domingo, outubro 25, 2026

Fundo do baú - Os Jackson Five

 


Entre os vários desenhos antigos exibidos na TV brasileira, Os Jackson five é certamente um dos mais obscuros e lisérgicos.

O desenho foi criado no rastro do sucesso do grupo musical The Jackson 5, que tinha como integrante mais novo, o ainda criança Michael Jackson.

A história era misturada com sequências inteiras de verdadeiros clipes musicais em animação em que os personagens apareciam em meio a imagens psicodélicas, com forte influência da produção Yellow Submarine. Era uma forma economizar na animação, já que o recurso permitia repetir muitos quadros.

Michael Jackson, a estrela do desenho, tinha como animais de estimação dois ratos e uma... cobra. Sim, uma cobra.

Tirando as sequências musicais e fotos que apareciam no início e no final dos episódios, os Jackson 5 não tinha nenhuma outra participação nos desenhos – suas vozes inclusive eram dubladas por atores.

No episódio Cinderelo, uma garota famosa vai estrear um filme e escolherá num baile quem será seu par na produção. Todos os irmãos Jackson vão ao baile, exceto Michael que está gripado. Mas aparece um padrinho cabeludo, que não só o cura como ainda lhe fornece roupas incríveis e um sapato de cristal. A aparição do padrinho é precedida por um clipe de vários minutos do grupo com fundo lisérgico. 

Produzido pela Rankin/Bass, o desenho estreou em 1971 e teve duas temporadas, num total de 23 episódios.

Gian Danton e o livro Árvore de Ideias

  

Perry Rhodan – Encontro no espaço

 


O volume 225 da série Perry Rhodan gira em torno da tentativa dos humanos de encontrar a nave na qual estão os espiões dos maahks. Esses homens eram cópias perfeitas dos humanos que haviam sido enviados para espionar os inimigos e, como tal, haviam conseguido enganar Perry Rhodan e se apoderar de uma nave que os levava para um planeta onde teriam direito a “merecidas férias”. Todos os tripulantes da nave haviam sido envenenados com um gás letal e jogados no espaço ao mesmo tempo que explodia uma bomba atômica para simular que a nave havia sido destruída.

O livro Encontro no espaço começa exatamente com uma nave terrana encontrando um dos cadáveres jogados no espaço, o que provoca um jogo de gato e rato, com os terranos tentando alcançar a nave e desmascarar os espiões e esses sempre um passo a frente, criando estratégias para justificar tudo.

A capa alemã. 


Kurt Mahr foi um dos primeiros escritores da série. No começo era muito técnico, de uma escrita truncada, o que aparece em alguns momentos desse livro. Mas no geral, ele consegue imprimir um ritmo de suspense e espionagem à obra, tornando a leitura interessante.

Uma curiosidade é que, ao final do volume, os editores brasileiros colocaram pequenas curiosidades sobre autores de Perry Rhodan. É dito, por exemplo, que Clark Darlon tinha medo de viajar de avião, de modo que toda vez que acontecia uma conferência de autores da série, ele ia de trem. Sobre Kurt Mahr é dito que ele trabalhou durante anos como físico nos EUA onde prestou colaboração no desenvolvimento da propulsão de foguetes (o que explica sua preocupação em colocar detalhes técnicos nos seus escritos). Mas a curiosidade mais singular é sobre o capista dos volumes, Johnny Buck. O texto diz que ele foi enganado na compra de um cavalo: “Alguém conseguiu vender-lhe um velho malungo, dizendo que se tratava de um excelente cavalo de montaria”.

Curiosidades como essa ajudavam a ampliar a mítica da série.

Uma noite em 67

 


Em 1967 a TV Record exibiu o 3º Festival da Música Popular Brasileira. Poderia ser apenas mais um festival de música, mas se tornou um marco na carreira dos artistas e uma quebra de paradigmas.

Foi essa edição revolucionária do festival que Renato Terra e Ricardo Calil transfomaram no documentário Uma noite em 67.

Com imagens da época e depoimentos de pessoas envolvidas – do diretor da TV Record a artistas como Roberto Carlos, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque, o documentário busca recriar o clima do festival, colocando o expectador no centro dos acontecimentos.

Foi em 1967, no festival, que surgiu a Tropicália, mais especificamente com Domingo no Parque, de Gilberto Gil e Os mutantes e Alegria, alegria, de Caetano Veloso. Era um movimento tão inovador e irreverente que faria com que Chico Buarque, com apenas 23 anos, parecesse um conservador ultrapassado.

O documentário perspassa acontecimentos externos ao festival, como a passeata contra a guitarra, mas que tiveram um impacto direto no evento.

Talvez o momento mais interessante sejam as apresentações de Caetano e de Gil, inicialmente muito vaiadas pela plateia, e a forma como, com seu talento, eles foram conquistando o público até o final apoteótico em que foram aplaudidos de pé. É uma rica demonstração de como a arte pode vencer o preconceito. Também vale muito a pena ver as entrevistas de bastidores em que, por exemplo Gilberto Gil defende a inclusão do pop na arte, chegando a citar as histórias em quadrinhos.

No final, grande ganhadora do festival foi Ponteio, de Edu Lobo, uma música, hoje em dia considerada conservadora. Gil ficou em segundo e Chico em terceiro, com Roda Viva. Apesar de não terem ganhado o festival, Gil e Caetano escreveram seu nome na música popular brasileira e mudaram os rumos dessa mesma música.

Uma noite em 1967 é um daqueles documentários obrigatórios para quem gosta de boa música. Está disponível na Netflix.

A árvore das ideias

 

Eu e Bené Nascimento, hoje Joe Benett, formamos durantes muitos anos uma das mais conhecidas e duradouras duplas dos quadrinhos nacionais. Na verdade, nós só paramos de colaborar um com o outro quando Bené começou a trabalhar para os EUA, e ficou sem tempo para nossos projetos em conjunto. Mesmo assim, de tempos em tempos ele me procurava para fazermos algo em conjunto. Mas quando os prazos da Marvel ou da DC começavam a apertar, ele voltava ao que dava dinheiro.

Nós tínhamos um método próprio de criação que lembra muito a parceria entre Stan Lee e Jack Kirby. O Bené aparecia quase todas as manhãs lá em casa. Como ele é enorme, ocupava quase todo o meu pequeno quarto, de modo que preferíamos ficar na frente da minha casa, debaixo de uma árvore da vizinha. E o Bené lembrava de uma lanchonete em Nova York que ficou famosa por ser o lcal em que Kirby e Lee criaram a maior parte de suas histórias, e dizia: “Um dia essa árvore também vai ficar famosa. Vão colocar uma placa aqui dizendo: Aqui Gian Danton e Bené Nascimento bolaram suas melhores histórias”.

Nós ficávamos lá debaixo da árvore, discutindo detalhes das HQs. Quando terminávamos, Bené ia para casa e depois me trazia um rafe sobre o qual eu colocava o texto e os diálogos. No começo ele, mais experiente, sempre dominava a criação e eu me limitava a dar alguns toques, a pedir algumas modificações. Com o tempo, fui ganhando domínio da linguagem e passei a dar mais idéias. O ponto alto desse processo foi na história “Noir”. Nós estávamos chateados com o conservadorismo dos editores de terror no Brasil. Enquanto o mundo lá fora pegava fogo com as histórias de terror sofisticadas de gente como Alan Moore (Monstro do Pântano) e Neil Gaiman (Sandman), no Brasil ainda se fazia terror nos moldes da década de 1960. Havia até uma regra implícita de que o protagonista sempre deveria virar monstro ao final da HQ de terror. Isso era feito com o objetivo de surpreender o leitor, mas mesmo o leitor mais obtuso, depois de ler três histórias, logo sacava a estrutura.
Outra estrutura era mostrar alguém muito mal, que era castigado por suas vítimas que voltavam do túmulo para se vingar. O quadrinista nordestino Luiz Eduardo já havia feito uma crítica disso na história “Mais do Mesmo”, e nós também queríamos expressar nossa revolta com essa camisa de força.
Decadence era uma homenagem ao terror inaugurado por Alan Moore, que inclusive aparece na história. 


Então um dia eu sonhei com uma história completa: Decadence. Quando acordei fiz um rafe e coloquei o texto. O Bené gostou tanto que seguiu rigorosamente o rafe. Na HQ eu mostrava um personagem que era, obviamente, John Constantine, andando por uma rua. À medida em que ele andava, apareciam monstros clássicos que eram eliminados da forma mais simples possível. Na verdade, para eliminá-los, Constantine usava apenas sua enorme sorte. Um vampiro, por exemplo, era atropelado por um carro. Ao final, ele encontrava com outro personagem, que mostrávamos na penumbra, mas dava para perceber que se tratava de Monstro do Pântano, e eles conversavam num papo que ecoava uma crítica ao terror clássico.
Surpreendetemente, essa história foi publicada na revista Mephisto, terror negro, uma das revistas mais conservadoras da época.


Uma outra exceção ao processo criativo da copa da árvore foi a história “Noir”, coincidentemente publicada também na revista Mephisto. O Bené tinha recebido um roteiro do editor, mas não gostou, achando o desenvolvimento óbvio demais. Estávamos discutindo isso no ônibus, quando o Bené me disse:
- Quer saber? Não vou ilustrar esse roteiro! Vamos criar outra coisa e mandar para eles! E vamos criar agora!
E assim começamos a conversar sobre como seria a história. Bené queria que ela tivesse um clima noir. Eu lembrei de um filme que tinha esse clima e que sempre esteve na minha relação dos 10 melhores: Coração Satânico, de Alan Parker.
Coração satânico tinha uma estrutura na qual um detetive procurava por um homem desaparecido. À medida em que a investigação avança, ele vai vendo todos os seus informantes sendo mortos. No final, ele descobre que o homem que ele procura é ele mesmo e o cliente é na verdade Lúcifer, para quem ele havia vendido a alma.
Imaginamos uma situação assim, mas com um contexto de vampiros, já que vampiros eram um tema clássico e, imaginávamos, iria agradar os editores. Assim, um detetive investigava assassinatos em séries cometidos por um vampiro e, ao final descobre que ele é o assassino.
Essa história foi barrada pelo Diretor de arte, Dagoberto Lemos, assim que chegou na editora. Ele argumentou que o desenho do Bené estava muito sujo e a história era incompreensível. Quem nos salvou foi a editora, Neuza de Castro Luz, que bateu o pé e foi falar com o dono da editora. Sua aposta valeu a pena: a revista, que antes vendia 40% da edição, pulou para 70% naquele número.
É um desses casos explicados pela teoria dos paradigmas: como não era da área, Neuza não percebeu que nossa HQ não se encaixava no terror anos 60, típico de revistas como Calafrio e Mephisto.

Noturno – de Berardi e Milazzo

 


Noturno é um álbum lançado pela Opera Graphica em 2003 que reúne diversas histórias curtas da dupla Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo. Os dois se tornaram famosos e queridos pelos leitores graças ao personagem Ken Parker, que revolucionou o faroeste na década de 1970.

O álbum começa com a história do título, uma HQ muda que exemplifica bem porque Milazzo é considerado um mestre da narrativa visual: um homem encapuzado invade a casa de um desenhista (que tem as feições de Milazzo) e o mata. Uma trama simples, que vale pelo brilhantismo narrativo.



Outro destaque é “Onde está Laura?”:  Um homem está acampando quando é abordado por um desconhecido com um machado, que pretende roubar seu carro. Apesar da ameaça, a grande preocupação da vítima é saber onde está Laura. A HQ  vale pelo final surpreendente.

Mas o melhor momento do volume é “Parker Anderson, o filósofo”. A história se passa durante a guerra civil americana. Parker é um espião da União que acaba sendo pego no acampamento da União. Ele sabe que o destino dos espiões é a morte por enforcamento e, surpreendentemente, não parece se importar com isso. Ao contrário, suas falas estóicas são desconcertantes: “Faço votos que o espetáculo seja bem organizado, já que vai ser em minha honra”.



Se Milazzo brilha na primeira história, aqui o mérito cabe principalmente aos diálogos de Berardi, que, por trás da aparência de humor, criam uma tensão entre o espião e o general confederado.

O plot twist final é surpreendente principalmente por inverter os papéis dos personagens.  

Gian Danton: a origem do pseudônimo

 Algumas pessoas têm me perguntado qual a origem do meu pseudônimo Gian Danton. Essa é uma pergunta comum, mas, olhando para trás, percebo que nunca escrevi sobre o assunto.

Gian Danton surgiu em 1989, quando comecei a publicar minhas primeiras histórias em quadrinhos, em parceria com Bené Nascimento (Joe Bennett). Um amigo de teatro, que já havia tido problemas com a ditadura militar, e vendo que minhas histórias poderiam ser consideradas subversivas, me aconselhou a usar um pseudônimo.
Além disso, na época eu estava inaugurando uma coluna no jornal O Liberal e já havia colunas de uns tais de Ivan Andrade e Ivan Oliveira (eu não havia pensado no Ivan Carlo).
Na época eu era quase obcecado pela revolução francesa. Tinha tudo que saía sobre esse fato histórico: livros, revistas, fascículos. E Dantonera o personagem mais interessante dessa trama que mudou o mundo. Os outros dois grandes revolucionários pareciam mais bidimensionais: Marat era o revolucionário radical e Robespiere era o homem de costumes austeros, que levou a revolução na direção do terror.
Danton era revolucionário radical, mas também era humano, tanto que foi o único a se levantar contra o terror revolucionário, que matou milhares de pessoas (inclusive crianças), apenas porque eram nobres ou porque discordavam de Robespiere. Era também um bom-vivant, um homem divertido e inteligentíssimo, que tinha sacadas geniais. Quando ele foi julgado, tiveram que fazer um julgamento secreto e proibi-lo de falar, senão ele era capaz de convencer até os juizes (o julgamento era uma farsa, pois Danton estava condenado desde o início).
Quando o acusaram de ter se vendido para os nobres, por exemplo, Danton respondeu: ¨Vendido? Eu? Um homem como eu não tem preço!¨.
Adotei o nome Danton para homenagear esse homem interessantíssimo. No começo eu assinava Jean Danton, mas ficava estranho, especialmente na hora de assinar.
Na época eu me interessei pelo Barroco italiano e descobri um artista chamado Gian Lorenzo Bernini. Arquiteto, pintor, teatrólogo, escutor, Bernini foi para o barroco o que Leonardo Da Vinci foi para a Renascença.
Da junção dos dois nomes, um italino e outro francês, surgiu um nome único no mundo (pelo menos ainda não encontrei no google outra pessoa com esse nome) e foi com ele que fiquei conhecido. Mais tarde, quando tentei me livrar do pseudônimo, já era tarde: todo mundo me conhecia apenas como Gian Danton.

Sexo como mercadoria e o prazer feminino: uma análise do site Tufos

 


Em janeiro de 2023 eu fui contactado pelos responsáveis por um site de quadrinhos pornôs. Eles queriam que eu escrevesse roteiros para eles. Não era um convite despropositado, já que eu cheguei a escrever quadrinhos eróticos na década de 1990 (algumas histórias, como a Família Titã, chegaram a se tornar célebres).

Mas eu comecei a estranhar quando entrei no site (eles me passaram um login e senha) e li as histórias. Eu cheguei a perguntar a eles se o sexo oral nas mulheres era proibido, pois não aparecia em nenhuma das histórias que li naquele primeiro momento (segundo eles, não era).

Outra coisa que me provocou estranhamento é que, segundo eles, era necessário que as mulheres das histórias tivessem um tal de “gatilho para o sexo”, ou uma seja, uma motivação não-sexual para o sexo. Já a única motivação dos homens era puramente a libido.

Além disso, não havia qualquer margem para a autorilidade: eles me enviavam um resumo e eu deveria desenvolvê-lo a partir de parâmetros bem específicos e rígidos.




Para mim ficou óbvio que eu não me encaixaria e nem teria interesse em fazer aquele trabalho, mas aproveitei a oportunidade para fazer uma análise de conteúdo sobre as histórias do site. Os resultados, transformados em gráficos, foram surpreendentes até para mim: essas HQs, em pleno 2023 eram mais conservadoras que os quadrinhos eróticos do início da década de 1990 ou até mesmo que os quadrinhos da Grafipar, do início da década de 1980.

Também aproveitei para realizar uma experiência: fazer um roteiro a partir de um plot enviado por eles, mas modificá-lo, colocando a ênfase da história no prazer feminino. Qual seria a reação dos editores a esse roteiro? Como eles encarariam essa inversão?

O resultado dessa pesquisa você pode conferir no artigo “Sexo como mercadoria e o prazer feminino: uma análise do site Tufos”, publicado na antologia Histórias em Quadrinhos e Interdisciplinaridade: Desafios Metodológicos, organizado por Natania Aparecida da Silva Nogueira, Amaro Xavier Braga Jr. e Maiara Alvim de Almeida e lançado pela Aspas.

O livro pode ser baixado aqui. 

Nick Holmes: A Elegância Noir e os Tropeços Narrativos de Alex Raymond

 


Em 1946, Alex Raymond retornou da Segunda Guerra Mundial repleto de ideias para conceber uma nova tira diária de quadrinhos. Ele, que já havia se tornado célebre na indústria graças ao seu traço exuberante e acadêmico em Flash Gordon, desejava criar uma série inteiramente focada em um detetive. O personagem, em perfeita consonância com a evolução do traço do autor, deveria ser caracterizado pela sofisticação. Assim nasceu Rip Kirby, clássica historieta conhecida no Brasil pelo nome de Nick Holmes. Na década de 1980, a editora L&PM reuniu as primeiras aventuras do herói em um álbum de 48 páginas.

Genialidade narrativa: a tira apresenta o personagem e o gancho da história. 


A primeira tira da série é um modelo cirúrgico de como realizar a apresentação eficaz de um protagonista no espaço extremamente reduzido de um layout diário. Testemunhamos o mordomo Desmond recolhendo as garrafas de leite e os jornais na porta do apartamento. Ao abrir o periódico, a notícia em destaque detalha a trajetória de Nick Holmes. Por meio desse recurso imagético, descobrimos que ele é um renomado desportista, intelectual, detetive amador e condecorado com a Medalha de Honra por sua atuação na Segunda Guerra. Ou seja: o herói não se resume a um mero valentão físico, nos moldes de O Agente Secreto X-9 (personagem também criado por Raymond anteriormente). Holmes é um intelectual que soluciona crimes utilizando primordialmente a lógica e a erudição.

Honey aparece logo no início da primeira história. 


No último quadro dessa mesma tira inaugural, o personagem ouve batidas frenéticas na porta e, em seguida, o estampido de um tiro. Em apenas quatro quadros, Alex Raymond entrega ao leitor a ambientação geográfica (uma grande metrópole norte-americana), o perfil do protagonista e o gancho imediato para a trama, demonstrando que àquela altura já dominava com maestria a linguagem narrativa e a síntese das tiras.

Ao abrir a porta, os personagens encontram uma belíssima mulher desfalecida. Ela trabalha como modelo e acaba de sofrer uma tentativa de assassinato, desencadeando o mistério que caberá a Nick Holmes desvendar.

Com alguns poucos traços soltos, Raymond definia a bela Honey. 


Já na quinta tira, deparamo-nos com a aparição de Honey Dorian, uma belíssima loira que acaba se destacando tanto quanto o próprio protagonista na dinâmica da série. É nítido como Raymond caprichava na construção visual da personagem. Enquanto muitas das outras mulheres bonitas que circulam pela história parecem ser desenhadas de maneira um tanto rígida — como se tivessem sido decalcadas diretamente de fotografias ou de modelos estáticas —, Honey parece genuinamente viva. Com economia de linhas e poucos traços precisos, Raymond conseguia delineá-la com impressionante fluidez.

Perigo: uma fórmula que imbeciliza as pessoas. 


A trama dessa primeira história investigativa ambientada nos bastidores de uma agência de modelos, contudo, revela-se um tanto pífia em sua resolução. No desfecho, descobre-se que o verdadeiro assassino é uma figura que sequer havia aparecido em cena anteriormente, tendo sido apenas mencionada por Holmes de passagem. A solução surge como um verdadeiro coelho tirado da cartola do roteirista. Além disso, um dos cúmplices do crime consegue escapar ileso, deixando uma incômoda ponta solta na narrativa.

A trama subsequente mostra-se consideravelmente mais interessante. Um cientista universitário desenvolve acidentalmente uma fórmula química terrível, capaz de anular as capacidades físicas e psicológicas do ser humano. O composto é secretamente roubado e passa a ser administrado criminosamente nos estudantes do campus.

Bonito e elegante, Holmes usa a ciência para solucionar crimes. 


Trata-se de um enredo mais elaborado, costurado por pistas falsas e uma solução verossímil, embora pouco inovadora. O maior problema reside no desfecho ético da história: quando o cientista decide destruir a fórmula para salvaguardar a humanidade, Nick Holmes o convence do contrário, argumentando que a substância poderia ser útil ao governo dos Estados Unidos. Durante toda a narrativa, o composto é retratado como uma invenção desumana e apavorante; todavia, na visão enviesada do protagonista, não haveria dilemas morais caso ela fosse utilizada pelo Estado norte-americano para subjugar e imbecilizar outras nações.

No fechamento desse arco, Raymond engata organicamente uma nova sequência focada na fuga de um perigoso gângster da prisão de Alcatraz, momento em que a tira realmente engrena e assume um ritmo empolgante. Uma das comparsas desse criminoso é a estonteante Pagan Lee que, em contraste com a loira Honey, é morena, embora igualmente bela.

Pagan Lee e Mangler parecem ter saído de um filme noir. 


O mafioso ambiciona obter a fórmula química para vendê-la a uma potência estrangeira rival e incumbe Pagan Lee de furtar o frasco enquanto Nick Holmes o transporta de trem em direção a Washington. Pagan destaca-se imediatamente pelo uso estratégico da sedução e da inteligência, injetando uma nova e necessária dinâmica de tensão na tira. Por outro lado, o líder mafioso, o deformado Mangler, revela-se um antagonista à altura do herói, sobressaindo-se por sua frieza e crueldade cirúrgicas. Tanto Mangler quanto Pagan Lee parecem saídos diretamente das melhores películas do cinema noir da década de 1940.

Raymond abusa das conveniências narrativas. 


Apesar do traço sofisticado de Alex Raymond e do excelente desenvolvimento de personagens coadjuvantes como Pagan Lee, o álbum como um todo sofre com o uso excessivo de recursos do tipo deus ex machina. O roteiro apoia-se demasiadamente em acasos convenientes: como no trecho em que um garoto, por pura coincidência, descobre o esconderijo exato onde Nick é mantido em cativeiro, ou quando o próprio detetive sai para dar um passeio casual e, por mero acaso, encontra no chão a arma do crime que toda a força policial da cidade procurava exaustivamente há dias.

sábado, outubro 24, 2026

Capitão América – o Caveira Vermelha vive!

 

Stan Lee e Jack Kirby fizeram várias histórias curtas para as revistas mix de terror e monstros da Marvel (na época em que ela nem se chamava Marvel). Quando os super-heróis estouraram, eles trouxeram essa expertise para o gênero, produzindo histórias fechadas, que tinha o clima dos contos de fantasia e terror, mas, ao mesmo tempo, continuavam, perfazendo uma trama maior e mais complexa.

Exemplo disso é a história O caveira vermelha vive, publicada em Tales of suspense 79.

Uma das técnicas usadas nessas histórias curtas é apresentar uma situação inusitada, aparentemente incompreensível, que aguça a imagina do leitor e faz com que ele vá até o final para saber o que realmente está acontendo.

Na história em questão, o capitão está enfrentando homens uniformizados numa splash page grandiosa típica de Kirby, com o herói pulando sobre os vilões, que atiraram a esmo, sem conseguir acertá-lo. Mas nas páginas seguintes descobrimos que ninguém mais está vendo os vilões. Para o público que passa na rua, o capitão está lutando contra ele mesmo.

Ninguém além do Capitão consegue ver os vilões. O herói teria enlouquecido? 


Chega um ponto em que o próprio herói começa a duvidar de sua sanidade – e procura um médico, que aconselha psicanálise, ao que ele retruca: “Mas a psicanálise pode levar meses! Não tenho tanto tempo!”.

Claro que, no final de tudo descobre-se que era tudo um plano do Caveira Vermelha para desacreditar o sentinela da liberdade – um plano que acaba naufragando graças à astúcia do capitão.

Era por esse tipo de história, repletas de ação e suspense, que o Capitão América se tornou um dos melhores personagens da Marvel. 

Perry Rhodan – Luta contra o desconhecido

 


Como uma série de ficção científica, Perry Rhodan é um prato cheio para que os autores desenvolvessem uma variedade de alienígenas.

Uma das raças mais interessantes são os moofs.

A primeira vez que eles aparecem é no número 40 da série. 

Perry Rhodan havia acabado de roubar uma nave arcônida e se encontrava escondido num local até então desconhecido do universo quando uma nave se aproxima deles e oferece uma audiência no planeta dos zalitas.

A capa original alemã. 


Rhodan manda seus mutantes espionarem as naves zalitas com o objetivo de descobrir quais suas intenções. Quando Ras Tschubai entra numa nave dos zalitas se depara com um monstro.

Clark Darlton, autor do volume descreve assim o ser: “Tinha menos de metro e meio de altura e quase um metro de largura. Seu formato era circular e lembrava uma gigantesca medusa. Na parte inferior do corpo, Ras viu um número indefinido de tocos funcionando como pés, que eram flácidos como o resto do corpo. O ser era encimado por uma cabeça redonda como uma bola, grudada bem no centro do corpo gelatinoso. Um par de olhos em forma de botão fitou-o com uma expressão fria e malvada”.

Os moofs vivem numa atmosfera de metano e, para sobrevierem nas naves dos zalitas, precisam de aquários hermeticamente fechados. Também são sugestores e telepatas. Ou sejas: seres vivendo vidas plenamente mentais. Como não podem se deslocar por conta própria, usam outras raças para isso. As vítimas acreditam que estão fazendo o que querem, quando na verdade estão cumprindo decisões dos seres monstruosos.

E, claro, eles estão envolvidos num plano de seres chamados apenas de senhores, que pretendem acabar com o império arcônida, o que cria toda a trama do volume.

Segunda temporada de Stranger Thing - as referências

 

A primeira temporada de Stranger Things já havia destacado a série como uma das mais interessantes dos últimos tempos. Os irmãos Duffer conseguiram fazer uma mescla de vários elementos da década de 1980 em uma história que funcionava bem, apesar de misturar fantasia infantil com terror (mistura que fez várias produtoras recusarem o projeto). 
Mas se faltava algo, depois da segunda temporada não falta mais. Roteiro, direção e elenco evoluíram. Há muito a se destacar nessa temporada, a começar pela construção do conflito. 
Os diretores-roteiristas sabiam que já tinham um público fiel, de modo que foram desenvolvendo a trama de maneira gradual, sem atropelos. Discípulos de Stephen King, eles se preocuparam primeiro em aprofundar os personagens, com pequenos toques de terror ao longo dos episódios e alguns ganchos de suspense. Quando a ação explode, no sexto episódio, até mesmo o insosso Bob já se tornou familiar aos telespectadores, que, nesse ponto estão verdadeiramente comprometidos até mesmo com personagens secundários.
Criticado por muitos, o sétimo episódio é um dos melhores. O encontro de Eleven com Kali pode ter irritado alguns expectadores por ter parado a trama no seu auge numa sequência que aparentemente não tinha relação com a temporada. Mas um olhar de roteirista permite perceber ali um perfeito gancho para a terceira temporada. Além, claro, de ser mais um show de construção de personagens. A genialidade na direção está em em vários momentos mostrar o poder de Kali sem o uso de fato de efeitos especiais, apenas trabalhando com a edição/montagem. Mesmo o momento em que Eleven usa seus poderes, trata-se de um efeito especial simples, brutalmente amplificado pela ótima direção.
Outro aspecto positivo é o fato da série ter arcos fechados. Os ganchos para a terceira temporada estão todos ali, mas não há pontas soltas, tudo se fecha no último episódio.


Referências 


As referências de Strangers Things davam todo um livro. Mas abaixo aponto alguns dos livros e filmes que influenciaram o seriado e, em alguns pontos são até mesmo citados:

Scanners, sua mente pode destruir, obra-prima de David Cronenberg, de 1981, sobre pessoas com poderes paranormais e a tentativa do governo de controlá-las (vale lembrar de Cronemberg dirigiu uma adaptação de um livro de Stephen King que também serviu de inspiração para ST: Zona Morta). Stranger Things se inspirou não apenas no tema, mas nos ótimos truques de direção. Cronemberg usa pouquíssimos efeitos especiais (o mais célebre é a do crânio de um homem explondindo - o que, provavelmente, deu pouco trabalho), mas consegue convencer de que estamos vendo pessoas com poderes com ótimo uso de edição e som. Quem assistiu Scanner vai perceber que foi a grande referência para as cenas de efeitos especiais do sétimo episódio.


A incendiária - livro de Stephen King sobre uma garota com poderes incendiários fugindo com seu pai de agentes do governo ligados a um projeto que pretende controlar crianças com poderes especiais.

Conta comigo - filme baseado no conto O corpo, de Stephen King que se tornou referência em histórias sobre amizade e crianças unidas em torno de um objetivo em comum. O filme é literalmente citado na sequência da linha do trem.

A ciência dos signos

 

Charles Pierce, criador da Semiótica.
Certa vez fui a uma livraria procurar o livro O Signo, de Isaac Epstein. A moça da loja se espantou: “Você é o segundo professor que vem procurar esse livro. Por que vocês estão tão interessados em astrologia?”. O caso demonstra a compreensão que a maioria das pessoas tem da palavra signo. Na verdade, em nossa sociedade, quase tudo é signo de algo. Certas roupas são sinais de que a pessoa está na moda, certos carros são símbolos de status... é impossível realizar a maior parte de nossas atividade diárias sem o auxílio de símbolos. Até para ir ao banheiro precisamos interpretar símbolos (caso não, corremos o risco de entrarmos no banheiro errado). 

Na verdade, os signos foram uma das mais importantes e mais geniais invenções do ser humano. Antes dos signos, para nos referirmos a uma pedra, precisávamos mostrar a pedra. Imagine como seria incômodo levar várias pedras consigo para poder mostra-las toda vez que fosse necessário se referir a elas. É mais prático dizer o palavra pedra, não é mesmo. Os signos são isso mesmo: um substituto para as coisas. Eles estão no lugar das coisas, as representam. Claro que, além de falar pedra, eu também posso desenhar uma pedra. Essa é uma outra forma de representar a coisa pedra. 
Os signos sempre fascinaram os pensadores e são estudados desde a Grécia antiga, passando pela Idade Média e pelos filósofos iluministas. Mas uma ciência dos signos só foi se firmar no final do século XIX e início do século XX. Foi nessa época que Charles Sanders Pierce nos EUA e Ferdinand de Saussure na Europa começaram a produzir uma ciência dos signos. Os partidários de Pierce chamaram essa ciência de semiótica. Os adeptos de Saussure a chamaram de semiologia. A corrente saussureana se notabilizou pela análise dos signos lingüísticos, enquanto os pierceanos abriram sua análise também para outras formas de representação. 
 Pierce diz que signo é aquilo que está no lugar de outra coisa. A palavra pedra está no lugar da coisa pedra. Podemos dizer também que signo é tudo aquilo uma coisa que não seja ele mesmo. Uma pedra é apenas uma pedra, mas se uma empresa de construção convencionar que a pedra é seu símbolo, ela passa a ser um signo. 
Mas afinal, como funciona um signo? Como podemos nos referir a uma coisa sem a termos por perto? Muitos pensadores se debruçaram sobre essa questão e a maioria concluiu que um signo tem uma característica triádica, ou seja, é dividido em três partes. É o chamado triângulo semiótico.



Pierce chamou os três pontos da pirâmide de signo (a palavra pedra), imagem mental (a imagem da pedra que se forma em nossa mente) e objeto (a coisa pedra). 
Outros autores têm utilizado as expressões significante (a palavra pedra), significado (a imagem da pedra que se forma em nossa mente) e referente ( a coisa pedra).
O significante é o aspecto sensível do signo. Se estamos falando, são os sons que formam a palavra pedra. Se estamos escrevendo, é o conjunto de sinais gráficos que formam a palavra pedra. 
O significado é a compreensão que temos da mensagem. 
O referente é aquilo ao qual estamos nos referindo. Se dizemos a palavra pedra, o referente é a coisa pedra. Se dizemos praia, o referente é a coisa praia.
Há situações em que um significante tem mais de um significado. É o que acontece com as palavras que têm dupla interpretação. Por exemplo, a palavra bala pode ser de revólver ou de comer. Manga pode ser fruta ou pode ser manga de camisa. 
A poesia é essencialmente polissêmica. Quando o poeta diz “Tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra”, cada um de nós vê um significado na palavra pedra. Para uns podem ser as dificuldades da vida. Para outros pode ser uma pedra mesmo...
A polissemia é que permite os trocadilhos, um recurso muito usado pelos humoristas. Quando digo que a Rússia invadiu a Chechênia, essa frase pode ter tanto um significado político quanto sexual.
Por outro lado, pode haver erros de interpretação: o emissor está pensando em um referente, mas o receptor interpreta a frase com outro significado. É o caso de dizermos pedra e a pessoa entender Pedro. Esse fenômeno é chamado de ruído e é estudado pela teoria da informação. 
Um aspecto importante da semiótica é a necessidade de intérprete. Só temos signos quando há pessoas para interpretá-los. Qual o significado de uma árvore caindo em uma floresta deserta? Nenhum, pois não há ninguém ali para interpretar esse fato.
Por outro lado, os signos podem ser primários ou secundários. Signos primários são criados pelos homens para serem signos: palavras, desenhos, símbolos, sinais de trânsito...

Signos secundários são coisas que foram transformadas em signos. O arroz, por exemplo, é só um alimento. Mas no casamento, quando é jogado sobre o casal, ele representa a fertilidade. O automóvel é apenas um meio de transporte. Mas uma BMW é um símbolo de status, de que seu ocupante é uma pessoa rica e poderosa. Um pombo é apenas uma ave, mas nas manifestações pacifistas ele se torna um símbolo da paz e da liberdade. 
Um dos signos mais famosos de nossa sociedade é um signo secundário. Trata-se da cruz. A cruz, originalmente, era só um instrumento de tortura. Com o tempo, ele tornou-se o símbolo da religião e da fé cristã. Esse processe de transformação de coisas em símbolos é cultural e arbitrário. De repente alguém decide que algo vai representar tal coisa. Se pegar, aquilo passa a representar algo além dele mesmo. No início do cristianismo, por exemplo, o símbolo da fé cristã era um peixe. Foi um símbolo que acabou não pegando e os cristãos acabaram ficando com a cruz.
Segundo Pierce, se considerarmos a relação do signo com o referente, existem três tipos de signos: os ícones, os índices e os símbolos. 
Os índices, talvez os primeiros signos utilizados pelo homem, têm uma relação com contigüidade com a coisa representada. Ou seja, como sempre vemos um e outro juntos, passamos a associar uma coisa a outra. Por exemplo, como vemos sempre fogo e fumaça, logo associamos que onde há fumaça, há fogo. A fumaça virou índice do fogo. 

Os detetives trabalham essencialmente com índices: as pegadas no barro e a impressão são índices de que o ladrão fugiu por um determinado local. A pegada também pode ser um índice do tamanho do ladrão (uma pegada grande é índice de um homem alto, uma pegada pequena é índice de um homem baixo). 
A seguir, temos os ícones. 
Os ícones são signos que guardam uma relação de semelhança com a coisa representada. São o tipo de signo mais fácil de ser reconhecido. Não é necessário qualquer tipo de treinamento para identificar uma foto de um cachorro. Basta ter já visto um cachorro antes. Exemplos de ícones são fotos, desenhos, estátuas, filmes, imagens de TV. Um tipo especial de palavras também é considerada ícone: as onomatopéias, que representam os sons das coisas e dos animais.
Os símbolos são signos muito mais complexos. Imagina-se que eles só tenham surgido em uma fase mais avançada da civilização humana. Os símbolos não guardam qualquer relação de semelhança ou de contigüidade com a coisa representada. A relação é puramente cultural e arbitrárias. Para compreender um símbolo, é necessário aprender o que ele significa. As palavras, por exemplo. Para compreender que o conjunto de sinais PEDRA significa a coisa pedra, preciso ter sido alfabetizado, ou seja, passado por um treinamento.
Conta-se a história de um monge budista que, ao entrar em uma igreja católica, ficou chocado com aquela imagem de um homem sendo torturado. Ele codificou a cruz como um instrumento de tortura, e não como símbolo da fé cristã. 
São exemplos de símbolos as palavras, os símbolos matemáticos, os símbolos químicos, as bandeiras de países e clubes. Já se falou de coisas que podem ganhar o status de símbolo. É o caso do Tucano, que representa o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), ou a estrela, que simboliza o Partido dos Trabalhadores (PT). 
Os símbolos são criados no momento da criação do código. É o código que diz os sinais que são válidos e os que não são. É também o código que nos diz como os símbolos devem se relacionar entre si.
Às vezes um signo pode ter mais de uma classificação. É o caso da cruz. Ela é um ícone (de um homem sendo torturado), um símbolo (da fé cristã) e pode ser um índice (quando chegamos em uma cidade e queremos saber onde fica a igreja).
Por outro lado, é possível que um símbolo tenha características de ícone. É o caso de uma poesia sobre a chuva em que as letras vão caindo como gotas de chuva. 
As logomarcas das empresas normalmente são símbolos que apresentam características de ícones. Isso é feito para que a compreensão da mensagem seja mais rápida e funciona tão bem que até mesmo crianças que ainda não foram alfabetizadas conseguem ler logomarcas. Elas lêm visualmente.
As letras da Coca-cola, por exemplo, procuram reproduzir as curvas da garrafinha. A rede Globo tem, na sua logomarca, o famoso símbolo visual que é um globo no formato de TV com um globo dentro. Ou seja, o planeta dentro da TV.
Também acontece de um signo contaminar o outro e passar suas características para ele. Essa contaminação pode ocorrer por similaridade ou contigüidade. Dois signos semelhantes podem transferir seu significado um para o outro. Ao ver uma foto de um tigre, uma criança pode achar que se trata de um gato, devido à semelhança dos dois.
A contigüidade ocorre quando colocamos dois signos próximos um do outro. A foto de um político encimada pela palavra LADRÃO dará a entender que o político é desonesto. Fotos de pessoas junto à palavra FELICIDADE darão a entender que essas pessoas são felizes.