segunda-feira, setembro 28, 2026

Surfista Prateado: Parábola

 


Poucos títulos para uma obra poderiam ser tão adequados quanto a graphic novel do Surfista Parábola escrita por Stan Lee e desenhada por Moebius.
Quando os dois se encontraram em uma feira do livro, surgiu a ideia de fazer um trabalho em conjunto e Moebius sugeriu o Surfista. Mas como adequar a história ao estilo do autor francês? Lee voltou à origem do personagem. Conta-se que no argumento original da aparição de Galactus estava escrito: “O Quarteto Fantástico enfrenta deus!”.

Stan Lee retoma esse conceito, usando-como uma história alegórica, sobre os perigos da religião cega. Na HQ galactus volta à terra, mas não ataca. Simplesmente mostra o seu poder e se deixa idolatrar pelos humanos. Mas é uma religião cega e irracional, que leva a uma onda de irracionalidade, violência e intolerância.
Stan Lee coloca na HQ muito da sua maneira de ver o mundo, em especial nas falas do Surfista: “eles têm sede de lideranças, como um bebê que anseia o ventre materno. Certamente é por isso que são presas tão fáceis de tiranos e ditadores. Por que não percebem que a fé mais verdadeira de alguém é a fé em si mesmo? O que lhe causou desespero a ponto de buscar alguém que lhes mostre o caminho?”.

Moebius, por outro lado, buscou refletir na arte essa essência alegórica. Seu traço é fluído, leve, automático. São belíssimas páginas, com destaque para o confronto entre Galactus e o Surfista.
Essa história foi lançada aqui originalmente na coleção Graphic Novel, da editora Abril. Posteriormente a Panini fez uma edição em capa dura que até hoje pode ser encontrada em livrarias. 

X-men: first class

 

Não há dúvidas: X-men first class é o dos melhor filme dos X-men da Fox. O curioso de tudo é que, antes de estrear, todos apostavam que seria mais uma bomba. Os primeiros cartazes eram estranhos, o orçamento parecia baixo demais para um filme de super-heróis (80 milhões - uma ninharia comparado com Thor, por exemplo). Muita gente dizia que só valeria a pena pela oportunidade de ver a Rainha Branca de lingiere... 
Mas a falta de dinheiro parece ter trabalhado a favor do filme: a pirotecnia de efeitos especiais e ação contínua foram substituídos por uma ótima história, um grande roteiro e um aprofundamento de personagens poucas vezes visto nos outros X-men.
A relação Xavier - Magneto, por exemplo, só é de fato compreendida nesse filme. Nos outros ela fica implícita, mas jamais é explorada de fato. A relação de amizade e inimizade cria alguns dos melhores momentos do filme.
A falta de dinheiro também contribuiu em outro ponto: sem dinheiro para usar e abusar de efeitos, o diretor deixou-os para o final. Quando finalmente vemos Magneto levantando um submarino, ficamos espantados com isso. O  impacto desse tipo de efeito se perde nos filmes de grande orçamento justamente pelo excesso.
O filme também acerta em situar a história nos anos 1960, dando um tom histórico de realismo (especialmente pelo contexto da crise dos mísseis em Cuba). Até mesmo do ponto de vista comportamental: quando os mutantes jovens se divertem dançando rock  é inevitável se lembrar da juventude dos anos 1960.
O diretor Matthew Vaughn , o mesmo de Kick Ass, lembrou de algo essencial no gênero super-heróis: todo gibi é uma diversão juvenil e isso se reflete no filme. A sequência em que os mutantes aprendem a lidar com seus poderes é memorável e divertida e prende os telespectadores na cadeira mesmo sem gastar muito com efeitos especiais.
Outro aspecto importante é a forma como o filme consegue costurar vários elementos que depois apareceriam na trilogia X-men, inclusive a forma como Xavier ficou paralítico, o capacete de Magneto, a aparência do Fera, etc.
Pessoalmente, gostei de ver a personagem Moira com um pouco mais de destaque (minha filha adorou).

Finalmente, é possível fazer uma relação interessante do antagonismo entre Xavier e Magneto e os teóricos da comunicação que Umberto Eco chamou de apocalípticos e integrados. Criado numa família rica, nos prósperos EUA, Xavier é um otimista e acredita que a relação entre humanos e mutantes é possível. Vítima de nazistas, Magneto resume sua filosofia na frase: "A paz nunca foi uma opção". Lembra a frase de Adorno: "Não é possível fazer poesia depois de Auschwitz".
A amargura de Magneto reflete a angústia da escola de Frankfurt, enquanto que a visão até certo ponto ingênua, mas bem intencionada do professor X lembra os funcionalistas norte-americanos. Não é uma relação descabida (embora Adorno não fosse gostar de se ver retratado em um filme hollywoodiano): para além da diversão, humor, drama e ação, X-men first class realmente deixa aberto um rico caminho para reflexões dos mais variados tipos. 
Um filme para assistir e assistir de novo.

Perry Rhodan – A prisão do tempo

 


Um dos grandes atrativos da ficção científica é imaginar realidades diferentes, mundos diferentes, usando para isso o conhecimento científico, o que causa todo o maravilhamento do gênero. O volume 64 da série Perry Rhodan, A prisão do tempo, é um ótimo exemplo disso.

Na história, um grupo de terranos atravessa a barreira dos invisíveis (seres que fazem desaparecer populações de planetas inteiros) e vão parar num local em que o tempo decorre de maneira diferente da nossa realidade, sendo 72 mil vezes mais lento que na nossa realidade. Como os terranos se mantém na progressão de tempo de nosso universo, as diferenças que encontram nessa nova realidade são realmente impressionantes e criativas.

À certa altura, por exemplo, eles se deparam com um cristal límpido e transparente, pendurado no ar, do tamanho de um grão de ervilha. Após o espanto inicial, percebem que se trata de... uma gota de chuva! Quando um dos personagens tenta segurar o pingo, descobre que ele está absolutamente imóvel. A explicação, dada pelo escritor Clark Darlton: “A inércia da massa crescera na mesma proporção da alteração do tempo. Para segurar um pingo de chuva, seria necessário despender setenta e duas mil vezes o volume de energia que se gastava na terra”.

A capa alemã. 


Essa não é a única situação interessante. Logo em seguida, os personagens descobrem que podem andar sobre a água. A razão disso é que a água não tinha tempo de ceder sob a pressão de seus pés.

Quando eles encontram outros terranos que haviam sido capturados pelos invisíveis e os alinham ao tempo terrano, o maravilhamento dá lugar à apreensão: na Terra se passaram meses, enquanto que para os capturados se passaram apenas minutos. O livro termina numa situação de suspense: se não forem resgatados a tempo, os prisioneiros dessa dimensão poderão voltar à nossa realidade centenas de anos depois de terem partido... ou até milénios!

Em tempo: não há como falar desse livro e não comentar a capa da Ediouro, baseada na edição norte-americana. Gray Morrow produziu uma imagem linda, mas que mostra um homem e uma mulher sendo capturados por uma espécie de lula cibernética. Ou seja: a capa não tinha relação nenhuma com a história e os editores publicaram assim mesmo.

Superman e a Legião dos Super-heróis

 


O roteirista Geoff Johns e o desenhista Gary Frank foram responsáveis por uma das fases mais interessantes do Homem-de-aço em época recente. Foram histórias que se tornaram imediatamente clássicas. E o melhor dessa fase foi o encontro do Superman com a Legião dos Super-heróis.
Na história, Superman recebe um pedido de socorro e uma cápsula do tempo enviadas por brainiac 5. Ao viajar para o século 31, o herói descobre que a Terra se tornou uma distopia. Membros rejeitados pela Legião se uniram, formando a nova Liga da Justiça, e transformaram o planeta numa ditadura xenofóbica. Mas a ida do Homem de aço para o futuro pode ter sido um erro: o sol se tornou vermelho, tirando boa parte de seus poderes. Se o herói morrer no futuro, o que pode acontecer com a realidade?

Geoff Johns usa como fio motor da história o fato de grande parte da Legião ser formada por extraterrestres e cria uma metáfora política. Assim, a nova Liga introduz uma cruzada contra extraterrestres, aprisionando-os ou simplesmente levando-os ao exílio. Mas há um problema aí: no futuro a figura do Superman é simplesmente idolatrada pela população. Como adequar isso a essa campanha? Inventando que o Homem de aço não veio de Kripton, mas nasceu na Terra e lutou a vida inteira contra alienígenas, incluindo Ajax, o caçador de Marte. Ou seja: criam uma campanha xenofóbica a partir de uma fake News.
O prelúdio da história é genial: um casal vê seu planeta ser destruído e envia seu único filho ao planeta Terra. Aqui a nave é encontrada por um casal de lavradores, que simplesmente mata o bebê. Essa sequência, além de ecoar a própria origem do super-homem, também mostra o quanto a realidade foi alterada a partir do boato criado pelos vilões.
Outra grande sacada foi a percepção de que os membros rejeitados da Legião o foram não apenas por não dominarem seus poderes, mas por terem problemas de caráter, como tendências psicóticas. Aliás, o trecho que mostra a nova Liga detalha isso: são obcecados por poder, depravados, têm ódio por terem sido rejeitados.
Geoff Johns maneja muito bem tanto esses momentos barra-pesada quanto os momentos idílicos, como os flash backs que mostram o primeiro encontro do Superboy com a Legião. Aliás, ele é um dos roteiristas que melhor entenderam o Homem de aço e o que ele representa.
Já o desenho de Gary Frank é simplesmente encantador. Ele caracteriza o Superman exatamente como Christopher Reeve no antológico filme da década de 1980, o que, por si só já agrada aos fãs. O mesmo vale para sua representação da Legião: é soberba, especialmente nas cenas em aparecem muitos personagens.

domingo, setembro 27, 2026

Jornada nas estrelas – Pão e circo

 


A primeira diretriz é um elemento tão importante em Jornada nas Estrelas quanto as três leis da robótica nas histórias de Isaac Asimov. Segundo esse princípio, nenhuma nave da federação deve interferir no desenvolvimento de planetas desconhecidos. Isso inclui o uso da força por qualquer motivo, inclusive salvar membros da tripulação.

O episódio Pão e circo, da segunda temporada gira todo em torno da primeira diretriz.

Na história, a Entreprise está em uma patrulha de rotina quando encontra os destroços de uma nave de pesquisa, a Beagle e segue os rastros até encontrar o planeta ao redor do qual teria acontecido o acidente. Ao captar sinais emitidos pelo planeta, assistem um programa de TV com jogos de gladiadores em que um deles, morto durante combate é chamado de William B. Harrison, um dos tripulantes da Beagle. Kirk, McCoy e Spock descem para investigar.

O que encontram é uma sociedade que reflete o mundo romano, com escravos, senhores e lutas de gladiadores, mas com a tecnologia do século XX, como se o império romano tivesse sobrevivido até nossa época. O trio é aprisionado e Spock e McCoy são forçados a lutar na arena enquanto Kirk é pressionado a dar ordens para a tripulação da Entreprise ir descendo aos poucos, desarmados, de modo que todos se tornariam escravos ou gladiadores.

Apesar de uma cena forçada, em que kirk vive uma noite de amor com uma escrava, feita nitidamente para providenciar o interesse romântico, o episódio é um ótimo exemplo de um roteiro inteligente e criativo.  É também um daqueles bons episódios cujo tema são as tiranias.

Mas o grande destaque vai para os ótimos diálogos. Quando estão na cela, McCoy acusa Spock de apenas fingir não ter sentimentos. A cena termina com os dois nitidamente preocupados com Kirk, que aparece na cena seguinte se divertindo com uma loira. O puro suco de Jornada nas Estrelas. 

Dan Dare: processo de produção do roteiro

 

Dan Dare e seus amigos, na versão clássica.

Dan Dare é um dos mais clássicos personagens de quadrinhos da Inglaterra, e certamente um dos mais importantes no gênero ficção cientifica, rivalizando apenas com Jude Dreed. O personagem é da década de 1950 e chegou a ser lançado no Brasil pela Ebal na década de 1970, na revista 2000 AD. 

Dan Dare na versão da década de 1970.

Em 2016  fui contatado por um agente local para escrever as aventuras do personagem para uma revista britânica, a Strip Magazine. O esquema era o comum das publicações em série britânicas: histórias em continuidade de seis páginas que formavam um ciclo depois lançado como álbum de luxo. 

Revista nos moldes da 2000 AD na qual seria publicada a nova versão do personagem.

Eu escreveria a segunda saga do personagem (a primeira seria escrita pelo editor). 
Propus um plot sobre um planeta com uma inteligência vegetal que foi aceito com sugestões do editor para adequar à trama ao plot maior.  
Fiz o plot estendido e o roteiro de duas partes da saga. Foi uma experiência interessante por trabalhar com o método inglês, com roteiros detalhados, que incluíam inclusive angulação e planos. Para facilitar para o tradutor, a partir do segundo capítulo, eu comecei a colocar os termos técnicos em inglês, garantindo que eles ficassem corretos na tradução. 
Esse material ficou inédito por mais de um ano até que esta semana tive a confirmação do agente de que a revista de fato não terá continuidade, embora tenham pago pelo roteiro. 
Assim, publico aqui partes do material produzido, como forma inclusive de mostrar como é o processo de produção de roteiro de uma editora estrangeira. 


PLOT 
Dan Dare e sua equipe chegam a um planeta desconhecido. A Prof Peabody afirma que há uma forma de vida complexa, grande e possivelmente inteligente no planeta. Dan sai para investigar. Quando volta, a nave desapareceu. Na verdade, o planeta inteiro é um grande ser.Dan come uma fruta e entra em contato com o planeta. Descobre que o planeta está sob ameaça e por isso reagiu. O planeta devolve a nave e Dan promete ajudar.


 PLOT DECUPADO DO PRIMEIRO CAPÍTULO 

Este capítulo terá menos ação já que ele irá introduzir os personagens. Dan Dare e seu time chegam na Valiant(Design por John Ridgway), uma grande nave de exploração, em um planeta desconhecido fora do nosso sistema solar.

Professora Peabody confirma que existe evidências de vida alienígena no planeta, mas os sinais que ela detectou não indicam quantos nem a quanto tem eles estão ali.


Aterrissando, o time descobre que o planeta é coberto por uma flora exuberante. Dan, Digby e alguns outros membros da tripulação fazem a descida ao planeta usando a Anastasia e outro veículo de aterrisagem afim de investigar melhor e encontrar os alienígenas e a vida inteligente. Dan e Co começam a exploração utilizando um veículo de exploração armado.


Enquanto isso, a professora fica no veículo de aterrisagem escaneando o planeta para encontrar qualquer forma de vida inteligente e os alienígenas. Sir Hubert fica com ela, junto com o resto da tripulação.


Dan Não encontra nenhuma forma de vida animal (mas eles encontram alguns insetos comendo partes de algumas plantas – Essas criaturas que estão ameaçando o planeta. Ver abaixo) e começam a duvidar se realmente poderia haver alguma forma de inteligência naquele planeta, muito menos algum alienígena que tivesse algo a ver com a Guerra Galáctica


Então, sobre uma colina, nós temos uma cena de “wow” – uma cena de devastação pura, uma área destruída e arrasada... no centro dela está uma nave de Alien misteriosa – na nave usada pelos alienígenas misteriosos que estão por trás da guerra galáctica de onde os Therons fugiram.


O time se aproxima cautelosamente, esperando por um ataque - seu medos não são em vão já que armas surgem por tras da bela camada bio-tecnológia da nave. As armas miram na equipe e abrem fogo.

O ROTEIRO DA PRIMEIRA PARTE 
(duas primeiras páginas da primeira história)



Capítulo 1

Página 1

Quadro 1 – Temos um quadro grande um plano geral da nave Valiant no espaço, acima do planeta que iremos chamar de Eden. Minha sugestão é que título e créditos entrem neste quadro.

Dan Dare (off): Você tem certeza, professora?

Quadro 2 – Agora temos uma cena interna da Valiant. Dan, Professora, Digby, Hubert e talvez algum outro personagem estão discutindo ao redo de uma mesa. A professora mexe em uma espécie de tablete avançado. (John, não sei se a Valiant terá sala de reuniões, como em Jornada nas Estrelas. Caso não tenha, essa cena pode se passar na ponte de comando).

Professora Peabody:  Sem dúvida, Dan. Há vida no planeta abaixo. E vida inteligente.

Hubert: São os inimigos?

Quadro 3 – Close da professora. Embora a Bíblia não a mostre de óculos, acredito que ela possa usar óculos para ler, como forma de reforçar seu aspecto intelectual. Então, como ela está mexendo no tablete, estaria usando os óculos (provavelmente um óculos tecnológico, na linha do Google Glass).

Professora: Difícil dizer, Dan. Alguns acreditam que os Treen inimigos não sobreviveram à fuga.

Digby: Mekon ainda deve estar vivo. Como diz minha tia Anastácia, vaso ruim nunca quebra...

Quadro 4 – Um plano geral. Dan está em pé, para mostrar sua determinação, e apoia as mãos na mesa.

Dan: Em todo caso, temos que investigar. Hubert, prepare a Anastácia e um grupo de descida.

Quadro 5 – Close de Dan.

Dan: Professora, a senhora vem conosco!



 Página 2

Quadro 1 – Agora temos a Anastácia. Dan, Digby Pierre August, Prof. Peabody e Spry fazem parte dessa equipe de reconhecimento. Pierre august pilota a nave. Neste quadro, vemos a cena de dentro. Prof. Peabody está sentada ao lado de Dan e conversa com ele. (John: achei que Dan não deixaria a nave Valiant sem um oficial, e acredito que Hubert seria a pessoa que ele mais confiaria, assim Hubert ficou na nave, ok?).

Professora: Tem certeza de que foi uma boa ideia trazer Spry conosco? Ele é apenas um cadete.

Quadro 2 – Close de Dan.

Dan: Ele é um garoto inteligente e nunca aprenderá se não entrar em ação. Tenho a intuição de que em algum momento ele pode ser importante para nossa missão.

Quadro 3 – Close da professora. 

Professora: Você segue sua intuição, eu sigo meus cálculos.

Quadro 4 – Close de Dan. (John: aqui estamos dando um gancho para a solução final, que acontecerá quando a professora Peabody seguir sua intuição)

Dan: No momento em que seguir sua intuição, talvez descubra que ela pode lhe dar respostas que a razão não dá.

Quadro 5 – Plano médio, mostrando Pierre em primeiro plano.

Pierre: Senhor, estamos nos aproximando do solo.

Quadro 6 – Dan e os outros colocando os cintos.

Dan: Preparar para aterrisagem. Coloquem os cintos.

Quadro 7 – A nave aterrissando. Não mostre muito do cenário para não perder o impacto da próxima página. 

Guerras Secretas – Crises internas

 


A série Guerras Secretas foi criada a partir de uma pesquisa de marketing com garotos americanos que mostrou que as palavras que mais chamavam a atenção deles eram “guerras” e “secreto”. Jim Shooter, o editor-chefe da Marvel e roteirista, fez o roteiro todo baseado nessa ideia sem se preocupar muito com detalhes ou verossimilhança. O importante era ter coisas “secretas” acontecendo e “porrada” o tempo todo. No número 3 isso fica flagrante.

A história começa com Magneto libertando Vespa, que havia sido sequestrada por ele, e entrando em um intercurso romântico com ela. 

Magneto encontra tempo para namorar. 


Saca o diálogo dos dois:

- Sentiu minha falta? Que animador!

- Não se empolgue...

- Quem sabe isso faz você mudar de ideia!

- Ei! MMMM!

- Um pequeno interlúdio de paz em meio ao caos!

- Não... não

No quadro seguinte os dois já estão aos beijos. Pense numa garota fácil de conquistar.

Duas vilãs surgem do nada. Coisa de Jim Shooter. 


Enquanto isso, Doutor Destino transformava duas mulheres em duas novas vilãs, Vulcana, com poderes térmicos, e Titânia, uma mulher super-forte. A questão aí é que não existe explicação nenhuma para isso. De onde o vilão tirou essas mulheres? Parece que o roteirista simplesmente tirou as personagens da cartola. E, se destino pode dar tamanho poder a alguém, porque ele não concede esse poder a si mesmo? Nada fazia muito sentido. Na verdade, não fazia sentido nenhum.

Nesse meio tempo, Thor encontra tempo para paquerar Encantor. Pense num rolê aleatório.

Thor encontra tempo para namorar. 


A história termina com os vilões atacando de surpresa o QG dos heróis logo depois de uma tempestade – um ataque que já tinha sido previsto pelo sentinela da liberdade. E isso acontece porque o Hulk “esquece” de avisar o Capitão América, que a tempestade havia acabado. 

Verossimilhança hiper-real na revista Cajueiro

 

Meu artigo Verossimilhança hiper-real nos quadrinhos de Alan Moore foi publicado na revista Cajueiro. No artigo, eu analiso uma estratégia, usada por Alan Moore, para fazer com que seus quadrinhos pareçam reais a ponto de alguns leitores acreditarem que aquilo que é narrado aconteceu de fato. Alguns exemplos: os anexos de Watchmen e a série 1963, que emula perfeitamente as revistas da Marvel na década de 1960.


A edição, totalmente dedicada aos quadrinhos, tem a colaboração de vários grandes nomes da pesquisa em quadrinhos no Brasil, como Gazy Andraus, Natania A S Nogueira e Valéria Fernandes Da Silva.
Para acessar os artigos, clique no link:https://seer.ufs.br/index.php/Cajueiro/issue/view/1023