quarta-feira, abril 02, 2025

MAD 18 - No Limite do Senado

 

Na época da MAD 18 dois assuntos estavam na boca de todos: a volta do reality show No Limite e mais um dos inúmeros escândalos de corrupção no Senado, na época comandado pelo famoso bigodudo. Quando o Raphael Fernandes me convidou para fazer a sátira do No Limite pensei em juntar as duas coisas e assim surgiu No Limite do Senado, no qual os integrantes ficam presos em uma ilha e ganha a disputa quem consegue roubar mais dinheiro. O editor Raphael Fernandes teve a ideia de divulgar as imagens da história como se ela tivesse sido censurada por políticos, o que chamou ainda mais atenção para a HQ. Os desenhos ficaram por conta do Anderson Nascimento. 

Propaganda é a alma do negócio

 


publicidade é o mais conhecido método de promoção, mas não necessariamente o de maior retorno. Enquanto outras estratégias, como a de prêmios, concursos e amostras, podem ter um impacto imediato sobre as vendas, a publicidade pode se refletir nas vendas só depois de um longo período. Entretanto, esse é o tipo de promoção que produz os resultados mais duradouros. Sendo assim, a publicidade tem resultados lentos, mas sólidos.
Por isso, chega a ser engraçado ver aqueles donos de lojinhas que colocam um anúncio na TV e acham que no dia seguinte o seu estabelecimento estará repleto de fregueses. O bom resultado de uma publicidade depende de uma série de fatores, entre eles a escolha da mídia correta e do horário certo. Exemplo disso é o caso de um colégio de Belém (PA) destinado ao público de alto poder aquisitivo. Os diretores do colégio foram procurados por um locutor de rádio que lhes fez uma proposta tentadora de divulgação. Como resultado, o colégio viu seu produto ser anunciado em um programa brega, transmitido ao vivo de uma das praias mais populares do Pará. Como resultado, o colégio foi associado com algo popularesco e de baixa qualidade, justamente o oposto da imagem que se pretendia passar. Foi necessário fazer toda uma nova campanha só para desfazer a imagem negativa que esse episódio deixou.
Antes de fazer qualquer anúncio publicitário, o profissional de publicidade deve ter em mente a resposta para duas perguntas: Para quem estou enviando essa mensagem? Com que objetivo?
A resposta de “Para quem?” define o público-alvo. Se o público-alvo são os executivos, não se deve anunciar no programa da Xuxa. Se o público-alvo são os operários que acordam cedo e, portanto, dormem cedo, não se vai anunciar em programa de madrugada. Caso o público-alvo more no interior, em regiões em que o rádio tem mais força que a televisão, o mais interessante é anunciar no rádio.

A resposta para “Com que objetivo?” dá o enfoque da campanha. Pode, por exemplo, ser uma campanha de varejo, que tem como único objetivo vender um produto específico. Mas pode ser também um anúncio que tem como objetivo criar uma boa imagem da marca, levando o consumidor a tornar-se fiel a ela. As respostas para todas essas perguntas são conseguidas através do briefing. 

Uma dúvida frequente é: qual a diferença entre publicidade e propaganda? Publicidade vem do latim “publicus”, ou seja, aquilo que é público, e era usado para os anúncios de produtos pintados nos muros das casas. Já propaganda vem da palavra, também latina, “propagare”, difundida pela igreja católica por meio do Congregatorio Propaganda Fide (congregação para propagação da fé) na época da contrarreforma.  Assim, publicidade passou a designar a divulgação de produtos e serviços, e a propaganda passou a representar a divulgação de ideologias, partidos etc. Assim, existe a publicidade do Bombril e a propaganda política. No entanto, no Brasil, os dois termos são usados como sinônimos no dia a dia das agências de publicidade.

A arte impressionante de Chris Wahl

 


Chris Wahl é um ilustrador, quadrinista e caricaturista australiano. Ele te se destacado por suas belíssimas imagens produzidas para a série Guerra nas Estrelas, Marvel, DC, MAD e pelas capas do personagem Fantasma, até hoje muito popular na Austrália.














Interfaces midiáticas e quadrinhos

 


 
Já está disponível, no site da editora da Unifap, o livro Interfaces midiáticas e quadrinhos, organizado por mim e pelo Rafael Senra. 

O livro, uma co-edição da editora da Unifap e da Verter, reúne artigos apresentados no IV Aspas Norte. 

Nas palavras de Rafael Senra, "Temos aqui autores de todo o Brasil, com artigos que envolvem o tema dos quadrinhos analisados sob diversas metodologias e abordagens. Seja com trabalho de campo, atividades didáticas ou pesquisas bibliográficas, temos aqui reunidos trabalhos de alto nível acerca dos quadrinhos e do diálogo desse meio com diversas mídias. ".

O e-book pode ser baixado gratuitamente clicando aqui: https://www2.unifap.br/editora/files/2024/04/Livro-Interface-Midiatica.pdf

Bem-vindos a Alflolol

 


Uma das características que fazem de Valerian algo totalmente diferente de outras séries de ficção científica é a humanidade, filosofia e poesia das histórias. Como diz o roteirista Christin, “Mesmo que a aventura renda sempre uma leitura agradável, o verdadeiro tema é a reflexão, antes da ação”. Exemplo perfeito disso é o álbum Bem-vindos a Alflolol.
Na história, os dois aventureiros espaciais, Valerian e Laureline, estão visitando um planeta repleto de recursos naturais que estão sendo explorados pelos terrestres. É quando se deparam com uma nave ancestral. Na nave estão os habitantes originais do planeta, seres tão longevos que vivem milhares de anos. E que têm o costume de fazer passeios de turismo pela galáxia de tempos em tempos, em embarcações movidas por seus poderes mentais. E eles estão voltando para casa depois de uma breve viagem... que durou quatro mil anos terrestres!
Os habitantes de Alflolol estão voltando de uma longa viagem de turismo... 


Isso gera uma crise: os executivos são obrigados a aceitar os alfaloloseses , mas temem que os habitantes originais possam atrapalhar a produção (a todo momento temos algum executivo dizendo algo como “A produção não pode parar!”, “A economia não pode parar!”).
Para evitar prejuízos à empresa, os habitantes originais do planeta são confinados em uma reserva.
... e acabam sendo confinados em uma reserva. 


A HQ nitidamente é uma metáfora da situação dos índios norte-americanos, habitantes originais das terras americanas, mas aprisionados em reservas.
A dupla de criadores, Christin e Méziéres, no entato, dá à história, que poderia ser um dramalhão, um tom leve e irônico, constantemente humorístico.   E transformam a coisa toda numa grande aventura, deliciosa de se ler.
Bem-vindos a Alflolol faz parte do segundo volume da série de álbuns dos personagens lançada pela editora SESI de São Paulo.

Cavaleiro da Lua – meia-noite significa morte

 


Pouco tempo depois de sua estréia o título do Cavaleiro da Lua chamou atenção. Com bons roteiros de Doug Moench e ótima arte de Bill Sienkiewcz, o título tinha tudo para conquistar os fãs. Mas faltava um vilão à altura do protagonista. Os vilões das histórias anteriores haviam morrido e, aparentemente não revelavam mais perigo.

Na RGE o personagem era chamado de Cavaleiro de Prata


Esse vilão vai surgir no terceiro volume intitulado “Meia-noite significa morte”. Essa oposição já aparecia na página de abertura, muito criativa, aliás, reproduzindo uma capa do Clarin Diário. Na metade esquerda, uma matéria sobre como o Cavaleiro da Lua vinha se destacando na luta contra o crime e, do outro lado o surgimento de um ladrão especialista em artes. A matéria previa que em algum momento eles iriam se encontrar.

Sienkiewcz mostra influência de Neal Adams.


O vilão é tão audacioso que chega a roubar um colar de diamantes de uma cantora de opera em plena apresentação... e desafia o Cavaleiro da Lua a pará-lo. Enquanto isso, um colecionador de arte contrata o mercenário Marc Spector para proteger suas obras, o que leva ao encontro dos dois personagens num final surpreendente (quer dizer, deve ter sido para os leitores, eu saquei logo, mas isso tem a ver com o fato de que eu penso como roteirista). Destaque para a luta final na qual Bill Sienkiewcz mostra o quanto aprendeu com Neal Adams com diagramações inovadoras e principalmente as poses dos personagens, sempre com um elemento em primeiro plano.

No Brasil essa história saiu em Almanaque Premiere (RGE) e coleção Paladinos Marvel (Panini).

Perry Rhodan – Duelo de mutantes

 


Clark Darlton era conhecido entre os autores da série Perry Rhodan por humanizar seus relatos. E é exatamente isso que ele faz no número 26 da série.

Na trama, Perry Rhodan encontra um adversário à altura: um super-mutante apelidado de supercrânio, que usando suas capacidades hipnóticas, formara seu próprio exército de mutantes e, com eles, pretendia conquistar o poder mundial através de assassinatos, greves, guerras e atentados. O volume trata do ponto em que dois exércitos de mutantes entram em rota de colisão.

A história inicia no espaço, com um dos destróiers roubados pelo Supercrânio atacando uma nave-escola da terceira potência. O texto de Darlton foca em um dos recrutas: “Julian Tifflor, que seus amigos e colegas chamavam apenas de Tiff, enganava os que o cervavam. Atrás daqueles olhos sonhadores escondia-se a energia de uma pequena bomba atômica. Apesar de seus vinte anos, Tiff era um gênio matemático e um exemplar de coragem e resolução”.

Mais à frente, quando o Supercrânio usa uma unidade do exército da terceira potência para atacar a própria terceira potência, a narrativa é toda focada em um dos soldados, o sargento Harras, que vai do cansaço e do desejo era tirar o uniforme suado e dar um salto na piscina à necessidade irracional de guerrear.

O volume é um pouco decepcionante para quem se deixa levar pelo título. Não há de fato um duelo entre mutantes uma vez que assim que os mutantes do exército do supercrânio são tirados de sua influência hipnótica, eles aderem à terceira potência. Além disso, o mais poderoso dos mutantes, Gucky, acaba não participando do duelo, embora tenha uma atuação importante em outro momento da trama.

Ao contrário da capa americana, a capa alemã mostra uma cena que existe no livro. 


No volume há algumas frase que parecem estranhas. Quando é tirado da influência do Supercranio, é dito que um dos mutantes mudou de dono. Sobre outro é dito que mudou de mestre, o que vai na contramão da ideia de que Rhodan representa uma visão não-autoritária.

Ainda assim, com todos os volumes escritos por Darlton, esse é uma leitura deliciosa.

Em tempo: a capa da Ediouro, baseada na edição americanda, não tem mínima relação com a trama. Aparentemente o desenhista Gray Morrow sequer lia o volume, ou recebia um resumo. Assim, seguia o padrão de desenhar uma imagem de um homem com “roupa futurista” e uma mulher loura em apuros.

Os 12 macacos

 



Os 12 macacos é um dos melhores, senão o melhor filme de viagem no tempo da história da história.

Dirigido por Terry Gilliam e lançado em 1996, o filme conta a história de um futuro apocalíptico no qual a humanidade quase foi exterminada por uma pandemia e cientistas mandam um condenado chamado James Cole (Bruce Willis) para o passado a fim de, inicialmente coletar o vírus em estado puro e, depois, quando Cole descobre que a pandemia foi provocada por um grupo de ecoterroristas chamado os 12 macacos, tentar evitar que o vírus seja dispersado.

Na primeira vez em que é enviado ao passado, Colen é confundido com um doente mental e internado num hospício, onde conhece Jeffrey Goines (Brad Pitt), o filho do dono de uma empresa de biotecnologia. Tudo leva a crer que Goines, líder dos 12 macacos, será o responsável por dispersar o vírus, iniciando a pandemia global. Impedi-lo passa a ser o objetivo do protagonista ao mesmo tempo em que se envolve com a psiquiatra Kathryn Railly (interpretada por Madeleine Stowe) numa relação que começa com um sequestro.

Essa trama já seria complexa por si só, mas a imprecisão da máquina do tempo faz com que os “voluntários” sejam enviados para datas aleatórias, como a I Guerra Mundial, antes de irem para o ano em que a pandemia começou. Isso faz com que fatos que ainda não aconteceram tenham consequências anteriores. Por exemplo, quando volta da primeira viagem, os cientistas perguntam a Cole se ele fez determinado telefonema. Ele não reconhece por uma razão simples: a ligação só seria feita na sua terceira viagem.

Para tornar a trama ainda mais complexa e interessante, Cole tem sonhos recorrentes com uma lembrança de infância de quando viu um homem ser morto num aeroporto – só descobrimos quem é o homem morto numa das últimas cenas do filme, e essa descoberta é um dos muitos plot twists dessa trama cheia de reviravoltas.

Não bastasse ser um tremendo filme de ficção científica, Os 12 macacos é também uma reflexão sobre sanidade e loucura e como a ciência pode servir a sistemas autoritários – não por acaso a junta de psiquiatras que examina Cole no hospício é mostrada de maneira muito semelhante à junta de cientistas que envia Cole ao passado.

Jornal O Liberal faz matéria sobre livro Cabanagem, de Gian Danton

 


O Liberal, principal jornal de Belém, publicou uma matéria dando destaque para meu livro Cabanagem, que está em campanha no Catarse. Clique aqui para ler a matéria.

terça-feira, abril 01, 2025

Fome de poder

 


O McDonald´s é a maior rede de fast food do mundo. É tão popular que simplemente mudou a forma como as pessoas se alimentam, em especial nos EUA. Mas, por trás de todo esse sucesso há toda uma história de traições, ganância e total falta de ética. É esse lado sujo da franquia que John Lee Hancock mostra no filme Fome de poder, disponível no Brasil pela Netflix.
O filme começa com Ray Kroc tentando inutilmente vender um mixer para produção de milk shake. Ele tenta em várias lanchonetes e drive thrus, sempre sem sucesso. O roteiro aproveita para mostrar o vendedor tentando almoçar e enfrentando os mais diversos problemas para isso: a comida que demora, o prato que vem errado.
É quando a firma recebe a encomenda de seis mixers de uma lanchonete na pequena cidade de Santo Antonio, na Califórnia e liga para saber se não houve um mal entendido, afinal ninguém nunca tinha pedido tantos aparelhos. E descobre que havia de fato um erro: eram oito, e não seis mixers. Incrédulo, ele visita o local e descobre, assustado que, o pedido sai exatamente o que ele pediu, no momento seguinte ao pagamento.
Os donos do local o convidam para conhecer a cozinha, feita ao estilo da linha de montagem de Ford: nela tudo é pensado para produzir o máximo de comida no menor tempo possível, de maneira totalmente padronizada (cada sanduíche deve ter exatamente a mesma quantidade de picles, mostarda e catchup). Eles também eliminaram do cardápio tudo que vendia pouco, concentrando-se nos pratos mais populares: hambúrguer e batata frita, vendidos em sacos, e não em pratos.
É também um ambiente familiar, ao contrário dos drive thru, invadidos por adolescentes rebeldes. Os donos, os irmãos McDonald´s, têm o sonho de transformar o restaurante numa fraquia com lojas caracterizada por grandes arcos dourados, mas suas tentativas se mostraram infrutíferas: os restaurantes abertos simplesmente não conseguiram manter o padrão de qualidade.
Ray Kroc, que já tentara de tudo na vida e fracassara em tudo, percebe ali a sua grande chance de se tornar finalmente milionário. Mas o que parecia uma parceria logo se revela uma arapuca: Kroc manobra até retirar a rede das mãos da dupla, chegando ao ponto até mesmo de proibi-los de usar o nome McDonald´s no restaurante original.
O título original era The Founder (o fundador), mas o título brasileiro é muito mais feliz e conta muito melhor a história: Fome de poder é a perfeita definição de Ray Kroc.

Pimpinela escarlate

 

Pimpinela Escarlate, de autoria da Baronesa de Orczy, foi escrito em época pouco posterior à Revolução Francesa e conta a história de um misterioso personagem que se empenha em tirar nobres da França numa época em que ser nobre na França era ser freguês da guilhotina. É um dos livros de propaganda disfarçada de ficção mais antigos que conheço. Escrito por uma nobre, mostra os nobres como heróis e os plebeus como vilões magros e astutos que esfregam as mãos magras a cada minuto, maquinando planos diabólicos. Em vários sentidos, Pimpinela Escarlate é um precursor de heróis como Batman e Zorro (inclusive no que diz respeito ao maniqueísmo com que os personagens são apresentados). Uma das características que o vão diferenciar dos heróis clássicos e aproximá-lo dos super-heróis é a necessidade de uma identidade secreta.

O primeiro capítulo é promissor. No portão oeste de Paris está o sargento Bibot, um astuto revolucionário com faro sem igual para descobrir aristocratas disfarçados em fuga. Era como uma brincadeira de gato e rato. Bibot fingia-se iludido pelo disfarce, mas quando o pobre nobre atravessava o portão e sentia-se livre, o sargento mandava em seu encalço dois guardas que o traziam de volta diretamente para os braços da mãe Guilhotina.
Bibot está sentado sobre um barril vazio e conta divertido as novas sobre um tal Pimpinela Escarlate. Recentemente uma fuga pelo portão norte colocara toda a guarda em prontidão.
Bibot, divertido, conta como ser dera a fuga. O pobre sargento responsável pelo portão Norte vira-se às voltas com um carroça cheia tonéis de vinho puxada por um velho acompanhada por um menino. Zeloso, o cidadão examinou os tonéis e, achando que estavam vazios, deixou passar. Meia hora depois chegou uma patrulha perguntando pela carroça. Ao saber que haviam deixado passar, os soldados correram pelo campo, em busca de sua presa. Quando a platéia lamentava a displicência do responsável pelo portão norte, que não revistou direito os tonéis, vem a revelação: na verdade, os guardas eram o Pimpinela Escarlate e os aristocratas por ele salvos...
Todos comentam entre si a astúcia do Pimpinela, mas Bibot assegura que nem toda essa astúcia o salvará. É quando uma velhinha, que passara o dia inteiro tricotando e se regozijando com as cabeças cortadas pela guilhotina, se aproxima do portão com sua carroça. Bibot pergunta se ela voltará no dia seguinte, e ela responde que provavelmente não, pois seu netinho, que está dentro da carroça, está com varíola, ao que toda a audiência recua. “Saia daqui imediatamente, mulher!”, ordena o sargento, para descobrir, depois, que a velhinha era ninguém menos que o Pimpinela Escarlate.
A esse início promissor segue-se uma narrativa com todos os vícios do romantismo. Uma pena, mas a novela deixou um legado: Pimpinela é o precursor dos heróis dos pulps e dos quadrinhos de super-heróis...

O tigre branco

 


Eu gosto de narrações em off. Mal feitas, elas se tornam muletas narrativas, contando o que as imagens já estão narrando, mas bem feitas, elas ajudam a dar significados às imagens e aprofundar a trama, a ambientação e os personagens. Ótimo exemplo desse segundo caso é O tigre branco, filme do indiano Ramin Bahrani, de 2021.

O filme conta a história de Balram Halwai, um garoto prodígio de um pequeno vilarejo da Índia, que, apesar dos ótimos resultados na escola, é obrigado pela família a parar os estudos para trabalhar em uma loja de chás.

Mas a vida de Balram começa a mudar quando o filho mais novo da família de mafiosos volta dos EUA e ele vê a possibilidade de se tornar motorista do mesmo. O filme começa no meio da história, quando a esposa do rapaz pega o carro e Balram assiste do banco de trás, prevendo que algo errado irá acontecer. Então começa a narrativa em off, segundo a qual aquela era a maneira errada de começar uma história, já que na Índia sempre se começa com um oferecimento aos deuses.

A narrativa aqui funciona como desconstrução tanto dos filmes indianos (há outros momentos de desconstrução, inclusive com quebra da quarta parede, no final), quanto da imagem que se tem da Índia. A índia paradisíaca e turística não combina com a Índia real, em que um emprego de motorista é disputado de todas as formas e o sistema de castas parece subsistir até os dias atuais – com possibilidades mínimas de ascenção social. É também uma desconstrução do discurso de empreendedorismo. À certa altura, o personagem diz: Só existem duas formas de um pobre subir na vida em meu país: através do crime e da política. No seu país também é assim?

O tom sociológico pode dar a entender que se trata de um filme modorrento, chato, mas é exatamente o oposto disso que vemos em O tigre branco. Tanto a primeira parte, dominada pelo otimismo e com pegadas de humor, quando a segunda e sombria parte funcionam muito bem como narrativa envolvente. 

Marudá - diário de viagem

 

No primeiro dia em que passamos em Marudá, litoral do Pará, um espírito de porco estacionou o carro na frente de nosso hotel e colocou o som na maior altura. Achei um absurdo, mas minha mulher insistiu que eu era um chato, que se tratava apenas de um fato isolado e que ele logo desligaria. Mal sabia ela que aquilo era apenas uma amostra do que viria. Um vislumbre do inferno.

Dali para a frente, a coisa só iria piorar, a começar pelo hotel. A proprietária não queria nos dar toalhas, nem roupa de cama. Dois dias depois, quando pedi para ela mandar limpar o quarto, ela me olhou com a cara de quem acaba de ser ofendido. Tivemos que comprar um lençol e dividir a mesma toalha.
Mas isso não era o pior.
O pior viria na noite de sábado. Percebi que não haveria limite nenhum quando um motorista bêbado parou no meio da avenida Beira-mar, abriu a porta do quarto, arriou as calças e mijou ali mesmo. Em seguida ele partiu a toda, quase batendo no carro da frente e, depois, ao dar a ré, no carro de trás. Nem um único guarda apareceu.
Mal começou a tarde e começaram a surgir carros com caixas de som. Um atrás do outro. Um ao lado do outro. Cada centímetro quadrado de som era disputado por um carro com alto-falantes imensos. Curiosamente, todos tocando brega, mas nenhum com a mesma música, de modo que a uma certa distância, você conseguia distinguir apenas barulho, muito barulho. Até carrinhos de pipoca tinham caixas de som. Parecia haver um esforço conjunto para fazer barulho.
Ali por 11:30 apareceu um som tão alto que fez parecer que os outros tinham abaixado o volume. Fomos na sacada do hotel e o que vi me fez tremer: era um carro de passeio, mas adaptado como uma aparelhagem. Além do porta-malas totalmente tomado, havia caixas de som ao lado em cima. O resultado disso fazia tremer as paredes do hotel.
Já era noite alta quando os porcos começaram a se afastar na direção da praia, levando as cachorras para o abate. Aí eu entendi porque a água de Marudá é tão gosmenta.
O som continuou por toda a noite, toda a madrugada, sem descanso. Os carros que não conseguiam estacionar desfilavam suas caixas de som pela avenida, numa tentativa vã de chamar atenção.
No dia seguinte, a praia amanheceu repleta de lixo: eram copos plásticos, garrafas, latinhas, sacos, e provavelmente algumas, não muitas, camisinhas. Os garis da prefeitura passavam limpando a calçada, mas nem olhavam para a praia, de modo que toda aquela sujeira ia para o mar. Alguns retardatários aproveitavam o fim da madrugada para aumentar o som e beber o que restava das garrafas e latinhas, jogando os restos na água cheia.
Desci para tirar fotos e um dos bêbados comentou:
- Olha só o otário tirando foto do lixo!
Sim, eu estava tirando foto do lixo. Queria uma imagem que representasse bem o que é Marudá nos finais de semana.

Homem-Aranha – desmascarado pelo Dr. Octopus

 


O número 12 da revista espetacular homem-aranha mostrava já na capa uma situação que prendia a atenção dos leitores: O doutor Octopus segurando o Homem-aranha com seus tentátculos e retirando sua máscara na frente de JJ Jameson, Betty Brand e policiais. A chamada de capa dizia: “Não é um sonho! Nem uma história imaginária! Você vai perder o fôlego de espanto quando Peter for DESMASCARADO PELO DR. OCTOPUS!”.

Na história, o vilão, após ser liberdado da prisão por bom comportamento, efetua diversos roubos tentando chamar atenção do herói aracnídeo, mas o herói não aparece. “Por que ele não me seguiu? Dei-lhe todas as iscas necessárias!”.


Um herói gripado... 


O quadro seguinte mostrava a explicação: Peter Parker estava sem dinheiro para viajar até onde estava o vilão, e, além disso, estava nas provas finais do colégio. O mesmo quadro mostrava Tia May colocando a mão sobre a testa de Parker e comentando que ele parece estar com febre.

Que herói deixaria de combater um vilão por não ter dinheiro para a passagem de ônibus e por estar em provas finais na escola? Que herói seria mostrado gripado? Por incrível que pareça, esses aspectos, que pareciam fraquezas do herói, eram na verdade sua força editorial: eles garantiam a identificação do público jovem com o personagem.

... o que vira uma ótima solução narrativa. 


E, sim, Parker estava gripado, de modo que quando ele finalmente enfrenta o Dr. Octopus, ele está enfraquecido e é vencido tão facilmente que tanto o vilão quanto a polícia, JJ Jameson e Betty Brand se convencem de que estão diante de um impostor. Quando a máscara é retirada e o rosto de Parker é mostrado, todos acreditam que ele vestira uma fantasia para tentar salvar a namorada. Com isso, Stan Lee e Steve Ditko resolveram de forma inteligente a situação da capa sem precisar usar de meios artificiais como um robô ou dizer que se tratava de uma história imaginária. Era a Marvel mostrando que era uma editora diferente – diferença que faria com que ela superasse a DC em vendas.

Uma curiosidade é que quando essa história foi publicada no Brasil pela editora Ebal, os editores inverteram a ordem das histórias. Primeiro apareceu a história na qual o Dr. Octopus desmascara Parker e só depois veio a história na qual o vilão sai da prisão. Levou muito tempo para que surgissem editores que entendessem a cronologia das histórias Marvel.

Kripta - a revista que revolucionou o terror

 

       Em 1964 as bancas norte-americanas viram aparecer uma revista sobre os filmes de terror chamada Famous Monsters of Filmland (Monstros Famosos do Cinema). O editor era o desconhecido Jim Warren.

       Em certo número de sua revista, Warren publicou uma HQ de terror e ficou esperando a reação. Ele temia que a revista fosse boicotada pelo Comics Code, que regulava os gibis americanos e havia acabado com a editora EC, especializada em terror. O gênero era totalmente proibido, mas ninguém prestou atenção àquela HQ. Warren logo percebeu que o formato magazine (20,5 x 27,5 cm) era visto como sendo para adultos e, portanto, não estava sob controle do código. Era o sinal verde para lançar uma revista só de terror, no novo formato e em preto e branco.
       Assim, no inverno de 1964 surgia a revista Creepy (algo como assustador). No ano seguinte surgia a Eerie, seguindo a mesma linha. As duas revistas juntavam a nata da EC Comcs, com artistas como Joe Orlando, Frank Frazetta e Reed Crandall. Além disso, foram se somando aos poucos novos artistas, como Steve Dikto, Gene Colan, Neal Adams, Richard Corben, Berni Wrightson,  entre outros.
     Para editar as revistas e escrever as histórias foi contratado Archie Goodwin, um roteirista mediano no gênero super-hérois, mas sempre muito criativo em outros gêneros. Posteriormente foi contrato também o editor e roteirista Bill Dubay.
     Na década de 1970, a revista vivia sua fase áurea, mas ao mesmo tempo enfrentava um problema: editoras maiores, como a Marvel, começaram a entrar nesse mercado e a oferecer maiores benefícios aos desenhistas. Então, justamente quando as revistas mais vendiam, começou a faltar mão-de-obra. A solução foi dada por Bill Dubay, que entrou em contrato com um grupo de artistas espanhóis para substituir os americanos que estava debandando. O que era um problema acabou virando a favor da editora: os novos artistas espanhóis contratados eram espetaculares e deram início à fase de ouro da Warren, produzindo as melhores histórias de suspense, terror e ficção-científica da década de 1970. Entre os novos artistas, destacavam-se Esteban Maroto, com um traço psicodélico que foi imitadíssimo na época, e José Ortiz.
     Foi na Warren que surgiu a mais famosa vampira dos quadrinhos (embora não tenha sido a primeira. Esse posto é ocupado por Mirza, do brasileiro Eugênio Colonnese): a Vampirella. A personagem estreou em 1969 e transformou-se logo num sucesso. A roupa foi criada por Trina Robbins, mas a personagem acabou sendo delineada visualmente pelo grande Frank Frazetta. 
     No Brasil, as histórias da Warren foram publicadas na revista Kripta, da editora RGE e durou 60 edições, com grande sucesso. O slogan, usado na propaganda de TV, era ¨Com Kripta, qualquer dia é sexta-feira e qualquer hora é meia-noite¨, tornou-se célebre.