sábado, junho 13, 2026

X-men – A qualidade do ódio

 


Algo que caracterizou a parceria entre Chris Claremont e John Byrne nos X-men foi o fato de que, mesmo no auge da mais desenfreada ação, havia sempre espaço para desenvolver os dramas dos personagens. E isso era feito de forma totalmente orgânica na trama, sem parecer que se tratava de pieguice ou pura enrolação.

A edição 127, no ponto alto da saga de Protheus, é um exemplo disso.

Na história anterior, Wolverine e Noturno encontram o mutante X e este tenta se apossar do corpo do baixinho, mas não consegue por causa do esqueleto de adamantiuim. Então, ele distorce a realidade. Quando Ororo chega, nem mesmo uma tempestade parece impedir que eles fiquem à mercê do poderoso mutante.

Moira tenta matar o filho, mas é impedida por Cíclope


Quem salva a pátria é Moira, que atira em Protheus e só não o mata por intervenção de Cíclope.

Finalmente fora de perigo, Cíclope percebe que Wolverine ficou extremamente abalado com a experiência. Como um animal, o carcaju depende muito dos seus sentidos e passar por algo que mudou todo o mundo à sua volta o abalou a ponto de fazê-lo imergir num estado de quase catatonia.

Wolverine fica extremamente abalado após o confronto com Proteus. 


“Seja lá o que aconteceu com Wolverine, o abalou bastante. Ele está à beira de um colapso. Se não sair dessa depressão agora, ficará permanentemente amedrontado”, pensa Cíclope.  

A solução do líder da equipe é no mínimo inusitada: provocar uma briga com o baixinho, mas revela como Claremont, embora pensasse no geral, também tinha uma atenção especial para cada personagem do grupo. Talvez o único que tenha tido essa capacidade tenha sido Marv Wolfman nos Novos Titãs (o que provavelmente explica porque esse era o único título da DC que rivalizava em vendas com os X-men).

Enquanto isso, em uma trama paralela, acompanhamos outro drama.

A HQ tem espaço para o drama de Moira

Moira vai para a capital da Escócia alertar seu ex-marido que o filho dos dois está indo para o local em busca de vingança. E descobrimos que Moira vivia com ele uma relação de abusos e que na última vez que eles se encontraram ele não só a deixou machucada a ponto de ir parar no hospital, como a estuprou – o que gerou o filho mutante. E, em uma crítica ferina, o marido abusador é mostrado um político importante que tem tudo para se tornar primeiro ministro. Surpreendente ver temas tão adultos e uma crítica tão mordaz num simples gibi de super-heróis.

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 22, mesmo número em que o Mercenário matou Elektra.

Perry Rhodan - O perigo vindo do passado

 


Uma coisa que me irrita profundamente em qualquer história é quando o roteirista/escritor força o personagem a fazer algo burro que vai contra as características do mesmo por que não arranjou outra maneira de fazer a história se desenvolver.

Isso vai acontecer durante a fase do planeta Horror. Perry Rhodan, indo contra a recomendação de Atlan, resolve voltar ao planeta e é miniaturizado junto com toda a tripulação da Crest. Quando Atlan vai em seu socorro, acaba sendo miniaturizado também, assim como outra nave terrana. Ou seja, uma decisão burra que provoca uma catástrofe atrás da outra. 

Depois eles voltam ao interior do planeta para regatar uma nave que não foi miniaturizada e pode avisar outras naves para não caírem na armadilha de horror. 

O número 217 começa com outra burrada de Rhodan. Ele começa a transmitir ininterruptamente durante uma hora e com isso chama atenção da fortaleza, uma nave tão monstruosamente grande que a Crest, com um quilômetro e meio de altura, cabe no seu hangar. 

A capa original alemã. 


Os terranos só não são mortos por intervenção de Atlan. 

Ao ler, eu pensava: esse é o herói cuja inteligência alçou a Terra a um dos planetas mais importantes da galáxia? Não parecia a mesma pessoa. 

Apesar desse aspecto irritante, o volume tem o mérito de introduzir os respiradores de metano, seres que aterrorizaram o império de Arcon no passado e pareciam ter sido exterminados.

No final os terranos conseguem voltar ao tamanho normal e escapar da fortaleza, mas isso ocorre mais graças a uma feliz coincidência do que a uma intervenção real dos personagens. 

Para um volume escritopor K. H. Scheer, é uma decepção.

Autismo

 



Eu nunca tinha pensado em mim como autista, até que meu neto começou a ter algumas crises inexplicáveis. Do nada, ele começava a fazer algo que parecia uma birra, mas não tinha uma razão de ser. Conversando com uma aluna que era voluntária em uma associação de autistas, ela comentou que ele poderia ser autista. Como resultado, comecei a ler e pesquisar sobre autismo – e quanto mais eu lia, mais eu via em mim características de autismo, aliás, muito mais do que no meu neto.

Algumas das minhas lembranças mais antigas já mostravam indícios de autismo.

Em uma delas, por exemplo, eu estou viajando com minha avó de trem e não consigo prestar atenção à paisagem porque estou muito incomodado com a roupa de frio. Eu tenho muita sensibilidade na pele, o tecido da roupa sempre me incomodou, mas quando a roupa é apertada é quase insuportável. Essa é a razão pela qual sempre usei roupas muito largas, o que inclusive gerou aquelas imagens engraçadas em que estou ao lado do Bené e pareço estar usando a camisa de uma pessoa duas vezes maior.

Também tenho muita sensibilidade a sons. Sons altos não são apenas irritantes. São insuportáveis. Dor de cabeça, irritação, dificuldade de pensar, tontura. Pessoas neurotípicas podem achar que é simplesmente uma frescura, mas para um autista estar em um local com som alto equivale a uma tortura, o que muitas vezes pode até gerar crises equivalentes à epilepsia.

Outra característica que já devia ter levantado um alerta, caso eu já conhecesse sobre autismo é o hiper-foco.  Eu sou do tipo que, quando começo a fazer algo, faço só aquilo. Eu ficava impressionado com a minha esposa, que era professora de Inglês e Filosofia e que conseguia preparar aulas das duas disciplinas na mesma manhã. Eu, quando começo a preparar aulas de uma disciplina, chego a passar uma semana ou até mesmo um mês e dificilmente consigo trocar para outra enquanto estou focado em uma.

(Trecho do livro A árvore das ideias. Para baixar, clique aqui)  

A arte impressionante de Gian Lorenzo Bernini

 


Bernini foi o grande artista do barroco italiano. Era pintor, escultor, arquiteto, teatrólogo. Seu domínio da técnica da escultura era tamanho que ele parece transformar mármore em pele humana.










Monstro do Pântano – Funeral

 

 
No número 55  da revista Swamp Thing, o protagonista da revista tinha aparentemente morrido. A história gira em torno do funeral do personagem, com direito a uma estátua feita a pedido da prefeitura de Gothan.

A grande questão a que Alan Moore deve ter se colocado é: como fazer uma revista inteira sobre um funeral? Como tornar isso interessante para o leitor?

Gordon e Batman discursam... 


A solução encontrada foi entremear as sequências do funeral (desenhadas por Rich Veitch e Alfredo alcala) e sequências de flash back ou de devaneios (desenhadas por John Totleben).

A história é narrada do ponto de vista de Abbe Cable. “Eles se sentem culpados o bastante para pagar uma estátua e oferecê-la a mim como se fosse uma reparação. Mas, oh, não passa de pedra fria... ao passo que seu musco, Alec, era doce, macio e quentinho ao sol”.

Mas Abe está perdida em suas lembranças... 


Há uma fala do comissário Gordon e outra do Batman, mas a mulher parece prestar pouca atenção a eles, perdida em seus próprios pensamentos. Um deles faz emergir uma lembrança: “Você já começou a desaparecer? Será que uma manhã vou acordar capaz de lembrar do seu cheiro, seus gestos, sua voz? Meu amor... quero que fique nítido e afiado na minha memória, mesmo que doa”.

Na lembrança, ela chega no pântano e encontra o Monstro sentado, em reflexão. Ela fala com ele, conta sobre seu dia no emprego, mas quando resolve abraçá-lo, ele se desfaz, para seu desespero. O verdadeiro monstro do pântano chega e explica que era apenas uma casca, que ele abandonara quando se deslocara de um local para o outro. O episódio faz com que ela reflita sobre como seria se ele morresse: “Meu Deus, Alec... não morra. Não morra jamais!”.

... e devaneios. 


E a história vai assim, pontuando entre o presente e o passado, a realidade e a imaginação.

Se a pergunta era: é possível fazer uma história sobre funeral e mesmo assim ela ser interessante? A resposta é sim, desde que você tenha o talento de Alan Moore.   

Mestre do Kung Fu – O Triunfo do Doutor do Mal

 


Uma das razões que fizeram a série Mestre do Kung Fu se destacar de outras de artes marciais foi a experimentação do desenhista Paul Gulacy. Ótimo exemplo disso é a história publicada em Giant-Size Master of Kung Fu #2, de dezembro de 1974.

A história inicia com um bêbado atacando Shang-Chi. A sequência, totalmente desprovida de propósito, tinha um único objetivo: introduzir uma nova personagem na série. É que ao desviar do homem, o protagonista acaba arremessando-o para dentro de uma academia de artes marciais, onde ele conhece Sandy, uma instrutora do local.

Paul Gulacy estava no auge da experimentação. 


Os dois jantam e depois vão para um parque, namorar. A sequência em que os dois se beijam é um exemplo da maestria de Gulacy na narrativa visual. Temos primeiro uma imagem dos olhos de cada um, depois os lábios, e finalmente o beijo, emoldurado pelos rostos dos dois. Doug Moench, que nessa fase tinha a mania irritante de colocar texto legenda em todos os quadrinhos, teve a inteligência de não colocar nenhum aqui, deixando as imagens falarem por si.

Depois, temos uma imagem dos dois sentados no banco, se beijando e essa imagem, horizontal, é cortada, sendo transformada em quatro, o que dá uma impressão de movimento, como se uma câmera estivesse passeando por um cenário e depois focasse nos dois. Futuramente artistas como Frank Miller tornariam esse recurso uma febre, mas na época isso era novidade ousada por poucos artistas.

O desenhista mandava bem nas cenas de lutas. 


Como na época a série era de espionagem, a trama gira em torno de um cientista chinês que pretende deserdar para o ocidente e Shang-Chi deve protegê-lo e garantir sua fuga. Ocorre que esse cientista é nada menos que o pai de Sandy.

Até chegar ao cientista, temos lutas e mais lutas. Shang-Chi luta contra os homens de seu pai no avião, depois luta contra eles na rua. Quando encontra o cientista, é patético: o herói deixa o homem morrer, o que mostra que como guarda-costas ele é um completo fracasso.

Um exemplo de experimentação: uma página de quadrinhos no formato de labirinto. 


Mas antes de morrer, o homem sussurrou no ouvido de Shang-Chi qual era a sua grande descoberta. E é isso que Fu Manchu quer descobrir, e para isso submete seu filho rebelde a uma maratona de perigos, incluindo uma ampulheta gigante com ácido e espetos de ferro embaixo e até um labirinto repleto de guerreiros assassinos.

É na sequência do labirinto que temos o exemplo mais claro de experimentação. O desenhista fez uma planta baixa do mesmo, que é percorrida pelo protagonista e pelo texto. O texto, aliás, faz curvas, fica de cabeça para baixo... é como se fosse uma HQ experimental em um gibi comercial. Só essa história mostra como a Marvel dessa época era revolucionária na comparação com a DC.

Outro exemplo de experimentação: uma página inteira, mas a ordem de leitura sugere movimento. 


No final, Sandy acaba morrendo, o que é uma pena. A personagem tinha muito potencial e estreou numa história com grande apelo.

sexta-feira, junho 12, 2026

O desenvolvimento dos meios de comunicação

 


Uma das ideias básicas do filósofo canadense Marshall McLuhan era a de que pouco importava o conteúdo dos meios de comunicação. O que era realmente importante era o fato desses meios existirem. Essa ideia foi resumida na frase “O meio é a mensagem”. Para McLuhan, a forma como nos comunicamos determina a maneira como nos organizamos socialmente. Mais: a forma como nos comunicamos muda nossos processos mentais.
Uma análise da evolução mostra como se deu essa relação mídia-sociedade-cérebro.
No começo, vivíamos em aldeias. O tamanho da aldeia, segundo o McLuhan, é determinado pelo número de pessoas que podem ouvir a voz do líder. Em uma cultura oral, os grupos devem ser pequenos exatamente para facilitar a comunicação. Se o grupo se tornava muito grande, acabava se separando e formando outro grupo, com outro líder.
Nessa época o sentido mais usado era a audição. A comunicação era feita pessoa-pessoa, sem uso de qualquer plataforma além da própria fala. Era uma comunicação com envolvimento, pois normalmente se falava de pessoas conhecidas de todos e de fatos que muitas vezes tinham importância para a tribo. Não havia separação entre teoria e prática: aprendia-se praticando. As ações mais importantes dessa época, como plantar, caçar e pescar, eram aprendidas tendo como professores parentes, que ensinavam através da prática.
A invenção da escrita mudou o mundo. 
Com a escrita era possível ao líder enviar suas ordens ou receber relatórios de locais distantes, razão pelas quais as cidades foram se tornando cada vez maiores. Esse processo permitiu a criação dos impérios, já que as ordens e relatórios eram enviados por mensageiros (não por acaso, a primeira coisa que os romanos faziam ao conquistar um território era construir estradas ligando o local à Roma, origem da expressão “todos os caminhos levam a Roma”. 
Outra consequência da invenção da escrita foi o surgimento da hierarquia e da mania de classificação.
Numa sociedade muito mais complexa do que a tribo, era necessário haver níveis intermediários de comando, o que dá origem à hierarquia. Esse processo, por outro lado, reflete o surgimento das primeiras bibliotecas. Com tantas mensagens indo e vindo, era necessário organizar as informações. As tabuletas de barro passaram a ser juntadas por assunto, de maneira classificatória e hierarquizada. Assim, as ordens dos reis precisavam ser separadas dos relatórios e mesmo os relatórios deveriam ser separados entre si: a produção de trigo em uma coluna, a produção de gado em outra.
Na época da tribo e do ouvido, lidava-se com a informação relevante e relacional e a memória era biológica: os mais velhos geralmente eram os detentores daquilo que se devia saber para sobreviver: como plantar, pescar, caçar.
O surgimento da escrita e suas bibliotecas organizadas privilegiou a informação classificadora em que tudo deve ser colocado em categorias mutuamente excludentes, dando origem à boa parte da ciência moderna. Assim, uma baleia é considerada um mamífero, embora se pareça com um peixe e viva na água.
Depois das tábuas de argila a escrita encontrou um novo suporte, o papiro, muito mais fácil de ser produzido, mas de pouca duração e difícil de ser carregado, já que os escritos eram unidos em rolos.
O cristianismo, uma religião proibida, encontrou em uma nova mídia a possibilidade de divulgação. O códex era um papiro dobrado para facilitar o transporte. Alguém teve um dia a ideia de juntar essas folhas dobradas, costurando-as e surgiu o livro como o conhecemos hoje. Muito mais fácil de carregar do que um rolo de papiro, esse novo suporte tinha mais uma vantagem: permitia abrir exatamente na página de determinado trecho que interessava. Além disso, enquanto um rolo só permitia reproduzir um evangelho, um códex podia incluir toda a Bíblia.  Foi essa mudança midiática que permitiu ao cristianismo se difundir por todo o mundo ocidental.
Na Idade Média surgiu o pergaminho. Fabricado com peles de animais, o novo papel era muito mais resistente e apropriado para guardar as palavras de Deus. Mas a invenção tinha um custo: os novos livros eram muito caros. Além do preço alto do pergaminho, a maioria deles eram ricamente ilustrados com iluminuras e encadernados muitas vezes com capas em ouro. O livro passou a ser um tesouro que difundia a palavra de Deus, um objeto divino, ao qual a maioria das pessoas não tinha acesso.
Surge aí a ideia de que o que está publicado é verdade. Como duvidar daqueles livros luxuosos, aos quais apenas alguns monges podiam ler e interpretar. Vale lembrar que nessa época todas as Bíblias tinham de ser escritas em Latim e era proibido traduzi-las para as línguas nacionais.
A utilização do pergaminho marcou a transformação do conhecimento em algo divino, ao qual poucas pessoas deveriam ter acesso.
Essa realidade ia mudar completamente com a invenção da imprensa. Mais uma vez a mudança na forma das pessoas se comunicarem iria provocar grandes alterações nas relações sociais e até na mente humana. A invenção da imprensa iria marcar a era das revoluções, o individualismo e o nacionalismo.

Deadpool 2

 


Confesso que nunca li uma história em quadrinhos do Deadpool. Também não assisti ao primeiro filme. Mas fui atraído pelo segundo filme pela ótima campanha de marketing – a começar pelo ótimo cartaz com os dizeres: “Do mesmo estúdio que matou o Wolverine”.
Não vá ao cinema se espera algo mais profundo. Deadpool é pura diversão e só isso.
Não há assunto que não seja alvo do sarcasmo do personagem – da classificação do filme, que o proíbe para menores de 18 anos, ao próprio criador do personagem, Rob Liefield, definido como alguém que não sabe desenhar pés. Alguns dos melhores momentos, aliás, são metalinguísticos, com o personagem comentando o roteiro ou outros filmes de super-heróis.
Ryan Reynolds, que interpreta o personagem, é também produtor do filme, o que provavelmente contribuiu para o bom resultado: o ator nitidamente está se divertindo com tudo, assim como toda a equipe.
As definições de filme-pipoca foram redefinidas.

Tom Strong - nos confins do mundo

 

 

O último volume da série Tom Strong volta a trazer roteiristas e artistas convidados (com a volta de Alan Moore na última história). O grande destaque sem dúvida é a participação de Michael Moorcock, famoso escritor de fantasia, criador do personagem Elric. 
Moorcock coloca o herói em uma história de piratas dimensionais. Há várias referências aí: o investigador metatemporal que contata Tom Strong é nitidamente uma referência ao Dr. Who e o vilão da história parece ter saído diretamente Melniboné (a ilha de Elric). O desenho de Jerry Ordway se encaixa perfeitamente na narrativa, com um traço mais sujo que a média da seríe.

 Steve Moore constrói uma HQ explorando os elementos pulp fiction do personagem. Joe Casey escreve uma história em que Pneuman começa a assumir comportamento estranho para um robô e Peter Hogan costura uma ponta solta da série.
E, claro, temos a volta de Alan Moore, na última história, interligada com a saga final de Promethea. Alan Moore é Alan Moore, de modo que mesmo que as outras histórias sejam boas, esta é um salto de qualidade no texto, a ponto de tornar interessante uma HQ em que nenhuma ação de fato acontece (embora o final nos reserve uma grande virada).

Conan – O terror dorme sob a areia

 

A criação da revista Savage Sword of Conan permitiu que Roy Thomas pudesse elaborar tramas mais adultas e violentas do que aquelas que eram publicadas na revista Conan the barbarian. A razão disso é que as revistas magazine em preto e branco eram consideradas publicações para adultos e, portanto, não sofriam a censura do Comics Code.

O terror dorme sob a areia, publicada no número 6 da revista e com desenhos do filipino Sonny Trindad, demostra bem isso.

A história começa com o antigo chefe dos zuagires perdido no deserto. 


A história era uma daquelas boas sacadas de Thomas, de aproveitar vácuos das histórias de Robert E. Howard e a partir disso fazer novas histórias.

Na a maldição da lua crescente, Conan assumira o comando dos zuagires. Para isso, ele quebrar a mão direita do antigo chefe e o colocara sobre um cavalo, fazendo com que cavalgasse pelo deserto. Mas Howard não diz o que acontece com esse chefe e Thomas aproveita para fazer a história focada nele.

Ele é salvo por peregrinos que vão fazer um ritual para impedir que uma antiga ameaça acorde. 


A HQ começa com o personagem atravessando o deserto, prestes a morrer. O texto de Thomas é brilhante: “Talvez o Sol seja realmente o olho de deus, como ensinam certos místicos. Se assim for, os homens podem abandonar suas esperanças e deixar de falar que dias melhores estão por vir... pois há pouca piedade nesse ardente globo escarlate”.

As imagens mostram o ex-cheve dos zuariges, Olgerd Vladislav, caindo do cavalo e vendo abutres se aproximarem para se banquetearem com seu cadáver. Mas quando o primeiro deles se aproxima para devorar seus olhos, uma flecha atravessa a cabeça do animal. A arqueira é a filha de um homem que atravessa o deserto em direção ao templo do adormecido.

O planod e vingança faz despertar um demônio lovecraftiano. 


Resgatado, Olgerd descobre que a caravana tem como objetivo fazer um ritual para evitar que um demônio adormecido nas areias do deserto ressurja.

Ao descobrir que Conan está se dirigindo ao mesmo local para organizar uma reunião de diversas tribos, Olgerd elabora uma vingança. Só que essa vingança irá fazer ressurgir o deus, ou demônio antigo, uma fera lovecraftiana monstruosamente grande e repleta de tentáculos.

"Que se dane!". 


Há um dos momentos da história, já perto do fim, que mostra como o roteiro na Espada Selvagem podia fugir dos cânones dos quadrinhos. Olgerd é capturado por um dos tentáculos e Conan pega uma flecha para matá-lo como um ato de misericórdia, já que o que espera o outro é provavelmente um destino terrível. Conan chega a esticar o arco, apontar a flecha... “... e então manda tudo para o inferno. O que Olgerd teria feito por ele?”... e o monstro some com o antigo chefe dos zuariges.

Perry Rhodan 55 – A sombra do Supercrânio

 



O segundo ciclo da série Perry Rhodan passou a focar principalmente nas tramas de espionagem e o volume que deixou isso absolutamente claro foi o número 55, A sombra do Supercrânio. Escrito por Kurt Brand, o livro foca em alerta de perigo emitido por um dos mutantes colocados como espiões nos muitos mundos do império arcônida. Antes de morrer ele envia para uma nave a mensagem: “Três toques de sino”, que significa uma ameaça extrema à Terra.

Para investigar o caso, Perry Rhodan envia outro mutante, o telepata Fellmer Lloyd, que ingressa no planeta Volat com a incumbência de descobrir qual é essa ameaça.

Apesar de algumas boas sequências de ação e suspense, em especial no início, esse é um volume morno, nitidamente de preparação de uma trama maior. Kurt Brand também não é um escritor de destaque, o que faz com que a história pareça muitas vezes estar se desenvolvendo na marcha ré. Há um momento, por exemplo, que Fellmer cria um grupo para invadir um prédio, grupo que é simplesmente eliminado sem mais nem menos e aparentemente sem consequências (vale destacar que embora cada autor recebesse um resumo do volume que ia escrever, havia muita liberdade para colocar mais elementos na trama).

A capa original alemã. 


Assim, o capítulo mais interessante do livro é quando Fellmer entra na selva e encontra a cidade dos volatenses, os habitantes originais do planeta. Os mesmos são insetos dotados de inteligência. Brand faz uma boa descrição de sua cultura e sua forma de organização social.

Assim por exemplo, “O centro da cidade era formado por uma gigantesca praça na qual se via uma construção em forma de favos, que sobressaía em meio às outras como se fosse um monumento”. As mulheres eram do tamanho dos machos, mas apresentavam um aspecto mais delicado e gracioso: “Suas antenas tinham quase o dobro do comprimento das dos homens, e eram muito mais robustas; e seus impulsos mentais chegavam a Lloyd com o dobro da intensidade”.

A sociedade era dominada pelas fêmeas, de modo que os machos não exerciam qualquer influência na vida pública ou privada. Mas, de três em três anos, a inquietação se apossava de todos os volatenses adultos, e então todas as diferenças se apagavam. Todos eram iguais”.

Fundo do baú - Armação Ilimitada

 


O início dos anos 80 parecia uma época de experimentações. A censura estava para cair, os militares estavam saindo do poder de fininho e havia um sopro de liberdade e transgressão no ar. O seriado que melhor sintetizou esse momento foi Armação Ilimitada, exibido pela TV Globo.

O programa surgiu por iniciativa de Kadu Moliterno e André De Biase, que tinha trabalhado juntos na novela Partido Alto. Os dois se tornaram amigos, pegavam onda juntos e queriam um programa que fosse a cara da juventude da época. O diretor Daniel Filho topou produzir a série e chamou para dirigir o novato Guel Arraes. Arraes criou a estética da série, com uma linguagem ágil, muita música, e uma mistura de vídeo-clipe com quadrinhos. Além disso, era comum que os atores quebrassem a quarta parede, conversando com o público, o diretor ou a produção.

Armação Ilimitada inovava também ao apresentar um triângulo amoroso composto por Juba (Kadu Moliterno), Lula (André de Biase) e pela jornalista Zelda Scott (Andréa Beltrão). Zelda, inclusive protagonizava alguns dos melhores momentos da série. Quando se referia ao chefe, suas palavras eram mostradas ao pé da letra. Se ela dizia que ele estava uma pilha, ele aprecia fantasiado de pilha. Se dizia que ele era um porco, ele aparecia com uma cabeça de suíno.

Exibida de 1985 a 1988, a série fez muito sucesso, abrindo caminho para que Guel Arraes se tornasse um dos principais diretores da Globo – e revolucionasse o humor do canal com o TV Pirata.



Uma curiosidade é que os personagens ganharam até mesmo uma história em quadrinhos. Dois álbuns com roteiro de Regis Rocha Moreira e desenhos de Hector Gómez Alisio foram publicados pela editora Nova Fronteira.