quinta-feira, abril 03, 2025
Senhor das estrelas
Lídia Poet
Lídia Poet, série criada por Criada por Guido Iuculano e Davide Orsini, é baseada em uma personagem real, a primeira advogada italiana. Formada numa época em que o machismo imperava, ela foi proibida de exercer a profissão, tornando-se assistente do irmão.
O seriado pega essa figura real e essa premissa para construir uma trama policial, em que Lídia resolve um crime a cada episódio enquanto tenta conseguir novamente a permissão para advogar.
A estrutura é mais ou menos a mesma: Lídia se depara com um cliente que está preso por um crime que não cometeu e deverá provar sua inocência.
É uma estrutura interessante, com um bom desenvolvimento. Não há exageros ou piruetas narrativas, como temos visto em Enola Holmes, muitas vezes com soluções pouco críveis. A narrativa é simples, mas envolvente. Lídia consegue resolver as situações com um senso de observação apurado e raciocínio lógico. Em uma das histórias, por exemplo, ela percebe que a principal testemunha contra sua cliente é um vigia alcoolatra que dormiu em serviço. O final parece uma consequência muito lógica do veio antes.
Vale destacar a atuação fenomenal de Matilda De Angelis, com suas pequenas expressões faciais extremamente reveladoras. A moda da época, um período em que as mulheres usavam cabelos presos, com chapéus, também ajuda a atuação, já que dá destaque para seu rosto. Aliás, o figurino usado por Lídia também cabe um elogio por sua elegância.
Solomon Kane
São Tomás de Aquino e a vitória do ocidente
Camelot 3000 – Traição
O capítulo 7 da série
Camelot 3000 é focada nos dramas pessoais dos personagens.
O drama do rei Arthur é
sintetizado com perfeição em um quadro no qual a rainha se despede de Lancelot.
Os dois se dão as mãos em primeiro plano enquanto Arthur olha em segundo plano.
Só o leitor consegue ver que Guinever entrega um bilhete para seu amante.
![]() |
O último quadro mostra como Camelot 300 sabia aproveitar as imagens para narrar acontecimentos e intenções. |
Em uma narrativa paralela
acompanhamos Tristão, que finalmente encontrou a sua Isolda e as duas se beijam
naquele que, provavelmente é o primeiro, senão um dos primeiros beijos lésbicos
dos quadrinhos DC. Mas o cavaleiro não aceita a relação por não aceitar seu
corpo. “Eu quero tanto... e me odeio tanto por isso”. Mais do que o beijo
lésbico, a série foi inovadora a mostrar uma personagem que não aceita o
próprio corpo, pois, embora seu corpo seja feminino, ela se vê como um homem.
Essa foi uma forma
inteligente da parte de Mike W. Barr de introduzir conflito na relação do
casal, uma vez que na versão original da lenda, os dois não podiam ficar juntos
pelo fato de Isolda ter sido prometida em casamento ao tio de Tristão.
![]() |
O beijo lésbico... |
Mas uma HQ desse tipo
precisa ter também ação e isso é providenciado com um ataque ao local em que
são feitos os neo-humanos. Na sequência Arthur quase é morto, mas acaba sendo
salvo por Percival, que se torna o líder dos neo-humanos, fazendo com que eles
se aliem a Camelot.
![]() |
... que foi censurado pela Abril. |
Nessa sequência, aliás,
descobrimos que os neo-humanos são dissidentes políticos, pessoas que de alguma
forma se tornaram indesejadas de algum governo mundial, o que deixe ainda mais
clara a crítica política da série.
No final da edição,
Lancelot e Guinevere são flagrados pelo rei Arthur em pleno ato sexual.
![]() |
A relação entre Lancelot e Guinevere... |
Ao publicar a história,
em Superamigos 1, a Abril censurou em parte a mesma, cortando a parte em que
Guinevere aparece nua e dividindo o quadro em dois, com a parte de baixo do
corpo em cima e a parte de cima em baixo. Foi um daqueles momentos em que,
mesmo censurando, a abril acertou, pois criou uma sequência em que, embora o nu
não fosse mostrado, o leitor conseguia compreender perfeitamente o que estava
acontecendo.
![]() |
... ganhou uma censura mais sutil. |
Um corte menos inspirado
foi a sequência entre Isolda e Tristão. A abril simplesmente cortou o beijo
entre as duas, ampliando os demais quadros para completar a página.
Superman - O Mundo de metrópolis
A entrada de John Byrne no título do Super-homem e sua consequente reformulação marcou o fim definitivo de qualquer vestígio que o personagem pudesse ter da era de prata. Entretanto, Byrne foi responsável por uma série que ecoa (talvez como homenagem) diretamente a era de prata. Chamada World of Metropolis (O mundo de Metrópolis), ela tirava o foco das grandes tramas e dos super-vilões para o mundo dos personagens secundários da série. Cada número era focada em um desses personagens (curiosamente, Clark Kent era um desses, o que mostrava bem a ideia que Byrne tinha sobre o título): o primeiro em Perry White, o segundo em Lois Lane, o terceiro em Clark Kent e o último em Jimmy Olsen.
![]() |
O traço de Mortimer deu um ar saudosista à série. |
Embora o roteiro e as capas fosse de Byrne, a arte ficou por conta de Win Mortimer, um desenhista canadense, veterano da DC, o que dava à série um visual retrô.
Há uma estrutura fixa nas histórias: elas sempre começam no presente, e depois há vários flash backs contando alguma história sobre o personagem. Perry White, por exemplo, disputava a esposa com Lex Luthor, o que mostra a razão pela os dois se odeiam tanto. Lois Lane estrela uma história na qual é mostrado como ela, com apenas 15 anos, conseguiu um furo de reportagem e assim foi contratada pelo Planeta Diário. A história de Jimmy Olsen mostra como ele inventou o relógio com o qual chama o Super-homem.
Uma das histórias mais interessantes – e que mais reverberam a era de prata, é “Um estranho na cidade”, focado em Clark Kent.
Na história é mostrado como Kent chegou em Metrópolis, como se tornou repórter e a relação que teve com uma relação com uma garota, Ruby.
Ainda um novato na cidade grande, o jornalista não usava um uniforme quando agia como herói (uma estratégia usada por Byrne para diferenciar Kent do Super que conhecemos).
Assim, ainda novato, ele se depara com um grupo de malfeitores com armamento pesado atirando contra a polícia. A sequência, hilária, é típica da era de prata: os terroristas usam uma arma para atirar uma bomba na polícia, mas Kent, usando super-velocidade, apodera-se da bomba. Eles tentam de novo, e de novo a bomba parece desaparecer. Quando eles começam a atirar com uma metralhadora, a visão de calor faz com que as balas evaporem.
Essa série mostra bem que, embora John Byrne tenha contribuído para colocar um ponto final na era de prata da DC, ele no fundo era um fã dessa fase.
No Brasil essas histórias foram publicadas pela Abril em Super-homem especial 2.
quarta-feira, abril 02, 2025
MAD 18 - No Limite do Senado
Propaganda é a alma do negócio
A arte impressionante de Chris Wahl
Chris Wahl é um ilustrador, quadrinista e caricaturista australiano. Ele te se destacado por suas belíssimas imagens produzidas para a série Guerra nas Estrelas, Marvel, DC, MAD e pelas capas do personagem Fantasma, até hoje muito popular na Austrália.
Interfaces midiáticas e quadrinhos
Já está disponível, no site da editora da Unifap, o livro Interfaces midiáticas e quadrinhos, organizado por mim e pelo Rafael Senra.
O livro, uma co-edição da editora da Unifap e da Verter, reúne artigos apresentados no IV Aspas Norte.
Nas palavras de Rafael Senra, "Temos aqui autores de todo o Brasil, com artigos que envolvem o tema dos quadrinhos analisados sob diversas metodologias e abordagens. Seja com trabalho de campo, atividades didáticas ou pesquisas bibliográficas, temos aqui reunidos trabalhos de alto nível acerca dos quadrinhos e do diálogo desse meio com diversas mídias. ".
O e-book pode ser baixado gratuitamente clicando aqui: https://www2.unifap.br/editora/files/2024/04/Livro-Interface-Midiatica.pdf
Bem-vindos a Alflolol
Cavaleiro da Lua – meia-noite significa morte
Pouco tempo depois de sua estréia o título do Cavaleiro da Lua chamou atenção. Com bons roteiros de Doug Moench e ótima arte de Bill Sienkiewcz, o título tinha tudo para conquistar os fãs. Mas faltava um vilão à altura do protagonista. Os vilões das histórias anteriores haviam morrido e, aparentemente não revelavam mais perigo.
![]() |
Na RGE o personagem era chamado de Cavaleiro de Prata |
Esse vilão vai surgir no terceiro volume intitulado “Meia-noite significa morte”. Essa oposição já aparecia na página de abertura, muito criativa, aliás, reproduzindo uma capa do Clarin Diário. Na metade esquerda, uma matéria sobre como o Cavaleiro da Lua vinha se destacando na luta contra o crime e, do outro lado o surgimento de um ladrão especialista em artes. A matéria previa que em algum momento eles iriam se encontrar.
![]() |
Sienkiewcz mostra influência de Neal Adams. |
O vilão é tão audacioso que chega a roubar um colar de diamantes de uma cantora de opera em plena apresentação... e desafia o Cavaleiro da Lua a pará-lo. Enquanto isso, um colecionador de arte contrata o mercenário Marc Spector para proteger suas obras, o que leva ao encontro dos dois personagens num final surpreendente (quer dizer, deve ter sido para os leitores, eu saquei logo, mas isso tem a ver com o fato de que eu penso como roteirista). Destaque para a luta final na qual Bill Sienkiewcz mostra o quanto aprendeu com Neal Adams com diagramações inovadoras e principalmente as poses dos personagens, sempre com um elemento em primeiro plano.
No Brasil essa história saiu em Almanaque Premiere (RGE) e coleção Paladinos Marvel (Panini).
Perry Rhodan – Duelo de mutantes
Clark Darlton era conhecido entre os autores da série Perry Rhodan por humanizar seus relatos. E é exatamente isso que ele faz no número 26 da série.
Na trama, Perry Rhodan encontra um adversário à altura: um super-mutante apelidado de supercrânio, que usando suas capacidades hipnóticas, formara seu próprio exército de mutantes e, com eles, pretendia conquistar o poder mundial através de assassinatos, greves, guerras e atentados. O volume trata do ponto em que dois exércitos de mutantes entram em rota de colisão.
A história inicia no espaço, com um dos destróiers roubados pelo Supercrânio atacando uma nave-escola da terceira potência. O texto de Darlton foca em um dos recrutas: “Julian Tifflor, que seus amigos e colegas chamavam apenas de Tiff, enganava os que o cervavam. Atrás daqueles olhos sonhadores escondia-se a energia de uma pequena bomba atômica. Apesar de seus vinte anos, Tiff era um gênio matemático e um exemplar de coragem e resolução”.
Mais à frente, quando o Supercrânio usa uma unidade do exército da terceira potência para atacar a própria terceira potência, a narrativa é toda focada em um dos soldados, o sargento Harras, que vai do cansaço e do desejo era tirar o uniforme suado e dar um salto na piscina à necessidade irracional de guerrear.
O volume é um pouco decepcionante para quem se deixa levar pelo título. Não há de fato um duelo entre mutantes uma vez que assim que os mutantes do exército do supercrânio são tirados de sua influência hipnótica, eles aderem à terceira potência. Além disso, o mais poderoso dos mutantes, Gucky, acaba não participando do duelo, embora tenha uma atuação importante em outro momento da trama.
Ao contrário da capa americana, a capa alemã mostra uma cena que existe no livro. |
No volume há algumas frase que parecem estranhas. Quando é tirado da influência do Supercranio, é dito que um dos mutantes mudou de dono. Sobre outro é dito que mudou de mestre, o que vai na contramão da ideia de que Rhodan representa uma visão não-autoritária.
Ainda assim, com todos os volumes escritos por Darlton, esse é uma leitura deliciosa.
Em tempo: a capa da Ediouro, baseada na edição americanda, não tem mínima relação com a trama. Aparentemente o desenhista Gray Morrow sequer lia o volume, ou recebia um resumo. Assim, seguia o padrão de desenhar uma imagem de um homem com “roupa futurista” e uma mulher loura em apuros.