segunda-feira, abril 20, 2026
Condorito Brasil
A misteriosa chama da Rainha Loana
No Limite do amanhã
O roteiro em looping é uma modalide de história em que o protagonista sempre volta para o mesmo dia até que consiga resolver determinada situação. Já foi usado no humor, como em Feitiço do tempo, e no terror, como em A morte te dá parabéns. No limite do amanhã, filme de 2014 dirigido por Doug Liman com Tom Cruise no papel principal usa a abordagem na ficção científica.
Na trama, a terra está sendo invadida por alienígenas que já dominaram toda a Europa. Tom Cruise é um relações públicas do exército que de repente, como punição, é mandado para o front, para uma espécie de invasão da Normadia FC. Chegando lá descobre que a invasão é um massacre e antes de morrer consegue matar uma das criaturas, um alfa. Isso lhe dá o poder que as criaturas têm de voltar no tempo. Resta a ele aprender a manejar a exoarmadura, aprender a lutar contra os invasores e tentar chegar ao Ômega, a criatura que comanda todas as outras. Nesse meio tempo ele conhece Rita Vrataski, uma heroína que conseguiu matar várias criaturas por ter adquirido, momentaneamente, o poder de voltar no passado. Ela irá treiná-lo e, ao mesmo tempo, formar o par romântico.
A ideia de uma guerra em que a morte do protagonista o leva ao início do dia remete diretamente a um vídeo-game, em que cada vida é usada para melhorar a abordagem anterior – como, por exemplo, saber de onde vem o inimigo – é interessante e poderia gerar um filme brilhante.
O grande problema de No Limite do Amanhã é que ele parte de uma premissa inverossímil: um soldado que sem treinamento nenhum (ele nem mesmo sabe destravar as armas – e ninguém lhe conta, por mais que ele pergunte) é enviado para a guerra como punição por algo que em nenhum momento é mostrado (aparentemente por covardia) . Essa premissa gera as situações de humor do filme, mas é difícil de engolir.
A premissa parece mais um roteirismo, uma situação forçada criada pelo roteirista para que a trama avance. Não é o único roteirismo. No final o looping foge completamente da lógica do filme apenas para dar a Cruise o que poderia ser um final feliz.
Superman e Etrigan – Paisagem urbana
Uma das muitas qualidades de John Byrne está no fato de que ele conseguia fazer com que qualquer história, por mais absurda ou bizarra que fosse, se tornasse natural. Sua narrativa era tão fluída, que aceitávamos qualquer coisa que ele colocasse na história.
Só ele, por exemplo, para fazer um encontro do superman com Etrigan na Idade Média ter verossimilhança.
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| Qual é a regra básica? Sempre que dois heróis se encontram, eles caem na porrada... |
Na história, Jason Blood está visitando um antiquário na companhia de uma amiga chamada Glenda quando ela abre um mecanismo que a transforma numa espécie de torre. Pior: essa torre começa a incorporar outras e outras pessoas.
Quando o Superman vê a estrutura dominando a cidade, começa a destruí-la, no que é atacado por Etrigan, numa sequência maravilhosa de ação. Era Byrne levando para a DC a regra básica da Marvel: sempre que dois heróis se encontram, eles trocam sopapos.
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| ... só para depois se tornarem aliados contra um inimigo em comum. |
Ao final, o demônio envia o homem de aço para o passado, onde ele deve encontrar o Jason Blood da Idade Média e, junto com ele, enfrentar Morgana Le Fay, a responsável pelo feitiço.
Em que pese ser uma história divertida, o que mais salta aos olhos é que, nitidamente, Byrne está é fazendo uma grande homenagem ao seu grande ídolo, Jack Kirby, criador do Etrigan.
domingo, abril 19, 2026
Fundo do baú - Bibo Pai e Bob Filho
Bibo Pai e Bob Filho é uma das mais célebres animações da Hanna-Barbera. Criado em 1959, a série era caracterizada pelos ótimos roteiros escritos por Michael Maltese, célebre com os episódios do coyote e Papa léguas, da Warner.
O tema do seriado é a admiração mútua entre pai e filho e a relação entre eles. Os personagens ficaram famosos pelas frases de carinho, como: “Meu querido filho” e “Meu querido e velho pai”.
As histórias geralmente giram em torno de algum conflito de gerações que é resolvido no final de forma muito carinhosa (geralmente com o pai cedendo). Os episódios normalmente começavam com Bob sendo contrariado e dizendo frases como: “Oh, que vergonha! Meu próprio pai...”.
No primeiro episódio, Bibo Pai dá de presente de aniversário para o filho uma raposa de brinquedo, mas o pequeno cachorro quer caçar uma raposa de verdade “Oh, estou muito envergonhado, um cachorro como eu caçando uma raposa de brinquedo quando deveria estar caçando uma cachorra de verdade”. O pai aceita, o que dá margem a uma infinidade de sequências do cachorrinho tentando caçar a raposa, que no começo o ignora solenemente. O episódio usa o humor de repetição como forma de transformar em piada uma limitação das animações para TV: assim, a cena de Bob mordendo a perna da raposa é repetida à exaustão.
Em outro episódio, Bob promete de ser amigo de um gambá, para horror do pai, que faz de tudo para separar o filho do novo amigo. “Meu pai me ensinou a cumprir sempre as promessas”, argumenta o cachorrinho. No final, Bibo dá um conselho: “Se vocês educarem um menino e alguma vez não puderem dar-lhe um sova, juntem-se a ele”.
Curiosamente a mãe de Bob nunca aparece, o que transforma Bibo num dos primeiros, senão o primeiro, pai solteiro dos desenhos animados.
O gerente que leu a Manticore
Eu nunca ganhei muito dinheiro com quadrinhos. Em alguns casos não recebi pagamento nenhum.
Entretanto, de vez em quando tinha algumas compensações.
Certa vez precisava abrir uma conta na Caixa para facilitar o recebimento de um acerto de contas. Me indicaram uma agência que estava sempre vazia. Fui lá e o gerente me informou que aquela agência era só para servidores de determinada secretaria. Mas, enquanto falava comigo, olhava intrigado para meus documentos. À certa altura pegou minha identidade, olhou o nome e piscou três vezes.
- Ei, estou reconhecendo esse nome. Você não é o Gian Danton?
- Isso mesmo, esse é o meu pseudônimo. – respondi espantando.
- Não acredito! Cara, eu adorei a Manticore!
E começamos uma longa conversa sobre quadrinhos.
No final, ele abriu a conta, com a condição de que eu fosse outro dia lá para autografar os exemplares dele da Manticore – algo que fiz pouco tempo depois.
Foi, provavelmente, a situação mais inusitada em que encontrei um fã dos meus roteiros.
O Gralha – o herói, o pinhão, o louco e a morte
Ken Parker: Terras brancas
1983 - Campeões do mundo de críquete
Até o ano de 1983 o time da Índia só havia ganhado uma única partida no campeonato mundial de críquete. Mas, naquele ano, indo contra todas as expectativas, a Índia não só ganhou partidas como se tornou campeã mundial com um time de desconhecidos.
Super-homem – um amigo em apuros
Para comemorar os 50 anos do Homem de aço, a DC fez uma edição especial da revista Action Comics. A primeira parte dessa edição foi um encontro do personagem com a Mulher Maravilha, cortesia da dupla Byrn-Perez. A segunda parte ganhou roteiro de John Byrne e Roger Stern desenhos de dois clássicos desenhistas da DC (Kurt Schaffenberger e Curt Swan) e um novo talento que estava depontando, Mike Mignola.
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| Curt Swan foi o mais importante desenhista do Super-homem na era de prata. |
Na primeira parte da história, Lois Lane está, como sempre, se arriscando para conseguir uma matéria e, ao chegar na redação, descobre que seu furo de reportagem não será manchete porque a atenção de todos está no suposto romance entre o Super-homem e a Mulher Maravilha (uma referência à primeira história do especial). Clark Kent sabe a verdade e tenta apaziguar a jornalista, mas é obrigado a socorrer o amigo Jimmy Olsen, envolvido, como sempre, em um grande perigo.
Até aí o roteiro parece uma bela homenagem às aventuras clássicas do personagem, com situações que se repetiram à exaustão durante décadas.
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| O Super-homem embarca numa jornada psicológica. |
A reviravolta acontece quando o herói começa a passar mal diante de uma onda de radiação de kriptonita que parece estar banhando o planeta. Olsen o ajuda a entrar em uma caverna, onde ele teria alguma proteção contra a radição e é quando a história se torna um delírio e uma jornada de auto-realização que envolverá desde uma briga com o Morcego humano até uma ida ao que sobrou de Kripton e um delírio no qual todos os kriptonianos tiveram tempo de se salvar indo para o planeta terra (bem ao estilo da revista Marvel “O que aconteceria se...”).
Apesar de todo o conteúdo psicológico subjacente, Byrne consegue contar uma história simples, fácil de ser entendida, com uma narrativa fluída – algo que talvez tenha se perdido nos últimos tempos.
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| Mignola é o grande destaque da história. |
É sempre um prazer ver Curt Swan desenhando o superman, mas o destaque da história sem dúvida é Mignola, especialmente quando este desenha Gavião Negro e sua esposa. O traço limpo, repleto de contrastes e elegante funciona muito bem aqui.
Além disso, a história fecha com uma bela reflexão: “Talvez eu precise de kriptonita para nunca esquecer da minha própria mortalidade. Um importante lembrete de que ser um homem é muito importante do que ser... um super-homem”.
No Brasil essa história foi publicada em Super-powers 16.
Perry Rhodan - Cinco Homens da Crest
Nove em cada dez fãs consideram os números 241 e 242 como
alguns dos melhores volumes da série Perry Rhodan. Curiosamente, ambos
os livros não se concentram em histórias grandiosas ou personagens importantes.
O sucesso se deve ao talento do escritor William Voltz e à sua capacidade de
criar descrições poéticas, desenvolver personagens e demonstrar que uma
armadilha aparentemente inofensiva pode ser o maior perigo de todos.
Na trama, os Senhores da Galáxia identificaram a presença
dos humanos no sistema de Andro-Beta e colocaram em marcha um plano de
extermínio com mobys (seres do tamanho de planetas) devastando a região
com bombas nucleares. Rhodan envia oito grupos para tentar descobrir o
transmissor que está despertando os mobys. A história desses volumes é
focada em um desses grupos, chefiado pelo Capitão Don Redhorse.
A peculiaridade é que Redhorse escolhe os tipos mais
“imprestáveis” da Crest: “Pode-se sair com um grupo de astronautas
bem-comportados; nesse caso, a gente tem de contentar-se com as brincadeiras
sem graça e sua imaginação subdesenvolvida. Ou então, a gente se cerca de tudo
quanto é patife encontrado em uma nave e espera que surjam os problemas”, pensa
o Capitão em certa altura.
Entre os “patifes” escolhidos encontra-se Brazos Surfat, um
cabo que chegou ao posto de sargento pelo menos dez vezes, mas foi rebaixado em
todas elas.
A primeira aparição de Surfat já é memorável. O sargento
tinha sido preso em seu camarote por ter aprontado algo: “A luz acendeu, e
Redhorse viu um homem incrivelmente gordo deitado na cama. Estava com a barba
por fazer. Parecia ter dormido com o uniforme do corpo. O homem piscou os olhos
e seu rosto assumiu uma expressão de contrariedade”.
Surfat é um fanfarrão que conta histórias impossíveis a
respeito de glórias imaginárias. “Lembro de uma missão semelhante desempenhada
no Cinturão das Plêiades”, conta ele em certa altura. “Estava trancado sozinho
em um carro voador e tive que defender-me contra cem nativos amotinados”. Ao
que é corrigido por Redhorse: “Brazos, pare de contar mentiras. O único combate
que o senhor travou no Cinturão das Plêiades aconteceu na cantina de uma nave
de abastecimento, quando o senhor entrou em luta com o cozinheiro para
conseguir mais uma refeição”.
A equipe inclui um aspirante a oficial obcecado por um ovo
recolhido no planeta Horror, que ele tenta, a todo custo, chocar para descobrir
qual é o animal que dele sairá.
O grupo, contrariando ordens, acaba pousando em um planeta
onde desconfiam estar o transmissor, iniciando uma jornada bizarra que inclui
desde ameaças típicas de uma space opera, como seres gigantescos que
atacam os astronautas, até situações surreais, como robôs de segurança que
fazem um duelo e se autodestroem.
William Voltz acrescenta a essa mistura descrições poéticas
e vivas, que fazem o leitor visualizar com perfeição o planeta dos pântanos:
“Ouviu o farfalhar fraco do vento que descia das montanhas e atravessava o
vale. Se prestasse muita atenção, chegava a ouvir o estalo fino do musgo
esmagado por suas botas, e que voltava a erguer-se aos poucos. Para Redhorse, a
noite estava cheia de ruídos abafados. Era um zunido, um vozerio e um farfalhar
ininterruptos.”
Ao final do volume, surgem os habitantes do planeta – e com
eles, uma ameaça totalmente inusitada, mas muito mais perigosa.
Eu tive a sorte de este ter sido o primeiro livro que li da
série, em 1986, o que provavelmente foi a razão pela qual me tornei fã. Eu o
comprei em um sebo de rua e anotei a data e o número 23. Era o 23º livro da
minha biblioteca.
sábado, abril 18, 2026
Monteiro Lobato: Adeus
Riding the Bullet, de Stephen King
No final do ano de 2000 a internet nos EUA foi abalada por um fenômeno sem precedentes: o lançamento do e-book Riding the Bullet (Montando na bala), de Stephen King. O interesse foi tamanho que os sites envolvidos chegaram a travar.
A história é aparentemente prosaica. Alan Parker é um estudante da Universidade do Maine quando recebe uma ligação dizendo que sua mãe teve um derrame e foi internada. Desesperado, ele pega uma mochila e sai pela estrada pedindo carona. E acaba descobrindo, tarde demais, que a pessoa que lhe deu carona na verdade já está morta.
Por trás dessa trama fantasmagórica se esconde uma história de forte teor humano. Riding nos faz pensar sobre nossa relação com as pessoas queridas e o que elas representam para nós. É muito mais uma história sobre a morte e a vida. Não por acaso, King a escreveu quando estava em uma cama de hospital, vítima de atropelamento quase fatal.
Em Riding vemos o autor de Carrie em sua plena forma, com um terror que se encontra nos detalhes. King não precisa de monstros para provocar medo. A tensão pode estar na forma de alguém puxar a calça, ou em um cheiro de morte. Detalhes assim nos fazem entrar na história.
A única falha tem relação justamente com a mídia encontrada para divulgar o volume. São aproximadamente 60 páginas e King escreveu direto, sem fazer sequer capítulos. A tendência dos e-books são capítulos curtos, que permitem ao leitor interromper a leitura na tela no momento em que quiser. Ou seja, Riding é um livro virtual que não tem característica de livros virtuais.
Futuramente, esse conto lançado de forma virtual foi incluído na coletânea Tudo é eventual, lançado aqui em 2005 pela editora Objetiva. A tradução ficou como Andando na bala.
Conan – A ira de Anu
A ira de anu, história publicada no volume 10 da revista Conan the barbarian é um exemplo das qualidades de Roy Thomas como grande narrador. Ele estava preparando a adaptação de uma história original de Conan, Inimigos em casa, quando percebeu que o primeiro parágrafo da história já dava uma outra HQ. Nesse parágrafo, Robert E. Howard informa que Conan estava preso e condenado à morte após ter imposto uma vingança a um corrupto sacerdote de Anu, que ordenara a morte de um ladrão amigo do cimério.
Thomas imaginou toda uma situação a partir desse pequeno resumo. Na história, Conan se associa a um ladrão Gunderlandês para roubar diversos tesouros que são entregues para o sacerdote de Anu, que os revende.
| Conan enfrenta um homem-touro sobrenatural. |
O templo, um local onde os soldados não podem entrar, é guardado por um homem-touro que pode ser invocado pelo sacerdote.
Quando este trai a dupla e ajuda a armar uma tocaia, Conan decide vingar o colega enforcado em praça pública e acaba enfrentando o homem-touro – e é nesse ponto que temos uma típica história do cimério, com ele enfrentando uma ameaça sobrenatural.
Na sequência, a força do texto de Thomas se destaca: “Eis outro momento capaz de congelar a alma... monstro e bárbaro fitam um ao outro. Em seu quase paralisado corpo, Conan sente o bafo ardente da perdição”.
Outro que se destaca é Barry Smith, que à essa altura se sentia cada vez mais à vontade no título. A sequência do enforcamento do ladrão é um primor narrativo. Smith contorna a censura da época mostrando apenas as pernas do ladrão, mas nos cinco quadros conseguimos perceber claramente o que está acontecendo, além de acompanhar a reação do cimério.



























