quarta-feira, junho 29, 2022

Superman e os mestres do universo

 


Embora pareçam personagens muito diferentes, Super-homem e He-man têm muito em comum. Ambos não usam máscaras, mas escondem suas identidades secretas ao adotarem um comportamento extremamente desastrado.

A semelhança entre eles foi explorada por Paul Kupperberg (roteiro) e Curt Swan (desenhos) na edição especial DC Comics Presents 47, publicada em 1982.

A trama explora isso ao mostrar cada um dos personagens em seus mundos: Clark Kent cai num cabo ao andar no estúdio de TV e o príncipe Adam coloca em desespero mentor ao não seguir as orientações para os exercícios.

Roteirismo: O Super precisa ir para Eternia, vamos mandá-lo para lá então. 


É quando esqueleto tenta entrar no castelo de Grayskull e acaba abrindo um portal que leva o homem de aço para eternia. Dificilmente poderíamos achar um exemplo melhor de roteirismo: o Super-homem vai para eternia porque o roteirista precisava que isso acontecesse. A explicação para isso é pífia e forçada.

Inicialmente os heróis se unem...


Além disso, logo que chega em Etérnia, o herói enfrenta o esqueleto e chama o vilão pelo nome, sem que qualquer outra pessoa tivesse pronunciado o nome do personagem. O roteirista provavelmente esqueceu que era necessário em algum momento apresentar o vilão para o homem de aço.

Tudo na trama é igualmente forçado e simplista, mas ainda assim a edição vale muito a pena por ser reflexo de uma época em que os quadrinhos eram mais ingênuos.

Enfeitiçado, o Super ataca He-man, mas depois consegue facilmente se livrar do feitiço. 


A edição brasileira, recentemente lançada pela Panini, traz a capa original de Ross Andru. Andru era um cara que sabia criar cenas de impacto e equilibrar os elementos do desenho, o que sem dúvida acontece nessa belíssima capa.

terça-feira, junho 28, 2022

Capitão César: o soldado da fortuna

 



Embora Dick Tracy, Buck Rogers e Tarzan sejam considerados os inciadores dos quadrinhos de aventura, eles tiveram um antecedente nobre. Trata-se de uma tira de humor, que, com o tempo, transformou-se em uma HQ de aventura: o Capitão César, de Roy Crane.
Crane nasceu em 1901, no Texas. Aos 14 anos fez um curso de desenho por correspondência com Charles Landon. Quando terminou o ginásio, foi para a Chicago Academy of Fine Arts, onde conheceu o amigo Leslie Turner. Desgostosos com a monotomia acadêmica, os dois resolveram voltar para casa, pegando carona nos trens de carga. Essa aventura depois renderia argumentos para algumas de suas histórias.
Ele trabalhou então como repórter e depois embarcou num cargueiro para a Europa. De volta à América, resolveu criar uma tira de quadrinhos cômicos chamada Washington Tubbs (depois abreviado para Wash Tubbs), mas seu humor caipira não agradava aos editores, que o aconselharam a procurar o sindicate Newspaper Enterprise Association. Por sorte, o diretor desse sindicate era justamente o dono do curso que Crane fizera na adolescência, o que lhe valeu um contrato.


A primeira tira é publicada em 21 de abril de 1924. O protagonista era um indivíduo baixinho e de óculos, lembrando vagamente o comediante Harold Lloyd. As primeira sequências são de humor rápido com Wash trabalhando em uma mercearia e namorando a filha do patrão, mas logo Crane colocou seu herói dentro de um navio em direção aos mares do sul à procura de um tesouro.
O enfoque passa a ser, então, a aventura. Em uma de suas peripécias, o personagem resgata numa masmorra um prisioneiro, capitão Easy. Ele se alia ao protagonista e os dois começam a viver grandes aventuras juntos. Crane vai abandonando aos poucos não só o tom humorístico, mas também o traço caricato. Seu desenho vai ganhando um incrível tom realista, em especial pelo uso papel craftint, que permite ao autor criar texturas que ressaltam o desenho. Ninguém jamais usou essa técnica de forma tão primorosa quanto Roy Crane.
Por fim, o autor resolve se livrar o personagem humorístico, que se casa, e a tira passa a se chamar simplesmente Capitão Easy (Capitão César, no Brasil). O grande momento do personagem é durante a II Guerra Mundial. O Capitão recebe a missão de descer de paraquedas na França ocupada e resgatar um cientista preso em um campo de concentração nazista. Há alguns aspectos irreais, como o fato do alto comando Aliado escolher alguém que não fala francês para a tarefa, mas as situações de suspense e ação compensam. César entra no campo, se faz passar por prisioneiro e, finalmente, liberta o cientista, levando-o para a Inglaterra. Mas antes disso ele corre sério risco de ser descoberto pelos alemães e só a imaginação de Crane consegue livrá-lo desse sério risco.
Por ter começado como tira de humor, Wash Tubbs não é considerada a primeira HQ americana de aventura, mas sem dúvida foi a primeira que usou corretamente o gênero e foi uma das que melhor o exploraram.
Posteriormente Roy Crane foi para a King Features Syndicate, para a qual criou Jim Gordon, um aviador durante a guerra que depois se transforma em agente secreto norte-americano no período da guerra-fria. Apesar do exagerado tom ideológico, essa tira conseguiu manter o mesmo nível de qualidade de Capitão César, com os desenhos de Crane melhorando a cada ano. 
Pela qualidade da sua obra, Crane recebeu o prêmio Reuben em 1959 e, em 1974, o Yellow Kid no Salone Internazionale dei Comics em Lucca, Itália.

Roteiro de quadrinhos: adaptações

 

Vamos falar de adaptações.
Bem, a primeira coisa que vocês devem fazer é ler com atenção a obra que vai ser adaptada. Essa leitura deve ser feita de forma a tirar do texto aquilo que Alan Moore chama de idéia e eu chamo de tema.
Sobre o que é a história? Vocês podem mudar tudo, podem mudar a ambientação, os personagens, mas o essencial, que é o tema, deve se manter.
O ideal é que também o tipo de narrativa se mantenha, se você quiser se manter fiel ao autor (e não estiver fazendo uma adaptação apenas para ridicularizá-lo, como faziam os músico da banda Mutantes com as músicas antigas).
Se você for adaptar Viagens de Gulliver, deve se lembrar a todo instante que a história é uma alegoria política. Ao invés de ser um navegante, o Gulliver de sua história poderia ser uma astronauta, mas, mesmo assim, as situações em que ele se envolvesse deveriam ser alegorias políticas.
                Gostaria de me reportar a um caso específico: o livro Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Esse livro teve uma ótima adaptação para o cinema, nas mãos do Coppola, o filme Apocalipse Now. E eu também me arrisquei a adaptá-lo.

                O livro é sobre como situações limites podem mexer com a cabeça das pessoas. É também uma crítica ao colonialismo.
                No livro, um homem chamado Marlow está em um navio com outros homens e ele começa a contar a história de quando trabalhava como mercador de marfim nos países que eram colônia da Inglaterra.
                O filme de Copola se passa durante a guerra do Vietnã. Minha história é uma ficção científica e se passa em um planeta distante.
                Como vocês podem ver, tanto eu quanto o Copolla mudamos a ambientação. Mas a essência se manteve.
                Eu defino a essência da história logo na primeira página, quando o personagem narrador diz: “Vou contar uma história, senhores. Ela é sobre um homem. A trama e os detalhes talvez não importem. Apenas o homem importa”.

                No livro de Conrad não acontece quase nada. O mais importante, para Conrad é a descrição psicológica dos personagens e a análise de como eles se comportam em situações limites. Isso foi mantido tanto na minha adaptação quanto na do Copolla.
                De resto, há várias diferença e semelhanças entre minha adaptação e a do Copolla. Eu mantive a idéia de uma pessoa contando história para outras. Copolla eliminou isso, mas manteve a narrativa densa, pesada, característica do Conrad.
                Também acho importante ser fiel à forma do autor. Na minha adaptação, fiz questão de usar frases que não são características de minha prosa, mas que você encontra muito no livro de conrad. Exemplo: "Mesmo sem o terem visto, vocês se lembrarão dele pelo resto da vida. Para quem o conheceu, talvez a lembrança de seu rosto possa ser levada até para depois da morte".
                O livro de Conrad também é sobre a crueldade do imperialismo. No caso dele, o imperialismo britânico. No caso de Copolla, o imperialismo norte-americano. Eu transportei a situação para o futuro para dar à história um caráter mais universal. A empresa de minha história pode ser qualquer grande império.
                Ah, como homenagem ao filme Apocalipse Now, eu pedi ao desenhista que fizesse os cenários como se fosse uma espécie de Vietnã alienígena.

Marketing de guerrilha: Intervenções urbanas

 


            Geralmente, a campanha de guerrilha utiliza intervenções urbanas, situações interessantes na rua, que chamam a atenção das pessoas e geram um rumor que privilegia a marca.
            Um sex shop na Suíça, por exemplo, colocou um carro estacionado em frente à loja. Os vidros do carro foram cobertos por adesivos que mostravam o que parecia ser uma cena de sexo dentro do carro. Não dava para ver direito, como se o vidro estivesse embaçado, mas as pessoas paravam para ver e, de tabela, olhavam para o sex shop.
Um salão de beleza no Canadá encontrou uma maneira interessante de premiar seus clientes e, ao mesmo tempo, gerar mídia espontânea. Quando estava chovendo, as clientes recebiam um guarda-chuva transparente, com a logomarca do salão. Como resultado, saíam pela cidade, exibindo seus belos cabelos sob o guarda-chuva transparente com a logo da empresa.
            Na França, um partido político, na época das férias, distribuiu entre seus filiados uma sandália havaiana com as iniciais no solado. Conforme estes andavam nas praias, iam “carimbando” as iniciais na areia.
            A revista de humor Merda, do Rio de Janeiro, usou estátuas vivas para gerar rumor e, ao mesmo tempo, fazer distribuição de amostras. As estátuas só precisavam parar numa posição em que parecessem estar lendo a revista. Ao lado delas, uma cesta de revistas. Quem deixasse dinheiro para a estátua, podia levar uma revista para casa.

            O supermercado Y. Yamada usou uma tática simples de intervenção urbana nos aeroportos de Belém (PA) e Macapá (AM): malas na esteira de bagagem com a cor vermelha, típica da empresa, com o adesivo “Bem-vindo, gente boa” e outro com o cartão da empresa. À primeira vista, parecia apenas uma mala de um dos passageiros. Essa intervenção teve muito mais resultado do que as propagandas convencionais, já que ficava justamente no local para onde todo mundo estava olhando (a esteira de bagagens) e não parecia um anúncio. 
             O mais famoso caso brasileiro de intervenção urbana foi o da noiva abandonada de Belo Horizonte (MG). Uma mulher vestida de noiva começou a comparecer em locais em que havia muita gente vestida de noiva, distribuindo panfletos com um desenho de seu noivo, que a havia deixado sozinha no altar. Os panfletos diziam que ela pretendia se vingar, saindo com outros homens, e que estava selecionando candidatos. O caso gerou interesse na mídia, que fez várias matérias sobre o assunto. A noiva chegou a ser a atração principal do programa de TV Superpop. Foi nesse programa que se revelou que a história toda era, na verdade, uma estratégia de divulgação do filme 5 Frações de uma Quase História.

X-men – A qualidade do ódio

 


Algo que caracterizou a parceria entre Chris Claremont e John Byrne nos X-men foi o fato de que, mesmo no auge da mais desenfreada ação, havia sempre espaço para desenvolver os dramas dos personagens. E isso era feito de forma totalmente orgânica na trama, sem parecer que se tratava de pieguice ou pura enrolação.

A edição 127, no ponto alto da saga de Protheus, é um exemplo disso.

Na história anterior, Wolverine e Noturno encontram o mutante X e este tenta se apossar do corpo do baixinho, mas não consegue por causa do esqueleto de adamantiuim. Então, ele distorce a realidade. Quando Ororo chega, nem mesmo uma tempestade parece impedir que eles fiquem à mercê do poderoso mutante.

Quem salva a pátria é Moira, que atira em Protheus e só não o mata por intervenção de Cíclope.

Finalmente fora de perigo, Cíclope percebe que Wolverine ficou extremamente abalado com a experiência. Como um animal, o carcaju depende muito dos seus sentidos e passar por algo que mudou todo o mundo à sua volta o abalou a ponto de fazê-lo imergir num estado de quase catatonia.

Wolverine fica extremamente abalado após o confronto com Proteus. 


“Seja lá o que aconteceu com Wolverine, o abalou bastante. Ele está à beira de um colapso. Se não sair dessa depressão agora, ficará permanentemente amedrontado”, pensa Cíclope.  

A solução do líder da equipe é no mínimo inusitada: provocar uma briga com o baixinho, mas revela como Claremont, embora pensasse no geral, também tinha uma atenção especial para cada personagem do grupo. Talvez o único que tenha tido essa capacidade tenha sido Marv Wolfman nos Novos Titãs (o que provavelmente explica porque esse era o único título da DC que rivalizava em vendas com os X-men).

Enquanto isso, em uma trama paralela, acompanhamos outro drama.

A HQ também tem espaço para o drama de Moira. 


Moira vai para a capital da Escócia alertar seu ex-marido que o filho dos dois está indo para o local em busca de vingança. E descobrimos que Moira vivia com ele uma relação de abusos e que na última vez que eles se encontraram ele não só a deixou machucada a ponto de ir parar no hospital, como a estuprou – o que gerou o filho mutante. E, em uma crítica ferina, o marido abusador é mostrado um político importante que tem tudo para se tornar primeiro ministro. Surpreendente ver temas tão adultos e uma crítica tão mordaz num simples gibi de super-heróis.

No Brasil essa história foi publicada em Superaventuras Marvel 22, mesmo número em que o Mercenário matou Elektra.

Rafael e a invenção da beleza

 


Rafael foi o mais popular dos pintores de sua época. Também, pudera. Seus quadros sintetizavam todos os elementos da beleza renascentista. Filho de um pintor medíocre (que lhe ensinou os rudimentos da arte), aos 17 anos ele já era considerado um mestre. Aos 26 anos foi contratado pelo Papa para decorar os aposentos do Vaticano na mesma época de que Michelangelo pintava a capela Cistina.
Rico, jovem, bonito, Rafael era a própria expressão da beleza de seus quadros, uma estrela em constante ascensão na corte papal. Fazia suspirar as mulheres. Foi num dos encontros com uma amante que ele pegou uma febre que o mataria, aos 37 anos. A corte mergulhou em luto.
Rafael aprendeu e usou o melhor dos dois outros mestres da Renascença: com Leonardo Da Vinci aprendeu a construção piramidal e o uso do chiaroscuro e com Michelangelo o uso de figuras dinâmicas.
Entre as suas pinturas mais famosas estão  A academia de Atenas, que reunia em uma só imagem alguns dos principais filósofos da antiguidade clássica.

Os incríveis 2

 


É irônico que o Quarteto Fantástico nunca tenha tido uma versão digna no cinema e que Os incríveis, uma sátira-homenagem ao Quarteto, tenha gerado dois ótimos filmes.
(Sério? Você nunca percebeu? Os uniformes são semelhantes, há poderes semelhantes, apenas trocados de um personagem para o outro e, da mesma forma que o Quarteto, eles são uma família de heróis - um dos conceitos revolucionários da Marvel de Kirby e Lee).
Na história a família tenta impedir um vilão de roubar um banco e, ao falhar, acabam destruindo parte do prédio da prefeitura, fenômeno que poderá dar um fim definitivo à era dos heróis.
Mas um milionário parece disposto a reverter isso com uma campanha de marketing baseada na ideia de que o público deveria ver o ponto de vista dos heróis. E, como estrela dessa campanha, escolhe a Mulher Elástica.
Aí temos um curiosa inversão: a heroína vai para as ruas enfrentar um misterioso vilão hipnotizador, enquanto o herói fica em casa, cuidando dos filhos - e ambas as tarefas parecem igualmente difíceis, especialmente quando o bebê Zezé começa a revelar seus poderes (o que gera os momentos humorísticos do filme). Sem levantar bandeiras, o filmes consegue discutir a questão do heroísmo e do protagonismo feminino de maneira sutil, mas envolvente.
O roteiro é bem construído, com reviravoltas no momento certo e personagens para lá de carismáticos. E as cenas de ação são de tirar o fôlego e, ao mesmo tempo, únicas: na hora de perseguir o vilão, quem fica com o bebê?
Em tempo: fui assistir com meu neto e ele simplesmente encarnou o Zezé no meio da sessão. Então, melhor acostumar: nesta primeira semana várias crianças devem "encarnar o Zezé".

A Bíblia do roteiro de quadrinhos

 

Há algum tempo, os roteiristas Alexandre Lobão e Leonardo Santana me convidaram para escrever a seis mãos um livro sobre roteiro para quadrinhos.
Na época eu não poderia imaginar a proporção que isso iria ganhar. O projeto foi aumentando, aumentando, até se transformar no que é, provavelmente, o mais completo livro sobre roteiro já publicado no Brasil.
A obra tem praticamente tudo que um roteirista precisaria saber para escrever boas histórias para qualquer mídia.
Alguns assuntos foram tratados no Brasil apenas nesse livro. Já outros assuntos é a primeira vez que são tratados num livro de roteiro provavelmente no mundo, como a verossimilhança hiper-real.
É uma obra de peso (340 páginas!), tanto que decidimos chamar de A bíblia do roteirio de quadrinhos. Essa obra teve seu lançamento oficial em Curitiba sexta-feira passada e já está vendida no site da editora.
Quem quiser comprar comigo, o valor é 60 reais (frete incluso). Pedidos: profivancarlo@gmail.com

segunda-feira, junho 27, 2022

Revista acadêmica traz entrevista com Gian Danton

 


O número 12 da revista Imaginário!, a mais importante publicação acadêmica brasileira sobre quadrinhos, traz uma entrevista comigo realizada por Marcelo Engster a respeito de meu processo criativo.
A edição traz como matéria de capa o estudo de Douglas Pigozzi sobre um dos clássicos dos quadrinhos latino-americanos – El Eternauta – a partir da abordagem semiótica de Peirce. Já Ednelson Júnior e Roberto Lima analisam a metaficção em filmes de horror nos anos 2000. O universo dos super-heróis é tratado em dois artigos, um de Marcelo Bolshaw e Dickon Tavares, sobre Trinity, o triângulo arquetípico da DC; e outro de Paulo de Oliveira, sobre os arquétipos mitológicos nos quadrinhos da Liga da Justiça. As publicações independentes também são abordadas no estudo de Omar Sánches, em atualização da concepção sobre zine.
A revista pode ser baixada neste link

O que é um Bife no roteiro?

 Um roteiro, seja de quadrinhos ou de cinema, não é literatura. Ao contrário de um livro, ele deve ser feito para ser visto.


Quadrinhos e cinema são mídias visuais. O que pode ser mostrado com imagens, deve ser apenas imagem.

Se um personagem é um adolescente que gosta de rock, mostrá-lo num quarto com posteres de banda de rock ou com camisa de uma banda cantando uma canção de sua banda predileta é suficiente para repassar a mensagem. Não há necessidade de um narrador ou um personagem dizendo: "Fulano gosta de rock".

Algumas das melhores sequências do cinema são mudas, como a abertura do primeiro De volta para o futuro, com a sequência no laboratório que nos conta tudo que precisamos saber sobre o Dr. Brown, inclusive que ele roubou o urânio do qual se fala na TV.

Outra abertura genial é a de Dois filhos de Francisco. Toda a sequência inicial, do pai pelejando para conseguir pegar rádio na roça mostra sua paixão por música que será o fio condutor de toda a trama.
Assim, as ações é que contam a história e nos dão a motivação dos personagens. Em Contato, a sequência da morte do pai será fundamental para que a cientista Ellen busque comunicação com outros mundos e, quando os ETs aparecem para ela, sacamos que no fundo sua busca por contato era também uma forma de resgatar o pai (o alienígena aparece com o rosto do pai da cientista).

Maus roteiristas desconhecem isso e tendem a explicar tudo com diálogos ou narração em off. Um roteirista iniciante colocaria, na cena do encontro de Contato, uma narração em off, nos dizendo algo como: "Naquele momento Elleanor percebeu que sua busca por contato era, na verdade, uma forma de voltar a encontrar o pai".

Isso de explicar a história com diálogos é algo tão irritante que ganhou até um nome próprio, uma gíria: bife (alguns também usam muleta).


Maus roteiristas usam e abusam do bife, explicando o tempo todo os fatos ao expectador. Exemplo disso é a novelista Glória Pérez, famosa por adorar um bife. Na novela Caminho da Índia, por exemplo, toda vez que tínhamos uma cena com a psicopata Yvone, na sequência aparecia uma psicóloga explicando as ações da psicopata.


Talvez o exemplo mais famoso de bife, ou muleta, tenha sido uma das cenas finais de Psicose, em que um psicólogo explica o comportamento de Norman Bates. A cena é tão didática que parece uma concessão do diretor, Alfred Hitchcock, para os produtores, no sentido de tornar o filme mais compreensível para a grande massa. Felizmente a cena seguinte, de Norman sentado na cadeira, olhando para o expectador e sua mãe falando por ele salvam o final. Aliás, bastava essa cena final e o expectador entenderia tudo - sem a necessidade do bife psicológico.

PS: Para terminar, uma página de Companheiros do Crepúsculo, de Bourgeon, que exemplifica a força narrativa das imagens.

Space Force

 


O seriado Space Force foi criado a partir de um Tweet de Donald Trump. Trumpo anunciou a criação de uma força espacial (com uma logo parecia com a de Star Trek), que acabou nunca se tornando realidade e se tornou piada na rede. Ou melhor, iria se tornar realidade na ficção, nessa ótima série da Netflix.
Na série, um general que finalmente chegou ao patamar das maiores autoridades militares do país recebe (pelo Twitter), a incumbência de criar uma colônia na Lua até 2024. É humor puro, a começar pelas várias referências a Trump, que nunca é mostrado ou mesmo nomeado. Só sabemos dele através de mensagens no Twitter e a impressão que dá é de que até mesmo os assessores mais próximos só conseguem saber algo sobre ele a partir dessa rede social.
O seriado é estrelado pelo ótimo Steve Carell, que também assina a produção junto com Greg Daniels. Carrel faz o papel do general Mark Naird, responsável por comandar a força espacial. É um típico militar, que acha que jogar uma bomba irá resolver a maioria dos problemas. Mas sua convivência com o cientista-chefe Dr. Adrian Mallory, interpretado porJohn Malkovich, vai tornando o personagem mais racional, especialmente quando Mallory o ajuda a ganhar uma competição contra a força aérea – aliás, um dos episódios mais engraçados da série.
Naird divide o tempo comandando a Força Espacial com um vida pessoal que é um verdadeiro desastre: a esposa foi presa, a relação com a filha é péssima, o pai é do tipo que transfere dinheiro para golpistas porque acha que a neta foi sequestrada por uma gangue que alicia prostitutas. E, para piorar, até a Índia parece estar passando a perna nos EUA. Sem falar na China, que rivaliza diretamente com os Estados Unidos pelo domínio da Lua.
Um dos melhores momentos da série é quando a China sabota um satélite americano e para consertá-lo, ignorando todos os conselhos dos cientistas, o general Naird resolve mandar um chimpanzé para efetuar os reparos.
Os episódios são rápidos e divertidos. Uma boa pedida para quem gosta de comédia.

El Greco - Cristo carregando a cruz

 


El grego é o mais importante nome do maneirismo na pintura.
O maneirismo é um movimento intermediário entre o racional renascimento e o emocional barroco.
No maneirismo, o tema principal deixa de ocupar o centro do quadro, quebrando com a estrutura certinha e rígida do renascimento. Além disso, a imagem deixa de ser delineada de maneira clara, abrindo espaço para a linha esfumaçada do barroco.
El Grego usou as características do movimento para imprimir uma qualidade transcendental aos seus quadros religiosos. E acrescentou mais um item: a proporção anatômica distorcida. Suas figuras santas eram alongadas, mostrando que estavam mais próximas do mundo espiritual que do mundo material.
Nesta imagem de Cristo carregando a cruz, embora não seja possível ver seu corpo, é possível advinhar sua estatura elevada pelas mãos de dedos alongados. Além disso, o rosto de Jesus, que em obras do renascimento teriam ocupado o centro do quadro, aqui se desloca para a parte superior.

Odisseia cósmica

 

 


Todos que conhecem um pouco mais de quadrinhos sabem que Thanos é uma cópia de um vilão da DC, Darkside, criado por Jack Kirby quando este revolucionou a editora na década de 1970.
Em 1988, Jim Starlin, criador de Thanos e grande mestre das sagas cósmicas estava na DC Comics. Era a oportunidade de trabalhar com a versão original de seu vilão.
Starlin imaginou uma grande saga estelar em que alguns dos mais poderosos heróis da DC se unem a Darkside para enfrentar a ameaça absoluta da anti-vida.
Starlin fazendo uma grande saga cósmica com personagens da DC é um velho sonho dos leitores e não decepciona. Como nessa época ele já estava diminuindo sua atividade como desenhista, foi chamado um artista que na época era uma estrela em ascenção: Mike Mignola. A junção desses dois grandes astros nos deu um dos poucos crossoveres realmente divertidos dos quadrinhos de super-heróis.


Mignola sabe dar peso às imagens, usando e abusando dos contrastes, o que é particularmente eficaz nas cenas do universo da anti-vida. Ele nitidamente não conseguiria desenhar diversos heróis em um único quadro (o que é uma especialidade de George Perez), de modo que Starlin, de maneira inteligente, escolhe um pequeno time de personagens para combater os espectros da anti-vida que escaparam para nosso universo, indo cada um para um mundo com o objetivo de destruí-lo. Algumas escolhas fazem todo o sentido, como Super-homem, Lanterna Verde, Estelar e Orion. Outras parecem forçadas por decisões editoriais, como o Batman, que parece deslocado numa saga cósmica. Mas, como bom roteirista, Jim Starlin dá um jeito de fazer com que o personagem se torne relevante na HQ (ele havia feito a mesma coisa com o Homem-aranha na saga de Thanos).
Aliás, Starlin consegue equilibrar perfeitamente a trama, sem fazê-la pesar demais para personagens como o Super-homem. Todos os personagens têm um bom desenvolvimento – inclusive melhor do que normalmente se fazia com eles à época.
Essa história foi lançada na década de 1990 pela editora Abril e em 2015 foi relançada pela Panini em volume encadernado com capa metalizada.

O imperador de Nova York

 


Revoltas de robôs são um tema básico da ficção-científica. Claro que uma série tão ampla como Perry Rhodan deveria em algum momento abordar o assunto. É o que acontece em O imperador de Nova York, número 31 da série, escrito por W.H. Shols.

Na história, os saltadores – adversários que haviam surgido no número 28, Cilada Cósmica – reprogramam os robôs da terceira potência, fazendo com que eles se revoltem contra os humanos. Isso cria uma dificuldade a mais numa situação que já tinha duas outras frentes de batalha (a batalha contra a frota dos saltadores e a batalha no planeta gelado), o que demonstra a competência do organizador da série àquela altura, K. H. Scheer.

Shols, o autor deste volume, tem o irritante hábito de abusar de frases nominais, algo que se repete à exaustão no volume, a começar pelo início do (“Uma transição no hiperespaço”), mas, quando não está insistindo nesse cacoete, escreve bem e sabe trabalhar com o suspense, como no trecho:

- Foi um serviço excelente – disse Rhodan, elogiando o capitão. Faltou alguns segundos antes da hora. No mesmo instante veio a reviravolta.

Shols reforça que aquela é uma ameaça que deixa até mesmo Rhodan receoso. Mas no final, os terranos conseguem debelar a rebelião dos robôs e o leitor não entende exatamente como isso aconteceu, até porque são muitas frentes de batalha e nem todas são abordadas. À certa altura, Rhodan consegue capturar um dos robôs rebelados. A impressão que se tem é de que ele usará aquele para descobrir uma maneira de reprogramar os outros robôs, mas isso não acontece.

A capa original alemã. 


É curioso hoje observar como os escritores daquela época  -  início dos anos 60 – imaginavam o futuro. O que causa mais estranhesa é o momento em que Rhodan precisa introduzir informações no computador e faz isso com cartões perfurados. Os caras imaginaram naves de um quilômetro de diâmetro com uma tecnologia super-avançada, mas não conseguiram pensar nas utilidades de um teclado.

Em tempo: o título O imperador de Nova York se refere a um robô que se auto-denomina imperador (depois se descobre que pelo menos uma dúzia de outros robôs fizera o mesmo). Como o assunto não é muito explorado, a impressão que fica é de que o autor pensou primeiro num título de impacto e depois adaptou o livro a ele.

domingo, junho 26, 2022

Galeão

 

Galeão foi meu primeiro romance. Lançado em 2013, em capa dura, com linda ilustração de JJ Marreiro, foi a primeira publicação da editora 9 Bravos.
Na história um galeão está vindo de Portugal para o Brasil quando uma tempestade sobrenatural destrói os mastros e o leme, fazendo com que o navio fique desgovernado. O capitão morreu durante os acontecimentos estranhos que antecederam a tempestade.
Coisas sobrenaturais começam a acontecer no navio, como pessoas que não deveriam estar lá e que aparecem do nada. Além disso, começam a ocorrer assassinatos, indicando que um dos sobreviventes é um psicopata.
Galeão é, portanto, um livro de fantasia histórica misturado a uma história policial em que todos os sobreviventes parecem ter algo a esconder sobre seu passado.
A primeira edição se esgotou totalmente e foi lançada uma segunda edição, em brochura.

Roteiro para quadrinhos: O que é um deus ex-machina?

 

Na Grécia antiga havia um recurso usado pelos maus roteiristas: quando não conseguiam resolver algo na trama, ou explicar o que estava acontecendo, um ator vestido de deus era baixado por um mecanismo  e resolvia a situação. Por exemplo: os personagens estão numa situação em que não há saída possível, o deus desce e os salva. Ou: há um furo monstruoso na trama, o deus descia e tentava explicar.
Isso era chamado de Deus ex machina e é uma falha grave de roteiro.  
Um exemplo clássico disso aconteceu em uma das edições da revista Calafrio. Havia um roteiro padrão na Calafrio, segundo o qual alguém muito mal era punido no final. Geralmente eram os mortos que voltavam do túmulo para se vingar. Mas nessa história, o vilão foi morto por um raio que atingiu seu carro. Só que, percebendo o furo, o roteirista colocou uma caveirinha no final, explicando: "Sim, eu sei que os pneus do carro criam um isolamento, protegendo as pessoas de raios, mas lembre-se: no mundo do terror, tudo é possível... hahahhahahahah".
Uma forma mais comum de deus ex machina é tirar a salvação dos heróis da manga. Tipo: eles estão sendo perseguidos e vão ser mortos pelos vilões. De repente aparece a polícia, do nada, e os salva.
Para evitar o deus ex machina, tudo na trama tem que ser amarrado. Em algum ponto lá atrás, alguém deveria ter chamado a polícia, mas, com o desenvolvimento da trama, o expectador esqueceu disso e só lembra na hora que vê a polícia chegando.
No filme Sinais, por exemplo, tínhamos uma menina com uma mania estranha: ela bebia água e deixava o resto em copos espalhados pela casa. No final, quando o ET invade a casa, há água por toda a casa, o que permite ao tio da menina usar isso para derrotá-lo (a água é como ácido para eles). Ou seja: o  roteirista pensou nesse final e providenciou uma explicação. Se os copos de água aparecessem do nada, o expectador iria dizer: ah, isso é mentira, e o pacto de verossimilhança seria destruído junto com os copos de água.

O pacto de verossimilhança pressupõe uma troca com o expectador: você acredita na minha história, em troca eu sou honesto com você. Vou, por exemplo, avisá-lo de quem é o assassino numa história policial (claro que essa pista é jogada no meio de outros fatos, e a tendência é esquecer, mas, quando vê o final, o expectador pensa: ah, mas era óbvio, como eu não percebi isso antes?).
O filme Sexto sentido é um exemplo disso: no final, quando descobrimos o que realmente aconteceu com o psicólogo, pensamos: caramba, era óbvio, porque não pensei nisso?
O filme Testemunha de acusação brinca com essa  situação: de repente aparece uma mulher, do nada, com provas que inocentam o acusado. Parece um deus ex machina, usado apenas para livrar a cara do personagem. Mas depois isso se revela parte de uma trama maior, que já esta