quarta-feira, novembro 07, 2018

O processo de produção da Turma da Tribo

Turma da Tribo é um projeto meu, selecionado no edital de Literatura Simãozinho Sonhador, com desenhos de Ricardo Manhães.
Desde que começamos a divulgar imagens do gibi, algumas pessoas têm me perguntado como te sido o processo de produção. O objetivo deste artigo é justamente responder a essa pergunta.
Tudo começa, claro, com a elaboração de personagens e ambientação. Tenho inveja de quem diz que cria rapidamente. Para mim esse processo costuma ser demorado e trabalhoso, assim como a elaboração da sinopse. É normal que eu escreva e reescreva nessa fase. No primeiro tratamento da Turma da Tribo, por exemplo, a história se passava no Brasil colonial. Desisti dessa abordagem porque ela não me permitiria tratar de temas contemporâneos, como os madereiros, tema do primeiro gibi. Da mesma forma, alguns personagens passaram por mudanças e até mesmo mudaram de nome. Como uma das referência era Asterix, eu procurei nomes tivessem uma pitada de trocadilho, como Toró, personagem musculoso cujo remete a chuva forte.
Eu aumento ou diminuo o nível de detalhes do meu roteiro de acordo com o desenhista. Com iniciantes costumo ser mais detalhista. Como eu sabia que o desenho seria do Ricardo Manhães, um veterano do quadrinho europeu, fiz um roteiro bem minimalista, até porque durante todo o processo de produção trocamos vários e-mails e fizemos várias mudanças, tanto nos desenhos quanto no texto. Reparem, por exemplo, que na primeira página mudamos a legenda do último quadro para evitar a palavra "inventor", já que "inventar" já havia aparecido antes no mesmo quadro.
Feito o roteiro, o Ricardo faz, à mão, o lápis, depois a arte-final (tinta preta) e finalmente a cor no computador.
Confira abaixo o roteiro e as páginas.


Página 1

Quadro 01 – Plano geral da tribo, lembrando aquelas imagens de abertura dos álbuns de Asterix. Título e créditos neste quadro.
Texto: Esta é a aldeia dos cunani. É uma aldeia muito diferente, com personagens muito interessantes.
Texto: Vamos dar uma olhadinha neles.

Quadro 03 – Abaeté, todo orgulhoso, estufando o peito. Ao lado dele, entrando no quadro, vemos Baquara.
Texto: Este é Abaeté, o chefe da tribo. Um homem honrado, de palavra.
Abaeté: Pode escrever. Sou um homem de palavra! Minhas palavras.

Quadro 04 – Baquara entrou no quadro e agora divide atenção com o chefe. Ele começa a escrever palavras num papel.
Baquara: Tive uma ótima idéia! Vou inventar a escrita invisível!
Texto: Este é Baquara, o inventor da tribo, e filho do chefe.


Surfista Prateado - o herói filósofo


Uma das inovações da Marvel era o fato de que vilões poderiam se regenerar e se transformar em heróis, o que de fato, combinava com a proposta de realismo das histórias. A espiã Viúva Negra e o Gavião Arqueiro são exemplos disso, mas o vilão-herói mais famoso da editora seria o Surfista Prateado, um personagem tão bom que virou cult, ganhando a simpatia dos setores mais intelectualizados da população. Afinal, o surfista era um herói filósofo.
            O surfista surgiu na revista Fantastic Four 48, em 1966, no arco conhecido como Trilogia de Galactus. Stan Lee escreveu uma sinopse sobre um ser super-poderoso que vinha à Terra para sugar a energia do planeta e deu para Jack Kirby desenhar. Quando Jack trouxe as páginas para que Lee colocasse os textos e diálogos, havia uma novidade ali, um personagem que não aparecia na sinopse original. Ele justificou dizendo que um ser tão poderoso quanto Galactus deveria ter um arauto, que procurasse mundos a serem devorados. Stan Lee adorou a idéia e o visual do personagem, que parecia ter uma postura nobre: ¨Quando chegou a hora de estabelecer o seu padrão de discurso, comecei a imaginar de que forma um apóstolo das estrelas se expressaria. Parecia haver uma aura biblicamente pura no nosso Surfista Prateado, algo altruísta e magnificamente inocente¨.
            Ao final da trilogia, a editora começou a receber cartas de fãs pedindo uma revista daquele novo personagem, mas Stan Lee e Jack Kirby estavam muito ocupados para pegar mais essa empreitada. Quando Roy Thomas entrou na Marvel como assistente editorial, Lee se viu com tempo para se dedicar ao novo projeto.  A revista estreou em 1968 e foi, aos poucos, contando a história do amargurado herói.
            Assim, o Surfista é Norrin Radd, um jovem cientista do planeta Zenn-La que aceita tornar-se arauto de Galactus afim de que ele poupasse sua terra natal. Ao se voltar contra seu mestre quando ele tentava devorar a Terra, Galactus condena-o a ficar eternamente preso ao nosso planeta. Isso para ele é uma tortura dupla, pois ele não pode voltar ao seu planeta natal, nem rever sua amada Shalla bal. Além disso, vindo de um local mais avançado eticamente e tendo uma alma extremamente nobre, ele sofre ao ser obrigado a conviver com os ambiciosos humanos, que o caçam por ser diferente.
            As aventuras do Surfista permitiram a Stan Lee exercitar o lado humano de seus roteiros ao trabalhar com um personagem angustiado. Para desenhar as histórias ele chamou John Buscema, que era muito influenciado por Jack Kirby, mas tinha uma melhor capacidade para mostrar dramas humanos.
            Os monólogos angustiados do protagonista, geralmente no início das histórias tornaram-se a marca da série. Como esse, publicado no número 6 da revista: ¨Até quando devo continuar aprisionado no selvagem planeta Terra? Não! Este não pode ser meu destino eterno! Não foi para isso que renunciei ao meu mundo, minha vida e meu amor! Por certo, em todo o universo não pode haver ironia mais cruel do destino! Eu, que detenho um poder além da compreensão de qualquer ser humano... estou fadado a viver confinado e sem esperanças... tal qual o mais frágil dos animais! Aqui eu sou odiado... e temido... pelos mesmos seres que meu coração só deseja ajudar! Meu coração! Eu disse... coração? Como poderia ser... se não tenho mais coração? Afinal, eu o abandonei no planeta Zenn-la... a inúmeras galáxias de distância... com aquela a quem amarei para sempre! Zenn-la... onde meu mundo começa e termina... ondeu eu deixei minha amada Shalla Bal!¨. 
            A revista era avançada demais para uma época em que predominavam heróis violentos e fez pouco sucesso, durando poucos números, mas ganhou fãs fervorosos.
            Nos anos 1980 o herói virou cult ao ser citado pelo personagem Richard Gere no filme A Força do amor, refilmagem de Acossado, de Godard. Desde então, críticos e fãs redescobriram o personagem, que acabou sendo a grande estrela do segundo filme do Quarteto Fantástico.   

terça-feira, novembro 06, 2018

O que são paradigmas?


Uma das expressões mais recorrentes no vocabulário de quem tenta falar difícil é paradigma. No entanto, são poucas as pessoas que conhecem o real significado dessa palavra.
O termo paradigma, no sentido definido pelo filósofo T.S. Kuhn, está intimamente relacionado à ciência e às revoluções científicas. Ele representa um guia, para análise e interpretação da natureza. Ou, como costumo dizer, é um óculo que ajuda o cientista a ver e compreender a natureza.
Vamos a um exemplo. Durante uma aula de ciências, o professor solta uma pedra e ela cai ao chão. O mestre, em seguida, explica aos alunos que o objeto despencou em decorrência da força da gravidade, que o puxou para baixo.
A explicação é baseada no paradigma newtoniano, segundo o qual matéria atrai matéria. Quanto maior o objeto, mais atração ele exerce. Como nosso planeta é muito maior que a pedra, ele a atrai, e não o contrário.
Assim, o paradigma estabelecido por Newton nos ajuda a observar e entender o fenômeno das coisas que caem.
A explicação pode parecer óbvia, mas não é. Os aristotélicos, anteriores a Newton, tinham uma maneira diferente de compreender o fenômeno. Para eles, a tendência das coisas é voltar ao seu estado natural. O estado natural dos objetos pesados é os locais baixos, assim como o estado natural das coisas leves são os locais altos. Assim, uma pedra cai pelo mesmo motivo pelo qual um balão sobe: ela está voltando ao seu estado natural.
Digamos, no entanto, que, ao invés de cair, a pedra fique flutuando no ar. Professores e alunos certamente ficariam estarrecidos. Por quê? Porque a natureza estaria contrariando o paradigma. A pedra voadora seria uma anomalia, um fenômeno que não se encaixa na expectativa que temos com relação à natureza.
(Detalhe: um bebê não acharia nada de anormal no episódio, pois ele ainda não aprendeu o paradigma segundo o qual as coisas caem quando soltas)
A maioria dos cientistas tende a ignorar as anomalias. “Ei, crianças! Isso é apenas uma alucinação. Essa pedra não está flutuando”, diria o professor.
Mas alguns pesquisadores, jovens e aventureiros, decidem pesquisar a anomalia e descobrem que, para explicá-la, é necessário mudar a maneira como vemos o mundo. São as chamadas revoluções científicas.
A história é repleta de revoluções científicas: o Heliocentrismo de Galileu; a Teoria da Evolução, de Darwin; a Teoria da Relatividade, de Einstein e, mais recentemente, a Teoria do Caos.
Ao contrário do que se poderia pensar, ou do que nos fazem crer os livros de história, os cientistas revolucionários dificilmente são aclamados pela sociedade de seu tempo. Galileu quase morreu na fogueira. Darwin sofreu todo tipo de crítica. A Teoria do Caos chegou a ser acusada de charlatanismo.
A principal contribuição da noção das revoluções científicas parece ter sido acabar com o mito da ciência acumulativa, vista como um muro no qual cada cientista ia acrescentando seu tijolinho. Durante as revoluções científicas, gerações de novos pesquisadores entram em conflito com os cientistas “normais”. E o que definirá se um paradigma irá sobreviver não é a sua cientificidade, e sim sua capacidade de explicar o mundo. E, bem, há uma outra razão: a comunicação. Triunfam aquelas teorias cujos adeptos divulgam seu ponto de vista.

segunda-feira, novembro 05, 2018

Se você discorda de algo, não compartilhe

O ano era 2008 e o Twitter era a rede social do momento no Brasil. Alguém compartilhou o link de um blog sobre pedofilia, pedindo para as pessoas denunciarem e compartilharem. Milhares de pessoas compartilharam, a ponto do assunto entrar nos TT. 
Pouco depois a polícia veio a público explicar o quanto esse comportamento era burro: o pedido de compartilhamento provavelmente havia sido feito por alguém do próprio blog. Em decorrência dele, milhares de pessoas entraram no link. Esse número altíssimo tornava impossível descobrir quem era pedófilo e tinha entrado por curiosidade ou para verificar antes de compartilhar a denúncia.
Com isso, os pedófilos conseguiram um canal amplo de divulgação da pedofilia (e provavelmente de contato entre eles). E, segundo a polícia, bastava uma pessoa ter denunciado e o inquérito seria instalado do mesmo jeito.
Aí vem o pulo do gato, a grande regra das redes sociais: se você discorda de algo, não divulgue, não amplie o alcance.
Se você acha um Youtuber patético, não compartilhe o vídeo dele, mesmo que tenha um comentário do tipo: "Olhem como ele só fala besteira". A cada pessoa que compartilha porque não gosta dele, aumenta o alcance do canal e ele ganha seguidores.
Se você não gosta de quiabo, não fique fazendo postagens sobre quiabo. Isso só faz com que mais e mais pessoas queiram experimentar quiabo.

O Homem de ferro


Em 1963, a Marvel vivia o auge da criatividade. Personagens como Homem-aranha, Thor, Hulk e Quarteto Fantástico revolucionavam os quadrinhos de super-heróis. Foi nesse ano que surgiu um dos personagens mais políticos da editora: o Homem de ferro.
            Stan Lee queria fazer um personagem que fosse bilionário e inteligente, um ricaço (talvez em oposição ao pé-rapado Homem-aranha). Mas, como sempre acontecia com os personagens da Marvel, este precisava ter um ponto fraco, um pé de barro. O Demolidor, por exemplo, era cego. Que problema tornaria esse novo personagem frágil? ¨E se o nosso herói tivesse uma falha no coração? E se esse problema o obrigasse a usar um dispositivo metálico para se manter vivo? Ora, esse dispositivo poderia ser o elemento básico numa armadura capaz de lhe dar poderes, e, ao mesmo tempo, esconder sua identidade¨, pensou Stan Lee.
            O personagem surgiu em plena guerra do Vietnã e foi usado como propaganda patriótica.
            Assim, o herói é Tony Stark, um homem que fabrica armas para o exército norte-americano. Em um de suas visitas ao campo de batalha, ele é atingido por estilhaços de granadas e feito prisioneiro pelos vietcongs. O famigerado general comunista Wong Chu o obriga a construir uma arma para derrotar os exércitos da democracia, mas Stark usa o tempo para construir para si uma armadura capaz de mantê-lo vivo e derrotar as tropas comunistas.
            Essa história foi publicada na revista Tales of Suspense 39, com grande sucesso (o que fez com que o personagem ganhasse um desenho animado). Posteriormente o herói metálico iria dividir a revista com o Capitão América, reformulado por Stan Lee e Jack Kirby.
            Embora o uniforme do personagem tenha mudado muito desde aquela primeira aventura, alguns elementos se mantiveram inalterados: o problema de coração e o poder que se esvai quando a energia acaba, obrigando o herói a parar para recarregar... só o fator político que foi esquecido quando a guerra do Vietnã se tornou impopular entre os norte-americanos. Anos depois, escrevendo sobre o herói, Stan Lee fez um mea culpa: ¨Este conto foi escrito em 1963 e, nessa época, nós acreditávamos que o conflito naquela terra sofrida era uma simples questão de confronto entre o bem e o mal. De lá para cá, todos nós crescemos um pouco e, até hoje, estamos tentando nos livrar do trágico envolvimento com a Indochina¨.  

domingo, novembro 04, 2018

Livro infantil Os gatos

Os gatos foi meu primeiro livro publicado, no ano de 1998, pela editora Módulo com ilustrações de Antonio EderLuciano Lagares e José Aguiar.. É a história de uma menina cujo gato desaparece e vai procurá-lo e, claro, se envolve em muitas aventuras. As situações nas quais ela se envolve foram pensadas a partir de quadros famosos da história da arte. Entre os artistas homenageados estavam: Klint, Norman Rockwell, Matisse, Leonardo da Vinci, Lautrec, Van Gogh, Escher, Munch, Renoir. A capa mostrava a menina e seu gato dentro de um quadro de Miró. 



O uivo da górgona

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O uivo da Górgona no Wattpad

Gosta de terror? Gosta de ler no Wattpad? Que tal conhecer minha história O uivo da górgona? Clique aqui para ler.

sábado, novembro 03, 2018

Livro conta a história de editora brasileira especializada em quadrinhos


No final da década de 1970, Curitiba se tornou a sede da principal editora de quadrinhos nacionais. A produção era tão grande que se formou até mesmo uma vila de quadrinistas. No livro Grafipar, a editora que saiu do eixo, eu conto em detalhes essa história. O livro inclui também algumas HQs publicadas na época e análise das mesmas.
Pedidos: profivancarlo@gmail.com.

Bohemian Raphsody

Confesso que acompanhei pouco a carreira do Queen (exceto, claro, a música tema de Flash, provavelmente a melhor coisa do filme). Assim, para mim o filme de Bryan Singer foi uma agradável surpresa. Diretor, roteiro, tudo afinado. Mais do que uma biografia, é um musical. O filme se debruça menos em contar a história do grupo e mais nas razões de seu sucesso. A voz incrível e a interação com a platéia (transformando-a em parte do show), a banca competentíssima. Músicas inteiras são tocadas, em especial, e isso não parece enrolação. Há tempos não via um musical tão bem conduzido. E a caracterização de Rami Malek como Fred Mercury é simplesmente impressionante. É como se tivessem clonado o cantor. 
O final, com a apresentação no Live Aid é apoteótico. 
No entanto, é curioso observar como tanta coisa mudou de lá para cá. Em 1985 uma das maiores figuras da música era um refugiado paquistanês gay, tendo o seu maior momento em um evento em prol das pessoas que passavam fome na África. Hoje, a intolerância é cada vez maior, refugiados são tratados como escória e se fala em guerra contra países em que pessoas passam fome.

Queen - Flash (Official Video)

A arte fantástica de Frank Frazetta



Frank Frazetta começou sua carreira no início da década de 1950, fazendo histórias em quadrinhos para a editora EC Comics, onde se destacou por seu traço perfeito para histórias de fantasia e ficção científica. Logo se destacou como ilustrador de capas de livros e cartazes de filmes. Suas capas para Conan foram as principais responsáveis por tornar o personagem famoso antes da versão em quadrinhos. Ele ilustrou também célebres capas de livros de John Carter de Marte e Tarzan. Seu estilo foi fundamental para o sucesso do gênero espada e fantasia, influenciando quase todos os artistas do gênero que vieram depois. 























sexta-feira, novembro 02, 2018

Mort Cinder, o homem das mil mortes



Hector Oesterheld é certamente um dos maiores escritores de quadrinhos de todos os tempos, rivalizando apenas como Alan Moore. Alberto Breccia é um dos mais revolucionários desenhistas de todos os tempos, tendo criado um estilo que influenciou diversos outros artistas, entre eles Frank Miller. A união desses dois grandes talentos só poderia resultar em uma obra-prima. E essa é a melhor expressão para descrever o álbum Mort Cinder, publicado recentemente pela editora Figura após uma campanha no Catarse.
Mort Cinder poderia ser descrito como a história de um homem imortal, mas essa é apenas uma simplificação grosseira. Mort Cinder é uma história de realismo fantástico, um suspense inigualável, uma obra com forte conteúdo político e histórico.
Quando a série começou a ser publicada na revista Misterix, Breccia pediu a Oesterheld que atrasasse  o surgimento do protagonista porque ainda não havia se decidido quanto à sua caracterização. Mestre absoluto da narrativa, Oesterheld transformou essa limitação em um dos maiores méritos da história. Assim, acompanhamos um antiquário, Ezra Winston, e diversos fatos estranhos que ocorrem com ele, fatos que irão se acumulando até o encontro com Mort Cinder, renascido após ser enforcado. Mas para presenciar esse renascimento – e ajudar o herói – Ezra precisará enfrentar os misteriosos olhos de chumbo. Isso introduz um senso de mistério único na história e faz desse senso de mistério o motor da narrativa. Também introduz uma espécie de realismo fantástico, que lembra muito Jorge Luís Borges.
Soma-se isso ao texto poderoso de Oesterheld: “A estrada se faz trilha. Os retalhos de neblina se alongaram à minha passagem. Rãs coaxaram e era como avançar por um oceano morto, já decomposto. A sombra ao meu lado se mexeu”. Quantos roteiristas de quadrinhos chegaram a esse nível de refinamento do texto? Quantos conseguiram criar uma atmosfera tão opressiva apenas com algumas palavras?
Por outro lado, a arte de Breccia é tão impactante, tão inovadora em que cada quadro merece ser visto várias e várias vezes. Breccia não tem limites: usa borrões, cortes de gilette, parece não existir nada que ele não experimente para ajudar a criar o clima da HQ.
Então imagine uma HQ em que cada quadro é uma obra de arte a ser vista e deleitada. E no qual cada balão tem a força e o valor de uma poesia inteira. Esse é Mort Cinder.
O álbum tem 232 páginas, em formato em capa dura, formato A4. É uma publicação de luxo, cujo formato permite apreciar melhor a arte de Breccia. Há um inconveniente: como a publicação original da série, a revista Misterix, variou do formato horizontal para o vertical, a leitura de algumas páginas fica prejudicada, obrigando o leitor a virar o volume. Mas é compreensível: isso foi feito para evitar adulterar a arte original.

quinta-feira, novembro 01, 2018

Superman – entre a foice e o martelo

Um dos princípios básicos da teoria do caos é a dependência sensível das condições iniciais – a percepção de que pequenas mudanças no início do processo pode provocar grandes mudanças a longo prazo. O roteirista Mark Millar parece usar esse princípio na sua aclamada série Superman – entre a foice e o martelo.
Na história, o bebê kriptoniano cai em uma fazenda russa, sendo criado em plena União Soviética stalinista. Essa pequena mudança geográfica (à certa altura um personagem se pergunta: já imaginaram se ele tivesse caído 12 hora antes?) provoca uma mudança global absoluta. Com uma figura indestrutível, capaz de se mover à velocidade do pensamento e super-poderosa, a URSS ganha a guerra fria. Quando, após a morte de Stalin, o Super-homem é alçado ao poder, o império soviético se estende pelo mundo.
Millar reimagina o universo DC: Lex Luthor, o arqui-inimigo do Homem de aço, torna-se a maior arma norte-americana contra o avanço do estado comunista. A Mulher Maravilha alia-se ao Super-homem e Batman, após ver seus pais sendo mortos por homens da KGB, torna-se um terrorista anti-sistema.
O roteirista consegue equilibrar esses elementos de forma segura e verossimilhante. Em nenhum momento a história parece forçada – tudo parece ser consequência óbvia do que veio antes – até mesmo o final duplamente surpreendente. Trata-se de uma verdadeira epopeia quadrinística que em nenhum momento resvala para o preto e branco. Ao contrário, explora muito bens os tons de cinza de personagens que acham, cada um a seu modo, que estão fazendo o melhor para o mundo.

Uma única palavra para descrever Superman – entre a foice e o martelo: obrigatório. 

Hoje tem Rádio Pop!


Como fazer bolo de cenoura


  • 1/2 xícara (chá) de óleo
  • 3 cenouras médias raladas
  • 4 ovos
  • 2 xícaras (chá) de açúcar
  • 2 e 1/2 xícaras (chá) de farinha de trigo
  • 1 colher (sopa) de fermento em pó

Agora que os os outros já foram, o tema real deste post: 

Eu mesmo já cansei de tirar dinheiro do bolso para realizar atividades com meus alunos: desde data-show próprio até xerox e livros de reportagens que compro e levo para emprestar para meus alunos de redação.

A literatura de fantasia


Embora tenha antecedentes famosos, entre eles os mitos de Gilgamesh e a Odisseia, a literatura de fantasia moderna surge, não por acaso, com o romantismo. 
O romantismo aparece no contexto ocidental como uma reação à estética neo-clássica e ao racionalismo iluminista. O iluminismo prometia tirar o homem das trevas e do misticismo da Idade Média para colocá-lo numa era de razão e progresso. Os românticos viam isso como uma falácia. A razão não era o caminho para a humanidade, mas o sentimento. 

Não por acaso, um dos romances mais importantes do período, e pedra fundamental do que viria a ser a ficção-científica era uma crítica à ciência: Frankstein ou moderno prometeu mostrava os perigos da razão sem ética.
A ficção científica só viria a se tornar um gênero próprio, separado da fantasia, décadas mais tarde, quando Júlio Verne, influenciado pelo samsionismo, imaginou um mundo que maravilhas podiam ser conseguidas através da ciência, seja chegar à Lua, seja viajar ao fundo mar.
O neo-clássico volta-se para a Grécia antiga, berço da razão. A fantasia, em oposição, volta-se para a Idade Média, época de misticismo e mistério. 
A Idade Média tinha forte tradição de romances de cavalaria (uma mistura de mitologia cristã e pagã) repletos de misticismo, heróis, feitceiros, espectros, animais místicos, objetos mágicos e seres elementais, ligados à natureza e vindos diretamente das tradições dos povos bárbaros.
Ítalo Calvino no livro Contos Fantásticos do Século XIX  relaciona o conto fantástico com a especulação filosófica do período:
“Seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção, e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê – coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem, sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora – é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidade inconciliáveis”.
Segundo Calvino, a literatura fantástica nasceu com o romantismo alemão, mas se espraiou por toda a produção do período. Difícil encontrar autor romântico que não tenha colocado o maravilhoso, o inexplicável em suas obras, em especial Edgar Alan Poe, o pai da literatura de gênero. No Brasil um autor que se aventurou pelo fantástico foi Álvares de Azevedo. Seu livro de contos Noite na Taverna é um dos melhores exemplos disso. 

Essa fuga para o passado irá se transformar na alta fantasia, quase sempre ambientada na Idade Média, real o ou imaginária, ou na Espada e magia, ambientada em um passado ainda mais distante, como em Conan, ou em mundos muito diversos do nosso, em que o fantástico torna-se normal, como em Elric.
A ópera O anel de Nibelungo, de Richard Wagner, obra-prima do romantismo, representa essa tendência, e irá influenciar um dos maiores nomes do gênero, Tolkien, até mesmo no tema do anel de poder.
Tzevetan Todorov, no livro Introdução à literatura fantástica explica que a fantasia ocorre num mundo em que não é exatamente o nosso, um mundo povoado por diabos, sílfides, vampiros, no qual produz-se acontecimentos que não podem ser explicados pelas leis de nosso mundo. Diante dele, leitor e herói se vêm diante de duas possibilidades: ou o que ocorreu é fruto da imaginação, ou sonho (como Narizinho, que acorda no final do primeiro livro infantil de Monteiro Lobato ou em Alice no país da Maravilhas) ou o acontecimento é real e, nesse caso,  essa realidade é regida por leis que nos são desconhecidas.  O fantástico é essa hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, diante de um acontecimento aparentemente sobrenatural.
Para Todorov, portanto, o fantástico implica não só a existência de um acontecimento estranho, mas é preciso que o texto obrigue o leitor a considerar o mundo das personagens estranhas como um mundo de criaturas vivas e a hesitar entre uma explicação natural e sobrenatural. Essa hesitação é normalmente experimentada por um dos personagens da narrativa, muitas vezes o herói.
Roberto de Sousa Causo, no livro Rumo à Fantasia, cita a definição do The Oxford Companion to English Language: “geralmente se concorda que (a fantasia) é ambientada em um mundo distante da experiência comum, alguns ou todos os personagens são diferentes de qualquer criaturas conhecidas, o mundo de fantasia tem as suas próprias regras e lógica, e é normalmente bem ordenado dentro delas, e qualquer personagem quotidiano que entre nesse mundo tem que se conformar ao novo modo de vida. De modo semelhante, criaturas fantásticas podem entrar no mundo familiar, e quando o fazem os seus poderes frequentemente prevalecem”. 

O mesmo Roberto Causo lembra que a fantasia se consolidou como gênero literário no mercado editorial a partir de 1923, com a criação da revista Weird Tales. Foi nela que surgiu o gênero Espada e Magia, representado principalmente por  Conan, de Robert A. Howard, que escreveu para essa e outras publicações.
A outra corrente famosa é a alta fantasia, representada principalmente por J.R.R. Tolkien de O Hobbit e O senhor dos anéis. Nessa vertente, o autor cria todo um mundo próximo, mas diferente do nosso. Esse mundo é descrito em detalhes culturais, geográficos e históricos ao longo da narrativa e o leitor se acostuma à regras desse novo mundo (vale lembrar que Robert A. Howard também definiu muito bem o mundo de Conan, mas com outro enfoque).

Vários outros autores da época se debruçaram sobre o gênero, com destaque para As crônicas de Narnia, de C.S. Lewis, que colocou heróis humanos normais atravessando para um mundo de contos de fadas, em que existem duendes, centauros, magos, feiticeiras e muitos outros,  numa quase apresentação prática dos princípios de Todorov.  
Embora tenha feito um sucesso relativo na época de sua publicação (1954-1955), a saga de O senhor dos Anéis só se tornou um sucesso estrondoso na década de 1960, quando um editora americana aproveitou o fato de que o livro não havia sido registrado nos EUA para lançar uma versão não-autorizada e barata. O livro fez enorme sucesso com os hippies, uma geração muito parecida com a dos românticos do século XIX que transformaram a fantasia em um gênero literário. Como os românticos, a geração dos anos 1960 criticava o racionalismo e pregava uma volta a um mundo menos tecnológico e mais sentimental.  

O gênero ganhou ainda mais popularidade com a criação do  RPG Dungeons and Dragons e da série televisiva derivada, A caverna do dragão, um sucesso extraordinário até hoje. A animação da Disney A espada era a lei também merece destaque por retomar o mito arturiano, assim como o filme História sem fim (baseado no livro do escritor alemão Michael Ende).
Finalmente, tivemos recentemente o fenômeno Harry Potter e os filmes de O senhor dos anéis e Crônicas de Narnia, que aumentaram ainda mais o interesse pela fantasia fazendo com que ela concorra fortemente com a ficção científica.
Hoje duendes, dragões, sereias elfos fazem parte do imaginário popular de milhões de pessoas. Mas, se os primeiros escritores germânicos que se debruçaram sobre o gênero tinham uma rica mitologia para explorar, nós também temos: mapinguaris, sacis, mãe-d´água, cobra grande, os exemplos são muitos.
Infelizmente essa riqueza raramente vem para a literatura. São raras as iniciativas de utilizar a mitologia nacional para criar um universo de fantasia.
Talvez  falte um diálogo com a mitologia clássica da fantasia, um encontro dos sacis com hobbitts, de sereias com a mãe d´água, de dragões com a cobra grande.

Escreva um roteiro agradável de se ler


A maioria dos roteiristas se esquece completamente que o roteiro, antes de se tornar uma história em quadrinhos, será lido por alguém. E esse alguém geralmente é um desenhista. E, posso garantir: a maioria dos desenhistas não são leitores vorazes.
Assim, se o desenhista não ler, ou ler com pouca atenção, não irá desenhar, ou irá cometer erros, e alguns podem tornar sua história quase incompreensível.
Uma boa tática é “conversar” com o desenhista no roteiro, se você já souber quem é ele. Em uma das histórias que escreveu para Supreme, Alan Moore escreveu para o desenhista paraense Joe Bennett: “Joe, sei que você gosta de prédios expressionistas. Você vai adorar essa história!”.
Eu gosto de fazer pequenas piadinhas em meus roteiros. Pequenas anedotas que prendem a atenção do desenhista e ajudam a explicar o que quero (não sei você consegue entender exatamente, mas infelizmente não posso desenhar isso para você. Afinal, você é o desenhista! rs).
Outra coisa que aprendi é que nem sempre termos técnicos são uma boa solução, especialmente se forem termos técnicos do cinema. Logo que comecei a escrever, usei uma vez a expressão “câmera subjetiva”. Eu queria que a sequência de imagens daquela página fosse vista sob o ponto de vista de determinado personagem e é isso o que significa câmera subjetiva. Mas o desenhista não entendeu e desenhou como quis. Mas para me satisfazer, desenhou uma câmera de vídeo no fundo do quadro. Detalhe: uma câmera que não tinha a menor razão para estar ali!
Ler roteiros de outros escritores pode ser uma boa solução para tornar os seus agradáveis. Você verá que o que se o roteiro é gostoso de ler, provavelmente o resultado final também será. Uma vez tive acesso a um roteiro de um capítulo de novela O cravo e a rosa, de Walcyr Carrasco. Esse é um noveleiro conhecido por novelas divertidas, leves, com um toque de humor sutil e saudosista. O roteiro era exatamente assim. Até mesmo as partes técnicas tinham essas características.