terça-feira, outubro 20, 2026

Crise – E o mundo há de morrer!

 


Embora Crise nas infinitas terras já tenha começa bem, é a partir do número 4 que a história se torna realmente memorável, a começar pela impressionante capa, com o Pária olhando atônito enquanto a Precursora mata Monitor com um raio.

Pária foi o primeiro personagem a aparecer na série. Vítima de uma maldição, ele percorre cada um dos mundos do multiverso DC, vendo-os morrer. No número 4, Monitor o leva para seu satélite, revela que ele é responsável por transformá-lo no que ele é e que ele terá um papel fundamental na crise que se aproxima, embora não explique qual é esse papel.

A página dupla mostra as consequências da Crise... 


Aqui entra a genialidade narrativa do desenhista George Perez. Ele ilustrou o diálogo entre os dois em uma página dupla, em que dos dois aparecem, um de cada lado, enquanto no meio vemos as consequências da crise em sequências em que os heróis nitidamente estão sendo derrotados pelas forças do mal.

“A terras 1 e 2 são as próximas a sucumbir... seus destinos estão ligados de maneira inexorável”, diz o Monitor. “A fúria é pior agora,... primeiro foram os céus tornando-se vermelhos. Depois, as tempestades e o clima... agora as perturbações cósmicas que devastam ambos os universos”.

... e os rostos de Monitor e de Pária. 

“Esses mundos morrerão, Monitor... como todos os demais que fui forçado a assistir. Por que fez isso comigo? Qual o propósito em me fazer sofrer tanto”, reclama o Pária.

Logo após o diálogo, o Monitor é morto pela precursora. Sua morte parece ecoar as mortes dos mundos, demonstrada mais uma vez com brilhantismo por George Perez.

Monitor é morto por sua pupila. Tudo está perdido? 


Imagens de diversas terras vão se sobrepondo em quadros verticais, mas a cada quadro parecem menos nítidos, até o final, formado apenas por um quadro branco. Na página seguinte, o fundo branco vai sendo substituído aos poucos por nuvens escuras, até o último quadro, totalmente preto. Uma solução gráfica perfeita para demonstrar que tudo acabou.

Seria esse o fim do universo?

George Perez mostra sua genialidade ao mostrar o fim das terras paralelas. 


Na comparação, a ameaça enfrentada pelos heróis da Marvel em Guerras Secretas parece ridícula.

Logan´s run: nenhuma ditadura é boa

 

Existem obras que nos marcam para o resto da vida. No meu caso, uma obra fundamental foi Logan's run (Fuga do século 23), um filme de 1976, dirigido por Michael Anderson, posteriormente transformado em série televisiva. Não lembro de ter visto ao filme, mas eu devorava a série todas as tardes e era muito raro perder um episódio.

Logan's run conta a história de uma cidade hermeticamente fechada onde as pessoas vivem para o prazer. Mas há um porém. Ao chegarem aos 30, todos precisam ser "renovados". A renovação acontece durante um evento chamado carrossel em que as pessoas, flutuando no ar, são atingidas por raios que supostamente teriam a capacidade de renová-los. Na verdade, as pessoas são mortas para dar lugar a crianças. 


Para cada criança que nasce, uma pessoa deve morrer. A estratégia é uma forma de controle populacional imposto pelas máquinas que governam a cidade e convencem os cidadãos de que 30 anos é idade máxima que se pode viver. Logan é um patrulheiro, uma das pessoas que perseguem e matam os que tentam fugir da renovação no carrossel.




Aí há algumas diferenças entre o filme e o seriado. No filme, Logan e uma jovem chamada Jéssica conseguem fugir, mas se deparam com um mundo destruído por uma guerra nuclear. Depois de muito caminharem, chegam em Washington, onde encontram um velho. Eles voltam para a cidade, que acaba sendo destruída e termina com os seus jovens habitantes ao redor do velho, admirados com um tipo de pessoa que nunca haviam visto. 


No seriado, Jéssica e Logan fogem ajudados por um androide e são perseguidos por patrulheiros. Em suas andanças à procura do Santuário, um local paradisíaco, onde as pessoas vivem felizes, sem terem de morrer aos 30 anos, eles se deparam com os mais diversos tipos de perigos, de uma sociedade religiosa fundamentalista a uma casa mal-assombrada (é, às vezes os roteiristas viajavam um pouco...). 


Minha idolatria pela série fez com que eu encontrasse uma ressonância em obras distópicas, como 1984, de George Orwell, Admirável Mundo Novo, de Adous Huxley e Farenheith 451, de Ray Bradbury e isso talvez explique porque eu gostei tanto desses livros. Em todos eles havia a concepção de uma sociedade despótica em que não eram as próprias pessoas que decidiam sobre seus destinos. 



Nesse sentido, Logan's run me ajudou a definir minha filosofia política. Eu percebi que os sistemas autoritários surgem geralmente respaldados pelos cidadãos comuns. Em Logan's run as próprias pessoas colocaram o controle nas mãos das máquinas, pois isso era mais cômodo, já que as máquinas providenciavam tudo que se necessitava, podendo as pessoas viverem apenas para o prazer. Em sociedades desse tipo, em que as pessoas colocam o controle de suas vidas nas mãos de outros, os que governam conseguem impor o que quiserem. Os habitantes da cidade dos Domos achavam que morrer aos trinta anos era algo absolutamente normal porque era isso que a as máquinas diziam. A figura dos patrulheiros também é interessante, pois embora também sejam vítimas desse sistema (também eles devem morrer aos 30 anos), eles o defendem com unhas e dentes. Tanto no filme quanto no seriado, Logan e Jéssica são perseguidos por um patrulheiro totalmente cego a tudo que vê, pois só consegue obedecer à sua programação. Da mesma forma, todo regime autoritário só existe porque tem à sua disposição a tigrada, aqueles que obedecem cegamente ao ditador, mesmo que sejam vítimas dele. 

Outro aspecto interessante é observar uma sociedade formada exclusivamente por jovens (há uma cena em que uma garotinha vê a personagem Jéssica, de 24 anos, e diz que ela é uma velha bonita) em um filme lançado no auge do movimento hippie.


No filme, as pessoas, quando querem sexo, entram num circuito que permite escolher qualquer outra pessoa que esteja no circuito (uma antecipação dos chats eróticos?), e há a loja do amor, onde qualquer um pode se relacionar com qualquer um. Ao fugirem, Jéssica e Logan redescobrem as sociedades antigas e as uniões estáveis e decidem que serão marido e mulher e terão filhos. Seria uma espécie de auto-crítica da geração do amor livre? Como um jovem refletindo sobre suas mais importantes questões, a série não dá respostas. Se no filme Jéssica e Logan tornam-se um casal (amável esposa, amável esposo), no seriado os dois fogem juntos, mas não fica clara a relação entre eles. Ou seja, a série é mais uma reflexão sobre um comportamento do que uma censura do mesmo. 


O filme também antecipa toda a discussão ecológica sobre o aquecimento global. Numa sociedade em que restauram poucos recursos naturais, a solução encontrada é o controle populacional e o reaproveitamento dos recursos (creio que esqueci de mencionar que as pessoas mortas no carrossel são secretamente transformadas em comida para os mais jovens). 


A presença do andróide REM também permite interpretações interessantes pois, embora Logan e Jéssica estejam fugindo da ditadura das máquinas, eles estão sendo ajudados por uma máquina. Seria o andróide um espião infiltrado entre eles apenas para destruir o santuário quando o encontrarem? A série nunca deixou isso claro, mas o fato deu origem a situações interessantes que quebram com o maniqueísmo: o amigo pode também ser o inimigo. Aquele que parece simpático pode ser a maior ameaça. 


O seriado nunca mostrou os personagens chegando ao santuário, o que foi uma decepção para alguns fãs. Mas, por outro lado, deixou em aberto a situação, permitindo que cada um visualize o santuário a seu modo. O santuário, assim, passou a significar menos um local e muito mais um sentimento de esperança de que o homem um dia consiga encontrar uma maneira de viver sem ser dominado por regimes autoritários, em que cada pessoa viva feliz, sendo responsável e livre para fazer suas próprias escolhas. 

Red Sonja – a balada da deusa ruiva

 


No início da década de 1970 a revista do selvagem Conan estava iniciando sua escalada para se tornar uma das mais vendidas do mercado de quadrinhos norte-americanos e Roy Thomas, o roteirista,  tinha um problema: ele queria uma personagem feminina, que não estivesse na cronologia do herói e que ele pudesse usar à vontade. Das personagens criadas por Robert E. Howard, Valeria era loira e Belit era morena. Thomas precisava de uma ruiva. Foi quando leu um texto num livro de ensaios sobre o gênero espada e magia que mencionava o conto A sombra do abutre, que apresentava uma personagem ruiva que seria uma boa companheira para Conan.

O roteirista foi atrás do conto original e descobriu que a história se passava no final da Idade Média, durante o cerco de Viena por parte dos turcos. A personagem era Red Sonya de Rogatino e dividia a história com um guerreiro alemão.

Thomas colocou a personagem na era hiboriana e trocou seu nome para Sonja. Surgia assim, numa história desenhada por Barry Windson Smith, uma das personagens mais queridas dos quadrinhos. Mas Roy Thomas não gostava da cota de malha e da calça collant que a personagem usara na história. Assim, quando chegou em suas mãos uma pin-up de Esteban Maroto da heroina com um biquíni de ferro, ele sabia que aquele seria o visual definitivo da heroína.

Maroto criou o visual da personagem. 


Em 2018, Roy Thomas foi convidado a participar de uma convenção de quadrinhos em Barcelona e surgiu a ideia de aproveitar o evento para o lançamento de um álbum de Sonja desenhado por ninguém menos que Esteban Maroto (com a colaboração de Santi Casas). O resultado foi o álbum A balada da deusa ruiva, publicado no Brasil em 2021 pela Pipoca e Nanquim.

A história mostra uma menestrel cantando uma balada para o rei Thallos, que conquistara um império. Thallos tem poder e riquezas inimagináveis, mas é atormentado pelo fantasma da morte e procura a fonte da juventude na qual Sonja se banhou.

Santi Casas desenha parte da história. 


Essa moldura, desenhada com muita competência por Santi Casas, serve de introdução para a origem de Conan, desenhada por Maroto. Embora seu desenho seja mais comportado do que na época que colaborava com a Warren, Maroto dá um show de narrativa com destaque para o trecho em que Sonja, após ser estuprada e quase morrer nas mãos de bandoleiros, é revivida por uma deusa – enquanto toda a HQ é preto e branco, a deusa é mostrada em vermelho – cor que Sonja passa a exibir nos cabelos após ser revivida e empreender sua vingança. Algo a se destacar é que a origem mostrada nesse álbum é muito mais crua e violenta que aquela que os leitores da Marvel conheceram lá nos anos 70.

O álbum da Pipoca e Nanquim já seria obrigatória para os fãs de Robert E. Howard só por conta da HQ, mas traz uma incrível supresa: A sombra do abutre, o conto original na qual aparece a personagem Red Sonya. Antes do resgate feito por Roy Thomas, o texto era tão obscuro que só tinha publicado uma vez, na revista Magic Carpet. E o texto é surpreendentemente bom, uma tremenda aventura com as descrições detalhadas e poderosas de Robert E. Howard.

O álbum faz um uso criativo da cor vermelha. 


A primeira vez que a heroína aparece, Howard a descreve da seguinte forma: “Ela era alta, esplendidamente bem torneada, mas ágil. Por baixo do elmo de aço, tranças rebeldes ondulavam como ouro vermelho ao sol, caindo sobre os ombros compactos. Botas altas de couro cordovês chegavam até o meio das coxas, estas cobertas por calças largas. Ela vestia uma camisa da mais fina cota de malha turca enfiada dentro das calças. Sua cintura delgada estava envolva por um cinturão de seda verda, no qual portava duas pistolas cruzadas, uma adaga, e do qual pendia um longo sabre húngaro. Um manto escarlate cobria desleixadamente todo o conjunto”.

A Sonya da literatura é, portanto, muito diferente visualmente da personagem dos quadrinhos, mas a personalidadeé muito parecida: irascível, corajosa a ponto de se mostrar temerária... e uma boca suja sem igual (característica que nos quadrinhos foi atenuada).

A história mostra a personagem ajudando o grandalhão Gottfried von Kalmbach, que, tirando o porte físico, não se parece em nada com Conan, a começar pelo longo bigode.

Os dois defendem Viena contra os turcos e mais especificamente contra o guerreiro Mkhal Oglu, que, para apavorar os inimigos usa, presa à armadura, uma asa com penas de abutre, daí o título do conto: A sombra do abutre.

Perry Rhodan – a guerra atômica que não houve

 


De todos os títulos de Perry Rhodan, um que sempre me chamou atenção foi A guerra atômica que não houve, volume 21 da série. É um tremendo nome para uma história e evoca diversas situações e possibilidades.

O volume, escrito por Kurt Mahar, narra a volta de Perry Rhodan à Terra após a aventura no planeta Peregrino. Nos quatro anos em que passou fora, o bloco Oriental (que, na série, seria o equivalente à União Soviética) pretende tomar o poder mundial e, ao ter seus planos frustados pela enorme nave Stardust-III, decide acionar seu armamento nuclear.

Em volume anterior, Perry Rhodan já impedira uma guerra atômica ao usar a tecnologia arcônida para envolver o planeta num campo de absorção de nêutrons. Mas os russos tinham uma nova tecnologia, a bomba catalítica, que não dependia dos nêutrons para a fusão.

Rhodan, resolve a situação simplesmente cortando a energia de todo o bloco oriental.

A capa original alemã. 


Esse é o maior problema do volume. Tudo é fácil demais para a terceira potência. A diferença entre tecnologias é grande demais para que o leitor sinta em algum momento que há um perigo real. A coisa chega ao ponto em que o Major Deringhouse consegue aprisionar sozinho todo o conselho diretor do bloco oriental. Além disso, Mahr não tinha nem o apuro técnico de K.H. Scheer nem o texto humano e divertido de Clark Darlton.

Talvez o ponto mais importante do volume seja a criação de um tribunal penal internacional para julgar crimes de guerra, o primeiro passo para a criação de um governo mundial e para a eclosão de que fazemos parte da humanidade. Como escreve o autor: “(Perry Rhodan) conseguiria de um tempo muito reduzido transformar o homem num terrano, isto é, num ser com uma visão realista de sua verdadeira terra natal”.

Outro aspecto interessante é que, quando se levanta a dúvida sobre qual lei seria usada no tribunal internacional, a escolhida é exatamente a Declaração dos Direitos Humanos. Numa época como a nossa, em que pessoas colocam em dúvida e querem acabar com os direitos humanos, é de se pensar como a ficção científica da década de 1960 era otimista com relação à humanidade.

American Flagg

 


American Flagg é uma mistura de distopia com sátira política criada por Howard Chaykin para a editora First em 1984.

A história se passa no então distante ano de 2031. Os EUA são dominados pela Plex, um conglomerado de empresas que se deslocou para Marte após uma grande crise que desestabilizou os Estados Unidos. Além disso, um terremoto destruiu toda a Califórnia, abrindo caminho para o surgimento de novas potências, como a Organização Brasileira das Américas.

No que sobrou dos EUA, a maioria das pessoas vive dentro de shoppings. Batalhas campais são transmitidas pela TV e se tornam verdadeiros reality shows. Grupos radicais racistas invadem casamentos interaciais e gangues de motoqueiro botam o terror no shopping depois de seu programa favorito, Bob Violence.

A narrativa caótica inclui até mesmo propagandas de sexo cibernético. 


O personagem principal é Reuben Flagg, um ator que foi substituído por uma holografia e se torna ranger na decadente cidade de Chicago onde terá de lidar com a extrema corrupção da cidade (logo na primeira história, o líder de uma gang pede dinheiro para Flagg em troca não atirar nele durante os ataques pós- Bob Violence). Como todo personagem de Chaykin, é também um garanhão, que se envolve com três mulheres apenas nas três primeiras edições.

Essa série foi absolutamente revolucionária na época tanto pelas novidades narrativas quanto pela abordagem radical. A história é entremeada de propagandas de sexo cibernético, emissões de TV e tudo mais que o autor conseguisse imaginar. Isso se refletia na diagramação totalmente não convencional. Além disso, embora não fosse sexualmente explícita, havia várias cenas que transbordavam sensualidade – certamente uma novidade para um personagem dos comics americanos.

O personagem principal é um garanhão. 


No Brasil o personagem causou grande impacto ao ser lançado pela Cedibra no ano de 1987. Foram lançados quatro números (o quarto era bem difícil de achar) junto com outros personagens da First, como Badger e John Sable. Para quem, como eu, que estava aconstumado com as histórias da Marvel e da DC, era algo realmente impactante tanto pela construção do cenário (Alan Moore, no seu texto sobre roteiro cita a série como um dos melhores exemplos de como mostrar a ambientação de maneira natural) quanto pelas inovações narrativas e, claro, a abordagem erótica.

O erotismo era um dos aspectos revolucionários da série. 


A Abril republicou as três primeiras histórias no número 3 da coleção Graphic Album, mas sem o mesmo impacto. Primeiro porque já era outro momento, em que já haviam sido publicados outros trabalhos tão ou mais inovadores. Segundo porque a Abril mudou o formato da publicação. Além disso, alguns exemplares vieram com falha de impressão em algumas páginas (eu fui um dos sorteados).  

Linguagem corporal

 Quero lhe pedir um favor. Dê uma olhada nessas duas garotas e diga quem é mais bonita. Não tentem racionalizar, simplesmente digam qual delas parece mais bonita e atraente.


Garota 1
Garota 2


Embora as duas fotos sejam quase iguais, a maioria dos leitores, deve ter achado a primeira jovem mais bonita. A única diferença entre as fotos é que, na primeira foto, a garota teve a pupila dilatada. A pupila dilatada demonstra interesse, inclusive sexual, e os homens são programados para reagir a esse fato achando bonitas garotas que estão interessadas neles. Uma estratégia evolutiva, sem dúvida, que demonstra bem as pequenas mensagens subliminares que nosso corpo envia e que são decodificadas por outras pessoas de forma inconsciente.
A nossa incrível capacidade de ler as mensagens subliminares enviadas pelo corpo de outras pessoas é demonstrada na situação de duas pessoas andando num corredor apertado. Na maioria das vezes, as pessoas desviam para lados opostos, evitando se trombar, sem que para isso precisarem trocar uma única palavra.
Vale lembrar que, na maioria das vezes, nem mesmo a pessoa que envia a mensagem, tem consciência disso. É um processo quase que totalmente incosciente de envio, recebimento e decodificação de mensagens.
Tudo na pessoa fala alguma coisa sobre ela: as roupas, os cabelos, os gestos, o sorriso, o olhar e até mesmo a forma como elas imitam inconscimente as outras, o chamado eco posicional. Subalternos costuma adotar posturas semelhantes às de seus chefes como uma forma de dizer: ¨Eu quero ser como você¨. Bons vendedores não só adotam posturas corporais semelhantes às de seus clientes, como ajustam o tom de voz para criar uma empatia.
O eco posicional pode revelar até mesmo interesse romântico. Lembro de uma vez em que vi um rapaz e uma moça num ponto de ônibus. Os dois obviamente estavam flertando, embora nenhum dos dois tomasse a iniciativa de iniciar a conversa. Mas o corpo deles falava, e muito. Quando ela cruzava as pernas, ele cruzava. Quando ele olhava para a esquerda, ela olhava. Quando ele coçava uma parte do corpo, ela coçava... e ficaram nesse jogo de repetições de movimentos por bastante tempo, seus corpos dizendo um para o outro: ¨Eu sou parecido com você e estou interessado. Venha conversar comigo¨.
Um bom conhecimento da linguagem corporal ajuda em quase todas as atividades. A mais óbvia é a área de marketing. Mas até um roteirista de quadrinhos deve ter um conhecimento preciso da linguagem corporal. No meu livro Roteiro para Quadrinhos eu falo, por exemplo, da sequência em que Alan Moore indicou que o personagem Rorschach, de Watchmen, é homossexual.
Nessa sequência, o herói teve uma briga com o amigo Coruja e os dois fazem as pazes. Rorschach pede desculpas e oferece a mão. O Coruja aceita as desculpa e aperta a mão do outro, mas Rorschach não quer largar. Reparem como o Coruja usa a outra mão para se livrar do aperto. Reparem também como o Coruja está constrangido. Ele olha para os lados, evitando o rosto de Rorschach, pois sabe que aquele não é um aperto de mãos normal, e, assim que se solta, afasta-se. Ao mesmo tempo, Rorschach acaricia a própria mão e as manchas em sua máscara formam um sorriso, talvez o único sorriso de toda a história. Sua postura corporal é de garotinho apaixonado...

segunda-feira, outubro 19, 2026

A cozinheira de Castamar

 


Clara Belmonte é uma mulher atormentada, que desenvolveu agorafobia após a execução do pai. Ela consegue emprego como cozinheira no palácio de Castamar, onde, após uma rejeição inicial, acaba ganhando a simpatia de todos graças à sua personalidade generosa. Ela e o Duque de Castamar acabam vivendo uma paixão proibida, já que nobres não podem se casar com serviçais.

Essa é a trama de A cozinheira de Castamar, nova série dos produtores de La Casa de Papel na Netflix.

Esse roteiro poderia facilmente descambar numa novela mexicana. Afinal, o princípio básico do amor proibido pelas diferenças de classe está lá. Mas a produção consegue dar uma abordagem totalmente diferente, fugindo do dramalhão. Importante para isso as ótimas atuações, em especial de Michelle Jenner, que vive a protagonista, e Roberto Enriquez, o duque. A atuação de ambos é extremamente contida, de forma que um olhar fala mais que muitas palavras.

A direção também destaca essa expressividade sem exageros, a começar pela belíssima abertura, que consiste apenas na cozinheira andando pelos corredores do palácio, com o nome do seriado aparecendo. Acrescente a isso a belíssima fotografia, que muitas vezes faz com que as imagens pareçam quadros da época.

Além disso, o roteiro é muito bem elaborado, com tramas palacianas, fatos históricos (o rei que aparece na série realmente existiu e de fato era meio louco) e aprofundamento dos personagens (a começar pela própria Clara e sua incapacidade de sair em lugares abertos). Com em La Casa de Papel, em A cozinheira de Castamar não há enrolação. Sempre está acontecendo alguma coisa.

Homem-Aranha – A morte de Jean DeWolff

 



A fase de Peter David à frente do aracnídeo, em pleno período do uniforme negro, teve vários grandes momentos e gerou pelo menos um grande clássico, a saga A morte de Jean DeWolff, também conhecida como a Saga do Devorador de Pecados.

A história começa a com a morte da policial Jean DeWolff, que se tornara amiga do Homem-aranha, e sua única aliada dentro da polícia. O responsável é o assassino serial chamado Devorador de Pecados, que na sequência comete outros crimes, incluindo um juiz amigo de Matt Murdock.

O aracnídeo e o Demolidor começam uma investigação para descobrir quem é o tal Devorador de Pecados e, no processo, entram em rota de colisão.

O Devorador de Pecados deveria ser um psicopata, mas a história o mostra como um psicótico. 


Embora o roteiro seja realmente bom, há problemas. Por exemplo, o aracnídeo parece em alguns momentos totalmente descontrolado, muito diferente do personagem que conhecemos. Além disso, a investigação dos dois parece totalmente sem sentido. Eles estão lindando com um assassino serial e vão para um bar pedir informações? Dois heróis que estão acostumados a lidar com criminosos cometeriam um erro tão primário?

A capa mais famosa dessa fase. 


Mas Peter David maneja bem o texto, de modo que esses detalhes acabam passando despercebidos. Alguns dos melhores momentos são “piadas internas”, como quando um policial pergunta ao Demolidor se ele é cego ou quando o Aranha diz que ele poderia se tornar um advogado.

A história é desenhada por dois artistas: Rick Buckler e Sal Buscema. Como na método Marvel o ritmo da história depende muito do desenhista, isso provoca dois momentos quase opostos na história. Buckler tem uma narrativa lenta e poucos quadros de impacto. Quando Sal entra, a história ganha ritmo, movimento e várias de cenas de impacto, como a fantástica cena em que o aracnídeo bate em Elektro em meio a uma enorme onomatopéia.

Contos fantásticos no labirinto de Borges

 

Jorge Luís Borges é um dos escritores mais importantes de todos os tempos. Numa relação que vai do semiólogo Umberto Eco ao roteirista de quadrinhos Neil Gaiman, são muitos os autores influenciados por sua obra e suas ideias. São tantos os elementos borgeanos em O nome da rosa que há quem diga que o livro de Eco é quase um plágio do trabalho de Borges. A biblioteca do sonhar e o labirinto do Destino em Sandman, de Gaiman, são exemplos tipicamente borgeanos dessa HQ. 

Identificar os autores influenciados por Borges é uma aventura fascinante, mas igualmente instigante é descobrir os autores que influenciaram esse grande escritor, ou que poderiam tê-lo influenciado. Esse é o objetivo de Bráulio Tavares na coletânea "Contos fantásticos no labirinto de Borges". O livro reúne desde autores que nitidamente influenciaram o autor argentino, como Edgar Alan Poe, até aqueles mais novos que ele, mas que trabalharam temáticas semelhantes e podem ter vivido uma relação de influência mútua, como é o caso de Ray Bradbury. 

Um dos pontos altos da obra é o pósfacio escrito por Tavares em que ele analisa a obra de Borges e a relaciona com os contos escolhidos, destrinchando elementos em comum. 

Um dos tópicos mais famosos é o do livro sonhado, mas jamais escrito. Borges adorava criar obras que não existiam. Tavares lembra que o truque é não escrever o livro que foi pensado, mas fingir que alguém o escreveu e comentá-lo: "Borges deve ter sonhado um dia em escrever um romance como A aproximação a Almotásim e deve ter julgado que era uma tarefa além de seu alcance (como voltaria a ocorrer em outro conto com título semelhante, "A busca de Averróis"). A falsa resenha com que cortou esse nó górdio gerou todo um novo gênero literário". 

Outro ponto interessante do pósfacio é a discussão sobre as histórias policiais. Borges elevou o gênero a um patamar filosófico e Bráulio Tavares resgata isso, relacionando inclusive com outros temas recorrentes da obra borgeana, como o duplo e o espelho: "Para ocultar algo, basta virá-lo do avesso ou transformá-lo em seu contrário", explica, numa referência tanto ao conto de Poe quanto ao de Ellery Queen. 

No ponto de vista de Borges, o mundo é uma combinação de símbolos que parecem dizer algo a quem seja capaz de interpretá-los. A função do protagonista no romance policial é justamente ser capaz de identificar a ordem nessa miríade de caos. Por essa razão, o autor de O Aleph defendia que a literatura policial era o último refúgio da lógica, da inteligência e da limpidez de pensamento: "A trama do romance policial não é improvisada livremente; ela é concebida com uma estrita lógica". 

Quanto aos contos escolhidos para a coletânea, há grandes achados, alguns óbvios (como "A carta roubada", de Edgar Allan Poe) e outros que se aproximam da simples curiosidade. 

Uma das gratas surpresas é o conto "A livraria", de Nelson Bond, um autor de pulp fictions, pouco conhecido no Brasil e raramente associado a Borges pela maioria dos leitores. Entretanto, seu texto explora com perfeição o tema dos livros nunca escritos. 

Um autor famoso, mas poucas vezes relacionado com Borges é H. G. Wells. Tavares leu uma referência ao conto "O ovo de Cristal" no epílogo de O Aleph e durante anos tentou encontrar esse texto em coletâneas de obras de Wells. Felizmente achou essa pérola perdida e acrescentou-a ao livro. Nele um pacato negociante de antiguidades descobre um cristal com o qual pode ter contato com uma outra realidade. O conto dialoga diretamente com o Aleph, embora seja muito anterior. 

Outro autor clássico que abrilhanta a coletânea é de Ambrose Bierce. Em "Um incidente na ponte de Owl Creek" um homem é condenado à forca durante a guerra civil americana. A narrativa, que inicia realista, mas logo se torna pura fantasia, com o tempo e a realidade se distorcendo para o protagonista. 

Ainda dentro da fantasia, vale destacar A terceira expedição, de Ray Bradbury. Elogiar Bradbury é chover no molhado — ele foi o homem que levou a poesia para a FC e sua participação na coletânea só faz elevar o nível da mesma. Mais curioso é o conto "Carcassonne", de Lord Dunsany. Dunsany foi um autor muito popular no século XIX, mas hoje é praticamente desconhecido. Seu texto, muito bem escrito, mostra a influência não só sobre Borges, mas também sobre Lovecraft e Robert E. Howard. 

No gênero policial, duas narrativas merecem destaque: "A honra de Israel Gow", de Gilbert K. Chesterton, e "O roubo do selo raro", de Ellery Queen. Ambos são ótimos exemplos daquilo que Borges destaca como diferencial do conto policial: as hipóteses feitas e descartadas até se chegar a uma que seja adequada (Curiosamente é o mesmo método proposto por Karl Popper para a metodologia científica). Os dois autores brincam com a própria capacidade de dedução, em especial o padre Brown, que, diante de um cenário aparentemente sem sentido, experimenta várias explicações aparentemente válidas, que vão sendo falseadas uma a uma.

O volume é, portanto, uma leitura das mais agradáveis tanto pelos contos quanto pelo excelente texto de Bráulio Tavares. É de se destacar também as ilustrações surreais de Romero Cavalcanti. Trata-se, portanto, de uma obra obrigatória na biblioteca de qualquer fã de Borges.

Livro para baixar: 2021 reúne alguns do melhores autores de ficção científica do Brasil

 


A partir de sete ilustrações de Edgar Franco, sete contos de ficção científica de Edgar Smaniotto, Fábio Fernandes, Fabio Shiva, Gazy Andraus, Gian Danton, Nelson de Oliveira e Octavio Aragão. Os contos têm no máximo 2021 palavras, como referência ao ano de 2021, que para Edgar representa o tempo de um admirável ou abominável mundo novo, em que o velho "normal" segue incólume, em aceleração absoluta tornando-se HIPERNORMAL.

O livro está sendo disponibilizado gratuitamente. 

Mudar para voltar ao passado?


No Natal de 1992 (último ano do governo Collor), a minha família não tinha dinheiro para comprar qualquer coisa diferente para a Ceia. Para não passar em branco, eu e minha mãe fomos ao supermercado e compramos dois itens que estavam em promoção: amendoim e um cereal colorido. Fizemos uma bandeja com esses itens e foi essa a nossa ceia.

A situação na época foi resumida perfeitamente pela frase da música da Legião Urbana: 'Todos os meus amigos estão procurando emprego'. Para muitas famílias, a única fonte de proteína era o 'leite do Sarney', uma mistura em pó com leite de vaca e soja.

Agora vejo gente que nunca passou necessidade, que come carne todo dia, que tem carro e moto na garagem (o Brasil registrou a maior venda de veículos da série histórica), dizer que o Brasil está quebrado e que não aguenta mais. E a suposta solução apresentada por esse grupo é votar em um aliado de Collor que tem como grande referencial a Argentina de Milei.