sexta-feira, novembro 27, 2020

MAD 17 - Twitter

 

Em 2009 o Twitter estava no seu auge. Todo mundo tinha uma conta no microblog e o editor Raphael Fernandes resolveu fazer uma edição especial sobre o assunto. Eu propus mostrar como seria se o Twitter já existisse desde a antiguidade (e começamos com a Hebe comentando que havia encontrado com Deus e que ele havia criado o mundo). Tínhamos Eva reclamando que os ciúmes de Adão estavam transformando o paraíso num inferno, Nero reclamando que ninguém o entendia (dá vontade de botar fogo em tudo), Napoleão e Hitler anunciando que invadiriam a Rússia etc. O  Raphael acrescentou algumas tags, o que deixou tudo ainda mais engraçado. As imagens de fundo da matéria ficaram por conta do Amorim. 

Fundo do baú - Thundarr, o bárbaro

 


Thundarr, o bárbaro é um daqueles casos de séries animadas que parecem ter saído diretamente dos quadrinhos. E praticamente foram: Steve Gerber, seu criador, era roteirista da Marvel, para a qual criou Howard, o Pato, e trouxe para o design de produção o mestre Jack Kirby. Além disso, outros roteiristas de quadrinhos, como Roy Thomas e Gerry Conway escreveram episódios.
A trama mostrava um mundo pós-apocalíptico em que um planeta desconhecido passou entre a terra e a lua, quebrando essa última em dois pedaços. A civilização sobreviveu dividida em feudos governados por feiticeiros, que usam tanto magia quando a tecnologia da velha terra.
Os personagens na versão do amigo JJ Marreiro

O protagonista, Thundarr, era um bárbaro salvo do cativeiro pela princesa Ariel, uma feiticeira de boa índole. Completava o trio Ookla the Mok, um humanoide leonino. Esse último personagem foi adicionado à série por pressão dos produtores, que queriam alguém parecido com os wookiees de Star Wars. A sugestão do nome veio do também roteirista de quadrinhos Martin Pasko. Ele e Gerber estavam passando pelos portões da Universidade da Califórinia em Los Angeles (UCLA) e ele sugeriu usar a sigla como nome do personagem.

quinta-feira, novembro 26, 2020

Sem Stan Lee não existiria Gian Danton

 


No final da década de 1950 a grandiosa DC dominava o mercado de quadrinhos quase sozinha. Uma de suas concorrentes era editora pequena, composta apenas de uma sala, um editor e uma secretária. Poucos anos depois, essa editora secundária se tornaria o Davi que iria derrotar o Golias nas vendas e na imaginação do público.
Stan Lee, o editor da Marvel, era a mente por trás dessa mudança. Junto com Jack Kirby ele criou o Quarteto Fantástico, o grupo de heróis que revolucionaria os quadrinhos com personagens bidimensionais, brigas internas, histórias em continuidade e muita, muita ação.
O método criado por ele (chamado hoje de método Marvel) permitia que artistas como Jack Kirby imprimissem um ritmo, uma agilidade, um movimento que fazia parecer que as histórias do Super-homem aconteciam em câmera lenta. Por outro lado, o texto de Lee humanizava e caracterizava cada personagem. Até mesmo personagens terciários, como o Surfista Prateado, ganhavam um background, uma história de vida, um modo de falar, uma personalidade.
E Lee fazia questão de colocar créditos nas histórias. Ao contrário da DC, que fazia questão de esconder os nomes dos desenhistas e roteiristas, a Marvel alardeava aos quatro ventos que tinha os melhores artistas e escritores e dava nome a cada um. E mais: seus textos faziam acreditar que a Marvel era um verdadeiro mundo mágico, a casa das ideias e que a produção de quadrinhos eram uma nova forma de arte (Se estivessem vivos, Shakespeare e Michelangelo estariam fazendo quadrinhos, dizia ele).
Fazer quadrinhos era uma grande aventura! 
Como resultado, os leitores começaram a prestar atenção em quem fazia as histórias – e descobriram que havia alguém que escrevia as HQs, os roteiristas. Também como resultado, o público universitário se viu atraído pelos gibis e, com o tempo, isso abriu caminho para todo um campo acadêmico, o de pesquisadores de quadrinhos.
Como editor, Lee tinha uma máxima, que passou ao seu pupilo Roy Thomas: se uma revista está vendendo bem, deixe o time criativo livre. Isso fez com que a Marvel explodisse em criatividade nos anos 1970, com trabalhos impressionantes como o Dr. Estranho de Steve Englehart e Frank Brunner, que levou a psicodelia do personagem ao seu nível máximo e o texto a um nível poucas vezes alcançado, antes e depois.
O sucesso da Marvel balançou a DC, fazendo com que ela saísse de seu confortável conservadorismo. Durante anos a Distinta Concorrência, como chamava Stan Lee, fez de tudo para ser tão criativa quanto a Marvel – e conseguiu na década de 1980, quando trabalhos inovadores como os Novos Titãs, Crise nas infinitas terras e as séries autorais Cavaleiro das trevas e Watchmen balançaram a indústria de quadrinhos.
Eu lia quadrinhos desde pequeno, principalmente quadrinhos infantis como Turma da Mônica e Disney.
Ali pelos 15 anos eu já tinha me enjoado desse tipo de leitura. Foi quando, numa fila de banco, caiu em minhas mãos um exemplar de Superaventuras Marvel. Eu simplesmente pirei na revista e em especial naquele Doutor Estranho diferente, que flertava com a psicodelia (e que se tornaria por anos meu personagem predileto, ao lado dos X-men). E pirei mais ainda ao ver, nos créditos, o nome de quem fazia as histórias. Sim, cada HQ tinha um desenhista ... e um roteirista! Ali surgiu o sonho de ser roteirista.
Anos depois, o compadre Joe Bennett me emprestou Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Foi um impacto incomparável, que me fez buscar tudo que achasse escrito por Alan Moore – e fez com que eu aceitasse escrever uma história desenhada pelo compadre, a Floresta Negra.
Se Stan Lee não tivesse transformado a Marvel no que ela se tornou, eu não teria lido aquela Superaventuras Marvel e nunca teria tido o sonho de ser roteirista de quadrinhos. Se não existisse a eterna concorrência com a Marvel, a DC continuaria sendo uma editora conservadora e nunca teria publicado trabalhos tão revolucionários como Monstro do Pântao e Watchmen – e, portanto, eu não teria tido o impulso de começar e o norte do tipo de histórias que queria contar como iria contá-las.
Se não fosse a geração de universitários criada pela Marvel, que a passou a ver os quadrinhos além do preconceito, eu nunca poderia ter escrito meu TCC, minha dissertação e minha tese sobre quadrinhos.  
Stan Lee mudou não só a indústria de quadrinhos. Mudou a minha vida e a de muitas outras pessoas. De certa forma, ele mudou o mundo.  

Marshall McLuhan: os meios são a mensagem

 Alguns filósofos têm idéias tão independentes que é absolutamente 

impossível encaixa-los em uma corrente de pensamento. É o caso do canadense Marshall McLuhan. Um dos pesquisadores de comunicação mais criticados de todos os tempos, e também um dos mais influentes, McLuhan criou teorias que delinearam nossa visão de mundo e nos fizeram ver com outros olhos os Meios de Comunicação de Massa. Seu pensamento pode ser resumido em três teorias: os meios de comunicação como extensões do homem, os meios são as mensagens e aldeia global.
Para McLuhan, o homem age sobre a natureza criando extensões de seu próprio corpo. Uma metáfora disso nos foi apresentada no filme 2001 – uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick. Vários antropóides estão guerreando quando um deles tem a idéia de pegar um osso e utiliza-lo como arma. Rapidamente ele percebe que aquela extensão de seu braço era mais eficiente do que o braço em si. Ao final da cena, ele joga o osso para cima e este se transforma em uma nave espacial.
Kubrick queria dizer que o mesmo princípio unia tanto o osso quanto a espaçonave: ambas eram extensões do corpo humano. Se o osso era extensão do braço, a nave era uma extensão do pé. Isso mesmo: o pé. Qualquer forma de transporte, seja um cavalo, uma carroça, um navio ou um avião, nos ajuda a nos movimentarmos e, portanto, é mais eficiente que simplesmente andar.
Da mesma forma, quase tudo que temos à nossa volta é uma extensão de nosso corpo ou de nossos sentidos. A roupa é extensão da pele, a faca é uma extensão dos dentes, o livro é uma extensão de nossa memória. Assim, todo meio de comunicação também é uma extensão: o rádio da boca (para quem fala), do ouvido (para quem ouve), a televisão dos olhos e do ouvido, o computador de nosso cérebro, etc.
Outra teoria importante de McLuhan foi expressa na frase “os meios são as mensagens”. McLuhan afirmava que não fazia sentido estudar os conteúdos do rádio, da televisão ou da internet. O importante é que todo meio de comunicação modifica a psicologia a forma de organização social das pessoas que o utilizam.
Para McLuhan, “a mensagem de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas humanas”.
Para exemplificar, é possível voltar à época em que o homem se organizava em pequenas aldeias. Nesse período, a comunicação era predominantemente oral. As pessoas recebiam informações pelo ouvido e olho era um sentido a mais que nos permitia, por exemplo, captar o gestual de quem falava. Havia um contato direto entre o emissor e o receptor. Além disso, era uma comunicação com envolvimento e voltada para a prática. Ao ensinar o neto a pescar, o vovô não gastava horas falando sobre os aspectos teóricos do pescar. Ele pegava anzol, caniço, isca e, ao mesmo tempo em que falava, mostrava para o garoto como se fazia, e este, em seguida, repetia a ação.
O tipo de comunicação utilizado não permitia que as pessoas se organizassem em grupos muito grandes, pois a aldeia, segundo definição de McLuhan, é o grupo de pessoas que consegue ouvir o líder. De fato, entre os indígenas brasileiros, quando um agrupamento se torna muito grande, ele se divide em duas aldeias.
A invenção da escrita mudou tudo. Com um novo e eficiente meio de comunicação, foi possível criar grandes agrupamentos humanos. Além disso, os líderes, que até então tinham poder relativo, tornaram-se reis com poder absoluto. Através da escrita eles podiam enviar suas ordens a todos os súditos. Por outro lado, através dos escribas, o governante podia controlar a produção de riqueza e instituir impostos. A escrita inventa também o universo classificador, em que todas as coisas definidas pelas classes nas quais se encaixam. Esse universo trabalha com categorias mutuamente excludentes e hierarquicamente organizadas. Assim, um gato, no universo classificador, é um animal, vertebrado, mamífero, felídeo, etc...
Antes da escrita havia apenas os universos relevante (em que as informações são definidas pela importância que têm para cada pessoa) e relacional (em que as informações são definidas pelas suas relações com as outras coisas. Por exemplo, para o universo relaciona, o gato é o animal que caça o rato.
O universo classificador criou condições para o surgimento da burocracia e do exército, com sua hierarquia.
Nova revolução ocorre quando é inventada a imprensa. Com essa nova forma de comunicação, as informações se popularizaram e agora cada pessoa podia ler o seu livro ou o seu jornal sozinho (antes era mais comum que as pessoas lessem em grupos). Com isso surge a idéia de individualidade e de direito autoral. Como os impressores achavam mais rendoso publicar nas línguas nacionais do que em latim (já que o público era bem maior), a imprensa também acaba criando a idéia de nação e de nacionalismo. A popularização da informação tira dos mosteiros o papel de detentores da informação. Tudo isso enfraquece o poder do Papa e cria condições para o surgimento das monarquias absolutas e do protestantismo.
McLuhan chamou Galáxia de Gutemberg a esse mundo criado pela imprensa.
O pensamento linear, que já se delineava no mundo da escrita, torna-se o padrão na Galáxia de Gutemberg: todas as coisas devem ser organizadas de forma que haja uma relação de início, meio e fim, como, aliás, acontece com os livros.
McLuhan percebeu que em sua época (década de 60), uma nova revolução estava se delineando motivada pelos novos meios de comunicação de massa, em especial a televisão. Para ele, a TV e o rádio estavam devolvendo o ouvido ao homem, que havia caído em desuso na Galáxia de Gutemberg.
Por outro lado, a TV, por ser um meio frio (de baixa resolução), levava a um maior envolvimento por parte do receptor, da mesma forma que ocorria na época em que vivíamos em aldeia.
Para o filósofo canadense, a TV e as canções pop estavam novamente unindo pensamento e ação. Isso podia ser percebido nos protestos contra a guerra do Vietnã. O fato de a TV mostrar as atrocidades cometidas pelos soldados norte-americanos levou a população dos EUA a se mobilizar contra a guerra. O exercito norte-americano sabe muito bem dessa força da imagem televisiva, tanto que na Guerra do Golfo impediu as emissoras de TV de mostrarem detalhes do conflito.
Com a criação da internet um novo mundo começa a se delinear. O surgimento de uma rede de comunicação impossível de se controlar, na qual os emissores também são receptores, muda muita coisa. Recentemente li uma matéria sobre um grupo de pessoas em diversos países que distribui pela internet informações que são ignoradas ou distorcidas pela televisão e outros meios de comunicação.
Isso nos leva a outra teoria de McLuhan: a idéia de aldeia global. Se, nos primórdios da humanidade, uma aldeia era definida pela quantidade de pessoas que podiam ouvir o líder, hoje o mundo todo pode ouvir as comunicações de uma liderança. Da mesma forma que na aldeia todos sabiam todos os acontecimentos de forma quase instantânea, hoje se sabe de tudo a velocidade incrível.
Os atentados terroristas que demoliram os Word Trade Center demonstraram isso bem. O mundo parou para ver esse fato. Para se ter uma idéia do alcance do acontecimento, no dia seguinte, na capital do Camboja, houve uma cerimônia budista pelas almas das pessoas que morreram nos atentados. Uma foto dessa cerimônia mostrava uma garotinha cambojana segurando uma bandeira dos EUA.
Os atentados de 11 de setembro mostram que McLuhan estava certo: o mundo é cada vez mais uma aldeia e cada vez mais as fronteiras nacionais deixam de ser importantes.

Os super-heróis nacionais

 

Na década de 1960, o sucesso do terror nacional fez com que as editoras incentivassem seus colaboradores a investirem em novos gêneros. Desses, um dos de que tiveram mais sucesso foram os super-heróis. O estudioso Worney Almeida de Souza lista 34 super-heróis brasileiros surgidos antes dos anos 1970, sem contar os super-vilões e heróis não-mascarados.
Nosso primeiro grande super-herói foi o Capitão 7, no início dos anos 1960, baseado num seriado homônimo exibido pela TV Record, de autoria de Ayres Campos. O Capitão 7 é um menino do interior de São Paulo levado a um planeta distante, de onde volta com super-força, super-inteligência, capacidade de voar e um uniforme atômico. O personagem, cujo visual foi criado por Jayme Cortez, foi desenhado por Júlio Shimamoto, Juarez Odilon, Sérgio Lima e Getúlio Delfim e fez muito sucesso, durando muitos números, até por estar ancorado em uma atração televisiva. Chegou a existir até mesmo fantasias do personagem para a época de carnaval.
O sucesso do capitão 7 fez com que a Estrela, maior fábrica de brinquedos da época, encomendasse a criação do capitão estrela, em uma revista lançada pela continental (a mesma do concorrente), que acabou não fazendo sucesso.
O caminho aberto pelo capitão 7 foi explorado por outros artistas, que se aproveitaram do fato de muitos heróis ainda não serem conhecidos no Brasil. Exemplo disso é o Raio Negro, criado por Gedeone Malagola para a editora GEP. Gedeone tinha apresentado o Homem-lua (que depois seria aproveitado), mas como ele não parecia tão super-herói, os editores pediram que ele desse uma olhada no novo Lanterna Verde. Misturando os poderes do Lanterna com o uniforme do Ciclope dos X-men, surgiu o Raio Negro, um dos personagens de maior sucesso da época.
Um dos heróis mais interessantes surgidos no período foi o Golden Guitar, um herói criado para aproveitar o sucesso da jovem guarda. Os donos da editora Graúna queriam licenciar os personagens da série Archie para tentar captar o interesse do público jovem. Como não conseguiram, encomendaram para Macedo A. Torres um herói juvenil inspirado no movimento musical Jovem guarda. O resultado foi um herói psicodélico, que usava como arma uma guitarra, através da qual disparava dardos tranqüilizantes e outras maluquices. Além dos quadrinhos, o gibi trazia letras das músicas de Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléa. Essa é atualmente uma das revistas mais raras do período e também uma das mais procuradas pelos fãs.
A estréia dos chamados heróis Shell (os personagens da Marvel foram lançados no Brasil numa campanha dessa rede de postos de gasolina) criou um grande interesse pelo gênero e fez com que surgissem vários gibis nacionais. Eugenio Colonnese criou Mylar, o homem mistério, para a editora Taika.
Outro herói de sucesso foi O Escorpião. Tratava-se de uma cópia descarada do fantasma, feita por Wilson Fernandes a pedido da editora Taika, em 1966. Como a revista começou a vender muito (os dois primeiros números esgotaram a tiragem de 50 mil exemplares), a editora ficou com medo da King features Syndicate, e pediu ao desenhista Rodolfo Zalla e ao roteirista Francisco de Assis que reformulassem o personagem. Assim, o escorpião tornou-se um defensor das selvas amazônicas e continuou sua carreira de sucesso.
Mas nenhum herói do período fez tanto sucesso quanto o Judoka, lançado pela Ebal com roteiros de Pedro Anísio e desenho de vários artistas. O personagem usava um collant com um quimono verde e branco, além de uma máscara. Seu mestre no judô era o sábio Minamoto. Além disso, ele contava com a ajuda de sua namorada Lúcia. A revista pegava a onda ufanista do período militar e exaltava as belezas do Brasil. Para isso, o personagem percorria diferentes pontos do país.
Os heróis brasileiros não resistiram aos anos 1970. uma das razões disso era a censura prévia. As revistas tinham de ser enviadas a Brasília, sendo analisadas por censores, que muitas vezes cortavam cenas, páginas, ou mandavam reformular histórias inteiras. Era mais fácil para as editoras importar quadrinhos americanos, até porque esses não costumavam despertar a atenção dos censores. Além disso, o endurecimento da ditadura e crise econômica foram acabando com o sentimento patriótico e ufanista dos leitores. A moda passou a ser achar bom o que vinha de fora, especialmente dos EUA. Com isso os super-heróis foram desaparecendo. Pior: começou a se achar que esse era um gênero que não podia ser trabalhado por brasileiros, pois tinha pouco a ver com a realidade nacional. De um lado os quadrinhos nacionais de super-heróis eram perseguidos pelos censores da ditadura. Por outro lado, eram perseguidos pelos intelectuais de esquerda, que achavam que eles eram colonialismo imperial norte-americano. 

Como comecei a escrever resenhas


 

Quando era adolescente eu tinha uma necessidade imensa de ler, mas livros eram itens raros em casa (lembro quando era criança de ficar lendo os dizeres das caixas de sapato). Então, a descoberta da sessão circulante da Biblioteca Pública do Centur, em Belém, foi providencial. Para mim foi uma surpresa descobrir que lá eles emprestavam livros! Embora o acervo fosse pequeno comparado a bibliotecas maiores, para mim era um verdadeiro tesouro. 

Na primeira vez em que fui levei muito tempo procurando, até que acabei escolhendo um livro de contos de H.G. Wells (nunca mais encontrei esse livro, então não sei o título). Quando estava fazendo as tratativas para o empréstimo, a bibliotecária me perguntou se eu não queria fazer uma resenha da obra.

- Resenha? O que é isso?

Ela me levou até um quadro cheio de fichas. Eram as resenhas feitas pelos leitores, que entregavam manuscritos e eram datilografadas pelo pessoal da biblioteca.

- Ok, vou fazer.

Não fiz resenha só daquele livro. chegou num ponto que todas as fichas daquele painel eram minhas.

Eu me acostumei a tal a ponto a escrever sobre o que lia, que logo o painel não era mais suficiente para as minhas resenhas (eu devorava religiosamente um livro por semana, às vezes mais). Então comprei um caderno e comecei a resenhar tudo: livros, filmes e até exposições que eu visitava. Sempre que possível, recortava em jornais capas de livros ou cartazes de filmes para colar junto das resenhas. Lembro de uma exposição sobre a expedição langsdorf em que inclui no caderno um recorte anunciando a exposição. Aliás, aquela exposição me marcou tanto que depois a usei num conto que posteriormente seria incluído no livro da devir...

Eu me acostumei a tal ponto a resenhar que ler um livro e não resenhar era como se eu não tivesse lido. Assistir a um filme e não resenhar? Impensável!

Quando, tempos depois, surgiram os blogs, eles se tornaram a versão digital daqueles cadernos. Na época, blogs falavam de assuntos exclusivamente pessoais, que interessavam apenas à pessoas e seus amigos. Meu blog era de resenhas (e, ocasionalmente, um ou outro artigo sobre assuntos do momento).

Algum tempo depois eu recebi o convite de integrar a equipe do Digestivo Cultural, que já foi o maior e mais importante site de cultura do Brasil. O editor do digestivo me enviava um livro por mês para ser resenhado. Eram resenhas de cinco mil toques, textos muito mais longos dos que eu era acostumado a fazer no meu blog ou mesmo no meu caderno. Não era só fazer um resumo da história e um crítica da obra. Com cinco mil toques eu comecei a fazer também análises mais aprofundadas sobre, por exemplo, o estilo do autor. Infelizmente chegou num ponto em que o editor do digestivo começou a se interessar mais por política do que pela parte cultural, o que foi matando o site e os colaboradores foram saindo aos poucos, entre eles eu. 

Desde então, tenho continuado a publicar meus textos sobre livros, filmes e séries tanto no meu perfil quanto no blog.

Eu tenho aconselhado meus alunos de jornalismo a fazerem o que eu sempre fiz: resenhar principalmente livros. Fazer isso ajuda na compreensão e na retenção dos aspectos principais da obra. Além disso, resenhar é um ótimo exercício de escrita.

quarta-feira, novembro 25, 2020

Quando realidade e ficção se misturam

 



Vivemos em um mundo em que cada vez mais se torna difícil distinguir realidade de ficção. Um exemplo disso ocorreu em 2014, quando a personagem Valdirene, vivida pela atriz Tatá Werneck, da novela Amor à vida, tornou-se participante do Big Brother Brasil 14.
A atriz permaneceu 12 horas dentro da casa, imersa em sua personagem, convivendo com os outros brothers como se fosse um deles.
Sem acreditar que estava realizando seu sonho antigo, a personagem Valdirene cruzou a porta amarela em êxtase e soltou sua primeira pérola: "Esqueci minha escova de dentes".
Ao som de “Piradinha”, sua trilha sonora, ela rodou pela festa, instigando os concorrentes. A cada grupo disse para alguém: "Você é o mais forte da casa". Perguntou a Clara se queria combinar voto e se esta jogava na "dança da pélvis" com os Brothers bonitões.
Enquanto isso, os personagens da novela assistiam ao programa, comentando os acontecimentos.
Por outro lado, no “mundo real” ela se tornava assunto nas redes sociais com internautas comentando sua participação no programa. A hashtag #ValdireneNoBBB14, que ficou entre os tópicos mais populares no Twitter.
O episódio testou os limites entre a realidade e a ficção em programas como o BBB. Uma personagem ficcional se tornou a grande estrela de um programa que tem como base a ideia de mostrar a vida real (há de se perguntar o que ocorreria se ela tivesse continuado no programa – teria ganhado a simpatia do público e sobrevivido até a final?) e levanta uma questão: os Brothers também não estariam atuando? Até que ponto o programa não é uma ficção? O BBB não seria ele também uma simulação da vida real?

Um exemplo de como o mundo se tornou uma construção hiper-real é o projeto acadêmico da designer holandesa Zilla van den Born realizado em 2014. Como o objetivo de provar o quanto é fácil forjar situações em redes sociais, ela arrumou as malas, despediu-se de seus pais no aeroporto Schiphol e, ao perdê-los de vista, pegou o trem de volta para sua casa em Amsterdã, onde mora sozinha.
Nas semanas seguintes ela produziu, através de programas de computador, fotos que a mostravam nas praias da Tailândia, saboreando comidas exóticas e até meditando em um templo budista.

A foto em que ela aparece mergulhando, por exemplo, foi tirada na piscina de sua casa e adornada com peixes falsos, mas hiper-reais adicionados via Photoshop.
Durante cinco semanas ela publicou as fotos e recebeu diversas curtidas e comentários elogiosos por parte de seus parentes e amigos. Ninguém desconfiou que a viagem fosse falsa.

O caso levantou uma questão: até que ponto o que vemos nas redes sociais é forjado, uma simulação (dos sorrisos forçados às fotos em locais paradisíacos) para impressionar seus seguidores? 

Conan - Os guardiões da tumba

 


Em 1971, Roy Thomas e Barry Smith estavam em plena forma para transformar a revista do Conan em um grande sucesso da Marvel. O começo tinha sido atribulado, com os dois tentando entender o personagem e as vendas caindo. Mas o número oito salvou tudo. A razão não era só a qualidade da história, muito superior às anteriores, mas também a uma dica de Stan Lee: este percebera que o excesso de animais nas capas da revista estava afastando os leitores. Roy Thomas abandonou a ideia de colocar o dragão na capa e colocou em seu lugar mortos-vivos. Funcionou. A revista a partir daí só aumentou as vendas.
A história começa com Conan fugindo de uma patrulha após ser incriminado pela morte de uma nobre na história anterior e acaba indo parar em uma cidade abandonada e um templo repleto de jóias. Um dos soldados que o está caçando acaba mudando de ideia quando vê tanto ouro e predras preciosas e resolve ajudá-lo a roubar o tesouro, quando são atacados pelos guardiões da tumba, guerreiros mortos-vivos.
Barry Smith ainda apanhava na figura humana e na sua representação de Conan, mas nessa história dá um verdadeiro show nos detalhes do cenário e principalmente no dragão que ataca o cimério. Já estava ali, naquele dragão, o desenhista que seria venerado pelos fãs de quadrinhos. Novidade também na diagramação: aqui ele abandona completamente o esquema de seis quadros típico dos quadrinhos de super-heróis – sinal de que para ele já estava muito claro que Conan não era uma revista de heróis.
A história ainda tem problemas, como a forma fácil com que o cimério vence os guardiões e a parte final, forçada, em que ele reencontra a prostituta Jenna, mas o plot twist do final compensa essas pequenas falhas.

A arte expressiva de Jack Kirby

O rei dos quadrinhos, Jack Kirby, foi responsável pela criação ou co-criação de grande parte dos super-heróis mais populares do mundo. Na definição de Alan Moore, "Jack Kirby criava um mundo antes do café da manhã". Além de criador inigualável, ele era um grande desenhista, que revolucionou o design das páginas com diagramações grandiosas e dinâmicas. Abaixo coloco alguns de seus desenhos. Deliciem-se. 















Feliz Natal!

 


Vestígios - revista portuguesa de quadrinhos


Vestígios é uma revista alternativa portuguesa editada por Don Lay (proveniente da Guiné-Bissau). Eu participei com duas histórias: “Como ser enganado por um psicopata”, com arte de Antonio Eder, e Arlequim, com arte de Don Lay. “Como ser enganado por um psicopata” explica o que é um psicopatia a partir da minha experiência com o assunto, que fez com que eu me interessasse pelo tema. Arlequim se passava na época do regime militar no Brasil. A história foi adaptada por Don Lay, em especial por causa da linguagem, que era estranha para o público português. 


Conan – a fronteira do fim do mundo

 


Entre as várias sagas de Conan, a do Rio Negro é uma das mais memoráveis e uma das poucas que se alongaram tanto que ocuparam mais de uma edição da revista The Savage Sword of Conan, tendo sido publicada no Brasil em A espada selvagem de Conan 14 e 15 de editora abril .

Com desenhos de John Buscema e Tony DeZuniga e roteiro de Roy Thomas, a história conta a trama da invasão dos pictos contra os assentamentos da Aquilônia no território de Conajohara, às margens dos rios Negro e Trovão.

A história começa com Conan salvando um rapaz, Balthus, que pretende se juntar aos colonos. Os dois irão viver juntos essa aventura repleta de ação de suspense.



Os fatos se acumulam em ritmo acelerado: eles encontram o cadáver de um mercador que havia sido jurado de morte por um feiticeiro picto, tentando levar o corpo dele para o forte, são atacados por um demônio, que arranca a cabeça do cadáver. No forte, recebem a missão de matar o feiticeiro, mas, quando se aproximam de território picto, são atacados. Balthus é preso em um estaca e irá ser morto por uma serpente encantada, mas é salvo por conan.

Agora eles precisam desesperadamente tentar chegar até o forte e avisar sobre o ataque dos inimigos. Depois precisam avisar os colonos para que abandonem suas casas e se dirijam para um local seguro. No meio disso encontram um cachorro apelidado de Mutilador. Depois de ver seus donos assassinados por pictos, ele se tornou uma fera cujo único objetivo é matar selvagens.

Tudo isso é entremeado por aparições de criaturas místicas, demônios e muita, muita ação.

É uma saga tão monumental que ocupou mais de 80 páginas.

Na história o talento dos desenhistas John Buscema, Tony Dezuñiga é visível, mas o que se sobrepõe mesmo é a incrível habilidade de Roy Thomas para contar uma história. Não só pelo ritmo narrativo de tirar o fôlego, mas pelo texto impecável, que prende o leitor.

terça-feira, novembro 24, 2020

Artigo de Gian Danton sobre fake news é publicado em revista da editora Paulus

 

A Revista Paulus publicou um artigo meu, escrito em parceria com Roberta Scheibe e Cláudia Assis, sobre fake news. No artigo analisamos os comentários em uma notícia do UOL confere a respeito de uma fake news e mostramos como esses comentários podem ser usados para difundir ainda mais notícias falsas. Clique aqui para ler o texto.