terça-feira, setembro 22, 2026

Monsieur & Madame Adelman

 


Geralmente quando pensamos em comédia romântica, imaginamos uma trama pueril, com personagens pouco profundos e final feliz. Monsieur & Madame Adelman, filme francês dirigido por Nicolas Bedos e disponível na Netflix vai na contramão dessa imagem.
E essa ruptura já é visível desde a primeira cena. Nela, o famoso escritor Victor Adelman morreu e vemos seu funeral. É quando um jornalista que está produzindo um biografia do famoso autor procura a viúva e ela, surpreendetemente, resolve falar com ele. O jornalista quer uma outra visão sobre a celebridade que acaba de morrer e exatamente isso que Sarah lhe dá: o ponto de vista da mulher que viveu com o premiado autor por 45 anos.
Monsieur & Madame Adelman é um filme repleto de reviravoltas a começar pela profundidade e complexidades de seus personagens. A princípio parece uma comédia leve sobre uma estudante de letras absurdamente apaixonada por um jovem e promissor escritor, a ponto de namorar o melhor amigo dele e até o irmão deste apenas com o objetivo de conquistá-lo. Mas com o tempo vamos percebendo que a situação é muito mais complexa. Nessa fase é interessante acompanhar como a narrativa dela, dita ao jornalista, nem sempre coincide  com os fatos, criando uma espécie de ironia que gera algumas boas cenas de humor.
O filme vai acompanhando 45 anos da vida desse casal, seus mais diversos problemas enfrentandos e a paixão avassaladora de um pelo outro. Entretanto, em nenhum momento parece meloso, melodramático ou mesmo forçado. O humor irônico e muitas vez cínico ajuda muito a tornar a narrativa fluída.
Ao final, o expectador descobre que aquilo que ele achava sobre os personagens era falso, quando a realidade inverte as expectativas, deixando o filme ainda mais instigante.
É uma boa dica para quem pretende assistir  a um filme romântico que foge dos padrões convencionais.

Rei Kull – Da Atlândida ao reino das sombras

 


A maioria dos autores considera que o marco inicial do subgênero espada e feitiçaria foi a publicação do conto O reino das sombras, escrito por Robert E. Howard e publicado na revista Weird Tales de agosto de 1929. Embora Howard tenha se tornado famoso graças ao Conan, o protagonista daquela primeira história era o Rei Kull.

Esse pioneiro é a estrela do volume Rei Kull – Da Atlândida ao reino das sombras, lançado em 2021 pela Skritp. O livro é uma ótima introdução à obra de Howard, em especial graças aos textos complementares. Um deles, de autoria de Dierk Guenter, analisa não só a influência de Kull no nascimento da espada e feitiçaria e as fontes de inspiração para o mundo do personagem, como defende uma curiosa hipótese: a de Kull era, na verdade, um alter-ego de Howard. Afinal, o escritor se sentia tão alienígena na cidadezinha do interior do Texas quanto o atlante se sentia na Valúsia.

Ao contrário do que eu imaginava, não se trata de uma antologia, com vários contos do personagem. São apresentados apenas três textos de Howard: um breve ensaio sobre o mundo de Kull e os contos Exílio em Atlândida e O reino das sombras.

Apesar disso, é uma obra que agrada aos fãs.

Primeiro porque O reino das sombras é de fato um texto espetacular, a começar pela abertura narrando uma parada militar: “O fragor das trombetas ficou mais alto, como uma intensa maré doura, como a suava arrebentação das ondas noturnas contras as praias argênteas da Valúsia”.

Segundo porque é uma edição caprichada, com uma diagramação que simula pergaminhos antigos. Além disso, os incríveis desenhos de J.L. Padilha ajudam a dar o clima da história.

A louca do sagrado coração – de Jodorowsky e Moebius

 


A louca do sagrado coração, álbum com roteiro de Jodorowsky e desenhos de Moebius, lançado em 2019 pela Veneta, é um daqueles exemplos de HQs que nos surpreendem positivamente.

A história parece apenas uma crítica ácida ao academicismo. Mangel é um professor da Sorbone que carrega ao redor de si uma legião de fãs tão inveterados que todos eles usam roxo, como o mestre, em sinal de concordância com ele.

Mas, se é uma figura eminente, é também um desastre em sua vida pessoal. Sua esposa o troca por outro, depois de oito anos sem atividade sexual, uma vez que ele se transformou em um “monge universitário”. Dono de um controle emocional lendário, ele não sai do sério nem mesmo quando alguns alunos colocam uma réplica de um cervo, com galhos enormes (em referência ao chifre levado por ele). Como sempre, ele responde com citações dos mais diversos filósofos.

Uma das alunas engravida do filósofo acreditando que irá gerar o novo profeta João. 


Essa trama, levemente divertida, com alguns toques de erotimo, não parece sustentar um álbum e de fato não sustenta. A trama começa de fato quando uma aluna decide que ele é a reencarnação do profeta Zacarias, e que deve gerar um novo João Batista. Pior: depois de grávida, ela tem uma visão que coloca um traficante de heroína como o novo São José e a filha de um líder de um cartel de drogas como a Maria que irá gerar o novo Jesus (a nova “Maria” está internada num hospício).

A história foi publicada originalmente em cores. 

Nesse ponto a trama, que parecia lenta, desinteressante e arrastada, torna-se um turbilhão, com reviravoltas se sobrepondo a reviravoltas. Reviravoltas quase surreais, mas que fazem sentido dentro da trama. Nesse ponto é impossível largar a leitura.

Jodorowsky mistura essa trama non-sense isso com crítica social, crítica política, psicologia junguiana e sua visão mística do mundo.

A obra foi originalmente publicada no início da década de 1990, em três partes e colorida. A Veneta preferiu publicar a edição da Les Humanoides Associés, em preto e branco, argumentando que essa opção permite visualizar melhor a arte de Moebius. De fato, em alguns pontos a arte é mais detalhada, mas no geral, é uma arte simples, nitidamente feita para ser aplicada cor. Além disso, o álbum já começa com uma discussão sobre cor, quando uma estudante da Sorbone mostra as roupas íntimas, estimulando outras pessoas a desnudarem os discípulos de Mangel para conferirem se eles de fato usam apenas roupas rouxas.

X-men – Fênix Negra

 


“O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente”. Essa frase, dita pelo Professor Xavier em The Uncanny X-men 135 representa muito bem a essência da saga da Fênix Negra.

No número anterior, Jean se transformara enquanto o grupo voltava para casa após enfrentar o Clube do Inferno. Sua transformação destruíra o jato dos mutantes.

E é exatamente nesse ponto que encontramos os personagens no início do número 135.

A sequência seguinte mostra os mutantes enfrentando a Fênix. “Não espere clemência da Fênix Negra, meu amor. Vocês não terão nenhuma!”. E, de fato, a personagem revela poderes avassaladores e inimagináveis, derrotando os amigos como se estivesse numa brincadeira. Wolverine e Colossus são soterrados abaixo de uma árvore de ouro. Ororo é golpeada psiquicamente e fica inconsciente. “Imagens... me atingindo pelo elo psíquico que tenho com Jean... chamas negras consumindo sua alma! Alusões místicas incompreensíveis.... sensação de perda... afogamento... solidão”, pensa Cíclope.

Ao se transformar no seu lado sombrio, Fênix destrói a nave. 


O psicólogo Carl Gustav Jung dizia que todos nós temos um lado sombra, para onde vai tudo aquilo com o qual não conseguimos lidar. O que Claremont e Byrne mostram é Jean Grey sendo consumida pelo seu lado sombra. A história lança uma questão interessante: se a inocente Garota Marvel tinha dentro de si uma vilã tão terrível, o mesmo não ocorre com cada um de nós?

Se o roteiro eleva a história muito além do nível dos quadrinhos de super-heróis, Byrne e Terry Austin mostram a transformação de Jean de forma magistral. Efeitos de sombras, áuras, hachuras... tudo é usado para demonstrar o lado sombrio de Jean transformada em vilã.

A Fênix Negra destroi um sistema solar. 


É nessa história que a Fênix faz o que decretaria sua morte. Ela vai ao espaço e consome uma estrela, matando bilhões de pessoas no processo. Quando viu essa parte da história, Jim Shooter, editor-chefe da Marvel, decidiu que a personagem tinha que morrer.

PEANUTS: a psicanálise chega aos quadrinhos

 


A tira Peanutz  foi criada por  Charles Schulz no início da década de década de 1950 e rapidamente tornou-se um sucesso, chegando a aparecer em mais de 2600 jornais em todo o mundo, tendo  um público leitor estimado em 355 milhões, em 75 países.
Na década de 1970 o sucesso da tira levou ao surgimento do desenho animado, que era pessoalmente supervisionado por Schulz. Ao invés de descaracterizar a obra, o desenho ampliou-a para além dos limites dos quatro quadros diários.
Conta-se que um psiquiatra, chegando ao seu consultório, encontrou um bilhete de seu primeiro paciente, dizendo que estava dispensando o tratamento com médico, pois havia encontrado a causa de seus traumas. E ilustrava a situação com uma tira de Peanuts.
A primeira tira de Peanuts, publicada em 02 de outubro de 1950.  


A história, real ou lendária, ilustra a incrível capacidade que Schulz tinha de perceber os dramas e traumas humanos, sintetizando-os na figura de crianças. Umberto Eco disse que ¨a poesia dessas crianças nasce do fato de que nelas encontramos todos os problemas, todas as angústias dos adultos que estão nos bastidores¨.
Nessa história aparentemente ingênua, encontramos os mais variados tipos humanos e seus conflitos.
Charlie Brown, o personagem principal, é o estereótipo do fracassado. Ele não consegue empinar uma pipa ou chutar uma bola. A única vez em que ganhou algo na vida, o prêmio foi um corte de cabelo. ¨Mas eu sou careca, e meu pai é barbeiro!¨ retrucou ele. Noutra ocasião, dançou com a rainha do baile, mas é incapaz de lembrar de nada desse acontecimento.


Se Charlie Brown é o a bigorna, na qual batem todos os males e dissabores da vida, a menina Lucy Van Pelt, irmã de Linus, é o martelo. Sua vida é provocar traumas no pobre Minduim, mostrando a cada momento o quanto ele é incapaz. Sua tirada mais clássica é fazer Charlie Brown acreditar que finalmente será capaz de chutar a bola, para tirá-la no último momento. Interessante que, apesar disso, ninguém jamais pensa em culpá-la pela derrota do time. O culpado é sempre aquele que não conseguiu chutar a bola.
Uma biografia publicada com o título de Schulz and Peanuts dá a entender que o próprio autor colocava suas neuroses nos quadrinhos, razão pela qual elas parecem tão reais. O autor descreve Schulz como um homem solitário, tímido e infeliz, dominado por figuras autoritárias, como sua primeira esposa e sua mãe, ambas representadas na personagem Lucy. Schulz se identificaria tanto com Charlie Brown, o fracassado, quanto com Schroeder, o músico. Este último seria o lado artístico, através do qual ele se libertaria da tirania da esposa. Sintomaticamente, outra cena famosa é a de Lucy tentando conseguir a atenção do pianista, que a despreza solenemente enquanto toca.  


Nesse sentido, Snoopy, provavelmente, representaria a liberdade criadora. Se Charlie Brown é o pé no chão, as tristezas e agruras da vida, Snoopy pode viajar o mundo e até mesmo ser um famoso piloto da I Guerra Mundial. Não por acaso, Charlie Brown é o personagem predileto dos adultos, que vêm nele seus traumas (a tirinha é a mais recortada, exibida e enviada a colegas nos EUA) e Snoopy é o personagem preferido das crianças pequenas, que ainda vislumbram na vida mais seus pontos positivos que negativos.
Mesmo depois da morte do autor, as tiras de Peanuts (ou Snoopy) continuam sendo republicadas em jornais e coletâneas e encantando crianças e adultos. E recentemente se transformou em um ótimo desenho animado para cinema.

Hulk no divã

 


Colocar Bruce Banner, o Hulk e o Hulk cinza numa sessão de psicoterapia. Essa ideia maluca e revolucionária saiu da cabeça de Peter David e poderia ter se transformado num tremendo fiasco, mas se tornou num grande momento do personagem graças ao bom trabalho do roteirista.

A história, publicada em The incredible Hulk 376 e 377 começa com Bruce Banner simplesmente entrando em pane enquanto dentro de sua cabeça o Hulk verde e o Hulk cinza brigam. No mundo real, isso se reflete numa transformação bizarra, um ser que é uma mistura dos três.

Quando a situação se acalma e Banner é levado para um hospital, Doc Sanson, o herói psicólogo, hipnotiza Banner e começa uma sessão de psicoterapia para entender o que realmente está acontecendo dentro da mente do cientista e suas contrapartes monstruosas.

O eixo da história é uma sessão de terapia com Banner e os hulks. 


Aí Peter David aproveita um gancho deixado pelo roteirista anterior, Bill Mantlo (que, segundo alguns, teria roubado a ideia do desenhista Barry Smith). Nessa visão, quando era criança, Bruce Banner sofreu abusos por parte do pai e, em consequência disso, desenvolveu múltiplas personalidades. O problema é que a radiação gama transformou essas personalidades em monstros reais: o Hulk e o Hulk cinza. Essas contrapartes já existiam em sua mente, mas não eram exterioriorizadas. Diante dos traumas, o pequeno Banner se fechou em si mesmo, incapaz de revelar emoções. Assim, o Hulk cinza é a sua contraparte extrovertida, mulherenga, grosseira. Já o Hulk verde é o ódio explosivo que ele sente dentro de si – o que explica porque, com quanto mais raiva o personagem fica, mais forte ele se torna.

O interessante aí é que Peter David e o desenhista Dale Keown acharam uma forma visualmente interessante para mostrar esses conflitos internos. Os conflitos de personalidade são mostrados como lutas entre os hulks. O pai é mostrado como um monstro gigante com uma fileira de dentes assustadores.

Quem diria que uma sessão no divã poderia se tornar uma tremenda história de super-herois.

segunda-feira, setembro 21, 2026

Quarteto Fantástico e Inumamos: caos

 


Um dos aspectos mais interessantes da ficção científica é a possibilidade de abordar temas que fogem muito daquilo que estamos acostumados. A imaginação é o único limite e exemplo disso é a história Pesadelo, com roteiro e arte de John Byrne e publicada em Fantastic Four 248.
Na história, o Quarteto está visitando o refúgio dos Inumanos na Lua quando o satélite terrestre é sequestrado por uma nave gigantesca.
Uma vez lá dentro, tanto o Quarteto quanto os Inumanos tentam descobrir o que está acontecendo, quando se deparam com o dono da nave: um ser tão descomunal que Byrne o descreve como tendo massa equivalente à da Terra!
O alienígena tem massa equivalente à da Terra. 

É como se Byrne, cuja fase à frente do Quarteto explorou muito esse aspecto de FC do título estivesse pensando: até onde eu posso ir? O quão grande pode ser uma ameaça?
Claro, há problemas do ponto de vista científico. Um ser tão grande teria uma força gravitacional tão grande teria puxado para si os heróis que estavam perto dele, por exemplo. Byrne tenta mostrar isso quando extraterrestre passa a mão pela face da lua e a força gravitacional de sua mão destrói a cidade de Attilan. Mas se só sua mão era capaz de fazer isso, o que não faria o seu corpo todo?
Ainda assim, é uma história divertida que mostra bem porque a fase de Byrne é tão querida pelos leitores.
No Brasil essa história foi publicada em Grandes heróis Marvel 19. 

Pigs on the wing - O Batman da dupla Gian-Bené

 


Em 1990 eu o compadre Bené Nascimeto resolvemos fazer uma história do Batman. Havia a ideia  de apresentar essa HQ para a DC Comics. A ideia de fazer HQs e tentar a DC através do roteirista Júlio Emílio Braz, que já fora agente em editora europeias (Júlio chegou a fazer uma HQ do Batman com o Mike Deodato para tentar vender para a DC).  Mesmo que não desse certo, a história seria uma espécie de fanfic da dupla, provavelmente para publicação no nosso fanzine Crash.
A história mostrava Batman investigando uma série de enigmas recebidos pelo comissário Gordon e que parecem indicar um ataque terrorista em Gothan. Nossa ideia é que para investigar ele procurasse cada um dos seus vilões, de forma que teríamos toda a galeria de vilões aparecendo na história – mas não parece ser nenhum deles, já que a maioria está presa ou regenerada.
Do ponto de vista do texto, a história era uma reflexão sobre como as histórias do Batman haviam sido alteradas pela geração de autores dos anos 80 (gente que admirávamos, como Frank Miller e Alan Moore), como os vilões havia deixado de ser palhaços inofensivos e haviam se transformado em psicopatas.  O texto também refletia em como isso mudara o próprio Batman e até Gothan City.
Quanto ao desenho, era extremamente caprichado, talvez um dos pontos altos do estilo Bené Nascimento na fase brasileira: havia prédios expressionistas inspirados no filme de Tim Burton (que fora lançado no ano anterior), o traço era extremamente detalhado e repleto de hachuras.  De certa forma, era uma antecipação do estilo atual do desenhista em sua fase no Hulk.
Pings on the wing era a nossa versão do Batman, fortemente influenciada por trabalhos como Wachmen, Cavaleiro das Trevas, Piada Mortal e Orquídea Negra.
Infelizmente chegou num ponto que as contas começaram a se tornar mais importantes que a paixão e o Bené teve que abandonar essa HQ para se dedicar a outros trabalhos que davam dinheiro. Essa história ficou como um sonho impossível. Mal podíamos imaginar que quatro anos depois o Bené, agora com o nome de Joe Bennett, estaria trabalhando para os EUA e desenhando diversos personagens tanto da DC quanto da Marvel, incluindo o Batman.
Em tempo: o título, Pigs on the wing, era referência a uma música do Pink Floyd, banda que ouvíamos tanto que acabou se transformando em trilha sonora da dupla.
Confira abaixo as outras páginas da história:








Thunderbolts - Justiça relâmpago

 



No ano de 1997, os Vingadores, o Quarteto Fantástico e alguns dos principais heróis da Marvel foram aparentemente mortos ao tentar conter uma ameaça chamada Massacre.

No mesmo ano, para substitui-los, a Marvel lançou uma nova equipe de heróis, os Thunderbolts, com roteiro de Kurt Busiek e arte de Mark Bagley. A equipe estreou numa aventura do Hulk escrita por Peter David e desenhad por Mike Deodato Jr. Era um teste e agradou os leitores.

Quando a revista finalmente foi lançada, o impacto foi enorme, principalmente graças à reviravolta final: os Thunderbolts eram, na verdade, os vilões Mestres do Mal, liderados pelo Barão Zemo. A ideia de Zemo era aproveitar o vácuo deixado pelos heróis, substitui-los e, assim, conseguir informações privilegiadas.

A ideia tinha ocorrido a Busiek anos antes, quando dirigia para visitar os pais. Para se manter acordado, ele bolava histórias para os vingadores e, numa delas, a equipe Mestres do Mal se fazia passar por um novo grupo de heróis para aos poucos substituir os vingadores

A equipe era formada por Zemo, ironicamente rebatizado de Cidadão V (um herói dos anos 40 que foi morto pelo pai nazista de Zemo), Armador (que se tornou Tecno), Besouro (que adotou o nome de MACH-1), Golias (que passou a se chamar Atlas), Rocha Lunar (agora Meteorita) e Colombina (rebatizada de Soprano).



O curioso aí é que esse grupo realmente existia antes de sua versão heroica e os leitores mais antento podiam comparar as versões antigas com suas novas encarnações.

Outro ponto importante é que alguns dos personagens vão aos poucos gostando do seu papel de heróis e começam a ficar contra Zemo.

A melhor história é o anual da equipe de 97, escrito por Busiek e desenhado por vários artistas, incluindo o veterano Gene Colan.

Na história, uma heroína é ajudada pelo grupo e, por sugestão de Meteorita, passa a integrar a equipe. Ela não sabe as reais intenções da equipe, mas quer saber como a equipe se formou. Cabe ao cidadão v explicar como isso ocorreu sem mentir, mas ao mesmo tempo sem dizer a verdade (o que revelaria que eles são vilões). Aí entra a maestria do texto de Busiek, com falas que têm duplo sentido. Dessa forma, a narrativa conta o que parece ser uma história heroica quando o desenho e os diálogos mostram um grupo de malfeitores se reunindo. O momento em que Zemo decide o nome da equipe é um dos mais interessantes. O nome deveria remeter à II Guerra Mundial, como Stormtroppers e Blitzkrieg: “algo  criptofascista... porém amigável”.

O roteiro é tão bem elaborado que até mesmo Mark Bagley na sua fase Image fica suportável.

X-men – A filha da luz e das trevas

 


No número 136 de The Uncanny X-men, a Fênix Negra volta para a terra após destruir um sistema solar e um cruzador do império Shiar.

O capítulo não poderia ter título melhor: “Filha da Luz e das trevas”. O título expressa perfeitamente a dualidade de uma personagem que é, ao mesmo tempo, luz (Jean Grey) e trevas (a Fênix Negra), além de deixar claro que ambas fazem parte do mesmo ser.



Aliás, vale a pena comentar a splash page de abertura, com a fênix envolvendo o planeta Terra em suas garras a terra, transformando-a em uma bola de fogo. A cena, espetacular, mostra como Byrne e Claremont conseguiam manejar a narrativa para criar suspense e gerar ainda mais expectativa dos leitores.

Ao voltar à terra, a Fênix visita seus pais, com os quais tem um diálogo repleto de nuances, que ficam explícitos nos balões de pensamento. Se por um lado, a personagem está feliz em voltar para a família, por outro, a ocasião a aborrece. Essa variação entre uma e outra, a luz e as trevas, é demarcada perfeitamente por John Byrne e Terry Austin não só neste, mas em outro momento, quando ela conversa com Scott. Só de olharmos a imagem sabemos exatamente quem está no comando.



O ponto alto disso é quando Jean fala com Cíclope: “Eu... tenho fome. Sinto falta de uma alegria... de um êxatase incompreensível. Essa necessidade também é parte de mim... ela me consome”. E, na imagem, vemos o rosto de Jean no meio das trevas criadas por sua cabeleira, como se a personagem estivesse perdida em meio ao seu lado sombrio.

O pianista

 


Quem assistiu ao filme O Pianista deve ter ficado intrigado com o oficial nazista que salva Wladislaw Szpilman, escondendo-o no sótão de uma casa e lhe levando comida. O nome desse oficial era Wilm Hosenfeld e cartas suas recentemente publicadas revelam que ele não só salvou o pianista, como outras pessoas, pois discordava do genocídio praticado pelos alemães.
Hosenfeld era um veterano da Primeira guerra Mundial, na qual lutou muito jovem. Como outros alemães, sentia-se ressentido com o Tratado de Versalhes e achou uma resposta para suas ansiedades no partido nazista. Alistou-se em 1939, tendo participado da invasão da Polônia, mas seu entusiasmo com o nazismo terminou no dia em que viu uma criança ser executada por ter roubado um pouco de feno.
Sua revolta era expressa em cartas à mulher. Em uma delas dizia: "Envergonho-me de fazer parte dos culpados por uma tragédia tão grande, sem poder auxiliar as vítimas" . Em outra afirmava: “Pode um alemão ainda mostrar-se ao mundo? É para isso que nossos soldados morrem na frente de batalha? A história não conhece nada igual. Talvez os arcaicos tenham praticado o canibalismo. Mas nós que conduzimos a cruzada contra o bolchevismo, como podemos abater homens, mulheres e crianças em pleno século XX? Seremos normais? A culpa é tão grande que nos faz afundar no chão de vergonha.Será que o demônio adotou forma de gente?”. 
Como forma de resistência, começou a esconder fugitivos, a fornecer comida e documentos falsos. Salvou tantos quanto pôde. Mesmo as cartas enviadas à família já seriam suficientes para condená-lo à morte, mas mesmo assim ele continuou praticando o bem até ser preso pelos russos.  Apesar dos apelos de muitas pessoas que tiveram sua vida salva por ele, Stalin não abrandou sua pena, condenando-o a 25 anos de trabalhos forçados, praticamente uma condenação à morte na União Soviética stalinista. Ele morreu em 1952, num campo de prisioneiros, aos 57. 

Sua vida demonstra que, mesmo para os que estavam diretamente envolvidos com o regime, havia como fazer algo para evitar o massacre de pessoas. 

A Arte Inesquecível de Arantza Sestayo

 


Arantza Sestayo nasceu em San Sebastián, no País Basco (Espanha), em 1964. Autodidata na essência, iniciou sua trajetória profissional na década de 1980, dedicando-se inicialmente a retratos, design de cerâmicas e produção de cenários para desenhos animados.

Posteriormente, foi contratada pela Prefeitura de Castellón para decorar a fachada do Ateneo, um centro cultural local de prestígio. Teve publicado o livro Duende, uma coletânea de suas obras que inclui, inclusive, esse célebre trabalho de decoração urbana.

Em 2010, seu livro Wicked Kisses foi lançado internacionalmente em vários países, e ela participou da antologia Vampires; ambos os títulos foram publicados pela renomada Norma Comics.

Com influências profundas do Art Nouveau e do movimento pré-rafaelista, Arantza rapidamente se consolidou como uma das artistas mais requisitadas para ilustrações de fantasia no mercado. Suas imagens trazem geralmente mulheres de cabelos longos em ambientes românticos e fantásticos, misturando um clima de contos de fadas com um erotismo sutil.

Entre os seus trabalhos mais importantes estão capas para a revista Heavy Metal e participações em antologias de ilustrações como Reinas de la Ilustración Española del Siglo XXI (Norma Editorial) e Game of Thrones 20th Anniversary. Ela inclusive foi a artista responsável pelas imagens do calendário oficial de Game of Thrones de 2022 (Harper Collins).