terça-feira, julho 14, 2026

Cavernas de aço

 



O livro Cavernas de aço surgiu quando um editor pediu a Isaac asimov um romance de robôs. Mas pediu um romance no qual a terra estava super povoada e os robôs estavam tirando os empregos dos humanos. Quem conhece asimov sabe o quanto um plot desses seria indigesto para ele. 
Antes de Asimov, a maioria das histórias de FC mostrava os robôs como vilões que iriam destruir a humanidade. O escritor o mostrou com um olhar compassivo sobre os robôs e inventou as três leis da robótica:  1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; 2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e 3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.
Assim, uma história em que robôs estão tirando o emprego de pessoas de carne e osso é o tipo de coisa que ele jamais se interessaria em escrever. Mas o editor deu uma ideia interessante: que tal um romance policial em que um detetive precisa resolver a situação junto com um robô? Esse plot parecia muito mais interessante e dava muitas outras possibilidades de abordagens. 
O resultado foi Cavernas de aço, livro lançado pela editora Aleph. Na história, os humanos colonizaram alguns mundos onde a tecnologia se desenvolveu de maneira extraordinária, ultrapassando a própria Terra. Já em nosso planeta todos vivem em cidades imensas com ar condicionado e um grupo saudosista, chamado medievalistas se torna cada vez mais popular.
Os medievalistas querem a volta da humanidade para uma época anterior às grandes cidades e têm verdadeiro pavor de robôs. 
Um grupo de exteriores funda uma cidadela nas fronteiras de nova York e, quando um cientista é morto, o frágil equilíbrio entre a Terra e os mundos exteriores pode ser quebrado. Para solucionar o caso é destacado um policial e um robô construído pelo cientista morto. 
Asimov consegue produzir um romance policial com praticamente nenhuma ação, baseado apenas em que questões científicas e de lógica. Ele consegue equilibrar bem a questões sociológicas envolvidas em sua visão otimistas sobre a ciência e a tecnologia. A relação entre detetive e robô vai se desenvolvendo do estranhamento inicial ao ponto em que se tornam verdadeiros parceiros. 
Só pelo fato de mostrar um outro lado de Asimov, o escritor policial, cavernas de aço já vale a pena. 
Vale citar parte do texto da introdução, escrita por Asimov, que, de certa forma, resume toda a filosofia do livro: “Mesmo quando eu era jovem, não conseguia acreditar que, se o conhecimento oferecesse perigo, a solução seria a ignorância. Sempre me pareceu que a solução tinha que ser a sabedoria. Qualquer avanço tecnológico pode ser perigoso. O fogo era perigoso no princípio, assim como (e até mais) a fala – e ambos ainda são perigosos nos dias de hoje -, mas seres humanos não seriam humanos sem eles”.

A morte do Super-homem e o deus ex-machina

 

A morte do Super-homem é um ótimo exemplo de deus ex-machina

A morte do Super-homem foi um sucesso estrondoso. Vendeu milhões de exemplares na década de 1990. No entanto, a grande maioria das pessoas que comprou na época hoje, ao reler, considera essa uma história ruim do personagem.
A razão disso é um deus ex machina.
Deus ex machina é qualquer solução que não faça parte da lógica da história. É um recurso que destrói o pacto de verossimilhança, pois o leitor percebe que há algo errado ali, algo parece não fazer sentido.
A maioria das pessoas costuma imaginar o deus ex machina como uma solução para salvar o herói. O protagonista está prestes a ser enforcado quando aparece do nada alguém para salvá-lo. Mas a morte do Super-home mostra que o deus ex machina pode ser também o oposto: alguém que aparece do apenas para matar o personagem.
A história dessa saga é atribulada.
Nos anos 1990 o departamento de marketing das editoras exigia eventos sensacionalistas que ajudassem a vender os gibis. A equipe do Super-homem decidiu casar o personagem. Mas surgiu uma dificuldade: na época o homem de aço tinha um seriado live action de sucesso e iria se casar com Lois Lane, mas só no ano seguinte. Se ele casasse nos quadrinhos, teria que ser em sincronia com o seriado.
Foi quando tiveram a ideia de matar o Super-homem. Mas o prazo era curto, então a solução foi simplesmente introduzir do nada um personagem super-poderoso que não fala uma única palavra durante toda a história, derrota todos os super-heróis (sem matar nenhum) e finalmente mata o Homem de aço. Apocalipse parecia ter sido criado com um único objetivo: providenciar a necessidade que os roteiristas tinham de criar um evento bombástico criado não só para vender gibis, mas também bonequinhos.
O personagem Apocalypse surge do nada, apenas para matar o homem de aço.

Um personagem tirado da cartola que derrota todo mundo, mas não mata ninguém além do Super-homem é um ótimo exemplo de um deus ex machina. Uma falha do roteiro que se tornou ainda mais evidente quando o personagem simplesmente voltou da morte.
Na contramão da correria que foi a morte do Super-homem temos uma das melhores sagas dos quadrinhos de super-heróis, a saga da Fênix Negra.
No número 125 da revista X-men, Claremont mostra Moira realizado testes com a Fênix e o diálogo posterior mostra ambas preocupadas que o poder imenso da personagem possa sair do controle. No número seguinte, uma “alucinação” mostra Jean Grey caçando um homem vestido de cervo, o que já demonstra o lado negro da personagem vindo à tona. A personagem pensa: “Um homem?! Eu queria matá-lo! Estava prestes a... o que está acontecendo comigo?”.
A saga da Fênix é um exemplo de solução dentro da lógica da história.

Assim como esse, vários outros indícios de que há algo errado com a personagem vão sendo mostrados até que ela se alia ao Clube do inferno na edição 132. Quando no número 134 ela se transforma na Fênix Negra, uma das maiores vilãs que o universo Marvel já conheceu, o leitor lê e pensa: “Sim, isso faz sentido. Ela era uma heroína, mas eu acomapanhei sua transformação em vilã”.
Claremont e Byrne levaram nove números construindo a lógica da história, de modo que o surgimento da Fênix Negra parece consequência óbvia do que veio antes.
Não é à toa que a Saga da Fênix é até hoje considerada uma das melhores histórias de super-herois de todos os tempos, e parece melhor a cada leitura. Ao contrário da morte do Super-homem.

Jornada nas estrelas: Metamorfose

 


McCoy, Kirk e Spock estão voltando para a Enterprise levando uma comissária acontemetida de uma grave enfermidade e que morrerá se não for tratada. É quando a nave auxiliar é interceptada por uma criatura energética e forçada a pousar em um planeta próximo. Lá eles descobrem um ser humano que se revela ser o criador da dobra espacial. Mas ele deveria estar morto há muitos anos? Como ainda estava ali, vivo?
Esse é o enredo de “Metamorfose”, episódio da segunda temporada da série clássica. O enredo parece interessante e tem aquele sense of wonder que iria caracterizar alguns dos melhores episódios de Jornadas. No entanto, o resultado é um episódio arrastado, que parece ter sido pensado para metade do tempo de tela.
É também um episódio em que a maioria das coisas não se encaixa. Descobre-se que Cochrane, o criador da dobra espacial, foi salvo e rejuvenecido pela criatura energética chamada Companheiro e foi o Companheiro que levou a Galileu ao planeta, para que o seu parceiro tivesse companhia humana.
Aí começam os problemas. Primeiro Kirk e Spock tentam matar a criatura (em total contradição com outros episódios em que o encontro com “monstros” é resolvido com diálogo e compreensão de suas motivações). Quando finalmente decidem conversar, tentam convencer Companheiro a salvar a comissária e ele se recusa dizendo que não pode. Ora, se ele salvou Cochrane da morte, porque não pode também salvar a comissária? Qual o sentido de levar companheiros para Cochrane e deixá-los morrer? Quando Kirk descobre que o companheiro na verdade é companheira, Cochrane se revolta e diz que foi usado, mas quando a criatura entra na comissária, ele aceita a situação e até se apaixona por essa junção das duas – paixão instantânea!
A impressão que dá é que o roteirista Gene L. Com pensou num conceito interessante, mas não conseguiu desenvolvê-lo.

Capitão César: o soldado da fortuna

 

Embora Dick Tracy, Buck Rogers e Tarzan sejam considerados os inciadores dos quadrinhos de aventura, eles tiveram um antecedente nobre. Trata-se de uma tira de humor, que, com o tempo, transformou-se em uma HQ de aventura: o Capitão César, de Roy Crane.

Crane nasceu em 1901, no Texas. Aos 14 anos fez um curso de desenho por correspondência com Charles Landon. Quando terminou o ginásio, foi para a Chicago Academy of Fine Arts, onde conheceu o amigo Leslie Turner. Desgostosos com a monotomia acadêmica, os dois resolveram voltar para casa, pegando carona nos trens de carga. Essa aventura depois renderia argumentos para algumas de suas histórias.
Ele trabalhou então como repórter e depois embarcou num cargueiro para a Europa. De volta à América, resolveu criar uma tira de quadrinhos cômicos chamada Washington Tubbs (depois abreviado para Wash Tubbs), mas seu humor caipira não agradava aos editores, que o aconselharam a procurar o sindicate Newspaper Enterprise Association. Por sorte, o diretor desse sindicate era justamente o dono do curso que Crane fizera na adolescência, o que lhe valeu um contrato.
No início a tira era humorística e focada no persoagem Wash Tubbs


A primeira tira é publicada em 21 de abril de 1924. O protagonista era um indivíduo baixinho e de óculos, lembrando vagamente o comediante Harold Lloyd. As primeira sequências são de humor rápido com Wash trabalhando em uma mercearia e namorando a filha do patrão, mas logo Crane colocou seu herói dentro de um navio em direção aos mares do sul à procura de um tesouro.
O enfoque passa a ser, então, a aventura. Em uma de suas peripécias, o personagem resgata numa masmorra um prisioneiro, capitão Easy. Ele se alia ao protagonista e os dois começam a viver grandes aventuras juntos. Crane vai abandonando aos poucos não só o tom humorístico, mas também o traço caricato. Seu desenho vai ganhando um incrível tom realista, em especial pelo uso papel craftint, que permite ao autor criar texturas que ressaltam o desenho. Ninguém jamais usou essa técnica de forma tão primorosa quanto Roy Crane.
Roy Crane era um mestre da retícula. 


Por fim, o autor resolve se livrar o personagem humorístico, que se casa, e a tira passa a se chamar simplesmente Capitão Easy (Capitão César, no Brasil). O grande momento do personagem é durante a II Guerra Mundial. O Capitão recebe a missão de descer de paraquedas na França ocupada e resgatar um cientista preso em um campo de concentração nazista. Há alguns aspectos irreais, como o fato do alto comando Aliado escolher alguém que não fala francês para a tarefa, mas as situações de suspense e ação compensam. César entra no campo, se faz passar por prisioneiro e, finalmente, liberta o cientista, levando-o para a Inglaterra. Mas antes disso ele corre sério risco de ser descoberto pelos alemães e só a imaginação de Crane consegue livrá-lo desse sério risco.
Por ter começado como tira de humor, Wash Tubbs não é considerada a primeira HQ americana de aventura, mas sem dúvida foi a primeira que usou corretamente o gênero e foi uma das que melhor o exploraram.
Posteriormente Roy Crane foi para a King Features Syndicate, para a qual criou Jim Gordon, um aviador durante a guerra que depois se transforma em agente secreto norte-americano no período da guerra-fria. Apesar do exagerado tom ideológico, essa tira conseguiu manter o mesmo nível de qualidade de Capitão César, com os desenhos de Crane melhorando a cada ano. 
Pela qualidade da sua obra, Crane recebeu o prêmio Reuben em 1959 e, em 1974, o Yellow Kid no Salone Internazionale dei Comics em Lucca, Itália.

Homem-aranha, Jacketa Amarela e Vespa contra Equinox

 

A revista Marvel team-up mostrava encontros do Homem-aranha com heróis da Marvel. Era uma forma de ter uma revista a mais do aracnídeo e ao mesmo tempo dar uma elevada na popularidade de novos personagens ou personagens menos famosos. A melhor fase dessa revista foi quando a equipe criativa era composta por Chris Claremont no roteiro e John  Byrne no desenho, como podemos ver nos números 59 e 60. Na trama, amigo da vizinhança é atacado por um vilão misterioso que primeiro o frita com uma rajada de fogo e depois com uma pedra de gelo.

Quem vai em socorro é Henry Pym, o Jaqueta amarela. O fato interrompe um encontro romântico deste com Janet, sua esposa, a Vespa.

O vilão tem poderes de fogo e de gelo. 


O aracnídeo havia sido atacado por Equinox, um vilão termodinâmico, cujo corpo passa por variações extremas, indo do fogo ao gelo.O vilão segue os heróis até o apartamento de Pym e depois destrói boa parte da cidade.

Com enfrentar alguém tão poderoso? Balas não conseguem atingi-lo: ou derretem no calor extremo ou se chocam contra o gelo duríssimo.

A dupla Claremont-Byrne transforma esse mote numa trama movimentada, que alcança seu auge no momento em que os heróis estão no prédio do Quarteto Fastático e a falta de energia faz com que todo o sistema de segurança do prédio se volte contra eles.

Uma das melhores sequências ocorre quando os heróis são atacados no edifício do Quarteto. 


Claremont também aproveita para explorar melhor os personagens, em especial da Vespa, que passa por uma mudança importante nessa história. Tudo isso em meio à ação desenfreada.

Publicada em 1977 essa história já antecipava os grandes momentos da dupla nas histórias dos X-men.

segunda-feira, julho 13, 2026

Livro de Gian Danton vira alegoria do Caprichoso

 

A alegoria de Chico Patuá realizada pelo Boi Caprichoso. 

 Na noite do dia 29 de junho de 2024 recebi uma mensagem do amigo Romahs, de Manaus: "Parabéns pela homenagem!". Ele estava vendo, ao vivo, o Festival de Parintins, quando se deparou com uma alegoria em referência ao Chico Patuá, personagem do meu livro Cabanagem, publicado em 2020. 

Surpreso, comecei a pesquisar. A alegoria contava toda a história do meu livro: Chico Patuá fugindo dos soldados, o vilão Dom Rodrigo sendo tirado da prisão e perdoado com a condição de que prendesse Chico, as encantarias. 

A descrição da alegoria, na revista do Caprichoso. 


Na semana seguinte, consegui finalmente contato com a diretoria do Caprichoso, que me confirmou que a alegoria foi baseada na minha obra. 

O assunto ganhou grande repercussão na mídia amapaense. O G1 anunciou: "História de escritor do Amapá vira alegoria do 'Boi Caprichoso', tricampeão do Festival de Parintins".

O resumo publicado na contrapa do meu livro Cabanagem. 


Já a manchete da Gazeta do Amapá foi: "Em festival de Parintins, hsitória de escritor do Amapá dá tricampeonato ao Boi Caprichoso. 
Portal Amazônia colocou a seguinte manchete: "Saiba qual história de escritor do Amapá se tornou alegoria do Boi Caprichoso em 2024".
Também tivemos matéria de TV e na rádio CBN. 
Ao G1, O presidente do Conselho de Artes do Boi Caprichoso, Ericky Nakanome, declarou: "Para gente foi uma alegria imensa receber a ligação dele. Eu acredito que seja a primeira vez que isso aconteça. A gente trabalha com uma referência de quase 200 livros. O livro do Gian foi um achado. A obra aparece na bibliografia como uma das principais e temos o desejo de trazer ele (autor) à Parintins até o final do ano, para lançar o livro aqui com a gente". 
Para quem não conhece, o Festival de Parintins é o mais famoso festival folclórico da Amazônia, sendo transmitido ao vivo para o Amazonas e outros estados. 
Para mim foi uma alegria e honra imensa ver meu livro transposto para o bumbódromo. 

Alceu Penna e as garotas do Brasil

 


O escritor Gonçalo Júnior tem se destacado como o grande cronista da história da imprensa nacional. Seu livro A guerra dos gibis (Companhia das Letras, 2004) tornou-se ponto de referência fundamental para qualquer um que queira entender a formação editorial brasileira. Esse resgate tem continuado em outras como O Homem Abril (Opera Graphica, 2005), Maria Erótica e o clamor do Sexo (Kalako, 2010) e agora em Alceu Penna e as garotas do Brasil, lançado recentemente pela editora Amarilys.
O autor tem contado a história das publicações e editoras através de um ou mais de seus protagonistas. No livro em questão, o foco da narrativa é o desenhista Alceu Penna, autor de uma das mais importantes e influentes colunas da revista O Cruzeiro.
Hoje é difícil imaginar que uma publicação impressa tivesse tanto impacto na sociedade como foi o caso da Cruzeiro. A revista tinha uma tiragem média de 500 mil exemplares semanais na década de 1950. Segundo Gonçalo Júnior, o impacto era equivalente ao que temos hoje em programas como o Fantástico: “Aparecer em suas páginas – de modo positivo ou negativo – portanto, implicava notoriedade instantânea”.
Numa época em que a televisão ainda estava engatinhando no Brasil, a revista influenciava o jeito de pensar, agir e até de se vestir da população brasileira e nesse ponto, o impacto da produção de Alceu em sua coluna As garotas do Brasil foi enorme: “Alceu Penna foi o criador da garota-padrão do Rio, do ideal de beleza que correria o mundo muito antes de Tom Jobim e Vinícius de Moraes comporem  ‘Garota de Ipanema’”.

Essas garotas prenunciaram, pregaram e difundiram, no período de 1938 a 1964, as tendências de liberdade, independência e emancipação da mulher ocidental. A brasileira só conseguiria o direito de trabalhar fora sem autorização do pai ou do marido em 1962, com o Estatuto da Mulher Casada, mas muito antes disso, já eram independente na coluna de Alceu. Eram mulheres chiques, elegantes, sedentas de aventura e liberdade. Segundo Gonçalo, o desenhista fez de sua coluna um panfleto de emancipação feminina, com sugestões de como explorar todas as formas possíveis de liberdade num país de tradição machista.
O livro foi escrito graças à ajuda de Tereza Penna, irmã do artista, que franqueou ao autor toda uma muito bem organizada biblioteca inclusive com desenhos inéditos – um dos pontos interessantes do livro é justamente a comparação entre os desenhos iniciais, mais desinibidos e a versão mais comportada exigida por editores e proprietários de empresas que encomendavam os trabalhos.
A sensualidade, aliás, já era destacada por Alceu desde o colégio, quando o garoto comportado fazia desenhos eróticos que eram muito admirados pelos colegas. Conta-se que uma vez um amigo o advertiu que ele seria expulso se o padre que estava lecionando naquele momento visse o desenho que ele fazia. “Relaxa”, respondeu Alceu “Quando ele chegar aqui a garota já estará vestida”.
Apesar desse início libidinoso, Alceu nunca levou seu traço para a pornografia. O erotismo de suas mulheres era elegante e refinado, o que foi, em grande parte, causa do seu grande sucesso na sociedade carioca da primeira metade do século XX. E, provavelmente, foi o que fez com que ele conseguisse um lugar de destaque numa das principais revistas da época, O Cruzeiro.
A revista surgira com a proposta de ser grandiosa e de revolucionar o mercado editorial brasileiro. A campanha de lançamento tinha o objetivo de mostrar essa grandiosidade. Em pleno calor de dezembro o dono da publicação, o empresário Assis Chateaubriand inventou de dar um efeito visual de que estava nevando. Foram jogados do alto dos prédios quatro milhões de folhetos. Os motoristas buzinavam, como se fosse carnaval, e a maioria das pessoas se abaixou para ver o que dizia o papel impresso. Todos eles traziam a mesma mensagem: “Compre amanhã O Cruzeiro, em todos os jornaleiros, a revista contemporânea dos arranha-céus”.

O primeiro número era chique, com o close de uma linda mulher fazendo biquinho com olhar sensual. Era impressa em quatro cores sob fundo prata com o título em vermelho ao lado do cruzeiro do sul em branco.
Impressionou num primeiro momento, mas foi perdendo leitores e já estava para fechar as portas quando Alceu Penna compareceu à redação com seus desenhos. Na época, a revista passava pela primeira reformulação, realizada pelo jornalista Accioly Netto e o mesmo que se encantou com o desenho de Alceu e o contratou.
Ao assumir a revista, Accioly descobriu que a administração era amadora e ineficiente, a redação era um caos: não havia dinheiro para fazer a revista, nem anunciantes. A maioria dos colaboradores nem entregavam mais seus trabalhos em decorrência dos atrasos nos pagamentos.
Accioly abriu a página da revista para reportagens e coberturas de eventos como o carnaval e desfiles, onde eram conseguidas fotos a baixo custo – na maioria das vezes de graça – que embelezavam as páginas da revista. Havia até uma coluna de um suposto correspondente em Hollywood, que na verdade era escrita por Accioly que usava fotos e informações fornecidas pelas distribuidoras interessadas em promover seus filmes.

Um dos grandes sucessos da renovação foi o destaque dado à moda e ao universo feminino. Sabedor de que boa parte do público leitor era composto por mulheres, Accioly investiu em colunas para elas – a mais famosa dela seria “As garotas do Brasil”, assinada por Alceu Penna, que daria o tom da moda usada por mulheres no Brasil em pelo menos duas décadas, a ponto das garotas recortarem páginas da revista e levarem para costureiras copiarem os modelos.
A trajetória dos dois, revista e artista é acompanhada passo a passo por Gonçalo, até mesmo nos seus momentos mais embaraçosos, como na relação conflituosa de Alceu com inescrupuloso repórter David Nasser.
Com seu texto fluído, Gonçalo Júnior consegue prender a atenção do leitor para a história de um desenhista injustamente esquecido pelos leitores atuais.
De negativo mesmo, só o formato o livro. Vertical, ele dificulta o manuseio, o armazenamento e ainda dá pouco destaque para algumas das obras de Alceu impressas no livro, em especial os quadrinhos, que precisam de uma lupa para serem lidos.

Mister No – O último cangaceiro

 



É notório o fato de que Sérgio Bonelli tinha um fascínio pelos cangaceiros, tanto que já na terceira história do personagem deu um jeito de inclui-los na trama. Mas como fazer isso? Primeiro, porque os cangaceiros já não existiam na época em que a série acontece (década de 1950), segundo porque as histórias de Mister No acontecem na Amazônia.

O roteirista contorna esses problemas com inteligência. A questão da ambientação é resolvida através de um homem que contrata Mister No para levá-lo à Bahia, o que, aliás, nos fornece uma sequência maravilhosa de humor, com o tranbiqueiro e sua descupa fleumática “Sua digna confiança poderá vir a ser recompensanda, quando um dia eu tornar a ver a cor dos dólares! Então acertaremos nossas contas!”.

Um homem contrata Mister No para levá-lo à Bahia, mas é roubada. 


Aqui, já na terceira história, já é possível perceber um padrão: quando todo serviço que o Mister No pega é uma roubada que, ao invés de lhe render dinheiro, acaba deixando-o no prejuízo. O protagonista da série é, portanto, um divertido perdedor.

Sem dinheiro sequer para colocar gasolina no avião piper, o herói tenta conseguir algum desafiando um lutador de capoeira (uma forma inteligente do roteirista de incluir na história mais essa manifestação cultural brasileira). E, numa verdadeira inversão do que se poderia esperar, acaba levando uma surra. Um contraste total com o que até então era comum nos quadrinhos – em que os personagens norte-americanos eram geralmente invencíveis.

Mister No não é um herói invencível. 


Sem dinheiro, derrotado e cheio de hematomas, o herói vai para um bar tomar uma pinga para se consolar. É quando encontra um homem que o contrata para um serviço: levar alimentos para pastores que se perderam no sertão. Mas, como sempre, o serviço é uma roubada. Na verdade, os campangas que vão junto no avião estão ali para matar um grupo que se escondeu no meio da caatinga. E esse grupo é formado por... cangaceiros!

Aqui entra novamente a genialidade do roteirista. Ele consegue achar uma explicação verossímil para esse anacronismo. Na verdade, segundo a história, os cangaceiros são na verdade revolucionários, lavradores que se revoltaram contra a opressão dos grandes proprietários de terras e resolveram se vestir como cangaceiros como forma de ganhar a simpatia da população.

Cangaceiros em plena década de 1950? 


Nem mesmo quando o líder dos revolucionários começa um longo monólogo sobre os cangaceiros e sua importância social e histórica, a história perde o fôlego: “Mesmo privado de claras ideologias, fez nascer no povo os primeiros sintomas da revolta contra os latifundiários e os governadores corruptos que com seu poder esmagavam a miserável população do nordeste!”.

Essa situação inusitada gera uma longa trama, que se estende por dois números, repleta de reviravoltas.

O roteirista arranja uma explicação verossímil. 


Em tempo: posteriormente o personagem teria outra trama com cangaceiros, essa focada na cabeça de Lampião.

Arnold

 


Arnold é um documentário dirigido por Lesley Chilcott sobre o ator e fisioculturista Arnold Schwarzenegger. Disponível na Netflix, é dividido em três partes, cada uma das quais explora um momento da vida do protagonista: o fisioculturista, o astro de cinema e o politico.

Embora  Schwarzenegger seja uma das figuras mais populares do século XX, muitos dos fatos sobre sua vida são desconhecidos. A maioria das pessoas sabe apenas que ele é austríaco, foi mister universo e estrelou diversas produções de Hollywood. Para a maioria das pessoas, igualmente, ele é um homem cheio de músculos, mas com pouco cérebro. O documentário se distingue por ir muito além dessa visão rasa.

A primeira coisa que espanta é perceber como Schwarzenegger programou sua vida para chegar aos seus objetivos. Ao ver, quando criança, o filme Hércules na conqusita da Atlântida, com Reg Park, ele decidiu que seria primeiro um fisioculturista e depois um astro de cinema da mesma forma que seu ídolo.

A criação caseira, com o pai que impunha uma disciplina militar e colocava ele e o irmão para disputarem até mesmo quem trazia melhores flores no dia das mães, também teve uma forte influência sobre seu caráter. Arnold é um homem que vive de disputas e sua musculatura era apenas a parte mais visível disso. Curiosamente, a mesm criação que transformou ele no que é, destriu seu irmão, incapaz de lidar com o clima opressivo da família.

O documentário traz revelações interessantes, como o fato de que Schwarzenegger foi inicialmente escalado para fazer o herói do filme Exterminador (O. J. Simpson faria o papel do robô). Conversando com James Cameron, ele o convenceu que os papeis estavam trocados, o que foi um grande acerto e transformou o filme num clássico.

Esse momento revela um dos aspectos da inteligência do biografado. Ele sabia escolher roteiros e sabia escolher papéis. Quando percebeu que ficaria marcado apenas como ator de filmes de ação, ele convenceu o diretor Ivan Reitman a dirigir uma comédia com ele. Surgiu assim o clássico Irmãos gêmeos, em que Schwarzenegger faz o papel de irmão de Danny DeVito. Schwarzenegger sabia administrar sua carreira, ao contrário de Stalone, ator que era seu grande concorrente, e que se concentrava unicamente em filmes de ação.

Apesar de nitidamente ser favorável ao ator, o documentário não esconde esqueletos no armário, como o assédio a mulheres e o filho fora do casamento (com a governanta da família). Curiosamente, o filho ilegítimo é o mais parecido com o pai, sendo o único que enveredou pelo fisioculturismo.

O doc acerta ao fechar com falas políticas a favor das vacinas e contra o extremismo político da extrema direita, uma ideologia que tinha capturado seu pai e, de certa forma, foi responsável pela criação que levou seu irmão à morte.

Monstro do Pântano – Meu paraíso azul

 


Há uma frase famosa de Alan Moore segundo o qual “hoje em dia ninguém mais lê poesia e os quadrinhos são uma forma de devolver a poesia às pessoas”. Ele vai demonstrar isso no número 56 da revista Swamp Thing.

Nas edições anteriores, o Monstro do Pântano havia sido, aparentemente morto por uma organização criminosa. Eles haviam mudado a vibração terrestre de modo que seu espírito não pudesse mais acessar a Terra. Mas na verdade, o personagem não morrera – ele saltara no espaço, procurando um local onde pudesse renascer.

O personagem vai parar num planeta azul e cria estratégias para fugir do tédio... 


Na edição em pauta, Moore mostra o que aconteceu com ele. Ele conseguiu sobreviver renascendo em um planeta em que tudo é azul: “As samambaias turquesas... os seixos azul-pálidos... a luz do aquário filtrada por nuvens de cobalto alvejado... os reflexos do azul da Prússia da carapaça polida do besouro que pasta... tudo... tudo é azul”.

A história é centrada em um único personagem, o protagonista, que cria estratégias para passar o tempo e fugir do tédio e da loucura, incapaz de arriscar novamente o salto que pode levá-lo à morte. Ele cria uma versão e si mesmo para jogar xadrez (todas as partidas terminam em empate), cria asas para voar e... finalmente, cria um simulacro de Abbe. Depois cria um simulacro da cidade na Flórida onde se passavam suas aventuras.

Ele cria um simulacro de Abbe. 


A HQ é um estudo sobre a tristeza e loucura da solidão. Não por acaso, Alan Moore escolhe a azul, uma cor associada à tristeza em países como os Estados Unidos. A narrativa é toda em primeira pessoa, o que permite a Moore exercitar toda a sua verve poética, como no trecho: “Através da onírica fosforescência do ar rico em gases raros... nós rolamos em uma progressão cinemática... de quadros de stop motion... uma sequência sensual e inescapável”.

Mas John Constantine está ali para trazê-lo de volta à realidade. 

Uma curiosidade é que, no meio dessa fantasia, o insconsciente do Mostro cria uma versão de John Constantine, que, como na sua versão real, é quem destrói as fantasias com sua sinceridade cortante: “John Constantine, o que faz aqui?”; “Eu lhe faria a mesma pergunta... mas nunca fui muito de conversar comigo mesmo”.

Fundo do baú - Centurions: Força Extrema


Armaduras e robôs estavam em voga nos anos 1980, e um desenho animado uniu as duas tendências em um só produto: Centurions, produzido pela Ruby-Spears.

A história é centrada em um grupo criado pelo Conselho Mundial para proteger a Terra de ameaças, utilizando exo-trajes. O time principal é formado por Max Ray, especialista em operações no mar; Jake Rockwell, especialista em operações em terra; e Ace McCloud, especialista em operações no ar. Completa o grupo Crystal Kane, uma operadora de sistemas que dá suporte aos soldados através do satélite Sky Vault, e o cão siberiano Sombra, mascote da equipe.

A série ganhou uma revista em quadrinhos... 


A principal ameaça enfrentada pelos Centurions era o vilão ciborgue Doutor Terror e seu ajudante, também ciborgue, Hacker. Constantemente, os heróis precisavam impedir os planos de dominação mundial da dupla.

Inicialmente, o desenho foi planejado apenas como uma minissérie de cinco episódios, mas o sucesso fez com que fossem produzidos mais 60, totalizando 65 episódios.

,,, e até bonequinhos. 


O desenho tinha uma "pegada" de quadrinhos. Seu design foi concebido por Jack Kirby e Gil Kane, e Gerry Conway, famoso por sua passagem pelo Homem-Aranha, fazia parte do time de roteiristas. Embora fosse uma produção norte-americana, a animação era feita pelo estúdio japonês Sunrise, o que conferia um aspecto de anime a algumas sequências.

Os personagens também tiveram uma linha de brinquedos e até uma revista em quadrinhos publicada pela DC Comics.