segunda-feira, março 09, 2026

Uma visita com o Quarteto Fantástico

 

 

No início da década de 1960, Stan Lee e Jack Kirby pareciam dispostos a transformar Fantastic Four no título mais revolucionário do mercado norte-americano. A cada número a dupla se superava, mas poucas vezes eles saíram tanto da curva quanto no número 11 da revista.

A primeira história da edição tem uma trama que gira toda em torno das cartas recebidas pela família de heróis!


Muitas cartas para o Quarteto Fantástico. 


A história começa com um grupo de pessoas fazendo fila na frente de uma loja. Uma pessoa pergunta o motivo. “Se liga, meu chapa! Hoje é o do em que o gibi do Quarteto Fantástico sai!”.  

Lá atrás aparece o verdadeiro quarteto, que resolve deixar para comprar o número mais recente depois diante da aglomeração. Era Stan Lee numa estratégia descarada de marketing.

A primeira pegadinha da gangue da rua Yancy.

O grupo pouco depois encontra o carteiro Lumpkin, em sua primeira aparição na série. Ele traz um verdadeiro saco repleto de correspondência para os heróis. Correspondência que inclui uma pegadinha com o Coisa, na primeira referência à gangue da rua Yancy.

Stan Lee aproveita para responder cartas de alguns leitores, que queriam a Mulher Invisível fora da equipe. “Vários leitores disseram que eu não colaboro muito... que vocês estariam... melhor sem mim!”, diz a heroína, refletindo sobre as cartas reais recebidas pela Marvel. Stan Lee usa o Senhor Fantástico para expressar sua opinião sobre a importância das mulheres e sobre como Sue salvou o grupo várias vezes.

Os leitores não gostam de Sue. 


A segunda parte da revista é menos inspirada. Focada num alienígena capaz de mudar de forma, a história parece só mais uma das muitas que eram publicadas na década de 1960, inclusive pela DC.

Blueberry – O homem do punho de aço

 


O oitavo álbum da série Blueberry é um dos melhores que tive a oportunidade de ler do personagem.

Na trama, sabotadores conseguiram provocar uma guerra indígena, paralisando o trabalho da Union Pacific, que está construindo a ferrovia na direção do oeste para o leste. Pior: o posto pode ser a qualquer momento atacado.

Guffie é uma personagem carismática. 


É nesse ponto que o roteirista Charlier introduz uma personagem carismática a ponto de rivalizar com o garimpeiro Jim McLure: Guffie, a dona de uma trupe teatral que percorre o oeste se apresentando. O primeiro encontro entre os dois, aliás, já é memorável.

“O que foi, mocinho?! Não conhece a grande e incomparável Guffie Palmer, cujo charme só se equipara ao próprio talento?! Diretora da mais célebre trupe teatral entre Nova York e Frisco?”, diz ela.

“Ah, é? E onde está essa dama?”, pergunta McLure, pouco antes de ser golpeado nos fundilhos com uma bolsa de mão.

Jethro monta uma armadilha para a locomotiva. 


Guffie quer sair do acampamento, se aventurado no meio dos índios e consegue. Blueberry é enviado atrás dela, mas sua verdadeira missão é enviar uma mensagem pendindo um carregamento de viveres, munição e dinheiro para pagar os trabalhadores.

Mas, graças a Guffie, o vilão Jethro Stellfingers fica sabendo do comboio e monta uma armadilha, o que gera uma das sequências mais arrebatadoras que já tive oportunidade de ler em uma história em quadrinhos.

O trem fica paralisado no meio de uma ponte, sem poder seguir em frente ou voltar. 


A locomotiva fica presa sobre uma ponte destruída, impossibilitada de seguir em frente ou mesmo voltar atrás em uma situação em que a única saída possível parece ser a morte. No entanto, Blueberry e seus amigos não só conseguem se salvar como ainda frustam os planos do vilão ao explodir o vagão de munição e fugir com o dinheiro – e tudo isso é feito maneira tão verossímil que o leitor pensa que não poderia acontecer de outra forma.

A sequência é tão eletrizante da locomotiva que até hoje me pergunto como ninguém teve a ideia de transformá-la em um filme.

Bom desenvolvimento de personagens, ação empolgante e um roteiro que prima pela verossimilhança, O homem do punho de aço é uma daquelas histórias que você não consegue soltar antes de ler a última página. 

A forma da água

 


Guilhermo del Toro é um cineasta famoso por filmes de fantasia, com uso intensivo de efeitos especiais (a exemplo de Hell Boy). Embora sempre tenha feito um sucesso relativo, em especial entre os fãs do gênero, nunca o vimos arrebatando prêmios, como no caso de A forma da água, sua mais recente película.
Por um lado, o óscar de melhor filme mostra que a academia está mais aberta a esse tipo de obra. Por outro lado, mostra uma evolução do diretor: A forma da água é muito mais que um filme de fantasia com ótimo uso de efeitos especiais. É uma fábula muito bem construída em que diversos elementos – da fotografia à trilha sonora.
Na história acompanhamos a rotina solitária de uma faxineira muda que trabalha em um laboratório do governo. Tudo muda com a chegada de uma criatura capturada no rio Amazonas, um ser meio homem – meio peixe, que era considerado um deus pelos indígenas. Em plena guerra fria, a criatura passa a ser disputada pelos dois lados do conflito – seu pulmão capaz de respirar na água e na superfície pode ser fundamental na corrida espacial. A trama gira em torno da relação da faxineira com a criatura e a inusitada história de amor que surge desse encontro.
A Forma da água é uma história sobre desajustados, seres que vivem à margem da sociedade. A história da criatura incompreendida e da faxineira muda são uma metáfora de outros excluídos (no filme há referências diretas aos negros e gays, ambos vítimas de forte preconceito, em uma época em que uma pessoa podia perder o emprego apenas por descobrirem que ela era homossexual).
Em suma: um filme bonito, sensível (que lembra, por exemplo, Edward Mãos de tesoura), em que tudo se encaixa inclusive nos pequenos detalhes, como na gelatinha verde servida pela esposa ao chefe de segurança.
Pena que uma história tão bem construída tenha uma falha de roteiro tão gritante: a criatura foi capturada no rio Amazonas, portanto em um rio de águas doces, distante centenas de quilômetros do mar – mas na história precisa ficar imerso em água salgada para não morrer.

A arte fantástica de Cláudio Dutra

 


Nascido em 1969, em Anápolis, Goiás, Cláudio Dutra é um professor, quadrinista e a artista plástico. Fortemente influenciado por artistas espanhóis, como Esteban Maroto ele se destaca pelo domínio técnico e pela estética detalhista., Entre os seus trabalhos mais conhecidos estão quadrinhos e capas para revistas como Spektro, Metal Fantasia, Calafrio, Adriana – a agente laranja, Mestres do Terror, entre outras.














domingo, março 08, 2026

Somos todos canibais

 

A figura acima é o quadro Abapuru, obra de Tarsila de Amaral pintada como presente para seu esposo Oswadl de Andade. Abapuru significa "home comedor de gente", em tupi. A imagem levou Oswald a escrever o famoso Manifesto Antropofágico. 
Os dois - quadro e manifesto - eram uma resposta a uma questão antiga, que até hoje ainda gera debates: o que é a cultura brasileira?
Vale lembrar que o manifesto, e de certa forma o modernismo, surge em protesto contra a arte acadêmica, certinha, neo-clássica.

Aqui entra um parêntese. 
A origem dessa arte era a missão francesa, um grupo de artistas que chegou ao Brasil a convite de D. João VI para ensinar a arte aos brasileiros e trazer as novidades da Europa para nosso país. O discurso era de que o que se fazia no Brasil até então (o barroco de Aleijadinho, como exemplo) não era arte verdadeira. O episódio colocou na cabeça do brasileiro a ideia de que "o que é bom vem lá de fora", que ainda hoje domina a mentalidade local.
Fecha parênteses.
A antropofagia fazia uma referência aos índios canibais que haviam devorado o bispo português Sardinha quando o navio deste afundou na costa brasileira. Para Oswald o episódio mostrava a nossa principal característica: nós deveoramos a cultura que vem de fora, mas não de forma passiva. Nós a transformamos em outra coisa. As festas juninas, por exemplo, foram criadas a partir dos bailes europeus, mas em nosso país se transformaram em outra coisa.
Abaixo algumas frase do manifesto antropofágico:
"Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará"
"Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade"
"Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago"

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.

Buddy longway – Chinook

 


As histórias de faroeste normalmente são centradas em um protagonista solteiro quase infalível por sua mira e suas habilidades físicas e intelectuais. A série buddy longway, criada pelo suíço Derib, diferencia-se muito desse modelo. 

Para começar, o personagem é casado e tanto ele quanto a esposa e os filhos parecem ter muita importância nas tramas a ponto do título da série não fazer muito sentido, já que toda a família parece ser protagonista. Segundo, Buddy é um homem comum, sem grandes habilidades. Aliás, a ideia do suíço Deribe era justamente fugir do modelo dos heróis invencíveis, como Lucky Luke, Blueberry ou Jerry spring (para ficar apenas nos quadrinhos franco belgas). 

Buddy salva uma indígena. 


O primeiro álbum, Chinook, acompanhamos o caçador e sua viagem para um forte onde irá vender peles de animais. Mas ao chegar ao local se depara com dois homens perseguindo uma mulher indígena. Indignado, Buddy consegue fugir com ela para descobrir que a mulher tinha sido sequestrada da tribo Sioux e levada como escrava. Ele promete levá-la de volta à sua tribo. Mas essa jornada é interrompida por dois revezes.

No primeiro deles, os dois captores conseguem interceptar o casal. Aliás, é nessa sequência que percebemos como Buddy é um herói realista. A maioria dos cowboys dos quadrinhos, mesmo estando em inferioridade numérica conseguiria facilmente vencer os opositores. Buddy leva uma surra. 

Buddy não é um herói invencível. 


O segundo contratempo é uma tribo rival dos Sioux, que aprisiona os dois. 

Eles conseguem vencer as adversidades e chegar ao seu local de destino, mas essa jornada faz Buddy perceber que ama Chinook, de modo que os dois acabam juntos.

Derib não elabora tramas complexas ou sequência lá de tirar o fôlego, como Charlier em Blueberry, ou desenhos super elaborados, como de Giraud no mesmo Blueberry, mas constrói uma narrativa deliciosa, envolvente. A indígena Chinook ganha protagonismo desde o início e o leitor logo percebe que ela não é apenas uma mulher a ser salva pelo herói. Buddy também se mostra carismático em sua visão simples e humilde. Nas sequências entre os indígenas, por exemplo ele não é alguém que ensina, mas principalmente alguém que aprende. 

O casal se apaixona. 


Ao ler percebemos que esse é um faroeste para os anos 70. 

Esse álbum foi lançado em Portugal pela Bertrand e chegou a várias livrarias do Brasil. Atualmente deve estar disponível apenas em sebos. É uma pena que com esse revival de material europeu ninguém tenha pensado em lançar esses álbuns no Brasil.

Fanzine da Gibiteca de Belém

 


Fanzine era uma publicação da Gibiteca da Biblioteca Pública Arthur Viana criada por mim no período em que trabalhei lá, entre os anos de 1993 e 1994. Nele publicávamos a programação da Gibiteca (tinha palestras, lançamentos e até cursos), além de histórias em quadrinhos metalinguísticas, sempre sobre um determinado quadrinistas com leves toques de humor – influência de Will Eisner. O roteiro era meu e os desenhos de João Bento. A publicação era impressa em xerox e distribuída entre os usuários. Depois que saí da Gibiteca ainda continuou sendo publicado, mas não sei exatamente por quantos números. Para baixar um exemplar, clique aqui

A escola nova

 

A chamada escola nova foi provavelmente a primeira iniciativa pedagógica que procurou superar as limitações da pedagogia tradicional.
Enquanto a educação, na escola tradicional, era centrada no professor e no conteúdo, a escola nova vai focar seu interesse no aluno, que será visto como sujeito de sua aprendizagem. Essa nova abordagem foi resumida na expressão “Aprender a aprender”. Ou seja, a escola não deve repassar necessariamente conteúdos, mas deve despertar nos alunos a capacidade deles mesmos serem capazes de aprenderem. Representantes dessa corrente são a italiana Maria Montessori e o norte-americano John Dewey.
Ao contrário da pedagogia tradicional, que via a criança como um adulto pouco desenvolvido, a pedagogia nova vê a criança como um ser completo que passa por fases, sendo que o aprendizado deve se adequar a essas fases. Não é à toa que uma das primeiras providências de Maria Montessori foi mandar construir móveis próprios para as crianças. Faze-las utilizarem móveis de adultos era um desrespeito a elas.
Esse paradigma privilegia a atividade prática, que deve ser realizada em grupo e não individualmente, pois a integração ao grupo é visto como essencial para o desenvolvimento social. Assim, ao aluno é apresentado um problema que deve ser resolvido. Ao professor cabe prover o aluno das informações e instruções que lhe permitam descobrir soluções. Ao contrário da pedagogia tradicional, o professor não demonstra a situação para o aluno. Ele apenas o orienta para que ele chegue às suas próprias soluções.
A vivência democrática é a base dessa postura. Os alunos devem ser capazes de atuarem em uma democracia e para isso é necessário não a disciplina, mas a auto-disciplina. Aluno disciplinado é aquele que é solidário, participante, respeitador das regras do grupo. Segundo Dewey, “o aprendizado se dá quando compartilhamos experiências e isso só é possível num ambiente democrático, onde não haja barreiras ao intercâmbio de idéias”.
Esse paradigma é essencialmente empirista, pois acredita que o conhecimento surge da experiências vivenciadas. O método Montessori, por exemplo, privilegia os sentidos, dando às crianças materiais que lhes permitam experiências com o uso dos sentidos: o tato, a visão, a audição, o olfato. Até mesmo aprender a ler e escrever é decorrência da experiência dos sentidos (como as letras em relevo para que as crianças pudessem acompanhar as formas com os dedos).

Além do enfoque no aluno, os professores da nova escola têm a crença de que as crianças querem aprender, ao contrário da pedagogia tradicional, segundo a qual a criança não tinha interesse nenhum pelo conhecimento e, se não estivesse sob uma disciplina rígida, de castigos e punições, não aprenderia nada.
A relação professor-aluno também diferia muito da escola tradicional. Na escola tradicional, os professores raramente sorriam, pareciam não gostar dos alunos e os castigavam pelos mínimos motivos. A relação era fria e distante, pois qualquer envolvimento emocional poderia comprometer o resultado do trabalho pedagógico. Na nova escola, ao contrário, o professor tem uma relação afetiva com seus alunos e o aprendizado só pode se realizar num ambiente de companheirismo e democracia.
Infelizmente são poucas as escolas que se propõe a ensinar o aluno a aprender a aprender. Muitas escolas apenas utilizaram a escola nova como desculpa para diminuir a importância dos professores. Na maioria das instituições de ensino, o que vale ainda é a pedagogia tradicional. 

Demolidor – Nas garras do Rei

 

 

Desde a primeira aparição do Rei no título do Demolidor, fica muito claro que Frank Miller queria modificar completamente o personagem, transformando-o no estrategista maquiavélico que todos nós amamos odiar.

Mas havia um problema, nas histórias anteriores do personagem, no título do Homem-Aranha, ficara estabelecido que o personagem se regenerara graças ao seu amor pela esposa Vanessa, transformando-se em um comerciante honesto. Para provocar essa virada no personagem era necessário modificar isso.

Essa virada de chave aconteceu no número 171 da revista Daredevil.

Miller demonstrando tudo que aprendeu com Ditko. 


Na trama, o Rei quer resgatar sua esposa, que tinha sido aprisionada pelos atuais chefões do crime em Nova York. Em troca da mulher, eles querem todos os arquivos que o Rei acumulara durante anos, e que poderiam incriminá-los. Só que Matt Murdock também está atrás desses arquivos – e para isso se disfarça como um matador de aluguel que pretende se colocar a serviço do Rei – o que nos leva a uma das muitas lutas entre os dois, pois o vilão chega exatamente quando o Demolidor está tentando se apropriar dos arquivos.

A sequência em que o herói abre o cofre é maravilhosa e mostra o quanto Miller aprendeu com Steve Ditko e Stan Lee. O cofre não tem nenhuma tranca. Só o que segura a porta no lugar é o peso, que não faz muita diferença para alguém com a força descomunal do Rei, mas torna-se um obstáculo quase intransponível para o Demolidor.

A sequência mostra o desespero do vilão ao perder a esposa. 


A sequência em que ele abre a porta inclui três quadros horizontais e quatro verticiais. Tanto imagem quanto texto lembram a famosa cena do Homem-aranha sob os escombros. O texto diz: “Não há esperança. Ele sabe. Por isso não conta com nada. Simplesmente puxa (...) até que seus braços tremam e ameacem se desgarrar de seus ombros... e, de alguma forma, em algum lugar além da dor... ele encontra as forças que precisa”.

Lá pelo final da edição o Rei vai resgatar sua esposa, o que inclui um plano para lubridiar os chefões. Mas quando está a poucos passos dela, uma bomba explode e toda a estrutura desaba... e temos mais uma sequência impressionante de Miller, com o rei procucurando a esposa entre os destroços, as pupilas transformadas em pontinhos, reflexo do fato de que ele não consegue acreditar no que está acontecendo.

O autor da explosão é o braço direito do vilão, cujo plano inclui matar Vanessa para que o patrão volte a se tornar o rei do crime. 

Perry Rhodan – O inferno atômico

 

 

Se eu não soubesse que a teoria do caos ainda estava dando os primeiros passos naquela época,  diria que o número 79 da série Perry Rhodan foi todo construído a partir do conceito do efeito borboleta. O neutralizador de vibrações de um cruzador ligeiro falha durante um salto, fazendo com que o computador regente de Árcon descubra a localização da base terrana em Fera Cinzenta. Acreditando que achou finalmente a localização da Terra, o regente manda bombardear o planeta com uma espécie de arma nuclear capaz de incendiar um planeta inteiro. Ou seja: um pequeno evento tem consequências desastrosas em nível estelar.

Para piorar a situação, Rhodan, Bell, Atlan e o mutante Fellmer Lloyd encontram-se em Fera Cinzeta, e a frota terrana está em outro local. Quando a bomba arcônida entra em ação, os quatro precisam usar todos os meios para tentar sobreviver num planeta em colapso.

Esse mote dá origem a uma trama extremamente movimentada, frenética, de sobrevivência. Os quatro protagonistas escapam de uma situação e logo se encontram em outra pior, naquilo que normalmente é chamado sair da frigideira para cair no fogo. Nem mesmo quando eles saem do planeta essa situação muda.



Kurt Mahr, o autor deste volume, tem a mania de parar a narrativa para descrever detalhes técnicos, e aqui ele faz novamente isso, quando dedica cinco páginas para falar sobre hipereletromagnetismo. Mas isso não chega a prejudicar a trama, especialmente porque é muita coisa acontecendo (dos volumes desse segundo ciclo é provavelmente o mais movimentado).

Uma estratégia narrativa acertada foi introduzir o tempo na narração: “Isso aconteceu às onze horas e cinquenta e oito minutos. Às doze horas em ponto os primeiros foguetes disparados pelo sistema defensivo da base atingiram o alvo”. Essa estratégia amplia mais ainda a impressão de que é muita acontecendo em pouco tempo.  

Esse é, definitivamente, um dos livros mais empolgantes do segundo ciclo.

O quadrinista que queria desenhar Flash Gordon e acabou fazendo Star Wars

 

Pouca gente sabe, mas Star Wars surgiu porque George Lucas era fã de Flash Gordon, mas não conseguiu os direitos do personagem para fazer um filme e decidiu criar sua própria saga.
Então, para desenhar a tira dessa nova space opera quem acabou sendo escolhido foi Al Willamson, um cara altamente influenciado por Alex Raymond (o criador de Flash Gordon) e que sonhava em se tornar o desenhista regular da tira de Flash Gordon, mas tudo que conseguiu foi desenhar algumas tiras. 
Além de fazer as tiras Wiliamson desenhou várias revistas da saga espacial na Marvel. 
Essa ironia parece o universo tentando consertar um erro. 

O show de Truman e a pós-verdade

 


Poucos filmes foram tão felizes em identificar a era de simulacros hiper-reais em que vivemos quanto O show de Truman.
Vivemos em um mundo midiatizado em que a ficção é tida como real, em que essas duas instâncias se confundem e o hiper-real parece tão belo, tão perfeito, tão do nosso agrado que nos parece mais real que a realidade.
No filme de Peter Weir. de 1998, um bebê é adotado por um estúdio de TV para se tornar a estrela de um reality show, um show sobre sua vida, em que tudo é falso, tudo é criado, um mundo perfeito, de felicidades, amigos, vizinhos felizes, uma esposa apaixonada. Mas um mundo falso. Ao descobrir isso, Truman, como o protagonista do mito da caverna de Platão, tenta escapar do pequeno mundo artificial criado para ele.
Curiosamente, o que vemos é exatamente o oposto: pessoas cada vez imersas no mundo de fantasia criadas por elas, por suas convicções.
Sintoma disso é que este ano o Dicionário Osford adicionou aos seus verbetes uma nova palavra, talvez a mais característica de nossos tempos: "pós-verdade". Estamos no domínio da pós-verdade quando fatos concretos perdem valor para crenças pessoais. Exemplo disso é a pessoa que compartilha uma notícia falsa, às vezes mesmo sabendo que é falsa, mas compartilha porque é uma notícia que reforça suas convicções pessoais, políticas, religiosas.
O uso de notícias falsas é talvez a característica mais visível desses tempos de pós-verdade. Se é confrontada, a pessoa responde algo: "É sobre alguém que não gosto, então é verdade" ou "É alguém que não gosto, então, por mais que não seja verdade dessa vez, será verdade na próxima vez".
Vivemos em um show de Truman em que pesssoas se enclausuram em suas convicções e nem por um momento pensam em escapar delas.

sábado, março 07, 2026

Descartes e o demônio da dúvida

 


Um dos pensadores mais importantes da humanidade foi o filósofo francês René Descartes. Suas idéias mudaram a forma de pensar do mundo ocidental e inauguraram os pilares da metodologia científica.
Descartes era tudo, menos humilde. Ele queria criar uma nova forma de pensar, que fosse mais adequada aos novos tempos. É importante lembrar que o filósofo viveu em uma época de mudanças. O mundo passava do geocentrismo (a idéia de que tudo, inclusive o Sol, gira ao redor da Terra) ao heliocentrismo (a idéia de que é a Terra que gira ao redor do Sol), as grandes navegações demonstravam que havia todo um mundo a ser descoberto, a imprensa tornava possível que um pensamento se dissipasse com grande velocidade e, finalmente, os reis passavam a ter mais poder do que jamais tiveram em toda a Idade Média.
Em 1619, Descartes teve um sonho em que o espírito da verdade descia sobre ele. A partir desse dia, passou a se dedicar à busca da verdade e de uma nova forma de pensar, que tornasse o caminho em direção à verdade mais rápido.
Depois de andar por boa parte do mundo conhecido, recolhendo conhecimentos, ele se isolou em busca de um método próprio. Ele percebeu que o método característico da Idade Média, a lógica, não o levaria longe: “Verifiquei que, quanto à lógica, os seus silogismos e a maior parte de suas restantes instruções serviam mais para explicar aos outros as coisas que já se sabem”, escreveu ele no seu livro O Discurso do Método.          
O novo pensamento, criado por Descartes seria baseado em quatro princípios:
1 – Nunca aceitar como verdadeira nenhuma coisa que não se conhecesse evidentemente como tal.
Ou seja, duvidar sempre. Aí o filósofo difere o conhecimento científico do teológico, baseado na fé. Enquanto a religião prega o acreditar sempre, a ciência partiria sempre da dúvida.
2 – Dividir cada uma das dificuldades que devesse examinar em tantas partes quanto fosse possível e necessário para resolve-las.  
Descartes inaugurou com esse princípio a divisão do saber. Segundo a lógica cartesiana, não devemos pesquisar o fenômeno no todo, mas em partes. Para conhecer o corpo humano, devo dividi-lo em partes e estudar uma a uma.  Esse princípio deu origem à especialização que se reflete na própria organização da escola. Temos professores de geografia, história, ciências, literatura, redação... muitas vezes o professor de história não entende nada de geografia e o professor de literatura não sabe nada de redação. A crítica a esse princípio seria a base do pensamento da cibernética e de Edgar Morin.
3 – Conduzir em ordem os pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para chegar, aos poucos, gradativamente, ao conhecimento dos mais compostos, e supondo também, naturalmente, uma ordem de precedência de uns em relação aos outros.
Em outras palavras, ao resolver um problema devemos solucionar primeiro as partes mais simples para depois chegar às mais complexas. Esse princípio também leva a crer que o complexo é na verdade uma junção de partes simples, uma idéia que depois seria criticada por pensadores como Edgar Morin.
4 – Fazer, para cada caso, enumerações tão completas e revisões tão gerais que tivesse a certeza de não ter omitido nada.
Esse princípio, certamente advindo da matemática, teve como conseqüência, na ciência, na idéia de que não se deve confiar no primeiro resultado de uma experiência. O cientista deve refazer suas experiências à exaustão até ter certeza de que o resultado está correto. Mesmo em uma pesquisa bibliográfica esse princípio pode ser adotado. Já vi alunos que, ao fazerem uma pesquisa, usam apenas um livro como referência. Isso não é pesquisa, é cópia. Um trabalho de pesquisa deve comparar as idéias de informações de vários autores. Confiar no primeiro autor que se apresenta pode ser perigoso, pois esse autor pode estar equivocado.
Alguns anos depois, um cientista inglês, Isaac Newton, usaria os princípios de Descartes para resolver um problema científico: por que a Lua não cai na Terra? Mas isso será objeto de outro artigo. Por enquanto, vamos ver como Descartes usou o método para resolver um problema menos científico e mais filosófico.
O que o filósofo se perguntou é como podemos chegar a certezas. Ele já havia identificado que os sentidos não são confiáveis. Afinal, as pessoas haviam acreditado durante anos que o Sol girava ao redor da Terra simplesmente porque os sentidos lhe diziam isso.
Quantas vezes não somos enganados por nossos sentidos? Às vezes estamos em um navio e achamos que já começou a viagem, quando na verdade foi o barco ao lado que começou a se movimentar? Quantas vezes não temos sonhos que parecem perfeitamente reais?
A não confiabilidade dos sentidos fica demonstrada em filmes como Matrix. Neo acreditava piamente que a vida que levava era real, até descobrir que tudo era uma ilusão criada por um programa de computador...
No filme Uma Mente Brilhante, o personagem principal, um ganhador do prêmio Nobel, conversava com pessoas que não existiam. 
Descartes imaginou-se dominado por um demônio da dúvida que o faria ter dúvida de tudo. Se eu duvido de tudo, se duvido até mesmo se estou realmente aqui escrevendo este texto, qual a minha única certeza?
A minha única certeza é de que tenho dúvidas. Se tenho dúvidas é porque penso. Se penso, logo existo. Cogito ergo sum.
Esse raciocínio de Descartes teve duas conseqüências. Por um lado a ciência procurou aperfeiçoar cada vez mais os instrumentos de pesquisa para fugir da validação subjetiva. Balanças, cronômetros, questionários, observação sistemática são instrumentos de pesquisa que tentam fugir da dúvida deixada pelos sentidos. Na filosofia, as idéias de Descartes inauguram o postulado da razão, que dominaria toda a Idade Moderna.