terça-feira, maio 19, 2026

Manto e Adaga

 


A Marvel sempre teve como característica personagens diferentes, que se distinguiam muito da imagem clássica dos super-heróis. Mas nenhum deles eram tão singular quanto Manto e Adaga.
Surgidos em uma história do Homem-aranha, eles ganharam uma minissérie em quatro edições no ano de 1983, publicada aqui na revista Heróis da TV. Foram apenas quatro histórias, mas que chamaram atenção e marcaram os leitores da época.
Vítimas de uma experiência de traficantes, dois jovens ganham poderes opostos: Manto assume as trevas, enquanto Adaga é a luz.
Pode parecer algo simplório, mas o roteirista Bill Mantlo conseguiu dar grande profundidade ao conceito, transformando-os em opostos em tudo, mas complementares como se fossem versões humanas do Yin Yang.
Por viver nas trevas, Manto se alimenta de luz e é a parceira que lhe cede a essa energia, mas isso a afeta, podendo até mesmo matá-la. Esse impasse ético é boa parte do charme das histórias.
A história vai muito além da dicotomia típica das histórias de heróis, em que vilões e heróis são extremamente demarcados: em alguns momentos Manto parece o vilão em sua fome de luz, que o leva a sugar a energia de outras pessoas, matando-as.
Para ilustrar essa história foi chamado Rick Leonardi, um dos mais subestimados desenhistas dos comics americanos. Seu traço era bonito, inovador, dinâmico. E a caracterização dos personagens era perfeita na: Adaga era desenhada num traço limpo, enquanto o traço de Manto era uma massa de sombras. Ajudava muito, claro, a incrível arte-final de Terry Austin, que ajudava a dar leveza para a Adaga e peso para o Manto. 

Perry Rhodan – Os condenados de Isan

 


Em seu início, a série Perry rhodan é toda dominada pelo contexto da guerra fria e pelo medo de uma guerra nuclear – castastrofe que Rhodan impede logo nos primeiros volumes. Mas como seria um mundo devastado por um holocausto atômico? Essa pergunta é respondida no número 53 da série, Os condenados de Isan.

Escrito por Kurt Mahr, este volume apresenta uma inovação: Perry Rhodan e nenhum dos personagens já conhecidos dos leitores aparecem antes que tenha se passado pelo menos um terço da história. Toda a trama é centrada nos sobreviventes, pessoas que se alojaram em bunkers no fundo da terra e agora precisam lidar com o fim da comida.

A capa original alemã. 


A narrativa é focada em Ivsera, uma cientista que descobriu uma maneira de transformar tecido em comida – o que faz com que os sobreviventes do abrigo de Fenomat andem com o mínimo de roupa possível. Mas, além da fome, um outro perigo se impõe: os habitantes do abrigo de Sallon, comandados pelo ganancioso Belal, estão cavando um túnel com o intuito invadir Fenomat.

O objetivo não é só apoderar-se dos recursos, mas também usar os vencidos como alimento. Essa talvez seja uma das mais cruas demonstrações dos terrores da guerra mostradas na série.

Rhodan pousara no planeta depois da aventura no planeta zoológico dos aras e resolve interferir nessa trama política. Com armas muito mais avançada e apoio dos mutantes, essa empreitada parece fácil demais, assim, Kurt Mahr acerta ao descartar Gucky logo no início. Em uma de suas teleportações ele teria ido parar em um local com uma armadilha mecânica e ficara seriamente ferido – o que faz com que ele passe a maior parte do livro fora de ação. Com Gucky, os tiranos seriam facilmente derrotados. Sem ele, o volume guarda uma certa medida de suspense.

É uma aventura interessante, quase um conto, que interfere pouco na trama principal, mas funciona principalmente por sua forte mensagem pacifista.

Demolidor: Terra de perversos

 



No número 87 da revista Almanaque do Capitão América os leitores brasileiros se depararam com uma história estranha para uma revista de super-heróis. Intitulada Terra de perversos, nela não aparecia nenhum herói uniformizado. Era apenas uma história policial muito bem contada. Os editores brasleiros abusaram do suspense e esconderam até o último quadro a verdade: tratava-se de uma história do Demolidor com uma parceria igualmente surpreendente: o roteiro era de Frank Miller e os desenhos eram de ninguém menos que John Buscema.

A história inicia com um forasteiro mistério chegando numa lanchonete de uma pequena cidade: “Cruz quebrada é uma pequena e poluída cidade de Nova Jérsei, situada à sombra de uma refinaria de óleo que, dia e noite, vomita fumaça maculando a região”, diz o texto.

O protagonista da história é um pesonagem misterioso, que não fala uma única palavra durante toda  a trama. 


Lá dentro a lanchonete está sendo assaltada e o assaltante, chamado Castor, resolve dar uma lição no forasteiro, mas este, sem esforço algum, o joga para fora do local. A polícia está do lado de fora, mas, ao invés de prender o ladrão, prefere revistar o forasteiro. O policial dá um ultimato: “Quero ver você longe daqui pela manhã! Pela manhã, está entendendo?”.

O acontecimento revela toda uma rede de corrupção que envolve até mesmo assassinato do antigo xerife, mas tudo isso é revelado aos poucos, em meio a sequências e ação brilhantemente desenhadas por Buscema com texto impactante de Miller, que lembra muito as narrativas noir.

O final antológico. 


Aliás, nada mais noir que o texto final: “Se em algum inverno você se perder nas terras áridas de Nova Jérsei, quando a neve está espessa e suja... e de repente avistar o letreiro do Palácio Olímpico do Poppa, piscando como uma dama da noite, idosa demais para flertar... dê meia volta e siga rumo a outra cidade. Porém, se estiver cansado demais, entre e peça um café. É Katy quem irá servi-lo. Tendo tempo, pergunte a ela sobre Cruz Quebrada. Katy irá lhe falar de antigos ódios e crimes... sobre homens imponentes e de sorriso acolhedor, que trouxeram uma sombra de justiça a este confim de Nova Jérsei. Se você ficar mais, talvez ela comece a falar de fantasmas. Por isso não fique”.

Uma curiosidade a mais sobre essa história tão curiosa é que durante toda a HQ o Demolidor não diz uma única palavra.

Conan – Os devoradores da lua de Darfar

 


 

As histórias de conan eram tão diferentes dos heróis de fantasia que criaram um gênero próprio. Ao contrário da visão idealizada da Idade Média, com heróis impolutos e vilões demoníacos, nas histórias do Cimério a fronteira entre o bem o mal era muito mais nebulosa. E os personagens pareciam muito mais preocupados com eles mesmos do que com códigos de honra.

A história Os devoradores da Lua de Darfar, publicada em Conan the barbarian 108, com roteiro de Roy Thomas e desenhos de John Buscema e Ernie Chan, exemplifica bem isso.

Na história anterior, Conan havia salvo uma escrava da rainha de Kush e fugira com ela para o deserto.

Uma promessa de amor... 


Enquanto acampam no deserto, Diana conta sua história. Era era filha de um rico mercador. Quando o barco foi tomado por piratas, o pai foi morto e a garota loira tomada como escrava – indo parar como espiã involuntária na corte da rainha de Kush. 

Conan diz que irá levá-la para a Estígia, onde ela poderá voltar para casa, como Lívia, uma outra moça que o cimério havia salvado. “E a tola deixou você? Ela deveria estar louca. Eu serei sua para sempre... até que a morte nos separe”, responde a garota.

Logo depois ambos são atacados por canibais se abrigam numa caravana. Os canibais exigem a garota para um ritual. Com a recusa de Conan em entregá-la, eles exigem dois homens – Conan  e um aprendiz de mago que acompanha o cortejo.

... mas a dupla é atacada por canibais. 


Claro que no final, Conan se livrará do destino fatal e voltará para a caravana a fim de libertar a garota, que ele acredita ter sido escravizada. Mas na verdade, ela se encantara com a riqueza do mercador e resolvera se casar com ele.

A história, embora seja uma criação original de Roy Thomas, resume a filosofia do criador de conan, Robert E. Howard, segundo o qual os bárbaros têm muito mais honra e virtude que os civilizados. Enquanto Conan, um bárbaro e ladrão, passa a história inteira preocupado com a moça, ela na verdade tinha preocupações muito mais mundanas. Também é uma reflexão sobre como promessas do tipo “para sempre” podem ser efêmeras.

Esse era o tipo de história que tornava Conan único. 

No Brasil essa história foi publicada pela editora Abril em Conan, o bárbaro 3.

Fanzine Ponto de Fuga para baixar

 

Ponto de Fuga foi um grupo que inaugurou o movimento de quadrinhos no Pará. Tudo começou com uma exposição na Biblioteca Pública e um fanzine, cujo número zero foi editado por mim e pelo Marcelo Marat. O fanzine tinha duas histórias com roteiro meu, uma delas desenhada pelo Alan Yango e um texto sobre música nos quadrinhos escrito pelo irmão Alan Noronha Tradutor.

Ah, a capa é do Joe Bennett.
Para baixar, clique aqui.

Outros tempos, outros mundos

 


Robert Silverberg é um dos mais importantes escritores de ficção científica de todos os tempos. A antologia Outros tempos, outros mundos, lançada pelo Círculo do Livro é um bom exemplo da habilidade do autor e se tornou um clássico do gênero.
Silverberg mistura a ficção científica com biologia, psicologia, filosofia, em um emaranhado instigante.
O primeiro conto do livro, “O homem que jamais esquecia”, mostra as agruras de uma pessoa incapaz de esquecer. A maioria das pessoas considera, ingenuamente, que a capacidade de se lembrar das coisas é uma benção, mas ela pode ser um martírio. O protagonista é rejeitado pela sociedade e vive o tempo todo viajando – tanto para evitar locais que já conhece nos mínimos detalhes quando para evitar pessoas que o conheçam.
“Ismael apaixonado” é um dos contos mais curiosos do volume – e certamente um dos mais interessantes já escritos por um autor de ficção científica. Nele, um golfinho responsável por limpar as turbinas de um mecanismo que desaliniza água do mar se apaixona por uma cientista. A grande sacada: o conto é narrado pelo próprio golfinho, o que faz o escritor usar de contorcionismos estilísticos para simular o modo de pensar e de se expressar de um cetáceo.
“Viagem de ida sem volta” nos conta a história de um astronauta que se apaixona por uma mulher de uma colônia terrestre – uma mulher monstruosa para nossos padrões. É uma curiosa investigação psicológica que flerta com a teoria freudiana.
“Nascer do sol em Mercúrio” mostra uma missão para espacial que corre o risco de terminar com a morte de todos os tripulantes porque um dos astronautas decide se matar. Uma interessante abordagem psicológica, inclusive sobre inteligências alienígenas. Daria um ótimo filme de suspense.
“Os exógamos” traz uma interessante questão antropológica. Em um planeta distante, colonizado por humanos, duas famílias se transformaram em clãs que não se misturam por séculos: os Clingert (morenos) e os Baille (loiros). Como tal, cada um cria uma cultura totalmente diferente – além das diferenças exteriores. A inimizade entre eles é tão grande que famílias Baille que tenham filhos morenos são apedrejadas. Tudo se complica quando um rapaz Baille encontra uma moça do clã rival e se apaixona por ela. Silveberg usa esse plot Romeu e Julieta como uma investigação antropológica. 
“Um descer suave” mostra um computador especializado em terapias psicológicas que enlouquece graças ao contato com seus pacientes. O interessante aí é que a história é narrada em primeira pessoa.  Da mesma forma que em “Ismael apaixonado”, o destaque fica por conta da maneira como o escritor se coloca no lugar do personagem, um golfinho no outro conto, um computador aqui.
Enfim, uma coletânea obrigatória. Um único ponto negativo: a horrível capa, com imagem que mostra o horrível robô filme Logan´s run e uma fonte que deveria remeter à ficção científica, mas é apenas datada (e provavelmente já era datada na época em que o livro foi publicado).

Cabras da peste

 


Um gênero cinematográfico que é sucesso há anos nos EUA é o buddy cop (dupla de policiais). Cabras da peste, filme dirigido por Vitor Brandt e estrelado por Edmilson Filho e Matheus Nachtergaele aposta no gênero, mas dando um tempero brasileiro: humor e fuleiragem.

Na trama, Bruceuilis (Edmilson Filho) é um policial do Ceará viaja para São Paulo para resgatar a cabra patrimônio da cidade, Celestina, que acabou sendo levada por um caminhão de rapadura. Na cidade ele encontra e acaba fazendo parceria (a contragosto deste) com Trindade (Matheus Nachtergaele) e os dois acabam se envolvendo numa trama que envolve uma rede de tráfico de drogas e política.

Os dois personagens têm características opostas, que já podem ser percebidas desde as primeiras cenas.

 Bruceuilis atravessa a cidade inteira em elaboradas cenas de ação para prender alguém que ele achava que era o ladrão de um ventilador – na verdade era só o amante de uma mulher, fugindo da casa da mesma com o ventilador que havia levado.

Na contraparte, Trindade, muito a contragosto, é colocado em ação para tentar prender o maior traficante do Brasil. E, quando tudo dá errado, pula dos tiros, deixando que seu companheiro morra, o que faz com que ele ganhe o desprezo de toda a corporação e seja enviado para uma delegacia abandonada.

Filmes do tipo dupla de policiais funcionam quando os dois personagens são opostos e se completam – e isso acontece perfeitamente em Cabras da Peste inclusive nas cenas de ação. Em determinado ponto, Bruceuilis se envolve em uma empolgante cena de lutas marciais enquanto Trindade, que estava com a perna machucada, vai atrás de alguém que levara um tiro na perna. O humor surge exatamente do contraste das cenas: pura ação de um lado, e lentidão absoluta do outro.

Mas a sequência mais engraçada é a de quando eles prendem um suspeito e resolvem interrogá-lo, fazendo o papel de policial bom e policial mau. São quase dez minutos de puro humor físico. O mais impressionante da cena é ver Matheus Nachtergaele servindo de escada para Edmilson Filho, o que mostra tanto a competência de Edimilson Filho quanto a humildade de Matheus Nachtergaele.

Fundo do baú - Moby Dick


Chegou um momento que a Hanna Barbera estava produzindo tantos desenhos animados que era necessário achar inspiração em qualquer lugar. Uma das estratégias foi usar personagens de clássicos da literatura, mas reformulados. Um exemplo disso é Moby Dick.

Na história, a grande baleia branca salva dois garotos de um ataque de tubarões e se torna amiga dos mesmos, passando a viver aventuras em alto mar juntamente com uma foca.

A cada episódio, o quarteto enfrentava um perigo aleatório sem muita explicação. Eram morcegos aquáticos que resolviam atacar os humanos, era um ser do fundo do mar que achava que eles iam roubar suas riquezas numa cidade perdida, era um aspirante a ditador aquático que resolve destruí-los para que eles não descubram seus planos (quando na verdade, bastava se esconder e deixar que eles passassem).

Como se vê, não havia muita preocupação com verossimilhança ou aprofundamento. Os vilões eram apenas a ameaça do dia.

Para debelar as ameaças, normalmente eles contavam com a força de Moby Dick, fosse batendo com seu rabo, fosse socando com sua cabeça. Outra estratégia era engolir coisas e soltar pelo orifício de respiração. Assim, um monte de pedras engolidas se transformava em um canhão.

Uma curiosidade é que, embora os dois garotos usassem escafandros, eles não usavam tubos de oxigênio, mas mesmo assim não morriam se ar embaixo d´água. Coisas dos desenhos da década de 1960.

Os desenhos de Moby Dick era apresentados junto com O poderoso Mightor. No total, foram produzidos 18 episódios.  

segunda-feira, maio 18, 2026

O taoismo – tudo está em transformação

 


O taoísmo é uma religião oriental que se aproxima muito de uma filosofia. O taoísmo é religião no sentido original da palavras, religare, religar o homem a algo superior, mas não é uma religião como nós conhecemos, como rituais fixos... é antes uma maneira de ver o mundo.

O taoísmo prega que o divino está em tudo. Tudo que existe faz parte de uma mesma coisa.

O tao é caminho. Caminho se faz caminhando, por isso o taoísmo não se liga em rituais, hierarquias, vestimentas... há uma história sobre um monge que encontrou um superior e o cumprimentou com um bom dia. O outro reclamou: “Essa é a maneira adequada de me cumprimentar?”, ao que o monge respondeu: “O tempo está correndo”. Ou seja, enquanto estamos ligados a rituais fixos, o mundo está em eterna mudança. E o sofrimento surge da idéia de ficar parado enquanto tudo muda.

O taoísmo foi a grande influencia da corrente zen budista, por isso é meio difícil falar de um sem falar de outro. A essência é a mesma, mas o zen budismo prefere transmitir seus conhecimentos através de histórias que revelam paradoxos, enquanto o taoísmo prefere a poesia.

Uma característica interessantíssima do taoísmo é que, como sua filosofia prega que a divindade está em tudo, seus adeptos acreditam que todas as religiões levam a Deus. Daí um respeito profundo por todas a religiões. Assim, budismo, cristianismo, islamismo, bramanismo e até o próprio taoísmo seriam a mesma coisa sobre formas diferentes. Dizem que nos templos taoistas há imagens representando todas as religiões para lembrar que todos os caminhos levam a um só.

Num mundo em que a regra são as guerras religiosas, a postura do taoísmo deveria inspirar mais pessoas.

O livro básico do taoísmo é o tao te king, escrito por Lao Tse (Jovem Sábio). Evidentemente, Lao Tse não foi jovem por toda a vida, mas certamente foi sábio por toda ela e um dia resolveu abandonar o palácio do rei da China, cansado que estava das intrigas palacianas. Quando passou pela muralha da China o guarda o reconheceu e pensou: “Se eu o deixar partir, o Imperador vai ficar um fera. Tenho de arranjar uma maneira de fazer com que ele fique mais tempo”. E assim, disse que só liberava o sábio depois que ele escrevesse um livro que resumisse toda a sua filosofia. O guarda achava que Lao Tse fosse ficar meses inteiros escrevendo, mas o que aconteceu foi que meia hora depois Lao Tse lhe entregou um livrinho e deu no pé. Vou publicar a partir de hoje alguns dos capítulos desse livrinho e, de vez em quando, farei alguns comentários. 

 

Abaixo um trecho do livro Tao te King sobre a sabedoria. Uma bela reflexão.

 

Inteligente é quem outros conhece

Sábio é quem conhece a si mesmo.

Forte é quem os outros vence:

Poderoso é quem domina a si mesmo.

Ativo é quem muito trabalha,

Rico é quem vive contente.

Firme é quem vive em seu posto,

Eterno é quem supera a morte.

Esquadrão Atari – Aurora sombria

 



O quinto número do Esquadrão Atari é aquele em que a história de fato começa – todos os números anteriores podem ser considerados como o primeiro ato.
É neste número que Martin Champion rouba a nave do primeiro Esquedrão Atari, a Scanner I. É também o momento em que se forma o grupo totalmente não convencional composto por ele, seu filho Tormenta, Dart, Morféa, Bebê o o ladrão Paco Rato.
Geralmente grupos de aventureiros são formados majoritariamente por terrestres, ou figuras essencialmente humanas e majoritariamente caucasianas – vide o Quarteto Fantástico. O primeiro esquadrão já inovara ao mostrar uma tripulação multirracial, mas não fora além disso.
A história começa de fato neste número. 


Esse novo esquadrão, no entanto, tinha metade dos seus integrantes composta por seres extraterrestres. E nenhum deles se encaixavam no padrão do que se esperaria de um herói dos quadrinhos, embora todos fossem carismáticos. Lembro que na época isso foi o que mais chamou minha atenção – além, claro, do ótimo roteiro de conway e do desenho de Garcia-lopez.
Este número tem desenhos de Ross Andru, que consegue manter o ritmo embora não seja tão impressionante quanto Garcia-lopez.
O grupo era totalmente não convencional. 


No final dessa história, eles saltam pelo multiverso e chegam ao local onde está a nave com o vilão, que já vinha sendo apresentado desde o primeiro número, mas aparece aqui em todo o seu esplendor. Sua fala, inclusive leva o leitor a crer que ele esperava pelos adversários, deixando um gancho para as histórias futuras.
No Brasil essa história foi publicada pela editora Abril em Heróis em Ação 5.

Iluminações, de Alan Moore

 


Iluminações é a mais nova obra do mago de northampton publicada no Brasil.

Ao contrário do que se poderia esperar, iluminações é uma obra literária, um livro de contos, e não uma história em quadrinhos. E lendo Moore assim, sem o apoio das imagens, é fácil perceber que ele está no mesmo nível dos melhores escritores da nossa era, seja em qual mídia for. 

O volume de quase 500 páginas já começa com um verdadeiro petardo. “Lagarto hipotético” se passa em um bordel em um mundo de fantasia. Embora não fique claro no texto, esse conto faz parte do universo Liavek.

A narrativa é densa e convida o leitor a experimentar uma perspectiva pouco convencional. A história é totalmente focada em Sonson, uma garota que recebe apenas magos. Para evitar que ela conte segredos sobre eles, ela passa por um processo chamado de silenciamento, que inclui a separação dos lóbulos cerebrais. Embora possa ouvir, ela jamais consegue falar nada mais do que frases desconexas.

“Nem mesmo lenda” é um conto curto e aparentemente despretensioso, mas no final acaba se revelando um quebra cabeça narrativo. A história se passa durante a reunião de um grupo de parapsicologia e acompanha as impressões de cada um dos membros sobre a reunião. Entremeada a essa narrativa tediosa temos trechos em itálico que não parecem fazer qualquer sentido ou ter qualquer relação com a história. As duas narrativas só se encontram no final, quando finalmente entendemos o que está acontecendo. Dificilmente você irá resistir à tentação de reler a história e aconselho que o faça.

“Leitura a frio” conta a história de Rick Sullivan, um homem que ganha a vida promovendo a comunicação de pessoas com os seus mortos. Na verdade, tudo é uma farsa. Ele pesquisa na internet informações sobre as pessoas e seus entes queridos e usa seu charme para convecê-las de que estão recebendo mensagens de seus mortos. Ele mesmo, no entanto, não acredita em espíritos. Uma noite, no entanto, ele recebe uma ligação de um cliente que vai mudar tudo. Acrescida de um final irônico, essa é uma das melhores histórias de fantasmas que já li.

“O que se pode saber sobre o Homem-trovão” é um caso interessante. Pelo tamanho, dificilmente poderia ser classificado como um conto (ficaria entre uma novela e um romance), de modo que é possível que ele só tenha sido introduzido no volume porque Moore percebeu que os contos em si não dariam uma boa quantidade de páginas.

Conto, novela ou romance, “O que se pode saber sobre o Homem-trovão” é, na verdade, uma vingança de Moore contra a indústria dos quadrinhos, com nomes mudados para evitar processos. Essa vingança fica óbvia na sequência em que um editor da DC (seria Julius Schwartz?) morre e quando os amigos vão até sua casa descobrem que o local é abarrotado de revistas pornográficas a ponto de não se conseguir ver o chão, o que, aliás, é a parte menos exótica dessa visita.

O fato dos nomes terem sido modificados e a cronologia não ser a mesma do mundo real faz com que seja difícil identificar exatamente quem é quem na história. Mas podemos perceber algumas pistas. É possível perceber, por exemplo, que Dan Wheems é Roy Thomas, embora no texto ele seja até hoje escritor dos Vingadores (chamados na história de Vingativos). Outro que é possível identificar é Denny Wellworth, codinome para Archie Goodwin. Os dois, aliás, são algumas das poucas figuras do meio quadrinístico tratados com respeito e reverência por Moore, o que provavelmente indica que o autor inglês os considerada como escritores de talento e editores éticos. O texto inclui traz inclusive uma entrevista feita por Dan com Denny. Jack Kirby e Steve Ditko também merece elogios. O restante é mostrado ou como pervertidos sexuais ou como pilantras. Ou os dois. Alguns nitidamente merecem, como o mafioso Vince Colletta, arte-finalista que estragava as páginas de Jack Kirby (e Moore inventa uma razão hilária para isso, encaixando Colletta nas duas categorias – pervertido e pilantra).

“O que se pode saber a respeito do Homem-trovão” não é uma história com início, meio, fim. É antes um quebra-cabeças feito das mais diversas formas narrativas, incluindo um fórum de internet e um roteiro de quadrinhos.

Por trás de todo esse emaranhado, uma tese: a que de a indústria de quadrinhos é de alguma forma amaldiçoada por ter surgido do roubo, uma vez que os mafiosos donos da DC Comics roubaram o Super-homem de Jerry Siegel e Joe Shuster.  

Apesar de toda a mágoa e ressentimento, é muito óbvio que Alan Moore ainda ama a indústria dos quadrinhos. Ele chegou a introduzir no texto um artigo de revista que analisa, do melhor ao pior, todas produções áudio-visuais com o Homem-Trovão. Claro que ele muda nomes (os irmãos Flescher, que fizeram o primeiro desenho animado do superman, por exemplo, viram irmãos Essler). Lendo, percebemos que Moore assistiu todos os filmes e seriados do Superman. Quem se daria ao trabalho de fazer isso com algo que odeia?

Por trás dos seus olhos

 


Por trás dos seus olhos, minissérie inglesa em seis capítulos da Netflix, parece, à primeira vista, uma história de relacionamentos. Uma recepcionista de uma clínica psiquiátrica vai a um bar onde conhece um homem simpático e, depois de uma longa conversa, trocam um beijo. No dia seguinte ela descobre que ele é casado e é o novo psiquiatra da clínica onde trabalha. Depois, ela encontra rua por, por coinscidência, a esposa e acaba se tornando sua amiga, o que gera um conflito ético, uma vez que ela acaba se apaixonando pelo homem.

Esse plot, no entanto, logo vai se transformando numa trama de suspense. Há algo errado no casamento do psiquiatra e sua esposa, mas a balança pende para de um lado a outro a cada momento: ou ele é um marido abusador e violento, ou ela é uma esposa manipuladora e psicopata.

Finalmente, temos uma trama sobrenatural, que desemboca em duas viradas, a última delas, do tipo “nada era o que você imaginava”, nos últimos momentos do último capítulo.  

A minissérie tem sido criticada por essa virada sobrenatural, vista por alguns como forçada e incoerente com o resto. Mas, se você prestar atenção, já havia pistas do que realmente estava acontecendo ao longo dos capítulos anteriores, seja através dos flash backs, seja através dos sonhos da protagonista, seja através da luz azulada que aparecer em algumas cenas.

O maior problema da série parece ser o ritmo lento dos primeiros capítulos e o longo desenvolvimento dos personagens. Confesso que quase desisti. Mas vale a pena persistir.

domingo, maio 17, 2026

Produção audiovisual amapaense: “Magrela” está na Mostra Nacional Competitiva de Curtas Metragens do Festival Guarnicê de Cinema

 

Foto: Duda Films

 O cinema produzido no Amapá acaba de conquistar mais um espaço de destaque no cenário nacional. O curta de ficção “Magrela”, dirigido por Gian Danton e produzido por Ana Vidigal, da Duda Filmes, garantiu vaga na Mostra Nacional Competitiva de Curtas Metragens do Festival Guarnicê de Cinema, um dos eventos cinematográficos mais tradicionais do Brasil. A seleção da obra audiovisual amapaense consiste na efetiva ampliação da presença da Amazônia dentro das vitrines culturais do país.

Produzido com recursos do Edital LPG da Secretaria de Estado da Cultura (Secult/AP), “Magrela” representa uma obra totalmente construída no Amapá, com talentos locais diante e atrás das câmeras. O feito simboliza mais do que uma participação em festival. Representa resistência cultural, pertencimento e afirmação artística de um povo que insiste em contar as próprias histórias sem depender dos grandes centros do eixo Sul Sudeste.

Foto: Duda Films

O curta reúne uma equipe técnica robusta e experiente. A direção de fotografia ficou sob responsabilidade de Zezão Reis e Jorge Costa. A direção de elenco teve assinatura de Thomé Azevedo. A direção de arte recebeu condução de Madu Vidigal. Já a direção de produção ficou nas mãos de Mário Garavello.

O som direto teve trabalho de Giorgio dos Santos, com Jorge Costa como 1º assistente, Damião Muniz como maquinista e eletricista, Luigi Negreiros como assistente técnico 1 e Edcarlos como assistente técnico 2.

Foto: Duda Films

Na pós produção, a trilha original recebeu criação de Alan Gomes e Robson Pereira. A mixagem e edição de som ficaram com Alan Gomes e Edilson Dutra. A montagem e finalização tiveram assinatura de Ícaro Reis, com apoio de João Alberto Jr como logger.

O universo visual contou ainda com concept art de Will Cruz e design de Tonico Silva. Nas redes sociais, o trabalho terá atuação de Vitor Vidigal, enquanto a assessoria de imprensa ficará sob responsabilidade de Pérola Pedrosa.

Foto: Duda Films

O projeto também assegurou acessibilidade com tradução e interpretação em Libras de Johnyelly Morais Ladislau e audiodescrição de Elza Oliveira. A assessoria jurídica teve condução de Victor Hugo Costa Sociedade Individual de Advocacia.

No elenco, “Magrela” reúne Luciano Melo, Adriana Raquel, Fátima Guedes, Gohan Hapcore, Geovani Coelho, Lucas Souza, Wenner George, Kellem Hemilly, Solange Smith, Adrian Smith, Anita Cordeiro Nascimento, Kelly Huany, Núbia Oliveira, Nelis Leão, Maryna Brito, entre outros artistas que fortalecem a narrativa do filme com identidade regional, talento e verdade cênica.

Gian Danton – Foto: arquivo pessoal.

Gian Danton

Gian Danton nascido no sudeste, mas há décadas radicado no Amapá, é um dos principais nomes da produção cultural do estado. Professor, escritor, roteirista de histórias em quadrinhos reconhecido e premiado nacionalmente, é um pesquisador que construiu trajetória ligada à valorização da narrativa amazônica, da crítica social e da formação de novos comunicadores e artistas. E também é imortal da Academia Amapaense de Letras. Sem dúvida, um representante de uma geração de intelectuais que ajudou a fortalecer a cultura produzida fora do eixo Rio São Paulo, sempre com linguagem acessível, reflexão e forte ligação com a identidade regional.

Ana Vidigal – Foto: arquivo pessoal.

Ana Vidigal

Ana Vidigal atua como cineasta, produtora cultural e articuladora do audiovisual amapaense. À frente da Duda Filmes, participa da criação de curtas, documentários, videoclipes e projetos independentes voltados para a valorização da cultura amazônica. O trabalho dela abre espaço para atores, músicos, técnicos e novos talentos do estado. Ou seja, fortalece a cadeia criativa construída dentro da própria Amazônia e ajuda a consolidar o cinema amapaense em festivais e mostras nacionais.

Festival Guarnicê de Cinema

O Festival Guarnicê de Cinema é um dos festivais de cinema mais antigos e respeitados do Brasil. Organizado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). O evento chega à 49ª edição em 2026, com programação prevista entre os dias 9 e 16 de julho, em São Luís, no Maranhão.

A Mostra Nacional Competitiva de Curtas Metragens reúne produções brasileiras de destaque e disputa o tradicional Troféu Guarnicê.

A chegada de “Magrela” à competição carrega um significado especial para a cultura do estado. O Amapá entra em cena mais uma vez com autenticidade, criatividade e coragem artística. Parabéns aos envolvidos. É isso!

Elton Tavares - Blog De Rocha