domingo, março 25, 2018

Lições literárias


Quando conheci Afonso, aos 14 anos, eu só tinha lido um livro, Aventuras de Xisto, de Lúcia Machado de Almeida. Afonso já  tinha lido todo Lobato, infantil e adulto, alguns livros de Freud e estava começando a ler Jung  em edições bonitas, encadernadas, que ornavam a sala de sua casa.
Essas  três coleções tinham história. Haviam pertencido ao seu padrinho, sargento do exército. Em plena ditadura, era um militar de esquerda. Um dia bateu na porta da família do afilhado com caixas repletas dessas coleções:
- Me descobriram. Eu vou sumir. Esses livros ficam de presente para o Afonso.
Nunca mais ouviram falar dele. Não se sabe se foi pego pelos órgãos de repressão, ou se fugiu para outro país.
Afonso tinha um ciúme atroz  desses volumes encadernado. Coisa de colecionador. Mostrava o que estava lendo, comentava, lia um trecho, mas não me deixava nem tocar no exemplar.
Talvez isso tenha aguçado minha curiosidade pela leitura.  Como não tinha livros em casa, tive que ir desbravando outros caminhos. Descobri os sebos e muitas vezes voltava a pé para casa, pois havia gastado o dinheiro da passagem com livros e gibis. 1984, de George Orwell, custou exatamente o valor de uma passagem de ônibus, depois de muito choro com o dono do sebo. Um outro livro que custou o preço exato de uma passagem de ônibus foi um volume argentino sobre história romana, com o qual não só aprendi sobre Roma, mas também comecei a dar os primeiros passos na língua espanhola.
Descobri também a biblioteca pública, em especial a seção circulante, que emprestava  livros. Pegava um livro por semana, religiosamente. Passava horas  olhando entre as estantes, lendo trechos, sorvendo um gostinho da obra. Na dúvida, levava Júlio Verne.  E nunca me arrependi. Entre os vários xodós, um exemplar de Viagem ao centro da terra com um texto  delicioso e ilustrações de um artista espanhol. Talvez  da mesma coleção (lembro que o ilustrador também era espanhol), um outro livro que me fascinou por seu intimismo: Robison Crusoe, um livro com um único personagem na maioria dos capítulos. E, claro, Lobato, mas esse eu emprestava pouco. Havia muitos livros dele em sebos e fui comprando um a um, muitos da mesma coleção encadernada em verde que eu via na casa do Afonso.
Na circulante havia um quadro onde eram colocadas pequenas resenhas escritas pelos leitores. Quando emprestei meu primeiro livro (um ótimo volume de contos de HG Wells), a bibliotecária sugeriu que eu escrevesse uma resenha para o quadro. Escrevi e na semana seguinte escrevi outra, e outra e outra, até que o quadro fosse totalmente tomado por resenhas de minha autoria.
Eu seguia também as sugestões da bibliotecária, algo muito útil para quem leu um livro por semana, por anos a fio. Meninos de engenho, de José Lins do Rego, foi dessa safra.
Ler era um prazer e, ao mesmo tempo, uma competição. Como na fábula do coelho e da tartaruga, eu largara muito atrás, mas queria vencer a corrida. Queria ler mais livros que o Afonso. Felizmente para mim, ele era como a tartaruga, lento para ler e preguiçoso para escrever. Aos 17 anos  eu já  tinha lido mais livros que ele, todos registrados em um caderno.
Além de, mesmo por vias tortas, me despertar o interesse pela leitura, Afonso, muito influenciado por Lobato, me ensinou uma grande lição: a propriedade no uso das  palavras.
No meio da  conversa ele soltava uma expressão que eu não conhecia e perguntava:
- Entendeu?
- Entendi, claro.
Ele  ralhava:
- Entendeu nada. Você nem sabe o que essa palavra significa.
Como eu negasse, ele me desafiava a definir o verdadeiro sentido da expressão.
Eu gaguejava, gaguejava, gaguejava, até que finalmente admitia ser era ignorante com relação àquele termo. 
Era humilhante, mas era  também uma lição: nunca finja entender de algo que não sabe  e, principalmente, nunca use palavras cujo significado não esteja muito claro para você.
Hoje vejo muitas pessoas  ansiosas por “falar difícil” usando expressões cujo significado desconhecem e penso: essas aí deveriam ter tido um amigo como o Afonso e um mestre como Lobato.  
Afonso passou anos se preparando nos melhores colégios, mas, mesmo com sua inteligência a e seu texto irrepreensível, não passou no vestibular. Foi para o Rio de Janeiro e nunca mais nos falamos. Era  época pré-internet e as minhas cartas levavam semanas para chegar e as respostas  às vezes  meses, até se esgotarem completamente. À moda de Carlota Joaquina, ele dizia que não queria levar nada de sua estada em Belém, nem mesmo os amigos.  A última notícia que tive dele é que tinha se envolvido com drogas e tinha abandonado dois curso de graduação, um deles de psicologia. Eu já trabalhava como jornalista  quando uma conhecida em comum me disse que ele ainda era sustentando pelos pais e não estava  estudando ou  trabalhando.

Mesmo com toda sua arrogância e egoísmo, Afonso despertou em mim o lado intelectual, o interesse pela leitura e o gosto por escrever de maneira clara.  Foram verdadeiras lições literárias. 

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