quarta-feira, julho 08, 2026

Perry Rhodan - Missão Secreta: Moloque

 

 


Uma das razões que faziam os livros escritos por William Voltz (além da qualidade do texto) se diferenciarem dos outros da série Perry Rhodan era a forma como o autor conseguia manejar o suspense, escrevendo um livro que se tornava interessante da primeira à última página. Isso pode ser visto, por exemplo, no número 91, o terceiro escrito por ele.

Na história, Rhodan resolve tentar contato com os deformadores de matéria com o objetivo de conseguir aliados, afinal, agora todos sabem a localização da Terra, o que faz com que ela seja um alvo preferencial.

Os cálculos indicam que os deformadores podem ser encontrados em planeta chamado Moluque e para lá é enviada uma nave da classe estado comandada pelo coronel Marcus Everson, que já havia tido contato com um deformador de matéria no volume O pavor (também escrito por Voltz).

A capa original alemã 


Mas quando a nave desce no planeta, o sistema antigravitacional falha, fazendo com que ela simplesmente desabe. Isso é só o início de uma série de eventos que vão mostrado aos poucos que os terranos caíram em uma armadilha.

Voltz vai aumentando cada vez mais essa sensação de armadilha ao mesmo tempo em que joga com o suspense, colocando algumas informações sobre eventos futuros, a exemplo de: “Não acreditou nem em Petsteven nem no nativo... até que acontecesse alguma coisa com Edward Bellinger”.

Isso faz com que os suspense se mantenha o tempo todo. Aliás, esse é um dos livros em que o leitor acredita piamente que tudo inevitavelmente vai dar errado, mas literalmente na última página tudo se resolve de maneira lógica.

Se isso não fosse mérito suficiente, em sua visão humanista, Voltz detalha cada um dos personagens do livro, trazendo uma caracterização ou informação sobre ele, a exemplo do próprio Coronel Everson: “Poucos comandantes da frota estelar eram tão estimados como Everson. Seus homens o veneravam. Sabia dar o máximo de liberdade e exigir apenas o mínimo de disciplina, sem que isso afetasse sua autoridade”.

Considerando que Perry Rhodan era uma série de ficção científica produzida de modo quase industrial, o que William Voltz fazia é muito mais do que se poderia esperar.

A origem de Sonja

 

Quando Sonja, a guerreira, surgiu, em Conan the barbarian 23, logo chamou a atenção dos leitores. Pouco tempo depois ela ganharia revista própria, capitaneada por Bruce Jones (roteiro) e Frank Thorne (desenhos) e conquistou uma geração de fãs.

Mas os fãs queriam saber a origem daquela carismática guerreira.

A origem da personagem foi contada em 1982 por seu criador Roy Thomas, na revista The Savage Sword of Conan 78, com desenhos de Dick Giordano e arte-final de Terry Austin.

Thomas criou a história do zero, já que na sua origem a personagem nem mesmo vivia na era hiboriana – Red Sonya de Rogatino, a personagem de Robert E. Howard, era uma espadachin da renascença.

Sonja está cavalgando pela floresta quando ouve bandidos torturando um homem. 


Na HQ, Sonja está cavalgando pela floresta quando dá de cara com vários homens torturando um desafortunado. Como odeia torturadores, ela resolve tomar partido da vítima – o que sela o destino do grupo. Mas quando finalmente se livra dos homens, Sonja descobre que o homem que ela salvou é nada menos que o responsável por sua desgraça – o homem que matou sua família e a violentou.

A situação é usada para puxar um flash back com a origem da personagem. 


A situação é usada para puxar um flash back na qual a ruiva relembra como, após a sevícia, foi deixada numa casa em chamas e por pouco não morreu. Quando recobrou os sentidos, deu cara com uma deusa, que lhe prometeu o dom da guerra: “Você sofreu muito, menina... mas saiba que o sofrimento sempre semeia nova força! Se quiser, hoje você poderá usar essa força para tornar o mundo seu lar, assumindo a vida de guerreira!”. Para isso, ela deveria fazer o voto de jamais deixar um homem a tocar, a não ser aquele que a tenha vencido em batalha.

Uma deusa concede à heroina o dom da guerra. 


Essa origem contribuiu ainda mais para engradecer a mitologia da personagem. Dick Giordano, embora não fosse tão bom quanto Frank Thorne, era um desenhista que sabia retratar mulheres e se saiu bem nessa história de origem, principalmente graças à ajudade Terry Austin, um dos melhores arte-finalistas de todos os tempos.

No Brasil essa história foi publicada pela editora abril em Heróis da TV 50. Uma curiosidade é que, como a revista na qual essa história foi publicada originalmente não trazia Sonja na capa, os editores da Abril resolveram usar a imagem da Red Sonja 1.

Homem-aranha: a vingança de Mesmero

 


Em uma época marcada por grandes roteiristas, Denny O´Neil se destacava por ser um dos mais inovadores. Mesmo em histórias menores ou menos importantes ele se mostrava um mestre da narrativa e uma mente extremamente criativa.
Ótimo exemplo disso é a história A vingança de Mesmero, publicada em Spiderman 207, de 1980 (e no Brasil em Homem-aranha 15).
O´Neil imaginou a história como um espetáculo de variedades e isso já fica claro pela splash page que abre a história, que emula o cartaz de uma apresentação. O próprio crédito é colocado como parte do cartaz: “O renomado senhor Stan Lee, ilustrissímo empresário de incríveis atrações, em associação com os senhores Denny O´Neil e James Mooney, Pablo Marcos, técnico gráfico, apresentam... “.

Na história, Mesmero aluga um teatro para realizar um espetáculo de hipnotismo desastroso, que merece uma crítica severa do articulista do Clarin. Mesmero hipnotiza o crítico teatral e o convence a se matar, o que não acontece por intervenção do Homem-aranha. O vilão então volta sua atenção para o amigão da vizinhança e mesmo sua vingança é pensada como um espetáculo de variedades até o momento final, em que a cortina se fecha.
É uma história fechada, curta, sem grandes pretenções, mas muito divertida. Merecimento do mestre Denny O´Neil.

A arte de Jack Davis, o mestre do terror e do humor

 


Jack Davis foi um desenhista norte-americano mais conhecido por seu trabalho para as revistas de horror da EC Comics e para a MAD, da mesma editora. Seu estilo, com figuras humanas distorcidas, com cabeças grandes, braços e pernas finos e pés enormes, se encaixava perfeitamente tanto no terror quanto no humor. Ele também cartazes publicitários, emprestando seu estilo único para filmes de Woody Allen e outros. Confira alguns trabalhos desse mestre.








Tarzan – A volta do formato original

 


Recentemente tive a oportunidade de comprar, em sebo, um gibi de Tarzan da Ebal. Pela capa, achava que se tratava de uma publicação da década de 1950 e me surpreendi ao perceber que é de março de 1985.

A imagem da capa mostrava uma foto de Lex Barker, ator que fez Tarzan no cinema na década de 1940. A chamada dizia: “Com desenhos em  preto e branco! Mais lindos! Mais expressivos”, o que sem dúvida era uma forma curiosa de convencer o leitor de que a economia com a gráfica era um mérito.

O editorial lamentava que os quadrinhos estavam em baixa. 


A revista começa com uma sessão chamada Conversa com o diretor, supostamente escrita por Adolfo Aizen. Ali pelo meio, uma notinha: “As revistas em quadrinhos estão mesmo em baixa. Aparecem e desaparecem. E deixam um rastro de prejuízo às editoras que tentam mantê-las e reerguê-las”.

A notinha é no mínimo estranha, pois, justamente nessa fase, a editora Abril estava bombando com as revistas em quadrinhos Marvel e, em menor nível, com os quadrinhos DC, que antes pertenciam à Ebal. Fazia apenas três anos que a Abril tinha lançado Superaventuras Marvel (a revista de maior sucesso do núcleo de quadrinhos) que publicava à essa altura, X-men de John Byrne e Chris Claremont e Demolidor de Frank Miller. Apenas doís anos depois, em 1987, a Abril lançaria Cavaleiro das Trevas, um campeão de vendas absoluto, que levaria a Abril a lançar diversas graphic novels e minisséries de luxo.

Macacos gigantes, vespas gigantes... o roteirista não parecia muito inspirado. 


A mesma sessão informa que, a partir daquele número, a pedido dos leitores, voltariam a ser publicadas as histórias da década de 1940 e 1950.

Nesse número específico, a revista trouxe três histórias desenhadas por Jesse Marsh, artista que ilustrava Tarzan para a Dell Comics na década de 1950.

Embora o desenho dele fosse elegante, em alguns momentos parecia tosco. As histórias eram bizarras, geralmente envolvendo animais gigantes.

O desenho de Jesse Marsh era simples, mas elegante. 


Na primeira história, Tarzan enfrenta macacos gigantes e na segunda, vespas gigantes, o que mostra que o roteirista provavelmente estava com falta de ideias.

É impressionante a falta de ação: tudo acontece muito lentamente e as cenas de luta, por exemplo, nunca são mostradas, provavelmente reflexo do comics code que amordaçou os quadrinhos na década de 1950. Colaborando com esse ritmo modorrento, a diagramação é padrão, com seis quadros iguais por página.

Em uma das histórias, Tarzan encontra com árabes... e eles estão vestidos como indianos!

Àrabe ou indiano? 


A tradução dos diálogos é primorosa. À certa altura, Boy (o filho de Tarzan?) diz: “Aonde vais?”, ao que o homem macaco responde: “Muviro to dirá”.

A impressão que dá é de que as pessoas que traduziam os textos tinham no mínimo 60 anos.

Na comparação com as revistas da Abril e sua linguagem descolada, quadrinhos repletos de ação e aventura, personagens complexos, a exemplo do Demolidor de Frank Miller e os X-men de claremont e Byrne, essa revista, lançada pela Ebal em 1985 parece uma discrepância.

O ritmo das história era lento. 


A se acreditar na notinha, segundo a qual as histórias de Jesse Marsh tinham voltado a pedido dos leitores, os leitores da revista tinham pelo menos 40 anos, ainda assim, o editor parece acreditar que se trata de crianças, pois introduz, no final do volume, trechos de uma entrevista da escritora Tatiana Bellinky sobre como estimular as crianças a lerem.

Confesso que, embora eu frequentasse as bancas assiduamente em 1985, não vi essa revista nas bancas. Mas é provável que eu tenha visto e ela tenha se tornado invisível. Provavelmente era invisível para muitos outros leitores da minha idade. É que àquela altura a Ebal tinha perdido o bonde da história. Só restava ao editor lamentar que os quadrinhos estavam mesmo em baixa. 

Em tempo: se nas revistas de linha a Ebal parecia perdida, nas edições especiais, como Príncipe Valente e Flash Gordon, a editora certamente abriu caminho para diversas outras editoras posteriores, que focaram em um público mais adulto e de maior poder aquisitivo.

Barbie, o filme

 


Confesso que nunca na minha vida me imaginei comprando igresso para assistir um filme da Barbie no cinema. Mas o filme dirigido por Greta Gerwig é surpreendente, e isso por muitos motivos.

O primeiro deles diz respeito ao próprio conceito: mostrar o mundo da boneca Barbie. Assim, vemos Margot Robbie acordando numa casa perfeita, mas sem paredes e cumprimentando as vizinhas, todas chamadas Barbie. Ele prepara um café da manhã, com torradas que pulam no seu prato e uma jarra de suco que não contém suco. Ela dirige um carro desproporcional que não tem motor.

Nós já tivemos, em Toy Story, brinquedos em 3D sendo mostrados como pessoas, com suas qualidades e defeitos. Aqui a chave vira e vemos atores interpretando brinquedos, inclusive em sua superficialidade unidimensional. E essa interpretação inclui os mínimos detalhes, incluindo momentos em que os personagens movem as mãos com os dedos juntos e fixos, como bonecos.

Só essa inovação, realizada com maestria por ótimas interpretações, já valeria o filme.

A segunda razão, e talvez a mais importante, é o questionamento da personagem principal, que, de repente, passa a ter medo da morte. Esse é um ponto de virada, equivalente ao de Fahrenheit 451, quando é perguntando ao protagonista se ele é feliz. É o gancho que irá puxar toda a história, mas é também a introdução de um questionamento filosófico e existencial num mundo perfeito de plástico. Um questionamento que irá virar tudo de cabeça para baixo. Embora essa questão existencial seja discutida de maneira leve no filme, ela tem um impacto enorme por ser feito em um filme da Barbie.

Junte a isso as várias referências, como a de 2001, no início do filme, ao Zack Snyder, Rambo e outras. Nem mesmo a própria Mattel escapa ao humor ferino do roteiro, como os diretores da empresa sendo mostrados como bobalhões descerebrados que só pensam em dinheiro. Até mesmo a criadora da boneca, tem sua cota de crítica quando uma fala se refere aos seus problemas com receita norte-americana. Essas referências rendem boas risadas.  

Tudo isso é feito de maneira leve e divertida, o que tem se refletido na bilheteria estrondosa.

Em tempo: muitos estão reclamando que os homens, em especial o Ken é mostrado como um ser superficial e cuja importância é totalmente atrelada à Barbie. Parece que essas pessoas esqueceram que estavam assistindo a um filme da... Barbie!

terça-feira, julho 07, 2026

Black Mirror – sexta temporada

 


Charlie Brooker, o criador de Black Mirror, parece ter se cansado das histórias de ficção-científica distópicas, especialmente nas baseadas nos perigos da tecnologia. A sexta temporada, composta por cinco episódios tem uma variedade de temas que vão da ficção científica à fantasia, passando pelo terror. Apresento abaixo os episódios, do melhor para o pior:


 

A Joan é péssima

Esse é o melhor episódio da temporada, e também o que mais se encaixa no tema de Black Mirror. Joan é uma mulher comum vivendo uma vida comum até descobrir um programa numa rede de streaming que é nada mais nada menos que sua vida, minuto a minuto sendo narrada de forma quase instantânea. Na tela ela é interpretada por Salma Hayek. Isso faz com que sua vida vire de cabeça para baixo: ela perde o noivo, perde o emprego, passa a ser odiada por todos. Ao tentar processar a empresa, descobre que ela havia dado autorização para que sua vida fosse assim exposta quando assinou os termos de uso da plataforma. Pior: ela não pode nem mesmo processar Salma Hayek, pois quem aparece na tela, na verdade, é um simulacro feito por inteligência artificial. O episódio discute a questão da privacidade (ou falta de) no mundo tecnológico, mas seu principal tema parece ser o uso de inteligência artificial no lugar de atores, discussão que se tornou ainda mais atual com comercial da Wolkswagen na qual Elis Regina é recriada digitalmente. Esse é um episódio que pode gerar horas e horas de muito debate, como ocorre com as melhores histórias de ficção científica.

 


Beyond the Sea

A história se passa na década de 1960, com carros e roupas da época. Dois astronautas estão numa missão para um local que não é especificado que deverá durar anos. Para que não fiquem loucos, cada um ganha um robô simulacro, com o qual podem continuar convivendo com suas famílias enquanto viajam. Mas um grupo de hippies destrói a réplica de um deles e mata sua família (uma referência óbvia à família Mason), fazendo com que ele entre em depressão. Para tirá-lo desse estado, que pode comprometer a missão, o outro oferece seu corpo robótico, o que gera uma situação desastrosa, que inclui uma paixão do astronauta pela esposa do outro. Além de toda a discussão relacionada à questão dos simulacros, um dos charmes do episódio é justamente a discrepância entre o cenário antiquado, com carros e roupas da década de 1960, e a tecnologia de viagens espaciais e de androides – o que me levou a pensar: não seria também o mundo real um tipo de simulacro para os astronautas? Instigante.

 


Demônio 79

Uma deliciosa homenagem de Charlie Brooker aos filmes ingleses de terror da década de 1970 com seus maneirismos narrativos e exageros. Uma mulher indiana trabalha em uma loja de sapatos e, ao almoçar no porão, descobre um talismã que liberta um demônio, que toma a forma do vocalista do grupo Boney M. , famoso na época. Ele explica que ela deverá cometer três assassinatos em três dias para impedir um hecatombe nuclear. Há aqui uma deliciosa mistura de terror com humor, como quando ela mata um homem, o demônio faz uma ligação que se assemelha a uma ligação para call center, apenas para descobrir que aquele assassinato não vale, pois feria determinada regra. Com certeza o episódio mais divertido, mas também um episódio que parece muito mais ter saído de Além da Imaginação. Uma curiosidade sobre esse episódio é que ele é uma homenagem às avessas ao clássico de Natal A felicidade não se compra, de Frank Capra. No filme do Capra é um anjo que precisa salvar um homem. Em Demônio 79 é um demônio que precisa corromper uma mulher.

 


Mazey Day

A história é focada em uma fotógrafa especializada em fotografar astros para publicações sensacionalistas. Ela abandona a profissão depois que uma de suas fotos faz um ator se suicidar, mas a falta de dinheiro faz com que ela volte à ativa tentando fotografar uma jovem estrela problemática de Hollywood que parece estar envolvida com drogas e está sendo escondida por seu produtor. O episódio mostra uma guinada no final, que leva a trama para o terror. Apesar de tocar em alguns temas interessantes, como a questão da privacidade de pessoas públicas, o final banaliza essas discussões.

 


Loch Henry

Um jovem casal de cineastas resolve fazer um documentário sobre uma série de assassinatos ocorridos numa cidade. Entretanto, o documentário pode revelar verdades escondidas perigosas até mesmo para o protagonista. Apesar da rerviravolta no final, é um episódio fraco, do tipo que terminamos de assistir e temos a sensação de que faltou algo.

O último recreio, de Carlos Trillo e Horacio Altuna

 

 

Imagine um mundo em que todos os adultos morreram e só sobraram as crianças. Esse o universo distópico cirado por Carlos Trillo e Horácio Altuna em O último recreio.

A trama começa com uma bomba caindo em Buenos Aires. Todos os adultos são encaminhados para um refúgio, mas nenhum deles sai de lá. Quando as crianças resolvem sair às ruas, descobrem o mundo está completamente mudado. Um goroto resolvem aproveitar a situação e violentar uma garota, mas acaba morrendo. É nesse ponto que fica claro: a bomba só atinge quem tem a sua sexualidade despertada.

Na história, quem tem a sexualidade despertada morre. 


Um mundo só de crianças poderia parecer um paraíso, mas o que ocorre é exatamente o oposto. A sociedade degenera para um mundo apocalíptico em que se sobressaem os mais fortes.

A história é contada em pequenos capítulos, com personagens que se alternam, quase como se fossem contos isolados unidos pela mesma ambientação.

De todos o episódios, talvez o mais interessante seja A estrela, sobre uma garota que estrelou um programa de TV e viciou-se em ser o centro das atenções. É um perfeito exemplo de como fazer um roteiro em elipse, em que o final é semelhante ao início em um círculo vicioso.

A Estrela é o melhor capítulo. 


Carlos Trillo se destaca pela ótima caracterização dos personagens e pelas tramas bem elaboradas, apesar das poucas páginas de cada capítulo. É um roteirista que impressiona por sua habilidade em todos os aspectos da história.  

Horacio Altuna, por sua vez, desenha a HQ em um perfeito equilíbrio entre a inocência juvenil e a sensualidade, uma escolha perfeita uma vez que, na história, o despertar sexual representa a morte.  

 A história foi publicada originalmente em capítulos na revista espanhola 1984 e depois reunida em álbum. Aqui no Brasil foi lançada pela editora Risco.

Perry Rhodan – O ataque do invisível

 

O número 58 da série Perry Rhodan mostrou o administrador do império solar diante de um perigo realmente terrível, o maior já enfrentado pela humanidade, o que mostra que no segundo ciclo a história alcançaria um nível de suspense e tensão poucas vezes visto no ciclo anterior.

Na história, o computador regente de Árcon descobriu que a Terra não foi destruída. Surpreendentemente, ele não pretende destruí-la, quer, ao contrário, pedir a ajuda de Rhodan para um problema que lhe parece insolúvel.

O encontro dos terranos com os arcônidas acontece num planeta escolhido por rhodan e, para chefiar a nave arconida, o computador regente coloca Talamon, um super-pesado que se revelara amigo de Rhodan – e fora o responsável por revelar a verdade sobre a Terra não ter sido destruída.

A capa original alemã. 


A razão do pedido de socorro: há dez anos uma ameaça paira sobre toda a galáxia: pessoas e animais de planetas inteiros desaparecem sem qualquer explicação. O responsável parece ser invisível – e não só não é visto, como ainda não é detectado por nenhum instrumento ou mesmo por telepatia (como descobrirão os mutantes de Perry Rhodan).

A maior parte da história se passa no planeta Mirsal II, um local com desenvolvimento pouco superior à Idade Média, onde Rhodan marca o encontro. No meio da discussão o local é atacado pelos invisíveis e os seres vivos começam simplesmente a desaparecer.

O fato do inimigo invisível atacar justamente o planeta onde acontece a reunião é uma conveniência de roteiro, pois permite a Rhodan e seu grupo terem um primeiro contato com a ameaça. Mas o texto de Clark Darlton cria um tal clima de suspense que simplesmente esquecemos disso. Esse é um dos volumes mais tensos tanto do primeiro quanto do segundo ciclo. Um situação sintetizada por Rhodan: “Nunca nos defrontamos com uma crise como esta. Pelo que diz o regente, o inimigo já despovoou sistemas solares inteiros, sem que fosse possível fazer qualquer coisa. Não quero imaginar o que acontecerá se os desconhecidos descobrirem a Terra”.  

Darlton é habilidoso o bastante para mesclar muita ação e suspense com uma boa caracterização de personagens, incluindo personagens menores: “De certa forma, Debruque podia ser considerado um esquisistão, embora fosse um companheiro agradável. Dedicava seu tempo livre à arte ainda não extinta da pintura e sentia um prazer imenso em retratar seus companheiros, se bem que estes afirmassem que não se reconheciam nos quadros”.

É nesse volume também que surge pela primeira vez a nave Drusus, uma super gigante da classe império construída totalmente na Terra.

O rapto do garoto de ouro

 

Eu fico agoniado de ficar parado em uma fila sem fazer nada. Por isso, sempre levo comigo um livro, uma revista. É que o eu chamo de livro de fila, ou de sala de espera. É uma boa dica para quem diz que não tem tempo para ler: se a pessoa usar o tempo que gasta em filas ou esperando no consultório, consegue, só usando esses tempos, ler tranqüilamente um livro por mês.

O livro de fila tem de ser leve não só no peso, mas também na mensagem. Levar um livro técnico para ler em uma fila é dor de cabeça na certa. Histórias divertidas ou contos são os ideais.

Um típico livro de fila foi O Rapto do Garoto de Ouro, de Marcos Rey (Coleção Vaga-lume), que terminei de ler apenas em filas ou enquanto esperava em algum consultório. É impressionante como Marcos Rey consegue ultrapassar os limites da literatura infanto-juvenil, produzindo uma obra que agrada a qualquer idade. A história, assim como as outras protagonizadas pelos jovens Léo, Ângela e Gino, é uma narrativa policial das melhores. O garoto de ouro, um astro do rock, é raptado e os detetives amadores precisam descobrir onde ele está antes que ele seja morto.

Marcos Rey trabalha com uma narrativa simples e ao mesmo tempo elaborada. As frase são curtas, parágrafos pequenos, e, ao mesmo tempo há uma inventividade na construção das frases que os fatos vão se passando e o leitor os lê como se estivesse visualizando-os.

Também de Marcos Rey, e com os mesmos personagens, existem os livros O Mistério do Cinco estrelas, Um rosto no computador e Um cadáver ouve rádio. Leia e indique para seus filhos. 

Mineirices

 


Quando entrevistava o mestre Cláudio Seto para meu livro Grafipar, a editora que saiu do eixo, comentei com ele que Minas é o local do Brasil mais parecido com o Japão em termos de cultura – ao que ele concordou.
No Japão há uma espécie de dívida de gentileza. Se alguém nos faz um favor, ficamos em dívida com essa pessoa e devemos em outro momento, retribuir esse favor. Sônia Luyten me contava que quando foi fazer doutorado no Japão certa vez recebeu uma encomenda que era para a vizinha e entregou assim que ela chegou. No dia seguinte, a vizinha bateu-lhe na porta com um presente em retribuição à gentileza de ter recebido a encomenda.
Eu cansei de ver isso na minha infância e vejo isso quando visitos meus parentes mineiros. É uma gentileza tão grande que às vezes chega a ser constrangedora. Você não sai sem tomar um cafezinho - e esse cafezinho logo se transforma num verdadeiro banquete de quitandas. 
Seto conta que comprava dinheiro com o dinheiro dos ovos. Ele sempre acompanhava sua avó à granja do tio para comprar ovos. Chegavam lá eram tratados da melhor forma possível e, ao final, quano a avó queria pagar, o tio não aceitava. Paga, não paga, paga não paga, a velhinha deixava o dinheiro em algum lugar. Quando o tio descobria, corria atrás deles para devolver o dinheiro. Como a avó se recusava a receber, as notas acabava parando nas mãos do Seto, que usava para comprar gibis.
Mas isso, claro, tem o outro lado, tanto em Minas quanto no Japão: a pessoa só aceita uma favor, uma gentileza de alguém na qual ela confia. Afinal, ela não vai querer ficar devendo um favor para alguém que não é confiável. Por essa razão que recusar uma gentileza é tão ofensivo: significa que a pessoa considera que o outro não é confiável e, portanto, não quer ficar em dívida com ele.
Durante anos, embora tenhamos saído de Minas, a guardiã das tradições mineiras era minha avó. Enquanto morei com ela, nunca perdi o “uai” e sempre comia angu em todas as refeições.
Minha avó foi uma das pessoas mais admiráveis que já conheci. Estudou apenas até a quarta-série, mas escrevia melhor que vários estudantes universitários. Quando eu trabalhava em jornal e trazia os exemplares para casa, ela devorava da primeira à última página. Foi a única pessoa que conheci que leu a Bíblia de cabo a rabo mais de uma vez. Hoje em dia, a pessoa lê um versículo e já sai dizendo que leu a Bíblia.
E foi com ela que aprendi mais uma parte da cultura mineira que lembra muito o modo japonês de ser: a honra.
Ela sempre me dizia:
- Meu filho, pobre não tem nada, só tem a própria honra.
Exemplo disso aconteceu quando ela aceitou fazer, de graça, um vestido para uma vizinha.
Minha avó era costureira prendada, do tipo de costurava para esposa do prefeito, vereador e cobrava bem, mas para a vizinha, que era amiga, se recusou a cobrar (mais uma vez a história da gentileza mineira – imagina se ela ia cobrar de uma amiga!).   
Quando recebeu o vestido, a vizinha reclamou:
- E a minha tesoura?
- Como assim, que tesoura?
- Quando levei o vestido, levei também uma tesoura nova. Cadê a tesoura?
Minha avó insistiu que não tinha visto tesoura nenhuma e nem precisava, pois tinha tesoura em casa. E a outra instindo:
- Cadê a tesoura?
Resumo da ópera: minha avó foi até a loja, comprou uma tesoura nova e levou para a vizinha, ainda na embalagem. Preferiu ficar no prejuízo a ser chamada de ladra.
No dia seguinte a vizinha achou a tal tesoura e veio devolver a que recebera. Minha avó recusou. Deixou a vizinha com as duas tesouras. Mas também nunca mais falou com ela. Ela não poderia ser amiga de alguém que desconfiava de sua honestidade. Como ela sempre dizia: “Pobre não tem nada, meu filho, só tem a própria honra”.