segunda-feira, outubro 19, 2026

A cozinheira de Castamar

 


Clara Belmonte é uma mulher atormentada, que desenvolveu agorafobia após a execução do pai. Ela consegue emprego como cozinheira no palácio de Castamar, onde, após uma rejeição inicial, acaba ganhando a simpatia de todos graças à sua personalidade generosa. Ela e o Duque de Castamar acabam vivendo uma paixão proibida, já que nobres não podem se casar com serviçais.

Essa é a trama de A cozinheira de Castamar, nova série dos produtores de La Casa de Papel na Netflix.

Esse roteiro poderia facilmente descambar numa novela mexicana. Afinal, o princípio básico do amor proibido pelas diferenças de classe está lá. Mas a produção consegue dar uma abordagem totalmente diferente, fugindo do dramalhão. Importante para isso as ótimas atuações, em especial de Michelle Jenner, que vive a protagonista, e Roberto Enriquez, o duque. A atuação de ambos é extremamente contida, de forma que um olhar fala mais que muitas palavras.

A direção também destaca essa expressividade sem exageros, a começar pela belíssima abertura, que consiste apenas na cozinheira andando pelos corredores do palácio, com o nome do seriado aparecendo. Acrescente a isso a belíssima fotografia, que muitas vezes faz com que as imagens pareçam quadros da época.

Além disso, o roteiro é muito bem elaborado, com tramas palacianas, fatos históricos (o rei que aparece na série realmente existiu e de fato era meio louco) e aprofundamento dos personagens (a começar pela própria Clara e sua incapacidade de sair em lugares abertos). Com em La Casa de Papel, em A cozinheira de Castamar não há enrolação. Sempre está acontecendo alguma coisa.

Homem-Aranha – A morte de Jean DeWolff

 



A fase de Peter David à frente do aracnídeo, em pleno período do uniforme negro, teve vários grandes momentos e gerou pelo menos um grande clássico, a saga A morte de Jean DeWolff, também conhecida como a Saga do Devorador de Pecados.

A história começa a com a morte da policial Jean DeWolff, que se tornara amiga do Homem-aranha, e sua única aliada dentro da polícia. O responsável é o assassino serial chamado Devorador de Pecados, que na sequência comete outros crimes, incluindo um juiz amigo de Matt Murdock.

O aracnídeo e o Demolidor começam uma investigação para descobrir quem é o tal Devorador de Pecados e, no processo, entram em rota de colisão.

O Devorador de Pecados deveria ser um psicopata, mas a história o mostra como um psicótico. 


Embora o roteiro seja realmente bom, há problemas. Por exemplo, o aracnídeo parece em alguns momentos totalmente descontrolado, muito diferente do personagem que conhecemos. Além disso, a investigação dos dois parece totalmente sem sentido. Eles estão lindando com um assassino serial e vão para um bar pedir informações? Dois heróis que estão acostumados a lidar com criminosos cometeriam um erro tão primário?

A capa mais famosa dessa fase. 


Mas Peter David maneja bem o texto, de modo que esses detalhes acabam passando despercebidos. Alguns dos melhores momentos são “piadas internas”, como quando um policial pergunta ao Demolidor se ele é cego ou quando o Aranha diz que ele poderia se tornar um advogado.

A história é desenhada por dois artistas: Rick Buckler e Sal Buscema. Como na método Marvel o ritmo da história depende muito do desenhista, isso provoca dois momentos quase opostos na história. Buckler tem uma narrativa lenta e poucos quadros de impacto. Quando Sal entra, a história ganha ritmo, movimento e várias de cenas de impacto, como a fantástica cena em que o aracnídeo bate em Elektro em meio a uma enorme onomatopéia.

Contos fantásticos no labirinto de Borges

 

Jorge Luís Borges é um dos escritores mais importantes de todos os tempos. Numa relação que vai do semiólogo Umberto Eco ao roteirista de quadrinhos Neil Gaiman, são muitos os autores influenciados por sua obra e suas ideias. São tantos os elementos borgeanos em O nome da rosa que há quem diga que o livro de Eco é quase um plágio do trabalho de Borges. A biblioteca do sonhar e o labirinto do Destino em Sandman, de Gaiman, são exemplos tipicamente borgeanos dessa HQ. 

Identificar os autores influenciados por Borges é uma aventura fascinante, mas igualmente instigante é descobrir os autores que influenciaram esse grande escritor, ou que poderiam tê-lo influenciado. Esse é o objetivo de Bráulio Tavares na coletânea "Contos fantásticos no labirinto de Borges". O livro reúne desde autores que nitidamente influenciaram o autor argentino, como Edgar Alan Poe, até aqueles mais novos que ele, mas que trabalharam temáticas semelhantes e podem ter vivido uma relação de influência mútua, como é o caso de Ray Bradbury. 

Um dos pontos altos da obra é o pósfacio escrito por Tavares em que ele analisa a obra de Borges e a relaciona com os contos escolhidos, destrinchando elementos em comum. 

Um dos tópicos mais famosos é o do livro sonhado, mas jamais escrito. Borges adorava criar obras que não existiam. Tavares lembra que o truque é não escrever o livro que foi pensado, mas fingir que alguém o escreveu e comentá-lo: "Borges deve ter sonhado um dia em escrever um romance como A aproximação a Almotásim e deve ter julgado que era uma tarefa além de seu alcance (como voltaria a ocorrer em outro conto com título semelhante, "A busca de Averróis"). A falsa resenha com que cortou esse nó górdio gerou todo um novo gênero literário". 

Outro ponto interessante do pósfacio é a discussão sobre as histórias policiais. Borges elevou o gênero a um patamar filosófico e Bráulio Tavares resgata isso, relacionando inclusive com outros temas recorrentes da obra borgeana, como o duplo e o espelho: "Para ocultar algo, basta virá-lo do avesso ou transformá-lo em seu contrário", explica, numa referência tanto ao conto de Poe quanto ao de Ellery Queen. 

No ponto de vista de Borges, o mundo é uma combinação de símbolos que parecem dizer algo a quem seja capaz de interpretá-los. A função do protagonista no romance policial é justamente ser capaz de identificar a ordem nessa miríade de caos. Por essa razão, o autor de O Aleph defendia que a literatura policial era o último refúgio da lógica, da inteligência e da limpidez de pensamento: "A trama do romance policial não é improvisada livremente; ela é concebida com uma estrita lógica". 

Quanto aos contos escolhidos para a coletânea, há grandes achados, alguns óbvios (como "A carta roubada", de Edgar Allan Poe) e outros que se aproximam da simples curiosidade. 

Uma das gratas surpresas é o conto "A livraria", de Nelson Bond, um autor de pulp fictions, pouco conhecido no Brasil e raramente associado a Borges pela maioria dos leitores. Entretanto, seu texto explora com perfeição o tema dos livros nunca escritos. 

Um autor famoso, mas poucas vezes relacionado com Borges é H. G. Wells. Tavares leu uma referência ao conto "O ovo de Cristal" no epílogo de O Aleph e durante anos tentou encontrar esse texto em coletâneas de obras de Wells. Felizmente achou essa pérola perdida e acrescentou-a ao livro. Nele um pacato negociante de antiguidades descobre um cristal com o qual pode ter contato com uma outra realidade. O conto dialoga diretamente com o Aleph, embora seja muito anterior. 

Outro autor clássico que abrilhanta a coletânea é de Ambrose Bierce. Em "Um incidente na ponte de Owl Creek" um homem é condenado à forca durante a guerra civil americana. A narrativa, que inicia realista, mas logo se torna pura fantasia, com o tempo e a realidade se distorcendo para o protagonista. 

Ainda dentro da fantasia, vale destacar A terceira expedição, de Ray Bradbury. Elogiar Bradbury é chover no molhado — ele foi o homem que levou a poesia para a FC e sua participação na coletânea só faz elevar o nível da mesma. Mais curioso é o conto "Carcassonne", de Lord Dunsany. Dunsany foi um autor muito popular no século XIX, mas hoje é praticamente desconhecido. Seu texto, muito bem escrito, mostra a influência não só sobre Borges, mas também sobre Lovecraft e Robert E. Howard. 

No gênero policial, duas narrativas merecem destaque: "A honra de Israel Gow", de Gilbert K. Chesterton, e "O roubo do selo raro", de Ellery Queen. Ambos são ótimos exemplos daquilo que Borges destaca como diferencial do conto policial: as hipóteses feitas e descartadas até se chegar a uma que seja adequada (Curiosamente é o mesmo método proposto por Karl Popper para a metodologia científica). Os dois autores brincam com a própria capacidade de dedução, em especial o padre Brown, que, diante de um cenário aparentemente sem sentido, experimenta várias explicações aparentemente válidas, que vão sendo falseadas uma a uma.

O volume é, portanto, uma leitura das mais agradáveis tanto pelos contos quanto pelo excelente texto de Bráulio Tavares. É de se destacar também as ilustrações surreais de Romero Cavalcanti. Trata-se, portanto, de uma obra obrigatória na biblioteca de qualquer fã de Borges.

Livro para baixar: 2021 reúne alguns do melhores autores de ficção científica do Brasil

 


A partir de sete ilustrações de Edgar Franco, sete contos de ficção científica de Edgar Smaniotto, Fábio Fernandes, Fabio Shiva, Gazy Andraus, Gian Danton, Nelson de Oliveira e Octavio Aragão. Os contos têm no máximo 2021 palavras, como referência ao ano de 2021, que para Edgar representa o tempo de um admirável ou abominável mundo novo, em que o velho "normal" segue incólume, em aceleração absoluta tornando-se HIPERNORMAL.

O livro está sendo disponibilizado gratuitamente. 

Mudar para voltar ao passado?


No Natal de 1992 (último ano do governo Collor), a minha família não tinha dinheiro para comprar qualquer coisa diferente para a Ceia. Para não passar em branco, eu e minha mãe fomos ao supermercado e compramos dois itens que estavam em promoção: amendoim e um cereal colorido. Fizemos uma bandeja com esses itens e foi essa a nossa ceia.

A situação na época foi resumida perfeitamente pela frase da música da Legião Urbana: 'Todos os meus amigos estão procurando emprego'. Para muitas famílias, a única fonte de proteína era o 'leite do Sarney', uma mistura em pó com leite de vaca e soja.

Agora vejo gente que nunca passou necessidade, que come carne todo dia, que tem carro e moto na garagem (o Brasil registrou a maior venda de veículos da série histórica), dizer que o Brasil está quebrado e que não aguenta mais. E a suposta solução apresentada por esse grupo é votar em um aliado de Collor que tem como grande referencial a Argentina de Milei.


Liga da Justiça: Quando a gravidade enlouqueceu


 

A revista Justice League of America, escrita por Gardner Fox e desenhada por Mike Sekowsky, reunia o que a DC Comics tinha de melhor e de pior durante a Era de Prata. É o que vemos em Justice League of America 5.

Para começar, vale destacar a imensa criatividade de Gardner Fox, que rotineiramente construía seus roteiros a partir do suspense, propondo um mistério central a ser resolvido. É o que acontece no início desta história, quando o Arqueiro Verde é acusado de ser um traidor em um caso que envolve os principais vilões de cada herói da Liga. Aparentemente, o herói esmeralda havia provocado explosões que permitiram a fuga dos malfeitores, de modo que é montado uma espécie de tribunal marcial no qual o Batman e o Superman servem como juízes. A partir daí, cada membro relata a sua versão dos fatos — e, no desfecho, temos o depoimento do próprio Arqueiro.

O Arqueiro é acusado de traição. 


O responsável por arquitetar a união dos vilões era um sujeito chamado Monty Moran, um mestre das fugas cujas habilidades devem ter desafiado a imaginação de Gardner Fox. Ele decide escapar utilizando um pequeno balão de hélio equipado com uma gôndola minúscula criada a partir de uma caixa de fósforos, algo que é visto pelos policiais como um mero brinquedo de criança. Mas como vários homens adultos conseguiriam caber em um brinquedo daquele tamanho?

“Como prisioneiro de boa conduta, Moran tinha acesso ao laboratório da prisão, onde, usando sucata e miudezas, ele inventou um raio encolhedor”, explica o texto analítico da edição.

Os vilões fogem num balão de brinquedo. 


Essa mistura peculiar de criatividade lúdica, fantasia científica e verossimilhança levada ao seu extremo mais absurdo era o puro suco da DC dos anos 1960, residindo aí boa parte da magia da editora.

O problema real da edição estava nos clichês e nos padrões redundantes que, repetidos exaustivamente a cada mês, tornavam a publicação um tanto tediosa. Temos aqui, por exemplo, a clássica divisão da Liga da Justiça em pequenos subgrupos, como se naquela época fosse narrativamente impossível conceber o grupo inteiro contrapondo uma ameaça de forma unificada.

Os vilões criam armadilhas inventivas. uma forma de criar conflito sem cenas de violência. 


O outro grande chavão eram as armadilhas mirabolantes, provavelmente um resquício direto das diretrizes do Comics Code Authority — o órgão de censura dos quadrinhos norte-americanos — e de sua severa imposição para se evitar cenas de violência explícita. Assim, em vez de atacarem os heróis diretamente, os vilões criavam engenhos complexos de captura; e, em vez de agredirem fisicamente os vilões, os heróis gastavam páginas escapando dessas armadilhas. Vale lembrar que, nesse mesmo período, a Marvel de Stan Lee e Jack Kirby já publicava histórias revolucionárias nas quais os heróis trocavam sopapos logo no primeiro encontro.

Gardner Fox cria uma nova trama e esquece a anterior. 


Quando finalmente o mistério é revelado e descobre-se que o Arqueiro Verde queria, na verdade, salvar a Liga da Justiça, surge uma nova ameaça — e aqui deparamo-nos com outro problema estrutural da história. O novo perigo é introduzido por um vilão chamado Doutor Destino (Doctor Destiny – não confundir com o personagem da Marvel), que se disfarça de Lanterna Verde (não dá para compreender exatamente o motivo, já que a troca de identidade não faz diferença real na trama) e imobiliza o grupo de heróis com um "raio gravitron" que, simultaneamente, roubava a força de vontade das pessoas atingidas. Ao iniciar esse novo arco de perigo, Gardner Fox simplesmente esquece a trama anterior dos vilões fugitivos, deixando o enredo inicial como uma incômoda ponta solta na história.

domingo, outubro 18, 2026

Buggy a jato

 


Como era uma TV nova, a Manchete tinha que se contentar com os enlatados que nenhuma outra rede de TV já tinha os direitos. Foi assim que passaram o obscuro desenho Buggy a jato (Ricket Rocket no original).

O desenho é focado em um quarteto de adolescentes afro-americanos que atuam como “detetives”. Para ajudá-los eles criam, de sucata, um foguete que vive caindo aos pedaços. A semelhança deste com um buggy fez com que o pessoal da Manchete resolvesse batizar o desenho de Buggy a jato. Embora fosse extremamente covarde, o Buggy era geralmente quem conseguia tirar os adolescentes das frias nas quais eles se metiam.

No episódio “O mistério dos avisos” os protagonistas estão passando as férias em um asteroide quando aparece um alienígena gigante que exige que todos saíam do asteroide. Os “detetives” resolvem enfrentá-lo, no que o Buggy comenta: “Vão vocês, eu fico assistindo daqui”.

O alienígena usa estátuas e pedaços de pedra para criar monstros, que acabam sendo derrotados pelas crianças. Quando o prefeito do local pergunta se eles são detetives, Cosmo, o líder da turma, responde: “Sim, somos os melhores da galáxia”, no que o Buggy discorda: “Não, Cosmos, tem uma porção de outros”, e começa a listar diversos outros melhores.

Criado pela Ruby-Spears Productions, Buggy a jato parecia um Scooby-doo pouco inspirado, tanto que durou apenas 16 episóidos. Uma curiosidade: os donos da produtora tinham sido roteiristas da Hana-barbera e ajudado a criar Scooby-doo, o que mostra que em algum momento eles perderam a mão para esse tipo de história.

Demolidor contra o Dentes de sabre

 


No início de sua atuação no título do Demolidor, a roteirista Ann Nocenti estava nitidamente testando possibilidades. Afinal, substituir Frank Miller no título era um fardo e tanto. “Pressumi que as pessoas odiaram qualquer coisa que eu fizesse”, declarou ela.

Essa insegurança sobre que caminhos seguir fica bem nítida no número 238 de Daredevil.

Na história, o Dentres de Sabre está morando nos subterrâneos de Nova York e sequestra uma garota. Como ouve que o Demolidor é o defensor daquela região, ele decide enfrentá-lo.

O roteiro usa a briga entre vilão e herói como uma metáfora da violência instintiva. 


A motivação é fraca, mas é usada pela roteirista para abordar a questão da violência selvagem, instintiva. Esse mote fica claro logo no início da história, quando dois cachorros brigam num beco por um resto de comida. E, mais à frente, quando um gato caça um rato, mas não sabe o que fazer com ele. “Quando animais se tornam domesticados demais ou vivem num lugar artificial como esta cidade, eles ficam isolados demais da natureza de seus instintos. Ele anseia pela caçada, mas nunca vai saber por quê”, explica um homem a respeito dos gatos.

Assim, o arranca-rabo entre super-heróis era apenas uma desculpa para falar de outras questões, uma abordagem que Nocenti exploraria mais e com mais propriedade em histórias futuras.

O dólar furado

 


Não há como falar em faroeste espaguete sem falar em O dólar furado, filme de Giorgio Ferroni estrelado por Giuliano Gemma, lançado em 1965 (mesmo ano de Por uns dólares a mais, de Sérgio Leone).

O filme já nos prende desde a abertura, com uma animação com a trilha sonora genial de Gianni Ferrio. Os créditos vão passando enquanto pistoleiros duelam e portas de sallon se abrem e fecham, em perfeita sintonia com a música. Sério, se a abertura não te conquistar, nada mais irá fazê-lo.

A trama ocorre pouco depois da Guerra Civil Americana e é focada em um ex-soldado sulista, Gary O'Hara, cujo irmão resolve ir para o oeste tentar a sorte, já que a perspectivas no sul não são das melhores. Os irmãos combinam de se encontrarem tempos depois, em uma cidade na fronteira do oeste chamada Yellowstone.

Chegando em Yellowstone, Gary descobre que o preconceito contra sulistas é imenso em decorrência de um grupo de bandidos que pratica seus assaltos com uniforme do exército confederado. Apenas o homem mais rico da cidade, McCoy, o contrata para um serviço. Ele deve entrar no sallon desarmado e dar voz de prisão para um suposto bandido chamado Black Jack. No meio dos acontecimentos, ao olhar, no espelho, o protagonista descobre que Black Jack é ninguém menos que o seu irmão, Phill. Mas é tarde demais: Phil vira-se e atira nele e os homens de McCoy o matam alegando estarem defendendo um homem desarmado.

Os dois corpos são entregues a um casal de sulistas para que os enterrem em algum lugar, mas os mesmos descobrem que Gary sobreviveu graças a uma moeda de um dólar que parou a bala  - é o dólar furado do filme e um amuleto do herói.

Agora Gary O´Hara está de volta para se vingar do homem que provocou a morte do irmão. Mas a situação se complica quando a esposa dele vai até Yellowstone e é aprisionada pelos vilões.

Este é um faroeste italiano e a estética é suja, assim como a história. Nada de heróis limpinhos que sequer se despenteiam durante uma briga. Gary apanha muito, fica às portas da morte. A sequência em que ele é preso em uma cerca pelos vilões impressiona não só pela crueza, mas por ser um show de narrativa, principalmente pela sequência da reviravolta. É um ótimo exemplo, aliás, de como usar o movimento de câmera para contar a história.

Talvez uma das razões pelas quais o faroeste espaguete tenha feito tanto sucesso é que nele nós realmente acreditamos que o mocinho está de fato correndo perigo de morte, o que faz com que sua vitória final se torne ainda mais catártica, o que de fato ocorre aqui.

Clássico dos clássicos, O dólar furado figura entre os grandes do gênero.

A flor de vidro

 


Em 1995, George Martin, autor de Guerra dos Tronos, era um desconhecido no Brasil. A apresentação de sua novela a flor de vidro, publicada na revista Isaac Asimov Magazine 4, dizia o seguinte: “George R.R. Martin escreveu vários episódios de Além da Imaginação e um conto seu, publicado em 1985, ganhou um dos prêmios nébula daquele ano e concorreu ao oscar da ficção científica, o troféu Hugo”. Ou seja: era só mais um autor publicado pela revista. Entretanto, sua novela ganhou destaque na capa e abriu a revista, reflexo direto da qualidade da narrativa.
Martin propõe uma trama interessante: um jogo da mente. Três jogadores disputam como prêmios corpos de três prisioneiros. Se forem vencendores, ganham o novo corpo. Mas os jogadores podem também disputar entre si – nada impede, por exemplo, que um assuma o corpo do outro. Da mesma forma, os prisioneiros podem escapar ilesos, ganhando a liberdade.
A narradora é a Sábia, a mestra responsável por comandar o jogo, que se vê diante de uma situação inusitada quando um androide resolve participar. O androide que afirma ser um lendário herói espacial.
A narrativa de Martin é minunciosa, focada principalmente na caracterização dos personagens e na construção lenta da trama (características também fundamentais em Guerra dos Tronos). Há também as elipses, momentos não contados da trama, que o leitor deve deduzir, outra característica dos livros sobre Westeros.
Há também um forte tom alegórico, a começar pela flor de vidro do título, que torna-se um símbolo de toda a discussão por trás da trama.
E, claro, uma referência óbvia: a coisa toda parece um enorme RPG.

Kazar – somente para seus olhos


Kazar era um personagem de terceiro escalão da Marvel. Mas conquistou uma legião de fãs no Brasil ao ser publicado pela editora Abril dentro da revista do Homem-Aranha.

Boa parte da responsabilidade sobre isso era da equipe criativa formada por Bruce Jones no roteiro e Brent Anderson no desenho.

Exemplo da sintonia da dupla é a história Somente para seus olhos, publicada no número 6 da revista.



A história inicia com uma ótima sequência: Shanna está dormindo e a imagem vai se aproximando cada vez mais de seu rosto até focar num close de seu olho aberto espantando. O texto diz: “Todo seu corpo treme! O frio é muito intenso e suas pernas ameaçam desfalecer! De repente, Shanna percebe porque a montanha de seus sonhos brilha como alabastro... porque o chão, o céu e o ar ao seu redor estão cheios de flocos brancos e cintilantes de... neve!”. Segue-se uma sequência em que a garota acorda seu amado para mostrar a neve que envolve toda a Terra Selvagem, apenas para descobrir que é um tudo um sonho.



Essa pequena sequência serve tanto para estabelecer a relação entre os personagens quanto à perturbação cognitiva da personagem depois de ter passado pela máquina de transferir mentes. A máquina, na verdade, a colocou em contato com um sobrevivente de Atlândida, cujo corpo foi guardado em criogenia. Este se apaixona por Shanna e oferece a ela uma vida de imortalidade.

Em meio a esse conflito pessoal, surgem também conflitos físicos: um escorpião gigante e um pterodátilo.

No final, a dupla Bruce Jones e Brent Anderson consegue criar uma história simples e tocante.

No Brasil essa história foi publicada em Homem-aranha 17, da editora Abril.

Encantado

 


A princípio minha colaboração com a revista Causos do meio do mundo 2 era para ser com roteiro para apenas uma história. Mas conversando com a Natália Muniz, ela, que não ia desenhar nenhuma HQ, acabou se empolgando. Eu tinha gostado muito do quadrinho Jaguadarte, em especial da forma impressionante como ela tinha desenhado a cobra que ataca a tribo indígena, e sugeri que ela seria a pessoa ideal para desenhar uma história do Cabano.

Assim nasceu Encantado, uma HQ que reconta o mito das cobras Norato e Caninana.

Na história, o Cabano está em um bar quando um desconhecido lhe oferece pinga e narra a história das duas cobras abandonadas logo após o nascimento que se transformam em cobras gigantes de personalidades opostas: uma boa e uma má. A missão do Cabano será livrar Norato do encamento que o transformou.



Quando a Natália me enviou os primeiros esboços, fiquei impressionado, especialmente com a segunda página, que mostra as duas cobras em plena luta. A cena era grandiosa e captava perfeitamente o clima de terror da história.

No meu roteiro eu havia proposto que o corpo de uma cobra percorresse as páginas, com o rabo na primeira página e a cabeça na última. Natália fez isso tão bem que no final, o resultado da diagramação ficou melhor do que eu esperava.

Se em trabalhos anteriores, Natália se revelava uma artista promissora, aqui vemos ela em plena maturidade artística. Embora atualmente seja conhecida apenas no Amapá, não duvido que em breve a veremos concorrendo e até vencendo prêmios nacionais.



Em tempo: a revista Causos do Meio do Mundo pode ser adiquirida ao preço de 25 reais pelo e-mail jvggaia@hotmail.com.

As aventuras do Capitão América - Sentinela da liberdade

 

Publicada pela editora abril em 1992, As aventuras do Capitão América ia na contramão da maior parte do que se fazia na época – na chamada era Image. Com desenhos de Kevin Maguire e texto de Fabian Nicieza, a minissérie em quatro partes usava um estilo vintage para contar as primeiras aventuras do sentinela da liberdade.
O clima de matinê já era evidente desde as capas, com imagens em preto e branco como se fossem frames de cinema e chamadas espetaculares: Ação! Romance! Drama!
Nicieza trabalha muito bem os diálogos. 


O desenho de Maguire é perfeito para a proposta da série, com destaque para as expressões faciais dos personagens e diagramação que lembra a era de ouro (com quadros redondos, por exemplo).
Por outro lado, o texto de Nicieza não decepciona. Diante de um excelente narrador gráfico, como Maguire, seu texto poderia se tornar redundante, mas, ao contrário, seus diálogos são inspirados, com destaque para a caracterização de Bucky.
Boa parte do charme da série se deve à habilidade de Maguire com expressões faciais. 


É curioso que nessa onda de republicações e encadernados, nenhuma editora tenha pensado em trazer de volta essa história. 

sábado, outubro 17, 2026

A mulher-rei

 

A mulher-rei, filme dirigido por Gina Prince-Bythewood e estrelado por Viola Davis parte de uma situação real.

De fato, no século XIX, existiu no reino de Daomé, atual Benin, um grupo de guerreiras invencíveis, verdadeiras amazonas da África, chamadas de agojie.

A história inicia com uma incursão das agojie para libertar pessoas do reino de Daomé aprisionadas pelo império Oyo para serem vendidas como escravas.

O ataque é liderado por Nanisca, interpretado por Viola Davis. O protagonismo da história, entretanto, se equilibra entre Nanisca e Nawi, uma garota que, após atacar o velho que deveria ser seu noivo, é entregue por seu pai no castelo para se tornar uma guerreira. A história de Nawi mostra como participar das agojie poderia ser a única oportunidade de ascenção social para muitas mulheres, assim como a única forma de escaparem de um destino de eterna submissão. No castelo, onde são treinadas as agojie, só podem entrar mulheres e eunucos, de forma que ali se torna um local governado por mulheres.

Há um outro fato interessante: os habitantes de daomé cultuam um casal de gêmeos, o que faz com que todos os principais cargos, de general a rei, tivesse uma contraparte feminina.

Tudo isso é mostrado de forma muito competente no filme. Além disso, a trama envolvente: Nawi lutando para provar seu valor como guerreira e Nanisca busca de vingança contra o homem que no passado a aprisionou e a estuprou repetidas vezes. No final, descobre-se que o destino das duas é intimamente interligado.

O trailer, focado principalmente na ação, pode dar a entender que esse é o clima do filme, o que  não é verdade. Há um bom equilíbrio entre cenas de ação e cenas de desenvolvimento, com uma forte caracterização de personagens. Aliás, as cenas de ação merecem destaque em qualquer resenha. Os combates ganharam uma coreografia crua, brutal, que destaca bem a sanguinolência da guerra.

Em tempo: embora seja baseado em fatos reais, A mulher rei não é totalmente fiel aos fatos históricos. O filme inclui um forte discurso anti-escravista quando na verdade, as próprias agojie foram elemento importante no aprisionamento de escravos que seriam vendidos pelo reino de Daomé para traficantes. Mas ficção é ficção, e não história. O importante é produzir uma obra que envolva e faça o expectador acreditar naqueles fatos que são mostrados na tela, o que de fato acontece nesse filme.

O roteiro para quadrinhos e o cavalo dançarino

 

Nat Muniz parece ter nascido para desenhar temas regionais e em especial cobras. 

Alan Moore conta que, quando era criança, ficou fascinado com um show em um circo em que um músico tocava um violino e um cavalo dançava. O cavalo parecia ter sido tão bem adestrado que acompanhava o ritmo da música: se o violnista tocava mais lentamente, ele fazia movimentos mais lentos, se acelerava, o cavalo acelerava também.

Já adulto, ele descobriu que o que acontecia era exatamente o contrário. O músico ensinara o cavalo a dar alguns pulinhos – e só isso. Na verdade, era o violinista que acompanhava o ritmo dos movimentos do cavalo.

Segundo Alan Moore, o que acontece na relação entre o roteirista e o desenhista é exatamente assim. Parece que o roteirista está ditando tudo e o desenhista se adaptando ao roteiro, quando na verdade está acontecendo o contrário: o escritor está adaptando o roteiro ao desenhista. Para isso, é essencial que o roteirista saiba com quem está trabalhando e quais as suas maiores qualidades.

A história do Astronauta tinha tudo que o JJ Marreiro gostava de desenhar. 


Eu cheguei a ver o primeiro roteiro que Moore escreveu para o compadre Joe Bennett no título Supreme. Logo no início vinha uma observação: “Joe, eu percebi que você adora desenhar prédios expressionistas, então vamos colocar muitos nessa história”.

Quando escreveu uma história do Arqueiro Verde, para Klaus Jason, Alan Moore aproveitou ao máximo a capacidade desse desenhista, que durante anos foi arte-finalista de Frank Miller no Demolidor, para ambientação urbana. A história é repleta de prédios nos mais diversos ângulos.

Escrever um bom roteiro começa por conhecer o desenhista e saber no que ele é bom e aproveitar isso na história.  Já repararam que alguns dos melhores, senão os melhores trabalho de muitos desenhistas, foram realizados com Alan Moore?

A história de Moore para Klaus Jason aproveitava ao máximo a ambientaçã urbana.


Essa estratégia não só tira do desenhista o que ele tem de melhor como também faz com que ele se empolgue ao desenhar a HQ.

Um exemplo pessoal. Quando fui convidado a escrever uma história para o álbum MSP+50, em homenagem a Maurício de Sousa, fiquei muito feliz, e mais feliz ainda ao descobrir que seria desenhada pelo grande amigo JJ Marreiro, cujo trabalho admiro muito.

Entretanto, o peso da camisa, como se diz no futebol, acabou virando um problema. A responsabilidade de desenhar para um álbum tão importante fez o JJ travar. Eu escrevi dois roteiros e ele não desenhava.

Muitos diálogos e diagramação diferenciada na história para Kaic. 


Resolvi a situação usando a dica de Alan Moore sobre o cavalo dançarino: escrevi um novo roteiro colocando na história tudo que o JJ mais gosta. Assim, na história, o Astronauta encontra um apetrecho alienígena, a máquina do talvez, que mostra o que ele seria se não fosse um cosmonauta. Em uma versão ele era um cowboy, em outra versão um detetive ao estilo Sherlock Holmes etc...

Como sei que JJ Marreiro adora esses personagens clássicos, sabia que ele adoraria o roteiro e foi isso que aconteceu. Ele se divertiu tanto desenhando a história que acabou esquecendo a responsabilidade que era fazer um trabalho em homenagem aos 50 anos do Maurício de Sousa.

Isso, entretanto, não significa manter o desenhista numa zona de conforto. A partir daquilo que ele gosta de fazer, podemos propor inovações, algo que ele não está acostumado a fazer.

Mais uma página de Nat Muniz, só porque eu gostei muito. 


Recentemente, fui convidado a escrever roteiros para a revista do coletivo AP Quadrinhos e analisei o estilo das pessoas que iriam ficar responsáveis por desenhar minhas histórias. Também conversei com eles.

No caso do Kaic percebi que ele gosta de mostrar personagens, cenas de diálogos. Percebi também que havia abertura para uma diagramação mais arrojada. Fiz um roteiro que envolvia principalmente diálogos e estimulava uma diagramação inovadora. O resultado surpreendeu e me pareceu inclusive acima dos trabalhos anteriores dele.

No caso da Nat Muniz, eu tinha ficado impressionado com uma produção anterior dela, o fanzine Jaguadarte. Esse trabalho mostrou que o traço dela funcionava muito bem para temas regionais e ela parecia ter se esmerado ao desenhar a cobra da história. Assim, fiz um roteiro sobre a cobra grande e o resultado foi impressionante, especialmente a cena com a luta das duas cobras. Dá para perceber que ela curtiu muito fazer aquela sequência, tanto que foi a primeira que ela arte-finalizou. Eu comentei com ela: “você nasceu para desenhar cobras”.

Usar a tática do cavalo dançarino, além de ser uma consideração aos desenhistas, oferece um terreno fértil para que para que eles possam expressar aquilo que têm de melhor.