quinta-feira, junho 18, 2026

Os Sobrinhos do Capitão e a era dos syndicates

 

 


Um dos fatores mais importantes para a popularização das histórias em quadrinhos em todo o mundo foi a criação dos syndicates. Acusados pelos nacionalistas de terem sufocado os quadrinhos regionais, impondo a dominação norte-americana, os syndicates são empresas distribuidoras de tiras de páginas dominicais.
     O primeiro syndicate surgiu devido ao problema jurídico com os personagens da série “Os sobrinhos do capitão’.
     Essa HQ foi baseada em uma história infantil alemã, Max e Moritz, de autoria do poeta e cartunista Wilheim Bush. Essa obra, publicada originalmente em 1865, chegou a ser lançada no Brasil com o nome de Juca e Chico, com tradução de Olavo Bilac.
     Ainda menino, William Randolph Hearst viajou para a Europa com sua mãe e lá comprou diversos livros, entre eles Max e Moritz.
     Anos mais tarde, quando já era um magnata da imprensa norte-americana, decidiu incluir quadrinhos infantis em seu periódico, o New York Journal, e lembrou-se daquela história que o encantara quando criança. Assim, ele chamou um talentoso desenhista de origem alemã, Rudolf Dirks para criar personagens baseados em Max e Moritz.
     Dirks criou a série Katzenjammer Kids, algo como os garotos ressaca. Nela, são apresentados dois gêmeos, Hanz, de cabelos escuros, e Fritz, de cabelos claros, que passam o dia fazendo traquinagens. A mãe dos dois pestinhas, Mama Katzenjammer (no Brasil Dona Chucrutz) acha que tem dois anjinhos em casa e passa o dia fazendo deliciosas tortas para os dois.
     As vítimas inevitáveis da arte dos garotos são o capitão e inspetor escolar. Esses dois malandros gostariam de passar o tempo vadiando, mas acabam gastando metade do dia castigando os gêmeos e a outra metade sendo vítimas deles.
     Em 1913, Dirks passou seus personagens para o New York World, de propriedade do Joseph Pulitzer, o maior inimigo de Hearst. Esse considerou a deserção uma ofensa e resolveu brigar nos tribunais pelos personagens (anteriormente, Hearst já havia roubado Yellow Kid de Pulitzer).
     Travou-se uma longa batalha judicial, mas o tribunal decidiu-se por uma solução conciliadora. Dirks poderia continuar desenhando seus personagens para o World, mas teria que trocar o título e Hearst poderia continuar publicando em seu jornal os personagens com o título e personagens originais. Para isso, o dono do New York Journal chamou o talentoso Harold Kner, que manteve o mesmo nível de qualidade da HQ.
     A discussão com os personagens de Dirks teve como resultado o primeiro syndicate: a International News Service - que ficaria conhecida mais tarde como King Features Syndicate.
     A partir daí os artistas deixavam de trabalhar para os jornais e passavam a produzir para os syndicates, que reproduziam suas histórias e vendiam para vários jornais. Isso ba¬rateou muito o preço das HQs, pois a mesma tira era vendida para diversos jornais dos EUA e posteriormente de todo o mundo.
Um dos primeiros personagens a serem internacionalizados foi Pafúncio, de George MacManus. Desenhado em estilo “art-decó”, Pafúncio e Marocas (esse era o nome da série no Brasil) refletia a abastança da classe média americana no início do século. A pompa e a futilidade do norte-americano médio foram muito bem satirizadas nessa tira diária de MacManus.
A onda de quadrinhos humorísticos acabaria com a crise de 1929, que fez com que os leitores preferissem os quadrinhos de aventura.

Filmes que marcam época

 


A série de documentários The Toys – os brinquedos da nossa infância foi uma das novidades mais quentes da Netflix. Com uma linguagem divertida,  piadas e edições criativas, seus documentários criaram uma legião de fãs e deram origem até agora a três temporadas.
Na verdade o sucesso foi tão grande que empolgou a equipe a fazer uma outra série, agora focada em filmes: filmes que marcam época (ou filmes que marcaram a nossa infância).
Para essa primeira temporada foram escolhidos filmes bem diversos entre si, mas igualmente populares nas décadas de 1980 e 1990: Dirty Dancing, Esqueceram de mim, Os caça-fantasmas e Duro de matar. Em comum a todos eles o fato de que quase não foram produzidos, ou quase foram abandonados no meio da produção. Todos eram filmes nos quais ninguém parecia acreditar, exceto seus diretores, roteiristas e produtores.
Com uma linguagem divertida, os episódios se debruçam sobre curiosidades desses filmes, como o fato de parte da cena em que a casa alaga em Esqueceram de mim ter sido filmada dentro de uma piscina. Ou o fato da roteirista de Dirty Dancing ter se apaixonado por Patrick Swayze, ou ainda, o fato do ator ter deslocado o joelho examente durante a gravação da cena final, exatamente a que mais exigiria dele fisicamente.
É curioso saber, hoje em dia, que Esqueceram de mim foi abandonado pela Warner no meio da produção – o que fez com que a Fox assumisse o projeto e ganhasse milhões ou que a produtora de Dirty Dancing chegou a pensar em queimar os negativos. Ou que a produtora de Duro de matar chegou a tirar Bruce Willys do cartaz porque as pessoas riam dele durante o trailer.
Em suma: são documentários divertidíssimos, que tornar ainda mais interessantes clássicos do cinema pipoca moderno. Agora é torcer para que eles tenham várias outras temporadas.

Os herdeiros da caverna

 

Eu me lembro perfeitamente da primeira vez que vi um fã do Fantasma. Claro, eu já conhecia o personagem, e já tinha lido alguma coisa por alto, mas não imaginava toda a mitologia que havia por trás do personagem. E nem de longe podia imaginar a razão de tanto sucesso. Foi naquele dia que, pela primeira vez prestei atenção ao espírito-que-anda e foi naquele dia que tive o insight sobre a razão de seu sucesso.
O dito colecionador era um jovem senhor, na casa dos vinte e poucos anos, já graduado e na época cursando mestrado. Mas naquele dia, limpando e organizando suas revistas, ele parecia uma criança inebriada com um brinquedo novo. Ele sabia de cor tudo sobre o personagem, seus artistas e histórias e inebriava-se contando como o Fantasma havia derrotado os terríveis japoneses em plena II Grande Guerra.
Mais tarde, quando o pai dele chegou, os dois ingressaram juntos na fantasia que incluía Capeto, a caverna da caveira, os pigmeus e tudo o mais. Olhando dois eu percebi o que havia de tão interessante naquela história em quadrinhos: O Fantasma é uma história sobre herança. Sobre pais e filhos, sábios e discípulos. Não é por acaso que tantos pais legam a leitura desses gibis aos seus filhos. Temas como esse sempre calam fundo por falarem dos mitos mais ancestrais.
Não é de estranhar que esse seja o tema da tira. O criador do personagem, o escritor norte-americano Lee Falk, sempre teve um olhar paternal para com suas criações. Tanto que uma única vez o Fantasma fugiu de seu controle: quando foi publicado no Brasil e os editores, sem referencial de cores, trocaram o roxo original pelo vermelho, mais fácil de imprimir.
Lee Falk nasceu em 12 de abril de 1911, na cidade de St. Louis, Missouri. O primeiro personagem imaginado por ele foi o mágico Mandrake, criado aos 19 anos e fruto do fascínio do escritor pelos mágicos e ilusionistas.
Algum tempo depois, ele desenhou algumas tiras do personagem e aproveitou uma viagem que fez com seu pai para Nova York e passou nos escritórios da King Features Sindicate. Passou o dia mofando na ante-sala do chefão da KFS, Joe Conolly, mas quando este viu o material, decidiu-se imediatamente pela história. Era uma época de mudança, em que as antigas tiras cômicas estavam sendo abandonadas pelo público em favor de histórias de aventuras, que os levassem a viajar por mundos imaginários e esquecer as agruras da depressão norte-americana e as histórias do mágico se encaixavam nesse perfil.
Pouco seguro de seus dotes artísticos, Falk encarregou um colega, o desenhista publicitário, Phil Davis, de ilustrar o personagem. Mandrake estreou em 11 de junho de 1934, quando o escritor tinha apenas 23 anos. E foi um sucesso.
Lee Falk tornava-se não só um autor de sucesso, como também o primeiro roteirista de quadrinhos. Antes dele havia outras pessoas que se encarregavam da parte textual, como o criador do romance policial Dashiell Hammett, que assinava o Agente Secreto X9, mas faziam isso como se estivessem envergonhados de se envolverem com algo tão trivial. Falk, ao contrário, assumia seu amor pelo que fazia, o que provavelmente é uma das razões da verdadeira idolatria dos fãs por ele.
O nome do mágico era inspirado na planta mandrágora, usada como medicamento há séculos. Junto com ele, surgia seu fiel escudeiro, Lothar, um negro vestido de maneira exótica. Pouco tempo depois surgiu Narda, uma princesa do reino de Cockaigne que tinha uma curiosa característica: a ausência de umbigo. Inicialmente pensou-se que fosse falha de Phil Davis, mas a conforme a história avançava e o umbigo não aparecia, muitos estudiosos começaram a cogitar que Narda seria apenas mais uma ilusão do mestre das artes mágicas... uma antecipação talvez de temas como os que foram explorados em Matrix.
A história do umbigo demonstra a mitologia que se formou não só em torno da obra, mas também da vida do criador Lee Falk. Na época em que criou seu primeiro personagem, os relações públicas da KFS pediram dele uma biografia para ser apresentada aos jornais. Falk escreveu que era um aventureiro que, em suas viagens pelo mundo, encontrara diversos magos e se inspirara neles para criar Mandrake. Tudo balela, claro, mas convenceu.
Dois anos depois, Falk teve uma idéia para seu segundo personagem e a apresentou à KFS, que comprou de imediato o projeto. Para desenhar, foi chamado o assistente de Davis, Ray Moore, que deu ao personagem um traço elegante e misterioso.
A primeira história mostrava a saga de um lorde inglês, Kit Walker, único sobrevivente de um ataque pirata que jura devotar sua vida à destruição da pirataria, ganância, crueldade e injustiça. E não só isso: também seus filhos e os filhos de seus filhos seguiriam seu caminho. Assim que morria um fantasma, seu filho assumia seu lugar no combate ao mal. Para evitar que os malfeitores percebessem a troca, o herói usava uma máscara, dando a entender que o personagem era imortal.
A idéia inicial era mostrar o personagem como uma espécie de playboy que combatia o crime à noite, assustando malfeitores, um conceito muito próximo de personagens clássicos da literatura, como Zorro ou o Pimpinela Escarlate e certamente uma antecipação de Batman. Mas com o tempo, Falk foi se distanciando dessa idéia e, ao deslocar a ação para o mítico país de Bangala construiu toda a mitologia do personagem.
Falk, fã de Rudyard Kipling, cria a tribo de pigmeus bandar, inspirados na tribo de macacos homônimos de O Livro da Selva. Surgem as crônicas do Fantasma, os anéis, um para amigos, outro para inimigos, a Ilha do Éden, onde leões e tigres convivem harmonicamente com zebras e girafas. Surgem a cabana de Jade, onde os Fantasmas passam sua lua-de-mel, as Montanhas Misteriosas, a plataforma Walker, base de operações do Fantasma na América... a cada nova aventura um novo detalhe é acrescentado.
É essa mitologia que vai fazer com que o Fantasma torne-se eterno e angarie mais fãs que seu irmão mais velho, o Mandrake. A herança passada de pai para filho inclui os diversos itens que foram se acumulando ao longo do tempo e qual era a criança que não sonharia ganhar tudo isso de seu pai? De certa forma, é como se o leitor fosse o XXII Fantasma, lendo as crônicas de seu antecessor e preparando-se para entrar em ação e enfrentar o mal. E quando um pai lega ao filho a velha coleção de revistas do Fantasma, vai com ela todo o resto da mitologia.
Lee Falk podia não saber, mas estava construindo uma das grandes mitologias do século XX, um personagem que, mesmo diante de concorrentes mais modernos, terá seu lugar.
Nos anos 70 o Fantasma migrou para a literatura, numa série de livros publicados pela Avon Books e escritos pelo próprio Lee Falk. Também foi na década de 70 que o escritor ganhou o reconhecimento internacional com o prêmio Yellow Kid recebido em Luca, em 1971.
Aliás, Falk, embora fizesse questão de ser conhecido como escritor de quadrinhos, era também um teatrólogo de sucesso, tendo trabalhado com artistas como Marlon Brando e Charlton Heston.
Falk morreu em 13 de março de 1999. Até os últimos dias ele escreveu as tiras de Mandrake e Fantasma. Um pai preocupado até o último momento com seus dois filhos diletos e com seus milhões de filhos adotivos, leitores ávidos por mais e mais aventuras de seus heróis favoritos
.

Ps: este texto foi publicado na edição especial sobre o Fantasma lançado pela editora Opera Graphica em homenagem aos 60 anos do personagem.

Homem-Aranha e Homem-Coisa

 



Embora tenha tido revista própria durante pouco tempo, o Homem-Coisa fez várias participações em aventuras de outros personagens da Marvel. Ele encontrou, por exemplo, o Homem-Aranha em Marvel Team-up 68 em uma aventura produzida pela dupla mais badalada dos quadrinhos da época: Chris Claremont (roteiro) e John Byrne (desenhos).

Na história, o personagem monstruoso foi aprisionado e colocado como atração em um zoológico – e o aracnídeo resolve ajudá-lo a voltar para o pântano.

O Homem-Coisa atacando o Aranha? Te enganei, leitor! 


A splash page, que abre a história é aquilo que hoje seria chamado de um “engana leitor”: o Homem-Coisa se jogando contra o Homem-Aranha, que recua, apavorado. Na verdade, ele estava apenas caindo contra o vidro da prisão, como descobrimos na página seguinte.

Claremont mimetiza os textos dos quadrinhos de terror da Marvel, o que mostra sua versatilidade: “Inícios: parece a calada da noite, um escuro irreal e estígio interrompido levemente apenas por faixas prateadas de luar que resvalam sobre antigos galhos retorcidos e cobertos de musgo que cobrem o pântano... e a criatura que espreita em seu interior”.

O Homem-Coisa renasce em contato com o pântano. 


O Aranha some com a gaiola de vidro e pega um avião para os pântanos da Flórida (não me pergunte, eu não sei quem são os personagens que lhe dão carona), mas o avião sofre um acidente e por pouco os humanos não morrem. A criatura do pântano, entretanto, fica renascida.

A trama só começa mesmo só quando os dois chegam num casebre e encontram um velho e uma garota amarrados. Na verdade, o velho é um mago de outra dimensão e a garota, Jennifer Kale, sua aprendiz. Quem os aprisionou é um vilão extradimensional chamado Desespero, capaz de fazer até mesmo o Homem-Coisa ter medo (e portanto queimar).

Desespero: pense num vilão fodão. 


Para um vilão tão poderoso, é estranha a forma como o herói o vence, usando, essencialmente a força. É também curioso perceber que a editora escolheu a Marvel Team-up, uma revista do Aranha, para terminar uma trama do monstro, o que mostra que  as coisas não andavam bem para a vida editorial do feioso. 

Monstro do Pântano – Pog

 


Certamente uma das mais estranhas histórias do Monstro do Pântano é Pog, publicada em Swamp Thing 32, com desenhos de Schawn McManus.

Essa história é uma das menos celebradas pelos leitores, a maioria dos quais deixou escapar a referência óbvia. Pog é a versão de Alan Moore para Pogo, de Walt Kelly.Essa tira de quadrinho surgiu inicialmente como um gibi da Dell Comics, mas logo migrou para os jornais, sendo publicada por até 500 periódicos na sua fase áurea.

Walt Kelly usava Pogo para falar de temas políticos e ecológicos. 


Pogo é um gambá antropomorfizado que vive em um pântano com seus amigos, o jacaré Albert, a coruja Howland Owl, a tartaruga Churchy La Femme, o mastim Beauregard Bugleboy e o porco-espinho Porkypine. Inteligentemente, Walt Kelly usava o formato aparentemente inocente de história em quadrinhos com bichinhos para refletir sobre a sociedade em que vivia e fazer forte crítica política. O senador Joseph McCarthy, por exemplo, apareceu na história como um gato selvagem de tendências ditatoriais chamado Simple J. Malarkey. Na HQ o gato desencadeia um reino de terror e intimidação no pântano.

Walt Kelly também usava as tiras e páginas dominicais para difundir ideias ecológicos. Uma frase de uma das histórias tornou-se lema de grupos de ecologistas: “Nós encontramos o inimigo, e ele somos nós”.

Alan Moore faz uma homenagem a Pogo. 


Moore usa todo esse contexto na história com maestria, imaginando um grupo de animais que cruza o universo em busca de um planeta onde poderão viver em paz depois de seu planeta ter sido destruído por uma espécie predadora, que não vivia em harmonia com a natureza.

O protagonista é Pog, e seu amigo (que tem grande importância na história) é um jacaré nitidamente baseado no jacaré Albert. Também é possível perceber na tripulação um equivalente a um porco espinho. Além disso, a nave é uma tartaruga.  

O grupo chega à terra e descem exatamente no pântano onde vive o Monstro do Pântano.  Eles ficam maravilhados com a natureza exuberante e acreditam que finalmente acharam a Dama, a terra prometida. Mas a dura realidade logo se revelará para eles.

Essa é a história mais declaradamente ecológica do Monstro do Pântano


O curioso dessa história é que Moore simplesmente inventou uma língua para os animais alienígenas (o que deve ter dado um trabalho monstruoso para os tradutores). Um exemplo: “Atmosfitos medianamente toleráveis... gravifícos bastantes para manter a água parada no fundo... então, segundo minha calculetagem... vocês podem se desentranhar com plena imunidade diplomática”.

Posteriormente, em uma história em que o Monstro do Pântano visita o planeta Rann, Moore voltou a brincar de criar uma língua, mas dessa vez o fez de forma muito mais ampla.

Na toca dos leões

 


A W/Brasil é a mais famosa agência de publicidade do Brasil, ganhadora de mais de mil prêmios, nacionais e internacionais. Seu principal acionista, Washington Olivetto, mudou a cara não só da propaganda brasileira, mas até mesmo a própria visão do público a respeito dos publicitários, tornando-se um pop star reconhecido nas ruas e que dá nome a pratos em restaurantes chiques. É a história dessa agência e desse publicitário que Fernando Morais conta em Na toca dos leões (Planeta).
A história começa com jeito de lenda, embora muitos, em especial o protagonista, jurem que é verdade.
No dia 1º de abril de 1971, Washington Olivetto passeava com seu Karmann-Ghia vermelho pela rua Itambé, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, quando o pneu furou. Até então, ele era simplesmente um hippie colorido, de cabelos compridos e tamanco. Um aluno medíocre do curso de Publicidade Propaganda da FAAP, que faltava a quase todas as aulas.
Sem ver nenhum borracheiro por perto, o rapaz de 19 anos entrou no escritório da HGP Publicidade, para usar o telefone e chamar um socorro. No último momento, mudou de ideia.  Pediu para falar com o dono.
- Eu sou o dono. – disse Juvenal Azevedo, um dos sócios.
- Olha, eu queria que o senhor me desse uma oportunidade de trabalho aqui. Eu quero trabalhar em publicidade, estou até estudando isso... Acho que posso bolar uns anúncios geniais para o senhor, tenho certeza de que vou ser muito bom nisso. Só entrei aqui porque furou o pneu do meu carro na sua porta. Acho melhor o senhor me dar esse emprego, porque meu pneu não costuma furar duas vezes no mesmo lugar.
O papo convenceu e ele foi aceito como estagiário. Em pouco tempo se destacaria. Um de seus primeiros anúncios foi para a fábrica de televisores ABC, que lhe valeu como prêmio uma garrafa de licor. O colunista Cícero Silveira, do jornal Shopping News costumava premiar a melhor propaganda da semana com a tal garrafa. Veiculado no dia das mães, mostrava uma simpática velhinha ao lado de uma televisão com a legenda: “Dê um televisor ABC para a primeira mulher de sua vida”. Nas semanas seguintes, ele continuou chamando atenção: “podia até faltar água na casa do publicitário. Cointreau, jamais, tal a profusão de garrafas do licor que ele abiscoitou”, conta Morais.
Em menos de um ano, ficou claro que ele era bom demais para a pequena agência. O patrão chamou-o: “É um pecado um cara como você ficar perdido aqui e nós não vamos ter como te segurar”.
 Já em nova agência, ele conseguiria uma façanha incrível, ganhar O Leão de Bronze em Cannes antes mesmo de completar um ano de profissão. O comercial era sobre uma nova torneira, com um processo revolucionário de vedação. Filmado em macro, o anúncio causava impacto ao mostrar uma torneira pingando com uma narração em off: “A Deca está lançando a sua torneira com MVS, mecanismo de vedação substituível, que faz com que sua torneira esteja sempre nova. Por isso, a partir de agora, se a sua torneira Deca vazar, é porque você esqueceu de fechar” e uma mão fechava a torneira, fazendo com que o último pingo fosse chupado para dentro do cano.
Ao saber que tinha ganhado o prêmio mais importante da propaganda mundial, Washington reagiu com incredulidade:
- Mas é o meu primeiro filme e eu só tenho vinte anos! Quem errou: eu ou o júri?
Um começo mais do que promissor para quem pretendia ser o melhor publicitário do Brasil, e provavelmente conseguiu.
Mas o livro, embora seja focado em Washington, também dá destaque a duas outras pessoas que formaram com ele a W/Brasil: Gabriel Zellmeister e Javier Llussá.
O tímido Gabriel vem de uma família judia marcada por tragédias. Sua primeira irmã morreu na Europa, com um mês de vida, enquanto os pais fugiam tanto dos nazistas quanto dos comunistas. A mãe e a avó materna (escaldadas por décadas de progroms e campos de concentração) o criaram com a constante paranóia de que estavam na iminência de uma nova perseguição: “Não se apeguem”, “Não façam amigos”, “Não se vinculem a ninguém, nós podemos ter de fugir”. Com uma criação dessas, é natural que ele fosse tímido e ficasse muito em casa, onde lia o tempo todo, em português, polonês e alemão. Queria ser artista.
Quando começou a crescer, entrou em uma rotina dura: estudava de noite e de dia ganhava alguns trocados desenhando retratos de pessoas. Depois de tentar ser desenhista de livros didáticos, resolveu que ia entrar na publicidade. Conseguiu um estágio numa agência pequena, a Delta. Duas semanas depois de chegar, viu os diretores de arte desenvolvendo uma nova logo para um cliente e perguntou se podia apresentar também uma proposta. No final, foi a sua proposta que foi aceita. A vida, como sempre, era dura. Para concluir o ginasial, ele precisou aderir ao sistema Madureza, que permitia terminar o segundo grau em menos tempo. Como não tinha tempo para o curso preparatório, se arranjou com uma permuta: desenhou um novo logotipo para a escola. Logo se tornaria um dos diretores de arte mais novos e mais criativos do mercado, sendo contratado pela agência Casabranca, onde conheceu Washington Olivetto. O primeiro contato dos dois não foi dos mais amistosos. Expansivo, Olivetto começou tirando um sarro do rapaz magro, que desenhava sem camisa: “Pô, meu, você é um atleta!”.
O catalão Javier Llussá, outro sócio da W/Brasil tem uma história igualmente conturbada. A família praticamente passava fome na Espanha quando o pai decidiu que iam embora. As cartas de um amigo que morava em Araraquara, interior de São Paulo, o convenceu de que aqui era o paraíso. Vieram de navio, com um bilhete de terceira classe, vomitando a maior parte da viagem. Javier foi trabalhar em um laboratório e nas horas vagas varria o chão da fábrica, pintava móveis e fazia pequenos reparos para ganhar mais alguns trocados. Concluiu que a única forma de sair daquela vida era estudar. Trabalhando de dia, estudando de noite e andando horrores para economizar o dinheiro do ônibus, concluiu o ensino técnico de contabalidade e depois começou a faculdade. Um dia viu um anúncio pedindo alguém para trabalhar com Marketing na multinacional Colgate-Palmolive. Sua única exigência nesse e em outros trabalhos era que as férias fossem divididas em dois momentos de 15 dias para lhe permitir estudar para as provas da faculdade.
Na Colgate, Javier revolucionou o departamento de pesquisa de mercado, mapeando São Paulo e Rio quarteirão por quarteirão, dividindo-os por classes sócio-econômicas e sorteando as áreas que seriam pesquisadas. Hoje esse procedimento é padrão em qualquer pesquisa de mercado, mas na época era uma novidade que permitia resultados muito mais precisos. Seu excelente trabalho o levou para a Kibon, para a área de desenvolvimento de novos produtos. Entre suas inovações estão o Ki-suco e o chiclete em tiras.
Ele ainda iria ser sócio da Gelato, uma empresa pequena, que conseguiu fazer  concorrência à poderosa Kibon e criou sucessos, como o sorvete Cornetto antes de se tornar sócio da W/Brasil.
Na comparação com a biografia dos sócios, Washington Olivetto parece não ter muitos dramas pessoais, o que não é verdade. O drama passado pelo sócio majoritário da W/Brasil é narrado num dos momentos mais fortes do livro de Fernando Morais. Em dezembro de 2001 ele foi vítima de um seqüestro que duraria 53 dias e mobilizaria toda a opinião pública.
Se nos capítulos anteriores a principal atração do livro é acompanhar a trajetória vitoriosa de Olivetto e a forma como ele criava seus comerciais (era como ver Pelé jogando na sua frente, declarou um cliente, referindo-se aos momentos em que Olivetto propunha idéias para propagandas), na parte final, o livro toma ares de romance policial.
Na toca dos leões não desaponta. Deve agradar principalmente profissionais de marketing, ou estudantes da área. Mas é indicado para qualquer um que goste de boas biografias.

quarta-feira, junho 17, 2026

E Benício criou a mulher...

 


De 1968 a 1985, um artista reinou absoluto nos cartazes de filmes nacionais. Suas mulheres elegantes e extremamente sensuais povoaram a imaginação de milhões de brasileiros. Eram tão bons que muitos se sentiam logrados por não encontrarem nas películas mulheres  tão lindas quanto as  dos cartazes. Ao mesmo tempo, nas bancas de revistas, centenas de  livrinhos de bolso traziam sua marca. É a história desse  artista que Gonçalo Júnior conta em “E Benício criou a mulher...” (Opera Graphica, 2012, 416  páginas), obra  ganhadora do prêmio HQ Mix na categoria melhor livro sobre quadrinhos.
Gonçalo Júnior é um dos mais importantes biógrafos brasileiros e tem se especializado na história editorial brasileira. Seu livro A guerra dos gibis é um clássico ao mostrar como impérios de comunicação, como as organizações Globo, surgiram a partir do lucro gerado pela venda de gibis. Outras obras que seguem essa linha são Maria Erótica e o clamor do sexo e Alceu Pena e as garotas do Brasil.  
Benício começou sua carreira como ilustrador publicitário na década de  1950, em Porto Alegre. Em 1953 foi para o Rio de Janeiro tentar realizar  o sonho de se tornar pianista. Ele  iniciou na editora RGE, de Roberto Marinho, como aprendiz de desenhista. Sua função era adequar as histórias em quadrinhos estrangeiras (a maioria tiras) ao formato gibi da editora. Durante três anos cuidou da adaptação de diversos personagens, entre eles o mais difícil de todos (segundo o próprio Benício): Príncipe Valente, de Hall Foster.
Mas o sonho do artista não era os quadrinhos (ele desenhou uma única história em toda sua vida, “Foi o destino”, escrita por Edmundo Rodrigues e publicada na revista Cinderla), e sim as ilustrações. Seu alvo eram as revistas femininas, como Cinderela e Querida. Assim, ele passou a produzir desenhos com cenas de amor e espalhar por sua prancheta. As mulheres eram sempre lindas, com olhos grandes, vivos e lábios generosos. Logo ele estava produzindo capas e ilustrações internas para as revistas femininas da RGE.
Em 1965 ele voltou para capital gaúcha, mas continuou aparecendo mensalmente nas bancas de revistas graças às capas feitas para os livros de bolso da editora Monterrey. Suas capas eram tão espetaculares que há quem colecione os pockets apenas por causa das ilustrações.
Entre os trabalhos para a Monterrey, o que mais se destacou foi a espiã Brigitte.
Brigitte era filha de Giselle, a espiã nua que abalou Paris, folhetim do jornalista David Nasser que havia salvado o jornal Diário da Noite, elevando suas vendas na década de 1940 e foi republicada pela Monterrey na forma de livros de bolso. O sucesso foi tanto que, quando a  série terminou de ser publicada, o dono da editora teve a ideia de continuá-la através de uma outra personagem: a filha de Giselle.
Brigitte era uma estonteante morena de cabelos negros levemente cacheados, olhos azuis, pele dourada como pêssego e corpo escultural. Seu codinome era “Baby” e era a agente secreta mais perigosa do mundo. Sabia usar todos  os tipos de  armamentos e nunca se afastava de uma pequena pistola com cabo de madrepérola, que prendia com uma liga na coxa esquerda. Sempre que ia usá-la, fazia surgir as roliças coxas  por entre o vestido, o que a fez ser conhecida também como “a espião de pernas provocantes”.
Benício já era famoso pelas capas de Brigitte quando começou a produzir cartazes para cinema. A primeira encomenda veio do ator, diretor e produtor Adolfo Chadler, que em 1968 lhe pediu uma ilustração para o filme “Os carrascos estão entre nós” sobre a caça de nazistas que haviam se refugiado na América Latina após a II Guerra. O filme não fez grande sucesso e é mais lembrado exatamente por ter sido o primeiro a contar com a capa de Benício.
No cartaz o personagem principal apontava uma arma e agarrava uma loira linda, com olhos assustados. A imagem tinha tudo que faria de Benício o mais bem pago ilustrador brasileiro: o erotismo, a sofisticação, a composição muito primorosa e o hiper-realismo.
O trabalho chamou a atenção de Osvaldo Massaini, um dos maiores produtores cinematográficos brasileiros, que o contratou para realizar a capa de diversos outros filmes, entre eles Independência ou morte e A madona de Cedro.
Nesse ponto, o livro chega a um dos seus assuntos mais interessantes: o trabalho de Benício para a Boca do Lixo, reduto de produção cinematográfica localizado no centro de São Paulo. Nesse local circulavam diretores, atores, atrizes, cafetões , prostitutas e aspirantes a atrizes buscando uma chance. O termo criado para batizar a produção dessa época, pornochanchada, talvez dê uma imagem irreal do qu era produzido. Na maioria os filmes insinuavam muito e mostravam pouco, puxando muito mais para o humor do que para o erótico. Nesse sentido, os cartazes e os títulos com grande apelo sexual ajudavam a aumentar a bilheteria. Entre os títulos: A virgem, Cada um dá o que tem, O grande gozador, Deixa amorzinho... deixa, A noite das imorais.
A obra de Gonçalo ajuda a preencher a lacuna bibliográfica sobre a boca do lixo, mas esse importante momento do cinema popular brasileiro por si só dava um livro com foco nos bastidores das produções. Como o foco é a obra de Benício, Gonçalo se atém mais ao trabalho com os cartazes.
O livro é repleto de ilustrações de Benício, que, só por isso já valiam a compra, em especial as coloridas. A capa, por exemplo, abre em uma orelha dupla com três imagens femininas belíssimas.
De negativo apenas a falta de uma melhor revisão (há trechos praticamente repetidos dentro de um mesmo capítulo). Mas, de resto, é uma obra obrigatória para colecionadores.

Superman contra o Sanguinário

 

 

Na sua fase à frente do Homem de aço, John Byrne fez histórias grandiosas, mas fez também pequenos e emocionantes contos. Um bom exemplo desse último é a história publicada em Superman 4.

Na trama, um terrorista entra em uma lanchonete e dispara uma metralhadora, matando diversas pessoas. “Tolos, animais! Foi por isso que lutamos?”, grita ele. “Eu e Mickey não fomos vítimas de uma explosão no Vietnã só para vocês poderem desperdiçar suas vidas assim!”.

Nessa época os super-heróis ainda sorriam. 


Nessa mesma lanchonete estava Jimmy Olsen, que chama o Superman para resolver a situação.


Aqui vale um parêntese sobre a belíssima splash page que mostra o herói chegando. Ele parece descer suavemente, como se flutuasse, sua imagem tomando quase toda a página. No rosto, um sorriso de uma época em que o super era um personagem simpático. “É melhor não ser outro pneu furado, Jimmy!”, diz ele.

Byrne era um mestre da narrativa.


Apesar do Sanguinário estar armado até os dentes e ter pego uma senhora como refém, é um adversário sem importância para alguém como o homem de aço. Mas acontece que Lex Luthor armou o terrorista com uma pistola que dispara estilhaços de kriptonita, o que faz com que ele se torne uma grande ameaça.

Surpreendentemente, no final é Jimmy Olsen que resolve toda a situação, em um belo plot twist. Esse final reflete sobre a chaga social que foi a guerra do Vietnã e sobre como a guerra nada tem de gloriosa.

O gonzo jornalismo

 


A maioria dos jornalistas tem de si uma ideia de pessoas respeitáveis, que fazem matérias objetivas e insentas. Ninguém contribuiu mais para abalar esse mito do que o norte-americano Hunter Thompson no livro Medo e Delírio em Las Vegas, lançado recentemente pela L&PM.
Thompson foi um jornalista convencional durante muitos anos e chegou a ser correspondente internacional no Rio de Janeiro. Mas tinha pouca paciência com o trabalho normal de um repórter. No início dos anos 1960, foi mandado para cobrir um show de Joan Baez, mas embebedou-se, tomou várias drogas e acabou apagando. Perdeu o show e escreveu um texto completamente alucinado sobre a cultura hippie. Os leitores gostaram e a partir daí, Hunter se especializaria em fazer um tipo de jornalismo que ficou conhecido como gonzo: toda reportagem era sempre a sua versão sobre os fatos e não uma tentativa de mostrar isenção ou objetividade.
Exemplo disso aconteceu quando o periódico Scanlan´s Monthly mandou-o cobrir a corrida de cavalos em Derby, Kentuchy, em 1970.
Thompson inicia a matéria contando sua chegada na cidade. Sua primeira providência, claro, foi visitar o bar mais próximo. Lá, um morador local resolveu tirar sarro dele quando Thompson mentiu que era fotógrafo da Playboy: “Você vai tirar fotos de cavalos pelados?” “Vai haver encrenca. A minha tarefa é fotografar o motim”, respondeu Thompson. “Que motim?” “Na pista de corrida. No dia do turfe. Os panteras negras. Você não lê jornal? “.
O homem levantou a voz: “Deus do céu! O que está acontecendo com este país? Onde é possível escapar de tudo isso?”. “Aqui não, com certeza”, garantiu Thompson, mentindo descaradamente.
O resto da matéria é dedicada a contar as peripécias do jornalista, inclusive um jantar com o irmão no qual ele enche o restaurante de gás de pimenta. Pouco mais de três parágrafos são dedicados à corrida. O objetivo de Thompson é expresso por ele mesmo: “Ao contrário dos outros no camarote de imprensa, não estávamos interessados no que acontecia nas pistas. O objetivo era ver os verdadeiros animais em ação”.
É nessa reportagem que ele conhece o desenhista inglês Ralph Steadman, que se tornaria uma espécie de ilustrador oficial do gonzo jornalismo com seu traço psicodélico, com pessoas retratadas como monstros.
Medo e delírio em Las Vegas junta o texto lisérgico de Thompson com as imagens malucas de Steadman.
O livro inicia com uma frase emblemática: “Estávamos em algum lugar perto de Bartow, à beira do deserto, quando as drogas começaram a fazer efeito”.
 Thompson foi contratado por uma revista para fazer a cobertura do Mint 400, uma corrida off-road de motocicletas e levou consigo seu advogado samoano, chamado por ele de Dr. Gonzo. Os conselhos do advogado formam algumas da melhores partes do livro: “Como seu advogado, recomendo que compre uma motocicleta. É o único jeito de cobrir um evento desses de maneira correta”; “Isso aí não vai dar. Precisamos de crédito ilimitado”; “Bem ali tem um lugar chamado Fontes Mescal. Como seu advogado, recomendo que encoste o carro para a gente nadar um pouco”; “Como seu advogado, recomendo que enfie o pé no acelerador”.
Mais: o advogado o aconselha a alugar um carro veloz, sem capota, e encher o porta-malas de todo tipo de drogas e irem atrás do sonho americano.
O livro começa quando eles estão a caminho da corrida, as drogas começam a fazer efeito e Thompson é obrigado a parar de dirigir por causa das alucinações: “Melhor nem citar os morcegos”, pensa ele. “Não ia demorar para que o infeliz também os visse”.
Thompson logo descobre que a corrida é na verdade uma nuvem de poeira: “Sob qualquer ponto de vista convencional, a ideia de ‘cobir a corrida’ era absurda: seria como tentar acompanhar uma prova de natação numa piscina olímpica cheia de talco no lugar de água (...) Sem dúvida a corrida estava acontecendo. Eu havia testemunhado a largada; disso tinha certeza. Mas e agora, o que poderia fazer? Alugar um helicóptero? Entrar de novo na caminhonete? Zanzar pelo maldito deserto assistindo àqueles idiotas passando a mil pelos pontos de controle, uma a cada treze minutos?”.
A decisão é simplesmente esquecer a corrida e escrever sobre Las Vegas: “esta não é uma boa cidade para usar drogas psicodélicas. A própria realidade já é distorcida demais”, escreve ele. A cidade é 24 horas de jogo e o circo nunca para: “Use a espingarda para desgrudar os adesivos dos mamilos de uma mulher-macho de três metros e ganhe uma cabra feita de algodão-doce. Basta parar na frente desta máquina fantástica, meu amigo e, por 99 centavos sua imagem vai aparecer num telão de sessenta metros de altura bem no centro de Las Vegas. Pagando mais 99 centavos, você pode incluir uma mensagem gravada”.
O resultado é o esperado: Thompson mergulha no submundo de Las Vegas, toma todo tipo de droga, faz dívidas astronômicas em hoteis (“tínhamos pedido para aquele quarto tudo que as mãos humanas podiam carregar – incluindo umas seiscentas barras de sabonete Neutrogena transparente”) dos quais foge no meio da noite e surta a cada dois parágrafos, achando que vão prendê-lo ou atirar nele (“Um doutor em jornalismo não merece editar o boletim semanal da penitenciária”) e ainda tem de agüentar o advogado samoano ainda mais paranóico do que ele.
O resultado poderia ser um livro barra-pesada, mas acaba se tornando uma grande comédia sobre o sonho americano escrita por alguém que não se leva a sério e se entrega por inteiro no texto com uma coragem e cara de pau extraordinários.
O gonzo jornalismo criado por Hunter Thompson ajudou para derrubar o muro que separava jornalismo de humor, a experiência pessoal e da reportagem, abrindo caminho para programas como o Profissão Repórter, CQC e A Liga.
Medo e delírio em Las Vegas é o maior marco do gonzo. É leitura obrigatória para alunos de jornalismo que ainda não foram contaminados pela ditadura da pirâmide invertida.

Oxigênio - filme reflete tempos de pandemia

 


Uma mulher acorda dentro de uma câmara de criogenia sem saber quem é ou porque está ali dentro. Presa, com a reserva de oxigênio diminuindo a cada minuto ela precisa resgatar todas as lembranças do seu passado para tentar entender o que está acontecendo.

Essa é a premissa de Oxigênio, filme dirigido por Alexandre Aja com roteiro de Christie LeBlanc e protagonizado por Mélanie Laurent (Bastardos Inglórios).

Oxigênio é um filme instigante, que começa com uma premissa estranha e evolui para uma trama complexa. Então temos uma reviravolta. E, quando o expectador acha que já entendeu tudo está acontecendo, uma nova reviravolta, que muda tudo.

Há vários aspectos interessantes a serem destacados, que tornam esse filme especial. Um deles é o fato de praticamente toda a ação acontecer dentro de um ambiente fechado, com praticamente só uma atriz.

O enredo é uma solução criativa e perfeita para tempos de pandemia global, em que aglomerações podem ser extremamente perigosas. E a forma como o roteiro é desenvolvido, supreendentemente, consegue preencher todo o tempo do filme mantendo a atenção e o interesse do expectador. Sempre há algo acontecendo, algo a ser descoberto, algo a ser lembrado, numa infinita sucessão que dura todos os 101 minutos de filme.

Mas, por outro lado, Oxigênio também reflete uma época de pandemia ao evocar a sensação de claustrofobia e isolamento. E na história há também uma doença global que está provocando uma quantidade enorme de mortes. A agonia da protagonista com o oxigênio que acaba de certa forma é uma metáfora de uma época em que pessoas morrem sem conseguir respirar.

Talvez por isso (e pela perícia de seus realizadores e da atuação envolvente de Mélanie Laurent), Oxigênio se tornou um dos filmes mais assistidos da Netflix.

The Amazing Spiderman 100

 

 

O número 100 a revista do Homem-aranha merecia uma edição especial e Stan Lee bolou uma trama que reunia os principais vilões da série. Na história, decidido a deixar de ser o aracnídeo, toma uma porção que deveria tirar de seu sangue a radiação. Enquanto o líquido faz efeito, o personagem começa a ter alucinações envolvendo os vilões, que representam as próprias dificuldades psicológicas do herói. 

Em determinado ponto, por exemplo, o Abutre diz: "Não! Você não pode me ferir! Você só fere as pessoas que ama!". As diversas lutas que se sucedem, portanto, acontecem dentro da cabeça do personagem, são conflitos internos, não externos. 
As lutas da história representam o conflito interno do personagem. 



Nessa HQ Stan Lee mostra todos os méritos que o fizeram um dos mestres do roteiro de quadrinhos e antecipa inclusive as incursões psicológicas de Frank Miller no Demolidor e de Alan Moore no Monstro do Pântano (ambos fizeram histórias que mostravam apenas conflitos internos dos personagens). 

No Brasil essa história foi publicada em Teia do Aranha 17