terça-feira, julho 28, 2026

Kull – O vale as sombras

 

 

Escrita por Alan Zelenetz e desenhada pelo filipino Tony De Zuniga, a história O vale das sombras parte de uma premissa interessante: a história se passa em um momento em que o rei está entre a vida e a morte, depois de ter sido ferido em batalha. Várias pessoas à sua volta observam o que parece ser o delírio final (na verdade o rei conversa com a deusa da morte) e, ao mesmo tempo, rememoram fatos da história do rei.

Em uma das histórias, por exemplo, um jovem Kull estava pescando com companheiros quando seu barco é abordado por um navio picto. Todos morrem com o impacto, menos Kull, que passa a caçar cada um dos que o haviam atacado. Em outra sequência, é mostrado como ele foi manipulado para matar o rei e como os manipuladores viram suas esperanças malograrem quando Kull decidiu se coroar rei.

O rei está no leito de morte e os seus auxiliares lembram seus momentos mais épicos. 


Seria uma história realmente sensacional, não fosse pelas limitações de Zelenetz. Ele não consegue imprimir à HQ o ar grandioso que ela exigia. Em nenhum momento seu texto vai além do mediano.

Enquanto isso, o rei conversa com a deusa da morte. 


Embora De Zuniga seja um desenhista espetacular, é nítido que ele carece de um roteiro mais elaborado guiando sua arte, o que faz inclusive que algumas sequências fiquem de difícil compreensão.


Publicada originalmente em Marvel graphic novel 47 de 1989, essa história saiu no Brasil pela abril em Conan em cores 13.

Planeta dos macacos

 

Planeta dos Macacos, filme de 1969, dirigido por Franklin J. Schaffner, é uma daquelas obras que, em meio à aventura e à ficção científica, fazem a plateia pensar. Nele, astronautas cruzam o espaço e caem numa terra estranha, em que os humanos são selvagens que não falam e os macacos dominam. Posteriormente fica claro que se trata de uma terra do futuro, na famosa cena de Charlton Heston diante da estátua da liberdade meio encoberta pela areia.
A sacada mais genial do filme (a revelação final) foi, provavelmente, obra do roteirista Rod Serling, que já havia usado um final parecido em um episódio do seriado Além da Imaginação, em que astronautas caem em um planeta e acabam se matando uns aos outros achando que não encontrarão água e comida para só depois descobrirem que estavam no deserto do Novo México.
A genialidade do filme está não só em ter cenas inesquecíveis, ou ser uma das melhores ficções científicas de todos os tempos, mas também em refletir sobre a questão do humano e a cegueira dos paradigmas.
O filme teve sequências, um seriado de TV, um desenho animado, a pífia refilmagem de Tim Burton e agora estreia mais uma série de filmes. Mas nenhuma dessas obras chega ao menos perto da pungente versão original de 1969.

O código Da Vinci e o sagrado feminino

 

O CÓDIGO DA VINCI é um livro de 2003, de Dan Brown. Publico abaixo uma resenha publicada por mim na época: 

Brown escreve bem, apesar de algumas escorregadas (algumas expressões destoam do restante e parecem chulas). Seu texto é claro, limpo, sem cacoetes literatescos. E ele sabe transmitir de maneira fácil assunto complexos.

O livro também se destaca pela ótima utilização do suspense. Três níveis de narrativa deixam o leitor grudado nas páginas como só os grandes mestres da literatura pop sabem fazer.

Quanto às teorias expostas no livro, o próprio autor as expressa com ressalvas, uma atitude sensata, embora claramente o livro tenha como inspiração da idéia do sagrado feminino, a noção de que a sociedade ocidental passou a valorizar apenas o aspecto masculino, esquecendo o feminino. Brown propõe a complementariedade masculino-feminino, yin-yang.

Para os que não sabem, o sagrado feminino, refere-se à religião da deusa, que venerava a terra e as mulheres por sua capacidade de gerar vida. Para os homens, o fato das mulheres darem à luz era um enigma que fazia com que a mulher tivesse caráter divino, afinal, apenas Deuses têm a capacidade de criar vida. As mulheres ficavam grávidas em uma grande festa na primavera, em honra à Mãe Terra, em que todo mundo transava com todo mundo (para quem não sabe, essa é a origem do carnaval). Um detalhe interessante é que praticamente todas as mulheres engravidavam ao mesmo tempo e tinham seus filhos antes do período de colheita, da qual participavam ativamente.

Em algum momento da evolução humana, os homens começaram a perceber uma relação entre o sexo e o nascimento das crianças. A partir daí, como forma de poder, os homens passaram a exigir exclusividade. As mulheres eram trancafiadas e os rituais antigos em honra à Mãe Terra, foram proibidos.

Nesse momento o regime político saiu do matriarcado para tornar-se patriarcal.

O livro acusa indiretamente a Igreja por essa supervalorização do masculino, mas a situação é bem mais complexa.

Por um lado a visão católica romana, sãopaulina, seja de fato conservadora e machista. Na Inquisição, a maior parte das pessoas que morreram era mulheres acusadas de venerarem a Mãe Terra (as chamadas feiticeiras).

No entanto, o culto ao sagrado feminino sobreviveu na  Igreja Católica no culto à Nossa Senhora.

Por outro lado, uma das pessoas apontadas como mestres do priorado de Sião e, portanto, protetores do segredo do graal, é Sir Isaac Newton, talvez o maior responsável pela disseminação do pensamento cartesiano, que divide a realidade em partes e certamente é importante para a dissociação entre os aspectos complementares da realidade.

Bem, mas talvez eu esteja divagando. O que quero dizer é que, apesar de algumas incoerências, o livro é uma leitura divertida. Vale a pena ser lido.

Lanterna e Arqueiro Verde – Meu ódio será sua herança

 


Ao assumirem o título do Lanterna e do Arqueiro Verde, Dennis O´Neil e Neal Adams se propuseram a explorar os grandes males da América. No volume 78 do título, eles abordaram um tema de pouco destaque, mas de grande relevância até os dias atuais: os líderes que criam em torno de si um grupo de fanáticos irracionais.

A história começa com a Canário Negro sendo abordada por uma gangue de motoqueiros. Eles querem roubar a sua moto, mas logo descobrem que não estão lidando com uma mulher indefesa. Entretanto, quando as habilidades em artes marciais da heroína já deram conta de quase todo o bando, um deles atropela a moça com uma moto.

A Canário é atacada por uma gangue de motoqueiros...


Duas semanas depois, o Lanterna, o Arqueiro e o Guardião chegam  a um restaurante administrado por um indígena. Enquanto estão comendo, aquela mesma gangue ataca o local. Quando são finalmente derrotados, o Arqueiro percebe que a moto usada por um deles é a mesma da Canário, o que os leva a procurar por ela. Só que a moça foi resgatada por um falso messias chamado Joshua e passou a fazer parte de sua seita. Joshua quer usar seu grupo massificado para uma guerra contra negros e índios.

A trama ecoa diretamente situações reais, como Charles Manson, cujos seguidores mataram diversas pessoas, entre elas a atriz Sharon Tate, e o Pastor Jim Jones, que levou mais de 900 pessoas a se suicidarem. O roteiro mostra que até mesmo uma heroína pode ser lobotizada e nas situações corretas passar a seguir cegamente um líder fanático.

...  o que faz com que ela entre numa seita. 


Não bastasse o tema relevante, temos aqui um roteiro primoroso de Dennis O´Neil, com uma ótima caracterização de personagens (poucas vezes o Arqueiro foi tão bem trabalhado em sua personalidade impetuosa) e diálogos afinados.

Falar da qualidade do desenho de Adams é chover no molhado, mas aqui, além de todas as outras características que diferenciam seu desenho, como a diagramação inovadora e planos inusitados, ainda descobrimos que ele é simplesmente um mestre ao desenhar mulheres. Sua Canário oscila entre o meigo e o obstinado.

Uma sequência magistral como essa não precisa de texto. 


Em determinada sequência, quando Joshua ordena que ela atire no Arqueiro, vemos uma sequencia de vários quadros, num close cada vez mais próximo, que vão revelando o conflito interno da personagem. De maneira inteligente, O´ Neil não coloca texto. Ele seria desnecessário. O desenho ali fala por si.

Guerras Secretas – Começa a guerra

 


A série Guerras Secretas surgiu como uma encomenda para promover uma linha de bonecos da Marvel. Jim Shooter, o roteirista e editor, chegou a comentar que o objetivo da história era mostrar para os garotos como brincar como os bonecos, colocando-os em confronto.  E é isso de fato o que percebemos na primeira história.

Nas revistas anteriores da Marvel, os roteiristas tinham jogado ganchos com os heróis sendo atraídos até uma estrutura no Central Park. No primeiro número de Guerras Secretas vemos o que aconteceu com eles: estão numa estação espacial, no meio do nada. Essa sequência funciona principalmente graças ao talento de Mike Zeck, com seu traço simples, elegante e funcional: começamos com o espaço, a estação espacial surgindo do nada, um plano detalhe dos heróis espantados e uma página dupla com os mesmos no meio da estação espacial.

O roteiro apresenta os personagens. 


Shooter é bem direto. Alguém pergunta quem está ali e o diálogo seguinte é só apresentando, em sequência, cada um dos heróis escolhidos por Beyonder. A mesma coisa acontece entre os vilões. Diante da perplexidade dos vilões, o Doutor Destino tenta explicar o que está acontecendo, ao mesmo tempo em que também apresenta todos os jogadores do lado do mal: “Alguém ou alguma coisa nos transportou através do universo! Pelo que puder notar, aqui estão a asgardiana Encantor, Ultron, o Homem-absorvente, a Guangue da Demolição, Kang, Galactus, Lagarto, Homem Molecular e Dr. Octopus”.

Era como se o roteirista estivesse apresentando os bonecos para os meninos: “Olhe, são com esses personagens que vocês vão brincar”.

Beyonder cria um mundo a partir de pedaços de outros mundos. A física mandou um abraço. 


Logo após isso, Beyonder destrói uma galáxia e forma um planeta, transportando para lá as duas estações espaciais.

Enquanto isso, os vilões começam a brigar entre si, sem razão nenhuma até que Ultron resolva simplesmente eliminar todos até ser neutralizado por Galactus. Afinal, Galactus é o vilão mais fodão da Marvel, certo? Não. Quando ele tenta confrontar Beyonder, é simplesmente repelido como um inseto.

Os vilões brigam entre si. 


Funciona como medida para mostrar o tamanho do poder do ser que está manipulando heróis e vilões. Mas a presença de Galactus no time dos vilões desequilibra absolutamente o jogo, afinal, Galactus sozinho poderia derrotar todo mundo ali.

Se os vilões estavam brigando entre si, os heróis também, mais especificamente pela presença entre eles de Magneto, visto como um vilão pela maioria ali (era Shooter explicando para os leitores como brincar com os bonecos, colocando-os em conflito). Da mesma forma, há uma discussão sobre quem seria o líder – o escolhido acaba sendo o Capitão América.

Os heróis brigam entre si. 


Beyonder avisa que quem destruir seus inimigos alcançará o maior dos prêmios: todos os seus sonhos serão realizados, de forma que o número um acaba com os vilões atacando os heróis.

Apesar de todos os problemas, como falta de profundidade e até de verossimilhança, há de se admitir que a história é empolgante e deixa o leitor com uma pulga na orelha perguntando-se o que vai acontecer. Na época em que eu li, aos 15 anos, foi exatamente isso que aconteceu.

Mike Zeck ainda estava se esforçando nesse primeiro número. 


Hoje, lendo a versão sem cortes, o que mais chama atenção é o belo desenho de Mike Zeck, com destaque para o quadro de Galactus caído no chão, depois de se enxotado por Beyndoer. A presença do Doutro Destino no quadro só serve para destacar a grandiosidade do ser cósmico.

Nas edições seguintes, à medida em que Jim Shooter implicava com destalhes e mais detalhes, Mike Zeck foi perdendo o interesse pela história, de forma que seu traço foi se tornando cada vez menos detalhado e mais genérico. Quando foi publicado o último número, Shooter mandou uma garrafa de champanhe para o desenhista. Ele abriu e jogou tudo na pia.

Tico-tico, a primeira revista de quadrinhos do Brasil

 

O Tico-tico foi a primeira revista em quadrinhos do Brasil. Conta a lenda, impressa na capa do primeiro número, que um grupo de pirralhos foi até a revista O Malho exigir que fosse criada uma publicação específica para eles.

Na verdade, o dono de O Malho, estava de olho nesse novo e crescente mercado representado pelas crianças. Um mercado, aliás, que durante anos não teria qualquer concorrência.

O primeiro número saiu em 11 de outubro de 1905 e seguia o modelo da revista francesa La Semaine de Suzette. Tinha quatro páginas coloridas. As outras usavam uma combinação de branco com vermelho, verde ou azul.
Custava 200 reis, preço que manteve até 1920.

Embora a inspiração fosse francesa, o personagem principal, Chiquinho, era um decalque de Buster Brown, do norte-americano Richard Outcault, publicado no jornal The New York Herald. O personagem era um garoto travesso que fazia as maiores traquinagens e acabava muitas vezes apanhando. Seu inseparável companheiro era o cão Tige. No Brasil, o desenhista Luís Gomes Loureiro adaptou o personagem, renomeando-o de Chiquinho. O cão virou Jagunço, e logo a série ganhou um coadjuvante, o negrinho Benjamin, retratado com a visão que se tinha do negro na época: descalço, lábios grossos, roupas simples e subserviente. Embora fosse um decalque, a adaptação ficou tão boa que durante muito tempo acreditou-se que Chiquinho era um típico personagem brasileiro.

A descoberta da origem do personagem se deu na década de 1950, quando um grupo de desenhistas novatos comparou Chiquinho com Buster Brown. Entretanto, Chiquinho tem sido reabilitado por ter conseguido se adaptar à realidade brasileira. Além disso, os decalques pareciam ser moda na época. Na Holanda, o garoto virou Sjors, do clube dos rebeldes, uma série reverenciada até hoje e de grande influência nos quadrinhos locais.

Alguns dos mais importantes artistas gráficos do Brasil colaboraram com O Tico-Tico. Entre eles, J. Carlos, um cartunista que conseguiu criar um traço único, tão diferente e simples que seus trabalhos constam no Museu das Caricaturas, na Basiléia. Segundo estudiosos, um desenho seu de um papagaio serviu de inspiração para que Walt Disney criasse o Zé Carioca. Na revista O Tico-tico ele ficou famoso pela personagem Lamparina, uma negrinha do morro que vivia pregando peças nos adultos.

Outro que se destacou foi Luiz Sá. Com seus personagens redondos, ele foi o pioneiro da arte da animação no Brasil, tendo feito um desenho em sequência com mais de cem metros, que nunca foi exibido por falta de patrocínio.  Para a publicação, ele criou Reco-reco, Bolão e Azeitona, um trio de garotos que apareceram de 1931 até o fechamento da revista na década de 1960.   

Finalmente, Max Yanton foi outra estrela da revista. Ele era especializado em tipos pitorescos, vagabundos e sem família. Sua criação mais famosa foi Kaximbown, de 1908, um aventureiro que nunca pagou seu empregado Pipoca e vivia se dando mal a cada episódio. O personagem ficou tão famoso que Rui Barbosa só chamava o desenhista de Kaxibown. 

Se Meu Apartamento Falasse


Se há uma coisa que não se pode dizer sobre o diretor Billy Wilder é que ele tinha medo de abordar temas polêmicos. Um exemplo emblemático disso é o clássico Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment), lançado em 1960.

A história acompanha um jovem e ambicioso funcionário (interpretado por Jack Lemmon) de uma gigantesca companhia de seguros que conta com milhares de empregados. Na tentativa de se destacar e subir na hierarquia no meio de tanta gente, ele acaba emprestando seu apartamento para que um chefe realize um encontro extraconjugal. A notícia se espalha nos bastidores da firma e, logo, vários executivos começam a usar o imóvel — a ponto de o protagonista ter que passar uma noite no banco de um parque e contrair uma forte gripe.

Secretamente, ele é apaixonado por uma ascensorista do prédio da empresa (vivida por Shirley MacLaine). As coisas se complicam drasticamente quando o próprio diretor de recursos humanos passa a usar o apartamento para se encontrar justamente com a garota por quem o jovem é apaixonado.

O próprio tema da história já era polêmico e transgressor ao extremo, não só pela premissa do empréstimo do apartamento, mas por sugerir abertamente que a maioria dos altos executivos mantinha relações extraconjugais. Além disso, como se o enredo já não fosse ousado o suficiente, o filme aborda abertamente a temática do suicídio. Considerando que a produção foi realizada no início dos anos 1960, em um período no qual a sociedade norte-americana era profundamente moralista, é surpreendente não apenas que o longa tenha sido lançado, mas que tenha se tornado um enorme sucesso de público e crítica. A genialidade de Wilder reside exatamente aí: na capacidade de embalar suas audácias e críticas sociais de forma tão elegante que elas conseguiam burlar a rigorosa censura da época.

Além do roteiro impecável e do elenco perfeitamente afinado, a produção se destaca pelo uso inteligente da cenografia. Para simular que o protagonista trabalhava em uma corporação verdadeiramente colossal, a equipe de arte criou um cenário utilizando mesas e equipamentos de tamanhos regressivos — posicionando os móveis maiores na frente e escrivaninhas em miniatura, ocupadas por crianças, ao fundo —, o que gerou uma ilusão de ótica de perspectiva forçada. Um exemplo brilhante de como Wilder dominava os truques da linguagem cinematográfica para brincar com a realidade.

Em tempo: este é um caso raro em que o título brasileiro supera o original. Nos Estados Unidos, a fita foi batizada simplesmente como The Apartment.

segunda-feira, julho 27, 2026

Vikings – a série

 


Durante a maior parte da baixa Idade Média, os nórdicos invadiram e aterrorizaram grande parte da Europa. Em suas viagens chegaram até mesmo à América. É a história desse povo que é contanda na série Vikings, criada pelo produtor e roteirista Michael Hirst para o canal History.
A trama é centrada em Ragnar Lothbrok, um agricultor que sonha encontrar novas terras e, com a ajuda de seu amigo Floki, o construtor de barcos, chega à Inglaterra, onde saqueiam um mosteiro e aprisonam um monge.
Esse fato pequeno irá mudar toda a história do povo nórdico e do próprio Ragnar, que, em decorrência disso acabará se tornando lorde e até mesmo rei. Em geral com a ajuda de sua esposa Lagertha, a escudeira, irá ter tantas conquistas que se tornará um herói mítico. Posteriormente a trama se foca nos filhos de Ragnar.
Ragnar de fato existiu, ou pelo menos assim contam as lendas, assim como sua esposa escudeira Lagertha, Bjorn e a maior parte dos personagens da série. Michael Hirst consegue unir com perfeição realidade e ficção, modificando fatos quando necessário ou completando quando as crônicas não são claras o bastante. Essas mudanças são necessárias para o andamento da trama e o desenvolvimento do roteiro e dos personagens.
Há pequenos erros históricos e muita liberdade poética (em especialmente a partir da quinta temporada), como uma igreja com características góticas em plena baixa idade média. Mas no geral, Vikings é uma aula de história. Uma aula sobre os vikings, sua cultura, modos e costumes, sua religião – nesse sentido é interessante como Hirst sempre introduz algo da mitologia nórdica nas tramas. É alguém que conta alguma lenda, é alguém que faz uma alusão aos deuses, é alguém que faz uma comparação entre o que está acontecendo com o que já aconteceu com um deus.  
Mas é também uma história do mundo na época, com uma trama que percorre locais tão diferentes quanto a França, a Inglaterra e a Rússia e até mesmo a Sicília. E o roteirista  Michael Hirst é extremamente hábil ao trabalhar com intrigas palacianas. De fato na Idade Média, os palácios eram um local em que não se podia confiar em ninguém e quanto mais poder, maior a chance de alguém ser morto ou matar para se manter no cargo.
Traições, envenenamentos, emboscadas, tudo isso é muito bem explorado na série.
As cenas de guerra também impressionam tanto pelo realismo visual quanto pelas estratégias adotadas. O cerco de Paris, por exemplo, é um ótimo exemplo de como defender uma cidade fortificada (e não aquela palhaçada de GOT).
O elenco é igualmente brilhante, encabeçado por Travis Fimmel no papel de Ragnar. Pequenos trejeitos, olhares, um jeito de piscar, tudo contribuiu para construir o personagem com perfeição. Outro grande destaque é Gustaf Skarsgård no papel de Floki. Sua atuação remete diretamente ao deus Loki – e fico imaginando como ele poderia dado um outro ar, mais matreiro e risonho para o personagem da Marvel. Esses são apenas dois de um elenco que merece elogios por completo.
Unida a essas ótimas atuações, um roteiro que caracteriza muito bem cada um dos personagens, em especial Ragnar, visto aqui como uma mistura de aventureiro, estrategista e filósofo – características que serão herdadas individualmente pelos filhos. 
A série tem seis temporadas e, claro, tem altos e baixos, mas no geral os altos são muito mais frequentes e a última temporada está indo num crescendo em termos dramáticos.
Vikings é tudo aquilo que GOT prometia ser.

A chegada dos vingadores!

 


Em 1963, a Marvel, que pouco tempo antes era uma biboca no fundo do corredor com dois empregados (Stan Lee e uma secretária) se tornara a mais quente editora do mercado de quadrinhos. As cartas de leitores, que raramente chegavam, e quando chegavam eram para reclamar de erros ortográficos ou editoriais, agora inundavam a redação de fãs entusiasmados. E muitas dessas cartas pediam a criação de um supergrupo reunindo os heróis da editora.

A criação dos Vingadores era, portanto, só uma questão de tempo, e isso aconteceu em setembro daquele ano com toda a pompa e estratégia de auto-promoção que caracterizava a Marvel, a começar pela capa que anunciava: “Os super-heróis mais poderosos da Terra!”. O desenho da capa, uma daquelas artes impactantes de Jack Kirby, mostrava Thor, Hulk, Homem de Ferro (ainda coma  armadura antiga), Homem-formiga e Vespa avançando contra Loki, que desdenha: “Os Vingadores... bah! Destruirei todos vocês!”. Uma chamada carregava ainda mais na auto-promoção e estimulava o time de fãs: Super-heróis! Super-vilões” Superameaças! Tudo isso apresentado do jeito fabuloso da Marvel!”.

Loki manipula o Hulk. 


Na história, Loki, em mais um dos seus planos contra seu irmão, resolve controlar o Hulk, fazendo com que ele pense que há explosivos numa linha de trem e levando-o a danificar a linha. A ideia era fazer o golias esmeralda parecer um vilão e colocá-lo em rota de colisão contra Thor. Os membros da Brigada Juvenil, grupo liderado por Rick Jones, pedem ajuda pelo rádio para o Quarteto, mas com a intervenção de Loki, quem recebe a mensagem é Thor e, inadvertidamente, os outros membros dos Vingadores.

Uma das especialidades da Marvel era colocaros heróis lutando entre si.

 Claro que tudo isso era uma boa desculpa para o que a Marvel fazia de melhor: colocar vários heróis em rota de colisão uns com os outros (nesse caso, lutando contra o Hulk).

Era muita história para contar, o que fez com que Kirby tivesse pouco espaço para suas grandiosas cenas de ação e splash pages.

Rosa e Azul, de Renoir

 


Ao contrário de outros pintores impressionistas, que se dedicavam essencialmente a pintar paisagens em imagens que antecipavam o abstracionismo, Renoir era também um bom pintor de figuras humanas.
Um de seus quadros mais famosos, Rosa e azul, é o retrato de duas meninas, Alice e Elisabeth, filhas de um banqueiro judeu. As duas meninas pousaram para o pintor com vestidos absolutamente iguais – exceto pela cor: Alice, de cinco anos, veste rosa e Elisabeth, de seis, veste azul. Alice estava nitidamente incomodada ao pousar e parece pronta a rebentar em choro, enquanto sua irmã, mais à vontade, sorri para o pintor. O estilo impressionista, com pinceladas rápidas que procuravam captar a cor em sua essência, aparece principalmente no vestido.
Alice viveu até os 89 anos, mas sua irmã teve destino trágico. Por ser judia, ela foi presa e enviada ao campo de concentração de Auschwitz, mas não chegou lá: acabou morrendo no caminho.
A obra, produzida em 1881, foi redescoberta abandonada em 1990, no apartamento da família e passou por diversos colecionadores até ser adquirida em 1952 pelo MASP.

Homem-aranha vs Capitão Britânia

 

 

Marvel Team UP era uma publicação da Marvel que mostrava encontros entre heróis Marvel. Entre as várias equipes criativas que assumiram o título, sem dúvida a mais célebre foi a do roteirista Chirs Claremont e do desenhista John Byrne.
Ótimo exemplo dessa dupla afinada foi o encontro do Homem-aranha com o Capitão Britânia, publicada no número 65 e 66 da revista, em 1977.
Na história, Peter Parker recebe em sua casa um estudante inglês, Brian Braddock, que é ninguém menos que o herói britânico. Depois de uma luta entre os dois ocasionada por um equívoco (parece haver uma regra na Marvel: toda vez que dois heróis encontram, eles primeiro devem brigar), eles se deparam com uma ameaça terrível: o Mundo assassino do vilão Arcade.


Criado nessa história, Arcade é um jovem rico que, entendiado, resolve criar um parque de diversões para testar vários heróis da Marvel.
Os dois heróis são colocados em bolas transparentes e introduzidos em um fliperama gigantesco. Depois se deparam com os mais diversos tipos de ameaças, todas baseadas na ideia de um parque de diversões mortal.
Era uma ideia que de fato funcionava – tanto que a dupla ia retornar o vilão numa história dos X-men, pois permitia ação initerrupta.
Se Chris Claremont era bom ao trabalhar com diversos personagens, Byrne era ótimo com ação. A junção dos dois fez com que essa história se tornasse um clássico.
No Brasil essa história foi publicada em Homem-aranha 38 e na coleção de Graphic Novels Marvel da Salvat (também no número 38).

Perry Rhodan - O espírito da máquina

 


Na série Perry Rhodan, há volumes que funcionam como uma verdadeira gangorra: alternam ótimos momentos com passagens absolutamente modorrentas. Um exemplo claro disso é o número 249, escrito por Kurt Mahr.

Nos números anteriores, Rhodan descobre que os Senhores da Galáxia pretendem inspecionar todos os seus transmissores. Isso coloca em risco o "Transmissor Chumbo de Caça", tomado pelos humanos em um sistema que o inimigo considera desabitado. Os terranos podem até repelir as primeiras patrulhas, mas certamente viriam outras, com frotas cada vez maiores, até que a resistência local fosse dizimada — o que provavelmente ocorreria já na quarta expedição.

A única saída é tentar criar um bloqueio no transmissor para barrar o avanço dos atacantes. Contudo, o surgimento de um estranho ser energético parece tornar essa missão impossível.

O livro começa muito bem, focando no primeiro contato do engenheiro Steven Kantor com o ser, que se manifesta como um monstro. Mahr acerta ao centrar a narrativa em um homem comum e ao detalhar o cotidiano nas naves, incluindo o processo de recrutamento e até minúcias sobre os refeitórios.

No entanto, do meio para o fim, o autor — que tinha formação científica — empolga-se com detalhes técnicos em dezenas de páginas capazes de dar sono em um sonâmbulo. A história só retoma o fôlego a partir do capítulo seis, quando a batalha espacial é descrita e a natureza do ser energético é revelada em um interessante plot twist.

domingo, julho 26, 2026

Quarteto Fantástico – O impiedoso Mestre dos bonecos

 

 

Uma das características que faziam do título do Quarteto Fantástico algo completamente diferente do que se fazia à época era o triângulo amoroso Senhor Fantástico – Mulher Invisível – Namor.

Esse triângulo é o mote do número 14 da publicação. Os heróis tinham acabado de voltar da Lua e se tornam ainda mais celebridades, mas a cabeça de Sue parece estar no fundo oceano, tanto que ela coloca um tal de olhoscópio para percorrer o fundo dos mares em busca do Príncipe Submarino. O detalhe é que o aparelho foi criado por Reed Richards. “Embora o mundo me conheça como o Senhor Fantástico, não sou capaz de atingir meu objetivo mais estimado! Sou completamente incapaz de conquistar o coração da mulher que amo”, diz ele, provavelmente o guampudo mais famoso dos quadrinhos.

Todas as mulheres estão apaixonadas pelo Senhor Fantástico... 


Nessa edição, Stan Lee e Jack Kirby pareciam estar carentes de ideias, tanto que resolvem trazer de volta um vilão que havia aparecido no número 5 da revista, o Mestre dos Bonecos. O personagem já não era grande coisa lá naquela primeira revista, mas aqui é totalmente inútil, pois resolve controlar Namor e colocá-lo em rota de colisão com o Quarteto, como se o príncipe dos mares precisasse de alguma desculpa para isso.

A única diferença é que o Mestre dos Bonecos faz com que ele coloque a vida de Sue em perigo.

... mas Sue parece estar apaixonada por Namor. 


Kirby e Lee pareciam também não estar muito afinados. À certa altura o Coisa vai atrás de Alícia se desperdir, mas ela insiste em ir junto, por mais que isso pareça sem sentido. Ele estaciona sua versão do fantasticarro em um estacionamento público e quando volta, descobre que o veículo está trancado por vários outros. Ele resolve a situação colococando vários carros um em cima do outro. Mas, vejam bem, ele chegou voando. Não poderia ter ido embora também voando, como aliás ele faz? A sequência não faz o menor sentido.

Tudo bem que o Coisa é turrão, mas empilhar vários carros para tirar um carro voador?


Outra sequência sem sentido é quando o Coisa joga um polvo e ele acerta o submarino do Mestre dos Bonecos. O vilão argumenta que não teria tempo de desviar do monstro gigante e resolve... fazer um boneco do polvo para controlá-lo! O tempo que ele levaria para fazer o boneco daria tempo para ele desviar até de um cardume. Um vilão ridículo deveria ter mesmo um final ridículo.  


Antes que a revista acabasse, temos uma daquelas cenas memoráveis com os heróis se lançando contra Namor e a Mulher Invisível se colocando entre eles para defender seu amado. Reed Richards era um cara muito paciente e apaixonado.