domingo, fevereiro 01, 2026

Fundo do baú - Se meu bug falasse

 


Se meu bug  falasse é uma das várias séries criadas por Sid e Marty Krofft para a emissora ABC.

A série era uma cópia descarada do filme de sucesso da Disney, Se meu fusca falasse, havendo apenas a troca do modelo de carro. Na história, três colegas,  CC (John Anthony Bailey), Susan (Carol Anne Seflinger) e Barry (David Levy), cansados de andar a pé, resolvem juntar dinheiro para comprar um carro, mas arrecadam tão pouco que só conseguem algo no ferro velho, onde encontram um velho bug, apelidado por eles como Shlep. Vasculhando o ferro-velho, Susan encontra uma buzinha pertencente a um velho calhambeque é que mágica e transforma o ferro velho ambulante Shlep no super-bug Woderbug, algo que geralmente é feito depois dos jovens terem se metido em alguma enrascada.

Os roteiros pareciam ter sido escritos por um chimpanzé com câimbras e só ficavam atrás dos efeitos especiais, marcados principalmente pelo uso do croma key e pelas imagens aceleradas. A caracterização do carro era feita por faróis com sobrancelha e a placa que vibrava e dava risadinhas. O Chapolin colorado parece uma super-produção perto dessa série.

Um bom exemplo é o episódio O albatroz maltês, uma sátira do clássico noir O falcão maltês.

Na história, o trio recebe, pelo correio, um presente de uma tia, mas quando Susan vai pegá-lo, um homem acaba esbarrando nela e eles trocam os pacotes. Tratava-se de um espião e encomenda recebida por ele havia um albatroz de porcelana dentro do havia sido escondido um microfilme.

Para começar, espiões precisariam ser incrivelmente ineptos para enviar algo tão importante pelo correio – e, pior, ainda trocar pacotes.

Os espiões seguem os rapazes para conseguir de volta o microfilme enquanto que os protagonistas ligam para a... Casa Branca!

Os espiões conseguem roubar o microfilme, que foi guardado exatamente na buzina, o que faz com que os heróis não consigam transformar o bug no Woderbug. Ainda há um momento numa pista de pouso, no qual os protagonistas se disfarçam até conseguirem a buzina de volta, providenciando a transformação. A sequência inclui uma cena de croma no qual o carro voa acima do avião e o casal de espiões se entregando com uma facilidade assustadora, já que não havia nenhum perigo evidente.

Talvez se fosse escrachadamente cômica e anárquica, o humor da série ainda funcionaria, mas a impressão que dá é de que eles queriam de fato fazer uma série de espionagem e aventura convencional com toques de humor. A atração teve uma temporada de 22 episódios de 25 minutos.

O auto da barca do inferno

 


Gil Vicente foi o iniciador do teatro português. Altamente influenciado pelo autor castelhano Juan Del Encima, ele aos poucos desenvolveu um estilo próprio, com temas e abordagens únicas. Sua carreira começou de forma inusitada. Quando nasceu o filho de D. Manuel e D. Maria de Castela, reis de Portugal, ele entrou de surpresa no quarto do casal e recitou um monólogo no qual um homem simples do campo louvava o nascimento da criança. A corte adorou e ele foi convidado a repetir a apresentação no Natal. Ao invés disso, ele escreveu outra peça, Auto pastoril castelhano. O sucesso o levou a escrever diversas outras peças. Entre as mais famosas está o Auto da barca do inferno.

Auto era como eram chamadas as peças medievais. Inicialmente essas peças eram milagres e mistérios, peças religiosas, com histórias da Bíblia, a vida de cristo ou dos santos. Depois surgiram as moralidades, peças com simbolismo moral, nos quais os pecadores sofriam as mais terríveis punições. Logo surgiram as farsas, peças satíricas, cujo objetivo era apenas a diversão.

O auto da barca do inferno é uma mistura de farsa com moralidade. Nela, as almas das pessoas mortas chegam num porto e devem embarcar em duas naus: a do inferno, comandada por um demônio, e o paraíso, sob ordens de um anjo. Todos que ali chegam consideram que têm direito ao paraíso, mas logo se revelam seus pecados.

Os personagens eram tipos sociais, e representavam os grupos que Gil Vicente censurava. Há o fidalgo arrogante, que acha que tem direito ao paraíso por ser nobre; há o onceiro (agiota que emprestava dinheiro a preços extorcivos); o sapateiro, que representa os comerciantes que roubam seus clientes; o frade que vem com uma amante; a alcoviteira que conseguia mulheres para autoridades; o corregedor e o procurador, representando a corrupção da justiça e o enforcado, um ladrão que acha que vai para o paraíso. E havia o judeu, que até o diabo se nega a levar na barca, reflexo direto do preconceito anti-semita da época.  

De todos os personagens, só quem se salva é o Parvo, um camponês idiota e explorado, que fala palavrões, mas não tem malícia.

Um dos momentos mais interessantes é a entrada do corregedor e do procurador. Os dois se acham dignos do paraíso apenas por serem autoridades e sua arrogância transparece principalmente nas frases em latim. Sua forma de falar é satirizada pelo parvo:

“Hou, homens de breviários,

Rapinastis coelhorum

Et pernis perdigotorum

E mijais nos campanairos“

O auto da barca do inferno foi publicado na íntegra, em uma bela edição da editora Principis, ao preço módico de 10 reais. A edição traz ainda as peças Farsa de Inês Pereira, auto da alma, auto da feira, auto de mofina Mendes e O velho da Horta. De negativo a total falta de textos introdutórios ou mesmo notas explicando a linguagem de Gil Vicente, que misturava português com castelhano.

Jogar o mau

 


Um grupo de amigos de Belém estava jogando sinuca quando apareceu um metaleiro. A cada boa jogada de alguém o cabeludo sacudia a cabeça e comentava: “Mau, cara, muito mau!”.
Todos acharam aquilo tão engraçado que, quando ele foi embora, começaram a imitá-lo. Toda jogada era “mau”, colocar o outro em sinuca era colocar em mau. Logo começaram a chamar o próprio jogo de mau.
A novidade fez tanto sucesso, que sinuca passou a ser “jogar o mau” entre nós.
A coisa viralizou e outras pessoas, nossos conhecidos, começaram a usar a expressão.
Mais de dez anos depois, já em Macapá, estava em um clube e um rapaz me indicou a mesa de sinuca e perguntou: “Vamos jogar o mau?”.
Para meu espanto, a expressão, que tinha surgido em um grupo de amigos tinha se popularizado a ponto de atravessar de uma cidade para a outra.

Transformers e o uniforme preto do Aranha

 

O número 3 da revista do Transformers lançado pela editora RGE se tornou célebre por uma razão que tem pouco a ver com a qualidade da história: essa foi a primeira vez que apareceu o uniforme preto do Homem-aranha em terras tupiniquins. 

Não sei se foi apenas uma coincidência, ou realmente a RGE quis furar a Abril, mas a revista em questão foi publicada em janeiro de 1986, e Guerras Secretas, a série na qual o Aranha ganha seu novo uniforme, só começaria a ser publicado em agosto daquele ano. Talvez tenha sido um simples acaso, já que em nenhum momento da edição há qualquer destaque para essa mudança de uniforme. Provavelmente quem cuidava da edição nem mesmo sabia que essa era a primeira aparição do novo uniforme no Brasil. 

A primeira aparição do novo uniforme no Brasil não ganhou nenhum destaque ou explicação. 


Seja um caso ou outro, a revista chamou atenção nas bancas. Eu mesmo, que nunca tinha comprado um título dos robôs, aventurei-me a adquirir esse exemplar, que se perdeu em uma das muitas mudanças.

 Recentemente eu consegui um fac símile e pude finalmente ler o gibi.

 A história começa com o mecânico Bob Centelha sendo levado pelos malignus para o quartel general do grupo. Eles querem que ele crie uma fórmula capaz de transformar petróleo no combustível que eles usam. Claro que os robôs Optimus irão tentar salvá-lo e contarão com a ajuda do Homem-aranha, que aparece por ali como Peter Parker.

A teia é forte o suficiente para aguentar um transformer?

Os desenhos são de Frank Springer, que é competente, nada além disso. O verdadeiro problema está no roteiro de Jim Salicrup. Não há preocupação de caracterizar os personagens ou mesmo criar um clima para a história. E as situações na maioria das vezes são forçadas. 

Pelo jeito é muito fácil enganar os militares norte-americanos. 


À certa altura, por exemplo, os heróis precisam passar pelos militares, que sitiaram a fortaleza dos Malignus. O que o aranha faz? Pega o capacete de um dos soldados, entra em um dos carros dos optimus e diz: “Sargento! O tenente me deu ordens para voltar à frente de batalha!”, ao que o outro retruca: “Certo, prossiga”. Aparentemente o roteirista achou que o fato do personagem estar com uniforme de super-herói não iria interferir em nada – bastava colocar um capacete para conseguir enganar os militres. Para piorar, nenhum dos carros que passa pelo bloqueio tem qualquer característica de carro militar! Como sempre pode ficar pior, a história termina bruscamente, sem um final de fato.

Relendo, percebo que a única razão para esse gibi ter chamado atenção foi mesmo a capa com o novo uniforme do Aranha.