sábado, março 28, 2026

Homem-Animal – O último inimigo

 

 

Ao voltar de sua jornada psicodélica no deserto, no número 20 da série, o Homem-Animal descobre que sua mulher e seus filhos foram mortos, o que o coloca em uma jornada de depressão e, depois, vingança.

No começo, vemos o personagem catatônico, sendo cuidado pelos vizinhos. Para demonstrar visualmente o deslocamento do personagem da realidade, são introduzidos borrões nos quadros, como se ele tivesse apagado entre uma situação e outra. O recurso funciona muito bem e consegue, de maneira simples, demonstrar o estado de espírito do personagem.

Borrões são usados para expressar o estado de espírito do personagem. 


Em paralelo a isso, temos sequências com o assassino e seu encontro com a organização que ordenou as mortes. Descobrimos que se trata de um grupo que tem sido afetado pelas atividades ecológicas do Homem-Animal e pretende fazer com que ele pare de incomodá-los.  

O herói só sai do estado de depressão quando o Mestre dos Espelhos entra em contato dizendo saber quem foi responsável pela chacina. A partir daí, o Homem-Animal inicia sua jornada de vingança, matando um a um os responsáveis.

O herói embarca em uma jornada de vingança. 


Embora essa trama de vingança fosse, em muitos sentidos, semelhante à trama de vingança do Monstro do Pântano (o que é uma ironia, já que Morrison se apresentava como o anti Alan Moore), é uma história empolgante, na qual o personagem usa de maneira criativa os poderes animais. À certa altura, por exemplo, ele usa a habilidade de uma mosca de experimentar de maneira mais vagarosa a passagem do tempo e assim destruir um robô.

O herói usa a percepção de tempo de uma mosca. 


Vale lembrar também que, naquela época, super-heróis não matavam, não importa o motivo.

O bom desenvolvimento dessa história mostra a razão pela qual o Homem-Animal, um personagem obscuro da DC, se tornou o carro-chefe da revista DC 2000.

Machos alfa

 

 

Uma das melhores séries de comédia dos últimos tempos é a espanhola Machos Alfa, criada pelos irmãos Laura e Alberto Caballero e dirigido por Laura.

A história começa com quatro amigos fazendo um curso de desconstrução da masculinidade tóxica. Então a narrativa volta seis meses no passado e mostra os acontecimentos que os levaram ao curso.

Aí temos um dos maiores trunfos da série: a galeria impecável de personagens, todos muito diferentes entre si e muito bem caracterizados.

Pedro Aguilar é um executivo de TV que perde o emprego para uma mulher e, desempregado, vê a mulher se tornara uma digital influencer.

Santi é um arquiteto que trabalha com avaliações e vê sua vida virar de cabeça para baixo quando a filha resolve ir morar com ele e o inscreve no Tinder (os encontros de Santi com as pretendentes do Tinder são alguns dos momentos mais hilários da série).

Luís é um guarda de trânsito cujo relacionamento está em crise – a esposa o abandona para ficar com o personal trainner.

E, finalmente, o mais interessante, Raul, um dono de restaurante que trai a namorada, mas se vê em uma saia justa quando a namorada resolve abrir o relacionamento. Raul é o machão do grupo, mas, em várias situações acaba sendo também o mais desconstruído, em uma personalidade totalmente tridimensional que vai evoluindo ao longo da série. Ele é o que mais se defronta com os desafios da contemporaneidade. São essas características contraditórias de Raul que fazem com que ele protagonize as melhores cenas de Machos Alfa, como quando ele encontra com os pais ao frequentar um clube de swing.

Machos alfa consegue falar com leveza e humor dos mais variados temas atuais sem ser panfletário. É garantia de boas risadas.   

O conto da aia

 

 

Um dos gêneros literários mais importantes do século XX são as distopias. Três dos mais importantes livros do século são nesse gênero: 1984, de George Orwell, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury e Admirável Mundo Novo, de Adous Huxley. Uma obra que merece constar nessa lista é O conto da aia, de Margaret Atwood.
Escrito em 1985, o livro foi redescoberto diante do cenário político atual dos EUA. Foi transformado em uma premiadíssima série do serviço de streaming Hulu.
Mas o que diferencia O conto da aia de seus similares distópicos mais famosos? Essencialmente, o olhar feminino. Tanto o livro de Orwell quanto de Bradbury quanto o de Huxley foram escritos por homens e tinham homens como protagonistas. Margaret Atwood não só escreveu uma distopia com uma protagonista feminina: ela criou uma distopia cujas principais vítimas são mulheres.
Na história, os EUA são dominados por um grupo religioso puritano, que impõe uma rígida disciplina sobre as mulheres. Na história, um desastre em uma usina nuclear, associado a outros fatores, fez com que boa parte das mulheres se tornassem inférteis.
Mães solteiras, ou mulheres divorciadas ou casadas com homens separados são sequestradas e transformadas em mães de aluguel dos comandantes do regime. São obrigadas a usarem um vestido vermelho, que as identifica, e uma aba branca, que limita a visão, da mesma forma que é feito com cavalos. Sua função é ter relações com os comandantes cujas esposas são estéreis. O fruto dessas relações será posteriormente criado pelo casal. Se conseguir gerar um filho, a aia estará livre de se tornar uma Não-mulher e ser mandada para as colônias para onde são enviadas as mulheres inférteis, os gays, pessoas ligadas à indústria pornô e outros. O principal trabalho dessas colônias é limpar material radioativo, de modo que poucos duram mais que três anos.
A protagonista é sequestrada enquanto tentava fugir com o marido e a filha – e boa parte da angústia do livro é ela não saber o que lhes aconteceu.
O horror, em O conto da aia, está nos detalhes. Apesar da rígida rotina, em que uma palavra errada ou um gesto equivocado pode levar mulheres para a tortura ou para as colônias, o que mais impressiona são os detalhes, os pequenos gestos que demonstram a que essas mulheres foram reduzidas.
Em determinado ponto da história, por exemplo, uma das aias consegue conceber uma criança. Todas as aias da região são levadas ao hospital, assim como todas as esposas de comandantes. As esposas seguem em um carro luxuoso, enquanto as aias seguem em uma caminhonete com bancos de madeira. No hospital, as esposas se regalam com um banquete comemorativo enquanto para as aias é servido suco em pó – e a protagonista se sente feliz porque alguém se lembrou de colocar um pouco de álcool na bebida. “Somos úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes”, diz ela à certa altura.
Outros detalhes são igualmente impactantes, em especial as pequenas coisas que antes a protagonista podia fazer e agora lhe são terminantemente proibidas, tornadas pecados, como poder falar quando quiser, usar sandália no verão, ler uma revista no consultório de um médico...
O livro mostra como essas mulheres, submetidas a uma forte doutrinação são dominadas pelo complexo de Estocolmo: em determinado ponto elas começam a achar que o modo de vida que lhes foi imposto é o mais seguro, elas começam a gostar da prisão nas quais foram aprisionadas. Quando, em determinado ponto, ela consegue folhear uma revista feminina, ela se repreende por não se sentir má ao fazê-lo.
É interessante notar como, na trama o que começou pequeno vai se alastrando. Quando o regime se instala, as pessoas ligadas à pornografia e prostituição simplesmente somem. A protagonista vai comprar cigarros, a moça da loja comenta o assunto e diz que se sente até mesmo aliviada com isso, afinal é apenas o pessoal que trabalha com pornografia. No dia seguinte, a moça não está mais lá. No começo, todas as pessoas ligadas a uma religião parecem não sofrer com o novo regime, mas logo quackers, batistas e católicos começam a se enforcados e pendurados no muro para que todos vejam o que acontece com que não segue a religião oficial. No começo, todos os casamentos religiosos são aceitos, mas logo qualquer mulher que não tenha se casado na religião oficial poderá ser sequestrada e transformada em uma aia. Ou seja: se o totalitarismo não for barrado logo no início, ele logo engole até mesmo aqueles que apoiaram inicialmente o regime ou se acharam isentos de sua intervenção.
Da mesma forma que 1984 foi essencial na época em que foi escrito, O conto da aia se torna fundamental, numa época em que começa a se delinear um novo tipo de totalitarismo.

Homem de Ferro contra o Gavião Arqueiro

 

  

O Gavião Arqueiro é um dos principais heróis da Marvel, conhecido do grande público por todos aqueles que viram os filmes dos Vingadores. O que poucos sabem é que o personagem surgiu como vilão das histórias do Homem de ferro, mais especificamente em Tales of suspense 57. 

Ao ver o ferroso em ação no parque de diversões no qual trabalhava, Clint Barton resolve também se tornar um herói: "Que o Homem de Ferro… e todos os outros aventureiros fantasiados cuidem de suas glórias... pois o Gavião Arqueiro está prestes a fazer todos parecerem doentes!" afirma ele, após vestir a fantasia. 

O arqueiro resolve se tornar um herói depois de ver o ferroso em ação... 


Mas os dias de herói duram pouco. Ao tentar impedir um assalto ele é confundido pela polícia com um ladrão e passa a ser perseguido. Quem o salva é ninguém menos que a Viúva Negra, que nessa época era uma espiã comunista - todos os vilões da série eram comunistas, fazendo com que as histórias do Homem de Ferros fossem as mais políticas da Marvel.

A viúva convence o novato a enfrentar o Homem de Ferro, o que não é muito difícil, uma vez que ele fica encantado com ela. E como um Arqueiro poderia derrotar um Homem de Ferro? Usando flechas de ferrugem, claro! 

... mas é confundido com um ladrão ao tentar impedir um assalto a uma joalheria.


Nessas histórias a diversão era mais importante que a verossimilhança, tanto que em determinado ponto o herói verga o esteio de uma ponte para jogar o outro na água, o que mostra que Lee nunca andou sobre uma ponte de madeira, ou teria percebido que esse tipo de madeira não é flexível.

Interfaces midiáticas e quadrinhos

 


 
Já está disponível, no site da editora da Unifap, o livro Interfaces midiáticas e quadrinhos, organizado por mim e pelo Rafael Senra. 

O livro, uma co-edição da editora da Unifap e da Verter, reúne artigos apresentados no IV Aspas Norte. 

Nas palavras de Rafael Senra, "Temos aqui autores de todo o Brasil, com artigos que envolvem o tema dos quadrinhos analisados sob diversas metodologias e abordagens. Seja com trabalho de campo, atividades didáticas ou pesquisas bibliográficas, temos aqui reunidos trabalhos de alto nível acerca dos quadrinhos e do diálogo desse meio com diversas mídias. ".

O e-book pode ser baixado gratuitamente clicando aqui: https://www2.unifap.br/editora/files/2024/04/Livro-Interface-Midiatica.pdf

A arte de Michel Blanc-Dumont, o desenhista dos faroestes

 


Michel Blanc-Dumont é um desenhista de histórias em quadrinhos francês conhecido por seu trabalho em álbuns de faroeste. A arte vem da família: o pai era restaurador de pinturas e outros objetos de arte.

Enquanto ajudava seu pai no trabalho de restauração, ele desenvolve um grande interesse pelos nativos norte-americanos e sua cultura.

Em 1973 ele começou a publicar quadrinhos, inicialmente nas revistas Phénix.

Em 1974 ele iniciaria sua pareceria com o roteirista Laurence Harlé na série Jonathan Cartland, criada pelos dois. A série era publicada originalmente na revista  Lucky Luke Magazine e depois reunida em álbuns.

A experiência de Michel fez com que ele fosse escolhido para desenhar, a partir do ano 2000, a O jovem Blueberry, baseado no famoso personagem criado por Charlier e Giraud (Moebius).











sexta-feira, março 27, 2026

Fundo do baú - Vingadores do espaço

 


Uma das primeiras séries tokusatsu (filmes de efeitos especiais), Os vingadores do espaço foi baseado numa história em quadrinhos de Osamu Tezuka. O mangá chamava-se “Ambassador Magma” e era publicado na revista Shonen Gahosha Magazine. Tezuka já tinha ideia de transformar a história numa animação, então quando a Mushi Productions o procurou para fazer uma versão live action, ele concordou na hora.

Na história, o vilão alienígena Rodak quer conquistar a Terra como conquistou diversos outros planetas. Para isso ele envia ao nosso planeta diversos monstros para provocar o máximo de destruição possível.

Mas em seu caminho está o sábio Matuzen (nitidamente baseado no Matusalém da Bíblia), um velho com longos cabelos e barbas brancas que mora no Monte Olimpo. Matuzen cria dois robôs para proteger o planeta Terra: Goldar e sua esposa Silvar. Os nomes são referências às cores dos personagens. Goldar é dourado e Silvar é prateada.

Goldar é um robô gigante que emite raios por suas antenas e mísseis por uma abertura em seu peito. A esposa, embora de tamanho normal, também é muito poderosa e também emite raios pelas antenas. Ambos também transformam-se em naves espaciais.

A série é baseada num mangá de Tezuka. 


Mais à frente, quando Goldar começa a intervir no nosso planeta, ele conhece o garoto Miko. Silvar fica encantada com a figura da criança e pede para Matuzen criar um filho para eles. Assim surge o garoto-foguete Gam, que se torna o melhor amigo de Miko. Aliás, o garoto Miko recebe um apito, no formato de foguete, com o qual pode chamar qualquer um dos robôs, o que ele faz nos momentos de maior perigo, como quando Goldar está lutando com um monstro e um bebê precisa ser retirado de um prédio (o curioso é que, embora a região seja repleta de prédios de isopor, aparentemente só morava a família no bebê na região).

Os efeitos especiais eram simplórios, mas eficientes. Um jogo de montagem fazia com que os robôs se transformassem em foguetes e os mísseis que saíam do peito de Goldar eram desenho animado. O rosto do vilão Rodak era uma máscara que não se movia, dando um ar artificial para o personagem. Além disso, um robô cabeludo podia funcionar nos mangás, mas ficava estranho no seriado.

No Brasil Os Vingadores do Espaço estrearam na TV Tupi e depois foram para a Band. Nos anos 80 foram reprisados pela Band. 

Ken Parker – Os pioneiros

 

Algumas histórias de Ken Parker poderiam facilmente serem adaptadas para o cinema – e com certeza dariam bons filmes.

O episódio Os pioneiros, número 53 da série, é um exemplo. A história tinha toda a estrutura para se transformar num bom filme.

A trama começa com Ken Parker salvando um fazendeiro no meio de uma tempestade areia. O homem havia tentando ir para a cidade chamar um médico para o filho, que arde em febre. Pioneiro da região, ele viu o rio secar e toda a sua fazenda se transformar num verdadeiro deserto.

Trevisan dominava perfeitamente a narrativa visual. 


Essa história tem um enredo muito parecido com o de um filme famoso, Os brutos também amam: um desconhecido chega a uma fazenda com sérios problemas, passa a ser idolatrado pelo filho do casal e desperta a paixão da esposa do fazendeiro.

Mas Giancarlo Berardi traz questões e dilemas que vão muito além de Os brutos também amam. Uma das mais interessantes é caracterizar o fazendeiro como um pacifista, que jogou fora a única arma que tinha em casa. A trama toda gira em torno desse dilema: pode alguém pacifista continuar íntegro no meio de um ambiente bruto como o velho oeste?

A sequência em que Parker ensina o garoto a caçar é memorável.


A edição traz momentos memoráveis: Ken Parker ensinando o menino a caçar; a esposa enlouquecida com a morte do filho mais novo; a própria tempestade de areia. Essas sequências são destacadas pelo ótimo desenho de Trevisan, com traços soltos e rápidos e ótima narrativa visual. 

Homem-Aranha – A volta do Dr. Octopus

 

No número 11 da revista do Homem-aranha, Stan Lee E Steve Ditko trouxeram de volta um vilão que se tornaria um dos mais importantes do panteão do personagem e inauguraram algo que seria uma das marcas da série: a identidade secreta interferindo na vida amorosa de peter Parker.

A splash page inicial, genial por sua capacidade narrativa, já dava o tom da história. Betty Brand soca o peito do homem-aranha e diz: “Eu te odeio, Homem-aranha! Vou te odiar até o dia da minha morte!”. A legenda, acondicionada dentro de um ponto de interrogação: “Estará o Homem-aranha fadado a perder sua amada Betty Brand? Como isso aconteceu e por quê?”. Ao fundo, a sombra do doutor Octopus estende seus tentáculos sobre os dois. A legenda afirma no melhor estilo marqueteiro da Marvel: “Ninguém a não ser Stan Lee, poderia ter escrito essa história épica! Ninguém menos que Steve Ditko poderia ter desenhado cenas tão arrebatadoras”.

Uma aula narrativa numa única página. 


Na história, o Dr. Octopus termina de cumprir sua sentença e vai ser libertado. O Homem-aranha resolve visitar o presídio para tentar convencer o diretor a não libertar o vilão, o que mostra que Peter Parker poderia ser um gênio da ciência, mas não entendia nada de direito.

Claro que o diretor não aceita a sugestão e Parker resolve monitorar o vilão criando o rastreador aranha, que aparece pela primeira vez nessa história, embora ainda não tivesse esse nome.

Homem-aranha, seu desastrado. 


Para provar que o Homem-aranha era um personagem diferente até mesmo dos diferentões da Marvel, temos uma situação inusitada: à certa altura, ele cai de mal jeito e machuca o tornozelo. Quem poderia imaginar o Thor passando por algo semelhante?

Até o último homem

 

Até o último homem conta a história real do herói de guerra Desmond Doss, interpretado por Andrew Garfield. Objetor de consciência, Doss se recusava a pegar em armas, ou matar. Mesmo assim foi para a guerra para ajudar os soldados como médico. Chamado de covarde e quase levado à corte marcial, Doss conseguiu salvar 70 soldados feridos. Depois de uma investida fracassada, todas as forças recuaram e descem o despenhadeiro, e só ele fica lá no alto de uma montanha, resgatando os soldados feriados em meio ao bombardeios e patrulhas de soldados inimigos.
Até o último homem é a história de um homem que coloca suas convicções e princípios acima do grupo. A maioria das pessoas se adequa ao grupo, mesmo que isso vá contra aquilo que eles acreditam como certo. Cristão adventista, Doss acredita que matar é pecado e não se deve revidar uma agressão. Isso o faz enfrentar agressões dos colegas e todo o comando do exército para, ao final, ir para a guerra sem nada além de gaze, morfina e outros medicamentos.  
O diretor, Mel Gibson, consegue equilibrar perfeitamente a narrativa, o conflito interno do personagem (que é acusado por todos de covarde) é tão interessante quanto o conflito externo. O expectador sabe que ao final ele irá se revelar um herói (está na sinopse do filme), mas ainda assim fica hipnotizado pela narrativa. Gibson sabe filmar cenas de guerra, mas é ainda mais certeiro ao filmar as cenas de salvamento. Todo o esforço do soldado que passa a noite inteira andando pelo campo inimigo rezando para salvar mais um é sentido na pele pelo telespectador. E não tirá-los do campo inimigo: ele precisa descê-los pelo despenhadeiro com uma corda. A atuação de Andrew Garfield, aliás, ajuda muito.
Ao terminar, ficamos nos perguntando como seria o mundo se tivéssemos mais cristãos como Desmond Doss.

A criatividade é o oposto da burocracia

 

O conceituado sociólogo italiano Domenico De Masi afirma que o século XXI será o século da criatividade. De fato, mais que qualquer bem material, a criatividade é um dos bens mais valiosos da atualidade.


Vejam, por exemplo, Bill Gates. O que fez dele o homem mais rico do mundo? Terras? Ouro? Fábricas? Não. O que ele tinha era uma idéia que facilitava o uso dos computadores.

A primeira e mais importante coisa para se dizer a respeito da criatividade é que ela é o oposto da burocracia.

O burocrata faz sempre as mesmas coisas, do mesmo jeito, e nunca erra, mas também não cria nada.

Você já reparou que quando um time está sendo incapaz de inovar, de surpreender o adversário, o locutor diz que a equipe está jogando um "futebol burocrático" ? E é isso mesmo: o burocrata é aquela pessoa incapaz de encontrar soluções novas para os problemas, seja um jogador de futebol ou um político.

A burocracia surge onde há o medo de errar.

Há chefes que dizem aos seus subordinados: "Não admito erros!". Se alguém lhe mostra um trabalho que apresenta algum problema, ele a repreende severamente.

Outros dizem: "Tenho sempre razão e demito qualquer funcionário que me disser o contrário".

Chefes assim são criadores de burocratas, pois seus subordinados, com medo da bronca, vão sempre fazer as mesmas coisas que já deram certo anteriormente e vão sempre concordar com ele. Ou seja, serão incapazes de criar.

Santos Dumont errou muito antes de inventar o avião. 



Os exemplos de invenções que começaram com erros são inúmeros. Santos Dumont, por exemplo, passou por vários vexames antes de conseguir criar um avião capaz de voar.

Muitas vezes o novo surge justamente do erro. O Champagne foi um vinho que fermentou. Cristóvão Colombo achava que chegaria às Índias navegando para o oeste. Errou feio, mas descobriu a América.

E quantas outras invenções e descobertas não surgiram em decorrência do erro?

Mas quem tem medo de errar, e incute esse medo em seus funcionários, fica parado, não evolui, e leva a breca.

Há algum tempo a revista Exame publicou uma matéria intitulada "A excelência mata". Nela, temos contato com vários casos de empresas que fracassaram por serem certinhas demais, em outras palavras, burocráticas.

Um ótimo exemplo é a Olivetti. Ela durante muito tempo dominou completamente o mercado de equipamentos para escritórios, fabricando máquinas de escrever.

Quando surgiram os primeiros computadores pessoais, os PCs, ela resolveu não investir. Afinal, os computadores eram caros e na época só os nerds pareciam se interessar por eles.

A Olivetti teve medo de errar e hoje está com um mercado que em breve não terá mais demanda.

Claro que passar o resto da vida se conformando com os próprios erros não vai tornar ninguém mais criativo, mas compreender que o erro é um risco quando se quer ser criativo, já é bom caminho.

Nas palavras de Domenico de Masi: "Enquanto o burocrata tem razão nove vezes em dez, o criativo, erra nove vezes, mas quando acerta uma vez, está abrindo novos caminhos para a humanidade. Na sociedade pós-industrial haverá cada vez menos lugar para burocratas".

Perry Rhodan – Comboio para o desconhecido

 


K.H. Scheer é um dos criadores da série Perry Rhodan e também um de seus melhores autores. Somente ele poderia salvar o volume número 238, no qual não acontece praticamente nada.

A história gira em torno da tentativa de descobrir um planeta que possa servir de base e esconderijo para os terranos no sistema Andro-Beta. Há, no começo, um conflito entre Atlan e Perry Rhodan, já que o primeiro autorizou que uma das naves saísse em busca de um planeta apropriado quando a Crest ainda estava presa em uma armadilha dos Duas Trombas. Nessa, como em todas as outras situações, Atlan tem razão. Aliás, é incrível a quantidade de enrascadas nas quais Rhodan se envolve por não escutar o arcônida, uma situação que vai se repetir diversas vezes durante o quinto ciclo.

A nave pesquisadora inclusive introduz um disfarce, com várias aletas que modificam seu formato, o que será fundamental mais tarde para disfarçar a presença dos humanos no sistema.

A capa original alemã. 


Mais da metade do livro é dedicada aos preparativos para ocupar o planeta gelado. O que salva são as ótimas descrições, a exemplo de: “Um monstro atravessava velozmente os grandes espaços cintilantes da nebulosa Andro-Beta. A cauda de mil e duzentos metros de comprimento e quatrocentos metros de diâmetro fazia chicotear as ondas de impulsos energeticamente condensadas e expelidas em alta densidade”.

A ação só começa mesmo no penúltimo capítulo, quando uma frota inimiga aparece nas proximidades do local escolhido e a nave de Atlan precisa afastá-la dali. Atlan cria todo um estratagema: uma nave menor, pilotada por piloto automático, é maquiada e colocada no espaço para simular uma perseguição, dando a entender que a nave maior apenas passara pelo local em busca de outra.

Scheer demora muito para começar a ação, mas quando começa, o faz com maestria. Na Segunda Guerra Mundial, ele tinha sido tripulante de submarino alemão, e isso fazia dele a pessoa certa para narrar o combate entre naves.

O escritor chega ao detalhismo de se preocupar até mesmo com a questão do barulho provocado pelos canhões e pelos impactos dos tiros das naves inimigas. “Os novatos quase chegavam ao ponto de enlouquecer. Não era por nada que o regulamento de combate exigia o uso de trajes espaciais que incluíam capacetes de isolamento acústico e grossos tapa-ouvidos.”

quinta-feira, março 26, 2026

O processo de elaboração da capa do livro Cabanagem

 

O ilustração da capa elaborada por Chris Ciuffi para meu livro Cabanagem está recebendo os mais diversos elogios. De fato, é uma ilustração poderosa, belíssima, que conseguiu reunir os diversos elementos do livro, em especial o histórico e o mitológico. É uma capa que "conta a história".
Mas para chegar a esse resultado realmente fenomenal foi necessário todo um processo. Entenda quais foram os passos desse processo. 
Esse foi o primeiro esboço do desenhista, só com os elementos básicos, mostrando como seria a composição da ilustração. 

Aprovado o esboço, Chris produziu uma imagem mais detalhada de como seria a capa. Eu considerei que o personagem dentro da água deixaria a cena mais emocionante. Além disso, na imagem final, o personagem trocou o facão e a arma de fogo de mão. Um problema deste desenho que foi consertado foi justamente a arma de fogo: Chris desenhou um revólver, que não existia na época, e foi substituído por uma garrucha no desenho seguinte. 

Aqui o lápis definitivo. Eu gostei muito da imagem, mas o rosto do personagem me incomodou, pois os traços davam um ar de maldade, deixando a impressão de que ele era o vilão da história. .Nessa imagem já aparecem sombras ao fundo, que representam os seres da floresta. A ideia aí não era mostrar diretamente esses seres mitológicos, mas apenas sugeri-los, algo que faço muito no próprio livro. O desenhista inclui aqui uma cobra vindo na direção do cabano. Embora essa cena não exista no romance, ela deu dramaticidade à imagem e a impressão de perigo ininente.  
Essa foi a versão definitiva do lápis. A imagem ficou tão boa que bastou colorir. A versão colorida dessa imagem se tornou a capa definitiva, sendo necessários apenas alguns ajustes.
 Essa é a versão colorida do último desenho. Ficou muito boa, mas foi necessário uma pequena mudança: o facão estava confundindo com o fundo e sugeri que fosse dado um brilho de metal nele, destacando sua lâmina.
O livro já pode ser comprado no site da editora: https://aveceditora.com.br/produto/cabanagem