quinta-feira, setembro 28, 2023

A radionovela do Capitão Gralha

 

Homenagem de Iwerten aos pracinhas que lutaram contra os fascistas na II Guerra Mundial. 


Capitão Gralha foi, provavelmente um dos primeiros personagens de quadrinhos criados com intenção multimídia. Francisco Iwerten pensou não só nos quadrinhos, mas em filmes, livros e até música (Canção para gente grande ninar, conhecida como "menino passarinho" é uma homenagem ao personagem - clique aqui para ouvir). 

Entre as várias iniciativas para divulgar o personagem, Iwerten escreveu um roteiro para uma radionovela. Não se sabe se esse roteiro chegou realmente a ir ao ar, uma vez que não restou nenhuma gravação, mas é bem provável, em vista das boas relações do criador com os donos das rádios curitibanas. Transcrevo abaixo o roteiro do primeiro episódio: 


O Capitão Gralha em O raio involutivo!

Técnica: Música de abertura do Capitão Gralha.

Baixa BG.

Locutor: Crianças da Terra dos Pinhões, está começando agora mais uma aventura do Guardião das Araucárias... o invencível, o insuperável Capitão Gralha!

Técnica: Som de raios e trovões.

Mulher: O que está acontecendo? De repente começo a ouvir raios e trovões!

Homem: Não se preocupe, minha querida. Estamos em Curitiba, a capital do grande Paraná!

Mulher: Não, há algo estranho. Veja!

Homem: Sim, agora começo a divisar o que surge no céu até então ensolarado. Parece uma nuvem, mas que nuvem estranha!

Mulher: Não, não é uma nuvem, meu amado! Parece antes uma nave, mas onde estão as asas?

Homem: Veja, a nave está soltando raios sobre as pessoas no passeio público.

Mulher (grita): Oh, meu deus, que horror!

Técnica: Som de supense.

Locutor: De fato, aquela nave estranha pairava sobre o passeio público e agora soltava seus raios. Dentro dela, o maior vilão que o mundo já viu, o Doutor Destruição! É ele que agora solta os raios sobre  as pessoas, com um efeito assustador, capaz de involuir a todos que toca...

Mulher: Oh, meu Deus, que tremendo horror! As pessoas estão involuindo. Posso ver em seus rostos. Já não são humanos! Parecem antes seres pré-históricos!

Homem: Sim, parece que involuiram para quando não existia civilização e as pessoas viviam em estado de pura violência e barbárie. Só um grande vilão poderia ser capaz disso, só mesmo o Doutor Destruição.

Mulher: Oh, e agora? O que poderemos fazer contra tamanho vilão, o que poderemos fazer contra tamanha perfídia? Oh, meu querido, me abrace, estou assustada!

Homem: Querida, não chore! Veja, lá no alto!

Mulher: Parece um homem alado!

Homem: É ele! Chegou para nos defender! É o Capitão Gralha!

Técnica: Toca o hino do Capitão Gralha.

Capitão Gralha: Chegou a hora de dar um fim a essa insensatez! Acabou a brincadeira, vilão!

Locutor: Enquanto isso, dentro da nave, o terrível Doutor Destruição não se deixa abalar.

Doutor Destruição:  Deveras? Deixe de desdita! O destino declama outros devires!

Mulher: Oh, não, querido! Não pode ser!

Homem: Oh, é terrível! Mãos mecânicas saem de dentro da nave e aprisionam com suas garras o herói e o levam para dentro da nave!

Locutor: E agora, crianças? O que acontecerá com o defensor das araucárias? Eles conseguirá frustrar os planos do vilão enlouquecido? Que terríveis perigos aguardam nosso herói? Fique ligado. O Capitão Gralha volta depois dos reclames! 

Palácio de Luxemburgo, em Paris

 


Um belíssimo palácio que foi residência da mãe de Luís XIII. Construído no século XVII, é uma bela construção, com jardim imenso, muito frequentado por franceses e turistas. É possível também apreciar os típicos crepes franceses. Em um dos pontos do palácio é possível ver bustos em homenagem a grandes pintores franceses.

Joyland, de Stephen King

 


Stephen King é mais conhecido pelos livros de terror. Entretanto, alguns dos melhores momentos dele foram em textos que pouco tinham do gênero, a exemplo da noveleta O corpo (que deu origem ao filme Conta comigo) ou o romance O corredor da morte (que deu origem ao filme À espera de um milagre). Em Joyland, King mostra que pode ser um mestre em outra modalidade: o policial.
A história se passa em um parque de diversões (o Joyland do título) assombrado por um assassinato: uma garota foi degolada no meio de um brinquedo (conhecido no Brasil como trem fantasma). O assassino nunca foi pego e tudo leva a crer que ele matou outras garotas. A moça assassinada aparece de tempos em tempos para trabalhadores do parque, pedindo ajuda.
O personagem principal é um jovem universitário que acabou de ser chutado pela namorada e aceita um trabalho provisório no parque. Juntam-se a ele dois outros estudantes: uma linda garota ruiva e seu namorado fortão e simpático.
Como o leitor certamente adivinhou, a trama gira em torno da tentativa de se descobrir quem é o assassino (e, numa óbvia contribuição Kingiana, acrescenta-se um garoto doente com dom mediúnico). Mas esse não é o forte de Joyland (embora providencie um final realmente eletrizante). O forte do livro é aquilo que King faz melhor: mostrar personagens cativantes em uma narrativa saudosista. O capítulo em que o garoto doente é levado para passear no parque é um dos pontos altos da obra – algo que só King, com sua narrativa rica e extremamente coloquial conseguiria fazer.
O livro emula os pulp fictions não só na trama, mas também na capa, com o título em fonte vintage, mostrando uma garota Hollywood com sua máquina fotográfica na mão olhando apavorada para alguém que se aproxima, tendo o parque de diversões ao fundo.
Esse estilo saudosista é bem resumido no trecho: “Essas são coisas que aconteceram há muito tempo, em um ano mágico em que o petróleo era vendido por onze dólares o barril. O ano em que meu coração foi partido. O ano em que perdi a virgindidade. O ano em que salvei uma linda garotinha de se engasgar e um velho bem cruel de um ataque cardíaco (...) Também foi o ano em que aprendi a usar uma língua secreta e a dançar o Pop Pop com uma fantasia de cachorro. O ano em que descobri que há coisas piores que perder uma garota”.
Surpreendentemente para King, o livro tem exatas 239 páginas, o que permite ler de uma sentada. 

A era de ouro da DC

 

Em 2010 a DC Comics completou 75 anos. Para comemorar, a Panini lançou no Brasil uma coleção em quatro volumes, cada um reunindo histórias de um período: Era de Ouro, Era de Prata, Era de Bronze, Era Moderna.

O volume Era de Ouro reunia as primeiras histórias de alguns dos personagens mais populares da editora, a começar, claro, pelo Super-homem, o personagem que não só criou a DC como fundou todo um novo gênero nos quadrinhos.
A história que abre o volume é a primeira do Homem de aço, cuja capa se tornou célebre com o herói batendo um carro contra uma pedra enquanto malfeitores fogem apavorados. Essa história havia sido recusada por vários editores – e dá para perceber facilmente as razões. A trama é mal-engendrada, com pulos narrativos estranhos.
Depois de uma pequena introdução, na qual Jerry Siegel, o roteirista, estabelece a verossimilhança da história comparando o personagem às formigas que carregam várias vezes seu peso ou o gafanhoto capaz de dar saltos enormes, a história começa no meio. O Super-homem salta no ar com uma moça nos braços. Ela é a verdadeira culpada de um crime e o herói precisa convencer o governador a perdoar uma moça que será executada em seu lugar. Depois a história pula para outra trama e para outra, sem muita conexão.
A sequência do carro, apesar de famosa, é bizarra. Bandidos sequestram Lois Lane. O Super-homem pega o carro em que estão e o sacode, fazendo os bandidos caírem – o problema é que pela lógica, também a jornalista cairia do carro. Siegel, um garoto na época, estava nos seus primeiros passos como roteiristas e o que acaba se destacando é a arte de Joe Shuster. Seu desenho elegante certamente foi fundamental para o sucesso do personagem.
Flash ganha poderes após fumar no laboratório de química. 


O volume traz também a origem do Flash, escrita por Gardner Fox e desenhada por Harry Lampert. Fox também escreve a história da Sociedade da Justiça. Seu texto estava muito longe do que viria a ser na era de prata, quando ele ajudaria a revolucionar os heróis DC. O roteirista parecia estar convencido de que escrevia exclusivamente para crianças – o que fica óbvio na história da Sociedade da Justiça, mas também pode ser percebida na origem do Flash.
Lendo essas histórias há coisas que parecem estranhas. Flash, por exemplo, se transforma no herói graças a um acidente provocado pelo fato dele estar fumando no laboratório de química! O interesse romântico do personagem, Joan, parece uma patricinha convencida, que se interessa pelo herói apenas quando ele usa suas habilidades recém-adquiridas para ganhar o campeonato de futebol americano. Além disso, o uniforme do Flash surge do nada, no meio da HQ.
As duas melhores HQs do volume são as dedicadas ao Capitão Marvel e à Mulher Maravilha.
O desenho de CC Beck chamava atenção pela elegância. 


O desenho de CC Beck no Capitão Marvel é simplesmente lindo. Com poucos traços, mas eficiente e com sequências que remetem diretamente à art decó, como no quadro em que aparece o metrô. O uniforme do personagem é igualmente bonito. Além disso, o roteiro de Bill Parker já nos apresenta um personagem acabado, e não em construção. Sua origem é bem estabelecida, assim como o clima das histórias, voltado para a magia – em oposição ao Super-homem, que era calcado na pseudo-ciência.
As histórias da Mulher Maravilha tinham uma qualidade muito acima do restante.


A melhor história do volume é a origem da Mulher Maravilha, escrita por Charles Moulton com desenhos de H. G. Peter.
Peter já era um desenhista de experiência quando embarcou no mundo dos quadrinhos e isso é facilmente perceptível pela forma competente como ele cria visualmente a Ilha Paraíso. Seu desenho tem um apelo vintage que o faz interessante até os dias atuais.
Mas o destaque vai mesmo para o texto de Moulton (pseudônimo do psicólogo William Marston). Marston tem pleno domínio da narrativa e cria sua própria versão da mitologia grega, atualizando-a e adequando à personagem.  Até mesmo quando os quadrinhos são substituídos por texto corrido acompanhado de ilustrações, a história não perde o encanto, tal a qualidade do texto.

Drive - filme valoriza os silêncios

 


Um roteiro de filme, para ser bom, não precisa de longos diálogos. Essa é uma visão equivocada provocada, provavelmente, pelo sucesso dos filmes de Tarantino. Muitas vezes a força de um filme pode estar justamente nos silêncios.

Drive, filme de Nicolas Winding Refn escrito por Hossein Amini, de 2011, é um ótimo exemplo disso.

A trama conta a história de um motorista que trabalha como dublê e mecânico durante o dia e à noite aluga seus serviços a assaltantes, tirando-os da cena do crime e despistando a polícia. É tão bom nisso que jamais foi pego. Ele está em vias de se tornar um motorista de corridas oficial quando conhece uma vizinha e se apaixona por ela. Mas a moça é esposa de um ladrão, que é libertado, mas se vê numa sinuca de bico: os antigos empregadores querem que ele cometa um assalto para pagar uma “dívida de proteção” ou irão atrás da esposa e do filho. O motorista se oferece para ajudá-lo na fuga. Mas tudo dá errado, o assaltante é morto e parece haver algo por trás do dinheiro roubado que pode levar todos à morte.

A sequência inicial, com o motorista ajudando dois ladrões a fugirem é uma obra-prima de direção e roteiro. Praticamente sem diálogos, conseguimos captar tudo: como o motorista consegue despistar a polícia, a tensão do momento, a personalidade do protagonista.

As cenas dele com a garota também têm diálogos minimalistas. A relação entre os dois se estabelece principalmente em olhares, que revelam mais que palavras. Além disso, temos o uso muito competente de trilha sonora e da câmera lenta. Acrescente a isso uma traba bem elabora, cheia de reviravolta e temos um filme que funciona perfeitamente.

Em tempo: Drive está disponível no Amazon Prime Vídeo.

quarta-feira, setembro 27, 2023

Museu D´Orsay

 


Se o Louvre é o paraíso da arte antiga, barroca, romântica, o Museu D´Orsay é o ponto alto da arte moderna em Paris. Há muita coisa, por exemplo, dos impressionistas: Degás, Renoir, Monet.
Mas a grande atração é a sala dedicada a Van Gogh. Completamente ignorado em vida (ele só conseguia vender quadros para o próprio irmão), ele se tornou uma verdadeira sensação atualmente. Turistas correm para ver suas obras. Na mesma sala há quadros de Gaugan, com o qual o pintor holandês morou durante algum tempo.
Almoço na relva, o polêmico quadro de Manet. 

Há também vários quadros de arstitas realistas, como Millet e até mesmo o famoso e controverso Quadro A Origem do mundo, de Gustave Courbet (conhecimento pela maioria das pessoas por ter sido censurado pelo Facebook).
Falando em polêmica, nada causou mais polêmica na época do que os quadros de Manet, também presentes no Museu. Dois exemplos são Olímpia e Almoço na relva. Os conservadores da época acusaram o artista de indecência por colocar mulheres nuas em seus quadros. O nu era comum nas artes, mas era um nu idealizado, de deusas gregas. Manet colocou mulheres de verdade em suas obras e por isso provocou a ira dos consevadores. Olimpia se tornou tão famosa que ganhou releituras, como a de Gaugan, também presente no Museu.
O Museu também tem vários quadros de simbolistas e uma série de belíssimas estátuas.


Degas é mais conhecido pela pintura, mas também era escultor. 

Há várias versões do quadros Nifas, de Monet, cada uma pintada em uma condição de luz.


Os caçadores de crocodilos, de Ernest Barrias

Ernest Barrias 

Ernest Barrias 

 


A origem do mundo, de Coubert, causa polêmica até hoje. 

Monet, como outros impressionistas, se interessava pela forma como a luz interferia na cor. 


Pinturas de Monet com o tema mulher com sombrinha. 


Coubert colocou vários amigos no quadro O ateliê do artista. 


Susannah e os anciões, de Paul Cabet

A arte inesquecível de Galep

 


 

Galep é mais conhecido por ter sido o co-criador do ranger Tex, o mais famoso quadrinho italiano de todos os tempos. Seu estilo econômico e discreto, em que o desenho serve essencialmente à narrativa teve uma influência absoluta sobre os fumetti, em especial os publicados pela editora Bonelli. Mas seu trabalho não se restringiu a Tex: ele ilustrou de tudo, inclusive arte sacra. Confira o trabalho desse mestre e clique aqui para saber mais sobre sua trajetória.


















Planeta dos macacos - a origem

 

 


Planeta dos Macacos é uma grata surpresa. Depois dos cinco filmes das décadas de 1960 e 1970 e do fiasco da versão do Tim Burton, eu duvidava muito que ainda se pudesse fazer algo de bom com a franquia. Afinal, o impacto do filme original hoje é impossível: todo mundo sabe que o Planeta dos Macacos é a Terra. E boa parte do apelo dos filmes seguintes também podem se perder nos dias de hoje: na revolucionária década de 1970, muitos jovens que queriam mudar o mundo se identificavam com a revolução símia levada às ruas pelo macaco inteligente César. 
Neste novo filme, os macacos não são usados como escravos, mas a arrogância humana continua sendo o impulso que leva os macacos a se revoltarem. A explicação para César ser tão inteligente é também melhor trabalhada (na série original, ele era um paradoxo temporal, já que era filho de macacos inteligentes que haviam viajado para o passado): agora, ele é resultado de uma pesquisa científica. 
O cientista interpretado por James Franco e seu  pai dão um tom adequado, já que o filho procura a cura do pai, doente de Alzheimer. Depois que uma macaca ataca pessoas, a experiência é suspensa e os macacos mortos, mas o cientista acaba criando o filhote para evitar que ele morra. 

Essa primeira parte do filme, muito bem desenvolvida, trabalha a relação cientísta-pai-macaco com um forte toque humano e comovente. A interpretação de Andy Serkis, que faz o macaco Cesar, é fundamental nessa fase. A nova tecnologia permite que suas expressões faciais sejam capturadas pelo computador e transformadas nas expressões de um símio. Diante dele, a maquiagem ganhadora do Óscar do primeiro Planeta dos Macacos parece uma máscara sem expressão. 
A trama vai se desenvolvendo de forma que o expectador mal percebe e quando a ação irrompe, ela parece uma consequência direta do que veio antes, e não uma simples exibição de efeitos especiais, como temos visto tantas vezes. 

Jornada do HORROR

A bomba atômica nazista

 


Sim. A descoberta recente de historiadores mostra um diagrama mostrando uma bomba nuclear nazista.
O desenho, no entanto, é apenas um rascunho, e não indica que os nazistas estiveram realmente próximos de construir uma arma desse tipo, embora provavelmente estavam mais perto esse objetivo do que se pensava anteriormetne.
O diagrama foi publicado na revista Physics World pelos historiadores Rainer Karlsch e Mark Walker, professor de história do Union College em Schenectady, nos Estados Unidos
A idéia dos nazistas era combinar uma mini-ogiva nuclear com um míssil. Os militares da época acreditavam que poderiam construir a bomba em seis meses, mas a controvérsia sobre a quantidade de urânio necessária para isso atrapalhou tudo. O físico Werner Heisenberg sustentava que deveria ser uma grande quantidade. Anotações de pesquisadores, encontradas Karlsch sugerem que se pensava em cinco quilos, um número muito próximo ao de fato usado pelos norte-americanos.

Entrentanto, o professor Paul Lawrence Rose, autor de um livro sobre o programa nuclear nazista, diz, por mais que alguns cientistas tenham chegado perto da quantia certa de urânio, o grupo de Heisenberg provavelmente continuou insistindo em uma quantidade maior. 

A noite dos palhaços mudos

 


Na segunda metade da década de 1980 as bancas brasileiras foram inundadas por uma série de revistas em quadrinhos revolucionárias. Entre as mais revolucionárias estava a Circo, editada por Toninho Lima e Luíz Gê.

O número 4 dessa revista, publicado em 1987, apresentou a história A noite dos palhaços mudos, de Laerte.

Essa HQ explodiu a cabeça de muitos leitores na época e por muitos motivos.

Para começar, era uma história praticamente sem textos ou diálogos. Um ou outro diálogo aqui e ali, mas os protagonistas, como dizia o título, eram mudos, se expressando principalmente graças à linguagem corporal. E o roteiro era incrível, provando que um bom roteiro não precisa de uma imensidade de texto (incrível como, quando critico o roteiro de alguma HQ, sempre aparece alguém perguntando se eu queria mais texto).

Segundo, era uma metáfora muito efetiva e poderosa. O Brasil tinha acabado de sair de uma ditadura militar em que artistas principalmente haviam sido duramente perseguidos. A situação se reflete na HQ na figura do palhaço que será executado por homens engravatados.



Terceiro, Laerte brincava com as sequências, usando desde sequências muito detalhadas até grandes elipses (ou seja, sabia exatamente o que precisva ser mostrado e o que podia ficar por conta da imaginação do leitor), revelando um domínio realmente impressionante da linguagem quadrinística.

Este ano a editora Conrad resolveu lançar essa história num álbum fino, dentro do projeto HQ para todos, com quadrinhos a R$ 9,90. Além da história original, o volume conta com outras HQs curtas feitas por Laerte para outras publicações, inclusive fanzines.

É uma chance de novas gerações terem contato com essa obra seminal do quadrinho nacional.

E não poderia ser lançada em momento mais oportuno.

Superdeuses, de Grant Morrison

 


Grant Morrison é um dos mais importantes roteiristas de quadrinhos da atualidade. Foi um dos primeiros a experimentar a metalinguagem nos super-heróis, com o Homem-animal. Sua passagem por séries como Liga da Justiça e X-men são tanto memoráveis quanto polêmicas. Polêmicas, aliás, são também algumas de suas atitudes e declarações. Em outras palavras: é uma figura tão interessante quanto os personagens que escreve. Daí que o lançamento do livro Superdeuses (Seoman, 496 páginas) tem chamado tanta atenção.
O volume inicialmente era para ser uma antologia de entrevistas dadas pelo roteirista, mas Peter McGuigan, agente do escritor, sugeriu que o livro ficaria bem mais interessante com textos inéditos e Morrison se viu escrevendo centenas páginas numa mistura de análise do mito dos super-heróis com biografia e críticas lisérgicas sobre filmes, quadrinhos e seriados.
Um dos pontos interessantes do livro é a abordagem sobre a criação do mito dos super-heróis. Para ele, esses personagens “falam mais alto e com mais força frente aos nossos grandes medos, nossos desejos mais profundos e nossas maiores aspirações”.
Sua análise do surgimento mito, a partir do Super-homem, é um dos momentos mais inspirados do livro. Segundo ele, “O Superman original era uma reação humanista e audaciosa aos temores do período da Grande Depressão, do avanço científico desregrado e da industrialização sem alma (...) Se as perspectivas distópicas da época previam um mundo desumanizado, mecanizado,  Superman sugeria outra possibilidade: a imagem de um amanhã decididamente humano, que entregava o espetáculo do individualismo triunfante exercendo sua soberania sobre as forças implacáveis da opressão industrial”.
Essa visão é corroborada pelo fato do personagem estar sempre destruindo máquinas, como na primeira aparição do personagem, em que ele aparece na capa de Action Comics segurando um carro sobre a cabeça, pronto a jogá-lo contra uma pedra.
Se Superman merece uma apaixonada análise de sua primeira história, a outra estrela da DC, o soturno Batman, ganha de Morrison uma retrospectiva hilária dos desastres cinematográficos. Não é difícil imaginar o roteirista chapado com algum tipo de droga da moda assistindo a seriados, como os da década de 1940 e se divertindo a valer com seu humor ácido: “O Batmóvel era um conversível brega no qual Batman trocava de roupa no banco de trás enquanto o teto fechava e presto! O roadster facilmente identificável no qual Bruce e Dick tinham acabado de chegar, num piscar de olhos, virava o magnífico Batmóvel! Enquanto Batman se debatia para tirar as roupas e botar a fantasia de morcego, o dito Menino Prodígio assumia o volante ilegalmente e, quando era a vez do devasso Robin revirar-se para entrar nos trajes, Batman fazia as honras na frente. Era uma parceria lendária, afinal de contas”.  
Um ponto que não poderia ficar de fora de um livro de Morrison é sua antológica briga com Alan Moore, autor de Watchmen, V de Vingança e outras séries de renome. O escocês Morrison é nitidamente fã do trabalho de Alan Moore e tem que fazer um verdadeiro contorcionismo verbal ao elogiá-lo ao mesmo tempo em que o critica: “Alan Moore era autodidata, ambicioso, de uma inteligência feroz e extravagante, e o maior truque no seu arsenal de grandes truques era parecer totalmente inovador, como se não houvesse história dos quadrinhos anterior ao seu surgimento”.
A eterna inimizade entre os dois rende alguns dos melhores momentos do livro, como quando Alan Moore diz que a graphic novel Asilo Arkhan, de Morrison, é “cocô embrulhado em ouro” e Morrison afirma que Watchmen é “um poema colegial de 300 páginas”.
Também vale destacar os trechos com as esquisitices de Morrison, como a fase em que ele praticava magia do caos vestido de travesti. Ou a vez em que ele mascou haxixe e se sentiu abduzido por extraterrestres que lhe revelaram o segredo do universo – segredo que ele, gentilmente, compartilha com os leitores do livro.
Não se espere isenção de Morrison. Ele alfineta desafetos (como Moore), antigos amigos (como Mark Millar) e simplesmente ignora quem é da turma de Alan Moore, como Neil Gaiman, que merece apenas uma pequena menção na obra. Além disso, embora a Marvel rivalize com a DC na criação de mitos, ele se concentra muito mais nos heróis da DC, provavelmente reflexo de sua traumática passagem pelo título X-men.
Um ponto positivo da edição brasileira é que ela é traduzida por Érico Assis, jornalista especializado em quadrinhos, que sabe do que Morrison está falando. Isso evitou, por exemplo, que nomes de personagens fossem traduzidos de maneira diferente da usual no Brasil.
Um ponto negativo é a capa nacional, um assunto que não poderia ser ignorado em qualquer resenha mais séria. A capa original emula uma sequência de quadrinhos, com um planeta sendo destruído, um foguete sendo enviado ao espaço e o pequeno Karl-El sendo achado pelos Kents.  O título e o crédito são distribuídos de maneira elegante entre os quadros. A edição nacional deixou a elegância de fora. Ela é dominada por um título que surge de um rasgão, em letras garrafais, lembrando o cartaz do Superman da década de 1970, com um fundo de estrelas. A capa original é lembrada apenas pela parte de baixo, em que aparecem um homem e uma mulher. Sem a sequência é muito difícil deduzir que são Martha e Jonathan Kent e que eles estão achando o superbebê. Espera-se que a capa seja repensada para a próxima edição. Afinal, Superdeuses é leitura obrigatória para fãs de quadrinhos e pessoas que desejam entender o fenômeno de super-heróis.