Adaptar a lendária história de João e Maria para o
contexto amazônico: esta foi a proposta do quadrinista paraense Ítalo Rhodolpho
no livro infantil Nazica e Norato.
Para realizar essa versão, o autor fundiu a estrutura do
conto dos irmãos Grimm com a lenda da Cobra Norato e Maria Caninana, uma das
mais populares da região. No entanto, em vez de protagonistas humanos, a obra
utiliza animais antropomorfizados.
Na trama, uma onça chamada Glória insistia em tomar banho de
rio à noite, mesmo sendo avisada de que os igarapés, nesse horário, são
propriedade do sobrenatural. Ela acaba engravidando de dois filhotes que se
transformam em crianças-onças. Inconformada com a situação, Glória parte em uma
rabeta, desaparecendo no mundo. As duas crianças partem em seu encalço e, no
processo, encontram uma casa feita de frutas, cuja dona é ninguém menos que a Matinta
Perera.
Esse resumo oferece uma boa dimensão da fusão entre as
mitologias europeia e amazônida. Como um legítimo antropófago modernista, Ítalo
Rhodolpho absorve a influência externa e a deglute com a cultura local, criando
algo novo e inusitado.
Um aspecto que chama a atenção é a narrativa construída em
rimas, que confere à obra o tom de um clássico infantil, como no trecho:
“Ela tinha cabelos longos, negros e brilhantes, Escovava
à luz da lua, nas águas mais cintilantes. Divertia-se na natureza e
amava o luar, Ficava nadando nas águas até o sol raiar.”
As ilustrações de Gabs Fernandes seguem um estilo que remete
aos desenhos animados contemporâneos, destacando-se pela excelente
caracterização dos personagens e pela expressividade de suas feições.

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