quarta-feira, dezembro 31, 2025

As duas formas de meditação budista

 


No budismo existem duas formas básicas de meditação.

A primeira delas é a Samatha, também chamada de meditação da tranquilidade, ou meditação dirigida. Esse tipo de meditação é focada em algo, sejam sons, mantras, um objeto, um pequeno texto, uma mensagem que pode ser dita antes ou durante a meditação e até frases/desejos a serem repetidas mentalmente. Esse tipo de meditação conduz à calma e à tranquilidade.

A meditação Samatha já existia muito antes do budismo, e o próprio Buda Shakyamuni a praticou diversas vezes sob a orientação de diversos mestres. Com o tempo, no entanto, Buda percebeu que, embora trouxesse felicidade, era uma felicidade momentânea. Além disso, embora meditasse dessa forma continuamente, ele não conseguia alcançar o estado de iluminação/nirvana.

Esse estado só foi alcançado com um novo tipo de meditação, chamado de Samadhi, ou meditação da atenção plena.

Essa meditação é tão importante para a prática budista que mereceu um sutra apenas para ela, o Satiphattana Sutra. “Este é o caminho para a purificação dos seres, para superar a tristeza e a lamentação, para o desaparecimento da dor e da angústia, para alcançar o caminho verdadeiro, para a realização do nirvana”, diz o sutra.

E no que consiste esse tipo de meditação? Essencialmente, ele é um treinamento para que foquemos no aqui agora, no momento presente, de modo que estejamos totalmente conscientes, despertos para o momento presente, vigilantes a tudo que fazemos e pensamos.

Isso foi resumido no famoso verso do Buda Shakiamuni:

“Não corra atrás do passado

Não busques o futuro

O passado passou

O futuro ainda não chegou.

Vê, claramente, diante de ti, o Agora.

Quando o tiveres encontrado,

Viverás o tranquilo e imperturbável estado mental”

Na maioria das vezes vivemos na ignorância da realidade que nos cerca, num mundo de ilusão que nos fazer sermos dominados pelo apego. Como resultado vivemos uma vida de ódio, desespero, negação, lamentação.

“Somente vivendo com plenitude o momento que passa, conscientes de todas as vivências, será possível seguir o conselho de todos os Budas: Evitar o mal, fazer o bem e purificar a mente”, afirmam Georges da Silva e Rita Homenko no livro livro Budismo, psicologia do autoconhecimento.

E como é feita essa meditação?

“Dirigindo-se à floresta, ou à sombra de uma árvore, ou a um local isolado, senta-se com as pernas cruzadas, mantém o corpo ereto estabelecendo a plena atenção à sua frente, inspira com plena atenção justa, expira com atenção justa. Inspirando ele compreende: Inspiração. Expirando ele compreende: expiração”, ensina o Satipattahana Sutra.

Em outras palavras, a meditação é feita com o foco na atenção plena à respiração. Sinta o ar entrando e o ar saindo dos pulmões. Para isso, como ensina o sutra, ajuda muito pensar em marcas mentais, como entrando, saindo ou inspira/expira.

“Quando meditamos, devemos fazê-lo com a mais despreocupada das intenções, com a naturalidade de um descanso à sombra de uma árvore depois de uma longa caminhada. Sem intenções, sem medos nem pressa, ficaremos apenas como observadores da nossa mente e do nosso corpo, sem aversão ou apego à sensações ou pensamentos agradáveis, desagradáveis ou indiferentes que nela apareçam”, explicam Georges da Silva e Rita Homenko.

Ou seja, apenas observamos nossa mente e nossos pensamentos, assim como nosso corpo e nossas sensações, como um expectador no teatro. Com o tempo nos tornamos cada vez mais conscientes com relação a esses pensamentos e sensações.

Buda aconselha atenção aos quatro fundamentos da doutrina da atenção plena: atenção ao corpo (respiração, postura, movimentos); atenção às sensações (agradáveis, desagradáveis, indiferentes); atenção à mente e aos estados mentais (desejo, apego, sono, raiva, tristeza); atenção ao Dharma (a verdade sobre o nosso ser).  

Impossibilidades quadrinísticas

 

           De vez em quando eu penso em coisas improváveis... como uma antologia poética do Hulk. O prefácio, claro, seria do doutor Bruce Banner, e seria mais ou menos assim:  “Confesso que estranhei o convite desse amável e desconhecido senhor de prefaciar seus contundentes poemas. Na verdade, embora sempre estejamos nos mesmos locais, nunca tivemos a oportunidade de nos encontrar. Até porque... aughh grooowh gaarrhhh... Onde estão homenzinhos? Hulk esmaga!”
            Mesmo ameaçando bater em quem não comprasse seus livros, o gigante verde não venderia muito. Afinal, seus versos seriam sofríveis:
            “Hulk esmaga!
            Até creme de batata!”

            O Thor escreveria romances policiais. Também não daria certo. Muito papo e pouca ação:
            “Então sois vós o assassino ou éreis aqueles de quem não desconfiávamos? Quiçá o mordomo?”
            O Coisa, por outro lado, daria um ótimo comentarista político:
            “Quer saber? Está na hora do pau!”

            O Super-homem viraria garoto propaganda das companhias aéreas: “Para o alto e avante!”. Mas no Brasil seria processado por propaganda enganosa.
            Preciso parar de pensar nessas coisas, ou nunca serei contratado pela Marvel. 

RRR – Revolta, rebelião, revolução

 


RRR – Revolta, rebelião, revolução, filme de S. S. Rajamouli, inverte uma imagem comum no cinema, na literatura e na cultura em geral. Na maioria do imaginário ocidental, os indianos eram homens pequenos, magros, fracos, subservientes aos colonizadores britânicos, superiores a eles não só intelectualmente, mas também fisicamente.

Uma das primeiras cenas já quebra logo de cara com essa imagem. Rebeldes estão cercando um quartel e um deles atira uma pedra e quebra o quadro de uma autoridade. O responsável pelo local ordena: prendam esse infeliz e tragam ele aqui, uma ordem que parece totalmente absurda, como podemos ver pelos olhares assustados dos soldados ingleses. Mas um dos soldados indianos pula para fora das cercas e, enfrentando uma multidão não só consegue sobreviver como ainda trazer o homem preso. Em outra sequência, vemos um homem na floresta caçando um tigre e o faz usando principalmente sua força.

Essas duas sequências mostram os dois personagens da história, Alluri Sitarama Raju e Komaram Bheem, dois personagens históricos da resistência indiana ao domínio britânico. Os dois nunca se conheceram na vida real, mas lendo sobre eles o diretor imaginou o que aconteceria se eles se tornassem amigos. Mas os personagens do filme não têm nada de real. Eles são antes um símbolo da superioridade hindu sobre os invasores britânicos (vistos como fracos ou simplesmente vilões maquiavélicos). Isso se reflete até mesmo numa cena de musical (um filme de Bollywood sem musical não é um filme de Bollywood) em que eles impõem uma música indiana a uma festa britânica e começam uma disputa de resistência na qual os ingleses são vergonhosamente derrotados.   

A trama é relativamente simples, mas encontra camadas de complexidade, principalmente em decorrência dos flash backs, que muitas vezes modificam o significado dos acontecimentos: Komaram Bheem, disfarçado, tenta resgatar uma menina sequestrada pelo governador britânico e A. Rama Raju é destacado pela polícia para prendê-lo. Mas, quando os dois salvam um menino da morte, acabam se tornando amigos, sem saber a identidade um do outro.

RRR se destaca principalmente pela direção alucinante, com cortes muito rápidos, pelos efeitos especiais e pelas cenas de luta, tão mirabolantes que fazem Rambo III parecer um documentário.

Em uma das cenas finais, um dos protagonistas volta para sua aldeia levando um barco repleto de armas que serão usadas contra o domínio britânico. Ironia das ironias, já que a Índia só se tornou independente graças ao ativismo pacifista de Mahatma Gandhi.

Tropa Alfa – A morte do Guardião

 

 

Embora os primeiros números da Tropa Alfa fossem interessantes, parecia sempre faltar algo para um grupo que se pretendia grandioso.

Isso só vai se estabelecer de fato no número 12 da série.

Na história, o Guardião é aprisionado, assim como sua esposa, por um antigo inimigo. Jerome Jaxon. Ele era o chefe de James Hudson na Petrofuturo e, quando este sumiu com o capacete cibernético que depois iria usar no traje do Guardião, a culpa recaiu sobre o seu imediato. Jaxon foi demitido, a esposa o abandonou. Sua decadência foi tamanha que ele chegou a tentar suicídio. Sobreviveu, mas ficou preso a uma cadeira de rodas. Seu objetivo de vida passou a ser unicamente se vingar de quem tinha sido responsável por toda a sua desgraça.

Alguns vilões são interessantes, com destaque para o Flashback. 


Jaxon reúne um grupo de personagens poderosos com o objetivo de efetuar sua vingança. Quando o Guardião envia uma mensagem pedindo a ajuda da Tropa Alfa, temos o embate entre os dois grupos, em um momento de fato memorável.

Entre os vilões há alguns interessantes, que fogem dos poderes comuns dos super-heróis. Flash back, por exemplo, é uma pessoa capaz de acessar versões de si mesmo no futuro. É uma espécie de homem-múltiplo temporal.

Nem tudo são flores na relação entre os membros da Tropa. 


A história tem também bons momentos de interação entre os heróis. O embate entre Sasquatch e Estrela Polar é um deles e faz lembrar as escaramuças entre Wolverine e Cíclope nos X-men. Byrne aproveita um gancho que já tinha sido lançado nos números anteriores, o de que Sasquatch tem um lado selvagem que pode se tornar incontrolável.

Da parte dos vilões, entretanto, falta profundidade. Não sabemos quase nada dos integrantes do grupo (exceto uma sequência de cinco quadros que apresenta os poderes de cada um) e não temos a menor ideia da motivação deles ao embarcarem nessa jornada de vingança. Também é estranho como Jaxon consegue sair da condição de mendigo para executivo de uma grande empresa.

O embate entre as duas equipes é um dos grandes momentos da série. 


Embora o grande momento da história seja a morte do Guardião, ela é totalmente pueril, um verdadeiro anticlímax, pois ocorre depois que a batalha tinha acabado, em total contraste com as dramáticas mortes dos heróis de quadrinhos até então, a exemplo da Fênix. Talvez por isso, essa morte teve um grande impacto sobre os leitores à época. 

Luke Cage e Punhos de ferro de Chris Claremont e John Byrne

 

Chris Claremont e John Byrne são conhecidos por todos os fãs dos X-men. A fase deles nos mutantes foi o momento mais importante dos personagens e transformou o título no mais vendido da Marvel. Mas a dupla tem também uma pequena, mas memorável passagem por um outro título, este sobre uma dupla: Luke Cage e Punhos de ferro. A ideia de juntar os dois títulos parece bizarra, mas fazia sentido como forma de salvar os dois heróis do ostracismo. Com o fim da moda do blaxploitation e de artes marciais, as vendas dos títulos solos haviam caído consideravelmente. A solução foi unir os dois heróis na revista Luke Cage 48 e 49 (no número 50 a revista mudaria de título para incluir os dois personagens) e ver se dava liga. Deu. 
A primeira história já dava o tom da série. 


Embora fossem personagens muito diferentes, tanto do ponto de vista de personalidade quanto de físico (Luke Cage era grandalhão enquanto Punhos de ferro era esguio) ou talvez por isso mesmo, eles formaram uma bela equipe juntamente com as garotas Misty Knight e Collen Wing. A primeira históira da dupla já dava o tom da série. Na splash page de abertura, Cage arromba uma porta para espanto de Collen Wing. Segue-se uma frenética perseguição pela casa, que se torna uma luta generalizada quando Misty Knight e Punhos de ferro chegam. Byrne sabia explorar as cenas de ação com sequencias bem elaboradas, trocas de ângulos, onomatopeias estrondosas. A sequência em que Luke recebe um soco de Punhos de ferro é realmente empolgante e tem o dinamismo de um Jack Kirby. Já Claremont sabia dar profundidade e motivação para os personagens mesmo no ápice da ação. Os artistas, assim como os personagens, conseguiam formar uma dupla perfeita. 
Byrne era ótimo nas sequências de ação. Claremont caprichava nos diálogos. 



Conforme se desenrola a história, descobrimos que Cage não se tornou maligno: um vilão sequestrou sua namorada e seu amigo cientista e o obrigou a sequestrar Misty Knight, o que fora a motivação da trama. No final, o quarteto consegue não só libertar os dois prisioneiros, como recuperam uma fita de vídeo que prova que Luke Cage é inocente da acusação de tráfico. A partir daí, Luke e Punho se tornam amigos e parceiros. No Brasil, as aventuras deles eram publicadas em Heróis da TV. Em tempo: os dois participaram de uma divertidíssima história do Demolidor de Frank Miller em que são contratados para protegerem Matt Murdock, mas são tapeados por ele o tempo todo.

Agulha Hipodérmica – o poder e os efeitos dos meios de comunicação de massa

 

Em 2002 eu organizei a coletânea Agulha Hipodérmica – o poder e os efeitos dos meios de comunicação de massa com vários artigos de pesquisadores brasileiros.
A teoria hipodérmica foi a primeira teoria da comunicação – e partia do princípio de que a mídia tinha poder absoluto sobre as pessoas, injetando seus conteúdos diretamente no cérebro da audiência.
Era influenciada pela experiência de Pavolv com um cachorro. O cientista russo percebeu que se tocasse uma sineta toda vez que dava comida ao cão o estímulo sineta era associado à comida e, depois de algum tempo, o simples som da sineta provocava a salivação. Isso gerou o esquema Estímulo-resposta, aplicado à comunicação com os teóricos defensores da teoria hipodérmica.
Embora esta seja a teoria mais antiga no campo da comunicação, este foi o primeiro livro exclusivamente sobre o assunto lançado no Brasil.

Gian - Bené - Como nasceu a parceria

 

Eu e Bené Nascimento nos conhecemos muito antes de sabermos que um fazia quadrinhos e outro era um fã querendo se tornar um roteirista. Nosso primeiro encontro se deu no ônibus, num sábado à tarde, enquanto eu ia para o cursinho Cearense e Bené rumava para o cursinho Rutenford (Bené passou com uma ótima colocação no curso de artes, mas abandonou a universidade).

Sentamos lado a lado e naquele primeiro encontro falamos sobre tudo, menos sobre quadrinhos.

Eu só fui saber que aquela pessoa com a qual havia conversado era um desenhista de quadrinhos em 1989, quando já havia passado no vestibular para comunicação. Estávamos na época realizando um trabalho sobre meios de comunicação de massa e nossa equipe, formada quase que só por fãs da nona arte, se apressou em pegar os quadrinhos. Procurávamos alguém que produzisse HQs para entrevistar quando um dos colegas nos mostrou uma matéria do jornal O Liberal com Bené, com o vergonhoso título “Tudo começou com o Mestre do Kung fu”. O jornalista se aproveitou de que o Bené lera essa revista e ignorou completamente o fato de que o trabalho de Jack Kirby no Thor havia sido uma influência muito mais robusta na sua decisão de ser quadrinista.

Bené conta que quando viu pela primeira vez um gibi do Thor da editora Bloch correu para a mãe, afoito para informá-la de que um dia ia se tornar desenhista de quadrinhos e ia desenhar o Thor, ao que a mãe respondeu com uma risada: “Esse menino está doido!”.

Pois bem, lá estávamos nós, com a matéria de jornal nas mãos, deslumbrados com o fato de que Belém abrigava um desenhista que já publicara em uma editora nacional. Só faltava descobrir como achá-lo. Chegamos a pensar em ir até o jornal procurar o jornalista que o entrevistara e verificar se ele ainda tinha o contato quando alguém nos informou:

- Esse é o Bené. Ele estuda na sala ao lado.

Fui procurá-lo para uma entrevista... e naquele dia nenhum de nós assistiu uma única aula. Passamos a tarde inteira no corredor, conversando sobre quadrinhos. No final, o Bené me perguntou se gostaria de fazer com ele um fanzine.

Assim nasceu o Crash!, provavelmente o primeiro fanzine paraense dedicado exclusivamente aos quadrinhos.

A arte empolgante de Bruce Timm

 



Bruce Timm começou sua carreira na década de 1970 fazendo layouts de séries animadas da Filmation, como Flash Gordon, He-man e She-Ra. Pouco depois ele tentou trabalhar para a Marvel e DC, sem sucesso. Em 1989 ele entrou para a divisão de animação da Warner Bross e trabalhou em Tiny Toon Adventures.

Mas o grande sucesso, o trabalho pelo qual ele seria conhecido e reconhecido, viria em 1992: Batman, a série animada. Essa animação revolucionou a forma como os super-heróis eram mostrados na telinha, com desenhos simples, dinâmicos e expressivos, e roteiros que aprofundavam os personagens.

O sucesso da série do Batman levou à criação da série do Superman, Liga da Justiça e Liga da Justiça sem limites, um projeto impressionante que reuniu quase todos os personagens da DC.

O sucesso dessas séries foi tão grande que a DC lançou revistas em quadrinhos baseadas nos seriados com artistas imitando o traço de Bruce Timm.

Não bastasse sua impressionante atuação nas animações, Timm também produziu quadrinhos premiados, incluindo história da Arlequina, personagem criada por ele para o desenho do Batman. 











Características do autismo

 


Algumas pessoas têm me perguntado como se pode identificar se alguém tem autismo. Antes de mais nada é importante lembrar que há uma grande variedade de autistas, com características diferentes, daí a denominação espectro. Por exemplo, embora a maioria dos autistas seja do tipo calado, alguns podem ser muito falantes. Outro aspecto a se considerar é que, conforme o autista vai crescendo, vai aprendendo a mascarar os sintomas do autismo, de modo que essas características se tornam menos visíveis, daí porque é mais fácil o diagnóstico em crianças. Aliás, diagnosticar já na infância e iniciar logo o tratamento pode ser muito útil e evitar muitas dores de cabeça. Entretanto, é bom lembrar que apenas um sinal não significa que a pessoa seja autista. A pessoa pode simplesmente ser tímida e até pessoas neurotípicas podem não gostar de ambientes barulhentos. O que vai diagnosticar o TEA é um conjunto de características.

Dito isso, vamos a algumas características:

Dificuldade social – Autistas têm dificuldade com convenções sociais e percepção social, como expressões faciais ou corporais. A maioria das pessoas sabe como se comportar, por exemplo, quando é apresentada a uma pessoa desconhecida, mas isso pode ser um desafio para um autista: deve-se apertar a mão, abraçar, dar beijos, quantos beijos? Pessoas neurotípicas sabem exatamente o que fazer em cada situação, de acordo com a pessoa que é apresentada, autistas não, o que pode gerar stress. Como consequência, interações sociais podem ser cansativas para autistas, razão pela qual a maioria prefere ficar sozinho. Aliás, enquanto a maioria das pessoas foge da solidão, a maioria dos autistas prefere a solidão. Um outro fator de stress é a dificuldade de interação. Eu, por exemplo, simplesmente não sei como “puxar assunto” com uma pessoa desconhecida, até pela dificuldade de perceber se a pessoa está interessada na conversa ou não.

Comunicação verbal - Muitos autistas têm dificuldade de desenvolvimento verbal e só aprendem a falar com uma idade avençada. Mas mesmo aqueles que já desenvolveram fala podem ter dificuldade de se expressar oralmente, daí porque telefonemas são sempre uma situação de stress. Eu, quando preciso fazer uma ligação, muitas vezes passo um longo tempo me preparando. Essa dificuldade de comunicação faz com que os autistas prefiram mensagens escritas.  

Hiper-foco – Esse talvez seja o aspecto mais visível do autismo. Até autistas do tipo calado podem passar horas falando se o assunto for o seu hiper-foco. Esse hiper-foco pode ser desde um time de futebol até locomotivas ou países, suas capitais e bandeiras. Na ficção temos, por exemplo, o seriado Uma advogada extraordinária, na qual a protagonista aproveita qualquer oportunidade para falar de baleias. O que a ficção não mostra é que, além do hiper-foco principal, os autistas têm hiper-focos flutuantes, menores. Aliás, um autista só consegue produzir se estiver em hiper-foco. Eu, se tenho apenas meia hora livre e preciso escrever um texto, nem começo a escrever, pois normalmente meia-hora é o tempo que levo para entrar em hiper-foco. Uma vez no hiper-foco, ele pode durar horas, dias, meses. Quando começo a preparar aulas de uma determinada disciplina, eu simplesmente não consigo pensar em outra disciplina – o foco é apenas naquela. Quando estava escrevendo meus livro Cabanagem e Mazagão eu chegava a sonhar com os personagens, a trama, a ambientação, tal ponto era o hiper-foco. O hiper-foco, aliás, pode ser uma atividade física ou artesanal. Uma vez passei um mês hiper-focado em restaurar uma estante coroída por cupins. Todo tempo livre que eu tinha era dedicado a essa tarefa. Embora o hiper-foco muitas vezes seja um problema, ele pode ter seu ponto positivo: na época do meu doutorado eu estava tão hiper-focado que cheguei a escrever 15 páginas da tese em um único dia. Uma dica para neurotípicos: quando um autista estiver em hiper-foco, respeite. Já tive vários textos que ficaram pela metade porque alguém me interrompeu e eu nunca mais consegui terminar.

Hiper-sensibilidade A maioria dos autistas tem hiper-sensibilidade a ambientes barulhentos. Pode parecer simplesmente uma implicância, mas não é. O incômodo é tão grande que alguns podem ter crises. No meu caso, começa com dor de cabeça e, dependendo do volume e do tempo de exposição, pode evoluir para ânsia de vômito. Outra hiper-sensibidade comum é tátil. Roupas apertadas, etiquetas, tudo incomoda. Alguns têm hiper-sensiblidade de paladar – se não gostam de um determinado tempero, podem sentir eles na comida, mesmo em quantidades mínimas. É comum que autistas tenham hiper-sensiblidade a alguns sentidos e hipo-sensiblidade a outros. Eu, por exemplo, tenho pouca sensibilidade no paladar – minha esposa diz que para eu perceber que uma comida está estragada, ela tem que estar realmente podre.

Estereotipias – Uma imagem que muitas pessoas têm dos autistas é de uma pessoa sacudindo as mãos à frente do peito. Mas esses gestos repetitivos podem ser menos óbvios, especialmente quando um autista aprende a mascarar, mas podem ser percebidas por um olhar atento. Eu comecei a investigar o autismo depois de uma palestra. Uma das pessoas da plateia me perguntou se eu era autista depois de identificar que eu fazia gestos repetitivos durante a minha fala. As estereotipias podem ser um balançar do corpo, um gesto com as mãos, ou até mexer em um objeto. Uma estereotipia comum no meu caso é abrir e fechar tampas de canetas. Depois de atrapalhar várias reuniões com tampas de canetas que voavam no meio da sala, passei a evitar canetas com tampas nessas ocasiões. Em crianças autistas é muito comum andar na ponta dos pés. As estereotipias são uma forma de autorregulação para pessoas com TEA, ajudando-as a lidar com estímulos sensoriais, ansiedade etc.

Olhar Autistas evitam olhar diretamente nos olhos dos interlocutores. Adultos com TEA podem aprender a mascarar esse aspecto, mas de alguma forma isso vai continua aparecendo, de forma menos visível. Minha esposa, por exemplo, reclamava que nas fotos o meu olhar quase sempre estava em outra direção, e não na direção de quem estava tirando a foto. Só fui entender o porquê disso depois do diagnóstico.

Saudades – Esse foi um dos aspectos que mais me surpreenderam quando fazia a investigação para diagnóstico de TEA. Eu percebi que não só não sinto saudades como não consigo compreender esse sentimento. Isso não significa que o autista não goste da pessoa, claro. Apenas não sentimos aquilo que as pessoas chamam de saudades. Podemos sentir falta de situações ou locais, mas não é exatamente saudades. Talvez isso esteja ligado ao hiper-foco: estamos tão focados em determinada atividade ou assunto que não temos tempo para sentir saudades. É bom destacar, no entanto, que autismo é um espectro, e alguns autistas podem sentir saudades em menor ou maior nível.

Crise de ausência (shutdown) – É um desligamento, um retraimento experimentado por pessoas com autismo em situações de muito estímulo sensorial ou social. Eu jurava que nunca tinha tido uma crise de ausência até me lembrar do que uma professora disse para minha mãe quando eu estava no primário. Segundo ela, eu era um ótimo aluno, mas muitas vezes parecia não estar presente, como se apenas o corpo estivesse ali, mas a mente não. O shutdown pode ser uma forma de autoregulação em situações de sobrecarga sensorial ou situações de interação social.

Rigidez cognitiva – A rigidez cognitiva diz respeito à dificuldade de se adaptar a mudanças e a tendência em manter padrões fixos de comportamento. Isso geralmente se reflete em rotinas e repetições. Eu, por exemplo, durante anos, sempre que ia viajar de avião, usava sempre a mesma camisa, que era usada apenas durante as viagens de avião.  

Contato físico – A maioria dos autistas tem problemas com contato físico, provavelmente por conta da hiper-sensibilidade tátil. Eu só abraço alguém se tiver realmente muita intimidade com ela e se na primeira vez que conheço alguém ela vier me abraçar, eu simplesmente travo. A pessoa de quem herdei o autismo provavelmente foi minha avó e não lembro dela abraçando as pessoas. Os autistas, aliás, não precisam de contato físico para demonstrar afeto. Muitas vezes eu e minha avó nos sentávamos perto um do outro, cada um lendo o seu livro e, mesmo sem qualquer interação, a simples presença do outro já era bastante reconfortante.   

Mundo sem fim

 

Mundo sem fim é a continuação de Os pilares da terra, clássico da literatura histórica de autoria de Ken Follett. Da mesma forma que Os pilares da terra, Mundo sem fim se passa na Idade Média, na imaginária cidade de Kingsbridge, mas pouco mais de um século depois.
Follett é aquilo que no cinema chamam de artesão competente: não é genial e nem de longe de propõe a fazer alta literatura, mas tem uma incrível capacidade de engendrar tramas bem elaboradas, construir bons personagens e produzir livros em que tudo se encaixa com perfeição, com um quebra-cabeça.
Se Os pilares da terra já mostravam todas essas características, elas ficam ainda mais destacadas em Mundo sem fim. A isso acrescenta-se uma mais elaborada pesquisa histórica e um pano de fundo que por si só chama a atenção do leitor: a nova história se passar no período da guerra dos 100 anos entre França e Inglaterra e da peste negra (ou peste bubônica).
Follett conta em detalhes vivos o efeito da devastação da guerra e evolui para a mortandade absoluta da peste, que dizimou quase metade da população de algumas cidades. Ninguém sabia o que provocava a doença (hoje sabe-se que ela era transmitida pelas pulgas dos ratos).
A peste negra colocou em cheque o conhecimento médico da época, baseado na ideia dos humores, e criou uma cisão entre conservadores e progressistas (os que acreditavam que a melhor forma de entender as doenças era observar os doentes e, assim, tentar identificar formas de evitar que doenças se espalhassem). Mundo sem fim mostra esse conflito, exemplificado entre uma das personagens, uma freira, que usa máscara para atender os pacientes e lavava as mãos com vinagre, e os médicos tradicionais que consideravam isso besteira (e morriam como moscas). Curiosidade: Hoje sabe-se que o vinagre na verdade afastava as pulgas.

Aliás, todo o livro, assim como o anterior, parece se equilibrar na relação conservadores x progressistas ou teóricos x práticos. Tanto em Os pilares da terra quanto em Mundo sem fim, o foco é a catedral e os homens visionários que estiveram por trás dela, homens muito além de seu tempo. 

terça-feira, dezembro 30, 2025

Mulher-Maravilha – corporação da vilania

 


Entre todos os personagens surgidos na DC na Era de Ouro, a Mulher Maravilha se destacou tanto que se tornou popular até hoje, formando, junto com o Superman e Batman, a tríade da DC.
E não sem razão. Suas histórias da década de 1940 eram extremamente inventivas e originais, fruto direto da mente genial de William Moulton Marston. Exemplo disso é a saga conhecida como Corporação vilania, publicada em Wonder Woman 28, no ano de 1948.
Na história, Maligna, uma das mulheres saturninas que tentaram invadir a terra consegue não só se libertar, mas também libertar vários dos vilões da série,como Giganta, Rainha Cléa, O Homem azul das neves, Zara e Mulher Leopardo,  formando a tal Corporação Vilania.
Moulton não só criou a personagem Mulher Maravilha, mas criou toda uma rica mitologia ligada à ela. Exemplo disso são os cinturões de Vênus, mecanismos que removem da pessoa todo o desejo de fazer o mal e a faz obedecer a uma autoridade benigna. Outro é a máquina da evolução do Dr. Zool, capaz, por exemplo, de transformar uma gorila em mulher (que irá se tornar Giganta, uma das opositoras da Mulher Maraviha) ou involuir humanos para macacos (claro que essa é uma visão bastante equivocada da teoria da evolução, mas ainda assim, criativa).

A primeira coisa que salta aos olhos é a profusão de cordas e correntes que aparecem na história. Se dois personagens se encontram, a chance de que um deles saia amarrado é enorme.
Para a Era de Ouro, em que os roteiros eram geralmente infantilizados, as reviravoltas e subtextos da história estão muito à frente de seu tempo, assim como as splash pages a cada doze páginas, que marcam o início dos capítulos da história.
Sobre as reviravoltas, são muitas: As rebeldes conseguem dominar a ilha da transformação, sequestrar Hipólita, dominar todas as amazonas, incluindo a própria Mulher Maravilha, mas acabam sendo derrotadas pelas próprias saturnianas que haviam sido regeneradas pelo cinturão de Vênus.
Mas Zara, hipnota e Giganta fogem com o tesouro das amazonas e planejam comprar um submarino para fugir. Para isso criam um culto ao Deus da Chama, que seduz garotas e forçam a Mulher Maravilha a roubar um submarino para elas.
A experiência de Moulton como roteirista de cinema fez com que ele soubesse equilibar bem os elementos e conseguir fazer com que o leitor pensasse que a heroína estava finalmente derrotada, até apresentar uma reviravolta no roteiro. E ele faz isso mais de uma vez na mesma história!
Uma curiosidade é que a personagem nem de longe parecia tão forte e poderosa quanto é atualmente e seu laço, além de forçar a pessoa presa a falar a verdade, ainda a obrigava a obecer a quem o empunhava.
Aqui no Brasil essa aventura foi publicada na coleção DC 70 anos, da Panini.

Novos Titãs – Contra todos os amigos

 


O número 4 do título The New Teen Titans foi pensando por Marv Wolfman como o ápice de sua estratégia de renovar o grupo através do conflito de gerações.

Nessa edição, o heróis juvenis enfrentam ninguém menos que a Liga da Justiça, o grupo no qual a Turma Titã foi inspirado.

A história começa com uma sequência magistral – cortesia do desenhista George Perez – dos heróis da Liga enfrentando um grupo de magos. A página inicial é belíssima antecipação do que Perez faria posteriormente em Crise Nas Infinitas Terras com os heróis num cenário de espaço, com efeito Kirby Dots, tendo o Gavião Negro e Mulher Maravilha em primeiro plano.

A história começa com uma sequência impressionante. 


Os heróis estão ali para enfrentar um grupo de feiticeiros que são tomados como vilões, mas na verdade estão tentando impedir que Trigon atravesse para nossa dimensão. O equívoco é provocado por uma má interpretação de Zatanna, que identificou emanações malignas na verdade vindas de Trigon.

Claro que os Titãs sabem o que estão acontecendo e tentam impedir que a Liga atrapalhe os feiticeiros, o que coloca os dois grupos em rota de colisão.

É nessa edição também que Ravena conta a origem de Trigon – embora omita que ele é seu pai. Em um planeta em outra dimensão, um grupo de adoradores do demônio invocou seu próprio Satã afim de procriar com uma das mulheres da ordem e assim criar uma criatura maligna.  A criatura ao nascer matou todos ao seu redor, inclusive sua mãe. Aos doze meses já governava seu mundo. Aos trinta anos já tinha escravizado toda uma dimensão.

A sequência é impressionante, com o rosto de ravena ao centro e as imagens nas laterais. Foi aí que os leitores tiveram o primeiro vislumbre do demônio em toda a imponência do desenho de Perez.

Ravena conta a origem de Trigon. 


Ao final dessa edição, o conflito de gerações alcança seu ápice. “Muito bem, Robin, o que foi tudo isso? É melhor vocês, meninos, se explicarem!”. “Em primeiro lugar, não somos meninos”, responde Dick Grayson. “Somos os Titãs... não uma Liga da Justiça júnior”.

No final, Zatanna revela que Ravena traz dentro de si um grande mal e que manipulou os heróis para juntá-los no grupo, o que faz com que os Titãs se dispersem. Mas eles voltariam a se unir nas edições seguintes, quando a ameaça de Trigon se mostrasse efetiva.

Embora a edição seja repleta de ação, faltou da parte de Marv Wolfman um cuidado maior na explicação. Para um leitor apressado, parece que a Liga está simplesmente sendo irracional ao atacar um grupo de feiticeiros sem mais nem menos.