quarta-feira, março 18, 2026

Entenda por que os comentários estão sendo moderados

 


 - Gian, entrei no seu blog e tentei comentar numa matéria, mas não ele não foi publicado imediatamente 

- Infelizmente eu tive que acionar a moderação de comentários. 

- Mas por quê? 
- Olha o tipo de comentário que os bolsominions estavam postando. 



- Caramba, são dezenas de comentários iguais o cara já começa te chamando de stalinista! 

- Pois é, virei um "extremista de esquerda stalinista"! 
- Caramba! 
- É o culto à personalidade. Como eles consideram o Bolsonaro um semi-deus, qualquer um que não o idolatre é imediatamente chamado de comunsita, petista, stalinista, dentista, skatista, surfista, remista. E pode colocar na conta vários outros "comunistas": Jim Starlin vira marxismo cultural, Raul Seixas vira marxismo cultural, Alan Moore vira marxismo cultural. E, para eles, comunista precisa ser preso. Para eles a Globo é comunista, a Folha de São Paulo é comunista, o Estadão é comunista. Esse tipo de gente só se informa pelo zap zap e por canais bolsonaristas como o Terça-livre. Qualquer coisa fora disso é comunismo. 
- O cara está te chamando de lulo-petralha?!!!



- Pois é, eu que nunca votei no PT, que sempre critiquei o PT, que na época da faculdade vivia em pé de guerra com os petistas da turma, de repente virei petralha só porque me recuso a idolatrar o mito. 
- E você praticamente nem fala de política no seu blog. 
- Pois é. Mas a estratégia deles é Dart Vader: ou você idolatra o Capitão ou é comunista, stalinista, petista, skatista, surfista, dentista, remista. Teve um "amigo" bolsominions que ameaçou me dar um soco só porque eu disse que político é para ser cobrado não para ser idolatrado. Outro disse que o pior tipo de "comunistas" são os "isentões": isentão aí significa alguém que se recusa a idolatrar o mito deles, mas ao mesmo tempo não idolatra o Lula, que se recusa a tecer elogios à ditadura militar, mas também não elogia a Coréia do norte. Antigamente para ser comunista precisava ser fã do Karl Marx, precisava ler o Manifesto Comunista, precisava acreditar em ditadura do proletariado. Hoje em dia, para ser comunista, basta não idolatrar o mito.
- Ele te acusa de cometer um gesto lulo-petista. Que gesto lulo-petista é esse?
- Me recusar a idolatrar o mito. Para quem escreveu esse comentário, qualquer um que não idolatre o mito está cometendo um gesto lulo-petista. Ou seja, na cabeça dele, está cometendo um crime. São pessoas que só se informam pelo zap zap e por vídeos de teoria da conspiração.
- Caramba, estou lendo aqui. O cara está ameaçando te denuncia... Te denunciar para quem? 
- Para os militres, provavelmente. 




- Estou vendo aqui. Ele te acusa de doutrinar os alunos. Fui seu aluno e você nunca falou de política em sala de aula. 
- Deve ser porque uso camisas da Marvel em sala de aula. Dizem que estou doutrinando os alunos a gostarem da Marvel. Nisso, confesso, sou culpado. Mas em minha defesa posso dizer que gosto da DC quando ela é desenhada pelo Garcia-Lopez.... rsrs... 
- Nossa, o cara diz que vai fazer você perder o emprego! Chega até a te chamar de estelionatário! 
- Só faltou dizer que vai me prender e  torturar pessoalmente para que eu confesse todos os meues crimes...kkkk Tudo isso porque eu me recuso a idolatrar o Capitão. E é esse pessoal que diz que é a favor da liberdade. A liberdade que eles querem é a liberdade de poder denunciar e prender quem pensa diferente deles. E como você pode ver, postaram essas ameaças dezenas de vezes no blog antes que eu bloqueasse os comentários. É por isso que não é mais possível comentar no meu blog. Infelizmente, tive que bloquear essa possibilidade de contato com meus leitores por causa desse tipo de comentário ameaçador.   
- Assustador, melhor manter os comentários do blog moderados mesmo.  
- Pois é. Melhor do que dar voz a gente desse naipe, que só se informa pelo zap zap e acredita em todas as teorias da conspiração possíveis. 

Hulk: A encruzilhada

 


Bill Mantlo é o grande roteirista do Hulk. Sua visão do personagem foi a mais duradoura e lembrada do personagem. E o grande momento da fase de Bill Mantlo foi a saga da Encruzilhada.
Publicada entre 1984 e 1985, essa saga durou 13 mais de um ano.
Na história, o Hulk se torna incontrolável e o Dr. Estranho resolve bani-lo da Terra, enviando para um local que é um cruzamento entre vários mundos e realidades, a encruzilhada. Ali o Hulk pode escolher para onde ir.
Hulk é enviado pelo Dr. Estranho para uma encruzilhada entre vários mundos. 


O feitiço lançado pelo mestre das artes místicas tem um gatilho: se o monstro verde não estiver se sentindo feliz no mundo que escolheu, ele volta para a encruzilhada.
Esse plot permitiu a Mantlo desenvolver o lado ficção científica e fantasia do golias esmeralda em tramas marcantes, a começar pela garota verde presa em um castelo que chora flores (que lembra muito Jarella). O Hulk tenta salvá-la, mas descobre que seus captores são extremamente poderosos, a ponto de uma criança poder enfrentá-lo.
Para que o roteiro não se tornasse arrastado, Mantlo muda constantemente o mundo escolhido por Hulk, colocando-o nas mais estranhas situações. Há desde um ser gigante que anda pelas dimensões sugando energia – e é caçado por um grupo (numa trama que lembra muito Moby Dick) até uma realidade em que o Hulk é pequeno como um brinquedo de criança.
Em um dos mundos o Hulk é pequeno como um brinquedo de criança. 


E, finalmente, há um desenvolvimento da psiquê do gigante esmeralda até então inédita. Mantlo mostra que a gênese do Hulk já estava em Bruce Banner desde criança e cria um trio de personagens saídos diretamente de seu inconsciente: o duende (a raiva), a guardiã (instinto de preservação) e brilho (a racionalidade). Mantlo conseguiu desenvolver uma profundidade no personagem até então insuspeita.
Essa fase teve desenhos de Sal Buscema e arte final de Gerry Talaoc. A arte-final faz toda a diferença aqui, destacando ainda mais a arte expressiva de Buscema e, ao mesmo tempo dando a ela um ar de mistério e fantasia. Os capítulos finais foram desenhados por Mike Mignola, ainda em início de carreira. Mignola aliás, faz várias das capas da saga – e já mostra o monstro artístico que se tornaria.
Aqui no Brasil essa saga foi publicada pela editora Abril na revista O incrível Hulk, dos números 53 a 64. Considerando o nível da qualidade dessas histórias, é surpreendente que ela não tenha sido republicada pela Panini.

Perry Rhodan – Gom não responde

 


Gom não responde, volume 47 da série Perry Rhodan é uma continuação direta de Projeto aço arcônida, na qual Bell e um grupo de mutantes vai à conferência dos aras com os superpesados e os mercadores galácticos para tentar mudar as coordenadas da Terra no computador do único que sabe onde fica nosso planeta.

No final do volume, eles escapam, mas uma força paranormal faz com que sua nave caía no planeta Gom. O que acontece com eles e os perigos enfretados é mostrado nesse volume escrito por Kurt Mahr.

Mahr descreve Gom como uma verdadeira ante-sala do inferno: “Gom era um mundo de oxigênio, com uma gravitação na superfície de 1,9 e uma pressão do ar de vinte atmosferas. Um mundo onde o homem não poderia parar de pé mais que dois minutos e onde precisaria de proteção de trajes espaciais para não ser esmagado pela fortíssima pressão”.

Se não bastasse isso, o planeta tem como habitantes locais os solhas, placas marrom escuro que têm grande poder paranormal, sugam matéria e podem se unir em seres gigantescos. Outra ameaça são os bios, seres artificiais criados pelos aras.


A capa original alemã. 

Como é possível perceber, esse volume é um verdadeiro triller de sobrevivência, que vai muito além daqueles que se passavam no planeta Vênus.

Uma surpresa do volume é a forma como Mahr trata Betty Toufry. O volume, escrito no início da década de 1960 mostra a mutante de forma pouco usual naquela época eminentemente machista, em que a maioria das heroínas se limitava a gritar e ser salva pelos heróis.

Quando a nave cai no planeta, por exemplo, todos os homens acreditam que a teriam que voltar para a nave para resgatar a garota que estaria morrendo de medo. Mas encontram Betty sentada numa pedra, sorrindo. Já no final da aventura, Bell aconselha a garota a ficar dentro da nave num momento de perigo: “O negócio vai começar a pegar fogo, senhorita, o melhor é ficar dentro da nave”. “Eu gosto de fogo, senhor Bell.”, responde ela. “Além disso, não gosto que ninguém diga que sou covarde.”.  

A história perdida do Puritano

 


 

A segunda história da dupla provavelmente foi uma HQ perdida chamada Puritano.

O Bené era muito fã do Batman e isso era óbvio no visual do personagem. Puritano era um vigilante que lutava contra satanistas e na primeira e única aventura ele tentava salvar uma garota que seria usada para gerar um filho do demônio.
A história era narrada em primeira pessoa e refletia diretamente as convicções religiosas do personagem, com muitas referências teológicas, como “é o fogo do senhor que purifica os homens e seus pecados”.


O interessante da história é que ela se passa em alguns segundos. O Puritano está caindo após destruir uma claraboia, tentando impedir que a prostituta lá embaixo seja sacrificada num culto satânico. A maior parte dos fatos são mostrados em flash back.

(Trecho do meu livro A árvore das ideias - Clique aqui para baixar gratuitamente)

A arte fanástica de Even Mehl Amundsen

 


Even Mehl Amundsen é um artista norueguês especializado em imagens de fantasia. Seu trabalho mais conhecido foi o concept art para os personagens da saga Senhor dos Anéis. Confira suas imagens incríveis. 











terça-feira, março 17, 2026

Verossimilhança hiper-real na revista Cajueiro

 

Meu artigo Verossimilhança hiper-real nos quadrinhos de Alan Moore foi publicado na revista Cajueiro. No artigo, eu analiso uma estratégia, usada por Alan Moore, para fazer com que seus quadrinhos pareçam reais a ponto de alguns leitores acreditarem que aquilo que é narrado aconteceu mesmo. Alguns exemplos: os anexos de Watchmen e a série 1963, que emula perfeitamente as revistas da Marvel na década de 1960.

Para acessar os artigos, clique no link: https://seer.ufs.br/index.php/Cajueiro/article/view/13782

História fractal

 

Quem gosta de história percebe uma característica surpreendente dos acontecimentos: a total incapacidade de prever o futuro. Em uma olhada rápida para o passado, deparamo-nos com situações em que o tecido da história parece se rasgar, dando lugar à indeterminação.
Na antiguidade, por exemplo, quem poderia imaginar que Alexandre, o rei de um pequeno país chamado Macedônia ia conseguir derrotar e arregimentar os gregos, incluindo os belicosos espartanos, e colocar de joelhos os persas, formando o maior Império daquele período em poucos anos?
Se alguém dissesse, no início dos anos 1920 que Hitler, aquele mendigo com pretensões a artista, que sobrevivia graças às sopas dos pobres, tornaria-se um dos homens mais poderosos do mundo, seria considerado louco.
Hitler: de mendigo a conquistador

Por outro lado, ainda sobre Hitler, até 1942 seus exércitos pareciam imbatíveis e parecia inevitável que o mundo seria totalmente conquistado pela Alemanha nazista. Quem poderia prever que pouco tempo depois Hitler começaria a amargar uma derrota após a outra, até perder completamente a guerra?
Fatos como esses, imprevisíveis, parecem não ser exceção, mas a regra e confundem qualquer um que se debruce sobre o passado em busca de respostas para o futuro.
Os pesquisadores norte-americanos Clifford Brown e Walter Witschey podem ter proposto uma  forma de explicar essa imprevisibilidade. Os dois elaboraram sua teoria a partir do ocaso da civilização maia. No período do século 3 a século 9, os maias eram a civilização mais avançada do mundo, dominando a astronomia, a matemática, a escrita e a arquitetura. No século 9, no entanto, a civilização entrou colapso, iniciando uma decadência que seria decisiva para a conquista espanhola séculos depois. Se não houvesse esse declínio, era provável que os Maias é que tivessem conquistado a Europa. O que aconteceu nesse período? Para os dois pesquisadores, as cidades maias teriam sido construídas seguindo um padrão fractal, o que as tornava extremamente dependente das condições iniciais, fenômeno que é chamado de efeito borboleta.
Cidades maias seguiam padrão fractal

Os fractais são figuras geométricas que pretendem representar fenômenos dinâmicos, não deterministas. Além de serem muito bonitos, os fractais têm duas características. A primeira delas é a auto-semelhança. Ao ampliarmos uma parte do desenho, temos a mesma figura do todo, mas com mais detalhes, mais informações. Outra característica é a incrível dependência de pequenos eventos. Um único número diferente muda completamente a figura do gráfico. Um exemplo de fractal na natureza é a samambaia. Cada folha de samambaia tem o mesmo formato da folha maior.
Entre os maias, um pequeno evento, uma seca, uma guerra, uma intriga palaciana, pode ter provocado a decadência desse povo, iniciando um processo de configuração impossível de ser determinada.
Um exemplo conhecido disso tem a ver com os relógios. Se alguém viajasse no tempo e fosse na China da Idade Média, teria certeza de que os chineses inventariam o relógio mecânico, tal o seu avanço na contagem do tempo. No entanto, quem inventou esse tipo de relógio foram os europeus. O que aconteceu? A emergência de uma classe que valorizava a contagem do tempo, a burguesia, para quem tempo era dinheiro, tornou necessária a criação de relógios mecânicos e seu desenvolvimento, já que bons relógios eram essenciais para a navegação e, portanto, para o comércio ultra-marinho. Aquela pequena classe de comerciantes, que era desprezada pela nobreza e pelo clero, foi responsável, com suas necessidades, por toda uma série de transformações que moldaram a face do mundo. É o efeito borboleta, o princípio de que pequenos eventos podem provocar grandes transformações....

Lendas - o samba do Byrne doido

 


Lendas foi o primeiro crossover da DC após Crise nas infinitas Terras. Criado a partir de uma ideia de John Ostrander, teve como principal roteirista Len Wein e a maior parte dos desenhos por conta de John Byrne (que também fez as capas).
Aqui foi lançada pela editora Abril em uma minissérie de seis capítulos, em 1988.
Se Crise era uma obra coesa, em que roteiro e desenho se casavam à perfeição para compor uma obra que vai num crescendo até seu final apoteótico, Lendas parece um bolo que desandou porque todo mundo botou a mão.
Darkside resolve acabar com os heróis atacando a reputação das lendas. 


Para começar, a própria premissa não nada é original: Darkside resolve acabar com os heróis (as Lendas) introduzindo um personagem que controla mentes e faz a população ficar contra os heróis. Quem leu os quadrinhos da Marvel na década de 1970 sabe que essa premissa foi usada em mais de uma história. Além disso, o personagem que faz isso é muito mal construído. Gordon Godfrey é um político? Um estudioso? Um jornalista? Ele surge do nada na história, concedendo uma entrevista televisiva. Não há nenhuma explicação de porque ele está sendo entrevistado e não temos nenhuma explicação de nada durante a série: Godfrey não tem existência como personagem, é apenas um roteirismo, alguém necessário para que a trama ande.
Godfrey surge do nada. 


E, bem, a trama não anda. Há muitas idas e voltas, mas pouco desenvolvimento. A ida do Superman para Apokolips, por exemplo, é totalmente desnecessária e não contribuiu em nada para o enredo (tanto que no final dessa subtrama o herói perde a memória do que aconteceu).
O desenho de Byrne ajuda a dar um charme para a série, especialmente quando o roteiro está a cargo de Len Wein, que tenta salvar a história como pode. 
A série vale a pena pelo belo traço de Byrne. 


Mas Byrne encontra tempo até mesmo para dar uma alfinetada em seu antigo-chefe, Jim Shoter, colocando-o como vilão em uma sequência totalmente desnecessária. Como àquela altura ele era um astro dos comics, parece que ninguém teve coragem de dizer que aquelas quatro páginas não encaixavam na trama.
Byrne cutucando o antigo chefe: "Eu posso criar um novo universo!".


Um dos piores capítulos é o segundo, escrito por John Ostrander e desenhado por Joe Brozowski, focado inteiramente em Nuclear, em que a subtrama se resolve com... tortas na cara. Não, não é brincadeira. A trama se resolve com tortas na cara.
Lendas foi um verdadeiro samba do Byrne doido.

A Garota-esquilo

 


Em 1990, Steve Ditko e Will Murray criaram uma super-heróina inusitada para uma história complementar da antologia Marvel Super-Heroes. O nome? Garota-esquilo. Era uma mutante com rabo que tinha poderes de esquilo, incluindo dentes frontais avantajados e podia se comunicar com roedores. Na história, ela tenta se tornar parceira do Homem-de-ferro e ajuda a vencer o Dr. Destino.

Garota-esquilo? Aparentemente era só uma piada e com certeza a personagem nunca ganharia um título. Mas em 2005 a personagem apareceu na minissérie Vingadores Centrais e chamou a atenção do público. A partir daí começou a aparecer em vários outros títulos até ganhar uma série própria, em 2015, escrita por Ryan North com arte de Erica Handerson.

A primeira aparição da personagem.


O resultado é muito divertido. Na trama, Daaren Green está se mudando para a faculdade quando os esquilos a avisam que Galactus está vindo aí (aparentemente, os esquilos têm grandes habilidades astronômicas). Mas dessas vez ele veio camuflado e não mandou nenhum arauto na frente para avisar de sua presença (o roteiro toca num ponto interessante: por que um ser como Galactus precisaria avisar um planeta repleto de super-heróis, dando tempo para que eles se preparassem?). Nesse meio tempo ela derrota ladrões de banco, Kraven, o Caçador e Chicote Negro.

Destaque para a interação entre a protagonista e mindinha, sua amiga esquilo,  que na história consegue falar (embora só Daaren possa entendê-la), o que dá ensejo a ótimos diálogos.



Outro ponto é a forma como a Garota-esquilo vence os desafios. Embora algumas soluções sejam forçadas (uma armadura de esquilos?), outras funcionam bem. E a forma como ela vence Galactus é realmente genial. Aliás, ponto para o diálogo dela com galactus:

- Você me entende? Ninguém entende esquilos! – diz mindinha.

- Aquele que detém o poder cósmico pode lançar raios de seus olhos, se teleportar e criar e destruir vida por todo o tempo e espaço. Então, obviamente, falar com esquilos não é nada demais.



O desenho de Erica Handerson passeia entre o anatômico e o caricatural, funcionando muito bem para a história.

No Brasil essas histórias foram publicadas apenas na coleção os heróis mais poderosos da Marvel e passou batido entre os fãs. Infelizmente, pois é grata surpresa.

No limite da traição

 


Os problemas no filme No limite da traição, filme de Tyler Perry lançado pela Netflix  começam no título nacional. O título original, “A Fall From Grace” poderia ser traduzido mais ou menos como Caída em desgraça, algo que faz muito mais sentido na trama do que a “tradução”.
Na história, uma advogada inexperiente é escalada para negociar um acordo de confissão com o Ministério Público para uma mulher que matou o marido muitos anos mais jovem que ela, um caso que mobiliza a opinião pública. Mas, conforme investiga o caso, vai descobrindo que a história pode não ser o que aparenta.
O plot em si é interessante, mas é um daqueles casos em que a gente fica pensando: caramba, como conseguiram arruinar uma boa história com uma direção ruim e problemas no roteiro?
Os problemas começam na cena inicial, com o marido da advogada tentando impedir uma idosa de se suicidar. A cena é mal dirigida a ponto de parecer patético o que deveria ser dramático. O problema maior é que essa cena será essencial para o final, mas se ela realmente tivesse acontecido, na vida real, toda a trama já teria sido descoberta pela polícia nos primeiros segundos do filme.
A direção ruim se mantém por toda película, fazendo com que as cenas de conversa do casal de protagonistas, que deveriam dar profundidade aos personagens, sejam apenas chatas.
Mas o bolo da cereja é o final, em que a advogada descobre o que está acontecendo por um puro acaso, um tremendo deus ex machina.
Como dito anteriormente, o que sobra do filme é a sensação de uma boa história que foi desperdiçada.  

Perry Rhodan – O sacrifício de Thora

 



Não há spoiler nenhum em dizer que no número 78 da série Perry Rhodan, Thora, esposa do herói, morre. Essa informação já está expressa no título. Sendo ela uma das personagens mais relevantes da franquia, era de se esperar que esse número fosse memorável, mas infelizmente não é o que acontece.

Escrito por Kurt Brand, o livro gira em torno de uma tentativa dos terranos de comprar 100 naves arcônidas. Em uma trama paralela acompanhamos a degenerência da esposa de Rhodan, que, mesmo após receber o soro dos aras, que deveria prolongar sua vida, passou a envelhecer em ritmo crescente a ponto de se tornar uma idosa com dificuldade até mesmo para se levantar da cadeira.

Os médicos aconselham que ela seja incubida de alguma missão, aparentemente como forma de terapia psicológica. Parece uma forma pouco ortodoxa de fisioterapia para uma moribunda, tanto que Rhodan se recusa, mas Bell o convence dizendo que ele está sendo egoísta. Um diálogo, aliás, que não faz o menor sentido.

Metade do livro é dedicado aos preparativos para a viagem, à descrição do estado de saúde de Thora e à conversa entre Bell e Rhodan. Mesmo quando a viagem começa, não acontece nada. Há um desvio totalmente desnecessário para a zona de guerra, que parece ter tido o objetivo apenas de fazer a nave aparecer no meio de uma batalha e dar um pouco de ação ao volume.

Capa alemã. 


Começa a acontecer alguma coisa só lá pela página 120 (o volume tem 169 páginas), quando o computador regente de Árcon aprisiona a comitiva que tinha ido negociar a compra das naves, incluindo Thora.

O título do volume dá a entender que Thora irá se sacrificar pelo bem da humanidade, em um final heróico e apoteótico. Nada disso. A morte dela acontece quando tudo já está resolvido e é mostrada com quase nenhum impacto (culpa de Kurt Brand, que ao invés de focar a narrativa no que está acontecendo, foca em Deringhouse, que sequer está no local dos acontecimentos e só chega quando tudo já aconteceu).

É decepcionante perceber que uma personagem tão querida e tão forte (provavelmente a única personagem feminina de relevância da série nesse período) tenha perdido seu protagonismo no segundo ciclo e termine sua participação na série num livro tão fraco. É possível que os grandes escritores, como Clark Darlton, estivessem ocupados com outros volumes importantes, mas torna-se incompreensível que K.H. Scheer, o coordenador da série, tenha colocado esse volume nas mãos de Kurt Brand ao mesmo tempo em que relegava William Voltz com volumes menos relevantes. Afinal, os dois à época eram calouros na série.

Você sabe a diferença entre ficção e fraude?

 

Atualmente nos quadrinhos, na literatura, na arte, existem trabalhos tão hiper-reais, tão verossimilhantes que muitos acreditam que se trata de realidade. Por conta dessa confusão, há quem diga que trabalhos que utilizam essa estratégia são na verdade fraudes.
Isso aconteceu, por exemplo, com o e-book Delegado Tobias, de Ricardo Lísias. A narrativa usa recortes de jornais e documentos jurídicos fictícios e vários outros simulacros para tecer a narativa.
Alguém, ou ingênuo, ou mal-intencionado, denunciou-o à justiça por falsificação de documentos jurídicos e instalou-se um processo para investigar o caso. Justiça federal, Ministério Público Federal e Polícia Federal foram mobilizados para investigar o caso, com enorme gasto de dinheiro público. Quando ficou claro do que se tratava, cada órgão jogou a culpa no outro e todos declararam que não investigavam ficção. A própria justiça teve que declarar oficialmente aquilo que todo mundo deveria saber: falsificação é falsificação e ficção é ficção (por mais verossimilhante que seja).
A situação é simples: se o autor do livro tivesse entrado num fórum e adulterado documentos jurídicos reais, ele estaria cometendo uma fraude. Ao criar um documento jurídico e incluir em seu livro, o autor só está criando... ficção.
Um outro exemplo, famoso, agora na área de quadrinhos.

No final de cada capítulo de Watchmen, o leitor encontra uma série de anexos: matérias de jornais, recortes de artigos e até o prontuário médico do personagem Roschach.
Esses anexos são fraudes? Não.
Seria uma fraude se Alan Moore tivesse, por exemplo, ido em uma clínica médica e modificado o prontuário de um paciente real. Mas criar o prontuário médico de um personagem fictício é apenas... ficção!
Mas Gian, eu acreditei que determinado personagem de um quadrinho existia! No quadrinho que eu li tinha até a carteira de identidade dele! Isso não é uma fraude?
Não. Isso só demonstra que o autor do quadrinho conseguiu usar bem a verossimilhança para caracterizar esse personagem.
Isso seria uma fraude se, por exemplo, alguém criasse um personagem chamado Peter Parker e forjasse uma carteira de identidade dele para inscrevê-lo no tribunal eleitoral para que esse "personagem" pudesse votar. Ou usar essa identidade para pegar dinheiro emprestado e não pagar.
- Mas, Gian, o quadrinista cobrou pela HQ. Então ele teve lucro. Isso não é fraude?
Claro que não. Se fosse assim, qualquer um que vendesse uma HQ estaria incorrendo em fraude, já que toda HQ usa em maior ou menor grau, estratégias de verossimilhança.
O que caracteriza a fraude é a manipulação de DOCUMENTO OFICIAL visando prejudicar alguém. E todos nós sabem