro de 1961, mudou para sempre o mercado de quadrinhos norte-americanos. De uma editora decadente, que se resumia a Stan Lee e uma secretária, a Marvel (que na época não se chamava Marvel), começou uma caminhada que a transformaria na grande estrela do mercado, superando a gigante DC ainda na década de 60.
A leitura desse primeiro gibi (disponível no número dois da Coleção Clássicos Marvel), permite observar alguns segredos desse sucesso, a começar pela impressionante capa de Jack Kirby com o quarteto envolvido numa luta contra um monstro que surge das profundezas. A capa inteira é um exemplo perfeito de composição em que tudo funciona harmonicamente, com os elementos muito bem distribuídos, incluindo os balões de diálogos. “Eu não consigo ficar invisível rápido o bastante! Como vamos deter essa criatura, Tocha?”, pergunta Sue, enquanto seu irmão responde: “Espere e verá, irmã! O Quarteto Fantástico só começou a lutar!”.
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| Os autores criam mistério para instigar a imaginação do leitor. |
Aqui temos várias inovações. Entre elas, o sentido de família, que iria ser a principal característica do título em todo esse tempo. Ao contrários de outros grupos de heróis, que se encontram aleatoriamente, os quatro vivem juntos, são uma família e enfrentam todos os problemas relacionados a isso, o que era uma tremenda novidade na época. Dá para imaginar a sensação que essa capa causou entre os garotos do início da década de 60.
O miolo também não deixa por menos. Os personagens são apresentados de forma a instigar a curiosidade do leitor. Reed atira um sinalizador, chamando o restante da família para o edifício Baxter, mas não vemos seu rosto. Então acompanhamos cada membro do quarteto vendo o sinal e respondendo ao chamado. Eles são apresentados de forma a instigar ainda mais o leitor, muitas vezes com toque de humor. Sue, por exemplo, fica invisível para pegar um taxi invisível, deixando o taxista aturdido.
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| A demonstração dos poderes dos personagens é bem-humorada |
Só quando atendem o chamado é que a narrativa paralisa e nos é contada a origem do grupo. E aqui mais uma inovação: a história é dividida em capítulos, sempre iniciados com uma imagem de impacto (posteriormente Jack Kirby usaria splash pages).
A razão pela qual foram chamados: monstros estão surgindo das profundezas e destruindo usinas nucleares, um enredo que remetia diretamente aos gibis de monstros da Atlas na década de 50, versões suaves dos quadrinhos de terror.
Então, o Quarteto não só era uma família, era também um título que unia super-heróis, terror e ficção científica!
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| Os monstros gigantes eram uma tradição nas histórias da Marvel. |
O vilão, o Toupeira, é apresentado como alguém rejeitado pela sociedade em razão de sua feiúra, que indo para o centro da terra se torna cego. Já ali observamos algo que caracterizaria os vilões da Marvel: nenhum deles era mal por ser. Todos eles tinham uma motivação, uma razão para suas ações.
Tirando um outro deslize (à certa altura o Sr. Fantástico tira de ação, jogado no mar, um monstro que tem asas!), é uma edição deliciosa de ler e totalmente inovadora.
O internato – Las cumbres
A série espanhola O internato – Las cumbres, disponibilizada no Brasial pela Amazon vídeo, é uma grata surpresa. O que parecia uma simples série juvenil sobre adolescentes presos em um internato linha dura vivendo os dramas da adolescência se revela uma trama complexa, amedrontadora e cheia de camadas.
A história se passa num internato isolado no alto de uma montanha, na Espanha. O local é repleto de lendas e histórias sobre bruxos. A trama é focada em quatro estudantes que resolvem escapar do local. No processo, três são recapturados, mas um desaparece na floresta, levado por um homem vestido de preto com uma máscara que lembra o bico de um corvo.
Sua namorada e seu melhor amigo tentam, a partir daí, descobrir o que aconteceu com ele. No processo, descobrem que o local onde foi construído o internato era o ponto de culto de um grupo satanista. Ao mesmo tempo, um dos professores descobre que os estudantes estão sendo usados como cobaias no uso de um medicamento. Os dois fatos estão relacionados ou é apenas uma coincidência?
Soma-se aí as relações entre os próprios estudantes, que incluem traições, vinganças, amores e sexo (sim, há muitas cenas quentes).
O ritmo é rápido, com as várias tramas se entrelançado e fatos se sucedendo rapidamente, o que torna a narrativa viciante como nos melhores seriados.
Tropa Alfa – A noite da besta
A história mais grandiosa da Tropa Alfa é o confronto com as bestas, seres malignos ancestrais. Essa trama inicia no número 23 da revista. Esse número, aliás, tem uma das melhores capas do título, com Sasquatch enfrentando uma versão de si mesmo, mas totalmente branca. É o tipo de capa que estimula a imaginação do leitor e o faz perguntar: o que está acontecendo aqui?
Na história, durante um confronto com um homem vestindo uma armadura, Sasquatch é ferido. Esse vilão com armadura é o que eu chamo de personagem bucha de canhão. Ele não tem motivação, história de vida, nada, é apenas alguém que vai provocar um ferimento no Sasquatch e desencadear a trama.
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| Um vilão bucha de canhão: sua única função é provocar o ferimento e, Sasquatch. |
Com o ferimento, o personagem é tomado por uma fúria incontrolável, é quando se descobre a verdade a respeito de sua origem. Ao tentar duplicar sob condições controladas o acidente que criou o Hulk, Walter Langkowski na verdade libertou um antigo demônio chamado Tanaraq, permitindo que o cientista o convocasse e controlasse. Assim, Sasquatch era nada mais nada menos que uma fera de outra dimensão sob controle. Mas quando o personagem é ferido, a besta toma o poder do corpo, como acontece nesse número.
A edição inclui uma batalha mortal entre a Tropa Alfa e essa versão maligna de Sasquatch e inclui uma sequência magistral em que Pássaro da Neve se transforma em um Sasquatch branco para combater a besta – daí a imagem de impacto da capa.
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| O herói é dominado pela besta e se torna uma ameaça. |
No final, Pássaro da Neve vence, mas a um grande custo: matando o amigo.
Entretanto, seu espírito ainda vive e pode ser resgatado em um local assustador chamado O reino das bestas.
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| Pássaro da Neve se transforma em uma versão branca do Sasquatch. |
No número 24, em uma edição com o dobro de páginas, os personagens viajam para outra dimensão, em uma trama realmente impressionante.
Um detalhe dessa história é que aqui Aurora aparece vestindo seu uniforme definitivo: um maiô amarelo e branco com um cachocol azul. Apesar do visual bonito, o cachecol é provavelmente o acessório mais idiota que uma super-heróina poderia usar, pois facilmente poderia se transformar em uma arma contra ela mesma. Bastaria alguém agarrar e puxar para estrangular... e a adeus Aurora!
E de espaço, de Ray Bradbury
Há algo de irônico em Ray Bradbury: embora seja um dos mais famosos escritores de ficção científica de todos os tempos, sua obra não é uma ode ao futuro e ao desenvolvimento da tecnologia. Ao contrário, seus livros ecoam diretamente o saudosismo de uma época mais simples.
E de espaço, antologia publicada no Brasil pela editora Hemos em 1978 é um exemplo disso.
O livro reúne 16 contos de Bradbury e demonstram bem o seu estilo de poético tanto nos temas quanto na narrativa.
As histórias vão do condutor de bonde que faz uma última viagem com os meninos antes de seu veículo ser substituído pelos ônibus até o homem que leva sua família para Marte fugindo da guerra nuclear na Terra (tema alias, presente em mais de um conto).
Mas talvez um dos melhores exemplos do estilo do autor seja “Pilar de fogo”.
A história se passa num futuro longíncuo em que as pessoas mortas não são mais enterradas, mas cremadas. E todos os cemitérios são esvaziados e os corpos queimados numa medida de higienização. O protagonista é o último cadáver ainda intacto, que se levanta e passa a andar entre os humanos.
A poesia já aparece nos primeiros parágrafos: “Ele andava sobre a terra, tinha saído da terra. Mas estava morto. Não podia respirar. Era impossível. Andava sobre a terra, tinha saído da terra. Mas estava morto. (...) Queria ter lágrimas, mas não podia fazê-las vir, tampouco. Tudo o que sabia é que estava de pé, estava morto, e não deveria estar andando!”.
Nesse mundo antisséptico, tudo que pudesse assustar ou incomodar as pessoas havia sido eliminado. Livro de escritores como Edgar Alan Poe e Lovecraft tinham sido queimados.
Mais do que uma história de zumbi, Bradbury usa o tema para tratar de temas que lhe são caros: o medo de uma sociedade anti-séptica, em que tudo capaz de incomodar deveria ser eliminado e sua visão de que isso seria uma distopia.
O mesmo tema aparece em “Fuga do tempo”, em que um professor leva seus alunos, através de uma máquina do tempo, para observar os costumes bárbaros do passado: “O Dia das Bruxas, o ápice do horror. Esta foi a era da superstição. Mais tarde baniram os irmãos Grimm, fantasmas, esqueletos, e toda essa baboseira. Vocês, crianças, graças a Deus, foram criadas em um mundo anti-séptico, sem sombras e sem fantasmas”.
“O Pedestre” é provavelmente o o conto mais importante da antologia, por ser a história que deu origem ao mais famoso livro de Bradbury, Fahreit 451. Na história, um homem é o último a caminhar pela cidade. Todos os outros passam o dia andando em carros e as noites em casa, assistindo televisão: “Pentrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de novembro, pousar os pés naquela sólida calçada de concreto, pisar nas fendas cheias de mato, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer”.
No final, Mead é abordado por um carro de polícia e preso por seu comportamento anti-social. Resumido nesse conto está toda a filosofia por trás da distopia do autor: um mundo anti-séptico, em que pessoas são hipnotizadas pela tela de TV e comportamentos considerados anti-sociais, como caminhar pelas ruas da cidade é considerado um crime.
Mas, além de um poeta da prosa e um filósofo, Bradbury era tamém um autor que sabia criar boas tramas.
“A mulher gritando” é um exemplo disso.
Na história uma garotinha ouve uma mulher gritando num terreno baldio e imagina que tenha sido enterrada ali. Corre para avisar o pai e mãe, mas estes não acreditam nela e acham que se trata apenas de uma brincadeira. “Está bem”, diz o pai. “Vamos desenterra a mulher depois do almoço” e segue-se uma narrativa extremamente tensa, em que o pai e mãe falam de futulidades enquanto a menina sente que a cada minuto pode ser a diferença entre a vida e a morte da mulher enterrada.
O conto é um primor não só pela trama bem bolada (com um gancho jogado no meio de uma conversa fútil que será fundamental no fecho da história), mas também pela abordagem. Bradbury escreve o conto como se fosse uma redação escrita pela própria menina: “Meu nome é Margaret Leary e tenho dez anos de idade, e estou no quinto ano da escola pública. Não tenho irmãos nem irmãs, mas tenho um bom pai e mãe, só que eles não me dão muita atenção. E de qualquer maneira, nunca pensamos que teríamos algo a ver com a mulher assassinada”.
Filósofo, poeta, criador de narrativas bem elaboradas e inteligentes, Bradbury é daquelas leituras essenciais para qualquer apreciador de ficção científica, como demonstra o livro E de espaço.
A arte incrível de Geraldo Borges
Nascido em Fortaleza, Geraldo Borges trabalha com quadrinhos desde 1997, quando desenhou a Revista Capitão Rapadura. Representado pelo Chiaroscuro Studios, maior agência brasileira de artistas para o mercado americano, tem feito trabalhos para a Marvel (Nova), DC Comics (Liga da Justiça, Mulher-Maravilha, Batman, Lanterna Verde, Legião dos Super-heróis, Asa Noturna, Superman, Aquaman), Dark Horse (Ghost) e Dynamite (Pathfinder).






































