Após o estrondoso sucesso de O Mistério do Cinco Estrelas, Marcos Rey consolidou-se como um dos autores mais importantes da renomada coleção Vaga-Lume. Era, portanto, natural que ele concebesse uma segunda trama, trazendo de volta personagens queridos do primeiro livro, como Leo, Gino e Ângela. O resultado dessa iniciativa foi O Rapto do Garoto de Ouro, lançado pela Editora Ática em 1982.
A narrativa é centrada no sequestro de Alfredinho, o
"Garoto de Ouro" do título. Aos dezesseis anos, o jovem se tornou uma
verdadeira mania nacional, saltando de um completo desconhecido a astro em
poucos meses. Para celebrar um ano de sua ascensão, seus familiares organizam
uma festa numa tradicional cantina italiana no bairro da Bela Vista, em São
Paulo, evento que contaria até com um show particular. No entanto, o garoto é
misteriosamente sequestrado antes da celebração.
Na cena do crime, Leo encontra uma caderneta que ele
suspeita pertencer ao sequestrador. A missão de investigar os nomes ali
anotados recai sobre ele e Ângela, coordenados por Gino, o cadeirante. A eles
se junta Jaimão, um antigo ator de radioteatro que foi o responsável por lançar
o Garoto de Ouro ao estrelato.
O livro se desenrola, essencialmente, com a ação dos dois
grupos (Leo e Ângela de um lado, Jaimão do outro) entrevistando as pessoas
cujos contatos estão na caderneta. A trama é repleta de reviravoltas, e todos
parecem suspeitos de envolvimento no crime: o fortão com um hematoma na testa,
a costureira que nutre ódio pela mãe de Alfredinho, ou o homem gordo que possui
uma agenda idêntica. Paralelamente, algumas testemunhas cruciais parecem estar
sendo silenciadas – uma é atacada com um golpe na cabeça, e uma ex-miss quase
morre após uma overdose de comprimidos.
Marcos Rey é reconhecido por sua literatura rica, marcada
por frases inusitadas e um uso criativo de gírias. Neste livro, ele adota um
estilo mais contido, embora ainda apresente momentos de grande inspiração, como
na descrição:
“No mesmo instante foi atacado por um pavor tão grande que
o paralisou. Reagindo, tentou forçar as pernas, cheias de chumbo, na direção da
porta salvadora.”
O humor característico do autor também se manifesta em
alguns trechos, especialmente na detalhada caracterização dos personagens. Um
exemplo vívido é a descrição de Heitor:
“Heitor era um homem de trinta e tantos anos, baixo e
encorpado, braçudo e dono duma patola que impunha respeito. Sempre de
camisa-de-meia, chamava também atenção pelas sobrancelhas, fartas e cerradas, e
pelo nariz, engraçado de tão grande e grosso. Para um caricaturista Heitor
seria um prato cheio.”
Não à toa, um dos trechos ilustrados do livro é,
justamente, o encontro com Heitor, tão perfeitamente delineado pelo autor.
Em O Rapto do Garoto de Ouro, Marcos Rey constrói
uma história policial mais convencional. Diferente de O Mistério do Cinco
Estrelas, no qual o protagonista e o leitor já conhecem o bandido e a trama
se foca em provar a culpa à polícia, neste segundo livro, o desafio é
ativamente descobrir a identidade do sequestrador. O escritor executa isso com
grande habilidade, espalhando pistas e pistas falsas ao longo da narrativa, e
revelando como culpado alguém totalmente insuspeito.

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