sexta-feira, julho 24, 2026

Vingadores - Viagem ao centro de um adroide

 


A curta passagem de Neal Adams pelo título do Vingadores gerou momentos memoráveis, mas nenhum deles foi tão memorável quanto a história viagem ao centro de um androide, publicada em The Avengers 93.

Escrita por Roy Thomas, a história começa com o Visão chegando à mansão dos vingadores, implorando por ajuda e, em seguida, desfalecendo.

A splash page inicial é uma carga dramática que só poderia ser conseguida pelo grande Neal Adams. Thor, em primeiro plano, gira o corpo para ver o que chamou a atenção do Homem de Ferro e do Capitão América. Ao fundo, visão abre a porta com um estrondo. Adams usa a estratégia de colocar algo em primeiríssimo plano (no caso, as pernas de Thor) como elemento dramático e com isso direciona o olhar do leitor, que sobe para o rosto de Thor, para o rosto do homem de ferro, para o capitão e finalmente para o visão, como se formasse um círculo.

A primeira imagem da história é um ótimo exemplo das inovações visuais introduzidas por Neal Adams nos comics. 


Aparentemente morto, o androide pode ser salvo pelo Homem-Formiga, que reduz de tamanho e ingressa no corpo do herói.

A trama é nitidamente influenciada pelo livro Viagem Fantástica, de Isaac Assimov, na qual pessoas são miniaturizadas e entram num navio em miniatura no interior de um corpo humano para destruir um coágulo. Outra fonte de inspirações pode ter sido a saga Viagem ao interior de uma moeda, aventura vivida por Brick Bradford.  

Como se passa dentro do corpo de um andróide e tem como protagonista um herói miniaturizado, essa era uma história perfeita para Neal Adams exercitar todas as suas melhores qualidades, com a diagramação inovadora, perspectiva exagerada e ângulos pouco convencionais.




A sequência em que o Homem-Formiga entra pela boca do Visão é impressionante. A imagem mostra Visão em primeiríssimo plano, enorme, o Homem-formiga pequeno em segundo plano e o Capitão América, em último plano observando.

No Brasil essa história, que fazia parte da saga A guerra Kree-Skrull, foi publicada pela primeira vez pela editora Abril em Heróis da TV 44.

A mulher da janela

 

A mulher da Janela, filme de Joe Wright baseado no livro homônimo de A.J. Finn conta a história de uma psicóloga com agorafobia (medo de lugares abertos) que fica trancada dentro de casa, bebendo vinho e assistindo filmes antigos.

Sua rotina é quebrada quando uma nova família muda para a casa em frente. O filho a visita, depois a mãe e fica óbvio desde o início de que há algo errado ali. A trama vai num suspense até que a protagonista vê a mulher sendo aparentemente assassinada pelo marido.

Mas à medida em que a trama se desenrola, tudo que a protagonista viu parece ser uma alucinação. A esposa aparece viva (mas é outra pessoa), o rapaz que a visitou diz que ela nunca conheceu sua mãe. Como está tomando remédios controlados e misturando com álcool, tudo pode ser imaginação. Ou não? Esse é o desafio que o filme apresenta ao expectador.

A coisa mais óbvia para mim quando assisti foi esse filme é a semelhança absurda com a trama de Janela indiscreta, filme de 1954, de Alfred Alfred Hitchcock. Nesse filme, um fotógrafo quebra uma perna e, enquanto se convalece, usa seu equipamento para espionar os vizinhos – até que isso o leva a presenciar o um suposto assassinato. A semelhança entre os dois filmes é enorme: protagonistas presos em suas casas observando vizinhos e presenciando o que parece ser um assassinato. Fiquei inclusive aguardando os créditos, esperando alguma referência ao filme de Hitchcock, que não veio.

Plágio ou referência? Pós-modernidade?

Discussões à parte, a mulher da janela apresenta uma direção competente, que explora muito bem o suspense, deixando o tempo todo a dúvida sobre se o que está acontecendo é ou não real e traz algumas opções narrativas muito interessantes. À certa altura, por exemplo, a protagonista revive o acidente que provocou o trauma responsável pela agorafobia. E o carro aparece no meio de sua sala, com neve caindo em volta.

Mas aí chegamos ao final. A virada é realmente interessante e poderia tornar esse um dos filmes mais célebres de psicopatas assassinos. Mas exatamente nesse ponto percebemos que diretor e roteirista gastaram muito tempo trabalhando a heroína e esqueceram de dar motivações reais ou mesmo profundidade ao assassino ou de plantar pistas do que realmente estava acontecendo. A revelação final cai assim como um deus ex machina.

Ainda assim, é um filme que diverte e consegue manter o suspense até o final.

Grandes astros Superman

 


O roteirista Grant Morrison ficou conhecido por seu enorme esforço para virar de cabeça para baixo todos os cânones das histórias de super-heróis. Fez com o Homem-animal histórias metalinguísticas nas quais o personagem encontrava com o próprio criador. Fez histórias com a Patrulha do Destino nas quais o grupo enfretava vilões surrealistas. Então é curioso que sua melhor história tenha sido uma singela e belíssima homenagem ao Super-homem da era de prata: Grandes astros Superman, com desenho do monstro Frank Quitely (provavelmente o único cara que faz com que uma imagem do homem de aço sentado em uma nuvem seja boa o suficiente para virar capa do volume encadernado da série).
Na HQ, o herói resgata uma nave terrestre em missão ao sol sabotada por Lex Luthor. Mas é tudo uma trama do vilão. A proximidade com o sol tanto dá novos poderes ao personagem como faz com que suas células entrem em colapso, condenando-o à morte.
A história é uma bela homenagem à era de prata da DC. 


Morrison constrói sua narrativa como se o personagem estivesse cumprindo tarefas épicas, como os 12 trabalhos de Hércules. Morrison usa esse plot para revisitar boa parte da mitologia do personagem em uma história tocante.
Claro, há os maneirismos morrisianos, mas aqui elas parece apenas divertidas, não pretensiosas, a exemplo do momento em que Luthor diz que Moby Dick pode ser recitada a frequências tão altas que se torna uma perfuratriz sônica capaz de escavar a rocha.
No geral tudo é uma bela homenagem, a começar pela forma carinhosa como o alter ego do Superman, Clark Kent é retratrado.
Clark Kent é retratado como alguém que finge ser desastrado. 


Morrison e Quitely pensaram Clark Kent como um caboco do interior, enorme e acostumado com espaços amplos. Assim, ele sempre está sempre batendo em alguém ou derrubando algo. Mas essas aparentes desatenções são, na verdade, uma forma de ajudar outras pessoas, como o senhor que ia ser atropelado e não o é porque Kent se choca com ele antes que atravesse a rua.
Nesse sentido, um dos capítulos mais interessante é justamente aquele em que Clark Kent vai entrevistar Luthor na cadeia.
Arrogante, Luthor jura que está no controle de tudo e não percebe as diversas vezes em que é salvo pelo desastrado herói. Os mais antigos vão perceber o quanto essa visão sobre o personagem lembra a interpretação de Christopher Reeve no clássico filme de 1978.
Clark Kent vai entrevistar Lex Luthor na prisão: um dos melhores capítulos da história. 


Grandes astros tem de tudo: desde aventura pura a romance (o capítulo em que o Super dá poderes a Lois Lane é belo e divertido) e puro drama, como no capítulo focado no pai adotivo do superman.
E, para não dizer que Morrison usa termos científicos apenas como forma de fazer com que suas HQs pareçam mais cabeça, o uso da arma gravitacional no último capítulo é um ótimo exemplo de algo que funciona bem na trama e, ao mesmo tempo, é cientificamente correto, guardadas as devidas proporções.
Grandes astros superman é uma daquelas obras para ter na estante (e vale destacar a belíssima edição capa dura da Panini), ler e reler.

SAM 4 – a primeira revista Marvel que li

 


 No início dos anos 1980 não existia caixa eletrônico e muito menos aplicativos de bancos. A única forma de pagar uma conta era passar horas numa fila. Foi numa situação dessas que consegui ler pela primeira vez uma revista Marvel. O primeiro contato tinha acontecido anos antes, que quando vi na vitrine de uma mercearia um exemplar de uma Heróis da TV com uma capa realmente impressionante com o Motoqueiro Fantasma. Mas a primeira vez que li uma revista, foi ali, na fila do banco.

Alguém levara a superaventuras Marvel número 4 para ler e emprestara para alguém, que emprestara para o seguinte da fila e assim em diante até que chegou em mim. Eu só devolvi quando li a última página.

Passei anos procurando essa revista. Nunca encontrei em sebos.

Enfim, desisti e resolvi apelar para uma pessoa que produz fac símiles. Então, quase 40 anos depois, tive a oportunidade mágica de reler aquela revista, tentando entender como e porque ela me marcou tanto.

A capa era uma colagem, feita pelos artistas da Abril com um desenho em destaque de Luke Cage e dois boxes com o Demolidor (num estilo que não lembrava nada Frank Miller) e de Conan (num traço que lembrava remotamente John Buscema).         O verdadeiro impacto estava no miolo. A revista reunia quatro histórias, uma de Luke Cage, uma do Demolidor, uma do Dr Estranho e, fechando, uma de Conan.

Luke Cage era um herói nada convencional. 


Relendo, é possível perceber o quanto a história do Herói de aluguel deve ter sido marcante. Era algo totalmente diferente de qualquer coisa que eu já tivesse lido de super-heróis. Nada de máscaras, identidade secreta, um herói que parecia muito mais um anti-herói, que vendia seus serviços e, nessa história, alugava um muquifo acima de um cinema como escritório.

Na história, cortesia de Archie Goodwin no roteiro e George Tuska na arte, o personagem enfrenta um tal de Cascavel, que teria sido o responsável pela morte da namorada do herói. A HQ mostrava também a origem do personagem e a forma como ele escolhera seu marcante uniforme, escolhendo entre os itens descartados numa loja de fantasia.

Para quem estava acostumado com os heróis certinhos, que tinham tudo nas mãos, como os Superamigos, era algo totalmente diferenciado.

A cena página de Demolidor que me marcou. 


Mas o que vinha depois era muito mais revolucionário: o Demolidor de Frank Miller, nessa época ainda com roteiro de Roger Mckenzie. Na história, o herói investiga o roubo de um carregamento de adamantium.

A diagramação de Miller era revolucionária, assim como a abordagem do Demolidor (algo que eu não sabia na época) e a cena que mais me marcou já estava lá, na segunda página. O herói está num bar, tentando tirar informações de um bandido, quando outro meliante se aproxima dele pelas costas com uma faca. Sem se virar ou mesmo tirar o olho do que está sendo interrogado, o Homem sem medo para o agressor com um soco no rosto. Eu me lembro que pensei: caramba! Esse cara é incrível! Não sabia naquela época que o personagem era incrível porque tinha um gênio por trás de suas histórias. A ambientação urbana e factível era mais uma quebra com os coloridos Superamigos, que pareciam incapazes de dar um soco num vilão.

Em seguida vinha a história do Dr. Estranho. Essa história era continuação de uma trama anterior, inciada por Archie Goodwin e Barry Smith, toda baseada na mitologia lovecraftiana. Nessa edição, o roteiro já estava a cargo de Gardner Fox e a arte de Irv Wesley.

Doutor Estranho se tornou um dos meus personagens prediletos na Marvel. 


Na HQ, o mago se envolve com uma seita secreta que tenta trazer de volta um deus adormecido. Hoje vejo que a trama tinha todos os elementos que tornariam Lovecraft  famoso, numa nítida homenagem, entre eles uma cidade isolada com habitantes que são resultado de uma mistura de raças. Mas na época o que mais me marcou foi a sequência inicial: com o herói aprisonado por grilões numa mesa de concreto, uma cruz invertida com uma cobra ao seu lado e um demônio reptiliano se aproximando para matá-lo.

Eu não tinha lido a história anterior, mas apenas aquele quadro já era o suficiente para despertar minha atenção e tornar o Dr. Estranho um dos meus personagens prediletos da Marvel de todos os tempos. Aquilo não era só super-herói. Havia uma essência de terror ali, de mistérios assombrosos. Imaginem isso para alguém que estava saindo da infância (eu devia ter uns 12 anos na época) e praticamente só conhecia os Superamigos.

Quarenta anos depois eu ainda consigo me lembrar do diálogo final dessa história de Conan. 


Fechando a revista, uma história de Conan com roteiro de Roy Thomas e arte de Barry Smith na qual o cimério salva uma prostituta chamda Jenna das garras de um demônio morcego. Aqui foi a sequencia final que me marcou profundamente, a ponto de eu conseguir me lembrar do diálogo 40 anos depois. Os dois estão no deserto e Jenna sugere que Conan durma e sonhe sonhos de ouro. Quando o cimério acorda, ela fugiu com o ouro, ao que ele comenta: “Tenha sonhos de ouro, ela me disse... e eu fiquei com os sonhos... e ela com o ouro!”.

Era o fechamento perfeito de um mix perfeito que simplesmente fez pirar um garoto de 12 anos e mudou totalmente a forma como eu via os quadrinhos.

Quarenta anos depois essa edição ainda parece ter o mesmo encanto.

Fundo do bau - O homem da valise

 



A série O homem da valise (Man in a Suiticase) surgiu em decorrência de um infortúnio. A origem dela é a série Danger Man, protagonizada por Patrick McGoohan, de grande sucesso na Inglaterra (tanto que já estava na terceira temporada e com a quarta temporada confirmada). McGoohan simplesmente convenceu o canal a fazer uma outra série, O prisioneiro e, de repente, toda  a equipe se viu desempregada.

A solução foi criar uma série parecida, que envolvesse suspense e espionagem e assim surgiu O Homem da valise. O protagonista, McGill (seu prenome jamais é mencionado na série), é um espião que caiu em desgraça e perdeu o emprego na CIA quando deixou um cientista desertar para o lado dos russos.  McGill na verdade tentou avisar seu chefe da deserção, mas este pediu que não interferisse. Acontece que o chefe morreu logo depois e o agente acabou sendo responsabilizado pela deserção, já que não há ninguém que confirme sua versão dos fatos. Ele passa a atuar, então, como detetive e caçador de recompensas, enquanto tenta provar sua inocência.



No piloto da série, exibido como episódio 6 em todo o mundo (exceto no Brasil, onde foi exibido primeiro), descobrimos que o chefe não morreu. Mas McGill não pode revelar isso sem colocar em risco o mundo ocidental, o que garantiu uma bela ironia narrativa, que já que boa parte do mote da série era a tentativa de provar sua inocência.

Os episódios eram muito bem escritos, focando muito mais na trama do que na ação e na violência. McGill, aliás, não é um herói clássico, do tipo que nem mesmo se despenteia. Ele constantemente apanhava e levava tiros. No episódio piloto, por exemplo, ele leva uma surra de agentes russos. Nesse sentido, o programa deve muito à ótima atuação Ricardo Bradford. Aliás, a escolha de Bradford, um ator americano, tinha como objetivo abrir mercado para a série nos EUA.

O nome da série é uma referência ao fato do personagem andar sempre com uma maleta velha (segundo ele, a única coisa que lhe sobrou).

O homem na valise teve uma temporada, com 30 episódios, exibidos de
27 de setembro de 1967 a 17 de abril de 1968
. No Brasil foi exibido pela Bandeirantes, Gazeta e Tupy.

Novembro de 1963

 


A primeira coisa que você precisa saber é que, se for ler Novembro de 1963, de Stephen King, tenha certeza de que tem bastante tempo de sobra. Você se verá com um livro enorme (725 páginas!!!!!) que simplesmente não consegue largar – e se estiver muito atribulado isso será um problema.
Os romances normais seguem a estrutura estabelecida por Aristóteles, com um primeiro ato que apresenta os personagens, um conflito surgido no final deste ato, que se desenvolve no segundo fazendo com que a trama siga num crescendo – até a conclusão apoteótica no terceiro ato. Num bom romance de terror ou suspense isso significa que o nível de tensão irá se tornar cada vez maior, até o que terceiro ato se encerre – e com ele o livro.
king quebra com esse esquema. Seu livro tem dois arcos, então, quando a tensão chega ao seu auge, quando a linha do violino parece esticada demais, a história começa de novo a partir daquele ponto. Por um lado é interessante, pois o leitor sabe o nível a que a narrativa pode chegar, mas, por outro lado, isso faz com que a narrativa recomece no primeiro ato e só volte a engrenar lá na frente.  
A segunda coisa que você deve saber é que esta resenha terá spoillers. Difícil explicar este livro sem contar algo a respeito, embora contar algo já entregue toda a trama – a propaganda da editora fez contorcionismos para promover o livro sem contar quase nada da trama.
Na trama, um professor secundarista é apresentado a um portal no tempo, que lhe permite voltar ao ano de 1958. O homem que o apresenta a essa falha temporal está morrendo de câncer e o convence a terminar o que ele começou: voltar no tempo e impedir o assassinato do presidente Kennedy. Por mais tempo que se viva no passado, se passam apenas dois minutos no presente.
King constrói seu roteiro a partir do conceito do efeito borboleta, em que pequenas alterações no início de um processo podem provocar grandes alterações a longo prazo – e, embora ele pareça usar o conceito de maneira ingênua a princípio, no final do livro fica claro que ele sabia o que estava fazendo.
Novembro de 1963 é mais que uma história de viagem no tempo, um triller e uma reconstrução história de um dos momentos mais importantes da história americana. É também uma história de amor que cativa o leitor e o segura até a última página.
Leia, mas tenha certeza de que terá tempo de chegar até o final das quase 730 páginas.

O Riso entre lágrimas: De Gógol à Amazônia

 


No dia 19 de dezembro de 1990, emprestei da Biblioteca Pública de Belém e li o conto O Capote, de Nikolai Gógol. Foi um divisor de águas na minha vida, uma verdadeira experiência de êxtase literário. Comecei rindo do ridículo e subalterno funcionário público Akáki Akákovitch, mas logo me vi profundamente envolvido por seu sonho de adquirir um capote novo e comovido com seu drama avassalador quando o agasalho é roubado.

Gógol conseguiu me conduzir de uma emoção a outra em uma narrativa curta, escrita de forma singela, porém repleta de significados e camadas. Dostoiévski afirmou certa vez que "todos nós saímos do Capote de Gógol", e é fácil compreender o porquê. O "riso entre lágrimas" dessa história nos envolve e nos acompanha por muito tempo após o término da leitura.

O impacto daquela experiência foi tão avassalador que fotocopiei e encadernei o livro, confeccionando até mesmo uma capa artesanal — na qual registrei, do próprio punho, tanto a data da leitura quanto a do encadernamento. Era como se eu quisesse eternizar aquele instante para a posteridade, antecipando o modo como ele marcaria indelevelmente toda a minha escrita a partir dali.

Anos mais tarde, adaptei duas outras histórias do autor para os quadrinhos — O Inspetor Geral e O Nariz —, com os desenhos do meu compadre Bené Nascimento. No entanto, o desejo de adaptar O Capote, a obra que tanto me impressionara na juventude, permanecia vivo. Foi assim que a narrativa original se transformou em um roteiro cinematográfico intitulado Magrela, no qual o vestuário da São Petersburgo czarista deu lugar a uma bicicleta circulando pelas ruas de Macapá.

Esse roteiro ganhou vida nas telas e tornou-se um filme que agora circula por diversos festivais do país, , levando pelo Brasil o “riso entre lágrimas” de Gógol transposto para a realidade amazônica.  

Em tempo: Magrela está concorrendo na categoria “Melhor filme popular” no festival Ficça. Para votar, clique aqui

quinta-feira, julho 23, 2026

Uma Advogada extraordinária

 


Há uma série de características que estão fazendo com que as séries sul-coreanas, as K-Drama, se tornem sucessos absolutos: personagens carismáticos, bons atores, romances quase platônicos e uma direção leve e divertida. Uma advogada extraordinária parece reunir todos esses elementos, tanto que se tornou uma das atrações mais assistidas da Netflix.

A história gira em torno de uma advogada Woo Young-woo que tem Transtorno do Espectro Autista. A belíssima abertura, com uma música meiga e cativante consegue passar muito sobre a personagem: ela acordando em um quarto repleto de imagens de baleias, comendo shushi (uma comida confiável, já que ela pode ver todos os ingredientes), colocando os protetores de ouvindo, indo para o trabalho e chegando finalmente ao tribunal. No meio do caminho baleias vão surgindo numa poça d´água ou em nuvens.

Se por um lado, Woo Young-woo tem uma série de dificuldades por ser autista (ela não consegue, por exemplo, atravessar uma porta giratória), por outro lado, ela é um gênio, que sabe de cor toda a legislação coreana.

O autismo, aliás, é a razão pela qual ela é recusada por todos os escritórios de advocacia, mas quando ela é contratada pela Hanbada suas habilidade extraordinárias fazem com que ela se revele. Ela consegue ver ângulos inusitados em casos, brechas legais, usar uma legislação para aplicar a um caso em que ninguém tinha pensado em usar aquela legislação.

Woo Young-woo cativa o expectador desde o primeiro momento, quando se apresenta explicando que seu nome pode ser lido e trás para frente, como catraca, caneca, casaca, cômico, careca. Nisso, contribuiu muito a atuação espetacular de Park Eun-bin. A atriz parece se sentir à vontade exatamente em papéis que a tirem da área de conforto. Em o rei de porcelana ela faz o papel de um homem. Aqui, como autista, ela entrega uma atuação meiga e ao mesmo tempo carismática. É impossível não simpatizar com a personagem e essa simpatia aumenta ainda mais quando percebemos os seus lances de genialidade ao atuar nos casos. Sua relação romântica com um colega de trabalho, fundada principalmente no platonismo (eles trocam um único beijo durante toda a temporada de 16 episódios) também contribuiu para fazer o público simpatizar com a personagem.

Mas Uma advogada extraordinária não fica apenas no meigo, no cômico ou no romântico. A série aborda temas complexos, como o preconceito contra autistas, a falta de ética do meio jurídico e o excesso de trabalho dos advogados coreanos.

Um dos episódios mais interessantes é O flautista, cujo título remete diretamente à história clássica do Flautista de Hamelin. Na história, o filho de uma diretora de escola leva crianças para um dia inteiro de brincadeiras nas montanhas. Ele é acusado de sequestro e Woo Young-woo deve defendê-lo. A história é uma dura crítica à severa educação coreana, em que crianças chegam a passar 12 horas estudando sem direito a se alimentar ou ir ao banheiro.

Uma advogada extraordinária é tão cativante que mal percebemos quando se passaram os 16 longos episódios.

Curve-se ante seu senhor, Super-homem!

 


Na década de 1950 os quadrinhos sofreram uma forte perseguição. Argumentava-se que os quadrinhos estimulavam de crimes à preguiça de ler. Como forma de responder a isso, a DC Comics praticamente aboliu qualquer tipo de violência nas histórias. Essa fórmula se tornou uma marca da Era de Prata na DC, a ponto de ser seguida mesmo na era de bronze.

A história “Curve-se ante seu senhor”, escrita por Leo Dorfman e desenhada por Curt swan e publicada em 1971 na revista Action Comics 404 é um ótimo exemplo disso.

Na história, Clark Kent é enviado para fazer uma matéria sobre um instituto de pesquisa situado à beira da praia. Quando se aproxima do local, o herói percebe que um pequeno terremoto abalou a estrutura do local e que o instituto irá desabar graças a uma caverna situada abaixo dele. Agindo rapidamente, o homem de aço escora o local, impedindo o desastre.

O cientista César é tão fã do Super-homem que mantém um museu em sua homenagem. 


Quando chega ao instituto descobre, espantando, que os cientistas sabiam o que ia acontecer. Afinal, o fato havia sido previsto por César, o mais brilhante cérebro do local. “Cérebro, hein?”, pensa o Super-homem. “Deve ser aquele computador gigante!”. Mas não, era um ser humano. Ele não só era genial, mas também era um grande fã do homem de aço a ponto de fazer um verdadeiro museu dedicado ao herói. Só falta uma coisa ao local: o próprio super-homem!

Uma armadilha faz com que o herói fique paralisado, sendo assim colocado no museu. Mas o cientista quer ir além: quer roubar os poderes do homem de aço, tornando-se ele mesmo um super-herói, o Supercésar, o imperador de toda a terra.

A verdadeira motivação: o cientista quer roubar todos os poderes do herói. 


Esse é o tipo de trama que nas mãos de Jack Kirby e Stan Lee viraria uma trama repleta de ação e porrada. Mas Leo Doroman faz com que toda a situação se resolva sem que o homem de aço precise mover sequer um músculo. Nesse sentido, o desenho de Curt Swan, muito anatômico, mas parado, ajuda o efeito geral.

No final, essa trama inusitada acabou agradando, como podemos perceber pela quantidade de vezes que foi republicada no Brasil. A Ebal publicou quatro vezes e a Abril uma vez, em Super-homem 13.

O Superman de Dennis O´Neil e Curt Swan

 

Dennis O´Neil é um dos poucos roteiristas da era de bronze dos quadrinhos mais ligado à DC que à Marvel. Ele escreveu diversos personagens da editora, com uma passagem memorável pelo título do Lanterna-Aqueiro Verde e outra passagem igualmente memorável pelo Batman. Mas poucos se lembram que ele escreveu também o Homem de aço, com desenhos da dupla Curt Swan-Murphy Anderson.

O´Neil cria um novo antagonista para o herói: um misterioso ser feito de areia que suga os poderes do Superman.
O´Neil inventa um antagonista de areia que pode matar o Super. 


Para quem foi totalmente revolucionário em Batman, o roteirista parece tímido e temeroso ao trabalhar com o primeiro super-herói. As primeiras histórias emulam os roteiros da era de prata. Em uma delas um pianista sem talento descobre uma arpa mágica, veste uma roupa de Pan e desafia o Super-homem. Em outra, o herói enfrenta anjos e demônios que na verdade se revelam serem extraterrestres. São as histórias mais fracas dessa série.
Mas mesmo nas primeiras histórias, O´Neil mostra seu lado revolucionário. Na primeira história, o homem de aço enfrenta um empresário ganancioso que se recusa a deixar os trabalhadores saírem de uma ilha com um vulcão em erupção. Na história sobre anjos e demônios, os anjos se revelam criminosos estelares.
A história sobre anjos e demônios é a mais fraca do volume. 


Mas a história pega fôlego quando O´Neil imprime seu estilo, focando a história no antagonista de areia. Além de dar profundidade psicológia ao herói (ele se sente magoado quando é criticado por não salvar um prédio), o roteirista introduz até mesmo os mitos lovecraftianos na explicação sobre a origem do ser de areia.
Enfim, uma fase obrigatória, não só pelo roteiro, mas também pela arte da dupla Swanderson, a mais clássica do personagem.
No Brasil a publicação mais recente dessa fase foi no volume Lendas do homem de aço dedicado a Curt Swan.

Fantasma, o espírito que anda

 

Lee Falk foi o primeiro roteirista importante dos quadrinhos. Antes dele já existiam outros como Dan Moore e Dashiel Hammett que, no entanto, não assinavam seus trabalhos. Já Lee Falk era um pai coruja: Fazia questão não só de assinar suas criações, como exigia controle to¬tal sobre elas. Uma das poucas vezes em que ele perdeu esse controle foi quando o Fantasma passou a ser publicado no Brasil com a cor vermelha substituindo o azul original — isso aconteceu porque a história chegou ao Brasil sem referência de cor e o vermelho possibilitava uma melhor reprodução para as obsoletas máquinas tupiniquins (aliás, essa mudança de cor aconteceu em diversos países justamente pela falta de referência de cores).
O primeiro personagem de Lee FaIk foi o mágico Mandrake, em 1934. Desenhado por Phil Davis, Mandrake era um mágico racional, inspirado fisicamente no próprio Falk. O personagem, sempre envolvido em aventuras detetivescas, conquistou o público e é publicado até hoje. O grande sucesso de Falk, entretanto, seria o personagem Fantasma, criado em 1936 e desenhado por Ray Moore.
O que diferencia o Fantasma de outros personagens é o seu caráter de mito. Sua história parece uma daquelas remotas lendas passadas de pai para filho: no ano de 1525 o único sobrevivente de um ataque pirata faz um juramento: "Juro que dedicarei toda minha vida à tarefa de destruir a pirataria, a ganância, a crueldade e a injustiça. E meus filhos e os filhos de meus filhos me perpetuarão". Ele passa a usar, então, uma máscara e roupa colante e a perseguir malfeitores. Como o jura¬mento valia também para seus descendentes, o povo da selva começou a pensar que o herói era imortal. Esse aspecto da tira deu um significado maior à história, tornando-a mitológica por excelência.
“O espírito que anda” teve o mérito de ser o primeiro herói de quadrinhos a usar máscara e ma¬lha colada ao corpo. Nesse senti¬do, todos os super-heróis devem a ele o seu visual. Na primeira história o personagem usava também uma luva, que abandonou devido à inconveniência de ter de tirá-la toda vez que quisesse deixar a marca do Fantasma em um malfeitor.
O primeiro desenhista a ilustrar o personagem foi Ray Moore. Seu traço sombrio ajudou a criar o clima de mistério que envolve até hoje o herói mascarado.
Fantasma de Ray Moore era atlético e sensual, com um forte toque “noir” realçado pelo som¬breado pesado. Nenhum outro artista conseguiu manter o nível de Moore, que desenhou o personagem de 1936 a 1942.
A partir de 1942, seu assistente Wilson McCoy pegou o personagem. A princípio, McCoy seguiu a linha de Moore, tentando manter o nível de qualidade, mas com o tempo começou a caricaturar os personagens dando a impressão de que as tiras eram feitas às pressas. Com a morte de McCoy, em 61, o Fantasma passou a ser desenhado por Sy Barry, de traço bastante impessoal. Isso deve ter ajudado para que ele tivesse uma multidão de assistentes - que muitas vezes faziam tudo na história, tendo Sy Barry só o trabalho de assinar, quando muito.
Em 1977 o Fantasma se casou. A história, embora seja assinada por Sy Barry, foi desenhada pelo brasileiro André LeBlanc, que no Brasil foi um dos principais ilustradores dos livros de Monteiro Lobato, mas foi para os EUA, onde se tornou assistente de Will Eisner no Spirit antes de se juntar à equipe que ilustrava o Espírito que anda.
Lee Falk sabia que os detalhes fariam com que seu personagem ganhasse um aspecto de mito e não economizou neles, a começar pelos apelidos que o povo da floresta dão ao personagem, tais O Espírito-que-anda, o Homem que nunca morre, o Guardião das Trevas Orientais e outros. Os ditados referentes ao personagem também ficaram famoso: “O Fantasma é violento com os violentos”, “Dá medo ver o Fantasma enfurecido”, “O Fantasma atira mais rápido que o olhar”. Os símbolos também ajudam a compor a aura do personagem, como a caverna da caveira (local de sua moradia) e os anéis. O anel da caveira, usado na mão direita, marca os malfeitores, enquanto na mão esquerda fica um anel com a marca de proteção. Aqueles que têm essa marca serão sempre protegidos pelo personagem. Outros destaques são os companheiros animais do personagem, o lobo Capeto e cavalo branco Herói.
No Brasil o personagem fez muito sucesso nas década de 1940 e 1950, contribuindo para que seu editor, Roberto Marinho, ficasse rico o suficiente para montar uma emissora de TV, a Rede Globo. Atualmente, no Brasil, ele tem um público pequeno, mas fiel. Entretanto, em outros países, como a Austrália e a Escandinávia, ainda é o herói de quadrinhos de maior sucesso. Recentemente a revista do personagem alcançou o número 1.500, um recorde mundial.