terça-feira, março 31, 2026

Pantera Negra – Pranto de uma nação condenada

 



Ali por meados da década de 1990, a editora Globo começou a publicar material Marvel que não estava sendo aproveitado pela editora Abril. Entre esses materiais, um que merece destaque: a minissérie do Pantera Negra em quatro partes, publicada aqui em duas partes.

Escrita por Peter B. Gillis e desenhada por Denys Cowan, a HQ tinha um contexto nitidamente político: o regime de segregação racial implantado pelos colonizadores brancos na África do Sul (cujo nome foi mudado para azânia na história).

A HQ inicia com uma cena de tortura. 


A história começa com um rebelde sendo espancado por guardas. Ele reza: “Ó grande espírito da Pantera, ouça minhas preces e me liberte!”.

Essa sequência é entremeada com outra, na qual  o Pantera Negra enfrenta um rinoceronte e, surpreendentemente, é atacado por duas panteras. Nna mitologia de Wakanda, esse fato demonstra que o espírito do pantera o deixou – o que fato acontece: o deus de wakanda encarna no homem que estava preso e passa matar diversas pessoas do regime racista.

Cowan faz o rosto do herói como se fosse uma pantera mesmo. 


Esses dois fatos provocam uma dupla crise: por um lado, o fato de aparentemente não ter mais o espírito do pantera faz com que T´challa perca sua autoridade e tenha seu trono ameaçado. Por outro lado, os ataques às autoridades da Azania faz com que os governantes do país acreditem que o Pantera Negra está interferindo na política do país.

A Azânia chega a enviar um grupo de heróis chamados Supremacistas para aprisionar o Pantera Negra e quando isso falha, decidem tirar a nação do mapa com uma bomba nuclear.

Cowan revela influência de Frank Miller. 


O roteiro de Peter Gillis consegue trazer um fato real para a HQ, criando um eco político para a história, mas falha, por exemplo, ao mostrar como o herói vence os supremacistas. O maior problema da história foi ter mostrado o espírito da pantera como algo real, palpável, tirando todo o mistério por trás desse deus.

Já os desenhos de Cowan talvez sejam a parte mais interessante dessa série. Ele começa inseguro, mas vai aos poucos ganhando confiança e chega a fazer sequências que lembram até mesmo Frank Miller. Além disso, ele se destaca por usar as sombras do rosto do herói para fazer com que a máscara se pareça de fato com a face de uma pantera – algo que não vi mais ninguém fazer.

Minas histórica - Santuário de Bom Jesus de Matosinhos


Uma das grandes atrações da Minas Gerais histórica é o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, a cerca de uma hora e meia de Belo Horizonte.

O local existe graças à devoção do minerador português Feliciano Mendes, que, ao se curar de uma gravíssima doença, prometeu construir o santuário. A partir de 1757, ele fundou um pequeno oratório no alto de um morro, onde passou a viver como ermitão. Dedicou toda a sua fortuna à construção do santuário, que também recebeu contribuições de outras pessoas da cidade.

Ótimo exemplo do barroco mineiro, o santuário se diferencia por sua estrutura, com capelas que abrigam cenas da Paixão de Cristo, ornadas com estátuas de madeira produzidas por Aleijadinho e seus auxiliares. Aleijadinho também assina as impressionantes imagens dos profetas em pedra-sabão, dispostas na frente da igreja.

O visitante sobe o morro, percorrendo as capelas e observando as imagens através das grades, até chegar à escadaria com os profetas.

É uma ótima opção para quem está em Belo Horizonte e deseja fazer um bate e volta, retornando no mesmo dia.

Nos arredores do santuário, há várias lojas de artesanato, incluindo réplicas das imagens dos profetas em pedra-sabão.

A cenas da Paixão de Cristo ficam dentro de capelas. 


As imagens foram esculpidas por Aleijadinho e seus auxiliares.


As imagens se destacam por sua expessividade. 


Os profetas em pedra-sabão são a grande atração. 



O interior da igreja se destaca pelo estilo barroco. 


 

segunda-feira, março 30, 2026

Heróis pulp – livro resgata história de heróis esquecidos

 


Durante as décadas de 1920 e 1930 as bancas norte-americanas foram inundadas por uma verdadeira avalanche de publicações em papel de qualidade inferior reunindo contos de personagens fantásticos. Essas revistas eram chamdas de pulp magazine em referência ao papel em que eram impressas (feita da polpa da árvore).

Foram nessas publicações que surgiram heróis como Tarzan, Besouro Verde e O sombra, que abriram caminho e se tornaram antecessores dos super-heróis. A trajetória desses heróis é descrita no livro Heróis pulp, organizado por Daniel Fontana e publicado pela editora Skript.
A edição já chama atenção pela capa matadora de Amaury filho, com vários heróis formando uma verdadeira multidão. Eles se acotovelam ao mesmo tempo em que lutam contra malfeitores. Detalhe: nenhum tem a mesma expressão facial.
A edição tem uma ótima introdução de Alexandre Meireles da Silva, que traça toda a trajetória da literatura popular até o surgimento dos pulp: das dime novels aos Penny dreadfull. Mostra também como esses heróis pulp foram a grande influência para o surgimento do super-homem e, por consequência, do gênero super-heróis.
Cada capítulo é escrito por um autor e foca em um herói pulp. A lista é grande: John Carter, Tarzan, Zorro, Buck Rogers, Gladiador, O sombra, Doc Savage, O Aranha, Besouro Verde, Olga Mesmer e Morcego Negro.
No geral, cada capítulo traz uma abordagem bem desenvolvida a respeito do personagem foco. Alguns capítulos pecam por trazer, de novo, o percurso da criação dos pulps, algo que já havia sido feito na introdução.
Outro problema é que os personagens mais famosos são justamente os que ocupam mais páginas. Faz sentido, já que personagens mais populares também têm mais material de pesquisa, mas para o leitor mediano, que já conhece um pouco do assunto, o interesse maior é pelos desconhecidos, como Olga Mesmer. Aliás, essa é uma personagem que me chamou muita atenção por uma série de fatores: era publicada nos pulps, mas vinha na forma de quadrinhos e talvez tenha sido a primeira super-heroina a surgir. E a heroína, com visão de raio x e super-força tem uma história totalmente bizarra, que parece ter saído de uma mente repleta de abissinto.
Também senti falta de imagens originais dos personagens.
Apesar de alguns pequenos problemas, o livro é uma leitura agradável e divertida, um livro fundamental para quem se interessa pelo tema. 

O homem que tentou convencer os médicos a lavarem as mãos

 


No início do século XIX era muito mais seguro para uma mulher ter o filho em casa ou até mesmo na rua do que dentro de um hospital. No Hospital Geral de Viena as mulheres imploravam para não terem seus filhos na ala atendida por médicos, onde o número de mortes era assustador.
Foi quando um jovem médico, Ignaz Semmelweis começou a se perguntar se tais óbitos poderiam ter algo a ver com o fato de que os médicos costumavam cortar cadáveres antes de realizar partos. Os médicos nem mesmo lavavam as mãos antes de uma cirurgia e costumavam ter orgulho de seus jalecos sujos de sangue. Semmelweis conseguiu convencer os médicos do Hospital Geral de Viena a lavarem as mãos antes de fazer os partos. Os resultados foram visíveis. Em abril de 1847, 57 mulheres haviam morrido dando à luz na maternidade. Em maio, quando os médicos começaram a lavar as mãos, só 6 mulheres morreram. Nos meses seguintes a taxa de mortes caiu a zero.
Era de se esperar que ele fosse tratado como herói, não? Não. Ele foi tratado como louco. Afinal, pelo que se acreditava na época, era impossível a mão de um médico estar suja e mais impossível ainda que essa sujeira pudesse contaminar um paciente. Um médico americano resumiu assim o senso comum da época: “As mãos de um médico não podem levar doenças porque um médico é um cavalheiro e as mãos de um cavalheiro estão sempre limpas”.
Semmelweis, até então uma estrela em ascensão, caiu em descrédito. Ele perdeu o emprego e foi vítima de uma campanha difamatória tão intensa que acabou ficando louco. Foi internado em um manicômio, espancado e morreu pouco depois.
A percepção de que a falta de higiene provocava as mortes das parturientes não era uma opinião. Era um fato. Tanto que as mortes simplesmente explodiram quando os médicos pararam de lavar as mãos. Mas mesmo assim esse fato foi rejeitado por aqueles que tinham uma “opinão diferente”.
Pode parecer que, um século e meio depois, nós evoluímos. Infelizmente não. Ainda hoje, há uma quantidade enorme de pessoas que não reconheceria um fato mesmo que ele lhe batesse na cara. Para essas pessoas, opiniões são mais importantes que fatos, um químico amador tem mais importância que um doutor em química e dezenas de pesquisas científicas não têm valor nenhum diante de uma mensagem de zap zap.
Se fosse vivo atualmente, Semmelweis provavelmente teria o mesmo fim.

O olho de Agamoto

 

Na foto acima com um colar com O olho de Agamoto, amuleto mágico das histórias do Dr. Estranho.
Essa é a nova versão, redesenhada para o filme, mas, pessoalmente, gostei bem mais que a versão original.
Nos quadrinhos, o amuleto é representado como um círculo com um olho dentro. É uma ideia interessante, mas simples e pouco estética.

O novo design remete diretamente às imagens geométricas psicodélicas criadas por Steve Ditko, co-criador do personagem. O próprio amuleto foi transformado no olho, enfeitado pelas figuras geométricas. Enfim, mais um dos acertos do ótimo filme.
Abaixo deixo vocês com uma imagem dos quadrinhos do Dr. Estranho que remete exatamente ao psicodelismo geométrico que caracterizava o personagem.

Zumbis Marvel

 


Marvel Zumbi é um dos volumes da coleção de graphics Marvel, da editora Salvat. A premissa parece uma piada nerd: e se os heróis da Marvel se transformassem em zumbis e começassem a devorar todas as pessoas que encontram pela frente. A ideia surgiu em uma história de Mark Millar, mas os editores da Marvel acharam que renderia uma minissérie. Para isso chamaram Robert Kirkman, já famoso por sua série Walking Dead, e o desenhista Sean Phillips. Além disso, Arthur Suydam ficou responsável pelas capas, recriando capas famosas da Marvel com temática zumbis.


As capas emoluvam algumas das mais famosas capas da Marvel. Esta faz referêcia às Guerras Secretas.


Como piada nerd, Marvel Zumbi poderia facilmente descambar em um caça-níqueis grosseiro e dispensável. A ótima equipe, no entanto, evitou que isso acontecesse. Para começar, o roteiro de Kirkman, baseado principalmente no humor ácido: do Magneto dizendo que espera que os heróis engasguem com sua carne à diferença dos sistemas digestivos entre o Hulk e Bruce Banner (imagine a quantidade comida que o Hulk come e imagine isso no estômago de Bruce Banner). 
O desenho de Philips funciona muito bem na história. 


Os diálogos são afinandos, a ação initerrupta, as viradas (tudo se complica mais ainda quando Galactus chega para devorar o planeta) fazem com que Marvel Zumbis seja lido de uma sentada. Acrescente a isso o ótimo desenho de Phillips (que realmente parece desenhar zumbis melhor que super-heróis convencionais) e as capas impagáveis.
O que fico me perguntando é o seguinte: será que uma propostas dessas iria em frente na DC?

Jornada nas Estrelas – O intruso

 

 

No último episódio exibido na série clássica de Jornada nas Estrelas, a Entreprise responde a um pedido de socorro de uma expedição arqueológica cujos membros estão contaminados por radiação. Entre as pessoas que estão entre a vida e a morte encontra-se a Dra. Janice Lester, que na juventude teve um relacionamento com James T. Kirk.

Quando os dois são deixados sozinhos, Janice prende Kirk em um equipamento que faz com que seu espírito troque de corpo com o capitão.

Uma vez na Enterprise, o Capitão, agora transformado na cientista, precisa provar sua identidade e evitar que a antiga namorada tome o controle da nave.

Parece confuso e é. Mas ótimas obras de ficção científica têm enredos igualmente inverossímeis. Mesmo Jornada tem episódios cujo enredo em um primeiro momento são difíceis de acreditar.

Acontece que na trama há diversos problemas, a começar pela cena em que os dois trocam de corpo. O roteiro exigia que fossem deixados sozinhos então, do nada, Spock afirma que encontrou uma forma de vida e todos saem em busca da mesma. Não faz o menor sentido, já que não há nenhuma busca por seres extraterrestres. Como depois a saída do grupo não é explicada, fica óbvio que era apenas um roteirismo: uma situação criada para que a trama se desenvolvesse.

Na mesma cena há outro problema de roteiro. À certa altura, Kirk para de conversar com a ex-namorada e resolve olhar o equipamento alienígena, sem razão nenhuma, o que dá a ela a oportunidade de colocar seu plano em prática. Não há nenhuma motivação real para ele fazer isso além da necessidade do roteiro.

O outro ponto é a motivação de Janice de se tornar uma capitã de nave estelar. É possível que o objetivo fosse denunciar machismo, mas como foi feito acaba sendo apenas sexista: Janice teve as mesmas oportunidades que Kirk e só não conseguiu por falta de méritos. Talvez o episódio funcionasse melhor com um personagem homem, até porque a relação entre Kirk e Janice é muito mal explorada e explicada.

Além disso, a atuação de Shatner é outro complicador. Embora o ator consiga imprimir uma característica diferente ao personagem, ele não tem nada de feminino. Aliás, algumas cenas em que o processo falha beiram o humor involuntário graças aos exageros de Shatner (eu particularmente gosto desses exageros em alguns episódios, mas não nesse).

O episódio inteiro acaba valendo pelas cenas do julgamento de Spock, uma vez que Janice, no corpo do Capitão, decide submetê-lo a uma corte marcial.

Ken Parker – Boston

 


No ano de 1997 eu estava no último ano do mestrado e fazia, durante as férias, a viagem de Curitiba para Macapá. Com dinheiro curto, avião nem pensar. Eram quatro dias de ônibus e um dia de navio. Numa dessas idas, encontrei num posto de gasolina uma edição encalhada de Ken Parker, da editora Best News.

Eu tinha lido alguns números emprestados da coleção do amigo Antonio Eder, mas nunca tinha comprado um exemplar. Claro, eu já esperava que fosse um quadrinho de qualidade, mas esse número foi muito além da minha expectativa, com uma história divertida, muito bem escrita e igualmente bem desenhada que me ajudou a passar o tempo durante a longa viagem.

A história conta com a participação especial de alguns dos mais famosos detetives da literatura.


A trama gira em torno de uma viagem de trem para Boston. Por alguma razão, alguém comprou uma passagem para cinco dos detetives mais famosos da literatura: Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Auguste Dupin, Ellery Queen e Philo Vance. Ocorre um crime. Um homem é morto e jogado do trem e cabe aos famosos detetives desvendarem o caso. Nesse meio tempo, encontram Ken Parker, que embarcou na locomotiva como clandestino.

O divertido da história é como cada detetive tenta desvendar o assassinato a partir do estilo que o tornou famoso, em referências diretas às suas histórias mais famosas. Vance, por exemplo, argumenta que o crime foi resultado de um intricado mecanismo. Dupin acredita que o assassinato foi executado por um gorila. Sherlock Holmes cria uma teoria envolvendo uma cobra. Ellery Queen cria uma intricada hipótese envolvendo códigos secretos. E Poirot acredita que todos estavam envolvidos no assassinato.

Milazzo alterna entre o traço realista e caricato.


É uma mistura de homenagem e sátira, com Ken Parker descartando cada uma das hipóteses, para finalmente revelar o que realmente está acontecendo – e, no final, a revelação de quem assassinou o homem é realmente surpreendente e irônica.

Milazzo brilha com seu traço expressivo, captando perfeitamente o clima da história. Quando é mostrada a versão de cada detetive, o traço muda para o caricato, captando perfeitamente as intenções do roteirista. 

domingo, março 29, 2026

Fundo do baú - Corrida Maluca

 


Corrida Maluca é uma série animada produzida pelo estúdio Hanna-barbera entre 1969 e 1968 num total de 34 episódios.

O que pouca gente sabe é que essa série é baseada num filme, A corrida do século, de 1965, dirigido por Blake Edwards. O filme acompanhava o egocêntrico O grande Leslie, que propõe aos construtores de veículos na virada do século XIX para o século XX uma corrida de Nova York a Paris, cruzando o estreito de Bering. Mas o bigodudo e diabólico Professor Fate está disposto a derrotar o galã usando de todos os meios sórdidos possíveis.

Entre os competidores estava Maggie DuBois, uma linda jornalista que luta esgrima e está muito à frente de seu tempo.

Corrida Maluca aproveita diretamente esses personagens. O Grande Leslie transformou-se em Peter Pefeito. O Professor Fate tornou-se o Dick Vigarista. O fiel escudeiro do professor Fate, Max Meen, deu origem ao cachorro Muttley, um cachorro louco por medalhas.

Já Maggie DuBois deu origem à mais carismática personagem da animação, Penélope Charmosa.

A trama de Corrida Maluca trata de várias corridas com os carros mais bizarros possíveis (incluindo um carro de pedra, pilotado por homens da caverna, um carro mal-assombrado e um carro pilotado por simpáticos gangesteres).

Em todas as competições, Dick Vigarista parece mais interessado em criar armadilhas para os outros competidores (que sempre dão errado) do que de fato ganhar a corrida. De fato, na maioria dos episódios ele está liderando por uma grande vantagem quando para no meio do caminho para montar uma das suas muitas armadilhas. Invariavelmente isso fazia com que ele terminasse em último lugar.

O sucesso da série fez com que o estúdio criasse duas outras animações derivadas, Os apuros de Penélope, focado na Penélope Charmosa e Dick Vigarista e Muttley. O primeiro mostrava Penélope como herdeira de uma grande fortuna sendo perseguida pelo vilão Tião Gavião e contando com o apoio da Quadrilha da Morte para protegê-la. O segundo mostrava Dick Vigarista perseguindo o pombo-correio Doodle, que levava mensagens para os aliados durante a I Guerra Mundial. 

Diário Marco Zero

 

 

No ano de 2001 um empresário de Macapá me pediu para editar um jornal para ele. Ele já tinha uma emissora de TV, uma rádio e queria um jornal impresso. Também contribuía para essa vontade o fato de uma gráfica ter uma dívida com ele. O resultado disso foi o Diário Marco Zero, um nome que ele já tinha registrado. Uma ironia, já que as edições eram semanais.

Era literalmente uma euquipe. Eu fazia tudo, do projeto gráfico à redação dos textos, passando pelas fotos. Para piorar, por alguma razão, a gráfica não aceitava arquivos em Page Maker, o programa usado à época para diagramar jornais, então tive que diagramar tudo no Corel Draw. Como na época todo jornal precisava ter uma sessão de horóscopo, tínhamos a da Morgana Le Frey. Claro que os textos eram escritos por mim – com previsões aleatórias.



No número Zero eu publiquei uma matéria sobre Pontal das Pedras, um balneário no caminho para Ferreira Gomes (que atualmente foi inundado pela represa). Todas as outras vezes que eu tinha ido lá, tinha sido muito bem atendido, mas da vez em que fiz a matéria foi diferente. Eles não só foram indiferentes, como até um pouquinho agressivos, como se uma matéria no jornal fosse de alguma forma prejudicá-los.

O meu xodó era o suplemento Marco Zero Kids na qual eu publicava quadrinhos e matérias sobre desenhos animados e outras voltadas para o público infantil. Era com esse suplemento que eu realmente me divertia.



Fazer um jornal sozinho, mesmo que semanal, era um esforço hercúleo, mas o que acabou mesmo com a publicação foi quando resolveram contratar um “jornalista” não formado para me auxiliar. Eu passava mais tempo tentando impedir que ele colocassem jabá no jornal do que de fato editando. Para quem não sabe, jabá é quando você recebe dinheiro para falar bem – ou mal de alguém (esse segundo caso mais problemático, pois, como assinava o jornal, eu poderia ser processado). A gota d´água aconteceu quando ele foi à gráfica de madrugada para mexer nos arquivos e introduzir um jabá.



A última notícia que tive desse “jornalista” foi quando ele usou o cargo em uma prefeitura do interior do Amapá para furar a fila da vacina contra covid e se imunizar junto com os profissionais de saúde, um escândalo nacional. Logo ele, que passava o dia fazendo publicações contra vacinas nas redes sociais.

ROM – Um herói nobre

 


Uma das características que fizeram com que ROM se tornasse tão popular entre os leitores foi a personalidade plasmada por Bill Mantlo. A nobreza de suas atitudes e pensamentos e o fato de ser alguém incompreendido pela humanidade faz com que ele lembre muito o Surfista Prateado, mas com características muito próprias, entre elas o fato de que ele também era movido pela vingança, o que deixava o personagem tridimensional.

Esses aspectos já estava muito bem demarcado na segunda aventura do personagem. Na história, ROM invade um laboratório onde espectros misturam tecnologia terrestre e alienígena. Ocorre que o labarotório estava sendo assaltado examente naquele momento, o que o coloca, inadevertidamente, em confronto com os bandidos.

Sal Buscema sabia fazer cenas de impacto. 


Na splash page de abertura, ele atravessa por uma claraboia, numa imagem grandiosa, que domina a página, e diz: “Eu vim caçar o mal! Eu vim executar a vingança!”. Mantlo já joga um gancho aí ao colocar um dos assaltantes tentando salvar o gerente da fábrica, que ele não sabe ser um espectro.

Bill Mantlo sabia trabalhar os ganchos. 


Mais à frente, ele visita Brandy Clark e é atacado pela polícia, que não se preocupa com o fato de que as balas estão ricocheteiam em seu corpo metálico e atingem o cachorro de Brandy. “Sua vida se esvai em meio à grama... ele está morto! Uma vítima inocente da presença dos espectros na terra. Esperava ser capaz de terminar essa guerra antes que a terra fosse assolada como meu amago planeta Galador foi uma vez”, diz ROM.

Um herói com as mais nobres características humanas. 


As duas falas, a do início e esta última se completam ao demonstrar a personalidade do herói. Honrado, mas vingativo, alguém que voluntariamente abdicou de sua humanidade para cumprir uma missão, mas permanece com as melhores características humanas. Uma fórmula que funcionou.

Destaque também para o desenho de sal buscema, que não só conseguia dar o adequado para o personagem como sabia, como ninguém fazer cenas de ação.

Emoji – O filme

 


Se há um filme do qual não se poderia esperar nada é Emoji, de Tony Leondis (2017). Afinal, os emojis são um símbolo da superficialidade e banalidade das redes sociais. Um filme sobre eles só poderia refletir essa banalidade.

Mas Emoji – o filme, surpreende, por levantar discussões profundas sobre essas mesmas redes sociais e sobre um mundo em que tudo é aparência. Mais ainda: é uma ótima reflexão sobre os papeis sociais assumidos pela pessoa em sociedade.

O protagonista é Gene, um emoji que deveria representar o “Eh”, a indiferença diante dos fatos. Mas Gene, ao contrário de outros emojis, é capaz de demonstrar diversas emoções. O envio de uma mensagem com Gene cria um desastre que poderá fazer com que o rapaz dono do celular resolva resetá-lo, o que provocaria a morte de todos os emojis.

Gene passa a ser caçado por robôs anti-vírus enviados pela vilã Sorridedente. No processo conhece a mãozinha do “Toca Aqui” e uma hacker chamada Rebelde, que pode “consertar” seu defeito, mas para isso eles precisam sobreviver aos ataques do robôs e chegar ao Dropbox.

Essa trama é usada para discutir como as pessoas se alinham aos papéis sociais mesmo que isso vá contra sua essência, algo que foi feito pelo pai de Gene. A sociedade espera que o protagonista seja indiferente, mas ele transborta emoções. Em sua jornada ele descobrirá como construir sua identidade fugindo do papel que a sociedade lhe impôs.

A saga de Gene é uma metáfora que reflete sobre as próprias redes sociais em que as pessoas criam personas para seus seguidores e muitas vezes guiam sua vida a partir dessa personas e do que se espera delas. A metáfora não é escancarada, mas tem várias pistas. À certa altura, por exemplo, Gene e Toca Aqui entram no Facebook e Gente comenta que o dono do celular tem muitos amigos, ao que a mãozinha responde que ele nem mesmo conhece essas pessoas: “o importante não é ter muitos amigos, mas ter muitas curtidas”.

Além disso, outra personagem importante, a Hacker Rebelde, também é alguém que está fugindo do papel social que lhe foi destinado.

Emoji consegue balancear essas reflexões com uma narrativa que agrada tanto adultos quanto crianças (meu neto adorou).

Superman - Eu nunca fui o Superboy

 

Quando John Byrne assumiu o título do Super-homem, ele reformulou o personagem e simplesmente tirou do universo do personagem suas contrapartes, como Superboy e Super-moça. Mas havia um problema: Superboy era essencial para o grupo Legião dos Super-heróis. Afinal, todo o grupo se estruturava em torno da idolatria ao superboy.

Para tentar explicar essa incongruência, Byrne fez uma história em duas partes publicada nos números 8 de Superman.

Na trama, o herói está em Pequenópolis em um encontro com seus pais e Lana Lang quando percebe que algo está acontecendo a pouca distância dali. Ao chegar lá depara-se com a nave da Legião e, sem querer, a ataca com sua visão de calor. Esse acidente leva a uma extensa batalha do Super-homem com a Legião que reverbera a experiência do autor com a Marvel – ao contrário da DC, em que todos eram amigos, na Marvel sempre que dois ou mais heróis se encontravam, eles sempre caíam na porrada.

Byrne recria a primeira história da Legião. 


Quando finalmente as coisas são esclarecidas, Lex Luthor começa a relembrar a relação deles com o Superboy – e Byrne recria, ponto a ponto, a primeira história da Legião, em que eles convidam Superboy para fazer parte da equipe, mas ele falha miservavelmente em todos os testes de admissão, o que era nada mais nada menos que um trote de calouro.

A narrativa prossegue até os dias atuais, quando Cósmico volta para o século XX, descobre que a história da terra não bate com tudo que conheciam (reflexo direto da reformulação feita por Byrne) e desconfiam que tudo é responsabilidade do Senhor do tempo.  A Legião tenta chegar à Cidadela dele, no final dos tempos, mas, misteriosamente, acabam indo parar em Pequenópolis, onde parte da equipe é atacada e aprisionada pelo Superboy. Os que escapam entram na nave, que volta para Pequenópolis, onde encontraram com o Super-homem.

O vilão explica a história para o leitor. 


Confuso? Muito. Para explicar esse imbróglio cronológico, Byrne inventa uma trama do Senhor do tempo que envolve até a criação de uma terra paralela – com direito ao próprio vilão explicando para o leitor tudo que está acontecendo, num tremendo bife. Aliás, o que não falta na história são bifes.

O que salvava Byrne é que a forma como ele narrava as histórias era tão agradável que o leitor simplesmente esquecia todos esses problemas e embarcava na trama. Seu traço elegante e sua narrativa visual limpa criavam uma espécie de pacto de verossimilhança com o leitor.

Em tempo: essa história foi publicada no Brasil em Super-powers 11, ocupando metade da revista. A outra metade era uma trama da Legião que continuava os acontecimentos da história anterior.