O homem da foto é José Bernardino Andrade, patriarca da
família Andrade. Relata-se que era um homem de grandes posses, proprietário de
diversas fazendas. Contudo, após o falecimento de sua primeira esposa,
Bernardino tomou uma decisão que romperia com as convenções da época: alforriou
uma de suas escravizadas, de nome Maria Lima, e casou-se formalmente com ela.
Sou descendente desse segundo núcleo familiar.
Segundo consta, os filhos do primeiro casamento não
aceitaram a união nem o novo arranjo familiar. Eles ingressaram na justiça para
requerer os bens, o que teria dilapidado a fortuna da família — conta-se,
inclusive, que um dos advogados exigiu uma fazenda inteira como pagamento de
seus honorários.
Há uma história folclórica que sobrevive através das
gerações: indignado com a disputa entre os filhos, o bisavô Bernardino teria
ido ao banco, retirado todo o dinheiro restante e ateado fogo às cédulas diante
de todos. Portando uma arma, ele teria garantido que ninguém se aproximasse
para salvar o que quer que fosse das chamas, preferindo a destruição do
patrimônio ao espetáculo da cobiça familiar.
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| Meu avô é o último à direita. |
Bernardino e Maria Lima eram os avós do meu avô, Olímpio.
Entre os irmãos, Olímpio foi quem mais herdou os traços da avó: era negro e
muito alto, conforme se nota na outra fotografia em que aparece ao lado de seus
irmãos. A mãe dele, em seu leito de morte, teria feito uma recomendação
especial aos outros filhos: que cuidassem de Olímpio, pois ela sabia que ele
enfrentaria sofrimentos maiores por conta da cor de sua pele.
Cada família guarda em si uma rica história tecida entre
anseios, conflitos e sobrevivência. A trajetória do meu ramo dos Andrade não se
resume aos inventários e linhagens, mas se concretiza em fatos e mitologias,
como do dinheiro queimado ou o cuidado da mãe. Ao resgatar esses fragmentos,
compreendo que não herdamos apenas nomes ou traços físicos (no meu caso,
altura, herdada de meus antepassados de origem africana), mas herdamos também a
memória dessas histórias, que nos dão a medida exata da nossa identidade.
Em tempo: se souber mais informações sobre esse ramo da família Andrade, do sul de Minas, deixe um comentário com uma forma de contato.


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