sexta-feira, fevereiro 16, 2024

Handmaid´s Tale

 

Já faz algum tempo que as séries ultrapassaram o cinema americano em termos de qualidade, em especial de roteiro. Seriados como Black Mirror, Mindhunter e Black são exemplo disso. Em uma constelação de séries tão boas atualmente em exibição, Handmaid´s tale já se firma como uma das melhores. 
Adaptado do livro de Margaret Atwood, a série mostra uma distopia na qual os EUA foram dominados por cristãos fundamentalistas. Na história, as mulheres férteis são feitas prisioneiras e transformadas em árias, cuja função é conceber os filhos dos comandantes da sociedade (na história a maioria da população ficou estéril após um acidente em uma usina nuclear). 
Handmaid´s tales é um daqueles poucos exemplos em que a adaptação superou a obra original. O livro de Atwood é todo narrado por uma aia, cuja visão de mundo é limitada à casa na qual é praticamente prisioneira. O seriado extrapola essa prisão, mostrando o mundo como um todo de forma absolutamente coerente com a obra original. Mostra ainda como essa sociedade se estruturou desde o início, como as mulheres foram sendo afastadas de qualquer forma de poder - inclusive sendo proibidas de ler, já que informação é poder. 
A decisão de transformar a esposa do comandante, Serena Joy, em uma escritora de sucesso cujas ideias tiveram impacto sobre a configuração da distopia foi um dos grandes acertos - no livro ela é uma ex-apresentadora de TV. A ironia que surge daí - alguém cujas ideias ajudaram a conceber uma sociedade que tirou boa parte de seus direitos - é bem explorada no seriado. A relação dela com a aia também acabou se mostrando mais complexa no seriado - da ternura à tirania. 
Enfim, Handmaid´s tale é fundamental pelo roteiro inteligente, pela direção competente (que se aproveita continuamente da roupa das aiais como elemento estético às vezes de beleza, às vezes de tristeza, às vezes de rebeldia). E mais fundamental ainda pelas questões que levanta: estamos de fato tão distantes assim de tal distopia?

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