Uma das razões que fizeram a série Mestre do Kung Fu
se destacar de outras de artes marciais foi a experimentação do desenhista Paul
Gulacy. Ótimo exemplo disso é a história publicada em Giant-Size Master of
Kung Fu #2, de dezembro de 1974.
A história inicia com um bêbado atacando Shang-Chi. A
sequência, totalmente desprovida de propósito, tinha um único objetivo:
introduzir uma nova personagem na série. É que ao desviar do homem, o
protagonista acaba arremessando-o para dentro de uma academia de artes
marciais, onde ele conhece Sandy, uma instrutora do local.
![]() |
| Paul Gulacy estava no auge da experimentação. |
Os dois jantam e depois vão para um parque, namorar. A
sequência em que os dois se beijam é um exemplo da maestria de Gulacy na
narrativa visual. Temos primeiro uma imagem dos olhos de cada um, depois os
lábios, e finalmente o beijo, emoldurado pelos rostos dos dois. Doug Moench,
que nessa fase tinha a mania irritante de colocar texto legenda em todos os
quadrinhos, teve a inteligência de não colocar nenhum aqui, deixando as imagens
falarem por si.
Depois, temos uma imagem dos dois sentados no banco, se
beijando e essa imagem, horizontal, é cortada, sendo transformada em quatro, o
que dá uma impressão de movimento, como se uma câmera estivesse passeando por
um cenário e depois focasse nos dois. Futuramente artistas como Frank Miller
tornariam esse recurso uma febre, mas na época isso era novidade ousada por
poucos artistas.
![]() |
| O desenhista mandava bem nas cenas de lutas. |
Como na época a série era de espionagem, a trama gira em
torno de um cientista chinês que pretende deserdar para o ocidente e Shang-Chi
deve protegê-lo e garantir sua fuga. Ocorre que esse cientista é nada menos que
o pai de Sandy.
Até chegar ao cientista, temos lutas e mais lutas.
Shang-Chi luta contra os homens de seu pai no avião, depois luta contra eles na
rua. Quando encontra o cientista, é patético: o herói deixa o homem morrer, o
que mostra que como guarda-costas ele é um completo fracasso.
![]() |
| Um exemplo de experimentação: uma página de quadrinhos no formato de labirinto. |
Mas antes de morrer, o homem sussurrou no ouvido de
Shang-Chi qual era a sua grande descoberta. E é isso que Fu Manchu quer
descobrir, e para isso submete seu filho rebelde a uma maratona de perigos,
incluindo uma ampulheta gigante com ácido e espetos de ferro embaixo e até um
labirinto repleto de guerreiros assassinos.
É na sequência do labirinto que temos o exemplo mais claro
de experimentação. O desenhista fez uma planta baixa do mesmo, que é percorrida
pelo protagonista e pelo texto. O texto, aliás, faz curvas, fica de cabeça para
baixo... é como se fosse uma HQ experimental em um gibi comercial. Só essa
história mostra como a Marvel dessa época era revolucionária na comparação com
a DC.
![]() |
| Outro exemplo de experimentação: uma página inteira, mas a ordem de leitura sugere movimento. |
No final, Sandy acaba morrendo, o que é uma pena. A
personagem tinha muito potencial e estreou numa história com grande apelo.




Sem comentários:
Enviar um comentário