domingo, agosto 09, 2026

X-men – Wolverine à solta

 


Quando tornou-se co-roteirista dos X-men, John  Byrne começou a dar protagonismo ao Wolverine. A razão é que o desenhista queria chamar atenção para um herói canadense como ele. Mas esse processo logo transformaria o baixinho em um dos personagens mais populares da Marvel.

Em nenhum outro momento o protagonismo do herói foi tão relevante quanto em The Uncanny X-men 133. Na história anterior, todos os X-men tinha sido facilmente derrotados e aprisionados pelo círculo interno do Clube do Inferno, com excessão de Wolverine, que foi jogado no esgoto.



A revista começa exatamente com os capangas do Clube no subsolo do local, procurando pelo Carcaju enquanto ele se equilibra acima deles, no teto. Sem dúvida, uma das cenas mais célebres dos X-men de todos os tempos, assim como toda a sequência seguinte.

Wolverine salta do teto e enfrenta os capangas. No final sobra apenas um. Wolverine se mostra em toda a sua essência, numa perfeita demonstração de como o texto de Claremont encaixava perfeitamente nas imagens criadas por Byrne: “Sei o que está pensando, xará. Ele tá ferido, a cinco metros de distância e meu fuzil está carregado. A pergunta é: eu consigo matar o Wolverine antes que dele me alcançar e me fatiar como um sushi com aquelas garras?”. No final, o homem, apavorado, joga sua arma no chão e se entrega.



Só essa sequencia já valeria a história, mas há duas outras, igualmente antológicas.

Na primeira, a Rainha Negra trata Ororo como escrava, revelando como o lado sombrio se apossara dela.



Na segunda, Ciclope tenta entrar em contato com Jean usando o elo mental que existia entre eles. Byrne desenha a sequência sem cenários, com um fundo branco. Em contraste com as outras cenas, repletas de cenários, fica claro que aquela sequência se desenrola num espaço mental. E é nesse ambiente que Cíclope é derrotado e morto pelo Mestre Mental em um duelo de espadas.

Coração de ferro

 


Há uma quantidade enorme de filmes sobre a II Guerra Mundial, com as mais diversas abordagens. Mas um tema pouco abordado são os tanques. Eles foram essenciais na guerra, mas na maioria das películas aparecem pilotados por nazistas, como em Resgate do Soldado Ryan.

Assim, Coração de Ferro, filme de David Ayer disponibilizado no Brasil pela Netflix se destaca por ter como protagonistas a tripulação de um tanque norte-americano apelidado de Fury.

A história acompanha o sargento linha dura Don "Wardaddy" Collier (Brad Pitt) e sua equipe realizando operações dentro da Alemanha Nazista na fase final da guerra, quando os aliados estavam encurralando as tropas alemães dentro de seu próprio território. É também um período em que os alemães resisitiram obstinadamente, recrutando até mesmo crianças (em uma das sequências, jovens que se recusaram a lutar são enforcados pelos nazistas e pendurados com placas de traidores).

À certa altura, o tanque é avariado e a equipe precisa, sozinha, impedir o avanço de todo um regimento da SS numa verdadeira missão suicida.

A película se destaca pela preocupação com os detalhes históricos, inclusive com uso de tanques que são, de fato remanescentes da II Guerra. Os atores também foram treinados em regime militar, passando noites acordados, molhados e com sono.

Além disso, é interessante o tom realista, com insinuações até mesmo de estupros por parte dos soldados e buylling por parte dos veteranos com o novato Norman "Machine" Ellison.

Mas talvez o que mais chame a atenção seja a atuação de Brad Pitt. Impressionante como ele evoluiu como ator desde seus primeiros trabalhos e aqui ele consegue um perfeito equilíbrio entre o linha-dura grosseirão e até mesmo abusivo e o líder que todos seguem.

O resultado disso é um filme de ação eletrizante que não fica nada a dever a clássicos do gênero.  

Histórias da dupla Gian-Bené: passando vergonha no jornal

 


De vez em quando, no auge da produção de quadrinhos da dupla Gian-Bené, alguém nos procurava para fazer matérias de jornais. Era sempre uma roubada. A maioria dos jornalistas não sabia nada sobre HQs além da Turma da Mônica, mas uma das jornalistas que nos entrevistou, na casa do Bené na cidade nova, ganhou todos os recordes.
A moça não conhecia nada de nosso trabalho e sua primeira pergunta foi:
- Então vocês fazem bonequinhos?
- Não, nós não fazemos bonequinhos.
- Não estou entendendo nada. Na pauta diz que vocês fazem quadrinhos!
Por mais que tentássemos explicar, ela não conseguia entender que existiam quadrinhos que não era para crianças. E ela ficava voltando para a primeira pergunta:
- Então vocês fazem bonequinhos?
Se o texto não era dos melhores, a fotografia também não ajudava.  Bené, usava uma camiseta extremamente apertada, especialmente se considerarmos que sempre foi musculoso e eu, magrelo, usava uma camisa super-folgada. Dava a impressão de que tínhamos trocado de roupa um com o outro na hora da foto, ou que o defunto era menor, ou maior, de acordo com o caso. Ao menos aparecíamos sorrindo e folheando nossos quadrinhos.
Em outra matéria fomos entrevistados na própria sede do jornal. Na época, o conceito de foto para caderno de cultura era fotografar os entrevistados com o olhar mais assustado possível – exatamente como se fazia nas matérias policiais. Éramos a perfeita ilustração de dois malacos fugitivos finalmente aprisionados pela polícia.

Quarteto Fantástico contra o Pensador Louco

 


Hoje em dia é muito óbvio que boa parte das histórias do Quarteto Fantástico eram baseadas em imagens. Exemplo disso pode ser vista no número 15. É possível imaginar que Jack Kirby tenha feito uma ilustração copiando a estátua O pensador, de Rodin, e Stan Lee tenha bolado uma história a partir dessa imagem. A referência é tão óbvia que o personagem, ao longo da história reproduz diversas vezes a pose da estátua de Rodin, com o queixo apoiado na mão.

Na trama, surge em Nova York um vilão cuja inteligência, aliada a um super-computador, faz com que ele consiga prever eventos futuros. “Posso prever tudo que irá acontecer até a última fração de segundo!”, se vangloria ele.

O  vilão nitidamente foi baseado na estátua O pensador, de Rodin. 


Não sei se Stan Lee conhecia o célebre cientista francês, mas nitidamente o vilão reproduz a ideia por trás do Demônio de Laplace. Laplace acreditava que tudo era previsível, determinado. Sendo assim, se uma determinada entidade conhecesse a velocidade e posição de todas as partículas do universo e fosse capaz de realizar todos os cálculos necessários, poderia ter acesso a tudo que já aconteceu, está acontecendo e vai acontecer.

O pensador Louco é exatamente isso. Ele usa os fatos e sua previsibilidade para tirar os membros do quarteto de Nova York e, assim, invadir o prédio do grupo e se apossar de todas as suas maravilhas tecnológicas.

O Pensador Louco consegue prever tudo que vai acontecer. 


Seu plano perfeito, não fosse por um defeito. Ele não contou com a único coisa imponderável, improvisivel, segundo Stan Lee: o ser humano.

Hoje em dia a Teoria do caos demonstrou que há muitos outros fenômenos que são imprevisíveis, mas, considerando a época em que foi escrita, ela era um grande avanço ao que se pensava sobre a natureza e sobre o mundo.

Ele usa essa habilidade para conquistar o edifício Baxter. 


Stan Lee e Jack Kirby poderiam ter apenas o objetivo de fazer um gibi para entreter a garotada, mas muitas vezes, no processo, acabavam acertando em questões filosóficas e científias intrigantes.  

Mano Juan, de Marcos Rey

 

Mano Juan é um lançamento da Global, editora que está publicando as obras completas de Marcos Rey. O livro, escrito na década de 1970 e lançado após a morte do autor, conta a história de um guerrilheiro ferido que chega a são Paulo e, sem ter a quem recorrer, procura um jornalista que escrevera diversos artigos sobre ele. Mas é a época da ditadura militar e o repórter teme se comprometer. Além disso, Dalila, uma atriz de pornochanchadas pela qual se apaixonara, lhe prometera para aquele dia uma noite de amor em troca da publicação de suas fotos no jornal. 
Marcos Rey é um dos grandes roteiristas de cinema do Brasil, tendo escrito diversas pornochanchadas e novelas (experiência que ele conta nos livros O roteirista profissional: televisão e cinema e Esta noite ou nunca. Esse olhar cinematográfico permeia a maior parte de sua obra, inclusive a juvenil, como O Mistério do Cinco Estrelas e O Rapto do Garoto de Ouro, mas é ainda mais visível em Mano Juan. O capítulo de abertura do livro é uma boa amostra desse tino visual: construído emtakes, mostra a chegada de um guerrilheiro a São Paulo e a balbúrdia da rodoviária num feriado prolongado:

"Como era sexta-feira da Paixão parte da população da cidade batia asas. São Paulo, parcialmente deserta, transformava-se numa amplo parque ideal ao adestramento de motoristas de carta nova. (...) O número de mulheres e crianças, superior ao de homens, contribuía para intensificar a irritante sonorização do ambiente, apenas dominada pela voz de uma locutora que anunciava a partida dos ônibus numa robotizada emissão vocal (...) O tumulto maior e mais angustiante concentrava-se nas escadas, a de degraus e a rolante, onde acontecia um massacre de proporções razoáveis. Inúmeros balcões e guichês de transportadoras informavam por escrito: 'Não há mais passagens' (...) Uma mulher grávida, segurando uma criança em cada mão, parecia ter perdido o marido e chorava, um grupo de cabeludos ameaçava destruir um dos balcões de passagens, um estrangeirão, loiro, tentava fazer-se entender".

A história toda parece ter sido escrita como um roteiro de cinema, inclusive com flash backs e e referências diretas a filmes em trechos como: "Batista diante daquela bem-rodada cena do cinema nacional, ficou cabreiro e começou a lançar olhares de pesquisa ao redor", "os seios, que só vira em filmes pornô, saltaram como molas, pagando na boca do caixa o trabalho das fotografias". 

Marcos Rey constrói a trama como um thriller de humor com personagens marcantes: o guerrilheiro saudoso da infância, o jornalista que o tempo todo divide o pensamento entre o medo de ser preso e a possibilidade de conseguir, finalmente, levar a atriz para a cama; a atriz de pornochanchadas que se deslumbra com a possibilidade de fama, mas se apaixona pelo guerrilheiro; o líder sindical que é respeitado pelos trabalhadores, mas em casa é tiranizado pela mulher... O autor apresenta uma verdadeira fauna de tipos que vão desfilando diante do leitor num verdadeiro plano sequência que vai das 19h10 da sexta às 4h05 da madrugada de sábado. 

O livro tem gosto da década de 1970 em que a tensão provocada pela ditadura militar se misturava à revolução sexual, à moda hippie de vestir e à profusão de gírias. Expressões como "cana brava", "manjo seu truque, malandro", "a velha teve outro balacobaco" ajudam a dar o clima do momento histórico.

Mano Juan foi escrito em 1978, mas permaneceu inédito até 2005. Em 2003, quando a Global negociou com a viúva Palma Donato a publicação de toda a obra de Rey, ficou acertado que, além dos títulos já publicados, a editora teria prioridade sobre esse inédito. Cumprindo o acordo, a viúva entregou à editora os originais datilografados. 

A Global fez um verdadeiro trabalho de fã, com uma edição belíssima, que segue o padrão das outras obras da coleção Marcos Rey, uma sugestiva capa Victor Burton, com imagens que simbolizam bem a trama, como uma loira, um revólver, uma garrafa de uísque e um botton de Che Guevara. Além disso, incluiu uma apresentação de Ignácio de Loyola Brandão, que acertadamente escreve: "Ele (Marcos Rey) foi um homem desprezado pela crítica, mas lentamente começa a ser reavaliado, revisado e sua obra reciclada. Era um narrador sutil e fino, e a prova está em cada página deste livro que inclusive é permeado pela mais intensa ironia, pelo sarcasmo. Quem nunca leu Marcos Rey pode começar por este Mano Juan". Bom conselho. 

Fundo do baú - Smurfs

 


Os Smurfs são uma criação do quadrinista francês Peyo. A ideia surgiu durante um jantar com o amigo e também quadrinista André Franquin. Peyo que já tinha bebido um pouco de vinho, queria pedir sal, mas o que acabou saindo foi Schtroump. O amigo respondeu: "Bem, aqui está seu schtroumpf e quando acabar de schtroumpfar, schtroumpfe de volta".

Peyo gostou da brincadeira e resolveu aproveitar na série sobre a Idade Média que fazia na época. Assim, ele introduziu um grupo de duendes azuis chamados Schtroumpfs que falavam de um modo estranho. Esses personagens que deveriam aparecer em uma única história fizeram tanto sucesso que tomaram conta da série.

Quando um produtor comprou os direitos dos para os EUA, o nome foi trocado por algo mais fácil de ser pronunciado: os Smurfs. Em 1981 os personagens já faziam tanto sucesso mundo afora que foi criado um desenho animado, uma produção da Hanna-Barbera, que se transformou numa febre. Foram 256 episódios, fora os especiais. Mais recentemente, os personagens também ganharam filmes com animação em 3D. 

A ceia dos acusados

 



Dashiell Hammett foi o criador do estilo policial noir. Ele foi detetive da famosa agência Pinkerton e ficava encucado com a forma pouco realista como as histórias policiais eram narradas, com detetives que resolviam tudo usando apenas a lógica. 
Ao resolver colocar no papel sua prática, acabou colocando também sua visão de mundo em que todos pareciam ter um segredo sórdido a esconder. Também foi o responsável por criar o perfil do detetive cínico, as mulheres fatais e a maioria da características do cinema noir.
Um bom exemplo do estilo Hammett é A ceia dos acusados, de 1934, no qual um ex-detetive se vê envolvido com um caso de assassinato. A secretária de um inventor é morto e este o contrata (através de um advogado) para ajudar a descobrir o assassino. Ocorre que o inventor é o principal suspeito e, como um fantasma, passa o livro todo sem que nem mesmo a polícia seja capaz de achá-lo.
Hammett é habilidoso para nos dar pistas o tempo todo (o próprio título original, O homem magro, é uma grande pistas), mas nós não prestamos atenção. Na verdade, em certo ponto o livro começa a parece óbvio demais. Tudo vai em determinado caminho... até a revelação final, que é absolutamente inesperada.
Um destaque vai para os personagens, a maioria deles totalmente corruptos e parecem estar mentindo o tempo todo. Mimi, por exemplo, é o paradigma do noir: ela mente e ao ser descoberta, inventa outra mentira, ao ver que essa segunda mentira foi descoberta, mente de novo, a ponto de não se saber quando ela diz a verdade.
Eu relutei muito tempo a ler esse livro por uma razão estilística: a tradução é de Monteiro Lobato, que tem um estilo bem diverso do de Hammett e tem fama de impor seu estilo aos autores traduzidos. Ocorre que A ceia dos acusados é um livro baseado em diálogos (ótimos, por sinal) e nisso a tradução de Lobato interfere pouco. Provavelmente o ponto negativo da tradução foi no título, que tem pouco a ver com o conteúdo.
Em tempo: o livro virou filme no mesmo ano em que foi lançado, só para dar uma ideia do impacto de Hammett sobre Hollywood. Confesso que não assisti a essa versão cinematográfica.

A liberdade guiando o povo

 


Uma das pinturas mais famosas – e mais homenageadas – de todos os tempos, A liberdade guiando o povo é a obra máxima de Eugène Delacroix. Ao contrário do que muitos imaginam, o quadro não faz referência à revolução francesa, mas à revolta de 1830 que uniu o povo contra o rei Carlos X, que decidira acabar com o governo constitucional.
Delacroix coloca como líder da revolta Marianne, a deusa da razão e da liberdade, símbolo da revolução francesa. Ela segura em uma das mãos a bandeira da revolução francesa, cujas cores simbolizam a liberdade, igualdade a fraternidade. Com a outra mão, segura uma baioneta. Ao seu lado, um garoto segura duas pistolas e, aos pés deles, os inimigos abatidos. O pintor se colocou no quadro, na figura do homem com cartola à esquerda de Marianne.
O quadro se tornou a maior uma representação universal da luta contra a opressão. Foi uma emoção enorme encontrar esse quadro gigantesco (em todos os sentidos) no Museu do Louvre. 

A Balsa da Medusa

 


A Balsa da Medusa, de Théodore Géricault, pintura de 1818,  é considerada por muitos como o marco inicial do romantismo nas artes plásticas. Ela retrata um fato real: o naufrágio da barcaça Medusa. O barco, que levava colonos para a África, afundara graças à inabilidade do capitão, que conseguira o cargo graças a indicações políticas.
Embora a Medusa transportasse 400 pessoas, incluindo 160 tripulantes, os barcos só tinham espaço para cerca de 250 pessoas. Os outros 146 homens e uma mulher, amontoaram-se numa jangada feita às pressas. Tinham para comer apenas um saco de biscoitos. Para beber, dois barris de água (que se perderam no mar depois de uma briga) seis barris de vinho. Foram 13 dias à deriva até serem encontrados por acaso por um navio francês que passava pela região. Para sobreviver, tiveram que recorrer até mesmo ao canibalismo. O quadro mostra o momento em que os sobreviventes avistam o barco que os resgataria.
A história na época gerou grande comoção na opinião pública francesa. Gericault pintou o tema com grande emoção e, embora retratasse pessoas normais, a imagem é épica (reforçada pela escolha de colocar a cena no meio de uma tempestade), duas das características do romatismo nas artes, além do tema social. Uma curiosidade: Delacroix, que viria a ser o grande nome do romantismo era amigo de Géricault e pousou para o amigo (é a figura caída em primeiro plano, com o braço estendido).

Supremo – O Segredo do Homem-Supremium

 


Na série Supremo, Alan Moore uniu saudosismo a técnicas narrativas avançadas e até a teorias científicas de vanguarda. É o que vemos, por exemplo, no número 45 da publicação.

Na história, Supremo é convencido a levar o roteirista Billy Friday para a sua Cidadela nos Céus. Enquanto mostra a fortaleza para o escritor, o herói narra um conto sobre a substância Supremium. É nesse ponto que a narrativa, até então ilustrada pelo paraense Joe Bennett, passa a ser desenhada por Rick Veitch, que emula os traços da Era de Prata dos quadrinhos, remetendo ao estilo de artistas clássicos como Curt Swan e Wayne Boring.

Sob influência do Homem-Supremium, o herói se transforma num boneco de vetríloquo... 


Esse conto inserido na trama é pura diversão nonsense, no melhor estilo das histórias do Superman da década de 1950. Um vilão composto pelo meteoro Supremium invade a cidade de Littlehaven e começa a provocar transformações no herói. Supremo converte-se num boneco de ventríloquo, num ser de fumaça e, na melhor das mutações, no "Supremo da Arte Moderna". "Misericordioso Mondrian! No que eu me transformei?", pergunta ele, enquanto a imagem o retrata numa perspectiva irreal, de perfil, mas com os dois olhos visíveis — uma clara referência ao cubismo.

O vilão parece invencível, mas o conflito é solucionado quando ele se funde com um meteorito e sua massa fica tão densa que ele colapsa em um buraco negro — um desfecho que, apesar de aparentemente bizarro para uma HQ "retrô", encaixa-se perfeitamente nas teorias de físicos como Stephen Hawking.

... e numa pintura moderna. 


Se isso já não fosse suficientemente bom, a história-moldura, com o Supremo do presente, é o "puro suco" da mente genial de Alan Moore.

Billy Friday — personagem criado por Moore para parodiar seu desafeto Grant Morrison — toca numa pedra de Supremium e se transforma. Joe Bennett o desenha como uma massa caótica de corpos e pernas. "Ele parece estar seguindo um padrão de complexidade fractal crescente, senhor", explica um dos robôs. "Teoricamente, não há limite para o crescimento dele." Os fractais são formas geométricas de complexidade infinita, que representam fenômenos caóticos, em que cada parte reflete o todo (autossimilaridade). Quanto mais perto olhamos, mais complexidade e informação se revelam.

A radiação transforma o rotierista Billy Friday numa estrutura fractal. 


Alan Moore usa esse conceito da Teoria do Caos como base para o conflito, criando uma situação que beira o cômico e o absurdo: o roteirista deslumbrado acha que virou um super-herói ("Com uma história como essa, as vendas de Billy Friday vão arrebentar a boca do balão!"), quando, na verdade, sua expansão infinita poderia destruir o mundo.

O ponto negativo dessa parte reside na arte. Joe Bennett era obrigado a seguir o estilo imposto pelo estúdio de Rob Liefeld (a "Image Comics" dos anos 90), mas, mesmo assim, conseguia manter o nível de qualidade. No entanto, a arte-final de Norm Rapmund simplificava ao máximo seu traço, fazendo com que o desenho perdesse força e detalhamento.

sábado, agosto 08, 2026

Capitão América – Se houver amanhã

 


Na trama criada por JM DeMatteis e Mike Zeck para o encontro do Capitão América com Deathlok, no ano de 1986, uma organização criminosa lançara um plano de extermínio de super-heróis. Esses foram enviados para dimensões separadas, onde acabaram sendo mortos. Como resultado, a Terra se tornou uma distopia.

No número 289 da revista Capitain America, o sentinela da liberdade volta para 1986 para tentar impedir que isso aconteça.

O Capitão precisa impedir um plano para matar todos os super-heróis. 


O plano já está em execução, então ele não pode pedir ou contar com o auxílio de nenhum grupo de heróis. Nessa época, o Capitão era um herói fodão, que sozinho conseguia salvar o mundo.

A sequência mais interessante é quando entra na sede da organização e precisa destruir gerador que transportará todos os heróis para as dimensões paralelas. O meio de defesa são raios psíquicos, que cavam as profundezas do inconsciente e projetam horrores aos quais nenhuma mente resiste.

Mike Zeck faz toda uma sequência em um único quadro. 


A sequência era JM DeMatteis exercitando a profundidade psicológica que o tornaria célebre anos depois com Mooshadow e A útlima caçada de Kraven.

Por outro, lado, Zeck se mostra extremamente competente e criativo nos desenhos. Ele, por exemplo, usa um quadro só para mostrar todo uma sequencia de ação impressionante, com o Capitão se movimentando ao redor de um robô.

A edição trazia uma história imaginária. 


Uma curiosidade é que a edição americana trazia uma história, curta, imaginária, na qual Bernie torna-se uma super-heroina, Bernie America.

A capa de Watson. 


 A Abril cortou essa HQ e, como a capa fazia referência a ela, a solução foi encomendarem uma capa original para o artista brasileiro Watson, que fez um belo trabalho.

Thor – Em busca dos deuses

 


Em 1996 a Marvel zerou alguns dos seus principais títulos e colocou-os sob a batuta dos, na época, superstars Jim Lee e Rob Liefield. Com resultado muito irregular (a série de Liefield no Capitão América era tão ruim que tiveram que trocar a equipe criativa no meio), em 1998 a editora voltou a zerar as publicações, retornando-as para o universo Marvel regular.

Para produzir o título do deus do trovão foram escalados o roteirista Dan Jurgens e o desenhista John Romita Jr. A estadia dos dois à frente do título fez tanto sucesso que durou dezenas de edições.

Algo que fica claro, já no primeiro número, é o objetivo da dupla de retornar a grandiosidade do título que víamos na década de 1960.

O título resgata a grandiosidade do herói. 


A história começa com a polícia cercando uma creche onde sequestrou crianças e quer a presença de Thor. O herói, nessa nova versão, aparece então numa página dupla impressionante que remete diretamente ao trabalho de Jack Kirby à frente do gibi. Thor aparece descendo dos céus, sendo visto de baixo para cima num ângulo grandioso.

Com a chegada de Thor, o homem liberta as crianças e se identifica com Heimdall, o guardião da Ponte do Arco-íris, cuja forma teria sido modificada pelo maldoso Loki e pede para ser levado para Asgard.

A sequência é uma desculpa para mostrar ao leitor o que aconteceu com o reino dos deuseus nórdico. O local está destruído, com as torres desmoronadas e sem moradores. Além de cumprir essa função descritiva, a sequência deixa dois ganchos: o maluco realmente seria Heindall?  O que aconteceu com os habitantes de Asgard?

Vencer o Destruidor parece impossível. 


Como toda história de super-herói precisa de um vilão, esse aparece lá pelo meio da história: é o invencível Destruidor, uma armadura, aparentemente ocupada por um militar (mais um gancho: como isso aconteceu?) que parece empenhado em destruir Nova York. Quando Thor chega às docas, o personagem já está sendo combatido pelos Vingadores. Seguem-se páginas e mais páginas de ação nas quais John Romita Jr. mostra que aprendeu todas as lições tanto de seu pai quanto do Rei Kirby. O ao ler sentimos que os heróis estão diante de um adversário realmente invencível.

Toda a contenda é entremeada por sequências focadas num paramédico chamado Jake Olson que parece empenhado em dar até mesmo a própria vida para salvar outras pessoas.

No final do volume dois percebemos que os destinos de Thor e Olson estarão entrelaçados, fazendo com que mais um aspecto das aventuras clássicas seja retomado.

Perry Rhodan – O robô espião

 

O número 61 da série Perry Rhodan tem uma característica completamente diferente de todos os números anteriores. Neste número, pela primeira vez, tivemos uma trama policial.

Na história, o agente de Rhodan em um mundo de microtécnicos envia uma mensagem de urgência e pede para ser resgatado. Quando chega ao planeta, o administrador do sistema solar descobre que, aparentemente, o mutante não fez o chamado de socorro. Mais: ele traz consigo a bordo um possoncal, um animal semelhante a um cão basset.

Quando realizam um salto, o sistema da nave descobre que alguém enviou a localização do mesmo para o espaço. Ao rastrearem o local de onde vem o impulso descobrem um mecanismo de localização pouco maior que um grão de poeira.

A capa original alemã. 


A situação é terrível: fica claro que um robô se infiltrou na tripulação da nave com o objetivo de descobrir a localização da Terra. A nave Drusus passa a fazer saltos aleatórios na tentativa de enganar no robô regente de Árcon. Mas em algum momento eles terão que voltar à Terra. Antes disso será necessário descobrir quem é o espião.

Escrito por Clark Darlton, é um livro divertido, que se configura um conto que pode ser lido separadamente. Darlton maneja bem o suspense e as pistas – embora, no meu entender, o espião fosse óbvio demais, assim como as pistas colocadas ao longo do volume.

Bingo - a história por trás do palhaço

 


Na década de 1980 o programa do palhaço Bozo se tornou um sucesso absoluto de audiência alavancando a TVS (atual SBT) a primeiro lugar no horário da manhã. Mas por força contratual (o programa havia sido importado dos EUA), ninguém deveria saber quem era o palhaço.
O filme Bingo, dirigido por Daniel Rezende, destrincha a pessoa por trás da máscara: um ator criativo, inovador, apaixonado por sua profissão, mas com sérios problemas pessoais, inclusive com drogas e bebidas.
A película vai do início da carreira, na época das pornochanchadas até o auge de Bozo (aqui chamado de Bingo para evitar problemas de direitos) e o declínio do ator que o interpretava.
Difícil apontar o que é melhor no filme: o roteiro preciso, a direção apurada, a reconstituição de época (no filme vemos carros, brinquedos, propagandas da década de 1980), a trilha sonora (repleta de sucessos dos anos 1980), a memorável interpretação de Vladmir Brichta. O ator encarna o personagem a ponto de não parecer que está atuando.
Bingo é um dos melhores filmes que tive a sorte de assistir nos últimos anos e certamente o melhor nacional de épocas mais recentes.
Ps: Vistos em perspectiva, percebemos o quanto os anos 1980 foram estranhos, época em que tudo era possível, como cantoras sensuais se apresentando em programas infantis, como Gretchen, no Bozo.