quarta-feira, abril 02, 2025
MAD 18 - No Limite do Senado
Propaganda é a alma do negócio
A arte impressionante de Chris Wahl
Chris Wahl é um ilustrador, quadrinista e caricaturista australiano. Ele te se destacado por suas belíssimas imagens produzidas para a série Guerra nas Estrelas, Marvel, DC, MAD e pelas capas do personagem Fantasma, até hoje muito popular na Austrália.
Interfaces midiáticas e quadrinhos
Já está disponível, no site da editora da Unifap, o livro Interfaces midiáticas e quadrinhos, organizado por mim e pelo Rafael Senra.
O livro, uma co-edição da editora da Unifap e da Verter, reúne artigos apresentados no IV Aspas Norte.
Nas palavras de Rafael Senra, "Temos aqui autores de todo o Brasil, com artigos que envolvem o tema dos quadrinhos analisados sob diversas metodologias e abordagens. Seja com trabalho de campo, atividades didáticas ou pesquisas bibliográficas, temos aqui reunidos trabalhos de alto nível acerca dos quadrinhos e do diálogo desse meio com diversas mídias. ".
O e-book pode ser baixado gratuitamente clicando aqui: https://www2.unifap.br/editora/files/2024/04/Livro-Interface-Midiatica.pdf
Bem-vindos a Alflolol
Cavaleiro da Lua – meia-noite significa morte
Pouco tempo depois de sua estréia o título do Cavaleiro da Lua chamou atenção. Com bons roteiros de Doug Moench e ótima arte de Bill Sienkiewcz, o título tinha tudo para conquistar os fãs. Mas faltava um vilão à altura do protagonista. Os vilões das histórias anteriores haviam morrido e, aparentemente não revelavam mais perigo.
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Na RGE o personagem era chamado de Cavaleiro de Prata |
Esse vilão vai surgir no terceiro volume intitulado “Meia-noite significa morte”. Essa oposição já aparecia na página de abertura, muito criativa, aliás, reproduzindo uma capa do Clarin Diário. Na metade esquerda, uma matéria sobre como o Cavaleiro da Lua vinha se destacando na luta contra o crime e, do outro lado o surgimento de um ladrão especialista em artes. A matéria previa que em algum momento eles iriam se encontrar.
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Sienkiewcz mostra influência de Neal Adams. |
O vilão é tão audacioso que chega a roubar um colar de diamantes de uma cantora de opera em plena apresentação... e desafia o Cavaleiro da Lua a pará-lo. Enquanto isso, um colecionador de arte contrata o mercenário Marc Spector para proteger suas obras, o que leva ao encontro dos dois personagens num final surpreendente (quer dizer, deve ter sido para os leitores, eu saquei logo, mas isso tem a ver com o fato de que eu penso como roteirista). Destaque para a luta final na qual Bill Sienkiewcz mostra o quanto aprendeu com Neal Adams com diagramações inovadoras e principalmente as poses dos personagens, sempre com um elemento em primeiro plano.
No Brasil essa história saiu em Almanaque Premiere (RGE) e coleção Paladinos Marvel (Panini).
Perry Rhodan – Duelo de mutantes
Clark Darlton era conhecido entre os autores da série Perry Rhodan por humanizar seus relatos. E é exatamente isso que ele faz no número 26 da série.
Na trama, Perry Rhodan encontra um adversário à altura: um super-mutante apelidado de supercrânio, que usando suas capacidades hipnóticas, formara seu próprio exército de mutantes e, com eles, pretendia conquistar o poder mundial através de assassinatos, greves, guerras e atentados. O volume trata do ponto em que dois exércitos de mutantes entram em rota de colisão.
A história inicia no espaço, com um dos destróiers roubados pelo Supercrânio atacando uma nave-escola da terceira potência. O texto de Darlton foca em um dos recrutas: “Julian Tifflor, que seus amigos e colegas chamavam apenas de Tiff, enganava os que o cervavam. Atrás daqueles olhos sonhadores escondia-se a energia de uma pequena bomba atômica. Apesar de seus vinte anos, Tiff era um gênio matemático e um exemplar de coragem e resolução”.
Mais à frente, quando o Supercrânio usa uma unidade do exército da terceira potência para atacar a própria terceira potência, a narrativa é toda focada em um dos soldados, o sargento Harras, que vai do cansaço e do desejo era tirar o uniforme suado e dar um salto na piscina à necessidade irracional de guerrear.
O volume é um pouco decepcionante para quem se deixa levar pelo título. Não há de fato um duelo entre mutantes uma vez que assim que os mutantes do exército do supercrânio são tirados de sua influência hipnótica, eles aderem à terceira potência. Além disso, o mais poderoso dos mutantes, Gucky, acaba não participando do duelo, embora tenha uma atuação importante em outro momento da trama.
Ao contrário da capa americana, a capa alemã mostra uma cena que existe no livro. |
No volume há algumas frase que parecem estranhas. Quando é tirado da influência do Supercranio, é dito que um dos mutantes mudou de dono. Sobre outro é dito que mudou de mestre, o que vai na contramão da ideia de que Rhodan representa uma visão não-autoritária.
Ainda assim, com todos os volumes escritos por Darlton, esse é uma leitura deliciosa.
Em tempo: a capa da Ediouro, baseada na edição americanda, não tem mínima relação com a trama. Aparentemente o desenhista Gray Morrow sequer lia o volume, ou recebia um resumo. Assim, seguia o padrão de desenhar uma imagem de um homem com “roupa futurista” e uma mulher loura em apuros.
Os 12 macacos
Os 12 macacos é um dos melhores, senão o melhor filme de viagem no tempo da história da história.
Dirigido por Terry Gilliam e lançado em 1996, o filme conta a história de um futuro apocalíptico no qual a humanidade quase foi exterminada por uma pandemia e cientistas mandam um condenado chamado James Cole (Bruce Willis) para o passado a fim de, inicialmente coletar o vírus em estado puro e, depois, quando Cole descobre que a pandemia foi provocada por um grupo de ecoterroristas chamado os 12 macacos, tentar evitar que o vírus seja dispersado.
Na primeira vez em que é enviado ao passado, Colen é confundido com um doente mental e internado num hospício, onde conhece Jeffrey Goines (Brad Pitt), o filho do dono de uma empresa de biotecnologia. Tudo leva a crer que Goines, líder dos 12 macacos, será o responsável por dispersar o vírus, iniciando a pandemia global. Impedi-lo passa a ser o objetivo do protagonista ao mesmo tempo em que se envolve com a psiquiatra Kathryn Railly (interpretada por Madeleine Stowe) numa relação que começa com um sequestro.
Essa trama já seria complexa por si só, mas a imprecisão da máquina do tempo faz com que os “voluntários” sejam enviados para datas aleatórias, como a I Guerra Mundial, antes de irem para o ano em que a pandemia começou. Isso faz com que fatos que ainda não aconteceram tenham consequências anteriores. Por exemplo, quando volta da primeira viagem, os cientistas perguntam a Cole se ele fez determinado telefonema. Ele não reconhece por uma razão simples: a ligação só seria feita na sua terceira viagem.
Para tornar a trama ainda mais complexa e interessante, Cole tem sonhos recorrentes com uma lembrança de infância de quando viu um homem ser morto num aeroporto – só descobrimos quem é o homem morto numa das últimas cenas do filme, e essa descoberta é um dos muitos plot twists dessa trama cheia de reviravoltas.
Jornal O Liberal faz matéria sobre livro Cabanagem, de Gian Danton
O Liberal, principal jornal de Belém, publicou uma matéria dando destaque para meu livro Cabanagem, que está em campanha no Catarse. Clique aqui para ler a matéria.
terça-feira, abril 01, 2025
Fome de poder
Pimpinela escarlate
Pimpinela Escarlate, de autoria da Baronesa de Orczy, foi escrito em época pouco posterior à Revolução Francesa e conta a história de um misterioso personagem que se empenha em tirar nobres da França numa época em que ser nobre na França era ser freguês da guilhotina. É um dos livros de propaganda disfarçada de ficção mais antigos que conheço. Escrito por uma nobre, mostra os nobres como heróis e os plebeus como vilões magros e astutos que esfregam as mãos magras a cada minuto, maquinando planos diabólicos. Em vários sentidos, Pimpinela Escarlate é um precursor de heróis como Batman e Zorro (inclusive no que diz respeito ao maniqueísmo com que os personagens são apresentados). Uma das características que o vão diferenciar dos heróis clássicos e aproximá-lo dos super-heróis é a necessidade de uma identidade secreta.
O tigre branco
Eu gosto de narrações em off. Mal feitas, elas se tornam muletas narrativas, contando o que as imagens já estão narrando, mas bem feitas, elas ajudam a dar significados às imagens e aprofundar a trama, a ambientação e os personagens. Ótimo exemplo desse segundo caso é O tigre branco, filme do indiano Ramin Bahrani, de 2021.
O filme conta a história de Balram Halwai, um garoto prodígio de um pequeno vilarejo da Índia, que, apesar dos ótimos resultados na escola, é obrigado pela família a parar os estudos para trabalhar em uma loja de chás.
Mas a vida de Balram começa a mudar quando o filho mais novo da família de mafiosos volta dos EUA e ele vê a possibilidade de se tornar motorista do mesmo. O filme começa no meio da história, quando a esposa do rapaz pega o carro e Balram assiste do banco de trás, prevendo que algo errado irá acontecer. Então começa a narrativa em off, segundo a qual aquela era a maneira errada de começar uma história, já que na Índia sempre se começa com um oferecimento aos deuses.
A narrativa aqui funciona como desconstrução tanto dos filmes indianos (há outros momentos de desconstrução, inclusive com quebra da quarta parede, no final), quanto da imagem que se tem da Índia. A índia paradisíaca e turística não combina com a Índia real, em que um emprego de motorista é disputado de todas as formas e o sistema de castas parece subsistir até os dias atuais – com possibilidades mínimas de ascenção social. É também uma desconstrução do discurso de empreendedorismo. À certa altura, o personagem diz: Só existem duas formas de um pobre subir na vida em meu país: através do crime e da política. No seu país também é assim?
O tom sociológico pode dar a entender que se trata de um filme modorrento, chato, mas é exatamente o oposto disso que vemos em O tigre branco. Tanto a primeira parte, dominada pelo otimismo e com pegadas de humor, quando a segunda e sombria parte funcionam muito bem como narrativa envolvente.
Marudá - diário de viagem
No primeiro dia em que passamos em Marudá, litoral do Pará, um espírito de porco estacionou o carro na frente de nosso hotel e colocou o som na maior altura. Achei um absurdo, mas minha mulher insistiu que eu era um chato, que se tratava apenas de um fato isolado e que ele logo desligaria. Mal sabia ela que aquilo era apenas uma amostra do que viria. Um vislumbre do inferno.
Mas isso não era o pior.
O pior viria na noite de sábado. Percebi que não haveria limite nenhum quando um motorista bêbado parou no meio da avenida Beira-mar, abriu a porta do quarto, arriou as calças e mijou ali mesmo. Em seguida ele partiu a toda, quase batendo no carro da frente e, depois, ao dar a ré, no carro de trás. Nem um único guarda apareceu.
Mal começou a tarde e começaram a surgir carros com caixas de som. Um atrás do outro. Um ao lado do outro. Cada centímetro quadrado de som era disputado por um carro com alto-falantes imensos. Curiosamente, todos tocando brega, mas nenhum com a mesma música, de modo que a uma certa distância, você conseguia distinguir apenas barulho, muito barulho. Até carrinhos de pipoca tinham caixas de som. Parecia haver um esforço conjunto para fazer barulho.
Ali por 11:30 apareceu um som tão alto que fez parecer que os outros tinham abaixado o volume. Fomos na sacada do hotel e o que vi me fez tremer: era um carro de passeio, mas adaptado como uma aparelhagem. Além do porta-malas totalmente tomado, havia caixas de som ao lado em cima. O resultado disso fazia tremer as paredes do hotel.
Já era noite alta quando os porcos começaram a se afastar na direção da praia, levando as cachorras para o abate. Aí eu entendi porque a água de Marudá é tão gosmenta.
O som continuou por toda a noite, toda a madrugada, sem descanso. Os carros que não conseguiam estacionar desfilavam suas caixas de som pela avenida, numa tentativa vã de chamar atenção.
No dia seguinte, a praia amanheceu repleta de lixo: eram copos plásticos, garrafas, latinhas, sacos, e provavelmente algumas, não muitas, camisinhas. Os garis da prefeitura passavam limpando a calçada, mas nem olhavam para a praia, de modo que toda aquela sujeira ia para o mar. Alguns retardatários aproveitavam o fim da madrugada para aumentar o som e beber o que restava das garrafas e latinhas, jogando os restos na água cheia.
Desci para tirar fotos e um dos bêbados comentou:
- Olha só o otário tirando foto do lixo!
Sim, eu estava tirando foto do lixo. Queria uma imagem que representasse bem o que é Marudá nos finais de semana.
Homem-Aranha – desmascarado pelo Dr. Octopus
O número 12 da revista espetacular homem-aranha mostrava já na capa uma situação que prendia a atenção dos leitores: O doutor Octopus segurando o Homem-aranha com seus tentátculos e retirando sua máscara na frente de JJ Jameson, Betty Brand e policiais. A chamada de capa dizia: “Não é um sonho! Nem uma história imaginária! Você vai perder o fôlego de espanto quando Peter for DESMASCARADO PELO DR. OCTOPUS!”.
Na história, o vilão, após ser liberdado da prisão por bom comportamento, efetua diversos roubos tentando chamar atenção do herói aracnídeo, mas o herói não aparece. “Por que ele não me seguiu? Dei-lhe todas as iscas necessárias!”.
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Um herói gripado... |
O quadro seguinte mostrava a explicação: Peter Parker estava sem dinheiro para viajar até onde estava o vilão, e, além disso, estava nas provas finais do colégio. O mesmo quadro mostrava Tia May colocando a mão sobre a testa de Parker e comentando que ele parece estar com febre.
Que herói deixaria de combater um vilão por não ter dinheiro para a passagem de ônibus e por estar em provas finais na escola? Que herói seria mostrado gripado? Por incrível que pareça, esses aspectos, que pareciam fraquezas do herói, eram na verdade sua força editorial: eles garantiam a identificação do público jovem com o personagem.
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... o que vira uma ótima solução narrativa. |
E, sim, Parker estava gripado, de modo que quando ele finalmente enfrenta o Dr. Octopus, ele está enfraquecido e é vencido tão facilmente que tanto o vilão quanto a polícia, JJ Jameson e Betty Brand se convencem de que estão diante de um impostor. Quando a máscara é retirada e o rosto de Parker é mostrado, todos acreditam que ele vestira uma fantasia para tentar salvar a namorada. Com isso, Stan Lee e Steve Ditko resolveram de forma inteligente a situação da capa sem precisar usar de meios artificiais como um robô ou dizer que se tratava de uma história imaginária. Era a Marvel mostrando que era uma editora diferente – diferença que faria com que ela superasse a DC em vendas.
Uma curiosidade é que quando essa história foi publicada no Brasil pela editora Ebal, os editores inverteram a ordem das histórias. Primeiro apareceu a história na qual o Dr. Octopus desmascara Parker e só depois veio a história na qual o vilão sai da prisão. Levou muito tempo para que surgissem editores que entendessem a cronologia das histórias Marvel.