quarta-feira, fevereiro 25, 2026

Dylan Dog – Mater Dolorosa

 

Mater dolorosa é uma graphic novel de Dylan Dog lançada em 2018 pela editora Mythos. Escrita por Roberto Recchioni e ilustrada por Gigi Cavenago, a HQ destrincha parte da história do personagem. Se a outra história escrita Roberto Recchioni, Mater Morbi, era focada em uma nova vilã-amante, em Mater Dolorosa o foco está no embate desta com a mãe de Dylan.

A trama parece se relacionar excessivamente com a anterior, Mater Morbi, e a introdução escrita por  Júlio Schneider ajuda pouco nesse sentido, mas ainda assim é possível ler e enteder a trama, embora muitos pontos passem despercebidos dos leitores menos habituais (ou que leram há muito tempo as históris de Dylan, como foi o meu caso).

O desenho de Gigi Cavenago é o grande destaque do álbum. 


O texto é primoroso, mas o grande destaque é a arte de Gigi Cavenago. Só ela já vale a capa dura e o papel couchê. As belíssimas sequências do navio de Mater Morbi são impressionantes. Cavenago consegue unir realismo, expressionismo e surrealismo em um único quadro.  

O ditador

 

O Ditador é um filme de Sacha Baron Cohen (Borat) lançado em 2012. Foi, certamente, a melhor comédia do ano, o tipo de filme que você ri tanto que acaba perdendo alguma coisa. As piadas já começam nos nomes: Alladim é o ditador de Wadyia, um país rico em petróleo que está criando sua própria bomba atômica (todos os meus amigos ditadores têm armas atômicas, reclama o protagonista, como uma criança birrada). Para evitar um ataque da ONU, ele precisa ir a Nova York fazer uma declaração. É quando ele sofre um atentado e é substituído por um sósia. O filme desconstrói as expectativas, fazendo o expectador torcer por um odioso ditador.
Difícil destacar qual a melhor cena. Talvez aquela em que o ditador muda o dicionário, trocando várias palavras pelo seu nome, inclusive positivo e negativo (o médico, com o resultado de um exame na mão pergunta ao paciente se ele quer a informação Aladim ou Aladim) ou aquela em que o ditador precisa aliviar os bolsos de peso e se descobre que ele levou uma garrafa de água de coco, três bananas e dois tijolos,ou a cena da corrida, que virou meme, na qual ele atira nos outros corredores, ou a cena em que ele defende os benefícios da ditadura, mas parece estar falando da democracia americana.

MAD: Big Barraco Brasil

 

Eu sempre fui muito fã da MAD. Desde que comecei a ler quadrinhos com mais frequência, no início da adolescência e encontrei os sebos, era uma das minhas leituras prediletas. Em 2008 a revista voltou a ser publicada pela editora Panini, após um longo hiato, e eu resolvi entrar em contato com o editor, Raphael Fernandes, me oferecendo para escrever roteiros. O Raphael já conhecia meu trabalho, mas duvidou que eu pudesse escrever humor, já que eu era mais conhecido pelas histórias de terror. E me deu um desafio: fazer uma sátira do Big Brother Brasil. O Raphael é um dos cara mais malucos que já conheci e queria algo igualmente maluco, fora da caixa. Eu propus um Big Brother se passando em uma favela: o Big Barraco Brasil. A história foi bastante elogiada (inclusive por pessoas dentro da editora) e foi minha primeira colaboração para a revista. 

A arte incrível de Kieron Dwyer

 

 

Kieron Dwyer tinha 13 anos quando sua mãe se casou com John Byrne. Este, vendo o talento do rapaz, o incentivou a se tornar desenhista de quadrinhos e conseguiu seu primeiro trabalho, em Batman 413. Depois disso, ele desenhar o arco Cavaleiro das trevas, cidade das trevas, com roteiro de Peter Millingan.

Na Marvel ele assumiu o título do Capitão América, que desenhou por anos.

Ele também desenhou Vingadores e Demolidor.

De volta à DC, ele desenhou Lobo, Superman e projetos especiais, como Superman: The Dark Side, que mostrava o que aconteceria se a nave kriptoniana tivesse caído em Apokolips e encontrada por Darkside.









O massacre do Brigue Palhaço

 


A adesão do Pará à independência foi marcada por uma tragédia.
O Grão Pará foi a última província à aderir à independência do Brasil. A província era comandada por portugueses e estava mais próxima de Lisboa do que do Rio de Janeiro e, portanto, a classe dominante não tinha o menor interesse na independência.
Em 1823, para resolver a situação, Dom Pedro I chamou um militar inglês, John Pascoe Grenfell, que rumou para a capital da província com um navio de guerra. Mas, ao encontrar a elite portuguesa que governava a província, blefou dizendo que tinha toda uma esquadra. Os portugueses concordaram em aderir à independência, com uma condição: continuar mandando no Pará.
Os soldados paraenses e a população local ficaram revoltados. Afinal, esperava-se que a independência mudasse a configuração de poder. O acerto feito não mudava nada: quem mandava continuava mandando.
Estourou uma revolta. Casas comerciais de portugueses foram depredadas.
Grenfell foi implacável: fez com que suas tropas percorressem as ruas de Belém, prendendo qualquer um que parecesse suspeito. Mais de 250 pessoas foram detidas.
O inglês mandou fuzilar cinco dos detidos e prendeu o cônego Batista Campos à boca de um canhão, ameaçando atirar. Grenfell acreditava que o religioso tinha sido responsável pela revolta. Só depois de inúmeros apelos inclusive das principais famílias, Batista Campos foi libertado.
Mas o que fazer com os outros 252 presos?
Grenfell decidiu transferi-los para o porão de um navio, chamado Brigue Palhaço. Lá, apertados, em calor extremo, com pouco ar e sem água, os prisioneiros começaram a agonizar. Um dos soldados, apiedando-se deles, pegou um balde de água do rio e jogou lá dentro, o que só piorou a situação, pois a correria para beber um pouco do líquido provocou várias mortes. Grenfell mandou atirar no porão para calar seus gritos, mas isso só fez aumentar  o lamento dos sobreviventes. A situação afetava os nervos dos soldados e o inglês temia que sua tripulação se rebelasse.
Enfim, alguém achou uma solução: trouxeram cal virgem de uma obra, jogaram no porão e fecharam a entrada. 252 pessoas morreram sufocadas.
A tragédia marcou a história do Pará e seria um dos principais estopins da revolta cabana, que aconteceria treze anos depois.  
O massacre do brigue palhaço aparece no meu romance Cabanagem.

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A guerra sombria do Gavião Negro

 


O Gavião Negro e a Mulher Gavião são dois dos personagens mais interessantes da DC Comics. Na sua versão moderna, criada por Gardner Fox e Joe Kubert, os personagen oscilavam entre dois gêneros: o policial e a ficção científica. Anos depois, em 1985, uma minissérie escrita por Tony Isabella e desenhada por Richard Howell (com arte-final de Alfredo Alcala) resgatou essas características em uma trama que ressignificava o planeta Thanagar, abrindo caminho para abordagens mais sombrias do personagem.

Na trama, um ladrão é contactado por seres misteriosos que o coagem a invadir a casa na qual moram Katar Hol (Gavião Negro) e sua esposa Shayera (Mulher Gavião). Enquanto o Gavião Negro vai para casa verificar o que está acontecendo, outro grupo dos seres misteriosos invade o museu e mata a Mulher Gavião, sobrando dela apenas o reflexo na parede.

O texto de Isabella se destaca pela síntese e pela qualidade. 


Tony Isabella escreve surpreendentemente bem, fugindo da verborragia comum entre os autores de quadrinhos da época. A sequência em o Gavião Negro descobre a morte da esposa é um ótimo exemplo da competência do roteirista: “No salão de exibição do museu de Midway City, um homem chama pelo nome da esposa... sabendo que ela nunca mais responderá. Ele é poderoso. Chore por ele”.

Junto com a morte da esposa, o Gavião Negro descobre que os responsáveis são seu próprio povo, já que os Thanagarianos pretendem invadir a Terra, e para isso precisam roubar a tecnologia de antigravidade, que havia sido perdida no planeta natal.

A história é um conto sobre um casal apaixonado. 


Claro que a Mulher Gavião não morreu e a explicação para isso é bastante forçada, mas o roteiro é tão fluído que o leitor deixa passar a falta de verossimilhança.

O desenho não fica nada a dever ao roteiro. Richard Howell tem um traço bonito e uma diagramação pouco convencional. Destaque para a sequência em que o herói relembra a amada, agora morta e os dois, nas lembranças dele, bailam nos céus de Thanagar. Alfredo Alcala no início carrega muito nas tintas, o que poderia funcionar para uma história com um pé no terror, mas parece deslocado numa HQ de ficção científica e super-heróis. Mas, aos poucos, vai ajustando a tinta, até que a arte-final passa a se encaixar bem no traço de Howell.

A tensão sexual entre o casal se revela até nos momentos de ação. 


No final, A guerra sombria do Gavião Negro é acima de tudo, um conto sobre um casal apaixonado. A tensão sexual entre os dois fica implícita em várias situações, inclusive no momento em que os dois precisam entrar em um transportador apertado para conseguirem chegar à nave. “Em outra situação eu acharia isso divertido”, diz o herói.

Considerando os méritos, é surpreendente que a Abril não tenha cogitado publicar essa história. Talvez a razão tivesse alguma relação com a cronologia da editora.

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Roteiro de quadrinhos: colocando texto nos balões

 

Há dois aspectos que se deve considerar ao escrever o texto numa história em quadrinhos. E, quando falo de texto, vale tanto para legendas quanto para diálogos.
O primeiro deles é que quadrinho não é literatura. O texto quadrinístico só existe em íntima coesão com a imagem. O roteirista deve pensar visualmente, imaginar como seu texto vai interagir com os desenhos e que tipo de impressão essa junção vai causar.
O segundo aspecto é que o roteirista deve saber quem são os personagens. O ideal é que até mesmo os personagens secundários tenham uma história. Quem são eles? Quais são suas motivações, quais são os seus medos, quais são suas esperanças? Há alguma história de vida que podemos contar sobre esse personagem e que ajudem a mostrar ao leitor quem é essa pessoa?
Essas duas preocupações sempre dominaram minha produção de roteiros. Exemplo disso é a história O farol, publicada pela editora Nova Sampa e, posteriormente, na editora norte-americana Phantagraphics, com o nome de Beach Baby.
Na história um casal está na praia quando vê surgir um farol. Eles entram no local para investigar e acabam se perdendo um do outro. A sequência que apresento abaixo mostra o momento em que o rapaz se perde da namorada, e se vê em local totalmente escuro, sendo dominado pelo medo. 
Eu e Joe Bennett trabalhávamos com o marvel way, um método que só funciona se o desenhista for um narrador nato, como é o caso do compadre. Nós discutíamos a história, ele ia para casa, fazia um rafe das páginas e me trazia. Era sempre um desafio escrever o texto, pois ele conseguia contar tudo só com imagens. Isso exigia o máximo do roteirista.
No caso dessa página, o que escrever? O desenho já explicava facilmente a situação: o rapaz estava perdido e entrando em desespero.
Não fazia sentido colocar o rapaz falando sozinho. Embora esse seja um recurso usando em algumas HQs, a verdade é que só malucos falam sozinhos.
Assim, preferi trabalhar os pensamentos do personagem, mas explicitados por um narrador em terceira pessoa, para conseguir o efeito desejado.
Reparem que o texto começa contando um detalhe sobre o personagem, uma pequena história da vida dele, mas segue num crescendo até a conclusão final. O texto do último parágrafo encaixa perfeitamente com a expressão do personagem, conseguindo um efeito tanto de impacto quanto de ironia.
 Reproduzo abaixo o texto:
“Fábio”
“Fábio”
“Fábio”
Ele repete o nome para si milhares de vezes.
Uma vez ele conheceu um ocultista, um homem  de óculos grosso e estante cheia de livros.
O homem disse que o nome de cada pessoa é um mantra para si mesmo.
Palavras sagradas que, repetidas várias vezes, trazem calma e paz de espírito.
Com Fábio isso não deu muito certo.

Com amor, Van Gogh

 

Vincent Van Gogh foi um dos mais importantes artistas de todos os tempos. Sua forma única de ver a natureza abriu caminho para o surgimento da arte moderna. É tão famoso que é muito raro alguém que nunca tenha visto uma pintura sua. No entanto, ele morreu pobre e em vida só conseguiu vender um único quadro. É essa trajetória que é contada no filme Com amor, Van Gogh, dirigido por Dorota Kobiela e Hugh Welchman.
A estratégia usada para colocar na tela a vida do pintor é absolutamente inovadora e deslumbrante: uma animação que emula o estilo de Van Gogh. É como se os quadros do mestre ganhassem vida, o que, aliás, acontece em diversas sequências, que começam com quadros famosos do pintor.
Mas esse deslumbre visual de nada valeria sem um bom roteiro. E o roteiro, de autoria dos diretores, é perfeito: o filho do carteiro que entregava as cartas de Van Gogh é incentivado pelo pai a entregar a última carta do pintor para seu irmão. Com isso, ele acaba se encontrando com as pessoas que conviveram com ele e reconstitui seus últimos dias.
A história é narrada assim, quase como se fosse uma investigação policial, o que certamente agradará até mesmo os expectadores menos interessados no aspecto artístico. Os diálogos são afinados, cirúrgicos e, ao mesmo tempo, reveladores. Eles conseguem contar muito sobre a vida e a personalidade do pintor sem serem didáticos.  
Com amor, Van Gogh é um filme obrigatório para amantes da arte.

Superdotados - Talentos desperdiçados

 


Um dos aspectos mais preocupantes a respeito dos superdotados é a percepção de que a maior parte dos indivíduos talentosos não são aproveitados positivamente pela sociedade.

Estudos demonstram que uma em cada 20 pessoas é superdotada. A maior parte dessas pessoas simplesmente não desenvolve seus talentos.
Em dos um dos cursos que realizei em Belém havia uma garoto de apenas doze anos que desenhava com incrível habilidade. Seu traço era caracteristicamente Disney, mas ao ser apresentado a outros desenhistas, ele desenvolveu um traço próprio, que misturava as características infantis de Disney com o expressionismo alemão da década de 20. quem conhece o assunto sabe que alguém conseguir revelar um traço próprio, individual com apenas 13 anos é coisa para gênios. Esse rapaz era tão pobre que não tinha dinheiro para comprar papel e usava o verso dos cartazes de cerveja que os donos de bares lhe davam. Um final feliz seria vê-lo desenhando e se tornando famoso com seu trabalho na área de quadrinhos, publicidade ou artes-plásticas. Mas não foi isso que aconteceu. O rapaz desapareceu e provavelmente seu talento se perdeu. É provável que ele tenha se tornado pedreiro, pintor de paredes ou algo similar.
Quando não ocorre do talento simplesmente se perder, há grande chance dele se voltar para atividades pouco positivas. Fernandinho Beira-mar é um ótimo caso de superdotado que usa suas habilidades da pior maneira possível. Exemplos semelhantes são muitos.
Fala-se muito do desperdício de comida, desperdício de água e similares. Mas pouco se fala no desperdício de talentos. Enquanto o Brasil não aproveitar seus indivíduos talentosos, seremos sempre um país periférico. Quantos grandes cientistas e artistas não se perdem por falta de oportunidades?
A única maneira de evitar que o talento de um superdotado simplesmente se perca ou seja usado para o mal é através da educação. A escola, ou instituições livres poderiam oferecer atividades extra-classe para alunos com altas habilidades. Além disso, os professores, que lidam continuamente com superdotados, precisam ser educados para trabalharem corretamente com esse tipo de aluno.

Perry Rhodan - sob as estrelas de Druufon

 

 

Uma das características que fazem da série Perry Rhodan admirável é o fato de a história ter sido planejada de forma que algo que acontecia em um volume muitas vezes tinha consequências muitos livros depois. Exemplo disso acontece no primeiro ciclo, quando um sargento, tentando se esconder dos saltadores, pousa em uma lua e encontra o que parece ser uma bola inteligente capaz de mostrar fatos que estariam acontecendo em qualquer outro local do universo. 

Esse personagem misterioso vai reaparecer no número 76 da série. Rhodan percebe que na guerra contra os druufs precisa de um aliado capaz de descobrir o que acontece na dimensão deles e manda um dos seus oficiais procurar o mistério ser esférico. Esse ser passa a ser chamado de Harno, em homenagem ao sargento que o descobriu, Harnahan. 

A capa alemã mostra Harno. 

Uma curiosidade é que esse ser diz conhecer Rhodan, mas não lembra de onde, o que joga um mistério para ser resolvido lá na frente, deixando o leitor em suspense, como fazem os bons autores.

Esse livro, aliás, é escrito pelo ótimo Clark darlton, que consegue dar verossimilhança para um plano Maluco de Rhodan: aliarse aos druufs.

Para isso ele ataca naves arconidas, salvando uma nave dos seres da outra dimensão temporal e seguindo os até aquela dimensão. 

Parece um plano destinado ao fracasso desde o primeiro minuto, mas acaba se revelando uma jogada acertada no xadrez cósmico.

Alexandre – o nascimento de um deus

 


Alexandre Magno foi uma das figuras mais intrigantes da antiguidade. Guerreiro, filósofo, estrategista, divindade... são muitas as suas facetas... e todas elas são exploradas na série docudrama Alexandre – o nascimento de um Deus, criada por Tony Mitchell e disponível na Netflix.

A série inicia com a chegada de Alexandre ao poder, logo após a morte de seu pai Felipe II, rei da Macedônia (um assassinato arquitetado, provavelmente, pela mãe de Alexandre, que via sua influência na corte decair quando o soberano escolheu uma nova predileta) e vai até a conquista do império Persa, deixando em aberto a possibilidade de uma segunda temporada.

O que faz desse documentário uma atração viciante é a forma como essa jornada é contada, misturando encenações, depoimentos de pesquisadores e trechos com escavações na cidade de Alexandria. Outra estratégia acertada foi o uso de gráficos, que mostram a movimentação das tropas durante os combates, o que nos ajuda a entender as batalhas. Alexandre era, antes de tudo, um estrategista habilidoso, que sabia explorar qualquer mínimo ponto fraco no exército inimigo, fazendo com que a vantagem numérica se tornasse irrelevante (em todas as batalhas contra Dario, rei da Pérsia, ele sempre tinha um exército muito menor) e isso fica muito visível nos gráficos.

Alexandre era também um grande estrategista político e um marqueteiro, que sabia usar propaganda pessoal como arma e sempre surpreendia por não fazer o que se esperava dele. Assim, por exemplo, após a batalha de Isso, ao invés de aproveitar a vitória para atacar a Babilônia, ele vai para o Egito, onde é coroado Faraó. Depois disso, ao invés de aproveitar para atacar Dario usando o exército egípcio aliado ao seu, ele investe em uma jornada pelo deserto, rumo a um templo onde os advinhos revelam que ele é filho do deus Amom e passa a ser adorado pela população local, garantindo a fidelidade das tropas egípcias. Sem falar do impacto que “lutar contra um deus” deve ter provocado nas tropas inimigas.

Ao assistir ao seriado, percebemos também que Alexandre não era só um conquistador. Educado por Aristóteles ele tinha uma preocupação que poucos guerreiros já tiveram. Exemplo disso é a construção da cidade de Alexandria, que se tornaria o centro científico e filosófico da antiguidade, incluindo a maior biblioteca do mundo.

A série tem apenas seis episódios e deixa um gostinho de quero mais. Espero que tenhamos uma segunda temporada.

O incrível Hulk contra Talos, o skrull

 


A fase de Peter David no incrível Hulk pode não ter sido genial, mas sempre gerou boas histórias, que escapavam do senso comum mesmo no período mais sombrio dos quadrinhos (os anos Image). A história publicada no número 419 do título, desenhada pelo brasileiro Roger Cruz, exemplifica bem isso.

Na história, Rick Jones acabou de se casar e o Hulk (nessa época ele se tornara inteligente) valsa com sua amada Betty Ross.

É quando surge, para estragar a festa, um Skrull, Talos. Até aí tudo dentro do esperado. O diferencial aí é que o vilão quer... ser morto pelo Hulk! A razão é que ele nasceu “defeituoso”, ou seja, sem a capacidade de se transformar. Ao invés disso, é extremamente forte: “Se não pertencesse à família real, teria sido morto ao nascer! Eu supri essa deficiência com força bruta! Conquistei! Chacinei! Ninguém era mais temido e respeitado do que eu! Então veio o dia e que caí numa covarde armadilha Kree! Eu poderia ter mordido a cápsula letal em minha boca... ter sido um cadáver em vez de um prisioneiro! Seria honroso! Mas, pela primeira vez em minha vida... eu tive medo”.

A motivação do antagonista: ser morto pelo Hulk. 


Incapaz de se matar, o srkrull decide provocar o Hulk para que este o mate. Só por essa premissa a história já valeria a pena. Mas, usando e seu pendão natural para o humor, Peter David ainda acresenta um final totalmente irônico.

Os desenhos de Roger Cruz não decepcionam, mas infelizmente naquela época todo mundo era orientado a copiar os desenhistas da Image, inclusive na diagramação. Para um bom desenhista era como piorar seu desenho para acompanhar uma moda.

No Brasil essa história foi publicada em O incrível Hulk 163, da editora Abril.

O Último Azul: A Amazônia como Cenário, não Protagonista

 


Algo me incomodou desde os primeiros minutos de O Último Azul, de Gabriel Mascaro: embora a paisagem fosse nitidamente amazônida, as pessoas não falavam como nortistas. No Norte, o uso do "tu" é predominante e identitário, mas, no filme, o "você" domina os diálogos de forma artificial.

Conforme a trama confirmava que a história se passava, de fato, na Amazônia, esse estranhamento cresceu. O ponto crítico ocorre quando a protagonista, com fome, decide comprar um açaí. Apesar de estar em uma venda tipicamente nortista, o produto oferecido é o "açaí do Sul": uma mistura com granola, leite condensado e frutas — algo que simplesmente não faz parte do cotidiano tradicional da região. Fica a pergunta: não havia ninguém na produção para alertar que aquele não é o nosso jeito de falar, muito menos o nosso jeito de comer açaí?

A história, uma distopia, acompanha uma mulher prestes a ser internada em uma colônia para idosos. Em seus últimos dias de liberdade, ela deseja apenas voar. Impedida até de comprar uma passagem de ônibus sem a autorização da filha, ela recorre a um barco para chegar a um local que abriga um ultraleve.

A narrativa é poética e pungente, destacando-se por paisagens belíssimas. Entretanto, é uma pena que, nesta obra, a Amazônia seja tratada apenas como um pano de fundo estético, e não como a verdadeira protagonista que deveria ser.

Adam Strange – O segredo da cidade eterna

 

Na primeira aventura, Adam Strange ainda não usava seu icônico uniforme. 

Embora seja atualmente pouco conhecido, Adam Strange foi um dos personagens mais populares da era de prata da DC Comics.

Ele se tornou popular nas revistas Mystery in Space e Strange Adcventures, mas surgiu na revista Showcase 17, de 17 de dezembro de 1958.

Adam é um aventureiro em busca de tesouros... 


Na história, escrita por Gardner Fox e desenhada por Mike Sekowsky, Adam é um aventureiro que está na cordilheira dos Andes em busca do tesouro de Atahualpa. Como o próprio Fox explica no texto: “Quando o conquistador espanhol Pizarro matou Atahualpa, uma caravana trazendo esse tesouro com o resgate por sua vida se perdeu e escondeu os itens preciosos!”.

O aventureiro encontra de fato o tesouro, mas com isso também consegue despertar a ira dos incas, que passam a persegui-lo. Ele pula de um penhasco e ao invés de cair ou chegar ao outro lado, descobre que foi parar num local desconhecido habitado por feras pré-históricas. É salvo por uma linda garota chamada Alana, que, através de um aparelho chamado cerebrador, lhe ensina o idioma local. O pai da garota, o cientista Sardath, lhe explica que está na cidade de Ranagar, no planeta de Rann e que chegara ali através do raio zeta, enviado de Ran para a Terra.

... mas vai parar num planeta distante... 


Gardner Fox inclui na história de Rann um medo real da década de 1950: o planeta fora praticamente destruído por uma guerra nuclear.

Logo depois a garota o leva para conhecer o planeta, mas o passeio turístico é interrompido por uma invasão extraterrestre, que é debelada com uma ideia de Adam.

... e ajuda a debelar uma invasão alienígena. 


Nessa primeira história o personagem parecia muito calcado em Buck Rogers ou John  Carter de Marte: era um terrestre que de forma misteriosa chega em uma outra civilização e lá se torna herói com habilidades que parece muito superiores às pessoas comuns daquele local. As características mais específicas desse personagem, que o tornariam único, foram surgindo aos poucos. Nessa primeira história, por exemplo, ele nem mesmo usava seu icônico uniforme, que só apareceria na história seguinte da mesma edição. Curiosamente, ele aparece de uniforme na capa, de onde se deduz que a capa foi feita posteriormente.

O rei e a verdade

 

 



















Certa vez o Rei acordou tão ocupado com seus sonhos de onipotência que se esqueceu de vestir roupa. Foi assim mesmo, nu, para a reunião com os ministros. Quando chegou, os ministros se entreolharam, mas ninguém teve coragem de dizer nada.

- E então, como estão os preparativos para minha caminhada triunfal por entre o povo? – perguntou o Rei.
Nisso um ministro se levantou:
- Vossa Majestade me desculpe, mas o Vossa Excelência não pode comparecer assim, sem roupas, entre o povo. Todos irão rir!
O Rei, sem se dignar a olhar para baixo, ficou furioso com o ministro:
- Como assim, estou sem roupa? Estou com a minha melhor roupa, trazida para mim do além-mar.
- Mas majestade, o senhor está sem roupa... – tentou argumentar o ministro, mas foi cortado pelo rei, que perguntava para os outros ministros:
- Por acaso estou sem roupa?
- Claro que não, majestade. – respondeu um ministro.
- Linda roupa, majestade. – disse outro.
- Nunca vi roupa tão esplêndida em toda a minha vida. – garantiu outro.
O Rei, com um sorriso no rosto se virou para o ministro atônito:
- Está vendo? Se estou dizendo que estou vestido é porque estou vestido. E não admito que me contradigam. Considero isso uma ofensa! Exijo que se retrate imediatamente, ou corto sua cabeça.
Dizendo isso, o Rei chamou dois guardas, que se postaram ao lado do ministro, prontos para usar suas afiadas cimitarras. O pobre homem, sem opção, ficou de joelhos e, de cabeça baixa, negou tudo que dissera antes.
O Rei, aproveitando que ele já estava numa posição conveniente, ordenou que um dos guardas lhe cortasse a cabeça.