quinta-feira, março 12, 2026

A incrível Suzana e o cinema de equívocos

 

Um dos temas prediletos do diretor Billy Wilder é o de uma pessoa se fazendo passar por outra. Exemplos disso são Quanto mais quente melhor (em que dois músicos se disfarçam de mulheres para fugir de mafiosos) e Cinco Covas do Egito (em que um soldado inglês se faz passar por um garçom egípcio para espionar os nazistas). Ótimo exemplo disso é A incrível Suzana, em que uma mulher se faz passsar por uma garotinha para pagar meia passagem no trem e voltar para casa após se decepcionar com Nova York.
A questão da dupla identidade constantemente foge do controle dos protagonistas e leva a cenas constantemente equívocas, que podem e devem ser lidas de maneira  dúbia.
Em Quanto mais quente melhor, uma das melhores cenas é aquela em que Tony Curtis se faz passar por tímido para conquistar Marilyn Monroe, que acredita estar conquisantando um homem traumatizado por um relacionamento ruim. Cada gesto, cada palavra traz em si dois sentidos diferentes. Em determinado momento, o herói finge fugir do beijo da  garota, quando na verdade, está extasiado com o mesmo.
Em  A incrível Suzana, ao ser descoberta, Suzana (Ginger Rogers) entra na cabine do major Philip Kirby (Ray Milland), que acredita que ela é uma criança (ou finge acreditar) e a trata como se fosse uma sobrinha. A cena em que ela acorda com um raio e ele a conforta é repleta de conteúdo sexual implícito e uma aula de como trabalhar o duplo sentido no cinema.
Claro que isso só era possível graças ao incrível talento de artistas como  Ginger Rogers, Ray Milland, Marilyn Monroe e Tony Curtis. 
Em uma época em que o cinema podia mostrar muito pouco, mestres como Billy Wilder  brilhavam com a genialidade de diálogos equívocos. Assim, uma premissa tola transformava-se em um grande filme. 

Capitão América – a escolha

 


Em 2007 a Marvel publicou uma série que mostrava os últimos dias de alguns de seus mais famosos personagens escritos e desenhados por autores que tinham uma ligação com eles. O Hulk, por exemplo, era de Peter David e Dale Keown. Para o Capitão América resolveram fazer algo diferente: convidar o escritor David Morrell para escrever a história.
Morrell é autor do livro First Blood, que deu origem à série de filmes de Rambo. É um especialista em histórias de guerra. Para desenhar chamaram Mitch Breiweiser.
A história se passa no Afeganistão. 


A HQ começa com um soldado americano lutando no Afeganistão, contando com a ajuda do Capitão. Parece uma simples patriotada sem muito significado. Mas, pouco depois, quando o soldado e seus amigos ficam presos numa caverna soterrada, a trama ganha peso psicológico tanto para o herói quanto para o soldado. “Como se trata de um sombrio exame psicológico do Capitão América, a caverna é bastante apropriada. Estamos entrando nas profundezas das trevas do Capitão. É essa metáfora que eu buscava”, explicou o autor.
O escritor aproveita para resignificar alguns fatos da história do Capitão, explicando por exemplo, porque alguém tão magro foi escolhido para ser o super-soldado. Na versão de Morrell, todos os grandalhões se revelaram pessoas sem capacidade psicológica para empunharem o escudo, pois o soro do supersoldado extrapolava suas características psicológicas, transformando-os em valentões. Já Steve Rogers é centrado no lema: coragem, honra, lealdade e sacrifício. Coragem, como fica claro na história, não é não ter medo, mas saber lidar com eles.
No final, é uma história que sabe aproveitar o legado do sentinela da liberdade e aprofundar sua personalidade – ao mesmo tempo em que explora sua característica de símbolo.
Essa HQ foi publicada no número 55 da coleção de graphic novels Marvel, da Salvat. Os responsáveis, aliás, cometem um erro logo de cara, que desvaloriza a HQ: acabaram escolhendo a pior capa de toda a série.

Joyland, de Stephen King

 


Stephen King é mais conhecido pelos livros de terror. Entretanto, alguns dos melhores momentos dele foram em textos que pouco tinham do gênero, a exemplo da noveleta O corpo (que deu origem ao filme Conta comigo) ou o romance O corredor da morte (que deu origem ao filme À espera de um milagre). Em Joyland, King mostra que pode ser um mestre em outra modalidade: o policial.
A história se passa em um parque de diversões (o Joyland do título) assombrado por um assassinato: uma garota foi degolada no meio de um brinquedo (conhecido no Brasil como trem fantasma). O assassino nunca foi pego e tudo leva a crer que ele matou outras garotas. A moça assassinada aparece de tempos em tempos para trabalhadores do parque, pedindo ajuda.
O personagem principal é um jovem universitário que acabou de ser chutado pela namorada e aceita um trabalho provisório no parque. Juntam-se a ele dois outros estudantes: uma linda garota ruiva e seu namorado fortão e simpático.
Como o leitor certamente adivinhou, a trama gira em torno da tentativa de se descobrir quem é o assassino (e, numa óbvia contribuição Kingiana, acrescenta-se um garoto doente com dom mediúnico). Mas esse não é o forte de Joyland (embora providencie um final realmente eletrizante). O forte do livro é aquilo que King faz melhor: mostrar personagens cativantes em uma narrativa saudosista. O capítulo em que o garoto doente é levado para passear no parque é um dos pontos altos da obra – algo que só King, com sua narrativa rica e extremamente coloquial conseguiria fazer.
O livro emula os pulp fictions não só na trama, mas também na capa, com o título em fonte vintage, mostrando uma garota Hollywood com sua máquina fotográfica na mão olhando apavorada para alguém que se aproxima, tendo o parque de diversões ao fundo.
Esse estilo saudosista é bem resumido no trecho: “Essas são coisas que aconteceram há muito tempo, em um ano mágico em que o petróleo era vendido por onze dólares o barril. O ano em que meu coração foi partido. O ano em que perdi a virgindidade. O ano em que salvei uma linda garotinha de se engasgar e um velho bem cruel de um ataque cardíaco (...) Também foi o ano em que aprendi a usar uma língua secreta e a dançar o Pop Pop com uma fantasia de cachorro. O ano em que descobri que há coisas piores que perder uma garota”.
Surpreendentemente para King, o livro tem exatas 239 páginas, o que permite ler de uma sentada. 

quarta-feira, março 11, 2026

Arqueiro Verde - Olimpíadas noturnas

 

 

O ano era 1995 e Alan Moore, após sua passagem pelo Monstro do Pântano, era grande sensação do mercado. Todos os editores da DC queriam que o bardo inglês escrevesse seus personagens. 

Len Wein, que havia sido responsável por levar Moore para a DC achou que ele seria a pessoa certa para renovar o interesse dos leitores no Arqueiro Verde, que na época não tinha título próprio. A ideia era publicar uma história secundária nas páginas da Detective Comics e depois tentar lançar um minissérie ou algo do gênero. 

Alan Moore teve uma ideia sobre uma olimpíada noturna disputada por heróis e bandidos. 

O roteiro de Moore aproveita a experiência de Jason com ambientação urbana. 


Para desenhar foi chamado Klaus Jason, famoso arte finalista de Frank Miller que queria sua oportunidade de mostrar seu talento como desenhista. Ele fez as duas histórias no intervalo entre as páginas de Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, que ele estava arte-finalizando à época. 

Moore, como sempre, criou uma história específica para o desenhista, aproveitando suas melhores qualidades, como a caracterização urbana. 

A história começa como se o texto estivesse narrando uma competição: “Não houve atleta carregando a tocha ou a tradicional queima de fogos. No entanto foi dado um sinal inequívoco. O primeiro evento foi corrida de quatrocentros metros rasos com aparelho de TV e primeira fase de abstinência”.

A história tem sequência de humor bem ao estilo do que Miller e Jason faziam no Demolidor. 


A seguir vemos dois bandidos roubando uma TV e um toca discos. O primeiro deles tem um ataque quando vê o Arqueiro. O enfermeiro que atende a ocorrência explica que o homem desenvolveu uma fobia de heróis mascarados depois de ter sido preso pelo Metamorfo. Isso vira inclusive, lá na frente, uma fonte anedota visual bem ao estilo do que Miller fazia no Demolidor. 

Publicada nos números 549 e 550 da Detective Comics, essa é uma história singela, despretensiosamente, mas divertida e até emocionante. Não muito tempo depois o personagem ganhou uma série por Mike greel. É possível que essa história tenha ajudado.

Pijama Selvagem - o site das crônicas humorísticas

 


Pijama Selvagem foi um site lançado por Nemo Nox em 1999 e durou até o ano de 2001. Publicava essencialmente crônicas humorísticas e quadrinhos de humor. Chegou a ser indicado em publicações como Revista da Web e O Globo. Era uma época em que os sites atualizavam semanalmente: você se inscrevia e recebia por e-mail os avisos das atualizações. Eu comecei como fã. Um dia me aventurei a enviar uma crônica, que foi aceita. Acabei virando colunista fixo. Uma prévia do site ainda está disponível aqui.

Homem-Aranha e Viúva Negra – A mulher que nunca existiu

 

Uma mulher vaga a esmo pelas ruas de Nova York. Quando uma gangue resolve assalta-la, é salva pelo Homem-aranha, mas este escorrega na neve e, quando vai ser acertado por um dos malfeitores, é salvo pela frágil mulher, que, de repente, parece ter aprendido golpes de artes marciais. Mexendo em sua bolsa, o Aranha descobre o uniforme da Viúva Negra, mas a mulher alega ser Nancy Rushman, uma professora primária. Pouco depois eles são atacados pela divisão feminina da SHIELD e até por Nick Fury. Aquela mulher tímida e medrosa seria verdadeiramente a Viúva Negra? Por que todos parecem querer matá-la?  

A arte-final dá um outro aspecto para o desenho de Sal Buscema. 


Essa é a trama da saga “A mulher que nunca existiu”, que ocupou os números 82 a 85 da revista Marvel Team Up.

Escrita por Chris Claremont no auge da forma, com desenhos de Sal Buscema e arte-final de Steve Leilaoha, essa saga reuniu mistérios, espionagens, muita ação e até o mestre do Kung-fu.

Todos querem matar a mulher misteriosa... 


Algo a destacar é que a arte-final de Leilaoha aproveita a narrativa visual perfeita de Buscema e a boa escolha de ângulos, mas traz um nível de detalhamento e sombreamento que a história exigia.

Claro que por trás de tudo isso precisava haver um vilão, ou uma vilã e está era a Madame Hidra, agora renomeada de Víbora.

Embora bem narrada esse verdadeiro triller de suspense peca por apresentar rápido demais a solução para o enigma. Algo que atiçou a curiosidade dos leitores por edições inteiras é explicado em apenas uma página.

... até Nick Fury. 


Uma curiosidade é que na primeira história, a mulher misteriosa passa ao lado de uma banca de revista onde está pendurado um exemplar do Clarin Diário com a manchete: “Homem-aranha destrói museu”. O título é uma referência à Marvel Team Up 79, escrita por Claremont e desenhada por John Byrne, na qual o amigo da vizinhança e Sonja impedem um feiticeiro da era hiboriana de dominar a terra.

No Brasil a saga da mulher que nunca existiu foi publicada originalmente em Homem-aranha 4, da editora abril. Posteriormente a Panini publicou parte da saga em coleção histórica Marvel.

O orgulho da ignorância

 

Sócrates dizia que era o homem mais sábio da Grécia justamente porque ele era o único que sabia que não sabia. Esse conhecimento de sua própria ignorância sempre foi o que impulsionou os grandes pensadores. Mas hoje vivemos tempos estranhos, em que não saber algo, ou saber de forma superficial, é considerado um mérito.
Hoje, alguém que viu um meme na internet ou um vídeo de cinco minutos se considera uma autoridade no assunto. Mais: considera-se uma autoridade mais competente do que quem passou a vida estudando aquele assunto, escreveu livros, artigos etc.
Um exemplo: em uma discussão sobre educação, um indivíduo defendia que a solução para a educação no Brasil era apenas mudar a "grade" curricular. Feito isso, tudo se resolvia por mágica. Segundo a pessoa, era preciso esquecer ignorar todos os pensadores da educação e se focar apenas nisso: mudar a "grade". Não sabia exatamente que tipo de mudança, mas sabia que a solução para tudo estava na mudança da "grade". Onde ele aprendera isso? Num meme.
Outro exemplo é a questão dos que defendem que o nazismo era comunista. Leandro Karnall, doutor em história e um dos mais importantes historiadores brasileiros, diz que em décadas participando de congressos internacionais, nunca ouviu falar disso. Mas, segundo os defensores do nazismo-comunista, Leandro Karnall é suspeito para falar justamente por ser um historiador.
Eu já escrevi um livro sobre o nazismo e, durante a pesquisa em vários outros livros e sites sérios na época não encontrei nenhuma referência a isso de nazismo-comunista. Mas, segundo alguns comentadores de internet eu sou suspeito para falar sobre assunto justamente por ter escrito um livro sobre o nazismo. Ou seja: o fato de eu ter pesquisado o suficiente para escrever um livro, faz com que eu tenha menos autoridade para falar sobre o assunto do que uma pessoa que viu um meme com uma imagem de uma moeda com a suástica e a foice e o martelo (uma imagem que ninguém sabe dizer a fonte) ou viu um vídeo de dois minutos.
Por outro lado, os tais "especialistas de meme" são incapazes de explicar, por exemplo, por que os nazistas usavam um símbolo budista sem serem budistas.
São pessoas que não sabem sequer o que é uma variável independente ou o que é um grupo placebo, mas dizem que entendem mais de remédios do que os pesquisadores que pesquisam o assunto há anos. São as mesmas pessoas que dizem que um remédio que nunca passou por um teste científico é mais seguro do que uma vacina testada em milhões de pessoas em todo o mundo seguindo todos os protocolos de uma pesquisa experimental.
Essas são pessoas que fazem campanha contra a mídia e contra os livros. Nos comentários das páginas de jornais é comum encontrar postagens com telefones para cancelar a assinatura. Em postagens sobre livros, os comentários argumentam que livros são mentirosos. Para essa geração, orgulhosa de sua própria ignorância, a verdade está lá fora: no zap zap.
Tristes tempos em que ser ignorante virou motivo de orgulho.

A arte belíssima de Daniel Brandão

 



O desenhista cearense Daniel Brandão já trabalhou para diversas revistas e editoras nacionais e internacionais, como DC Comics, Marvel, Dark Horse, Abril e Maurício de Sousa Produções.
Em 2016 ganhei o prêmio Al Rio como destaque local. Fui coordenador de conteúdo do curso de quadrinhos do projeto HQ Ceará (também ganhador do HQ Mix) e organizador da Antologia HQ pela Fundação Demócrito Rocha. É criador dos personagens Liz, Sebastião e Cariawara. Atualmente possui um estúdio próprio em Fortaleza, Ceará (Estúdio Daniel Brandão) onde ofereço cursos de desenho, quadrinhos e mangá. Confira a arte desse grande talento nacional. 







O enigma de Andrômeda

 

O Enigma de Andrômeda é um filme de 1971, dirigido por Robert Wise, baseado no livro homônimo de Michael Crichton (o mesmo de Congo e Parque dos Dinossauros).  Na história, um satélite cai em uma pequena cidadade dos EUA, provocando a morte de quase todos os seus habitantes. Só um velho e um bebê sobrevivem.
A região é isolada e os sobreviventes e o satélite são enviados para um centro de pesquisas onde cientistas lutam contra o tempo para isolar o vírus extraterrestre e encontrar uma cura antes que a doença se espalhe.
Trata-se de um ótimo filme de ficção científica hard, em que os heróis são cientistas e a solução do problema depende mais da inteligência do que dos músculos.
Chricton é um cara antenado com as descobertas científicas mais recentes (em Parque dos Dinossauros ele não só explica muito bem as descobertas sobre os dinos, como ainda dá uma aula sobre teoria do caos) e coloca isso no filme. Até mesmo o processo de esterilização acaba se tornando interessante para quem gosta de ciência (Frase predileta: "O corpo humano é uma das coisas mais sujas do universo").

Perry Rhodan – No campo dos fora-da-lei


No número 235 da série Perry Rhodan, os terranos haviam sido aprisionados e disponibilizados como escravos para os trombas brancas para ajudarem na produção de alimentos. O número 236 é focado na fuga e recuperação da nave Crest.

Embora seja escrito por William Voltz, autor do volume anterior, esse número é menos inspirado. Enquanto o volume anterior focava em um personagem carismático (o sargento que se considera um lorde) e desenvolvia bem a sociedade dos alienígenas, este é mais focado na ação.

Alguns terranos conseguem fugir e se aliar aos criminosos domésticos, trombas brancas que havia se tornado proscritos. Para conseguir escapar, os terranos provocam uma guerra entre as castas. Para isso, os gêmeos sprinters destroem a estação de energia intermediária, fazendo com que os trombas azuis ataquem os trombas vermelhas. Enquanto isso, Rhodan e um grupo de criminosos domésticos segue em um trem rumo ao local onde fica as instalações que geram energia e principalmente calor para o local.

A capa original alemã. 


À certa altura o líder dos criminosos domésticos mescla-se com um grupo de bioparasitas – uma ideia interessante, que poderia levar a discussões interessantes. Afinal, quem está mandando no corpo? Mas Voltz parece estar com pressa e não desenvolve esse aspecto, deixando todas as questões filosóficas apenas sugeridas.

No final, claro, os terranos conseguem fugir e Rhodan ainda parece construir uma aliança entre as várias castas. Mas ao terminar de ler, fica a sensação de que o livro poderia ser muito melhor e mais empolgante.


terça-feira, março 10, 2026

Superaventuras Marvel

 


Superaventuras Marvel foi antológica, uma revista mix de super-herois como jamais existiu ou existirá no Brasil. Vale lembrar que a revista foi criada quando a editora Abril conseguiu os direitos sobre todos os personagens Marvel – até então os principais personagens da editora, como Hulk e Homem-Aranha, estavam com a RGE.

De repente a redação Abril se viu com uma quantidade impressionante de material de muita qualidade. 

E foi na SAM (como a revista era carinhosamente chamada) que eles colocaram tudo isso.

Tinha Pantera Negra na até então sua melhor fase (com roteiros Don McGregor e desenhos de Billy Graham) , tinha o Dr. Estranho na melhor fase (com roteiros de Steve Englehart e desenhos de Frank Brunner), Kull, Conan, Sonja... a seleção era impressionante!

Até hoje eu pego as primeiras revistas e fico impressionado: não tinha nada sequer razoável ali, era tudo muito bom.

E a SAM publicou simplesmente as duas melhores séries Marvel dos anos 1980: o Demolidor, de Frank Miller e os X-men de Chris Claremont e John Byrne.

Hoje nenhum leitor conseguiria imaginar o impacto que essas séries tiveram e como foram revolucionárias. As mortes de Elektra e da Fênix foram verdadeiros fenômenos, todo mundo que conhecia estava falando sobre isso.

Pra se ter uma ideia, a ansiedade era tão grande que a gente sabia o dia que a revista chegava às bancas e naquele dia íamos perguntar para o jornaleiro se já tinha chegado – e haja reclamação se não chegava. O fato de ser formatinho também ajudava muito na popularidade. Lembro de muitas vezes voltar a pé para casa e usava o dinheiro da passagem para compra a SAM.

A estrada da noite

 

 A estrada da noite conta a história de um astro do rock (Jude) que, ao comprar o paletó de um morto, começa a ser perseguido por seu fantasma, que o culpa pelo suicídio da filha (uma ex-namorada de Jude). O título se refere tanto à morte quanto à fuga do personagem principal, que pega a estrada com Georgia, sua atual namorada, e seus cachorros.

Joe Hill é o pseudônimo do escritor Joseph Hillstrom King, filho do mestre do terror Stephen King. Faz sentido: o sobrenome King traz, inevitavelmente, comparações com o pai, o que pode comprometer a avaliação de um escritor iniciante. Mas, mesmo feitas essas comparações, Hill se sai bem. Seu estilo é um mistura do estilo do pai com o de outros autores, como Neil Gaiman. Ele inclusive cita Alan Moore na epígrafe.
Do pai, Hill herdou a capacidade de criar personagens com os quais o leitor simpatiza. No início, todos os personagens parecem marionetes, chavões: Jude é um roqueiro barra-pesada e grosseiro e Georgia é uma menina desmiolada e fútil. Conforme passam pelas atribulações do enredo, os personagens crescem, ou nós os conhecemos melhor, e aprendemos a gostar e a torcer por eles. 
Por outro lado, o autor mostra uma incrível habilidade para esticar a tensão e o suspense sem deixar que a linha se rompa. A forma como ele faz isso lembra mais Hitchock do que King.
Na comparação, Hill perde em um ponto: ao contrário do pai, ele não se preocupa em criar um clima para suas histórias antes de introduzir o fantástico. Em poucas páginas o primeiro ato acaba e os protagonistas já estão envolvidos no conflito. Em King, na página 10 você já gosta dos personagens, mas não sabe exatamente no que eles estão envolvidos. Com Hill é o contrário.
Por outro lado, o crescimento dos personagens é um ponto positivo. Numa visão mais metafórica, podemos dizer que os protagonistas estão sendo perseguidos não só pelo fantasma do paletó, mas por todos os fantasmas de seus passados.

Capitão América: o novo pacto

 


Ao ser perguntando sobre sua atuação na saga  O novo pacto na revista do Capitão América, o roteirista  John Ney Rieber declarou: “Eu falhei. Não vou dizer que totalmente, mas eu falhei... em vários níveis. Isso não quer dizer que não acredito que seja uma boa revista. No mínimo, a arte de Cassaday é maravilhosa”.
Essa é uma ótima definição a respeito da história que ocupou o número 27 da coleção de graphic novels Marvel da Salvat.
A história foi a estreia do sentinela da liberdade no selo Marvel Knights. O roteirista estava começando a escrever os primeiros argumentos quando aconteceram os ataques terroristas de 11 de setembro. Isso mudou toda a trama, que passou a focar em ataques terroristas. Poderia se transformar em algo interessante, mas o fato de ser escrito no calor da emoção fez com que se tornasse uma trama manca, que não se sustenta em pé.
Parece que o roteirista não pensou o plot como um todo, de modo coisas acontecem sem uma explicação palpável e sem uma costura.
A história vale principalmente pelas belíssimas sequências de ação. 


O Capitão América vai para um local e depois para o outro e o leitor não sabe porque.
Em determinado ponto, o vilão diz que plantou pistas que levaram o herói para Dresden, mas essas pistas não aparecem para o leitor.
No final, a história parece uma colagem de situações: o Capitão ajudando a salvar vítimas do atentado; o Capitão salvando um islâmico de um ataque de americanos; o Capitão salvando uma cidade ocupada por terroristas; o Capitão no meio de uma represa impedindo um atentado terrorista; o Capitão no avião jogando xadrez em uma metáfora que acaba não funcionando; o Capitão em Dresden fazendo sabe-se lá o que.
A revista acaba valendo principalmente por abrir caminho para outras abordagens mais adultas (em especial a fase de Ed Brubaker) e pelas ótimas sequências de ação de John Cassaday.

Jornada nas Estrelas: A cidade à beira da eternidade

 


Não é por acaso que A cidade à beira da eternidade é considerado por muitos o melhor episódio de Jornada nas Estrelas. É um daqueles exemplos de episódio em que tudo funciona, a começar pelo roteiro de Harlan Ellison.
Na história, McCoy recebe, acidentalmente, uma dose massiva de cordrazina, uma droga que provoca paranoia, e desce até um planeta inexplorado onde se encontra um portal temporal, chamado Guardião da Eternidade. Kirk, Spock e um grupo descem para procurá-lo. Enlouquecido pela dose excessiva do remédio, McCoy entra no portal, voltando no tempo. E isso muda completamente a história da humanidade, a ponto de Enterprise não existir mais. Assim, Kirk e Spock precisam voltar ao tempo e impedir essa mudança temporal.
Só por isso esse episódio já seria memorável. Ellison introduz um conceito que posteriormente seria conhecido como efeito borboleta (uma pequena mudança pode provocar grandes alterações), mas na época nem mesmo a ciência havia elaborado esse princípio. Justiça seja feita, Ray Bradbury já tinha lançado o conceito no conto "O som do trovão”, mas certamente esse episódio é pioneiro ao lançar o conceito numa série de TV. Além disso, o roteirista tem a inteligência de explicar exatamente como a morte de uma pessoa pode mudar toda a história da humanidade.
Mas Ellison acrescenta um elemento dramático: Spock descobre que para salvar o mundo como o conhecem, precisam evitar que McCoy salve uma assistente social pela qual Kirk se apaixona ao longo do episódio. Isso introduz um elemento emocional e um dilema ético que elevam o drama do episódio a um nível dramático poucas vezes visto na série. Dificil não se emocionar.
Uma curiosidade é que a assistente social, que ajuda necessitados na época da crise de 1930, em determinado momento faz uma exortação aos necessitados enquanto eles comem a sopa. Pela lógica, espera-se que ela faça um discurso religioso, mas seu discurso é uma utopia científica e tecnológica, em consonância com a ideologia de Jornada nas Estrelas.

Não existe pré-projeto de pesquisa

 


A palavra projeto vem do latim “projectu”, que significa lançar para a frente. Ou seja, é algo que ainda não existe, é algo que está sendo projetado, que só existirá concretamente no futuro.
Em ciência, projeto significa um planejamento da pesquisa, com tema, delimitação, problema, hipótese, metodologia etc. O futuro do projeto dará origema algo pronto, seja um artigo, uma monografia, uma dissertação de mestrado, uma tese.
No entanto, de uns tempos para cá tornou-se comum usar a expressão ‘pré-projeto” de pesquisa. Como é necessário nomear o projeto final, passaram a usar projeto para o resultado da pesquisa. Assim, a monografia vira um projeto, subvertendo completamente o sentido da palavra “projeto”. Se está pronto, não pode ser projeto.
A situação é tão bizarra que dia desses um amigo arquiteto disse que ia me mostrar o projeto de um prédio. Achei que fosse uma maquete, ou uma planta baixa. Cheguei lá era o prédio pronto.
Provavelmente, em algum momento alguém leu um projeto de pesquisa e comentou que estava tão ruim que não era nem um projeto, mas um pré-projeto, ou seja um esboço. Alguém ouviu, achou a palavra bonita e pensou que fosse um elogio. E aí começou a confusão de se chamar o produto final de projeto e o que vem antes de “pré-projeto”.
Então, crianças: não existe pré-projeto. Se ainda não está pronto, se é apenas um planejamento, é projeto. E o produto final é o produto final, não um projeto, seja uma monografia, uma dissertação ou um edifício. 

Roteiro de quadrinhos: a construção de personagens

 


A construção de personagens tem sido tema de teóricos teatrais, cinematográficos, etc... sem que se chegue a uma conclusão decisiva. De modo que não pretendo dar a última palavra sobre o assunto. Longe de mim. Mas posso dar alguma dicas.
                A primeira delas é aprender a observar as pessoas. Da mesma forma que um desenhista precisa precisa ver um anão para desenhar um anão, um roteirista precisa conhecer e entender um neurótico para poder escrever sobre um personagem neurótico.
                Há um exercício muito útil : observar as pessoas no ônibus. Escolha uma pessoa e comece a observá-la, dando uma de Sherlock Holmes. Através da aparência externa, tente descobrir quem é aquela pessoa, como ela pensa, de onde vem... 
                Por exemplo, se, de noite, você encontra no ônibus uma  garota muito bem vestida, é provável que ela esteja indo para uma festa. Se ela estiver levando cadernos ou uma bolsa grande, essa teoria estará furada, pois pessoas normais não costumam levar cadernos para festas. Pelo tipo de roupa é possível imaginar para que festa ela está indo. Se ela olhar insistentemente no relógio, é provável que a tal festa signifique muito para ela. É provável que nessa festa esteja alguém importante. Um ex-namorado do qual ela ainda gosta, por exemplo. Ela sabe que a festa será uma grande chance para a reconciliação e por isso se sente ansiosa...
                Você pode compor todo um perfil psicológico baseado  nessas especulações. Essa  garota poderá ficar numa espécie de "arquivo mental" para ser usada posteriormente em uma história.
                Outra grande dica é pesquisar livros de linguagem corporal. Na maioria das vezes o corpo fala mais do que as palavras. O escritor policial Dashiel Hammett era um especialista no assunto. Suas descrições detalhadas dos gestos dos personagens muitas vezes indicavam ligações insuspeitas entre estes  que iriam influenciar no final da história...
                Um exemplo quadrinístico. Quem tiver conhecimentos mínimos de linguagem corporal vai percerber que o personagem Rorschach, de Watchmen, é um homossexual e nutre uma paixão platônica pelo amigo Nite Owl.
                Ainda sobre a criação de personagens, é importante ter em mente o que ele significa, o que ele representa. Batman é um homem obcecado pela idéia de ordem. "O mundo só faz sentido se você o força a ter", ele diz em Cavaleiro das Trevas. Batman é o protetor de Gothan e, para cumprir a missão que ele mesmo se incubiu, vale qualquer coisa, até mesmo recrutar uma criança (no caso, o Robin).

                A história Para um Homem que Tem Tudo é um interessante estudo de personagem. Nela, descobrimos que o maior sonho de Super-homem é que Kripton não tivesse sido destruído. O maior sonho de Batman é que seus pais não tivessem morrido. Portanto, se seus sonhos tivessem se realizado, eles jamais seriam super-heróis. Super-homem sente-se um alienígena em nosso planeta, um órfão completo. Já Bruce Waine talvez se sinta culpado pela morte dos pais. Moore expõe sua opinião de que só pessoas neuróticas e infelizes se tornariam super-heróis.
                Os personagens normalmente podem ser divididos em categorias, de acordo com o grau de importância dos mesmos na trama. Assim, temos:

                Protagonista – é o personagem principal, aquele que o leitor irá acompanhar. A história será vista do ponto de vista do protagonista.

                Antagonista – é o vilão, muito comum em histórias de super-heróis e filmes.

                Personagens secundários – são aqueles personagens que convivem com o protagonista e com o protagonista. Boas histórias costumam ter personagens secundários bem desenvolvidos, com uma personalidade e uma história de vida.
                Personagem bucha-de-canhão – essa categoria é uma brincadeira feita entre roteiristas e se refere àqueles personagens que não têm importância nenhuma na trama. Eles surgem na história só para dar o gancho de alguma situação. Pode ser, por exemplo, o assaltante que rouba o dinheiro do protagonista, fazendo com que ele caia numa maré de azar que será o tempero da trama.
                Do ponto de vista da personalidade, os personagens podem ser divididos em:

                Personagem unidimensional – é o personagem que tem uma dimensão, uma só característica que domina seu comportamento. Por exemplo, a Magali é comilona, o Cascão é sujo, a Mônica é brava. No começo dos quadrinhos de super-heróis a maioria dos personagens eram unidimensionais. Na década de 1990, na era Image, também predominaram personagens unidimensionais.

                Personagem bidimensional – são personagens mais elaborados. Nos quadrinhos de super-heróis, um grande responsável por tornar mais bidimensionais os heróis foi Stan Lee. Seus heróis sempre tinham um pé de barro, algo que os fazia mais humanos. Assim, Thor é um ser extremamente poderoso, mas também é Don Blake, um médico aleijado; Demolidor é o homem sem medo, mas também é cego; Homem de ferro é invencível, mas sofre com problemas no coração; o Hulk é um herói, mas também é um monstro incontrolável e irracional.

                Personagem tridimensional – São personagens muito parecidos com pessoas normais, que têm uma personalidade complexa e não podem ser definidos apenas por uma ou duas características. Personagens tridimensionais têm motivações inconscientes, e estudar um pouco de psicologia ajuda a criá-los. Frank Miller, por exemplo, transformou o Demolidor em um personagem tridimensional. Ele acrescentou mais uma camada ao herói ao mostrar que, além de corajoso e cego, ele também tinha ódio do pai por este tê-lo obrigado a estudar ao invés de seguir a carreira de lutador.