terça-feira, maio 12, 2026

Sandman - o mestre dos sonhos

 



            Um dos roteiristas que mais se destacaram na chamada invasão britânica dos comics americanos foi Neil Gaiman.
Quando jovem, ele lia muito quadrinhos e deixou de fazê-lo quando percebeu que as revistinhas não correspondiam mais às suas expectativas literárias. Nos anos 70, Gaiman se dedicou com­pletamente ao jornalismo e à li­teratura até descobrir o trabalho de Alan Moore no Monstro do Pântano.
A partir daí ele resolveu fazer roteiros para quadrinhos adultos e conheceu Dave McKean. Juntos eles produziram as Graphic Novels Violent Cases e Signal to Noise no final dos anos 1980.
Nessa época a editora Karen Berger foi à Inglaterra em busca de novos talentos.  Ansiosos para conseguir trabalhar para a DC, Gaiman e McKean foram procurá-la no hotel. Ao serem informados de que não poderiam tocar nos grandes personagens da editora (como Batman e Super-homem), Gaiman sugeriu a Orquídea Negra. A editora nem se lembrava que a editora tinha essa personagem.
A dupla ganhou carta branca para fazer sua versão da heroina e produziu uma minissérie em três partes. O realismo das imagens pintadas de McKean combinados com o texto poético de Gaiman fizeram com que essa minissérie se tornasse um dos quadrinhos mais cultuados dos anos 1980.
A qualidade do trabalho da dupla fez com que a editora os convidasse para um outro projeto. McKean faria as capas e Gaiman escreveria o texto. O personagem escolhido foi Sadman, um herói secundário da era de ouro que tivera uma breve fase nas mãos de Jack Kirby na década de 1970. “Queremos um novo Sandman. Mantenha o nome, mas o resto é por sua conta”.   
Gaiman re-imaginou o personagem, afastando-o de sua origem super-heroiesca e aproximando-o da mitologia. Assim, Sadman era um dos perpétuos, seres mais longevos que os deuses, que só deixariam de existir quando o universo fosse destruído. Além de Sandman, que era o sonho, havia a Morte, Destruição, Delírio e Destino, todos iniciados com a letra D (em inglês, Dream – sonho  e Death, morte).
Gaiman leu diversos livros sobre sonhos e pesadelos e colocou toda essa pesquisa em seus quadrinhos, em especial as informações sobre a doença dos sono, que de fato existiu. Além disso, encheu as histórias de referências literárias e textos poéticos. Não bastasse isso, trouxe o personagem para a realidade cotidiana de uma forma pouco vista antes nos quadrinhos.
Por outro lado, McKean produziu uma célebre galeria de capas unindo influências dadaístas, surrealistas e expressionistas.
Tudo aquilo era muito diferente do que os quadrinhos americanos publicavam até então (diverso inclusive do Monstro do Pântano, do também britânico Alan Moore, que inspirara Gaiman) e isso chamou atenção de um público que até então parecia ter pouco interesse pelos gibis: as mulheres. Afinal, a revista não era sobre marmanjos trocando socos, mas, ao contrário, aproximava-se de uma espécie de fantasia urbana e contemporânea.
Sandman foi uma das revistas mais celebradas dos anos 1990, arrebatando uma legião de fãs e sendo republicava diversas vezes, agora em formato álbum de luxo. A popularidade conseguida com a revista fez com que Gaiman se tornasse um cultuado escritor de livros de fantasia, entre eles Deuses americanos e Lugar Nenhum.

Jornada nas estrelas - Os Senhores de Triskelion

 


O senhores de Triskelion é um episódio da segunda tempora de Jornada nas estrelas que representa bem o lado mais despojado, divertido e trash da série clássica.

No episódio, Capitão Kir, Uhura, e Chekov  vão ser transportados para uma inspeção de rotina em uma estação automática quando simplesmente desaparecem, sem explicações. Eles na verdade foram enviados para o planeta  Triskelion onde se tornarão servos e serão treinados para serem gladiadores em meio a alienígenas de diversos planetas.

O figurino e algumas atuações são o trash do trash: um dos alienígenas é apenas um homem normal com trajes de homem das cavernas e dentes incômodos. As roupas são outro elemento trash: cheios de prata e cores. À certa altura é ordenado que Kirk vista uma armadura. A armadura consiste apenas em uma tira em volta do peito que não protege nada, como vemos numa cena em que o capitão é chicoteado.

Aparentemente houve uma tentativa por parte da roteirista Margaret Armen de introduzir temas sociológicos com uma cena em que os tripulantes da Enterprise são forçados a chicotear um servo negro e se recusam (lembrando que essa era a época do movimento por direitos civis dos negros e Martin Luther King havia sido assassinado um pouco antes). Há também uma cena em que Uhura aparentemente é violentada, muito mal aproveitada. Mas qualquer discussão não vai muito além disso.

O episódio acaba valendo e sendo muito divertido em decorrência exatamente das atuações exageradas (a famosa cena de Kirk recebendo um choque dos colares vem desse episódio), das lutas exageradas, das cores exageradas e do erotismo, que impregna todo o episódio.

O chamado de Cthulhu

 


H.P. Lovecraft foi o mais importante escritor de terror do início do século XX. Sua obra encontrou tamanha reverberação naquele período conturbado e nos anos subsequentes que muitos passaram a acreditar que seus textos se tratavam não de literatura, mas relatos reais. Boa parte da mitologia desse universo de horror tem sua origem no livro O chamado de Cthulhu e outros contos, lançado em 2012 pela editora Hedra como parte da coleção de obras completas do autor.
Lovecraft nasceu numa família conturbada. Quando tinha dois anos, viu o pai ser internado em um manicômio, onde permaneceu até morrer. A mãe jamais se recuperou da perda e sofreu distúrbios mentais que afetaram profundamente a relação com o filho. O futuro escritor passou a viver uma vida reclusão voltada apenas para seu terrível mundo literário. Precoce, escreveu seus primeiros contos entre seis e sete anos.
Em 1913, irritado com a baixa qualidade dos contos publicados na revista pulp fiction Argosy, escreve uma carta que levou a uma intensa polêmica, ao fim da qual acabou sendo convidado pelo editor a colaborar com a publicação. Suas histórias, no entanto, não fizeram sucesso. Em vida ele só conseguiu publicar um livro, A sombra de Innsmouth (que também integra a coleção da Hedra).
Sua obra só não se perdeu graças a admiradores que em 1939 fundaram uma editora para publicar sua obra. Mas Lovecraft só se tornou um fenômeno de vendas na década de 1960, quando algumas editoras norte-americanas começaram a publicar seus livros com capas chamativas e vendidas em locais de fácil acesso, como postos de gasolina e farmácias.
O que fez com que sua obra inicialmente fosse ignorada e depois se tornasse um verdadeiro culto foi a forma revolucionária com que ele tratava o terror. Lovecraft trouxe para a literatura a angústia provocada pelas descobertas científicas no início do século XX. Até o século XIX acreditava-se que o universo era racional e totalmente compreensível. A ciência estava a um passo de desvendá-lo. A teoria da relatividade e a física quântica viraram o mundo físico de cabeça para baixo mostrando que não sabíamos quase nada sobre o universo.  “O universo de nêutrons, quasares e buracos negros é estranho para nós e nós somos estranhos nesse universo”, escreveu James Turner, na introdução do livro Tales of the Cthulhu mythos (Dell Books).
Assim, na obra de Lovecraft, somos pouco mais que formigas num universo eternamente ameaçado por uma entidade terrível e inenarrável, sejam deuses antigos ou seres alienígenas que desprezam a vida humana. “A coisa mais misericordiosa do mundo é, segundo penso, a incapacidade da mente humana  em correlacionar tudo o q sabe. Vivemos em uma plácida ilha de ignorância em meio a mares negros de infinitude , e não fomos feitos para ir longe”.
 O impacto de sua obra é tão grande que muitos passaram a acreditar que o Necronomicon, livro citado em seus contos, tinha existência verdadeira. De fato, começaram a surgir diversas versões da obra, de modo que o livro, imaginário, ganhou existência física.
Em suma: Lovecraft se tornou, assim como Edgar Alan Poe, um escritor fundamental para todos os fãs de terror ou de literatura de fantasia. E o volume O chamado de Cthulhu e outros contos é uma boa porta de entrada para sua obra.
Cthulhu é uma espécie de entidade monstruosa com corpo de dragão e cabeça de lula. Ele seria um dos grandes antigos, seres inomináveis que teriam chegado em nosso planeta em seus primórdios e criado o homem como forma de escárnio e servitude.  Lovecraft pronunciava seu nome de diversas formas diferentes, dando a entender que se tratava de uma palavra que não poderia ser reproduzida por lábios humanos. Cthulhu seria o alto sacerdote, responsável pelo retorno dos antigos quando as estrelas estivessem alinhadas. Embora seja o mais famoso e imagético, ele é apenas uma das criaturas de um grande panteão de seres fantásticos que habitam o mesmo universo. Nesse sentido, Lovecraft foi um divisor de águas: ele criou um universo no qual ocorrem a maioria de suas histórias, uma mitologia única, de modo que é possível perceber uma costura entre seus contos, alguns pontos em comum que revelam a parte mais terrível de sua obra: a terrível suspeita de há algo muito grande acontecendo à nossa revelia.
É a fundação dessa mitologia que o leitor irá encontrar no livro O chamado de Cthulhu... Além do conto que dá título ao volume, outros se destacam, como “Dagon”, cujas criaturas marinhas serviram de inspiração visual para a história em quadrinhos Neonomicon, de Alan Moore: “o contorno geral das figuras era muito humano, apesar das mãos e dos pés com membranas natatórias, dos impressionantes lábios carnudos e molengos, dos olhos vidrados, arregalados”.
Outro destaque é “A música de Erich Zann”, que, se não estivesse no livro de Lovecraft, poderia se passar facilmente como parte da obra de Jorge Luís Borges. Nele, o protagonista encontra um velho violinista que toca para espantar terrores da escuridão. O início não poderia ser mais Borges: “Examinei diversos mapas da cidade com o maior cuidado, mas jamais reencontrei a Rue d´Auseil (...) Jamais encontrei outra pessoa que tenha visto a Rue d´Auseil”. Talvez não seja por acaso: tanto Borges como Lovecraft são herdeiros declarados de Edgar Alan Poe.
É, portanto, extremamente louvável a iniciativa da Hedra de trazer a coleção completa do mestre do horror. Uma ótima chance para os fãs do terror verem um mestre em ação. De negativo apenas o fato dos livros serem de formatos diferentes, o que certamente deve desagradar os colecionadores.

Segundo os Mitos, a Terra teria sido habitada, há bilhões de anos, por criaturas que aqui teriam chegado antes que nosso planeta fosse capaz de gerar ou sustentar vida por si próprio. Eles, e não Deus, teriam criado a vida: o próprio Homem seria uma criação deles, gerada unicamente por escárnio e servitude.2 Em contos posteriores, fica implícito que os Grandes Antigos seriam criadores do próprio universo, e de todos os seres nele presentes. Isso foi suficiente para que Lovecraft fosse considerado pelas igrejas fundamentalistas do mundo inteiro, que acreditam na versão da criação bíblica, como blasfémio. Os Grandes Antigos teriam Cthulhu como um de seus líderes (de acordo com os contos, seria o Alto Sacerdote, responsável pelo ressurgimento de todos os outros quando as estrelas estivessem alinhadas devidamente).
Lovecraft parecia estar escrevendo para o futuro, para o homem pós-moderno. Tanto que sua obra teve pouco impacto na época, mas depois, como uma bola de neve, foi crescendo de importância a ponto de se acreditar que se tratava não e literatura, mas de relatos de uma realidade desconhecida. A crença na existência do Necronomicon como um livro real demonstra como a obra de Lovecraft se tornou um simulacro, uma ficção é mais real do que o real. E hoje, podemos ver em sites de compras diversas versões do Necronomicon. O livro, totalmente imaginário, ganhou existência física.
O fenômeno Necronomicon revela o aspecto mais apavorante na obra de Lovecraft: e se, no fundo, for verdade? E se o escritor tiver, inadvertida e inconscientemente, descoberto a verdade sobre a realidade em que vivemos? E se formos apenas formigas, seres insignificantes, criados por escárnio, vítimas de um poder grandioso demais para ser compreendido?

Little Annie Fanny, de Harvey Kurtzman

 

Harvey Kurtzman é mais conhecido no Brasil por ter sido o idealizador da revista Mad. Mas há uma criação, dele, igualmente genial, pouco conhecida em nosso país. Trata-se de Little Annie Fanny, série em quadrinhos publicada durante anos na revista Playboy americana.
A personagem surgiu da amizade de Kurtzman com o dono da Playboy,  Hug Hefner. Hefner era fã do quadrinista e, quando este foi demitido da MAD após pedir participação nos lucro, Hefner se ofereceu para bancar uma nova revista.  A publicação, chamada Trump durou apenas dois números, mas cimentou a amizade entre os dois e o convite para uma colaboração coma Playboy.
Aninha era uma sátira de Litle Anny Fanny.


Curiosamente, Little Annie Fanny surgiu como uma paródia do dono da Marvel, Martin Goodman chamado Goodman Beaver. O personagem era sátira ao mundo da publicidade e do meio editorial e foi publicado em um livro de bolso. Kurtzman ofereceu o série para Hefner, que sugeriu mudar o foco colocando uma mulher como protagonista. As sugestões iniciais de nome para a série foram Os perigos de Zelda e até Mariazinha confusão. No final, acabaram ficando com Little Annie Fanny (Aninha, bonita e gostosa, no Brasil), uma alusão satírica do clássico quadrinhos Lilttle Orfhan Annie.
Aninha é uma atriz e modelo que coloca os homens em polvorosa com seu corpo voluptuoso e ingenuidade a la Marilyn Monroe.
Aninha levava os homens à loucura. 



Kurtzman fazia o roteiro e o esboço das páginas, mas para desenhar chamou o amigo Will Elder, que pintava os personagens sem contorno, uma novidade na época. Posteriormente, outros craques da indústria colaboraram com a tira, com destaque para Frank Frazzetta, que fez a Aninha mais sensual de todos os tempos.
A primeira história já dava o tom de humor das demais histórias: Aninha está gravando um comercial de sabonete (sob o olhar sedento dos homens) e acredita tanto nas suas falas que acaba se apaixonando... pelo sabonete!!!
Em outra história Aninha se sente mal e acaba provocando uma confusão enorme no hospital ao tirar a roupa para ser examinda – os médicos literalmente passam a brigar entre si para examiná-la. O humor da tira ficava por conta tanto das piadas visuais  (com Elder enchendo as cenas de referências a atores e políticos da época) e dos diálogos inspirados de Kurtman, que faziam muitas referências diretas a acontecimentos da época.
Kurzman aproveita as histórias de Aninha para fazer crítica social. 


O que era uma qualidade vira um problema: muitas situações só fazem sentido para o leitor norte-americano da década de 1960, o que talvez explique porque a personagem foi publicada no Brasil apenas uma vez na revista Playboy e em um álbum especial também da Playboy de 2004.
Mas algumas piadas não envelheceram, como da tira em que o protetor de Aninha está mostrando para ela sua coleção de armas (os diálogos de Kutzman fazendo direta referência entre as armas e o fetiche sexual) e começa uma disputa com o agente da modelo, que termina com os dois hospitalizados depois de uma troca de tiros.
Um clássico injustamente pouco conhecido no Brasil.

Dylan Dog - Almanaque do Pesadelo

 


Almanaque do Pesadelo é uma revista da editora Mythos que reúne histórias de Dylan Dog. Para quem está acostumado com o personagem, são histórias curtas, de apenas 24 páginas (a média da revista do personagem é de 100 páginas).

Esse número, com 194 páginas, traz oito histórias, com equipes criativas diferentes. O interessante aí é observar como roteiristas diferentes e desenhistas diferentes retratam o detetive do sobrenatural.

E, embora as abordagens sejam muito diferentes, o resultado é incrivelmente equilibrado. Há histórias melhores, claro, mas nenhuma HQ é ruim.

O traço de Daniele Bigliardo se destaca nos closes dos personagens. 


Há artistas muito realistas, como Daniele Bigliardo, uma especialista em rosto humano, com closes muito expressivos. E há arstistas estilizados, como Piero Dall´Agnol, cuja arte final solta combina perfeitamente com a história Por um rosa, adaptação de O pequeno príncipe.

O traço estilizado combina bem com a adaptação de O pequeno príncipe. 


Em comum entre todas as histórias a fronteira borrada entre realidade e ficção. As histórias misturam cenas reais com sonhos, delírios e até um programa de TV. É curioso perceber como os roteiristas brincam com a percepção do leitor de maneira muito eficiente.

Numa seleção com histórias de tão alto nível é difícil escolher a melhor. Mas Call Center, de Gualdoni (roteiro) e Voltolini (desenhos) certamente entraria em qualquer seleção dos melhores.

Call Center, a melhor história do volume. 


Na história, uma jovem operadora de call center precisa convencer Dylan Dog a comprar um jogo de panelas. Acontece que o detetive está com a perna quebrada depois de um acidente automobilístico no qual perseguia um serial killer e precisa se levantar da cama para atender ao telefone toda vez que ele toca. Tudo funciona perfeitamente na HQ, a começar pelo humor ácido e pela visão dos call centers como um inferno.

segunda-feira, maio 11, 2026

O gládio do Gian

 


No extinto e saudoso fanzine IDÉIAS DE JECA-TATU eu tinha uma coluna de divulgação de outros zines intitulada GLÁDIO DO GIAN na qual eu aproveitava para brincar com as palavras, usando a rima e principalmente a aliteração.

Reparem que nos exemplos abaixo, eu sigo a ordem alfabética, começando com o A e terminando com o B:

A - Os amigos amazonenses abraçam, ainda uma vez, a almejada abandação dos artistas alternativos. Abiscoitaram a minha admiração no fluente Franca Zona. Agora dão mais alguns passos ao apogeu no angustiante Gótic. Apocalípticos é um adjetivo aplicável. A arte é de alta qualidade, assim como a narração. Mas, acalmai, amotinados! Arrisquem arremessar carta ao Daniel, que me enviou e aconselhou.

B - Babai, babacas! O belenense chiquinho acaba de bagunçar a barraca com o lançamento do bem-apessoado Ameba. O beato busca alcançar uma babel de bom-humor bestial através da bombachata das banalidades da vida belenense. O badameco desenha bem e atende no seguinte burgo...

C - O calórico Alex Santos completou 15 anos e já comprou a causa alternativa. Lançou o cândido Garotos Perdidos e cabalou importantes cabeças, como o judicioso Júlio Emílio Braz e o garboso Gian Danton. É cabido dizer que o Garoto é cádimo comumento por casqueteiros, como o cavernoso Chiquinho. Cioso, Alex conseguiu o que carecia, tomou consciência de suas capacidades e caprichou nos números mais calientes.  Agora anda à cata de novos colaboradores e cismou de lançar o Garoto em off-set.

Introdução à psicologia junguiana

 



A obra de Carl Gustav Jung foi, durante muitos anos ignorada, ou quando muito, objeto de críticas na maioria das vezes injustas. Segundo Calvin S. Hall e Vermon J. Nordby, “a responsabilidade por isso cabe em parte ao próprio Jung. Ele foi um escritor discursivo em excesso, o que muitas vezes dificulta a acompalhar-lhe a linha de pensamento. Os seus escritos quase sempre desanimam os leitores devido à erudição que permeia tópicos com os quais poucas pessoas estão suficientemente famialirizadas”.

Para tentar resolver essa situação, os dois autores escreveram, em 1973, o livro Introdução à psicologia junguiana.

A obra, que oscila entre divulgação para o público geral e obra introdutória para psicólogos, se diferencia por não focar apenas em temas atualmente mais populares da teoria de Jung, mas também explorar temas mais difíceis.

O livro começa com uma breve biografia do autor – e com o alerta de que essa biografia foi fundamental para a elaboração de suas teorias.

Jung era filho de um pastor suíço e desde muito pequeno demonstrou grande interesse por assuntos religiosos. Mas sempre que questionava algum preceito religioso, recebia do pai, invariavelmente a mesma resposta: “Deve-se acreditar e ter fé”. A contraposição a esse ponto de vista ajudou a moldar sua personalidade. Apesar de ser o mais pobre do colégio onde estudava, acabou se distinguido como o primeiro da turma. Quando chegou a época de ingressar na faculdade, seus interesses eram muitos: Ciência, História, Filosofia e Arqueologia. Acabou optando pela medicina, seguindo uma tradição familiar – o avô que lhe dera o nome fora professor de Medicina na universidade onde ele iria estudar. Mas ele não seria um médico tradicional e traria para sua prática tudo aquilo que antes lhe interessava. O tema de sua tese de doutorado já revelava boa parte do caminho que iria seguir: ele fez o trabalho sobre uma médium de 15 anos que realizava sessões espíritas. Já estava ali tanto a preocupação com os aspectos psicológicos quanto com os aspectos transcendentais da experiência humana.

Jung estudou com o grande psiquiatra francês Pierre Janet e trabalhou no prestigioso Hospital Burghôlzli, o mais famoso da Europa. Mas o que viria a mudar completamente sua vida foi o encontro com Freud, em 1907. Os dois sentiram uma simpatia imediata e passaram três horas conversando na primeira vez que se encontraram. Mas a amizade entre esses dois gigantes da psicologia duraria pouco. Chegou um ponto em que a diferença entre os dois se tornaria grande demais e ambos romperam, o que levou Jung a uma forte crise, que coinscindiu com a crise da meia idade. Jung emergiu dessa crise com toda uma nova visão da mente humana e com conceitos essenciais, como o insconsciente coletivo.

O estudo do insconsciente não era novidade. Freud já havia percebido que muito de nosso comportamento era governado por motivações inconscientes. Mas a visão freudiana era estritatamente ambiental (o homem sendo resultado de traumas e eventos da infância) e particular. Jung propôs que havia um outro tipo de inconsciente, resultado da evolução e da hereditariedade. Assim, por exemplo, em algum momento da história, os seres humanos aprenderam serpentes são perigosas. Esse conhecimento foi transmitido, via inconsciente coletivo, para todas as gerações subsequentes. Assim, “um medo qualquer pode-se desenvolver com facilidade quando a predisposição para senti-lo já se encontra no inconsciente coletivo”.

Mas o inconsciente coletivo não se resume apenas a alertar os humanos para perigos físicos, como serpentes ou a escuridão. Ele é também reservatório e símbolos e arquétipos. E são também, muitas vezes, a origem de muitos complexos.

Hall e Nordby explicam esses e outros conceitos, como sincronicidade, valores psíquicos e outros, com profundidade, mas com um texto de fácil compreensão. Poderiam, talvez, acrescentar mais exemplos, o que tornaria o livro mais claro. Esse pequeno livro, de 120 páginas, pretende estimular o leitor a conhecer a obra de Jung e demonstrar que essa obra é uma “sementeira de ideias importantes, à espera de que a humanidade as reconheça”.

Demolidor contra o Sonho americano

 


Substituir Frank Miller no título do Demolidor parecia uma missão impossível, especialmente depois do impressionante arco A queda de Matt Murdock. Mas Ann Nocenti conseguiu isso com louvor desde sua primeira colaboração no título, publicada em Daredevil 236, com arte de Barry Windsor-Smith.

A roteirista aproveita um gancho da fase de Miller, quando o super-soldado Bazuca pira e quase destrói a cozinha do inferno, o que só não ocorre graças à intervenção do Demolidor e do Capitão América.

Um outro agente especial, Jack Hazzard, chamado de Sonho Americano, também está voltando à cozinha do inferno, onde nasceu.  E seus empregadores temem que aconteça com ele o mesmo que aconteceu com Bazuca, então mandam a Viúva Negra atrás dele com a missão de matá-lo. Ao adentrar o bairro, a espiã encontra seu antigo namorado, o Demolidor, que se junta a ela.

O Sonho Americano é um super-soldado capaz de matar manipulando os batimentos cardíacos. 


De fato, o soldado está saindo do controle e com ele há um fator agravante: ele tem o poder de provocar ataques cardíacos.

Ann Nocenti transforma esse plot numa ode pacifista e numa crítica ao militarismo.

A roteirista faz uma abordagem pacifista. 


À certa altura, Hazzard volta para casa, onde sua mãe lhe apresenta seu sobrinho, que tem o soldado como herói. O Sonho Americano entrega para o garoto sua arma e faz um discurso enlouquecido, que mistura frases feitas de patriotismo com delírios. O final, em elipse, deixa claro que tudo começará do de novo, mas agora com o garoto.

Ao roteiro bem elaborado e fortemente crítico de Nocenti se junta o belíssimo desenho de Barry Windsor-Smith, absolutamente irretocável.

A Abril usou outra capa. 


No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 70. A Abril tomou a decisão de substituir a capa original Walter Simonson e Bill Sienkiewicz por uma ilustração de Barry Windsor-Smith com o Demolidor e a Viúva Negra (particularmente eu gosto mais da capa da Abril).  

Elis – a cinebiografia

 

 

Elis Regina foi uma das maiores, senão a maior cantora brasileira de todos os tempos. Não admira, portanto, que houvesse interesse fazer uma cinebiografia dela, numa era em que cinebiografias de músicos proliferam.

Quem aceitou o desafio foi o diretor Hugo Prata, que escalou a atriz Andreia Horta para o papel principal, em filme lançado em 2016 e disponível atualmente na Netflix.

A película segue uma linha cronológica, começando com a chegada da cantora ao Rio de Janeiro, junto com o pai, onde tinha ido gravar seu primeiro disco. Mas ela chega exatamente quando estava se concretizando o golpe militar de 1964, o que faz com que o produtor desista de lançar qualquer coisa naquele momento.

Antes de voltar para casa, Elis participa de um teste para gravar músicas de uma peça estrelada pela musa da boça nova, Nara Leão, é rejeitada (“não queremos cantoras de churrascaria”, diz um dos avaliadores). Depois ela faz questão de ir num show da cantora, onde se espanta com o tom intimista e pouco empolgante.

Esses dois momentos são de fundamental importância narrativa. Eles demarcam a diferença de Elis com o que então era visto como música brasileira e ajudam o expectador a entender porque ela foi tão revolucionária. Elis cantava para fora, era toda expressiva, de corpo, de voz, cantava rindo, fazendo caras e caretas. Como escreve um jornalista, citado no filme, ela surge num momento em que as pessoas precisavam de expressar diante do tom de censura que se instalaria nos anos seguintes.  O modo de cantar de Elis abre caminho para outras musas como Gal Costa e Rita Lee, estabelecendo as bases do que viria a ser conhecido como MPB.

 Nesse sentido, a atuação de Andreia Horta contribuiu muito para que o filme demonstre a impressão correta. Embora não consiga mimetizar a voz de Elis regina (quem conseguiria?), ela imita perfeitamente as expressões, o jeito de andar, a alegria contagiante no palco.

Nas cinebiografias, um item obrigatório é construir a narrativa a partir de músicas do biografado e Hugo Prata faz isso com perfeição, ajudado principalmente pelo vasto e diversificado repertório da cantora, cujas interpretações vão do mais alegre ao mais depressivo.

Essa sincronia tem seu ápice num dos momentos mais impactantes do filme: a relação de Elis com os militares. Em turnê pela Europa, ela dissera, em entrevista coletiva, que o Brasil era governado por gorilas e que pessoas eram torturadas e desapareciam. Quando volta ao Brasil, ela é levada para um interrogatório, onde ameaçam tirar o filho dela. Depois passam a segui-la a todos os lugares.

A única forma de se livrar da perseguição, segundo os próprios  militares, é cantar na Olimpíada do Exército, um gesto de submissão aos militares, o que ela faz de forma altiva. Mas aí a reação vem do extremo oposto: da esquerda. Henfil faz uma caricatura dela saindo de um túmulo e cantando para Hitler. Jovens vaiam ela a ponto de não deixá-la cantar, num espécie de cancelamento da era pré-internet. A música que ela canta durante esse festival de vaias é o tango Cabaré, cuja letra diz: “De tomara-que-caia surge a crooner do norte/Nem aplausos, nem vaias, um silêncio de morte/ Ah, quem sabe de si nesses bares escuros/Quem sabe dos outros, das grades, dos muros”. Unida à ótima interpretação da atriz, percebemos a música como uma resposta de Elis às vaias.

Em tempo, anos depois Elis e Henfil se reconciliariam quando ela grava a belíssima O bêbado e o equilibrista, que traz em sua letra o trecho “Meu Brasil!/ Que sonha com a volta do irmão do Henfil/ Com tanta gente que partiu/Num rabo de foguete”.

O conhecimento artístico

 


Durante muitos anos, a visão positivista do conhecimento colocou a ciência no topo de uma pirâmide. Logo abaixo dela, vinham conhecimentos tidos como inferiores, como a filosofia, a religião e o empirismo (chamado de conhecimento vulgar). Atualmente, filósofos e cientistas começam a concordar que existem outras forma de explicar o mundo, tão importantes quanto a ciência. Uma dessas formas, cada vez mais valorizadas, é a arte. Em filmes, quadros, livros e até histórias em quadrinhos podem estar a chave para compreender o homem e o mundo em que vivemos.
Edgar Morin acredita que a arte é um elemento essencial para analisar a condição humana. No livro A cabeça bem-feita ele diz que os romances e os filmes põem à mostra as relações do ser humano com o outro, com a sociedade e o mundo: ¨O romance do século XIX e o cinema do século XX transportam-nos para dentro da História e pelos continentes, para dentro das guerras e da paz. E o milagre de um grande romance, como de um grande filme, é revelar a universalidade da condição humana¨. Assim, em toda grande obra, seja de literatura, poesia, cinema, música, pintura ou escultura, há um profundo pensamento sobre a condição humana.
Entretanto, essa maneira de ter contato com o mundo representado pela arte foi marginalizado durante décadas. 

Preconceito

O círculo de Viena, importante grupo de intelectuais do início do século XX, acreditava que a imaginação era um corpo estranho à ciência, um parasita que devia ser eliminado por aqueles que pretendem fazer uma pesquisa séria.
Numa época em que o ciência era tida como a única forma válida de explicar o mundo, isso equivalia a uma sentença de morte contra a imaginação e a criatividade. Edgar Morin, no livro Introdução ao pensamento complexo  explica que a imaginação, a iluminação e criação, sem as quais o progresso da ciência não teria sido possível, só entrava na ciência às escondidas. Eram condenáveis como forma de se chegar a um conhecimento sobre o mundo.
A valorização da criatividade e imaginação só aconteceu muito recentemente. O filósofo Karl Popper, por exemplo, ao observar as pesquisas de Einstein, que ele considerava o mais importante cientista do século XX, percebeu que toda descoberta desse cientista encerrava um ¨elemento irracional¨, uma¨ intuição criadora¨. 
O trabalho de Thomas Kuhn, ao demonstrar os aspectos sociais e históricos na construção do conhecimento científico, abriu caminho para que a arte fosse resgatada como forma de conhecimento. Afinal, se o cientista é influenciado pelo mundo em que vive, ele também é influenciado pelos romances que lê, pelos filmes que assiste e até pelas músicas que ouve.
No Brasil, um livro importante para a aceitação da arte como forma de conhecer o mundo foi A Pesquisa em arte, de Silvio Zamboni. Na obra, o autor argumenta que a arte não só é um conhecimento por si só, como também pode constituir-se em importante veículo para outros tipos de conhecimentos, pois extraímos dela uma compreensão da experiência humana e de seus valores.

Intuição

            A aceitação da arte como conhecimento implica na necessidade de compreender como ela se desenvolve. Sabe-se que existe um lado racional na produção artística, mas também existe um componente não racional e, portanto, difícil de ser verbalizado.
Uma das obras mais relevantes para a compreensão desse processo é o livro Desenhando com o lado direito do cérebro, de Betty Edwards. Baseando-se em pesquisas científicas sobre a constituição do cérebro, ela percebeu que na maioria das vezes o cérebro esquerdo é dominante na maioria das pessoas, o que dificulta a livre expressão da criatividade, já que o lado esquerdo é racional, lógico e analítico, enquanto o lado direito é intuitivo e criador.  
Uma outra forma de compreender o fenômeno é relacionar o raciocínio com o consciente e a intuição com o inconsciente. Quando se pensa que algo foi esquecido, na verdade essa informação passou para o inconsciente, sendo lembrada em momentos específicos. O psicólogo Carlo Gustav Jung dizia que a intuição nos faz ver o que está acontecendo nos cantos mais escondidos de nossa mente. O filósofo Bergson afirmava que, através da intuição, problemas que julgamos insolúveis vão se resolver, ou, antes, se dissolver, seja para desaparecerem definitivamente, seja para colocarem-se de outra maneira.
A intuição surge quando o raciocínio lógico e a observação empírica falham em processar nosso contato com o mundo. A intuição surge repentinamente, sem a necessidade de qualquer percepção que passe pelos sentidos. Ela registra-se ao nível do inconsciente.
Casos de intuições são relatados nas mais diversas culturas e são tantos que desafiam uma catalogação. Após grandes acidentes aéreos é comum descobrir casos de pessoas que iam viajar naquele avião, mas, sem nenhuma explicação racional, decidiram voltar para casa.
A intuição e o uso do lado direito do cérebro não são exclusivos dos artistas. Cientistas, por exemplo, usam a intuição e a criação para elaborarem hipóteses. Entretanto, na arte, a intuição e a criação são fundamentais.
A intuição criadora, segundo os psicanalistas neofreudianos, estaria vinculada não ao inconsciente, mas ao pré-consciente, já que pode ser acessada quando ocorre um relaxamento da parte racional. Os artistas teriam essa capacidade plenamente desenvolvida, o que lhes permitiria criar obras que são importantes intuições da condição humana.

Discos voadores

Numa tarde de outubro de 1957, o futuro escritor Stephen King, então com 10 anos, estava em um cinema na cidade de Stratford, Conencticut. O filme chamava-se A invasão dos discos voadores. Na tela, os ocupantes de naves extra-terrestres eram criaturas velhas e extremamente maldosas, com seus corpos nodosos e cara enrugadas. Eles traziam raios mortais, destruição em massa e a guerra total.
Quando o filme se aproximava do clímax, as luzes acenderam e o gerente subiu ao palco. Ele parecia nervoso e pálido. ¨Eu gostaria de lhes comunicar que os russos acabam de colocar um satélite m órbita: ele se chama Sputinik¨, disse.
Um silêncio mortal tomou conta da platéia. Logo o filme recomeçou, com a voz gutural dos extraterrestres se espalhando por todos os lados: ¨Olhem para o céu... um aviso virá dos céus... olhem para o céu...¨.
King pela primeira vez sentiu medo ao saber que os russos tinham um mecanismo no espaço, talvez sobre sua cabeça. Mas na tela tudo acabou bem. O mocinho descobriu uma arma secreta e os discos voadores foram derrotados. Os alto-falantes anunciaram em todas as eqüinas: ¨Perigo superado... perigo superado¨ e o medo mais profundo daquelas crianças, o de uma guerra nuclear, foi extirpado. Segundo King, foi um momento mágico de reintegração e segurança. Ele concluiu que inventamos horrores imaginários para poder suportar os horrores verdadeiros.
Assim, as salas de cinema na década de 1950 eram imensos divãs de analistas, onde as pessoas faziam uma sessão coletiva de catarse, do medo da terceira guerra mundial. Não é por outra razão que esse tipo de filme se tornou extremamente popular na época.

Loucos tiranos
Processo semelhante aconteceu na Alemanha da década de 1920. Nessa época proliferaram os filmes expressionistas, com vilões em busca do poder. Exemplos disso são O Consultório do Dr. Caligari, em que um psicólogo usa de seus conhecimentos para induzir um sonâmbulo a praticar crimes e Dr. Marbuse (Fritz Lang, 1922), em que um vilão assume diversas personalidades e lidera um bando de assassinos que aterrorizam a cidade.
Siegrifried Kracauer no livro De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão explica que os filmes de uma nação refletem a mentalidade desta de uma maneira mais direta que qualquer outro meio artístico. Isso acontece por dois motivos. Primeiro, porque tais filmes nunca são produto de uma só pessoa. Segundo, porque são destinados a multidões de indivíduos anônimos e fazem sucesso por revelar processos mentais ocultos. Assim, os filmes expressionistas eram protótipos da loucura e tirania que tomaria conta da Alemanha na década de 1930, sob a égide do nazismo, o que jogaria o país e o mundo em uma guerra desastrosa. Da mesma forma que os vilões do cinema, Hitler teria colocado o povo alemão numa espécie de hipnose que libertaria seu lado mais cruel.


Antecipação espacial
A arte constantemente não só analisa a sociedade de uma época, como antecipa suas realizações. Exemplo disso são as histórias em quadrinhos de Flash Gordon e Buck Rogers.
A tira de Buck Rogers surgiu pela primeira vez em janeiro de 1929. Na primeira história os leitores dos jornais conheciam um piloto que adormecia por inalação de um gás radioativo e acorda no ano de 2419, numa época em que a América tinha sido invadida por orientais e os americanos resistiam escondendo-se nas florestas.
Logo na terceira tira, a heroína Wilma apresenta a Buck Rogers uma mochila anti-gravitacional que lhe permite dar saltos tremendos. Para direcionar o saltos, os homens usavam o recuo de pistolas, o mesmo método que seria usado posteriormente pelos astronautas norte-americanos.
            Em 1984, quando os primeiros astronautas passearam no espaço sem estarem ligados à nave, muitos se lembraram que a cena era muito parecida com aquela tira de Buck Rogers: havia a mochila e o recuo da arma sendo usado para direcionar o astronauta.
Flash Gordon surgiu pela primeira vez nos jornais em 7 de janeiro de 1934. Desenhado pelo talentoso Alex Raymond, logo entrou na galeria dos personagens que antecipavam descobertas científicas. Raymond, ao contrário dos criadores de Buck Rogers, não tinha a consultoria de um grupo de cientistas, o que provavelmente o deixou solto para suas intuições tecnológicas.
Flash Gordon antecipou o forno microondas, mostrou mil e uma utilidades para o raio laser, e até antecipou o uso da mini-saia pela mulheres.
A própria NASA admitiu num boletim oficial que as histórias em quadrinhos do personagem foram usadas para solucionar problemas de suas cosmonaves. Uma visão atenta nas fotos do projeto Apolo permitem perceber influências no formato das naves e até no traje dos astronautas, especialmente se compararmos com a fase de Flash desenhada por Dan Barry.
Mas Flash Gordon não foi só antecipação. A série representou bem um momento da história em que as pessoas tinham total confiança na ciência, na tecnologia e no racionalismo. Essa época ficou conhecida como modernidade. Hoje, num período pós-moderno, é fácil perceber os componentes modernos nas tiras do personagem. Os cientistas eram mostrados sempre como pessoas boas, que traziam soluções para os problemas da humanidade. Até mesmo quando estava relacionada a projetos militares, a técnica era vista como algo bom. Numa das histórias, por exemplo, Flash vai parar em um planeta semelhante à Idade Média terrestre. Os humanos ajudam um grupo de rebeldes ensinando-os a fazer armas de fogo. O líder agradece-os pelo conhecimento que levaram ao planeta: ¨Conhecimento para pensar e fazer coisas! Conhecimento que nos trará a verdade, e a verdade nos tornará livres!¨, diz ele, apontado para um arsenal de armas.
Hoje, filósofos pós-modernos criticam a relação entre ciência e militarismo, que já estava implícita nas tiras de Flash Gordon.


Júlio Verne
No campo das antecipações, também a literatura se destaca. Exemplo disso são os romances de Júlio Verne, também exemplos perfeitos da crença absoluta na técnica e na ciência. Verne não só antecipou descobertas científicas, como, principalmente ajudou a popularizar essa forma de conhecimento, inspirando vários cientistas. A relação de Verne ao influenciar e ser influenciado por cientistas, mostra como essa troca é mais complexa do que se imagina.
Verne publicou seu primeiro romance científico, Cinco Semanas Num Balão, em 1863. Há apenas cinco anos havia sido publicado o livro A Origem das Espécies, de Darwin. Há pouco tempo Pasteur divulgara suas descobertas, que derrubavam a teoria da geração espontânea e lançava a teoria dos vermes como causadores de doenças. As descobertas científicas ocorriam numa sucessão cada vez mais rápida. Entretanto, o povo, o cidadão comum, ainda via a ciência como uma desconhecida. A própria palavra ciência era relativamente nova em 1868. A ciência estava além do alcance do homem comum. Pouco havia sido escrito que ele entendesse, ou de um modo que o tentasse à leitura. Era costume, naquele tempo, deixar a ciência aos inventores e químicos com suas máquinas esquisitas e estranhos tubos e recipientes.
                Interessante notar que nos livros do autor de Vinte Mil Léguas Submarinas a ciência não aparece apenas como um apoio da narrativa. Verne profetiza um mundo onde ciência e técnica fazem parte do dia-a-dia do cidadão comum.
                Não há dúvida nenhuma, no entanto, de que primeiro romance de Verne, Cinco Semanas num Balão, foi baseado em fatos científicos da época. Verne era colaborador da revista Museu das Famílias, para a qual escrevia textos de divulgação científica. Esse trabalho o obrigava a passar longas horas na Biblioteca Nacional, consultando livros, revistas e toda sorte de documentos da época. Além disso, o escritor era amigo  de Nadar, cientista e fotógrafo e  entusiasta do vôo e do mais pesado que o ar.
O balão de Cinco Semanas, assim como o aparelho voador de Robur, o Conquistador, eram nada mais que a concretização literária dos sonhos de Nadar.
O escritor, que se deixou influenciar por cientistas e fundamentou seus livros no conhecimento científico da época, influenciou também ele os cientistas e técnicos. Vários cientistas e inventores declararam que tiraram sua inspiração dos livros de Verne.
Verne mostrou em seus livros diversas realizações que só se tornaram realidade tempos depois:  os aviões, os helicópteros, os submarinos, a viagem à lua. Nesse último item, ele intuiu até mesmo o lugar de onde sairia o foguete: o estado norte-americano da Flórida.

Seriados
Mais recentemente, seriados têm discutido a condição humana tão bem que têm chamado a atenção da ciência.
O seriado Arquivo X, sucesso durante anos nas televisões de todo o mundo, mostrou como poucas outras obras a condição do homem pós-moderno. Na modernidade, a humanidade e acreditava piamente na ciência e na razão. Havia a idéia de que a ciência e técnica nos levariam a um mundo perfeito, o sonho de Júlio Verne. Mas a modernidade não realizou suas promessas. Se por um lado, a medicina aumentou a expectativa de vida da população, a industrialização fez proliferar os casos de câncer. Essa mesma ciência foi usada pelos nazistas nos campos de concentração, em experiências cruéis e no assassinato em massa. E foi a ciência e a tecnologia que criaram a bomba atômica, um artefato capaz de destruir toda a vida humana no planeta. Assim, a pós-modernidade é justamente uma crítica à visão ingênua sobre a ciência. Em muitos sentidos, essa crítica se transformou num resgate dos saberes tradicionais, inclusive religiosos.
O homem pós-moderno vive, portanto entre o ceticismo da ciência e a crença em coisas que não podem ser provadas cientificamente, como a magia, as simpatias, o horóscopo, os discos voadores. Essa dualidade é representada pelos dois personagens principais da série Arquivo X: a agente Sculy é a cética, que só acredita naquilo que pode ser provado cientificamente. Seu parceiro, Mulder, ao contrário, tem no escritório um pôster com um disco voador e os dizeres: ¨Eu quero acreditar¨.
Outro seriado de grande sucesso é Lost, sobre sobreviventes de um desastre de avião presos em uma ilha misteriosa. Logo nos primeiros episódios, revela-se que alguns dos sobreviventes na verdade não estava no avião. Eram ¨Os outros¨, um grupo de pessoas que se infiltra entre os sobreviventes com objetivos escusos e chegam a raptar alguns dos protagonistas.  
Da mesma forma que os filmes de discos voadores sintetizaram o medo de uma invasão russa durante os anos 1950, Lost sintetiza o medo do homem ocidental no mundo pós-11 de setembro. A referência óbvia é o desastre de avião, que, cogitava-se, poderia ter acontecido por causa de um atentado. Uma referência mais sutil são os outros. Esses são os terroristas, que vivem entre as outras pessoas, sem levantar suspeitas, até o momento de agirem.
Dessa forma, a arte cria uma maneira de explicar o mundo que não só antecipa inovações científicas e tecnológicas, mas também analisa a sociedade e o homem de uma forma que outros conhecimentos não conseguem. Como diz Edgar Morin, no livro A cabeça bem-feita: ¨em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escutura, há um pensamento profundo sobre a condição humana¨.