sexta-feira, maio 29, 2026

Experiências e livros

 Monteiro Lobato já disse que um país se faz com homens e livros. Da mesma forma, um homem se faz de experiências e livros. Não há formação intelectual que não passe pela leitura.

O convite para integrar o especial "Biblioteca Básica" do site Digestivo Cultural me fez pensar em todos os livros que, de uma maneira ou de outra, ifluenciaram minha formação.
O mais remoto deles, parece-me, é pouco conhecido da geração atual. Mas fez as delícias de todos os jovens devoradores de livros da década de 80. Falo de Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida, publicado na época na coleção Vaga-lume.


Esse foi o primeiro livro que li (não estou contando os pequenos livros infantis dos quais guardo poucas lembranças). Devia ter algo em torno de 10 anos. Pode parecer uma discrepância eu ler meu primeiro livro aos 10 anos, mas há de se considerar que eu cresci em uma família pobre, na qual livros eram um luxo supérfluo.
Só consegui convencer minha avó a me dar o dinheiro para esse livro porque ele ia ser utilizado na escola. Na época vivíamos na pequena cidade de Mococa, no interior de São Paulo.
Eu mesmo fui à livraria, no outro lado da cidade e comprei o livro. Antes que o dia terminasse eu já o tinha lido inteiro. No dia seguinte, dia de frio, coloquei uma cadeira no quintal e, enquanto tomava um sol, li pela segunda vez.
Uma semana depois a professora iniciou a leitura em sala de aula, mas o rapaz responsável por ler o primeiro capítulo não havia nem mesmo aberto o livro. “Alguém já leu o livro?”, perguntou a professora. Eu levantei a mão: “Já li cinco vezes, professora”. Li tantas vezes que decorei. Os colegas me desafiavam lendo um trecho e eu, invariavelmente, conseguia dizer a página na qual aquele trecho estava. 
Aventuras de Xisto influenciou meu gosto pela história, especialmente pela história medieval. O clima sombrio e fantasioso também influenciou muito minha literatura. Minha novela O Anjo da Morte é uma espécie de Aventuras de Xisto para adultos. Gostaria de dar destaque também para as ilustrações do livro, de autoria de Mário Cafiero. Sempre imaginei ter uma história desenhada por ele.


Depois disso, eu não tinha mais como convencer minha avó a comprar outros livros e só fui voltar a ler uns quatro anos depois, quando descobri a biblioteca pública e os sebos. Foi época de conhecer Monteiro Lobato.
Não houve um livro específico que tenha me influenciado. Nessa época lia tudo que me chegava às mãos do autor paulista. Curiosamente, li primeiro sua literatura adulta, depois a infantil. Na literatura adulta, Urupês é sem dúvida a obra-prima. Lobato estava menos preocupado em fazer literatura e mais em causar uma impressão no leitor. Lembro que a primeira vez que li me pareceu um livro de terror... Da literatura infantil, História do mundo para crianças é, certamente, a obra que li mais vezes. Lobato era uma dessas inteligências enciclopédicas, que escreviam sobre tudo e em tudo deixavam um gosto delicioso.


Mais ou menos por essa época, tinha um amigo que colecionava a revista Heróis da TV e descobri um sebo que as vendia por um preço irrisório. Eu comprava as revistas e as vendia pelo dobro do preço, e assim conseguia dinheiro para comprar minhas próprias revistas. Antes de vender as revistas, eu passava o final de semana lendo. Só muito tempo depois fui perceber o quanto essas leituras me influenciaram, especialmente as histórias do Mestre do Kung Fu, de Dough Moench (roteiro), Paul Gullacy e Mike Zeck (desenhos).

1984, de George Orwell, foi a leitura que mais influenciou o período da universidade. Quando já estava no final do livro, fui comprar adubo para minha avó (que adora plantas). Como o troco demorasse, encostei no balcão e comecei a ler. Só sai de lá depois de ter lido a última palavra, para espanto dos balconistas. 1984 é um livro que deixa uma marca em quem o lê. É impossível sair dele o mesmo.
Também da época da Faculdade, O Nome da Rosa, de Umberto Eco foi um livro que prendeu minha atenção. Às vezes desconfio que só gostei tanto dele porque a ambientação era quase a mesma de Aventuras de Xisto. Em todo caso, li-o três vezes. Na primeira, o que mais me chamou atenção foram os detalhes sobre a história da Idade Média. Na segunda, os aspectos relacionados às teorias da comunicação (especialmente semiótica e teoria da informação). Na terceira, eu já estava mais interessado em detectar as influencias de Jorge Luís Borges sobre a obra.


Chegamos em Borges. O que mais me marcou no autor argentino não foi um livro, mas um conto: "O Aleph". O texto parecia uma versão literária de meus estudos sobre teoria do caos. A partir daí comecei a devorar tudo que me caía as mãos sobre o autor portenho. 
"O Aleph" me foi emprestado por um colega de redação na Folha de Londrina. Foi também ele quem me emprestou Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury. Eu já havia lido Farenheith 451, mas esse parecia uma versão menor de 1984, de Orwell. Crônicas Marcianas tinha vida própria e fez com que eu me interessasse pela literatura de ficção científica norte-americana.
De Bradbury para Isaac Asimov foi um passo. Além das histórias de robôs, sempre me fascinaram seus textos de divulgação científica. Asimov produziu um verdadeiro tijolo, Cronologia das descobertas cientificas, que foi meu livro de cabeceira durante o mestrado.
Uma história em quadrinhos que mudou a minha forma de ver o mundo foi Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Moore virou de cabeça para baixo os comics norte-americanos ao mostrar os super-heróis de uma perspectiva realista. Histórias de heróis cuja vestimenta é uma fantasia sexual se misturam com casos de personagens que deixaram escapar bandidos porque precisavam ir ao banheiro. Pode parecer humorístico, mas a perspectiva não era essa. Moore realizou uma obra profunda sobre a condição humana em meio ao caos. O subtexto baseado na teoria do caos e na geometria fractal passou despercebido pela maioria dos leitores e só se tornou corrente no Brasil após o meu trabalho de conclusão de curso de graduação.


Já que falamos em teoria do caos, Caos: a criação de uma nova ciência, de James Gleick, é outro livro que exerceu grande influência sobre mim ao me mostrar o poder desse novo paradigma para explicar fenômenos não deterministas. Fenômenos deterministas são aqueles que seguem um padrão fixo, como um relógio. Para a ciência clássica, todo o universo era determinista. A teoria do caos demonstrou que esse modelo do universo como um relógio não corresponde à realidade. A maioria dos fenômenos, por mais determinados que pareçam, podem mudar de comportamento de uma hora para outra em decorrência de pequenas alterações, chamadas de efeito borboleta.
A teoria do caos foi uma das bases da teoria de Edgar Morin. Esse autor francês produz tanto que é quase impossível destacar um livro mais importante. Ciência com consciência, Sete saberes necessários à educação do futuro e A Cabeça bem-feita são alguns dos mais famosos. Morin defende uma nova visão de mundo, diversa daquela inaugurada por René Descartes, segundo a qual, para conhecer algo, é necessário dividir esse algo em pequenas partes e estudá-las um a uma.
Para Morin, as partes não podem ser vistas senão em sua relação com o todo. A teoria do caos demonstrou que tudo está relacionado. Uma pequena borboleta batendo suas asas na China pode desencadear uma série de eventos que redundam em uma tempestade em Nova York.
Morin critica a fragmentação dos saberes e defende uma ciência que vê as coisas em suas relações com outras coisas. Pensando bem, isso tem tudo a ver com a filosofia oriental que aparecia nas páginas das histórias em quadrinhos do Mestre do Kung Fu. Talvez tudo esteja mesmo interligado.

Os 7 de chicago

 

Em 1968 a Guerra do Vietnã se tornara extremamente impopular. Grupos tão diversos quanto objetores de consciência, os panteras negras e hippies resolveram aproveitar a convenção do partido democrata na cidade de Chicago para mobilizar uma grande manifestação. A polícia repreendeu duramente o protesto e oito pessoas foram presas: Abbie Hoffman, Jerry Rubin, David Dellinger, Tom Hayden, Rennie Davis, John Froines, Lee Weiner e Bobby Seale.  O grupo foi acusado de conspiração e ficou conhecido como os 7 de chicago. 

É a história desse julgamento histórico (o lema dos protestos na frente do tribual eram “O mundo está assistindo”) que o diretor Aaron Sorkin relata no aguardado filme da netflix.

Existem muitos filmes de tribunais nas mais variadas abordagens. Entrentato, nesse gênero tão surrado que já gerou algumas obras-primas e muitos filmes meia-boca, Sorkin inova pelo uso de uma edição rápida e trilha sonora da época.

O final dos anos 60 era quando tudo estava acontecendo e tudo estava mudando. Foi quando o rock tomou conta do imaginário popular norte-americano. “Os tempos estão mudando”, cantava Bob Dylan, e o filme reflete isso desde a primeira cena: uma rápida sequência dos acusados se preparando para ir para Chicago e falando sobre suas intenções. A edição faz com que cada um complete a fala do outro.

Quando os vemos novamente, eles estão no tribunal e tudo que aconteceu antes é mostrado na forma de flash backs puxados pelos depoimentos ou pelas lembranças dos acusados – a mais recorrente delas  a dos policiais tirando suas credenciais antes de atacar os manifestantes.

E trata-se de um julgamento completamente manipulado, em que o juiz nitidamente já tinha condenado os réus e chega ao ponto de mandar algemar, amordaçar e prender à cadeira um dos réus (que não estava sendo defendido por advogado) e a dispensar jurados que se mostrassem favoráveis aos réus. O filme mostra isso sem resvalar no dramalhão (ao contrário, é um filme divertido, engraçado) ou mesmo no maniqueísmo (as cenas de disputas entre os réus, que representam grupos diferentes são importantíssimas).

O filme, portanto, não só é bom, mas também tem um dos melhores finais que já vi num filme de tribunais.

Homem-Aranha – Nas garras do Lagarto

 

O Lagarto é um vilão surgido nas primeiras histórias do aracnídeo, ainda na fase Steve Ditko. Um personagem que ficou no limbo por muito tempo, até ressurgir em The Amazing Spiderman 44.

Na história, Peter Parker deixa sua tia na estação de trem, onde ela irá seguir numa viagem de descanso recomendado pelo médico. Mas na mesma estação está o Dr. Connors, que espera a esposa. Mas a espera é interrompida por sua transformação no Lagarto. Claro que caberá ao cabeça de teia impedir que o vilão realize seu plano de extermínio da humanidade.

A arte de John Romita já se destacava... 


Alguém já disse que a maioria dos vilões do aranha não existiria se consultasse com um psicólogo. De fato, o Lagarto é oposto do Dr. Connors, enquanto aquele é compassivo e tem como objetivo ajudar a humanidade, o Lagarto é um ser sem compaixão que acha inclusive que deve se vingar do seu alter-ego. Seria um caso de dupla identidade? Alguém já explorou essa possibilidade?

Algo que salta aos olhos nessa trama, que se estendeu até o número seguinte, é a arte impressionante de John Romita. Nessa época ele ainda imitava Steve Ditko (Romita achava que inevitavelmente Ditko voltaria ao título – o que não aconteceu) e limitava sua arte a uma diagramação apertada, muitas vezes com nove quadros por página. Mas mesmo assim já era possível  ver ali a arte refinada de um dos melhores desenhistas dos quadrinhos americanos de todos os tempos.

... embora nessa fase ele ainda imitasse Steve Ditko. 


Ditko poderia ser um grande narrador gráfico, mas Romita era um mestre do desenho – e isso pode ser visto na sequencia inicial, da estação de trem. A primeira página mostra de um lado Parker e a Tia May indo na direção do trem e, do outro, o doutor olhando para a mão semi-transformada, sendo assombrado pela imagem do lagarto. Aqui romita dá um show e mostra o grande fisionomista que era, além de mestre da composição.

E a dupla parecia afinada. Se romita fazia quadros impressionantes, Stan Lee conseguia criar sequencias interessantes de heroísmo e, ao mesmo tempo, de interação entre os jovens – embora ele pudesse ser mais econômico nos diálogos, dando mais espaço para a arte.

Os diálogos eram afinados, embora excessivos. 


Stan Lee nitidamente estava se divertindo. Na segunda parte da história, publicada no número 45 a revista, ele deixa os balões de um quadro em branco e acrescenta o texto: “Mais uma medida inédita da Marvel. Sabendo quão talentosos são nossos leitores, vamos deixar esse quadrinho com balões em branco para você escrever o diálogo de despedida se quiser. Também escolha a trilha sonora para tocar de fundo”.

A relação com romita deveria ser um alívio depois de todos os atritos com Steve Ditko.

Arsene Lupin – o ladrão de casaca

 


Em 1905, o editor da revista Je Sais Tout pediu ao escritor francês Maurice Leblanc que criasse um personagem para rivalizar com o britânico Sherlock Holmes.

Ao invés de criar um detetive, Leblanc, que era um socialista radical e livre-pensador, criou um sofisticado ladrão que enganava a polícia e conseguia realizar os roubos mais assombrosos, sem no entanto, matar ninguém. Sua inspiração foi o ladrão anarquista Marius Jacob, responsável por 150 assaltos que o fizeram famoso na França.

A primeira história já fugia do que era esperado ao mostrar a... prisão de Lupin!

Já nessa primeira história, o escritor descreve a fama de seu personagem: “O impecável ladrão de quem se contavam as proezas em todos os jornais há meses! A enigmática personagem com que o velho Ganimard, o nosso melhor policial, tinha iniciado um duelo de morte cujas peripécias se desenrolavam de modo tão pitoresco! Arséne Lupin, o ladrão de casaca que só operava nos castelos e salões e que, uma noite em que penetrara na casa do Barão Schormann, saíra de mãos vazias deixando seu cartão com essa tirada ‘Arséne Lupin, cavaleiro furtador, voltará quando os objetos forem autênticos’”.

O que destacava Lupin era sua inteligência e sua capacidade de se fazer passar por outra pessoa, como fica claro nesse primeiro conto. O sucesso foi tão grande que o editor pediu outra história, e outra e outra.

A editora Principis reuniu as primeiras aventuras do anti-herói no volume Arséne Lupin – o ladrão de casaca, um livro de 192 páginas com uma bela capa, que peca apenas pela falta de textos introdutórios.

Na antologia há contos realmente empolgantes, como “A fuga de Arsène Lupin”, que conta a maneira engonhosa como o personagem conseguiu evadir-se da prisão depois de ter sido pego graças à paixão por uma garota. É uma trama realmente bem elaborada, que mexe com as expectativas do leitor, apresentando mais de uma reviravolta. E que se destaca pelas hilárias sequências de humor. À certa altura, por exemplo, Lupin simula uma fuga (que tem como objetivo desnortear seus captores). Depois de passear por Paris, tomar um café, ele volta para a prisão e apresenta-se:

- É aqui o Santé?

- Sim.

- Desejava voltar à minha cela. O carro me abandonou no caminho e não desejo abusar...

Em outra história, Lupin engana a polícia e coloca dois agente para ajudá-lo a pegar de volta o que lhe foi roubado, numa história com fino toque de humor.

Outras histórias são previsíveis e até arrastadas, mas isso é compensado pela narrativa fluída de Leblanc.

Livro Jornalismo em Quadrinhos

 

Em Jornalismo em Quadrinhos, Gian Danton não apenas traça um histórico dessa área, mas também analisa as principais obras publicadas no Brasil e no mundo. Além do conteúdo servir como uma generosa introdução ao tema, o autor ainda traz os bastidores de diversas produções de Jornalismo em Quadrinhos feitas por ele mesmo.

Valor: 25 reais (frete incluso)

Pedidos: profivancarlo@gmail.com 

Liga da Justiça – A espaçonave dos escravos

 


Uma das estratégias mais curiosas do editor Julius Schwartz era produzir uma capa com uma situação inusitada e instigar seus roteiristas a bolarem uma história a partir daquela imagem. É o que acontece, por exemplo, no número 3 da revista da Liga da Justiça, em que o grupo aparece remando uma nave espacial no formato de barco e sendo comandado por um alienígena, enquanto a legenda anunciava uma "nave espacial de escravos", numa referência direta às galeras romanas.

O vilão força a Liga a combater seus inimigos. 


Na história, um ditador extraterrestre chamado Kanjar Ro aprisiona a humanidade com um raio paralisante e exige que a Liga o ajude a derrotar seus inimigos, governantes de outros planetas, como condição para que a humanidade seja libertada de seu estado de letargia. Individualmente ou em dupla, os heróis descem aos planetas desses governantes e os aprisionam.

Gardner Fox, o roteirista, era também escritor de ficção científica e tinha sólida base científica, que é demonstrada na história. A certa altura, por exemplo, o Caçador de Marte decide aprisionar um extraterrestre de metal usando um gancho de magnetita, mas tudo o que ele encontra no planeta é hematita. “Com minhas técnicas marcianas de transmutação, adicionarei um átomo de ferro e um de oxigênio à hematita... para obter magnetita!”.

Gardner Fox introduzia informações científicas no roteiro. 


Em outra sequência, Lanterna Verde e Flash são lançados ao espaço por um fragmento de terra coberto por fragmentos de enxofre. Como o enxofre é amarelo, isso impede que o Lanterna possa usar seus poderes.

Outro aspecto que chama atenção é o fato de todos os governantes extraterrestres serem tratados como vilões, mesmo aqueles que fizeram nada mais do que se defender de ataques.

Os heróis agem em duplas. 


Apesar de toda a criatividade e conhecimento científico de Gardner Fox, a padronização extrema da história a torna monótona. Os heróis sempre são quase vencidos, chegando a uma situação da qual não parece haver saída, para logo em seguida escaparem e resolverem tudo em poucos quadros. Além da repetição de situações, fica a impressão de que Gardner Fox se preocupava muito em desenvolver as tramas e se preocupava pouco com a resolução das mesmas.

Coelho ricochete e blaublau

 


Coelho Ricochete e blaublau é um desenho animado criado pela Hanna-barbera e exibido entre 1964 e 1966.

A história é centrada num xerife coelho que corre rápido a ponto ricochetear nos objetos (vindo daí o seu nome). Seu ajudante é Blaublau, um coiote com chapéu torto enterrado na cabeça. O humor da história surgia normalmente do contraste da dupla:  enquanto Ricochete é muito rápido, Blaublau é lerdo e azarado. Enquanto Ricochete tem os mais variados tipos de balas especiais, Blaublau quando atira, vê suas balas despencarem no chão (muitas vezes com paraquedas).

No episódio “O pistoleiro de dedos leves”, alguém joga um tijolo na janela da delegacia com um desafio: “Venha para a cabana dos bandidos e eu tirarei esse vento de sua barriga”. “Ainda bem que não é um inimigo”, comenta Blaublau. O coelho aceita o desafio e vai para a cabana, quebrando a parede da delegacia no processo (“Qualquer dia precisamos construir uma porta!”). Mas o desafio é apenas um estratagema para tirar o xerife da cidade e permitir que um ladrão roube o banco. E o bandido chega a avisar Blaublau, também na forma de um bilhete num tijolo. “Ah é?”, pergunta Blaublau. “Ah é!”, responde o bandido, através de mais uma tijolada.  

O grito de guerra do coelho, antes de entrar em ação se tornou célebre: "Bing-Bing-Bing! Coelho Ricochete".  

No total a série teve duas temporadas com 23 episódios de 7 minutos.

quinta-feira, maio 28, 2026

Howard, o pato

 

 

A década de 1970 na Marvel foi a era dos quadrinhos estranhos, fora da caixinha. A regra parecia ser “não há regra” – e eram muitas as experimentações. Surgiram desde quadrinhos sobre heróis espirituais, como Warlock, até quadrinhos sobre artes marciais (Mestre do Kung-fu). Até personagens clássicos, como o Dr. Estranho, tiveram aventuras que saiam completamente do comum – com o personagem contracenando com uma lagarta fumadora, por exemplo. Tudo isso capitaneado por uma geração de hippies que aproveitou ao máximo a abertura que a indústria de entretenimento estava lhes dando naquele momento.
Mas nenhum quadrinho foi tão revolucionário, tão fora da caixinha quanto Howard, o pato.
 O personagem surgiu como coadjuvante em uma aventura do Homem-coisa, escrito por Steve Gerber e desenhado por Val Maverick.
O monstro se envolvia em uma trama de encontros de realidades e – entre os personagens que surgiam estavam um bárbaro e um pato falante. Ao final da história, o pato simplesmente sumiu em meio às realidades, desaparecendo da história.
Seria o fim dele, mas os leitores gostaram do personagem e começaram a escrever para a Marvel pedindo mais histórias com aquele personagem. Roy Thomas, editor-chefe da editora na época, achava que o personagem não se sustentaria num título, mas Gerber garantiu que daria conta do serviço e o personagem ganhou uma segunda chance, primeiro na revista do Homem-coisa, depois com título próprio. O desenho ficou sob a responsabilidade de Frank Brunner (que havia ilustrada a fase mais lisérgica do Dr. Estranho) e depois de Gene Colan.
E eram aventuras absolutamente subversivas. Howard, depois que quicar em várias realidades, vem parar na terra, onde encontra uma linda moça que seria sua parceira e passa a viver suas aventuras enfrentando os tipos mais estranhos, a exemplo do Homem-nabo (vindo de uma espécie de vegetais agressivos que superaram os limites de suas raízes para se tornarem empreendedores galácticos), O Pestana (um artista com sonambolismo) e muitos outros.
Em uma das histórias, a dupla é vítima de uma gangue de valentões e Howard se torna mestre de Quac Fu em apenas três horas de treino!!! Aliás, essa é uma das aventuras mais divertidas, uma belíssima brincadeira homenagem ao personagem Shang Chi, da Marvel desenhada por John Buscema.
Howard não parava. Em um momento ele estava enfrentando um mágico contador espacial, em outro estava na cidade grande se deparando com uma velha gorda e adepta de teorias da conspiração, em outro estava num castelo vitoriano caindo aos pedaços enfrentando um monstro Frankstein feito de biscoito. Em outras palavras: era piração em cima de piração.
O ponto alto desse processo é quando o Partido Noturno resolve lançar Howard como candidato à presidência – e este passa a ser alvo de todo assassino profissional do país.
O personagem fez tanto sucesso que se tornou filme, uma película pouco inspirada que tinha pouco a ver com toda a subversão dos quadrinhos.

Amapaenses conquistam o troféu Mapinguari

 


Seu nome é Vito Cantuaria. Mas nos meio quadrinístico ele é conhecido como Icehito. Arista e designer da Universidade Estadual do Amapá, Icehito é também o ganhador do troféu Mapinguari na categoria Webquadrinho.

O artista conseguiu essa façanha com sua série Meio Período, que acompanha uma estagiária preguiçosa e esperta que sempre tenta se dar bem, mas acaba quebrando a cara por conta de seus chefes rígidos e de seus colegas excêntricos. “É feita no formato de tiras de quatro quadros fixos, algo feito tanto para acelerar a produção, pela rigidez do layout, quando como desafio pessoal, já que eu sempre peco em fazer histórias curtas, e manter Meio Período como tirinha ajuda a pensar como contar histórias em um espaço tão pequeno”, explica Icehito.



O quadrinista desenha desde criança e começou a se interessar por quadrinhos muito jovem como uma forma acessível de contar histórias. Influenciado pro animes e mangás, ele criou a série baseado nas próprias experiência e na dos colegas durante o estágio na Eletronorte.

As aventuras e desventuras acabaram encantando os jurados o prêmio Mapinguari, o que garantiu a Icehito a premiação na categoria.



“Um amigo meu, Nauta, me falou sobre o prêmio perguntando se eu ia me inscrever e eu disse que não sabia. Fui checar e, por impulso, acabei inscrevendo, mas completamente sem pretensão”, lembra o artista. “E aqui estou eu, podendo dizer que tenho um quadrinho premiado”.

Essa é a segunda vez que o Amapá leva o prêmio Mapinguari na categoria webquadrinhos. Em 2025, Thai Rodrigues foi premiada com a série Os desenhos da Thai.



Biblioteca de zines

Outra premiada com o troféu é Luana Góes. Ela ganhou como melhor subproduto graças à Bibliteca de Zines. A Biblioteca de Zines é uma plataforma código aberto que surge para oferecer um espaço para zines independentes do Brasil de forma digital. O projeto funciona através de um acervo gratuito e digital, com diversas produções disponíveis para leitura.

Idealizadora do projeto, Luana Góes é uma designer e multiartista de Macapá que tem gosto por misturar materiais e mídias para criar arte e narrativas em diferentes formatos, como zines, quadrinhos, ilustrações, pinturas e mais.. Em seu trabalho, explora a cultura, memória, textura, cores e mais do que vê e sente, a partir da sua perspectiva individual e coletiva, também como autista nível 1 de suporte.

“Esse prêmio marca a importância da valorização de projetos independentes, gratuitos e para comunidade”, garante Luana. .”Esse reconhecimento é um marco na nossa história, que mostra que estamos no caminho certo e valida que nosso trabalho tem alcançado lugares que nunca pensamos. Por isso, fiquei muito feliz e grata por todas as pessoas, aos votantes e ao público que abraçou o projeto. Me motiva muito a continuar juntando arte, zines, design e tecnologia em coisas legais, e continuar alcançando novos lugares com essa ideia!”. 

O prêmio

O prêmio Mapinguari foi criado em 2022 e organizado pelo portal Mapingua Nerd com o objetivo de  valorizar e dar visibilidade à produção de HQs no Norte do país, premiando o esforço de artistas independentes e editoras que narram as pluralidades da região.

“Alcançar todos os estados da Região Norte e mobilizar uma centena de artistas mostra que o Prêmio Mapinguari cumpre seu papel de descentralizar a produção nacional e dar voz aos criadores da Amazônia", afirma Sâmela Hidalgo, uma das organizadoras do prêmio.

Demolidor – Profecia

 


O número 215 da revista Daredevil trouxe uma versão curiosa do homem sem medo.

A história inicia com um xamã em frente a uma fogueira, aparentemente invocando algo. Ele diz: “Estas são as palavras dos espíritos de nossos antepassados... dois homens destemidos virão... serão guerreiros e homens da lei! Cem invernos separarão a vinda de cada um deles... mas unidos, eles combaterão a injustiça e devolverão a terra a nosso povo!”.

A splash page inicial é uma obra-prima. 


Da fogueira, sai a imagem de dois heróis. Um deles é o demolidor, o outro é uma figura vestida com uma roupa que lembra o primeiro uniforme do herói, mas com pistolas e chapéu.

A história mostra o cowboy misterioso salvando um garoto indígena, que está sendo atacado por vários cowboys. O garoto explica que os malfeitores estavam atrás de um mapa, que indicava o local onde estaria guardado um documento no qual o presidente dos EUA transformava o local numa reserva indígena. Mas um inescrupuloso empresário quer as terras para si. Quando chegam na cidade, uma surpresa: o garoto é preso pelo xerife acusado de atirar no malfeitor. É nesse ponto que o herói sob a máscara aparece: trata-se do advogado Matt Hawk, que defende o garoto e prova que a versão do fazendeiro é falsa.

A coloração monocromática ajuda a distinguir o passado do presente. 


A história dá um salto e vemos Matta Murdock acordando, o que nos leva a crer que tudo que foi mostrado antes era um sonho.

Em seguida ele é contratado por um empresário que é nada menos que o descendente do vilão do sonho. Mas, ao invés de ajuda-lo, Matt Murdock e o Demolidor irão, na verdade, ajuda a provar que a terra pertence aos índios.

Escrita por Denny O´Neil e desenhada por David Mazzucchelli, a história, intitulada Profecia é uma tremenda sacada.

O Demolidor acorda. Teria sido tudo um sonho? 


Existiu realmente um herói da Marvel chamado Defensor Mascarado que, em sua identidade secreta era advogado e de fato se chamava Matt Hawk.


Criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1948, é muito provável que ele tenha servido de inspiração para a criação do Demolidor. Afinal até os nomes dos alter-egos eram parecidos (Matt Hawk e Matt Murdock). Além disso, o uniforme do herói do faroeste tinha a mesa cor do primeiro uniforme do demolidor: preto e amarelo (embora invertido – no Defensor mascarado o amarelo era um colete).


O Demolidor e o Defensor: uniformes parecidos. 



O roteirista usa isso para criar uma teoria interessante: de que, de alguma forma os dois heróis, Defensor Mascarado e Demolidor, estavam interligados. Talvez um fosse a reencarnação do outro? Ambos são mitos que surgem a partir de algum tipo de inconsciente coletivo junguiano? Pena que isso não foi desenvolvido posteriormente.

Se o roteiro é interessante, o desenho é o que mais chama atenção. Mazzucchelli faz as sequências do passado com um traço repleto de retículas, em sequencias muitas vezes sem quadros, e coloração com tons de amarelo. O resultado é impressionante e diferencia completamente o passado do presente.

No Brasil essa história foi publicada pela editora Abril em Capitão América 90.

O alimento dos deuses

 


O alimento dos deuses é, injustamente, um dos livros menos conhecidos de H. G. Wells.

A trama gira em torno de dois cientistas que elaboram uma fórmula de crescimento (o tal alimento dos deuses) e das consequências dessa descoberta. Inicialmente eles criam uma fazenda modelo, onde pretendem experimentar a fórmula em frangos. Ocorre que os empregados contratados são relapsos, deixam o alimento aberto e a localidade sofre uma infestação de ratos e vespas gigantes, além das próprias galinhas, que se soltam do viveiro e ivadem a cidade.

Esse enredo original é a base de uma infinidade de obras, com destaque para os filmes com animais gigantes e pessoas gigantes e a destruição que eles provocam. Contando que Wells também é o pai das viagens no tempo através de mecanismos e das histórias de invasão alienígena, boa parte da ficção do século XX deriva de sua obra.

Mas O alimento dos deuses vai muito além. Algumas pessoas começam a dar o alimento para os filhos e surge uma geração de gigantes, com aproximadamente 12 metros de altura. É nesse ponto que o livro se torna uma vigorosa crítica social. Wells usa o enredo para refletir como as pessoas reagem ao novo e como o instinto reacionário é baseado no medo daquilo que é diferente.

Esse ponto já é entrevisto no trecho em que o prédio em que mora um dos inventores do alimento é depredado por uma multidão furiosa, mas ganha corpo quando foca nos filhos do alimento, os gigantes e a reação da sociedade a eles. “Reacionário? Quem não seria reacionário?”, diz um personagem à certa altura.

Esse ponto de vista é representado por um vigário de uma pequena localidade: “Pois estavam falando, ele e seu amigo, dos horrores da época, da democracia, da educação secular, dos arranha-céus, dos carros a motor, da invasão americana, da literatura barata popular e do desaparecimento de todo gosto”.

O ódio reacionário volta-se, no livro, contra os filhos do alimento, os gigantes. Ou estes são simplesmente subjugados, como acontece com o jovem Caddles, tornado gigante por conta do alimento levado pela empregada da fazenda, sua tia. Wells dá a entender que o garoto tem inteligência acima do normal, mas esta é sufocada pela situação em que é criado, sob a tirania do Vigário e e de Lady Wondershot. Os que não subjugados são simplesmente vítimas do ódio do normal a tudo que é diferente. “O grosso do povo está conosco. A lei está conosco, a constituição e ordem da sociedade, o espírito das religiões estabelecidas, os costumes e hábitos da sociedade estão conosco”, diz certo personagem.

Nesse sentido, o livro pode ser visto até mesmo como uma metáfora de todas as dificuldades que mentes revolucionárias, mentes que ousam agigantar cima do normal, encontram. Talvez fosse um desabafo do próprio H.G. Wells, ele mesmo um gigante de sua época.

Um lugar silencioso

 

 Todo filme de suspense depende sobremaneira da sonoplastia. Experimente assistir qualquer clássico do gênero sem som e verá o quanto a obra perde em impacto. Mas nenhum outro filme levou a questão da sonoplastia ao nível narrativo como Um lugar silencioso.

Na história, os humanos são perseguidos e mortos por seres praticamente invencíveis (não fica clara a origem deles). Mas as criaturas são cegas, orientando-se apenas pela audição.
Assim, acompanhamos a vida de uma família de sobreviventes e as estratégias usadas por eles para evitar qualquer tipo de barulho que possa aproximar chamar atenção das criaturas. Por essa razão, o silêncio domina quase toda a película – até mesmo os diálogos são em linguagem de sinais. Não há trilha sonora – exceto quando o casal de protagonistas está ouvindo música com fones de ouvido em um breve interlúdio romântico em meio à constante tensão.
O silêncio destaca ainda mais a sonoplastia a ponto do expectador se sentir tenso a qualquer mínimo barulho – e o que faz com que os sustos tenham efeito ainda mais aterrador.
O filme é tenso da primeira à última tomada e quando mal percebemos chegar ao fim tão envolvidos estamos com a história.
PS: Algumas pessoas que leram meu livro O uivo da górgona compararam as duas histórias – no meu livro o som tem papel semelhante, embora ali os monstros sejam os nossos já conhecidos zumbis.

Ajuricaba

 


Ajuricaba foi um líder indígena que, em pleno século XVIII, combateu os portugueses, chegando a dominar a região do Amazonas a ponto de se declarar governador do Rio Negro. Sua importância história é tão grande que sua tribo, os manao, deu origem à capital do Amazonas, Manaus.

É a história desse personagem histórico que Ademar Vieira (roteiro), Jucylande Júnior (desenhos) e Tiê Santos (arte-final) contam no álbum Ajuricaba lançado pelo selo Black Eye em 2020.

O que impressiona na história é a qualidade do roteiro. A história é fluída, magnética, do tipo que só largamos na última das 130 páginas do álbum. Os desenhos, simples, mas expressivos, se destacam principalmente pela força narrativa. É a arte a serviço da história.

Os portugueses faziam incursões pela floresta para escravizar índios. Isso provoca a ira de Ajuricaba. 


E história é o que não falta. A vida de Ajuricaba é interessantíssima. Seu pai, líder dos manaó, era aliado dos portugueses, mas quando vai cobrar destes o fato de terem atacado uma tribo aliada para prender escravos, acabou sendo mortos por esses. Da mesma forma, também filho de Ajuricaba foi morto durante um ataque poruguês – o que levou o herói indígena a sua jornada de vingança e libertação.

O Ajuricaba da história em quadrinho não é apenas um personagem histórico. O roteiro o humaniza, mostrando sua relação meiga com o filho e a esposa e o forte impacto da visão dos índios sendo levado escravizados exercia sobre ele. Além disso, o roteiro explora seu lado de estrategista militar em sequências empolgantes de guerra.

A história humaniza o herói indígena. 


Mas a HQ não o trata apenas como herói. Aspectos controversos do personagem, como o fato dele ter escravizado tribos rivais para trocá-las por armas com os holandese também são mostrados.

Os portugueses empreenderam uma dura repressão, que levou ao extermínio total da tribo manao, de modo que toda a sua cultura e até sua língua se perdeu. Mas Ademar Vieira resgata algumas das poucas palavras das quais sobraram registros para usá-las na história, dando um ar ainda mais verossímil à HQ.

O lado controverso de Ajuricaba também é mostrado. 


Outro acerto foi introduzir uma trama paralela com o garoto Teodósio, um índio cristianizado que era tiranizado por um padre. A última página da história o mostra tirando as roupas europeias e entrando na floresta. Dessa forma, o álbum linka a revolta de Ajurucaba com a revolta liderada por Teodósio, um personagem real.

Ajuricaba é um dos melhores quadrinhos nacionais que li recentemente. O tipo de história que merecia leituras e releituras e por isso mesmo merecia também uma edição especial, com capa dura. Há tantas histórias ruins por aí sendo publicadas em capa dura, papel especial que não valem metade desse álbum nacional.


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