segunda-feira, julho 13, 2026

Livro de Gian Danton vira alegoria do Caprichoso

 

A alegoria de Chico Patuá realizada pelo Boi Caprichoso. 

 Na noite do dia 29 de junho de 2024 recebi uma mensagem do amigo Romahs, de Manaus: "Parabéns pela homenagem!". Ele estava vendo, ao vivo, o Festival de Parintins, quando se deparou com uma alegoria em referência ao Chico Patuá, personagem do meu livro Cabanagem, publicado em 2020. 

Surpreso, comecei a pesquisar. A alegoria contava toda a história do meu livro: Chico Patuá fugindo dos soldados, o vilão Dom Rodrigo sendo tirado da prisão e perdoado com a condição de que prendesse Chico, as encantarias. 

A descrição da alegoria, na revista do Caprichoso. 


Na semana seguinte, consegui finalmente contato com a diretoria do Caprichoso, que me confirmou que a alegoria foi baseada na minha obra. 

O assunto ganhou grande repercussão na mídia amapaense. O G1 anunciou: "História de escritor do Amapá vira alegoria do 'Boi Caprichoso', tricampeão do Festival de Parintins".

O resumo publicado na contrapa do meu livro Cabanagem. 


Já a manchete da Gazeta do Amapá foi: "Em festival de Parintins, hsitória de escritor do Amapá dá tricampeonato ao Boi Caprichoso. 
Portal Amazônia colocou a seguinte manchete: "Saiba qual história de escritor do Amapá se tornou alegoria do Boi Caprichoso em 2024".
Também tivemos matéria de TV e na rádio CBN. 
Ao G1, O presidente do Conselho de Artes do Boi Caprichoso, Ericky Nakanome, declarou: "Para gente foi uma alegria imensa receber a ligação dele. Eu acredito que seja a primeira vez que isso aconteça. A gente trabalha com uma referência de quase 200 livros. O livro do Gian foi um achado. A obra aparece na bibliografia como uma das principais e temos o desejo de trazer ele (autor) à Parintins até o final do ano, para lançar o livro aqui com a gente". 
Para quem não conhece, o Festival de Parintins é o mais famoso festival folclórico da Amazônia, sendo transmitido ao vivo para o Amazonas e outros estados. 
Para mim foi uma alegria e honra imensa ver meu livro transposto para o bumbódromo. 

Alceu Penna e as garotas do Brasil

 


O escritor Gonçalo Júnior tem se destacado como o grande cronista da história da imprensa nacional. Seu livro A guerra dos gibis (Companhia das Letras, 2004) tornou-se ponto de referência fundamental para qualquer um que queira entender a formação editorial brasileira. Esse resgate tem continuado em outras como O Homem Abril (Opera Graphica, 2005), Maria Erótica e o clamor do Sexo (Kalako, 2010) e agora em Alceu Penna e as garotas do Brasil, lançado recentemente pela editora Amarilys.
O autor tem contado a história das publicações e editoras através de um ou mais de seus protagonistas. No livro em questão, o foco da narrativa é o desenhista Alceu Penna, autor de uma das mais importantes e influentes colunas da revista O Cruzeiro.
Hoje é difícil imaginar que uma publicação impressa tivesse tanto impacto na sociedade como foi o caso da Cruzeiro. A revista tinha uma tiragem média de 500 mil exemplares semanais na década de 1950. Segundo Gonçalo Júnior, o impacto era equivalente ao que temos hoje em programas como o Fantástico: “Aparecer em suas páginas – de modo positivo ou negativo – portanto, implicava notoriedade instantânea”.
Numa época em que a televisão ainda estava engatinhando no Brasil, a revista influenciava o jeito de pensar, agir e até de se vestir da população brasileira e nesse ponto, o impacto da produção de Alceu em sua coluna As garotas do Brasil foi enorme: “Alceu Penna foi o criador da garota-padrão do Rio, do ideal de beleza que correria o mundo muito antes de Tom Jobim e Vinícius de Moraes comporem  ‘Garota de Ipanema’”.

Essas garotas prenunciaram, pregaram e difundiram, no período de 1938 a 1964, as tendências de liberdade, independência e emancipação da mulher ocidental. A brasileira só conseguiria o direito de trabalhar fora sem autorização do pai ou do marido em 1962, com o Estatuto da Mulher Casada, mas muito antes disso, já eram independente na coluna de Alceu. Eram mulheres chiques, elegantes, sedentas de aventura e liberdade. Segundo Gonçalo, o desenhista fez de sua coluna um panfleto de emancipação feminina, com sugestões de como explorar todas as formas possíveis de liberdade num país de tradição machista.
O livro foi escrito graças à ajuda de Tereza Penna, irmã do artista, que franqueou ao autor toda uma muito bem organizada biblioteca inclusive com desenhos inéditos – um dos pontos interessantes do livro é justamente a comparação entre os desenhos iniciais, mais desinibidos e a versão mais comportada exigida por editores e proprietários de empresas que encomendavam os trabalhos.
A sensualidade, aliás, já era destacada por Alceu desde o colégio, quando o garoto comportado fazia desenhos eróticos que eram muito admirados pelos colegas. Conta-se que uma vez um amigo o advertiu que ele seria expulso se o padre que estava lecionando naquele momento visse o desenho que ele fazia. “Relaxa”, respondeu Alceu “Quando ele chegar aqui a garota já estará vestida”.
Apesar desse início libidinoso, Alceu nunca levou seu traço para a pornografia. O erotismo de suas mulheres era elegante e refinado, o que foi, em grande parte, causa do seu grande sucesso na sociedade carioca da primeira metade do século XX. E, provavelmente, foi o que fez com que ele conseguisse um lugar de destaque numa das principais revistas da época, O Cruzeiro.
A revista surgira com a proposta de ser grandiosa e de revolucionar o mercado editorial brasileiro. A campanha de lançamento tinha o objetivo de mostrar essa grandiosidade. Em pleno calor de dezembro o dono da publicação, o empresário Assis Chateaubriand inventou de dar um efeito visual de que estava nevando. Foram jogados do alto dos prédios quatro milhões de folhetos. Os motoristas buzinavam, como se fosse carnaval, e a maioria das pessoas se abaixou para ver o que dizia o papel impresso. Todos eles traziam a mesma mensagem: “Compre amanhã O Cruzeiro, em todos os jornaleiros, a revista contemporânea dos arranha-céus”.

O primeiro número era chique, com o close de uma linda mulher fazendo biquinho com olhar sensual. Era impressa em quatro cores sob fundo prata com o título em vermelho ao lado do cruzeiro do sul em branco.
Impressionou num primeiro momento, mas foi perdendo leitores e já estava para fechar as portas quando Alceu Penna compareceu à redação com seus desenhos. Na época, a revista passava pela primeira reformulação, realizada pelo jornalista Accioly Netto e o mesmo que se encantou com o desenho de Alceu e o contratou.
Ao assumir a revista, Accioly descobriu que a administração era amadora e ineficiente, a redação era um caos: não havia dinheiro para fazer a revista, nem anunciantes. A maioria dos colaboradores nem entregavam mais seus trabalhos em decorrência dos atrasos nos pagamentos.
Accioly abriu a página da revista para reportagens e coberturas de eventos como o carnaval e desfiles, onde eram conseguidas fotos a baixo custo – na maioria das vezes de graça – que embelezavam as páginas da revista. Havia até uma coluna de um suposto correspondente em Hollywood, que na verdade era escrita por Accioly que usava fotos e informações fornecidas pelas distribuidoras interessadas em promover seus filmes.

Um dos grandes sucessos da renovação foi o destaque dado à moda e ao universo feminino. Sabedor de que boa parte do público leitor era composto por mulheres, Accioly investiu em colunas para elas – a mais famosa dela seria “As garotas do Brasil”, assinada por Alceu Penna, que daria o tom da moda usada por mulheres no Brasil em pelo menos duas décadas, a ponto das garotas recortarem páginas da revista e levarem para costureiras copiarem os modelos.
A trajetória dos dois, revista e artista é acompanhada passo a passo por Gonçalo, até mesmo nos seus momentos mais embaraçosos, como na relação conflituosa de Alceu com inescrupuloso repórter David Nasser.
Com seu texto fluído, Gonçalo Júnior consegue prender a atenção do leitor para a história de um desenhista injustamente esquecido pelos leitores atuais.
De negativo mesmo, só o formato o livro. Vertical, ele dificulta o manuseio, o armazenamento e ainda dá pouco destaque para algumas das obras de Alceu impressas no livro, em especial os quadrinhos, que precisam de uma lupa para serem lidos.

Mister No – O último cangaceiro

 



É notório o fato de que Sérgio Bonelli tinha um fascínio pelos cangaceiros, tanto que já na terceira história do personagem deu um jeito de inclui-los na trama. Mas como fazer isso? Primeiro, porque os cangaceiros já não existiam na época em que a série acontece (década de 1950), segundo porque as histórias de Mister No acontecem na Amazônia.

O roteirista contorna esses problemas com inteligência. A questão da ambientação é resolvida através de um homem que contrata Mister No para levá-lo à Bahia, o que, aliás, nos fornece uma sequência maravilhosa de humor, com o tranbiqueiro e sua descupa fleumática “Sua digna confiança poderá vir a ser recompensanda, quando um dia eu tornar a ver a cor dos dólares! Então acertaremos nossas contas!”.

Um homem contrata Mister No para levá-lo à Bahia, mas é roubada. 


Aqui, já na terceira história, já é possível perceber um padrão: quando todo serviço que o Mister No pega é uma roubada que, ao invés de lhe render dinheiro, acaba deixando-o no prejuízo. O protagonista da série é, portanto, um divertido perdedor.

Sem dinheiro sequer para colocar gasolina no avião piper, o herói tenta conseguir algum desafiando um lutador de capoeira (uma forma inteligente do roteirista de incluir na história mais essa manifestação cultural brasileira). E, numa verdadeira inversão do que se poderia esperar, acaba levando uma surra. Um contraste total com o que até então era comum nos quadrinhos – em que os personagens norte-americanos eram geralmente invencíveis.

Mister No não é um herói invencível. 


Sem dinheiro, derrotado e cheio de hematomas, o herói vai para um bar tomar uma pinga para se consolar. É quando encontra um homem que o contrata para um serviço: levar alimentos para pastores que se perderam no sertão. Mas, como sempre, o serviço é uma roubada. Na verdade, os campangas que vão junto no avião estão ali para matar um grupo que se escondeu no meio da caatinga. E esse grupo é formado por... cangaceiros!

Aqui entra novamente a genialidade do roteirista. Ele consegue achar uma explicação verossímil para esse anacronismo. Na verdade, segundo a história, os cangaceiros são na verdade revolucionários, lavradores que se revoltaram contra a opressão dos grandes proprietários de terras e resolveram se vestir como cangaceiros como forma de ganhar a simpatia da população.

Cangaceiros em plena década de 1950? 


Nem mesmo quando o líder dos revolucionários começa um longo monólogo sobre os cangaceiros e sua importância social e histórica, a história perde o fôlego: “Mesmo privado de claras ideologias, fez nascer no povo os primeiros sintomas da revolta contra os latifundiários e os governadores corruptos que com seu poder esmagavam a miserável população do nordeste!”.

Essa situação inusitada gera uma longa trama, que se estende por dois números, repleta de reviravoltas.

O roteirista arranja uma explicação verossímil. 


Em tempo: posteriormente o personagem teria outra trama com cangaceiros, essa focada na cabeça de Lampião.

Arnold

 


Arnold é um documentário dirigido por Lesley Chilcott sobre o ator e fisioculturista Arnold Schwarzenegger. Disponível na Netflix, é dividido em três partes, cada uma das quais explora um momento da vida do protagonista: o fisioculturista, o astro de cinema e o politico.

Embora  Schwarzenegger seja uma das figuras mais populares do século XX, muitos dos fatos sobre sua vida são desconhecidos. A maioria das pessoas sabe apenas que ele é austríaco, foi mister universo e estrelou diversas produções de Hollywood. Para a maioria das pessoas, igualmente, ele é um homem cheio de músculos, mas com pouco cérebro. O documentário se distingue por ir muito além dessa visão rasa.

A primeira coisa que espanta é perceber como Schwarzenegger programou sua vida para chegar aos seus objetivos. Ao ver, quando criança, o filme Hércules na conqusita da Atlântida, com Reg Park, ele decidiu que seria primeiro um fisioculturista e depois um astro de cinema da mesma forma que seu ídolo.

A criação caseira, com o pai que impunha uma disciplina militar e colocava ele e o irmão para disputarem até mesmo quem trazia melhores flores no dia das mães, também teve uma forte influência sobre seu caráter. Arnold é um homem que vive de disputas e sua musculatura era apenas a parte mais visível disso. Curiosamente, a mesm criação que transformou ele no que é, destriu seu irmão, incapaz de lidar com o clima opressivo da família.

O documentário traz revelações interessantes, como o fato de que Schwarzenegger foi inicialmente escalado para fazer o herói do filme Exterminador (O. J. Simpson faria o papel do robô). Conversando com James Cameron, ele o convenceu que os papeis estavam trocados, o que foi um grande acerto e transformou o filme num clássico.

Esse momento revela um dos aspectos da inteligência do biografado. Ele sabia escolher roteiros e sabia escolher papéis. Quando percebeu que ficaria marcado apenas como ator de filmes de ação, ele convenceu o diretor Ivan Reitman a dirigir uma comédia com ele. Surgiu assim o clássico Irmãos gêmeos, em que Schwarzenegger faz o papel de irmão de Danny DeVito. Schwarzenegger sabia administrar sua carreira, ao contrário de Stalone, ator que era seu grande concorrente, e que se concentrava unicamente em filmes de ação.

Apesar de nitidamente ser favorável ao ator, o documentário não esconde esqueletos no armário, como o assédio a mulheres e o filho fora do casamento (com a governanta da família). Curiosamente, o filho ilegítimo é o mais parecido com o pai, sendo o único que enveredou pelo fisioculturismo.

O doc acerta ao fechar com falas políticas a favor das vacinas e contra o extremismo político da extrema direita, uma ideologia que tinha capturado seu pai e, de certa forma, foi responsável pela criação que levou seu irmão à morte.

Monstro do Pântano – Meu paraíso azul

 


Há uma frase famosa de Alan Moore segundo o qual “hoje em dia ninguém mais lê poesia e os quadrinhos são uma forma de devolver a poesia às pessoas”. Ele vai demonstrar isso no número 56 da revista Swamp Thing.

Nas edições anteriores, o Monstro do Pântano havia sido, aparentemente morto por uma organização criminosa. Eles haviam mudado a vibração terrestre de modo que seu espírito não pudesse mais acessar a Terra. Mas na verdade, o personagem não morrera – ele saltara no espaço, procurando um local onde pudesse renascer.

O personagem vai parar num planeta azul e cria estratégias para fugir do tédio... 


Na edição em pauta, Moore mostra o que aconteceu com ele. Ele conseguiu sobreviver renascendo em um planeta em que tudo é azul: “As samambaias turquesas... os seixos azul-pálidos... a luz do aquário filtrada por nuvens de cobalto alvejado... os reflexos do azul da Prússia da carapaça polida do besouro que pasta... tudo... tudo é azul”.

A história é centrada em um único personagem, o protagonista, que cria estratégias para passar o tempo e fugir do tédio e da loucura, incapaz de arriscar novamente o salto que pode levá-lo à morte. Ele cria uma versão e si mesmo para jogar xadrez (todas as partidas terminam em empate), cria asas para voar e... finalmente, cria um simulacro de Abbe. Depois cria um simulacro da cidade na Flórida onde se passavam suas aventuras.

Ele cria um simulacro de Abbe. 


A HQ é um estudo sobre a tristeza e loucura da solidão. Não por acaso, Alan Moore escolhe a azul, uma cor associada à tristeza em países como os Estados Unidos. A narrativa é toda em primeira pessoa, o que permite a Moore exercitar toda a sua verve poética, como no trecho: “Através da onírica fosforescência do ar rico em gases raros... nós rolamos em uma progressão cinemática... de quadros de stop motion... uma sequência sensual e inescapável”.

Mas John Constantine está ali para trazê-lo de volta à realidade. 

Uma curiosidade é que, no meio dessa fantasia, o insconsciente do Mostro cria uma versão de John Constantine, que, como na sua versão real, é quem destrói as fantasias com sua sinceridade cortante: “John Constantine, o que faz aqui?”; “Eu lhe faria a mesma pergunta... mas nunca fui muito de conversar comigo mesmo”.

Fundo do baú - Centurions: Força Extrema


Armaduras e robôs estavam em voga nos anos 1980, e um desenho animado uniu as duas tendências em um só produto: Centurions, produzido pela Ruby-Spears.

A história é centrada em um grupo criado pelo Conselho Mundial para proteger a Terra de ameaças, utilizando exo-trajes. O time principal é formado por Max Ray, especialista em operações no mar; Jake Rockwell, especialista em operações em terra; e Ace McCloud, especialista em operações no ar. Completa o grupo Crystal Kane, uma operadora de sistemas que dá suporte aos soldados através do satélite Sky Vault, e o cão siberiano Sombra, mascote da equipe.

A série ganhou uma revista em quadrinhos... 


A principal ameaça enfrentada pelos Centurions era o vilão ciborgue Doutor Terror e seu ajudante, também ciborgue, Hacker. Constantemente, os heróis precisavam impedir os planos de dominação mundial da dupla.

Inicialmente, o desenho foi planejado apenas como uma minissérie de cinco episódios, mas o sucesso fez com que fossem produzidos mais 60, totalizando 65 episódios.

,,, e até bonequinhos. 


O desenho tinha uma "pegada" de quadrinhos. Seu design foi concebido por Jack Kirby e Gil Kane, e Gerry Conway, famoso por sua passagem pelo Homem-Aranha, fazia parte do time de roteiristas. Embora fosse uma produção norte-americana, a animação era feita pelo estúdio japonês Sunrise, o que conferia um aspecto de anime a algumas sequências.

Os personagens também tiveram uma linha de brinquedos e até uma revista em quadrinhos publicada pela DC Comics.

domingo, julho 12, 2026

Lex Luthor – Biografia não autorizada

 


Quando John Byrne assumiu o título do Super-homem ele mudou muita coisa, inclusive as características do principal vilão da série, Lex Luthor. Antes um cientista fanfarrão que vestia armaduras e criava engenhos malignos para derrotar o Homem de aço, o novo Lex Luthor parecia muito mais um mafioso, alguém que manipulava os fios para conseguir o que queria e nunca sujava as mãos.

James Hudnall aproveitou essa mudança no personagem para criar uma das histórias mais interessantes da DC do período: Lux Luthor – biografia não autorizada.

Desde criança, Lex Luthor era manipulador. 


Na história, um jornalista começa a investigar Lex Luthor para escrever um livro e é morto. O problema é que a última pessoa que esteve com ele foi Clark Kent, o que faz do repórter o suspeito número um da polícia.

Muito bem escrita e bem elaborada, a trama alterna entre o interrogatório de Kent e flash backs mostrando o que realmente aconteceu com o repórter. Vai desde o telefonema de uma editora encomendando o livro-reportagem até as descobertas de todas as falcatruas com as quais Lex Luthor, o benemérito filantropo, conseguiu se tornar a pessoa mais rica de Metrópolis, passando pelas mortes dos informantes.

Clark Kent é o principal suspeito. 


Ou seja: é uma tremenda história policial.

Para desenhar foi chamado o desenhista uruguaio Eduardo Barreto. Barreto se sai muito bem, conseguindo tornar visualmente interessante uma HQ que praticamente não tem muita ação, calcada praticamente só em diálogos. Também se sai muito bem ao mostrar Luthor como um refinado mafioso.

Essa HQ foi publicada na década de 90 pela editora Abril e relançada em 2017 pela Panini. A edição da Panini traz também uma história antiga do personagem, ainda da dupla Jerry Siegel – Joe Shuster, e uma história da fase John Byrne, permitindo ter um bom panorama do herói.



Uma curiosidade:  a capa é baseada visualmente num livro de Donald Trump, The art of deal.

O cemitério nazista em Laranjal do Jari

 


Tenho ouvido de muitas pessoas que o Amapá não tem história. Essa visão de que nada aconteceu aqui é totalmente equivocada, embora, de fato, pouca coisa tenha sido preservada. Mas ainda temos registros históricos, como cemitério nazista, em Laranjal do Jari. De 1935 a 1937, uma expedição comandada por Otto Schulz-Kampfhenkel, um jovem que agia muito mais como marketeiro do que como cientista. O pouco rigor científico fez com que houvesse a suspeita, baseada inclusive em falas de pessoas da expedição, de que o verdadeiro objetivo era pesquisar o terreno para uma invasão ou transformaria o Amapá na Guiana Alemã. Otto escreveu um livro e lançou um filme, ambos com o título de Mistérios da floresta infernal. Um dos integrantes da expedição, Joseph Greiner, morreu de malária e foi enterrado no local, onde foi erigida uma cruz. É um importante registro histórico e um aviso sobre uma época em que fascistas cobiçaram a Amazônia. E uma advertência: não estariam eles, até hoje, cobiçando a nossa região e as nossas riquezas?  

Apocalipse nos trópicos

 


Em Apocalipse nos trópicos, a diretora Petra Costa traça a trajetória do projeto de de poder de líderes evangélicos como Silas Malafaia e como esse projeto sequestrou grande parte das igrejas.

Construindo sua narrativa a partir de obras de arte religiosa, como Bosch e Giotto, ela apresenta a forma como grande parte das igrejas evangélicas desistiu de cuidar apenas do plano espiritual para tomar todas as esferas da vida, da política à economia, passando pelo entretenimento num plano de teocracia.

O filme orquestra a realidade atual com o contexto histórico, como a mudança de visão a respeito do apocalipse, antes visto como um evento em que Jesus voltaria depois de mil anos de paz para uma visão em que Jesus voltaria em uma guerra religiosa, em que os “pecadores” seriam punidos, de forma que, quando piores estivessem as coisas, mais próxima estaria a vinda de Cristo.

O contexto histórico da virada evangélica no Brasil é destacado na década de 1970, quando o governo norte-americano deixa de considerar a igreja católica brasileira como um aliado confiável e passa estimular o protestantismo no Brasil.

Há entrevistas, como da senhora em uma favela que diz gostar das propostas de Lula, mas vai votar em Bolsonaro porque Lula é do candomblé.

De tudo, o que mais me surpreendeu foi o acesso direto da diretora a Silas Malafaia, que não só aceitou conversar com ela, como ainda permite a gravação em situações cotidianas, como em uma rua da cidade. É nesse contexto que vemos a cena mais emblemática e simbólica a respeito do líder religioso. Malafaia é cortado por um motoqueiro enquanto dirige e manda o segurança, em outro carro, ameaçar o rapaz.  Que tipo de influência alguém assim tem sobre as outras pessoas?

Perry Rhodan – Vôo para o infinito

 

No número 32 da série Perry Rhodan, a humanidade estava em plena guerra contra os saltadores, que não aceitavam qualquer interferência em seu monopólio do comércio espacial.

Diante de um adversário muito mais poderoso, Rhodan procura o planeta Peregrino, onde pretende pedir ajuda ao Imortal.

Essa premissa simples nas mãos de autores menos habilidosos poderiam dar origem a um dos volumes mais maçantes da série. Mas Clark Darlton transfoma esse plot num livro extremamente filosófico e um dos mais interessante do primeiro ciclo.

Quando finalmente chega ao planeta Peregrino, os terranos encontram o Imortal ocupado observando o fim de um sistema solar. Junto com o sol, perece uma das civilizações mais antigas do universo. Rhodan indaga se a situação não pode ser revertida e o planeta salvo.

Em resposta, o Imortal volta com Rhodan no tempo e o coloca numa nave rumo ao planeta, cujo nome dá uma dica sobre sua importância: Barcon. Barcon é a origem não só da civilização arcônida, mas de todas as raças humanoides, incluindo os terranos. Isso explica porque no universo da série há tantas raças humanoides: todas descendem do mesmo tronco.

A capa original alemã. 


Esse mote se torna desculpa para diálogos sobre o espaço-tempo, sobre sonhos (“O homem só conhece um tipo de viagem pelo tempo, que é precisamente o sonho”) e sobre até mesmo uma crítica aos excessos do cartesianismo: “No mais solitário dos mundos do universo prevaleceu a idéia de que um saber abrangente traz mais vantagens que a simples especialização”.

Em uma das sequências, o Imortal explica como consegue reunir, num mesmo momento, duas versões da mesma pessoa, numa explicação que reverbera tanto as ideias de Heráclito quanto o budismo: “A cada segundo que se passa, somos uma pessoa diferente. As células de nosso corpo renovam-se constamente, tal qual o sangue. Logo, o homem deste segundo não pode ser o mesmo do segundo que se segue”.

Vôo para o infinito é um daqueles exemplos de como a série Perry Rhodan conseguia ir muito além da literatura popular de banca.

Fundo do baú - Mister Magoo

 


Mr. Magoo é um dos mais populares e longevos personagens dos desenhos animados.

Foi produzido pela United Productions of America de 1949 até a década de 1970 e chegou a ganhar dois prêmios Óscar e ser indicado três vezes. No total, foram 130 episódios de aproximadamente 6 minutos.

O personagem apareceu pela primeira vez no curta The Ragtime Bear , escrito por Millard Kaufman. Kaufman era perseguido pelo marcathismo e concebeu o personagem como um velho rico mal-humorado semelhante a Joseph McCarthy. Já nessa primeira história, além de ser ranzinza, ele era totalmente míope, mas acabava se livrando das situações de perigo por pura sorte. A miopia inclusive o faz confundir um urso com seu ajudante.

O estúdio só liberou o curta por causa do urso, mas logo ficou claro que o motivo do sucesso do curta era o velhinho ranzinza. Entretanto, com o tempo, o personagem foi perdendo seu caráter mais claramente político. Ele também se tornou mais simpático e o humor da série passou a se basear na miopia do personagem – problema que ele parece incapaz de admitir.

Em um dos episódios, por exemplo, ele confunde um centro de recrutamento do exército com uma alfaiataria e provoca as maiores confusões, disparando, por exemplo, uma metralhadora achando que se tratava de uma bengala ou confundindo uma granada com um frasco de perfume.

Uma curiosidade é que o personagem foi alvo de protesto da Federação Nacional dos Cegos dos EUA em 1997, quando a Disney estava produzindo o filme live action do personagem com Leslie Nielsen ("Corra Que a Polícia Vem Aí") no papel principal.

Homem-aranha e Justiceiro no beco da morte

 

 


Corria o ano de 1984. Uma revista do Homem-aranha tinha encalhado numa banca que eu conhecia. Na época eu só tinha dinheiro para comprar a revista que eu colecionava, a Superaventuras Marvel, mas aquela revista ali, encalhada, com o preço sendo corroído pela inflação, era tentadora demais. Além disso, a capa era chamativa, com o Homem-aranha, o Justiceiro e a repórter April no centro, cercados por bandidos apontando suas armas.
Quando minha mãe me perguntou o que eu queria de Natal, não titubiei: pedi o valor da revista, 700 cruzeiros (sim, nessa época nós estávamos na pendura mesmo) e foi assim que consegui adquirir essa revista, a única do aracnídeo que comprei na época.

Essa é uma bela história, com roteiro de Marv Wolfman e desenhos de Keith Pollard, um desenhista menos famoso entre os que ilustraram o amigão da vizinhança, mas muito competentente, especialmente nas cenas de ação e com muitos personagens.
Na trama o Justiceiro está caçando um traficante de drogas quando o acaso faz com que o Aranha entre em seu caminho. Após um conflito inicial (um dos melhores quadros da história é Peter Parker entrando em seu apartamento e dando de cara com o Justiceiro apontando para ele uma arma), os dois acabam se aliando.
Justiceiro reclamando de camelôs: um proto-Rorschach? 
Lembro que algo que me chamou muita atenção na época foi o fato da narrativa ser toda baseada nos diários do Justiceiro chamados Relatório de guerra, algo que até então eu não tinha visto. E esses diários mostram o quanto o personagem era mostrado como uma crítica pelos roteiristas (o criador do personagem, Gerry Conway, já disse diversas vezes que ele é um vilão) e essa história antecipa inclusive a narrativa de Rorschach em Watchmen. À certa altura o diário registra: “A zona leste de Manhattan é uma verdadeira imundice! Os camelôs estão em toda parte vendendo roupas pela metade do preço das grandes lojas!”. Não é o tipo de coisa que Rorschach escreveria em seu diário?  


Essa história foi publicada originalmente nos números 201 e 202 de The Amazing Spiderman. A Abril, como sempre, fez das suas: transformou as duas HQs em uma só.