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| O filme é baseado na hstória em quadrinhos Ciudad. |
sexta-feira, abril 17, 2026
Resgate
Tropa Alfa – Ouro e casos de amor
Um dos casais mais curiosos e extravagantes dos quadrinhos de super-heróis são dois membros da Tropa Alfa, Sasquatcht e Aurora.
O relacionamento desses dois personagens é explorado nos números 20 e 21 da série. É nessa história, inclusive, que Aurora estreia seu novo uniforme e o cabelo curto (pessoalmente, achei o uniforme genérico e muito parecido, por exemplo, com o de Talismã, outra heroína do grupo).
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| O novo uniforme de Aurora. |
O casal vai a uma ilha deserta onde se encontra uma mansão herdada por Walter e onde eles pretendem instalar uma base da Tropa. “Foi construída em 1896 por uma tia-avó da minha mãe. Ela era uma figura e tanto. Casou-se oito ou nove vezes, viuvou cada uma delas sob circunstâncias misteriosas. Sempre foi diferente do resto da família”.
Mas, durante a visita, Sasquatcht some e Aurora se vê em um local totalmente escuro. Não há nenhuma explicação para toda essa escuridão, de modo que desconfio que era só uma desculpa para Byrne duas páginas com quadros totalmente pretos (vale lembrar que na mesma época ele cuidava dos desenhos e roteiros do título do Quarteto Fantástico) nos quais Aurora fala, fala, fala sem parar.
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| Quadros pretos com diálogos: menos trabalho para Byrne. |
Por mais que heróis na época tivessem essa mania estranha de falarem sozinhos, aqui nitidamente há um exagero. A situação se justifica em parte, pelo fato da personagem mudar de personalidade no meio da sequência, o que se reflete em sua fala. É um bom recurso, embora exagerado, ainda mais pelo fato de que não existe nenhuma razão real para a personagem estar no escuro total.
A heroína acaba encontrando com uma personagem chamada Lírio Dourado e a galeria de maridos da mesma, transformados em estátuas de ouro. Aliás, ela acaba descobrindo que também Sasquatcht, em sua identidade secreta, foi transformado em ouro.
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| Uma galeria de estatuas douradas? |
A capa do número seguinte mostrava Sasquatcht e Aurora enfrentando Diablo, um antigo vilão do Quarteto Fantástico, o que era um tremenda enganação, já que o personagem aparece na história apenas em flash back, pois ele era o amante da Lírio Dourado e quem a iniciou nas ciências do mal. Essa capa enganação, uma forma descarada de vincular a Tropa Alfa ao Quarteto, talvez fosse uma antecipação do que Byrne faria, lá na frente com a Mulher Hulk.
Há um recurso interessante usado no flash back que é o fato de jamais vermos o rosto da vilã, o que cria suspense e abre caminho para a reviravolta final.
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| O rosto da vilã nunca é revelado. |
Uma curiosidade dessa história é que aqui Byrne conta com a arte-final de Keith Williams. Como na época ele estava bastante atarefado, cuidando de mais uma série, deve ter chegado um ponto em que ele não conseguiu continuar fazendo tudo na Tropa Alfa.
Supremo – Oculto pelas nuvens
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| A história é uma crítica de Moore à postura revisionista dos super-heróis. |
Na década de 1990, era famosa a rixa entre os
escritores britânicos Alan Moore e Grant Morrison. Uma rixa unilateral,
já que os ataques vinham mais da parte de Morrison. No entanto, na terceira
história de sua versão de Supremo (publicada no número 43 da revista) Moore resolveu aproveitar que o
protagonista era um desenhista de quadrinhos para dar uma resposta.
Na página de abertura, vemos um trecho do personagem Omniman,
desenhado por Ethan Crane (o alter-ego do Supremo), com o herói em
primeiro plano, arrancando o próprio coração, enquanto um ser monstruoso se
aproxima em segundo plano. “Você nunca vai me matar de verdade”, diz o herói.
“Da mesma forma que não conseguiu matar Jean Genet, Isidore Ducasse ou Mallarmé!
Não enquanto eu puder... unngghhh... arrancar meu próprio coração como um
manifesto final que justapõe a arte, o misticismo e o absurdismo!”.
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| O escritor Bill Friday é uma referência ao roteirista Grant Morrison. |
Era uma forma ácida de dizer que Morrison colocava
referências aleatórias a artistas apenas para parecer intelectual e "descolado",
por mais que essas referências não contribuíssem em nada para a trama.
Mas o escritor Bill Friday (o personagem que
representa Morrison) acha o resultado genial: “Há uma mensagem importante nas
palavras aqui e você pegou a ideia”. Em seguida, ele explica que está acabando
com toda a mitologia de Omniman.
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| A história flash back é um passeio pela Cidadela Suprema. |
Além da crítica, a revista se destaca pela HQ flashback,
desenhada por Rick Veitch e intitulada A charada do castelo das
nuvens. Na trama, Supremo leva Jonas e Judy, seus parceiros jornalistas,
para a Cidadela Suprema, escondida no meio das nuvens. Chegando lá,
porém, encontram as portas abertas e um bilhete. Ou seja: alguém invadiu o
local. A história reflete diretamente as HQs do Superman da Era de Prata, nas
quais tudo era desculpa para mostrar em detalhes a Fortaleza da Solidão.
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| O local foi invadido. Quem é o responsável? |
O local inclui uma dimensão espelhada, onde ficam presos os
inimigos do Supremo, entre eles o Supremo Sombrio, com a imagem em
negativo, além de um zoológico de criaturas lendárias, incluindo Medusas,
dragões e uma bela anjo Luriel. “Poderia ter acontecido algo entre nós
no passado, mas Luriel nem existe nesta realidade. Nunca poderia acontecer”.
Passam também pela galeria dos aliados, heróis da Segunda
Guerra Mundial, incluindo outra personagem de Rob Liefeld, Glory,
para a qual Moore criou uma série fantástica que, infelizmente, ficou
inacabada, mas serviu de base para Promethea.
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| A HQ serve para mostrar a mitologia do personagem. |
No final, a solução para o invasor da cidadela é infantil
e, ao mesmo tempo, inteligente.
É sintomático que Alan Moore tenha colocado essa história,
que explora toda a mitologia do personagem, exatamente no número em que começa
criticando a tendência revisionista e realista dos super-heróis, que inclui
apagar toda a sua mitologia. Era uma declaração de princípios.
Em tempo: Na contramão do
conteúdo, Rob Liefeld deixou de colocar na capa ilustrações de Joe
Bennett emulando quadrinhos clássicos, substituindo-as por pavorosas
imagens de Stephen Platt no pior estilo Image.
Perry Rhodan – A morte da Terra
A morte da Terra, volume 49 de Perry Rhodan, é o fechamento do primeiro ciclo de aventuras do personagem e, portanto, o ponto alto, no qual se resolvem alguns dos maiores conflitos das primeiras histórias.
Na trama, saltadores, superpesados e aras decretam o fim do planeta Terra, mas Rhodan estabelece um ardil: mudar os dados de navegação da única nave que contém essa informação, fazendo com que o ataque aconteça no terceiro planeta do sistema Beta.
Para dar credibilidade a essa versão, duas naves terrenas são enviadas para o local, mas acabam descobrindo que o quarto planeta contém uma base dos tópsidas, antigos inimigos de Rhodan. O que deveria ser um problema vira a parte mais genial do plano: eles conseguem convencer os répteis de que os mercadores cósmicos pretendem na verdade atacar a base instalada no quarto planeta. Ou seja: colocam os principais inimigos do primeiro ciclo em rota de colisão.
É exatamente isso que acontece em A morte da terra: a luta entre saltadores e tópsidas, que terminará com a destruição do terceiro planeta. Mas há um problema: um dos superpesados já visitou os sistema solar e pode revelar aos outros que o ataque é um engano.
Esse é o fio condutor do enredo: o leitor nunca sabe se Topthor conseguirá fazer sua revelação. Isso inclusive gera diversas ocasiões de suspense.
O livro é escrito por Clark Darlton, que, embora não seja tão bom quanto K. H. Scheer na descrição de batalhas, é alguém que sabe lidar com o suspense. O resultado é um livro com alto nível, digno de fechar um ciclo.
Entrentanto, para quem leu todos os volumes, fica óbvio que vários ganchos lançados no volume 46, escrito por Kurt Brand, ficaram como pontas sotas. Nãos sabemos, por exemplo, quem era o traidor na nave de Talamon. Como o autor da sinopse dos volumes era K. H. Scheer, um autor detalhista, é possível que esses ganchos não estivessem na sinopse e tenham introduzidos por Brand, que se esqueceu de solucioná-los no próprio volume.
quinta-feira, abril 16, 2026
O Homem-Animal
Monteiro Lobato: O Sítio Do Pica Pau Amarelo
No primeiro semestre de 2025 eu percorri três municípios do Amapá (Macapá, Santana e Mazagão) ministrando cursos de roteiro para audiovisual em um projeto aprovado via Lei Paulo Gustavo. Essa experiência, incluindo as questões levantadas pelos alunos, me estimularam a produzir uma apostila que foi aumentando de tamanho a cada curso ministrado. No final, percebi que tinha aquele material poderia ajudar outras pessoas interessadas em produzir roteiros para audiovisual, daí surgiu a ideia do livro lançado pela Marca de Fantasia. Embora seja um manual objetivo e prático, ele também é também bastante completo, incluindo assuntos que vão da criação de personagens à estruturas narrativas, incluindo dicas de produção, como otimização de cenários.
O livro é gratuito e pode ser baixado no site da Marca de Fantasia.
Adeus, minha rainha
ROM contra Firefall
Embora a revista do ROM estivesse agradando principalmente graças à mitologia criada para ele por Bill Mantlo e pela personalidade nobre do protagonista, faltava um antagonista à altura para o herói. Até então, ele enfretara, basicamente, soldados humanos manipulados pelos espectros.
Esse adversário à altura surge no terceiro número da revista (embora o confronto entre os dois só aconteça de fato na quarta edição).
| Quanto mais usa seus poderes, mais Archie se une à armadura. |
Na edição anterior, ROM havia invadido um laboratório para caçar espectros e lá dera com uma quadrilha liderada por um veterano da guerra da Coréia chamado Archie Strike. Achando que ROM estava matando humanos, Archie jura detê-lo. Os espectros se aproveitam disso e o convencem a vestir a armadura de um dos cavaleiros espaciais morto por eles e assim o personagem se torna o vilão Firefall, alguém com poderes equivalente ao protagonista e perfeitamente capaz de derrotá-lo. O que ele não sabe é que no processo ele se tornou também parte da armadura, perdendo sua humanidade.
| Uma trama paralela mostra Brandy Clark sendo sequestrada pelos spectros. |
A história segue o clima Marvel, com um vilão que não é exatamente vilão e que acredita estar fazendo o certo. Algo muito distantes dos ensandecidos vilões clássicos dos quadrinhos, muitos dos quais diziam abertamente que eram malvados. Sinal direto da complexidade das histórias e dos personagens.
| Karas, o primeiro a usar a armadura de Firefall, era o melhor amigo de ROM. |
Uma das sequências, em que ROM avança na direção de um labarotório secreto dos espectos é um exemplo da qualidade do texto de Bill Mantlo: “Ele sente o frio subterrâneo agarrando, com dedos gélidos, a armadura ciborgue dele. O próprio subterrâneo da terra foi corrompido. Ele vê a luz nas trevas... luz fria acenando com ódio! A luz também foi corrompida!”. Sequências como essa fizeram com que Rom, um personagem baseado num boneco tosco, se tornasse um dos heróis mais queridos a Marvel.
A origem do livro Cabanagem
Creepshow
Em 1982 dois grandes mestres do horror, o escritor Stephen King e o cineasta George Romero se reuniram para fazer uma homenagem aos quadrinhos da EC Comics. O filme se chamou Creepshow e fez tanto sucesso que teve duas continuações.
Já que se tratava de um filme para homenagear os quadrinhos, por que não transfomar o roteiro em um gibi? Para isso foi chamado um dos desenhistas mais importantes da época, Bernie Wrightson, cujo personagem Monstro do Pântano, criado em parceria com Len Wein, havia sido um dos marcos do terror na década de 1970. Para fazer a capa contrataram um velho mestre da própria EC, Jack Kamen. Aliás, a própria capa já dá o tom da publicação: um garoto lê um exemplar de uma revista de terror enquanto uma figura cadavérica o observa pela janela. Nas paredes, cartazes de filmes de terror: Carrie, Despertar dos Mortos e O iluminado. Aliás, o cartaz do Iluminado é um curiosidade, já que King sempre odiou o filme – talvez Kamen tenha feito a homenagem sem saber disso.
O resultado é bastante divertido, especialmente para aqueles que leram os quadrinhos da EC. King em seu texto satiriza o estilo da EC, inclusive com o apresentador comentando a história e fazendo seus inevitáveis trocadilhos. Bernie Wrightson é Bernie Wrightson e, embora esse não seja seu melhor trabalho (só eu acho que o traço dele fica melhor em PB?), não decepciona.
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| As histórias seguem a linha do escatológico. |
As histórias são irregulares, primando muito mais pelo escatológico do que para o horror psicológico – que era uma das grandes características da EC. Também é raro encontrar nas histórias a ironia do destino comum em histórias da EC.
King nitidamente volta ao seu tempo de criança nessa homenagem à EC, mas também parece escrever as histórias com um olhar de criança, que não conseguia ver com profundidade as narrativas de terror de revistas como Tales from the Crypt.
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| Indo com a maré - uma ideia desperdiçada. |
Algumas histórias parecem uma boa ideia desperdiçada, como o caso de “Indo com a Maré”, em que um marido ciumento enterra o amante de sua esposa na beira da praia, deixando apenas sua cabeça do lado de fora. Se fosse uma história da EC, toda a narrativa se concentraria na agonia do homem, que sabe que irá se afogar quando a maré encher. Mas King estica a narrativa para mostrar os dois amantes voltando do mundo dos mortos para se vingar do esposo ciumento – um ponto da história totalmente descartável, que foge do ritmo narrativo já estabelecido na história e serve apenas apenas para aumentar a escatologia da HQ.
Nesse sentido, “Vingança barata” talvez seja o que mais se aproxima do que seria uma história EC Comics. Havia um padrão de histórias EC sobre pessoas com TOC, como do homem que comete um assassinato e passa tanto tempo limpando a cena do crime e de forma tão obsessiva que quando a polícia chega ao local ele ainda está lá, limpando digitais. “Vingança barata” mostra um magnata fanático por limpeza que de repente vê seu apartamento ser dominado por baratas.
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| Vingança barata: no estilo da EC Comics. |
King se destacou por conseguir levar o estilo dos quadrinhos EC para a literatura, criando narrativas envolventes que se aprofundam na psicologia dos personagens. É uma pena que quando ele tentou levar isso de volta para os quadrinhos não tenha mantido o mesmo nível. Ainda assim, Creepshow é um álbum divertido e a edição da DarkSide é caprichada, em capa dura, papel de boa qualidade, boa impressão e só peca pela total ausência de textos explicativos.
Xisto e o pássaro cósmico
O sucesso das aventuras de Xisto levou a escritora Lúcia Machado de Almeida a produzir duas outras obras com o personagem, Xisto no espaço e Xisto e o pássaro cósmico.
Esse último foi inicialmente publicado como Xisto e o saca-rolha. Quando resolveram lançar na coleção Vaga Lume, os editores devem ter percebido que aquele não era um bom título e mudaram, dando ênfase ao pássaro cósmico inclusive na capa.
Na trama, um disco voador explode e cai no mar, próximo ao país governado por Xisto. Dos destroços surge um belíssimo pássaro azul: “Era linda e media cerca de dois metros com as asas abertas. Uma levíssima penugem azul cobria-lhe o corpo todo como se feito de lamê brilhante”, escreve Lúcia Machado de Almeida.
Xisto chega a dar uma festa para mostrar a novidade para a população, mas a ave morre, deixando, no entanto, um ovo.
Algum tempo depois uma plantação é arrasada por algo que parece uma mola e esse mecanismo (ou ser) estranho começa a provocar grande estragos no reino. Ao mesmo tempo, várias fatos estranhos começam a ser observados, como copos que se levantam sozinhos, garrafas de leite que se esvaziam sozinhas e outros fatos semelhantes. Os dois fatos, embora muito diversos, parecem estar de alguma forma relacionados.
De todos os livros da série, esse é o menos interessante. A escritora reutiliza algumas estratégias de outros livros, o que torna relativamente fácil adivinhar o que está acontecendo. Outro problema é que, nos livros anteriores, Xisto enfrentava diversos perigos em sequência, numa verdadeira jornada. Aqui, temos só um perigo (o Saca-rolhas), o que torna a trama menos interessante.

























