quinta-feira, abril 03, 2025

Senhor das estrelas

 



Em 1977, o roteirista Chris Claremont, o desenhista John Byrne e o arte-finalista Terry Austin eram ilustres desconhecidos. Nesse ano, entretanto, eles produziram juntos uma obra-prima que antecipava em alguns anos os melhores momentos do trio nos X-men. Trata-se de Senhor da Estrelas.
Publicada originalmente na revista Marvel Preview (e republicada aqui em Heróis da Tv 70 e 71), Senhor da Estrelas, como o próprio nome diz, era uma história de ficção-científica: mostra um herói salvando um grupo de pessoas escravizadas.
No meio do salvamento ele descobre que a atividade está sendo usada para gerar dinheiro para um golpe de estado no império galáctico – e, como a ajuda de um garoto e uma garota salvos por ele, irão impedir que isso aconteça.
É uma trama space opera, com direito até mesmo a luta de espadas, mas não soa artificial. A trama se desenvolve de forma verossímil. A história traz inclusive uma inovação interessante: na trama, a nave é um ser vivo apaixonada pelo senhor das galáxias (à certa altura ela chega mesmo a criar uma imagem feminina).
Claremont é conhecido por escrever exageradamente e aqui ele escreve muito, mas o texto não é supérfluo.

Já o desenho é uma atração à parte. Byrne sempre teve um traço elegante, mas nessa HQ se supera, brincando com a diagramação – em certa sequência, um mostro destrói um barco, avançando pelos quadros, junto com o texto. Já o arte-finalista Terry Austin não só torna o traço de Byrne mais refinado como o elabora ainda mais, com o uso, por exemplo, de retículas. Detalhada em alguns momentos e apenas delineada em outros, a arte-final se encaixa perfeitamente no desenho.
Infelizmente essa fase do personagem na época teve poucas histórias. E, sim, esse é o mesmo personagem dos filmes do Guardiões da Galáxia, embora nos filmes ele seja muito diferente. 

Lídia Poet

 


 

Lídia Poet, série criada por Criada por Guido Iuculano e Davide Orsini, é baseada em uma personagem real, a primeira advogada italiana. Formada numa época em que o machismo imperava, ela foi proibida de exercer a profissão, tornando-se assistente do irmão.

O seriado pega essa figura real e essa premissa para construir uma trama policial, em que Lídia resolve um crime a cada episódio enquanto tenta conseguir novamente a permissão para advogar.

A estrutura é mais ou menos a mesma: Lídia se depara com um cliente que está preso por um crime que não cometeu e deverá provar sua inocência.

É uma estrutura interessante, com um bom desenvolvimento. Não há exageros ou piruetas narrativas, como temos visto em Enola Holmes, muitas vezes com soluções pouco críveis. A narrativa é simples, mas envolvente. Lídia consegue resolver as situações com um senso de observação apurado e raciocínio lógico. Em uma das histórias, por exemplo, ela percebe que a principal testemunha contra sua cliente é um vigia alcoolatra que dormiu em serviço. O final parece uma consequência muito lógica do veio antes.

Vale destacar a atuação fenomenal de Matilda De Angelis, com suas pequenas expressões faciais extremamente reveladoras. A moda da época, um período em que as mulheres usavam cabelos presos, com chapéus, também ajuda a atuação, já que dá destaque para seu rosto. Aliás, o figurino usado por Lídia também cabe um elogio por sua elegância.

A primeira temporada tem seis episódios que passam muito rápido, pois é muito difícil deixar um episódio pela metade.

Solomon Kane

 


Robert E. Howard é muito conhecido pelo bárbaro Conan, mas poucos dos que acompanhavam as aventuras do cimério nos quadrinhos sabem que seu primeiro personagem de sucesso foi outro, o puritano Solomon Kane. Aliás, os contos originais eram praticamente inéditos no Brasil até 2015, quando a editora Generale publicou um livro com todos os contos do personagem.
O primeiro conto do puritano foi publicado em agosto de 1928, na revista Weird Tales. Howard havia sumetido o texto anteriormente para a revista Argosy, que pediu várias alterações e ofereceu a módica quantia de 80 dólares. Já o editor da Weird Tales gostou tanto do personagem que ofereceu um bom pagamento e a capa daquele número. O personagem fez enrome sucesso entre os leitores, abrindo caminho para Conan.
O volume mostra que Howard era um escritor muito acima dos autores de pulps. Ele depurou o estilo pomposo de Lovecraft criando algo que influenciaria muita gente, inclusive George Martin, de Guerra dos Tronos.
O texto era repleto de adjetivos. As névoas eram prateadas, as brisas eram fracas, o odor era mortiço, a mesa era rústica. Isso normalmente é visto como um defeito na literatura, mas Howard sabia manejar esses adjetivos para criar uma prosa poderosa e impactante. Um exemplo: “Restou a impressão de ter cambaleado por séculos histéricos em meio a estreitas e sinuosas ruas, nas quais demônios gritavam, lutavam e morriam, enquanto a terra se desprendia e tremia sob sues pés vacilantes, entre paredes titânicas e colunas negras que se sacudiam contra o céu e arrebentavam em volta de Kane, em um trovejar que preenchia o mundo”.
Acrescente a essa narrativa poderosa, um personagem interessante. Segundo Alexandre Callari (que traduz o volume e escreve a apresentação), “O puritano é, possivelmente, o personagem mais complexo de Howard, superando ate´mesmo o bárbaro Conan”. De fato, as dubiedades de Solomon são parte do seu charme: é puritano, mas usa magia negra, é racista, mas se alia a um feiticeiro africano, é frio e calculista na esgrima, mas também é uma fera irrefreada.
Os nove contos desse volume essencial são uma ótima amostra de como Robert E. Howard era um grande escritor.

São Tomás de Aquino e a vitória do ocidente

 


Lendo sobre São Tomás de Aquino, no livro Viagem na Irrealidade Cotidiana, de Umberto Eco é que percebo a importância imprevista desse pensador para a configuração do mundo em que vivemos hoje. Não fosse ele, talvez fôssemos hoje mulçulmanos e falássemos árabe.
Eco conta que o santo era zombado pelos companheiros por sua vagarozidade, chamado de boi mudo. Era tão gordo que precisava de duas cadeira para acomodar suas gigantescas nádegas. Certa vez os frades brincalhões gritaram que lá fora havia um asno voador. Tomás corre para a janela enquanto os outros se escangalham de rir. Na volta, o futuro santo faz com que se calem argumentando que achou mais verossímil um asno voar que um monge contar uma mentira.
Para surpresa de todos, algum tempo depois ele se torna professor adorado pelos alunos. E tem um objetivo em mente: resgatar a filosofia de Aristóteles. Até então o Ocidente se contetava com Platão e Agostinho os livros de Aristóteles eram proibidos. O grego é conhecido quase que exclusivamente pelos árabes, muito mais adiantados que europeus tanto na filosofia quanto na ciência. Exemplar é a criptografia: enquanto na Europa qualquer mensagem codificada era considera segura, no Islã os pensadores já conheciam os avançados métodos probabilísticos que considera a freqüência da aparição de cada letra em cada língua. Os árabes da Idade Média eram sábios e refinados, comparados com os europeus. 
Agostinho e Platão poderiam dar contar muito bem do mundo espiritual (ou mundo das idéias), mas pouco diziam sobre o mundo físico. Aristóteles, ao contrário, estudava lógica, psicologia, física, classificação de animais e os movimentos dos astros.
As idéias de Aristóteles traziam em seu bojo a razão, o estudo da natureza e a possibilidade de determinar os eventos.
No mundo árabe, Averróis já recuparava as idéias do filósofo grego. Para ele, Deus contruiu a natureza em sua ordem mecânica e em suas leis matemáticas, reguladas pela determinação férrea dos astros. O mundo tem uma ordem, orquestrada por Deus. Para o filósofo/cientista resta achar ordem em meio ao caos.
Antes de Tomás de Aquino, ao copiar um texto antigo o comentador ou copista, ao encontrar algo que não se encaixava com os ditames da religião católica, simplesmente apagavam as frase “errôneas” ou as retiravam para as margens para colocar em guarda o leitor. Tomás utiliza outro método. Primeiro alinha as opiniões divergentes, esclarece o sentido de cada uma, questiona tudo, até o dado da revelação, enumera as objeções possíveis e tenta a mediação final. Tudo feito às claras, sob a ótica da razão.
Com isso podia ser demonstrado que o verdadeiro sentido da filosofia aristotélica era católico apostólico romano. Tomás cristianizou Aristóteles.
Consegue seu intento com rapidez tremenda para a lenta Idade Média européia. Antes dele se afirmava que “O espírito de Cristo não reina onde reina o espírito de Aristóteles”. Em 1210 todos os seus livros estão proibidos. Em 1255 toda a obra de Aristóteles está liberada e Aristóteles é considerado um sábio que deve orientar a fé cristã.
A luta de Tomás permite que entre no espírito da Europa a razão, a pesquisa empírica e o determinismo. Quando alguns séculos depois Descartes vai formatar o pensamento cartesiano, isso só é possível graças à herança aristotélica, resgatada pelo santo católico.
Ao mesmo tempo em que a Europa entrava na modernindade, Descartes e depois Newton dão a base da metodologia científica, desenvolvem-se as grandes navegações, o Islã fecha-se para novidades, enclausurado em uma fé religiosa rígida, como era o catolicismo da Idade Média.
Como os povos árabes, tão sábios e cultos da Idade Média, foram ultrapassados pelos incultos e fanáticos europeus? A resposta pode estar em São Tomás de Aquino. Ele parece ter sido aquilo que os teóricos do caos chamam de efeito borboleta: pequenos eventos que podem provocar grandes alterações. Não fosse ele, talvez hoje estivéssemos falando árabe e rezando na direção de Meca. 

Camelot 3000 – Traição

 

O capítulo 7 da série Camelot 3000 é focada nos dramas pessoais dos personagens.

O drama do rei Arthur é sintetizado com perfeição em um quadro no qual a rainha se despede de Lancelot. Os dois se dão as mãos em primeiro plano enquanto Arthur olha em segundo plano. Só o leitor consegue ver que Guinever entrega um bilhete para seu amante.

O último quadro mostra como Camelot 300 sabia aproveitar as imagens para narrar acontecimentos e intenções.


Em uma narrativa paralela acompanhamos Tristão, que finalmente encontrou a sua Isolda e as duas se beijam naquele que, provavelmente é o primeiro, senão um dos primeiros beijos lésbicos dos quadrinhos DC. Mas o cavaleiro não aceita a relação por não aceitar seu corpo. “Eu quero tanto... e me odeio tanto por isso”. Mais do que o beijo lésbico, a série foi inovadora a mostrar uma personagem que não aceita o próprio corpo, pois, embora seu corpo seja feminino, ela se vê como um homem.

Essa foi uma forma inteligente da parte de Mike W. Barr de introduzir conflito na relação do casal, uma vez que na versão original da lenda, os dois não podiam ficar juntos pelo fato de Isolda ter sido prometida em casamento ao tio de Tristão.

O beijo lésbico... 


Mas uma HQ desse tipo precisa ter também ação e isso é providenciado com um ataque ao local em que são feitos os neo-humanos. Na sequência Arthur quase é morto, mas acaba sendo salvo por Percival, que se torna o líder dos neo-humanos, fazendo com que eles se aliem a Camelot.

... que foi censurado pela Abril. 


Nessa sequência, aliás, descobrimos que os neo-humanos são dissidentes políticos, pessoas que de alguma forma se tornaram indesejadas de algum governo mundial, o que deixe ainda mais clara a crítica política da série.

No final da edição, Lancelot e Guinevere são flagrados pelo rei Arthur em pleno ato sexual.

A relação entre Lancelot e Guinevere...


Ao publicar a história, em Superamigos 1, a Abril censurou em parte a mesma, cortando a parte em que Guinevere aparece nua e dividindo o quadro em dois, com a parte de baixo do corpo em cima e a parte de cima em baixo. Foi um daqueles momentos em que, mesmo censurando, a abril acertou, pois criou uma sequência em que, embora o nu não fosse mostrado, o leitor conseguia compreender perfeitamente o que estava acontecendo.

... ganhou uma censura mais sutil.


Um corte menos inspirado foi a sequência entre Isolda e Tristão. A abril simplesmente cortou o beijo entre as duas, ampliando os demais quadros para completar a página.

Superman - O Mundo de metrópolis

 


A entrada de John Byrne no título do Super-homem e sua consequente reformulação marcou o fim definitivo de qualquer vestígio que o personagem pudesse ter da era de prata. Entretanto, Byrne foi responsável por uma série que ecoa (talvez como homenagem) diretamente a era de prata. Chamada World of Metropolis (O mundo de Metrópolis), ela tirava o foco das grandes tramas e dos super-vilões para o mundo dos personagens secundários da série. Cada número era focada em um desses personagens (curiosamente, Clark Kent era um desses, o que mostrava bem a ideia que Byrne tinha sobre o título): o primeiro em Perry White, o segundo em Lois Lane, o terceiro em Clark Kent e o último em Jimmy Olsen.

O traço de Mortimer deu um ar saudosista à série.


Embora o roteiro e as capas fosse de Byrne, a arte ficou por conta de Win Mortimer, um desenhista canadense, veterano da DC, o que dava à série um visual retrô.

Há uma estrutura fixa nas histórias: elas sempre começam no presente, e depois há vários flash backs contando alguma história sobre o personagem. Perry White, por exemplo, disputava a esposa com Lex Luthor, o que mostra a razão pela os dois se odeiam tanto. Lois Lane estrela uma história na qual é mostrado como ela, com apenas 15 anos, conseguiu um furo de reportagem e assim foi contratada pelo Planeta Diário. A história de Jimmy Olsen mostra como ele inventou o relógio com o qual chama o Super-homem.



Uma das histórias mais interessantes – e que mais reverberam a era de prata, é “Um estranho na cidade”, focado em Clark Kent.

Na história é mostrado como Kent chegou em Metrópolis, como se tornou repórter e a relação que teve com uma relação com uma garota, Ruby.

Ainda um novato na cidade grande, o jornalista não usava um uniforme quando agia como herói (uma estratégia usada por Byrne para diferenciar Kent do Super que conhecemos).



Assim, ainda novato, ele se depara com um grupo de malfeitores com armamento pesado atirando contra a polícia. A sequência, hilária, é típica da era de prata: os terroristas usam uma arma para atirar uma bomba na polícia, mas Kent, usando super-velocidade, apodera-se da bomba. Eles tentam de novo, e de novo a bomba parece desaparecer. Quando eles começam a atirar com uma metralhadora, a visão de calor faz com que as balas evaporem.



Essa série mostra bem que, embora John Byrne tenha contribuído para colocar um ponto final na era de prata da DC, ele no fundo era um fã dessa fase.

 No Brasil essas histórias foram publicadas pela Abril em Super-homem especial 2.

quarta-feira, abril 02, 2025

MAD 18 - No Limite do Senado

 

Na época da MAD 18 dois assuntos estavam na boca de todos: a volta do reality show No Limite e mais um dos inúmeros escândalos de corrupção no Senado, na época comandado pelo famoso bigodudo. Quando o Raphael Fernandes me convidou para fazer a sátira do No Limite pensei em juntar as duas coisas e assim surgiu No Limite do Senado, no qual os integrantes ficam presos em uma ilha e ganha a disputa quem consegue roubar mais dinheiro. O editor Raphael Fernandes teve a ideia de divulgar as imagens da história como se ela tivesse sido censurada por políticos, o que chamou ainda mais atenção para a HQ. Os desenhos ficaram por conta do Anderson Nascimento. 

Propaganda é a alma do negócio

 


publicidade é o mais conhecido método de promoção, mas não necessariamente o de maior retorno. Enquanto outras estratégias, como a de prêmios, concursos e amostras, podem ter um impacto imediato sobre as vendas, a publicidade pode se refletir nas vendas só depois de um longo período. Entretanto, esse é o tipo de promoção que produz os resultados mais duradouros. Sendo assim, a publicidade tem resultados lentos, mas sólidos.
Por isso, chega a ser engraçado ver aqueles donos de lojinhas que colocam um anúncio na TV e acham que no dia seguinte o seu estabelecimento estará repleto de fregueses. O bom resultado de uma publicidade depende de uma série de fatores, entre eles a escolha da mídia correta e do horário certo. Exemplo disso é o caso de um colégio de Belém (PA) destinado ao público de alto poder aquisitivo. Os diretores do colégio foram procurados por um locutor de rádio que lhes fez uma proposta tentadora de divulgação. Como resultado, o colégio viu seu produto ser anunciado em um programa brega, transmitido ao vivo de uma das praias mais populares do Pará. Como resultado, o colégio foi associado com algo popularesco e de baixa qualidade, justamente o oposto da imagem que se pretendia passar. Foi necessário fazer toda uma nova campanha só para desfazer a imagem negativa que esse episódio deixou.
Antes de fazer qualquer anúncio publicitário, o profissional de publicidade deve ter em mente a resposta para duas perguntas: Para quem estou enviando essa mensagem? Com que objetivo?
A resposta de “Para quem?” define o público-alvo. Se o público-alvo são os executivos, não se deve anunciar no programa da Xuxa. Se o público-alvo são os operários que acordam cedo e, portanto, dormem cedo, não se vai anunciar em programa de madrugada. Caso o público-alvo more no interior, em regiões em que o rádio tem mais força que a televisão, o mais interessante é anunciar no rádio.

A resposta para “Com que objetivo?” dá o enfoque da campanha. Pode, por exemplo, ser uma campanha de varejo, que tem como único objetivo vender um produto específico. Mas pode ser também um anúncio que tem como objetivo criar uma boa imagem da marca, levando o consumidor a tornar-se fiel a ela. As respostas para todas essas perguntas são conseguidas através do briefing. 

Uma dúvida frequente é: qual a diferença entre publicidade e propaganda? Publicidade vem do latim “publicus”, ou seja, aquilo que é público, e era usado para os anúncios de produtos pintados nos muros das casas. Já propaganda vem da palavra, também latina, “propagare”, difundida pela igreja católica por meio do Congregatorio Propaganda Fide (congregação para propagação da fé) na época da contrarreforma.  Assim, publicidade passou a designar a divulgação de produtos e serviços, e a propaganda passou a representar a divulgação de ideologias, partidos etc. Assim, existe a publicidade do Bombril e a propaganda política. No entanto, no Brasil, os dois termos são usados como sinônimos no dia a dia das agências de publicidade.

A arte impressionante de Chris Wahl

 


Chris Wahl é um ilustrador, quadrinista e caricaturista australiano. Ele te se destacado por suas belíssimas imagens produzidas para a série Guerra nas Estrelas, Marvel, DC, MAD e pelas capas do personagem Fantasma, até hoje muito popular na Austrália.














Interfaces midiáticas e quadrinhos

 


 
Já está disponível, no site da editora da Unifap, o livro Interfaces midiáticas e quadrinhos, organizado por mim e pelo Rafael Senra. 

O livro, uma co-edição da editora da Unifap e da Verter, reúne artigos apresentados no IV Aspas Norte. 

Nas palavras de Rafael Senra, "Temos aqui autores de todo o Brasil, com artigos que envolvem o tema dos quadrinhos analisados sob diversas metodologias e abordagens. Seja com trabalho de campo, atividades didáticas ou pesquisas bibliográficas, temos aqui reunidos trabalhos de alto nível acerca dos quadrinhos e do diálogo desse meio com diversas mídias. ".

O e-book pode ser baixado gratuitamente clicando aqui: https://www2.unifap.br/editora/files/2024/04/Livro-Interface-Midiatica.pdf

Bem-vindos a Alflolol

 


Uma das características que fazem de Valerian algo totalmente diferente de outras séries de ficção científica é a humanidade, filosofia e poesia das histórias. Como diz o roteirista Christin, “Mesmo que a aventura renda sempre uma leitura agradável, o verdadeiro tema é a reflexão, antes da ação”. Exemplo perfeito disso é o álbum Bem-vindos a Alflolol.
Na história, os dois aventureiros espaciais, Valerian e Laureline, estão visitando um planeta repleto de recursos naturais que estão sendo explorados pelos terrestres. É quando se deparam com uma nave ancestral. Na nave estão os habitantes originais do planeta, seres tão longevos que vivem milhares de anos. E que têm o costume de fazer passeios de turismo pela galáxia de tempos em tempos, em embarcações movidas por seus poderes mentais. E eles estão voltando para casa depois de uma breve viagem... que durou quatro mil anos terrestres!
Os habitantes de Alflolol estão voltando de uma longa viagem de turismo... 


Isso gera uma crise: os executivos são obrigados a aceitar os alfaloloseses , mas temem que os habitantes originais possam atrapalhar a produção (a todo momento temos algum executivo dizendo algo como “A produção não pode parar!”, “A economia não pode parar!”).
Para evitar prejuízos à empresa, os habitantes originais do planeta são confinados em uma reserva.
... e acabam sendo confinados em uma reserva. 


A HQ nitidamente é uma metáfora da situação dos índios norte-americanos, habitantes originais das terras americanas, mas aprisionados em reservas.
A dupla de criadores, Christin e Méziéres, no entato, dá à história, que poderia ser um dramalhão, um tom leve e irônico, constantemente humorístico.   E transformam a coisa toda numa grande aventura, deliciosa de se ler.
Bem-vindos a Alflolol faz parte do segundo volume da série de álbuns dos personagens lançada pela editora SESI de São Paulo.

Cavaleiro da Lua – meia-noite significa morte

 


Pouco tempo depois de sua estréia o título do Cavaleiro da Lua chamou atenção. Com bons roteiros de Doug Moench e ótima arte de Bill Sienkiewcz, o título tinha tudo para conquistar os fãs. Mas faltava um vilão à altura do protagonista. Os vilões das histórias anteriores haviam morrido e, aparentemente não revelavam mais perigo.

Na RGE o personagem era chamado de Cavaleiro de Prata


Esse vilão vai surgir no terceiro volume intitulado “Meia-noite significa morte”. Essa oposição já aparecia na página de abertura, muito criativa, aliás, reproduzindo uma capa do Clarin Diário. Na metade esquerda, uma matéria sobre como o Cavaleiro da Lua vinha se destacando na luta contra o crime e, do outro lado o surgimento de um ladrão especialista em artes. A matéria previa que em algum momento eles iriam se encontrar.

Sienkiewcz mostra influência de Neal Adams.


O vilão é tão audacioso que chega a roubar um colar de diamantes de uma cantora de opera em plena apresentação... e desafia o Cavaleiro da Lua a pará-lo. Enquanto isso, um colecionador de arte contrata o mercenário Marc Spector para proteger suas obras, o que leva ao encontro dos dois personagens num final surpreendente (quer dizer, deve ter sido para os leitores, eu saquei logo, mas isso tem a ver com o fato de que eu penso como roteirista). Destaque para a luta final na qual Bill Sienkiewcz mostra o quanto aprendeu com Neal Adams com diagramações inovadoras e principalmente as poses dos personagens, sempre com um elemento em primeiro plano.

No Brasil essa história saiu em Almanaque Premiere (RGE) e coleção Paladinos Marvel (Panini).

Perry Rhodan – Duelo de mutantes

 


Clark Darlton era conhecido entre os autores da série Perry Rhodan por humanizar seus relatos. E é exatamente isso que ele faz no número 26 da série.

Na trama, Perry Rhodan encontra um adversário à altura: um super-mutante apelidado de supercrânio, que usando suas capacidades hipnóticas, formara seu próprio exército de mutantes e, com eles, pretendia conquistar o poder mundial através de assassinatos, greves, guerras e atentados. O volume trata do ponto em que dois exércitos de mutantes entram em rota de colisão.

A história inicia no espaço, com um dos destróiers roubados pelo Supercrânio atacando uma nave-escola da terceira potência. O texto de Darlton foca em um dos recrutas: “Julian Tifflor, que seus amigos e colegas chamavam apenas de Tiff, enganava os que o cervavam. Atrás daqueles olhos sonhadores escondia-se a energia de uma pequena bomba atômica. Apesar de seus vinte anos, Tiff era um gênio matemático e um exemplar de coragem e resolução”.

Mais à frente, quando o Supercrânio usa uma unidade do exército da terceira potência para atacar a própria terceira potência, a narrativa é toda focada em um dos soldados, o sargento Harras, que vai do cansaço e do desejo era tirar o uniforme suado e dar um salto na piscina à necessidade irracional de guerrear.

O volume é um pouco decepcionante para quem se deixa levar pelo título. Não há de fato um duelo entre mutantes uma vez que assim que os mutantes do exército do supercrânio são tirados de sua influência hipnótica, eles aderem à terceira potência. Além disso, o mais poderoso dos mutantes, Gucky, acaba não participando do duelo, embora tenha uma atuação importante em outro momento da trama.

Ao contrário da capa americana, a capa alemã mostra uma cena que existe no livro. 


No volume há algumas frase que parecem estranhas. Quando é tirado da influência do Supercranio, é dito que um dos mutantes mudou de dono. Sobre outro é dito que mudou de mestre, o que vai na contramão da ideia de que Rhodan representa uma visão não-autoritária.

Ainda assim, com todos os volumes escritos por Darlton, esse é uma leitura deliciosa.

Em tempo: a capa da Ediouro, baseada na edição americanda, não tem mínima relação com a trama. Aparentemente o desenhista Gray Morrow sequer lia o volume, ou recebia um resumo. Assim, seguia o padrão de desenhar uma imagem de um homem com “roupa futurista” e uma mulher loura em apuros.