Nunca acreditei em elementais. Só mudei de opinião quando
visitei uma cidade da ilha de Marajó chamada Muaná.
Fui com a minha namorada na época e
atual esposa. Talvez caiba aqui uma palavrinha sobre o modo de vida na ilha de
Marajó. O que mais salta aos olhos é a importância do rio. Para as pessoas que
moram no interior, o rio é tudo: de fonte de alimentos a rua. Sim, rua! Para se
ir à casa do vizinho, não se vai por terra, mas pela água. Hoje todos têm voadeira
ou rabeta. Mas na época que se passa a história, todos usavam uma canoazinha
inconstante, que alguns chamam montaria ou cascinho.
Todos fazem suas casas na beira da água. Minha esposa me
contou que certa vez sua mãe brigou com uma vizinha que morava do outro lado do
rio. As duas postaram-se na ponta do trapiche e ficaram lá, gritando
impropérios uma para a outra. Para nós, seria como ter uma discussão com um
vizinho que mora a duas ruas de distância sem sair de casa.
Usando um casquinho, no qual eu
quase nunca conseguia me equilibrar, visitamos vários locais e conhecemos a
região próxima ao rio. Mas tinha ganas mesmo era de andar no meio da floresta.
Afinal, eu já estava mais do que acostumado a fazê-lo na mata do Utinga, em
Belém. Assim, munido de um facão, entrei na floresta.
Meu objetivo era encontrar um pé de
fruta (não me lembro realmente qual) que havíamos avistado à beira de uma
baixinha. Baixinha é como os caboclos chamam os pequenos riachos criados pela
cheia do rio. Verdadeiras veias que serpenteiam toda a mata, transformando-se
em valas de lodo quando a maré está baixa.
Não houve qualquer problema na ida,
embora eu fosse obrigado a atravessar uma parte bem densa da floresta e não
tivesse comigo uma bússula. Cheguei exatamente onde queria, o que não
surpreende, pois eu estava acostumado a andar na mata e sempre o fiz usando
apenas o sol, a beira do rio e as trilhas existentes para me orientar.
Infelizmente, o cacho estava vazio.
Algum animal se antecipara a mim na colheita das frutinhas. Era retornar.
Quando voltava, comecei a ouvir
passos atrás de mim. Quem quer que fosse, andava quando eu andava e parava
quando eu parava. Intrigado, dei o grito característico que os caboclos usam
para se cumprimentarem. Uma mistura de O com U muito agudo e forte. Pode
parecer pouco elegante, mas no meio da mata é a melhor maneira de se ter
certeza de que o outro ouvirá. Mas naquela ocasião, meus cumprimentos não foram
respondidos.
Tentei novamente, ainda mais forte.
Nada.
Continuei andando, e os passos atrás
de mim. Era bem audíveis. Não se tratava, por exemplo, de uma ilusão auditiva
provocada pelo vento nas folhas ou pelos galhos caídos. Não mesmo. Podia ouvir
perfeitamente os passos atrás de mim: poc poc poc... de vez em quando, podia
perceber uma madeira estalando, sinal claro de que alguém a pisara.
Parei novamente... e repeti o cumprimento. Nenhuma resposta.
Comecei a pensar, então, que poderia ser um porco. Os marajoaras têm o costume
de criar seus porcos soltos pela floresta. Todo dia, no final da tarde, os
suínos se reúnem para receber comida de seu dono, mas passam a maior parte do
dia na floresta, devorando coquinhos. De vez em quando um deles se torna
selvagem, dando ensejo para uma caçada com espingardas pica-pau.
Certo de que era um porco, pus-me a chamá-lo. Coisa curiosa
são as formas que o pessoal do interior usa para chamar porcos. Cada região tem
uma. Na ilha de Marajó, chama-se assim: cheine, cheine, cheine... pode parecer
nome de cowboy, mas funciona. Comigo, no entanto, não deu certo. Não era um
porco.
Enquanto chamava o porco, parei numa clareira com uma
mangueira muito grande. Continuei andando. Pelos meus cálculos, já devia estar
perto da casa e logo acabaria me livrando do meu perseguidor. Para minha
surpresa, não só não encontrei a casa, como voltei para o mesmo ponto: a
clareira com a mangueira! Fiquei apavorado. Eu nunca havia andado em círculos
em todos os anos de experiência na floresta! Além disso, para fazê-lo, eu
precisaria estar caminhando há horas. Eu havia voltado para o mesmo ponto em
poucos minutos! Para quem achava que estava indo em linha reta, era uma
constatação assustadora.
Lembrei imediatamente da lenda do curupira. Para os que não a
conhecem, o curupira é um menino de cabelos de fogo e pés voltados para trás.
Trata-se de um elemental da floresta, que faz com que se percam caçadores e
pessoas mal-intencionadas (na verdade, eu descobri depois que qualquer um que
entra na mata sem pedir permissão é considerado mal-intencionado). O curupira
tem também o poder de ilusão. Há uma história sobre um caçador que sempre
matava mais animais do que precisava, desrepeitando a natureza. Para
castigá-lo, o curupira fez com que ele, vendo sua mulher, pensasse que se
tratava de um bicho. Resultado: o caçador fez fogo e acabou matando a própria
esposa...
Todas essas histórias me vieram à mente naquele momento.
Então fiz a única coisa que não poderia ter feito: saí correndo pela mata.
Quando dei por mim, estava completamente perdido. Os passos já não me seguiam
mais.
A mata da região tinha uma
característica que dificultava em muito as coisas para mim. O chão era, na
maior parte, elameado. Nada de terra firme, na qual acabam se formando trilhas
nos locais por onde as pessoas passam com mais freqüência. Em certo ponto,
precisei atravessar uma baixinha que estava aparentemente seca. Quando dei o
primeiro passo, afundei até quase a cintura. A lama era tão espessa que
agarrava meu tênis, tirando-o do pé. Isso me atrasava, pois eu tinha de voltar
para pegá-lo. Andar sem tênis, nem pensar.
Já em terra firme, pensei em seguir
uma baixinha, mas eu sempre as encontrava pelo meio e, como ainda não começara
a cheia, não sabia para que lado ficava o rio. Outro problema é que, em certas
regiões mais estreitas da ilha, as baixinhas poderiam até varar de um lado a
outro.
O jeito era gritar e andar. Fiz isso
até que ficasse rouco e meus pés já não me agüentassem em pé. O pior de tudo é
que o dia já ia terminando. A perspectiva de passar a noite na floresta
sozinho, enlameado, sem fogo, e apenas com um facão era assustadora demais para
ser sequer cogitada. Eu não iria querer isso nem para o meu pior inimigo. A
floresta de dia é uma espécie de paraíso silvestre, um local onde reencontramos
nossa essência, um local em que entramos em contato com a natureza no seu
estado mais puro... mas a floresta de noite é um inferno capaz de fazer
Rousseau mudar de idéia e ansiar desesperadamente para o conforto de uma casa
com todas as comodidades modernas. Há os insetos. Todos eles saem de noite para
se alimentar do primeiro bobalhão com a pele descoberta que puderem encontrar.
E existem insetos que nem merece esse nome, pois são enormes, verdadeiros
monstros. Além deles, todos os animais carnívoros saem de noite para caçar. E
havia também aquilo que não podia ser nomeado, as criaturas da noite, que não
existem para a nossa realidade cartesiana, mas são perigosamente reais quando o
manto negro cai sobre as árvores. E, quando se está na floresta, a noite cai de
repente, sem qualquer aviso. Num momento é dia e no outro é a mais negra noite.
Estava já quase desistindo e me
conformando com minha má sorte quando ouvi vozes. Vozes humanas. Comecei a
gritar para chamar a atenção de quem quer que fosse, enquanto me aproximava da
origem do som. Então percebi que as pessoas estavam do outro lado de uma
baixinha. Uma, aliás, que nem merecia esse nome: era enorme.
Impossível de atravessar como eu
fizera com a outra. Comecei a percorrer a beira até encontrar uma árvore caída
que servia de ponte. Quase caí, mas cheguei do outro lado. Depois de muita
procura, encontrei um casal de caboclos com filhinha. Contei para eles minha
história.
- Nós estamos indo catar açaí. –
informou o homem. Espere aqui, que depois a gente te leva pra casa.
Sentei numa árvore caída e esperei.
Esperei. Esperei e esperei. O tempo passou e nada deles aparecerem. Uma idéia
idiota, aterrorizante, passou por minha mente: e se não existissem nem o homem,
nem a mulher, nem a criança? E se fosse tudo uma ilusão provocada pelo
curupira?
O tempo passava e eu me sentia cada
vez mais angustiado. O pensamento terrível aparecia de tempos em tempos, mas eu
o afastava, como quem espanta um mosquito.
Finalmente, ouvi barulho de vozes. Os três apareceram,
trazendo cachos de açaí. Enquanto me levavam para sua casa, eles me informaram
que eu havia atravessado de um lado a outro da ilha. Também disseram que, pelo
caminho que ia, acabaria chegando no mangue e, provavelmente, seria obrigado a
passar a noite lá.
- O mangue é um lugar terrível para
se andar. – comentou o homem.
Realmente, além do solo enlameado,
essa região tem uma vegetação característica, composta de capim navalha (que
corta a pele ao menor contato) e plantas espinhosas.
No final, voltamos para a casa do
meu sogro da maneira mais rápida: de canoa. A maré estava cheia, o que nos
permitiu atravessar por uma baixinha que ia de um lado a outro da ilha. Caso
contrário, teríamos que contornar a ilha, o que levaria horas.
Quando contei o que me acontecera,
meu sogro não só não duvidou de minha palavra, como ainda aconselhou:
- Não se entra na mata sem pedir
permissão.
(Ilustração do amigo Romahs)

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