quinta-feira, fevereiro 26, 2026

O zen e o epicurismo

 


O budismo e o epicurismo surgiram em períodos relativamente próximos e há tempos tenho observado muitos pontos de contato entre essas duas filosofias, o que pode significar que em algum momento houve alguma troca cultural (Epicuro teria entrado em contato com o budismo? Posteriormente o budismo teria assimilado algo do epicurismo?). Apresento aqui alguns pontos que considero semelhantes entre eles, mas lembrando que não sou exatamente um especialista no budismo (de modo que amigos que saibam mais sobre o assunto podem complementar).
Uma das bases do epicurismo é a ideia de moderação. Devemos ser moderados em tudo que fazemos, exercitando um auto-controle como forma de conseguir a felicidade. Mesmo algo que dá prazer, como comer, deixa de ser prazeroso se a pessoa se empanturra e passa mal (e, lembrando que, para Epicuro, prazer era o oposto de dor, se algo traz sofrimento não é prazer verdadeiro). Comer o suficiente, sorvendo os alimentos, é muito mais sábio que comer como um doido, mal sentindo o gosto do alimento. O mesmo vale para todas as outras instâncias da vida. Para Epicuro devemos ser moderados em tudo que fazemos. Lembra muito o caminho do meio da filosofia budista. Antes de se tornar Buda, Sidarta viveu primeiro uma vida de luxo e abundância, como príncipe. Depois tornou-se um asceta (e dizem que nessa fase ele comia um grão de arroz por dia). Quando se iluminou, percebeu que esses dois extremos eram negativos. O certo é não comer até se empanturrar e nem passar fome. Lembra as ideias de Epicuro, não?
Epicuro dizia que boa parte da nossa infelicidade é provocada pelo medo da morte. As pessoas deixam de viver o momento por medo do que acontecerá no futuro. E é um medo sem razão: se existir vida após a morte, ainda estaremos vivos, então não há porque temer a morte. Se não existir vida após a morte, então não estaremos lá para lamentar isso e, portanto, não fará diferença. Lembra muito a ideia zen-budista de foco no presente. A ideia é que não devemos nos preocupar com o que acontecerá no futuro, mas vivermos o momento presente da melhor forma. O meditação zazen, inclusive, ajuda nisso: em manter o foco no agora.
Epicuro dizia que tudo é formado de átomos, partículas elementares das quais tudo é feito e que as diferentes formas são apenas diferentes organizações desses átomos. Um cachorro é feito da mesma substância primordial de uma pedra. A ciência moderna resumiu esse pensamento no princípio de que somos feitos de poeira das estrelas. Lembra muito a ideia budista de vazio, em que as coisas são na verdade feitas de outras coisas, não tendo uma substância, uma essência. A essência de todas as coisas é a mudança. Assim, uma mesa não é uma mesa, ela está mesa (mas antes foi uma árvore, se foi feita de madeira).  
Epicuro era um crítico das filosofias deterministas (como o estoicismo) e acreditava que não existe destino, ou seja, o ser humano é dono de seu próprio destino, sendo o único responsável por suas decisões. Lembra muito as palavra do monge Genshô: “Se houvesse destino nossas decisões estariam prejudicadas pois o que quer que fizéssemos o destino decidiria por nós, um absurdo lógico, se assim fosse nenhum criminoso seria responsável e sim o destino, nenhum ato bom teria mérito também”.

Handmaid´s Tale

 

Já faz algum tempo que as séries ultrapassaram o cinema americano em termos de qualidade, em especial de roteiro. Seriados como Black Mirror, Mindhunter e Black são exemplo disso. Em uma constelação de séries tão boas atualmente em exibição, Handmaid´s tale já se firma como uma das melhores. 
Adaptado do livro de Margaret Atwood, a série mostra uma distopia na qual os EUA foram dominados por cristãos fundamentalistas. Na história, as mulheres férteis são feitas prisioneiras e transformadas em árias, cuja função é conceber os filhos dos comandantes da sociedade (na história a maioria da população ficou estéril após um acidente em uma usina nuclear). 
Handmaid´s tales é um daqueles poucos exemplos em que a adaptação superou a obra original. O livro de Atwood é todo narrado por uma aia, cuja visão de mundo é limitada à casa na qual é praticamente prisioneira. O seriado extrapola essa prisão, mostrando o mundo como um todo de forma absolutamente coerente com a obra original. Mostra ainda como essa sociedade se estruturou desde o início, como as mulheres foram sendo afastadas de qualquer forma de poder - inclusive sendo proibidas de ler, já que informação é poder. 
A decisão de transformar a esposa do comandante, Serena Joy, em uma escritora de sucesso cujas ideias tiveram impacto sobre a configuração da distopia foi um dos grandes acertos - no livro ela é uma ex-apresentadora de TV. A ironia que surge daí - alguém cujas ideias ajudaram a conceber uma sociedade que tirou boa parte de seus direitos - é bem explorada no seriado. A relação dela com a aia também acabou se mostrando mais complexa no seriado - da ternura à tirania. 
Enfim, Handmaid´s tale é fundamental pelo roteiro inteligente, pela direção competente (que se aproveita continuamente da roupa das aiais como elemento estético às vezes de beleza, às vezes de tristeza, às vezes de rebeldia). E mais fundamental ainda pelas questões que levanta: estamos de fato tão distantes assim de tal distopia?

Vingadores – A invasão dos homens-lava

 


O quinto número da revista dos Vingadores mostrava uma trama reciclada à exaustão. Seres das profundezas que ameaçavam a humanidade já tinha aparecido no Quarteto Fantástico, Hulk e Thor.

Na história, uma montanha esverdeada surge no sudoeste dos Estados Unidos. A mesma provoca sons terríveis, verdadeiras bombas sonoras, capazes de provocar grande destruição.

Os homens-lava já tinham aparecido antes numa história do Thor. 


 Ao investigar, os Vingadores descobrem que a ameaça é obra dos homens-lava, que, ao ver a montanha surgir em seus domínios, resolveram expulsá-la para a superfície. Ocorre, no entanto, que o artefato é tão poderoso que poderá partir o planeta ao meio, acabando com toda forma de vida. E não é possível destruí-la: toda vez que é atingida, a formação natural emite um de seus sons destruidores.

Rick Jones torna-se parceiro do Capitão América. 


Ou seja, é uma trama eletrizante, que aproveita muito bem a premissa inicial e o grupo de heróis. É a primeira vez, por exemplo, que temos uma trama paralela, que aliás, é usada como elemento de suspense: o Gigante descobre o ponto fraco da montanha, mas só Thor seria capaz de atingi-lo com seu martelo. Mas thor está preso em outro lugar, transformado novamente em Donald Blake. Para piorar, o Hulk surge ali e começa a atacar os vingadores restantes. Como sobreviver ao golias esmeralda e, ao mesmo tempo, destruir a rocha verde?

Uma dica para os "especialistas" em George Orwell

 


Com essa febre Bozo tenho visto muitas pessoas que se dizem especialistas em Orwell usando-o para justificar ditaduras e até mesmo o projeto escola sem partido. "Especialistas" que só devem ter lido 1984 e Revolução dos bichos.
Vai uma dica de leitura: A filha do reverendo, um livro escrito por Orwell exatamente para criticar os defensores de projetos como o Escola sem partido. No livro, uma moça trabalha como professora e é denunciada pelos pais por encenar com seus alunos a peça MacBeth, de Shakespeare. A moça acaba perdendo o emprego e é execrada porque, segundo os pais, estaria ensinando sexo para as crianças, já que a peça tem uma referência ao parto.  O livro analisa como as convicções dos pais podem fazer uma peça teatral clássica ser ser vista como uma aula sobre sexo.
Fica a dica de livro para os "especialistas" em Orwell.

Palacete Bolonha

 


Quando morava em Belém, uma das minhas curiosidades era conhecer por dentro o Palacete Bolonha, situado na Avenida Governador José Malcher. Atualmente o local foi comprado pela prefeitura e transformado em Museu, com visitas diárias. É um local obrigatório para turistas em Belém.

Construído em 1905, em pleno ciclo da borracha, ele foi projetado pelo engenheiro Francisco Bolonha como local de moradia para ele e sua esposa, a pianista carioca Alice Ten Brink. Tudo leva a crer que ele pretendia usar a suntuosidade do palacete para convencê-la a se mudar para a capital paraense. Para isso ele não economizou. O mármore instalado na escada e no banheiro veio diretamente de Carrara, na Itália. Os aluzejos também vinham da Europa.

Bolonha tinha estudado na Europa e se especializara em hidráulica e resolveu aplicar todo o seu conhecimento no palacete. A residência tinha, por exemplo, água encanada, uma novidade na época. A água chegava até mesmo aos andares superiores, o que certamente era alvo revolucionário na Belém do início do século XX.

De onde vinha tanto dinheiro? Bolonha foi o responsável por obras fundamentais na Belém da época, como o Bar do Parque e o Mercado de Carne do Ver-o-peso. Além disso, era dono da primeira fábrica de gelo de Belém.  

Depois da morte de Bolonha, Alice leiloou a casa e seus móveis, de modo que quem comprou a casa acabou ficando sem boa parte dos seus móveis originais. Algum tempo depois, a família que comprou a casa passou por dificuldades financeiras e, para angariar dinheiro, vendeu o mármore da escada, colocando em seu lugar madeira de lei.

Com uma mistura de estilos, com predomínio de Belle Epoque, o Palacete Bolonha é uma declaração de amor do engenheiro à sua esposa.

O palacete funciona para visita de terça a sexta de 9h às 13h e de 14h às 16h. Como as visitas duram uma hora é bom chegar antes do horário de fechamento. A visita é gratuita e não é necessário agendar com antecedência.  

Os degraus da escada foram vendidos e substituídos por madeira. 

O desenho do prédio impressiona pela beleza. 

No banheiro, mármore de carrara. 

Bolonha mostrava preocupação com cada detalhe. 

A sala de música é uma das mais belas do prédio.

Até mesmo o teto é decorado. 

As lajotas vieram da Europa. 

O Palacete foi o primeiro prédio de Belém a ter água encanada. 

Conan – Terra maldita

 

O filipino Ernie Chan ficou famoso por artefinalizar o traço de John Buscema em Conan. Mas em algumas edições ele mostrou que também era um desenhista incrível, como podemos ver na história Terra Maldita, escrita por Jim Owsley e publicada em Conan the barbarian anual 10.

A história começa com uma festa na província de Alhmet, durante o casamento do Barão Shamir.  A nova baronesa está inebriada pelo poder e resolve abusar do bobo da corte. Quando este reage, ela manda prendê-lo. Mas, no calabouço, ele encontra um antigo segredo.

Após ser preso no calabouço, o bobo da corte descobre um segredo terrível. 


A história pula dois anos. O rei de Turan está sitiando o local depois que os impostos não foram pagos. O rei quer que a qualquer custo o castelo seja tomado e para isso o general encarrega Conan e outros homens para invadirem o local e abrirem os portões. É uma missão suicida, tanto que no final, apenas Conan e um soldado chamado Redondo conseguem penetrar no castelo. Lá eles vão descobrir um segredo terrível. O bobo da corte dominou algum tipo de poder maligno e está controlando o Barão. Claro que conan termina enfrentando uma criatura monstruosa e terrível, como normalmente acontece em suas histórias.

Uma das sequências mais criativas é a do olho gigante. 

Embora o texto de Owsley seja no máximo competente, ele consegue consegue construir uma história interessante (embora o mote principal da história seja muito mal explicado).

O maior destaque da edição, no entanto, é o desenho de Chan. Embora não tenha a noção de movimento de John Buscema, o filipino consegue passar um ar de opressão com seu traço hachurado que combina perfeitamente com a trama, dando a ela um certo clima de terror.

quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Dylan Dog – Mater Dolorosa

 

Mater dolorosa é uma graphic novel de Dylan Dog lançada em 2018 pela editora Mythos. Escrita por Roberto Recchioni e ilustrada por Gigi Cavenago, a HQ destrincha parte da história do personagem. Se a outra história escrita Roberto Recchioni, Mater Morbi, era focada em uma nova vilã-amante, em Mater Dolorosa o foco está no embate desta com a mãe de Dylan.

A trama parece se relacionar excessivamente com a anterior, Mater Morbi, e a introdução escrita por  Júlio Schneider ajuda pouco nesse sentido, mas ainda assim é possível ler e enteder a trama, embora muitos pontos passem despercebidos dos leitores menos habituais (ou que leram há muito tempo as históris de Dylan, como foi o meu caso).

O desenho de Gigi Cavenago é o grande destaque do álbum. 


O texto é primoroso, mas o grande destaque é a arte de Gigi Cavenago. Só ela já vale a capa dura e o papel couchê. As belíssimas sequências do navio de Mater Morbi são impressionantes. Cavenago consegue unir realismo, expressionismo e surrealismo em um único quadro.  

O ditador

 

O Ditador é um filme de Sacha Baron Cohen (Borat) lançado em 2012. Foi, certamente, a melhor comédia do ano, o tipo de filme que você ri tanto que acaba perdendo alguma coisa. As piadas já começam nos nomes: Alladim é o ditador de Wadyia, um país rico em petróleo que está criando sua própria bomba atômica (todos os meus amigos ditadores têm armas atômicas, reclama o protagonista, como uma criança birrada). Para evitar um ataque da ONU, ele precisa ir a Nova York fazer uma declaração. É quando ele sofre um atentado e é substituído por um sósia. O filme desconstrói as expectativas, fazendo o expectador torcer por um odioso ditador.
Difícil destacar qual a melhor cena. Talvez aquela em que o ditador muda o dicionário, trocando várias palavras pelo seu nome, inclusive positivo e negativo (o médico, com o resultado de um exame na mão pergunta ao paciente se ele quer a informação Aladim ou Aladim) ou aquela em que o ditador precisa aliviar os bolsos de peso e se descobre que ele levou uma garrafa de água de coco, três bananas e dois tijolos,ou a cena da corrida, que virou meme, na qual ele atira nos outros corredores, ou a cena em que ele defende os benefícios da ditadura, mas parece estar falando da democracia americana.

MAD: Big Barraco Brasil

 

Eu sempre fui muito fã da MAD. Desde que comecei a ler quadrinhos com mais frequência, no início da adolescência e encontrei os sebos, era uma das minhas leituras prediletas. Em 2008 a revista voltou a ser publicada pela editora Panini, após um longo hiato, e eu resolvi entrar em contato com o editor, Raphael Fernandes, me oferecendo para escrever roteiros. O Raphael já conhecia meu trabalho, mas duvidou que eu pudesse escrever humor, já que eu era mais conhecido pelas histórias de terror. E me deu um desafio: fazer uma sátira do Big Brother Brasil. O Raphael é um dos cara mais malucos que já conheci e queria algo igualmente maluco, fora da caixa. Eu propus um Big Brother se passando em uma favela: o Big Barraco Brasil. A história foi bastante elogiada (inclusive por pessoas dentro da editora) e foi minha primeira colaboração para a revista. 

A arte incrível de Kieron Dwyer

 

 

Kieron Dwyer tinha 13 anos quando sua mãe se casou com John Byrne. Este, vendo o talento do rapaz, o incentivou a se tornar desenhista de quadrinhos e conseguiu seu primeiro trabalho, em Batman 413. Depois disso, ele desenhar o arco Cavaleiro das trevas, cidade das trevas, com roteiro de Peter Millingan.

Na Marvel ele assumiu o título do Capitão América, que desenhou por anos.

Ele também desenhou Vingadores e Demolidor.

De volta à DC, ele desenhou Lobo, Superman e projetos especiais, como Superman: The Dark Side, que mostrava o que aconteceria se a nave kriptoniana tivesse caído em Apokolips e encontrada por Darkside.









O massacre do Brigue Palhaço

 


A adesão do Pará à independência foi marcada por uma tragédia.
O Grão Pará foi a última província à aderir à independência do Brasil. A província era comandada por portugueses e estava mais próxima de Lisboa do que do Rio de Janeiro e, portanto, a classe dominante não tinha o menor interesse na independência.
Em 1823, para resolver a situação, Dom Pedro I chamou um militar inglês, John Pascoe Grenfell, que rumou para a capital da província com um navio de guerra. Mas, ao encontrar a elite portuguesa que governava a província, blefou dizendo que tinha toda uma esquadra. Os portugueses concordaram em aderir à independência, com uma condição: continuar mandando no Pará.
Os soldados paraenses e a população local ficaram revoltados. Afinal, esperava-se que a independência mudasse a configuração de poder. O acerto feito não mudava nada: quem mandava continuava mandando.
Estourou uma revolta. Casas comerciais de portugueses foram depredadas.
Grenfell foi implacável: fez com que suas tropas percorressem as ruas de Belém, prendendo qualquer um que parecesse suspeito. Mais de 250 pessoas foram detidas.
O inglês mandou fuzilar cinco dos detidos e prendeu o cônego Batista Campos à boca de um canhão, ameaçando atirar. Grenfell acreditava que o religioso tinha sido responsável pela revolta. Só depois de inúmeros apelos inclusive das principais famílias, Batista Campos foi libertado.
Mas o que fazer com os outros 252 presos?
Grenfell decidiu transferi-los para o porão de um navio, chamado Brigue Palhaço. Lá, apertados, em calor extremo, com pouco ar e sem água, os prisioneiros começaram a agonizar. Um dos soldados, apiedando-se deles, pegou um balde de água do rio e jogou lá dentro, o que só piorou a situação, pois a correria para beber um pouco do líquido provocou várias mortes. Grenfell mandou atirar no porão para calar seus gritos, mas isso só fez aumentar  o lamento dos sobreviventes. A situação afetava os nervos dos soldados e o inglês temia que sua tripulação se rebelasse.
Enfim, alguém achou uma solução: trouxeram cal virgem de uma obra, jogaram no porão e fecharam a entrada. 252 pessoas morreram sufocadas.
A tragédia marcou a história do Pará e seria um dos principais estopins da revolta cabana, que aconteceria treze anos depois.  
O massacre do brigue palhaço aparece no meu romance Cabanagem.

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A guerra sombria do Gavião Negro

 


O Gavião Negro e a Mulher Gavião são dois dos personagens mais interessantes da DC Comics. Na sua versão moderna, criada por Gardner Fox e Joe Kubert, os personagen oscilavam entre dois gêneros: o policial e a ficção científica. Anos depois, em 1985, uma minissérie escrita por Tony Isabella e desenhada por Richard Howell (com arte-final de Alfredo Alcala) resgatou essas características em uma trama que ressignificava o planeta Thanagar, abrindo caminho para abordagens mais sombrias do personagem.

Na trama, um ladrão é contactado por seres misteriosos que o coagem a invadir a casa na qual moram Katar Hol (Gavião Negro) e sua esposa Shayera (Mulher Gavião). Enquanto o Gavião Negro vai para casa verificar o que está acontecendo, outro grupo dos seres misteriosos invade o museu e mata a Mulher Gavião, sobrando dela apenas o reflexo na parede.

O texto de Isabella se destaca pela síntese e pela qualidade. 


Tony Isabella escreve surpreendentemente bem, fugindo da verborragia comum entre os autores de quadrinhos da época. A sequência em o Gavião Negro descobre a morte da esposa é um ótimo exemplo da competência do roteirista: “No salão de exibição do museu de Midway City, um homem chama pelo nome da esposa... sabendo que ela nunca mais responderá. Ele é poderoso. Chore por ele”.

Junto com a morte da esposa, o Gavião Negro descobre que os responsáveis são seu próprio povo, já que os Thanagarianos pretendem invadir a Terra, e para isso precisam roubar a tecnologia de antigravidade, que havia sido perdida no planeta natal.

A história é um conto sobre um casal apaixonado. 


Claro que a Mulher Gavião não morreu e a explicação para isso é bastante forçada, mas o roteiro é tão fluído que o leitor deixa passar a falta de verossimilhança.

O desenho não fica nada a dever ao roteiro. Richard Howell tem um traço bonito e uma diagramação pouco convencional. Destaque para a sequência em que o herói relembra a amada, agora morta e os dois, nas lembranças dele, bailam nos céus de Thanagar. Alfredo Alcala no início carrega muito nas tintas, o que poderia funcionar para uma história com um pé no terror, mas parece deslocado numa HQ de ficção científica e super-heróis. Mas, aos poucos, vai ajustando a tinta, até que a arte-final passa a se encaixar bem no traço de Howell.

A tensão sexual entre o casal se revela até nos momentos de ação. 


No final, A guerra sombria do Gavião Negro é acima de tudo, um conto sobre um casal apaixonado. A tensão sexual entre os dois fica implícita em várias situações, inclusive no momento em que os dois precisam entrar em um transportador apertado para conseguirem chegar à nave. “Em outra situação eu acharia isso divertido”, diz o herói.

Considerando os méritos, é surpreendente que a Abril não tenha cogitado publicar essa história. Talvez a razão tivesse alguma relação com a cronologia da editora.

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Roteiro de quadrinhos: colocando texto nos balões

 

Há dois aspectos que se deve considerar ao escrever o texto numa história em quadrinhos. E, quando falo de texto, vale tanto para legendas quanto para diálogos.
O primeiro deles é que quadrinho não é literatura. O texto quadrinístico só existe em íntima coesão com a imagem. O roteirista deve pensar visualmente, imaginar como seu texto vai interagir com os desenhos e que tipo de impressão essa junção vai causar.
O segundo aspecto é que o roteirista deve saber quem são os personagens. O ideal é que até mesmo os personagens secundários tenham uma história. Quem são eles? Quais são suas motivações, quais são os seus medos, quais são suas esperanças? Há alguma história de vida que podemos contar sobre esse personagem e que ajudem a mostrar ao leitor quem é essa pessoa?
Essas duas preocupações sempre dominaram minha produção de roteiros. Exemplo disso é a história O farol, publicada pela editora Nova Sampa e, posteriormente, na editora norte-americana Phantagraphics, com o nome de Beach Baby.
Na história um casal está na praia quando vê surgir um farol. Eles entram no local para investigar e acabam se perdendo um do outro. A sequência que apresento abaixo mostra o momento em que o rapaz se perde da namorada, e se vê em local totalmente escuro, sendo dominado pelo medo. 
Eu e Joe Bennett trabalhávamos com o marvel way, um método que só funciona se o desenhista for um narrador nato, como é o caso do compadre. Nós discutíamos a história, ele ia para casa, fazia um rafe das páginas e me trazia. Era sempre um desafio escrever o texto, pois ele conseguia contar tudo só com imagens. Isso exigia o máximo do roteirista.
No caso dessa página, o que escrever? O desenho já explicava facilmente a situação: o rapaz estava perdido e entrando em desespero.
Não fazia sentido colocar o rapaz falando sozinho. Embora esse seja um recurso usando em algumas HQs, a verdade é que só malucos falam sozinhos.
Assim, preferi trabalhar os pensamentos do personagem, mas explicitados por um narrador em terceira pessoa, para conseguir o efeito desejado.
Reparem que o texto começa contando um detalhe sobre o personagem, uma pequena história da vida dele, mas segue num crescendo até a conclusão final. O texto do último parágrafo encaixa perfeitamente com a expressão do personagem, conseguindo um efeito tanto de impacto quanto de ironia.
 Reproduzo abaixo o texto:
“Fábio”
“Fábio”
“Fábio”
Ele repete o nome para si milhares de vezes.
Uma vez ele conheceu um ocultista, um homem  de óculos grosso e estante cheia de livros.
O homem disse que o nome de cada pessoa é um mantra para si mesmo.
Palavras sagradas que, repetidas várias vezes, trazem calma e paz de espírito.
Com Fábio isso não deu muito certo.