sábado, abril 25, 2026

A arte única de Alex Toth

 


Alex Toth é um desenhista norte-americano mais conhecido pelos seus desenhos de produção para a Hanna Barbera, para animações como Superamigos, Jonny Quest e Herculóides. Mas Toth também tem uma produção memorável nos quadrinhos, com o destaque para o Zorro que ilustrou para Disney. Seu desenho aparentemente simples, mas extremamente funcional e bonito influenciou diversos artistas. 







O Rapto do Garoto de Ouro, de Marcos Rey


Após o estrondoso sucesso de O Mistério do Cinco Estrelas, Marcos Rey consolidou-se como um dos autores mais importantes da renomada coleção Vaga-Lume. Era, portanto, natural que ele concebesse uma segunda trama, trazendo de volta personagens queridos do primeiro livro, como Leo, Gino e Ângela. O resultado dessa iniciativa foi O Rapto do Garoto de Ouro, lançado pela Editora Ática em 1982.

A narrativa é centrada no sequestro de Alfredinho, o "Garoto de Ouro" do título. Aos dezesseis anos, o jovem se tornou uma verdadeira mania nacional, saltando de um completo desconhecido a astro em poucos meses. Para celebrar um ano de sua ascensão, seus familiares organizam uma festa numa tradicional cantina italiana no bairro da Bela Vista, em São Paulo, evento que contaria até com um show particular. No entanto, o garoto é misteriosamente sequestrado antes da celebração.

Na cena do crime, Leo encontra uma caderneta que ele suspeita pertencer ao sequestrador. A missão de investigar os nomes ali anotados recai sobre ele e Ângela, coordenados por Gino, o cadeirante. A eles se junta Jaimão, um antigo ator de radioteatro que foi o responsável por lançar o Garoto de Ouro ao estrelato.

O livro se desenrola, essencialmente, com a ação dos dois grupos (Leo e Ângela de um lado, Jaimão do outro) entrevistando as pessoas cujos contatos estão na caderneta. A trama é repleta de reviravoltas, e todos parecem suspeitos de envolvimento no crime: o fortão com um hematoma na testa, a costureira que nutre ódio pela mãe de Alfredinho, ou o homem gordo que possui uma agenda idêntica. Paralelamente, algumas testemunhas cruciais parecem estar sendo silenciadas – uma é atacada com um golpe na cabeça, e uma ex-miss quase morre após uma overdose de comprimidos.

Marcos Rey é reconhecido por sua literatura rica, marcada por frases inusitadas e um uso criativo de gírias. Neste livro, ele adota um estilo mais contido, embora ainda apresente momentos de grande inspiração, como na descrição:

“No mesmo instante foi atacado por um pavor tão grande que o paralisou. Reagindo, tentou forçar as pernas, cheias de chumbo, na direção da porta salvadora.”

O humor característico do autor também se manifesta em alguns trechos, especialmente na detalhada caracterização dos personagens. Um exemplo vívido é a descrição de Heitor:

“Heitor era um homem de trinta e tantos anos, baixo e encorpado, braçudo e dono duma patola que impunha respeito. Sempre de camisa-de-meia, chamava também atenção pelas sobrancelhas, fartas e cerradas, e pelo nariz, engraçado de tão grande e grosso. Para um caricaturista Heitor seria um prato cheio.”

Não à toa, um dos trechos ilustrados do livro é, justamente, o encontro com Heitor, tão perfeitamente delineado pelo autor.

Em O Rapto do Garoto de Ouro, Marcos Rey constrói uma história policial mais convencional. Diferente de O Mistério do Cinco Estrelas, no qual o protagonista e o leitor já conhecem o bandido e a trama se foca em provar a culpa à polícia, neste segundo livro, o desafio é ativamente descobrir a identidade do sequestrador. O escritor executa isso com grande habilidade, espalhando pistas e pistas falsas ao longo da narrativa, e revelando como culpado alguém totalmente insuspeito.

Em suma, trata-se de uma leitura extremamente agradável e viciante, que prende o leitor do início ao fim.

A Vida e a História de Madam C.J. Walker

 

Imagine nos EUA do início do século XX, uma época em que negros ainda eram enforcados sem qualquer julgamento, uma mulher negra, filha de escravos, se tornar não só uma das pessoas mais ricas dos EUA, mas a primeira mulher norte-americana milionária. Essa é a história contada em A Vida e a
História de Madam C.J. Walker, minissérie em quatro capítulos da Netflix. A trama acompanha a protagonista (brilhantemente interpretada por Octavia Spencer) desde o seu início miserável, quando seu trabalho como lavadeira e a relação abusiva com o marido fez com que seus cabelos caíssem. É quando bate na sua porta Addie (Carmen Ejogo), que, ao tratar de seu cabelo, restaura sua auto-estima, salvando sua vida. O sonho dela então, é se tornar revendendora do produto milagroso vendido por Addie, que recusa terminantemente, pois ela não teria o ideal de beleza para vender um produto para cabelos. É quando Sarah decidei copiar a receita da amiga, melhorá-la e vender seu próprio ungueto para cabelos. Daí para se tornar a mulher mais rica dos Estados Unidos é um longo caminho, com os mais diversos obstáculos. A minissérie é dividida em quatro partes (aparentemente cada uma dirigida por uma pessoa diferente – não consegui informações sobre a direção). A mais inovadora (e também mais complicada é a primeira). No afã de deixar claro a rivalidade entre Sarah e Addie, a série mostra as duas num ringue de box, literalmente trocando sopapos. Parece exagero – e é, até porque, pela história, as duas, embora tenham sido concorrentes, não parece ter sido mais que isso. Mas o exagero fica por conta também do excesso de músicas contemporâneas numa trama de época. Entretanto, vale a pena persistir. A partir do segundo capítulo os exageros são deixados de lado e a produção se preocupa mais em contar as dificuldades encontradas pela protagonista não só por negra, mas também por ser mulher e destacar seu pioneirismo. Madame C J Walker não só apresentava produtos para cabelos de mulheres negras, como se recusava a estabelecer um padrão de beleza, fazendo questão de mostrar que seu produto era para todas as mulheres – algo que outras grandes empresas, como a Dove, só viriam a fazer muito recentemente. No final, vale muito a pena. É uma das boas revelações da Netflix neste ano e uma boa dica para assistir durante esse período de isolamento.

sexta-feira, abril 24, 2026

Fundo do baú - Agente 86

 


Confesso. Agente 86 era um dos meus seriados prediletos quando eu era criança. A mistura de espionagem com humor conquistou mais de uma geração. Criado pelo gênio Mel Brooks (famoso por filmes de humor como A história do mundo e O jovem Frankstein), Agente 86 foi exibido 1965 a 1970. No total, foram 138 episódios.
O programa era protagonizado por Don Adams no papel de Maxwell Smart, um atrapalhado agente secreto que, surpreendentemente, consegue sempre vencer os agentes da K.A.O.S.
A abertura do seriado já dava o tom de humor: o agente 86 entrando nos escritórios da C.O.N.T.R.O.L.E, atravessando várias portas secretas e batendo o nariz na última.
Além da atuação magistral de Dom Adams, uma das principais atrações eram os apetrechos que apareciam no seriado, como o famoso sapatofone ou o cone do silêncio, que Maxwel Smart usa para conversar com o chefe, mas que invariavelmente apresenta algum problema que faz com que um não consiga ouvir o outro. Outra estratégia para conversar sem ser ouvido era aumentar a música, como ocorre num episódio em que dois agentes conversam numa loja – mas a música alta faz com que eles conversem aos gritos, para espanto dos outros cliente

O mecanismo

 

Nenhuma boa série se sustenta sem um bom vilão. Narcos tinha Pablo Escobar, interpretado magistralmente por Wagner Moura. O Mecanismo tem Enrique Díaz, como o doleiro em torno do qual gira a trama.
A série começa bastante irregular (a maioria das pessoas que conheci que não gostaram assistiram apenas os dois primeiros episódios). A começar pelo som, horrível. Tive que colocar no volume máximo para ouvir. Além disso, Selton Melo parecia não se encontrar no personagem. Além disso, a narração do próprio Melo era exagerada nesses primeiros episódios, com diversas repetições da metáfora sobre o câncer.
É a partir do terceiro episódio que as coisas começam a se ajustar: o som melhora, Selton Melo some da trama para só aparecer depois, a narrativa se torna menos redundante.
Mas, desde o primeiro momento, Enrique Díaz parece à vontade no papel: esperto, irônico, sarcástico, cínico. Seu personagem é o homem que aprendeu a se virar, saindo da pobreza para se tornar rico lavando dinheiro. É alguém que sabe como as coisas funcionam e resolveu tirar proveito – em todos os sentidos. Logo no começo ele diz que com o dinheiro gasto para fazer uma refinaria dava para fazer duas. Na boca de qualquer outro personagem pareceria didático, forçado. Na boca dele parece natural.
Aos poucos, no entanto, a série vai tomando forma, torna-se menos arrastada, trabalha melhor o suspense, a narração surge apenas em momentos-chave, os atores vão se adequando melhor ao papel... e Enrique Díaz continua roubando cena. Na verdade, ao contrário do filme sobre a Lavajato, que tem algumas das atuações mais lamentáveis que já vi na minha vida, em O mecanismo a maioria dos atores está muito bem, em especial após o terceiro episódio. Enquanto no filme o personagem de Moro parece apenas um comediante querendo parecer sério, no seriado há toda uma sutileza. Duas cenas destacam essa sutileza de atuação: quando as pessoas começam a bater panela, o juiz vai à sacada, seu sorriso e brilho no olhar são quase imperceptíveis, mas estão ali, demonstrações de seu ego (e provavelmente de seu posicionamento político).
O roteiro oscila bem entre os vários fatos, muitas vezes em narrativas paralelas que destacam o suspense ( recurso que Padilha já havia usado bem em Narcos) e, tirando os dois primeiros episódios, a série pega um bom ritmo.
A série provocou toda uma polêmica, em especial graças à fala de Jucá (precisamos estancar a sangria), colocada na boca de Lula. Deu certo. A polêmica foi enorme, o que levou muita gente a assistir ao seriado por pura curiosidade, as ações da Netflix subiram e a série foi confirmada para uma segunda temporada. 
As revelações da Vasa Jato, no entanto, que mostraram as conversas entre o juiz do caso e os procuradores combinando sentenças, devem ter estimulado o diretor a desistir do projeto. O fato de Moro ter entrado no governo Bolsonaro também não deve ter ajudado. Afinal Padilha teve de fugir do Brasil em decorrência de tentativas de assassinato e ameaças da milícias. 

Super-homem e Mulher Maravilha – Invasão do povo de gelo

 

 

No final da década de 1970 e início da década de 1980, a DC Comics criou a revista DC Comics Presents, que apresentava sempre um herói em parceria com o Homem de Aço. No Brasil essas histórias foram publicadas principalmente na coleção Os clássicos da Década, da editora Ebal. O número 1 dessa coleção trouxe um encontro com a Mulher Maravilha, publicado em DC Comics Presents 9.

Na história, Clark Kent e Lois Lane (que a Ebal chamava de Mirian Lane) vão entrevistar um escultor, mas descobrem que ele está atormentado por uma obsessão: esculpir um gigante de gelo. Na sequência, o gigante de gelo ganha vida, fazendo com que o que o pacato repórter se transforme no Homem de aço para combatê-lo.

Nessa história um avião consegue continuar voando tranquilamente sem uma porta. 


Aí temos o primeiro problema do roteiro de Martin Pasko. Eles estão num local afastado e, na página seguinte, o monstro de gelo está atacando o aeroporto. A quebra narrativa é muito óbvia e fica mais óbvia ainda quando se percebe que essa mudança de cenário tem como objetivo introduzir a Mulher Maravilha, que, disfarçada de Diana Prince, está num avião impedido de pousar em decorrência do ataque.

O que ela faz? Simplesmente pula do avião, num quadro que mostra a porta caindo. No mundo real, arrancar a porta de um avião em pleno vôo seriam muitos, podendo provocar até a queda a aeronava, mas o roteirista não parece ter pensado nisso.

O gigante de gelo é imune aos poderes dos heróis. 


O gigante de gelo, como se descobre lá na frente é apenas o primeiro de uma invasão alienígena, e contra ele tanto o poder da Mulher Maravilha quando do Super-Homem parecem inúteis.

Para vencê-los, a amazona revela um poder que não tem em outras histórias e mesmo assim, a solução não bate com o que tínhamos visto até ali.

No final há uma reviravolta/piadinha, que explica porque uma raça de gigantes de gelo invadiria um planeta na maior parte tropical, como a Terra, mas essa pequena sacada não vale o resultado.

A capa da Ebal. 


Para piorar, o desenho de Joe Staton não parece muito inspirado nessa história.

Considerando-se que essa coleção tinha diversos números desenhados pelo gênio Garcia-Lopez, é curioso que a Ebal tenha escolhido justo essa história para estrear a nova série.

Em tempo: embora os editores brasileiros tivessem à disposição uma belíssima capa de Ross Andru e DICK GIORDANO, a Ebal optou por uma capa nacional.

Blueberry – A pista dos Sioux

 


Embora o nono álbum seja continuação de uma aventura eletrizante Blueberry, ele provavelmente ficou célebre por uma razão visual: é aqui que vemos, pela primeira vez, o traço pelo qual Giraud ficaria conhecido como Moebius.

Na história, o vilão Jethro Stellfingers consegue arranjar as coisas para que todos pensem que Blueberry é responsável pelo roubo do dinheiro da Union Pacific, o que faz com que ele seja preso. Pior: todos no local querem se vingar dele, em um linchamento. Além do alerta do roteirista Charlier a respeito das notícias falsas e da justiça com as próprias mãos, essa sequência se destaca pelo encademamento de ação, com o protagonista conseguindo resistir aos atacantes que tentam botar fogo na prisão.

Finalmente começa a surgir o traço pelo qual Moebius ficaria conhecido. 


Mas é a página 8 que chama atenção do leitor atento. Nela um senhor idoso recebe uma mensagem pelo telégrafo. As suas feições quebram com o estilo que Giraud usava até então na série, usando um traço mais limpo e solto.

Mas o destaque vem na página 41, em que o desenhista abandona o esquema de divisão da página em dois grandes conjuntos de quadros, deixando a diagramação mais orgânica. Há inclusive uma imagem de Blueberry que se sobrepõe aos outros quadros, quebrando com o esquema rígido de diagramação usado até então. A partir daí temos quadros irregulares, quadros só com os personagens em fundo branco, sem delimitação de requadro. É nítido que o desenhista está experimentando e buscando cada vez um estilo próprio, distinto de Jijé, que havia sido seu mestre e mentor e que ele imitara nas primeiras histórias.

Blueberry na prisão tenta se defender dos que querem linchá-lo. 


No final, embora Blueberry tenta costurado um acordo com os indígenas, a chegada de um general fanático que pretende atacar as tribos enquanto os guerreiros caçam, matando mulheres, crianças e idosos, pode colocar tudo a perder e fazer o oeste se tornar um mar de sangue. O texto final diz: “A guerra voltará a manchar o oeste de sangue? Blueberry conseguirá evitá-la? Você ficará sabendo lendo... General Cabeça-Amarela”.

O desenhista começa a inovar também na diagramação. 


Uma curiosidade sobre essa história é que quando ela foi publicada pela primeira vez no Brasil, os editores da Abril sabiam que a revista seria cancelada e quiseram dar aos leitores a ideia de que a trama terminava ali. Assim, o texto final da história foi alterado para: “Confiantes na palavra dos caras-pálidas, e de nariz-quebrado, os peles-vermelhas podem, enfim, retomar suas atividades normais. O oeste está em paz!”.  

Tanguy e Laverdure

 


Em 1959, o desenhista Uderzo e os roteirista Goscinny e Charlier estavam desempregados, depois de tentarem criar um sindicato de quadrinista. A solução para continuar trabalhar foi criar sua própria revista, a Pilote. Para o número de estréia, Goscinny e Uderzo criam o que viria a ser o mais famoso quadrinho europeu de todos os tempos: Asterix. Mas com Charlier, Uderzo criou uma outra série igualmente memorável: os aviadores Tanguy e Laverdure.
A série surgiu devido ao amor de Uderzo por aviões (seu sonho de infância era ser mecânico de aviões) e para contrapor outras séries de sucesso na época, em especial Buck Danny, publicada na revista Spirou, e Dan Cooper, publicada na Tintin.
No primeiro álbum, Charlier aproveita-se muito bem da verve humorística de Uderzo e faz toda uma sequência de comédia de erros: Laverdure aproveita a chegada dos dois na escola de pilotos e faz um vôo rasante, levando ao chão um velhinho, que acaba se apresentando como coronel e, como punição, manda os dois para a oficina, fazendo com que os dois fiquem completamente sujos de graxa. Quando finalmente encontram o verdadeiro coronel, amobs acham que se trata de novo impostor.
O roteiro aproveita duas paixões de Uderzo: humor e aviões. 

Mas logo a série embarca em sua especialidade: batalhas aéreas e detalhes aeronáuticos. Charlier usa e abusa de termos técnicos: picada com passagem invertida, tornneaus, picada acentuada, vrilles, immelmann. Já Uderzo nitidamente se delicia desenhando detalhes dos aviões da época, os uniformes, os porta-aviões.
Charlier equilibra bem os momentos mais “didáticos” com os humorísticos, a ação e o suspense: logo os protagonistas são jogados no meio de uma trama internacional quando um foguete francês cai no deserto e se torna necessário resgatá-lo. Mas uma outra potência também está interessada no aparelho e começam as batalhas aéreas. Só dois mestres como Uderzo e Charlier para fazer com que sequências inteiras de aviões se enfrentando se tornem interessantes.

Perry Rhodan – Xeque mate universo

 

 

No número 82 da série Perry Rhodan o administrador do império solar (eu nunca entendi porque é império, mas quem governa é um administrador, e não um imperador, mas tudo bem) está de volta e as coisas começam a entrar nos eixos.

Mas o perigo do computador regente de Árcon e dos druufs continua, pois ambas as forças são capazes de exterminar a Terra. Assim, Rhodan elabora um plano para forçar esses dois gigantes estelares e guerrearem entre si, rompendo a guerra fria que se estabeleceu na fronteira entre as dimensões.

Para isso que isso aconteça, uma artimanha se estabelece. Os terranos fingem que  o coronel Tiff desertou com mais 14 homens. Seu objetivo é ir para a dimensão temporal dos druufs e convencê-los a atacar a frota arcônida.

A parte inicial do livro é toda uma tentativa de simular um sequestro de Tiff totalmente desnecessária, que parece ter o único objetivo de incluir um pouco de ação no início modorrento.



Além disso, Rhodan avisa o computador regente sobre os desertores, o que coloca boa parte da frota arcônida em busca da nave que pode revelar a localização da Terra, o que não parece muito inteligente e quase acaba provocando uma tragédia (na verdade, provoca).

Além disso, o plano dá certo apenas por um acaso que não fazia parte do plano original e mesmo assim não provoca uma diminuição nas frotas dos inimigos a ponto dos terranos poderem enfrentá-los. Há um fator lá no final do livro, meio aleatório, que acaba fazendo toda essa aventura valer a pena, mas até ali fiquei me perguntando se esse livro era realmente relevante para a série.

Kurt Mahr escreve uma boa história de ação e de batalhas espaciais, embora provavavelmente não tão boa quando o faria K. H. Scheer, que serviu na II em um submarino alemão, o que provavelmente contribuiu para que ele se tornasse um especialista em relatos de guerras entre naves.

Há uma pequena sequência do livro que mostra uma preocupação de Mahr em dar mais contextos para o livro. Ela é focado no responsável pela limpeza em uma nave arcônida: “Panjel Dreeb era um homem de Iriam. Pelos padrões da Terra, teria um metro e meio de altura, cabeleira densa e cabeça ovalada (...) Os serviços que Panjel  executava eram muito humildes – tinha de apanhar o lixo miúdo e jogá-lo no conversor. Era um trabalho para cuja execução seria antieconômico o uso de um robô. E um homem como Panjel parecia nascido para essa função”.

quinta-feira, abril 23, 2026

Groo, o errante

 


Groo é uma sátira dos quadrinhos de espada em magia (a exemplo de Conan), criado por Sérgio Aragonés, famoso por seu trabalho na revista MAD.
Aragonés elaborou seu personagem na década de 1970, mas na época a política de direitos autorais das editoras americanas não era favorável aos criadores e o cartunista guardou a ideia na gaveta.
Quando a Marvel criou a linha Epic, em que os direitos ficavam com os criadores, Aragonés resolveu publicar uma história de seu personagem.
Para isso ele convidou o amigo e Mark Evanier, que ficou responsável pelos textos e diálogos.
O personagem foi publicado pela primeira vez na revista Destroyer Duck #1, em 1981 e logo alcançou grande sucesso. Afinal, não só era sátira de um dos personagens mais populares da Marvel, como também era uma das melhores revistas de humor já lançadas.
Logo o personagem ganhou título próprio pela Pacif Comics. O título depois passou pela Epic, Image e atualmente Dark Horse.
No Brasil o personagem apareceu pela primeira vez na coleção Graphic Novel, número 14, em uma história que mostrava a “morte” do personagem.
Um  dos atrativos de Groo é toda a caracterização bolada por seus criadores. Apaixonado por queijo derretido, Groo é burro como uma porta, um desastre ambulante e um guerreiro invencível. E afunda todos os barcos nos quais entra. Quando ele entra em uma cidade, os moradores sabem que estão perdidos, por melhores que sejam suas intenções (em uma sequência, um homem pergunta a outro: “Este é Groo?”, ao que o outro responde: “Não pode ser, nós ainda estamos vivos”).
A série tem também uma rica galeria de personagens secundários. Entre eles o Sábio, que tem sempre um provérbio pronto para qualquer situação e sempre tenta impedir que Groo se torne um desastre; o Menestrel, que narra as histórias, sempre em rima; Rufferto, cão fiel companheiro de Groo, tão fascinado por seu dono que acha até mesmo que ele é inteligente; Taranto, um saqueador que sempre tenta se aproveitar da ingenuidade de Groo. Além da enorme quantidade de reis que veem seus reinos destruídos pela simples presença de Groo.
Uma curiosidade é que Groo se encontrou já com Conan em uma história publicada pela Dark Horse.

Charlier, o mestre dos quadrinhos franco-belgas

 


Um dos meus roteiristas prediletos é o belga Jean-Michel Charlier.
Charlier foi uma das mentes brilhantes que projetaram a HQ franco-belga pela Europa e construiram um gênero que une qualidade a popularidade, pelo menos no velho mundo.
A primeira vez que tive contato com seu trabalho foi no número 21 da série Graphic Novel, da editora Abril, que publicou a primeira história de Blueberry. Quando li a biografia e vi sua foto com o sorriso bonachão, os óculos pendurados e um charuto na boca, disse para mim mesmo: esse é o cara!

Charlier, além de ter um texto genial, era eclético. Escrevia em qualquer gênero, para qualquer desenhista e qualquer faixa etária. Para os desenhos de Uderzo (ilustrador de Asterix) criou uma série de aventuras sobre dois aviadores, Tanguy e Laverdure. 
Para o traço clássico de Hubinon criou uma série infantil, Barba Negra. Além disso, escreveu programas de televisão e reportagens especiais.

Mas sua maior criação foi Blueberry, o cowboy cara de pau, inveterado jogador de pocker. 
O sucesso do personagem não foi só por sua causa. Blueberry juntou o melhor roteirista da Europa com o melhor desenhista do velho continente: Moebius, que começa tímido nos primeiros capítulos e depois solta todo o seu traço detalhista, mais apreciado nas cenas de saloons, nos quais se podia contar 20, 30 pessoas. Cada vinheta de Blueberry é um verdadeiro quadro, a ser apreciado com gosto e atenção.

E Blueberry era um personagem perfeito para os novos tempos: não era um mocinho que sempre fazia o bem, mas costumava se importar com os índios, característica que fez dele um diferencial nos quadrinhos de faroeste. Além disso, bebia e parecia ter tantos defeitos quanto qualidades (anos depois, essa tendência de cowboy humano seria muito bem aproveitada em Ken Parker).
Levei muitos anos vasculhando sebos, encontrando aqui e ali edições portuguesas de Tangui e Laverdure e do Barba Ruiva. E a cada álbum que lia eu me encantava mais. Gostava especialmente do fato de que Charlier não parecia estar querendo fazer uma obra-prima, mas simplesmente contar uma boa história. Roteirista que se levam a sério demais,  que se acham gênios, costumam ser maçantes.

A maldição do Onde

 


Dizem que Vicente Mateus, o presidente do Corinthias, pediu para a secretária fazer uma convocação, marcando uma reunião para uma sexta-feira. A secretária perguntou:
- Sexta-feira se escreve com x ou com s?
E ele:
- Marca a reunião para a quinta.
Se fosse hoje, ele diria:
- Coloca onde.
E a frase ficaria algo como “A Diretoria do Corinthias marca uma reunião para a onde-feira”.
Parece piada, mas é exatamente o que estão fazendo com o “onde”. “Onde” é advérbio e se refere a lugar. Tem o sentido e “no lugar em que”. Mas essa palavra virou o coringa da língua portuguesa, sendo usado no lugar de qualquer palavra que a pessoa não se lembre no momento. Assim, ele tem substituído palavras tão díspares quanto “porém”, “pois”, “quando”, “assim”, “e”, “em que”, “no qual”,  “enquanto”, “todavia” e muitas outras.
Assim, temos frases como:
A teoria ONDE o filósofo argumenta...
O rapaz roubou o pão ONDE estava com fome.
Eu gosto de pizza, ONDE vou comer tudo.
A Educação a distância é um processo mediado de aprendizagem ONDE professores e alunos estão separados.
Compre o produto ONDE ganhe o cupom.
O atentado aconteceu ONDE o secretário estava de férias.

Se formos levar ao pé da letra, a interpretação dessas frases seria:

A teoria NO LUGAR EM QUE o filósofo argumenta...
O rapaz roubou o pão NO LUGAR EM QUE estava com fome.
Eu gosto de pizza, NO LUGAR EM QUE vou comer tudo.
A Educação a distância é um processo mediado de aprendizagem NO LUGAR EM QUE professores e alunos estão separados.
Compre o produto NO LUGAR EM QUE ganhe o cupom.
O atentado aconteceu NO LUGAR EM QUE o secretário estava de férias.

Na verdade, o que se queria dizer era:

A teoria NA QUAL o filósofo argumenta...
O rapaz roubou o pão, POIS estava com fome.
Eu gosto de pizza, PORTANTO vou comer tudo.
A Educação a distância é um processo mediado de aprendizagem NO QUAL professores e alunos estão separados.
Compre o produto E ganhe o cupom.
O acidente aconteceu ENQUANTO o secretário estava de férias.

Algumas vezes é quase impossível entender o que o autor queria dizer, como em:
Sempre com novas atração, ONDE nosso objetivo é sua opinião.


E o cúmulo quando encontrei o seguinte exemplo em um trabalho:
Faça sua pesquisa DONDE tire uma hipótese.

Além de ser gramaticalmente incorreto, o uso indevido do ONDE dificulta a compreensão do texto, prejudicando o processo de comunicação e ocasionando equívocos. Assim, da próxima vez em que for usar a palavra ONDE, pense bem e veja se é isso mesmo que você está querendo dizer. Na dúvida, troque o “onde” por “no lugar em que”. Se der certo, o onde está correto, caso não, coloque a palavra correta.

Sabre – A primeira graphic novel?

 


A palavra graphic novel vinha sendo usada algumas vezes desde a década de 1960, mas quem popularizou o termo foi Will Eisner com o seu Um contrato com Deus. Entretanto, dois meses antes foi lançada Sabre, uma história escrita por Don McGregor e Paul Gulacy, o que faz com que muitos acreditem que ser a primeira graphic novel. De certo mesmo, foi a primeira obra de quadrinhos distribuída exclusivamente para as lojas de quadrinhos através do mercado direto.

Pioneirismos à parte, Sabre, lançada aqui pela Nova Sampa, é uma tremenda história, em que um texto impecável se junta a um Paul Gulacy em plena forma.

A história se passa em um futuro apocaliptico. 


A história se passa em um futuro distópico. Uma epidêmica devastou boa parte da população. Vazamentos atômicos contaminaram estados inteiros. Em paralelo a isso, pessoas começaram a colecionar armas antigas com melhorias futuristas (o que garante o visual futurístico retrô da história).

Nesse futuro, um forte movimento rebelde se espalha pelos estados unidos e o governo responde não só com uma forte repressão como com uma lavagem cerebral intitulada sincronização.

A trama é focada em Sabre, o líder da revolução, que embarca em uma jornada para libertar seus companheiros presos. A ele junta-se Melissa Siren, a primeira pessoa a nascer de forma artificial, sendo gerada em laboratório.

Os personagens chegam a dançar uma valsa em meio a reflexões. 


Ao contrário do que se poderia esperar, Sabre e Siren não enfrentam uma forte oposição ao entrar no local, um antigo parque de diversões repleto de animatrônicos.

Don McGregor constrói a trama de forma que eles andam pelo local, chegando a dançar uma valsa e a confraternizar com sereias em meio a reflexões filosóficas e sociológicas.

Quando, no entanto, a ação acontece, ela simplesmente explode nas páginas, de forma initerrputa. O traço fotográfico de Gulacy impressiona e se destaca nas cenas de ação – vale lembrar que o artista vinha da série Mestres do Kung Fu.

Quando começa, a ação explode nas páginas. 


Essa história também se destaca por mostrar uma relação inter-racial, já que é Sabre é negro e Siren branca, o que certamente deve causado sensação entre os leitores à época.

Uma curiosidade é que essa história foi feita em vista da insatisfação de McGregor com o pouco pagamento recebido na Marvel e pelo fato de não receber royalties. Tanto que ele aceitou receber só 300 dólares pela história, prevendo que conseguiria depois um valor maior com os direitos. A história chegou a atrasar porque algumas páginas enviadas por Gulacy se extraviaram quando o carteiro não conseguiu entregar na casa do roteirista. Mesmo assim, o desenhista se empenhou igualmente na nova página, tanto que é impossível, hoje em dia, saber quais páginas foram refeitas.

A graphic novel, lançada pela Eclipse, custava 6 dólares, um valor alto, considerando-se que na época os quadrinhos custavam centavos. Mesmo assim vendeu bastante e teve uma segunda edição já em 1979, um ano depois da primeira edição.