quarta-feira, junho 10, 2026

A balada de Halo Jones

 

 

Uma obra imerecidamente pouco conhecida de Alan Moore é A balada de Halo Jones. A obra, reunida pela Mythos em 2015, foi publicada originalmente nas páginas da revista 200 AD em capítulos de seis páginas de 1984 a 1986.

A personagem principal nasce em um local chamado aro flutuante na extremidade de Nova York onde eram despejados todos os desempregados da América. Segundo a propaganda oficial, era um programa de redução da pobreza, mas o local não reduzia a pobreza, apenas fazia com os pobres não fossem vistos pelo resto da sociedade.

O local é tão violento que uma simples ida ao shopping pode ser uma jornada mortal. Aliás, a primeira trama da história é justamente a ida de Jones e uma amiga para o shopping quando acaba a comida. “Rodice, a gente tem mesmo que fazer isso? Eu tenho só dezoito anos!”, reclama a personagem em um dos quadros.

A editora inglesa Rebelde lançou uma edição colorida. 

Moore constrói toda uma ambientação para esse campo de concentração, com costumes (mulheres não podem, por exemplo, mostrar os pés ou os braços), grupos sociais, como os batidas diferenciais, cujos implantes cerebrais faziam com que eles sentissem batidas hipnóticas persistentes e até linguagem, a exemplo do verbo “piadar”.

No segundo tomo, a protagonista sai do aro ao conseguir emprego em uma nave cruzeiro – e Moore consegue fazer essa fase ainda mais interessante que a primeira.

No terceiro tomo, Halo Jones, sem perspectiva de trabalho, alista-se no exército e temos a parte mais empolgante do volume, não só pela narrativa, com mais ação e drama, mas também pelo ótimo uso que o roteirista faz de informações científicas.

Alan Moore usa uma aula para repassar informações sobre o mundo de Halo Jones.

Boa parte dessa fase se passa em Moabe, o maior planeta não gasoso já encontrado pelo homem. Nenhum ser humano pode sobreviver ali sem um traje gravitacional, o que por si só já faz a história se tornar interessante – se alguém cair, não consegue se levantar.

Mas o que realmente cria um grande impacto é uma consequência direta da alta gravidade: o tempo se distorce. Na primeira missão de Halo na zona de guerra, ela passa apenas cinco minutos, mas no ambiente com gravidade normal se passaram dois meses. “Não fique muito ambiciosa... você só é paga pelos cinco minutos”, esclarece uma das militares.

O capítulo mais interessante se passa no planeta Moabe, cuja gravidade distorce o tempo. 


A balada de Halo Jones é uma daquelas sagas em que acompanhamos os personagens por um longo tempo e vamos nos acostumando e simpatizando com eles a ponto de sentirmos saudades. O fato da história ser dividida em capítulos de seis páginas faz com que a a leitura seja rápida, fluída. O desenho de Ian Gibson vai nitidamente evoluindo ao longo da série, o que contribui ainda mais para a qualidade do álbum.

O mais surpreendente aqui é perceber que Moore escreveu essa saga ao mesmo tempo em que escrevia o Monstro do Pântano, o que mostra o quanto ele conseguia ser rápido sem perder a qualidade.

Em tempo 1: existe um boato de que a série teria na verdade dez tomos, mas parou de ser publicada no terceiro. Um episódio isolado, no qual um professor fala da personagem, dá a entender que de fato Moore tinha muitos planos para  Halo Jones.     

Em tempo 2: A balada de Halo Jones já tinha sido lançada em 2003 pela Pandora.

Nick Raider – Uma ameaça do passado

 


Todos sabem que em qualquer organização, há sempre alguém que se desvia, mesmo nas forças policiais. A história “Uma ameaça do passado”, de Nick Raider, foca exatamente nisso: em um policial que adentrou o mundo do crime.

A história começa com um bando de assaltantes de segunda categoria contratando um motorista para um assalto. Sua figura fria e as várias exigências, entre elas a de que o assalto aconteça uma hora antes do previsto já dão ideia do personagem. O leitor lê e pensa: esse é um profissional, ao contrário dos assaltantes, que parecem indecisos e pouco experientes.

A história gira em torno de um motorista durão. 


De fato, os assaltantes têm pouca experiência, pois não verificaram o tempo de abertura do cofre. Quando pensam que deu tudo errado, dão de cara com uma bolsa repleta de dólares.

Embora um dos assaltantes seja deixado para trás, o grupo acaba se safando graças à habilidade do motorista, que havia se programado para pular com o carro sobre uma ponte que abriria no momento exato (daí sua exigência a respeito da hora).

O assaltantes acabam levando uma mala de dinheiro da máfia. 


Mas o dinheiro da bolsa era do crime organizado e começa uma jornada dupla: de um lado, Nick Raider e os demais policiais tentando achar os assaltantes e prendê-los, e, por outro lado, a máfia tentando localizar os mesmos assaltantes e matá-los, como uma forma de punição e aviso.

Para complicar a situação, surge uma mulher sedutora que afirma trabalhar para o seguro, mas na verdade está a serviço da máfia. Claro que ela se envolve romanticamente com Raider como forma de conseguir informações. A senhorita Shade é uma típica femme fatale, inclusive no visual, com seu vestido tubinho preto, as pernas longas e o cabelo curto.

Uma mulher a serviço da máfia usa o romance com Raider para conseguir informações. 


No final, “Uma ameaça do passado” é uma boa trama noir, com um desenvolvimento que surpreende o leitor e vários níveis de narrativa.

Uma curiosidade é que essa história é tão parecida com o filme Drive, de Nicolas Winding Refn que se poderia pensar que se trata de um caso de cópia. Afinal, tanto na HQ quanto no filme, a trama gira em torno de um motorista de assaltos muito eficiente, que parece nunca demonstrar emoções e cuja habilidade parece surpreendente. Acontece, no entanto, que a HQ de D´Antonio e Polese é 1989 e o filme de 2012. Não é de se descartar, portanto, que alguém em Hollywood tenha lido essa HQ italiana e se inspirado para o filme. 

A arte esplêndida de Dan Spiegle

 



Dan Spiegle é um dos mais celebrados desenhistas de quadrinhos das décadas de 1950 e 1960.

Spiegle nasceu em 1920. Era filho de uma enfermeira e um farmacêutico. Ele começou a se interessar por quadrinhos lendo as revistas que seu pai vendia na farmácia. Foi quando conheceu o trabalho de mestres, como Alex Raymond, Roy Crane e Milton Caniff. Em 1946, quando voltou da II Guerra Mundial, ele se matriculou em um curso de artes e teve entre seus professores vários artistas da Disney e da indústria cinematográfica.

Em 1949 ele conheceu William Boyd, intérprete do cowboy Hopalong Cassidy. Boyd tinha vendido os episódios antigos do personagem para emissoras de TV, o que fizeram com que o interesse pelo personagem ressurgisse. Hopalong Cassidy ganhou um programa de rádio e havia a ideia de fazer uma tira de quadrinhos. O ator achou que Spiegle era a pessoa certa para desenhar. A tira foi distribuída pela Mirror Enterprises Syndicate e pela  King Features Syndicate.

Em 1956 o desenhista iniciou sua longa colaboração com a Western Publishing e a Dell Comics. Para essas editoras ele trabalhou principalmente com adaptações de seriados de TV, em especial séries de faroeste, como Maverick . Ele desenhou também adaptações de séries de ficção científica, como Perdidos no Espaço. Outros trabalhos importantes foram desenhos para revistas baseadas em personagens da Hanna-Barbera.












Taoismo: a filosofia da eterna transformação

 


            O taoísmo é baseado num pequeno livro de 81 versos chamado Tao Te King. Conta-se que o autor seria um velho chamado Lao Tsé.  Lao Tse viveu a primeira metade de sua vida, em torno do século 6 a.C. na corte imperial chinesa trabalhando como historiador e bibliotecário. Um dia, ele abandonou a corte e retirou-se para floresta, onde passou a viver como eremita, estudando e meditando. Depois de algum tempo, resolveu cruzar a fronteira da China. O soldado que guardava a fronteira, imaginando que as autoridades não iriam gostar se ele deixasse ir embora um homem tão sábio, impôs uma condição para que o velho atravessasse a fronteira: antes disso, ele deveria escrever um livro que reunisse toda a sua filosofia. Lao Tse sentou-se, escreveu rapidamente o pequeno livro, entregou ao soldado e foi embora para nunca mais ser visto.
            Essa é apenas um das versões para o surgimento do Tao Te King. Hoje não se tem certeza nem mesmo de que Lao Tse tenha existido e muitos pesquisadores prefere creditar o livro à tradição oral.
            O livro surge em um período conturbado da história chinesa. Por volta do ano 1000 a 700 a.C., a China foi unificada sob o domínio da Dinastia Zhou. No século 7 a.C. o império Zhou entrou em decadência. As famílias aristocráticas que governavam os estados começaram a brigar pelo poder, absorvendo os estados menores. Essa época conturbada foi chamada de “período dos reinos combatentes”.
            Nessa época surgiu uma nova classe de homens, os shi, formada por camponeses ambiciosos e membros falidos da aristocracia. Eles ocupavam o cargo de administradores e conselheiros dos estados.
            Embora a maioria dos shi se ocupasse apenas de questões práticas, outros eram idealistas e pretendiam reformular a vida política chinesa com ideais morais e espirituais. Esses homens normalmente se reuniam em torno de um mestre, como Confúcio, e tentavam convencer os governantes locais a seguirem suas políticas. Outros se afastavam do mundo para viver uma vida feliz e simples em bosques, onde apenas pescavam e meditavam.
            O Tao Te King é uma mistura das visões desses grupos e de outros. Pode ser lido como um manual para governantes ou como um livro puramente espiritual e contemplativo. Política, religião e filosofia se misturam em uma obra que, ao mesmo tempo é simples e complexa, permitindo várias interpretações.
            Na dinastia Han (151-41 a.C.) o Tao Te King foi adotado como um dos principais manuais da corte. Surgiu também a versão de que ele teria sido escrito por um rei, o Huang Di (Imperador Amarelo). No final desse período, o taoismo já era uma religião, com o Tao sendo considerado seu livro sagrado. A lenda de que Lao Tse teria deixado a China chegou mesmo a ser ampliada do modo que ele teria ido para a Índia, trocado de nome para Gautama e fundado o budismo. Aliás, ao entrar na China, o Budismo foi influenciado pelo taoísmo, dando origem ao Zen Budismo.

Tao - indo além da dualidade

            O principal conceito do taoísmo é de Tao. Lao Tse diz que era impossível descrever o Tao de maneira racional: “O caminho que pode ser seguido não é o Caminho Perfeito. O nome que pode ser dito não é o Nome eterno. No principio está o que não tem nome”. Assim, o Tao deve ser conhecido de maneira direta e intuitivamente. Para isso é necessário manter a mente tranqüila e esquecer os pensamentos a respeito das coisas eternas.
            Para conseguir compreender o Tao também é necessário ir além da dualidade. Nós achamos alguém belo e, por conseguinte, achamos outras pessoas feias. Ao concebermos o bem, criamos o mal. O Tao pretende ir além da ilusão da dualidade, vendo além dos pares opostos.

Eterna mudança
            Para os taoistas, a realidade é vista como um fluxo contínuo de mudanças. A essência de todas as coisas é justamente o fato de que elas estão em constante transformação.
            Os taoistas acreditavam que não só a mudança era parte essencial da vida, como era possível entender como ela acontecia harmonizando-se com a natureza e seu fluxo.
            Assim, o Tao é caracterizado como uma mudança cíclica. Dessa forma, afastar-se significa retornar. Se alguém andar ininterruptamente para oeste, acabará chegando a leste. Quando uma situação atinge seu ponto extremo, é compelida a voltar e se tornar seu oposto. Essa crença dá aos taoistas coragem e perseverança nos períodos de dificuldade cautela nos períodos de sucesso. Eles seguem uma doutrina de meio-termo evitando o excesso e o exagero, pois sabem que uma atitude extrema gera seu oposto.

Simplicidade
            Lao Tsé achava que o modo correto de viver era através da simplicidade e da sintonia com o Tao. Adaptação e humildade são virtudes vista como essenciais para os líderes, pois aquele que se intromete com violência no curso natural das coisas prejudica a si mesmo, a sociedade e causa o caos. O bom governo é aquele que menos se intromete na sociedade, deixando que ela cumpra seu curso natural: “Quanto mais leis e mandamentos existirem, mais bandidos e ladrões haverá”.
            As pessoas em posição de comando tendem a se achar melhor do que outras. Contrariando isso, o Tao Te King diz que o homem sábio não tenta se mostrar acima das outras pessoas. Constantemente, pessoas que falam demais são as menos sábias. Muitas pessoas ricas parecem não ter nada. Já por outro lado, pessoas enfeitadas de jóias e com roupas de marca muitas vezes moram em uma casa na favela.
            Da mesma forma, muitos acreditam que pessoas em alta posição devem estar em constante atividade, o que as deixa estressadas e impossibilita ver os fatos com ponderação. Como resposta, o taoísmo aconselha exercícios meditativos que conservam a energia e produzem um estado de quietude e equilíbrio.

I-ching
            As mudanças constantes do universo são representadas nas figuras do Yin Yang. Yang representa a força masculina do universo, violenta, criadora. Yin é a força feminina, receptiva, flexível. Yin é a intuitiva, meditativa e complexa. Yang é racional, criativo e ativo.
            Na filosofia taoista, Yin e Yang são elementos do mesmo processo.  Quando um chega ao seu auge, engendra o outro. Ser sábio é combinar esses dois pólos, harmonizando Yin e Yang.
O estudo do ciclo de Yin Yang, embora seja muito influenciado pelas ideias taoistas, é comum a toda a cultura chinesa e já existia em um livro ancestral, o I-ching.
            A mais antiga forma de adivinhação chinesa era a leitura de sinais nos ossos de bois, surgidos depois que eram expostos ao fogo. Daí foi criada a adivinhação em cascas de tartaruga. Na dinastia Shang, o oráculo era consultado com o uso de varetas. O sábio jogava as varetas e determinava se a linha era inteira ou cortada. Depois de jogar seis vezes, formava-se o hexagrama e era possível interpretar seu significado.
            Em torno do ano 1150 a.C., o imperador Shang Chou Hsin mandou prender o governador da província de Chou, o rei Wen. Na prisão, ele elaborou os julgamentos dos hexagramas. Posteriormente, seu filho tomou o poder, tornando-se imperador e, descobrindo o trabalho do pai, resolveu ampliá-lo, escrevendo os comentários às linhas mutáveis. Posteriormente, o oráculo foi enriquecido com comentários atribuídos a Confúcio e seus discípulos. 
            O I-ching não é um livro de adivinhações, pois ele não prevê o futuro, mas estabelece o estado em que as coisas estão, analisando a mudança e a relação entre as forças Yin e Yang.
            Por exemplo, no primeiro hexagrama, todas as linhas são inteiras. A imagem formada representa uma situação apenas de linhas fortes Yang, que significam força, criatividade e liderança, razão pela qual esse hexagrama é normalmente chamado de O criativo. O julgamento diz que as forças do céu impelem o homem e o ajudam a iniciar ou levar adiante um empreendimento. O comentário diz que “as forças da natureza favorecem tudo aquilo que se inicia”.
            O hexagrama oposto, chamado de O receptivo, é formado apenas por linhas cortadas, representando Yin, a passividade, a dedicação e concórdia, a diplomacia, a perseverança e a paz. O julgamento diz que o sucesso está garantido se a pessoa que consulta o oráculo colaborar e se deixar conduzir, mantendo-se sempre flexível e disponível. O comentário diz que “Ser receptivo é muito importante, pois todos os seres lhe devem o nascimento. Como a Terra, cuja função é receber a semente que depois darão os frutos, também obterá muitos benefícios aquele que souber tolerar e compreender as pessoas e as situações”.

Rituais
            No taoísmo religioso, um dos principais rituais é o de iniciação. Ele é usado para introduzir aqueles que estão interessados em tomar o taoísmo como seu caminho espiritual. A cerimônia pode ser bem simples ou mais elaborada, mas tanto em um caso como outro, são estabelecidos compromissos entre mestre e discípulo. Os iniciantes passam a receber proteção dos mestres taoístas. Os iniciados também podem participar, de modo que são renovadas as bênçãos dos mestres.
            No ritual de purificação são feitos pedidos de desenvolvimento espiritual. No ritual de oferenda são realizadas oferendas de frutas, flores, incenso, velas e alimentos para as divindades como forma de agradecimento e devoção. As oferendas representam desprendimento das coisas materiais e dedicação ao caminho de transformação espiritual. Através delas, Yin e Yang são fundidos, criando um estado de unidade no praticante.
            Cada oferenda tem um significado. O incenso simboliza a transcendência e dissolução do ego, correspondendo ao conceito de Wu Wei (ação não-intencional). As flores simbolizam a vida e correspondem ao conceito de Dzé Zan (natureza e naturalidade). As frutas simbolizam o desapego e desprendimento em relação aos valores materiais. A água e o chá representam a purificação e a remoção dos apegos, correspondendo ao conceito Chin Jin (Transparência e Pureza). Finalmente, as velas simbolizam o encontro de nossa Consciência com a Consciência Sagrada, correspondendo ao conceito Suen Hua (Transformação Natural).
            Nos templos taoístas também são feitos rituais de casamento, benção de crianças e ritos fúnebres.

O TEI-GI
            O  Tei-Gi, também conhecido como Yin Yang, é um famoso ícone popular. Mas poucos sabem o que significa. Seu desenho, na verdade, é uma interpretação icônica dos princípios do taoísmo. A figura é formada por duas partes, uma preta e outra branca. São os pares opostos, o Yin e o Yang: o masculino e feminino, o feio e o belo, o bom e o mal.
            As figuras formam uma espécie de onda, como se fosse a água se movimentando. Isso simboliza a eterna mudança, base de toda a criação. Então, os pares opostos não estão estaques, mas em movimento. Uma mulher que hoje é bela amanhã pode se tornar feia. O que hoje é bem, pode ser o mal. Assim, no auge da parte branca, temos um pequeno círculo preto, demonstrando que o auge de um estágio é o começo do estágio seguinte. O auge do sucesso marca o início da decadência, etc.
            Dessa forma, os pares opostos não são absolutos: o belo traz em si também o feio. O feio traz em si o belo. A imagem permite ver os pares opostos em uma perspectiva global e é o que faz o taoísta, indo além deles. Assim, para o taoísta, vitória e derrota são apenas dois lados da mesma moeda e não se deve apegar a nenhum deles, pois seria estar parado em um mundo de eterno movimento. 

Fundo do baú - Batman, a série da década de 1960

 


Um dos maiores fenômenos da década de foi o seriado do Batman protagonizado por Adam West no papel de herói e Burt Ward como Robin.
O responsável por esse sucesso foi o produtor William Dolzier. Ele nunca havia lido um gibi e, quando os direitos do personagem vieram cair no seu colo, ele decidiu que transformaria o seriado em uma comédia. O produtor misturou colocou no papel principal o desconhecido ator Adam West, que nitidamente estava fora de forma, com uma barriguinha proeminente. Além disso, colocou clichês dos seriados de matinês, como o gancho no final do episódio com os heróis prestes a morrer em alguma arapuca, com a linguagem de quadrinhos e a estética da pop art. Essa mistura foi bem aceita pela público da época. Na estreia o programa teve quase 50% da audiência. Depois o seriado seria badalado até pelo famoso artista Andy Warrol.
O sucesso foi tanto que os astros da época disputavam a tapa uma oportunidade de aparecer na série; senão como vilão especialmente convidado ou na janela de um prédio que a dupla estivesse a escalar. Deram as caras, nesse quadro, grandes nomes da época como Sammy Davis Jr, Jerry Lewis e, pasme, até Papai Noel.
Esses convidados ganhavam mais do que os protagonistas. Aliás, todo mundo ganhava mais que o Robin. Ward, que fazia o garoto prodígio, ganhava menos do que o mínimo para um ator. Até o dublê que o substituía nas poucas cenas de perigo recebia mais do que ele. 
Os problemas do pobre Robin não acabavam aí: o estrelismo de West fazia com que ele improvisasse várias falas, tentando chamar a atenção para si, o que atrapalhava Ward. Além dia a Liga Católíca pela decência reclamou que o calção deixava proeminente demais o órgão sexual do parceiro mirim. Não é à toa que a frase predileta do garoto prodígio fosse “Santa qualquer coisa Batman!”, como: Santo problema, Batman ou Santa confusão, Batman.
O tom era mesmo de comédia. Em um dos episódios, Batman tenta se livrar de uma bomba preste a explodir, mas sempre há algo na frente, seja um casal de namorados, um grupo de freiras, ou uma família de patos. No final, ele solta a pérola: em certos dias é difícil se livrar de uma bomba.
Apesar do grande sucesso, o seriado foi perdendo audiência  e chegou a ser odiado pelos fãs. Os quadrinhos do homem-morcego chegaram até mesmo a ficar mais sombrios na década de 1970, exatamente para distanciar os gibis dessa série cômica.
Odiado por muito, adorado por outros, essa série marcou a infância de muita gente.

As vinhas da Ira

 


Em 1936, John Steinbeck foi contratado pelo San Francisco News para fazer uma reportagem sobre os migrantes okies na Califórnia (a reportagem, um clássico do jornalismo americano, chamou-se “Morte na poeira”). Ele viu muita miséria, pessoas morrendo de fome, famílias inteiras arruinadas. E percebeu que, além da matéria, poderia também escrever um livro, uma mistura de romance e reportagem que antecipou em muitos anos o new jornalismo. O resultado foi As vinhas da Ira, publicado em 1939.
O livro conta a história de uma família de Oklahoma, os Joad, expulsa de suas terras pelos bancos. Da mesma forma, milhares de outras famílias eram expulsas de suas terras. Para os bancos, um homem com um trator poderia fazer o trabalho com dezenas de homens. Essas pessoas, desalojadas e totalmente sem perspectiva, resolvem ir para a Califórnia, para trabalhar na colheita de frutas. Um folheto, espalhado pela região promete trabalho para todos e bons salários. Mas é uma armadilha: a ideia dos fazendeiros é fazer uma verdadeira multidão se mudar para o local e, como o excesso de mão de obra, pagar o mínimo possível.
A obra é uma mistura de capítulos jornalísticos com ficcionais, que contam a jornada dos Joads (a viagem ocupa metade do livro) e sua tentativa de manter a dignidade no meio da fome, das péssimas condições de vida.
A narrativa é seca, mas detalhada, minunciosa, como o olhar de um jornalista experimentado, a exemplo da sequência em que um funcionário do banco avisa o chefe de uma família que eles serão despejados: “As mulheres dos arrendatários também chegavam às portas das cabanas, e com os filhos pequenos atrás delas, crianças de cabelo cor de milho, olhos dilatados, um pé nu sobre outro pé nu, os dedos a catar poeira”.
Se na maioria das vezes é seco, o livro tem momentos de candura, como quando a família para num posto de gasolina de beira de estrada e a atendente, compadecida, vende um doce para as crianças por um preço muito inferior ao normal. E até momentos felizes, como quando a família se instala em um acampamento do governo administrado pelos próprios moradores.
Mas na maioria das vezes a obra é um acúmulo de tragédias, antecipadas pela morte do avô, logo na parte inicial da viagem. Sem dinheiro, enterram ele ali mesmo, na beira da estrada. Na Califórnia, intalam-se em um acampamento que é queimado pela polícia, quando no acampamento do governo, vêm os fazendeiros armarem uma briga para que os policias possam entrar no local e destruir o acampamento. E, quando começam a trabalhar, se deparam com fazendeiros que querem pagar preços justos, mas são obrigados a baixar seus salários por pressão dos sindicatos patronais. Na maioria das vezes, o trabalho, quando arranjam, é de 12 horas para toda a família e gera dinheiro o suficiente apenas para que não morram de fome.
O livro foi um sucesso absoluto ao mostrar as condições de boa parte da população americana no período pós-crise de 1929. Mas transformou-se num inferno para seu criador: Steinbeck foi chamado de comunista, investigado, ameaçado.
Aliás, o próprio livro define o que é um comunista, quando um dos trabalhadores pergunta um fazendeiro o que é um vermelho: “Um vermelho é um desses filhos da puta que exigem 30 cents a hora quando a ente só quer pagar 25”. O rapaz ficou pensando sobre a coisa e disse: “Olha, seu Hines, eu não sou nenhum filho da puta e quero 30 cents a hora. Quem é que não quer? Que diabo, seu Hines, se é assim todo mundo é vermelho”.
Surpreendentemente, o livro acabou gerando um filme de Joh Ford com Henry Fonda no papel já em 1940. É um dos melhores filmes de Ford e um dos grandes clássicos do cinema. 

terça-feira, junho 09, 2026

Quadrinhos: o início no Brasil

 


         Ao folhear qualquer livro sobre histórias em quadrinhos - mesmo os escritos no Brasil - o leitor geralmente encontrará a informação de que a primeira HQ foi Yellow Kid, de Richard Outcoult. Nada mais falso. Antes do menino amarelo havia arte seqüencial sendo publicada na Alemanha, na França e outros países. Na verdade, os americanos, como fizeram com o avião, se aproveitaram do domínio que têm sobre a mídia para propagar o seu ponto de vista. O livro As Aventuras de Nhô-Quim e Zé Caipora, lançada pelo Senado Federal, em uma edição organizada pelo Coronel e estudioso Athos Eichler Cardoso, mostra que os norte-americanos não podem pedir sequer o mérito de terem criado os quadrinhos de aventura.
            Nhô-Quim e Zé Caipora são criações do ítalo-brasileiro Ângelo Agostini, um dos jornalistas e ilustradores mais importantes da imprensa brasileira. Agostini nasceu em Verceli, na Itália, passou a adolescência em Paris, onde estudou na Escola de Belas Artes. Veio para o Brasil ainda jovem e não quis mais voltar para a Europa. Aqui ele se tornou um símbolo da imprensa republicana e abolicionista. A Revista Ilustrada, fundada e dirigida por ele, era o periódico de maior prestígio no Brasil do final do século XIX, sendo o principal registro histórico e iconográfico da luta contra a escravidão. A publicação chegou a ter quatro mil assinantes, o que era um recorde absoluto para um país cuja maioria da população era analfabeta.
            O primeiro trabalho de Agostini com quadrinhos foi As Aventuras de Nhô-Quim. O primeiro capítulo foi publicado em 30 de janeiro de 1869, no jornal Vida Fluminense. A data, que revela claramente que somos muito anteriores aos norte-americanos (Yellow Kid é de 1896) hoje é comemorada como dia do quadrinho nacional. Ângelo Agostini deu nome ao mais importante troféu brasileiro de quadrinhos (do qual o autor deste texto foi o ganhador como melhor roteirista em 1999).
            Nhô-Quim contava a história de um caipira rico e ingênuo, que vai à corte e se envolve em todo tipo de trapalhadas. A história mostrava o conflito entre a cultura rural e urbana, o que fica evidenciado na seqüência em que Nhô pára para tomar um café e acaba perdendo o trem. Agostini usa a história do caipira para criticar os problemas urbanos, modismos e costumes sociais e políticos da época.
            Mas o melhor momento de Agostini é mesmo Zé Caipora. Obra de um artista maduro, a série antecipa os quadrinhos de aventura que tanto fizeram famosos personagens como Tarzan e Flash Gordon. O primeiro capítulo de Zé Caipora foi publicado em 27 de janeiro de 1883 nas páginas da Revista Ilustrada (sempre é bom lembrar que Yellow Kid é de 1893). O sucesso foi tão grande que a série chegou a ter quatro edições e serviu de inspiração para uma canção popular, peças teatrais e até dois filmes mudos. Zé Caipora era multimídia.
            Os primeiros capítulos são ainda humorísticos e o personagem se parece um pouco com Nhô-Quim, com o nariz em continuação com a testa. Depois, a história se torna mais aventuresca e o desenho se torna realista. Nessa segunda fase, o herói enfrenta onças, índios bravios e uma sucuri. O momento em que Zé, amarrado a uma árvore, serve como alvo para as índias treinarem sua pontaria no arco-e-flexa, é memorável e demonstra o perfeito domínio que Ângelo Agostini tinha da arte seqüencial. São cinco quadros mostrando o herói desviando-se das setas e parecemos ver seus movimentos.
            Além disso, há seqüências de panorâmicas, que só seriam usadas nos quadrinhos ianques com Tarzan, na década de 20 do século XX. Outra cena mostra até um sonho, com o desenho envolvido por nuvens para demonstrar que os acontecimentos não devem ser lidos de forma literal. Em suma, Agostini antecipou muitas das técnicas que só seriam usadas pelos norte-americanos muito tempo depois.

A pedagogia tradicional

 

Na educação tradicional, o professor fala e o aluno ouve.
A pedagogia tradicional não é fruto das idéias de um filósofo ou pensador específico, mas de uma prática que se estende ao longo dos séculos.
            Esse paradigma da educação é altamente influenciado pelo pensamento cartesiano e pela visão mecanicista e determinada do mundo.
            Para a pedagogia clássica, a criança era uma tábula rasa na qual o professor imprimia as informações sobre o mundo. Essas informações eram baseadas nas grandes realizações de gênios e pensadores do passado, vistos como modelos a serem imitados.
            Entre os seus princípios básicos estão: a estrutura piramidal, o formalismo e a memorização, o esforço e a competição e o respeito à autoridade.
            A estrutura piramidal vem do princípio cartesiano segundo o qual, para resolver um problema, é necessário separá-lo em partes e resolve-las uma a uma, indo das mais simples às mais complexas. Esse princípio reza que a criança é incapaz de apreender a complexidade e, portanto, os conteúdos devem ser repassados em pequenos fragmentos.
            O formalismo e a memorização são uma das bases dessa prática pedagógica. Uma vez que a pedagogia clássica acredita que o aluno deve seguir um modelo, a memorização é o melhor caminho para faze-lo. Para garantir que o aluno memorizou, o mestre toma a lição do aluno, que deve responder repetindo com exatidão o que foi dito em sala de aula.
            O esforço, para esse paradigma, é necessário à educação. Para estimulá-lo, os alunos que conseguem seguir os modelos recebem prêmios (medalhas, distinções, quadro de honra) e os que não conseguem devem ser castigados. Ao aluno não é ensinado a cooperar, mas a competir. As atividades são feitas individualmente (a maioria delas simples reproduções do conteúdo repassado), e não em grupo.
            O respeito à autoridade nos diz como a pedagogia tradicional vê a atuação do professor. Ele é um depositário de conhecimentos, uma autoridade, um modelo, que reflete os modelos do passado glorioso da humanidade (os grandes filósofos, grandes cientistas).
A escola é organizada na forma de uma pirâmide em que o aluno encontra-se sujeito à autoridade do professor e este sujeito à autoridade do inspetor e este sujeito à autoridade do diretor, em graus hierárquicos sucessivos típicos daquilo que Marshall McLuhan chamou de Galáxia de Gutemberg, em que a informação classificadora é mais importante que a informação relacional ou a informação relevante.
            A principal metodologia de ensino é a aula expositiva e a demonstração do professor à classe, tomada como auditório passivo. Ao aluno cabe apenas receber passivamente as informações transmitidas pelo professor e repeti-las corretamente. Paulo Freire chamou essa pedagogia de educação bancária, pois o professor “deposita”os conteúdos na cabeça dos alunos.
            A avaliação é uma forma de verificar se o aluno reteve o conhecimento repassado pelo professor, e não uma oportunidade de reelaborar o conhecimento. Se o aluno não conseguiu decorar o que o professor passou, é punido com uma nota baixa (antigamente a punição incluía até castigos físicos). Na sua versão mais difundida, a avaliação é feita pontualmente, através de prova.  Em um único momento, o aluno é testado e seu desempenho no processo de aprendizagem tem pouca importância na avaliação.
            A sala de aula é vista como local privilegiado de aprendizado e as experiências exteriores a ela são pouco valorizadas.
            Embora venha sendo criticada há mais de um século, a pedagogia tradicional está presente em quase todas as salas de aula. A maioria dos colégios e faculdades, apesar do discurso, ainda privilegia a pedagogia tradicional. Os professores são estimulados a repassarem avaliações tradicionais, o que facilita o processo burocrático interno. Além disso, a maioria das instituições ainda vê a sala de aula como o único local possível de aprendizagem, daí a exigência de cumprimentos de horários na sala, em detrimento das possibilidades exteriores ao ambiente escolar (pesquisas, passeios, participação em eventos). A palmatória se foi, mas a educação tradicional ainda continua arraigada na prática escolar.