quinta-feira, setembro 24, 2026

Homem-Animal - Raposa em fuga

 


Uma das inovações trazidas por Grant Morrison para o Homem-Animal foi colocá-lo como um defensor dos animais - na versão anterior ele era um caçador. 

Na edição 10 da revista ele não só salva uma raposa que está sendo caçada, como ainda tira uma foto promocional com o grupo sabotadores de caça. O mais interessante disso, além do fato óbvio da defesa ecológica é que o episódio torna-se uma metáfora para a ameça enfrentada pelo herói. 

A história usa uma narrativa paralela entre a caçada a uma raposa e à heroina. 


Não por acaso, uma outra heroína que está sendo perseguida e que vai até buddy em busca de ajuda, Vixen, tem poderes animais e aparência de raposa. A narrativa ente a heroína e a raposa se alternam, formando um paralelo entre as duas situações. 

Essa trama é entremeada com outra, com os alienígena, que, aparentemente criaram o Homem Animal. Mas a versão nova não bate com a antiga. Como explicar as discrepâncias? Essa foi a forma do roteirista explicar a diferença da sua versão para a versão clássica do personagem ao mesmo tempo em que introduz um novo uniforme com um A mais alongado e óculos mais estilosos.

"Todos nós somos palavras numa página" - a metalinguagem que seria característica do título começa a aparecer aqui. 


Vale lembrar que essa estratégia vinha de Alan Moore, que teve a preocupação de alinhar sua versão do personagem não só à versão antiga mais famosa, como também à primeira aparição do personagem, que se passava no século 19.

Morrison ainda coloca os dois heróis em rota de colisão com um vilão simiesco na África. E aqui temos uma das melhores sequências dessa saga. Os dois estão aprisionado em local isolado, sem nenhum animal por perto, o que torna o protagonista inofensivo. 

O personagem é desconstruído: novo uniforme. 


- Estão prontos para morrer? - pergunta o vilão. 

- Eu estou. - responde o Homem Animal. Mas ele não. 

E vemos o herói se transformar em dois e depois em uma multidão. 

O vilão tinha esquecido dos protozoários e de sua capacidade de auto-replicação! 

Morrison introduz humor na história. 


Morrison, como se vê, estava elaborando uma versão pouco convencional do herói. Isso aí mesmo tempo em que contava uma trama empolgante e divertida.

Não é por acaso que, embora no Brasil essas histórias fossem publicadas na revista mix DC 2000, que tinha personagens mais conhecidos, como a Legião dos Super-heróis, o Homem Animal era a razão pela qual os leitores compravam.

Jornada nas estrelas – Não há beleza na verdade?

 


Na Terceira temporada, Jornada nas Estrelas estava para ser cancelada e faltava dinheiro para a produção.  A solução era produzir histórias que aproveitassem os cenários já existentes. Dessa limitação orçamentária surgiu aquele que é certamente um dos melhores de toda a franquia. Trata-se de “Não há beleza na verdade?”, escrito por Jean Lisette Aroeste.

Na trama, a Enterprise recebe a missão de levar o embaixador medusiano Kolos. Os medusianos, embora tenham alcançado um elevado nível espiritual e intelectual, são seres tão feios que sua simples visão pode provocar loucura em um ser humano.

Os únicos seres humanoides capazes de suportar a visão de um medusiano são os vulcanos, mesmo assim apenas com o uso de óculos especiais.

Curiosamente, a assessora do embaixador é uma humana, Miranda Jones, uma telepata que estudou disciplina mental no planeta Vulcano.

A trama de fato se desenrola quando um homem, que é apaixonado por Miranda, tenta matar o embaixador e, no processo, enlouquece. Totalmente fora de si, ele toma o controle da nave e a leva para um local não mapeado do espaço. A única maneira de retornar é Spock realizar o elo mental com o embaixador, absorvendo as habilidade de navegação dos medusianos. Mas no processo ele se torna vítima do ciúmes de Miranda, que se apaixonou por Kolos.

O episódio tem pouca ação, acontece todo dentro da Enterprise, e é todo calcado nos excelentes diálogos, como o do jantar ou quando Kirk leva Miranda para conhecer a floricultura da nave. Os efeitos especiais são os mais pobres possíveis: o embaixador é carregado em uma caixa que quando aberta emite luzes caleidoscópicas, um recurso que, surpreendentemente funciona muito bem, graças especialmente à ótima atuação de Leonard Nimoy.

A grande discussão por trás do espisódio já pode ser entrevisto no título: o que é de fato a beleza? Uma criatura extremamente feia pode, no fundo, ter uma alma bela, enquanto que alguém aparentemente bonito, pode ter uma alma feia? O episódio nos alerta para não confundirmos aparência com essência.

O orientador leão

 


Um lobo estava andando pela floresta quando deu de cara com um coelho. Já ia comer o bichinho quando percebeu que ele estava em frente a um notebook, digitando frenéticamente.

Curioso, resolveu perguntar o que estava acontecendo.

- Estou escrevendo minha dissertação de mestrado. - informou o coelho. Minha tese é que os coelhos são os predadores naturais.

- Isso é um absurdo. - respondeu o lobo. Os predadores naturais são os lobos. São eles que comem os coelhos.

- Você duvida? Vamos ali até aquela caverna e eu te mostro a minha prova empírica.

Os dois entraram, começou uma barulheira tremenda, gritos, uivos. Pouco tempo depois o coelho saiu e voltou a digitar no notebook.

Algum tempo depois passou por ali uma raposa. Da mesma forma que o lobo resolveu comer o coelho, mas antes disso perguntou o que estava acontecendo.

- Estou escrevendo minha dissertação de mestrado. - respondeu o coelho. Minha tese é que os coelhos são os predadores naturais.

- Isso é absurdo. - gritou a raposa. Os predadores naturais são as raposas. Elas que comem os coelhos.

- Vamos ali na caverna e vou lhe mostrar a minha prova empírica.

De novo, gritos e uivos. E de novo quem saiu de lá foi o coelho.

Então entramos na caverna. De um lado encontramos um amontoado de ossos de raposas. Do outro um lado, um monte de ossos de lobos. E no meio um leão imenso de gordo.

Moral da história: numa pesquisa o que realmente importa é o orientador.

Thor encontra o Dr. Estranho

 


Stan Lee era, acima de tudo, um grande marqueteiro. Uma das estratégias que ele usava para promover as revistas da Marvel era criar encontros de heróis. Assim, se alguém tinha comprado uma revista de um personagem e gostado, era apresentado a outro personagem, de outra revista, e acabava comprando também. Não que a DC não fizesse isso. Mas esse tipo de encontro geralmente acontecia em edições especiais. Na Marvel, isso era feito em qualquer qualquer revista.

Exemplo disso é a edição 108 da revista Journey in to mystery. A revista era a casa de Thor, que se acomodara num título antigo da Marvel. Já o Dr. Estranho era o astro da Strange Tales, também uma revista que já existia e passou a ser a casa de um herói. A razão desse reaproveitamento de títulos antigos é que a Marvel tinha um péssimo acordo de distribuição, que limitava a quantidade de gibis em banca. Então, ao invés de lançar um gibi com um herói novo, ele era colocado dentro de outro que já existia.  

Thor está ameaçando a cidade de Nova York. 


Na Journey 108 o mestre da magia e o deus do trovão se encontraram.

Como a regra da Marvel era colocar o máximo de ação nas páginas, a história começa com uma ação espetacular, mas que tinha pouca relação com o que viria a seguir. Em uma splash page grandiosa, Thor levanta seu martelo, preparando-se para atingir o chão. O texto perguntava se o deus do trovão estava ameaçando o povo do Nova York. Na página seguinte descobrimos que um homem ia ser atropelado e Thor batera o martelo para fazer com que o caminhão saltasse e assim o homem fosse salvo. Ou seja, ele provoca um terremoto na cidade para evitar um atropelamento!

Thor provoca um terremoto para salvar um home de um atropelamento. 


Mas tudo bem, estamos numa revista da Marvel e o leitor logo esquece disso, pois agora o deus do trovão já está na casa de Stephen Strange (que ele não conhece). O Barão Mordo tentara usar um encantamento contra Nova York e o contra-feitiço necessário para detê-lo deixou o Dr. Estranho à beira da morte. É a vez do alter-ego de Thor, o Dr. Don Blake salvar o mágico, que lhe promete ajuda numa necessidade.

É interessante ver como Jack Kirby desenhava a casa do Dr. Estranho. 

Como estamos numa revista da Marvel, mal se passa isso, Loki consegue lubridiar Don Blake e sequestrar a enfermeira Jane Foster. Como promessa é dívida, agora o Dr. Estranho precisa ajudar a descobrir onde está a enfermeira e resgatá-la.

Os quadrinhos da Marvel na década de 1960 podiam ter tramas forçadas e ser puro marketing. Mas também era muito divertidos.

Os quadrinhos argentinos

 

A década de 30 foi marcada na Argentina pela dita­dura do presidente Perón. Influenciado pelo nacionalismo nazi-fascista, Perón resolveu acabar com a forte influência estrangeira dos quadrinhos em seu país proibido a importação de material americano. A proibição durou apenas alguns anos, mas foi o bastante para fortale­cer a HQ platina, crian­do uma das escolas mais fortes do mundo.
      Antes da proibição já existiam quadrinhos de sucesso, como o índio Patoruzú, criado por Dante Quinterno, em 1929. Mas foi a partir do governo Perón que a HQ platina teve um salto. Surgiram grandes publicações, como a “Ri­co Tipo’ “Intervalo’; e “Aventu­ra” que iriam alcançar a incrível marca de 165 mi­lhões de exemplares por ano - metade do que se lia num pais cuja capital tinha mais livrarias do que todo o Brasil.
Na Argentina não só as crianças, mas tam­bém os adultos foram conquistados pelos quadrinhos. O mercado se tornou tão forte que até mesmo roteiristas e de­senhistas europeus foram trabalhar na Argentina, como aconteceu com Hugo Pratt e René Goscinny, criador do Asterix.  
      Era a inversão: os qua­drinistas argentinos luta­vam de igual para igual com os seus concorren­tes estrangeiros.
      Um dos maiores responsáveis pelo sucesso da HQ Argentina foi o editor e roteirista Héctor Germán Oesterheld. Filho de uma argentina e um alemão, ele estudou se formou em geologia, mas abandonou a profissão para se dedicar aos roteiros de quadrinhos. Durante sua fase mais criativa ele era mais lido que Jorge Luís Borges, o mais famoso escritor argentino, que chegou a se declarar fã do roteirista.
      Seus roteiros se destacavam pelo conteúdo humano e pela crítica social. O Eternauta, sua obra-prima, conta a história da invasão de Buenos Aires por alienígenas durante um rigoroso inverno. Enquanto os invasores seguem dizimando a população, surge um homem, Juan Salvo, o Eternauta, que decide combatê-los. Acredita-se que os extraterrestres tenham sido inspirados nos militares argentinos, que alguns anos depois instalariam uma ditadura no país.
Oesterheld trabalhava em todos os gêneros, do faroeste à ficção científica e a fantasia, criando obras de grande significado. Seus roteiros e seu trabalho como editor transformaram a HQ Argentina em uma das melhores do mundo.
Entretanto, sua carreira terminou bruscamente na década de 1970, quando se instalou uma ditadura militar na Argentina. Oesterheld foi um dos primeiros a serem perseguidos. Ele e suas filhos acabaram sendo mortos. Da família, só sobrou a esposa do roteirista e um de seus netos.
Além de todos os crimes cometidos pelos militares, somou-se mais esse: dar sumiço a um dos homens mais talentosos já surgidos nos quadrinhos.

Lobato contra modernistas: a guerra que não existiu

 Uma das histórias mais contadas nos cursos de letras e em grande parte dos livros de literatura é a guerra que teria sido travada entre Monteiro Lobato e os autores modernistas. Lobato é mostrado como retrógrado, ultrapassado e inimigo de posições revolucionárias. Sua produção literária de contos é vista como pobre, de um regionalismo de pouco calibre. O criador do Jeca Tatu é tido, no máximo, como um escritor infantil importante. Mas essa guerra com os modernista teria realmente existido? Essa é a pergunta que muitos intelectuais têm feito e a resposta parece não ser tão óbvia quanto foi durante muito tempo.


A exposição Anita Mafalti

A suposta guerra entre Monteiro Lobato e os modernista teria começado em 1917, com a publicação, no jornal O Estado de São Paulo, de uma crítica de Lobato à exposição de Anita Mafalti. Esse texto, intitulado Paranóia ou mistificação, foi incluído posteriormente no livro Idéias de Jeca tatu.
Lobato começou elogiando Anita: ¨Essa artista possue um talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida em má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Percebe-se, de qualquer daqueles quadrinhos, como a sua autora é independente, como é original, como é inventiva¨, mas acrescenta que, seduzida por teorias modernas, ela deixou sua arte descambar para um novo tipo de caricatura.
Lobato aproveita também para cutucar os que se dizem encantados com esse novo tipo de arte, pois esses descobrem na tela intenções inacessíveis ao vulgo e conclui, ironicamente: o público é uma besta e eles um grupo genial de iniciados.
O escritor reservou especial atenção a uma tela do cubista americano Bolynson, um carvão representando uma figura em movimento, que foi colocado na exposição como exemplo do caminho segundo por Mafalti. ¨Aqueles gatafunhos não são uma figura em movimento; foram, isto sim, um pedaço de carvão em movimento¨.
Essa crítica, publicada em 1917, ecoou por muitos anos fazendo, inclusive que muitos ainda acreditem que Lobato havia criticado a Semana de Arte Moderna, um evento ocorrido cinco anos depois. Também por conta desse texto, muitos tentaram desqualificá-lo como crítico e renegar suas idéias sobre arte e cultura.
Na verdade, Lobato não direcionava sua crítica à inovação, mas ao estrangeirismo. Nacionalista radical, o escritor não admitia que se fosse procurar nas vanguardas européias um norte para a arte brasileira. Para ele, isso impediria a criação de um ideal estético nacional, colocando-nos sempre como macacos imitadores dos povos colonialistas.
Outro fator importante é a personalidade independente de Lobato (resumida na frase de Shakespeare, que ele adorava citar: ¨isto acima de tudo: sê fiel a ti mesmo¨) que não admitia reduzir a arte às regras de uma escola artística.
Por fim, Lobato procurava sempre atingir, com sua literatura, um público o mais amplo possível, numa proposta de democratização das artes. O oposto disso seriam as obras herméticas e aristocráticas, que Lobato enxergava no quadro de Bolynson.

A semana de arte moderna 


No livro Furacão no Botocúndia, Carnem Lúcia de Azevedo, Márcia Camargos e Vladmir Sachetta argumentam que o preconceito contra Lobato, motivado pelo episódio Mafalti foi a única razão pela qual Lobato ficou fora da Semana de Arte Moderna, já que Lobato seria o líder natural deles. Afinal, no campo das idéias sociais, políticas e econômicas, ele foi o praticante mais sistemático da agenda modernista. Mas nas artes, os modernistas foram bater às portas de Graça Aranha, que pouco tinha a ver com o movimento.
Lobato fez graça com a situação: ¨Se eu tivesse participado da Semana, talvez me tivessem contaminado com a inteligência nela manifestada. Preferi ficar na minha burrice¨, escreveu ele, dispondo-se a participar de uma segunda Semana, aumentada, na qual ficaria com o cargo de papa, logo abaixo do Papão Oswald de Andrade.
Aliás, a relação entre Lobato e Oswald sempre foi das mais amistosas. Ambos tinham espírito independente e um grande senso de humor. Oswald chamava Lobato de ¨O Gandhi do modernismo¨ e dizia que o autor do Jeca só não participou da Semana por causa do nacionalismo: ¨sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa podre, ao esnobismo social que abria seus salões à Semana¨.
Lobato jamais perdeu contato com os modernistas, muitos dos quais eram publicados por sua editora. Além disso, ele se correspondia regularmente com nomes como Di Cavalcanti, Graça Aranha, Oswald e Mario de Andrade e Sérgio Millet.
Coerente com sua opinião de que Anita era uma grande artista, Lobato chamou-a para ilustrar a capa dos livros ¨O Homem e a morte¨, de Menotti Del Picchia e ¨Os condenados¨, de Oswald de Andrade, ambos lançados por ele. O livro ¨Idéias de Jeca Tatu¨ teve como capa O Homem Amarelo, quadro de Anita Mafalti.
Além disso, Lobato nunca escreveu contra a Semana. Na verdade, o que parece ter acontecido foi um episódio de ciúmes, por conta de um artigo no qual Lobato creditava a Semana à Oswald de Andrade.

A morte de Lobato
No artigo ¨Nosso dualismo¨, publicado no em e reunido no livro ¨Na Antevéspera¨, Lobato diz que ¨O futurismo apareceu em São Paulo como fruto da displicência dum rapaz rico e arejado de cérebro: Oswald de Andade¨. Segundo Lobato, Oswald era um turista integral que, por sua visão cosmopolita tinha capacidade de perceber a cristalização mental da inteligência brasileira. Para tirar o país desse marasmo, ele teria recorrido ao processo da atrapalhação e exemplifica com o caso da peninha. Um sujeito propõe a outro uma advinhação: ¨Qual é o bicho que tem quatro pernas, come ratos, mia, passeia pelos telhados e tem uma peninha na ponta da cauda?¨. Como ninguém adivinhasse, ele explicou: ¨É o gato!¨. ¨Mas e a peninha?¨. ¨Está aí só para atrapalhar¨. O processo de atrapalhação teria dado uma sacudida na cultura brasileira, mas, segundo Lobato, a coisa teria dado errado quando outros autores resolveram transformar esse processo num dogma: ¨Oswald sempre repeliu os sectários e sempre refugiu de transformar sua colher de mexer, hoje colher de pau-brasil, em paradigma, em maracá sagrado. E passa a vida a criar cismas dentro do grupo, a renegar sumos pontífices¨.
Mário de Andrade responde com o texto ¨Post-scriptum Pachola¨no qual chega a anunciar a morte de Monteiro Lobato, que ele recebia com o coração sangrando e os olhos mojados de lágrimas. É de se perguntar se em seu texto não havia um tanto de ciúmes, por Lobato ter creditado a Semana a Oswald e não a ele.
O autor do Jeca, entretanto, não fez caso. Em carta ao jornalista Flávio Campos, Lobato diz que Mário, por seu talento, tem direito a tudo, ¨até de meter o pau em você e em mim. Eu tenho levado pancadinhas dele. Certa feita matou-me e enterrou-me. Em vez de revidar, conformei-me, e sem mudar minha opinião sobre ele. Mário é grande. Tem o direito de nos matar à moda dele¨.
Lobato sempre esteve mais alinhado com os ideais modernos do que com a tradição. Seu movimento pelo petróleo brasileiro e pela industrialização está mais próximo do futurismo do que da tradição intelectual brasileira, que se prendia aos bons tempos do café . Sua obra infantil é moderna ao extremo, inclusive em termos de linguagem, ao aproximar a literatura da fala coloquial. Suas várias editoras sempre foram inovadoras e tiveram papel importante na divulgação dos autores modernistas. Até mesmo no campo social Lobato se revelava revolucionário, defendendo, por exemplo, que os jovens fizessem uma espécie de ¨estágio¨, morando com seus futuros conjugues antes de casarem.
Mesmo Mário de Andrade, provavelmente o maior responsável pela disseminação da idéia de que Lobato era inimigo dos modernistas, mesmo ele admitiu o alinhamento desse autor com os ideiais daquele movimento: ¨Quanto a dizer que éramos, os de São Paulo, uns antinacionalistas europeizados, creio ser falta de sutileza crítica. É esquecer todo o movimento regionalista aberto justamente em São Paulo e imediatamente antes, pela Revista do Brasil, é esquecer todo o movimento editorial de Monteiro Lobato¨.

TEA e TDAH

 

 

Aos 52 anos descobri que sou autista e TDAH. Eu poderia dizer que estou surpreso, mas estaria mentindo.

Entre as minhas lembranças mais antigas está está aquela em que eu me sentia extremamente incomodado com o contato da roupa contra a pele. Fazia frio, estávamos fazendo uma viagem de trem e minha avó me colocou um agasalho. Eu devia ter uns quatro anos.

Durante a minha infância morei no sul de Minas um local que naquela época dominava um silêncio tranquilizador, mas quando nos mudamos para Belém, uma das minhas lembranças era o som alto da vizinha e eu com uma dor de cabeça terrível.

Descobrir o autismo explica porque eu fico totalmente atordoado com som alto a ponto de já ter tido inclusive crises de labirintite labirintite.

Foi também em Belém que percebi pela primeira vez a minha total inabilidade social. Quando fazia a crisma ao final da aula o grupo se reunia entre conversas e risos. Eu me mantinha afastado. Eu conseguia conversar com uma pessoa em particular, mas tinha muita dificuldade com grupos, pois não conseguia acompanhar o fluxo da conversa. Da mesma forma, quando conhecia alguém, não tinha a menor ideia de como puxar assunto.

Olhando as fotos dessas época, percebo que a questão da hiper-sensiblidade da pele provocava um efeito cômico. Eu era muito magro e parecia que eu tinha roubado todo o meu guarda-roupa de alguém com 30 quilos a mais.

Havia claro também também a dificuldade com o contato físico. Eu odiava pessoas que me tocavam enquanto falavam comigo, mas mesmo algo mais simples como um aperto de mão é no máximo tolerável. Pessoas desconhecidas que me abraçavam? Ah isso com certeza me deixava desconfortável!

Quanto ao hiper-foco, é óbvio. Na primeira oportunidade, lá estava eu falando de quadrinhos. Por sorte, na época em que esse hiper-foco principal se desenvolveu (década de 1980, época de Watchmen e Cavaleiro das Trevas), muitas pessoas liam quadrinhos e era fácil encontrar alguém para conversar sobre o assunto.

Eu tinha também a tendência a me isolar. Enquanto a maioria das pessoas tem um verdadeiro pavor da solidão, eu consigo lidar muito bem com isso. Alguns dos momentos mais felizes da minha vida eu estava ou sozinho ou acompanhado de um pequeno grupo de amigos ou familiares. Não lembro de uma única ocasião em que eu estivesse em um grupo grande e me sentisse ao menos confortável.

Pode-se se perguntar por que nas gerações antigas raramente um indivíduo era diagnosticado com autismo. A razão disso é que dificilmente alguém pensava que aquela pessoa com comportamento divergente era autista. Na maioria das vezes essa pessoa só era vista como estranha.

quarta-feira, setembro 23, 2026

Super-homem – O herói imortal

 

No início da década de 1970 já se vivia a era de bronze. Mas as histórias do Super-homem ainda estavam na era de prata, a exemplo da saga O herói imortal, publicada em Action Comics 385 a 387 e republicada aqui no volume 21 da Coleção Invictus, da Nova Sampa.

A HQ, escrita por Cary Bates e desenhada por Curt Swan, começa com o presidente dos EUA chamando o Super-homem e pedindo que ele não viaje no tempo: “O sucesso da experiência do vortex secreto depende da continuidade entre tempo e o espaço. Portanto, você não deve voar ao futuro ou passado nas próximas 24 horas”.

Mas na sequência, uma mão mecânica aparece do nada e escreve uma mensagem na porta da fortaleza da solidão: “Super-homem, sua ajuda é necessária no ano 101.971”.

O herói resolve viajar para o futuro numa esfera defeituosa. 

O homem de aço conclui que o pedido é urgente e resolve viajar numa esfera do tempo deixada na fortaleza pelos membros da Legião dos Super-heróis, o que, aparentemente, não interferiria na experiência do Vortex. Mas uma plaquinha avisa: “Funciona, mas está com defeito”.

Esse é um dos primeiros muitos problemas do roteiro de Cary Bates. Se o problema é no futuro e o Super-homem poderia viajar a qualquer momento, porque ele não pode esperar até o dia seguinte para viajar para o ano de 101.971? Bates parece não compreender que a data da partida não fará diferente nenhuma em uma viagem no tempo, já que o que vale mesmo é a data da chegada.   

Quando o herói chega ao futuro descobrimos qual é a urgência urgentíssima que levou os homens do porvir a pedirem ajuda do homem de aço. Seria um vilão prestes a destruir a terra? Seria um desastre ambiental? Seria um cataclisma cósmico? Não, é algo muito mais importante: estão roubando dinheiro de um banco!

A esfera defeituosa faz o herói envelhecer. 


O Super descobre que o “ladrão” na verdade é um ser de energia que vive na rede elétrica em volta do cofre e para derrotá-la, pinta de amarelo dinheiro azul. A razão é que o ser só se alimenta de objetos com cores quentes e, ao se alimentar de um alimento com cor fria pintado de cor quente, ele se envenaria. Mas o leitor com inteligência mediana se pergunta: se o dinheiro azul for pintado de amarelo, ele não fica amarelo? A lógica de Cary Bates é bizarra.

Mas vamos em frente: ao tentar voltar para nossa época, o super não consegue porque um vilão o impede – nós não temos a menor ideia de como isso é feito – e a única solução é ir para o futuro.

Após ser impedido de voltar para o passado, o herói viaja para o futuro, onde encontra uma época em que o uso de super-poderes é proibido.

Bates coloca o personagem numa sinuca de bico: como fazer o personagem rejuvenescer e voltar para nossa época? O roteirista resolve a situação nas últimas duas páginas tirando da cartola uma teoria “científica”.

A mesma publicação da Nova Sampa traz também uma outra história do super, escrita por Otto Binder que apresenta uma curiosidade: a HQ é narrada do ponto de vista de uma pedra de kriptonita.

Em tempo: a capa da Nova Sampa é belíssima. Trata-se de uma pintura a nanquim colorido de Ademir Pontes sobre desenho de Neal Adams. 

Vingadores contra os Mestres do Terror

 


No número 6 da revista dos Vingadores, Stan Lee teve a ideia de juntar alguns dos inimigos dos integrantes do grupo em um time de vilões chamado de Mestres do Terror.

Algo que chama a atenção na história desde o início é como Stan Lee estimulava os leitores a colecionarem a revista: “Cuidado! Não rasgue este exemplar ou amasse as páginas, e nem deixe com manchas de comida! Temos a impressão de que você vai querer guardá-lo como um item de colecionador por muito e muito tempo!”.

O Capitão testa o novo escudo. 


Essa era mais uma das inovações da Marvel. Enquanto a DC ainda tratava os gibis como itens descartáveis, Lee já percebia que poderia estimular os leitores a considerarem os mesmos como itens de colecionador. Aliás, ele estava certo. Certamente um exemplar bem conservado dessa edição deve valer uma boa nota.

Os créditos usavam e abusavam do marketing pessoal inventado por Stan Lee. Assim, a história era “escrita pela inspirada máquina de escrever de Stan Lee” e “desenhada pelo lápis mágico de Jack Kirby”.

O Barão Zemo era mal a ponto de usar pessoas como passarela... mas tinha chiliques quando ouvia o nome do Capitão América. 


Como era padrão na Marvel, a história começa com uma cena de ação e impacto como forma de empolgar o leitor. Anos depois seria utilizado o recurso de começar a HQ no auge do segundo ato, mas aqui isso é feito com o Capitão testando o escudo criado pelo Homem de Ferro, com imãs que permitem direcioná-lo.

Só depois aparece o Barão Zemo, em sua primeira aparição na cronologia da Marvel. Jack Kirby cria situações bizarras, como indígenas se ajoelhando para formar uma passarela para o barão passar. O vilão também aproveita para contar sua origem. Nesse flash back descobrimos, por exemplo, que o Capitão América é responsável pelo vilão usar sempre o capuz vermelho. Ele teria usado o escudo para quebrar um recipiente com uma cola e esta caíra na cabeça do Barão.

Afinal, como ele se alimenta? 


“Ainda posso senti-lo! Ainda sinto o maldito adesivo atingindo meu capuz, colando meu rosto... e assim ficou por todos esses anos... pois nada pode removê-lo”, grita o vilão, numa tentativa vã de retirar o apetrecho.

Uma pergunta que não quer calar: se ele tem um capuz colado ao rosto, como consegue se alimentar?

Os heróis trocam de vilões. 


A estratégia do vilão é usar os Mestres do Terror para espalhar a cola pela cidade e assim chamar a atenção dos Vingadores e provocar um confronto entre as duas equipes. O Capitão América, ao perceber o plano, sugere que cada herói troque de inimigos. “Ele elabora planos de batalha rapidamente e entra em ação com grande destreza!”, admira-se Thor, antecipando que a época em que o Capitão se tornaria líder dos vingadores. Essa estratégia, de trocar de vilões parece boba, mas foi a mesma estratégia usada pelos X-men em uma história da fase clássica de Claremont e Byrne.

Júlio Verne, o viajante das idéias

 


Houve uma época em que milhões de crianças no mundo todo se deliciavam com viagens extraordinárias em que o mundo se revelava diante delas trazendo consigo as maravilhas de uma nova ciência: a geografia. Tudo graças a um escritor francês dotado de imaginação e rigor na busca de informações. Seu nome era Júlio Verne.

Quando Verne publicou seu primeiro romance,  Cinco Semanas Num Balão, em 1863, as descobertas científicas aconteciam a um ritmo cada vez mais rápido. Darwin publicara há cinco anos seu livro A Origem das Espécies, de Darwin. Há pouco tempo Pasteur divulgara suas descobertas, que derrubavam a teoria da geração espontânea de vida e lançava a teoria dos vermes como causadores de doenças. Entretanto, o povo, o cidadão comum, ainda via a ciência como uma desconhecida, uma curiosidade de laboratório, de interesse apenas de homens sábios. Pouco havia sido escrito que fosse do entendimento do homem comum e, principalmente, das crianças.


Cinco semanas num balão começou com o nome de A Viagem no ar. Em outubro de 1862, Júlio Verne apresentou o original para o editor Pierre-Jules Hetzel. Hetzel foi tão importante no direcionamento da carreira desse, então estreante escritor, que pode, de certa forma, ser considerado co-escritor. O livro era uma referência direta aos exploradores que revelavam os segredos da África. Nele, o doutor Samuel Fergunson, seu amigo Dick Kennefy e um empregado se aventuram do Zanzibar até o Niger em um balão, refazendo o percurso de muitos dos homens que desbravaram o continente. Hetzel fez várias sugestões para tornar a história mais palatável, inclusive a mudança do título para Cinco semanas num balão. Hetzel tinha tanta confiança no texto de Verne que o fez assinar um contrato para outros livros. O contrato dizia, abertamente que o objetivo dos livros era: “Resumir todos os conhecimentos geográficos, geológicos, físicos, astronômicos, acumulados pela ciência moderna e refazer, sob a forma atrativa e pitoresca que lhe é própria, a história do Universo”.   
Em Cinco Semanas Num Balão, Júlio Verne, com o auxílio de Hetzel, introduzira um novo tipo de novela - uma forma diferente de contar história, um misto de ficção e realidade.


Qualquer itinerário serviria para o Vitória, mas a viagem tornara-se mais real porque acompanhava claramente o percurso da expedição de 1850 levada a cabo pelos exploradores Richard Francis Burton e John Hamming Speke.
Quanto à construção do balão, Júlio Verne tornara-a perfeitamente praticável com seu complicado fogão que provocava a expansão do hidrogênio por meio de aquecimento, fazendo o aparelho elevar-se sem ser necessário sacrificar lastro. A idéia do balão duplo foi tomada de Mensnier de Laplace e Nadar; a bateria elétrica viera das experiências  de Albert Wilhehn Bursen e a luz brilhante do arco improvida para arrancar o desgraçado missionário lazarista às torturas infligidas pelos selvagens africanos viera dos manuscritos de Humphry Javoy.


Tudo isso deu à história uma verossimilhança que jamais se vira em um livro de aventuras, abrindo caminho para toda a literatura de ficção-científica do século XX. Mais: a obra de Verne se tornou a base do gênero Steampunk, um dos mais populares e importantes do século XXI.
Depois de Cinco semanas em um balão, vieram diversos outros livros, como Viagem ao centro da Terra, A volta ao mundo em 80 dias, Da Terra à Lua e, o mais famoso deles, 100 mil léguas submarinas.