domingo, julho 26, 2026

Quarteto Fantástico – O impiedoso Mestre dos bonecos

 

 

Uma das características que faziam do título do Quarteto Fantástico algo completamente diferente do que se fazia à época era o triângulo amoroso Senhor Fantástico – Mulher Invisível – Namor.

Esse triângulo é o mote do número 14 da publicação. Os heróis tinham acabado de voltar da Lua e se tornam ainda mais celebridades, mas a cabeça de Sue parece estar no fundo oceano, tanto que ela coloca um tal de olhoscópio para percorrer o fundo dos mares em busca do Príncipe Submarino. O detalhe é que o aparelho foi criado por Reed Richards. “Embora o mundo me conheça como o Senhor Fantástico, não sou capaz de atingir meu objetivo mais estimado! Sou completamente incapaz de conquistar o coração da mulher que amo”, diz ele, provavelmente o guampudo mais famoso dos quadrinhos.

Todas as mulheres estão apaixonadas pelo Senhor Fantástico... 


Nessa edição, Stan Lee e Jack Kirby pareciam estar carentes de ideias, tanto que resolvem trazer de volta um vilão que havia aparecido no número 5 da revista, o Mestre dos Bonecos. O personagem já não era grande coisa lá naquela primeira revista, mas aqui é totalmente inútil, pois resolve controlar Namor e colocá-lo em rota de colisão com o Quarteto, como se o príncipe dos mares precisasse de alguma desculpa para isso.

A única diferença é que o Mestre dos Bonecos faz com que ele coloque a vida de Sue em perigo.

... mas Sue parece estar apaixonada por Namor. 


Kirby e Lee pareciam também não estar muito afinados. À certa altura o Coisa vai atrás de Alícia se desperdir, mas ela insiste em ir junto, por mais que isso pareça sem sentido. Ele estaciona sua versão do fantasticarro em um estacionamento público e quando volta, descobre que o veículo está trancado por vários outros. Ele resolve a situação colococando vários carros um em cima do outro. Mas, vejam bem, ele chegou voando. Não poderia ter ido embora também voando, como aliás ele faz? A sequência não faz o menor sentido.

Tudo bem que o Coisa é turrão, mas empilhar vários carros para tirar um carro voador?


Outra sequência sem sentido é quando o Coisa joga um polvo e ele acerta o submarino do Mestre dos Bonecos. O vilão argumenta que não teria tempo de desviar do monstro gigante e resolve... fazer um boneco do polvo para controlá-lo! O tempo que ele levaria para fazer o boneco daria tempo para ele desviar até de um cardume. Um vilão ridículo deveria ter mesmo um final ridículo.  


Antes que a revista acabasse, temos uma daquelas cenas memoráveis com os heróis se lançando contra Namor e a Mulher Invisível se colocando entre eles para defender seu amado. Reed Richards era um cara muito paciente e apaixonado.

Monsieur Verdoux e o sonho com Chaplin

 


No início da década de 1990 eu e alguns amigos fomos conhecer uma cidade da ilha do marajó chamada Joanes. Inadvertidamente, acabamos montando a barraca na praça da cidade - só percebemos isso quando anoiteceu e a população local apareceu para passear no local. No dia seguinte mudamos a barraca para um outro local, na beira da praia. Mas naquela noite cada um de nós teve algum tipo de epifania. 

Eu sonhei com Charles Chaplin. Sonhei que tínhamos uma longa conversa e ele dizia que iria me apresentar aquele que ele considerava o seu melhor filme. E assistimos juntos Monsieur Verdoux. 

Naquela época não existia internet e vídeo cassete era um acessório de luxo, de modo que eu só assistia o que passava na TV e, pelo que eu me lembrava, esse filme nunca tinha passado na TV, de modo que era inédito para mim.

Alguns anos depois a Globo apresentou um especial Charles Chaplin e pude finalmente assistir Monsieur Verdoux. E era o mesmo filme que eu tinha visto em meu sonho. 

Talvez a explicação tivesse a ver com o inconsciente coletivo. Ou talvez eu tivesse assistido o filme há tanto tempo que não me lembrasse, o que não faz muito sentido, pois uma criança dificilmente se sentiria atraída por esse filme sobre um homem que engana e mata mulheres. 

Qualquer que seja a explicação, o fato é que concordo com o Chaplin do meu sonho: esse é um dos melhores, senão o melhor filme dele.

Cabanagem: A miserável revolução das classes infames

 


A Cabanagem foi a mais sangrenta guerra civil da América Latina. Foram 35 mil mortos, 30% da população da região amazônica. Entretanto, é uma das menos conhecidas revoltas do período regencial. Uma ótima obra para os interessados no assunto é A miserável revolução das classes infames, de Décio Freitas (editora Record).
Décio conta que o livro é baseado em cartas que lhe foram entregues por um amigo espanhol. Escritas meio em francês, meio em bretão, eram redigidas por um revolucionário francês que participara da revolta paraense.
Já nos finais da revolução francesa, muitos indíviduos do grupo que perdia o poder, ao invés de serem guilhotinados, eram simplesmente enviados para a Guiana francesa. Era a “guilhotina seca”.
Quando Napoleão chegou ao poder, continuou a prática e quando este foi derrotado, seus inimigos fizeram o mesmo. Dessa forma, na Guiana Francesa podia-se encontrar desde jacobinos veteranos da revolução francesa a pessoas perseguidas por Napoleão.
Entre os revolucionários enviados para a Guiana está Jean-Jacques Berthier, expulso da França com apenas 14 anos. E este é o autor das cartas que servem de base para o livro. Assim, os principais fatos do conflito amazônico são esmiuçados do ponto de vista desse personagem. As cartas, no entanto, parecem ser só uma estratégia de verossimilhança. Da mesma forma que Umberto Eco inventou que O nome da Rosa não era um romance, mas a tradução de um texto real da Idade Média, Décio aparentemente  inventa que seu livro é resultado das cartas recebidas de um amigo e traduzidas a grande custo do bretão.
Mas se o personagem é fictício, os fatos históricos narrados no livro são reais. O autor pesquisou a fundo o período e lança uma nova luz sobre a revolta.
A começar por algo que fica claro durante toda o obra: a cabanagem foi a nossa revolução francesa. A relação é, de fato, direta.
Quando Napoleão invade Portugual, D. João e a corte portuguesa são obrigados a fugir para o Rio de Janeiro. Mas, em retaliação, D. João manda invadir a Guiana Francesa com o apoio dos ingleses.
A conquista é fácil, mas vai ter grandes consequências. Na época, a colônia francesa estava repleta de revolucionários jacobinos. Como eram inimigos de Napoleão, os portugueses são tolerantes com eles e alguns até são levados a Belém para ajudar na construção de um palacete para o governador. Outros vão por conta própria.
Além disso, os soldados brasileiros que participaram do conflito têm contato direto com as ideias dos revolucionários. Em pouco tempo, Belém não só estava cheia de jacobinos, mas também de soldados brasileiros com ideias revolucionárias.
Décio faz uma descrição ampla de Belém e das condições sociais do Pará à época.
O Pará era dominado pelos portugueses e pelos mestiços de principais famílias. Aos negros restava a escravidão e aos índios, chamados tapuios, a miséria. Era comum, por exemplo o sequestro de meninais tapuias destinadas à lascívia dos endinheirados. São as “índias de corda”: seus captores furam suas orelhas pela qual passam uma corda que prende uma às outras. Se tentarem fugir, provocam dores atrozes nas outras.
O governador, corrupto, pensa em uma só coisa: enriquecer mesmo que à custa de saquear o povo local.
A língua mais falada não é o português, mas a língua geral, o Nheengatu, língua indígena baseada no tupi e criada pelos jesuítas. 
Um fato que antecipou e, de certa forma provocou a revolta da cabanagem, foi o massacre do Brigue Palhaço.
Quando o Brasil se tornou independente, o Pará não aderiu. Afinal, a capital paraense era mais próxima de Portugal do que do Rio e comércio era todo com a Europa.
D. Pedro manda um mercenário inglês, Lorde Greenfell, para providenciar a adesão do estado ao império brasileiro.
Greenfell faz um acordo com as principais famílias, que aceitavam aderir à independência em troca de manter o status quo.
A população pobre se revolta: esperava-se que a adesão do Brasil à independência mudasse alguma coisa na situação política e social do estado, mas continua tudo como estava.
A rebelião estoura: as pessoas saem às ruas saqueando os comércios dos portugueses. A repeensão, efetuada pelo mercenário é cruel e aleatória. Ele envia seus soldados, que recolhem todos que encontram na rua e, sem qualquer julgamento, os aprisiona no porão de um navio, o Brigue Palhaço.
Eram 256 pessoas aprisionadas em um espaço mínimo, num calor extremo, sem água ou comida. A ideia era matá-los de fome e sede, mas quando o gemido agonizante dos aprisionados começou a incomodar os soldados, Greenfell mandou dar tiros a esmo no porão. Não deu certo. Os gritos de agonia continuaram. A solução foi radical: jogar cal no porão, asfixiando os prisioneiros. De todos, apenas uma pessoa sobreviveu.
Essa tragédia marcaria para sempre a história do Pará e seria, anos mais tarde, o estopim para a revolta dos cabanos.
Compre o meu livro Cabanagem no site da editora: https://aveceditora.com.br/produto/cabanagem/

Demolidor – Nas mãos de Mercenário

 


O primeiro grande evento do título do Demolidor na fase Frank Miller foi o confronto com o Mercenário nos números 160 e 161.

Nessa fase o roteirista ainda era Roger Mackenzie, que parecia cada vez mais se adaptar ao estilo e aproveitar ao máximo as potencialidades narrativas de Miller.


O casal na rua era Peter Parker e Mary Jane, mas a Abril suprimiu a referência. 


A história começa com uma sequência eletrizante com a Viúva Negra entrando em seu apartamento e dando de cara com o Mercenário, que pretende usá-la como isca para se vingar do homem sem medo. A espião se revela uma adversária formidável, mas é difícil lutar contra alguém que pode usar qualquer coisa como arma.

Essa sequência inicial é uma demonstração perfeita de como Miller era um narrador visual revolucionário. Ele brinca com a diagramação, fazendo quadros que esticam por todo o sentido vertical ou horizontal da página. E usa isso como elemento para dinamizar a ação. À certa altura, por exemplo, o mercenário derruba um candelabro sobre a heroína e o quadro esticado amplia a impressão de algo caindo.

Miller esqueceu de tirar as luvas do herói. 


A história tem direito até a referências a outras séries da Marvel. Num dos quadros, por exemplo, Matt Murdock vê um casal na rua e pensa: “Como eu gostaria que Heather e eu fôssemos um casal como esse. Não parecem ter nenhuma preocupação na vida”. O casal sorridente, que passa lá embaixo é composto por ninguém menos que Peter Parker e Mary Jane Watson, o que torna a cena irônica, já que o Homem-Aranha é conhecido exatamente por seus problemas pessoais. Em tempo: quando a Abril publicou essa história em superaventuras Marvel, a editora simplesmente cortou a referência.

Há também um erro narrativo, um descuido, provavelmente de Miller. Quando entra no apartamento da Viúva Negra e descobre que a ex-namorada foi sequestrada, o Demolidor percebe que o autor é o mercenário graças a uma foto de Natasha com os círculos concêntricos que caracterizam o Mercenário. Como é cego, ele usa o tato para visualizar a imagem. Mas na cena ele aparece usando... luvas!

A sequência do parque de diversões é simplesmente eletrizante. 


Tirando as referências e pequenos erros, a história se destaca mesmo é pela narrativa frenética, que encontra seu auge na sequência do parque de diversões, onde o mercenário prende a Viúva Negra. O cenário é ideal para os planos e ângulos inusitados nos quais Miller era um mestre.

Infelizmente, toda essa preparação tem um fim pífio, com o Mercenário tendo um surto e sendo facilmente derrotado, algo que foge completamente de tudo que havíamos visto sobre ele até então.

A gramática dos super-heróis

 



 Algo que tenho percebido em muitas pessoas que produzem quadrinhos de super-heróis no Brasil atualmente é um desconhecimento dos elementos que compõe um gibi de super-heróis.

Embora os super-heróis tenham surgido no final da década de 1930, foi na década de 1960 que caras como Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko, John Romita e Joh Buscema definiram a linguagem definitiva dos super-heróis. O jeito Marvel de fazer quadrinhos era tão inovador, tão poderoso, que a partir daí tudo que foi feito rezou pela cartilha Marvel (mesmo a antagonista DC Comics acabou depois acompanhando essa cartilha).
Assim, para fazer super-heróis é essencial ler clássicos como o Quarteto Fantástico de Lee e Kirby ou o Homem-aranha de Lee-Ditko-Romita. A linguagem está ali, em estado puro, pronta para ser estudada, aprendida e, se for o caso, revolucionada. Os caras que na década de 1980 revolucionaram o gênero, como Frank Miller e Alan Moore conheciam essa gramática dos super-heróis de cor e só conseguiram fazer algo inovador por causa desse conhecimento.
Então, vamos conhecer um pouco dessa "gramática".

Continuação 

A grande inovação da Marvel foi apresentar histórias em sequência, dentro de uma cronologia. Hoje praticamente todo mundo faz isso, mas na época era novidade. Na DC, por exemplo, era raro uma história que não concluísse dentro de um gibi.  Mas se a continuação pode ser interessante, pode também ser uma armadilha. Imagine o leitor que vai na banca, compra um gibi que não conhece e, ao lê-lo descobre que a história não termina ali, a história para no meio da ação, às vezes no meio de um diálogo. O que o leitor faz? Ele joga fora o gibi. A sequência pode ser interessante, mas para isso precisa ser bem trabalhada, precisa prender a atenção do leitor e levá-lo a comprar o próximo gibi.

A história termina em uma situação de suspense: gancho para o próximo gibi. 

Uma forma de fazer isso são os famosos ganchos: uma situação de suspense no final do gibi que deixa o leitor curioso para comprar o próximo número. Imagine: o herói está caído e alguém se aproxima para arrancar sua máscara. Sua identidade será descoberta? Compre o próximo gibi e descubra! Isso vicia o leitor. Outra forma é fazer uma mini-conclusão, como se cada gibi fosse um capítulo de um livro. Uma parte do conflito é resolvida no final daquele gibi, mas há algo maior, que o leitor só saberá como acaba lendo os próximos gibis.
O conflito foi resolvido. Mas a história terminou? Isso você só saberá no próximo gibi. 


Stan Lee e Jack Kirby nos seus melhores momentos experimentavam uma união dessas duas estratégias. Uma parte do conflito era resolvida, só para surgir um conflito ainda maior em seguida. Thor estava para ser derrotado por um inimigo invencível. Então surgia um ser poderoso e derrotava o vilão (o que fechava a trama daquele gibi). Mas aí o leitor descobria que o ser poderoso só havia feito isso porque ele mesmo queria ter a honra de matar o herói (e aí temos o gancho para o próximo gibi).

Muitas vezes o gancho desembocava no próximo gibi numa cena impressionante, numa... splash page!



Splash page ocupando a primeira página. 

Splash page

Lee e Kirby sabiam que os quadrinhos são uma mídia visual. Páginas e páginas de diálogos não são nada diante de uma imagem poderosa, de impacto, ação, especialmente para os leitores de super-heróis. Assim, colocar uma splash page no início de cada história era uma forma de agarrar o leitor, conquistá-lo já no começo. A primeira coisa a se dizer sobre  splash page é que ela deve ser uma cena de impacto e deve ser relevante para a história. Uma sequência de diálogo, por exemplo, não funciona como splash page (uma vez Kirby fez uma splash page de diálogo, mas eram dois deuses conversando algo grandioso, em um cenário grandioso, de modo que acabou valendo).

Splash page de página dupla, ocupando as páginas 2 e 3. 

Splash page deve concentrar toda a ação, mistério, suspense da história. Ela pode vir na primeira página. Ou na segunda, ou terceira página, sendo consequência direta do que veio antes. Um exemplo nesse sentido: o herói entra no esconderijo do vilão e a primeira página o mostra entrando. Na segunda ou terceira página ele está lá dentro e está sendo atacado por todos os lacaios do vilão numa imagem de tirar o fôlego!

Sequência de ação que desemboca numa splash page. 

Lembrando que a splash page, embora seja normalmente uma página inteira, pode também ocupar duas páginas, tendo ainda mais impacto. Em tempo: é na splash page que são colocados o título da história e os créditos.

Recapitulando


Nas histórias da Marvel a recapitulação sempre é integrada à história. 

Como as revistas da Marvel eram quase todas em continuação e nem sempre o leitor havia comprado o gibi anterior, Stan Lee inventou um estratagema para situá-lo. Era praticamente uma norma que nas primeiras páginas o roteirista situasse o leitor dentro da história. Para isso ele deveria, obrigatoriamente, com o texto, responder a três perguntas: Quem? Onde? O que está acontecendo? Alguns roteiristas chegavam até mesmo a colocar essas perguntas no texto, respondendo-as.


Esses são alguns elementos básicos. Para melhor entendê-los (e perceber outros elementos) vale a dica do início: ler os clássicos. Vale a pena comprar uma antologia de histórias clássicas da Marvel e aprender um pouco como essas histórias eram feitas.

Fundo do baú - Vovô viu a Uva

 


Vovô viu a uva (These Are the Days) foi uma das três tentativas da Hanna-Barbera de produzir programas “sérios” para o sábado de manhã (as outras foram Korg e Devlin, o motoqueiro) e, apesar de ter sido bem recebida pela crítica, foi um fracasso de audiência, tendo apenas uma temporada, com 16 episódios.

O programa foi criado de olho na popularidade da série Os Waltons, com histórias bucólicas e ingênuas situadas em um pequeno vilarejo na virada do século XIX para o século XX.

Assim, Vovô viu a uva se passa na pequena cidade de Elmsville e é focada na família Day constituída por uma jovem viúva, seus três filhos e o pai, dono da mercearia local. O avô, aliás, acaba se tornando o personagem principal, com suas invenções sempre muito criativas, como um chuveiro movido a um pedal de bicicleta.

As histórias giravam em torno da interação da família Day com os vizinhos, geralmente terminando com uma lição aprendida por todos.

No episódio A fonte hidromineral, ao tirar uma raíz de árvore, vovô descobre uma fonte de água quente capaz de curar pessoas com dores no corpo, o que pode transformar a fazenda em um negócio lucrativo. Um amigo do vovô, Hommer, ajuda no início, chegando inclusive a colocar anúncios nos jornais, mas o vovô se nega a torná-lo sócio da fonte baseando em um axioma que lhe foi dito pelo caixeiro viajante que comprou sua mercearia: “Sentimentos e negócios não se misturam”.

No final, dá tudo errado e quando vai tentar conseguir de volta a mercearia, o vovô descobre que o lema “Sentimentos e negócios não se misturam” afastou todos os fregueses do local.

A lição aprendida é que não se deve colocar o lucro acima das amizades.

Uma curiosidade é que o título nacional, Vovô viu a uva, é uma referência a uma frase usada no passado para ensinar crianças a lerem.  

sábado, julho 25, 2026

A origem do livro Cabanagem

 


A ideia para o livro Cabanagem surgiu de uma conversa com o amigo José Ricardo Smith.
Ele me apresentou algumas moedas feitas pelos cabanos (na verdade, moedas da regência “carimbadas” com novos dizeres) e comentou sobre o quanto essa revolta tinha se alastrado pela Amazônia. E no final perguntou: “Por que você não faz um livro sobre a cabanagem no Amapá?”.
Eu nunca tinha ouvido falar que a cabanagem tivesse chegado ao Amapá, mas ao pesquisar, acabei descobrindo que ela se alastrou pela Amazônia praticamente inteira. E os cabanos usavam para isso canoas, na maioria das vezes amarradas umas às outras, que impulsionadas por braços fortes de índios, negros e mestiços, atravessavam rápidas os igarapés da região.
Eu comprei livros, baixei teses, artigos, li muito sobre o assunto, mas a ideia de fazer um livro histórico não me agradava.
Eu queria fazer uma obra de fantasia histórica, um gênero em que o fantástico se mescla aos acontecimentos reais.
Jorge Luís Borges dizia que o estilo do escritor consiste, basicamente, na repetição de temas. Os temas preferidos de Borges eram espelhos, tigres, espadas e mensagens cifradas. A maioria de seus textos tem pelo menos um desses elementos, muitos têm todos.
O que Borges talvez tenha percebido é que, por alguma razão, as histórias só funcionam para escritores se tiverem aqueles elementos que fazem parte do seu estilo.
Assim, a trama de Cabanagem só se estabeleceu quando consegui descobrir uma maneira de colocar nela um psicopata. Meus dois outros livros, Galeão e O uivo da górgona, têm psicopatas assassinos.
A partir desse plot básico (um grupo de cabanos fugindo e sendo perseguidos por soldados chefiados por um psicopata assassino) a história se firmou. Também se tornou mais fácil incluir um outro elemento que me é muito caro: os mitos amazônicos. E se essas lendas tomassem partido de um lado ou do outro do conflito?
Assim surgiu o meu livro Cabanagem.

Ajuricaba e o uso dos quadrinhos na educação



No ano de 2024, o amigo Romahs me presenteou com um exemplar do álbum de quadrinhos Ajuricaba, escrito por Ademar Vieira, desenhado por Jucylande Júnior e arte-finalizado por Tieê Silva. Há obras que chegam até nós no momento exato. Eu estava justamente começando a direcionar meu interesse para a pesquisa de temas amazônicos, e a leitura de Ajuricaba revelou-se um verdadeiro divisor de águas.

Ali estava a Amazônia narrada com propriedade pelos próprios amazônidas, exibindo uma qualidade técnica e estética que não devia absolutamente nada aos grandes clássicos dos quadrinhos mundiais. Escrever um artigo analisando a obra sob a perspectiva decolonial e investigando sua aplicação no ambiente educacional foi um desdobramento natural e inevitável dessa experiência. O estudo foi finalmente publicado na revista Estação Científica.

Mais do que uma análise acadêmica, esse artigo é um convite para reconhecermos a força da nossa própria cultura. Ajuricaba prova que a ancestralidade e a resistência amazônica podem e devem ocupar o centro das atenções na nona arte. Para quem quiser aprofundar essa reflexão e conhecer como os quadrinhos podem transformar o ensino de história e cultura regional, o artigo completo já está disponível para leitura no site da revista EstaçãoCientífica



Indiana Jones e a relíquia do destino

 


Confesso que não tinha expectativa nenhuma com relação ao filme Indiana Jones e a relíquia do destino, quinto episódio da franquia. O reino do cristal tinha sido um filme tão decepcionante na sua loucura de cenas de ação com excesso de CGI e roteiro fraco que parecia que as histórias só poderiam ir ladeira abaixo. Entretanto, o diretor e roteirista James Mangold consegue construir um filme que resgata os melhores elementos de Indiana, num filme com muitos efeitos práticos, humor e personagens carismáticos como não víamos há tempos.

A trama começa no final da II Guerra Mundial. Nazistas estão roubando obras de arte e artefatos históricos, entre eles a lança que feriu Jesus enquanto ele estava na cruz, supostamente capaz de incríveis poderes. Indiana Jones e um colega de faculdade tentam impedi-los, mas logo descobrem que a tal lança é uma falsificação criada há pouco mais de 50 anos. Mas um cientista alemão tem uma solução melhor: um artefato criado por Arquimedes que permitiria viajar no tempo.

Essa primeira fase do filme é empolgante por unir muita ação com humor e Indiana passando por situações incrivelmente difíceis, como a cena em que ele é enforcado. O CGI usado para rejuvenescer Harrison Ford curiosamenete funciona de forma verossímil, ao contrário de outras produções que tentaram fazer o mesmo (alguém lembra do filme da Capitão Marvel?).

A trama pula para a década de 1960, quando os americanos chegaram à Lua com a ajuda de um cientista, que é ninguém menos que o nazista da primeira parte (cientistas nazistas de fato foram fundamentais para o programa espacial norte-americano e a citação disso no filme é sem dúvida uma crítica). Indiana novamente se vê no olho do furacão, tendo que impedir que os nazistas alcancem seus objetivos. Para isso ele conta com a a ajuda de uma nova personagem, a carismática de Helena Shaw, interpretada por Phoebe Waller-Bridge, uma atriz até então mais ligada à comédia, mas que consegue surpreender. A química entre ela e Ford é visível.

Em suma: se você gosta de bons filmes de aventura, com bom roteiro, bons personagens e efeitos especiais que estão a serviço da história, Indiana Jones e a relíquia do tempo certamente vai agradar.

Em tempo: como é bom ver, de novo, nazistas se ferrando. 

Conan - O pacto maldito

 


Roy Thomas é um dos grandes roteiristas do mercado norte-americano de quadrinhos. Criado na escola Marvel, ele sabia aproveitar ao máximo a capacidade narrativa dos desenhistas, usando seu texto para destacar as imagens. Exemplo disso é a história O pacto maldito, publicada em Savage Sword of Conan 8, com arte de Tim Conrad.

Na primeira e impressionante página temos uma splah page com Conan se levantando, a espada em punho, enquanto um lobo se aproxima. A posição do personagem é  anatomicamente impossível, mas pouco importa. Tim Conrad está muito mais preocupado com a composição do que com questões anatômicas – e consegue uma imagem plenamente equilibrada e grandiosa.

Na página seguinte temos um esquema que se repetiria em várias outras páginas. De um lado, Conan se defendendo do lobo e matando-o e, do outro, uma torre em um plano cada vez mais próximo até terminar no close de um feiticeiro.

Tim Conrad diferencia visualmente a sequência de Conan da sequência do feiticeiro. 


O texto de Thomas funciona como uma trilha sonora sinistra introduzindo tanto o clima da história, quanto o gancho para o plot twist final: “A maioria dos homens está morta agora.... suas gargantas são uma massa rasgada de carne e tendões.... e seus gritos de agonia, um gorgolejar repugnante de pura incredulidade. Mas este homem... matou a besta. Então, acho que as próximas medidas devem ser tomadas. Estão me ouvindo, deuses anciões, que me olham de paragens longínquas?”

Depois de matar o lobo, Conan vai para uma cidade em busca de bebida, mas é informado de que aquele lobo era de Ranephi, um feiticeiro que irá querer vingança. Eles o convencem a fugir e um dos homens, transformado em um monstro pelo feiticeiro lhe dá um cavalo.

Essa sequência é entremeada de outras, do feiticeiro, que se prepara para algo. Há uma destreza narrativa aqui, que nos faz identificar imediatamente a qual sequência o quadro pertence. Além das imagens mais escuras e carregadas nos quadros do feiticeiro, as legendas têm um fundo escuro, como forma de demonstrar que o feiticeiro vive nas sombras.

A splah page é uma aula de inovação na diagramação de uma página de quadrinhos. 


Então chegamos à página mais impressionante da história. uma imagem em splah page mostra o feiticeiro invocando um sortilégio, enquanto, ao fundo, os quadros mostram Conan tentando escapar, mas sendo arrastado de volta para a floresta e para o castelo do mago. O resultado é impressionante em termos de narrativa e layout.

Em apenas 10 páginas, Roy Thomas e Tim Conrad conseguem produzir uma verdadeira obra-prima da arte sequencial, uma história que une ação, mistério e uma reviravolta final, com um perfeito domínio da narrativa visual.

Não por acaso, a dupla produziu aquela que considero a melhor história já publicada na espada selvagem de Conan, uma narrativa de Bran Mark Mor publicada nos números 27 e 28 da edição nacional.  

Jonah Hex – Bem-vindo ao paraíso

 


Quando o personagem Jonah Hex surgiu, no número 10 da revista All-Star Western, em março de 1972, foi uma revolução nos quadrinhos de faroeste.

Até então, a maioria dos quadrinhos mostrava mocinhos bonitos, cujo cabelo nunca despenteava e que atiravam na arma dos inimigos para desarmá-los.

A primeira imagem da história, uma splash page do filipino Tony DeZuniga, já quebrava totalmente com o estereótipo dos heróis quadrinínsticos, como Roy Rogers. O desenho mostrava Jonah montado em seu cavalo, arrastando pelos pés os cadáveres de dois bandidos que ele havia liquidado a serviço dos endinheirados da cidade.

A primeira página já mostrava o quanto a série era revolucionária. 


O texto, de John Albano, dizia: “Matador a sangue frio, degenerado, demônio impiedoso, sem sentimentos ou consciência... um homem consumido pelo ódio... esse era Jonah Hex!”.

Nas páginas seguintes, quando vemos o personagem de perto, percebemos que a diferença dele para os heróis clássicos é ainda maior do que aparecia na página inicial. Ele tem um lado do rosto completamente deformado, os dentes à mostra, os olhos esbugalhados. Ao contrário dos mocinhos da década de 1950, Hex era sujo, feio e mal-educado. Em outras palavras, era o cowboy ideal para uma nova época, em que o faroeste americano perdia cada vez mais espaço para os bang bang italianos, repletos de anti-heróis, como o personagem sem nome de Clint Eastwood na trilogia de Sérgio Leone ou Django, de Sergio Corbucci.

O personagem era muito diferente dos cowboys convencionais dos quadrinhos. 


Na história, Hex persegue uma gangue de malfeitores e, quando consegue eliminar todos e pega o pagamento, decide ficar na cidade, para horror dos cidadãos de bem, que conseguem convencê-lo a ir embora. "Ufa!”, diz um dos endinheirados. “Um selvagem como ele morando entre pessoas civilizadas como nós? Jamais!”.

A história termina com ele visitando uma família que ele havia ajudado e sendo escorraçado pela mulher: “Atirei no seu chapéu para mostrar que não é bem-vindo por aqui!!.

O personagem é um anti-herói, rejeitado pela sociedade. 


Ao final, ele passa pela placa “Bem-vindo a Paradise Corners” e a destrói com um murro.

Era um final perfeito para um personagem que se tornaria tão popular a ponto de ganhar revista própria com quase uma centena de números.