terça-feira, abril 07, 2026

Senhor das estrelas

 



Em 1977, o roteirista Chris Claremont, o desenhista John Byrne e o arte-finalista Terry Austin eram ilustres desconhecidos. Nesse ano, entretanto, eles produziram juntos uma obra-prima que antecipava em alguns anos os melhores momentos do trio nos X-men. Trata-se de Senhor da Estrelas.
Publicada originalmente na revista Marvel Preview (e republicada aqui em Heróis da Tv 70 e 71), Senhor da Estrelas, como o próprio nome diz, era uma história de ficção-científica: mostra um herói salvando um grupo de pessoas escravizadas.
No meio do salvamento ele descobre que a atividade está sendo usada para gerar dinheiro para um golpe de estado no império galáctico – e, como a ajuda de um garoto e uma garota salvos por ele, irão impedir que isso aconteça.
É uma trama space opera, com direito até mesmo a luta de espadas, mas não soa artificial. A trama se desenvolve de forma verossímil. A história traz inclusive uma inovação interessante: na trama, a nave é um ser vivo apaixonada pelo senhor das galáxias (à certa altura ela chega mesmo a criar uma imagem feminina).
Claremont é conhecido por escrever exageradamente e aqui ele escreve muito, mas o texto não é supérfluo.

Já o desenho é uma atração à parte. Byrne sempre teve um traço elegante, mas nessa HQ se supera, brincando com a diagramação – em certa sequência, um mostro destrói um barco, avançando pelos quadros, junto com o texto. Já o arte-finalista Terry Austin não só torna o traço de Byrne mais refinado como o elabora ainda mais, com o uso, por exemplo, de retículas. Detalhada em alguns momentos e apenas delineada em outros, a arte-final se encaixa perfeitamente no desenho.
Infelizmente essa fase do personagem na época teve poucas histórias. E, sim, esse é o mesmo personagem dos filmes do Guardiões da Galáxia, embora nos filmes ele seja muito diferente. 

Cabanagem: A miserável revolução das classes infames

 


A Cabanagem foi a mais sangrenta guerra civil da América Latina. Foram 35 mil mortos, 30% da população da região amazônica. Entretanto, é uma das menos conhecidas revoltas do período regencial. Uma ótima obra para os interessados no assunto é A miserável revolução das classes infames, de Décio Freitas (editora Record).
Décio conta que o livro é baseado em cartas que lhe foram entregues por um amigo espanhol. Escritas meio em francês, meio em bretão, eram redigidas por um revolucionário francês que participara da revolta paraense.
Já nos finais da revolução francesa, muitos indíviduos do grupo que perdia o poder, ao invés de serem guilhotinados, eram simplesmente enviados para a Guiana francesa. Era a “guilhotina seca”.
Quando Napoleão chegou ao poder, continuou a prática e quando este foi derrotado, seus inimigos fizeram o mesmo. Dessa forma, na Guiana Francesa podia-se encontrar desde jacobinos veteranos da revolução francesa a pessoas perseguidas por Napoleão.
Entre os revolucionários enviados para a Guiana está Jean-Jacques Berthier, expulso da França com apenas 14 anos. E este é o autor das cartas que servem de base para o livro. Assim, os principais fatos do conflito amazônico são esmiuçados do ponto de vista desse personagem. As cartas, no entanto, parecem ser só uma estratégia de verossimilhança. Da mesma forma que Umberto Eco inventou que O nome da Rosa não era um romance, mas a tradução de um texto real da Idade Média, Décio aparentemente  inventa que seu livro é resultado das cartas recebidas de um amigo e traduzidas a grande custo do bretão.
Mas se o personagem é fictício, os fatos históricos narrados no livro são reais. O autor pesquisou a fundo o período e lança uma nova luz sobre a revolta.
A começar por algo que fica claro durante toda o obra: a cabanagem foi a nossa revolução francesa. A relação é, de fato, direta.
Quando Napoleão invade Portugual, D. João e a corte portuguesa são obrigados a fugir para o Rio de Janeiro. Mas, em retaliação, D. João manda invadir a Guiana Francesa com o apoio dos ingleses.
A conquista é fácil, mas vai ter grandes consequências. Na época, a colônia francesa estava repleta de revolucionários jacobinos. Como eram inimigos de Napoleão, os portugueses são tolerantes com eles e alguns até são levados a Belém para ajudar na construção de um palacete para o governador. Outros vão por conta própria.
Além disso, os soldados brasileiros que participaram do conflito têm contato direto com as ideias dos revolucionários. Em pouco tempo, Belém não só estava cheia de jacobinos, mas também de soldados brasileiros com ideias revolucionárias.
Décio faz uma descrição ampla de Belém e das condições sociais do Pará à época.
O Pará era dominado pelos portugueses e pelos mestiços de principais famílias. Aos negros restava a escravidão e aos índios, chamados tapuios, a miséria. Era comum, por exemplo o sequestro de meninais tapuias destinadas à lascívia dos endinheirados. São as “índias de corda”: seus captores furam suas orelhas pela qual passam uma corda que prende uma às outras. Se tentarem fugir, provocam dores atrozes nas outras.
O governador, corrupto, pensa em uma só coisa: enriquecer mesmo que à custa de saquear o povo local.
A língua mais falada não é o português, mas a língua geral, o Nheengatu, língua indígena baseada no tupi e criada pelos jesuítas. 
Um fato que antecipou e, de certa forma provocou a revolta da cabanagem, foi o massacre do Brigue Palhaço.
Quando o Brasil se tornou independente, o Pará não aderiu. Afinal, a capital paraense era mais próxima de Portugal do que do Rio e comércio era todo com a Europa.
D. Pedro manda um mercenário inglês, Lorde Greenfell, para providenciar a adesão do estado ao império brasileiro.
Greenfell faz um acordo com as principais famílias, que aceitavam aderir à independência em troca de manter o status quo.
A população pobre se revolta: esperava-se que a adesão do Brasil à independência mudasse alguma coisa na situação política e social do estado, mas continua tudo como estava.
A rebelião estoura: as pessoas saem às ruas saqueando os comércios dos portugueses. A repeensão, efetuada pelo mercenário é cruel e aleatória. Ele envia seus soldados, que recolhem todos que encontram na rua e, sem qualquer julgamento, os aprisiona no porão de um navio, o Brigue Palhaço.
Eram 256 pessoas aprisionadas em um espaço mínimo, num calor extremo, sem água ou comida. A ideia era matá-los de fome e sede, mas quando o gemido agonizante dos aprisionados começou a incomodar os soldados, Greenfell mandou dar tiros a esmo no porão. Não deu certo. Os gritos de agonia continuaram. A solução foi radical: jogar cal no porão, asfixiando os prisioneiros. De todos, apenas uma pessoa sobreviveu.
Essa tragédia marcaria para sempre a história do Pará e seria, anos mais tarde, o estopim para a revolta dos cabanos.

Elektra vive

 


Uma das grandes inovações da primeira fase de Frank Miller no Demolidor foi a criação de Elektra, a grande paixão do herói. O fato dela ser uma assassina criou uma dinâmica única na série e um dilema ética para o herói poucas vezes visto nos quadrinhos de super-heróis. No auge da fama, Miller matou a personagem (em uma sequências mais emocionantes das HQs de todos os tempos). Mas provavelmente se arrependeu.
Elektra reapareceu logo depois, em uma HQ curta em que Murdock delira imaginando que personagem está viva. Depois em uma HQ em que o tentáculo tenta trazê-la de volta, sob controle dos assassinos. E, finalmente, em Elektra vive, publicada no final de década de 1980.
Quando o álbum foi publicado, Miller estava no auge da fama, o que lhe permitiu impor um formato gráfico diferenciado para os quadrinhos americanos. E estava no auge de sua capacidade como narrador gráfico. A começar pela capa, apenas como os créditos, título e a personagem andando em meio à neve. Outro destaque é a sequência de página inteira em que Murdock desce as escadas de seu apartamento. Com forte influência de Will Eisner, Miller aproveita a tendência do leitor de visualizar a página de cima para baixo para construir sua narrativa.
Miller assimilou muito bem a influência de Will Eisner. 


As cores de Linn Varley, esposa de Miller, destacam ainda mais a arte exuberante (bons tempos em que Miller sabia desenhar!!!).
A sequência em que Murdock vai à igreja para se confessar é relevante e revela muito sobre o personagem e suas origens católicas (algo que foi muito bem aproveitado na primeira temporada da série da Netflix). Mas as várias sequências de sonhos e do personagem se lembrando da personagem parecem apenas uma repetição do que Miller já tinha feito na revista do Demolidor.
A arte é impressionante. Mas a história era necessária? 


Enfim, a pergunta: apesar da qualidade visível do álbum, era mesmo necessária uma história a mais com Elektra?
Elektra Vive foi publicada no início da década de 1990 pela editora Abril e volta agora em um álbum capa dura pela editora Panini.

Bem-vindos a Alflolol

 


Uma das características que fazem de Valerian algo totalmente diferente de outras séries de ficção científica é a humanidade, filosofia e poesia das histórias. Como diz o roteirista Christin, “Mesmo que a aventura renda sempre uma leitura agradável, o verdadeiro tema é a reflexão, antes da ação”. Exemplo perfeito disso é o álbum Bem-vindos a Alflolol.
Na história, os dois aventureiros espaciais, Valerian e Laureline, estão visitando um planeta repleto de recursos naturais que estão sendo explorados pelos terrestres. É quando se deparam com uma nave ancestral. Na nave estão os habitantes originais do planeta, seres tão longevos que vivem milhares de anos. E que têm o costume de fazer passeios de turismo pela galáxia de tempos em tempos, em embarcações movidas por seus poderes mentais. E eles estão voltando para casa depois de uma breve viagem... que durou quatro mil anos terrestres!
Os habitantes de Alflolol estão voltando de uma longa viagem de turismo... 


Isso gera uma crise: os executivos são obrigados a aceitar os alfaloloseses , mas temem que os habitantes originais possam atrapalhar a produção (a todo momento temos algum executivo dizendo algo como “A produção não pode parar!”, “A economia não pode parar!”).
Para evitar prejuízos à empresa, os habitantes originais do planeta são confinados em uma reserva.
... e acabam sendo confinados em uma reserva. 


A HQ nitidamente é uma metáfora da situação dos índios norte-americanos, habitantes originais das terras americanas, mas aprisionados em reservas.
A dupla de criadores, Christin e Méziéres, no entato, dá à história, que poderia ser um dramalhão, um tom leve e irônico, constantemente humorístico.   E transformam a coisa toda numa grande aventura, deliciosa de se ler.
Bem-vindos a Alflolol faz parte do segundo volume da série de álbuns dos personagens lançada pela editora SESI de São Paulo.

Jovens Titãs em ação

 


Eu conheci o desenho animado “Jovens Titãs em ação” graças ao meu neto e foi uma grata surpresa: esse seriado é um dos mais inventivos e curiosos da atualidade. Um verdadeiro show de humor, auto-referências e até mesmo... metalinguagem!
Nessa última categoria um episódio que vale a pena ver é Titãs Clássicos, da quarta temporada.
No episódio, um fã, chamado Maluco do Controle transforma os heróis em versões do que seria o primeiro desenho do grupo. A piada já começa aí: o plot é uma crítica direta aos nerds que reclamam que o desenho destruiu suas infâncias.
Transformados em suas versões “clássicas”, os heróis se esbaldam em comentários metalinguísticos: reclamam que só conseguem mexer a cabeça e os braços, reclamam da narração preguiçosa, que explica a trama para os expectadores (ao que o narrador retruca que, devido aos problemas da animação, ninguém entenderia a história sem sua narração) e comentam o quanto o vilão (que quer destruir o mundo com dinossauros) é unidimensional e parece não ter uma motivação real.
A primeira versão dos personagens a aparecer na telinha 

A animação é outra fonte rica de referências: eles usam todos os recursos batidos dos desenhos dos anos 1970: sons estranhos quando alguém usa poder, o vilão caricato que é mostrado diversas vezes rindo para economizar frames etc.
Uma curiosidade é que os Jovens Titãs tiveram de fato um desenho em 1967 produzido pela Filmation... e, sim, tinha todos os defeitos apontados, incluindo o narrador que contava toda a história. Dá para ver um episódio aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Ace8mpPshUM

Roteiro para quadrinhos: Como melhorar o seu texto

 


Uma pergunta comum de novos roteiristas é: como melhorar meu texto?
A resposta vale para qualquer um que escreve, seja quadrinhos, cinema, TV, livros: lendo e escrevendo.
Não existe outra forma de melhorar que não seja produzindo. Quanto mais produzir, melhor ficará seu texto. 
Isso é bem óbvio no caso de roteiristas de quadrinhos que trabalharam durante anos em um único título, começando em início de carreira.
Pegue, por exemplo, uma história de Chris Claremont na sua fase inicial dos X-men. Depois compare com uma história da fase em que os desenhos eram de John Byrne, época em que o texto de Claremont já estava desenvolvido. A diferença é gritante.
Outro exemplo é Gerry Conway, escritor que começou sua carreira no Homem-aranha e foi responsável por uma das fases mais antológicas do personagem, com histórias clássicas, como a morte de Gwen Stacy. No começo, o texto de Conway parece inseguro e claramente imita o de Stan Lee. Com o tempo o texto se torna solto e vemos, a cada edição, a melhora no roteiro.
Infelizmente no Brasil não temos um mercado consolidado de quadrinhos que permita ao roteirista evoluir escrevendo um título. Mas para isso vale a boa e velha editora Gaveta. Escrever para a editora Gaveta significa escrever para engavetar, sem nenhum objetivo imediato de publicação, escrever para treinar. Pode ser que um dia você vá lá na gaveta e reaproveite alguma daquelas ideias, mas o objetivo inicial é apenas esse – escrever.
O ideal de um bom escritor é ser como um bom motorista. Um bom motorista dirige automaticamente: ele muda a marcha, acelera, diminui marcha, freia, é tudo automático. Da mesma forma, um bom escritor. Depois de algum tempo e muito treino, o texto flui automaticamente e fica bom.
Revisando O UIVO DA GÓRGONA acabei me espantando com a quantidade de figuras de linguagem e de outros elementos narrativos que coloquei na trama. Foi tudo inconsciente. Não passei horas pensando: ah, vou colocar uma metáfora aqui, ah, vamos ter uma elipse aqui. Isso surge naturalmente. O ideal é que o escritor treine, treine, treine, até chegar a esse ponto.

Os Novos Titãs – Estelar

 


A mais empolgante personagens dos Novos Titãs era Estelar. Bonita, sorridente e capaz de aprender línguas com um beijo, ela era motivo da paixão de boa parte dos garotos fãs de quadrinhos da década de 1980. No entanto, ela tinha uma origem dramática, como descobrimos em detalhes no quarto número da minissérie Tales of the New Teen Titans.

Até então, o que sabia dela é que ela tinha sido dada como escrava pelo pai diante de invasores que fizeram a exigência de levar a princesa. Mas na verdade, a história era muito mais complexa.

Tamaran era um planeta de amor... 


Segundo Estelar, Tamaran, seu planeta  natal, era um paraíso de amor em que todos eram guiados pela paixão e emoções. Koriander era a segunda filha do casal real, mas estava destinada a se tornar rainha, já que sua irmã, Komander, era considerada incapacitada por não conseguir voar. Isso provoca um ressentimento que irá se transformar em tragédia: “Seu ódio por mim e por toda Tamaran cresceram a cada ano”.

Embora Tamaran fosse dedicado ao amor, tinham um inimigo mortal, os habitantes da Cidadela, de modo que todos precisavam dominar também as artes da batalha e por isso as duas meninas são enviadas para os senhores da guerra.

... abalado pelo ódio entre irmãs. 


Marv Wolfman, o roteirista, constrói Koriander e Komander através do contraste. Em um torneio, Komander usa de trapaça para tentar matar sua irmã e quando ela a salva, passa a odiá-la ainda mais.

É Komander que irá se aliar aos habitantes da Cidadela e entregar a eles toda as informações sobre Tamaran que lhe permitiriam derrotar suas defesas. E é ela que exige o tributo da irmã.

Estelar quase é morta pela irmã, mas mesmo assim a salva. 


Junto com outros escravos, Koriander era alugada por um ano e, ao final desse prazo, voltava para a posse da irmã, que aproveitava para torturá-la. “Eu não consigo descrever como aqueles seis anos foram terríveis. Tento não pensar nisso... mas às vezes, durante a noite... eu não consigo evitar. As torturas e a degradação... isso é melhor esquecer”.

É impossível não comparar os Novos Titãs com os X-men.

Komander exige um tributo: a irmã. 


Se os X-men tinham uma personagem atormentada pelo seu lado sombrio, a Fênix, os Novos Titãs tinham Ravena.

Se os X-men tinham Tempestade, Os Novos Titãs tinham Estelar.

Koriander é transformada em escrava. 


As duas eram mulheres, bonitas, atormentadas pelo passado, as duas flutuavam no ar, as duas tinham pele de cor não caucasiana (negra no caso de Tempestade e alaranjada no caso de Estelar) e as duas tinham olhos sem pupilas.

Embora Marv Wolfman não tenha alcançado a profundidade psicológica que Chris Claremont imprimiu à Ororo, sem dúvida a origem de Koriander é muito mais complexa e mais integrada ao aspecto de ficção científica, que também aparecia nos X-men.

O demônio da fé

 


            A noção de demônio, básica para a Igreja Católica, serviu como hálibe para  a perseguição a diversas minorias. Judeus, ciganos, homossexuais, mulheres e qualquer pessoa que tivesse um comportamento diferente poderia ser queimado pela fogueira da inquisição. Em Portugal, o simples fato da pessoa tomar banho aos sábados era uma prova que poderia ser usada contra ela num processo por judaísmo. Os padres, inclusive, desestimulavam os banhos, pois a água entrava em locais que não era pudico tocar.
Para a Igreja, o demônio era a mulher. Os inquisidores Heinrich Kraemer e James Sprenger, autores do Malleus Maleficarum, o Martelo das Bruxas, livro de cabeceira dos religiosos da época diziam que deve-se exorcisar o demônio que tem seios e cabelos longos. Para eles, a voz da mulher era como o canto das sereias, que com suas doces melodias atraem os viajantes os matam esvaziando seus bolsos e fazendo com que abandonem a Deus.
A bruxa, feia, com os cabelos desgrenhados, desdentada e apavorante é a mulher em seu estado natural, pois o diabo vive da luxúria carnal, que nas mulheres é irresistível. A mulher, para os religiosos da época, era mais amarga que a morte. Seu beijo é como a picada do escorpião. Seu abraço é um garrote que tira do homem a vida. A serpente seduziu Eva, que fez perder o homem. Não fosse ela, teríamos o paraíso na terra. São Bernardo disse que seu rosto é um vento queimante e que sua voz é como o sibilo das cobras.
Catão de Utica disse que se pudéssemos nos livrar das mulheres, não teríamos necessidade de Deus nas nossas relações, pois sem a malícia e bruxaria das mulheres, o mundo não conheceria perigos. Valerlo disse delas que são como as Quimeras, pois o monstro tinha três formas: seu rosto era do radiantes e nobre leão, tinha o ventre asqueroso de uma cabra e o rabo era de uma serpente. Da mesma forma, a mulher é formosa em aparência, contaminada ao tato e mortífero viver com ela. Os Eclesiastes dizem dela que  "Não há cabeça superior à de uma serpente, e não há ira superior à de uma mulher. Prefiro viver com um leão e um dragão que com uma mulher malévola”.
Mas não é só a mulher que era fonte da danação. Também os judeus o eram.
Dizia-se que o demônio em pessoa dava aulas nas sinagogas e que os judeus tomavam como cuidado seu profanar hóstias e envenenar a água benta. Acreditava-se que cospiam sobre a hóstia usando a mesma boca que beijou as pudentas do diabo.
Os grandes flagelos do fim da Idade Média foram creditados a eles, a peste negra, a febre amarela e todas as outras desgraças. Por isso mesmo eram perseguidos em todos os cantos. No livro O Complô, o quadrinhista Will Eisner mostra como uma intriga palaciana fez com que o serviço secreto russo produzisse um documento, O Protocolo dos Sábios de Sião, que seria o plano dos judeus para dominar o mundo. Esse livro foi a base da propaganda nazista, mas engana-se quem pensa que a perseguição aos judeus começou com o nazismo. Essa modalidade já era praticada há muito tempo pela Igreja.
Também o negro era um representante do demônio. Dizia-se que, como o pecado, o negro é inimigo da luz e da inocência.
Santa Tereza era uma inimiga ferrenha do mestre das trevas e um dia ele a visitou. Era um garotinho negro com uma chama vermelha. Estava nu, pois os demônios, assim como os negros, não têm vergonha de seus próprios corpos. E assim, nu, ele se sentou sobre as sagradas escrituras e com suas pudentas em chamas queimou o livro.
Episódios como esse justificavam a escravidão, a tortura e a fogueira.

segunda-feira, abril 06, 2026

Jornada nas Estrelas: Operação aniquilar

 


Em Operação aniquilar, a Enterprise segue o rastro de uma epidemia de loucura que pula de um planeta para o outro. No que parece o mais recente planeto afetado mora o irmã de Kirk e sua família, o que acrescenta um interesse pessoal para o capitão. Quando descem para investigar, descobrem seres gelationosos que, aparentemente são os responsáveis pela loucura. Um deles se instala em Spock, controlando-o para que assuma o poder da nave.
É um plot interessante, mas com problemas de roteiro que comprometem o conjunto. O maior deles está ligado diretamente na pesquisa que leva à resolução do problema.
Quando conseguem descobrir o que mata a criatura resolvem testar num ser vivo sem nem mesmo revisar ou mesmo avaliar os resultados da pesquisa anterior – e o resultado, claro, é desastroso. Um resultado, aliás, que é revertido a uma situação que pode ser encarada como um deus ex machina. Para quem tem uma noção básica de como funciona uma pesquisa científica, fica o pensamento: como, a história se passando num futuro longíncuo, os caras conseguem errar no básico dos passos de uma pesquisa?
O que salva o episódio é atuação monumental de Leonard Nimoy, que consegue demonstrar com perfeição tanto quando está sendo controlado quando está resistindo a esse controle. E faz isso com uma atuação extremamente contida, sem gestos bruscos ou caretas. Vale destacar também o restante do elenco, em especial Kirk e McCoy. Nem Willam Shatner nem Jackson DeForest Kelley estavam no nível de atuação e Nimoy, mas era impressionante a sintonia entre eles, o que o muitas vezes acaba salvando episódios menores, como este Operação Aniquilar. 

Ernie Pike, de Oesterheld e Pratt

 


Quando foi lançada, em 1957, a série com o repórter Ernie Pike revolucionou as histórias em quadrinhos de guerra. Saiu o ufanismo e o maniqueísmo e entrou a profundidade psicológica. O repórter Ernie Pike não contava histórias de heroísmo, mas histórias com profundo teor humano.

A série, publicada na revista Hora Cero, tinha roteiro do argentino Héctor Oesterheld e desenhos do italiano Hugo Pratt, que à essa altura morava na capital portenha. Pratt fez o repórter com as feições do roteirista-editor, mas a base para a criação do personagem tinha sido o jornalista Ernest Taylor Pyle, também conhecido como Ernie Pyle. Pyle se destacara com textos realistas sobre a guerra, fascinando milhões de leitores norte-americanos com suas histórias.

O personagem era visualmente baseado no roteirista. 


Como seu equivalente da vida real, Ernie Pike narrava histórias pouco convencionais sobre a II Guerra Mundial, muitas vezes irônicas, a exemplo do soldado inglês que fugira dos comandos que tentavam salvá-lo achando que se tratavam de canibais. Outras eram pueris, como da tenente do corpo auxiliar feminino do exército norte-americano que sonhava com um rapaz alto, loiro, que tivesse uma pinta na bochecha direita e fumasse cachimbo. Mas quando o encontra, descobre que ele é um oficial alemão. Há aventuras impressionantes, em que a narrativa é estentida ao máximo do suspense e da tensão, como em Comboio para malta, sobre um navio levando suprimentos para o porto de Malta e que o faz sob pesado fogo inimigo.

Mas os grandes relatos, os que realmente valem o luxuoso álbum publicado pela editora Figura, são os dramas humanos. E desses, o melhor representante é Desencontro. O conto é protagonizado por dois amigos ingleses, Crazy Holden e Tenente Long, cada um deles comandando um tanque durante a guerra na África. Oesterheld e Pratt conseguem fazer um conflito formado essencialmente por máquinas de combate resplandecer de sentimentos humanos e muita ação até o final apoteótico e irônico, no qual o único sobrevivente enlouquece, acreditando que foi traído pelo amigo.

A história que provocou atrito entre os criadores: um soldado alemão abandonando sua posição para salvar a boneca de uma menina. 


Oeterheld humanizava não só os integrantes dos exércitos aliados. Alemães e japoneses são mostrados como pessoas normais, como defeitos e qualidades e muitas vezes gestos inesperados, como do alemão que sai do posto para salvar a boneca de uma menina francesa. Essa característica do roteiro foi inclusive motivo de discórdia entre Oesterheld e Pratt. O desenhista acreditava que o roteirista humanizava demais os alemães por ser descentes desse povo.

A enorme edição da Figura reúne todas as histórias do personagem criadas pela dupla. É um volume de fôlego, com 350 páginas que incluem não só as HQs, mas também as belíssimas capas criadas por Pratt. A edição permite perceber também, que à certa altura do italiano começou a perder interesse pela série, talvez pelas discordância sobre o roteiro, o que fez com que seu desenho se tornasse menos caprichado. Mesmo assim, o volume é obrigatório na estante de qualquer fã de quadrinhos.

Em tempo, a capa produzida pela editora Figura, além de linda, é a perfeita representação da série, ao mostrar soldados mortos e a foto de uma família em um capacete caído.

Interfaces midiáticas e quadrinhos

 


 
Já está disponível, no site da editora da Unifap, o livro Interfaces midiáticas e quadrinhos, organizado por mim e pelo Rafael Senra. 

O livro, uma co-edição da editora da Unifap e da Verter, reúne artigos apresentados no IV Aspas Norte. 

Nas palavras de Rafael Senra, "Temos aqui autores de todo o Brasil, com artigos que envolvem o tema dos quadrinhos analisados sob diversas metodologias e abordagens. Seja com trabalho de campo, atividades didáticas ou pesquisas bibliográficas, temos aqui reunidos trabalhos de alto nível acerca dos quadrinhos e do diálogo desse meio com diversas mídias. ".

O e-book pode ser baixado gratuitamente clicando aqui: https://www2.unifap.br/editora/files/2024/04/Livro-Interface-Midiatica.pdf

Esquadrão Atari – Laços de família

 


A quarta edição do título do Esquadrão Atari era uma edição de preparação, como se Gerry Conway estivesse acertando as peças no tabuleiro antes de começar de fato o jogo.

A trama inicia com uma sequência forçada, em que Dart está num ambiente escuro e é ataca por uma pessoa, que se revela Chris, o Tormena, usando sua habilidade de se transportar ou transportar partes de seu corpo. A sequência parece ter sido introduzido apenas para que o episódio tivesse alguma ação.

A sequência inicial é forçada. 
Na sequência, Dart rencontra seus pais. Esse episódio e o seguinte, no qual Morféa sonda a mente de Martin Champion, são usados para contar um pouco da história do primeiro Esquadrão Atari – publicados em formatinho, em gibis promocionais da Atari.O episódio também é usado para mostrar a situação de Bebê, que foi oficialmente adotado pelo pirata que o sequestrou de seu planeta natal – o que fará com que Morféa fuja com ele, provocando a entrada dos dois no novo Esquadrão Atari.

O episódio é usado para contar a história do primeiro Esquadrão Atari. 

Esse episódio não é desenhado por Garcia-Lopez, mas por Ross Andru, um desenhista extremamente competente, mas comportado na comparação com o argentino. Mesmo a arte-final de Garcia-Lopez, tão marcante que conseguia imprimir seu estilo ao traço de outro, faz com que esse episódio tenha o mesmo nível dos restantes. Faz falta principalmente a diagramação inovadora, com personagens saindo do quadro em sequências que pareciam puro 3D.

Uma curiosidade é que quando Garcia-Lopez chegou aos EUA, os editores da DC mostraram um trabalho de Ross Andru (o encontro do Aranha com o Super-homem) e perguntaram se ele conseguiria fazer algo naquele nível.

A história do cinema para quem tem pressa

 


 

Contar toda a história do cinema em menos de 200 páginas. Esse é o desafio do livro A história do cinema para quem tem pressa, de Celso Sabadin, da editora Valentina.

Parece um projeto destinado ao fracasso, mas Sabadin dá conta do serviço.  Autor de livros como “Vocês ainda não ouviram nada – a barulhenta história do cinema” e sócio fundador da Associação Brasileira de Críticos de Cinema, o autor consegue equilibrar a obra entre a profundidade e a rapidez, abordando desde o surgimento da sétima arte até os dias atuais em uma linguagem fácil e agradável.

O livro se destaca principalmente pelas curiosidades que ajudam a contar a história. Por exemplo, em 1872 o fotógrafo inglês Eadwear Muybridge foi contratado pelo governador da Califórnia para ajudar a elucidar uma questão. O governador havia apostado com um amigo que os cavalos tiram as quatro patas do chão enquanto correm. Muybridge espalhou pela pista 24 câmeras munidas de disparadores automáticos, que permitiram detectar minunciosamente os movimentos do equino. Ao ver as fotos ele percebeu que se elas fossem exibidas rapidamente em sequencia conseguiriam criar a ilusão de movimento, o que seria a base da câmera cinematográfica. A propósito: o governador ganhou a aposta.

Embora oficialmente o cinema tenha surgido na França, foi nos EUA que ele mais se difundiu, principalmente graças aos poeiras (niclelodeons), locais de exibição de limpeza precária, que vendiam aproximadamente 340 mil ingressos diários.

Foram os poeiras que enriqueceram Thomas Edson e o ajudaram a criar um verdadeiro truste que dominava completamente a produção cinematográfica no início do século XX.

Mas foram donos de poeiras (na maioria imigrantes que investiram todas as suas economias para montar as salas de exibição e ficaram ricos) que criaram os pequenos estúdios, que conseguiram vencer a guerra contra Edson. Esses pequenos estúdios se estabeleceram em Hollywood, na Califórnia porque o preço das terras era barato e porque dava para filmar o ano inteiro (ao contrário de cidades como Nova York, que sofre com nevascas, tempestades etc).

Universal, Warner, Fox, Colúmbia e MGM são alguns exemplos, empresas que até hoje, mais e um século depois, ainda dominam a produção de cinema norte-americano.

Entre essas empresas que surgiram nos poeirões estava a Warner Bros. Eram 11 irmãos Warner que haviam deixado a Polônia em busca de melhores oportunidades. Um deles, Sam, encantou-se com o cinema ao trabalhar como projecionista e convenceu o pai a investir todas as economias na compra de um projetor e aluguel de uma pequena sala.

O cineminha deu certo e logo se tornou produtora, mas estava a anos luz das maiores do ramo.

A aposta dos irmãos Warner passou a ser o cinema falado. Começaram com Dom Juan, que tinha apenas efeitos sonoros sincronizados, o que não despertou interesse da plateia nem da imprensa e gerou um belo prejuízo. A sorte da empresa viria com O cantor de jazz, em 1927. Apesar de ter poucas falas, os números musicais sincronizados encantaram a plateia.

Logo todo mundo só queria saber de filmes falados e os estúdios tiveram que se adaptar. Mas o equipamento de captação de som era rudimentar e os microfones enormes, do tamanho de um ralador de queijo. O jeito era escondê-los no cenário. Mesmo assim, os atores tinham que falar num tom mais alto que o normal. Assim era comum nos filmes da época os atores praticamente gritando ao lado de um vaso de flores no qual estava escondido o microfone.

São curiosidades e detalhes como esses que deixam o livro interessante. Mas a história do cinema para quem tem pressa também consegue analisar e explicar os movimentos cinematográficos, como o expressionismo alemão, o impressionismo francês, o realismo soviético e o neorrealismo italiano. E ainda dar uma passada de olhos sobre os dois países que mais produzem filmes no mundo, a Índia e a Nigéria.

Basílica de Sacré-Cœur

 


A Basílica de Sacré-Cœur (Sagrado Coração) é uma das mais famosas igrejas de Paris. Construída no final do século XIX, ela resgatou a arquitetura romana e bizantina, com paredes sólidas.
A igreja é adornada com belíssimos vitrais, pinturas e esculturas – e uma réplica do santo sudário. E, embora tenha um estilo arquitetônico oposto ao de Notre Dame, também tem várias gárgulas que podem ser vistas na lateral do prédio.

A basília fica no alto do Monte Martre, o local mais alto de Paris e de lá é possível observar toda a cidade. Nos arredores há dezenas de lojas de lembrancinhas, café, restaurantes e quiosques nos quais são vendidos os tradicionais sanduíches parisienses, com pão baguete.