Como destruir um ser indestrutível? Resposta: através dos
seus entes queridos. É exatamente isso que o vilão Gargunza faz na longa
saga de Miracleman, que se iniciou na Warrior 13 e terminou no
número 8 da revista do personagem.
A história começa com Miracleman descobrindo que sua
esposa foi sequestrada. O responsável logo fica óbvio: é Gargunza, o diretor do
Projeto Zaratustra, que pretendia criar super-heróis como arma de guerra
para a Inglaterra.

Alan Moore aprofunda a história do vilão.
A narrativa, até certo ponto, é dividida em duas: de um
lado, o herói tentando descobrir o paradeiro de sua esposa; do outro, as
conversas dela com Gargunza. E aqui está um dos aspectos que diferenciam Alan
Moore de outros roteiristas: ele aprofunda o vilão, dando a ele uma
história de vida e uma motivação (algo que o roteirista também faria com o Coringa
na graphic novel A Piada Mortal).
Gargunza é de origem mexicana, mas a família imigrou para o
Brasil fugindo da guerra. No Rio de Janeiro, ainda criança, ele se torna o
“mascote” de um gângster local. Quando este tenta violentá-lo, descobre que o
rapaz, de apenas 14 anos, já tinha assumido sua organização.

Tudo começa com uma nave alienígena caída na Inglaterra. Dali foi tirada a tecnologia para criar os Miracleman.
Gargunza vai para a Europa colaborar com os nazistas e,
depois, quando percebe que os alemães vão perder a guerra, deserta para a
Inglaterra, onde se torna um dos principais cientistas. Quando ele é chamado
para analisar uma nave alienígena caída, percebe que poderá finalmente realizar
seu sonho: ser imortal. É a busca da imortalidade que o faz desenvolver a
Família Miracleman. Mas esta lhe é negada: ele é velho demais para o
processo. A única solução seria transmitir sua consciência para uma criança
recém-nascida, o que explica o sequestro da esposa de Miracleman.
Essa longa preparação desemboca em uma sequência
eletrizante. Quando Miracleman finalmente chega, descobre que Gargunza
implantou nele uma palavra de segurança, que faz com que ele volte à sua forma
humana durante uma hora. E, durante uma hora, ele será caçado por um cachorro
transformado em uma fera sanguinária, criada pelo mesmo processo alienígena.

Gargunza tem uma palavra de segurança que transforma Miracleman em Mike Moran...
Mike Moran e Mr. Cream são
soltos na selva e caçados. Quando a fera mata Mr. Cream, parece tudo
acabado. É uma daquelas situações em que o leitor pensa: não existe
escapatória. Uma situação desesperadora, representada pelo texto-pensamento do
personagem: “Meu corpo frágil está inerte aqui. Minhas entranhas protegidas por
nada mais firme que a pele, tão inútil quanto papel. Não consigo me mover.
Minha mente é como um incêndio num salão de dança, uma multidão de vozes
aterrorizadas berrando instruções ao mesmo tempo... uma voz grita ‘Fuja!’,
outra berra: ‘Atira! Atira!’, uma terceira suplica para que eu não me mexa...”.

... e agora Moran está sendo caçado por um cão transformado.
E, no entanto, a solução para esse problema insolúvel surge
da forma mais lógica e orgânica possível.
Essa história mostra que Miracleman não era apenas
uma série revolucionária; era também mais empolgante e envolvente que quase
todas as séries de super-heróis.

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