quarta-feira, julho 01, 2026

Urupês, de Monteiro Lobato

 


Monteiro Lobato é mais conhecido pela sua literatura infanto-juvenil. Ele, entretanto, tem uma extensa e realmente impressionante literatura para adultos. E, nesse nicho, Urupês, lançado originalmente em 1918, é, sem sombra de dúvidas, sua obra-prima.

O livro é fruto direto do texto “Velha praga”, que integra o volume. Indignado com a devastação provocada pelas queimadas no vale do Paraíba, prática que destruía a vegetação local e empobrecia o solo, Lobato escreve o texto e envia para a seção “Queixas e reclamações” do jornal O Estado de São Paulo.

Os editores gostaram tanto do texto que resolveram publicá-lo como artigo. O impacto foi tão grande que animou o autor a lançar-se como escritor.

Vendeu a fazenda, herança do avô, comprou a Revista do Brasil e lançou Urupês. Mandou imprimir mil exemplares, na esperança de conseguir vender tudo em cinco anos. Pouco tempo depois, já cogitava uma segunda tiragem. Agumas livrarias já haviam repetido o pedido três vezes. Quando Rui Barbosa citou a obra em um dos seus discursos, as vendas estouraram. Antes de um ano, as tiragens já estavam na casa dos 4 mil exemplares. Em 1921, o livro já tinha vendido 21 mil exemplares, um best seller absoluto para um país em que a maioria da população era analfabeta.

Urupês reúne dois artigos (o velha Praga e o próprio Urupês, no qual descreve o caboclo, criando a figura eterna do Jeca-tatu), contos trágicos (Lobato chegou a pensar em nomear a obra como Dez mortes trágicas) e humorísticos. A riqueza de abordagens mostra o quanto o escritor era versátil.

Todos os contos têm a característica de “causos” do interior, como se Lobato os tivesse ouvido diretamente dos caboclos e apenas transpassado para as páginas.

“O engraçado arrependido” é a história de um rapaz que não faz nada da vida a não ser contar pilhérias: “Como fosse de natural engraçado, vivera até ali à custa da veia cômica, e com ela amanhara casa, vestuário e o mais. Sua moeda corrente eram micagens, pilhérias, anedota de inglês, tudo que bole com os músculos faciais do animal que ri”.

Usando o dom da graça, Pontes consegue pendurar as contas, consegue que alguém lhe pague as dívidas. Chega num ponto, só de ouvir seu nome “acendia-se logo o estopim das fundegadelas”.

Mas pontes cansa dessa vida. Tenta endireitar-se, arranjar emprego. Todos acreditam que se trata de mais um de suas insuperáveis pilhérias. Suas tentativas de arranjar um emprego são recebidas com gargalhadas e comentários sobre como ele não se emendava, o que faz com que o humor se torne tragédia. Mas até a tragédia se torna motivo de riso.

“Colcha de retalhos” é, provavelmente, o melhor conto numa antologia que não tem ponto baixo.  Na história, um fazendeiro procura um sitiante para propor-lhe um trabalho. O tal sitiante viera da cidade e se embrutecera: “A vida lhes correu áspera na luta contra as terra ensapezadas e secas, que encurtam a renda por mais que dê de si o homem. Foram rareando as idas à cidade e ao cabo de todo se suprimiram. Depois que lhes nasceu a menina, rebento floral em anos outoniços, e que a geada queimou o café novo, o velho, amuado, nunca espichou o nariz fora do sítio”.

O velho recusa a oferta de emprego, mas a visita vale por conhecer-lhe a sogra, uma senhora simpática, que costura uma colcha de retalhos com pedaços dos vestidos da neta descartados. A ideia é que essa colcha seja o presente de casamento para a menina.

O conto une a descrição bucólica da natureza que tanto caracterizou o melhor da proza de Lobato com expressões caipiras e diálogos vivos de frescor natural, que antecipavam o modernismo: “Mecê é gabola porque nunca padeceu doença – nem dor de dente! Mas eu? Pobre de mim! Só admiro ainda estar fora da cova”. É também um tremendo drama humano simbolizado pela colcha de retalhos.

“A vingança da peroba” mistura humor e drama. Conta a história de dois vizinhos, Os Porunga, gente sensata e trabalhadora e os Nunes, cujo patriarca, decaíra em razão de muita cachaça na cabeça. Numa casa cheia de mulheres, tivera um único filho, Pernambi, um garoto de sete anos que desde cedo fora ensinado a beber cachaça e a andar com faca de ponta na cintura: “Homem que não bebe, não pita, não tem faca de ponta, não é homem!”.

O drama se estabelece quando Nunes resolve derrubar uma peroba que dividia o terreno com os Porunga (e, portanto, pertencia aos dois) para fazer um monjolo. O resultado, claro, é trágico.

Capa da primeira edição. 


“O mata pau” é outro conto que resume bem as características da melhores histórias lobatianas. A história inicia com o narrador cavalgando ao lado do capataz quando se depara com algo que chama sua atenção: “Que raio de árvore é essa?”. “Não vê que é um mata-pau?”, esclarece o outro. O mata-pau é uma plantinha de nada, que surge nos galhos das árvores e parece um cipó. A arvore não dá pela coisa. “Só quando o malvado ganha alento e garra de engrossar, é que a árvore sente a dor dos apertos na casca. Mas é tarde. O poderoso daí em diante é o mata-pau. A árvore morre e deixa dentro dele a lenha podre”.

O episódio torna-se um símbolo para o causo contado pelo capataz, sobre Estevão Queixo d´Anta. Quando chegou a idade, Estevão quis casar. “Passarinho cria pena é para voar. Se você já é homem, case”, respondeu o velho pai, em sua sabedoria. A moça pretendida era uma feiosa menina de 13 anos, da família dos Poca. “Case. Mas ouça o que eu digo. Os Poca não são boa gente. Os machos ainda servem, mas as saias não valem nada. Laranjeira azeda não dá laranja lima”.

Estevão teima, casa e monta fazenda. Uma noite, uma criança aparece em seu quintal, chorando. Pergunta daqui, pergunta dali, ninguém sabe quem são os pais. Assim, Estevão resolve adotá-la. O resultado já estava ali entrevisto, na história inicial. “Não é só no mato que há mata-paus!”, conclui o narrador, ao que o capataz retruca, o olho parado, pensativo: “Não é por gabar, mas vosmecê disse aí uma palavra que merece escrita. É tal e qual...”.

Esse tipo de narrativa, refletindo diretamente o imaginário e o jeito de falar das pessoas do interior era algo totalmente revolucionário para a época. Mais revolucionário ainda é o texto que fecha o volume e dá nome ao livro.

Urupês é a desconstrução da imagem idealizada do caboclo feita pelos escritores românticos: “O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de caboclismo. O cocar de penas passou a chapéu de palha; a ocara virou rancho de sapé; o tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxada”. Nessa imagem de quem nunca havia se entranhado no interior, o caboclo era uma figura altiva, orgulhosa, indomável, de virilidade heroica.

Lobato, que morou anos no interior e teve fazenda, sabia que a imagem não combinava com o Jeca-tatu, pobre coitado que passa seus dias acocorado, totalmente impassível às mudanças no mundo. “Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade”, escreve Lobato.

Sua casa de sapé e lama faz rir aos bichos construtores. De mobília só tem um banco de três pernas – para os hóspedes. Três pernas permite o equilíbrio, inútil portanto, colocar uma quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão.

Sacerdote da grande lei do menor esforço, o Jeca, ao ver uma parede caindo, coloca nela uma imagem de Nossa senhora. “Por que não remenda essa parede, homem de Deus?” “Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?” “Mas, criatura, a madeira está à mão, o cipó é tanto” “Não paga a pena”.

Posteriormente, Lobato reveria sua imagem do Jeca, ao perceber que sua inação era fruto de vermes e da insegurança de saber que no dia seguinte poderia ser expulso da terra. Mas, se lermos o texto em conjunto com os contos, percebemos que, já ali, nesse livro clássico, o escritor já revelava um grande carinho e respeito pelo caboclo e suas histórias.  

Hulk contra os Vingadores

 


Um dos grandes momentos da revista O imortal Hulk, com roteiro de Al Ewing, foi o confronto do golias esmeralda com os Vingadores.

Essa mini-saga inicia no número 6 da revista com órgãos do governo tentando descobrir onde o Hulk se encontra. Já aqui percebemos as situações bizarras criadas por Ewing, em um estilo que lembra o cineasta David Cronemberg: as pessoas que monitoram os amigos do Hulk são mantidas de cabeça para baixo, com implantes que enviam imagens diretamente para seus olhos. 

Lee Garbett é competente, mas seu traço nem se compara com o de Joe Bennett. 


Ao final da história, Bruce Banner está pedindo carona na estrada quando se depara com a Capitã Marvel: “O Hulk ajudou a salvar o mundo muitas vezes, Bruce. Você ganhou muitos créditos. Mas... era um conjunto diferente de Vingadores e, pra ser sincera... seus créditos acabaram”... e vemos uma imagem dos Vingadores se aproximando ameaçadoramente. 

Essa primeira HQ é desenhada por Lee Garbett, que nem de longe tem a força e o impacto do traço de Joe Bennett. Só quando este assume o desenho, em The imortal Hulk 7, que a coisa engrena.

Com Joe Bennett a história explode em ação. 


A edição já começa matadora: um menino está brincando com bonecos da Capitã Marvel e do Homem de ferro quando o pai o pega nos braços e sai correndo: “Alerta verde significa deixa tudo para trás e corre, querida. A gente já demorou demais!”, diz ele... e na sequência a casa é destruída por um carro jogado contra o Motoqueiro Fantasma.

O Hulk está mais poderoso e violento que nunca.

O Homem de Ferro é quase morto, Thor tem o crânio partido: “Estou sugerindo, Capitão... que, em sua fúria, em sua dor, à sombra de seu armagedom... seu mundo mortal pode ter parido algo próximo de um deus... ou talvez um demônio!”, murmura ele.

Hulk está mais poderoso do que nunca. 


A luta se estende por páginas, numa sequência impressionante de ação.

Como medida extrema, o grupo usa o laser Helios, um raio de luz solar superconcentrado que destrói tudo ao redor.

A edição termina com uma splash page igualmente impressionante do Hulk dividido em partes guardadas em potes, numa prateleira de algum órgão secreto do governo norte-americano.

Essa imagem é um divisor de águas. Ela deixa claro que a série iria levar o personagem além de qualquer limite.

A arte cativante de Don Rosa

 


Don Rosa é um quadrinista norte-americano nascido em 1951. Durante o período em que cursava engenharia, ele colaborou com diversas publicações universitárias, chegando a ser considerado um dos cinco melhores cartunistas de jornais universitários dos EUA.

Embora fizesse charges políticas a pedido dos editores, ele queria mesmo era fazer tiras de aventuras a exemplo das produzidas por Carl Barks para os patos Disney que ele lia quando criança.

Sua primeira publicação seriada foi a tira Lancelot Pertwillaby, publicada em um jornal universitário. Embora a tira tenha começado como humorística, ela logo mudou seu foco para a aventura incluindo uma HQ que era uma homenagem à história Perdidos nos Andes, de Carl Barks.

Em 1986, Don Rosa descobriu que a editora Gladstone Comics estava publicando quadrinhos Disney. Ele ligou para o editor e disse que era o único americano que tinha nascido para escrever e desenhar uma história do Tio Patinhas. O editor concordou em deixar que ele enviasse uma HQ. Essa história, chamada O filho do sol, foi um sucesso imediato entre os leitores e chegou a ganhar o prêmio Harvey de Melhor história do ano.

Isso deu início à longa colaboração de Rosa com a Gladstone. Essa parceria terminou porque a editora se recusava a devolver os originais para o artista. Rosa começou então a colaborar com a editora Egmont, situada na Dinamarca, que tinha o mérito de devolver os originais aos autores.

Don Rosa é considerado pelos fãs o verdadeiro herdeiro de Carl Barks.










A capa de Mazagão

 


Quando soube que eu ia lançar um livro sobre Mazagão, cidade da região metropolitana de Macapá que foi transportada de Marrocos para cá, o amazonense Romahs se ofereceu para fazer a capa.

Romahs é um amigo de longa data. Embora tenhamos nos encontrado pessoalmente apenas umas duas ou três vezes, conversamos quase diariamente a respeito de temas que vão desde quadrinhos à cultura amazônica, passando por política, literatura e temas da atualidade.

E a capa que ele fez foi um verdadeiro presente. Uma obra instigante repleta de detalhes, com destaque para os dois cavaleiros, o mouro e o cristão, se digladiando em destaque. Mas se olharmos em minúcias, há referências a praticamente todos os contos do livro. A imagem é um verdadeiro quebra-cabeças visual – podemos olhar várias vezes e sempre vamos encontrar algo.

Para comprar o livro escreva para profivancarlo@gmail.com. O valor é 30 reais mais 9 reais de frete. 

Crise final

 


O capítulo final de Crise nas Infinitas Terras é centrado no combate definitivo com o Antimonitor, mas, curiosamente, a história inicia com foco em um grupo que não está no palco dos acontecimentos. Um grupo de heróis menores da DC, como Homem-animal (na época pouco conhecido), Cavaleiro Atômico e Capitão Cometa encontram a nave de Brainiac em uma belíssima splah page. Uma imagem que mostra como George Perez conseguia dar grandiosidade até mesmo para personagens pouco conhecidos. Essa sequência, aparentemente aleatória, terá importância fundamental no final, o que mostra que o roteirista Marv Wolfman tinha controle completo da trama.

George Perez consegue dar grandiosidade até para heróis pouco conhecidos. 


Enquanto isso, a terra transportada para a zona negativa, está sendo invadida pelos demônios sombrios do Antimonitor. O texto dessa sequência é uma mostra de como Wolfman, além de um bom argumentista, era também bom com as palavras: “Os desafiadores do desconhecido passaram por horrores que aterrorizariam a mais corajosa das almas... mas mesmo eles são tomados por um medo avassalador ao contemplar a fria face da própria morte. E o que eles veem refletido em seus olhos ardentes... não é nada menos que o fim de tudo!”.  

O texto de Wolfman se destaca. 


A história é grandiosa, com heróis menos poderosos enfrentando os demônios e os pesos pesados se digladiando com o próprio Antimonitor.

Esse, aliás, é o truque usado por Wolfman para colocar a casa em ordem: os personagens que deveriam desaparecer da continuidade DC morriam nesses confrontos. O destaque é para o super-homem da terra 2 e o Superboy, que ficam na zona negativa para enfrentar o vilão.

Os peso pesados enfrentam o Antimonitor 


O roteiro seguia uma determinação editorial: para tornar o super-homem mais relevante, era necessário que ele fosse único. Mas Wolfman consegue fazer isso de forma coerente e verossímil. Mais do que isso: com grandiosidade.

O roteirista constrói a trama num crescendo contínuo, que aumenta o suspense: quando o Antimonitor parece morto, ele retorna ainda mais perigoso.

O confronto final com o vilão é grandioso. 


A cena em que o Super-homem  da terra 2 enfrenta o vilão, agora transformado em uma esfera flamejante, é um dos grandes momentos da série.

No final, Crise que prometeu mudar tudo no universo da DC mudou realmente tudo, ao contrário de Guerras Secretas, cuja única consequência de destaque foi o uniforme preto do Homem-Aranha.

terça-feira, junho 30, 2026

Hell´s angels, de Hunter Thompson

 


Em 1965 a cidade de Monterey, nos EUA, foi tomada por centenas de motoqueiros cabeludos, a maioria deles pertencente à gangue Hell´s Angels. A razão da reunião era reunir fundos para mandar para a casa da mãe o corpo de um amigo atropelado por um caminhão. O encontrou teve um tom solene que ganhou o respeito até mesmo da polícia da cidade. Os motoqueiros haviam sido recebidos com certa hospitalidade, mas essa seria a última vez em que isso aconteceria. Em 24 horas a gangue estaria no meio de uma denúncia de estupro que provocaria uma verdadeira paranóia. Em seis meses, todas as pequenas cidades norte-americanas estariam armadas até os dentes esperando a invasão dos motoqueiros.
A situação que chocou o país foi o estupro de duas garotas, de 14 e 15 anos, uma delas grávida. De acordo com os jornais, elas foram arrancadas dos braços de seus namorados e levadas para as dunas, onde seriam violentadas diversas vezes. O senador Fred Farr exigiu uma investigação e o procurador-geral Thomas C. Lynch produziu um relatório a partir de um questionário enviado a mais de 100 delegacias. A procura por esse relatório foi tão grande que tiveram que imprimir uma segunda tiragem.  O jornal New York Times produziu um extenso e tempestuoso comentário sobre o relatório. A Time trouxe na capa: “Os mais selvagens”. A Newsweek contra-atacou com a capa “Os selvagens”.
A maioria da imprensa simplesmente pulou as primeiras partes do relatório, em que se diziam que os motoqueiros acusados do estupro foram soltos por falta de provas e se concentraram nos aspectos mais sensacionalistas. Quase todos se limitaram a repassar as informações fornecidas pelas fontes oficiais e ninguém se preocupou em ouvir a versão dos motoqueiros. A revista Time chegou a inventar um caso para dramatizar a notícia.
A missão de entender o outro lado da história coube ao jornalista Hunter Thompson, que ficaria famoso ao criar o gonzo jornalismo. Hell´s angels não é uma reportagem gonzo, mas é um belo ensaio para o que viria a ser o gonzo, inclusive com um dos elementos importantes dessa variação jornalística: para cobrir o assunto, Thompson passou um ano convivendo com os motoqueiros e chegou até a comprar uma moto (como resultado acumulou uma grande quantidade de multas e foi expulso de sua casa).
A crítica à maneira como a imprensa cobriu o caso é um dos melhores momentos do livro e serviu de base para a prática posterior de Thompson, na qual ele colocou a ideia de objetividade jornalística de cabeça para baixo.
Já no primeiro capítulo, o autor pergunta-se o que as meninas faziam numa praia deserta lotada de motoqueiros e descobre que as garotas haviam passado a tarde no bar, conversando e bebendo com os motoqueiros e depois ido para a praia com eles. “Droga, aquelas garotas não foram para lá cantar uma música”, disse um dos Hells. “Elas estavam afim de agito e queriam uma sacanagenzinha, mas o problema foi que era muitos caras. No começo estava legal para elas. Depois foram chegando cada vez mais caras, se empilhando sobre as dunas”. Nesse ponto, as garotas devem ter se arrependido da aventura, mas era tarde demais.
A versão de que garotas inocentes haviam sido arrancadas dos braços de seus namorados e violentadas por bárbaros selvagens logo desmoronou.
Ao mostrar o outro lado da história, Thompson não pretendeu pintar os motoqueiros como santos. Ao contrário: os Hells Angels são vistos como foras da lei violentos, ressentidos com a sociedade: “Em um mundo cada vez mais adaptado aos especialistas, técnicos e máquinas fantásticas e complicadas, os Hell´s Angels são perdedores óbvios e isso os chateia”.
Um dos princípios básicos da gangue, inscrito no estatuto do clube, é a crença na retaliação total: “Quando pedem para você não voltar mais a um bar, você não apenas bate no dono – você volta com o seu exército e destrói o lugar, quebra a casa inteira e tudo que ela representa. Sem acordo. Se um homem se meter com você, quebre a cara dele. Se uma mulher não quiser nada com você, estupre-a”. O próprio Thompson sentiu esse princípio na prática ao levar uma surra de um grupo de motoqueiros.
Rejeitados pela sociedade e sem ter nada a mais além do companheirismo, os Hell´s Angels se agarram a isso: “A maioria dos outros são fora da lei em meio período, ao passo que os Angels cumprem o papel sete dias por semana: usam o emblema em casa, na rua, e às vezes até no trabalho. Eles vão de moto comprar um litro de leite no mercadinho do bairro. Um Angel sem o seu emblema se sente nu e vulnerável, como um cavaleiro sem armadura”.
Esse tudo ou nada se refletia até mesmo no uniforme usado por eles, pensado para criar o máximo de perigo numa atividade que, por si só, já é perigosa (dirigir motos grandes). Segundo Thompson, os Angels arriscavam a sorte até o limite: não usavam capacete, jaquetas ou calças de couro (que protegem no caso de um tombo). Eles chegavam a usar jaquetas sem manga, para aumentar o perigo: “Os Angels não querem que ninguém pense que eles estão diminuindo os riscos”.  
A chegada do bando de motoqueiros coloca em pânico os postos de gasolina e, na maioria das vezes, é mais barato fazer vista grossa e deixá-los roubar um litro de óleo do que se arriscar a ver o local destruído.
Mas o grupo também sentia um prazer perverso em ser amigável. O dono de um posto de gasolina entrevistado por Thompson lembra de uma vez em que um grupo pediu para usar o local para consertar umas motos. Amedrontado, ele disse que ficassem à vontade e saiu do lugar o mais rápido que podia. Depois de uma hora, finalmente criou coragem para voltar e descobrir se o local ainda estava de pé. Ficou estarrecido ao descobrir que o local estava impecável, mais limpo que antes. Os motoqueiros haviam chegado ao ponto de varrer o chão e limpar as ferramentas.
Esses dois lados dos Hell´s Angels só poderiam ser percebidos por alguém que convivesse com eles. A total honestidade de Hunter Thompson, ao revelar seu método de investigação, e ao mostrar até mesmo suas limitações e dificuldades (inclusive os vexames) abriram caminho para o gonzo jornalismo e para uma crítica devastadora do fazer jornalístico. Um conselho: se você gosta de reportagens e não tem preconceitos, leia Hell´s Angels e depois Medo e delírio em Las Vegas. Na sequência.

Roteiro para quadrinhos: a ambientação

 

Um aspecto importante na construção do roteiro é a ambientação. É necessário imaginar onde o personagem  vive, com quem ele se relaciona, como ganha a vida, etc...A ambientação vai acabar, inclusive, influenciando no modo de pensar e agir dos personagens.  Pessoas que vivem num ambiente árido acabarão tendo um comportamento árido (os tuaregs que o digam). Isso é muito claro, por exemplo, na série de álbuns Aldebaran: os personagens vivem num mundo quase completamente dominado pela água. Quando vão para um mundo desértico, tudo muda, inclusive os aspectos culturais. 
                Uma de minhas histórias chamada Vácuo mostra um tripulante de uma estação espacial que se revolta e acaba explodindo todo o local. A claustrofobia provocada  pelos eternos corredores, pelos ambientes fechados, fizeram com que ele "pirasse". Essa mesma ambientação poderia ter o efeito oposto em outro indivíduo. Sentido-se confortável e seguro dentro de um ambiente fechado, ele poderia se sentir um agorafóbico.

                Um exemplo mais famoso: o Batman de Cavaleiro das Trevas é violento porque a Gothan City criada por Frank Miller é violenta.
                Também é importante saber o máximo possível sobre o local em que se vai passar a história. Antes de começar a escrever o tenente Blueberry, Charlier viajou para os EUA e visitou toda a região em que se passaria a HQ. Se você for escrever uma história sobre o Egito e não tiver dinheiro para a passagem, a melhor alternativa é entocar-se na biblioteca e ler tudo o possível sobre os hábitos, costumes e acidentes geográficos da região. Alan Moore conta que, antes de começar a escrever Monstro do Pântano, leu tanto sobre a Flórida que acabou descobrindo algumas coisas curiosas: "Eu sei, por exemplo, que os crocodilos comem pedras pensando que são tartarugas e depois não conseguem digeri-las e essa deve ser a razão pela qual eles têm um temperamento tão irascível", diz.

                Criar uma história que se passe no futuro, num planeta longínquo, ou em um planeta atualmente desconhecido pode livrar você da visita à biblioteca, mas certamente não vai facilitar as coisas para sua imaginação. É necessário, nesses casos, imaginar todos os aspectos dessa sociedade: quem governa, se é que há governo, como as pessoas vivem, quais são os seus costumes, como elas se alimentam...
                Um exemplo fantástico de criação de ambiente é o álbum A Fonte de Cyann, de Bourgeon e Lacroix. Os autores criaram não só uma história para o planeta em que se passa a HQ como, ainda, se preocuparam com detalhes mínimos. Tipo: o lugar da letra O no nome da pessoa determina a classe social.
                Em Cian, quando pessoas importantes morrem, seus corpos são envoltos em barro e jogados no mar. Quanto mais pessoas se unem para impedir a parte final do ato funerário, mais querido era o defunto. Detalhe: a língua falada pelos personagens, embora muito semelhante ao francês, tem suas próprias regras. Para desespero dos tradutores!
                Portanto, se você quiser escrever boas histórias de Ficção científica, ou de fantasia, comece a ler desde já livros de antropologia...

A corrida das vacinas

 


Dividido em cinco partes, A corrida das vacinas é um documentário da Globo Play disponível inclusive para não-assinantes. É uma obra fundamental para entender os tempos nos quais estamos vivendo.

A narrativa é focada em mostrar como ocorreu o processo de elaboração das vacinas contra covid, como cada uma funciona, e como foi possível fazer vacinas seguras em tão pouco tempo – e como esse incremento de tecnologia vai ajudar no futuro a desenvolver vacinas para outras doenças com um tempo muito menor do que antigamente.

A equipe do documentário acompanha uma enfermeira que participou dos testes da coronavac, uma senhora de 95 que ficou isolada todo o tempo antes de se vacinar, vai até a Rússia, a Inglaterra e a Índia, visitando laboratórios onde são produzidas as vacinas que estão sendo aplicadas no Brasil ou que estão sendo compradas para aplicação.

Há também entrevistas com especialistas que explicam, de maneira muito didática, a doença e a ação das vacinas.

E, como não poderia deixar de ser, mostra também todo o ambiente que permeou a pandemia. Entre os momentos mais bizarros, um protesto em São Paulo, em dezembro do ano passado, contra as vacinas, o uso de máscaras e tentando convecer os idosos a participarem de comemorações de Natal.

A corrida das vacinas é um documentário dinâmico e didático, que explora bem os temas sem cair na chatice de outros documentários.

Defensores – Indefensáveis

 


Keith Giffen, J. M. De Matteis e Kevin Maguire ficaram famosos por sua versão humorística da Liga da Justiça – conhecida entre nós como Liguinha.

Em 2005 essa turma foi contratada pela Marvel para fazer sua versão do grupo mais disfuncional da editora: os Defensores. Se o estilo humorístico do trio funcionava na Liga, funciona melhor ainda aqui, pois quem realmente levaria a sério um grupo formado pelo Dr. Estranho, Namor, Hulk e Surfista Prateado?

Maguire é um especialista em expressões faciais. 


Na história, Dormammu se uniu a sua irmã Umar com o objetivo de conquistar e reformular nossa dimensão – e aparentemente só os Defensores podem lidar com esse problema místico.

A história já começa fora da curva, quando Pesadelo encorpora em Wong para dar o aviso da invasão – e aqui temos diversos closes e muitos, muitos diálogos afinadíssimos, com destaque para o talento incrível de Maguire para expressões faciais. A forma grandiloquente com que o mestre das artes místicas fala é objeto de muitas piadas, assim como sua relação com Wong de criado e amo, que na década de 1960 era normal e hoje parece estranha. “Vamos por você num espelho. Quanto antes remover você de Wong melhor”; “Wong. Este é o nome ou sobrenome dele? Você não sabe... né?”; “O espelho”.

O Surfista Prateado tenta se enturmar com... surfistas. 


Uma das grandes sacadas da minissérie diz respeito ao Surfista Prateado. Afinal, até então ninguém tinha tido a ideia de fazê-lo se enturmar com surfistas, o que parece óbvio. Só que surfistas não são conhecidos pela eloquência, ao contrário do herói prateado, o que gera momentos memoráveis. À certa altura, por exemplo, ele diz: “O que é a felicidade? Será apenas a satisfação de nossas necessidades animais... ou algo mais profundo? Algo intangível... que mobiliza nossas almas?”. “Você devia falar com uma das minas. Elas se ligam nessa de poesa e tal”. “Se está se referindo às mulheres, sim, eu falarei com uma delas... e talvez possamos penetrar no grande mistério”, ao que uma das garotas responde: “Então... tipo... tá afim de ficar comigo?”.

Umar resolve tomar o Hulk como seu amante. 


Umar, a irmã arrogante e hiper-sexualizada de Dormammu, é a grande atração da série – e provavelmente ela nunca foi tão bem representada, inclusive em termos de desenho. Aliás, a sequência dela com o Hulk (ela resolve pegar o gigante esmeralda como amante) é uma das mais memoráveis de todos os tempos.

Mas para além das boas sacadas, das piadas, dos diálogos afinados, Indefensáveis é uma grande história em quadrinhos que sabe ser humorística nos momentos certos e tensa nos momentos certos. Chega num ponto que se transforma numa grande história em quadrinhos, com um perigo realmente impressionante.

Para além das piadas, a série mostra uma história com uma ameaça real. 


Lançada em cinco partes nos EUA, essa série foi reunida aqui pela salvat no volume 23 da série Os heróis mais poderosos da Marvel.