quarta-feira, setembro 23, 2026

Super-homem – O herói imortal

 

No início da década de 1970 já se vivia a era de bronze. Mas as histórias do Super-homem ainda estavam na era de prata, a exemplo da saga O herói imortal, publicada em Action Comics 385 a 387 e republicada aqui no volume 21 da Coleção Invictus, da Nova Sampa.

A HQ, escrita por Cary Bates e desenhada por Curt Swan, começa com o presidente dos EUA chamando o Super-homem e pedindo que ele não viaje no tempo: “O sucesso da experiência do vortex secreto depende da continuidade entre tempo e o espaço. Portanto, você não deve voar ao futuro ou passado nas próximas 24 horas”.

Mas na sequência, uma mão mecânica aparece do nada e escreve uma mensagem na porta da fortaleza da solidão: “Super-homem, sua ajuda é necessária no ano 101.971”.

O herói resolve viajar para o futuro numa esfera defeituosa. 

O homem de aço conclui que o pedido é urgente e resolve viajar numa esfera do tempo deixada na fortaleza pelos membros da Legião dos Super-heróis, o que, aparentemente, não interferiria na experiência do Vortex. Mas uma plaquinha avisa: “Funciona, mas está com defeito”.

Esse é um dos primeiros muitos problemas do roteiro de Cary Bates. Se o problema é no futuro e o Super-homem poderia viajar a qualquer momento, porque ele não pode esperar até o dia seguinte para viajar para o ano de 101.971? Bates parece não compreender que a data da partida não fará diferente nenhuma em uma viagem no tempo, já que o que vale mesmo é a data da chegada.   

Quando o herói chega ao futuro descobrimos qual é a urgência urgentíssima que levou os homens do porvir a pedirem ajuda do homem de aço. Seria um vilão prestes a destruir a terra? Seria um desastre ambiental? Seria um cataclisma cósmico? Não, é algo muito mais importante: estão roubando dinheiro de um banco!

A esfera defeituosa faz o herói envelhecer. 


O Super descobre que o “ladrão” na verdade é um ser de energia que vive na rede elétrica em volta do cofre e para derrotá-la, pinta de amarelo dinheiro azul. A razão é que o ser só se alimenta de objetos com cores quentes e, ao se alimentar de um alimento com cor fria pintado de cor quente, ele se envenaria. Mas o leitor com inteligência mediana se pergunta: se o dinheiro azul for pintado de amarelo, ele não fica amarelo? A lógica de Cary Bates é bizarra.

Mas vamos em frente: ao tentar voltar para nossa época, o super não consegue porque um vilão o impede – nós não temos a menor ideia de como isso é feito – e a única solução é ir para o futuro.

Após ser impedido de voltar para o passado, o herói viaja para o futuro, onde encontra uma época em que o uso de super-poderes é proibido.

Bates coloca o personagem numa sinuca de bico: como fazer o personagem rejuvenescer e voltar para nossa época? O roteirista resolve a situação nas últimas duas páginas tirando da cartola uma teoria “científica”.

A mesma publicação da Nova Sampa traz também uma outra história do super, escrita por Otto Binder que apresenta uma curiosidade: a HQ é narrada do ponto de vista de uma pedra de kriptonita.

Em tempo: a capa da Nova Sampa é belíssima. Trata-se de uma pintura a nanquim colorido de Ademir Pontes sobre desenho de Neal Adams. 

Vingadores contra os Mestres do Terror

 


No número 6 da revista dos Vingadores, Stan Lee teve a ideia de juntar alguns dos inimigos dos integrantes do grupo em um time de vilões chamado de Mestres do Terror.

Algo que chama a atenção na história desde o início é como Stan Lee estimulava os leitores a colecionarem a revista: “Cuidado! Não rasgue este exemplar ou amasse as páginas, e nem deixe com manchas de comida! Temos a impressão de que você vai querer guardá-lo como um item de colecionador por muito e muito tempo!”.

O Capitão testa o novo escudo. 


Essa era mais uma das inovações da Marvel. Enquanto a DC ainda tratava os gibis como itens descartáveis, Lee já percebia que poderia estimular os leitores a considerarem os mesmos como itens de colecionador. Aliás, ele estava certo. Certamente um exemplar bem conservado dessa edição deve valer uma boa nota.

Os créditos usavam e abusavam do marketing pessoal inventado por Stan Lee. Assim, a história era “escrita pela inspirada máquina de escrever de Stan Lee” e “desenhada pelo lápis mágico de Jack Kirby”.

O Barão Zemo era mal a ponto de usar pessoas como passarela... mas tinha chiliques quando ouvia o nome do Capitão América. 


Como era padrão na Marvel, a história começa com uma cena de ação e impacto como forma de empolgar o leitor. Anos depois seria utilizado o recurso de começar a HQ no auge do segundo ato, mas aqui isso é feito com o Capitão testando o escudo criado pelo Homem de Ferro, com imãs que permitem direcioná-lo.

Só depois aparece o Barão Zemo, em sua primeira aparição na cronologia da Marvel. Jack Kirby cria situações bizarras, como indígenas se ajoelhando para formar uma passarela para o barão passar. O vilão também aproveita para contar sua origem. Nesse flash back descobrimos, por exemplo, que o Capitão América é responsável pelo vilão usar sempre o capuz vermelho. Ele teria usado o escudo para quebrar um recipiente com uma cola e esta caíra na cabeça do Barão.

Afinal, como ele se alimenta? 


“Ainda posso senti-lo! Ainda sinto o maldito adesivo atingindo meu capuz, colando meu rosto... e assim ficou por todos esses anos... pois nada pode removê-lo”, grita o vilão, numa tentativa vã de retirar o apetrecho.

Uma pergunta que não quer calar: se ele tem um capuz colado ao rosto, como consegue se alimentar?

Os heróis trocam de vilões. 


A estratégia do vilão é usar os Mestres do Terror para espalhar a cola pela cidade e assim chamar a atenção dos Vingadores e provocar um confronto entre as duas equipes. O Capitão América, ao perceber o plano, sugere que cada herói troque de inimigos. “Ele elabora planos de batalha rapidamente e entra em ação com grande destreza!”, admira-se Thor, antecipando que a época em que o Capitão se tornaria líder dos vingadores. Essa estratégia, de trocar de vilões parece boba, mas foi a mesma estratégia usada pelos X-men em uma história da fase clássica de Claremont e Byrne.

Júlio Verne, o viajante das idéias

 


Houve uma época em que milhões de crianças no mundo todo se deliciavam com viagens extraordinárias em que o mundo se revelava diante delas trazendo consigo as maravilhas de uma nova ciência: a geografia. Tudo graças a um escritor francês dotado de imaginação e rigor na busca de informações. Seu nome era Júlio Verne.

Quando Verne publicou seu primeiro romance,  Cinco Semanas Num Balão, em 1863, as descobertas científicas aconteciam a um ritmo cada vez mais rápido. Darwin publicara há cinco anos seu livro A Origem das Espécies, de Darwin. Há pouco tempo Pasteur divulgara suas descobertas, que derrubavam a teoria da geração espontânea de vida e lançava a teoria dos vermes como causadores de doenças. Entretanto, o povo, o cidadão comum, ainda via a ciência como uma desconhecida, uma curiosidade de laboratório, de interesse apenas de homens sábios. Pouco havia sido escrito que fosse do entendimento do homem comum e, principalmente, das crianças.


Cinco semanas num balão começou com o nome de A Viagem no ar. Em outubro de 1862, Júlio Verne apresentou o original para o editor Pierre-Jules Hetzel. Hetzel foi tão importante no direcionamento da carreira desse, então estreante escritor, que pode, de certa forma, ser considerado co-escritor. O livro era uma referência direta aos exploradores que revelavam os segredos da África. Nele, o doutor Samuel Fergunson, seu amigo Dick Kennefy e um empregado se aventuram do Zanzibar até o Niger em um balão, refazendo o percurso de muitos dos homens que desbravaram o continente. Hetzel fez várias sugestões para tornar a história mais palatável, inclusive a mudança do título para Cinco semanas num balão. Hetzel tinha tanta confiança no texto de Verne que o fez assinar um contrato para outros livros. O contrato dizia, abertamente que o objetivo dos livros era: “Resumir todos os conhecimentos geográficos, geológicos, físicos, astronômicos, acumulados pela ciência moderna e refazer, sob a forma atrativa e pitoresca que lhe é própria, a história do Universo”.   
Em Cinco Semanas Num Balão, Júlio Verne, com o auxílio de Hetzel, introduzira um novo tipo de novela - uma forma diferente de contar história, um misto de ficção e realidade.


Qualquer itinerário serviria para o Vitória, mas a viagem tornara-se mais real porque acompanhava claramente o percurso da expedição de 1850 levada a cabo pelos exploradores Richard Francis Burton e John Hamming Speke.
Quanto à construção do balão, Júlio Verne tornara-a perfeitamente praticável com seu complicado fogão que provocava a expansão do hidrogênio por meio de aquecimento, fazendo o aparelho elevar-se sem ser necessário sacrificar lastro. A idéia do balão duplo foi tomada de Mensnier de Laplace e Nadar; a bateria elétrica viera das experiências  de Albert Wilhehn Bursen e a luz brilhante do arco improvida para arrancar o desgraçado missionário lazarista às torturas infligidas pelos selvagens africanos viera dos manuscritos de Humphry Javoy.


Tudo isso deu à história uma verossimilhança que jamais se vira em um livro de aventuras, abrindo caminho para toda a literatura de ficção-científica do século XX. Mais: a obra de Verne se tornou a base do gênero Steampunk, um dos mais populares e importantes do século XXI.
Depois de Cinco semanas em um balão, vieram diversos outros livros, como Viagem ao centro da Terra, A volta ao mundo em 80 dias, Da Terra à Lua e, o mais famoso deles, 100 mil léguas submarinas.

Meninos do Brasil

 

Meninos do Brasil é título de um famoso filme da década de 1970, baseado no romance homônimo de Ira Levin, dirigido por Franklin J. Schaffner  e que incluia no elenco figuras como Gregory Peck e Laurence Olivier.
No filme, um jovem militante anti-nazista descobre, na América do Sul, que nazistas fugitivos planejam matar 10 homens. Antes de ser morto ele consegue avisar um caçador de nazistas (baseado na figura real de Simon Wiesenthal), que passa a investigar o assunto. Ele acaba descobrindo que a morte dos homens faz parte de um projeto para trazer Hitler de volta.
Na trama, haviam sido produzidos clones do ditador alemão e inseminadas mulheres com as mesmas características da mãe de Hitler. Também as famílias deveriam ter os mesmos aspectos, com um pai dominador, que deveria morrer quando os clones ainda fossem jovens.
O responsável pelo programa de clonagem é o próprio Joseph Mengele, o anjo da morte, que, em algum país da América do Sul, continua realizando suas experiências macabras, como injetar tinta azul nos olhos de crianças.
O filme torna-se um emocionante triller de suspense, com o caçador de nazistas tentando impedir a morte dos pais dos clones.
O filme fez grande sucesso e a interpretação de Gregory Peck ajudou a formar a imagem que a maioria das pessoas têm sobre Mengele, um homem culto, mas cruel. 

A arte estupenda de Adam Hughes

 


Adam Hughes é um desenhista norte-americano de quadrinhos mais conhecido por suas capas estilo pin-up com personagens femininas.

Ele começou sua carreira no final da década de 1980 na série Maze Agency , com roteiro de Mike W. Baar publicada pela Comico. Embora seu interesse fosse desenhar super-heróis, esse trabalho o ajudou a melhorar suas habilidades narrativas.

Depois de dois anos trabalhando com essa série, ele foi apresentado a Andy Helfer, editor da DC, que se impressionou com seu traço. Quando a Comico faliu, ele foi imediatamente contratado para desenhar a Liga da Justiça Internacional, trabalho pelo qual ele ficou conhecido no Brasil. Hughes passou dois anos desenhando a série até começar a fazer apenas as capas.

Em 1998 ele começou a fazer as capas do gibi da Mulher Maravilha, tornando-se um dos capistas mais requisitados do mercado.

Ele também produziu capas para as revistas de Tomb Rider, Star Wars e Mulher Gato.  









Perry Rhodan – Zona de Bloqueio de Andrômeda

Embora a grande atração do livro fossem os tefrodenses, a capa mostra outra raça, os gaids. 

 

Há alguns números de Perry Rhodan que se destacam não tanto pelas batalhas ou pela ação, mas principalmente por suas revelações e pelos ganchos que criam para os volumes seguintes. É o caso do volume 255, intitulado "Zona de Bloqueio de Andrômeda", escrito por Clark Darlton.

Na história, Rhodan descobre que a rebelião dos Maahks é um sucesso e que as várias raças enviadas pelos Senhores da Galáxia para contê-los estão sendo derrotadas. O Administrador-Geral considera que, com seus inimigos ocupados com uma guerra civil, este é o momento ideal para infiltrar a frota terrana na galáxia de Andrômeda.

Os terranos descobrem que, no centro da galáxia, existe uma zona proibida onde residem os Senhores da Galáxia. Audaciosamente, Rhodan resolve entrar nessa região na tentativa de finalmente conhecer esses seres poderosos. No entanto, surge um obstáculo: os Senhores da Galáxia possuem uma espécie de polícia especial, os Tefrodenses, responsáveis por patrulhar os arredores da zona proibida e destruir qualquer nave que se aproxime. A violência desse grupo é demonstrada quando uma nave de contrabandistas tenta furar o bloqueio e é impiedosamente destruída.

Capa original alemã. 

Quando uma das naves patrulheiras ataca a Crest III e acaba destruída, os terranos investigam os destroços e encontram a grande revelação do volume: os Tefrodenses são biologicamente idênticos aos seres humanos. Inclusive, suas naves possuem o mesmo formato esférico e funcionam com tecnologia similar.

Esse é o grande mistério lançado por este volume: como uma raça que se desenvolveu em outra galáxia, a 2,5 milhões de anos-luz de distância, pode ser igual aos terranos? É uma questão instigante que só seria plenamente explicada em números posteriores.

O volume ainda traz outra atração: os detalhes sobre o nascimento do filho de Gucky. Descobre-se que a raça dos ratos-castores não nasce de forma convencional; os bebês simplesmente se teleportam para fora do útero materno. Como eles são instintivamente programados para surgir em seu mundo de origem, que foi destruído, o resgate do recém-nascido no espaço se transforma em uma verdadeira aventura técnica e emocional.

terça-feira, setembro 22, 2026

Monsieur & Madame Adelman

 


Geralmente quando pensamos em comédia romântica, imaginamos uma trama pueril, com personagens pouco profundos e final feliz. Monsieur & Madame Adelman, filme francês dirigido por Nicolas Bedos e disponível na Netflix vai na contramão dessa imagem.
E essa ruptura já é visível desde a primeira cena. Nela, o famoso escritor Victor Adelman morreu e vemos seu funeral. É quando um jornalista que está produzindo um biografia do famoso autor procura a viúva e ela, surpreendetemente, resolve falar com ele. O jornalista quer uma outra visão sobre a celebridade que acaba de morrer e exatamente isso que Sarah lhe dá: o ponto de vista da mulher que viveu com o premiado autor por 45 anos.
Monsieur & Madame Adelman é um filme repleto de reviravoltas a começar pela profundidade e complexidades de seus personagens. A princípio parece uma comédia leve sobre uma estudante de letras absurdamente apaixonada por um jovem e promissor escritor, a ponto de namorar o melhor amigo dele e até o irmão deste apenas com o objetivo de conquistá-lo. Mas com o tempo vamos percebendo que a situação é muito mais complexa. Nessa fase é interessante acompanhar como a narrativa dela, dita ao jornalista, nem sempre coincide  com os fatos, criando uma espécie de ironia que gera algumas boas cenas de humor.
O filme vai acompanhando 45 anos da vida desse casal, seus mais diversos problemas enfrentandos e a paixão avassaladora de um pelo outro. Entretanto, em nenhum momento parece meloso, melodramático ou mesmo forçado. O humor irônico e muitas vez cínico ajuda muito a tornar a narrativa fluída.
Ao final, o expectador descobre que aquilo que ele achava sobre os personagens era falso, quando a realidade inverte as expectativas, deixando o filme ainda mais instigante.
É uma boa dica para quem pretende assistir  a um filme romântico que foge dos padrões convencionais.

Rei Kull – Da Atlândida ao reino das sombras

 


A maioria dos autores considera que o marco inicial do subgênero espada e feitiçaria foi a publicação do conto O reino das sombras, escrito por Robert E. Howard e publicado na revista Weird Tales de agosto de 1929. Embora Howard tenha se tornado famoso graças ao Conan, o protagonista daquela primeira história era o Rei Kull.

Esse pioneiro é a estrela do volume Rei Kull – Da Atlândida ao reino das sombras, lançado em 2021 pela Skritp. O livro é uma ótima introdução à obra de Howard, em especial graças aos textos complementares. Um deles, de autoria de Dierk Guenter, analisa não só a influência de Kull no nascimento da espada e feitiçaria e as fontes de inspiração para o mundo do personagem, como defende uma curiosa hipótese: a de Kull era, na verdade, um alter-ego de Howard. Afinal, o escritor se sentia tão alienígena na cidadezinha do interior do Texas quanto o atlante se sentia na Valúsia.

Ao contrário do que eu imaginava, não se trata de uma antologia, com vários contos do personagem. São apresentados apenas três textos de Howard: um breve ensaio sobre o mundo de Kull e os contos Exílio em Atlândida e O reino das sombras.

Apesar disso, é uma obra que agrada aos fãs.

Primeiro porque O reino das sombras é de fato um texto espetacular, a começar pela abertura narrando uma parada militar: “O fragor das trombetas ficou mais alto, como uma intensa maré doura, como a suava arrebentação das ondas noturnas contras as praias argênteas da Valúsia”.

Segundo porque é uma edição caprichada, com uma diagramação que simula pergaminhos antigos. Além disso, os incríveis desenhos de J.L. Padilha ajudam a dar o clima da história.

A louca do sagrado coração – de Jodorowsky e Moebius

 


A louca do sagrado coração, álbum com roteiro de Jodorowsky e desenhos de Moebius, lançado em 2019 pela Veneta, é um daqueles exemplos de HQs que nos surpreendem positivamente.

A história parece apenas uma crítica ácida ao academicismo. Mangel é um professor da Sorbone que carrega ao redor de si uma legião de fãs tão inveterados que todos eles usam roxo, como o mestre, em sinal de concordância com ele.

Mas, se é uma figura eminente, é também um desastre em sua vida pessoal. Sua esposa o troca por outro, depois de oito anos sem atividade sexual, uma vez que ele se transformou em um “monge universitário”. Dono de um controle emocional lendário, ele não sai do sério nem mesmo quando alguns alunos colocam uma réplica de um cervo, com galhos enormes (em referência ao chifre levado por ele). Como sempre, ele responde com citações dos mais diversos filósofos.

Uma das alunas engravida do filósofo acreditando que irá gerar o novo profeta João. 


Essa trama, levemente divertida, com alguns toques de erotimo, não parece sustentar um álbum e de fato não sustenta. A trama começa de fato quando uma aluna decide que ele é a reencarnação do profeta Zacarias, e que deve gerar um novo João Batista. Pior: depois de grávida, ela tem uma visão que coloca um traficante de heroína como o novo São José e a filha de um líder de um cartel de drogas como a Maria que irá gerar o novo Jesus (a nova “Maria” está internada num hospício).

A história foi publicada originalmente em cores. 

Nesse ponto a trama, que parecia lenta, desinteressante e arrastada, torna-se um turbilhão, com reviravoltas se sobrepondo a reviravoltas. Reviravoltas quase surreais, mas que fazem sentido dentro da trama. Nesse ponto é impossível largar a leitura.

Jodorowsky mistura essa trama non-sense isso com crítica social, crítica política, psicologia junguiana e sua visão mística do mundo.

A obra foi originalmente publicada no início da década de 1990, em três partes e colorida. A Veneta preferiu publicar a edição da Les Humanoides Associés, em preto e branco, argumentando que essa opção permite visualizar melhor a arte de Moebius. De fato, em alguns pontos a arte é mais detalhada, mas no geral, é uma arte simples, nitidamente feita para ser aplicada cor. Além disso, o álbum já começa com uma discussão sobre cor, quando uma estudante da Sorbone mostra as roupas íntimas, estimulando outras pessoas a desnudarem os discípulos de Mangel para conferirem se eles de fato usam apenas roupas rouxas.

X-men – Fênix Negra

 


“O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente”. Essa frase, dita pelo Professor Xavier em The Uncanny X-men 135 representa muito bem a essência da saga da Fênix Negra.

No número anterior, Jean se transformara enquanto o grupo voltava para casa após enfrentar o Clube do Inferno. Sua transformação destruíra o jato dos mutantes.

E é exatamente nesse ponto que encontramos os personagens no início do número 135.

A sequência seguinte mostra os mutantes enfrentando a Fênix. “Não espere clemência da Fênix Negra, meu amor. Vocês não terão nenhuma!”. E, de fato, a personagem revela poderes avassaladores e inimagináveis, derrotando os amigos como se estivesse numa brincadeira. Wolverine e Colossus são soterrados abaixo de uma árvore de ouro. Ororo é golpeada psiquicamente e fica inconsciente. “Imagens... me atingindo pelo elo psíquico que tenho com Jean... chamas negras consumindo sua alma! Alusões místicas incompreensíveis.... sensação de perda... afogamento... solidão”, pensa Cíclope.

Ao se transformar no seu lado sombrio, Fênix destrói a nave. 


O psicólogo Carl Gustav Jung dizia que todos nós temos um lado sombra, para onde vai tudo aquilo com o qual não conseguimos lidar. O que Claremont e Byrne mostram é Jean Grey sendo consumida pelo seu lado sombra. A história lança uma questão interessante: se a inocente Garota Marvel tinha dentro de si uma vilã tão terrível, o mesmo não ocorre com cada um de nós?

Se o roteiro eleva a história muito além do nível dos quadrinhos de super-heróis, Byrne e Terry Austin mostram a transformação de Jean de forma magistral. Efeitos de sombras, áuras, hachuras... tudo é usado para demonstrar o lado sombrio de Jean transformada em vilã.

A Fênix Negra destroi um sistema solar. 


É nessa história que a Fênix faz o que decretaria sua morte. Ela vai ao espaço e consome uma estrela, matando bilhões de pessoas no processo. Quando viu essa parte da história, Jim Shooter, editor-chefe da Marvel, decidiu que a personagem tinha que morrer.

PEANUTS: a psicanálise chega aos quadrinhos

 


A tira Peanutz  foi criada por  Charles Schulz no início da década de década de 1950 e rapidamente tornou-se um sucesso, chegando a aparecer em mais de 2600 jornais em todo o mundo, tendo  um público leitor estimado em 355 milhões, em 75 países.
Na década de 1970 o sucesso da tira levou ao surgimento do desenho animado, que era pessoalmente supervisionado por Schulz. Ao invés de descaracterizar a obra, o desenho ampliou-a para além dos limites dos quatro quadros diários.
Conta-se que um psiquiatra, chegando ao seu consultório, encontrou um bilhete de seu primeiro paciente, dizendo que estava dispensando o tratamento com médico, pois havia encontrado a causa de seus traumas. E ilustrava a situação com uma tira de Peanuts.
A primeira tira de Peanuts, publicada em 02 de outubro de 1950.  


A história, real ou lendária, ilustra a incrível capacidade que Schulz tinha de perceber os dramas e traumas humanos, sintetizando-os na figura de crianças. Umberto Eco disse que ¨a poesia dessas crianças nasce do fato de que nelas encontramos todos os problemas, todas as angústias dos adultos que estão nos bastidores¨.
Nessa história aparentemente ingênua, encontramos os mais variados tipos humanos e seus conflitos.
Charlie Brown, o personagem principal, é o estereótipo do fracassado. Ele não consegue empinar uma pipa ou chutar uma bola. A única vez em que ganhou algo na vida, o prêmio foi um corte de cabelo. ¨Mas eu sou careca, e meu pai é barbeiro!¨ retrucou ele. Noutra ocasião, dançou com a rainha do baile, mas é incapaz de lembrar de nada desse acontecimento.


Se Charlie Brown é o a bigorna, na qual batem todos os males e dissabores da vida, a menina Lucy Van Pelt, irmã de Linus, é o martelo. Sua vida é provocar traumas no pobre Minduim, mostrando a cada momento o quanto ele é incapaz. Sua tirada mais clássica é fazer Charlie Brown acreditar que finalmente será capaz de chutar a bola, para tirá-la no último momento. Interessante que, apesar disso, ninguém jamais pensa em culpá-la pela derrota do time. O culpado é sempre aquele que não conseguiu chutar a bola.
Uma biografia publicada com o título de Schulz and Peanuts dá a entender que o próprio autor colocava suas neuroses nos quadrinhos, razão pela qual elas parecem tão reais. O autor descreve Schulz como um homem solitário, tímido e infeliz, dominado por figuras autoritárias, como sua primeira esposa e sua mãe, ambas representadas na personagem Lucy. Schulz se identificaria tanto com Charlie Brown, o fracassado, quanto com Schroeder, o músico. Este último seria o lado artístico, através do qual ele se libertaria da tirania da esposa. Sintomaticamente, outra cena famosa é a de Lucy tentando conseguir a atenção do pianista, que a despreza solenemente enquanto toca.  


Nesse sentido, Snoopy, provavelmente, representaria a liberdade criadora. Se Charlie Brown é o pé no chão, as tristezas e agruras da vida, Snoopy pode viajar o mundo e até mesmo ser um famoso piloto da I Guerra Mundial. Não por acaso, Charlie Brown é o personagem predileto dos adultos, que vêm nele seus traumas (a tirinha é a mais recortada, exibida e enviada a colegas nos EUA) e Snoopy é o personagem preferido das crianças pequenas, que ainda vislumbram na vida mais seus pontos positivos que negativos.
Mesmo depois da morte do autor, as tiras de Peanuts (ou Snoopy) continuam sendo republicadas em jornais e coletâneas e encantando crianças e adultos. E recentemente se transformou em um ótimo desenho animado para cinema.

Hulk no divã

 


Colocar Bruce Banner, o Hulk e o Hulk cinza numa sessão de psicoterapia. Essa ideia maluca e revolucionária saiu da cabeça de Peter David e poderia ter se transformado num tremendo fiasco, mas se tornou num grande momento do personagem graças ao bom trabalho do roteirista.

A história, publicada em The incredible Hulk 376 e 377 começa com Bruce Banner simplesmente entrando em pane enquanto dentro de sua cabeça o Hulk verde e o Hulk cinza brigam. No mundo real, isso se reflete numa transformação bizarra, um ser que é uma mistura dos três.

Quando a situação se acalma e Banner é levado para um hospital, Doc Sanson, o herói psicólogo, hipnotiza Banner e começa uma sessão de psicoterapia para entender o que realmente está acontecendo dentro da mente do cientista e suas contrapartes monstruosas.

O eixo da história é uma sessão de terapia com Banner e os hulks. 


Aí Peter David aproveita um gancho deixado pelo roteirista anterior, Bill Mantlo (que, segundo alguns, teria roubado a ideia do desenhista Barry Smith). Nessa visão, quando era criança, Bruce Banner sofreu abusos por parte do pai e, em consequência disso, desenvolveu múltiplas personalidades. O problema é que a radiação gama transformou essas personalidades em monstros reais: o Hulk e o Hulk cinza. Essas contrapartes já existiam em sua mente, mas não eram exterioriorizadas. Diante dos traumas, o pequeno Banner se fechou em si mesmo, incapaz de revelar emoções. Assim, o Hulk cinza é a sua contraparte extrovertida, mulherenga, grosseira. Já o Hulk verde é o ódio explosivo que ele sente dentro de si – o que explica porque, com quanto mais raiva o personagem fica, mais forte ele se torna.

O interessante aí é que Peter David e o desenhista Dale Keown acharam uma forma visualmente interessante para mostrar esses conflitos internos. Os conflitos de personalidade são mostrados como lutas entre os hulks. O pai é mostrado como um monstro gigante com uma fileira de dentes assustadores.

Quem diria que uma sessão no divã poderia se tornar uma tremenda história de super-herois.