quinta-feira, julho 22, 2021

Monteiro Lobato: a chave do tamanho

 


            Depois da prisão, o escritor publicou aquele que é, provavelmente, o livro mais original do sítio: A Chave do Tamanho. Na história, Emília, enervada com a bestialidade humana, resolve acabar com a Segunda Guerra Mundial. Usando o pó do pirlimpimpin, ela se transporta para a casa das chaves. Sim, porque todas as coisas do mundo têm uma chave, como a chave da eletricidade, e alguém tinha ligado a chave da guerra. . Emília inventou de fechá-la. Mas chegando lá deu com uma sala cheia de chaves sem qualquer identificação. E agora? Qual era a chave da guerra?
            Como não há como saber, Emília puxa a primeira que encontra. E encolhe. Não só ela, mas todas as pessoas do mundo. Em todo caso, acaba-se a guerra. Como iriam continuar os homens guerreando se ficaram menores que formigas? Claro que no final tudo volta ao normal, mas as quase 200 páginas do livro são um grande discurso contra o totalitarismo. Nesse livro Lobato deixa claro sua esperança num mundo melhor. Sua esperança estava nas crianças.
            Até aí nada de realmente estranho. A ditadura militar de 64 vivia propagando que as crianças e os jovens eram o futuro do país. A diferença é que Lobato não achava que as crianças fossem o futuro, mas sim o presente. Os livros do Sítio são os primeiros publicados no Brasil em que as crianças têm voz ativa e liberdade de ação. Pedrinho, Narizinho e Emília (que, embora fosse uma boneca, representava as crianças) não esperam crescer para tomar opiniões a respeito do mundo ou para agir afim de transformá-lo.
            Em que outro lugar do mundo, senão no Sítio, as crianças já tiveram direito de expressão e de voto?
            Um bom exemplo disso é a maneira como é resolvida a questão do tamanho. Todo o pessoal do sítio é convocado para decidir se a humanidade volta ao tamanho normal ou continua como está. As crianças defendem a pequenês. Os adultos, a volta ao tamanho normal. Fazem o plebiscito e a pequenês perde unicamente por causa do voto do Visconde.
            Em todos os seus livros, Lobato mostra que as crianças mais abertas para as novidades, para a mudança; bem ao contrário dos adultos, que já se acostumaram com o mundo como ele está. Entretanto, são justamente as novas idéias que levam ao progresso da humanidade.
            “Os personagens foram nascendo ao sabor do acaso e sem intenções”, dizia Lobato. “Emília começou como uma feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente - cabritinho novo, aos pinotes. Teoria biológica das mutações. E foi adquirindo uma tal independência que, não sei em que livro, quando lhe perguntaram: ‘Mas que você é, afinal de contas, Emília?’, ela respondeu de queixinho empinado: ‘Sou a independência ou a morte’. E é tão independente que nem eu, seu pai, consigo dominá-la. Quando escrevo um desse livros, ela me entra nos dois dedos que batem as teclas e diz o que quer, e não o que eu quero”.

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