segunda-feira, maio 20, 2024

Mulher Maravilha – sangue

 


Nas décadas de 1980 e 1990, a maioria das histórias era publicada em edições econômicas, em papel jornal. As melhores histórias ganhavam formato maior e papel couchê. Ao se deparar com uma graphic novel, você sabia que estava diante de algo muito acima da média. Hoje em dia qualquer história ganha papel couchê e capa dura, a exemplo de Mulher-Maravilha sangue, de Brian Azzarello e Cliff Chiang.

A história começa com uma sequência realmente interessante. Uma personagem misteriosa (depois descobrimos que se trata da deusa Hera), vestida com um manto de penas de pavão mata dois cavalos em uma fazenda, transformando-os em centauros para matar uma garota. Mas um ser azul com pés de pássaro (o deus Hermes) a salva, enviando a moça para o apartamento da Mulher Maravilha.

Com o decorrer da história, descobrimos que a moça está grávida de Zeus e a trama é uma vingança de Hera, que tenta a todo custo matar o filho bastardo do rei do Olimpo. Por outro lado, revela-se também que Zeus está morto, o que provoca uma disputa de poder entre os deuses.

A sequência inicial é empolgante. Mas o resto... 


É uma trama interessante e Azzarello escreve bem. Chiang também é um bom desenhista e fez uma capa realmente chamativa (embora tenha a tendência de fazer a Mulher Maravilha excessivamente queixuda em algumas imagens). Mas os autores cibernéticos já diziam que o todo é maior que a soma das partes. É o que vemos aqui. As partes não encaixam em uma trama que realmente se mostre relevante ou coesa.

Há também outros problemas.

Um deles é a mania de mostrar versões modernizadas dos deuses. Isso foi interessante quando Neil Gaiman fez, trinta anos atrás, mas agora parece apenas repetição ou uma forma de fazer a HQ parecer descolada.

Mas o maior problema é que Azzarello escreve bastante em diálogos e textos irrelevantes, mas não o faz quando o texto é realmente necessário. Na sequência final, em que a trama é resolvida, ele deixa tudo por conta do desenhista, e esse não consegue mostrar com o desenho o que de fato está acontecendo (sério, eu li três vezes tentando entender!). No final, lemos que a Mulher Maravilha resolveu tudo, mas não temos a menor ideia de como isso aconteceu.

Watchmen e a teoria do caos

 

Matéria de jornal de 1994 sobre o meu TCC sobre Watchmen. Hoje em dia todo mundo minimamente informado sabe que Alan Moore e Dave Gibbons usaram os princípios da teoria do caos na elaboração de Watchmen, mas na época essa informação era novidade a ponto de merecer matéria em jornal.

Skizz – Contato imediato de Alan Moore

 

Imagine filmes como Contato Imediatos de Primeiro Grau ou ET, o extraterrestre, mas escritos por Alan Moore. É exatamente o que vemos em Skizz, álbum lançado em 2003, pela editora Pandora.
Moore aproveita muitos dos conceitos de Spielberg (em especial de um extraterrestre perdido em nosso planeta e ajudado por pessoas simples), mas faz uma obra totalmente subversiva e instigante.
Alan Moore faz a sua versão do filme ET. 


Para começar, pelo humor negro que permeia toda a obra. A sequência inicial, em que Skizz cai na terra é, ao mesmo tempo, hilária e aterradora. A nave resolve se auto-destruir porque a lei interestelar proíbe apresentar alta tecnologia para raças de desenvolvimento restrito – e decide levar seu tripulante junto. O diálogo é hilário: enquanto Skizz tenta se salvar, a nave pergunta o nome de seus herdeiros.
Skizz passa a ser caçado por agentes do governo e recebe ajuda de uma garota punk – e temos aí diversas sequências de humor, que lembram ET, mas são muito mais ácidas. Uma das primeiras palavras que o personagem aprende é “Potameda”. E, claro, os agentes do governo não são bonzinhos como no filme de Spielberg: o principal responsável pelo caso é um militar paranoico que acha que o ET é só o início de uma invasão extraterrestre.
O desenhsita Jim Baikie se sai muito bem nas sequências de espaço. 


Vale destacar o desenho de Jim Baikie, que consegue captar bem tanto as situações de FC quanto de humor – destaque para a ótima caracterização do personagem Cornélius.

domingo, maio 19, 2024

Chamada de artigos: Poética e Nona Arte: da poesia nos quadrinhos ao quadrinhos poético-filosóficos

 



Poética e Nona Arte: da poesia nos quadrinhos ao quadrinhos poético-filosóficos

A antologia Poética e Nona Arte: da poesia nos quadrinhos ao quadrinhos poético-filosóficos reunirá artigos sobre os vários aspectos da relação entre poesia em quadrinhos, desde as HQs que usam elementos de poesia até os quadrinhos póéticos-filosóficos, passando por análises do texto nos quadrinhos.

Também serão aceitas histórias em quadrinhos que tenham relação com o tema da obra.

Os artigos deverão ter entre 10 e 15 páginas, incluindo imagens e referências (ver abaixo as normas de apresentação do artigo).

As histórias em quadrinhos devem ter no máximo 8 páginas.

O livro será lançado pela Marca de Fantasia e será organizado por e Ivan Carlo Andrade de Oliveira, Edgar Franco e Gazy Andraus.

Os artigos devem ser enviados até 26 de Novembro de 2024 para o e-mail profivancarlo@gmail.com.

 

 

 

[TITULO DO TRABALHO EM NEGRITO E CAIXA ALTA, CENTRALIZADO, FONTE 12, LETRA TIMES NEW ROMAN, ESPAÇAMENTO SIMPLES]

 

[nome completo do/a autor/a, alinhado à esquerda, fonte 10][1]

 

[Introdução e demais subseções com primeira letra em maiúsculo, fonte 12, negrito, alinhado à esquerda]

 

[Texto em espaçamento 1,5 cm, fonte times new roman 12, alinhamento justificado, deslocamento na primeira linha em 1,25cm. Mínimo de 10 e máximo de 15 páginas, incluindo referências bibliográficas e imagens. Notas de rodapé devem ser usadas apenas para complementar dados essenciais. Referências bibliográficas devem ser inseridas no corpo do texto conforme orientação de citação entre parênteses, com sobrenome do autor em caixa alta, ano e página. Ex (Reblin, 2013, p.28)]

[Citações com mais de 3 linhas devem seguir padrão ABNT: Fonte tamanho 11; recuo de 4 cm da margem esquerda; espaçamento das entrelinhas da citação deve ser simples. Ex:

Ao ler histórias de ficção, mergulhamos no universo que nos é contado. Esse universo contado para nós não é moldado a partir do nada, mas é criado com base no modelo que o autor e, num espectro mais amplo, a sociedade em que o autor habita possuem sobre a realidade e suas vicissitudes. Nessa perspectiva, é possível afirmar que as histórias dos super-heróis são uma espécie de “janela da realidade” a partir da qual temos acesso a um mundo ficcional, calcado no real (Reblin, 2013, p.28)

 

 

[Imagens devem ser inseridas no texto, centralizada, com legenda acima da imagem e fonte abaixo, ambas com fonte 10. Título da imagem em negrito. As fontes das imagens devem constar também na relação de Referências ao final do texto. Ex.

 

Quadro 1 - Título do quadro

 

Atividade

Tipo

Quantidade realizada

 

Percepção

Leitura de Quadrinhos

Álbuns 

5

 

Materialidade

Leitura de E-Comics

Tiras

8

 

Dispositivo

 

Fonte: (pode ser uma referência ou decorrente da pesquisa de campo)

 

 

 

Figura 1Capa da HQ Persépolis



Fonte: Quadrinhos na Cia, 2007.

Referências

Fonte times new roman 12, espaçamento 1cm, entrelinhas simples, alinhamento à direita.

Impressos

SOBRENOME, Nome. Título: subtítulo (se houver). Edição (se houver). Local de publicação: Editora, ano de publicação da obra. 

Exemplos:

SATRAPI, Marjane. Persépolis. São Paulo: Quadrinhos na Cia, 2007.

ARUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019.

Online

SOBRENOME, Nome. Título do material. Negrito para a fonte principal (site/revista/periódico, etc.), volume, página, ano.  link, data de acesso. 

Exemplo:

SANTOS, Mariana Oliveira dos; GANZAROLLI, Maria Emília. Histórias em quadrinhos: formando leitores. Transinformação, v. 23, n. 1, p. 63-75, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-37862011000100006&script=sci_arttext&tlng=pt. Acesso em: 20 jan. 2021



[1] [Última titulação e vinculação acadêmica em nota de rodapé na primeria página, fonte times new roman 10, espaçamento simples, não ultrapassar duas linhas para cada autor/a, incluir link de orcid. E-mail opcional]

Interestellar

 

Quando bem feita, a ficção científica pode se tornar um gênero absolutamente filosófico. Seu salto para o futuro permite discutir e inferir questões sobre a vida humana e os mistérios do universo. Exemplo disso é o filme Interestelar, de Christopher Nolan, de 2014.
Na história, a humanidade corre o risco de extinção graças a pragas nas lavouras e tempestades de areia. É quando surge nas proximidades de Saturno um buraco de minhoca, que pode levar a planetas habitáveis. Para quem não sabe, o buraco de minhoca é uma dobra no espaço-tempo, que permite pular grandes distâncias em pouco tempo.
Em uma das sequências mais interessantes, os exploradores vão parar em um planeta com gravidade tão forte que o tempo se distoce, de modo que cada hora na superfície do planeta equivale a sete anos na terra.
O filme usa os preceitos da teoria da relatividade e da física quântica a serviço de uma história instigante e complexa. Hollywood ainda é capaz de produzir filmes que nos fazem pensar.  

Demolidor: Terra de perversos

 



No número 87 da revista Almanaque do Capitão América os leitores brasileiros se depararam com uma história estranha para uma revista de super-heróis. Intitulada Terra de perversos, nela não aparecia nenhum herói uniformizado. Era apenas uma história policial muito bem contada. Os editores brasleiros abusaram do suspense e esconderam até o último quadro a verdade: tratava-se de uma história do Demolidor com uma parceria igualmente surpreendente: o roteiro era de Frank Miller e os desenhos eram de ninguém menos que John Buscema.

A história inicia com um forasteiro mistério chegando numa lanchonete de uma pequena cidade: “Cruz quebrada é uma pequena e poluída cidade de Nova Jérsei, situada à sombra de uma refinaria de óleo que, dia e noite, vomita fumaça maculando a região”, diz o texto.

O protagonista da história é um pesonagem misterioso, que não fala uma única palavra durante toda  a trama. 


Lá dentro a lanchonete está sendo assaltada e o assaltante, chamado Castor, resolve dar uma lição no forasteiro, mas este, sem esforço algum, o joga para fora do local. A polícia está do lado de fora, mas, ao invés de prender o ladrão, prefere revistar o forasteiro. O policial dá um ultimato: “Quero ver você longe daqui pela manhã! Pela manhã, está entendendo?”.

O acontecimento revela toda uma rede de corrupção que envolve até mesmo assassinato do antigo xerife, mas tudo isso é revelado aos poucos, em meio a sequências e ação brilhantemente desenhadas por Buscema com texto impactante de Miller, que lembra muito as narrativas noir.

O final antológico. 


Aliás, nada mais noir que o texto final: “Se em algum inverno você se perder nas terras áridas de Nova Jérsei, quando a neve está espessa e suja... e de repente avistar o letreiro do Palácio Olímpico do Poppa, piscando como uma dama da noite, idosa demais para flertar... dê meia volta e siga rumo a outra cidade. Porém, se estiver cansado demais, entre e peça um café. É Katy quem irá servi-lo. Tendo tempo, pergunte a ela sobre Cruz Quebrada. Katy irá lhe falar de antigos ódios e crimes... sobre homens imponentes e de sorriso acolhedor, que trouxeram uma sombra de justiça a este confim de Nova Jérsei. Se você ficar mais, talvez ela comece a falar de fantasmas. Por isso não fique”.

Uma curiosidade a mais sobre essa história tão curiosa é que durante toda a HQ o Demolidor não diz uma única palavra.

Fundo do báu - Os Simpsons

 

Os Simpsons são o desenho animado de maior longevidade da TV americana. Até o momento são 32 temporadas. A série foi criada de improviso. Matt Groening, o criador, publicava nos jornais a tira Life in Hell (Vida no inferno), protagonizada por dois coelhos.
 A tira chamou atenção dos executivos da Fox, que o contataram para que fizesse animações curtas para o programa The Tracey Ullman Show. Temendo perder os direitos sobre seus personagens, Groening criou uma outra proposta: uma família disfuncional baseada na sua própria família. Ele pegou emprestado o nome dos pais, Homer e Margaret e de suas irmãs mais novas, Lisa e Maggie. O garoto era baseado nele mesmo, mas para que a referência não ficasse óbvia, ele o batizou de Bart. 
 Os simpsons estrearam no programa The Tracey Ullman Show em 1987 e fizeram enorme sucesso. Tanto que três anos depois os executivos da Fox resolveram lhes dar um programa solo, no horário nobre. 
Foi a primeira série da Fox a figurar entre os 30 programas mais assistidos dos EUA. Desde então, produtores e roteiristas foram enriquecendo o universo dos Simpsons, com personagens extremamente carismáticos, como o palhaço Krusty, um apresentador de programas infantis que nos bastidores é mostrado como um bêbado envolvido com a máfia. 
A popularidade junto ao público e crítica é tão grande que a revista Time considerou a série o melhor do século XX.

Perry Rhodan – Escola de guerra Naator

 


Existem algumas histórias, inclusive de ficção científica cuja trama não se sustentaria diante do avanço tecnológico do mundo atual. O número 85 de Perry Rhodan se encaixa nessa categoria. 

Na história, iniciada no número anterior, os terranos resolvem eliminar o computador supremo e para isso um grupo se disfarça de zalitas, um povo que está sendo recrutado em peso para a guerra. O objetivo é, dessa forma, chegar perto o suficiente do computador para desativá-lo. 

Ocorre que quando Rhodan e seu grupo chegam no planeta Naator, local de treinamento dos novos recrutas, descobrem que todos os recruta possam por rigorosos exames médicos exatamente para evitar a presença de infiltrados. 

A capa original alemã. 


A única solução possível é o mutante John Marshall sugestionar os médicos aras para quer eles não percebam as diferenças fisiológica do grupo terrano. Para isso, ele é teletransportafo por Ras Tschubai . Mas é impossível fazer isso e em uma única noite, então é preciso atrasar os exames médicos. Para isso, Ras empreende vários atentados terroristas cujo objetivo é dar a entender que os ciclopes habitantes do planeta se revoltaram. 

Claro que isso só daria certo se ninguém visse o mutante teletransportador. Na década de 60, quando a história foi escrita isso poderia parecer fácil. Mas hoje em dia, como vivemos em um mundo repleto de câmeras por todos os lados, é impossível deixar de pensar que o mutante inevitavelmente seria filmado durante um dos seus teletransportes, o que daria ao computador gigante a pista dos terranos. 

É curioso que um grande autor de ficção científica, como Clark Darlton, não tenha pensado na possibilidade de um futuro em que as câmeras estivessem espalhadas por todos os lugares.

Em tempo: embora o título do volume seja Escola de guerra Naator, os personagens não têm qualquer treinamento além de uma palestra sobre o poderio arcônida, o que parece no mínimo estranho.

Monstro do Pântano – balé de enxofre

 



Quando assumiu o título do Monstro do Pântano, Alan Moore levou o terror a um novo patamar. O horror agora se tornara realmente apavorante, visceral, perturbador. A saga balé de enxofre (publicada em The Saga of The Swamp Thing 29, 30 e 31) foi um dos marcos dessa nova visão do horror.

A sequência inicial é um dos melhores exemplos dessa nova abordagem. Vemos a casa de Abigail Cable, em planos fechados, roupas jogadas no chão, fósforos semi-queimados, vidros de perfume quebrados no chão. O texto diz: “Ela arrancou e rasgou a roupa toda do corpo. Roupa suja, tinha lhe tocado a pele. Não adiantou tentar queimá-las. As mãos apenas gastaram os fósforos. Na verdade, ela já estava levemente ensandecida. Era o cheiro. Ela não conseguia se livrar do cheiro. No banho, gastou tudo que havia de sabonete, xampu, perfume, aditivo, espumante... e nada de o cheiro sair”.

A sequência inaugural mostra o tipo de terror visceral inaugurado por Alan Moore. 


Quando o banho não resolveu, ela foi até a cozinha, pegou a escova de arame usada para esfregar batatas e começou a esfregar no corpo, numa tentativa vã de tirar o cheiro de insetos queimados. Vinte minutos depois ela desmaiou. Mas mesmo assim, ainda sentia o cheiro... em seus sonhos.

E nos deparamos com uma página dupla, de Abby encolhida em posição fetal, o rosto ensandecido, insetos ao seu redor e metade de seu corpo ocupado por uma sombra que reflete esqueletos, numa arte impressionante repleta de hachuras de John Totlebene Stephen Bissette. Mais à frente descobrimos que o cheiro vem do fato dela ter transado com seu tio, que tomara o corpo de seu marido, o que torna a situação ainda mais doentia. Os créditos são colocados logo abaixo do título “Amor e morte” e são entremeados de insetos. Imagens de Abigail em tormento, envolta por insetos emoldura a maioria das páginas desse primeiro capítulo da trama.  

A página dupla é impressionante. 


Quando lhe perguntaram qual o segredo para escrever histórias de terror, Moore respondeu: veja o que lhe provoca medo e use isso nas histórias. É o que vemos aqui. Moore utiliza arquétipos universais de horror, a começar pelos insetos. Mas vai além e flerta com o terror psicológico ao abordar o abuso sexual – ao longo da série ele abordaria mais de uma vez relações abusivas com resultados igualmente surpreendentes.

Então a história sai do pesadelo e vai para um flash back que parece um sonho. Matt, o marido de Abigail, comprou uma bela casa e arranjou um emprego. Quando visitam o novo quarto do casal, o texto avisa: “Foi aqui que o sonho tremelicou. Aqui se escondia a coisa ruim, aqui um acre cheiro de carne fumegante, de insetos subitamente penetrou nas narinas”.

Mas quando visitam o novo emprego (Rio negro recorporações) que o terror se insinua mais forte, já desde a fachada, com espectros sombrios observando da janela. Quando a porta se abre e Abby conhece os colegas do marido por um instante ela consegue vê-los como realmente são, cadáveres de psicopatas.

Moore usa psicopatas na história. 


Essa é, provavelmente, a primeira vez que um psicopata foi mostrada num quadrinho da DC Comics – e talvez a primeira vez em todo o mercado americano. Assassinos em séries já existiam antes. O Cavaleiro da Lua, por exemplo, enfrentara um que matava com uma foice. Mas era sempre psicóticos, loucos, pessoas fora de si ou atormentadas por algum trauma. Pessoas más, que vestem uma máscara de normalidade, mas matam por prazer, são uma primazia de Moore.

Psicopatas voltam a aparecer na história quando Moore, usando a técnica do mosaico, mostra como pessoas más em todos os locais das redondezas de repente se revelam e vão na direção do local onde está se passando a trama.

Alan Moore mostrando que o verdadeiro, o grande terror, era o ser humano e sua maldade.

sábado, maio 18, 2024

Dreadstar - a saga estelar definitiva de Jim Starlin

 


No início da década de 1980 a Marvel criou um selo de quadrinhos em que os direitos dos personagens ficavam com seus autores. Foi a senha para o mestre das sagas espaciais, Jim Starlim, criar uma das melhores séries de ficção científica de todos os tempos: Dreadstar.
Dreadstar é uma mistura de elementos: é uma space opera, no estilo Star Wars, é uma distopia, estilo 1984, e super-heróisno estilo de trabalhos anteriores do próprio Starlin, como Warlock e Capitão Marvel.
Na trama, a galáxia é dividida entre duas grandes potências em guerra: a Monarquia, governada por um rei fantoche, e a Intrumentalidade, uma organização religiosa governada pelo Lord Papal. É uma crítica severa ao fanatismo religioso e ao pensamento único. Em territórios conquistados, a Intrumentalidade realiza uma santa inquisição: empatas identificam quem poderia tem pensamento contrário à igreja e esses são executados, aos milhões – uma das cenas mais chocantes dos quadrinhos mostra o Lorde Papal vistando uma dessas inquisições e os soldados acumulando uma montanha de crânios.
A guerra parece eterna até que surge Vanth Dreadstar, um herói, vindo de uma galáxia destruída, que, após ver o planeta que o abrigou ser dizimado, resolve acabar com a guerra. Unem-se a ele Oedi, um homem-gato, Willow, uma telepata  cega que enxerga através dos olhos de um macaco e é capaz de controlar máquinas e emitir rajadas mentais, Syzygy Darklock, um místico misterioso e o mercenário Skeevo.
A história mostra a guerra entre a monarquia e a instrumentlidade.


De todos os personagens secundários, Willow é a mais interessante. O capítulo dedicado a contar a sua história ecoa diretamente a influência de 1984, de George Orwell. No mercado a mãe da personagem resmungara uma reclamação sobre o preço dos alimentos. Como resultado, foi presa pelos guardas da instrumentalidade e desaparece. A menina passa a ser criada pelo pai, que, cada vez mais enlouquecido pela perda da esposa, chega a abusar da filha antes de ser enviado para a guerra. Willow vai, então, para um orfanato e chega se tornar prostituta antes de ser encontrada por Dreadstar.
Starlim transformou essa ficção científica com pegada de super-herói em uma saga impressionante repleta de ação em meios às críticas sociais. Destaque para o capítulo em que, para pegar Dreadstar, Lorde Papal ordena o bombardeio de bombas nucleares numa cidade com milhões de habitantes. Era apenas o terceiro volume, mas já mostrava até essa série poderia chegar.
A Globo lançou 10 edições do título. 


Esse material foi publicado no Brasil inicialmente na revista Epic, da editora Abril. Posteriormente a editora Globo lançou um gibi com o título, publicando toda a fase da Marvel a partir do ponto em que a Abril havia deixado. Em 2014 a Mythos lançou um encadernado em capa dura com o personagem. Deveria ser o volume 1, mas o segundo volume até hoje não foi publicado. No entanto, vale muito a pena. A narrativa de Starlim é do tipo que não deixa desgrudar os olhos do gibi e, a publicação no formato original permite perceber que ele não só era um grande roteirista, mas também um ótimo desenhista, algo que não tinha destaque no formatinho.

Em tempo: eu li essa série na Epic Marvel e gostei, mas foi um amigo que me chamou atenção para a profundidade filosófica e sociológica de Dreadstar. Infelizmente hoje essa mesma pessoa diz que Jim Starlim é comunista e Dreadstar é marxismo cultural feito para acabar com a religiosidade e promover o comunismo. Uma pena. Parece que algumas pessoas foram cooptadas pela Instrumentalidade. 

El Greco - Cristo carregando a cruz

 


El grego é o mais importante nome do maneirismo na pintura.
O maneirismo é um movimento intermediário entre o racional renascimento e o emocional barroco.
No maneirismo, o tema principal deixa de ocupar o centro do quadro, quebrando com a estrutura certinha e rígida do renascimento. Além disso, a imagem deixa de ser delineada de maneira clara, abrindo espaço para a linha esfumaçada do barroco.
El Grego usou as características do movimento para imprimir uma qualidade transcendental aos seus quadros religiosos. E acrescentou mais um item: a proporção anatômica distorcida. Suas figuras santas eram alongadas, mostrando que estavam mais próximas do mundo espiritual que do mundo material.
Nesta imagem de Cristo carregando a cruz, embora não seja possível ver seu corpo, é possível advinhar sua estatura elevada pelas mãos de dedos alongados. Além disso, o rosto de Jesus, que em obras do renascimento teriam ocupado o centro do quadro, aqui se desloca para a parte superior.


 
A revista Letras Escreve publicou, no número 2, volume 13, um artigo meu sobre a Literatura de Fantasia. No artigo eu discuto o conceito de fantasia e apresento um breve histórico do gênero.

Esse artigo tem uma trajetória curiosa.

Ele surgiu de uma palestra em um evento sobre literatura de gênero. A organizadora pediu para eu falar sobre literatura de fantasia e, ao final da palestra, solicitou um artigo com o conteúdo da dita para integrar um livro.


Passou um ano, dois anos, nada do artigo ser publicado. Ao final do segundo ano, a organizadora do evento deu uma devolutiva, solicitando diversas modificações, em especial dezenas de notas de rodapé explicativas (ela pedia, por exemplo, uma nota de rodapé explicando quem era o Conan). Fiz as mudanças e o texto quase dobrou de tamanho... mas não foi publicado. Passou mais um ano, outro ano.
Recentemente, eu soube que a prestigiosa revista Letras Escreve ia publicar um dossiê sobre Imaginários, Mito e Linguagem e resolvi arriscar, afinal, a literatura de fantasia tem tudo a ver com imaginários e mitos. Mas enviei o texto original, sem as dezenas de notas explicativas.
Para minha surpresa, as duas organizadoras do dossiê adoraram o artigo. Como ele não se encaixava diretamente na bibliografia usada no dossiê, ele foi publicado na seção livre.
Para acessar a revista, clique aqui

Monstro do Pântano – descida entre os mortos

 


É muito difícil escolher a melhor história do Monstro do Pântano da fase de Alan Moore. Mas se eu fosse fazer uma lista, certamente Descida entre os mortos, publicada em e  Swamp Thing Annual 2 certamente estaria no topo da lista.

Na saga anterior, Arcane havia matado Abigail Cable e enviado sua alma para o inferno. Matt  conseguira regenerar o corpo da donzela, mas sua alma ficaria para sempe nas regiões abissais, a não ser que alguém fosse em seu resgate.

A história é uma versão da Divina Comédia, com o herói descendo ao inferno para salvar a amada.


A história é, obviamente, uma versão em quadrinhos do clássico A divina Comédia, de Dante Alighiere numa versão no mímimo bizarra, já que o herói a descer ao inferno atrás de sua amada é na verdade um monstro.

Assim, o Monstro do Pântano usa sua capacidade de sair do corpo e visitar outras dimensões para alcançar a região dos mortos. Lá ele encontra alguns dos principais personagens místicos da DC Comics, que servem como seus guias: Vingador Fantasma, Desafiador, Etrigan, o demônio e Espectro. Moore aproveita para remodelar alguns desses personagens. Sua abordagem, de poucas páginas acaba sendo muito aprofundada do que muitos autores que assumiram os títulos desses personagens por vários números. O Vingador Fantasma, por exemplo, aparece nessa história como um anjo caído, versão que seria explorada posteriormente pelo próprio Moore.

O Monstro do Pântano encontra vários heróis místicos da DC. 


Os motivos para essa história serem especiais são muitos, a começar por seu aspecto poético. Etrigan, por exemplo, planta uma flor em homenagem a Abigail no próprio inferno. “Ela não vai se lembrar do que quer que seja. Se quiser, conte-lhe que, contra a corrente no inferno, uma flor com seu nome viceja”, rima o demônio. Eu sempre me lembre da tradução que li primeiro, a da Abril: “Agora leve a jovem para outra paragem! Ela nada irá lembrar quando enfim despertar...mas se quiser, você poderá lhe contar... que no inferno uma flor cresce em sua homenagem!”.

Temos a arte sensacional de Steven Bissete e John Totleben, com sua diagramação ousada e certeira. À certa altura, por exemplo, o Monstro do Pântano e Desafiador descem da região dos recém-mortos para o paraíso, e os quadrinhos são diagramados de forma a parecer que eles estão mesmo descendo pela página.

Espectro na versão de Moore, Bissette e Totleben.


Há toda a questão filósofica. O Desafiador acredita que Deus é uma mulher. “Boston Brand é um espírito jovem. Mal viu poucas peças de um quebra-cabeça que se espraia indefinidamente”, rebate o Vingador Fantasma. “Deus não é pai, mãe ou policial mandão dando mimo quando ri e castigo quando azeda. Cada um ascende ou cai pela própria ação. Ele lamenta, mas não pode evitar a queda”, recita Etrigan em outro ponto.

Há sequências impressionantes, como quando surge espectro. Talvez nenhum outro roteirista tenha imaginado uma sequencia que deixasse tão claro a grandiosidade do personagem.

E, finalmente, temos uma narrativa que prende a ponto de não conseguirmos desviar da leitura até os últimos e emocionantes momentos.