O clássico Cavernas de Aço surgiu de um desafio. Um editor pediu a Isaac Asimov um romance de robôs ambientado em uma Terra superpovoada, onde as máquinas estivessem roubando os empregos dos humanos. Quem conhece a obra de Asimov sabe o quanto essa premissa seria indigesta para ele.
Antes do Bom Doutor, a ficção científica retratava robôs majoritariamente como vilões, monstros mecânicos destinados a destruir seus criadores (o chamado "Complexo de Frankenstein"). Asimov subverteu isso ao olhar para as máquinas com compaixão e lógica, criando as famosas Três Leis da Robótica:
Um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal.
Os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto se tais ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei.
Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com as leis anteriores.
Portanto, escrever sobre robôs tirando empregos e causando caos não lhe interessava. Foi então que o editor sugeriu o "pulo do gato": e se fosse um romance policial em que um detetive humano precisasse resolver um crime ao lado de um robô? Essa abordagem abriu um leque de possibilidades fascinantes.
O resultado, publicado no Brasil pela editora Aleph, apresenta um futuro onde os humanos colonizaram outros mundos (os Siderais), desenvolvendo tecnologia muito superior à da Terra. Enquanto isso, em nosso planeta, a população vive confinada em imensas cidades fechadas e climatizadas — as cavernas de aço. Nesse cenário, ganha força um grupo saudosista chamado "medievalistas", que prega a volta a uma época anterior às grandes cidades e nutre pavor pelos robôs.
A trama engrena quando um cientista dos Mundos Siderais é assassinado em uma cidadela próxima a Nova York. O frágil equilíbrio diplomático entre a Terra e as colônias corre perigo. Para solucionar o caso, é formada uma dupla inusitada: o detetive terráqueo Elijah Baley e R. Daneel Olivaw, um robô humanóide construído pela própria vítima.
Asimov constrói um romance policial singular, com praticamente nenhuma ação física, sustentado puramente por questões científicas, lógica dedutiva e sociologia. A narrativa brilha ao mostrar a evolução da relação entre o detetive e o robô, que vai do estranhamento inicial e preconceito até uma parceria sólida.
Vale a pena ler Cavernas de Aço para conhecer a faceta de romancista policial de Asimov, mas também por sua filosofia humanista. Como o próprio autor resume na introdução:
"Mesmo quando eu era jovem, não conseguia acreditar que, se o conhecimento oferecesse perigo, a solução seria a ignorância. Sempre me pareceu que a solução tinha que ser a sabedoria. Qualquer avanço tecnológico pode ser perigoso. O fogo era perigoso no princípio, assim como (e até mais) a fala – e ambos ainda são perigosos nos dias de hoje –, mas seres humanos não seriam humanos sem eles".

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