sexta-feira, outubro 20, 2006

O cofre (meu conto de Gógol)

Talvez poucos, ou realmente ninguém se lembre de uma velha funcionária da repartição de... chamada Elvira. De fato, mesmo que você tivesse ido à repartição, ainda assim, dificilmente teria reparado nela.
Durante oito horas diárias, ela ficava enfiada numa mesa empoeirada, carimbando centenas de papéis. Ao que parece, essa era sua única função importante.
Passaram-se os tempos, mudaram os governos, os gerentes, os diretores, mas Elvira permaneceu imutável em sua mesa escondida, carimbando papéis e ajeitando, de tempos em tempos, os óculos no nariz.
A origem de seu emprego se perdera no limbo. Não se sabia se era concursada ou se tivera, um dia, um pistolão. A verdade é que era uma criatura tão esquecível e seu salário tão insignificante que não se importavam de deixá-la lá.
Certo chefe, há muitos anos, reparara em Elvira. Perguntou-lhe o que fazia, quando tinha entrado ali – ao que ela não soube responder – e ficou indignado ao saber que sua única função era carimbar documentos. Decidiu, então, promovê-la a operadora da máquina de xerox.
Nada mais fácil. Bastava apertar alguns botões e pronto! Saiam cópias perfeitíssimas, como se fossem originais.
Teria sido muito, muito fácil, não fosse por um pequeno detalhe: Elvira era absolutamente incapaz para o trato humano.
Ela não dizia uma única palavra a quem quer que fosse e chorava copiosamente quando alguém apontava qualquer defeito no xerox, ou pedia uma Segunda cópia.
Por fim, os funcionários deixavam os documentos ali e saiam sem dar um pio. Elvira, ainda assim, atrapalhava-se: reduzia o que não era para ser reduzido, tirava 30/30 cópias de coisas absolutamente desnecessárias...
Diante do trabalho acumulado, o gerente desistiu. Devolveu Elvira para sua mesinha empoeirada e nunca mais se falou no assunto.
Não se sabe, ao certo, como recebera esse nome de Elvira. Sabe-se que fora criada por um tio depois que os pais morreram, ou a abandonaram. Antes que nascesse, haviam elaborado uma lista de 20 belíssimos nomes... todos masculinos! Como nascesse mulher e resmungasse muito, resolveram por-lhe o nome da avó, que se chamava Elvira.
É bom que o leitor saiba que o tio era um tipo esquisito, que bebia muito e se escondia das visitas.
Aceitara cuidar da menina porque não havia outro jeito e porque calculara mentalmente a economia que faria usando-a como empregada doméstica.
Assim, Elvira cresceu sem nunca Ter experimentado uma palavra de carinho ou de afeto. Acostumara-se a ser repreendida tanto por falar quanto por calar. E como calar era mais fácil, calava-se.
Nos últimos tempos, além da função de carimbar documentos, ganhara uma outra. Viera um novo gerente, que tinha uma esquisitice muito singular. Ele descobrira no porão um velho cofre e decidira que todos os documentos carimbados deveriam ser guardados nele antes de serem assinados.
Era de se ver o gosto com que examinava o cofre toda manhã. Esfregava as mãos e então punha-se a girar a tranca, soletrando mentalmente os números.
Finalmente, pegava os documentos, levava até sua mesa e os assinava, com um sorriso nos lábios.
Repetia esse ritual todos os dias e se sentia o mais importante dos homens quando o fazia. Costumava dizer que aqueles eram documentos importantíssimos e que era mesmo uma temeridade deixá-los assim, espalhados sobre a mesa, quando ladrões estavam por toda a parte...
Como não tinha qualquer outra função, além de carimbar, Elvira ficara responsável pelo cofre.
Tinha que carimbar os documentos e, depois, ao fim do dia, trancá-los no cofre. Essa foi sua desgraça.
Certo dia, quando voltava para casa, depois de quase duas horas de ônibus lotado, ela retirou a bolsa da chave ficou petrificada.
A revelação abateu seus pensamentos como um tiro: esquecera o cofre aberto! Como pudera ser tão imbecil?
Pensou em voltar. Controlou-se. Abriu a porta, entrou e despencou no sofá. Estava frita!!! Ficava imaginando a colossal reprimenda que receberia do chefe.
Mais! Muito mais! Seria despedida! Perderia a aposentadoria, a casa. Viu a velhice tranquila de seus sonhos se desfazendo diante de seus olhos.
Mas o que podia fazer? Nada! Agarrou-se à idéia de que chegaria antes do chefe para fechar o cofre... mas era impossível. O homem era o primeiro a chegar, e a primeira coisa que fazia era justamente examinar o seu querido cofre.
Levantou. Tomou um banho. Não tinha fome. Foi dormir sem comer. Já era tarde, então...
Sonhou com o tio. Ele lhe aparecia com os olhos vermelhos, um cheiro terrível de cerveja, o punho cerrado, ameaçando espancá-la. Dizia coisas horríveis, a saliva escapando da boca...
Elvira acordou assustada. Tentou dormir novamente. Não conseguia. Olhou para o relógio. Eram 22:40. Ainda havia ônibus. Talvez pudesse se levantar e ir até a repartição. Arranjaria um jeito de entrar e fecharia o cofre...
Tudo daria certo, ela voltaria para casa e terminaria a noite dormindo tranquilamente.
Voltou a deitar. Fechou os olhos. Não conciliava o sono. A imagem do tio aparecia-lhe diante dos olhos, misturada com a do cofre.
Levantou. Vestiu a primeira roupa que encontrou pela frente e saiu. Duas horas depois estava em frente ao prédio da repartição.
Andou à volta. Passou por um lado e por outro. Pensou em escalar a grade. Depois mudou de idéia. Talvez o melhor fosse pular o muro lateral, usando o muro do vizinho, menor, como degrau.
Ia se aproximando quando enorme avançou das sombras.
Elvira caiu na calçada, assustada com os latidos terríveis do cão.
Lembrou-se do tio. Sentou-se no meio-fio, desesperada. Não havia um meio de entrar, não havia um meio de fechar o cofre... estava tudo acabado: a casa, a aposentadoria, tudo!
Voltou para a parada.
Ficou lá, inerte, por mais de meia-hora, relembrando sua vida.
Nunca fora amada por ninguém. Nunca tivera namorados, ou mesmo alguém que lhe fizesse galanteios.
Todos os seus sonhos se resumiam à aposentadoria. Queria uma velhice tranquila e uma morte decente... um caixão simples, mas ornado com muitas flores.
Já passava de uma hora e não passava nenhum ônibus. Elvira resolveu andar a esmo. Foi quando começou a chover.
Andou, andou, andou por toda a noite, tiritando de frio e tossindo muito. Foi encontrada na manhã seguinte, caída numa vala e encolhida de frio.
Como não tivesse nenhum documento consigo, foi enterrada como indigente.
Na repartição, ninguém deu pela sua morte. Naquele dia havia uma agitação extraordinária. O gerente fora demitido e nem aparecera pela manhã. O novo chefe, a primeira coisa que fez foi mandar tirar todos os documentos do cofre e devolver o monstrengo ao porão. Ia comandando o trabalho, ao mesmo tempo em que dizia:
- Tirem essa coisa enferrujada daqui! Não quero trastes no meu escritório... E, além disso, de que serve esse cofre? Nem mesmo o fecham...

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2 comentários:

Der Traum disse...

Olá, professor!
É o Lincoln.
Ei, deixa eu te perguntar.
Você já leu uma série de quadrinhos japoneses chamada Éden?
Meu irmão tinha o troço aqui por casa, peguei uma e... acabei lendo todas (pelo menos as que foram publicadas, porque meu irmão disse que o autor surtou e parou de escrever). É uma história futurista num mundo pós-apocalíptico onde 85% da população da terra foi dizimada por conta de um vírus chamado falange, criado pelo homem na tentativa de construir uma arma biológica que transformaria homens em mutantes cibernéticos. O vírus, no entanto, transforma tudo em silício amorfo. O quadrinho tem de tudo! Conflitos étnicos, imperialismo tecnológico, guerrilha... já leu?
abração!

Gian Danton/Ivan Carlo disse...

Oi Lincoln,
Não li não. saiu no Brasil?