segunda-feira, julho 06, 2026
Invasores de corpos
Batman – Barro mortal
Uma das características que fazem de Alan Moore um autor tão celebrado é a abordagem inovadora que ele tem sobre os personagens os quais escreve, a exemplo de que foi feito com o Cara-de-barro em Batman anual 11, de 1987.
Moore já começa inovando ao focar sua história no vilão, e não no herói. Além disso, ele constrói sua trama como uma história de amor de tragédia.
Em história anterior já havia ficado estabelecido que o personagem tinha se apaixonado por uma manequim, que lhe pareceu uma mulher imune ao seu toque mortal (Preston Payne acidentalmente matou sua namorada ao tocá-la).
![]() |
| O vilão apaixona-se por uma manequim... |
Moore transforma esse plot num estudo psicológico: embora a manequim seja inerte e sequer revele emoções (afinal, é um manequim de plástico), o Cara-de-barro começa a ver nela sinais de traição, destacado principalmente pelo fato dela ter sido levada para a sessão de roupas íntimas durante um dia. “Como um idiota, eu havia me preocupado com sua segurança. Imaginei que tivesse sido levada... que o homem de capa a tivesse raptado! E então eu a encontrei... longe de casa. Em roupas de baixo. Como? Como ela pôde fazer isso comigo?”, pensa ele.
![]() |
| ... e Moore usa isso para refletir sobre as origens do ciúme. |
Tomado pelo ciúme, o vilão começa a ver mais e mais “indícios” de que a namorada o trai, o que o leva a uma cruzada assassina.
Todos sabem que os vilões do Batman são conhecidos pelo desequilíbrio psicológico, mas nenhum roteirista tinha explorado tão bem essa abordagem quanto Alan Moore nesta história e em Piada Mortal.
Perry Rhodan – O inimigo oculto
Na série Perry Rhodan há livros que começam muito bem e nos empolgam, mas depois perdem força. Exemplo disso é o volume 93, escrito por Kurt Mahr.
A trama começa com um robô sendo morto e enviando uma mensagem a Árcon, fazendo com que Atlan peça ajuda dos terranos para investigarem o que está acontecendo. Toda essa parte, embora seja bem narrada, fica meio nebulosa, o leitor só adivinha que Atlan pediu ajuda dos terranos e só supõe que Rhodan mandou uma nave.
Mahr introduz um personagem interessante, que teria tudo para se tornar um dos mais carismáticos da série: o Major Thomea Untcher, com seu jeito brincalhão e seus monólogos disfarçados de diálogos usados para demonstrar suas reflexões e pensamentos, a exemplo de:
- Sargento Loodey, qual a sua opinião?
- Isto quer dizer que.... – respondeu Loodey prontamente – que... que... – e começou a gaguejar.
- Você tem plena razão. Já que os nativos...
![]() |
| A capa original alemã. |
Há também uma ótima descrição do planeta Opghan e de seus nativos, um povo aquático, já que o planeta é composto de 99,5% de água. Segundo Mahr, quando chegava a noite, o frio era tão congelante que os éfogos eram obrigados a fugir: “Corriam sempre para oeste, atrás do sol. Quem ficasse para trás, morreria”. Depois eles inventaram embarcações e, finalmente, conseguiram construir cidades no fundo do mar, onde o frio não os alcançava.
Toda essa narrativa fascinante é entremeada por um acontecimento misterioso, pois a nave é atacada por éfogos que simplesmente se deixam abater e não reagem às agressões. Qual seria o objetivo desse ataque tão sem sentido?, pensa o leitor.
Mas, lá na frente, a narrativa vai se tornando cada vez mais lenta e arrastada e o livro vai perdendo o encanto.
domingo, julho 05, 2026
A vila dos quadrinistas
![]() |
| Os churrascos reuniam alguns dos principais artistas da Grafipar |
No final dos anos 1970 e início dos anos 1980 formou-se em Curitiba algo único no mundo: uma vila de quadrinistas. A vila surgiu em decorrência do sucesso da Grafipar, editora cujo sucesso estava calcado principalmente nas revistas eróticas.
![]() |
| Casa de Gustavo Machado |
Histórias brilhantes, de Alan Moore
Alan Moore geralmente é reconhecido como autor de histórias grandiosas, como Watchmen e Monstro do Pântano. Entretanto, ele era um exímio autor de histórias curtas. Perfeita demonstração disso é Histórias brilhantes, lançado em 2020 pela editora Myhtos.
![]() |
| Tapeçarias mostra de um lado a visão idealizada da guerra e do outro a dura realidade do conflito militar. |
Escrava romana
Da criação ao roteiro, de Doc Comparato
Durante muitos anos não existia praticamente nenhuma bibliografia sobre roteiro no Brasil. Sobre roteiro para quadrinhos, nenhuma.
Então, todo mundo que queria escrever HQs em algum momento se deparando e utilizando na prática do livro Da criação ao roteiro, de Doc Comparato.
Doc Comparato era um dos veteranos da prática do roteiro para cinema no Brasil. Ele escreveu boa parte dos filmes dos Trapalhões (a partir do plot de Renato Aragão) e ministrou as primeiras oficinas de roteiro, das quais saíram inclusive roteiristas de novelas hoje famosos. E seu livro foi um dos primeiros e mais famosos publicados no Brasil sobre o assunto.
Mas roteiro para quadrinhos é uma coisa, roteiro para cinema é outra.
Todos os meus amigos roteiristas relatam pelo menos uma situação em que se deram mal usando o livro do Doc Comparato ao esccrever para quadrinhos.
A minha ocorreu logo no início da carreira. Empolgado com o livro do Doc, resolvi usar um pouco do palavreado técnico que aprendera nele. Assim, em determinado quadro, uma garota invadia o quarto de um homem para espioná-lo. Na descrição da imagem, defini que teríamos uma câmera subjetiva com a personagem principal entrando pela janela de um quarto.
A câmera subjetiva ocorre no cinema quando a imagem mostra o ponto de vista de um personagem.
Mas o desenhista não entendeu o que era aquela tal de câmera subjetiva. Resultado: desenhou o quadro da maneira que achou melhor e, para não fugir completamente do roteiro, colocou uma câmera caída no chão do quarto.
E, de fato, ele não tinha nenhuma obrigação de entender o palavreado técnico de cinema. Afinal, estava fazendo quadrinhos.
Depois disso usei diversas vezes o recurso de mostrar a imagem do ponto de vista de um personagem. Mas fiz isso explicando na descrição o que eu queria, ao invés de usar um termo técnico de outra mídia.
Casamento
Obs: Este texto foi o vencendor do I concurso de crônicas e contos da editora Geração.
Homem-aranha - longe de casa
Fundo do baú – A poderosa Isis
![]() |
| A personagem surgiu na TV e acabou sendo adaptada para os quadrinhos |
Crise – Convocação
Crise nas infinitas Terras surgiu como uma forma de organizar o universo DC, com tantos universos e tantos personagens que nem mesmo os roteiristas conseguiam entender toda aquela confusão. Mas também tinha o objetivo de ser uma obra grandiosa e isso fica óbvio já nas primeiras páginas, que mostra a destruição da Terra 3.
A terra 3 era uma versão de nosso universo em que os vilões tinham tomado o poder, mais especificamente uma versão vilanesca da Liga da Justiça, com personagens como Relâmpago (equivalente ao Flash), Coruja (equivalente ao Batman) e Ultraman (equivalente ao Superman).
![]() |
| A Terra 3 é destruída. |
É o personagem Coruja que resume o sentimento dos heróis ao observar seu mundo ser destruído: “Por anos usamos nossos poderes para nos tornarmos os senhores da Terra! Nada podia nos deter... nem mesmo o único super-herói do planeta, Luthor. Mas agora, vamos simplesmente morrer como resto do rebanho”.
E os personagens vão sendo tragados um a um pela muralha de antimatéria. Em contraste com Guerras Secretas, da Marvel, em que ninguém morria de fato, esse começo é um divisor de águas e uma demonstração de que Crise elevava os quadrinhos de super-heróis a um outro nível.
![]() |
| Precursora recruta heróis e vilões. |
Em uma sequência que emula a origem do super-homem, Luthor envia seu filho recém-nascido em uma pequena nave para outra dimensão, mas essa nave é sequestrada por algum ser misterioso cujos objetivos nós não conhecemos.
A narrativa pula para Percursora, uma personagem criada para a série, conversando com um ser misterioso (Marv Wolfman vai jogando os ganchos e ao mesmo tempo trabalhando o suspense, provocando o interesse dos leitores). “Nossa maior esperança residente tanto nos heróis quantos vilões lutando uns ao lado dos outros”, diz a figura misteriosa... e a moça é ordenada a percorrer as dimensões, coletando personagens que vão do Besouro Azul a Solovar, o macaco governante de Gorila City, passando pelo Superman da terra 2, um senhor de meia idade – o que nos leva a pensar qual o motivo para reunir figuras tão dispares e que tipo de impacto real eles poderiam ter sobre os acontecimentos.
![]() |
| Surge o Monitor. |
Esse grupo, reunido no satélite do Monitor, é atacado por figuras fantasmagóricas antes da aparição do próprio Monitor: “Eu os convoquei porque seus universos estão prestes a morrer!”.
Para além do belíssimo desenho de George Perez e sua destreza para desenhar dezenas de personagens em um só quadro, chama atenção o cuidado de Marv Wolfman ao construir o roteiro. Começar com uma sequência de impacto conquista o leitor logo de cara e depois cada elemento vai sendo colocado na história como um quebra cabeça, deixando sempre informações pendentes para o leitor, de modo a criar suspense.
A arte primorosa de Richard Hescox
Richard Hescox é um renomado ilustrador norte-americano,
celebrado por suas contribuições aos gêneros de fantasia e ficção científica.
Ele destaca-se como um dos principais expoentes do Realismo Imaginativo, estilo
que aplica o rigor técnico do realismo clássico para representar cenários
fantásticos, bebendo diretamente da fonte da arte pré-rafaelita.
Sua carreira profissional teve início em 1973, quando foi
recomendado à Marvel Comics pelo lendário Neal Adams. Para a editora, produziu
diversas capas em títulos como Monsters Unleashed e Conan.
Hescox migrou rapidamente para a indústria cinematográfica,
onde criou cartazes icônicos para filmes como E.T. O Extraterrestre, A Mosca, O
Cristal Encantado e Monstro do Pântano. Além disso, foi escolhido pessoalmente
por George R. R. Martin para ilustrar a edição limitada de A Fúria dos Reis
(Subterranean Press), projeto para o qual criou mais de 70 ilustrações.






































