sábado, janeiro 31, 2026

A ditadura escancarada

 


O golpe militar de março de 1964, que começou como uma ditadura envergonhada, firmou-se a partir de 1968, com a instalação do AI-5. Mas foi a partir da tortura que a ditadura se escancarou. Foi o mais duro período da mais longa ditadura militar brasileira. É justamente sobre esses anos de chumbo que Elio Gaspari trata no livro da série Ilusões Armadas. A Ditadura Escancarada vai do AI-5 ao fim da guerrilha do Araguaia, em 1974.

O livro é uma mistura de reportagem histórica com ensaio filosófico. Gaspari explica que a tortura foi instalada no Brasil sob desculpa de que havia um movimento terrorista que deveria ser combatido a todo custo. Era necessário conseguir confissões para destruir a teia subversiva. E, como disse um bispo na época, confissões não se consegue com bombons.

O terrorismo foi apenas desculpa para recrudescimento do regime. Em comparação, só no segundo semestre de 1970 explodiram 140 bombas nos EUA, mais do que todas as bombas explodidas no Brasil no período. E, em nenhum momento nos EUA a tortura foi considerada um método legítimo de se conseguir informações.

A tortura traz resultados rápidos e eficientes, mas a grande custo. Seu uso exige dois tipos de agentes. No primeiro degrau estão aqueles que se beneficiam da tortura, mas não sujam as mãos. Ministros, presidentes, generais usam as informações conseguidas através da tortura para dizimar seus adversários políticos. No degrau de baixo estão os torturadores, que precisam ser incentivados a praticarem atos de barbarismo. No Brasil, esse reconhecimento vinha na forma de promoções e, ironicamente, da Medalha do Pacificador, o mais alto grau do Exército. O tenente Ailton, que dava aulas de tortura nos quartéis, recebeu a sua em 1970. O delegado Fleury que, quando não estava torturando presos políticos, usava seu tempo livre trabalhando para o tráfico de drogas, ganhou sua medalha em 1971.

A grande lição de A Ditadura Escancarada é que o uso da tortura é um círculo vicioso. Começa-se usando-a para acabar com o terrorismo. No final, os próprios torturadores tornam-se também eles terroristas. É que a repressão violenta à subversão traz inegáveis vantagens ao degrau inferior e, quando o degrau superior decide acabar com ele, a "tigrada" não aceita. Foi o que aconteceu na Argélia, em que o governo francês deu permissão para que o exército usasse a força contra terroristas que queriam a independência do país. Quando De Gaulle quis retomar o poder, os militares se organizaram em um grupo terrorista e mataram mais de cinco mil pessoas. No Brasil, a linha dura da ditadura, quando percebeu que perdia poder, voltou-se também ela para o terrorismo. Prova disso foi o atentado no Rio-Centro, que teria matado dezenas de pessoas, não fosse a incompetência da tigrada, que se dava melhor com paus de arara do que com bombas.

Elio Gaspari é a pessoa apropriada para escrever a história desse período. Na época em que ainda era repórter, foi entrevistar o general Golbery do Couto e Silva, fundador do SNI e ideólogo do regime. Logo percebeu que estava diante de um figura-chave da Ditadura. Como desculpa para voltar outra vez, pediu um livro emprestado, sobre o assunto da matéria. Tornou-se amigo do militar até sua morte e ganhou dele um arquivo com vários documentos importantes. Também era amigo do general Ernesto Geisel, com os quais conseguiu muitas das informações que constam nesses volumes. Além disso, leu tudo que se publicou sobre o período e fez um arquivo de 30 mil fichas. Tal trabalho de pesquisa faz com que esse livro, assim como os outros dois da coleção, seja essencial para compreender os anos de chumbo.

Black Mirror - quarta temporada

 A quarta temporada de Black Mirror parece ser, até agora a mais polêmica de todas. O pior episódio para alguns é o melhor para outros e assim em diante. Sinal de que é uma série que ainda incomoda, que nos tira da nossa área de conforto.


Abaixo relaciono os episódios, dos que eu mais gostei para o que eu menos gostei:


1 - Episódio 4: Hang the DJ
"Hang the DJ" é, na minha opinião, o episódio mais interessante da quarta temporada de Black Mirror. Trata-se de uma sociedade em que os relacionamentos e o tempo de duração dos mesmos é escolhido por um algoritmo de computador. Lembra San Junipero pelo seu conteúdo romântico, mas aqui o senso de distopia é muito mais claro, em especial após a virada no final. Uma discussão interessante sobre o determinismo tecnológico: Somos prisioneiros das tecnologias - até quando aparentemente tentamos escapar delas? É uma perfeita metáfora sobre uma distopia em que a rebeldia ao sistema é usada para manter o sistema.

2- Episódio 1: USS Callister
Uma sátira-homenagem ao seriado Jornada nas Estrelas. Funciona bem até mesmo como um episódio de Jornada. O roteirista Charlie Brooker conseguiu fazer o que parecia impossível: unir a utopia de Jornada com a distopia tecnológica de Black Mirror.

3 - Episódio 6: Black Museum
Esse é o episódio de contos da temporada. Como sempre, consegue unir mais de uma história em uma única trama em um museu com diversas referências aos outros episódios. Roteiro redondo, com virada final surpreendente, bem ao estilo Além da Imaginação.  

4 - Episódio 3: Crocodile
Trama policial do tipo em que um crime pequeno leva a um outro crime maior, que leva a outro e outro etc, no estilo Cova Rasa ou Durval Discos. A ironia do destino do final é outro elemento que lembra muito Além da imaginação.


5 - Episódio 2: Arkangel
Uma mãe, após quase perder a filha, resolve implantar nela um chip de controle, mas, como era de se esperar em Black Mirror, isso logo se torna um pesadelo quando a necessidade de controle se torna um vício para a mãe. Apesar da premissa interessante, algo não funcionou tão bem no episódio.


6 - Episódio 5: Metalhead
Distopia tecnológica sobre um mundo em que robôs perseguem humanos. A trama acompanha uma mulher tentando escapar de um cão-robô. É um bom triller, mas nada além disso. Destaque para a ótima fotografia, que valoriza a história.


Algo a se dizer sobre essa quarta temporada de Black Mirror é que até os episódios mais fracos são muito melhores que a maioria dos filmes lançados recentemente. Charlie Brooker é, provavelmente, o melhor roteirista da atualidade e a série criada por ele mostra que os bons roteiros migraram da tela grande para a telinha. 

A expressiva arte de Neal Adams

 

Neal Adams foi responsável por reformular o Batman (em uma antológica parceria com o escritor Denny O´Neil) no início da década de 1970. Seu traço expressivo, com um uso particular da perspectiva o tornaram o desenhista mais celebrado do período e um dos mais adorados pelos fãs até hoje. Além do cavaleiro das trevas, ele desenhou Lanterna e Arqueiro Verde em uma das melhores fases dos personagens e ilustrou revistas da Marvel, como Inumanos, X-men e Conan. Confira abaixo alguns de seus trabalhos.









Todos contra Thor

 


O maior vilão da série do Thor era, sem dúvida, Loki. Mas de vez em quando o deus da trapaça se associava a outros vilões, a exemplo do que acontece em Journey into Mystery 110 e 111.

Na história, intitulada Todos contra Thor, Loki tira da prisão e dá poderes ampliados a Mr. Hyde e o Cobra e ordena a eles que sequestrem Jane Foster, a amada terrena do deus do trovão e a cabe a ele resgatá-la. Mas os dois vilões (sabe-se lá com que recursos) preparam uma casa cheia de armadilhas para esperá-lo.

Algo que fica patente nessa história é que Stan Lee se divertia muito colocando textos nessas HQs, a começar pelos créditos, repletos de aliterações e auto-promoção: “Espetacularmente escrito por Stan Lee; deslumbrantemente desenhado por Jack Kirby; fantasticamente finalizado por Chic Stone”. No número 111 ele colocou na capa: “Nós decidimos que essa capa é linda demais para estragar com legendas”.

Stan Lee divertia-se criando os textos da capa e os créditos.


Por outro lado, Jack Kirby se divertia com os desenhos. O título permitia a ele liberar todo o seu gosto pelo grandioso e pela mitologia nórdica e pelas cenas de luta monumentais (e geralmente confusas de tantos elementos).

Mas o que realmente chama atenção na história é a patetice dos vilões, que fazem tudo errado e apanham feio e mesmo com força ampliada e uma casa repleta de armadilhas não conseguem deter o deus do trovão. Na verdade, à certa altura, Thor faz incluse com que a casa se vire contra eles.

Raul Seixas – O filósofo povão


 É possível que eu já tivesse ouvido alguma música do Raul Seixas antes, mas curiosamente, a primeira vez que prestei atenção numa música dele eu já era adolescente e morava em Belém.

O pneu da bicicleta tinha furado e eu fui numa borracharia consertar. Havia um toca-fitas velho no local, e entre um brega e outro, tocou Ouro de Tolo. Eu fiquei impressionado com o conteúdo filosófico da letra, que nos fazia questionar nossas certezas e o modo de vida capitalista.

Mas outra coisa me impressionou mais: como aquela música, de uma mensagem tão profunda e complexa, era ao mesmo tempo popular ao ponto de um borracheiro de bicicletas colocá-la numa fita para ouvir durante o trabalho? Alguns conseguem fazer música popular e alguns conseguem fazer músicas inteligentes, mas só um gênio consegue fazer música popular inteligente.

Foi ali que virei fã de Raul.

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Por que os livros paradidáticos hoje em dia são assim?

 

Os livros de Marcos Rey provocariam escândalo hoje em dia. 


Quando tinha 11 anos minha filha me disse: “Pai, eu acho que os livros paradidáticos são feitos para a gente aprender a não gostar de livros”. Meu filho, de 17, concordou.
Isso me espantou porque os dois são leitores vorazes. Meu filho mais de livros, principalmente sobre cinema e história. Minha filha de quadrinhos, em especial Turma da Mônica (os números prediletos, alguns, autografados, guardados caixas especiais.) e Mafalda. Somos assinantes de revistas como a Superinteressante, Mundo Estranho e Galileu, que são disputadas a tapa quando chegam em casa.
Então, se os dois gostam de ler, porque não gostam dos livros paradidáticos?
Perguntei se eles não tinham gostado de nenhum livro. Eles me destacaram dois: uma adaptação de Os miseráveis, de Victor Hugo, e “”Durma em paz, meu amor”, de Pedro Bandeira, sobre jovens que contam histórias de fantasma em uma noite de tempestade.
Contei a eles que na minha época, os livros paradidáticos eram um passo importante no gosto pela leitura. O primeiro que li foi Aventuras de Xisto, tão manuseado que chegou num ponto em que eu havia decorado todas as páginas. Depois vieram os deliciosos romances policiais de Marcos Rey, como O rapto do garoto de ouro. Eram histórias apaixonantes, que envolviam o leitor com muita aventura, suspense e até humor.
Minha filha me explicou que hoje a maioria dos livros não era assim e deu um exemplo de um livro sobre a família: um professor falava sobre o assunto, os alunos faziam seus trabalhos e depois cada um apresentava. Não havia conflito, trama, nada, apenas uma lição de moral sobre a importância da família.
Isso me fez refletir sobre algo que já desconfiava há muito: os livros juvenis hoje são feitos para não provocarem polêmica, não desagradar a ninguém. Um tema mais espinhoso pode ser a razão pela qual os professores deixam de adotar a obra com medo de serem denunciados pelos pais, virarem notícia no jornal. Assim, evita-se conflitos, os personagens são todos padronizados, bonzinhos na maioria, como se a trama só existisse para passar uma lição, seja sobre a importância da família ou sobre palavra que se deve aprender para ser uma pessoa educada.  
O resultado são obras tão assépticas quanto salas de cirurgia. Como dizia Isaac Assimov, se chatice matasse, ler esses livros seria uma sentença de morte.
Tanto esquerda quanto direita estão empenhadas numa cruzada para “defender as crianças”. E defender as crianças significa mantê-las longe de qualquer coisa que os pais considere inadequado. Exemplo muito bom disso foi o escândalo recente da graphic novel dos Vingadores, vendida na Bienal do Livro, que continha um quadrinho com um beijo entre dois personagens gays. Foi o suficiente para mobilizar vereadores, prefeito, fiscais, policiais e todo o aparato governamental. E o quadrinho nem mesmo estava sendo adotado em escolas. Era uma graphic novel, publicações caras, voltadas para o público adulto. Mas a fúria dos “defensores das crianças” foi maior que qualquer bom senso.
Existe, por exemplo, um grupo propondo o banimento dos livros de Monteiro Lobato das escolas (não se fala em censura, dizem que estão apenas protegendo as crianças). O mesmo aconteceu com a obra do quadrinista norte-americano Will Eisner, acusado de pedofilia e pornografia por conta de uma história em que uma menina levanta a saia para enganar o zelador de um prédio e de outra em que aparece a costa nua de uma mulher.
O escritor Lewis Carroll não é adotado em escolas públicas por conta da suspeita de que ele seria pedófilo.
Até mesmo o singelo Aventuras de Xisto, que fez a alegria de minha infância, dificilmente existiria hoje em dia. A história de fantasia se passa numa Idade Média imaginária repleta de magia. Já no primeiro capítulo o livro traz motivos de sobra para polêmica. Na escola, Xisto prega uma peça em seu professor rabugento, fazendo-o acreditar que está surdo. A figura do professor rabugento e a brincadeira certamente não passariam em branco hoje em dia. Mas as acusações mais sérias certamente viriam da caracterização dos protagonistas. Xisto, o herói, é loiro e bonito, um encanto. Já Bruzo, o filho da empregada, é moreno e gordo. E burro (“pena que tivesse um raciocínio um tanto confuso...”). Hoje provocaria manchetes de jornais, com pais e professores revoltados com a história por seu conteúdo racista e preconceituoso.
Enquanto nos deliciávamos com as aventuras de Xisto nenhum de nós jamais teve a leitura de se tratava de preconceito, mas hoje um livro desses certamente seria considerado má-influência.
Até Maurício de Sousa já sofreu, e muito, nesses tempos de politicamente correto. Uma tira em que o barbeiro usa ferramentas de pedreiro para cortar o cabelo do Cascão foi acusada de racismo por muitos, que preferiram ignorar o fato de que o Cascão é um personagem branco.
A série toda a Turma da Mônica foi acusada de ser um estímulo ao buyiling, numa referência às surras que a Mônica dá no Cebolinha e no Cascão. Segundo a acusação, as histórias em quadrinhos estimulavam as crianças a resolverem os conflitos na base da violência.
Nesses tempos de politicamente correto, a obra juvenil de Marcos Rey seria uma impossibilidade. Títulos como Gincana da morte, corrida infernal, o diabo no porta-malas, O rapto do garoto de ouro e Doze horas de terror jamais seriam selecionados pelos professores justamente pela presença de palavras como “terror”, “morte”, “infernal”, “diabo” e “rapto”.
A obra mais famosa de Marcos Rey, O mistério do cinco estrelas, começa com um assassinato. Em Bem-vindos ao Rio um grupo de meninos de rua seqüestra um garoto e uma garota de classe média. Alguém consegue imaginar um livro desses sendo lido nas escolas hoje em dia?  Os defensores da moral e dos bons costumes estariam fazendo passeatas e correntes no zap zap denunciando o caso.
Aliás a própria existência de um Marcos Rey juvenil seria uma impossibilidade. Que editor hoje convidaria para escrever para crianças um cara que passou a década de 1970 vivendo de escrever pornochanchadas? Seria um escândalo nacional, motivo de matérias na grande imprensa e de protestos acalorados de pais e professores.
Felizmente, na minha infância, vivíamos outros tempos, e Marcos Rey não só pôde publicar seus livros como encantou toda uma geração, que se apaixonou pela leitura viajando em suas histórias policiais. 
Da mesma forma, gerações e gerações se apaixonaram pela leitura com Monteiro Lobato, Aventuras de Xisto e muitas outras obras. Mas isso foi numa época em que os livros eram apresentados às crianças para que elas mesmas tirassem suas conclusões e interpretações. Hoje, o politicamente correto tanto da direita quanto da esquerda quer proteger as crianças de tudo e de todos. O resultado estamos vendo aí: uma geração que não gosta de livros. Mas isso não parece ser motivo de preocupação.

O irlandês

 


O que eu mais li nas redes sociais foi gente dizendo que O irlandês, filme de Martin Scorsese produzido pela Netflix era chato. Trata-se de o filme mais longo do diretor de Taxi Driver. São três horas e meia.
E, surpreendentemente, ou, logicamente para quem conhece Scorsese, o filme é delicioso. O irlandês conta boa parte da história da máfia italiana e da história americana em uma narrativa fluída e acronológica que impressiona pelas atuações memoráveis e pelo uso eficiente do recurso digital que envelhece ou rejuvenece o rosto dos atores.
A história começa com Frank “O Irlandês” Sheeran (De Niro) num asilo, contando sua história. Esse monólogo serve de narrativa em off para o filme. Há quem diga que o off é uma muleta de roteiro, mas se bem usada, pode enriquecer a história. No caso, os comentários do irlandês ajudam a dar o tempero das cenas, além de ajudar a entender vários fatos, muitas vezes adiantando a narrativa. Em determinado trecho, por exemplo, um dos assassinos da máfia é visto entrando no prédio da Justiça Federal e, como ele não falou disso com ninguém, existe a suspeita de que ele foi lá fazer uma delação. Só que ele tinha ido responder a um inquérito e falara com alguém, que, no entanto esquecera de contar para os chefões. Todo esse contexto é narrado por Frank enquanto as cenas mostram o rapaz sendo morto.  
O que mais impressiona é como o filme costura toda a história do período, mostrando envolvimento da máfia com todo o resto: a política (tanto Kennedy quanto Nixon foram eleitos com dinheiro da máfia), o judiciário e os sindicatos. Kennedy, inclusive, foi eleito pela máfia com a promessa de que retomaria Cuba e as propriedades dos mafiosos na ilha – razão pela qual muitos acreditam que o fracasso da invasão da baia dos porcos foi a razão do assassinato do presidente.
Ao se envolver com roubo de uma carga de carne e se recusar a delatar os comparsas, Frank chama atenção dos chefes mafiosos. Afinal, ele é um veterano da II Guerra Mundial, acostumado a matar, e parece ser de confiança. Jack passa a pintar paredes (gíria da máfia para assassinato).
A história contada por Jack é entremeada por uma viagem feita por ele e um mafioso, cruzando os EUA e coletando dinheiro de proteção. Esse é um dos pontos mais interessantes do filme: vemos De Niro jovem, em meia idade e velho e todas as encarnação parecem totalmente verossímeis graças aos efeitos especiais digitais (uma das razões pelas quais o filme custou mais que Homem-aranha longe de casa). Mesmo em cenas de close o efeito não deforma o rosto dos atores ou compromete sua atuação.
De Niro por si só já carregaria o filme sozinho. Mas temos também Al Pacino como o sindicalista Jimmy Hoffa e todo um elenco irretocável.
O tempo do filme realmente é um problema, especialmente considerando-se que você irá assisti-lo em casa, onde há todo tipo de distração (ao contrário do cinema). Eu assisti em dois momentos, como se fosse uma série. Funcionou.

Odisseia em quadrinhos

 


Clássicos da Literatura universal é uma coleção europeia lançada com apoio da Unesco com o objetivo de levar obras fundamentais para um público mais jovem.
O volume Odisséia, escrito por Christophe Lemoine e desenhado pelo paraense Miguel Lalor Imbiriba conta a história da volta de Ulisses para sua terra, depois de 10 anos na Guerra de Tróia.
O desenho do paraense De Lalor se destaca pelas belas mulheres... 


O poema de Omero é um dos textos mais importantes da literatura ocidental e certamente serviu de base para o gênero aventura. O escritor Isaac Asimov adorava a obra e destacava uma de suas características mais interessantes: em oposição a heróis puramente musculosos e valentões, como Hércules, Ulisses é um herói cerebral, alguém que consegue se livrar dos perigos graças à astúcia e inteligência.
... e pela reconstituição histórica. 


Adaptar uma obra tão relevante torna ainda maior e mais arriscada a tarefa dos dois autores responsáveis pela adaptação. E não decepcionam. O desenho de Miguel Lalor se destaca desde as primeiras páginas pelas belas mulheres e pela boa reconstituição de época, assim como a ótima caracterização dos deuses. O roteiro, por outro lado, consegue ser fiel à obra original e, ao mesmo tempo adaptá-la bem à linguagem dos quadrinhos. Há cortes narrativos bem orquestrados, que enxugam a história sem perder sua essência.

Doutor Estranho - uma realidade à parte


No início da década de 1970 o desenhista Frank Brunner estava insatisfeito com o roteirista Gardner Fox, com o qual fazia parceria na série do Dr. Estranho. A série parecia conservadora demais, focada sempre no monstro do mês. Quando o editor-chefe Roy Thomas perguntou-lhe quem ele gostaria que escrevesse o título, a resposta veio rápida: Steve Englehart. Os dois tinham se conhecido em uma festa e logo descobriram que tinham muita coisa em comum: em especial o interesse por HP Lovecraft, Carlos Castañeda, ocultismo e drogas alucinógenas.

Englehart, Brunner, Jim Starlin e outros passavam noites acordados, rodando por Nova York em estado alterado de consciência, bolando histórias. Foi assim que surgiu Thanos, a melhor fase de Warlock e do Capitão Marvel e foi assim que surgiram as histórias clássicas do Dr. Estranhos reunidas no álbum Uma realidade à parte, da série de graphic novels Marvel.
Englehart introduziu filososofia zen-budista no título

Desde a fase de Ditko e Lee o personagem jamais havia alcançado o nível das primeiras histórias. Mas Englehart e Brunner levaram o personagem muito além, em histórias verdadeiramente lisérgicas em que os limites pareciam ser testados a cada número. Zen-budismo, taoísmo e lisergia dominaram as páginas. Englehart começou colocando o personagem em uma situação em que ele é obrigado a matar o seu próprio mestre (num reflexo da famosa frase zen: se encontrar com Buda, mate-o) para só depois perceber que ao invés de morrer ele se integrou ao cosmo. Depois o personagem é obrigado a enfrentar um ser tão poderoso que se considera Deus e volta com ele ao passado e vê a criação do universo. Finalmente, enfrenta um fanático religioso e, para não ser morto, refugia-se em  um mundo que se revela surreal.
As histórias, lisérgicas, incluiam até referências a Alice no País das Maravilhas.

A fase do personagem é resumida na abertura de uma das histórias: “O cosmo: eterna e proibitiva escuridão. Os homens constroem coisas para se abrigar de seus mistérios. Uma dessas coisas é a realidade... a convencional sabedoria das massas. Mas um homem vive uma realidade à parte... uma realidade verdadeira. Ele não se encolhe diante do desconhecido”.
Se o roteiro levava o personagem a mundos verdadeiramente estranhos – totalmente diversos do mundo que a maioria dos super-heróis vivia, o desenho contribuía ainda mais para essa impressão de lisergia, com experimentações visuais e imagens que se alongavam pela página, quebrando a diagramação – nem mesmo Ditko havia sido tão experimental em suas imagens para o título.
A diagramação inovadora ajudava a destacar o aspecto lisérgico do roteiro. 


Essa junção de elementos faz com que Doutor Estranho – uma realidade à parte, seja um dos títulos fundamentais da coleção de graphic novels Marvel. 

Esquadrão classe A - a série símbolo dos anos 80

 


Esquadrão Classe A foi um dos seriados de maior sucesso em meados da década de 1980. No Brasil, passava no SBT e era um programa obrigatório para a garotada.
Em muitos sentidos, o Esquadrão era uma releitura dos Sete Samurais, filme clássico de Akira Kurossawa, no qual um grupo de samurais desempregados ajuda uma vila de agricultores atormentada por bandidos. Esse tema de heróis lidando com seus próprios problemas, mas encontrando tempo para ajudar pessoas necessitadas será a base de todos os episódios do seriado. Em todos eles, o grupo de soldados da fortuna é contratado por alguém com dificuldade com malfeitores.
Além da referência básica aos Sete Samurais, o Esquadrão trazia um contexto histórico. Veteranos da guerra do Vietnã, eles são condenados por um crime que não cometeram, conseguem fugir, mas têm sempre os militares em seus calcanhares.
O texto de abertura resumia bem o clima das histórias:
“Em 1972 uma unidade especial das forças armadas foi condenada no tribunal militar por um crime que não cometeu. Esses soldados logo conseguiram escapar da prisão de segurança máxima, se estabelecendo clandestinamente em Los angeles. Hoje, procurados pelo governo, eles sobrevivem como soldados da fortuna. Se você tem um problema, se ninguém pode ajudá-lo e se você puder achá-los, talvez você possa contratar o ESQUADRÃO CLASSE A”
A estrutura narrativa era quase sempre a mesma: fugindo dos militares, os heróis chegam em um local e se deparam com pessoas sendo oprimidas, seja por patrões cruéis, bandidos ou políticos. Comovidos, resolvem ajudar, mesmo sabendo que essa ajuda poderá fazer com que sejam finalmente pegos, o que quase acontecia, em todos os episódios.

A equipe era liderada pelo Coronel John Hannibal Smith (George Peppard), um líder nato, fanático por charutos. Bom ator, Hannibal costumava protagonizar o início dos únicos episódios em que a estrutura era um pouco diferente: nestes, alguém tentava contatar o grupo de soldados da fortuna, mas se deparava com alguém inconveniente, como um vendedor de cachorros quentes muito chato. Era o coronel. A maquiagem fazia com que mesmo os telespectadores mais assíduos fossem enganados, de modo que uma das diversões do seriado era tentar descobrir quem era Hannibal disfarçado. O nome do personagem é uma referência ao general cartaginês que quase destruiu o exército romano. Assim como o seu homônimo histórico, o líder da equipe é um grande estrategista e seus planos mirabolantes eram uma das atrações da série.  
Para concretizar seus planos, Hannibal conta com uma equipe bastante heterodoxa.

O Capitão H.M. Murdock é um especialista em pilotar qualquer tipo de aeronave, mas gastava a maior parte do tempo fazendo macacadas, conversando com a própria mão ou algo do gênero. Careteiro, Dwight Schultz, que interpretava o personagem, era um espécie de Jim Carrey da época e dava o toque humorístico ao seriado.

O tenente Templeton Cara-de-Pau , interpretado por Dirk Benedict, era o galã da série e o responsável por conseguir tudo necessário para colocar em ação os planos do Coronel. Com seu charme, ele conseguia tudo, mesmo que para isso precisasse trocar seus sapatos novos por uma bota de trabalhador.

Completando o grupo, havia o carismático Sargento Bosco Barracus ou B.A. (abreviação de Bad Attitude ou temperamento ruim), interpreado por Mr.T., um grosso de cabelos moicanos, mas que adorava leite, crianças e morria de medo de voar. Como em muitas missões era necessário embarcar num avião, ou num helicóptero, uma das atrações era tentar adivinhar que estratégia seria usada pelos outros para dopá-lo. Além disso, as brigas de B.A. com o Murdock criavam uma das grandes tensões do seriado, geralmente com resultados humorísticos. O personagem também era um gênio em mecânica e era essencial para colocar em prática os planos. Como a televisão da época não podia mostrar nada mais violento que algumas explosões e pessoas saltando, os roteiristas tinham que inventar geringonças, como uma máquina que atirava repolhos.
Mesmo com uma estrutura rígida e personagens estereotipados, o Esquadrão Classe A conseguia surpreender dar uma grande lição: é necessário ajudar os outros, deixando nossos interesses em segundo plano.

Livro resgata a história dos quadrinhos paranaenses

 


 

A Biblioteca Pública do Paraná (BPP), por meio do selo Biblioteca Paraná, acaba de lançar o livro Narrativas Gráficas Curitibanas: 210 Anos de Charges, Cartuns e Quadrinhos, do quadrinista, curador e pesquisador José Aguiar. Com 360 páginas e centenas de ilustrações, a obra de referência resgata a memória gráfica local e seus reflexos na cultura nacional, por meio de documentos, biografias e depoimentos.

A edição impressa, com tiragem de mil exemplares, será distribuída para bibliotecas públicas de todos os municípios paranaenses, além de universidades, gibitecas e pontos de cultura do Paraná e de outros estados. Uma versão digitalizada também está disponível para download gratuito aqui .



Em tempo: O livro me cita em diversos trechos e ainda traz a minha biografia, destacando meu trabalho na criação do Gralha e do Capitão Gralha e da graphic novel Manticore. 

Fundo do baú - Toro e pancho

 


Toro e pancho (Tijuana Toads, no original) eram uma dupla de sapos mexicanos baseados no Gordo e o Magro.

O desenho foi criado pela DePatie-Freleng Enterprises e exibido de 1969 a 1972, num total de 17 episódios.

Vestidos apenas com grandes chapéus mexicanos, os dois viviam geralmente aventuras nas quais escapavam de serem comidos ou estavam procurando comida.

Um personagem recorrente é um pássaro (provavelmente uma garça) que tenta comer os dois sapos. No primeiro episódio em que ela aparece, os sapos se escondem num galpão e Toro tem a ideia de fazer ela acreditar que ele bebeu nitroglicerina, quando na verdade ele beberia água. Mas Pancho se atrapalha e dá para ele nitroglicerina de verdade (o episódio termina com o sapo explodindo ao dar pulos para comemorar terem escapado da garça).

A personalidade dos dois era bem demarcada: Toro era líder da dupla, enquanto Pancho era atrapalhado e ingênuo. Mesmo nos momentos em que Pancho tinha um plano para se livrar das enrascadas em que os dois se metiam, Toro se apropriava dele com a frase “Ainda bem que tive essa ideia”.

Um episódio que fugia do padrão “sapos fugindo de predadores – sapos procurando comida” é aquele em que Toro arranja uma namorada. Mas ela quer que Toro emagreça. Ele tenta de tudo, acaba desistindo e pede ajuda ao desenhista, numa verdadeira quebra da quarta parede. 

Ministério do espaço

 



A série Ministério do espaço surgiu no verão de 1999, quando o escritor Warren Ellis resolveu desencaixotar velhos livros para guardá-los no sótão da nova casa. Entre eles, achou um álbum em capa dura que havia ganhado de presente de natal do pai quando era criança: “Dan Dare – O homem de lugar nenhum”. Dan dare é um personagem clássico de ficção científica inglesa, um dos personagens mais populares dos quadrinhos britânicos da década de 1950.

Lendo aqueles quadrinhos, Warren se perguntou: Por que a Inglaterra, o império no qual o sol nunca se punha, não havia tomado a dianteira da corrida espacial? O seria necessário acontecer para que a Inglaterra se tornasse a grande potência espacial?

A junção entre o moderno e o vintage é o grande charme da história. 


Foi a partir dessa indagação que surgiu Ministério do Espaço. A história começa no ano de 2001, quando John Dashwood descobre que os americanos vão lançar um foguete para a Lua, desafiando a supremacia dos ingleses no espaço.

Essa pequena sequência nos mostra um mundo muito diferente do que conhecemos em 2001.  Vemos um avião que parece ser capaz de planar no espaço e pousar na vertical, pessoas que voam com foguetes nas costas, garotos que voam com hélices como helicópteros. A Inglaterra do quadrinho parece toda voltada para o céu.

A história parte de uma pergunta: O que aconteceria se a Inglaterra fosse pioneira das viagens espaciais? 


A trama então volta a 1945 e mostra como os ingleses conseguiram se apropriar dos cientistas nazistas e destruir todo o registro dos foguetes alemães.


A história segue assim, de maneira totalmente não-linear, alternando entre vários momentos da história da inglaterrra espacial. Não é apenas uma opção estética. O recurso é usado principalmente como elemento de suspense, deixando o leitor curioso para saber como a Inglaterra chegou a tal posto e, principalmente, de onde foi tirado o dinheiro para tal aventura espacial.

O detalhismo da arte de Weston impressiona. 


O roteiro de Warren Ellis é engenhoso, mas quem rouba a cena é o desenhista Chris Weston. Ele se sai bem desenhando pessoas, mas é quando mostra equipamentos, naves espaciais que realmente brilha. Suas naves são uma mistura de alta tecnologia com vintage, numa antecipação realmente interessante do que seria um mundo espacial britânico.

Essa minissérie em três partes foi publicada originalmente pela Image Comics e aqui reunida em álbum com capa dura da Devir. Para quem gosta de uma boa ficção científica, é uma ótima pedida, que passou praticamente despercebida pelos fãs de quadrinhos.