quinta-feira, agosto 13, 2026

Camelot 3000 – Vida longa ao rei

 

 

O capítulo 12 da série Camelot 3000 começa desesperador. Os cavaleiros da Távola Redonda haviam invadido o décimo planeta, mas a empreitada parecia destinada ao fracasso. Lancelot havia sido, aparentemente, morto por Mordred, Tristão estava sendo esganado pelo seu antigo noivo e as tentativas de invadir o palácio de Morgana pareciam destinadas ao fracasso.

Tudo parece perdido. 


Como em toda boa história, os heróis vão do fracasso ao sucesso em poucas páginas e de maneira verossímil e empolgante (não, eu não vou dar spoiler de como isso acontece). Tudo que posso dizer é que é um final à altura dessa série, tanto em termos de desenho quanto de roteiro.

Merlim é libertado - uma das cenas mais impactantes da série. 


Mas, para além da qualidade do material original, algo que chama atenção é a forma como a Abril publicou essa história em Superamigos 6, a começar pela capa, que, ao invés de usar a capa original, usa uma colagem de duas cenas internas. Curiosamente, a colagem ficou boa, já que as duas cenas escolhidas estavam entre as mais impactantes da saga.

A história recomeça em um planeta alienígena. 


No entanto, a mudança que mais chama atenção foi a supressão de trechos da história original, mais especificamente do encontro final entre Tristão e Isolda. No final, Tristão aceita seu corpo feminino e ele e Isolda têm uma noite de amor. 

O final entre Tristão e Isolda... 


A cena original já era bastante sutil, mostrando apenas as duas deitadas na cama, de roupa, e abraçadas com alguns quadros menores que insinuavam uma relação sexual, mas os editores da Abril devem ter achado que teriam problemas e simplesmente cortaram o quadro. 

... foi censurado pela Abril. 


Para isso, eles fizeram uma montagem, juntando duas páginas em uma. Posteriormente, quando a série foi lançada em uma série em três partes, a Abril publicou a história sem cortes.

Quem foi Edgar Allan Poe?

 

 

Edgar Allan Poe é um dos mais importantes escritores norte-americanos e considerado pai não só dos relatos de terror, mas principalmente das narrativas policiais. Seu poema O Corvo é considerado um dos mais importantes da literatura norte-americana. Além de ter influenciado decididamente gêneros populares, como a ficção-científica, o terror e o policial, Poe também influenciou grandes escritores, como o argentino Jorge Luís Borges.
Poe nasceu em 19 de janeiro de 1809. Era filho de atores de teatro. O pai abandonou a família e a mãe morreu de tuberculose. O rapaz foi, então, adotado por John Allan, próspero comerciante da cidade de Richmond.
Quando era adolescente, Edgar apaixonou-se pela mãe de um amigo. A paixão era correspondida, mas impossível na sociedade puritana da época. A mulher acabou se matando. Esse fato marcou definitivamente os textos do autor, que sempre tinham algo de mórbida paixão.
Poe tentou a carreira militar, mas foi expulso por indisciplina e passou se dedicar exclusivamente à literatura. A publicação de seu poema O Corvo o transformou em astro literário. Posteriormente, ele escreveu uma análise do processo de criação de seu próprio poema, inaugurando a crítica literária nos EUA.
O escritor chocou o país ao se casar com a prima Virgínia, de apenas 13 anos, que morreu jovem.
Essa sucessão de fatos tristes fez de Poe o maior representante do romantismo mal do século, especialmente nos seus contos de terror.
Poe criou um tipo de terror em que nada de realmente terrível parecia acontecer, senão no interior dos personagens. Nos seus contos não havia monstros ou demônios, exceto os do espírito, como na história O demônio da perversidade. Nesse, um homem comete um crime perfeito. Só uma coisa poderia delatá-lo: o impulso incontrolável de gritar aos quatro ventos a própria culpa.
Os personagens de Poe eram perturbados e românticos como ele mesmo: gente apaixonada e impulsionada por seus delírios depressivos. 

Jornada nas estrelas - Síndrome de imunidade

 


A premissa de jornada permitia a criação de histórias realmente criativas. Uma delas é síndrome de imunidade, episódio da segunda temporada.

Na história, a Enterprise é chamada para verificar a situação de uma nave vulcana desaparecida.

Quando chegam ao local, descobrem que não só a nave foi destruída, mas todo um sistema solar.

O responsável parece ser uma criatura imensa, que começa a puxar a Enterprise rumo à destruição.

Sondas enviadas revelam uma verdade assustadora sobre a criatura: trata se de um ser unicelular que se alimenta da energia de outros seres. Em outras palavras: é um vírus infectando o universo e pronto para se replicar.

O ponto alto do episódio é a disputa entre Spock e McCoy pelo direito de pilotar a nave auxiliar em uma missão suicida para descobrir um ponto fraco na criatura, uma situação que acrescenta uma boa dose de suspense ao episódio.

Entretanto, embora a premissa fosse genial, a solução não está à altura. A forma como eliminam a criatura é mal explicada ou simplesmente não faz sentido dentro do conceito.

Homem-Aranha encontra Kraven, o caçador

 


Kraven, o caçador tornou-se um vilões mais célebres do homem-aranha depois da história A ultima caçada de kraven, de JM De Matteis e Mike Zeck. Mas esse personagem surgiu muito antes. Mais especificamente em The amazing spiderman 15, de 1963.

Na trama, o Camaleão quase é pego pelo Aranha e decide que precisa contratar alguém para eliminá-lo. Se você não sabe quem é o Camaleão, está desculpado. Embora esse fosse um dos principais vilões do aracnídeo nas primeiras histórias, com o tempo ele praticamente desapareceu.

O Camaleão resolve contratar Kraven, que surge em Nova York como celebridade. 


O Camaleão, cujo poder estava relacionado ao disfarce, refletia: “Ele é perigoso demais para mim, e ninguém seria louco para atacá-lo para me ajudar!”. Nesse momento ele lembra de alguém seria louco o bastante: Kraven, o caçador.

Curiosamente, quando o personagem aparece pela primeira vez na história, ele é uma celebridade a ponto de JJ Jameson ter ido pessoalmente ao porto recebê-lo, levando Peter Parker para registrar o momento.

Ditko e Lee aproveitam essa chegada para mostrar as habilidades de Kraven: Jaulas que estavam sendo retiradas no navio desabam, liberando feras selvagens, como cobras e gorilas. Kraven os captura um a um, para delírio da galera. Um acontecimento muito conveniente para o roteirista, eu diria.

Um acidente permite a Kraven mostrar sua habilidades. Isso que chamo de roteirismo. 


Mas a grande fera que o caçador quer capturar é ninguém menos que o Homem-Aranha. Para isso ele coloca na mão e no pé direitos do herói algemas magnéticas, que não só tendem a se aproximar como ainda têm sininhos embutidos que tocam quando ele se mexe.

O herói está em apuros, pois não só as algemas tendem a imobilizá-lo, como ainda alertam o vilão sobre sua posição. Mas as sequências em que o herói está em desvantagem duram pouco. O aranha joga fluído de teia nas algemas anulando os sininhos e a partir daí domina a caçada.

É inevitável pensar no seguinte: como Kraven tivera tecnologia para desenvolver algemas magnéticas, mas não tivera a ideia de fazer algum mecanismo eletrônico de som, ao invés de depender de sininhos que poderiam ser silenciados com teia?

Kraven inventa algemas tecnológicas e coloca sininhos nelas. Sim, sininhos. 


Assim que o aracnídeo consegue prender o caçador em sua teia, aparece a polícia e prende não só ele, como o camaleão: “Eu não fiz nada! É o Kraven que vocês querem! Ele anda caçando seres humanos!”.

De novo fica a pergunta: por que a polícia leva Kraven preso, já que a única prova contra ele era o relato do aranha, que a essa altura já tinha se escondido para tirar fotos? E como o camaleão, que antes parecia um vilão frio, resolve confessar a trama, assim, sem mais nem menos?

Entretanto, a narrativa visual de Ditko e o texto de Lee eram tã divertidos que os leitores tendiam a ignorar essas inconsistências do roteiro.

A origem do Capitão América

 

      Depois da I Guerra Mundial e a cri­se 1929, que outro tipo de catás­trofe poderia se abater sobre o mundo? A II Guerra Mundial.
    O mundo tinha um vilão que, apesar de não ter saído das páginas dos gibis, tinha várias se­melhanças com personagens de quadrinhos: era ridículo e extrema­mente maligno. Chamava-se Hitler e o grande sonho dos garotos da América era ver um herói dando um soco em suas fuças. Foi essa a idéia que o rotei­rista Joe Simon teve. Martin Goodman, chefão da Timely (atual Marvel) gos­tou tanto da idéia que resolveu lançar uma revista às pressas. O artista esco­lhido para ilustrar essas histórias foi Jack Kirby - que logo se tornaria uma lenda, influenciando toda a geração de desenhistas da futura Marvel.
    Simon e Kirby sabiam que tinham ouro nas mãos, tanto que fizeram várias exigências. O personagem deveria estrear em revista própria, e não em uma antologia. Os criadores ficariam com 15% dos lucros e teriam cargos assalariados, como editor e diretor de arte. Goodman concordou com tudo.
      O primeiro número chegou às bancas em fevereiro de 1941 e foi um sucesso. A primeira edição se esgotou em poucos dias. A edição seguinte foi de um milhão de exemplares e também esgotou. O Capitão América tornou-se o gibi mais vendido do período da guerra, mas também provocou muita polêmica. Joe Simon conta que a editora foi inundada por uma torrente de cartas de ódio e telefonemas obscenos cujo teor era: “morte aos judeus!”.  O prefeito de Nova York mandou uma guarnição pa­ra proteger os artistas e telefonou pes­soalmente, felicitando-os pelo seu trabalho na revista.
Os editores incentivavam os leitores a criarem clubes e servirem ao país como bons super-heróis. Essa iniciativa publicitária tomou tons bizarros quando crianças começaram a denunciar colegas ou parentes como espiões apenas por eles terem nomes com pronúncia germânica.
       Os artistas, entretanto, só foram perceber a extensão do sucesso do personagem quando começaram a apare­cer uma porção de imitadores. Surgiram o Capitão Bandeira, o Capitão Liberdade e a Águia Americana. A editora chegou a publicar uma ameaça de ação legal nas páginas da revista: ¨Cuidado, imitadores! Só há um Capitão América!¨.
    Mas Martin Goodman não parecia muito disposto a manter o acordo e, quando Simon e Kirby perceberam que estavam sendo passados para trás, foram para a National (futura DC Comics), onde criaram o último sucesso da guerra: Os Boys Comando.
    Stan Lee tentou conti­nuar as histórias do Capitão América, transformando-o num professor que combatia o crime nas horas vagas.
    Kirby e Simon ficaram tão furiosos com o fato de estarem usando seu personagem que resolveram criar uma paródia: o Fighting Amerícan, um super-herói que enfrentava vilões inap­tos, com nomes ridículos, como Super-Khakalovitch e Hotsky Trotsky.
    Evidentemente, a versão de Stan Lee não deu certo e a própria Marvel passou a desconsiderá-la.
    Lee só iria acertar em 64, quando recriaria o Capitão juntamente com Jack Kirby, tentando explicar toda a bobagem que tinha sido feita até ali com o personagem.
    O     Capitão América foi o primeiro personagem de HQ a assumir um discurso político, mas não foi o único a combater na II Guerra Mundial.
    Quase todos os personagens da época de Tarzã ao Spirit atuaram na guerra, em favor dos aliados.
    O Fantasma passou a enfrentar japoneses que invadiram a sua floresta e até Flash Gordon voltou do planeta Mongo para combater os nazistas.

A origem do deus do Trovão

 

 Stan Lee tinha uma estratégia para conquistar novos leitores: de tempos em tempos ele recontava a origem dos heróis, apresentando-os a novas gerações.

A história O nascimento de um deus, publicada em Thor 158 e 159, é um exemplo disso. Lee aproveita não só para recontar a origem de Thor, como ainda resolve um problema narrativo.
O personagem havia surgido como um herói convencional: o Dr Donald Blake descobre um cajado em um caverna e, ao batê-lo no chão, tranfrorma-se no poderoso deus do trovão. Ocorre que aos poucos os limites do gênero super heróis se mostraram uma mordaça, em especial para Kirby, que queria cada vez mais abordar a mitologia nórdica nas histórias.
A história reconta a origem do personagem e explica incoerências. 

Ficava o problema: onde estava Thor antes de caverna? Como explicar que um deus da mitologia surgira naquele momento enquanto todos os outros do panteão nórdico existiam há séculos? 
Lee e Kirby resolvem a situação de maneira inteligente: na verdade, o médico manco era uma estratégia de Odin para ensinar humildade ao deus do trovão. E usam de um estratégia marota: ao invés de refazerem a origem do personagem, utilizam a primeira HQ do personagem, de 1962, como flash back. Alan Moore iria adotar uma estratégia parecida em uma das edições  de Miracleman.
No Brasil essa história foi publicada na revista A origem dos Super-heróis Marvel 3, da editora Abril.

Liga da Justiça – O Diamante do Fim do Mundo

 


O roteirista Gardner Fox vinha da literatura de ficção científica, e essa bagagem se refletia claramente em suas histórias para a Liga da Justiça, como podemos observar na edição número 4 do título.

A trama começa no espaço longínquo, quando uma nave é atacada e destruída, mas seu ocupante sobrevive. Descobrimos que se trata de Cartham, um herói de guerra de seu povo que, ao explorar um planeta deserto, foi atingido por um distúrbio eletromagnético que o tornou indestrutível. Temendo que Cartham lidere uma revolta, Xandor, o ditador de seu planeta, resolve exilá-lo.

A história tem um forte toque de ficção científica. 


Esse início remete diretamente às histórias de Flash Gordon, inclusive pelo traço de Mike Sekowsky, cujo estilo parece uma junção de Alex Raymond e Dan Barry — dois desenhistas emblemáticos do herói espacial. É um começo empolgante, apesar de alguns clichês da época, como o vilão vangloriando-se de chefiar uma ditadura ou pedindo para o astronauta explicar detalhadamente o que o tornou invulnerável.

Sem poder eliminar seu oponente, Xandor decide exilá-lo na Terra, mas arma uma armadilha: antes de o astronauta chegar, três máquinas serão enviadas para impedi-lo de partir (caso tente, ele ficará cego). A única forma de Cartham ir embora seria desativar a cobertura das máquinas, mas isso provocaria a extinção de toda a vida na Terra.

As ameaças são espalhadas pelo mundon para que os heróis se dividam. 


Complicado, não? Naquela época, os vilões pareciam dedicados a elaborar planos mirabolantes destinados a falhar, quando poderiam simplesmente prender o exilado em um planeta deserto.

Mas, sendo uma história da Liga da Justiça, era necessário integrar o grupo à trama. Como, por uma razão não explicada, Cartham não pode pedir ajuda direta, ele aciona as máquinas para atrair a atenção dos heróis e, no processo, sequestra o Arqueiro Verde. A razão extraoficial? Os editores tinham decidido incluir o Arqueiro na equipe e precisavam de um pretexto para introduzi-lo.

Em tempos de Comics Code, tudo que os heróis podiam enfrentar eram animais gigantes... 


A partir daí, a história recai na fórmula clássica: as máquinas são espalhadas pelo mundo, obrigando a Liga a se dividir em duplas, cada uma enfrentando uma ameaça específica. Sob a vigência do Comics Code, que restringia a violência, os personagens enfrentavam animais ou bonecos dourados gigantes. Tudo era arquitetado para que cada herói confrontasse sua fraqueza: Ajax (Caçador de Marte) tinha seus poderes limitados pelo fogo, o Lanterna Verde não podia agir sobre objetos amarelos (ou dourados), e assim por diante.

... e bonecos dourados. Todos relcionados à fraqueza do herói, 


Ao final, fica a impressão de que esta história — bem escrita e bem desenhada — poderia ter sido uma obra muito mais profunda, não fossem as limitações editoriais e censórias da época.

quarta-feira, agosto 12, 2026

Confira o processo de produção da primeira história do Cabano

 



Cabano é um personagem  surgido no meu livro Cabanagem. Este ano, o herói ganhou sua versão em quadrinhos desenhado pelo grande Juliano Kaapora e publicado na revista Mestres do Terror (pedidos podem ser feitos pelo e-mail revistacalafrio@gmail.com). Na primeira história ele enfrenta a Cobra Grande. Em histórias futuras ele encontrará com diversos outros seres da floresta, entre eles o Curupira, a Matinta, o Mapinguari, entre outros. 

Confira abaixo como foi o processo de produção de uma página da HQ. 


O roteiro 

O roteiro descreve as cenas para o desenhista e apresenta os diálogos e textos. É o primeiro passo da produção de uma história em quadrinhos. Aqui pegamos o roteiro da página 4.  


Página 4

Q1 – O cabano fugindo, mas vemos ao fundo duas luzes, como se fossem dois faróis, mas são os olhos da cobra grande.

Texto: Seus pés tocam rápido a terra escavada há milênios enquanto o pesadelo vivo o persegue implacavelmente.

Texto: Embora não o veja, o cabano sabe que ele está ali, aproximando-se rapidamente.

Q2 – O cabano atirando. Minha ideia é mostrar ele de frente, como se o leitor estivesse na frente dele.

Texto: Ele se vira e atira.

Q3 – O cabano correndo pelos túneis.

Texto: Ele sabe que o tiro não irá matar a criatura. Talvez ela nem mesmo possa ser morta. Talvez seja mais velha que o tempo. Mas talvez lhe dê alguns segundos preciosos.

Q4 – O cabano fugindo e, na frente dele uma luz, como se fosse uma saída do túnel para o ar livre.

Texto: Luz. Há uma saída. Ele apressa o passo, o ar queimando em seus pulmões, rezando para que ainda haja tempo.  Ele pode ouvir o arrastar demoníaco da serpente cada vez mais próximo.


O rafe 

O rafe é um esboço do desenho. Serve como guia para a produção da história. Nesse caso, o rafe foi enviado para mim e eu e o desenhista discutimos mudanças. 


A página finalizada 

Aqui temos a página já com arte-final. Observe que o rafe foi seguido, exceto no terceiro quadro. A ideia de fazer a cobra se enrolando no quadro e vermos o Cabano através dela deu mais dinamismo e grandiosidade para a cena. 

X-men – O inferno não pode esperar!

 



Na Marvel era comum vilões se transformarem em heróis. Se os leitores simpatizassem com eles e expressassem isso com cartas, Stan Lee prontamente fazia com que eles mudassem de lado. Isso aconteceu com a Viúva Negra e o Gavião Arqueiro. Mas heróis que se transformavam em vilões era algo muito raro. Na década de 1970 Jim Starlin fez com que Warlock enfrentasse uma versão maligna de si mesmo do futuro. Mas não era mostrado o processo em que o herói se transformava em vilão.

Talvez por isso, por detalhar todo esse processo, a transformação da Fênix em vilã foi o um evento que marcou muito os fãs.

O momento em que a Rainha Negra aparece pela primeira vez é um dos mais marcantes da saga. 


A personagem vinha sendo tentada por supostas recordações de uma antepassada escravista nas edições anteriores. Mas foi em The Uncanny X-men 132 que a personagem de fato foi mostrada como vilã, a Rainha Negra. Foi esse número que sacudiu o universo Marvel e transformou definitivamente os mutantes nos personagens mais populares da casa.

A capa da edição já causava um grande impacto, ao mostrar os X-men derrotados pelo Clube do Inferno em um desenho no melhor estilo John Byrne.

A edição também marca o protagonismo de Wolverine. 


Na história, os X-men, que haviam sido atacados pelo Clube nas edições anteriores, resolvem invadir uma festa de forma anônima. Mas são reconhecidos e atacados pelos vilões. Mesmo assim, eles venceriam facilmente não fosse por um fator: em determinado momento Jean Grey, influenciada pelo Mestre Mental, une-se ao Clube, tornando-se a Rainha Negra, e ajuda a derrotar os amigos.

O momento em que ela, usando uma roupa fetichista (que destoa completamente da personalidade meiga de Jean Grey) derruba o amado Cíclope é um dos mais impressionante dos quadrinhos de heróis de todos os tempos.

Perry Rhodan – Mundo de gelo em chamas

 

O número 33 da série Perry Rhodan destaca-se dos demais por abordar um tema delicado e, ao mesmo tempo essecial: o genocídio de uma raça inteira.

Na trama, Perry Rhodan acabou de voltar do planeta Peregrino e trouxe com ele uma arma impressionante: o transmissor fictício, capaz de transportar uma bomba atômica para dentro de qualquer nave, ultrapassando suas defesas energéticas.

Mas os perigos agora são dois: de um lado o clã dos superpesados querem dominar ou destruir a terra, do outro lado, o clã de Etzatak está prestes a destruir o mundo de gelo, onde se encontra abrigado Jullian Tifflor, Gucky e mais um grupo.

Quem se destaca no livro é justamente Gucky, que descobre uma civilização escondida nos recondidos do planeta gelado: os sonolentos, uma raça vegetal parecida com tulipas. Com seu texto primoroso, Clark Darlton faz uma ótima descrição dos mesmos: “Os longos talos sustentavam enormes coroas, que se mantinham fechadas. O formato típico das tulipas era inconfundível. O vermelho e alaranjado dominavam o quadro, mas também havia flores azuis, amarelas e roxas (...) têm pés delicados, que também desempenham a função de raízes. Podem mergulhar os pés no solo a fim de absorver água e alimentos. No verão, levam vida nômade, andam de um lugar para o outro”. Polisexuados, os casais de sonolentos são compostos por cinco indivíduos. Esses seres vegetais são também telepatas de elevada potência.

A capa original alemã. 


Quando percebe que foi enganado (Tifflor era apenas uma distração para que Perry Rhodan tivesse tempo de conseguir a arma com a qual venceria os adversários), o saltador Etzatak ordena a destruição do planeta gelado, lar dos sonolentos – e aqui a história ganha não só em suspense e drama, como também torna-se uma metáfora de todos os povos que já foram exterminados, a exemplo dos indígenas quando da ocupação das américas.

A descrição que Darlton faz do extermínio dos sonolentos é tocante: “No mesmo instante as moças sentiram-se dominadas por uma onda de pânico, emitidas pelos sonolentos morimbundos. As ideias que brotaram na mente da raça condenada à morte penetraram nos cérebro dos homens, enchendo-os de pavor e tristeza”.

Apesar de todas as qualidades, o livro tem uma nítida falha: Rhodan fica sabendo da existência dos sonolentos em um período em que Tifflor e Gucky estavam desaparecidos e, portanto, não poderiam ter repassado essa informação à frota.

Simbad na Marvel?

 

 Em 1984, eu tinha 13 anos e dinheiro apenas para comprar uma única revista – Superaventuras Marvel, a que eu colecionava. Comprar qualquer outra publicação, só se fosse em sebos, ou encalhadas em bancas. Funcionava assim: você percebia que determinada revista que você queria não tinha sido recolhida e ficava monitorando, esperando que a inflação corroesse seu valor e torcendo para que ninguém mais tivesse a mesma ideia.

Foi assim que eu comprei a Heróis da TV 66. A revista tinha trabalhos de alguns craques da Marvel, como John Buscema e Gerry Conway no Thor, e David Michelinie e John Romita Jr no Homem de Ferro.
O desenhista filipino conseguia mostrar toda a magia das mil e uma noites.

Mas o que me chamou realmente a atenção foi uma história de Simbad. O que estaria fazendo Simbad numa revista Marvel? Seria o mesmo Simbad dos filmes da sessão da tarde? Ainda por cima a história era escrita pelo desconhecido John warner e ilustrada pelo ainda mais desconhecido Sonny trindad. Mas quando fui ler, descobri que era a melhor história do gibi. Não tanto pelo roteiro, cheio de falhas. Warner parecia não dominar o ritmo da história e e alguns momentos usava textos enormes para narrar vários fatos, pulando sequências inteiras. Para piorar, a pessoa responsável pelo balonamento tinha trocado dois desses textos de lugar, de modo que a sequência pulava de Simbad iniciando uma viagem para outra em que sua esposa, Princesa Parisa, entrava numa lâmpada mágica e conversava com um gênio.
Os textos foram trocados de lugar. 

O que de fato me espantou na história foi o desenho do filipino Sonny Trindad. Na época eu nem sabia que filipinos desenhavam para a Marvel. Mas era nítido demais que aquele traço não era de um americano. E era um traço lindo. Trindad desenhava mulheres como ninguém, conseguia repassar toda a ideia de luxo e misticismo que imaginamos nas histórias de mil e uma noites. Até mesmo os textos imensos e maçantes eram emoldurados por belíssimas ilustrações detalhadas.
Essa história foi publicada em Marvel Spotlight 25, de 1975. Infeizmente a capa não era de Trindad.

Sandman – A série televisiva

 


Durante anos os fãs de Sandman esperaram uma série ou um filme do Mestre dos Sonhos. Mas, enquanto personagens secundários da série, como Lúcifer, ganhavam sua versão áudio-visual, Morpheus parecia nunca ter sua chance na tela, seja pequena ou grande.

Agora descobrimos porque isso aconteceu. Neil Gaiman esperava a possibilidade de ter controle sobre sua criação, o que finalmente aconteceu com a série recentemente lançada pela Netflix , na qual Gaiman atuou como produtor executivo, roteirista e consultor. Há relatos de que ele interferia até mesmo na direção de atores, repreendendo constantemente o ator: Tom Sturridge: “Você não é o Batman!”.

O resultado é uma extremamente fiel aos quadrinhos a ponto de muitas vezes parecer que estamos vendo uma versão animada dos quadros.

Em alguns casos, a versão do seriado é melhor que a dos quadrinhos, pois o tempo da série, sendo maior que a de uma revista de 24 páginas, permite que os roteiristas consigam explorar melhor os personagens e situações.

Exemplo disso é o capítulo cinco, que adapta a história 24 horas. Até então o seriado vinha trabalhando com várias narrativas paralelas. Nesse episódio, a ação foca apenas na lanchonete na qual está o Doutor Dee com o rubi dos sonhos, criando uma uma utopia às avessas em que todas as regras de civilidade são dispensadas. A estratégia, inteligente, cria uma sensação de claustrofobia, como se o expectador estivesse ali, preso junto com os clientes da lanchonete. Detalhe: a atuação de David Thewlis é fenomenal como Doutor Dee.  

Outro episódio memorável – e que também acaba sendo melhor que a HQ, é O som das asas dela, que mostra o encontro de Sonho com sua irmã, a Morte. A atuação de Kirby Howell-Baptiste é marcante e dá o tom de alegria e acolhimento que a personagem exige. Além disso, sequências como a do violinista ganham muito quando o receptor consegue ouvir o som. De forma inteligente, os roteiristas conseguiram ligar esse episódio a um conto de Sandman no qual ele encontra o homem que não morre. As duas histórias têm o mesmo tom emotivo e sensível.

Embora o seriado seja muito fiel aos quadrinhos, temos visto muitas pessoas reclamando das “mudanças”, que na visão delas “estragariam” essa versão.  Neil Gaiman tem dito que quem está reclamando das mudanças ou não leu, ou não entendeu os quadrinhos – e minha tendência é concordar com ele. Todas as mudanças no seriado já estavam implícitas na obra original.

Nos quadrinhos, os perpétuos são mostrados como seres antropormóficos que são vistos de forma diferente ao longo da série: negros, brancos, asiáticos. Aliás, até mais que antropormóficos, já que em um dos episódios mais célebres, “Um sonho de mil gatos”, Morpheus é mostrado como um gato. Diante disso, é difícil entender quem reclama que a Morte seja interpretada por uma atriz negra. Ela poderia ser interpretada por uma atriz latina, asiática, marciana – e ainda continuaria sendo a Morte. Aliás, Gaiman tem afirmado que escolheu a atriz pelo teste de câmera: ela foi quem se saiu melhor, o que percebemos por sua atuação soberba no episódio seis.

Em alguns casos as mudanças foram uma necessidade da produção, como aconteceu com John Constantine, que já estava comprometido com outra série e não poderia ser usado em Sandman. Gaiman trocou-o por Joana Constantine, uma personagem que já tinha aparecido nos quadrinhos. Aliás, a personagem agradou a ponto de muitos estarem sugerindo uma série prequel com ela – essa proposta tem todo o meu apoio.

Outra crítica comum é dizer que o seriado estaria forçando na lacração, como em colocar Joana Constantine como lésbica. Quem faz essa crítica esquece que Sandman foi o primeiro quadrinho do mercado de comics a mostrar uma personagem abertamente lésbica, isso no número 6 da revista, portanto no primeiro arco.

Sejam por necessidade ou não, a maioria das mudanças ou é indiferente ou acrescentou algo ao material original.

Em tempo: Sandman  parece estar agradando. O seriado está em primeiro lugar na Netflix em dezenas de países.  O lado ruim disso é que com certeza agora os quadrinhos ficarão ainda mais caros. Quem tem a coleção original da editora Globo, como eu, que guarde bem guardado.