segunda-feira, maio 18, 2026

O taoismo – tudo está em transformação

 


O taoísmo é uma religião oriental que se aproxima muito de uma filosofia. O taoísmo é religião no sentido original da palavras, religare, religar o homem a algo superior, mas não é uma religião como nós conhecemos, como rituais fixos... é antes uma maneira de ver o mundo.

O taoísmo prega que o divino está em tudo. Tudo que existe faz parte de uma mesma coisa.

O tao é caminho. Caminho se faz caminhando, por isso o taoísmo não se liga em rituais, hierarquias, vestimentas... há uma história sobre um monge que encontrou um superior e o cumprimentou com um bom dia. O outro reclamou: “Essa é a maneira adequada de me cumprimentar?”, ao que o monge respondeu: “O tempo está correndo”. Ou seja, enquanto estamos ligados a rituais fixos, o mundo está em eterna mudança. E o sofrimento surge da idéia de ficar parado enquanto tudo muda.

O taoísmo foi a grande influencia da corrente zen budista, por isso é meio difícil falar de um sem falar de outro. A essência é a mesma, mas o zen budismo prefere transmitir seus conhecimentos através de histórias que revelam paradoxos, enquanto o taoísmo prefere a poesia.

Uma característica interessantíssima do taoísmo é que, como sua filosofia prega que a divindade está em tudo, seus adeptos acreditam que todas as religiões levam a Deus. Daí um respeito profundo por todas a religiões. Assim, budismo, cristianismo, islamismo, bramanismo e até o próprio taoísmo seriam a mesma coisa sobre formas diferentes. Dizem que nos templos taoistas há imagens representando todas as religiões para lembrar que todos os caminhos levam a um só.

Num mundo em que a regra são as guerras religiosas, a postura do taoísmo deveria inspirar mais pessoas.

O livro básico do taoísmo é o tao te king, escrito por Lao Tse (Jovem Sábio). Evidentemente, Lao Tse não foi jovem por toda a vida, mas certamente foi sábio por toda ela e um dia resolveu abandonar o palácio do rei da China, cansado que estava das intrigas palacianas. Quando passou pela muralha da China o guarda o reconheceu e pensou: “Se eu o deixar partir, o Imperador vai ficar um fera. Tenho de arranjar uma maneira de fazer com que ele fique mais tempo”. E assim, disse que só liberava o sábio depois que ele escrevesse um livro que resumisse toda a sua filosofia. O guarda achava que Lao Tse fosse ficar meses inteiros escrevendo, mas o que aconteceu foi que meia hora depois Lao Tse lhe entregou um livrinho e deu no pé. Vou publicar a partir de hoje alguns dos capítulos desse livrinho e, de vez em quando, farei alguns comentários. 

 

Abaixo um trecho do livro Tao te King sobre a sabedoria. Uma bela reflexão.

 

Inteligente é quem outros conhece

Sábio é quem conhece a si mesmo.

Forte é quem os outros vence:

Poderoso é quem domina a si mesmo.

Ativo é quem muito trabalha,

Rico é quem vive contente.

Firme é quem vive em seu posto,

Eterno é quem supera a morte.

Esquadrão Atari – Aurora sombria

 



O quinto número do Esquadrão Atari é aquele em que a história de fato começa – todos os números anteriores podem ser considerados como o primeiro ato.
É neste número que Martin Champion rouba a nave do primeiro Esquedrão Atari, a Scanner I. É também o momento em que se forma o grupo totalmente não convencional composto por ele, seu filho Tormenta, Dart, Morféa, Bebê o o ladrão Paco Rato.
Geralmente grupos de aventureiros são formados majoritariamente por terrestres, ou figuras essencialmente humanas e majoritariamente caucasianas – vide o Quarteto Fantástico. O primeiro esquadrão já inovara ao mostrar uma tripulação multirracial, mas não fora além disso.
A história começa de fato neste número. 


Esse novo esquadrão, no entanto, tinha metade dos seus integrantes composta por seres extraterrestres. E nenhum deles se encaixavam no padrão do que se esperaria de um herói dos quadrinhos, embora todos fossem carismáticos. Lembro que na época isso foi o que mais chamou minha atenção – além, claro, do ótimo roteiro de conway e do desenho de Garcia-lopez.
Este número tem desenhos de Ross Andru, que consegue manter o ritmo embora não seja tão impressionante quanto Garcia-lopez.
O grupo era totalmente não convencional. 


No final dessa história, eles saltam pelo multiverso e chegam ao local onde está a nave com o vilão, que já vinha sendo apresentado desde o primeiro número, mas aparece aqui em todo o seu esplendor. Sua fala, inclusive leva o leitor a crer que ele esperava pelos adversários, deixando um gancho para as histórias futuras.
No Brasil essa história foi publicada pela editora Abril em Heróis em Ação 5.

Iluminações, de Alan Moore

 


Iluminações é a mais nova obra do mago de northampton publicada no Brasil.

Ao contrário do que se poderia esperar, iluminações é uma obra literária, um livro de contos, e não uma história em quadrinhos. E lendo Moore assim, sem o apoio das imagens, é fácil perceber que ele está no mesmo nível dos melhores escritores da nossa era, seja em qual mídia for. 

O volume de quase 500 páginas já começa com um verdadeiro petardo. “Lagarto hipotético” se passa em um bordel em um mundo de fantasia. Embora não fique claro no texto, esse conto faz parte do universo Liavek.

A narrativa é densa e convida o leitor a experimentar uma perspectiva pouco convencional. A história é totalmente focada em Sonson, uma garota que recebe apenas magos. Para evitar que ela conte segredos sobre eles, ela passa por um processo chamado de silenciamento, que inclui a separação dos lóbulos cerebrais. Embora possa ouvir, ela jamais consegue falar nada mais do que frases desconexas.

“Nem mesmo lenda” é um conto curto e aparentemente despretensioso, mas no final acaba se revelando um quebra cabeça narrativo. A história se passa durante a reunião de um grupo de parapsicologia e acompanha as impressões de cada um dos membros sobre a reunião. Entremeada a essa narrativa tediosa temos trechos em itálico que não parecem fazer qualquer sentido ou ter qualquer relação com a história. As duas narrativas só se encontram no final, quando finalmente entendemos o que está acontecendo. Dificilmente você irá resistir à tentação de reler a história e aconselho que o faça.

“Leitura a frio” conta a história de Rick Sullivan, um homem que ganha a vida promovendo a comunicação de pessoas com os seus mortos. Na verdade, tudo é uma farsa. Ele pesquisa na internet informações sobre as pessoas e seus entes queridos e usa seu charme para convecê-las de que estão recebendo mensagens de seus mortos. Ele mesmo, no entanto, não acredita em espíritos. Uma noite, no entanto, ele recebe uma ligação de um cliente que vai mudar tudo. Acrescida de um final irônico, essa é uma das melhores histórias de fantasmas que já li.

“O que se pode saber sobre o Homem-trovão” é um caso interessante. Pelo tamanho, dificilmente poderia ser classificado como um conto (ficaria entre uma novela e um romance), de modo que é possível que ele só tenha sido introduzido no volume porque Moore percebeu que os contos em si não dariam uma boa quantidade de páginas.

Conto, novela ou romance, “O que se pode saber sobre o Homem-trovão” é, na verdade, uma vingança de Moore contra a indústria dos quadrinhos, com nomes mudados para evitar processos. Essa vingança fica óbvia na sequência em que um editor da DC (seria Julius Schwartz?) morre e quando os amigos vão até sua casa descobrem que o local é abarrotado de revistas pornográficas a ponto de não se conseguir ver o chão, o que, aliás, é a parte menos exótica dessa visita.

O fato dos nomes terem sido modificados e a cronologia não ser a mesma do mundo real faz com que seja difícil identificar exatamente quem é quem na história. Mas podemos perceber algumas pistas. É possível perceber, por exemplo, que Dan Wheems é Roy Thomas, embora no texto ele seja até hoje escritor dos Vingadores (chamados na história de Vingativos). Outro que é possível identificar é Denny Wellworth, codinome para Archie Goodwin. Os dois, aliás, são algumas das poucas figuras do meio quadrinístico tratados com respeito e reverência por Moore, o que provavelmente indica que o autor inglês os considerada como escritores de talento e editores éticos. O texto inclui traz inclusive uma entrevista feita por Dan com Denny. Jack Kirby e Steve Ditko também merece elogios. O restante é mostrado ou como pervertidos sexuais ou como pilantras. Ou os dois. Alguns nitidamente merecem, como o mafioso Vince Colletta, arte-finalista que estragava as páginas de Jack Kirby (e Moore inventa uma razão hilária para isso, encaixando Colletta nas duas categorias – pervertido e pilantra).

“O que se pode saber a respeito do Homem-trovão” não é uma história com início, meio, fim. É antes um quebra-cabeças feito das mais diversas formas narrativas, incluindo um fórum de internet e um roteiro de quadrinhos.

Por trás de todo esse emaranhado, uma tese: a que de a indústria de quadrinhos é de alguma forma amaldiçoada por ter surgido do roubo, uma vez que os mafiosos donos da DC Comics roubaram o Super-homem de Jerry Siegel e Joe Shuster.  

Apesar de toda a mágoa e ressentimento, é muito óbvio que Alan Moore ainda ama a indústria dos quadrinhos. Ele chegou a introduzir no texto um artigo de revista que analisa, do melhor ao pior, todas produções áudio-visuais com o Homem-Trovão. Claro que ele muda nomes (os irmãos Flescher, que fizeram o primeiro desenho animado do superman, por exemplo, viram irmãos Essler). Lendo, percebemos que Moore assistiu todos os filmes e seriados do Superman. Quem se daria ao trabalho de fazer isso com algo que odeia?

Por trás dos seus olhos

 


Por trás dos seus olhos, minissérie inglesa em seis capítulos da Netflix, parece, à primeira vista, uma história de relacionamentos. Uma recepcionista de uma clínica psiquiátrica vai a um bar onde conhece um homem simpático e, depois de uma longa conversa, trocam um beijo. No dia seguinte ela descobre que ele é casado e é o novo psiquiatra da clínica onde trabalha. Depois, ela encontra rua por, por coinscidência, a esposa e acaba se tornando sua amiga, o que gera um conflito ético, uma vez que ela acaba se apaixonando pelo homem.

Esse plot, no entanto, logo vai se transformando numa trama de suspense. Há algo errado no casamento do psiquiatra e sua esposa, mas a balança pende para de um lado a outro a cada momento: ou ele é um marido abusador e violento, ou ela é uma esposa manipuladora e psicopata.

Finalmente, temos uma trama sobrenatural, que desemboca em duas viradas, a última delas, do tipo “nada era o que você imaginava”, nos últimos momentos do último capítulo.  

A minissérie tem sido criticada por essa virada sobrenatural, vista por alguns como forçada e incoerente com o resto. Mas, se você prestar atenção, já havia pistas do que realmente estava acontecendo ao longo dos capítulos anteriores, seja através dos flash backs, seja através dos sonhos da protagonista, seja através da luz azulada que aparecer em algumas cenas.

O maior problema da série parece ser o ritmo lento dos primeiros capítulos e o longo desenvolvimento dos personagens. Confesso que quase desisti. Mas vale a pena persistir.

domingo, maio 17, 2026

Produção audiovisual amapaense: “Magrela” está na Mostra Nacional Competitiva de Curtas Metragens do Festival Guarnicê de Cinema

 

Foto: Duda Films

 O cinema produzido no Amapá acaba de conquistar mais um espaço de destaque no cenário nacional. O curta de ficção “Magrela”, dirigido por Gian Danton e produzido por Ana Vidigal, da Duda Filmes, garantiu vaga na Mostra Nacional Competitiva de Curtas Metragens do Festival Guarnicê de Cinema, um dos eventos cinematográficos mais tradicionais do Brasil. A seleção da obra audiovisual amapaense consiste na efetiva ampliação da presença da Amazônia dentro das vitrines culturais do país.

Produzido com recursos do Edital LPG da Secretaria de Estado da Cultura (Secult/AP), “Magrela” representa uma obra totalmente construída no Amapá, com talentos locais diante e atrás das câmeras. O feito simboliza mais do que uma participação em festival. Representa resistência cultural, pertencimento e afirmação artística de um povo que insiste em contar as próprias histórias sem depender dos grandes centros do eixo Sul Sudeste.

Foto: Duda Films

O curta reúne uma equipe técnica robusta e experiente. A direção de fotografia ficou sob responsabilidade de Zezão Reis e Jorge Costa. A direção de elenco teve assinatura de Thomé Azevedo. A direção de arte recebeu condução de Madu Vidigal. Já a direção de produção ficou nas mãos de Mário Garavello.

O som direto teve trabalho de Giorgio dos Santos, com Jorge Costa como 1º assistente, Damião Muniz como maquinista e eletricista, Luigi Negreiros como assistente técnico 1 e Edcarlos como assistente técnico 2.

Foto: Duda Films

Na pós produção, a trilha original recebeu criação de Alan Gomes e Robson Pereira. A mixagem e edição de som ficaram com Alan Gomes e Edilson Dutra. A montagem e finalização tiveram assinatura de Ícaro Reis, com apoio de João Alberto Jr como logger.

O universo visual contou ainda com concept art de Will Cruz e design de Tonico Silva. Nas redes sociais, o trabalho terá atuação de Vitor Vidigal, enquanto a assessoria de imprensa ficará sob responsabilidade de Pérola Pedrosa.

Foto: Duda Films

O projeto também assegurou acessibilidade com tradução e interpretação em Libras de Johnyelly Morais Ladislau e audiodescrição de Elza Oliveira. A assessoria jurídica teve condução de Victor Hugo Costa Sociedade Individual de Advocacia.

No elenco, “Magrela” reúne Luciano Melo, Adriana Raquel, Fátima Guedes, Gohan Hapcore, Geovani Coelho, Lucas Souza, Wenner George, Kellem Hemilly, Solange Smith, Adrian Smith, Anita Cordeiro Nascimento, Kelly Huany, Núbia Oliveira, Nelis Leão, Maryna Brito, entre outros artistas que fortalecem a narrativa do filme com identidade regional, talento e verdade cênica.

Gian Danton – Foto: arquivo pessoal.

Gian Danton

Gian Danton nascido no sudeste, mas há décadas radicado no Amapá, é um dos principais nomes da produção cultural do estado. Professor, escritor, roteirista de histórias em quadrinhos reconhecido e premiado nacionalmente, é um pesquisador que construiu trajetória ligada à valorização da narrativa amazônica, da crítica social e da formação de novos comunicadores e artistas. E também é imortal da Academia Amapaense de Letras. Sem dúvida, um representante de uma geração de intelectuais que ajudou a fortalecer a cultura produzida fora do eixo Rio São Paulo, sempre com linguagem acessível, reflexão e forte ligação com a identidade regional.

Ana Vidigal – Foto: arquivo pessoal.

Ana Vidigal

Ana Vidigal atua como cineasta, produtora cultural e articuladora do audiovisual amapaense. À frente da Duda Filmes, participa da criação de curtas, documentários, videoclipes e projetos independentes voltados para a valorização da cultura amazônica. O trabalho dela abre espaço para atores, músicos, técnicos e novos talentos do estado. Ou seja, fortalece a cadeia criativa construída dentro da própria Amazônia e ajuda a consolidar o cinema amapaense em festivais e mostras nacionais.

Festival Guarnicê de Cinema

O Festival Guarnicê de Cinema é um dos festivais de cinema mais antigos e respeitados do Brasil. Organizado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). O evento chega à 49ª edição em 2026, com programação prevista entre os dias 9 e 16 de julho, em São Luís, no Maranhão.

A Mostra Nacional Competitiva de Curtas Metragens reúne produções brasileiras de destaque e disputa o tradicional Troféu Guarnicê.

A chegada de “Magrela” à competição carrega um significado especial para a cultura do estado. O Amapá entra em cena mais uma vez com autenticidade, criatividade e coragem artística. Parabéns aos envolvidos. É isso!

Elton Tavares - Blog De Rocha

Perry Rhodan – O pseudo

 


Em 1836, o escritor russo Nicolai Gógol publicou pela primeira vez o sua peça teatral O inspetor-geral. A sátira era uma forte crítica à burocracia soviética e se situava numa aldeia em que os corruptos políticos locais descobrem que receberão uma visita de um inspetor do império e decidem corrompê-lo com todo tipo de suborno e regalia. Mas, na mesma época aparece por ali um trambiqueiro que se faz passar pelo inspetor.

Os autores da série Perry, em especial Clark Darlton, resolveram homenagear o autor russo no número 52 da série, conhecido aqui como O pseudo.

Na história, Laury Marten consegue roubar uma amostra do soro da imortalidade, mas ela, John Marshall e o Conde Rodrigo de Barceo ficam presos no planeta zoológico dos aras, sendo caçados pelos terríveis froghs. Para resgatá-los, Rhodan disfarça-se de inspetor de Árcon e leva consigo Gucky, que faz as vezes de criado pouco inteligente.

Mas o plano de Rhodan parece ir por água abaixo quando surge o verdadeiro inspetor arcônida. Se a semelhança da história com a do escritor russo não fosse o suficiente, Darlton ainda introduz mais uma dica: o inspetor verdadeiro chama-se Glogol.   

O título original do volume é O falso inspetor. 


Aliás, é o próprio Glogol que protagoniza uma das cenas mais hilárias de toda a série, quando Gucky faz cair sua calça, revelando que o poderoso inspetor na verdade está usando ceroulas cor-de-rosa e meias furadas. “Glogol usava ceroulas compridas. E um arcônida arrogante de ceroulas é uma figura ainda mais ridícula que um terrano que use a mesma vestimenta. A dignidade do inspetor se desvanecera”. A cena reflete diretamente a frase do poeta Punchin, o grande mestre literário de Gógol. Punchin dizia para o pupilo: “Faça-os rir, quem ri não tem medo dos poderosos”.

Em tempo: o título original alemão, O falso inspetor, deixa ainda mais clara a homenagem à obra de Gógol.

MAD 14 - Prepúcio

 

A sátira do filme Crepúsculo foi meu terceiro roteiro para a MAD. Foi um sufoco porque o filme ainda não havia estreado e tive que conseguir uma versão pirata. Fora isso, foi uma sátira que meio que se escreveu sozinha. O desenho ficou a cargo do grande Raphael Salimena. Nós enchemos a história de piadas de fundo, em especial na página dupla de apresentação dos personagens. Em um dos cantos aparecemos eu, o desenhista e o editora Raphael Fernandes como turistas. Eu comento: “Nossa, nessa cidade todos são virgens” ao que o editor responde: “Até os DVDs são virgens” enquanto segura o DVD “Fiz pornô e continuei virgem” (sim, existiu um filme com esse título!). Gosto particularmente da sequência do pai da Mella Swando com Fedward Cúllen.
Em tempo: já fui chamado de machista, racista e homofóbico por causa dessa capa, então gostaria de esclarecer que não desenhei a capa muito menos era o editor que escolhia a capa. 

Amolação interrompida, de Almeida Júnior

 


Almeida Júnior era, essencialmente, um Jeca. Talento precoce da cidade de Itu, foi estudar no Rio, na academia Imperial de Belas Artes, onde era conhecido por suas roupas e linguajar matuto.
Assim que pôde, voltou para Itu e ficou por lá até a cidade ser visitada pelo imperador D. Pedro II, que, ao ver a qualidade do artista decidiu bancar do próprio bolso a ida dele para a Europa.
Mas, em Paris, sonhava em voltar para Itu.
Já no Brasil, assim que ganhou fama o suficiente para usar os próprios temas, passou a pintar os caboclos do interior paulista.
Amolação interrompida é um dos melhores exemplos dessa fase. Na tela, um homem do interior está amolando um machado em uma pedra quando vê o pintor e cumprimenta-o. Na melhor tradição do realismo, a imagem do caboclo não é idealizada. Ele é mostrado como realmente eram os homens das fazendas do interior paulista, os pés descalços, a casa de pau a pique ao fundo.

Demolidor- O garra

 


Frank Miller foi revolucionário em muitos aspectos em sua fase à frente do Demolidor. Entre essas inovações, ele trouxe a quebra da quarta parede, em uma história publicada em Daredevil 185.

A história, muito influenciada pelo estilo de Will Eisner, gira em torno da namorada de Matt Murdock, Heather Glenn, que parece estar envolvida em sérios problemas – afinal ela descobriu que a empresa a qual ela é presidente parece estar envolvida em atividades ilegais, mais especificamente a fabrição de explosivas para uma rede criminosa. Como Matt Murdock acredita que ela deveria renunciar ao cargo para se tornar sua esposa (não fica claro se é simplesmente uma atitude machista dele ou se ele quer evitar que ela fique em perigo), Heather resolve pedir ajuda para Foggy Nelson, sócio de seu namorado.

Quebra da quarta parede: o Demolidor conversa com o leitor. 


Acontece que Foggy é, provavelmente, a pessoa mais inepta possível para o trabalho, o que nos dá o tom humorístico da história, a começar pelo início, em que o Demolidor conversa com o leitor e explica quem é. “Aposto que você está se perguntando porque estou contando tudo isso. Bem, é que o narrador da aventura deste é mês é Foggy Nelson, o sócio de Matt Murodock... e ele não sabe que eu sou o Demolidor. Então, por favor, não conte para ele”.

As sequências de humor são maravilhosas, a começar por aquela em Foggy resolve tentar descobrir o que está acontecendo por meios burocráticos. “Posso topar com um emaranhadozinho de burocracia, mas vou descobrir tudo... sem nem um SE nem um E ou um MAS”, afirma ele.

Foggy lidando com a burocracia governamental: influênica de Will Eisner. 


Em seguida vemos uma sequência dele saindo de vários departamentos públicos, e sendo escorraçado com frases que começam com SE, E ou MAS. Uma típica cena Will Eisner, que termina com o personagem sendo mostrado percorrendo um caminho e deixando atrás de si um rastro como se fosse uma corda emaranhada. “Eu disse emaranhadozinho de burocracia? Está mais para enrosco sem fim. Um fio longo e cheio de nós que não levam a lugar nenhum”.

A situação se torna ainda mais cômica quando Foggy resolve investigar no submundo, com o personagem sempre sendo mostrado saindo de cenas e diálogos do tipo:

- Não é da sua conta.

- Tudo bem.

- Cai fora.

- Tudo bem.

A repetição sendo usada como elemento de humor. 


No final, ele acaba sendo sequestrado e levado para um subchefe do submundo chamado Slaughter, que resolve matá-lo. mas o Demolidor apaga a luz e derrota todos os bandidos. É uma sequência que mistura ação e humor, já que Nelson acredita piamente que é ele que está realizando a façanha. Quando a luz é finalmente acesa, apenas ele e Tucão não foram nocauteados, o que faz com que Tucão resolva apresentar Foggy, agora chamado de O garra, para o Rei, como seu novo assassino profissional.

A HQ é uma maravilhosa comédia de erros.

Nelson acredita que foi o responsável por derrotar os bandidos e Tucão resolve se transformar em seu empresário. 


Uma curiosidade é que Miller fez apenas o roteiro e o layout, deixando o lápis e a arte-final para o parceiro Klaus Jason, que segue milimetricamente todas as indicações do mestre. A impressão que dá é que, depois da morte de Elektra, Miller se cansara da série – pouco depois ele iria para a DC onde revolucionaria o Batman.

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 34. 

Psicopata americano

 

Um homem narcisista, com uma vida totalmente vazia e um forte instinto assassino. este é Patrick Bateman, o protagonista do filme Psicopata Americano, dirigido por Mary Harron e lançado em 2000 com Christian Bale no papel principal.

Baseado no livro homônimo de Bret Easton Ellis, o filme conta a rotina de um executivo de um banco de investimentos. As eternas conversas com os amigos sobre os assuntos mais fúteis possíveis, as eternas tentativas de conseguir uma mesa no restaurante mais badalado de Nova York... é uma rotina vazia, fútil, sem sentido e movida a cocaína que encontra seu auge na cena em que eles começam a disputar quem tem o melhor cartão de visitas.

Curiosamente, em nenhum momento Bateman é mostrado trabalhando. Em uma poucas cenas do filme que se passam no seu local de trabalho em que ele não está disputando com os colegas quem é o melhor ou quem comprou mais coisas, ele é mostrado em seu escritório preenchendo palavras cruzadas.

Mas essa vida de ócio absoluto e eterno luxo não traz nenhuma satisfação. Bateman diz em vários momentos que não sente nada. E ele preenche esse vazio matando. Prostitutas, namoradas, uma senhora na rua e até um amigo que tinha um cartão de visitas melhor do que o dele são alvos dessa fúria assassina.

Mas essa faceta da sua personalidade é totalmente escondida da sociedade por uma máscara de civilidade.  Algo muito bem representado na cena em que o protagonista, diante do espelho, tira a máscara estética. Psicopatia e narcisismo representados em uma única cena.

Mas o filme é perturbador por mais uma razão: o expectador não sabe ao certo se o que está sendo narrado é real. Se Bateman é de fato um assassino ou se é tudo imaginação de uma mente doentia. Alguns indícios parecem apontar nesse sentido, como cenas que carecem de verossimilhança (em uma delas o protagonista explode um carro da polícia com um tiro de pistola).

Psicopata americano se destaca por conseguir unir o tema psicopata a uma forte crítica social. Afinal, não seria a sociedade de altos executivos um ambiente propício para a profilferação de narcisistas e psicopatas? 

Trabalhando como jornalista em Curitiba

 

Eu cheguei em Curitiba no outono, numa época de temperaturas medianas, por isso não me preocupei em comprar roupas de frio – até porque todo mundo dizia que só faria frio mesmo meses depois. Pouco depois fui para Minas Gerais visitar minha avó e, sem saber, passei todo o inverno lá. Quando voltei, a temperatura estava novamente amena, nada mais frio do que eu já estava acostumado em Minas.

Entretanto, no dia em que fui fazer a cobertura da primeira exposição do Núcelo de Quadrinhos o tempo mudou e fez um frio congelante, provavelmente o dia mais frio do ano.
Antonio Eder, tempos depois, me disse que circulou uma piada no Núcleo segundo a qual a Folha de Londrina pagava tão mal seus colaboradores que eles não tinham dinheiro nem para comprar agasalhos. Eu não estava usando nem mesmo meia (em Belém, na época, a moda era não usar meia, provavelmente por conta do calor).
Apesar desse imprevisto, o editor elogiou muito o texto e acabei ganhando a vaga. Também foi quando fiz alguns grandes amigos, a exemplo do próprio Antonio Eder.
Foi na Folha de Londrina que senti, pela primeira vez, o preconceito por ser do Norte. Já na segunda semana, o editor me passou um release sobre uma exposição a respeito da Revolução Federalista com a recomendação de que eu fizesse uma nota. Eu argumentei com ele que aquilo dava uma matéria.
- Mas não temos um carro para te levar lá. Todos os nossos carros estão ocupados com outras matérias.
- Não é problema. A exposição está acontecendo no Palacete do Barão é caminho para o local em que pego ônibus para voltar para casa.
Diante desse argumento ele concordou, meio desconfiado de que aquilo poderia de fato render uma matéria.
No final, o texto ficou tão bom, tão cheio de curiosidades históricas, que o editor em Londrina resolveu colocar como capa do Caderno de Cultura. Hoje é difícil entender a importância de emplacar uma capa de caderno, mas na época isso era um grande feito. Ainda mais pelo fato de estar apenas há duas semanas no jornal e por não trabalhar na sede (a maioria das capas era de matérias da redação de Londrina).
Isso gerou uma onda de ciúmes por parte de algumas pessoas.
- Esse pessoal vem lá do Norte querer nos ensinar a fazer jornalismo. – comentou alguém, como se fosse uma confidência para um colega, mas alto o bastante para que eu pudesse ouvir.
Qualquer que fosse a opinião de alguns na redação, isso não influenciou a opinião do Lobão, o editor, que percebeu que eu era bom de matérias históricas e começou a me passar todas as pautas desse tipo.
(Trecho do meu livro A árvore das ideias - clique aqui para baixar)

O budismo e a superação do sofrimento

 

A questão do sofrimento é a espinha dorsal da doutrina budista. Na verdade, a própria transformação de Sidarta Gautama em Buda inicia com uma jornada de sofrimento.

Gautama era um príncipe que foi criado pelo pai longe de tudo que pudesse ser desagradável. Preso dentro de um palácio em que tinha de tudo do bom e do melhor, um dia ele resolveu sair e encontrou um homem doente. Quando descobriu que ele também um dia ficaria doente, isso o deixou extremamente abalado. Em outra vez que saiu do palácio, ele encontrou com um homem velho. Ele nunca havia visto pessoas velhas e quando soube que também ele ficaria velho, isso o aterrorizou. Finalmente, numa terceira vez, ele viu um enterro e descobriu que ele também um dia iria morrer. Imaginem o horror da situação.

Para se livrar desse sofrimento, Sidarta inicia uma jornada que o faria se elevar à condição de Buda. Em sua iluminação, ele descobriu quatro nobres verdades: A verdade da existência do sofrimento; a verdade da causa e da origem do sofrimento; a verdade da cessação do do sofrimento; o caminho que conduz à extinção do sofrimento.

Embora seja normalmente traduzida como sofrimento, a palavra usada por Buda era “dukkha”. Dukkha era uma roda de carro de boi mal-feita, em que o orifício está mal centrado, o que faz com que ela se encaixe imperfeitamente no eixo, deixando a roda desalinhada. A dukkha fazia com que o carro sacolejasse e a viagem fosse acidentada, incômoda, um sofrimento.

Era uma metáfora: quando nossa mente não está centrada, o resultado é sofrimento.

As escrituras budistas dividem a dukkha em três categorias: dukkha do sofrimento comum; dukkha da transformação; dukkha do condicionamento.

Dukkha do sofrimento comum é o tipo mais óbvio de sofrimento: a doença, a velhice, a morte. Damos uma topada na mesa e sentimos dor. Ficamos velhos e sentimos dor nas mais variadas partes do corpo, adoecemos com mais facilidade. Esse tipo de dor é inevitável, mas o budismo nos ensina a lidar com ele de forma a sofrermos menos.

Dukkha da transformação é um tipo mais sutil e psicológico. O mundo está em constante transformação, em eterna mudança, mas tememos isso e nos protegemos numa fortaleza pessoal. Vivemos um momento de alegria e queremos que esse momento dure para sempre. Vivemos um momento de glória e queremos que esse momento dure para sempre. Experimentamos uma vitória e queremos jamais experimentar a derrota.

Mas é impossível agarrar esses momentos. O mundo está em eterna transformação. Num momento estamos felizes, no outro tristes. Num momento estamos no auge da vitória, no momento seguinte experimentamos a queda e a derrota. 

Quando o mundo à nossa volta se transforma, isso provoca sofrimento porque nos negamos a aceitar essa mudança.

O medo da transformação pode provocar inclusive tragédias, como nos casos dos homens que matam suas companheiras por ciúmes. Há um caso emblemático de um homem que era casado com um mulher de sorriso lindo, que garantia elogios de todos. Com ciúmes, ele pegou um martelo e quebrou todos os dentes dela. Ele tinha uma mulher linda, com um sorriso perfeito e deveria se sentir feliz com isso, mas, com medo de perdê-la, preferiu machucá-la e acabar com aquele sorriso. O medo da mudança fez com que ele não conseguisse aproveitar a companhia de uma pessoa tão bela.

O budismo nos ensina a viver o momento presente, sem nos atormentarmos com o futuro ou com o passado. O presente é o que realmente importa. Ao focarmos no futuro, perdemos o momento presente. Quantas vezes não olhamos para o passado e não percebermos o quanto tínhamos sido felizes em determinada situação, mas não havíamos valorizado isso?

O Dukkha do condicionamento é também chamado de sofrimento de fundo. É uma sensação de ansiedade, nos que nos leva a criar uma fortaleza à nossa volta para nos defender do fluxo da vida. "Renato Russo sintetizou isso nos versos: Tudo é dor e toda dor vem do desejo de não sentirmos dor".

Ao aprendermos a lidar com as situações, mantemos centralizada a nossa mente, superando a dukkha.