quarta-feira, abril 14, 2021

Fases do processo criativo


 

Como acontece o processo  de criação? Seja uma grande lei da física ou uma nova maneira de fazer uma receita de bolo, as idéias criativas passam pelas mesmas fases.

A primeira é a fase da preparação. Aristóteles já dizia que antes de começar a escrever, devemos pesquisar tudo que se sabe sobre o assunto. De fato, você não será capaz de resolver um problema se não conhecê-lo a fundo.

Essa fase se relaciona muito com a curiosidade. Pessoas curiosas têm mais chances de ter boas idéias, pois estarão mais antenadas às informações relacionadas ao problema.

Para escrever este texto, por exemplo, pesquisei em diversas revistas e livros.

Também é necessário pensar e pensar muito no problema, mesmo que não se chegue a uma solução satisfatória.

Em seguida vem a fase da incubação. É o famoso "deixar a idéia dormir", ou "consultar o travesseiro". Se, depois de ter pesquisado muito, a solução não se apresenta, esqueça. Vá fazer outra coisa, ou até mesmo durma.

Sherlock Holmes tocava violino durante a fase de incubação.


O monge-detetive Guilherme de Baskerville, do livro O Nome da Rosa, costumava tirar uma soneca quando se deparava com um problema insolúvel.. O psicólogo Jung costumava construir casas de brinquedo. Sherlock Holmes tocava violino. Há quem goste de ouvir uma música, ou ler um livro.
Nessa fase o importante é deixar o inconsciente trabalhar em busca de uma solução.

Mas atenção: o inconsciente só vai lhe dar uma idéia se você tiver fornecido antes informações sobre o assunto. Sua mente precisa de subsídios para trabalhar, subsídios que são recolhidos na fase de preparação.

Finalmente, depois de pesquisar muito e deixar a idéia dormir, vem a iluminação. É o eureka!

Um célebre exemplo de iluminação foi a que aconteceu com o químico alemão Firedrich Kekulé. Ele passou dias tentando descobrir como os seis átomos do se benzeno se ligavam, sem sucesso.

Então cochilou e sonhou com uma cobra mordendo o próprio rabo. Era a resposta! Os átomos se ligavam em círculo!

Outro exemplo famoso, embora alegórico, é a maçã de Newton, que, ao cair sobre a cabeça do cientista, deu-lhe a idéia para a teoria da gravitação universal.

Finalmente vem a fase da avaliação. Só aqui entra o senso crítico. A avaliação serve para peneirar as idéias e perceber as que funcionam e as que não funcionam. Se a idéia não se revelar a mais adequada para a situação, o jeito é voltar ao início e começar tudo de novo. Como dizemos cientistas dos
desenhos animados, "De volta à prancheta".

Mas lembre-se: só descarte as idéias na fase final de criação.

A fantástica fábrica de chocolate

 

A Fantástica fábrica de chocolate é um filme de 2005, de Tim Burton, com Johnny Depp no papel principal. Eu me lembrava da versão original e era uma péssima imagem. Quando criança, eu odiava essa versão, especialmente por causa  dos musicais.

Os musicais continuam presentes na versão de Tim Burton, mas já não são aquela coisa quebrada que era até a década de 80: o filme pára e começa um número musical que não tem nada a ver com o que está acontecendo. Esse estilo perdurou durante décadas nos desenhos da Disney, até vir Toy Story, que revolucionou o gênero.

Tim Burton percebeu que A fábrica é uma fábula e trabalhou o filme todo nesse sentido. Algo perfeito para quem já tinha feito a grande fábula da década de 90: Eduard mãos de tesoura. Aliás, há até uma cena em que o diretor homenageia a si mesmo fazendo referência ao personagem com mãos de tesoura (no momento em que Wonka está inaugurando a fábrica).

Portanto, A FÁBRICA é uma fábula sobre a família. É um resgate da família verdadeira, um item raro hoje. Numa época em que os pais não têm controle nenhum sobre seus filhos, que crescem como ditadores interessados unicamente em consumir, consumir e consumir, o filme resgata a família unida por laços de amor. Pessoas que, mesmo na mais absurda miséria, ainda assim são felizes por terem umas às outras. De quantas famílias podemos dizer isso hoje? São cada vez mais comuns os casos de filhos que chegam a matar os pais no primeiro momento em que esses lhes dizem não.

A FÁBRICA desfila as possibilidades de deturpação da infância: uma é mimada excessivamente, outro come demais, outra é educada apenas para vencer, outro é um craque dos vídeo-games e da internet, mas não usa toda essa informação de maneira saudável. De todos, apenas o garoto Charlie Bucket tem uma relação saudável com os pais.

Se não bastasse a ótima mensagem, o filme conta com a cenografia expressionista, típica dos filmes de Burton, com a fantástica música de Danny Elfman e com uma das melhores e criativas aberturas que já vi. Além, é claro, de contar com Johnny Depp, um ator capaz de transformar até uma bomba, como Piratas do Caribe, em um filme sensacional, e que brilha como nunca nesta refilmagem. Um programa para toda a família.

Starlight - space opera em quadrinhos

 

Mark Millar é um cara que quando acerta, acerta maravilhosamente. Exemplo disso a série Starlight, lançada no Brasil como álbum pela editora Panini.
Na história, um aventureiro espacial – no melhor estilo Flash Gordon e Adam Strange – de repente se descobre velho e sozinho após a morte da esposa. Os filhos, assim como todos os outros, não acreditam nas suas histórias sobre como ele foi transportado para um planeta distante e lá se tornou o principal responsável pela queda de um tirano global. Lembranças da época de suas aventuras misturam-se com cenas patéticas de supermercado, em que garotos ironizam sua ida para outro mundo.
Tudo muda quando uma nave aterrissa em seu quintal. É um garoto alienígena que pede seu socorro: mais uma vez o planeta distante precisa de sua ajuda, agora para combater uma invasão alienígena.
A série oscila bem entre a aventura, a nostalgia, os conflitos psicológicos e físicos do protagonista e entrega ótima ação, numa história que é impossível deixar de lado. Contribui muito para isso o ótimo desenho do croata Gorlan Parlov, perfeito nas cenas urbanas e caseiras, mas simplesmente deslumbrante quando mostra o planeta extraterrestre.
Há muito tempo não via um quadrinho de ficção científica bom como esse.

As histórias clássicas da Disney na versão terror

 


O artista sueco Daniel Björk fez uma série de imagens com cartazes clássicos da Disney transformando-os na versão terror. Confira o resultado. 











CONTINUANDO A CONVERSA COM GIAN DANTON

Memorial de Maria Moura

 


Memorial de Maria Moura é  uma minissérie que passou na Globo em 1994, adaptado da obra de Raquel de Queiroz. Trata-se de uma das melhores minisséries já apresentadas pela Globo (outra que gosto muito é Agosto, adaptado da obra de Ruben Fonseca).
Um dos destaques é o roteiro enxuto de Jorge Furtado (O homem que copiava) e Carlos Gerbase e a direção de Roberto Farias. Embora na época a TV estivesse engatinhando em técnicas cinematográficas, a direção vai muito além do simples plano e contra-plano, fazendo uma obra esteticamente competente e inovadora para a época.
As atuações são quase todas ótimas, com destaque para Glória Pires no papel principal e para a estréia de Cleo Pires interpretando Maria Moura jovem.
A mini conta a história de Maria Moura, uma mulher que desde pequena tem de defender suas terras de um padrastro que mata sua mãe e a violenta e, principalmente dos Marias Pretas, os primos que querem tomar tudo que é dela. Sem conseguir resistir, Maria foge da fazenda, o Limoeiro, em direção à Terra dos Padres, um local mítico, com de natureza exuberante e água corrente. Nesse processo ela deixa de lado a fragilidade feminina e se torna uma senhora de terras temida e respeitada, com um bando de jagunços fiéis prontos a dar sua vida por ela. Uma espécie de Robin Hood do sertão, Maria Moura acode todos aqueles perseguidos por inimigos poderosos.
Televisão é imagem. Na literatura podemos dizer que tal personagem tem essa ou aquela personalidade. Na TV (assim como nos quadrinhos e no cinema), fazemos isso através dos diálogos, da trilha sonora e, principalmente das imagens. É por isso que nos quadrinhos os vilões são feios e de proporções estranhas: deve ficar claro para o leitor que a moralidades deles é distorcida.
Em Maria Moura sabemos, desde a primeira cena, que os Maria Preta são o oposto da heroína. Enquanto ela é fiel e direta, eles são tortos e traiçoeiros. As roupas andrajosas mostram isso, mas percebemos o fato principalmente nas cenas em que eles estão comendo. Eles comem como porcos, de maneira nojenta, as mãos de unhas sujas, a comida se espalhando pela barba, sujando a roupa, melecando tudo.
Ou seja: as imagens os caracterizam como porcos, física e mentalmente.
A mesma caracterização é feita com Maria Moura. Quando foge do Limoeiro, ela prende o cabelo num turbante, escondendo-os, como se quisesse esconder sua feminilidade. No momento da história em que se apaixona, ela solta os cabelos, como se permitisse ser de novo mulher.
O único senão dessa ótima série é a mania de achar que humizar um herói é fazê-lo ter dúvida de seus propósitos. Maria Moura está o tempo se dizendo indecisa sobre o que está fazendo, sempre relutando, sempre dizendo que gosta de dar ordens, mas que queria alguém que lhe pusesse mando. É até possível que a personagem tivesse tais dúvidas, mas os diálogos não precisam insistir tanto nisso.

terça-feira, abril 13, 2021

The Witcher

 


The Witcher é a adaptação da Netflix da série de livros de fantasia do polonês Andrzej Sapkowski. O personagem foi criado no início da década de 1980 para um concurso de uma revista de fantasia. O conto ficou em terceiro lugar, mas o autor gostou do resultado e foi ampliando o universo do personagem com outros textos. Na década de 1990 o herói estreiou cinco romances. Depois foi adaptado para os games, que o tornaram realmente famoso fora da Polônia.
A série da Netflix se debruça sobre os contos e romances e a plataforma já anunciou a segunda temporada.
A trama se passa num mundo fantástico dominado por magia e povoado de seres fantásticos, como elfos, dragões e similares. Nesse mundo, feiticeiras são treinadas para se tornarem conselheiras de reis e meninos são treinados para se tornarem bruxos. Há um problema aqui. A palavra escolhida pelo tradutor pode dar a entender que se trata de alguém que lida com magia, o que não é verdade. Embora possam fazer alguns atos mágicos, os witchers são na verdade guerreiros, caçadores de monstros.
O protagonista da história é Geralt de Rivia, um bruxo envolvido com uma trama muito maior, que pode terminar com o fim da civilização. Duas personagens femininas se destacam: a feiticeira Yennefer, uma porqueira vendida pelo padastro por quatro moedas que descobre ser uma das feiticeiras mais poderosas de sua época e Cirila, a herdeira de um reino invadido que procura por Geralt, com o qual tem uma relação de destino.
A série foi anunciada pela Netflix como uma nova Guerra dos Tronos, o que certamente é um exagero, mas não deixa de ser uma boa atração para quem gosta de fantasia.
Henry Cavill surpreende no papel do bruxo. Ou talvez tenha encontrado o papel de sua vida: um caçador de monstros que não tem emoções, e, portanto, não precisa demonstrá-las. Se Henry Cavill no papel de um choroso Superman era vergonhoso, aqui ele parece perfeito.
A trama geral é séria e dramática, no estilo Guerra dos Tronos, mas há capítulos, como o da caça ao dragão, que têm o clima do desenho Caverna do Dragão ou dos seriados de fantasia que passavam na Globo nas tardes dos anos 1990, a exemplo de Xena.
Os roteiristas optaram por fazer uma narrativa não-linear, o que deixa interessante a história, permitindo que seja contada a origem de personagens como a feiticeira sem um longo primeiro ato com praticamente nenhuma ação.
Resumindo: The Witcher pode não ser o novo Game of Thrones, mas agrada. E se tiver um final melhor que o de GOT, já está valendo e muito.

Namor, o Príncipe Submarino

 


Em 1939, Martin Goodman, dono da editora Timely, estava em maus lençóis. As vendas dos pulps (revistas de contos em papel barato) estavam em queda. Ele precisava de algo que fosse um sucesso de vendas. Foi quando Frank Torpey, agente do estúdio Funnies Inc apareceu com uma novidade. O pernagem era o Príncipe Submarino, criado por Bill Everett para a revista Motion Pictures Funnies Weekly, uma revista que era para ser distribuída de graça para crianças no cinema na esperança de que na semana seguinte elas quisessem comprar. Segundo Torpey, os quadrinhos eram grana fácil.
No final, negociaram para a publicação de uma antologia incluindo outros personagens criados pela Funnies, incluindo o Tocha Humana.
A antologia se chamou Marvel Comics e foi lançada em agosto de 1939. Vendeu 80 mil exemplares em um mês. Goodman decidiu reimprimir e vendeu 800 mil exemplares.
Junto com o Tocha Humana, Namor era a grande atração da Marvel. Na história, uma expedição faz explosões que provocam destruição involuntária nas colônias submersas de Atlântida. O imperador manda sua filha espionar os humanos. Ela faz mais que isso: se apaixona pelo capitão e engravida dele. Dezenove anos depois o fruto dessa união emerge do mar querendo vingança contra a raça humana. Com orelhas pontudas, asas nos pés e vestindo apenas uma sunga verde e um cinturão dourado, Namor (cujo nome significa filho vingador) era tudo, menos um herói convencional. Na verdade, estava mais para um anti-herói, violento e incorreto.
Já estava ali, naquelas primeiras histórias, a base do que seria a Marvel Comics. Enquanto na DC heróis como o Super-homem eram certinhos, na Marvel eles se pareciam mais com anti-heróis. Enquanto na DC os personagens trafegavam por cidades imaginárias, na Marvel os heróis lutavam em Nova York. Além disso, havia uma ligação entre os personagens, eles viviam no mesmo ambiente. Namor interessara-se por Betty Dean, amiga de Jim Hammond, alter-ego do Tocha Humana. E posteriormente ambos os personagens iriam se enfrentar (em outra grande características Marvel: quase sempre, quando heróis se encontram, eles brigam).
Embora inicialmente tenha se dedicado à sua vingança contra os humanos, Namor logo se aliaria aos americanos na luta contra o Eixo – uma jogada de Goodman, que percebeu que o patriotismo dava dinheiro.
Com o fim da guerra, os super-heróis entraram em declínio e Namor hibernou no limbo editorial.
Quando Stan Lee e Jack Kirby criaram o mega-sucesso Quarteto Fantástico, resolveram trazer de volta o personagem – e inventaram que ele estivera todo esse tempo sem memória, vivendo como mendigo em Nova York. O novo Tocha Humana o descobre, joga-o na água e ele recupera a memória. É o bastante para voltar à sua sanha de vingança contra a humanidade.
O personagem voltou a fazer sucesso e dividiu revista com o Hulk em Tales of Astonish.
Em 1968 ele finalmente ganhou revista própria, numa memorável fase com roteiros de Roy Thomas e desenhos de John Buscema. Ambos deram uma explicação coerente para a cronologia do personagem em história repletas de ação e selvageria, que antecipavam o trabalha da dupla em Conan, o bárbaro.  

Homem-Aranha – Origens

 




O Homem-Aranha é um dos personagens mais populares da Marvel – senão o mais popular. Entretanto, poucas pessoas da nova geração conhecem as primeiras histórias do personagem. Conheço até mesmo gente que faz quadrinhos de super-heróis e nunca leu essas histórias. Uma falha de formação quadrinística que pode ser remediada com número 16 da coleção da Salvat dedicada ao herói.
O volume inclui a primeiração aparição do personagem, na revista Amazing Fantasy 15, uma revista que estava para ser cancelada e que Stan Lee aproveitou para testar um novo personagem que o dono da Marvel insistia que seria um fracasso. Afinal, as pessoas odeiam aranhas, não? Além disso, um herói magrelo, feio, paparicado pela tia? Uma receita de fracasso. No entanto, foi um sucesso tão grande que o personagem acabou ganhando revista própria já naquele ano de 1963.
O Homem-aranha se diferenciava por ser magrelo e feio. 


Embora a primeira capa tenha sido feita por Jack Kirby (aliás, a capa do volume da Salvat), quem ficou responsável pelo visual do personagem foi Steve Ditko. Os desenhos de Ditko apresentavam uma anatomia estranha, especialmente quando o personagem estava em ação. No entanto, o que seria defeito, virava qualidade: um herói aracnídeo deveria mesmo ficar em poses estranhas, não?
Embora essas histórias ainda puxem muito para o infantil, há um charme inequívoco nessas HQs. Parker sendo zoado pelos colegas, azarado em tudo, tia May tão ingênua que, quando é sequestrada pelo Octopus o acha um senhor muito respeitável e se assusta quando o aracnídeo chega para salvá-la. O aracnídeo em seu estado puro.
Além disso, vale destacar a incrível habilidade de Ditko de contar muita coisa em poucas páginas. Ditko era um narrador nato e lendo essas histórias é possível perceber o quanto Frank Miller deve a ele.
As splash pages eram emocionantes. 


E, claro, temos o texto de Stan Lee, com o bom humor que caracterizou o personagem. Aliás, o textos de aberturas das histórias são impagáveis sempre em splash pages emocionantes. Na abertura do número 5 da revista, Lee diz aos leitores que eles já devem ter visto várias histórias em que a introdução a qualifica como a mais espetacular aventura já escrita (na verdade, algo que o próprio Lee fazia em profusão) e que daquela vez ele seria totalmente honesto: “Esta pode não ser a maior história de todos os tempos! Talvez você possa conhecer outros vilões piores ou até mesmo tenha lido um roteiro mais emocionante... mas, sinceramente, nós duvidamos que isso seja possível!”.
A união da narrativa de Ditko com o texto divertido de Lee fez com qua o personagem se tornasse popular a ponto de ganhar uma edição anual, na qual ele enfrenta seis vilões apresentados no primeiro ano, o Sexteto Sinistro, uma aventura presente no volume, que Lee usa para promover outras revistas da Marvel, colocando os personagens das mesmas para fazerem pequenas participações na trama. É um bom termômetro do sucesso do aracnídeo já naquele primeiro ano.

A misteriosa chama da Rainha Loana

 

A misteriosa chama da Rainha Loana é um livro de Umberto Eco de 2004, lançado aqui pela editora Record.
Na obra, um personagem passa por um trauma e conserva a memória semântica (a que é compartilhada por todos nós e trata dos universais. É a memória que permite a uma criança reconhecer um cachorro, seja ele um pit bull ou um terrier), mas perde a memória vivencial (aquela memória das coisas que vivemos e nos emocionaram).
Para tentar recobrar essa memória, ele recorre aos livros, revistas e gibis de sua infância e juventude. Metáfora óbvia, essas obras se tornam uma memória externa que permite ao personagem principal recordar a externa.
No fundo, a mensagem parece ser: somos o que lemos.
O livro é todo ilustrado com imagens desses livros e gibis e alguns momentos parece ser uma homenagem à literatura popular e aos quadrinhos. O título, por exemplo, é referência a uma obscura HQ italiana: “Era uma narrativa desarticulada que fazia água por todos os lados, os episódios eram repetitivos, as pessoas ardiam de amores repentinos, sem razão”. Ruim, mas mágico o bastante para marcar o autor. 

O gerente que leu a Manticore

 


Eu nunca ganhei muito dinheiro com quadrinhos. Em alguns casos não recebi pagamento nenhum.

Entretanto, de vez em quando tinha algumas compensações.

Certa vez precisava abrir uma conta na Caixa para facilitar o recebimento de um acerto de contas. Me indicaram uma agência que estava sempre vazia. Fui lá e o gerente me informou que aquela agência era só para servidores de determinada secretaria. Mas, enquanto falava comigo, olhava intrigado para meus documentos. À certa altura pegou minha identidade, olhou o nome e piscou três vezes.

- Ei, estou reconhecendo esse nome. Você não é o Gian Danton?

- Isso mesmo, esse é o meu pseudônimo. – respondi espantando.

- Não acredito! Cara, eu adorei a Manticore!

E começamos uma longa conversa sobre quadrinhos.

No final, ele abriu a conta, com a condição de que eu fosse outro dia lá para autografar os exemplares dele da Manticore – algo que fiz pouco tempo depois.

Foi, provavelmente, a situação mais inusitada em que encontrei um fã dos meus roteiros.  

segunda-feira, abril 12, 2021

Avohai, a homenagem de Zé Ramalho ao avô

 


Avohai, a primeira música de sucesso de Zé Ramalho, é uma homenagem ao avô, que o criou a partir dos dois anos, quando seu pai morreu afogado. Avohai é um neologismo, uma mistura de avô com pai.
Fiquem com parte da letra:
Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas
De ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde quarava
Sua camisa e seu alforje de caçador
Oh meu velho e invisível
Avôhai!
Oh meu velho e indivisível
Avôhai!

O que é criatividade?

 


Afinal, o que é criatividade? O publicitário Roberto Dualibi a define como "a técnica de resolver problemas". De fato, nós não seríamos criativos se não existissem obstáculos que precisassem ser superados.

Como se diz, a necessidade é a mãe da invenção. Mas a criatividade é também a capacidade de resolver problemas de maneira original, de forma que ninguém havia pensado antes.

Há pessoas que são exímias para resolver problemas, mas não são criativas. O mecânico, por exemplo, que conserta um carro. Ele aprende a resolver os problemas do carro e continua fazendo isso pelo resto da vida, sempre do
mesmo jeito.

A pessoa criativa, ao contrário, pega coisas que todo mundo conhece e que, aparentemente não têm qualquer relação, e faz coisas completamente inesperadas. Um exemplo célebre é aquela cena em que Charles Chaplin pega dois pães, finca em garfos e faz eles dançarem, como se fossem os pés de um bailarino. Pois é. Todo mundo conhece os pães e os garfos, mas ninguém até então havia pensado em juntá-los para fazer um número de sapateado. Isso é criatividade.

A dança dos pãenzinhos de Chaplin é um ótimo exemplo de criação.


O criativo faz conexões absolutamente inesperadas. Essas conexões, fisiologicamente falando, são representadas por ligações entre as células cerebrais, chamadas de sinapses. Os estudos indicam que a maioria das pessoas tem a mesma quantidade de células cerebrais, mas os criativos
têm mais sinapses.

A fase em que a pessoa realiza a maior parte das sinapses é a infância. A criança vê o fogo, aproxima a mão e se queima. Imediatamente cria-se uma sinapse: fogo = queimadura.

Essas sinapses às vezes são tão inesperadas que acabam sendo engraçadas.

Na época da Segunda Guerra, em que eram comuns os apagões para evitar bombardeamento, Monteiro Lobato perguntou a um garoto o que era um blecaute, ao que ele respondeu: "É fechar as cortinas para a guerra não entrar!".Indagado sobre o que era a guerra, o garoto respondeu: "É navio afundado e falar muito em Hitler".

Recentemente o meu filho, de quatro anos, decidiu que eu deveria aprender a dirigir uma locomotiva e se ofereceu como instrutor. Ele me explicou que eu deveria pegar no volante e virar para o lado quando viesse outro trem na mesma linha. Ou seja: ele percebeu uma semelhança entre o carro e o trem, já que os dois são meios de transporte - e concluiu que os dois são dirigidos da mesma forma.

A idéia me pareceu absurda, mas então me lembrei dos ônibus articulados de Curitiba, que transportam mais gente e gastam muito menos combustível. Eles são exatamente uma junção da idéia da locomotiva com a idéia do carro e funcionam muito bem (para aumentar a comparação, eles param em estações, com o os trens).

A pessoa criativa procura sempre novas soluções para os problemas, sejam eles novos ou antigos, e essa solução parte quase sempre de uma lógica bizarra. Uma pessoa certamente muito criativa foi a que inventou as vacinas. Afinal, a lógica da vacina é absolutamente inesperada: injetar um pouco da doença em uma pessoa sã para que seu organismo crie anticorpos...

Ser criativo significa ser também um pouco filósofo: olhar para ascoisas sempre com olhos de criança e ver conexões onde elas parecem não existir.

Jornada nas estrelas: tempo de loucura

 


Uma das características da primeira encarnação de Jornada nas Estrelas é que a série não se levava tão a sério. Em alguns casos isso poderia se transformar em desastre completo. Em outros, pura diversão. Ótimo exemplo desse segundo caso é “Tempo de loucura”, episódio escrito por Theodore sturgeon da segunda temporada.
Na trama, Spock começa a apresentar um comportamento agressivo totalmente na contramão do primeiro oficial frio e calculista que estamos acostumados a ver. Ao ser indagado por Kirk, ele pede que lhe seja concedida uma licença em Vulcano, seu planeta natal.
A razão para isso: chegou sua época de acasalar e deve voltar a Vulcano para se casar com sua prometida. Esse “tempo de loucura” seria uma compensação da natureza para a natureza fria dos vulcanos. Na explicação dada ao amigo Kirk, Spock chega a citar até mesmo os salmões, que voltam ao lago onde nasceram para acasalar.
Já no planeta, a futura esposa exige combate e escolhe Kirk como seu campeão. O capitão aceita, para só depois descobrir que o combate só pode terminar com a morte de um dos contedores em uma cena que só poderia funcionar com Willam Shatner.
É bizarro, mas, ao mesmo tempo, divertido, ver Spock com um comportamento totalmente diferente do que se espera dele e mais divertido ainda a luta dele com Kirk (fico imaginando quantos fãs do programa gostariam de ver essa luta da mesma forma que gostariam de ver uma luta entre o Capitão América e Homem de ferro). Além disso, o episódio torna muito mais rica a mitologia vulcana.
Aliás, a solução do episódio é bem bolada e segue faz sentido dentro da trama. Como diria Spock: “Muito lógico”.  

Micronautas: os brinquedos que viraram um clássico dos quadrinhos

 


Na década de 1970 a Marvel era mais do que nunca a Casa das ideias. Enquanto a DC patinava, a Marvel lançava diversas séries que se tornariam sucesso de público e clássicos dos quadrinhos. Um desses clássicos é a série Micronautas, de Bill Mantlo (roteiro) e Michael Golden (desenhos).
Micronautas, uma curiosa mistura de Guerra nas Estrelas com Terra de Gigantes mostrava um grupo de pequenos rebeldes que vem para nosso mundo após sua dimensão ser dominada por um vilão, o Barão Karza (um personagem muito parecido com Dart Vader, diga-se de passagem). Em nosso mundo os personagens e suas naves eram pequenos como brinquedos.
Os personagens eram baseados em uma série de brinquedos japoneses chamados Microman e lançados nos EUA pela Mego como Micronauts. Aliás, esses bonecos eram filhos do nosso conhecido Falcon: os fabricantes japoneses licenciaram os soldados d GI Joe para fabricá-los no Japão, mas logo perceberam que os meninos japoneses não se interessavam por soldados americanos, que haviam lutado contra o país na II Guerra Mundial. A solução foi transformar o molde em robôs. Com a crise do petróleo, os fabricantes tiveram que diminuir o tamanho dos bonecos, e assim surgiram os microman. 
A ideia de transformar esses brinquedos toscos em uma história em quadrinhos veio do roteirista Bill Mantlo ao observar o filho brincar com um dos presentes que ganhara de Natal. Especializado em histórias de fantasia e FC, com passagens memoráveis pelo Hulk e Rom (que era também baseado em um brinquedo), o roteirista conseguiu convencer o editor-chefe da Marvel, Jim Shooter a lincenciar os direitos dos personagens. 
Os brinquedos que deram origem aos quadrinhos

Mantlo conseguiu dar profundidade à história, incluindo detalhes como o fato de que o Barão oferecia à elite aliada a imortalidade através da troca de corpos (de opositores ou das classes mais baixas).
Para ilustrar a HQ fizeram uma aposta arriscada: escalaram Michael Golden, até então desconhecido. Golden começa de forma insegura (e convenhamos que o material original, os brinquedos, não ajudavam). Mas consegue uma grande evolução já ao longo da primeira história. Com o tempo ele se tornaria um dos mais cultuados desenhistas da Marvel, com um estilo que se preocupava pouco com regras anatômicas, mas era muito expressivo e inovador, sendo uma das principais referências de artistas como Arthur Adams e Todd McFarlane.
Lançada em 1979, a revista dos Micronautas ganhou o Eagle Award daquele ano como a melhor estréia nos quadrinhos.
Essas histórias foram publicadas no Brasil na revista Heróis da TV, arrebatando uma legião de fãs, especialmente para o desenhista. Infelizmente a Abril não publicou todas as 59 histórias, deixando a saga incompleta.

Os quadrinhos e o castelo do Graal

 No livro HE, o psicólogo norte-americano Robert Johson explica a psicologia masculina através do mito da busca do Santo Graal. O personagem principal é o jovem Percival, um cavaleiro da Távola redonda.


Certo dia, durante suas andanças, ele entrou em um castelo belíssimo e imponente. Era ali que estava o Santo Graal, o cálice usado por Jesus durante a última ceia.
Todos o recepcionaram muito bem e ele se sentiu feliz e maravilhado com os poderes do Graal. O cálice podia, por exemplo, fazer surgir a comida que o convidado desejasse. E podia também curar qualquer ferida.

Na manhã seguinte, quando acordou, ele não encontrou mais ninguém no castelo. Estava completamente abandonado, e ele teve de ir embora.
Percival passaria o resto de sua vida tentando encontrar novamente o castelo do Graal.
Para Robert Johnson, o episódio é uma metáfora de algo que ocorre com todos os jovens durante a fase da pré-adolescência.
Essa é uma fase particularmente difícil, pois o menino não é mais uma criança, mas ainda não é adulto.
Todos os meninos entram no castelo do Graal ao menos uma vez na vida e essa experiência irá marcá-los pelo resto da vida. Assim como Percival, eles passarão o resto da existência tentando voltar para o castelo.
O que tudo isso tem a ver com quadrinhos?
Pare para pensar. Se tem mais de vinte anos e continua gostando de quadrinhos é porque há uma boa lembrança associada a eles.
Em outras palavras: muitas pessoas - e eu entre elas - entraram no castelo do Graal graças aos quadrinhos.
Tenho conversado leitores de gibis e todos eles têm algum episódio semelhante ao de Percival.
José Aguiar, desenhista da Manticore, saía de casa todos os dias de manhãzinha com sua bicicleta e ia direto para um sebo próximo de sua casa, onde ele comprava ou trocava gibis.
Essa experiência o marcou profundamente e eu não tenho dúvida nenhuma de que esse foi um dos fatores que o influenciaram a se tornar desenhista.

Lembro que quando estávamos na sétima série a revista preferida de todos era a Superaventuras Marvel. Nós sabíamos a data em que ela chegava nas bancas e saíamos correndo para ver quem chegava primeiro.
Como tinha pouco dinheiro para comprar gibis, eu usava de um estratagema. Eu conhecia um sebo que ficava próximo da Igreja e que vendia revistas a preço de banana. Eu passava lá todo Domingo e comprava as Heróis da TV, que uma amigo da escola colecionava. Depois eu vendia para ele, pelo dobro do preço, mas antes eu lia e relia a revista e esses momentos eram tão sagrados que me faziam esquecer a chateação que era ser obrigado a ir à igreja.
Aquela experiência - comprar a revista e nem esperar chegar em casa para começar a lê-la - era uma verdadeira entrada no castelo do Graal.
Só com a saga da Fênix foram centenas de entradas no castelo do Graal, até porque os X-Men, assim como a busca do Cálice Sagrado, são um mito sobre o fim da infância (prometo falar sobre isso em outro artigo).
Cada vez que eu leio uma HQ é como se eu estivesse voltando àquela época mágica da pré-adolescência.
E quando escrevo histórias, fico imaginando que talvez eu esteja proporcionando a outros garotos as mesmas sensações que eu sentia lendo quadrinhos.
É interessante notar que o tipo de quadrinho que você lê na pré-adolescência vai influenciar seu gosto pelo resto da vida.
O desenhista Antonio Eder odeia super-heróis. Também, pudera: ele passou toda a pré-adolescência lendo revistas Kripta e nesse período nunca botou os olhos num gibi de super-heróis.
O desenhista Bené Nascimento (Joe Bennet) passou essa fase lendo HQs do Jack Kirby. Hoje ele compra qualquer coisa sobre o velho Jack, até caríssimos fanzines importados.
Pare um instante e pense. Se você gosta de quadrinhos, é bastante provável que você tenha, em algum momento, entrado num castelo do Graal feito todinho de histórias em quadrinhos.

domingo, abril 11, 2021

Fundo do baú - a grande família

 


Grande Família foi uma série de televisão brasileira exibida de março de 2001 a setembro de 2014. Foram 485 episódios. É a série  cômica de maior sucesso da TV brasileira. O curioso é que ela nasceu como um especial para homenagear a versão original de 1972, escrita por Oduvaldo Vianna Filho e Armando Costa. Mas o sucesso foi tão grande que acabou virando uma série.
O segredo do sucesso está nos personagens carismáticos, interpretados por ótimos atores e o texto inspirado.
Tudo funciona bem na Grande Família, do figurino brega do Agostinho ao cenário da casa de Dona Neném com garrafa de abacaxi.
Já na fase final do seriado, Tuco conseguiu emprego em um programa de humor, onde interpretava um rapaz assediado por mulheres, que eram sempre dispensadas. O quadro sempre terminava com as garotas dizendo: “Sai do armário, Serginho”, ao que ele respondia: “Papai não deixa”.

O demônio da fé

 



            A noção de demônio, básica para a Igreja Católica, serviu como hálibe para  a perseguição a diversas minorias. Judeus, ciganos, homossexuais, mulheres e qualquer pessoa que tivesse um comportamento diferente poderia ser queimado pela fogueira da inquisição. Em Portugal, o simples fato da pessoa tomar banho aos sábados era uma prova que poderia ser usada contra ela num processo por judaísmo. Os padres, inclusive, desestimulavam os banhos, pois a água entrava em locais que não era pudico tocar.
Para a Igreja, o demônio era a mulher. Os inquisidores Heinrich Kraemer e James Sprenger, autores do Malleus Maleficarum, o Martelo das Bruxas, livro de cabeceira dos religiosos da época diziam que deve-se exorcisar o demônio que tem seios e cabelos longos. Para eles, a voz da mulher era como o canto das sereias, que com suas doces melodias atraem os viajantes os matam esvaziando seus bolsos e fazendo com que abandonem a Deus.
A bruxa, feia, com os cabelos desgrenhados, desdentada e apavorante é a mulher em seu estado natural, pois o diabo vive da luxúria carnal, que nas mulheres é irresistível. A mulher, para os religiosos da época, era mais amarga que a morte. Seu beijo é como a picada do escorpião. Seu abraço é um garrote que tira do homem a vida. A serpente seduziu Eva, que fez perder o homem. Não fosse ela, teríamos o paraíso na terra. São Bernardo disse que seu rosto é um vento queimante e que sua voz é como o sibilo das cobras.
Catão de Utica disse que se pudéssemos nos livrar das mulheres, não teríamos necessidade de Deus nas nossas relações, pois sem a malícia e bruxaria das mulheres, o mundo não conheceria perigos. Valerlo disse delas que são como as Quimeras, pois o monstro tinha três formas: seu rosto era do radiantes e nobre leão, tinha o ventre asqueroso de uma cabra e o rabo era de uma serpente. Da mesma forma, a mulher é formosa em aparência, contaminada ao tato e mortífero viver com ela. Os Eclesiastes dizem dela que  "Não há cabeça superior à de uma serpente, e não há ira superior à de uma mulher. Prefiro viver com um leão e um dragão que com uma mulher malévola”.
Mas não é só a mulher que era fonte da danação. Também os judeus o eram.
Dizia-se que o demônio em pessoa dava aulas nas sinagogas e que os judeus tomavam como cuidado seu profanar hóstias e envenenar a água benta. Acreditava-se que cospiam sobre a hóstia usando a mesma boca que beijou as pudentas do diabo.
Os grandes flagelos do fim da Idade Média foram creditados a eles, a peste negra, a febre amarela e todas as outras desgraças. Por isso mesmo eram perseguidos em todos os cantos. No livro O Complô, o quadrinhista Will Eisner mostra como uma intriga palaciana fez com que o serviço secreto russo produzisse um documento, O Protocolo dos Sábios de Sião, que seria o plano dos judeus para dominar o mundo. Esse livro foi a base da propaganda nazista, mas engana-se quem pensa que a perseguição aos judeus começou com o nazismo. Essa modalidade já era praticada há muito tempo pela Igreja.
Também o negro era um representante do demônio. Dizia-se que, como o pecado, o negro é inimigo da luz e da inocência.
Santa Tereza era uma inimiga ferrenha do mestre das trevas e um dia ele a visitou. Era um garotinho negro com uma chama vermelha. Estava nu, pois os demônios, assim como os negros, não têm vergonha de seus próprios corpos. E assim, nu, ele se sentou sobre as sagradas escrituras e com suas pudentas em chamas queimou o livro.
Episódios como esse justificavam a escravidão, a tortura e a fogueira.